10 CIDADES

LUGARES PARA VISITAR COM LIVROS DEBAIXO DO BRAÇO
Naguib Mahfouz convida-nos a conhecer o Cairo, como se estivéssemos a «encontrar o amor na velhice»; V.S. Naipaul abre-nos a porta de Mumbai, Orhan Pamuk percorre as duas margens de Istambul; Armistead Maupin conta-nos histórias (estas e tantas outras) de São Francisco; Peter Carey segue o vento secreto de Sydney; Paul Bowles deixou-nos memórias de Tânger; Donna Leon não larga Veneza e Ho Chi Mihn, no Vietname, ganhou novo fôlego através dos romances de Marguerite Duras. Todas as cidades deviam ser descobertas assim – com livros a servir de guias.

TEXTOS DE FILIPA MELO

Farrar. talvez nem como mito tenha alguma vez existido essa Índia-como-uma-só-comunidade-e-identidade. Cosmo 39 . nos estúdios de Bollywood. no homónimo livro de memórias. muitas das riquezas do Cairo foram delapidadas ou desleixadas. nos gabinetes ministeriais e nas sedes de partido. Lendo Naipaul ou Mehta. V. Straus and Giroux revista LER ( julho 2008 ) An Area of Darkness.assegura Rodenbeck. Mumbai é a Índia em movimento. conhecemo-la através de um prisma de identidades particulares.destróidevez a ideia romântica da Índia que recebera dos seus antepassados hindus (emigrados para Trindade e Tobago no século XIX) e que ainda se conserva nos trêsvolumesdocolonialdicionáriogeográfico The Gazetteer.E. clã ou casta. Mumbai. Vintage India. a maior e mais densamente povoada de África. do Mediterrâneo e do mundo islâmico. lendário umbigo do mundo.NoCairo. Exceptuando durante a luta pela independência. Jáem1990. Em três ou quatro décadas de apostanodesenvolvimentoeconómico. São cinco mil anos de civilização e cercadeoitomilhõesdecorposconcentrados numa devoradora megametrópole.umametrópole tradicionalista e de vanguarda que Mahfouz disse ser tão fascinante «como encontrar o amor na velhice». tradição e vanguarda liza essa resiliência. Europa-América Trilogia do Cairo: Entre os Dois Palácios. sede da Liga Árabe e capital do Egipto. Suketu Mehta. crítica e humor que descreve a cidade egípciadesdeotempodosfaraósatéao presente.Naipaulinsistiaqueera ali. Edwardes. Em três livros para 26 anos de experiênciacomovisitanteincansávelnaescuta dos indianos.MehtaeNaipaul(NobeldaLiteraturaem2001)registaramessamudança.tornara-seoepicentrodo boom da Índia. a saga da família Gawwad entre as duas guerras mundiais. convictos de que a diversidade humana é a maior força e talvez a maior causadosucessodemocráticoindiano.©gettyimages/Pete Turner ©gettyimages/National Geographic Society 1 Cairo. contextualiza a «fluidez resistente» da metrópole «dura e inflexível» onde teve origem o mitodafénixrenascida.S. de 1909. A Wounded Civilization. nos feios arranha-céus. Naipaul. esta é uma «sociedade em que a vergonha é mais sentida como um fardo do que como uma culpa». afinal permeável aos constantes reajustes sociais. habitante cairota desde os dois anos de idade. Em 11 capítulos. capital do estado de Maharashtra. Naipaul caminha do pessimismoparaooptimismo. Sim. Naguib Mahfouz. Vintage India: A Million Mutinies Now. Para entender o Cairo. O melhor guia será Max Rodenbeck.M. sobretudo. Naipaul.nocentro. Max Rodenbeck. V. religião. Civilização A Portrait of Egypt: A Journey Through the World of Militant Islam. S. pelas anedotas e trocadilhos sina- 2 Mumbai. e a própria riqueza individual não cobre mais do que quatro a cinco gerações da mesma árvore genealógica. a educação e a politização fizeram renascer lealdades de região. Vintage The Gazetteer of Bombay City and Island (três volumes).S. o gosto pelo espalhafato.Sempre Cairo – A Cidade Vitoriosa. Uma sociedade cuja adesão ao islamismo militante determinaráofuturodomundoárabe.Em 2005.V.ojornalistaeescritorindianoSuketu Mehta apelidou-a de «Cidade Máxima». tal como defende Rosenbeck.S. correspondente de The Economist para o Médio Oriente. cidade máxima peritoemestragarfestas. Nobel da Literatura em 1988) e. Cairo – A Cidade Vitoriosa (1998) é um pessoalíssimo roteiro de informação. quando o barulho equivale aos 90 decibéis de um concerto de rock. Mas.a«BoaBaía»(Bombaim)onde osportuguesesdesembarcaramhá500 anos. Naipaul. que todo o progresso socialindianoseconcentravasobaforma defluxosdemultidõesedemotins. em Mumbai.segundo a controversa tese de Mary Anne Weaver. V.S. O Palácio do Desejo e O Açucareiro (no prelo). Hoje. nos bairros de lata ou nos minúsculos T1 para famílias inteiras. Vintage Maximum City: Bombay Lost and Found. temos de senti-lo vibrar num cruzamento ao meio-dia. Reflexo de como as melhorias económicas. correspondente da revista TheNewYorker. Trilogia do Cairo. Disso sefazprovatambémnosmaisde40romancesdeNaguibMahfouz(1911-2006. conflito e progresso. Mary Anne Weaver. na sua obra-maior. é verdade.reportagemeanálisesociopolítica quelhevaleuouniversalistaPrémioKiriyama e a nomeação para o Pulitzer 2005. E geraram novas e imparáveis correntes de reivindicação.

sinaliza a progressiva destruição dos vestígios históricos. estão cheios dessa forma de ver a vida simultaneamente em negativo e em positivo. assente no dinheiro e no comércio. diz: “Vou à Ásia” e. o construtor da nova Turquia.» Quem o narra é o escritor e crítico literário francês Daniel Rondeau. Libros del Asteroide Beijing: From Imperial Capital to Olympic City. Europa-América Istanbul: Memories and the City. E só mesmo ele conseguiria resumir num episódio vivo e actual a essência da cidade.» Em percentagem. e de costas cada vez mais voltadas ao passado. Nobel da Literatura em 2006. No entanto. o coração da velha cidade murada de Constantinopla. esperados para os XXIX Jogos Olímpicos. David Kidd. o estupendo ensaio memorialista que. Daí a importância da edição. as frases repetem-se duas vezes por dia. para Üsküdar. Palgrave Macmillan ( julho 2008 ) revista LER . Pelo meio. onde desembarcam os desempregados russos e romenos e as «Natachas» que logo se prostituirão ali perto. sobretudo. suprimidos no final dos anos 40 pela revolução maoísta. a transformação do passado em plástico espectáculo turístico coincide hoje com a construção de uma nova metrópole. Andrew Mango. Os romances de Pamuk e. Virago Press Voyage en Orient. Em 2002. a capital da superpotência emergente que resultou da recente «ascensão pacífica» prossegue imparável a sua marcha para o futuro. escrito por três professores de História. Apaixonado pela cultura e modos de vida ancestrais. Em Pequim. «O habitante de Eminönü que vai a Üsküdar. para apreender o carácter central de Istambul. o irreverente filho de uma abastada família burguesa caída em declínio. é preciso ler Orhan Pamuk (n. Istambul hüzün. John Muray Publishers 40 Historias de Pekín. Más notícias para os apaixonados da China milenar e dinástica. reproduzida nas cartas da erudita embaixatriz inglesa Mortley Montagu. na volta: “Regresso à Europa. Beijing: From Imperial Capital to Olympic City. De boca escancarada e olhos no tecto aerodinâmico do edifício central destes 1. unindo as duas extremidades de dois continentes e faces opostas da mesma cidade. mas essa encontramo-la inteira na biografia «definitiva» de Andrew Mango. Kidd foi um dos melhores intérpretes do eclipse da velha Pequim. esquadrinhou-a com um olhar culto e inesperado. Rondeau é o guia do presente. No entanto. Lillian M. entre eles 16 mil jornalistas estrangeiros. Rondeau abre-nos Istambul. de proibida a olímpica vro em inglês que traça a história de Pequim dos primórdios até à actualidade. Orhan Pamuk. Grandes Olimpíadas». nas ruas do antigo bordel. o Bósforo do Corno de Ouro. Não lhe interessa muito a figura de Atatürk. o hüzün (melancolia). do primeiro li- Istambul. o subúrbio densamente povoado onde se espremem meio milhão de habitantes da actual Istambul anatólica. Daniel Rondeau. Lady Mary Mortley Montagu.3 milhões de metros quadrados dedicados à aviação. Gérard de Nerval. Do cais de Karaköy. como duas margens do mesmo rio. a antiga cerca de Teodósio. Nem tanto a magia oitocentista do Império Otomano. está pronto para. Li. em Agosto.” Às vezes. Do pôr do Sol estonteante do Café Pierre Loti. em 2007. será difícil não exclamarem: «Pequim já não é Pequim. que ainda assim lhe poderão dar vida através das memórias do professor norte-americano David Kidd (1927-1996). Sob o lema «Nova Pequim. Língua e Literatura chinesas nos Estados Unidos. são muito poucos os chineses que podem sequer aspirar a uma visita ao novo aeroporto. De Eminönü. receber os dois milhões de visitantes. Alison Dray-Novey e Haili Kong. a sete quilómetros de caminhada ao longo da muralha. recordação e miragem mortos». Folio Atatürk.©gettyimages/Ed Freeman ©gettyimages/Phillip Jarrell 3 Istambul. Faber and Faber/Knopf/Gallimard/Debolsillo The Turkish Embassy Letters. Tem a forma de um dragão e é o maior e mais avançado aeroporto do mundo. na «colina dos 4 Pequim. 1952). em 2005. dedicou à sua adolescência em Istambul.

Hoje. Foi o que aconteceu a Peter Carey. de Almada Negreiros. pois claro. em São Francisco é até proibido fumar ao ar livre. Está tudo na sua série Histórias da Cidade. à procura do dito. Twain teria dito. O que já é muito. Asa Para além de Capricórnio. não se esqueça de levar também um computador portátil e um preservativo no bolso. aportado na Os Subterrâneos e Pela Estrada fora. Trickett encontrou as costas leste e sul da Austrália cartografadas com tal detalhe que. em parques municipais e áreas de recreio. degenerada e degradada».» Destino: São Francisco.com 90. Para um retrato mais recuado. quando a economia da cidade conheceu um surto graças à indústria da informática. A tese pretende fazer justiça e provar «como os portugueses descobriram e cartografaram secretamente a costa da Austrália e da Nova Zelândia 250 anos antes da chegada do Capitão Cook». arco-íris dot. mas é a piada mais contada em São Francisco. Uma descoberta tão surpreendente como a do protagonista de «O Cágado». o jornalista anglo-australiano Peter Trickett chamou-a para subtítulo de Para além de Capricórnio. Mais Histórias de São Francisco e Outras Histórias de São Francisco. Peter Carey. em concreto. Mark Twain. Em 2007.com. Estados Unidos da América. PeterCarey(n. à margem do Pacífico. em 1974. recém-editado pela Caderno (ver pág. os encontros homossexuais continuam a ser uma das maiores atracções. mais vale ler alguns romances de Jack Kerouac. Manuel I. Armistead Maupin. Dom Quixote A Verdadeira História do Bando de Ned Kelly. honrando os anos de ouro da década de 6 O vento secreto de Sydney baía de Botany em 1522. Viveu em Sydney até aos 40 anos e regressou 27 anos depois. Jack Kerouac. garante.1943)éduplovencedor do Booker Prize e um fantástico contador de histórias. norte do estado de Califórnia. a mando ultra-secreto de D. Produto. da cidade. em 30 Dias em Sydney (da excelente colecção «O Escritor e a Cidade». a do início de carreira. Dom Quixote 41 . procurem-se os textos jornalísticos de Mark Twain. se persiste em levar uma flor no cabelo. E. University of California Press revista LER ( julho 2008 ) 30 Dias em Sydney: Um Relato incrivelmente Distorcido. E. dos desenhos do navegador Cristóvão de Mendonça. Peter Carey. Se vai à procura de sinais radicais da pulsão sexual libertária e da contracultura dos anos 50 até 70. irá testar preconceitos e paradoxos. Ao rodar 90 graus uma metade de um dos mapas do Atlas Vallard (de 1547).©gettyimages ©gettyimages 5 São Francisco. de modo lapidar: «O meu mais frio Inverno foi um Verão passado em São Francisco. São Francisco foi abalada nos 80 pela sida. Com ele. Mas o que é que isso nos dá mais a conhecer da «Ilha de Ouro» de Marco Polo ou da Sydney actual? Nada. Sobre o berço e evolução do movimento reivindicativo homossexual e. Gótica Roughing It. se desenhariam à escala «as pistas do actual aeroporto» de Sydney. as cidades – nos reserva surpresas nos antípodas das nossas certezas. um violento desmancha-prazeres. escreve o cronista e activista Armistead Maupin. Europa-América Oscar e Lucinda. o papa dos beatniks. o vento secreto de uma cidade sopra do lado mais inesperado. Mas. Relógio d’Água Histórias de São Francisco.às vezes. nela. Sobre a cidade. e pitoresco. sobre o quotidiano do Castro. escava o planeta até aos antípodas. Caderno As Viagens de Marco Polo. esses. e em encontros únicos com os seus habitantes. São Francisco hoje é make safe love dot. e não é credível. Peter Trickett. Novas Histórias de São Francisco.em2001. escritos entre 1864 e 1870. na inigualável baía de Botany. a partir delas. na sua fase «oeste».após seter fixado nos Estados Unidos. Apenas prova que a História – e. Peter Carey. Bloomsbury/Asa). 61). primeiro publicadas. o primeiro bairro-gueto gay do mundo. para por fim descobrir o bicho na primeira pazada que deu. Não está lá. combinam-se agora pela Internet. inspirado a doses cavalares de benzedrina e escrita compulsiva. Na cidade de arenito que ele primeiro achara «rasca.tambémnóspercebemosque. no jornal local The Pacific Sun e depois multiplicadas em ficção. que. na mais progressista e radical metrópole norte-americana.

mudou ela mesma num tumulto até à partida. que cada vez mais se torna um «subúrbio de ângulos afiados». O compositor e escritor Paul Bowles (1910-1999) encontrou os dois em Tânger. St. Petersburg» de Ossip Mendelstam. a sua experiência é a de imersão numa «catastroika» imprevisível. para visitar o casal Paul e Jane e em prospecção criativa. esta porta de Roma. Cadmus Editions 42 Less Than One. Edith Warthon. tudo é passado.©gettyimages/Jenny Acheson ©gettyimages/Ira Block 7 Tânger. «deu a volta à cabeça» dos estrangeiros. Apesar do esplendor monumental de séculos. impressa na perspectiva única dos ensaios A Guide to the Renamed City e In Room and a Half. nos anos 50 e 60. Farrar. Difusão Cultural The Tangier Diaries: 1962-1979. a antiga capital czarista nunca se esqueceu de que foi construída Memórias de Um Nómada. depois da travessia do estreito de Gibraltar. Tânger e Marrocos de Bowles estão fixadas por ele em mil páginas ficcionais e diarísticas. Em livro. North Point Press ( julho 2008 ) revista LER . os beats Allen Ginsberg e William S. Bengis insiste que Sampetersburgo nunca permitiria que ali se escrevessem «livros calmos e sem grandes questões». A ingénua apaixonada pela arte e cultura russas que chegara à cidade em 1990. lendas populares. Daniel Rondeau. pleno de simbolismos. talvez seja o espaço de todas as mentiras. alcandorad[o] entre muros castanhos contra densos jardins» que a romancista Edith Warthon descreveu em 1917. Ingrid Bengis. O dela. Uma nostalgia alucinatória. «abraçou o deserto como um santo cristão abraça o seu martírio» (Edmund White). Hoje. e elementos surreais. Tânger permanece o local de todas as promessas. Todos atraídos pelo homem que sabia «beijar a mão de condessas e falar com os elefantes» (Rondeau) ou pela cidade que o adoptara? A dúvida é inevitável logo à chegada de barco. Europa-América My Tangier. museu vivo e literatura. paragem Literatura sobre pântanos. desde 1947 e até à morte. Truman Capote. Joseph Brodsky. promessas e mentiras roughs. Quai Voltaire Em Marrocos. Tennessee Williams ou Gore Vidal. em 1997. Por ali tinham antes passado. desde sempre. Em Sampetersburgo. Daniel Rondeau tornou-se o arauto da associação hoje óbvia entre Tânger e Bowles. Ainda se escuta nestas ruas o «guincho ignóbil» (Gorki) dos personagens de Fiódor Dostoiévski ou o frufru do roçagar dos vestidos de Anna Karénina pela calçada. Rondeau concluiu. os cadernos subterrâneos da cidade têm os mesmos traços complexos da nova sociedade russa. é uma excelente abordagem a «um certo sentido de destino» que define a cidade. Daniel Rondeau. Na realidade. histórias urbanas. A vista feia e agressiva parece a séculos de distância do quadro «de um azul pálido. Nos livros. Só mesmo indo lá se comprova porque é que. em 1996. Assírio & Alvim Tânger e Outros Marrocos. Strauss and Giroux Metro Stop Dostoevsky: Travels in Russian Time. nos mil registos da música e das narrativas locais que compilou como chaves da cultura marroquina. Daniel Blaufuks. o Grande. Em 1987. À frente da estátua equestre de Pedro. presenciou o colapso da União Soviética em Sampetersburgo. Está escrito no seu bilhete de identidade. Paul Bowles. ensaísta e ficcionista nova-iorquina descendente de emigrantes russos. término das caravanas ou antecâmara da Hégira. Ingrid Bengis. John Hopkins. Esta é «a cidade mais abstracta e intencional do mundo» (Dostoiévski). do seu filho exilado. podemos perder a vergonha e declamar apaixonadamente o poema que lhe dedicou Puchkín. Bur- 8 Metro Sampetersburgo. no primeiro livro de viagens que dedicou à cidade. Joseph Brodsky (Nobel da Literatura em 1987). Sabedoria e êxtase. Impossível ir à capital da região marroquina de Tetuão e ignorar a sombra do norte-americano que. Europa-América Tanger. ou antes «We shall meet again.

Morand diz que os canais de Veneza são negros como tinta. De gôndola. mas os seus prazeres não custam quase nada. descreve «uma união sem Marguerite Duras – Uma Biografia. a autora de policiais (todos editados pela Presença) que. Eland Venises. Nos antípodas de Duras. Será quase impossível. o seu conjunto é uma colecção privada. Relógio d’Água Corto Maltese: Fábula de Veneza. Laura Adler. Sem sangue. teve uma frase de marca: «A verdade está toda nos meus livros. Venises. é terem sido vividas. hoje. de Morand. Antígona Retrato de Uma Senhora. como um eco. as planícies do arroz. essa atitude de permeabilidade imparcial perante o presente pós-colonial e pós-Guerra do Vietname. um entusiasmo. dois anos após a morte da escritora. manifesta inclusive numa «impregnação física» – os traços asiáticos do rosto de Duras. Meribérica 43 revista LER ( julho 2008 ) . Shakespeare. em Gia Dinh. adoptou a cidade do comissário Guido Brunetti. um minuto. A não ser nas páginas da norte-americana Donna Leon (n. Norman Davies (1908-2003). Autobiográfico e poético. Até aos 17 anos. hoje Ho Chi Minh. responsável pela revelação de documentos inéditos. Brunetti é tão pouco convencional como a excelente visão sociológica que nos dá de Veneza: uma realidade cultural que o turismo está a afundar. Relógio d’Água A Morte em Veneza. É somente inquestionável a paixão pela Indochina natal. jamais no Verão. Para Laure Adler.1942). As ruas. o elegante autor de livros de viagens britânico. longe da turba dos turistas. numa longa. descreveu-se como «um homem quase invisível». Morte no La Fenice. Thomas Mann. as pontes. mas acima de tudo ao longo do delta do Mekong. é um raro testemunho de viagem. tentou-a. Em 2002. errância entre Saigão e Phnom Penh. desde 1992. Ainda o são para muitos viajantes. David Lamb.©gettyimages ©gettyimages/Silvia Otte 9 O enigma Ho Chi Minh todos os seus livros. talvez mesmo o meu museu secreto. «O mérito destas páginas. nas memórias de Giacomo Casanova.» Uma biografia anulou-a em definitivo em 1998. Presença O Mercador de Veneza e Otelo. Duras foi uma «profissional da confissão inexacta». Gallimard. um fracasso. Donna Leon. Henry James. os sons com uma profundidade que parece vir do fundo. Veneza é a cidade mais cara de Itália. a revisitação desses momentos. arredores de Saigão. Veneza dos venezianos é um local quase sem crime. em passos que deslizam como a água. o norte-americano David Lamb. Public Affairs A Dragon Apparent: Travels in Indo-China. Europa-América História da Minha Fuga das Prisões de Veneza. água e tinta nuvens» do autor com a cidade. do início do século XX até 1970. Mas a verdade é que Ho Chi Minh e a ex-Indochina são ainda protagonistas de uma narrativa truncada onde a beleza e a verdade lutam com a mentira e a incompreensão. Assediada por milhões de invasores. para um ocidental. uma hora decisiva ou uma hora perdida. o rumor dos juncos no rio». A explicação para a ávida busca de amor de Duras está contida em 10 Veneza. Da sua capacidade de apagamento perante a paisagem nasceram algumas melhores descrições da Indochina nos anos 50. A pé. O diplomata e escritor francês Paul Morand (1888-1976) mostra-a como a última cidade do último país a oferecer-se como «espectáculo gratuito». a maior cidade da República Socialista do Vietname. Marguerite nasceu Donnadieu. Giacomo Casanova. a água negra do Sul. Marguerite Duras. Norman Lewis. a 4 de Abril de 1914. furiosa narcisista. como «lugar elevado da religião da Beleza».» Ao leitor. repórter veterano. Culto e com uma vida familiar feliz. por entre «edifícios com nostalgia de barcos». são como «palácios sem tecto». por Henry James ou Thomas Mann ou Hugo Pratt. herança dos Romanos. quando partiu para França. Proust enalteceu-a a partir dos ensaios críticos de John Ruskin. Hugo Pratt. ali levados pelas suas ficções. foram dela «a terra das mangas. Paul Morand. Quetzal Vietname Now: A Reporter Returns. usada por Shakespeare em Otelo e O Mercador de Veneza. É uma história suja de violência e traição vivida até à idade adulta. cada uma delas representa um dia. e paupérrima.