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“Sustentação e Transformação”

Abordagem diferenciada do contato terapêutico no Shiatsu

Por Arnaldo V. Carvalho


Em nosso meio, um dos slogans mais conhecidos do mundo é o da poderosa família Namikoshi (há
três gerações donos da maior escola de Shiatsu do Japão e uma das maiores redes de professores
autorizados a ensinar seu estilo pelo mundo): “Shiatsu é o toque da mãe”. A frase imortaliza a ideia
de trabalhar amorosamente, com atenção. E de que Shiatsu, antes de tudo, é um cuidado.

É verdade. O acolhimento deve ser sempre privilegiado, não só em qualquer terapia, mas nas
relações interpessoais em geral. Exercitássemos mais o acolhimento, permitíssemos mais as
manifestações positivas do Yin
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, o mundo já seria outro. No aconchego do Shiatsu vive o poder de
sustentação emocional. Nutrem-se as almas dos praticantes durante as sessões terapêuticas.

Todavia, sabemos que nem sempre é no sustentar e amparar que surgirá a transformação e o
equilíbrio efetivo – aquele capaz de devolver a autonomia
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ao indivíduo. Por vezes, um coração já
não precisa de colo, mas de confiança e incentivo: “você pode”. Por Mamãe Passarinho, o filhote
passa a vida inteira na segurança do ninho; No dia que o gavião chegar, este grande e mimado
pássaro-marmanjo não saberá voar e morrerá. Se precisar buscar alimento por si, será de inanição
sua causa mortis. E assim, passam-se anos pessoas em suas terapias de sustentação, com um
terapeuta amoroso a lhe acolher as dores e angústias do dia a dia, sem que qualquer movimento seja
feito para que as origens desses sofrimentos possa cessar.

É por isso que o papai passarinho leva o filhote para a ponta de um galho e o estimula a bater as
asas, a dizer “vai”, e até o provoca com uns tapinhas nas costas: “Vai, você pode! Bata suas asas!
Você é capaz”! E é pela mesma razão que todo terapeuta deve saber a hora de acolher e a hora de
provocar – a faceta Yang da terapia.

Às vezes pergunto aos meus alunos: Qual é a diferença entre alimento e remédio? Os cogumelos, as
algas, os brotos, o ginseng e outras raízes, os frutos, e os chás, o que são? A definição que
utilizamos é de que alimento é tudo o que é consumido para a sustentação do organismo. Remédio é
tudo o que provoca o organismo a uma reação para além de seu esquema habitual. Assim, um
cafezinho tomado todos os dias é alimento – porque passa a fazer parte de um quadro de
sustentação do organismo. Mas para quem nunca toma café, o início de um resfriado pode ser
cortado com apenas uma xícara do nosso “pozinho árabe mágico”. Alimento é coisa do dia a dia,
remédio é coisa para certos momentos. Veja, o mesmo vegetal é alimento e é medicamento. Tudo
depende da forma como o organismo o receberá, sua dose, momento em que foi tomado, enfim. A
terapia funciona da mesma maneira. Ela pode ser sustento, e pode ser provocação. Depende de dose,
de frequência de uso, de quem toma.

Em geral, verificamos que certas terapias possuem uma linha clara quanto a isso: ou acolhem e
sustentam, ou provocam e incentivam. Psicoterapias de base corporal, sobretudo as inspiradas na

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A noção oriental da realidade como de natureza binária (forças yin e yang) permeia todo o texto. Tal forma de
compreender a existência permite a observação de um padrão bipolar passível de indexação relativa. Desse modo, se há
uma força de recolhimento (na visão oriental atribuída a “Yin”), haverá uma de expansão (atribuição “Yang”).
Seguindo por essa lógica, teremos os binômios mãe-pai, previne-remedia, perto-longe, concentrado-diluído,
sustentação-transformação, e assim por diante.
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Entende-se aqui autonomia como o amadurecimento do sistema autorregulador do ser humano. Ver mais no artigo
Autorregulação, deste autor.
obra de Wilhelm Reich são quase sempre terapias provocativas, que buscam trazer o que a pessoa
tem dentro, incentiva-la a enfrentar seus demônios internos mais profundos. Outras, por outro lado,
- como o Reiki, por exemplo – apenas acolhem. E há uma enorme fração de profissionais de Shiatsu
agindo dessa maneira. Em lindo silêncio, acolhem e permitem. Como as pessoas precisam ser
acolhidas! Mas como por vezes é preciso o incentivo, o “vai!”.

Acolher é mágico. Ter onde ser amparado diante da pressão e do stress do dia a dia
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é tão raro, e tão
custoso emocionalmente entre as pessoas da gente (sem querer as pessoas cobram!). Ser amparado
pode ser a única necessidade de uma terapia. E é no amparo que se recupera energia, se curam
feridas.

No amparo existe o espaço do abraço, da suavidade, do permitir que as coisas venham. Amparar é
saber ouvir. É permitir que a pessoa se exponha; é tocar em silêncio, é ser o imenso lago a absorver
a pedra do Outro:

“Jogaram uma pedra na tranquilidade do lago. O lago comeu-a.
Sorriu ondulações. Voltou a ficar tranquilo”. (Hermógenes)

Acolher é receber com empatia genuína. É dar alimento, afagar a angústia, dar suporte. É a energia
sempre presente, a energia que sustenta dia após dia.

Mas em só acolher, há o risco de se favorecer a manutenção de uma dinâmica de vida que já não é
adequado ao momento, ou mesmo uma condição doentia. Aí estão os tratamentos que melhoram
mas não resolvem. Aliviam, mas não transformam.

No acolhimento há segurança. Mas é mais seguro porque intervir implica em ações que dependem
da capacidade avaliativa do terapeuta. E tal capacidade por vezes cai na esfera do julgamento.
Palavras, toques e exercícios tornam-se perigosas ações de “dizer como o outro deve ser”, ou fazer.
Acolher simplesmente não expõe o terapeuta, seus pensamentos, seus preconceitos. Protege o
profissional, e protege o cliente deste mesmo profissional.

Só que provocar também é recurso poderoso. Na provocação se sai da inércia. Provocar é incentivar,
é conjurar o poder interno do atendido; É tocar com vigor, é estimular a reação. É entusiasmo.
Provocar é mostrar o outro lado, é não permitir que a dor leve a inútil e sofrida vitimização. É a arte
de apontar para a vara de pescar. O incentivo ao caminhar com as próprias pernas.

Na provocação há movimento. Meu terapeuta me disse em nossa primeira sessão: “não posso te
prometer que você sairá feliz em todas as sessões, nem mesmo que você se tornará o que hoje
espera. Mas posso te dizer que cada encontro mexerá com você, e que a mesma pessoa você já não
conseguirá mais ser”.

Provocar é gerar o impulso para transformar. Nas provocações se estimula o enfrentamento, a
verdade, a busca por resolver o desconforto. Elas acontecem nos momentos certos, quando a pessoa
está pronta para crescer.

É um tipo de ação menos observável em sessões de Shiatsu do que talvez fosse necessário. Os
terapeutas da área em média são muito mal preparados em seu processo formativo pessoal e
profissional para atuar com ações provocativas que de fato sejam positivas. Para tal assertividade, é

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Lembrar que todo stress leva a psique regressões parciais e em nossa origem nada é mais seguro
que o colo – o segundo útero.

preciso ter a precisão de um cirurgião: é no coração da pessoa que uma provocação atinge. Daí
pensarmos que dos dois lados da relação terapêutica (o terapeuta e seu atendido), há medo. O risco
do menor erro traz consequências desastrosas.

Outro dia uma cliente comentou o que achava da terapia da mãe: “Depois de trinta anos ela segue
fazendo, mas já não é terapia há tempos, apenas o hábito semanal de tomar cafezinho com a amiga”.
Sem querer julgar a relação das duas partes citadas nesse caso, apenas afirmo que entendo o que
essa cliente quis dizer. Entendo que no momento em que ela sentir que estar no meu consultório
apenas para bater papo ou para “receber uma massagem”, não haverá mais sentido para ela. Essa
cliente é uma psicóloga muito conhecida na área em que atua, e tem plena percepção de que vai
para seu “Shiatsu das Emoções” para recuperar o equilíbrio, e isso inclui renovar as energias
(função Yin da terapia), mas também reagir ante as intervenções, para tornar sua própria capacidade
de reequilibrar-se mais eficiente (função Yang da terapia).

Com essa consciência, o terapeuta sabe que precisa agir rápido: o impacto de uma primeira sessão
pode gerar um impacto muito maior no sentido transformador do que uma outra após um ano de
tratamento contínuo. Aliás, entre as correntes da fitoterapia (como as plantas ensinam ao ser
humano e ao Shiatsu!), sempre encontramos o pensamento de que “a planta que servirá para sua
saúde cresce perto de você”. Mas de outro lado, quantos são os relatos e histórias da saga para se
encontrar a planta exótica que só nasce num certo lugar distante em determinada época do ano e que
poderá salvar alguém de uma doença aparentemente incurável. O que cura afinal está perto ou longe?
Trazendo para nossa reflexão, afinal o que cura é a força de sustentação ou de provocação? O que
equilibra é o alimento ou o remédio? Essa noção de distancia da planta medicinal nos ensina sobre
as diferenças de poder de impacto que uma forma de energia mais familiar ou uma outra totalmente
nova gera quando em contato com a energia pessoal de um indivíduo. As energias conhecidas são
mais assimiláveis, o corpo-mente já sabe como interagir, e possivelmente já possui um esquema de
interação para elas; quando porém uma força completamente nova lhe tange, ela precisará reagir, e
toda a forma como ela está estruturada poderá ser estimulada a mudar a partir desse contato.

Os exemplos do que acabamos de afirmar são encontrados abundantemente no dia a dia: o
adolescente que volta transformado após uma viagem longe dos pais; O marido que chega em casa
dizendo ter percebido uma coisa nova após assistir uma palestra, sendo que sua esposa sempre
tentou lhe fazer enxergar isso; O remédio para a dor de cabeça que “no começo ajudava” mas agora
não faz diferença. A terapia “daquele chinês estranho” que a gente mal entende, mas que resolve...

Tomemos na nossa vida cotidiana o ditado “Santo de casa não faz milagre”. Por que será que são
tão poucos os profissionais que fazem Shiatsu em seus familiares? Por que será que os psicólogos
aprenderam com a psicanálise a necessidade de manter certa distância para garantir a neutralidade
psíquica do vínculo terapeuta-cliente? Por que será que depois de um tempo longo muitas vezes o
cliente simplesmente se despede mesmo que satisfeito e diz “chegou a hora de fazer outra coisa”? E
por que é tão difícil manter o amor – ou melhor, aquele brilho que transforma e faz a vida “ter mais
sentido” - quando se está perto demais?

Porque acolher sustenta, mas não transforma. E o compasso natural da vida é de recolher e expandir
– em ciclo ininterrupto. Toma-se fôlego num momento para mergulhar-se no outro. Casais que
aprendem sobre a renovação pessoal necessária em sintonia com o acolhimento nutridor tendem a
ter uma união afetiva-sexual satisfatória e duradoura.

Arrisco-me à repetição, mas sigo a dizer que, no campo das terapias corporais, há pouco ou nenhum
preparo a esse respeito. Quando lançar mão do movimento de sustentação e acolhimento, e quando
lançar mão da ação transformadora? Este tema de estudo é urgente, e os profissionais de Shiatsu em
média estão bastante atrasados em relação a isso.

O Shiatsu pode ter transformação e sustentação no toque, na postura, nas palavras e no silêncio, em
cada gesto e em cada olhar, e o profissional precisa de extrema sensibilidade para reconhecer e atuar
no momento certo com a postura adequada. Em outras palavras, a terapia de maior amplitude será
aquela que for capaz de, sensivelmente, dependendo da pessoa, da situação que ela vive, do
momento da sessão, acolher e provocar na medida certa.

Acolher é ficar por perto. Provocar é dizer que vá.
Há quem diga que quem ama verdadeiramente diz “vai”. Mas, se é no prazer do vai e vem que
existe o gozo, e se é no colo do VEM da mãe e no furar da onda de mão dada com o pai que existe o
VAI, então a vida se situa na simultânea existência dessas duas forças, desse yin-yang permanente.

* * *

* Arnaldo V. Carvalho já fazia massagens intuitivamente quando descobriu o Shiatsu em 1993.
Desde então seguiu aprendendo, com diversos professores pelo mundo, dentro e fora de cursos. Em
paralelo estudou Naturopatia, uma dezena de outras terapias corporais, psicoterapias e fisiologia.
Dirige a Aeshi - Escola de Shiatsu. É membro da Associação Brasileira de Shiatsu e autor do livro
“Shiatsu Emocional”.