QUESTÕES DE LINGUÍSTICA – ELEMENTOS DE LINGUÍSTICA I Questão 1A: Utilize o texto a seguir para selecionar dois dados e, com eles, caracterizar

os pontos de vista prescritivo e descritivo no tratamento das questões de linguagem: A tua saudade corta Que nem aço de naváia O coração fica aflito Bate uma, a outra faia E os óio se enche d'água Que até a vista se atrapáia, ai, ai... (Cuitelinho, canção folclórica recolhida por Paulo Vanzolini e Antônio Xandó) Resposta 1A: “A tua saudade corta”. Este trecho da canção revela um traço prescritivo no tratamento da linguagem. Isto porque ele observa os chamados preceitos da língua culta, das normas tidas como gramaticalmente corretas, tal como “prescritas” pelas normas gramaticais do português. Note-se, inclusive, a utilização do pronome pessoal “tu”, normalmente não utilizado na linguagem coloquial em grande parte do Brasil, ainda menos em linguagem folclórica. O segundo verso da canção (“que nem aço da naváia”), por sua vez, faz um giro de 180º em direção ao aspecto descritivo. Afasta-se do gramaticalmente correto, prescritivo, e torna-se coloquial, descritivo, tal como se verifica na linguagem do dia-a-dia. Se quisessem adotar as prescrições gramaticais do português, Paulo e Antonio poderiam ter substituído o segundo verso da canção por “como o aço da navalha”. Mas assim não fizeram, reproduzindo (descrevendo) a linguagem tal como parece ser realmente cantada, onde a expressão “que nem” substitui o termo “como” e “naváia” substitui “navalha”. Paulo e Antonio se abstiveram de tentar prescrever o que seria gramaticalmente correto, prescrito pelas normas do português, e limitaram-se a “descrever” a canção tal como deve ser cantada pelos populares.

Questão 1B: Quais os problemas teóricos advindos desta representação do signo lingüístico (reproduzida abaixo) tal como concebida por Bally e Séchehaye, alunos de Saussure responsáveis pela edição do Curso de lingüística geral?

Resposta 1B: A imagem reproduzida no texto representa o signo linguístico composto de seus dois componentes, quais sejam, “conceito” e “imagem acústica”. Trata-se de uma unidade psíquica de duas faces, representada pela imagem em questão. Para Bally e Séchehaye esta definição traz um problema terminológico na medida em que, no uso corrente, associa-se “signo” apenas à imagem acústica, esquecendo a sua outra face: o conceito. Por esta razão, os dois alunos de Saussure propõem manter o termo signo como designação do “todo”, substituindo a terminologia de suas duas faces, conceito e imagem acústica, respectivamente, por “significado” e “significante”. Estes dois novos termos teriam a vantagem de realçar a oposição entre as duas faces do signo linguístico, evitando que qualquer deles se confunda com o próprio signo. (Curso de Linguística Geral, pgs. 80 e 81)

Questão 2A – A partir dos exemplos abaixo, escreva sobre o conceito de forma e substância do conteúdo e forma e substância da expressão (Hjelmslev):
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I

Português: Francês Espanhol Russo

Tenho dor de cabeça J’ai mal à la tête (« tenho um mal na cabeça ») Me duele la cabesa (“me dói a cabeça”) U menja bolit’ golova (“em mim sofre a cabeça”)

II

A palavra “porta” na pronúncia de um paulista, um gaúcho e um carioca.

Empiricamente, Hjelmslev define substância do conteúdo como os conceitos, enquanto a substância da expressão seriam os sons de uma dada língua. Com relação à forma do conteúdo e a forma da expressão, Hjelmslev os conceitua, respectivamente, como diferenças semânticas e diferenças (cadeias) fônicas. Para Hjelmslev, a substância da expressão e a substância do conteúdo são geradas por suas respectivas formas (de expressão e de conteúdo), e não preexistem a tais formas. O signo une uma forma de expressão a uma forma de conteúdo através do que Hjelmslev denomina de função (ou relação) semiótica, representada pela fórmula “ERC”. A conjugação destes conceitos faz surgir o que Hjelmslev chama de “sentido do conteúdo”. No caso do enunciado I, tem-se que os quatro exemplos exprimem o mesmo sentido do conteúdo de alguém ter dor de cabeça. Todavia, tanto o substância do conteúdo e da expressão, como a forma do conteúdo e da expressão dos quatro exemplos são distintas. E não poderia deixar de ser diferente em seu tratando de quatro línguas diversas. Eventual identidade entre suas substâncias e/ou formas do conteúdo e/ou da expressão seria mera coincidência, na medida em que as línguas possuem conceitos e sons distintos, embora possam existir identidade e/ou semelhanças entre elas. Com relação ao enunciado II, tem-se que a pronúncia da palavra ‘porta’ por um paulista, gaucho e carioca revela uma distinção com relação ao som na articulação da palavra, o que para Hjelmslev seria uma distinção ao nível da substância da expressão (‘sons’). Os demais elementos do signo linguístico de Hjelmslev – forma da expressão e substância do conteúdo e da expressão seriam idênticos, pois não haveria diferenças de conceitos (substância do conteúdo), diferenças semânticas (forma do conteúdo) ou diferenças da cadeia fônica (forma da expressão).

Questão 2B – Que associações poderia haver entre a dupla articulação de Martinet e a relação semiótica de Hjelmslev? A dupla articulação de Martinet pode ser resumida como a produção de elementos significantes (de 1ª articulação) a partir de elementos não significantes, mas distintos entre si (de 2ª articulação). Os elementos significantes (unidades significativas mínimas, também chamados de monemas ou morfemas) é que formam um enunciado linguístico. Dizendo de outra forma, tem-se que as unidades de 1ª articulação (unidades significativas mínimas, ou monemas ou morfemas) são formadas a partir das unidades de 2ª articulação (unidades distintivas mínimas, ou fonemas). Enquanto as unidades de 1ª articulação são praticamente ilimitadas, as de 2ª articulação são limitadas, normalmente se resumindo a algumas poucas dezenas. Será a combinação das unidades de 2ª articulação que irá gerar, na concepção de Martinet, unidades significativas (mínimas) dotadas de significado, permitindo o ato de linguagem. Ora, para Hjelmslev a relação semiótica é a relação (cadeia fônica ou diferenças fônicas) com a forma consubstanciada na fórmula ERC. Desta relação será Hjelmslev é a função semiótica que permite o ato de pelo uso. existente entre a forma da expressão do conteúdo (diferenças semânticas), possível determinar a substância. Para linguagem, que é sempre determinado

Com base nestes conceitos, poder-se-ia dizer que a relação semiótica de Hjelmslev poderia ser associada à dupla articulação de Martinet para a formação do ato de linguagem, na medida em
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que da combinação de elementos de 2ª articulação resultem elementos dotados de significação mínima (unidades de 1ª articulação). Questão 3A: Quais as funções da linguagem mais salientes no poema de José Lino Grünewald? Justifique a resposta. Forma Reforma Disforma Transforma Conforma Informa Forma Resposta 3A: Adotando a classificação das funções de linguagem de Jackobson, tem-se que a primeira função de linguagem que se verifica no poema é a função poética. Embora não utilize procedimentos de 1ª pessoa, mas em 3ª pessoa, tem-se que o poeta se concentra na mensagem ao utilizar palavras em que contenha variações de “forma”. Iniciando e finalizando o poema com o termo “forma”, verifica-se típica circularização da mensagem, um retorno ao início, como é característico da função poética. A sonoridade das palavras escolhidas, seu ritmo e rima, ajudam a concluir pela presença da função poética. Além disso, também poder-se-ia considerar que o poema estaria falando da ‘linguagem em si’ na medida em que a linguagem poderia ter todas as características apontadas em cada um dos versos. Neste caso, estar-se-ia na presença de função metalinguística uma vez que esta tem por pressuposto o foco no código, nos termos de Jakobson. (Fiorin, pgs. 32 a 41 & Jakobson, pg. 122 a 129) Jakobson: Função emotiva (ou ‘expressiva’): centrada no remetente. Visa uma expressão direta de quem fala. Tende a suscitar impressão de uma emoção. Uso de interjeições. Uso da 1ª pessoa. Apresentação de qualidades subjetivas e advérbios de modo. Efeitos de subjetividade. Verbos de sentimento. Função referencial (também ‘informativa’ ou ‘representativa’): uso da 3ª pessoa. Apresentação de qualidades objetivas. Emprego de nomes próprios e argumentos lógicos. Objetividade e/ou realidade. Transmissão objetiva de informação. Função conativa: centrada no destinatário. Uso da 2ª pessoa. Uso do vocativo e imperativo. Não admite a pergunta “é verdadeiro ou não?”. Efeito de persuasão. Função poética: centrada na mensagem que se quer transmitir. Uso de rima e ritmo. Seleção e combinação das palavras. Função fática: serve para iniciar, prolongar ou interromper a comunicação. Pendor para o contato. Fórmulas ritualizadas. Função metalingüística: centrado na linguagem ou no código lexical do idioma. Verbos de existência ou de existência da significação. Linguagem que fala da linguagem. Efeito de circularidade. Questão 3B: Mostre por meio de exemplos por que as línguas naturais são sistemas semióticos não conformes, ou seja, sem relações bi-unívocas entre os seus funtivos. Indique um sistema semiótico (não lingüístico) onde operem exclusivamente relações biunívocas.

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Questão 4A: Como Saussure define os conceitos de linguagem, língua e fala? Diante disso, explique qual é o objeto de estudo preciso da lingüística. Para Saussure, língua não se confunde com linguagem. A língua é uma parte determinada na linguagem. É uma instituição social da faculdade de linguagem e um conjunto de convenções necessárias, adotado pelo corpo social para permitir o exercício dessa faculdade nos indivíduos. A língua é um todo por si e um princípio de classificação (Curso Geral de Lingustica, pg. 17). A língua é uma convenção, um sistema de oposição entre unidades com valores distintos, cujo conjunto faz a unidade da linguagem. Para Saussure, a linguagem é multiforme e heteróclita, pois abrange vários domínios. É ao mesmo tempo física, psíquica e fisiológica, pertencendo tanto ao domínio individual quanto ao domínio social (Saussure, pg. 12). Não se deixa classificar em nenhuma categoria dos fatos humanos e envolve uma diversidade e complexidade de problemas que pedem a análise de outras ciências, como a psicologia e antropologia. A fala é um ato individual de vontade e inteligência através do qual o indivíduo realiza é atualizada o código da língua no propósito de exprimir seu pensamento pessoal. A fala também inclui o mecanismo psico-físico que permite a este mesmo indivíduo exteriorizar as combinações de código escolhidas. A linguística detém-se tão somente na investigação da língua (linguagem verbal humana), nas línguas naturais, que são a forma de comunicação mais desenvolvida e utilizada pelos indivíduos. A linguística não se compara ao estudo tradicional da gramática. Ela não é diacrônica, mas sincrônica. A linguística moderna, inaugurada por Saussure, observa a língua em uso e procura descrevê-la e explicá-la, sem se preocupar em julgá-la sob qualquer ponto de vista (gramatical, moral, crítico, estético).

Questão 4B: Comente a afirmação de Sémir Badir: “A significação é a especificação de uma substância gerada por dois funtivos diferentes”. A afirmação acima poderia ser analisada sob a ótica de Hjelmslev através da qual a substância de um signo linguístico é dada a partir da relação existente entre a forma da expressão e a forma do conteúdo (resumida através da fórmula ERC). No caso, a forma da expressão e a forma do conteúdo seriam os funtivos, ou seja, os elementos da função semiótica. Será através desta relação (função semiótica) que será possível especificar a substância de um signo linguístico, segundo a concepção de Hjelmslev.

Questão 5A: Leia a crônica e responda às questões a seguir: Irretocável RIO DE JANEIRO - O boêmio carioca Roniquito de Chevalier cruzou certa vez (anos 70, por aí) com o cronista Fernando Sabino à porta do restaurante Antonio's. Um entrava, outro saía. Prevendo uma falseta, Fernando tentou fugir, mas era tarde. Roniquito, queixo para o céu, cortou-lhe a passagem e disse alto: "Fernando, quem escreve melhor? Você ou o Nelson Rodrigues?". Fernando, maroto, contemporizou: "Ora, Roniquito. O Nelson, claro". Mas Roniquito fulminou-o assim mesmo: "E quem é você para julgar Nelson Rodrigues?". Não era bem o caso do querido Fernando, mas entendo o radicalismo de Roniquito. Certos elogios servem mais a quem os faz do que a quem os recebe. Quando leio alguém classificar um livro, disco ou filme como "irretocável" ou "irrepreensível", lamento não usar chapéu. Se usasse, poderia tirá-lo para quem está em posição de aplicar tais classificações a obras de arte.
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Claro - pois essa posição é a de quem está num plano superior, de quem olhou tudo de cima e não achou nenhum defeito para retocar ou repreender. Afinal, quem pode dizer que "O Processo", de Kafka, é "irrepreensível" ou "irretocável" exceto outro Kafka? Mas a pessoa que se julga capaz de definir tão soberanamente a perfeição de uma obra está se colocando acima do autor dela, não? Pensando bem, não. No fundo, esses são apenas clichês da crítica. Leitor do nosso "jornalismo literário" - mais literário do que jornalístico -, já vi tais classificações aplicadas a uma gama que vai da "Cavalgada das Valquírias", de Wagner, a um show de Sandy & Junior, e de "Macbeth" a "Tartarugas Ninja - O Retorno". Não será surpresa se alguém escrever que "300" é "irretocável", como se falasse da capela Sistina. A qual, aliás, costuma ser retocada de séculos em séculos. (Ruy Castro, Folha de S. Paulo, abril de 2007.) Responda: a) O discurso, por meio de temas e figuras, discorre predominantemente sobre um dos percursos do esquema narrativo do texto. Identifique esse percurso. b) Sobre o percurso destacado em a), comente como ele se relaciona com os outros dois da organização narrativa dos textos

Questão 5B: Identifique a etapa do Esquema Narrativo retratada no trecho sublinhado, revelando, por referência ao modelo de A. J. Greimas, quais são as funções actanciais desempenhadas aí por Kapéi e pela filha de Wéi. Justifique sua resposta. COMO A LUA FICOU COM A CARA SUJA (lenda arekuná) Wéi e Kapéi, Sol e Lua, antigamente eram amigos e andavam juntos. Kapéi naquele tempo era muito bonito e tinha um rosto limpo. Apaixonou-se então por uma das filhas de Wéi e andou várias noites com ela. Mas Wéi não queria isso e mandou que sua filha esfregasse sangue de menstruação na cara de Kapéi. Desde então os dois se tornaram inimigos. Kapéi anda sempre longe de Wéi e até hoje tem o rosto sujo. Medeiros, Sérgio (org.). Makunaíma e Jurupari, cosmogonias ameríndias. O esquema narrativo de Greimas possui três etapas: manipulação, ação e sanção. No trecho sublinhado, tem-se que se trata da segunda etapa, ou seja, da ação. Trata-se de ação porque é neste trecho que se opera uma transformação onde a conjunção existente no início da narrativa (e na qual Wéi e Kapéi são amigos e andam juntos) irá se transformar numa disjunção (Kapéi e Wéi andando, para sempre, separados). A função actancial desempenhada por Kapéi é a de sujeito, na medida em que ele age no sentido de obter para si um objeto de valor (o amor de uma das filhas de Wéi). No trecho sublinhado, no entanto, a filha de Wéi, que poderia ser em trecho anterior o “objeto de valor” desejado por Kapéi, passa a desempenhar a função actancial de anti-adjuvante, na medida em que auxilia Wéi, seu pai (e anti-sujeito), a impedir o sujeito (Kapéi) de atingir seu objetivo com relação ao seu objeto.

Informações de apoio (SEMIÓTICA) NÍVEL NARRATIVO: é dividido em 3 partes: manipulação, ação e sanção. Na ação há transformação de estados (conjunção em disjunção ou viceversa). No estado 1 já uma relação (conj. ou disj) entre sujeito e objeto.
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Então ocorre uma transformação que, no estado 2, vai mudar a relação entre sujeito e objeto. ACTANTES: sujeito/anti-sujeito; objeto; adjuvante/anti-adjuvante Na narrativa há dois tipos de ação: de fazer e de buscar Na manipulação o destinador vai “fazer-fazer” (contrato veriditório com o destinatário ou vai “fazer-crer” (contrato fiduciário – de confiança). Tipos de manipulação - Intimidação: dever-fazer (poder do destinador) - Provocação: dever-fazer (saber do destinador) - Sedução: querer-fazer (saber do destinador) - Tentação: querer-fazer (poder do destinador) Importante: numa narrativa, nem todos os elementos (MANIPULAÇÃO/AÇÃO/SANÇÃO) podem estar presentes. Nem precisam estar nesta ordem. Na sanção, o destinador não é mais manipulador e passa a ser “julgador”. Ele vai julgar o sujeito. QUADRADO SEMIÓTICO

QUAD

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NÍVEL FUNDAMENTAL:

NÍVEL DISCURSIVO:

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Debreagem

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