O Pajem do Mestre que estava à porta, como lhe disseram que fosse pela vila consoante já fora combinado

, começou de ir rijamente a galope encima do cavalo em que estava, dizendo em altas vozes, bradando pela rua: Matam o Mestre! Matam o Mestre nos Paços da Rainha! Acorrei ao Mestre que o Matam! E assim chegou a casa de Álvoro Pais, que era dali grande espaço.As LITERATURA PORTUGUESA gentes que isto ouviam saíam à rua a ver que coisa era, e, começando a falar uns com osLOPES FERNÃO outros, alvoroçavam-se nas vontades e começavam a tomar10.º E armas cada um como melhor e mais asinha podia. Álvoro Pais,Eb2,3 do estava prestes e armado com que Cerco Escola uma coifa na cabeça, segundo a usança daquele tempo, cavalgou logo à pressa encima de um cavalo, quando havia anos que não cavalgava, e todos os seus aliados iam com ele, que, bradando a quaisquer que achava, dizia: Acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao Mestre, que filho é delRei dom Pedro. E assim bradavam ele e o Pajem indo pelas ruas.Soaram as vozes do arruído pela cidade, ouvindo todos bradar que matavam o Mestre, e assim como viúva que rei não tinha, e como se este outro lhe ficara em lugar de marido, se moveram todos com mão armada, correndo à pressa para onde diziam que isto se fazia, para lhe darem vida e escusar a morte. Álvoro Pais não se detinha ao ir para lá, bradando a todos: acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao Mestre que matam sem porquê.A gente começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha coisa de ver. Não cabiam pelas ruas principais e atravessavam lugares escusos, desejando cada um de ser o primeiro, e perguntando uns aos outros quem matava o Mestre, não minguava quem respondesse que o matava o Conde João Fernandes, por mandado da Rainha.E, por vontade de Deus, todos feitos de um só coração com talante de o vingar, quando foram às portas do Paço, que eram já cerradas antes que eles chegassem, com espantosas palavras começaram de dizer: Onde matam o Mestre? Que é do Mestre? Quem cerrou estas portas? Ali eram ouvidos brados de

A obra cronística da Fernão Lopes

Fernão Lopes 1380? - 1460?

Os dados biográficos relativos a Fernão Lopes são escassos. Presume-se que tenha nascido em Lisboa, entre 1380 e 1390, no seio de uma família da pequena burguesia urbana, provavelmente mesteirais. A data da sua morte é igualmente incerta, calculando-se que tenha ocorrido por volta de 1460. Nada se sabe, com certeza, da sua formação escolar. Poderá ter feito os seus estudos numa das escolas que a Igreja mantinha para formação do clero; ou talvez tenha mesmo frequentado os Estudos Gerais (universidade), o que seria mais condizente com a importância dos cargos que desempenhou. Um documento de 1418 revela que era "guardador das escrituras do Tombo", isto é, responsável pelos documentos oficiais da coroa portuguesa, e "escrivão dos livros" (secretário) de D. João I, tendo exercido as mesmas funções junto de D. Duarte. A partir de 1422 exerceu também as funções de "escrivão da puridade" do infante D. Fernando. Foi ele que lavrou o testamento desse infante, em 1437, altura em que era já "tabelião-geral do reino". Na sequência do fracasso da expedição a Tânger, o infante D. Fernando foi aprisionado pelos mouros, juntamente com muitos outros portugueses, entre eles um filho de Fernão Lopes, mestre Martinho, médico do infante. Foi em 1434 que o rei D. Duarte lhe confiou a tarefa de pôr em crónica os feitos dos antigos reis de Portugal, para o que lhe atribuiu uma tença anual. Assim, foi ele o primeiro cronista-mor do reino. No entanto, é possível que este documento constitua apenas uma confirmação de instruções anteriores, e que a redacção dessas crónicas tenha começado por volta de 1422. O certo é que, ao longo de vários anos, Fernão Lopes se incumbiu dessa tarefa, tendo redigido as crónicas dos três últimos reis, D. Pedro, D. Fernando e D. João I. Presume-se que terá igualmente redigido as crónicas dos primeiros reis de Portugal, mas, se assim foi, esses textos desapareceram completamente. Em 1454 foi dispensado das suas funções de "guardador das escrituras do Tombo", devido à idade avançada, sendo substituído por Gomes Eanes de Azurara. A partir de 1459 deixa de haver referências escritas a Fernão Lopes. O facto de exercer cumulativamente as funções de "guardador das escrituras" facilitou a sua actividade de cronista, beneficiando do acesso exclusivo a informações oficiais. O mérito de Fernão Lopes é inegável em dois níveis. Do ponto de vista literário, deve ser considerado o primeiro grande prosador da língua portuguesa. Nas suas mãos a língua começa a ser capaz de "dizer" as coisas de forma expressiva, a ganhar maleabilidade e vivacidade. Como "historiador", afasta-se da tradição cronística anterior. A crónica deixa de ser um mero relato elogioso dos feitos dos poderosos, para se transformar numa narração de acontecimentos, tanto quanto possível verdadeira. Pela primeira vez em Portugal há a preocupação de fundamentar o relato em documentos ou, em alternativa, de considerar as várias versões explicativas. Por outro lado, não se limita a seguir os passos das suas personagens; procura, sim, dar uma visão abrangente dos acontecimentos, tendo em conta os aspectos políticos, económicos e sociais.

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A obra cronística da Fernão Lopes

1.

Introdução
1.1. Contexto histórico

1) Nacionalismo político: depois da crise de 1383 – 1385, que termina com a Batalha de Aljubarrota (1385) e a independência de Portugal há um sentimento de optimismo e esperança. Esta independência foi conseguida pelo povo com a ajuda do Mestre de Avis, já que a nobreza apoiou a aliança com Castela, pretendida pela rainha regente, Leonor Teles. No relato, destes feitos nas crónicas de Fernão Lopes o povo, aí denominado arraia miúda, torna-se o protagonista. 2)
Nacionalismo linguístico:

já D. Dinis tinha promulgado leis para promover o uso do português na prosa, face ao latim, mas são os membros da geração de Avis os que criam uma literatura portuguesa em prosa, abrindo um caminho que continuaria Fernão Lopes.

1.2. Vida

Da vida de Fernão Lopes temos muito poucos dados: 1) Teria nascido entre 1380 e 1390. 2) Teria pertencido ao povo e aprenderia a ler e escrever em português e outras línguas para desempenhar o ofício de tabelião, quer dizer, de redactor de documentos oficiais. 3) Desempenhou os cargos de: Guarda-mor ou arquiveiro da Torre do Tombo. b) Cronista-mor do reino de Portugal, cargo criado por D. Duarte. O seu sucessor seria Gomes Eanes de Zurara. 2. Obras conservadas

a)

Fernão Lopes, ao ser arquiveiro da Torre do Tombo, tem acesso a muitos documentos, o que lhe facilita a redacção das suas crónicas. Só conservamos dele três crónicas: 1) Crónica do rei D. Pedro, onde pela primeira vez aparece em prosa a história de Inês de Castro. 2) Crónica do rei D. Fernando, onde se tratam os acontecimentos do reinado de D. Fernando e os que se passam um pouco depois da sua morte, quando governa a rainha regente Leonor Teles, figura à qual Fernão Lopes lhe presta especial atenção. 3) Crónica do rei D. João, a mais volumosa de todas. Está dividida em duas partes: Primeira parte → pré-Aljubarrota: narra os acontecimentos que tiveram lugar após a morte de D. Fernando até que se designa como rei de D. João I. b) Segunda parte → pós-Aljubarrota: narra os acontecimentos do reinado de D. João I. a) Há indícios de que Fernão Lopes tivesse escrito outras crónicas anteriores à de D. Pedro, já que ele mesmo faz nestas obras referências a crónicas como a de D. Sancho I, que diz que ele escreveu mas que não conservámos.

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2.1. A concepção da História | Prólogo da Crónica de D. João I

Grande licença deu a afeiçom a muitos que teverom cárrego d'ordenar estorias, moormente dos senhores em cuja mercee e terra viviam e u forom nados seus antigos avoos, seendo-lhe muito favorávees no recontamento de seus feitos; e tal favoreza como esta nace de mundanal afeiçom, a qual nom é salvo conformidade dalgüa cousa ao entendimento do homem. Assi que a terra em que os homeés per longo costume e tempo forom criados geera üa tal eonformidade antre o seu entendimento e ela que, avendo de julgar algüa sua cousa, assim em louvor como per contrairo, nunca per eles é dereitamente recontada; porque, louvando-a, dizem sempre mais daquelo que é; e, se doutro modo, nom escrevem suas perdas tam minguadamente como acontecerom. Outra cousa geera ainda esta conformidade e natural inclinaçom, segundo sentença dalguüs, dizendo que o pregoeiro da vida, que é a fame, recebendo refeiçom pera o corpo, o sangue e espritos geerados de taes virandas tem üa tal semelhança antre si que causa esta conformidade. Alguüs outros teveron que esto decia na semente, no tempo da geeraçom; a qual despõe per tal guisa aquelo que dela é geerado, que lhe fica esta conformidade tam bem acerca da terra como de seus dívidos. E assi parece que o sentio Túlio, quando veo a dizer: «Nós nom somos nados a nós meesmos, porque üa parte de nós tem a terra e outra os parentes.» E porém o juizo do homem, acena de tal terra ou pessoas, recontando seus feitos, sempre çopega1. Esta mundanal afeiçom fez a alguüs estoriadores que os feitos de Castela com os de Portugal escreverom, posto que2 homeës de boa autoridade fossem, desviar da dereita estrada e correr per semideiros escusos, por as mínguas das terras de que eram em certos passos claramente nom seerem vistas; e espicialmente no grande desvairo que o mui virtuoso Rei da boa memoria Dom Joam, cujo regimento e reinado se segue, ouve com o nobre e poderoso Rei Dom Joam de Castela, poendo parte de seus boõs feitos fora do louvor que mereciam, e ëadendo3 em alguãs outros da guisa que nom acontecerom, atrevendo-se a pubricar esto em vida de taes que lhe forom companheiros, bem sabedores de todo o contrairo. Nós certamente levando outro modo, posta a de parte toda a afeiçom que por aazo das ditas razões aver podiamos, nosso desejo foi em esta obra escrever verdade, sem outra mestura, leixando nos boõs aqueecimentos todo fingido louvor, e nuamente mostrar ao poboo quaesquer contrairas cousas, da guisa que aveerom. E se o Senhor Deos a nós outorgasse o que a alguüs escrevendo nom negou, convem a saber, em suas obras clara certidom da verdade, sem duvida nom soomente mentir do que sabemos mas ainda errando, falso nom queriamos dizer; como assi seja que outra cousa nom é errar salvo cuidar que é verdade aquelo que é falso. E nós, engando per ignorancia de velhas escrituras e desvairados autores, bem podiamos ditando errar; porque, escrevendo homem do que nom é certo, ou contará mais curto do que foi, ou falará mais largo do que deve; mas mentira em este volume é muito afastada da nossa voontade. Ó! com quanto cuidado e diligência vimos grandes volumes de livros de desvairadas linguageës e terras! e
1 2

O afecto à terra pode levar à perda da objectividade.

O sentimento de dívida com a pessoa que lhe paga ao cronista também pode levar à perda da objectividade.

Crítica implícita a López de Ayala pela sua parcialidade.

Pretensão de objectividade.

- Diferença entre erro vs. mentira e certeza vs. verdade. - Referência ao importante trabalho de pesquisa e análise das fontes, justificando assim qualquer erro.

Está aí. Embora. 3 Engadindo.

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isso meesmo púbricas escrituras de muitos cartários e outros logares, nas quaes, depois de longas vegilias e grandes trabalhos mais certidom aver não podemos da conteúda em esta obra. E seendo achado em alguüs livros o contrairo do que ela fala, cuidae que nom sabedormente mas errando muito, disserom taes cousas. Se outros per ventuira em esta cronica buscam fremosura e novidade de palavras, e nom a certidom das estorias, desprazer-lhe-à de nosso razoado, muito ligeiro a eles d'ouvir e nom sem gram trabalho a nós de ordenar. Mas nós, nom curando de seu juizo, leixados os compostos e afeitados razoamentos, que muito deleitom aqueles que ouvem, ante poemos a simprez verdade que a afremosentada falsidade. Nem entendaes que certificamos cousa, salvo de muitos aprovada e per escrituras vestidas de fé; doutra guisa, ante nos calariamos que escrever cousas falsas. Que logar nos ficaria pera a fremosura e afeitamento das palavras, pois todo nosso cuidado em isto despes4 nom basta pera ordenar a nua verdade? Porém, apegandonos a ela firme, os claros feitos, dignos de grande renembrança, do mui famoso Rei Dom Joan, seendo Meestre, de que guisa matou o conde Joam Fernández, e como o poboo de Lisboa o tomou primeiro por seu regedor e defensor, e depois outros alguüs do reino, e d'i em deante como reinou e em que tempo, breve e sãamente contados, poemos em praça na seguinte ordem.
FICHA DE TRABALHO 1. Fernão Lopes teve necessidade de expor, no inicio da 1.ª parte da Crónica de El.Rei D. João I a sua concepção sobre o papel do historiador. Que erros apontou aos historiadores anteriores? 2. Tais erros deveram-se, segundo ele, a três factores. Indica-os. 3. Que expressão encontrou para os sintetizar? 4. Para que não lhe aconteça o mesmo, que processo de trabalho se propõe utilizar?
-

Pretensão de fazer uma prosa simples, de subordinar a formosura formal à verdade.

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-

Diferenciação entre as duas partes da crónica. Referência à morte do Conde Andeeiro5 (Joam Fernández).

5. Comenta a frase: “poemos a simprez verdade que a afremosentada falsidade” 6. Fernão Lopes não exclui a hipótese de se enganar. Apesar disso exige inteira credibilidade ao que escreve. Como explicas esta aparente contradição? 7. Conclui sobre a actualidade do conceito de historia que esteve por base na elaboração deste Prólogo.

4 5

Usado. Num dos capítulos conta-se como se produz este facto: o Mestre de Avis é convidado a um convite no Paço, com Leornor Teles e o Conde Andeeiro. A estratégia para matar o conde consistiu en criar confussão dizendo que íam matar o Mestre de Avis, pelo que o povo vai socorrer o Mestre e, nessa confussão, alguém mata o Conde Andeiro. Assim, a morte do Conde Andeeiro da mão do Mestre de Avis ou de algum dos seus é vista como uma fazanha em defessa própria.

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3. 3.1. CARACTERÍSTICAS GERAIS DAS SUAS CRÓNICAS

Fernão Lopes expõe muito pormenorizadamente no prólogo da Crónica de D. João I qual é a sua concepção da História, mas o que ele diz , nem sempre coincide com o que faz na prática:

1) Perda da objectividade pelo afecto à terra e o sentimento de dívida perante a pessoa que encarrega as crónicas, o que faz que se exagere o positivo e reduza o negativo. Diz Fernão Lopes que isto é que lhe passa a López de Ayala na sua Crónica del rei D. Juan I, na que considera que privilegia os feitos de D. Juan I de Castilha por cima dos de D. João I de Portugal. Ele diz que quer evitar isto, mas não sempre o consegue já que é evidente o favoritismo pela Casa de Avis, como podemos comprovar nalguns trechos: a) Quando faz o cômputo das vítimas de Aljubarrota diz que alguns castelhanos foram encontrados mortos e não tinham qualquer ferimento porque morreram de medo perante os portugueses.

b) Menciona que em Aljubarrota os castelhanos fugiam só porque os portugueses gritavam. c) No retrato duma batalha menor diz que os portugueses lutavam contra os castelhanos numa proporção de um português por cada seis castelhanos. Entre os castelhanos houve centenares de mortos, mais de dez prisioneiros e um ferido, mentes que do lado dos portugueses só houve um morto e um ferido.

2) Faz referência à diferença entre verdade e certeza, comprometendo-se a contar a verdade mas não a certeza, já que pode que os dados lhe cheguem transformados, de jeito que não pode estar seguro de que conta a certeza absoluta. Nega a mentira, mas não desbota a possibilidade de cair em erros.

verdade mentira

certeza erro

3) Em relação com o anterior, Fernão Lopes consulta multidão e variedade de fontes, já que faz apuradas investigações. Faz referência a que muitas das fontes estão em pergaminhos muito antigos e é possível que não as interprete correctamente. Assim, quando há dúvida em quanto às fontes expõe-lhe ao leitor as diversas versões das diferentes fontes para que ele escolha.

a)

Tipos de fontes: 1. Narrativas: crónicas doutros autores, em especial de López de Ayala, ou anónimas, às que tem aceso por ser o guarda-mor da Torre do Tombo. Assim, cita até cinco narrativas anónimas que consulta sobre o tema de Aljubarrota e são frequentes expressões como alguns dizem ou outros historiadores dizem que. 2. Documentais: actas de conselhos ou das Cortes, bulas eclesiásticas, correspondência epistolar ou epitáfios que ele denomina bitafes antigos. Análise crítica das fontes: 1. Confronta a documentação contraditória e decide-se pela mais razoável. 2. Em caso de dúvida:

b)

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Expõe as diferentes versões para que o leitor escolha qual quiser. Um exemplo disto encontramo-lo na narração do matrimónio póstumo de Inês de Castro e D. Pedro I na Crónica do rei D. Pedro. Prefere os documentos oficiais à opinião de narrativas literárias.

4) No prólogo expõe a sua pretensão de usar uma prosa simples, sem ornamentação que possa levar a ambiguidade ou falsas interpretações. Porém, na prática não sempre faz isto já que há ocasiões nas que usa metáforas, comparações, muita adjectivação ornamental. É frequente também uma prosa emotiva (exclamações, implicação emocional), por isso se diz dele que chora com os que choram e ri com os que rim. 5) Pormenorização na que em muitas ocasiões se descobrem dados fictícios: a) Transcrição de diálogos directos.

b) Descrição de pormenores dificilmente comprováveis: sentimentos dos soldados, número exacto de pedradas contra um forte... 6) Protagonismo do povo, que denomina arraia miúda: a) Faz ouvir a voz de alfaiates, pastores... Exemplos: insultos a Leonor Teles perante o casamento da sua filha com o rei castelão; gritaria quando se pensa que o Mestre de Avis vai ser assassinado. Isto tem também uma certa dose de subjectividade. b) Denomina-o ventres ao sol quando sai à rua com espírito revolucionário. c) Apesar do seu protagonismo, também critica o povo quando exerce uma violência injusta. Exemplo: “Alvoroço popular”
Alvoroço popular Primeira parte da Crónica do rei D. João Protagonismo do povo (arraia miúda e ventres ao sol), mas é criticado pela sua violência injusta com uma abadessa por ser parente de Leonor Teles. Vamos matar a aleivosa da abadesa, que é parenta da Rainha, e sua criada! Subjectividade dos diálogos Eis os bêbados! Andam com a sua bebedice... Deixai-os vós que ainda se êles mal hão-de achar, por estas cousas que andam fazendo! Linguagem simples [...] de um mosteiro não longe dêsse lugar, dentro na cidade, em umas suas casas, que são no muro Descrições pormenorizadas quebrado [...] Variedade de fontes: parece expor várias, para segundo alguns recontam decidir-se pela mais razoável outros dizem doutra maneira

7) Comunicação directa com o leitor, pretendendo relatar as cenas num tom coloquial e de forma visual. Assim, destaca a expressão e ora guardai como se fôsses presente, ou outras como vejamos ou escutemos.
***

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A obra cronística da Fernão Lopes

Fernão Lopes é considerado o iniciador da história moderna, já que nas suas crónicas inclui todas as categorias sociais portuguesas, atingindo o povo um grande protagonismo e, ademais, defende a verdade nua e crua.
3.2. Comentário de textos

11. DO ALVOROÇO QUE FOI NA CIDADE CUIDANDO QUE MATAVAM O MESTRE, E COMO ALI FOI ÁLVORO PAIS E MUITAS GENTES COM ELE. O Pajem do Mestre que estava à porta, como lhe disseram que fosse pela vila consoante já fora combinado, começou de ir rijamente a galope encima do cavalo em que estava, dizendo em altas vozes, bradando pela rua: Matam o Mestre! Matam o Mestre nos Paços da Rainha! Acorrei ao Mestre que o Matam! E assim chegou a casa de Álvoro Pais, que era dali grande espaço. As gentes que isto ouviam saíam à rua a ver que coisa era, e, começando a falar uns com os outros, alvoroçavam-se nas vontades e começavam a tomar armas cada um como melhor e mais asinha podia. Álvoro Pais, que estava prestes e armado com uma coifa na cabeça, segundo a usança daquele tempo, cavalgou logo à pressa encima de um cavalo, quando havia anos que não cavalgava, e todos os seus aliados iam com ele, que, bradando a quaisquer que achava, dizia: Acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao Mestre, que filho é delRei dom Pedro. E assim bradavam ele e o Pajem indo pelas ruas. Soaram as vozes do arruído pela cidade, ouvindo todos bradar que matavam o Mestre, e assim como viúva que rei não tinha, e como se este outro lhe ficara em lugar de marido, se moveram todos com mão armada, correndo à pressa para onde diziam que isto se fazia, para lhe darem vida e escusar a morte. Álvoro Pais não se detinha ao ir para lá, bradando a todos: acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao Mestre que matam sem porquê. A gente começou de se juntar a ele, e era tanta que era estranha coisa de ver. Não cabiam pelas ruas principais e atravessavam lugares escusos, desejando cada um de ser o primeiro, e perguntando uns aos outros quem matava o Mestre, não minguava quem respondesse que o matava o Conde João Fernandes, por mandado da Rainha. E, por vontade de Deus, todos feitos de um só coração com talante de o vingar, quando foram às portas do Paço, que eram já cerradas antes que eles chegassem, com espantosas palavras começaram de dizer: Onde matam o Mestre? Que é do Mestre? Quem cerrou estas portas? Ali eram ouvidos brados de desvairadas maneiras. Tais aí havia que certificavam que o Mestre era morto, pois as portas estavam cerradas, dizendo que as britassem para entrar adentro, e que veriam que era do Mestre ou que coisa era aquela. Alguns deles bradavam por lenha e que viesse lume para porem fogo aos Paços e queimar o traidor e a aleivosa. Outros se afincavam pedindo escadas para subir acima e verem que era do Mestre, e em tudo isto era o arruído tamanho que se não entendiam uns com os outros nem determinavam coisa nenhuma. E não somente era isto à porta dos Paços mas ainda ao redor deles, por onde homens e mulheres pudessem estar. Uns vinham com feixes de lenha, outros traziam carqueja para acender o fogo, e cuidavam queimar assim o muro dos Paços, dizendo muitos doestos contra a Rainha. De cima não minguava quem bradasse que o Mestre era vivo e o Conde João Fernandes morto, mas isto não queria nenhum crer, dizendo: Pois se vivo é mostrai-no-lo e vê-lo-emos. Então os do Mestre, vendo tamanho alvoroço como este, que cada vez se acendia mais, disseram que fizesse sua mercê de se mostrar àquelas gentes, doutra guisa estas poderiam quebrar as portas ou pôr-lhes o fogo, e entrando assim por ali dentro à força não as poderiam tolher de fazer o que quisessem.

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A obra cronística da Fernão Lopes

Então se mostrou o Mestre a uma grande janela que dava para a rua onde estava Álvoro Pais e a mais força da gente, e disse: Amigos apacificai-vos, que eu vivo e são sou a Deus graças. E tanta era a turvação deles, e tinham já assim em crença que o Mestre era morto, que tais aí havia que teimavam que não era aquele, porém, conhecendo-o todos claramente, houveram grande prazer quando o viram, e diziam uns para os outros: Oh que mal que fez! Pois que matou o traidor do Conde e que não matou logo a aleivosa com ele. Crede em Deus que ainda lhe há-de vir algum mal por ela. Olhai e vede que maldade tão grande, mandaram-no chamar donde já ia em seu caminho para o matarem aqui por traição, Oh aleivosa! Já nos matou um senhor e agora queria matar-nos outro! Deixai-la, que ainda há-de acabar mal por estas coisas que faz. E sem dúvida que se eles entravam dentro não se livraria a Rainha de morte, e já fora maravilha quantos eram da sua parte e do Conde poderem escapar. O Mestre estava à janela e todos olhavam para ele, dizendo: Oh Senhor! Como vos quiseram matar à traição, bento seja Deus que vos guardou desse traidor. Vinde-vos, dai ao demo esses Paços, não sejais lá mais. E em dizendo isto muitos choravam pelo prazer de o ver vivo. Vendo ele então que nenhuma dúvida tinha quanto à sua segurança, desceu abaixo e cavalgou com os seus, acompanhado de todos os outros, tantos que era maravilha de ver. Os quais, mui ledos em volta dele, bradavam dizendo: Que nos mandais fazer, Senhor? Que quereis que façamos? E ele lhes respondia, mal podendo ser ouvido, que lho agradecia muito, mas que por então não havia deles mais mister. E assim se encaminhou para os Paços do Almirante, onde pousava o Conde dom João Afonso, irmão da Rainha, com que havia de comer. As donas da cidade, na rua por onde ele ia, saíam todas às janelas com prazer, dizendo a altas vozes: Mantenha-vos Deus, Senhor. Bento seja Deus que vos guardou de tamanha traição que vos tinham preparada. Pois que ninguém por então podia outra coisa pensar. E andando assim até à entrada do Rossio, o Conde veio-lhe ao encontro com todos os seus e outros bons da cidade que o aguardavam, assim como AfonsEanes Nogueira, e Martim Afonso Valente, e Estêvão Vasques Filipe, e Álvoro do Rego e outros fidalgos, e quando viu o Mestre vir daquela guisa, foi-o abraçar com prazer e disse: Mantenha-vos Deus, Senhor. Sei que nos tirastes de grande cuidado, mas vós merecíeis esta honra melhor do que nós. Andai, vamos logo comer. E assim foram para os paços onde pousava o Conde. E estando eles para se assentar à mesa, vieram dizer ao Mestre como os da cidade queriam matar o Bispo, e que faria bem de lhe ir acorrer, e o Mestre quisera lá ir. Disse então o Conde: Não cureis disso de o matarem, Senhor, quer o matem quer não, pois, posto que ele morra, não faltará outro bispo português que vos sirva melhor do que ele. Ao dito do Conde cessou o Mestre de sua boa vontade, e o Bispo foi morto desta guisa que se segue.

LEONOR TELES, SEDUTORA E ODIENTA
15. QUE MANEIRA TINHA A RAINHA DONA LIONOR COM O MESTRE E COM ALGUNS OUTROS A QUE NÃO TINHA BOM DESEJO. Se os antigos que louvaram as nobres mulheres tivessem vivido no tempo da Rainha dona Lionor muito errariam em seu escrever se a não pusessem no conto das mui famosas. Porque se o dom da formosura, de todos muito apreçado, fez a algumas ganhar perpétuo nome, deste dom teve ela tão grande parte, acompanhado de aprazível graça, que aquela que o mais desejar pudesse seria assaz de contente com o que a natureza a ela proveu; tinha, ademais disso, sageza de costumes e grande avisamento, e de nenhuma coisa, que a prudente mulher pertença, era ignorante. Foi mulher muito inteira e de coração cavaleiroso, buscador de maravilhosas artes para firmeza de seu estado. Desde que ela reinou aprenderam as mulheres a ter novos jeitos com os seus maridos e a dar mostranças duma coisa pela outra mais perfeitamente do que se acha nos tempos anciãos, e como nenhuma outra Rainha de Portugal o fez.

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