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A publicação do livro de Hallin e Mancini “Comparando Sistemas de Media” foi um

divisor de águas para os estudos de mídia comparada. Tendo em vista o tremendo impacto do
livro, a questão que então surgiu foi se seria possível aplicar as categorias propostas pelos
autores em um esforço comparativo mais amplo e globalizante. Os próprios autores chegam a
discutir tal possibilidade no livro. Por um lado, eles reconhecem que a consistência do
modelo proposto, em parte, se deve ao fato de que eles estudaram um grupo de países
relativamente limitado e homogêneo (2004ª:6). Por outro lado, eles mostram certo otimismo
tendo em vista que eles acreditam que os modelos existentes na Europa Ocidental e na
América do Norte tendem a prevalecer também nas partes restantes do mundo. Neste
capítulo, eu examino criticamente as categorias propostas pelos autores e essa proposição em
particular com foco no sistema brasileiro de mídia.
Nesta primeira parte do capítulo, eu discuto o sistema em seus três modelos (three-
model system) tanto de um ponto de vista teórico quanto metodológico. Aqui, duas questões
são dignas de atenção. A primeira diz respeito ao conceito de “modelo”, do modo usado pelos
autores. Eu argumento que, quando eles sugerem que o modelo ocidental “tende a ser
globalmente dominante” , eles estão, na verdade, usando dois diferentes conceitos de modelo.
Quando eles aplicam tal termo aos países ocidentais, eles o usam no sentido de “modelos
de...” (models from) – isto é, artefatos metodológicos que existem apenas como ferramentas
de pesquisa. Quando eles aplicam o termo “modelo” a países não europeus, no entanto, o
sentido muda e se transforma em “modelo para...” (models to) – ou seja, parâmetros
normativos que são usados no mundo real. O segundo problema se refere à maneira pela qual
os autores definem modelo Pluralista Polarizado e, em particular, a sugestão de que ele
explicaria vários traços dos sistemas de mídia na Europa do Leste e da antiga União
Soviética, América Latina, Oriente Médio, África a maioria dos países asiáticos (Hallin e
Mancini, 2004b:36). Aqui, eu sugiro que o uso tão genérico do termo corre o risco de se
converter em um conceito demasiado totalizante (catch-all concept: como um conceito
guarda-chuva*) que acaba incluindo tudo que não se encaixa dentro dos outros dois modelos.
Na segunda parte deste capítulo, eu quatro tipos de variáveis propostas pelos autores
para explorar algumas características do sistema brasileiro de mídia. Alguns autores
(Azevedo, 2006; Halllin e Papathanassopoulos, 2002: a partir de agora, essa expressão grega
será resumida pela letra “P.”*) observaram que o sistema brasileiro de mídia tem vários
traços em comum com o modelo Pluralista Polarizado. No entanto, as informações coletadas
indicam não apenas algumas similaridades entre eles – principalmente em termos de estrutura
do mercado de mídia – mas também algumas diferenças dignas de nota: a mídia brasileira foi
quase que completamente privada desde seu nascimento; paralelismo político não se aplica
com facilidade à mídia brasileira, tanto porque partidos políticos não tem um papel central
em países presidencialistas como o Brasil e quanto porque as organizações de mídia mais
importantes adotaram uma atitude de foco no seu público (catch-all attitude regarding their
public); e jornalistas brasileiros definiram sua identidade profissional em referência ao
modelo Americano - , a despeito do que, eles o interpretaram de maneira bem particular.
As categorias criadas pelos autores jogam luz em muitos aspectos importantes do
sistema brasileiro de mídia, mas deixam outros no escuro. Então, na terceira parte deste
capítulo, eu examino alguns problemas não discutidos em profundidade no “Comparando
Sistemas de Mídia” e proponho algumas novas categorias de análise para se lidar com
reflexões sobre a mídia. O primeiro problema consiste na diferença entre sistemas midiáticos
central e periférico. Um sistema midiático é periférico na medida em que se define em
referência a modelos estrangeiros e é central, por sua vez, na medida em que pode ser usado
como referência para outros sistemas. Eu acredito que esta diferença é fundamental para uma
análise comparativa em termos globais. O segundo problema se refere ao sistema de governo
– presidencialista ou parlamentarista – como variável importante para explicar alguns traços
da relação entre mídia e agentes políticos. Finalmente, eu discuto as limitações do conceito de
paralelismo político para se analisar o sistema brasileiro mídia-política e proponho substituí-
lo por um esquema que articula duas variáveis: a força dos partidos políticos e o grau de
engajamento da mídia na atividade política.
Modelos de...Modelos para...
Quando aplicado ao espectro original de análise de “Comparando Sistemas de Mídia”,
o uso do termo “modelo” não parece problemático. Os modelos elaborados pelos autores são
tipos-ideais, isto é, ferramentas conceituais elaboradas para descrever a relação entre mídia e
política em um grupo de dezoito países da Europa Ocidental e da América do Norte. No livro,
eles apresentam três modelos de sistema de mídia. O modelo Corporativo Democrático é
descrito como tendo sólido e antigo desenvolvimento (an early and solid development) da
imprensa de massa, associações profissionais fortes e consolidada cultura profissional no
jornalismo, tradição de intervenção estatal em defesa da pluralidade ideológica da mídia e um
modelo de transmissão de serviços públicos. O modelo Pluralista Polarizado conta com baixa
circulação de jornais (press), principalmente voltado para uma pequena elite, fraca cultura
profissional do jornalismo, alto grau de paralelismo político entre o sistema político e o
sistema midiático e padrões de instrumentalização da mídia por interesses econômicos e
políticos. O modelo Liberal de sistema de mídia conta com grande circulação de jornais; no
entanto, não tão alta quanto a difusão informacional do modelo Corporativo Democrático;
informação jornalística com pluralismo interno; forte profissionalismo sem, no entanto, auto-
regulamentação institucionalizada e dominância de mídia de mercado.
O modelo Liberal é dominante nos países anglo-saxônicos dos dois lados do Atlântico
(Reino Unido, Irlanda, Estados Unidos e Canadá); o modelo Corporativo Democrático no
Norte e na Europa Central (Alemanha, Áustria, Suíça, Holanda, Bélgica, Suécia, Noruega,
Dinamarca e Finlândia); e o modelo Pluralista Polarizado é dominante na Europa do Sul
(França, Itália, Espanha, Portugal e Grécia). No entanto, os autores afirmam que esses países
não devem ser tomados como exemplos puros dos três modelos. Por exemplo, o Reino Unido
mistura traços dos modelos Corporativo Democrático e do Liberal e a França combina
algumas características tanto do modelo Corporativo Democrático quanto do Pluralista. Os
sistemas midiáticos de países individuais também não são homogêneos: por exemplo, sistema
midiáticos na “Catalonia” e Quebec são diferentes em vários sentidos em relação ao resto da
Espanha e do Canadá, respectivamente. Desta forma, os modelos de sistema midiáticos
propostos pelos autores devem ser entendidos como simplificações criadas a partir de
informações empíricas que são úteis para propósitos analíticos. Essa é a razão central pela
qual eu proponho me referir a eles como “modelos de...”
No entanto, quando os autores escrevem que “os modelos que prevalecem na Europa
Ocidental e na América do Norte tendem a dominar globalmente” (2004:6), eles fazem uso
sutilmente diferente do termo “modelo”. Naquele contexto, o termo “modelo” tem sentido
normativo, muito mais do que descritivo ou analítico. Neste sentido, modelos são referências
por meio das quais agentes sociais orientam seus comportamentos em circunstâncias
concretas. Eles existem e tem efeitos efetivos no mundo real a despeito de sua natureza
abstrata. Eu defino esse tipo “modelo para...”. Os três modelos propostos pelos autores são
“modelos de...” quando aplicados a países representados no espectro original de estudo;
entretanto, para o restante dos países do mundo, eles não são igualmente “modelos para...”.
Desde 1980, os valores do modelo Liberal (tais como associação entre liberdade de
imprensa e liberdade de mercado) e práticas (tais como comercialização da mídia)
espalharam-se pelo mundo como consequência do processo de globalização econômica e em
conexão com a comercialização da mídia em outros países. Esse processo foi descrito como
Americanização da mídia destes países (veja, entre outros, Hallin e Mancini, 2004; Negrine e
P., 1996; Swanson e Mancini, 1996). Em contrate, a ênfase que o modelo Corporativo
Democrático coloca na concepção de “bem comum” e o equilíbrio entre a autonomia da
mídia e intervenção estatal tem alimentado o discurso de resistência contra a hegemonia do
modelo Liberal. O mesmo não se aplica ao modelo Pluralista Polarizado. A despeito da
influência que a mídia e a cultura política dos países da Europa do Sul (especialmente França,
mas também Portugal e Espanha) exercem no exterior (particularmente, em países da
América Latina), não seria apropriado discutir o modelo Pluralista Polarizado em si mesmo
como a fonte de tal influência. Ao fim e ao cabo, de acordo com os autores, um dos traços
centrais do modelo Pluralista Polarizado é a ausência de valores consensuais entre os atores
políticos e a mídia (ver Chalaby, 1996). Então, como a ausência de valores unificados exerce
este tipo de papel normativo (int.)* (a tecla de interrogação não está funcionando)
De certa maneira, o modelo Pluralista Polarizado é definido de forma negativa em
relação aos modelos Corporativo Democrático e Liberal. A prevalência desse modelo seria o
resultado da ausência de circunstâncias que tornariam possível o desenvolvimento dos outros
dois (ex. forte imprensa de massa, grande autonomia da mídia diante do estado e partidos
políticos e a própria tradição de profissionalismo entre os jornalistas). Ao mesmo tempo, os
autores sugerem que o modelo Pluralista Polarizado talvez tenha uso universal nas análises
dos países não Ocidentais. O que essa sugestão indica (int). Deve o modelo Pluralista
Polarizado ser tomado meramente como a versão negativa dos outros dois modelos, um tipo
de modelo oriundo de países menos desenvolvido (int.) Ou, alternativamente, seria possível
identificar traços em comum entre os sistemas midiáticos dos países mediterrâneos e os
países não Ocidentais (int).
Em artigo publicado antes de “Comparando Sistemas de Mídia”, Hallin e P. (2002)
fizeram um modelo comparativo entre quatro países da Europa do Sul analisados no livro e
os sistemas de mídia de três países Latino-americanos: Brasil, Colômbia e México. Os
autores concentram suas análises em cinco características: 1- baixos níveis de circulação de
jornais, 2- tradição de advocacy reporting, 3- instrumentalização da mídia privada, 4-
politização de transmissão pública e regulação de transmissão e 5- desenvolvimento limitado
do jornalismo como profissão autônoma. Eles concluem que as mesmas características que
distinguem a mídia nos países do Europa do Sul daqueles do resto da União Européia estão
presentes “normalmente em formas mais extremadas” nos sistemas midiáticas desses três
países da América Latina (2002:175). Os autores sustentam que o conceito de clientelismo
pode ser muito útil na explicação dos traços compartilhados pelos sete países analisados. Das
cinco características especificamente estudadas, apenas uma - tradição de advocacia – não é
definida de forma negativa. As outras são definidas como ausência de qualidades que podem
ser encontradas nos países da União Européia: alta circulação de jornais, considerável
independência da mídia em relação a interesses privados e objetivos políticos, forte tradição
de serviço público e forte autonomia do jornalismo como profissão. De forma análoga, o
clientelismo, a principal categoria analítica utilizada pelos autores, é também definida de
maneira negativa em contraste com a autoridade legal-racional. Os autores fornecem
evidências convincentes que tanto os sistemas midiáticos da Europa do Sul quanto da
América Latina são muito diferentes dos sistemas midiáticos dos países da Europa Ocidental
e da América do Norte, mas eles não são tão persuasivos quando sugerem que eles têm outras
características significantes em comum.
Parece lógico indagar se o rótulo “modelo Pluralista Polarizado” seria adequado para
um uso mais amplo do que aquele originalmente utilizado em “Comparando Sistemas de
Mídia”. Os autores se utilizam do conceito do livro de 1976 de Sartori “Partidos e Sistemas
Partidários” e o usam em sentido oposto a outro conceito de Sartori, o de “pluralismo
moderado”. Entretanto, as duas categorias estão longe de serem adequadas para ilustrar todo
o quadro apresentado por Sartori. Na verdade, o contraste principal que ele propõe se da entre
sistemas de partido “competitvos” e “não competitivos”. Sartori identifica três tipos de
sistemas partidários não competitivos – sistemas partidários sem partido, com um único
partido e sistemas partidários hegemônicos – e quatro tipos de sistemas partidários
competitivos: o sistema Pluralista-Polarizado, citado pelos autores, o Pluralista Moderado, o
bipartidário e o sistema partidário atomizado. A ênfase na oposição entre o Polarizado e o
Pluralista Moderado é parcialmente justificada pelo foco restrito dos seus estudos - todos
países da Europa Ocidental e da América do Norte tem sistemas partidários competitivos.
Assim mesmo, essa ênfase não é inteiramente justificada tendo em vista que alguns deles,
como os Estados Unidos e o Reino Unido, têm dois partidos e não sistemas partidários
pluralistas. Além disso, Sartori (1976:131-73) aplica a categoria “Pluralismo Poralirado” a
um número restrito de países, em circunstâncias históricas específicas. Isso se opõe à
sugestão dos autores de que o modelo Pluralista Polarizado pode ter utilidade quase que
universal como ferramenta de análise. Permanece aberta a questão se a perspectiva proposta
por Sartori fornece boa base para estudos comparativos em escala global. Como a maioria
dos estudos comparativos de partidos políticos (Wolinets, 2002), suas premissas são
demasiado lastradas nas experiências da Europa Ocidental. Por exemplo, eles descrevem
melhor o papel que os partidos políticos desempenham no sistema parlamentar, que prevalece
na Europa Ocidental, do que o seu papel no sistema presidencial. Retornarei a essa questão
mais tarde.

Quatro dimensões para Análise Comparativa e o Sistema Midiático Brasileiro

Nesta parte, analiso o sistema midiático brasileiro à luz de quatro dimensões
apresentadas em “Comparando Sistemas Midiáticos”; 1- estrutura do mercado de mídia, 2-
paralelismo político, 3- profissionalismo, 4- o papel do estado. Meu objetivo é identificar
traços em comum ou importantes diferenças entre o sistema midiático brasileiro e os três
modelos propostos pelos autores.
A estrutura do Mercado Midiático
Nas análises que fazem da estrutura do mercado midiático nos países da América do
Norte e da Europa Ocidental, os autores enfatizam quatro variáveis: 1- o nível de circulação
de jornais, 2- a audiência dos jornais e o papel que eles desempenham como mediadores no
processo de comunicação política, 3- a relativa importância dos jornais e televisão como
fontes de informação, e 4- as raízes históricas dos jornais. Como se dá o desempenho do
sistema midiático brasileiro em relação a tais categorias (int)
Primeiramente, jornais brasileiros têm baixo nível de circulação. De acordo com
informações do Instituto para Verificação de Circulação, em 2000 o nível de venda de jornais
por 1000 adultos era de 60.6. No mesmo ano, as taxas correspondentes para quatro países
mediterrâneos examinados pelos autores eram 129.4 para a Espanha, 121.4 para Itália, 82.7
para Portugal e 77.5 para Grécia. Essas taxas foram as mais baixas entre os países analisados
em “Comparando Sistemas Midiáticos”. Comparativamente, a taxa de circulação de jornais
era de 719.7 na Noruega, 408.5 no Reino Unido e 263.6 para os Estados Unidos. Em 2005, a
taxa brasileira havia caído para 45.3 jornais vendidos por 1000 adultos.
Segundo, jornais brasileiros são destinados a uma pequena elite urbana, como os
provenientes dos países da Europa do Sul. Dos cinco jornais com maior circulação (ver tabela
5.1), quatro são focados na elite – Folha de São Paulo, O Globo, o Estado de São Paulo e
Zero Hora – e apenas um, o Extra, se volta para o leitor popular. De acordo com Azevedo
(2006:95), os jornais brasileiros têm estilo enxuto, dão prioridade a temas políticos e
econômicos, e equacionam sua baixa penetração junto às classes populares com grande
capacidade de criar agenda, enquadrar questões e influenciar percepções e comportamentos
junto à elite.
Terceiro, o sistema midiático brasileiro tem sido descrito como centrado na televisão.
Em contraste com os baixos níveis de leitura, 90% dos lares brasileiros têm pelo menos um
aparelho de televisão (Azevedo, 2006). Em contraste com jornais e, até recentemente, com o
rádio, a televisão é estruturada a partir de redes nacionais que desempenham importante papel
na construção de uma cultura nacional homogênea (Ortiz, 1988). Televisão recebe 58.7% das
verbas publicitárias da mídia, e a Globo Network, a maior rede de televisão brasileira, tem
55% de toda a audiência (Lima, 2004).
Quarto, a mídia brasileira tem desenvolvimento tardio. Durante o período colonial,
Portugal fez constantes esforços para reduzir a autonomia econômica, intelectual e política do
Brasil. Ao contrário da Espanha, que criou universidades em seus territórios coloniais,
Portugal limitou a educação dos brasileiros e proibiu indústrias de impressão até 1808,
quando a Coroa Portuguesa veio para o Rio de Janeiro, fugindo da invasão de seu país pelos
exércitos napoleônicos. A independência do Brasil em 1822 estimulou rápida expansão da
imprensa. Durante o restante do século XIX, a maior parte das publicações eram leaflets,
panfletos, jornais de curta duração, dedicados principalmente a polêmicas políticas (Lustosa,
2000). Apenas na virada do século XX uma imprensa mais consolidada e institucionalizada
veio a existir no Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, então capital. A substituição da
monarquia por um governo republicano em 1889 e mudanças no ambiente urbano –
especialmente no Rio de Janeiro cuja população quase triplicou, de 275 mil habitantes , em
1872, para 811 mil em 1916 – serviu como estímulo poderoso à vida intelectual. (Chalhoub,
1986, 1996). Sob a influência do espírito da Belle Époque, intelectuais brasileiros sonhavam
em participar da “República das Letras” e “fazer a vida” a partir da literatura. Eles se
frustraram, enormemente, na medida em que o negócio das publicações não era ainda forte o
suficiente para permitir isso (Sevcenko, 1983). Os jornais eram a única exceção a essa
situação. Desta forma, ser um jornalista era uma condição sine qua non para se viver uma
vida literária (Miceli, 2001).
A influência do modelo americano foi decisiva na transformação da mídia brasileira.
Essa influência pode ser traçada aos anos de 1930, quando o modelo do rádio comercial,
inspirado no modelo de trusts americano, desenvolveu-se no Brasil (Almeida, 1930). A
influência começou a se tornar mais forte com a Segunda Guerra Mundial, e nos anos 1950,
um novo tipo de jornalismo – mais focado em informações e inspirado no modelo americano
– começa a se desenvolver (Albuquerque, 2005). A televisão também começou a operar em
1950. As redes de televisão se mantiveram essencialmente locais até os anos de 1970, quando
incrementos na melhoria das telecomunicações e maciço investimento do estado brasileiro
permitiram a criação de redes de televisão ao longo de todo o país.
Como descrito acima, a Rede Globo foi a maior beneficiária dessa estrutura. Não
apenas ocupou posição hegemônica na cena da televisão brasileira, mas também se tornou um
importante ator no mercado global, como exportadora de programas, especialmente
telenovelas (Mattelart e Mattelart, 1989; Porto, 2006).
Paralelismo Político
O conceito de paralelismo político se refere à noção de Seymour-Ure de paralelismo
imprensa\partidos, usada para avaliar o grau de conexão entre o sistema midiático e o sistema
partidário. Os autores usam esse conceito de maneira mais ampla do que a feita por Seymor-
Ure; eles estão interessados em avaliar a força das relações entre organizações midiáticas e
tendências políticas gerais (e não apenas partidos políticos). Eles apresentam cinco critérios
para avaliar tal força: 1- conteúdo midiático, 2- conexões organizacionais, 3 – tendência da
mídia em tomar parte na vida política, 4- o partidarismo (partisanhip) da audiência midiática,
e 5 – o papel de orientação e prática jornalística (advocacy jornalismo versus informação
neutra ou entretenimento).
Até a década de 1950, o jornalismo era concebido especialmente em termos de seu
papel de “publicização” e a maior parte dos jornalistas era proveniente dos estratos mais
baixos da oligarquia. Comentários políticos, notas em honra de pessoas poderosas e acima de
tudo os editoriais eram gêneros valorizados. Atuando bem nessas áreas ajudaria os jornalistas
a iniciarem carreiras políticas ou pelo menos adquirir um bom emprego na burocracia pública
(Miceli, 2001). Após 1950, os jornais brasileiros progressivamente mudaram para um tipo de
jornalismo orientado para os fatos (Chalaby, 1996). Isso não significa que o jornalismo
brasileiro mudou totalmente de um momento para o outro. Durante o pequeno período
democrático que durou de 1946 a 1964, a maior parte dos jornais brasileiros ainda
apresentava as características que definiam o paralelismo político. O conteúdo da mídia era
extremamente atrelado aos interesses políticos: jornais geralmente atuavam como as vozes
públicos de grupos políticos. Por exemplo, o jornal Última Hora foi criado para apoiar a
campanha eleitoral e o governo (1951-4) do antigo ditador Getúlio Vargas e ele continuou
defendendo seu legado após Vargas ter-se suicidado; outros jornais, como o Notícias
Populares, foram fundados para se opor a ele (Vargas) (Goldenstein, 1987). A conexão com
atores políticos era essencial para a sobrevivência dos jornais como empresas. Sua baixa
circulação e a ausência de importantes investimentos privados do setor publicitário não
permitiram o desenvolvimento de uma imprensa baseada no mercado. Ao contrário, a saúde
econômica dos jornais dependia de investimentos governamentais, publicidades oriundas de
órgãos estatais, empréstimo “para serem pagos no dia do julgamento” e também subornos
(Ribeiro, 2001; Waisbord, 2000).
Alguns jornais também tinham audiências partidárias (partisan audiences), também.
Quando Carlos Lacerda, poderoso político do partido conservador, União Democrática
Nacional, foi demitido do jornal tradicional O Correio da Manhã, no qual ele atuava como
colunista, seus colaboradores apoiaram uma campanha para se encontrar “um jornal para
Carlos”. A campanha foi vitoriosa e aproximadamente 34 mil pessoas doaram dinheiro para
abrir o jornal a Tribuna da Imprensa. O número de contribuintes era próximo à circulação do
jornal nos anos 50 que oscilava entre 25 a 45 mil (Ribeiro, 2006). Obviamente, o advento de
um tipo estilo de jornalismo não tomou o lugar, a curto prazo, do papel do jornalismo como
advocacy nem a tendência de jornalismo de tomar parte na política.
O regime militar (1964-85), no entanto, teve um efeito devastador no paralelismo
político. Ele dissolveu todos os partidos políticos e os substituiu por um sistema bipartidário
não competitivo, no qual a oposição, o Movimento Democrático Brasileiro (MDB) deveria
desempenhar o papel de uma oposição muito moderada, participando das eleições e sendo
derrotada pela ARENA (Aliança Renovadora Nacional; Kinzo, 1988). Durante esse período,
a maior parte das organizações midiáticas era ou subserviente ao governo ou permanecia sob
censura (Smith, 1997). Apenas pequenas organizações jornalísticas independentes,
conhecidas como imprensa alternativa tentaram resistir a essa situação (Kucinski, 1991). De
um ponto de vista financeiro, entretanto, a época do regime militar foi um excelente período
para as maiores organizações midiáticas (Ortiz, 1988). Como resultado, ao fim do regime
militar, elas foram capazes de desempenhar um papel político mais ativo na transição e
consolidação da nova democracia (Guimarães e Amaral, 1988; Lima, 2004).
Com a consolidação da democracia no Brasil, a maior parte das organizações
midiáticas adota orientação para o mercado. Elas fizeram um esforço para se distanciarem de
alguns grupos políticos particulares e tomaram atitudes no sentido de aumentar o pluralismo
interno de sua cobertura política (Mattos, 2008; Porto, 2002). No entanto, isso não quer dizer
que a imprensa adotou uma posição mais passiva em relação à política. Por exemplo, a Folha
de São Paulo sustenta que, quando seus leitores compram um exemplar do jornal, eles
fornecem à Folha um mandato representativo. Baseada nisso, a Folha tem afirmado sua
responsabilidade de “intervir no debate público e ancorada em fatos e informações objetivas,
está mudando hábitos e crenças, influenciando o comportamento de instituições, tanto
públicas quanto privadas” (Folha de São Paulo, 1984: 42; ver Albuquerque e Holzbach,
2008).

Profissionalismo

Os autores discutem três dimensões do profissionalismo jornalístico: autonomia,
normas profissionais, e orientação para o serviço público. Como elas se aplicam ao caso
brasileiro (int). Desde 1950, o jornalismo americano exerce influência considerável sobre o
brasileiro, influência essa anterior à exercida em outros países. O uso de estilo textual
centrado no fato e métodos de se obter e processar informação em larga escala se
transformaram em questão de orgulho profissional entre os jornalistas brasileiros, permitindo
com que eles se vissem como mestres de um talento especial. Mesmo atualmente, a adoção
do lead no começo das reportagens em oposição ao antigo estilo literário é descrita como uma
das principais características que distinguem o verdadeiro jornalismo (profissional) do
amador (Jobim, 1954; Ribeiro, 2003).
No entanto, isso tudo não significa que a mídia brasileira tenha se “americanizado”.
As circunstâncias que permitiram o desenvolvimento do jornalismo americano não estavam
presentes no Brasil: não havia uma economia de mercado consolidada, cultura individualista,
ou uma cultura política que valorizava a liberdade de imprensa. Como consequência, a mídia
brasileira e seus jornalistas redefiniram a retórica (como os conceitos de objetividade e
jornalismo como Quarto Ramo – Four Branch) e as práticas (como as entrevistas) que foram
trazidas do jornalismo americano, algumas vezes de forma bem peculiar (Albuquerque,
2005). Para melhor se compreender como essa transformação ocorreu, é necessário se
observar de mais perto o processo de adaptação ao jornalismo americano. Compreender-se a
maneira particular por meio da qual a mídia e o jornalismo brasileiro se adaptaram ao modelo
americano é tão importante quanto reconhecer as mudanças que resultaram desse processo.
O desenvolvimento do profissionalismo jornalístico no Brasil foi facilitado por
circunstâncias econômicas e políticas que permitiu com que os donos dos jornais
conservadores e os jornalistas comunistas que trabalhavam para eles estabelecessem uma
aliança tácita (Albuquerquer e Roxo da Silva, 2009). Essa aliança permitiu com que um
grande número de jornalistas de esquerda -, a maior parte deles afiliada ao Partido Comunista
Brasileiro (PCB) – fossem empregados ou conquistassem posições estratégicas nos jornais
conservadores. Os proprietários tinham razões comerciais ao passo que os jornalistas tinham
razões políticas para trabalharem juntos. Os proprietários tiveram que modernizar seus jornais
para sobreviver em um mercado cada vez mais competitivo (Ribeiro, 2006) e isso incluía a
adoção de um estilo jornalístico mais centrado na cobertura factual. Para fazer isso, eles
precisavam de um novo tipo de jornalistas, e por muitas razões, os comunistas tinham
jornalistas com esse perfil. Ao mesmo tempo, a infiltração nos jornais fornecia aos
comunistas recursos organizacionais (fornecendo empregos e proteção política a seus
militantes) que eles poderiam usar para o benefício de seu partido. No entanto, os jornalistas
sabiam que havia um preço a ser pago pela infiltração: eles não poderiam parecer
ameaçadores aos proprietários; do contrário, todo o esquema falharia (Abramo, 1988;
Kucinski, 1998). Então, na prática, o PCB converteu a disciplina partidária em disciplina
jornalística. Ao fornecer alguma estabilidade às redações, os jornalistas comunistas ajudaram
a manter as condições para que as transformações do jornalismo brasileiro fossem
alcançadas. A linguagem do profissionalismo era conveniente tanto para os proprietários
quanto para os jornalistas. Isso permitia com que eles se comunicassem a despeito de suas
diferenças em termos de crenças e objetivos. Do ponto de vista dos proprietários, o
profissionalismo ajudou na implantação de normas nas redações; do lado dos jornalistas, o
profissionalismo ajudou na conquista de certa autonomia no exercício de seu trabalho
(Soloski, 1989).
Mesmo assim os militares que governaram o Brasil de 1964 a 1985 não puderam
aceitar facilmente a presença maciça de comunistas trabalhando nos jornais. Para restringir a
contratação de jornalistas comunistas, em 1969 eles impuseram a lei (decreto-lei 972) que
exigia a diploma universitário para trabalhar como jornalista, acreditando que isso iria
garantir a contratação de profissionais com perfil mais técnico do que político. Tal estratégia
foi vitoriosa apenas parcialmente. De um lado, a influência das redes comunistas tradicionais
caiu dramaticamente ao logo da década de 1970. De outro lado, os novos jornalistas estavam
longe de terem o perfil técnico desejado pelos militares. Na verdade, muitos deles eram ainda
mais radicais que os antigos jornalistas comunistas. Os novos jornalistas viam a si mesmos
como proletários explorados, cujos interesses eram idênticos aos daqueles da classe
trabalhadora e, portanto, colidiam com os interesses dos proprietários (Abramo, 1997). Esses
jornalistas começaram a construir suas identidades nas universidades, longe das redações.
Tendo em vista que as universidades se converteram nos focos de resistência de esquerda ao
regime (Almeida e Weis, 1998) os jornalistas foram ensinados a acreditar que a mídia era um
aparelho ideológico do estado a serviço dos interesses da burguesia e da ditadura militar.
Além do mais, os novos jornalistas estavam mais aptos a acreditar que seus empregos
dependiam, principalmente, de seus talentos individuais (isto é, a competência adquirida nas
universidades) ao invés de política ou favores pessoais; assim, eles estavam menos inclinados
a contar com sentimentos de gratidão pessoal a seus patrões ou colegas.
Nessas circunstâncias, o pacto silencioso estabelecido entre os proprietários de jornais
e os jornalistas que para eles trabalhavam não podia mais prosperar. Em 1979, os jornalistas
de São Paulo entraram em greve. Eles lutavam por melhores salários, mas eles também
exigiam algo mais: o reconhecimento da parte de seus patrões do Conselho Consultivo dos
Representantes de Redação (CCRR) que atuaria no sentido de reforçar a autoridade da União
dos Jornalistas dentro das redações. Os proprietários não estavam preparados para aceitar tal
reconhecimento e reagiram violentamente à greve, demitindo vários jornalistas e reduzindo
dramaticamente a autonomia das redações. Tendo em vista que os proprietários concluíram
que os antigos jornalistas comunistas não eram capazes de manter a disciplina nas redações,
eles foram removidos de seus postos editoriais e substituídos por novos jornalistas, mais
submissos aos interesses administrativos.
O requisito legal de se ter um diploma universitário em jornalismo teve um impacto
importante no desenvolvimento da identidade cultural dos jornalistas brasileiros. A despeito
do caráter autoritário do decreto-lei 972, a Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ)
apoiou tal medida, motivada por interesses corporativos (reservando vagas para pessoas que
tinham diploma universitário em jornalismo). Como consequência o foco normativo do
jornalismo brasileiro mudou da questão “O que é jornalismo” e “Como ele deve ser exercido”
para “Quem pode trabalhar legalmente como jornalista”. Como Adghirni colocou, “uma
pessoa como diploma universitário em jornalismo será sempre um jornalista, mesmo se ele ou
ela trabalhem em outra profissão” (2004:142). O desenvolvimento de uma orientação de
serviço público não encontrou solo fértil no Brasil. A despeito do intenso uso da retórica do
serviço público pelos jornalistas brasileiros, essa mesma retórica tem servido como cobertura
para outros propósitos: permitir com que jornais conservadores empregassem jornalistas
comunistas ou para justificar empregos privilegiados para pessoas com diploma em
jornalismo.
O papel do Estado

Em “Comparando Sistemas de Mídia”, os autores sugerem que o estado desempenha
quatro papéis em relação à mídia: 1- exerce censura ou outros tipos de pressão política, 2 –
repassa à mídia subsídios econômicos, 3- é proprietário de organizações midiáticas e 4 –
fornece regulações para mídia em nome do interesse público. Até que ponto são eles
aplicáveis ao caso brasileiro (int)
Durante sua história como república, o Brasil tem alternado períodos de regime
democrático e autoritário de governo. Durante o primeiro governo de Getúlio Vargas (1930-
45) – particularmente durante o período do Estado Novo, que durou de 1937 a 45 e tinha
inspiração nazi-fascista – e durante o regime militar (1964-85), a mídia foi sistematicamente
censurada. No entanto, a lógica da censura foi diferente nos dois períodos. Durante o Estado
Novo, a censura estava totalmente institucionalizada. Em 1939, o então regime criou o
Departamento de Imprensa e Propaganda cujas responsabilidades incluíam tanto a censura da
mídia quanto a disseminação de valores e perspectivas do regime (Velloso, 1982). Em
contraste ao Estado Novo, o regime militar tentou tenazmente encobrir seu caráter autoritário.
Ele também censurou sistematicamente a imprensa, mas ele tentou esconder isso do público.
Não havia uma entidade formal responsável pela censura da imprensa: as ordens sempre
“vinham de cima”. Para ser efetiva, esse tipo de censura se baseava em uma “cultura do
medo” instalada entre os jornalistas (Smith, 1997). Tanto o Estado Novo quanto o regime
militar ocasionalmente recorriam à violência física para intimidar os jornalistas. Após o fim
do regime militar, a política de censura praticamente acabou no Brasil. No entanto,
intimidação e violência contra jornalistas continuam acontecendo no país, especialmente em
cidades pequenas.
O pequeno número de leitores e investimento insuficiente oriundo de entidades
privadas tornam impossível o completo desenvolvimento de uma imprensa baseada no
mercado no Brasil (Silva, 1991;Waisbord, 2000b). Como resultado, os subsídios estatais tem
desempenhado um papel muito importante na vida econômica das organizações midiáticas.
Bancos estatais têm fornecido generosos empréstimos às organizações midiáticas e
companhias estatais são responsáveis por grande parte do orçamento publicitário. Durante o
regime militar, o estado fez um grande investimento para primeiro criar a sistemas de
microondas e depois uma infraestrutura de comunicação por satélite necessária à transmissão
televisiva ao longo de todo o território brasileiro, em nome da integração nacional. Graças a
isso, a TV Globo de uma estação de TV local, baseada no Rio de Janeiro, para se tornar a
maior rede, uma das maiores do mundo (Mattelart e Mattelart, 1989).
O estado nunca desempenhou papel importante como proprietário de organizações de
mídia no Brasil. A exemplo do que ocorreu nos Estados Unidos, transmissão de mídia no
Brasil foi quase que totalmente privada desde sua concepção. Assim, ao contrário do que
ocorre na Europa e em outros países do mundo, a estrutura de transmissão midiática brasileira
não foi profundamente transformada ao longo das décadas de 80 e 90. Não houve espaço para
uma inundação comercial (commercial deluge) simplesmente porque a mídia brasileira já
tinha caráter comercial. Na verdade, a transmissão televisiva brasileira desenvolveu um estilo
comunicacional bem singular, que tem permanecido estável por décadas – por exemplo, o
tempo principal da grade de horários continua a se basear em uma mistura de telenovelas e
jornais – e não foi significativamente afetado pela globalização. Assim, a associação entre
comercialização e americanização faz bem menos sentido no Brasil do que em outros países
europeus.
Finalmente, existem questões centrais no que diz respeito à regulamentação da mídia.
Neste sentido, a mídia brasileira chega a ser menos regulamentada do que a mídia americana.
Ao contrário dos Estados Unidos, uma agência regulatória independente nunca foi
estabelecida no Brasil. Historicamente, o poder de repassar licenças de rádio e televisão
sempre foi monopolizado pelo poder executivo (Porto, 2006:130). Existe uma importante
exceção para essa regra, entretanto. Transmissões políticas foram regulamentadas desde
1962. A lei 4115 permite aos partidos horário livre no rádio e televisão para propagandas
políticas e a Lei 9601, de 1974, proíbem candidatos e partidos a usarem tempo oriundo de
publicidades pagas. Ambas permanecem válidas até hoje (Albuquerque, 1999; Duarte, 1980).
A maior parte do tempo livre de transmissão é repassada aos partidos políticos em proporção
ao número de cadeiras que eles possuem na Câmara. Nas eleições locais, o número de
assentos nos parlamentos municipais é também levado em consideração. Como regra, não há
muitas restrições em termos de conteúdo nas transmissões políticas (Albuquerque, 1999).

Novas variáveis e categorias

Nessa parte, discuto várias características que distinguem o Brasil do quadro
constituído por três modelos (three-model framework), apresentado pelos autores e, com base
nessa discussão, proponho novas categorias e esquemas análise comparativa mundial.
Primeiro, eu enfatizo a importância de se distinguir sistemas de mídia centrais e de periferia.
Segundo, apresento o sistema de governo como variável significativa para o entendimento da
relação entre sistema midiático e político em um dado país. Finalmente, eu critico o conceito
de paralelismo político como inadequado para dar conta dos diferentes tipos de relação entre
a mídia e o sistema político que vai além da dimensão original de “Comparando Sistemas
Midiáticos” e proponho um esquema que articula duas variáveis - a relativa força dos
partidos políticos e o nível de engajamento na mídia na política.
Sistemas midiáticos central e periférico
A diferença entre sistema midiático central e periférico é clássica e pode ser
identificada de diferentes maneiras em perspectivas teóricas diversas tais como teoria do
desenvolvimento, teoria do imperialismo cultural e nos estudos culturais. Essa distinção toma
sua razão de ser do colonialismo que, do século XVI em diante, colocou os países ocidentais
no centro do sistema mundial. É possível sugerir que essa distinção é implicitamente
reconhecida pelos próprios autores quando eles escrevem que os modelos analisados “tendem
a ser dominantes globalmente”. Aqui, proponho que se classifique como periférico aquele
sistema midiático que foi basicamente estruturado em referência a modelos estrangeiros
(entendidos no sentido de “modelos para...”) e central aqueles sistemas midiáticos que
servem como modelos para outros.
Nós devemos, no entanto, usar tais termos “central” e “periférico” com certa
precaução. Para começo de conversa, eles devem ser entendidos como conceitos relativos.
Sistemas midiáticos desempenham papel mais ou menos central (ou periférico) em referência
a outros; não há sistemas midiáticos centrais ou periféricos “puros”. Quando usados de forma
ampla, nós podemos aplicar tais termos mesmo a todos os dezoito países analisados em
“Comparando Sistemas de Mídia”. A expressão “ou o estado ou os Estados Unidos” – “either
the state or the United States” - (Hallin e Mancini, 1984:232) mostra a relativa posição
periférica do Canadá em relação a seu poderoso vizinho. O mesmo pode ser dito sobre a
posição da Irlanda em relação ao sistema midiático britânico.
O conceito de periférico se mostra particularmente útil quando aplicado a países que
são antigas colônias que definiram suas identidades nacionais em referência a (ou contra)
colonizadores europeus (ver, por exemplo, Daniels e Kennedy, 2002). A América Latina se
mostra um caso muito interessante. De modo semelhante ao que ocorreu nos Estados Unidos,
os países da América Latina compartilham língua e cultura com suas antigas metrópoles
colonizadoras (Anderson, 1983). No entanto, a colonização da América Latina e dos Estados
Unidos seguiu diferentes lógicas. Os colonos nos Estados Unidos foram profundamente
influenciados pelo ideal de se construir um novo mundo, alternativo àquele deixado na
Europa. Eles também aproveitaram um significativo grau de autonomia na administração das
questões locais (Bellah, 1967; Tocqueville, 1969). Em contraste, as colônias latino-
americanas eram consideradas extensões dos poderes colonizadores, e sua colonização foi
fortemente determinada pelo estado. A despeito de que a independência dos países latino-
americanos ter sido influenciada pela dos EUA, na prática o caminho para a independência
foi bem diferente. De certa maneira, os países latino-americanos experimentaram um duplo
sentimento de desterro. Eles se percebiam como outros em relação tanto a suas antigas
metrópoles (outros em relação aos povos da Espanha ou Portugal) quanto aos EUA, o modelo
prototípico da “América” e do “Novo Mundo” (Feres Júnior, 2004).
A análise dos sistemas midiáticos periféricos deve focar na relação que eles mantêm
com os modelos de mídia estrangeiros. Não é suficiente se dizer que esses sistemas
midiáticos são influenciados por modelos estrangeiros e que eles adotam seus princípios e
práticas. A identificação dos países periféricos como meros recipientes passivos dos
conteúdos e formas midiáticos em contraste com os países centrais é muito simplista. As
diferenças entre o modelo original e as formas que ele adota nos países periféricos não pode
ser adequadamente explicada como o resultado da falência de sua implementação, mesmo
quando os agentes envolvidos no processo dizem isso – como quando os jornalistas
brasileiros se referem ao jornalismo do Brasil como uma caricatura do sistema americano
(Herscovitz, 2000; Silva, 1991). Essas diferenças resultam de um esforço ativo de adaptação
do modelo estrangeiro às características culturais e sociais específicas do sistema midiático
periférico.
A adaptação da retórica anglo-americana do Quarto Poder fornece um bom exemplo.
Dois diferentes discursos do Quarto Poder servem como referência aos jornalistas brasileiros:
o discurso do Quarto Estado e do Quarto Ramo (Four Branch). O discurso do Quarto Estado
descreve o papel da imprensa enquanto contrapoder cujo principal objetivo é atuar como cão
de guarda a serviço dos cidadãos para prevenir abusos governamentais. É um discurso
fortemente normativo, associado a uma visão Liberal da mídia. O discurso do Quarto Ramo
(Branch) se refere ao sistema do checks and balances do governo americano e descreve a
atuação da imprensa como elemento mediador entre os poderes do governo e entre o governo
e os cidadãos de um país (Cater, 1965; Cook, 1998). No Brasil, ambos os discursos são
reinterpretados à luz do modelo nativo do Quarto Poder, que originalmente nada tinha a ver
com o papel da imprensa: o Poder Moderador, criado pela primeira constituição brasileira de
1824, sob o argumento de que essa quarta força iria necessariamente ser um árbitro entre o
executivo, legislativo e os ramos do judiciário, ajudando-os a trabalharem juntos. A
existência legal do Poder Moderador terminou em 1889, quanto do governo brasileiro mudou
da Monarquia para a República. No entanto, a crença de que os três poderes constitucionais
necessitavam de uma quarta força para arbitrar as suas disputas permaneceu um importante
traço da cultura política brasileira. Entre 1946 e 1964 pensava-se que os militares podiam
desempenhar tal papel, como supremos guardiães da constituição. Em 1964, eles
controlaram o governo num golpe de estado e governaram o país até 1985. Após o fim do
regime militar, as mais importantes organizações midiáticos chamaram a si tal
responsabilidade ao criarem o discurso do Quarto Poder que combina em referências aos
discursos do Quarto Estado e do Quarto Ramo com a tradição brasileira do Poder Moderador
(Albuquerquer, 2005).
A condição periférica (ou central ) não é imutável. A relação entre sistemas midiáticos
central e periférico é dinâmica e historicamente situada: um determinado sistema de mídia
pode se mover de uma situação periférica para central e vive-versa. A crescente influência de
conceitos de origem americana e práticas do sistema midiático da Europa Ocidental (Hallin e
Mancini, 2004) aponta para uma mudança do modelo americano para uma posição ainda mais
central ao mesmo tempo em que o status dos demais sistemas midiáticos se tornara ainda
mais periférico em relação a ele. Em contraste, alguns sistemas midiáticos – por exemplo,
alguns da região leste da Ásia – que normalmente são considerados periféricos parecem estar
se movendo para uma posição mais central. No entanto, nem todos os aspectos de um dado
sistema midiático se movem igualmente. As telenovas produzidas por alguns países da
América Latina, como Brasil, México, Venezuela, Colômbia e Argentina passaram a ocupar
uma posição mais central no sistema midiático mundial (Mato, 2005; Mattelart e Mattelart,
1989), mas o jornalismo desses países, por outro lado, ainda tem características periféricas.

Sistema de Governo

Por muito tempo, o presidencialismo foi ignorado pela pesquisa política comparativa.
Quando ele finalmente obteve certa atenção ao final da década de 80 e início dos anos 90, ela
era basicamente negativa. O sistema presidencialista era descrito como sendo essencialmente
fonte de instabilidade política: a rigidez temporal dos mandatos presidencial e parlamentar
facilitava impasses institucionais quando havia um presidente muito impopular ou forte
oposição entre o presidente e o Congresso (Linz, 1994); o presidencialismo promove uma
forma extrema de maioria, que marginaliza visões minoritárias dentro de uma lógica do tipo
“o vencedor leva tudo”, de acordo com Linz (1990); e promove personalismo e, como
consequência, fragiliza os partidos políticos (Mainwaring, 1995). Em síntese, o
presidencialismo era descrito como um perigo para a democracia, sendo associado fortemente
a regimes autoritários. Mais recentemente, alguns autores mudaram essa visão. Cheibub, por
exemplo, argumenta que “de um ponto de vista estritamente institucional, o presidencialismo
pode ser tão estável quanto o parlamentarismo” (2007:3). Shugart e Carey observam que,
durante o século XX, os sistemas parlamentaristas experimentaram mais rupturas
democráticas do que os presidencialistas, se considerarmos apenas os casos do Terceiro
Mundo.
Em “Comparando Sistemas de Mídia”, os autores não refletem sobre os sistemas de
governo – parlamentarismo ou presidencialismo – como importante variável explicativa na
acerca da relação entre política e sistemas midiáticos. Em análise comparativa anterior sobre
mídia e política nos EUA e Itália (Hallin e Mancini, 1984), entretanto, os autores
dispensaram atenção sobre esse aspecto. Porque essa variável desapareceu de “Comparando
Sistemas de Mídia (int). Provavelmente, isso tem a ver com a natureza da pesquisa. Nesse
estudo, um país presidencialista foi comparado a um parlamentarista. No livro, os EUA são o
único país com sistema presidencialista puro em um conjunto de dezoito países. Mesmo
assim, a distinção entre governos presidencialista e parlamentarista pode ser extremamente
útil para comparações em nível global. Presidencialismo é essencialmente um fenômeno do
Terceiro Mundo – os EUA são a única exceção a essa regra (Shugart e Carey, 1997) – e uma
característica importante dos países da América Latina.
Como o sistema presidencialista de governo afeta a relação entre mídia e política (int)
Defendo que a separação dos poderes afeta tanto a maneira na qual as organizações
midiáticas representam a política quanto o papel que tais organizações desejam desempenhar
na política. A representação midiática da política é afetada de duas maneiras. Primeiramente,
a mídia tende a focar no presidente como um indivíduo – o presidente literalmente confere ao
governo um corpo – em detrimento de agentes coletivos para os partidos. Segundo, no
presidencialismo, a mídia tende a reforçar a cobertura com ênfase nos aspectos
administrativos do governo ao invés de coberturas cujo foco seria sobre os partidos políticos.
Schudson (1982, 2002) mostrou a influência do Movimento Progressista no desenvolvimento
de uma visão administrativa da política entre os jornalistas americanos. Nenhum movimento
semelhante a esse existiu no Brasil, mas a visão administrativa de governo prevaleceu sobre a
dimensão política e se tornou ainda mais dominante nos últimos anos (Porto, 2002). Tanto a
ênfase nos indivíduos políticos (ao invés da ênfase nas forças coletivas) e o foco de cobertura
nos aspectos administrativos do governo (mais do que nos partidos) contribuiu para promover
uma atitude generalista na mídia. A separação dos poderes também afeta a forma da mídia
lidar com o governo. Como discutimos acima, em países presidencialistas, a mídia
desempenha um importante papel intermediário ao permitir com que os três poderes se
comuniquem entre si e com o público. Entretanto, os jornais não desempenham esse papel da
mesma maneira em todos os locais. Nos EUA, a mídia cumpre esse papel ao negar que eles o
cumprem (Frase um pouco confusa; melhor lê-la no original e comparar). É precisamente
porque os jornais sustentam fornecer apenas informações objetivas ao público que passam a
ser vistos como instituições centrais à democracia (Cook, 1998). Ao contrário, no Brasil, eles
sustentam desempenhar um papel muito mais ativo, arbitrando disputas entre os poderes e
tomando lado “em nome do interesse nacional” (Albuquerque, 2005).
Para além do Paralelismo Politico
O Paralelismo Político é a menos clara das categorias entre as quatro variáveis que
englobam a estrutura teórica de “Comparando Sistemas de Mídia”. Ele se refere ao
paralelismo partidos\imprensa, proposto por Seymour-Ure (1974:159). “As mesmas forças
sociais que encontram expressão em um partido ou partidos de um sistema político, tendem a
encontram expressão também através da imprensa”. Para medir esse nível de paralelismo, o
autor propõe quatro critérios, que se relacionam a algumas características dos partidos
políticos: 1- organização, significando a “propriedade e administração de um jornal por um
partido” (1974:160); 2- a lealdade do jornal para com os objetivos do partido; 3- a
correspondência entre os eleitores (supporters) de um partido e os leitores do jornal em
questão; e 4 – a ratio entre partidos e jornais. Trinta anos mais tarde, Hallin e Mancini
observaram que exemplos de conexão ponto a ponto (connection one-to-one) entre as
organizações midiáticas e os partidos políticos se tornaram difíceis de encontrar. Por essa
razão, eles propõem uma definição mais ampla de paralelismo político que se refira à
associação entre a mídia e as tendências políticas gerais, que não se relacionam
necessariamente a partidos em particular. O diagnóstico deles parece ser correto, mas a
solução pode ser questionada: pode o “paralelismo” continuar sendo útil quando aplicado a
situações nas quais as clivagens políticas não são tão óbvias quanto costumavam ser (int)
Defendo que a paralelismo político seja visto não como uma variável isolada, mas
como o resultado da combinação de outras duas variáveis. Primeiramente, a variável isolada
assume a existência do sistema político no qual as linhas partidárias são claras o suficiente
para permitir com que o observador as perceba (como “reflexos” na mídia). Segundo, assume
a existência de uma mídia politicamente ativa no sentido de tomada de posição políticas
explícitas. Desta forma, o paralelismo político descreve a situação na qual as organizações
midiáticas sistematicamente abraçam linhas partidárias específicas. Definido dessa forma, o
paralelismo político reflete apenas um dos quatro tipos de relação entre mídia e política. No
entanto, existem outras três possibilidades. Na segunda, as linhas partidárias são também
claramente definidas, mas a mídia se recusa a tomar posição explícita em nome da ética “do
serviço público”. Na terceira possibilidade, uma mídia ativa e não política (a nonpolitically
active media) se associa a um sistema político no qual as linhas partidárias não são claras. Na
quarta, a mídia desempenha um papel politicamente ativo, a despeito do fato de que as linhas
partidárias não são claras (ver tabela 5.2). (olhar a tabela que está na pg. 93)
No interior dessa tipologia, três podem ser facilmente relacionados aos modelos
propostos em “Comparando Sistemas Midiáticos”: o paralelismo político corresponde ao
modelo Pluralista Polarizado, o serviço público de mídia do modelo Democrático
Corporativo e a “objetividade” midiática (objetctive media) do modelo Liberal. O quarto tipo,
a mídia como agente político, não encontra correspondente entre os modelos do livro. Nessa
situação, a mídia explicitamente toma partido em um debate político, mas não o faz como
representante da visão dos partidos políticos. Explorando sua característica generalista (catch-
all character), a mídia sustenta representar o interesse nacional de forma mais legítima do que
os partidos e mesmo do que as instituições políticas tradicionais. Não posso identificar no
momento um modelo – em relação aos três modelos propostos pelos autores – que seria
equivalente a essa situação, mas acredito que o papel moderador que a mídia brasileira
sustenta que desempenha em relação às forças políticas e instituições fornece um bom
exemplo (Albuquerque, 2005).

Conclusão
Acredita-se que o sistema midiático brasileiro tenha várias características em comum
com o sistema de mídia de países da Europa do sul (Hallin e P., 2002). Azevedo (2006) vai
além e classifica o sistema midiático brasileiro como um modelo Pluralista Polarizado. No
entanto, o exame de tal sistema de acordo com as quatro dimensões analíticas propostas pelos
autores – a estrutura do mercado de mídia, paralelismo político, profissionalismo e o papel do
estado – mostram um quadro bem mais complexo.
As informações concernentes à estrutura do mercado de mídia brasileiro parecem
apoiar a afirmação de Hallin e P. de que o Brasil, a exemplo de outros países latino-
americanos, apresenta, de forma ainda mais veemente, características do sistema midiático
mediterrâneo: baixa circulação de jornais, orientação elitista, tardio desenvolvimento da
imprensa e grande influência da televisão como fonte de informações. Entretanto, é digno de
nota que as três primeiras características são definidas em contraste com o pleno
desenvolvimento da imprensa de massa (full development of a mass press); então de maneira
negativa. Em outras palavras, isso significa que tanto os sistemas midiáticos da Europa do Sul
quanto dos países latino-americanos são diferentes dos sistemas de países classificados como
tendo modelos Liberais ou Democrático-corporativos, mas eles não são necessariamente
semelhantes uns aos outros.
O exame das três outras dimensões revela mais diferenças que similaridades entre o
sistema midiático brasileiro e o modelo Pluralista Polarizado. Primeiro, paralelismo
mídia\política não parece ser particularmente forte no Brasil. Tenho enfatizado que o
paralelismo é mais difícil de ser medido em países com sistema presidencial do que aqueles
com sistema parlamentar, porque os partidos políticos desempenham um papel menos ativo
no governo. Além do mais, as organizações de notícias mais poderosas parecem adotar uma
atitude determinada pelo mercado. Isso não significa que eles evitam tomar posições políticas
explícitas. Eles, de fato, tomam tais posições, mas suas agendas e posições não são redutíveis
às agendas dos partidos políticos; aliás, é mais provável que ocorra o oposto.
As coisas parecem ficar ainda mais confusas em relação ao profissionalismo. Os
jornalistas brasileiros foram influenciados pelas normas do modelo americano (liberal) de
jornalismo desde os anos de 1950, isto é, bem antes de seus colegas de outros países, e eles
construíram suas identidades e orgulho profissional a partir delas. Entretanto, isso não
significa que o jornalismo brasileiro seja similar ao jornalismo americano: os jornalistas
brasileiros adaptaram radicalmente o modelo americano às características sociais e culturais
do Brasil. O modelo americano de jornalismo independente é normalmente concebido como
o oposto ao jornalismo de militância política. No Brasil, porém, comunistas e outros
jornalistas de esquerda desempenharam um grande papel na adaptação desse modelo. A
influência dos comunistas durante os anos 70, sob influência do decreto-lei 972, que
estabeleceu diploma universitário como pré-requisito à prática profissional do jornalismo.
Essas transformações resultaram num novo tipo de identidades profissional entre os
jornalistas brasileiros, uma identidade fortemente corporativista baseada na defesa de
privilégios empregatícios para aqueles com diploma universitário de jornalismo.
Finalmente, deixem-me apresentar algumas observações sobre o papel do estado.
Similarmente ao que aconteceu a alguns países da Europa do Sul estudados pelos autores, o
Brasil tem uma incrível história de censura e repressão a jornalistas. O estado e as
organizações estatais também desempenharam importante papel em fornecer subsídios
econômicos à mídia. No entanto, em contraste com outros países, tem sido quase que
totalmente privada desde sua criação.
Em síntese, as categorias cunhadas pelos autores se mostram muito úteis em uma
discussão comparativa sobre várias características do sistema midiático brasileiro, mas elas
não dão contar de lidar com cada um dos aspectos significativos. Para levar tais categorias em
consideração, eu sugiro que se adicionem duas variáveis ao esquema: a oposição entre
sistemas midiáticos “central” e “periférico” e o sistema de governo (presidencialista ou
parlamentar). Além disso, acredito que o conceito de paralelismo político deva ser revisto. Ao
invés de se considerar tal categoria como uma variável, seria mais produtivo refletir sobre ela
como um tipo específico de relação mídia\política, que resulta da combinação de duas
variáveis: 1- a claridade das linhas partidárias (party lines) e 2- o grau de atividade política da
mídia. O modelo Pluralista Polarizado, como definido pelos autores, combina o sistema
político caracterizado por ter claras linhas partidárias com mídia politicamente ativa.
Identifiquei três outras possíveis combinações: 1 – a mídia “objetiva” , correspondendo ao
modelo Liberal (mídia não politicamente ativa\linhas partidárias sem definição clara); 2 –
mídia “de serviço público” que corresponde ao modelo Corporativo Democrático (mídia não
politicamente ativa\claras linhas partidárias) e 3 – mídia como agente político que não tem
correspondente no modelo proposto pelos autores, mas conta com importantes características
em comum com o sistema midiático brasileiro (mídia politicamente ativa, linhas partidárias
não sem definição clara).