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ISSN 1980-4024

Revista LOGOS São José do Rio Pardo , n.20 ----. !"#$o 2012

MALBA TAHAN – Unindo a Matemática e Pedagogia em uma só
linguagem
BRUNO HENRIQUE RIBEIRO MANTOVANI
MÁRIO DA SILVA NETO
Orientador:
Prof.Ms. Alexandre Henrique De Martini

1 – INTRODUÇÃO
O objetivo central desta pesquisa bibliográfica é apresentar a importância da metodologia
pioneira criada pelo matemático brasileiro Júlio César de Mello e Souza, mais conhecido por
Malba Tahan, para o desenvolvimento do ensino da Matemática, e também passar um pouco aos
leitores como nasceu esse personagem. Ele foi um matemático que utilizou um método de escrita e
um método de ensino, unindo a matemática e a pedagogia, onde seus conceitos eram trabalhados de
uma forma diferente, estabelecendo uma correlação entre essas duas ciências, fazendo com que
seus alunos tivessem a sua autonomia desenvolvida, ou seja, não expondo apenas números e
fórmulas, mas sim usufruindo dessa parceria e criando jogos e enigmas de alto raciocínio lógico,
despertando a curiosidade e facilitando o entendimento. Sua metodologia de ensino inspirou a
escolha deste tema.
Em um momento onde os alunos têm acesso a tantas informações e a tecnologia avança a
cada dia, faz-se necessário a discussão dos métodos de ensino atuais, é importante que eles sejam
capazes de atrair a atenção e despertar o interesse dos alunos, e neste sentido, o trabalho de Malba
Tahan nos mostra que há várias formas de dar a matemática um aspecto diversificado, fazendo com
que seja gostoso e atrativo para os alunos, pois é uma matéria que, desde que o aluno inicia na
escola, já é vista como a mais difícil e que exige um maior raciocínio lógico, causando um certo
tipo de medo na grande maioria, além do fato de ela também ser conhecida por ser uma matéria que
só se aprende praticando, e foi com esse pensamento, de usar o raciocínio lógico com a prática, que
Malba Tahan entra com a sua metodologia única e inovadora, onde usufruía da imaginação e
curiosidade, despertando o interesse dos alunos, e mesmo com alguns alunos errando algum tipo de




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exercício ou enigma por ele criado, nunca ficava incomodado com erros, porque sabia que a
matemática tinha que ser descoberta e os erros ajudavam a descobri-la.
Atualmente os métodos de ensino da matemática estão evoluindo, mas é uma evolução
lenta. Os métodos de Malba Tahan eram vistos como conceitos muito acima da época em que ele
vivia, e na realidade eram mesmo, pois naquela época o estudo era monótono, tudo era visto da
mesma maneira, não haviam inovações, e sem essas inovações muitas vezes os alunos não tinham
uma alta compreensão da matéria. Com a evolução da matemática e com os métodos de ensino
atuais, a matemática, ainda é vista como uma das matérias mais complexas, entretanto ela se torna
cada vez mais importante no nosso cotidiano, pois vivemos em uma época em que a matemática é o
primeiro passo para muitas profissões, e não podemos descartar que essa pequena evolução que
vem ocorrendo só está sendo possível devido ao auxílio dos conceitos inovadores de Malba Tahan
e de vários outros matemáticos e pedagogos que se empenharam no passado, visando sempre uma
forma de ensinar mais simples e mais eficiente.
Talvez o que deixou Malba Tahan mais conhecido não tenha sido apenas a sua
metodologia, é claro que isso contribuiu muito, mas os seus livros, principalmente o mundialmente
conhecido “O Homem que Calculava”, é que realmente trouxeram para o público o nome de Malba
Tahan. Mas não é só desta obra que ele ficou conhecido, muitos outros livros também chamavam a
atenção das pessoas, principalmente aqueles em que ele citava as belas histórias das arábias.
2 - A VIDA DE JÚLIO CÉSAR DE MELLO E SOUZA
O que pouca gente sabe, é que antes de se tornar um escritor famoso, Malba Tahan era
apenas Júlio César de Mello e Souza, um menino nascido no Rio de Janeiro que detestava a
matemática e por pouco não se tornou um militar. Este capítulo tratará de sua vida.
2.1 – FAMÍLIA E INFÂNCIA
Júlio César de Mello e Souza nasceu na cidade do Rio de Janeiro em 6 de maio de 1895.
Sua família veio de Portugal para o Brasil por volta de 1755. Quando seu avô, Comendador
Francisco José de Mello e Souza faleceu, a família entrou em decadência. João de Deus de Mello e
Souza – pai de Júlio César – trabalhava como escriturário em uma fábrica no Rio de Janeiro, local
onde conheceu Antônio Cinino, que fez um convite para João mudar-se para a cidade de Queluz no




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interior de São Paulo, para trabalhar no Ministério da Justiça. No ano de 1882, em Queluz, João
fundou juntamente com seu irmão Irineu o “Colégio João de Deus”, um internato. Nessa mesma
época, conheceu e se casou com Carolina Carlos de Mello e Souza, professora, e juntos fundaram a
primeira Escola Pública da cidade. Com a crise do café em 1889, o Internato teve de ser fechado.
Em 1891, já com três filhos, o casal mudou-se para o Rio de Janeiro, onde permaneceram por seis
anos. Em 1897, com seis filhos (entre eles Júlio César), a família passou por uma dificuldade
financeira e teve de voltar a Queluz, onde Júlio César passou sua infância. O casal teve nove filhos,
dos quais seis dedicaram sua vida ao magistério.(VILLAMEA,1995, p.11)
Desde pequeno, Júlio César tinha suas manias, algumas completamente malucas, como
manter uma coleção de sapos vivos. Quando vivia em Queluz, às margens do Rio Paraíba do Sul,
Júlio César chegou a juntar mais de 50 sapos no quintal de sua casa, inclusive um de seus sapos
tinha o costume de acompanhá-lo por suas andanças na região. Quando adulto, o professor Júlio
César continuou a coleção, mas agora com exemplares de madeira, louça, metal, jade e cristal. As
relações de Júlio César com a família e histórias de sua infância em Queluz foram descritas mais
tarde por seu irmão João Batista, no livro “Meninos de Queluz”. (VILLAMEA, 1995, p.12)

Figura 1 – Casa da família Mello e Souza construída em 1860 em Queluz - SP
(Fonte: http://portalqueluz.blogspot.com/2011/03/nos-169-anos-de-queluz-lhe-ofereca-
um_02.html)
Quando completou dez anos de idade, o pai de Júlio César decidiu mandá-lo ao Rio de
Janeiro para que o menino pudesse preparar-se para ingressar no Colégio Militar. No ano de 1906,
Júlio César ingressou no Colégio Militar do Rio de Janeiro, onde ficou por três anos, até 1909,




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quando se transferiu para o Colégio Pedro II, onde era um desastre completo com os números.
Nessa época, com treze anos, seu boletim registrou um vermelho, uma nota dois, em Álgebra, e
também um cinco, em uma prova de Aritmética, por outro lado, era excelente aluno em Língua
Portuguesa, e até vendia redações para seus colegas de classe. Certa vez o professor pediu para que
os alunos fizessem uma redação com o tema esperança, e Júlio teve de fazer várias, pois os colegas
o pagavam para que ele fizesse as redações. A partir desse dia, começou a fazer redações sob
encomenda para os colegas. Ele também criticava muito a didática utilizada naquela época,
classificando-a como “o detestável método da salivação”. No Colégio Pedro II, ainda como
estudante, começou suas atividades como servente e auxiliar da Biblioteca Nacional.
Posteriormente concluiu o curso de Magistério de professor primário na Escola Normal, do antigo
Distrito Federal, e em 1913, graduou-se em Engenharia Civil pela Escola Politécnica.
Em 1925, Júlio César casou-se com Dona Nair de Mello e Souza, que fora sua aluna de
Geometria na Escola Normal. Eles tiveram três filhos: Rubens Sérgio de Mello e Souza, Sônia
Maria de Mello e Souza e Ivan Gil de Mello e Souza. (VALENTIM, 2010, p.33)


Figura 2 – Colégio Pedro II - RJ
(Fonte: http://www.dipity.com/robsomat/Malba_Tahan)
2.2 – O COMEÇO COMO PROFESSOR




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Como professor, Júlio César lecionou no Rio de Janeiro no Colégio Pedro II, na Escola
Normal, na Faculdade Nacional de Educação (onde recebeu título de Professor Emérito), no
Instituto de Educação e na Escola Normal da Universidade do Brasil. Antes de dedicar-se à
Matemática, Júlio César foi professor de História, Geografia e Física. Em 1913, assumiu como
professor turmas suplementares do externato do próprio Colégio Pedro II. Durante quatro anos foi
professor em escolas públicas, e de 1925 a 1930 foi professor do Serviço Nacional de Assistência
aos Menores (SAM), uma entidade que atendia a menores carentes, na escola João Luiz Alves. Foi
aprovado em concurso público, e trabalhou durante doze anos como professor de matemática na
escola Pedro II. Deu aula também no Instituto de Educação do Rio de Janeiro, ministrando aulas de
Matemática, Literatura Infantil e Folclore. Foi nessa escola que ele ”inventou” uma nova
disciplina: A Arte de Contar Histórias. Como professor, não dava nota zero pra ninguém e nem
reprovava seus alunos “Por que dar nota zero se há tantos outros números? Dar zero é uma tolice”
dizia ele. Fazia com que os melhores alunos da sala ajudassem os mais fracos. “Em junho, julho, já
estavam todos na média”, disse certa vez em um depoimento ao Museu de Arte e Som. Em seu
livro: “Antologia da Matemática” relatou: “ Deve-se ensinar bem o fácil, o que é básico e
fundamental; insistir nas noções conceituais importantes; obrigar o estudante a ser correto na
linguagem, seguro e preciso em seus cálculos, impecável em seus raciocínios”. Trabalhava em sala
de aula com estudo dirigido, manipulação de objetos, sempre defendendo o uso de jogos. Dizia que
o caderno deveria “refletir a vida do aluno”, fazendo com que assim os alunos mantivessem seus
cadernos organizados, para que eles pudessem colar figuras, gravuras, recortes de jornais e revistas,
assim usando a ilustração como uma bela maneira de aprendizagem. Também propôs a criação de
laboratórios de matemática em todas as escolas, pois dizia que a garotada precisava “ver a
matemática com os dedos”. Eis aqui a sua ideia: “As demonstrações, os problemas, as equações,
certos conceitos teóricos são ensinados por meios concretos, figuras, filmes e materiais
pedagógicos”. Nesta mesma época em que começou a lecionar, Júlio fez também um curso de
teatro, e além de professor, tornou-se também ator, e isso contribuiu muito para suas aulas, pois
conseguia com facilidade prender a atenção de seus alunos. Algumas pessoas que conviveram e
participaram de suas aulas afirmam que ele estava muito além de seu tempo, e que o resgate de seu
modo de trabalhar talvez possa revolucionar o ensino atual no Brasil, e também eliminar várias
repetências que acontecem pelo uso do método tradicional. (VILLAMEA, 1995, p.12)





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Figura 3 - Júlio César entre seus alunos
(Fonte:
http://www.record.com.br/malbatahan/imagens/conteudo/fotos_professor_m2c.jpg)

2.3 – RECONHECIMENTO NACIONAL
Com seus métodos, Júlio César conseguiu revolucionar o ensino da época, no entanto foi
muito criticado e contestado pelos seus colegas de trabalho que eram tradicionalistas. Tinha muito
carisma, e conseguia conquistar seus alunos com suas fabulosas histórias, foi um caso raríssimo de
professor que se tornou tão famoso quanto um ator de cinema, ou um jogador de futebol. Sua fama
como pedagogo se espalhou e ele era convidado para palestras em todo o Brasil, no total foram
mais de duas mil palestras em território nacional. Nos dias de hoje, onde os métodos de ensino
ainda são muito contestados por muitas pessoas, vários professores buscam se espelhar nos
métodos de Júlio César, seja usufruindo de sua didática exclusiva, ou então contando uma de suas
histórias mirabolantes. E isso só faz com que sua fama cresça em todo o país. "Seu grande
pioneirismo foi fazer a amarração com a literatura", disse o matemático e editor da Scipione,
Valdemar Vello, e completou: "Ele usava a literatura para relacionar os conceitos matemáticos com
as questões do cotidiano. São as situações da vida humana que dão significado aos números e
cálculos.
Júlio César também trabalhou como apresentador das rádios Clube, Nacional e Mairynk
Veiga do Rio, e da TV Tupi (Rio de Janeiro) e Canal 2 (atual TVC – São Paulo). (VALENTIM,
2010, p.34)




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2.4 – O COMEÇO DA VIDA DE ESCRITOR
Ainda no Rio de Janeiro, por volta do ano de 1919, Júlio César trabalhou no jornal carioca
O Imparcial, onde, certo dia entregou ao editor, cinco contos que ele próprio havia escrito. O editor
não deu muita bola para os contos, que ficaram jogados em cima da mesa da redação, então, Júlio
César, sem fazer nenhum comentário, pegou o seu trabalho de volta. No dia seguinte, trouxe os
mesmos contos, mas com outra autoria, ao invés de assinar com seu próprio nome, assinou como R.
S. Slade, um fictício escritor americano que ele próprio criara. Disse também que havia acabado de
traduzi-los e que estavam fazendo o maior sucesso em Nova York. No outro dia, um dos contos:
“A Vingança do Judeu”, foi publicado na primeira página do jornal. O mesmo caminho seguiram
os outros quatro contos. Sendo assim, Júlio César aprendeu a lição, e decidiu que se utilizaria de
um pseudônimo para assinar as suas obras. (VALENTIM, 2010, p.33)
Em toda sua carreira, o escritor publicou cerca de 120 livros, contrariando muitas pessoas
que pensavam que ele era um matemático puramente algebrista, com o nome de Júlio C. M. Souza,
publicou os livros “Geometria Analítica” e “Trigonometria Hiperbólica”, além de outros como
“Funções Modulares”. Já com o pseudônimo de Malba Tahan, publicou “Didática da Matemática”,
“Antologia da Matemática”, além de muitos outros livros paradidáticos, entre eles sua obra mais
famosa “O Homem que Calculava”. Também fez várias parcerias com outros matemáticos
brasileiros como: Euclides Roxo, Célia Moraes, Jairo Bezerra e Cecil Thiré. Foi também um orador
maravilhoso, tendo em sua vida mais de duas mil conferências no Brasil. (VALENTIM, 2010,
p.34)
Viveu sem se dar conta do patrimônio cultural que estava construindo. Certo dia, em um
depoimento ao Museu da Imagem e do Som, declarou que se sentia profundamente arrependido de
não ter ouvido seu pai e ter seguido a carreira militar. "Eu estaria hoje marechal, calmamente de
pijama, em casa, não precisaria estar me virando na vida", disse ele. (VILLAMEA, 1995, p.13)




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Figura 4 - Júlio César de Mello e Souza na juventude
(Fonte: http://a4.idata.over-blog.com/210x300/2/38/32/66/Dichter_18/Souza.jpg)

2.5 – SOLIDARIEDADE, MORTE E HOMENAGENS
Júlio César tinha também algumas outras preocupações. Ele sempre se entregou de corpo e
alma à causa das vítimas da lepra, os hansenianos. Sem nenhum tipo de preconceito, Júlio César
editou durante 10 anos a revista Damião, que lutava pelo reajuste social desses hansenianos, a qual
era enviada para os leprosos do Brasil e Portugal. Ele tinha uma dedicação tão grande com esses
doentes, que no seu testamento, pediu que no dia de sua morte, lessem uma última mensagem de
solidariedade para os hansenianos, à beira de seu túmulo. Um de seus livros: “O mistério do
Mackenzista” aborda muito essa questão. (VALENTIM, 2010, p.34)




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Figura 5 - Júlio César de Mello e Souza
(Fonte: http://www.record.com.br/malbatahan/imagens/conteudo/fotos_retratos_p31.jpg)
Em junho de 1974 foi convidado pela Secretaria de Educação de Pernambuco a ministrar
duas palestras no colégio Soares Dutra do Recife: “A Arte de Contar Histórias” e “Jogos e
Recreações”. Por volta das 5h 30min do dia 18 de junho, quando acabara de voltar para o hotel Boa
Viagem em Recife, depois de uma noite de palestras, se sentiu mal e morreu nos braços de sua
esposa, e teve como causa-mortis edema pulmonar agudo e trombose coronária. Seu corpo foi
sepultado no Rio de Janeiro, no cemitério São Francisco Xavier. Havia recomendado para que as
pessoas não usassem luto por causa de sua morte, citando o compositor Noel Rosa: “Roupa preta é
vaidade/para quem se veste a rigor/ o meu luto é a saudade/ e a saudade não tem cor”.
No ano de 1995, em homenagem aos cem anos de seu nascimento, a Câmara Municipal da
cidade de São Paulo e a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro criaram o Dia da Matemática,
que é comemorado todo ano em 6 de maio, data de seu nascimento, através de eventos, trabalhos,
feiras, teatro, leituras, exposições escolares e outras atividades. Seu heterônimo, Malba Tahan,
também dá nome a uma escola no Rio de Janeiro, e a um teatro em São Bernardo do Campo – SP.
(OLIVEIRA, 2001, p.26)

3 – MALBA TAHAN




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Por volta de 1918, o então colaborador do jornal O Imparcial, Júlio César de Mello e Souza
resolveu que iria criar um pseudônimo para assinar suas obras, então mergulhou nos estudos sobre
a cultura e a língua árabe, leu o Talmude e o Alcorão e teve aulas de árabe com o Dr. Jean Achar.
Durante sete anos, enquanto se dedicava aos estudos, publicava de vez em quando alguns contos
nos jornais onde era colaborador. Somente em 1925 conseguiu publicar seu primeiro livro, que
continha seus melhores contos publicados, o livro chamava-se “Contos de Malba Tahan”, e foi
editado pela Lux Editora do Rio de Janeiro. Foi então que, juntamente com Irineu Roberto Marinho
(fundador das Organizações Globo), criou o personagem Malba Tahan. A partir daí o Brasil passou
a conhecer quem era realmente Malba Tahan. Ali Yezid Izz-Edin Ibn-Salin Hank Malba Tahan, era
o nome do autor-personagem que Júlio César havia criado para assinar suas obras. (VALENTIM,
2010, p.38)
3.1 – O HETERÔNIMO MALBA TAHAN
Malba Tahan possuía uma característica diferente, que conseguia e ainda consegue
encantar vários outros escritores, como ele próprio descreve em seu livro “Lendas Orientais”, o
depoimento de Humberto de Campos:
Árabe ou não, nascido nos arrabaldes da metrópole do Islam, quando sua
família ali se achava em peregrinação, ou natural de Queluz, em São Paulo, de
onde veio, quando pequeno ainda, para o Rio de Janeiro _ o certo é que o Sr.
Malba Tahan é, hoje, um dos escritores mais populares do Brasil. (COSTA,
1942, p.72)

E também nos comentários de Norival de Aguiar:
Fino, asseado, sentimental, dando às suas adoráveis historietas o típico sabor
das coisas do Oriente, esse mago de pena de ouro, fantasioso e sutil, seduziu
toda gente. E, aqui ficou. Mas, ninguém sabe, afinal, quem seja esse enigmático
“servidor de Alá”, que por ai anda. Homem ou mulher? Mulçumano ou francês?
Russo ou espanhol? Alemão ou chileno? E quem nos garante não ser ele um
pacatíssimo cidadão brasileiro? (COSTA, 1942, p.45)

Já o professor Frederico Arditi descreve o Oriente como uma “sedução contínua e
fantástica” que se alia ao real de uma maneira que não se sabe onde inicia a realidade ou onde
acaba a ilusão descrevendo em seu comentário sobre a feliz escolha do pseudônimo, Malba Tahan,
por Júlio César e considera a alma oriental misteriosa e desconhecida.




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Existem várias contradições sobre seu nome, mas o que ele próprio considera é que Malba
é um oásis, e que Tahan, nome que ele copiou de uma de suas alunas: Maria Zechsuk Tahan,
significa moleiro, isto é, aquele que prepara o trigo. Entretanto, filólogos e arabistas tem uma
divergência sobre o significado da palavra Malba, alguns dizem ser um pequeno oásis no Iêmen,
outros dizem que significa aprisco, ou seja, toca ou esconderijo de ovelhas, e ainda tem os que
dizem que Malba é o nome de uma raiz de uma planta de onde se extrai uma farinha. Mas, como se
sabe, o significado mais aceito para Malba Tahan é “moleiro de Malba”. Para completar, Ibn
significa filho, e Hank novelo ou meada, concluindo então: Filho de Salin meadeiro moleiro de
Malba. Em alguns de seus livros, seu nome vem precedido das palavras el-hadf, que é uma
atribuição a quem já fez peregrinação a Meca, e cherif, que é como são chamadas as pessoas
nobres. (VALENTIM, 2010, p.37)
A numerologia no nome de Malba Tahan é levada em consideração pelo escritor
maranhense José Cloves Verde Saraiva, em seu livro intitulado “Malba Tahan Visita São Luis e
Outras Histórias”, onde ele comenta várias histórias de Malba Tahan e faz a seguinte observação
sobre o seu pseudônimo:
Observando detalhes no pseudônimo completo pelo Prof. Júlio César, Ali Iezid
Izz-Edin Ibn Salin Hank Malba Tahan, este contém 8 palavras sequenciadas em
3,5,7,3,5,4,5,5 perfazendo um total de 37 letras e mais um sinal(-). Dentre as 13
letras usadas neste nome, a frequência com que elas aparecem é a seguinte: 7A,
3L, 7I, 2E, 3Z, 2D, 5N, 2B, 1S, 2H, 1K, 1M, 1T. Dentre as 37 letras no nome
completo a que ocupa o centro, é a letra S (Salvador), ficando ladeada pelas 18
outras. De início, pensava uma estranha correspondência entre as letras do nome
com as iniciais dos nomes, das personagens do quadro A Santa Ceia de
Leonardo da Vinci (T, Tomé; M, Mateus; A, André; etc...). Nas joias gnósticas
trazem o nome de Deus com 13 letras: ABLNA TH ANALBA. Muito sugestivo
observando TH ANALBA em confronto com MALBA TAHAN, fato que pode
ser mais profundamente investigada nas obras do autor, onde é notório seus
conhecimentos das lendas sagradas esotéricas e a busca de ser um cristão
perfeito. (SARAIVA, 2008. p.17)

Júlio César e Malba Tahan eram tão ligados que certas vezes podíamos confundir autor
com obra. Malba Tahan fez tanto sucesso, que mesmo após a revelação de seu verdadeiro nome
(que ficou em sigilo por oito anos), o então presidente do Brasil, Getúlio Vargas, decretou que a
justiça introduzisse o nome Malba Tahan em sua carteira de identidade, inclusive, seu carimbo de
visto, que usava nos trabalhos que conferia, possuía o nome Malba Tahan escrito em caracteres
árabes. (SIQUEIRA FILHO, 2008, p.29)




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Figura 6 – Identidade de Júlio César já com o pseudônimo Malba Tahan
(Fonte: http://www.record.com.br/malbatahan/imagens/conteudo/fotos_docs_idmalba01.jpg)
3.2 – O PERSONAGEM MALBA TAHAN
Ali Yezzid Izz-Edin Ibn-Salin Hank Malba Tahan foi um grande e famoso escritor árabe,
descendente de uma tradicional família muçulmana, nascido no dia 6 de maio de 1885, na aldeia de
Muzalit, perto da antiga cidade de Meca. Malba Tahan fez seus primeiros estudos no Cairo, capital
do Egito, e posteriormente mudou-se para Constantinopla, onde concluiu seu curso de Ciências
Sociais. Também nessa época foram escritas suas primeiras obras literárias, que foram publicadas,
em idioma turco, em diversos jornais e revistas. A convite de seu amigo, o Emir Abd el-Azziz bem
Ibrahin, exerceu durante vários anos, o cargo de quaimaçã, que corresponde atualmente ao cargo de
prefeito, na cidade de El-Medina. Conseguiu, por diversas vezes, evitar graves incidentes entre os
peregrinos e autoridades locais. Em 1912, quando seu pai morreu, Malba Tahan tinha 27 anos, e
recebeu uma grande herança, então abandonou o cargo que exercia na cidade de El-Medina e
iniciou uma longa viagem através de várias partes do mundo, atravessou a China, visitou o Japão, a
Rússia e a Índia, observando costumes e estudando as tradições dos diferentes povos. Entre suas
obras mais famosas e notáveis, estão as seguintes: Roba-el-Khali, Al-Samir, Sama Ullah, Maktub,
Lendas do deserto, Martyres da Armênia e muitas outras. Foi ferido e morto em combate em julho
de 1921, aos 37 anos, nas proximidades de El-Riad, enquanto lutava pela liberdade de uma tribo da
Arábia Central.
Esta biografia foi elaborada e descrita na introdução do livro Minha vida querida. É
relatado que esta biografia foi retirada de um suposto livro Cresmothie árabe do Dr. A. Van
Gennep. (TAHAN, 1961, p.02)




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Figura 7 – Malba Tahan vestido nos trajes das Mil e Uma Noites
(Fonte: http://www.planetaeducacao.com.br/portal/imagens/artigos/amais/malba_01.jpg)
4 – OBRAS E DESAFIOS
Malba Tahan foi um genial escritor. Conseguia com suas obras unir a matemática e a
literatura, conquistando assim um imenso público em todo o país e em todo o mundo, pois algumas
de suas obras foram para fora do Brasil. No Brasil ganhava elogios de várias personalidades, e
escritores, como Monteiro Lobato. Algumas de suas maiores obras e contos são citadas a seguir.
4.1 – O HOMEM QUE CALCULAVA - O PROBLEMA DOS
CAMELOS
Júlio César, ou Malba Tahan (como preferir), nunca visitou o Oriente, nunca pisou nas
areias do deserto (como contam suas histórias), ele só saiu do Brasil para visitar Lisboa,
Montevidéu e Buenos Aires. Com o pseudônimo de Malba Tahan publicou 56 livros, divididos em
diversos tipos. Seus livros tratam de matemática, didática, contos orientais, contos infantis, moral
religiosa, teatro, temas brasileiros, etc. Sua obra preferida se chamava “A Sombra do Arco-Íris”,
mas com certeza seu título mais famoso foi “O Homem que Calculava”, que foi publicado pela
primeira vez em 1939 e já está na sua edição número 79 e também já foi premiado pela Academia
Brasileira de Letras. “O Homem que Calculava” já vendeu mais de dois milhões de cópias em todo
o mundo e foi traduzido para inglês (Inglaterra e Estados Unidos), italiano, espanhol e catalão, e
em vários países é indicado como livro paradidático. Malba Tahan era tão cuidadoso com suas




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obras, que criou até um fictício tradutor, o professor Breno Alencar Bianco, cujo nome aparecia em
todas suas obras e foi escolhido em homenagem ao General Heitor Bianco de Almeida Pedroso,
amigo de Malba Tahan, pois como ele era árabe, precisava de alguém para traduzir suas obras para
português.
O livro “O Homem que Calculava” tem início com o narrador-personagem Hank Tade-
Maiá viajando com seu camelo de Samarra a Bagdá. No meio do caminho ele se depara com um
homem modestamente vestido, sentado em uma pedra, que toda hora se levantava e pronunciava
vagarosamente um número mirabolante. O bagdáli (como é chamado quem nasce em Bagdá e
como é tratado por diversas vezes no decorrer da história) ficou ali por alguns minutos observando
o jovem homem e logo se aproximou. Assim ele fica conhecendo Beremiz Samir, o homem que
calculava, que lhe conta a seguinte história:
Chamo-me Beremiz Samir e nasci na pequenina aldeia de Khói, na Pérsia, à
sombra da pirâmide imensa formada pelo Ararat. Muito moço ainda,
empreguei-me como pastor a serviço de um rico senhor de Khamat. Todos os
dias ao nascer do sol levava para o campo o grande rebanho e era obrigado a
trazê-lo ao abrigo antes de cair a noite. Com receio de perder alguma ovelha
tresmalhada e ser por tal negligência severamente castigado, contava-as várias
vezes durante o dia.
Fui assim adquirindo, pouco a pouco, tal habilidade em contar que, por vezes,
num relance, calculava sem erro o rebanho inteiro. Não contente com isso,
passei a exercitar-me contando os pássaros quando, em bandos, voavam pelo
céu afora. Tornei-me habilíssimo nessa arte. Ao fim de alguns meses - graças a
novos e constantes exercícios - contando formigas e outros pequeninos insetos,
cheguei a praticar a proeza incrível de contar todas as abelhas de um enxame!
Essa façanha de calculista, porém, nada viria a valer diante das muitas outras
que mais tarde pratiquei! O meu generoso amo possuía, em dois ou três oásis
distantes, grandes plantações de tâmaras e, informado das minhas habilidades
matemáticas, encarregou-me de dirigir a venda de seus frutos, por mim
contados nos cachos, um a um. Trabalhei assim ao pé das tamareiras cerca de
dez anos. Contente com os lucros que obteve, o meu bondoso patrão acaba de
conceder-me quatro meses de repouso, e vou agora a Bagdá, pois tenho desejo
de visitar alguns parentes e admirar as belas mesquitas e os suntuosos palácios
da cidade famosa. E para não perder tempo, exercito-me durante a viagem,
contando as árvores que ensombram esta região, as flores que a perfumam, os
pássaros que voam no céu entre nuvens.
E, apontando para uma velha e grande figueira que se erguia a pequena
distância, prosseguiu:
- Aquela árvore, por exemplo, tem duzentos e oitenta e quatro ramos. Sabendo-
se que cada ramo tem, em média, trezentas e quarenta e sete folhas, é fácil
concluir que aquela árvore tem um total de noventa e oito mil quinhentas e
quarenta e oito folhas! Estará certo, meu amigo?




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- Que maravilha! - exclamei atônito. - É inacreditável possa um homem contar,
em rápido volver d'olhos, todos os galhos de uma árvore e as folhas de um
jardim! Tal habilidade pode proporcionar a qualquer pessoa seguro meio de
ganhar riquezas invejáveis!
- Como assim? - estranhou Beremiz. - Jamais me passou pela ideia que se
pudesse ganhar dinheiro contando aos milhões folhas de árvores e enxames de
abelhas! Quem poderá interessar-se pelo total de ramos de uma árvore ou pelo
número do passaredo que cruza o céu durante o dia?
- A vossa admirável habilidade - expliquei - pode ser empregada em vinte mil
casos diferentes. Numa grande capital, como Constantinopla, ou mesmo
Bagdá, sereis auxiliar precioso para o governo. Podereis calcular populações,
exércitos e rebanhos. Fácil vos será avaliar os recursos do país, o valor das
colheitas, os impostos, as mercadorias e todos os recursos do Estado.
Asseguro-vos - pelas relações que mantenho, pois sou bagdali - que não vos
será difícil obter lugar de destaque junto ao glorioso califa Al-Motacém (nosso
amo e senhor). Podeis, talvez, exercer o cargo de vizir-tesoureiro ou
desempenhar as funções de secretário da Fazenda muçulmana!
- Se assim é, ó jovem - respondeu o calculista - não hesito. Vou contigo para
Bagdá... (TAHAN, 1996. p.15-17.)

E assim começa a jornada de Beremiz Samir e Hank Tade-Maiá. Pelo caminho encontram
vários desafios matemáticos, e muito curiosos, dos quais Beremiz faz questão de resolver.
Um dos desafios mais conhecidos do livro “O Homem que Calculava”, é a história dos
camelos, que será contada e comentada a seguir:

Poucas horas havia que viajávamos sem interrupção, quando nos ocorreu uma
aventura digna de registro, na qual meu companheiro Beremiz, com grande
talento, pôs em prática as suas habilidades de exímio algebrista.
Encontramos perto de um antigo caravançará1 meio abandonado, três homens
que discutiam acaloradamente ao pé de um lote de camelos.
Por entre pragas e impropérios gritavam possessos, furiosos:
- Não pode ser!
- Isto é um roubo!
- Não aceito!
O inteligente Beremiz procurou informar-se do que se tratava.
- Somos irmãos – esclareceu o mais velho – e recebemos como herança esses
35 camelos. Segundo a vontade expressa de meu pai, devo receber a metade, o
meu irmão Hamed Namir uma terça parte, e, ao Harim, o mais moço, deve
tocar apenas a nona parte. Não sabemos, porém, como dividir dessa forma 35
camelos, e, a cada partilha proposta segue-se a recusa dos outros dois, pois a
metade de 35 é 17 e meio. Como fazer a partilha se a terça e a nona parte de 35
também não são exatas?
- É muito simples – atalhou o Homem que Calculava. – Encarrego-me de fazer
com justiça essa divisão, se permitirem que eu junte aos 35 camelos da herança
este belo animal que em boa hora aqui nos trouxe!
Neste ponto, procurei intervir na questão:




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- Não posso consentir em semelhante loucura! Como poderíamos concluir a
viajem se ficássemos sem o camelo?
- Não te preocupes com o resultado, ó Bagdali! – replicou-me em voz baixa
Beremiz – Sei muito bem o que estou fazendo. Cede-me o teu camelo e verás
no fim a que conclusão quero chegar.
Tal foi o tom de segurança com que ele falou, que não tive dúvida em entregar-
lhe o meu belo jamal, que imediatamente foi reunido aos 35 ali presentes, para
serem repartidos pelos três herdeiros.
- Vou, meus amigos – disse ele, dirigindo-se aos três irmãos -, fazer a divisão
justa e exata dos camelos que são agora, como veem em número de 36.
E, voltando-se para o mais velho dos irmãos, assim falou:
- Deverias receber meu amigo, a metade de 35, isto é, 17 e meio.
Receberás a metade de 36, portanto, 18. Nada tens a reclamar, pois é claro que
saíste lucrando com esta divisão.
E, dirigindo-se ao segundo herdeiro, continuou:
- E tu, Hamed Namir, deverias receber um terço de 35, isto é 11 e pouco.
Vais receber um terço de 36, isto é, 12. Não poderás protestar, pois tu também
saíste com visível lucro na transação.
E disse por fim ao mais moço:
- E tu jovem Harim Namir, segundo a vontade de teu pai, deverias receber uma
nona parte de 35, isto é 3 e tanto. Vais receber uma nona parte de 36.
O teu lucro foi igualmente notável. Só tens a agradecer-me pelo resultado!
E concluiu com a maior segurança e serenidade:
- Pela vantajosa divisão feita entre os irmãos Namir – partilha em que todos
três saíram lucrando – couberam 18 camelos ao primeiro, 12 ao segundo e 4 ao
terceiro, o que dá um resultado (18+12+4) de 34 camelos. Dos 36 camelos,
sobram, portanto, dois.
Um pertence como sabem ao bagdáli, meu amigo e companheiro, outro toca
por direito a mim, por ter resolvido a contento de todos o complicado problema
da herança... (TAHAN, 1996. p.19-20.)

No caso deste problema dos camelos, onde todos envolvidos saem ganhando, Malba Tahan
utilizou de sua inteligência para convencer os leitores que o pai havia deixado a herança dividida
entre os filhos, de forma que não existisse resto na divisão, ou seja, que a divisão fosse exata, mas o
que realmente acontece é que esse resto existe, e acaba passando despercebido. A seguir a
resolução do problema:






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Ou seja, dos 35 camelos que o pai possuía, ele deixou para os filhos apenas 33 e 1/18 ,
sobrando assim quase 2 camelos inteiros. Assim Beremiz pode dar um pouco mais para cada um
dos irmãos, e ainda sobrou um camelo inteiro para ele.
Talvez esse seja o conto mais conhecido do livro “O Homem que Calculava”, e talvez seja
também o conto mais conhecido de Malba Tahan.
O Homem que Calculava foi uma obra tão importante e significante para a época, que os
próprios escritores da época elogiavam Malba Tahan pelo seu magnífico trabalho. Segue abaixo
uma carta escrita por um dos escritores brasileiros mais famosos de todos os tempos, Monteiro
Lobato:

São Paulo, 14.01.1939
Malba Tahan:
"O Homem que Calculava" já me encantou duas vezes e ocupa lugar de honra
entre os livros que conservo. Falta nele um problema — o cálculo da soma de
engenho necessário para a transformação do deserto da abstração matemática
em tão repousante oásis. Só Malba Tahan faria obra assim, encarnação que ele
é da sabedoria oriental — obra alta, das mais altas, e só necessita de um país
que devidamente a admire; obra que ficará a salvo das vassouradas do Tempo
como a melhor expressão do binômio "ciência-imaginação". Que Allah nunca
cesse de chover sobre Malba Tahan a luz que reserva para os eleitos. (COSTA,
1942, p.65)



Figura 8 – Capas de “O Homem que Calculava” em inglês, português e espanhol
(Fonte: http://photo.goodreads.com/books/1181512469l/1160800.jpg)


4.2 – MATEMÁTICA DIVERTIDA E CURIOSA – AS NOVENTA
MAÇÃS




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No livro “Matemática Divertida de Curiosa”, Malba Tahan cita recreações e curiosidades
da Matemática, que têm como objetivo levar os leitores a um raciocínio lógico numa brincadeira, e
ao mesmo tempo útil e recreativo. Segue abaixo um dos problemas mais curiosos e interessantes
dessa magnífica obra de Malba Tahan, e mais abaixo a solução para o problema:
Um camponês tinha três filhas, e como quisesse, certa vez, pôr à prova a
inteligência das jovens, chamou-as e disse-lhes:
— Aqui estão 90 maçãs que vocês deverão vender no mercado. Maria, que é a
mais velha, levará 50; Clara receberá 30, e Lúcia ficará e Lúcia ficará com as
10 restantes. Se Maria vender 7 maçãs por um tostão, as outras deverão vender
também pelo mesmo preço, isto é, 7 maçãs por um tostão; se Maria resolver
vender a 300 réis cada uma, será esse o preço pelo qual Clara e Lúcia deverão
vender as maçãs que possuírem. O negócio deve ser feito de modo que todas as
três apurem, com a venda das maçãs, a mesma quantia.
— E eu não posso dar de presente algumas das maçãs que levo? — perguntou
Maria.
—De modo algum — replicou o velho camponês. — A condição por mim
imposta é essa: Maria deve vender 50, Clara deve vender 30, e Lúcia só poderá
vender 10. E pelo preço que Maria vender, as outras devem também vender.
Façam a venda de modo que apurem, no final, quantias iguais.
E como as moças se sentissem atrapalhadas, resolveram consultar, sobre o
complicado problema, um mestre-escola que morava nas vizinhanças.
O mestre-escola, depois de meditar durante alguns minutos, disse:
— Esse problema é muito simples. Vendam as maçãs conforme o velho
determinou e chegarão ao resultado que ele pediu.
As jovens foram ao mercado e venderam as maçãs; Maria vendeu 50; Clara
vendeu 30 e Lúcia 10. O preço foi o mesmo para todas, e cada uma apurou a
mesma quantia.
Diga-nos agora o leitor como as moças resolveram a questão? (TAHAN, 2001.
p. 58-59.)
Vamos então a resolução deste problema que parece não ter sentido nenhum. Maria iniciou
sua venda fixando o preço de 7 maçãs por um tostão. Vendeu assim 49 maçãs, ficando com uma de
resto, e conseguiu assim 7 tostões. Clara, tendo que vender as maçãs pelo mesmo valor, vendeu 28
por 4 tostões, ficando com duas de resto. Lúcia, que possuía 10 maçãs, vendeu sete por 1 tostão
ficando com 3 de resto.
A seguir, Maria vendeu a última maçã que lhe havia sobrado por 3 tostões. Clara, seguindo
a condição imposta por seu pai, vendeu as duas maçãs que ainda possuía também por 3 tostões cada




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uma, obtendo assim 6 tostões, e Lúcia vendeu as três maçãs que ainda tinha por 9 tostões, isto é,
também a 3 tostões cada uma.
Terminadas as maçãs, e somando os valores obtidos por cada uma das moças, pudemos
observar que cada uma conseguiu o mesmo valor: 10 tostões.
Esta obra, “Matemática Divertida e Curiosa”, está repleta de problemas como esse, e
também possui várias curiosidades que te “prendem” ao livro, querendo lê-lo até o final.
4.3 – AS MARAVILHAS DA MATEMÁTICA – CURIOSIDADES
NUMÉRICAS
Neste livro, como em vários outros, Malba Tahan trata de várias curiosidades da
matemática, que são chamadas por ele de maravilhas, segue abaixo uma dessas curiosidades com
números:
Tomo da pena, meu amigo, e escrevo um número de oito algarismos:
14.379.264. Que terá esse número de singular? Parece um número como outro
qualquer, apanhado ao acaso, e perdido na sucessão natural dos números
inteiros.
Pois quem pensa dessa forma, tão pessimista, comete grave equívoco. Esse
número, com seus quatorze milhões e tanto, está com o seu retrato em corpo
inteiro, na imensa galeria dos chamados números singulares. Número singular?
Sim, e muito singular. Quer a prova? Vamos escrevê-lo assim:

14 3792 64

Destacando bem o número formado pelos quatro algarismos do meio.
Esses quatro algarismos, como se está vendo, formam o número 3.792 que é
precisamente a raiz quadrada do número completo. Podemos, portanto,
escrever:
3.792² = 14.379.264

Veja, portanto, que coisa singular. A raiz quadrada, com seus quatro
algarismos, salta de dentro do próprio número, sem cálculos, sem nada. Dos
oito algarismos do tal número, quatro, em conjunto, formam a sua raiz
quadrada. Entre todos os números de oito algarismos só existe outro com essa
mesma propriedade.
Esse segundo número singular, também identificado pelos pesquisadores, é o
número 57.760.000, terminado em quatro zeros, cuja raiz quadrada é 7.600. O
cálculo está certo e o matemático pode escrever:

7.600² = 57.760.000





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É preciso ter muita paciência para descobrir singularidades numéricas que
assombram os calculistas, mas que são destituídas da menor utilidade prática.
Só valem como recreações matemáticas. Sempre servem, afinal, para alguma
coisa. (TAHAN, 1973. p. 131-132.)
O livro trás várias singularidades e curiosidades matemáticas, das quais não se necessita
conhecer a matemática profundamente para poder entender, por isso essa é uma obra que pode ser
indicada para todos os tipos de público, da criança até o adulto. Pode também ser utilizada em sala
de aula por professores, como recreações para conseguir prender a atenção dos alunos. No final
deste capítulo do livro, Malba Tahan cita exatamente as recreações como o principal objetivo dos
pesquisadores matemáticos que pesquisam durante anos para descobrirem essas curiosidades da
matemática:
A paciência dos matemáticos, com suas pesquisas intermináveis, é uma coisa
que surpreende. Os cultores da aritmética fazem cálculos fabulosos, operam
com fatores astronómicos que exigem longos anos de perseverantes trabalhos. e
tudo isso só para inventar transformações curiosas no campo numérico e
ampliar os horizontes das recreações matemáticas. (TAHAN, 1973. p. 132.)

4.4 – PÁGINAS DO BOM PROFESSOR
Pra quem conhece Malba Tahan apenas pelos livros de curiosidades matemáticas e jogos,
ao ver esse livro se surpreende. Como dito no começo desta pesquisa bibliográfica, Malba Tahan
não era apenas matemático, mas também era pedagogo, e foi na pedagogia que ele se inspirou para
lançar esta obra. Por ser muito antigo, e não haver edições recentes, talvez poucas pessoas
conheçam esta obra, o que é uma pena, pois este livro serviria de grande ajuda a várias pessoas,
principalmente professores.
Nesta obra, Malba Tahan faz uma coleta de vários artigos escritos por vários autores
diferentes. Como ele mesmo cita no prefácio do livro: “Tudo neste livro é dos outros”. No livro são
citados personalidades famosas, como Platão, Aristóteles, Sócrates e tantos outros, mas também
são citados outros pedagogos ou autores que não são mundialmente conhecidos, que são
professores modestos e mesmo assim conseguem passar ao leitor conceitos novos sobre a educação
ou então repassar as lições dos maiores mestres. Segue abaixo um artigo escrito por Mário
Gonçalves Vianna, que fala da importância da relação estreita entre professores e pais de alunos e
está presente na obra de Malba Tahan:





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Não resta dúvida que se torna necessário estabelecer relações estreitas entre a
família e a escola. Os pais devem colaborar com os professores, mas, para isso,
é forçoso que mutuamente se conheçam e entre si estabeleçam contatos, pondo
termo à atmosfera de incompreensão, de reserva e até de animosidade que os
separa. (TAHAN, 1973. p. 132.)

Artigos como esse fazem desta obra uma das melhores de Malba Tahan no sentido
pedagogo. Apesar de ele não ser o autor dos artigos, ele teve um grande trabalho para organizar
esta coletânea de vários escritores e professores.

4.5 – OUTRAS OBRAS
Como dito no primeiro capítulo desta pesquisa bibliográfica, Júlio César e Malba Tahan
escreveram juntos cerca de 120 livros. Seu preferido era “A Sombra do Arco-Íris”, mas o que
realmente fez mais sucesso, e faz até hoje, é “O Homem que Calculava”. Algumas de suas obras
mais famosas são: Amor de Beduíno (contos), Minha Vida Querida (contos), O Homem que
Calculava (romance), Maktub! (contos), A Estrela dos Reis Magos (contos), Lendas do Povo de
Deus (contos), Contos de Malba Tahan (contos), Lendas do Céu e da Terra (contos), Lendas do
Oásis (contos), Lendas do Deserto (contos), A Caixa do Futuro (romance), Matemática Divertida e
Delirante (recreação matemática), Aventuras do Rei Baribê (romance), A Arte de Ler e Contar
Histórias (educação), Diabruras da Matemática (recreação matemática), A Sombra do Arco-Íris
(romance), Novas Lendas Orientais (contos), Salim, o Mágico (romance), O Céu de Allah (contos),
Matemática Divertida e Curiosa (recreação matemática), Mil Histórias Sem Fim (contos), Os
Números Governam o Mundo (recreação), Páginas do Bom Professor (educação), entre outras.


5 – “UTILIZANDO” MALBA TAHAN NA SALA DE
AULA
Após conhecer boa parte da história de Malba Tahan, pode se notar como ele ganhou uma
certa fama no Brasil, e também fora dele. Além dos livros que ele escrevia com uma maestria
particular, o fato de ser professor também o ajudou a se tornar conhecido, pois utilizava métodos




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em suas aulas que eram considerados muito avançados para a época, segundo alguns depoimentos
de ex-alunos, e até hoje ainda são considerados avançados para a nossa época.
Malba Tahan conseguia prender a atenção dos alunos e ensinar a matemática utilizando de
histórias narradas, jogos e enigmas. Não gostava que os alunos decorassem as fórmulas, pois para
ele a matemática tinha que ser descoberta, e os erros ajudavam a descobri-la. Foi o criador de uma
nova tendência que possui alguns adeptos em todo o Brasil: a Educação Matemática, pois antes de
criar essa tendência a matemática estava ligada apenas à Álgebra, Geometria e Aritmética. Gostava
muito de trabalhar com a História da Matemática e deixa isso a mostra em vários de seus livros,
aliás, em uma de suas obras, deixa bem claro o pensamento que tinha de que se os professores
soubessem contar histórias para seus alunos, seria muito mais fácil de conseguir prender a atenção
deles:
“Bem aventurados os contadores de histórias infantis, pois eles alegram, educam, distraem
as crianças e são por elas estimados e sempre relembrados.” (TAHAN, 1956. p. 01.)
Os professores de hoje em dia têm uma grande vantagem dos professores de antigamente,
pois podem usufruir dos métodos que foram criados por Malba Tahan em suas aulas, ou seja, já
tem tudo meio que pronto, só precisam aprender a utilizar e usufruir desses métodos.
A metodologia de Malba Tahan auxilia principalmente os professores mais jovens, que
estão iniciando na carreira ou vão fazer uma substituição. Um dos maiores temores desses
professores que acabaram de se formar e vão enfrentar uma sala de aula é o comportamento dos
alunos, pois o professor tem que conseguir manter a ordem na sala de aula. Mas como fazer isso?
Uma boa alternativa é ter sempre entre seus materiais didáticos um livro de Malba Tahan,
principalmente “O Homem que Calculava”. As crianças adoram essas coisas de histórias e contos,
principalmente quando envolvem desafios, sendo assim, o professor pode ler um desafio no
começo da aula, e dar um ponto para o aluno que conseguir resolvê-lo primeiro ou então pode
simplesmente contar uma história, como a da invenção do jogo de xadrez descrita por Malba Tahan
em “O Homem que Calculava”. Outras obras que o professor pode utilizar são: Os Números
Governam o Mundo, Matemática Divertida e Curiosa, Matemática Divertida e Delirante, que são
obras que tratam bastante de recreações e desafios matemáticos.
Portanto, o professor pode trabalhar com seu livro didático de preferência, e também
trabalhar com obras de Malba Tahan, unindo assim a “matemática pura” e a “matemática




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recreativa”, tornando a matéria mais temida pelos alunos menos assustadora e mais divertida,
auxiliando o seu entendimento.
CONCLUSÃO
No propósito de gerar reflexão, cabem agora as considerações finais no que diz respeito a
história e a metodologia de ensino criada por Malba Tahan, questões sobre como ele conseguiu se
tornar um escritor e professor de tanto sucesso, e também de como conseguiu usufruir da parceria
entre a matemática e a pedagogia. Tais considerações serão reportadas com embasamento nas
principais conclusões tomadas nos tópicos mais significativos e fornece ao leitor uma visão ampla
do que foi exposto.
A forma como Malba Tahan escrevia era simplesmente única e diferente de tudo que
existia na época. Essa maneira de escrever é que fez suas obras ficarem tão famosas e também o
ajudaram a fluir em suas aulas.
A união entre a matemática e a pedagogia que Malba Tahan consegue estabelecer em suas
aulas, vem com o intuito muito forte de que se pode e deve colocar em prática todos esses
conceitos, até mesmo o de que toda escola poderia ter o seu laboratório de matemática, pois seus
pensamentos e métodos de ensino com certeza proporcionariam resultados precisamente positivos,
na finalidade de contribuir na evolução do raciocínio lógico e no desenvolvimento da autonomia
dos alunos, criando assim uma nova era da matemática, sem temor e com uma grande satisfação e
curiosidade dos alunos na hora de estudar e de resolver os exercícios e enigmas propostos.
Com base em tudo que Júlio César viveu, desde sua infância, onde não se dava bem em
matemática e era ótimo aluno em literatura, ao seu inicio como professor de outras matérias, se
tornando um ótimo pedagogo, e depois professor de matemática, e também escritor de vários
gêneros, podemos concluir a sua grande importância para a educação brasileira e mundial, e como
foi importante a metodologia de ensino criada por ele, uma metodologia que consegue prender a
atenção dos alunos, mantendo a ordem na sala de aula, fazendo-os aprender com mais facilidade.






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REFERÊNCIAS
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1949.
MUSEU DA IMAGEM E DO SOM - MIS. (1973). Depoimento de Malba Tahan. Rio de Janeiro,
Audição em 04 de julho de 2007.
OLIVEIRA, Cristiane Coppe. Do menino “Julinho” a Malba Tahan: uma viagem pelo oásis do
ensino da Matemática. Dissertação de Mestrado, Universidade Estadual Paulista - UNESP, Rio
Claro, 2001

SALLES, P. O homem que calculava. Revista Ciência Hoje da Criança. Ano 8, nº 54. Rio de
Janeiro: SBPC, 1995.
SARAIVA, José Cloves Verde. Malba Tahan visita São Luiz e outras histórias. São Luiz. Kosmos.
2008.
SIQUEIRA FILHO, Moysés Gonçalves. Ali Iezid Izz-Edim Ibn Salim Hank Malba Tahan:
episódios do nascimento e manutenção de um autor-personagem. Tese de Doutorado, Universidade
Estadual de Campinas. Faculdade de Educação, Campinas. 2008.
TAHAN, Malba. As Maravilhas da Matemática. 2ª ed. Rio de Janeiro. Bloch. 1973.
TAHAN, Malba. Matemática Divertida e Curiosa. 15ª ed. Rio de Janeiro. Record. 2001
TAHAN, Malba. Minha Vida Querida. 13ª ed. Rio de Janeiro. Conquista. 1961
TAHAN, Malba. O Homem que Calculava. 43ª ed. Rio de Janeiro. Record. 1996.
TAHAN, Malba. Os números governam o Mundo. 1ª ed. Rio de Janeiro. Ediouro. 1956.
TAHAN, Malba. Páginas do Bom Professor. 1ª ed. Rio de Janeiro. Vecchi. 1973.
VALENTIM, Maurílio Antônio. Literatura e Matemática: O Homem que Calculava de Malba
Tahan. Dissertação de Mestrado, Centro de Ensino Superior de Juíz de Fora, Juíz de Fora. 2010.

VILLAMEA, Luiza. Malba Tahan, o genial ator da sala de aula. Revista Nova Escola, São Paulo,
ano X, n. 87, p. 8-13, set. 1995.