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-
da-
ços
Na terra escurecida por séculos de resíduos
orgâNicos acumulados, pesquisas arqueológicas
deseNterram iNdícios de que a amazôNia foi
habitada Na pré-história por grupos humaNos
graNdes e sedeNtários, que maNtiNham um iNteNso
iNtercâmbio comercial e cultural
por by Mônica Trindade canejo fotos photos Maurício de Paiva

de
Pas-
sa-
12

do 13
Depois de três horas caminhando pelo igapó, com água que que me lembrei da velha teoria do determinismo ecológico,
muitas vezes ultrapassava a altura dos joelhos, e da volta pela para a qual o ambiente amazônico era hostil demais para
mata, povoada por palmeiras-bravas com longos espinhos, permitir o desenvolvimento de grandes grupos humanos. Essa
finalmente chegamos à margem do rio Amazonas, onde tese foi defendida por pesquisadores que fizeram fama a partir
tínhamos aportado. Só para descobrir, surpresos, que nossa dos anos 1940, em especial Betty Meggers, a grande dama da
pequena embarcação estava longe, muito longe. A maré secara arqueologia americana, e seu parceiro, Clifford Evans.
durante a caminhada, e agora nos restava uma eternidade de Até hoje referência no assunto, o casal fez estudos por toda
lama pela frente. Vida de arqueólogo deve ser assim. Estamos a região amazônica, do Equador ao Marajó, analisando dados
na Ilha Mexiana, no encontro entre o Amazonas e o Atlântico, da geologia e da botânica, a etnologia e a documentação
à procura de fragmentos de cerâmica produzida pelos índios histórica. Concluíram que o ambiente amazônico era inóspito,
que habitavam a região antes da chegada de Cabral às terras de solo pobre (justificando o que acreditavam ser uma ausência
brasileiras. Aqui, como em todo o Arquipélago de Marajó, no de sinais de agricultura) e incapaz de fornecer proteína de
Pará, eles são muito abundantes; praticamente em todas as origem animal em quantidade suficiente (já, para isso, seria
comunidades é possível encontrar algum tipo de vestígio. preciso haver caça de grande porte). No máximo, afirmavam,
O jeito é enfrentar a lama. No começo até que não é difícil. poderia ter havido na pré-história Amazônica pequenos grupos
Basta levantar a perna bem alto, dar um passo largo, afundar nômades, que iam de um lado para o outro atrás de caça e de
o pé novamente. Mas, depois de uns dez metros, a lama fica alimentos para coletar.
cada vez mais funda. Era assim a vida dos marajoara? Esses A ideia prevaleceu até pouco tempo, mas não resistiu à
índios talvez formem o grupo humano mais intrigante dos que intensificação das escavações, análises de solo e datações de
habitaram a Amazônia pré-histórica. Ocupantes do Marajó cerâmicas na região. Hoje, os pesquisadores estão convencidos
entre os anos 450 e 1350 da nossa era, deixaram sinais de do contrário. “Grandes ocupações existiram na Amazônia. A
sua complexa sociedade e do controle que exerciam sobre questão é entender como funcionavam”, diz Eduardo Góes Neves,
toda a região. Os dados pesquisados até hoje sugerem que se professor da Universidade de São Paulo, doutor em arqueologia
espalhavam por várias ilhas, viviam em grandes aldeias, e suas pela Universidade de Indiana (EUA) e autor de Arqueologia da
elites estavam subordinadas a um poder centralizado. Podem Amazônia (Jorge Zahar Editor, 2006). Além dos marajoara, que
ter chegado a 40 mil indivíduos. deixaram cerâmica em quantidade exuberante, provando que
Construíam grandes aterros, alguns com até doze metros eram muitos, outros vestígios vão evidenciando uma complexa
de altura e três hectares de extensão, hoje conhecidos trama de intercâmbio comercial e cultural que cobria toda a região
como tesos (ou mounds); talvez para se proteger, talvez amazônica. Trocas de objetos e alimentos, caminhos por terra e
para demonstrar poder. Também faziam viveiros de peixes, rio, uma intensa movimentação que durou milênios e surpreendeu
garantindo fartura nos meses de escassez. E deixaram restos os primeiros cronistas europeus que chegaram à região.
de uma belíssima cerâmica: grandes vasos, pratos e urnas
funerárias recobertos com uma pintura de desenhos intricados, Terra PreTa
que representam um complexo conjunto mitológico, indício Na Amazônia Central, nas confluências dos rios Solimões e Negro,
certo da riqueza de sua cultura. um projeto vem há catorze anos batendo nessa tecla. Criado por
Para a gaúcha Denise Pahl Schaan, presidente da Góes Neves e pelos norte-americanos Michael Heckenberger, da
Associação Brasileira de Arqueologia e autoridade nos Universidade da Flórida, e James B. Petersen, o Projeto Amazônia
marajoara, é a iconografia que evidencia o grau de sofisticação Central (PAC) mobiliza um grande número de pesquisadores do
dessa sociedade. Mais que ornamentação, ela é uma espécie Brasil e de outras partes do mundo, que já identificaram mais
de escrita: “Estes desenhos são um código, reconhecido de cem sítios arqueológicos. Enquanto isso, outros arqueólogos
por toda a sociedade”, diz. Doutora em antropologia social investigam sítios com grandes rochas modificadas no Amapá
pela Universidade de Pittsburgh, nos EUA, ela mostra em (megálitos), estruturas geométricas escavadas no solo do Acre
A iconografia da cerâmica marajoara (Editora PucRS, 1997) (geóglifos) e cavernas no Pará. Analisam objetos líticos, restauram
como os ícones representando a fauna do Marajó veiculavam peças de cerâmica, desenterram esqueletos – ou escavam solos
mensagens sobre parentesco e posição social. modificados, que são um capítulo à parte quando se trata de
Estamos na Amazônia em busca de imagens para nosso arqueologia amazônica.
urna funerária antropomorfa da fase Guarita (séculos 9 a 16 d.c.); na dupla anterior, moradores de Santa rita do Lago da valéria (aM) trazem para livro Arqueologia na Amazônia – Entornos (título provisório); Conhecidas como Terra Preta de Índio, as manchas de
casa apliques arqueológicos da fase Konduri (séculos 11 a 16 d.c.) que afloram com as chuvas an anthropomorphic funerary urn from the Guarita por isso é tão importante registrar sítios arqueológicos ainda terra escura que se formam no meio do solo natural da região
phase (9th to 16th centuries c.e.); previous pages: dwellers of Santa rita do Lago da valéria (amazonas State) bring home archeological appliqués desconhecidos. Mas quando a lama começa a passar do joelho e mobilizam os pesquisadores de uma forma particular, e por
from the Konduri phase (11th to 16th centuries c.e.) that emerge from the ground after rains o barco ainda está a uns cinquenta metros, a vida fica tão difícil um bom motivo: são uma das maiores provas da passagem de

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até há pouco, prevalecia a ideia de que o ambiente amazônico pré-
histórico era inóspito demais para sustentar grandes populações.
Mas a intensificação das escavações, análises de solo e datações
de cerâmicas na região estão mostrando justamente o contrário

grandes e longas ocupações humanas pelo lugar. A Terra Preta Da mesma forma como sabiam onde encontrar o pirarucu
não se forma sozinha, mas pelo acúmulo de dejetos orgânicos de mais de cinquenta quilos, capaz de alimentar muitas famílias.
deixados pelo homem. Sobras de alimentos, ossos de animais, Ou subir no açaizeiro para tirar o cacho estalando de maduro.
cascas de frutas e carvão de fogueira, que dá o tom escuro. Ao Ou como produzir diferentes tipos de farinha de mandioca. Ou
longo de séculos, estes restos da presença humana vão alterando qual árvore dá a melhor madeira para a construção de casas.
o solo natural. Assim, quanto mais profunda a porção de TP, mais E como navegar, senhores, pelas teias de rios, igarapés e furos.
longo o tempo de ocupação que ela sugere. E quanto mais larga, A sabedoria nativa é um espanto para meus olhos gringos de
maior o número de pessoas. paulista. Uma sabedoria que se construiu ao longo de séculos
Algumas dessas manchas de solo modificado podem chegar de ocupação do ambiente amazônico. Ou melhor: milênios.
a dezenas de hectares, com até dois metros de profundidade, Datações de objetos líticos dão conta da presença humana
indicando a passagem de agrupamentos grandes e sedentários. há pelo menos 8 mil anos no Amazonas; outros vestígios
Por muitas regiões, já que a TP se espalha por toda a Amazônia encontrados na Serra dos Carajás e em Monte Alegre, ambos
brasileira, com sinais no Pará, no Amazonas, em Roraima. E até no Pará, sugerem que a chegada do homem por estas paragens
no Xingu, onde o pesquisador Michael Heckenberger realiza aconteceu há cerca de 11.200 anos. O homem que hoje mora
pesquisas relacionando vestígios arqueológicos com a presença nessas ribeiras não é descendente direto do pré-histórico. Depois
de grupos indígenas atuais. da chegada dos europeus, várias etnias foram dizimadas e outras
Não é incomum que, nas regiões de Terra Preta, haja migraram para locais, digamos, mais seguros. O afamado caboclo
alguém plantando atualmente, aliás. Como se torna muito de hoje é, na maioria das vezes, descendente de nordestinos que
rico em nutrientes, o solo arqueológico atrai cada vez mais chegaram à Amazônia durante o ciclo da borracha.
gente. Para os moradores de hoje, sua fertilidade é um tesouro. Mas isto não muda o fato de que continuam repetindo
Dona Raimunda Braga, 79 anos, moradora de Paricatuba, no o modo de vida de ancestrais que se perderam no tempo,
Amazonas, nos explica: “Todo tipo de plantação dá bem na como se este fosse uma herança mística. Erguem suas casas
Terra Preta. A terra, mais úmida, custa a secar. E se a gente não sobre aterros pré-históricos, plantam suas roças sobre a fértil
tiver adubo, as plantas ficam viçosas do mesmo jeito”. Terra Preta, continuam amantes do velho e bom açaí, como os
marajoara, que deixaram vestígios da fruta em pratos fabricados
Herança culTural há vários séculos.
A lama da Mexiana também é escura, e se espalha por infinitos É o caboclo também quem, na prática, assume a tarefa de
hectares. É como se, de repente, todo o mundo houvesse se zelar por este patrimônio, mesmo que não saiba exatamente o
convertido naquela lama cinzenta, que nos sorve como areia valor do que tem nas mãos. Encontrar uma peça arqueológica é,
movediça. Com o equipamento fotográfico levantado no alto muitas vezes, corriqueiro. São apliques que afloram no barranco
dos braços, percebemos aterrados (literalmente!) que a lama já depois de uma chuva mais forte, urnas funerárias que a vazante
estava chegando aos nossos quadris. Momento de desespero: revela, machadinhos perdidos no fundo do quintal. É comum
pensamos em desistir e passar a noite na mata, à espera da encontrar esses objetos decorando um canto da casa ou nas
cheia da maré. Mas a mata, a esta altura, já estava tão distante mãos de crianças ribeirinhas como brinquedos. Sem que isto
quanto a voadeira: ir ou voltar era a mesma coisa. Com metade signifique desrespeito pelo passado. Seu Amâncio, que mora
do corpo queimando no sol ardido do fim de tarde e a outra em Iranduba, a 25 quilômetros de Manaus, próximo de um sítio
metade submersa, percebemos, com surpresa, que os rapazes arqueológico que atrai um grande número de pesquisadores, o adulto sepultado no Sítio Hatahara, em iranduba (aM), e datado entre os séculos 7 e 13 d.c., é um raro vestígio humano pré-colonial na amazônia.
que nos acompanham, nativos da região, não estavam vendo expressa seu interesse: “Gostaria que me contassem a história no alto, fragmentos de cerâmica pré-colombiana em depósitos de Terra Preta na mesma região an adult buried at Hatahara Site in iranduba
problema algum naquilo. Eles simplesmente sabiam andar na das coisas, fica tudo no mistério. Nós não vivemos só no (amazonas State), dated between the 7th and 13th centuries, is a rare precolonial human vestige in the amazon. on the top, pre-columbian pottery
lama profunda. Como? presente, vivemos do passado também”. fragments from Black Soil deposits in that same area

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de Taperinha (PA), e consideradas

Origem do povo maia, que habitou
acordo com vestígios encontrados

se espalhou pelos atuais Equador,
Início do Império Inca, cujo poder
sílex encontrada pelo arqueólogo

Início da formação de Terra Preta
por Anna Roosevelt no sambaqui
James Petersen em sítio do PAC

Período da ocupação marajoara
Data de cerâmicas encontradas

Colômbia, Peru, Bolívia, Chile e
Datação de ponta de flecha de

no Arquipélago de Marajó, PA
as mais antigas do continente
na Caverna da Pedra Pintada,

o México e a América Central
em Iranduba (AM), em 2002
ocupações na Amazônia, de
Data provável das primeiras

Início dos cacicados na

Chegada dos europeus
Marcos da pré-história

na Amazônia Central
do tempo presente

1.350 a.p.-450 a.p.
Monte Alegre (PA)
11.200 anos antes

Amazônia Central
7.600-7.335 a.p.
Milênios atrás

sul-americana

à Amazônia
2.000 a.p.
8.500 a.p.

3.200 a.p.

Argentina

1.100 a.p.

500 a.p.
Thousands of Years ago
Landmarks in South American
Prehistoric Times

11,200 years before today
Probable date of the first Amazon
occupations, according to traces
found at Pedra Pintada Cave,
Monte Alegre (Pará State)

8,500 b.t.
Dating of a silex arrowhead
found by archeologist James
Petersen on a PAC site in Iranduba
(Amazonas State), in 2002

7,600-7,335 b.t.
Dating of pottery found by Anna
Roosevelt at Taperinha mound
(in Pará State), regarded as some of
the oldest in the continent

3,200 b.t.

power covered an area currently
Beginning of the Inca Empire, whose

comprised by Ecuador, Colombia,
Peru, Bolivia, Chile, and Argentina

Date of origin of the Mayan people, who
inhabited Mexico and Central America

2,000 b.t.
Beginning of Black Soil formation in
Central Amazon

1,350 b.t.-450 b.t.
Period of the Marajoara occupation of
Marajó Archipelago, Pará State

1,100 b.t.
Beginning of cacicados in
Central Amazon

500 b.t.
Arrival of Europeans to
the Amazon
A herança dos antepassados pré-históricos não se resume à produziam intrigantes peças com apliques em formas de sugerindo que o alcance do poder de suas chefias regionais não foi pesquisas do PAC. A conclusão é que não basta explicar ao
cultura material, lembra Denise Maria Cavalcante Gomes, pós- animais, ao certo referências míticas, e estatuetas com feições tudo o que a americana supunha. A ideia de que a complexidade morador das cercanias dos sítios a importância de um artefato
doutorada em arqueologia pela Universidade Federal do Rio de humanas, em cujos fragmentos os pesquisadores encontram das sociedades amazônicas teria migrado para a Cordilheira dos arqueológico. É preciso despertar nele a identificação com esse
Janeiro que fixou seus estudos na região de Santarém, no Pará. pistas sobre a relação de domínio político na região. Os tapajó Andes, dando origem às civilizações pré-colombianas, também passado desconhecido, para que ele possa lhe atribuir valor. Por
Segundo ela, os atuais ocupantes das áreas não urbanas da podem ter sido um cacicado: além de seus próprios chefes é desconsiderada. Assim como a hipótese lançada por Betty outro lado, é preciso ouvi-lo e compreender como funciona o
Amazônia também herdam de seus antepassados a cosmovisão, locais, as tribos tinham um chefe regional, num modelo de Meggers décadas antes: os povos andinos é que teriam migrado seu próprio sistema de valores. Carla Gibertoni, coordenadora
ou a forma como se relacionavam com o ambiente, o tempo, poder que se estendia por espaços longos e periféricos. para o Pará e aqui se ‘degenerado’, gerando os tapajó e marajó. da equipe, desabafa: “É um trabalho para a vida toda!”
o espaço, a vida e a morte. Se a relação com o natural parece Esta hipótese, sugerida pela arqueóloga americana Anna Vislumbrar com mais clareza um passado que se perderia Somente com o empenho de muitos pesquisadores, de
não ter se alterado nos últimos séculos, tampouco a relação Roosevelt, que iniciou seus estudos no Pará nos anos 1980, se os estudos não tivessem se aprofundado na última década é, diferentes vertentes científicas, será possível agarrar o fio
com o sobrenatural. Daí seres mitológicos presentes em vasilhas é bastante considerada atualmente quando se fala no grupo agora, questão de avançar no campo. “Somente a intensificação desta meada. Já para nós, parados no meio do caminho entre
utilizadas em rituais, como serpentes, onças e lagartos, ainda tapajó. Hoje, sítios arqueológicos são encontrados não só em das pesquisas permitirá que as principais questões sobre o terra firme e as águas do maior rio do planeta, será preciso
povoarem o imaginário popular amazônico. “Para mim, eles estão comunidades isoladas como no centro de Santarém, onde passado remoto da Amazônia sejam elucidadas”, diz Eduardo encontrar um segundo fôlego que nos dê força para chegar
constantemente se reinventando. Mantendo a tecnologia indígena as pessoas convivem diariamente com as sombras de uma Góes Neves. Investir em educação também é crucial: questões ao barco. Sujos de lama até quase a cintura, com pernas
e, por outro lado, recriando tradições culturais”, diz Denise. ancestralidade desconhecida. Bisneta do presidente americano como a comercialização de artefatos, que é proibida, ou a doloridas, cansados até os ossos. Mas com o equipamento a
Theodore Roosevelt, Anna fez uma contribuição importante à destruição de sítios precisam sair das teses acadêmicas e chegar salvo e a impressão de que os arqueólogos – apesar de mais
caciques e caboclos arqueologia amazônica ao afirmar que os povos pré-cabralianos à população, que é quem de fato convive com essa realidade. acadêmicos do que desbravadores, em muitos casos – são
Sua área de estudo é outro local onde, literalmente, se tropeça da região criaram sociedades complexas em assentamentos Ainda incipiente, dada a dimensão da região, esse trabalho mesmo tipos heroicos. Nossa recompensa foi jantar, numa
em peças arqueológicas: Santarém guarda o tesouro dos permanentes e densamente povoados. começa a ser realizado por entidades como o Museu Paraense casa sem luz elétrica, uma generosa porção de camarão
tapajó, um grupo estabelecido na região antes do ano 1000 d.C. A maior parte de suas conclusões, porém, é contestada pelos Emílio Goeldi, em Belém, o Iphan e o Museu de Arqueologia e de água-doce, com proteína suficiente para nos manter
Muitas das peças encontradas datam do século 16 ao século 18, arqueólogos em atividade na Amazônia hoje. As pesquisas de Etnologia (MAE) da USP, em São Paulo. por vários dias. E rodeados de crianças que já crescem na
quando deixam de aparecer. Muito provavelmente, os tapajó se Denise Gomes mostram que os vestígios da cerâmica tapajônica Nos últimos anos, uma equipe de educadores do MAE vem sabedoria amazônica. Ao que tudo indica, uma sabedoria que
extinguiram em decorrência do contato com o branco. Antes, se concentram em área menor do que a estimada por Roosevelt, criando atividades nas comunidades que estão envolvidas nas vem de muito longe. O

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Traces of THe PasT iN soil darkeNed by ceNturies of accumulated orgaNic
residues, archeological studies uNveil iNdicatioNs that the amazoN was iNhabited
by large sedeNtary humaN groups practiciNg stroNg commercial aNd cultural
exchaNges iN prehistoric times

After a three-hour walk through an igapó, with water often rising above more than a hundred and sixty feet away, life seems so difficult that I
our knees, and a detour into the jungle – with wild palms yielding long start to think about the old theory on ecologic determinism, according
spikes – we finally arrive at the banks of Amazon River, where we had to which the environment in the Amazon was so hostile it would not
originally landed, just to find out that our small boat was far, far away. create suitable conditions to the development of large human groups.
The tide had ebbed during our walk and now we had an eternity of This hypothesis was presented by researchers who gained renown from
mud ahead of us. This is how an archeologist’s life must be. We are at the 1940s on – particularly Betty Meggers, American archeology’s great
Mexiana Island, in the area where the Amazon River meets the Atlantic dame, and her partner Clifford Evans.
Ocean, looking for fragments of pottery produced by native peoples who The couple is considered as reference in this field to this day; they did
inhabited the place before Brazil was discovered by Portuguese explorer studies all over the Amazon region, from Ecuador to Marajó, analyzing
Pedro Álvares Cabral in 1500. Here, just like throughout the Marajó geologic and botanical data, ethnology, and historic records. They
Archipelago, in Pará State, they are abundant – you can find some kind of concluded the Amazon environment was inhospitable, with poor soils
vestige in almost every established community. (thus explaining what they perceived as no signs of agricultural activity),
We have no choice but to face the mud. Initially, it does not seem and incapable of providing enough animal protein (in order for this to
all that hard. All you have to do is raise your leg high, make a large step, happen, there would have to be heavy hunting activities). According
and let your foot sink down again. After about thirty feet, however, the to them, there would have been, at most, small nomad groups during
mud gets deeper and deeper. Did the Marajoaras live like this? These prehistoric times in the Amazon; they would travel from place to place
Indians are maybe the most intriguing to inhabit the Amazon region in seeking for game and food to be collected.
prehistoric times. They occupied Marajó between years 450 and 1350 of This idea was prevalent up until recently; it did not survive after
our Common Era, leaving behind traces of their complex society and the intensified diggings, ground analysis, and pottery dating in the region.
control they had on the whole area. Data currently available suggest they Today, researchers believe it is not so. “There has been great human
spread through many islands, lived in large villages, and their elites were occupation in the Amazon. We just need to understand how they
subject to some central power. They may have comprised forty worked,” says Eduardo Góes Neves, professor at Universidade de
thousand individuals. São Paulo, holder of a doctor’s degree from Indiana University (U.S.),
They built large embankments – some of them almost forty feet high and author of Arqueologia da Amazônia (Amazon archeology, Jorge
and 7.5 acres in extension – today known as tesos, or mounds; maybe Zahar Editor, 2006). In addition to the Marajoaras – who left great
they did it to protect themselves, or maybe to show off their power. They amounts of pottery behind, thus proving they were many – there
also built fish farms, thus ensuring their fish supply during the months are other traces that imply a complex network of commercial and
when they are not abundant in nature. And they left traces of beautiful cultural exchanges covering the totality of the Amazon region. The
pottery: large vases, plates, and funerary urns covered with intricate first European chroniclers who arrived there were amazed at their
painted patterns representing a complex mythological background – a object and food exchanges, their paths crossing lands and rivers,
sure indication of their cultural wealth. and their intense dislocations.
President of Associação Brasileira de Arqueologia [Brazilian
Association of Archeology] and expert in the Marajoaras, Denise Pahl black land
Schaan says this society’s level of sophistication shows through their In Central Amazon, where Solimões and Negro rivers meet, a project
iconography – more than adornment, it is a kind of writing. “These has been trying to prove this for fourteen years now. Created by Mr.
patterns form a code recognized by the whole society,” says Ms. Schaan, Góes Neves, by Florida University’s Michael Heckenberger, and by
from Rio Grande do Sul State (in the south of Brazil), who holds a James B. Petersen – the two latter from the U.S. – Projeto Amazônia
doctor’s degree from Pittsburgh University (U.S.). In her A iconografia Central [Central Amazon Project, locally PAC] mobilizes great numbers
da cerâmica marajoara (Marajoara pottery iconography, Editora PucRS, of researchers from both Brazil and abroad. They have identified over a
1997), she shows how icons representing Marajó’s fauna conveyed hundred archeological sites while other archeologists investigate other
messages about kinship and social status. sites with massive modified rocks (megaliths) in Amapá State, geometric
We are in the Amazon in order to find images for our book Arqueologia structures dug on the ground (geoglyphs) in Acre State, and caves in
na Amazônia – Entornos [Archeology in the Amazon – Environs (working Pará State. They analyze rock objects, restore pottery pieces, dig up
title)]; this is why it is crucial for us to record unknown archeological skeletons – or they excavate modified soil, an activity that comprises an
sites. However, when the mud goes up our knees and our boat is still entirely different chapter in Amazon archeology.

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Up until recently, most people believed the amazon environment during
prehistoric times was too inhospitable to maintain large populations.
However, intensified diggings, ground analysis, and pottery dating in the
region are revealing that it is not so

Known as Terra Preta de Índio [Indian’s Black Soil], these are The same way they knew how to find a pirarucu fish weighing over a
dark discoloration patches in the region’s natural soil that particularly hundred and ten pounds, with which they could feed many families. Or
attract the researchers’ attention – and for good reason: they are how to climb an açaí palm in order to bring back a ripe bundle of fruit. Or
among the main proofs that the place once had large and lasting how to produce different kinds of cassava flour. Or how they knew which
human occupation. Black Soil does not form by itself; it is the result of tree had the best kind of wood for house building. And how to navigate,
organic waste left behind by humans – food leftovers, animal bones, my goodness, through a network of rivers, igarapés [small tributaries],
fruit peels, and charcoal (the substance responsible for its darkened and furos [channels]. Their native wisdom is utterly stunning for my
hues). Throughout the centuries, these remains of human presence alter foreign eyes from São Paulo. Their wisdom was built over centuries of
natural soil. Therefore, the deeper the Black Soil portion, the longer the occupation of the Amazon environment. Better yet: over millennia.
occupation must have been. And the larger the patch, the greater the Dating of rock objects accounts for human presence near the
number of individuals. Amazon River eight thousand years ago at least; other traces found at
Some of these patches of modified soil can extend to scores of acres the Serra dos Carajás mountain range and at Monte Alegre – both in Pará
in area and up to 6.5 feet in depth, indicating that large sedentary groups State – suggest that men first arrived in this area about 11,200 years ago.
have been there. They exist in many different areas, as these Black Soil The men who live on these banks today are not directly descended from
patches can be found all over the Brazilian Amazon; with occurrences in prehistoric humans. After the arrival of Europeans, many ethnicities were
Pará, Amazonas, and Roraima states. They can even be found in the Xingu decimated and others migrated to, say, safer places. People who live
Native Peoples Reservation, where researcher Michael Heckenberger there are mostly descended from those who came to the Amazon from
studies archeological vestiges with current Indian groups in the area. the Northeast region during the rubber cycle.
It is not uncommon to find people cultivating areas of Black Soil This does not change, however, the fact that they echo the lifestyles em Paricatuba (aM), criança segura tampa de urna funerária da fase Guarita nas ruínas de um leprosário erguido sobre sítio arqueológico. na dupla
today. As this kind of soil becomes highly rich in nutrients, archeological of ancestors lost in time, as if they withheld some mystic heritage. They anterior, urnas funerárias em Maracá (aP): cabeça-tampa e traços que indicam o sexo do morto in Paricatuba (amazonas State) a child holds a
sites attract more and more people. For current dwellers, their fertility is build their homes over prehistoric landfills, they plant their orchards funerary urn lid from the Guarita phase in the ruins of a leprosarium built on an archeological site. Previous pages: funerary urns in Maracá (amapá
a treasure. Mrs. Raimunda Braga, 79, from Paricatuba in Amazonas State, on fertile Black Soil, they still love their good old açaí – just like the State): head-shaped lids and drawings indicate the gender of the dead
explains: “All kinds of crop do well on Black Soil. The soil there is moister, Marajoaras, who left traces of this fruit on plates manufactured many
it takes longer to dry out. And if you don’t have fertilizer, plants are lush centuries ago. based her studies in the Santarém area, in Pará State. According to her, found date back from the 1500s to the 1700s, when they ceased to appear.
all the same.” Those who protect this heritage, in fact, are also the locals – even current dwellers of nonurban areas in the Amazon have also inherited It is highly probable that the Tapajós were decimated through contacts with
though they probably do not know exactly how to appraise what they the same worldview from their ancestors – or the way how they relate to white men. Before that, they produced intriguing pieces with appliqués
culTural HeriTage have on their hands. It is often commonplace to find archeological their environment, time, space, life, and death. Their relation to everything shaped as animals – certainly mythical references – and figurines with
The mud at Mexiana is also dark, and it spreads on acres on end. You artifacts. They can be adornments jutting from elevations after some natural seems to have not changed over the past few centuries, and the human faces, in whose fragments researchers find clues to the political
feel, all of a sudden, as if the whole world had been transformed into stronger rain, funerary urns revealed by ebb tides, or hatchets lost in same can be said about their relation to what is supernatural. Therefore, power relations in the area. The Tapajós may have been organized as a
that gray mud sucking you in like quicksand. Holding our photographic a corner of a backyard. You usually see such objects as decorations in mythological beings present in vessels used in rituals – such as serpents, cacicado: as well as their own local chiefs, their tribes had also regional
equipment high above our heads, we realize, terrified, that the mud was homes or in the hands of local children, who play with them. It does jaguars, and lizards – are part of popular Amazon imaginary to this day. chiefs, in a power model that extended over large and peripheral spaces.
up to our hips. A moment of despair: we consider giving up and spending not mean they disregard their past. Mr. Amâncio, who lives in Iranduba, “For me, they are constantly reinventing themselves,” says Ms. Gomes. This hypothesis, suggested by American archeologist Anna
the night in the jungle, waiting for the flood tide. The jungle, however, fifteen miles from Manaus, near an archeological site that attracts a “They keep on using native peoples’ technologies and, on the other hand, Roosevelt – who started her studies in Pará State in the 1980s – is
at this point was just as far away as our metal boat: there would be no large number of researches, expresses his interest: “I would be pleased if they recreate cultural traditions.” highly regarded when we talk about the Tapajós. Today, we can
great difference in pressing forward or turning back again. With half of they told me the history of things, everything is a mystery. We don’t live find archeological sites not only in isolated communities, but also in
our bodies burning with the afternoon’s scorching sun and the other half exclusively in the present; we live from the past too.” indian cHiefs and locals downtown Santarém, where people’s daily lives are intertwined with
plunged in the mud, we realized, astonished, that the local young men The heritage of prehistoric ancestors is not limited to material culture, Her area of study is another location where you literally stumble on shadows from unknown ancestors. Great-granddaughter of American
who were escorting us did not see any problem in that whatsoever. They Denise Maria Cavalcante Gomes reminds us. She holds a postdoctorate archeological artifacts all the time: Santarém is a treasure trove of the president Theodore Roosevelt, Ms. Roosevelt has given a key contribution
simply knew how to walk in that deep mud. How? degree in archeology from Universidade Federal do Rio de Janeiro and Tapajós, a group that occupied this area before 1000 CE. Many pieces to Amazon archeology by stating that peoples living in the region before

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Barranco de várzea à beira do rio Solimões, na área de 900 quilômetros quadrados compreendida pelo Projeto amazônia central: mais de cem sítios
arqueológicos identificados a lowland bank by rio Solimões, in the 220,000-acre area comprised by Projeto amazônia central: over one hundred
identified archeological sites

the European discovery created complex societies in permanent heavily Artístico Nacional – Brazil’s Historic and Artistic Heritage Institute), and
populated communities. Universidade de São Paulo’s Museu de Arqueologia e Etnologia (MAE).
Most of her conclusions, however, are contested by active archeologists Over the past few years, a team of MAE educators has been
in the Amazon today. Ms. Gomes’ research, for instance, shows that introducing activities in communities involved with PAC studies. They
traces of Tapajós’ pottery are concentrated in a smaller area than that realized it is not enough to explain to people who live near archeological
estimated by Ms. Roosevelt, suggesting that the reach of their regional sites why an artifact is important. They have to provoke in them some
chiefs’ powers was not as great as the American archeologist thought. The kind of identification with that unknown past, so that they can believe it
idea that the Amazon societies’ complexities could have migrated to the was really important. On the other hand, they have to listen to what the
Andes, originating pre-Columbian civilizations, is also discarded. The same locals have to say and understand how their system of values works. Carla
can be said about a hypothesis Betty Meggers presented decades ago: Gibertoni, the team’s coordinator, says: “It is work for a whole lifetime!”
that the Andean peoples could have migrated to Pará State, where they The only way for it to work is through the dedication of many
“degenerated” and formed the Tapajós and the Marajós. researchers from different scientific fields. As for us, stuck midway
Informamos a quem criou o mundo que
Now we have to advance our fieldwork if we want to see more between dry land and the waters in the largest river on Earth, we will
clearly this past that did not get lost thanks to deeper studies over the have to find new encouragement to get to our boat. We are covered a retrato falado continua disposta a fazer
past few decades. “Only through intensified research will we be able to in mud almost up to our waists, with aching legs, tired to our bones. o que é preciso para um mundo melhor.
clarify the main issues about the Amazon’s distant past,” says Eduardo However, our equipment is safe and now we believe archeologists
Góes Neves. Investments in education are also fundamental: issues such must be heroes somehow – even though they are more academic than
as artifact trade – which is banned – or destruction of archeological adventurers in many cases. Our reward was a dinner, in a home with no
Infelizmente o mundo não se
sites must extrapolate academic papers and get to the people who electric lights, of a large plate of freshwater shrimp, with an amount of
resolve no tratamento de imagem.
actually live this reality. This work is still incipient – due to the region’s protein enough to sustain us for many days. And surrounded by children
Felizmente um bom tratamento de
extension – but there are organizations committed to it, such as Belém’s who are growing up within Amazon wisdom. As far as we can tell, this
imagem pode ajudar a fazer o
Museu Paraense Emílio Goeldi, Iphan (Instituto do Patrimônio Histórico e wisdom comes from afar. O
seu mundo melhor.
11 3031-8177
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