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Síndrome de Tourette: entender para aceitar

Por Jéssica Rodrigues Lima
Acadêmica de Jornalismo do CEULP/ULBRA

Em 1825 a Síndrome de Tourette foi descrita pela primeira vez, pelo médico francês Jean Marc Gaspard
Itard, responsável por diagnosticar a Síndrome na Marquesa de Diampierre. No entanto, foi apenas em 1884
que esta doença foi denominada Síndrome de Gilles de la Tourette, quando o estudante de Medicina Gilles
de la Tourette publicou um relato da patologia.

A Síndrome de Tourette é um distúrbio neuropsiquiátrico caracterizado por tiques múltiplos, motores ou
vocais e involuntários. Quase sempre, os tiques são de tipos diferentes e variam no decorrer de uma semana
ou de um mês para o outro. Em geral, eles ocorrem em ondas, com frequência e intensidade variáveis,
pioram com o estresse, são independentes dos problemas emocionais e podem estar associados a sintomas
obsessivo-compulsivos (TOC) e ao distúrbio de atenção e hiperatividade (TDAH). É possível que existam
fatores hereditários comuns a essas três condições. Porém a causa do transtorno ainda é desconhecida. Quem
possui essa Síndrome pode ter sérios prejuízos em sua autoestima e aceitação social.

Sintomas
Na maioria dos casos (80%), a manifestação clínica inicial da doença são tiques motores. Eles incluem
piscar, franzir a testa, contrair os músculos da face, abdominais e outros grupos musculares, balançar a
cabeça, além de movimentos mais complexos que parecem propositais, como tocar ou bater nos objetos
próximos. Porém são totalmente involuntários. Já os tiques vocais são ruídos não articulados, como tossir,
fungar ou limpar a garganta, e outros em que ocorre emissão parcial ou completa de palavras. É possível
ainda que em alguns casos (menos de 50%) o indivíduo apresente o uso involuntário de palavras e gestos
obscenos, formulação de insultos, repetição de um som, palavra ou frase dita por outra pessoa.

Diagnóstico
O diagnóstico da síndrome de Tourette é fundamentalmente clínico, baseado nos seguintes critérios:
 Presença de tiques motores múltiplos e um ou mais vocais durante a síndrome, não necessariamente
simultaneamente;
 Ocorrência de tiques diversas vezes ao dia, quase que diariamente, ou intermitentemente, por mais de
um ano;
 Com o passar do tempo, varia a localização anatômica, o número, a frequência, complexidade, tipo e
gravidade do tiques;
 Início na infância ou adolescência (antes dos 18 anos de idade);
 Inexistência de outras condições médicas que esclareçam os movimentos involuntários e/ou as
vocalizações;
 Testemunho ou registro de tiques motores e/ou vocais.

Tratamento
A síndrome de Tourette não tem cura, no entanto pode ser controlada através de Terapia Comportamental
Cognitiva, isto é, treinar o paciente para que monitore as sensações premonitórias e os tiques com a
finalidade de responder a eles com uma reação voluntária fisicamente incompatível com o tique. Em outras
palavras, é um tratamento de reversão de hábitos. Outra forma de tratamento é através de medicamentos
antipsicóticos. Eles ajudam na redução da intensidade dos tiques. Em tiques bem localizados a aplicação de
toxina botulínica (BOTOX), também é utilizada. Alguns autores defendem que, excepcionalmente, pode ser
indicado o tratamento cirúrgico com estimulação cerebral profunda, aplicada em certas áreas do cérebro.

Recomendações
O número de casos dessa doença tem sido crescente, provavelmente em consequência da difusão da
informação sobre a Síndrome entre as equipes de saúde. Se notar que seu filho apresenta alguma forma de
movimentos involuntários, especialmente nas fases iniciais da vida, não deixe de consultar um médico. Só
ele pode identificar se seu filho é portador da Síndrome de Tourette, ou se ele apresenta apenas tiques
nervosos comuns.
Se você conhece alguém que tem a Síndrome de Tourette, entenda que os comportamentos não são
voluntários ou maliciosos. Atitudes impulsivas, agressivas e autodestrutivas são características em muitos
portadores desse transtorno. Fazer movimentos bruscos e involuntários, falar obscenidades ou repetir
palavras imediatamente após ouvi-las é estressante não só para as pessoas próximas, mas principalmente
para quem tem a Síndrome.
O Cinema já retratou a vida de quem sofre da Síndrome de Tourette. Inspirado em uma história real, o filme
“O primeiro da classe” ou “O líder da classe” conta o drama familiar de um homem que desafiou a todos
para se tornar um excelente professor. Vale a pena conferir.
“Minha amiga constante [a tourette] me dizia para eu não ter muitas esperanças, mas ter esperança é um
hábito difícil de se deixar” (Primeiro da classe)



Veja também o trailer de um premiado documentário produzido pela HBO, em conjunto com a TSA
(Associação Americana de Síndrome de Tourette), no qual 12 crianças com Síndrome de Tourette relatam as
dificuldades que enfrentam no dia a dia para serem aceitas e compreendidas. A proximidade entre as
dificuldades enfrentadas por estas crianças e as dificuldades enfrentadas por crianças com gagueira é
inescapável. O trailer está em inglês, mas o YouTube tem o recurso de transcrever o vídeo para português.
Confira: Síndrome de Tourette em Crianças.
“Eu tenho Tourette, mas... o Tourette não me tem”.