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BOWLBY, John. Formação e rompimento dos laços afetivos.

São Paulo: Martins Fontes,
1982.

Formação e rompimento dos laços afetivos.

Série Psicologia e Pedagogia.
Coordenação editorial: Luis Lorenzo Rivera.
Aprender a Sentir — Sentir para Aprender — Harold C. Lyon Jr.
Orientação Vocacional — A Estratégia Clínica — Rodolfo Bohoslavsky.
Carl Rogers: O Homem e suas Idéias — Richard I. Evans
Tornar-se Pessoa — Carl R. Rogers.
O Primeiro Ano de Vida — René A. Spitz.
O Não e o Sim — René A. Spitz.
A Entrevista de Ajuda — Alfred Benjamin.
O Tratamento clínico da Criança-Problema — Carl R. Rogers.
Grupos de Encontro — Carl R. Rogers.
Sobre o Poder Pessoal — Carl R. Rogers.
Ciência e Comportamento Humano — B. F. Skinner.
A Família como Paciente — Horst E. Richter.
A Formação do Ego — René A. Spitz.
Temas de Psicologia — José Bleger.
A Imagem do Corpo — Paul Schilder.
O Processo Psicodiagnóstico e as Técnicas Projetivas
— M. L. S. de Ocampo, M. E. G. Arzeno, E. G. de Piccolo e colaboradores.
Cuidados Maternos e Saúde Mental — John Bowlby.
Teoria do Vínculo — E. Pichon-Rivière.
Formação e Rompimento dos Laços Afetivos — John Bowlby.
O Processo Grupal — E. Pichon-Rivière.
John Bowlby.
Formação e rompimento de laços afetivos.
Tradução – Álvaro Cabral.
Revisão – Luis Lorenzo Rivera.
Livraria Martins Fontes Editora Ltda.

Título original:
The Making and Breaking of Affectional Bonds © 1979 R. P. L. Bowlby and others.
1
a
edição brasileira: outubro de 1982.

CIP-Brasil. Catalogação na Publicação, Câmara Brasileira de Livro. SP.

Bowlby, John. 1907
Formação e rompimento dos laços afetivos /
John Bowlby; tradução Álvaro Cabral; revisão Luiz Lorenzo Rivera. São Paulo: Martins
Fontes, 1982.
(Psicologia e pedagogia).
1. Crianças — Desenvolvimento 2. Pais e filhos 3. Psicologia infantil 4. Relações
interpessoais 5. Separação (Psicologia) 1. Título.
82-1553 CDD-155.418.

Índices para catalogo sistemático:
1. Crianças: Desenvolvimento afetivo: Psicologia infantil 155.418.
2. Crianças: Relações familiares: Psicologia infantil 155.418.
3. Laços afetivos: Crianças: Influencia no desenvolvimento: Psicologia infantil 155.418.
4. Pais e filhos: Relações: Psicologia infantil 155.418.
5. Rompimento afetivo: Crianças: Influência no desenvolvimento: Psicologia infantil
155.418.
6. Separação familiar: Crianças: Influência no desenvolvimento: Psicologia infantil
155.418.

Produção gráfica: Nilton Thomé.
Assistente de produção: Carlos Tomio Kurata.
Composição: Lúcia Spósito.
Revisão tipográfica: Gilda Tomiko Hara.
Paste-up: José Saris Jr.
Capa: Vitonno C. Martins.

Todos os direitos desta edição reservados à
LIVRARIA MARTINS FONTÉS EDITORA LTDA.
Rua Conselheiro Ramalho, 330/340
01325 — São Paulo — SP — Brasil.

A MEUS COLEGAS DE PESQUISA.
Mary Salter Ainsworth.
Anthony Ambrose.
Mary Boston.
Dorothy Heard.
Christoph Heinicke.
Colin Murray Parkes.
James Robertson.
Dina Rosenbluth.
Rudolph Schaffer.
Ilse Westheimer.

Prefácio.
De tempos em tempos, ao longo dos últimos vinte anos, fui convidado para falar a colegas, ou
a um público mais numeroso, em alguma ocasião formal. Esses convites proporcionaram-me
uma oportunidade para um reexame crítico dos resultados de pesquisas e para descrever, em
linhas gerais, o pensamento atual.
No presente volume, foram selecionadas para reimpressão algumas dessas
conferências e contribuições para simpósios, na esperança de que possam fornecer uma
introdução às idéias que são expostas sistematicamente nos três volumes recém-concluídos
sob o título geral de Attachment and Loss (*1). Como cada conferência ou contribuição foi
dirigida a um público particular numa ocasião particular, achei preferível reeditá-las em sua
forma original, em vez de tentar qualquer revisão substancial. Portanto, cada uma delas é
publicada numa forma próxima daquela em que foi originalmente divulgada, com um
parágrafo introdutório que descreve a ocasião e o público. Aproveitou-se a oportunidade para
corrigir a gramática e padronizar a terminologia e as referências; e foram acrescentadas
algumas notas explicativas entre colchetes, sempre que pareceram necessárias. Toda vez que
uma afirmação exigia modificação ou ampliação, à luz de novas provas ou novos estudos,
acrescentei um comentário e forneci referências complementares (remetendo freqüentemente
o leitor para um dos volumes de Attachment and Loss) numa anotação no final do capítulo.
Foi omitida uma seção do Capítulo 3 por razões explicadas no texto.

Nota de rodapé:

(*1). A ser publicado por esta editora sob o título de Ligação e Perda.
VII

Meu interesse pelos efeitos de diferentes formas de experiência familiar sobre uma criança em
desenvolvimento começou em 1929, quando trabalhei durante seis meses no que hoje se
chamaria uma escola para crianças desajustadas. Uma década depois, após completar minha
formação psiquiátrica e psicanalítica, e trabalhar durante três anos na London Child Guidance
Clinic, apresentei algumas observações num artigo intitulado “The Influence of Early
Environment on the Development of Neurosis and Neurotic Character” [A Influência do Meio
Ambiente Inicial no Desenvolvimento da Neurose e do Caráter Neurótico] (1940); e estava
também coligindo material para a monografia “Forty-Four Juvenile Thieves” [Quarenta e
Quatro Delinqüentes Juvenis] (1944, 1946). Foram muitas as razões pelas quais, depois da
guerra, escolhi como campo especial de estudo a remoção de uma criança do lar para uma
creche ou hospital, e não mais o amplo campo da interação pais-filhos. Em primeiro lugar, era
um evento que, acreditava eu, poderia ter efeitos perniciosos sobre o desenvolvimento da
personalidade de uma criança. Em segundo lugar, não poderia haver dúvidas sobre o fato, o
que contrasta enormemente com a dificuldade em obter informação válida sobre como os pais
tratam uma criança. Em terceiro lugar, parecia ser um campo onde poderiam ser possíveis
medidas preventivas.
Embora nessa pesquisa tenha me esforçado constantemente para aplicar o método
científico, estive sempre profundamente cônscio de que, como em outros campos da
medicina, quando um psiquiatra empreende um tratamento ou tenta a prevenção, ele deve ir,
com freqüência, além do que é cientificamente aceitável. A distinção entre os critérios
necessários em pesquisa e os aceitáveis em terapia e prevenção nem sempre é entendida, e
resulta em muita confusão. Numa conferência recente, “Psychoanalysis as Art and Science”
[Psicanálise como Arte e Ciência] (1979), tentei deixar clara a minha posição.
A minha dívida para com muitos colegas que colaboraram comigo ao longo dos anos,
e a quem este volume é dedicado, será salientada nas próprias conferências que se seguem.
Estou profundamente grato a todos eles. Também estou muito grato à minha secretária,
Dorothy Southern, que trabalhou desde o início em cada uma dessas conferências, em suas
numerosas versões e rascunhos, e o fez com infatigável cuidado e inquebrantável entusiasmo.

Índice.

1. Psicanálise e cuidados com a criança (1956-8) 1.
2. Abordagem etológica da pesquisa sobre desenvolvimento infantil (1957) 23.
3. O luto na infância e suas implicações para a psiquiatria (1961) 41.
4. Efeitos sobre o comportamento do rompimento de um vínculo afetivo (1967-8) 63.
5. Separação e perda na família (1968-70) 77.
6. Autoconfiança e algumas condições que a promovem (1970-3) 97.
7. Formação e rompimento de vínculos afetivos (1976-7) 119.
Referências 151.
Índice de nomes 163.

1. Psicanálise e cuidados com a criança *(1).

Em abril e maio de 1956, como parte das comemorações do centenário do nascimento de
Freud, membros da Sociedade Psicanalítica Britânica promoveram seis conferências públicas
em Londres sobre “Psicanálise e Pensamento Contemporâneo”. Fui convidado a proferir uma
delas sobre “Psicanálise e Cuidados com a Criança”. As conferências foram publicadas dois
anos depois.
Talvez nenhum outro campo do pensamento contemporâneo mostre mais claramente a
influência da obra de Freud do que o que se refere aos cuidados com a criança. Embora
sempre tenha havido aqueles que sabem ser a criança o pai do homem e o amor materno algo
indispensável ao bebê em crescimento, antes de Freud essas verdades antiqüíssimas nunca
tinham sido temas de investigação científica; portanto, eram prontamente postas de lado como
sendo sentimentalismo sem fundamento válido. Freud não só insistiu no fato óbvio de que as
raízes de nossa vida emocional mergulham na infância, como também procurou explorar de
um modo sistemático a ligação entre acontecimentos dos primeiros anos de vida e a estrutura
e funcionamento da personalidade adulta.
Embora, como todos sabemos, as formulações de Freud tenham encontrado muita
oposição — ainda recentemente, em 1950, psiquiatras eminentes nos diziam não haver provas
de que o que acontece nos primeiros anos de vida é importante para a saúde mental —, muitas
de suas proposições básicas são tomadas como certas.

Nota de rodapé:

*(1). Originalmente publicado em Sutherland, J. D. (org.), Psychoanalysis and Contemporary
Thought. Londres: Hogarth Press. Reproduzido com autorização da Hogarth Press.
1

Não só vemos revistas populares, como Picture Post *(1), informarem seu público de que “a
criança infeliz converte-se no infeliz adulto neurótico” o que importa é
“o comportamento daqueles entre os quais uma criança cresce... e, nos primeiros anos,
especialmente o comportamento da mãe”; mas essas opiniões tiveram eco nas publicações
oficiais. O Home Office [do Ministério do Interior britânico] (1955), ao descrever o trabalho
do seu Departamento da Criança, assinala que “as experiências passadas de uma criança
desempenham um papel vital em seu desenvolvimento, e continuam sendo importantes para
ela... e adverte que “a finalidade deve se garantir, tanto quanto possível, que cada bebê seja
regularmente cuidado pela mesma pessoa”. Finalmente, existe um relatório preparado por
uma comissão nomeada pelo Ministro da Educação que trata, de um modo abrangente, de
todos os problemas da criança desajustada (Ministério da Educação, 1955). Baseia suas
recomendações, inflexivelmente, em proposições tais como “A pesquisa moderna sugere que
as influências mais formativas são aquelas que a criança recebe antes de iniciar a sua
escolaridade, e que, por essa época, certas atitudes que podem afetar decisivamente todo o seu
desenvolvimento subseqüente já adquiriram forma”; e “A felicidade e estabilidade de uma
criança nesse período (o estágio final da infância) ou sua infelicidade e desajustamento na
sociedade ou na escola dependem predominantemente de uma coisa: a adequação de sua
formação nos primeiros anos de vida”. Ao celebrar-se o centenário do nascimento do
fundador da psicanálise, é apropriado registrarmos essa revolução no pensamento moderno.
Existe hoje, entre os psicanalistas e aqueles que são por eles influenciados, uma ampla
área de concordância, pelo menos quanto a algumas das questões cruciais que se referem aos
cuidados com a criança. Todos reconhecem, por exemplo, a importância vital de uma relação
estável e permanente com uma mãe (ou mãe-substituta) amorosa durante toda a infância, e a
necessidade de aguardar a maturação antes de arriscar intervenções tais como o desmame e o
treinamento de hábitos pessoais de higiene — e, na verdade, todas as outras etapas na
“educação” de uma criança. Sobre outras questões, entretanto, existem diferenças de opinião
e, em virtude da complexidade e da relativa novidade do estudo científico desses problemas,
seria surpreendente que não existissem.

Nota de rodapé:

*(1). [Um semanário de grande circulação, subseqüentemente suspenso.]
2

Isso causa, com freqüência, confusão e perplexidade nos pais, especialmente os “ávidos de
certezas nesta vida”. Como seria bem mais fácil para todos nós se conhecêssemos todas ou,
pelo menos, a maioria das respostas ao problema de como criar os nossos filhos! Mas isso
está longe de ser a situação atual e não desejo, nem por um instante, dar a impressão de que é.
Entretanto, acredito que a obra de Freud nos dotou de alguns conhecimentos sólidos e, além
disso, o que talvez seja ainda mais importante, mostrou-nos um modo fecundo de considerar
os problemas que envolvem os cuidados com a criança e procurar uma compreensão mais
profunda dos mesmos.

Ambivalência e sua regulação.

Donald Winnicott, em sua conferência sobre psicanálise e culpa *(1), discutiu o papel vital,
no desenvolvimento humano, do desenvolvimento de uma capacidade saudável para sentir
culpa. Deixou claro que a capacidade para experimentar um sentimento de culpa constitui
atributo necessário da pessoa saudável. Embora seja desagradável, como a dor física e a
ansiedade, é biologicamente indispensável e constitui parte do preço que pagamos pelo
privilégio de sermos seres humanos. Mostra, depois, como a capacidade para sentir culpa
“implica que a ambivalência seja tolerada” e uma aceitação da responsabilidade pelo nosso
amor e o nosso ódio. Estes temas têm merecido o profundo interesse dos psicanalistas
britânicos, em virtude da influência preponderante exercida por Melanie Klein. E minha
intenção ampliar agora o exame do papel da ambivalência na vida psíquica — essa tendência
inconveniente que todos possuímos para ficarmos com raiva e, por vezes, com ódio da mesma
pessoa que nos é mais querida — e considerar aqueles procedimentos nos cuidados com a
criança que parecem tomar mais fácil ou mais difícil a uma criança crescer capaz de regular
esse conflito de um modo maduro e construtivo. Pois acredito que um critério principal para
se julgar o valor de diferentes procedimentos nos cuidados com a criança reside nos efeitos,
benéficos ou adversos, que eles têm sobre a capacidade em desenvolvimento de uma criança
para regular seu conflito de amor e ódio, e, através disso, a capacidade para sentir de um
modo saudável sua ansiedade e culpa.
Façamos uma descrição sucinta das idéias de Freud sobre o tema da ambivalência. Dos
inúmeros temas que são ventilados em toda a sua obra, nenhum é mais brilhante nem mais
persistente do que esse.

Nota de rodapé:

*(1). [Uma conferência anterior na série.]
3

Ele surgiu logo no início da psicanálise. Durante sua investigação dos sonhos, Freud (1900)
percebeu que um sonho em que a pessoa amada morre indica freqüentemente a existência de
um desejo inconsciente de que essa pessoa morra — uma revelação que, embora menos
surpreendente do que quando foi exposta pela primeira vez, talvez não seja hoje menos
perturbadora do que há meio século. Em sua busca da origem desses desejos inoportunos,
Freud voltou-se para a vida emocional da criança e formulou a hipótese — que era, na época,
audaciosa — de que, em nossos primeiros anos de vida, é regra, e não exceção, sermos
impelidos por sentimentos de raiva e ódio, tanto quanto de interesse e amor, em relação a
nossos pais e nossos irmãos. De fato, foi nesse contexto que Freud apresentou ao mundo, pela
primeira vez, os temas, hoje familiares, de rivalidade entre os irmãos e de ciúme edipiano.
Nos anos que se seguiram à publicação de sua grande obra sobre sonhos, o interesse de
Freud pela sexualidade infantil fez com que o tema da ambivalência passasse a ocupar um
lugar menos proeminente em seus escritos. Reaparecerá em 1909 quando, num artigo sobre
neurose obsessiva, lembra-nos que “em todas as neuroses, deparamo-nos com os mesmos
instintos reprimidos por trás dos sintomas... o ódio mantém-se reprimido no inconsciente pelo
amor...” Alguns anos depois, a fim de enfatizar o significado fundamental desse conflito,
Freud (1912) introduziu o termo ambivalência, que fora criado recentemente por Bleuler.
O significado clínico que Freud atribuiu à ambivalência reflete-se em suas construções
teóricas. Na primeira de suas duas principais formulações, o conflito intrapsíquico tem lugar
entre os instintos sexuais e os do ego. Como nessa época considerava os impulsos agressivos
parte integrante dos instintos do ego, Freud resumiu sua proposição afirmando que “os
instintos sexuais e os do ego desenvolvem facilmente uma antítese que repete a do amor e
ódio” (1915). O mesmo conflito básico reflete-se de novo na segunda de suas formulações —
a que se refere ao conflito entre os instintos de vida e de morte. Nesta terminologia,
verificamos que a ambivalência com que um paciente neurótico se defronta é considerada por
Freud como resultante de uma falha no processo de fusão dos instintos de vida e de morte, ou
a um colapso ulterior da fusão, ou seja, a defusão (1923). Conclui, portanto, que o problema
clínico e teórico crucial está em compreender como o conflito entre amor e ódio chega a ser
satisfatoriamente regulado ou não.
As opiniões sobre os méritos dessas formulações metapsicológicas de Freud variam, e
continuarão variando ainda por muitas décadas. Por vezes, pergunto-me se as controvérsias
teóricas que essas formulações
4

suscitaram e estimularam, e a linguagem abstrata em que se expressam, não terão obscurecido
a nudez crua e a simplicidade do conflito que oprime a humanidade — o de se encolerizar
com a pessoa que é mais amada e desejar magoá-la. Essa é uma disposição da humanidade
que sempre ocupou uma posição central na teologia cristã, e que é bem conhecida de todos
nós em frases coloquiais como “morder a mão que nos alimenta” e “matar a galinha dos ovos
de ouro”. E o tema da Balada da Prisão de Reading, de Oscar Wilde, da qual um trecho diz:

Yet each man kills the thing he loves,
By each let this be heard,
Some do it with a bitter look,
Some with a flattering word,
The coward does it with a kiss,
The brave man with a sword! *(1).

É graças a Freud que o significado desse conflito na vida do homem foi percebido de
novo, e é também graças a ele que pela primeira vez é objeto de investigação científica.
Sabemos hoje que o medo e a culpa provenientes desse conflito estão subjacentes a muitas
doenças psicológicas, e a incapacidade para enfrentar esse medo e essa culpa está
subentendida em muitos distúrbios de caráter, incluindo a delinqüência persistente. Embora
nosso trabalho deva dar um grande passo à frente quando as questões teóricas estiverem mais
claras, acredito que, em muitos casos, poderemos progredir bastante usando conceitos do dia-
a-dia, como amor e ódio, e conflito — o inevitável conflito que se desenvolve em nós quando
amor e ódio são dirigidos para uma só e mesma pessoa.
Ficará claro que os passos dados pelo bebê ou a criança ao avançar no sentido da
regulação dessa ambivalência têm importância decisiva para o desenvolvimento de sua
personalidade. Se a criança seguir um caminho favorável, ela crescerá consciente de que
existem, em seu íntimo, impulsos contraditórios, mas estará apta a dirigi-los e controlá-los, e a
ansiedade e culpa que eles engendram será suportável. Se o seu progresso for menos
favorável, a criança será assediada por impulsos sobre os quais sente não ter controle ou ter
um controle inadequado; em conseqüência disso, sofrerá uma ansiedade aguda com relação à
segurança das pessoas que ela ama e também temerá o revide que, acredita ela, não deixará de
cair sobre sua própria cabeça.

Nota de rodapé:

*(1). Tradução literal: “No entanto, mata cada homem a coisa que ama, / Que isto seja ouvido
por todos eles, / Alguns matam com um olhar amargo, / Outros com uma palavra de adulação,
/ O covarde o faz com um beijo, / O valente com uma espada!” (N. do T.).
5

É nesse caminho que está o perigo — o perigo de a personalidade recorrer a uma série de
manobras, cada uma das quais cria mais dificuldades do que resolve. Por exemplo, o medo da
punição que é esperada como resultado de atos hostis — e também, é claro, de intuitos hostis,
pois nunca é fácil para uma criança distinguir claramente uns dos outros — acarreta
freqüentemente mais agressão. Assim, vemos em inúmeros casos uma criança agressiva agir
baseada em que o ataque é a melhor defesa. Do mesmo modo, a culpa pode levar a uma
exigência compulsiva de demonstrações de amor que a tranqüilizem e, quando essas
exigências não são satisfeitas, a novos sentimentos de ódio e, por conseguinte, a mais culpa.
São esses os círculos viciosos que resultam quando a capacidade de regular o amor e o ódio se
desenvolve de modo desfavorável.
Além disso, quando a criança pequena não tem confiança em sua aptidão para
controlar seus impulsos ameaçadores, há o risco de que, inadvertidamente, recorra a um ou
mais dos incontáveis mecanismos psíquicos primitivos e bastante ineficazes destinados a
proteger seus entes queridos de danos e ela própria da dor de um conflito que parece insolúvel
por outros meios. Esses mecanismos psíquicos, que incluem a repressão de um ou dos dois
componentes do conflito — ora o ódio, ora o amor, e, por vezes, ambos — o deslocamento, a
projeção, a supercompensação e muitos mais, têm, todos, uma coisa em comum: em vez de o
conflito ser trazido para campo aberto e enfrentado pelo que é, todos esses mecanismos de
defesa são evasões e negações de que o conflito existe. Não admira que sejam tão ineficazes!
Antes de chegarmos ao nosso tema principal — as condições que, na infância,
favorecem ou retardam o desenvolvimento da capacidade de regular o conflito — quero
enfatizar mais uma coisa: não existe nada de mórbido no conflito. Muito pelo contrário:
conflito é, em todos nós, a condição normal de nossas transações. Todos os dias
redescobrimos em nossas vidas que, se adotarmos um determinado curso de ação, teremos de
renunciar a outros que também são desejados; descobrimos, de fato, que não podemos comer
o doce e ficar com ele. Portanto, em cada dia de nossas vidas, cabe-nos a tarefa de decidir
entre interesses rivais em nosso próprio íntimo, e de regular conflitos entre impulsos
irreconciliáveis. Outros animais têm o mesmo problema. Lorenz (1956) mostrou que, antes,
pensava-se que somente o homem era vítima de impulsos conflitantes mas que hoje sabe-se
que todos os animais são constantemente acossados por impulsos que são mutuamente
incompatíveis, como ataque, fuga e abordagem sexual.
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Um excelente exemplo é o pintarroxo no período de acasalamento. *(1) O macho e a fêmea
têm plumagem idêntica — ambos têm o papo vermelho. Na primavera, o macho delimita um
território para si mesmo e tem propensão a atacar todos os intrusos que tenham papo
vermelho. Isso significa que, quando uma esposa potencial penetra em seu território, o
primeiro impulso do macho é atacá-la, e o primeiro impulso da fêmea é fugir. Somente
quando ela se mostra arisca é que os impulsos hostis do macho são inibidos e suas respostas
de corte suscitadas. Portanto, nas fases iniciais do namoro, ambos os sexos se encontram num
estado de conflito, o macho dividido entre o ataque e o avanço sexual, a fêmea entre o flerte e
a fuga.
Toda a pesquisa recente em psicologia e biologia demonstrou incontestavelmente que
o comportamento, seja no próprio homem ou em outros organismos, é resultante de um
conflito quase contínuo de impulsos interatuantes: nem o homem como espécie nem o homem
neurótico como um subgrupo atormentado têm o monopólio do conflito. O que caracteriza o
indivíduo psicologicamente doente é a sua incapacidade para regular satisfatoriamente seus
conflitos.

Condições que geram dificuldade.

O que sabemos, pois, das condições que geram a dificuldade? Não pode haver dúvida de que
uma característica principal do conflito que toma difícil regulá-lo é a magnitude de seus
componentes. No caso de ambivalência, se o impulso para obter satisfação libidinal *(2) ou o
impulso para magoar e destruir a pessoa amada for extraordinariamente forte, aumentará o
problema de regular o conflito. Freud percebeu isso desde o começo. Logo no início de sua
obra, rejeitou a idéia de que aquilo que distinguia os indivíduos mentalmente sãos dos menos
afortunados era a existência ou a natureza dos conflitos experimentados; ele sugeriu, pelo
contrário, que a diferença reside no fato de os neuróticos apresentarem, “em escala ampliada,
sentimentos de amor e ódio por seus pais, o que ocorre de modo menos evidente e menos
intenso nas mentes da maioria das crianças” (1900). Este é um ponto de vista que foi
abundantemente confirmado pelo trabalho clínico dos últimos cinqüenta anos.
Portanto, uma chave para os cuidados com a criança é tratá-la de tal maneira que
nenhum dos dois impulsos que põem em perigo a pessoa amada — a voracidade libidinal e o
ódio — se tome demasiado intenso.

Nota de rodapé:

*(1). [Referência ao pintarroxo europeu, n5o ao americano.]
*(2). Neste parágrafo e nos seguintes, uso a terminologia tradicional quando em refiro a
“existências libidinais” ou “necessidades libidinais”. Hoje, prefiro referir-me ao desejo de
ligação de uma criança ou, talvez, á “busca de uma ligação segura” da criança.
7

Ao contrário de alguns analistas que são pessimistas quanto ao vigor inato dos impulsos de
uma criança, acredito que essa condição é, na maioria das crianças, resolvida com relativa
facilidade, contanto que elas tenham pais carinhosos. Se um bebê tem o amor e a companhia
de sua mãe e logo também a de seu pai, ele crescerá sem uma pressão exagerada de anseios
libidinais e sem uma propensão irresistível para odiar. Se não tiver essas coisas, seus anseios
libidinais provavelmente serão muito elevados, o que significa que o bebê estará procurando
constantemente amor e afeição, e será continuamente propenso a odiar aqueles que não
conseguem — ou lhe parecem não conseguir — dar-lhe o afeto que ele tanto deseja.
Embora a necessidade irresistível que uma criança tem de amor e segurança seja hoje
um fato muito conhecido, há quem proteste contra isso. Por que haveria um bebê de fazer tais
imposições? Por que não pode ficar satisfeito com menos cuidados e atenções? Como
poderemos arranjar as coisas de modo que os pais tenham tempos mais tranqüilos e menos
sobrecarregados? Talvez um dia, quando soubermos mais a respeito das necessidades
libidinais de uma criança pequena, estejamos aptos a descrever de um modo mais preciso os
seus requisitos mínimos. Entrementes, será aconselhável respeitar as suas necessidades e
compreender que negá-las equivale freqüentemente a gerar na criança forças poderosas de
exigências libidinais e a propensão para odiar; e isso pode, mais tarde, causar grandes
dificuldades tanto para ela como para nós.
Não minimizemos os problemas que a necessidade de satisfazer as exigências de seus
bebês cria para as mulheres. Em tempos idos, quando a educação superior lhes era vedada,
havia menos conflito entre as exigências da família e da carreira, embora a frustração para
mulheres competentes e ambiciosas fosse grande. Hoje, as coisas são muito diferentes. As
mulheres ingressam em profissões onde passaram a desempenhar um papel indispensável.
Com efeito, em todos os campos ligados à saúde e ao bem-estar infantil, elas têm figurado
entre os nossos líderes. Esse progresso, entretanto, como todo o crescimento e
desenvolvimento, acarretou suas próprias tensões, e muitas leitoras conhecerão pessoalmente
o problema das exigências conflitantes de família e carreira. A solução não é fácil e — nem
fica bem para aqueles que, entre nós, têm a sorte de não se defrontarem com o problema —
ditar as leis com que o outro sexo deveria resolvê-lo. Esperemos que, com o correr do tempo,
a nossa sociedade, ainda predominantemente organizada segundo as conveniências dos
homens e pais, se ajuste às necessidades das mulheres e mães, e que as tradições sociais
evoluam de modo a guiar os indivíduos num rumo esclarecido de ação.
8

Voltemos agora ao nosso tema e vejamos o que acontece quando, por qualquer razão,
as necessidades de um bebê não são suficientemente satisfeitas no momento certo. Há alguns
anos venho investigando os efeitos nocivos que acompanham a separação de crianças
pequenas de suas mães, depois que entre elas se formaram relações emocionais. Foram muitas
as razões pelas quais escolhi esse tópico para as minhas pesquisas: em primeiro lugar, os
resultados têm aplicação imediata e valiosa; em segundo lugar, é uma área em que podemos
obter dados comparativamente sólidos e, assim, mostrar àqueles que ainda são hiper-críticos
da psicanálise que esta possui boas razões para reivindicar o status científico; finalmente, a
experiência de uma criança pequena, ao ser separada de sua mãe, fornece-nos um exemplo
dramático, quando não trágico, desse problema central da psicopatologia — a geração de um
conflito de tal envergadura que os meios normais para resolvê-lo são destroçados.
Parece existir agora uma razoável certeza de que é por causa da intensidade da
demanda libidinal e do ódio gerados que a separação de uma criança de sua mãe, depois que
formou com ela uma relação emocional, pode acarretar efeitos tão devastadores para o
desenvolvimento de sua personalidade. Conhecemos há vários anos a saudade intensa e a
agitação que tantas crianças pequenas manifestam quando da internação num hospital ou
instituição residencial, e o modo desesperado como, mais tarde, depois que seus sentimentos
acalmaram com o regresso ao lar, se agarram a suas mães e as seguem obstinadamente. O
aumento de intensidade de suas exigências libidinais não precisa ser enfatizado. Também
tomamos conhecimento do modo como essas crianças rejeitam suas mães quando voltam a
vê-las pela primeira vez, e as acusam amargamente por as terem abandonado.
Muitos exemplos de intensa hostilidade contra a figura mais amada foram registrados
por Anna Freud e Dorothy Burlingham nos relatórios das Hampstead Nurseries durante a
guerra. Um exemplo particularmente pungente é o de Reggie, que, com exceção de um
intervalo de dois meses, passou toda a sua vida em creches desde os cinco meses de idade.
Durante a sua estada, ele formara “duas relações apaixonadas com duas jovens assistentes que
cuidaram dele em diferentes períodos. A segunda ligação foi subitamente quebrada aos dois
anos e oito meses, quando a ‘sua’ assistente casou. Reggie sentiu-se completamente perdido e
desesperado quando ela saiu, e recusou-se a olhá-la quando, quinze dias depois, ela o visitou.
Virou a cabeça para o outro lado quando ela lhe falou, mas fixou os olhos na porta, que a
moça fechou ao sair. A noite, sentou-se na cama e disse: ‘Minha, muito minha Mary-Ann!
Mas não gosto dela’”. (Burlingham e Freud, 1944:51.)
9

Experiências como essa, especialmente se repetidas, levam a um sentimento de
desamor, abandono e rejeição. São esses sentimentos que se expressam nos poemas
tragicômicos de um delinqüente de onze anos cuja mãe morreu quando ele estava apenas com
quinze meses de idade e que, a partir de então, conhecera numerosas mães-substitutas. Eis
alguns dos seus versos (não estou certo se originais ou não), escritos durante o seu tratamento
com a minha colega, Yana Popper, os quais parecem expressar o que ele achava ser a razão de
ter passado sucessivamente de uma figura materna para outra:

Jumbo had a baby dressed in green,
wrapped it up in paper and sent it to the Queen.
The Queen did not like it because it was too fat,
She cut it up in pieces and gave it to the cat.
The cat did not like it because it was too thin,
She cut it up in pieces and gave it to the King.
The King did not like it because he was too slow,
Threw it out the window and gave it to the crow. *(1).

Mais tarde, quando a sua terapeuta saiu de férias, ele exprimiu, na letra de uma canção
tradicional, o seu desespero por não ser amado:

Oh, my little darling, 1 love you;
Oh, my little darling, 1 don ‘t believe you do.
If you really loved me, as you say you do,
You would not go to America and leave me at the Zoo. *2).

Dificilmente surpreenderá que um desespero tão intenso esteja conjugado com um
ódio igualmente intenso. Quanto mais Reggie se sentia ligado à sua terapeuta, mais propenso
era a explosões de ódio violento, algumas das quais chegavam a ser quase perigosas. Parecia
evidente que as repetidas separações em seus primeiros anos de vida tinham gerado nesse
menino a tendência a uma intensa ambivalência, de tal amplitude, que o seu equipamento
psíquico imaturo fora incapaz de regular harmoniosamente, e que os padrões patológicos de
regulação adotados em seus primeiros anos persistiram.

Nota de rodapé:

*(1). Tradução literal: “Jumbo teve um bebê vestido de verde / embrulhou-o e mandou-o à
Rainha. / A Rainha não gostou dele por ser muito gordo, / Cortou-o em pedacinhos e deu-o ao
gato. / O gato não gostou porque ele era muito magro, / Cortou-o em pedacinhos e deu-o ao
Rei. / O Rei não gostou porque ele era muito lento, /Jogou-o pela janela e deu-o ao corvo.”
(N. do T.).
*(2). Tradução literal: “Oh, meu benzinho, eu te amo;/ Oh, meu benzinho, não acredito que
você me ame. / Se realmente me amasse como diz, / Não iria para a América, deixando-me no
zoo”. (N. do T.).
10

Outras provas do modo como a separação da mãe provoca numa criança pequena intensa
necessidade libidinal e ódio são fornecidas por um estudo do meu colega Christoph Heinicke
(1956). Ele comparou as respostas de dois grupos de bebês entre 15 e 30 meses de idade; um
grupo estava numa instituição residencial, o outro, numa creche diurna. Embora as crianças de
ambos os grupos mostrassem preocupações em recuperar os pais perdidos, os da instituição
residencial expressaram seus desejos com muito mais choro — em outras palavras, mais
intensamente; do mesmo modo, as crianças da instituição residencial, e não as da creche,
foram as que, em várias situações, se mostraram propensas a agir de forma violentamente
hostil. Embora seja apenas uma inferência que essa hostilidade é inicialmente dirigida contra
os pais ausentes, certos dados desse estudo estatisticamente fundamentado são compatíveis
com a hipótese, formulada há alguns anos (Bowlby, 1944), de que um dos principais efeitos
da separação mãe-criança é uma grande intensificação do conflito de ambivalência.
Até aqui, ao considerarmos o que concorre para dificultar a regulação da
ambivalência, nos primeiros anos da infância, concentramos a atenção em experiências, como
a privação materna, que conduzem ao anseio libidinal e ao ódio em níveis particularmente
elevados. Existem muitos outros eventos, além desse, que podem, naturalmente ocasionar
problemas. A vergonha e o medo, por exemplo, também podem gerar grandes dificuldades.
Nada ajuda mais uma criança do que poder expressar francamente, de um modo direto e
espontâneo, seus sentimentos de hostilidade e ciúme; e não existe, creio eu, tarefa parental
mais válida do que ser capaz de aceitar com serenidade expressões de devoção filial tais como
“Detesto você, mamãe”, ou “Papai, você é um bruto”. Ao tolerarmos tais explosões,
mostramos aos nosso filhos que não tememos essas manifestações hostis e que confiamos em
que podem ser controladas; além disso, propiciamos à criança a atmosfera de tolerância e
compreensão em que o autocontrole pode desenvolver-se.
Alguns pais acham difícil que tais métodos sejam eficazes ou sensatos, e pensam que
se deveria inculcar nas crianças que o ódio e o ciúme não são apenas coisas ruins, mas
potencialmente perigosas. Há dois métodos comuns para fazer isso. Um deles é a expressão
veemente de reprovação por meio do castigo; o outro, mais sutil e explorando o sentimento
infantil de culpa, consiste em incutir na criança a certeza de que está sendo ingrata, e indicar-
lhe o sofrimento, físico e moral, que tal comportamento causa em seus dedicados pais.
Embora ambos os métodos pretendam controlar as paixões malignas da criança, a experiência
clínica sugere que nem um nem outro é muito bem-sucedido na prática, e que ambos
acarretam um pesado ônus de infelicidade.
11

Os dois métodos tendem a fazer com que a criança receie seus sentimentos e se culpe por eles,
levando-a a recalcá-los e, assim, tornando-lhe mais (e não menos) difícil controlá-los. Ambos
tendem a criar personalidades difíceis: o primeiro — a punição — gerando rebeldes e, se for
muito severo, delinqüentes; o segundo — a vergonha — neuróticos carregados de sentimentos
de culpa e de ansiedade. Assim é na política, assim é com as crianças: a longo prazo, a
tolerância da oposição paga belos dividendos.
Sem dúvida, muito do que foi dito até aqui é terreno conhecido: as crianças necessitam
de amor, segurança e tolerância. Tudo isso está muito certo, dirão, os leitores, mas quer dizer
que nunca podemos frustrar nossos filhos e devemos deixar que eles façam tudo o que
quiserem? Toda essa evitação da frustração somente levará, dirão ainda, a que eles cresçam
como filhos bárbaros de pais espezinhados e oprimidos. Acredito que isso seja uma conclusão
que nada tem a ver com as premissas; mas como se trata de uma conclusão usada tão
comumente, vale a pena ocuparmo-nos dela em maior detalhe.
Em primeiro lugar, as frustrações realmente importantes são as que dizem respeito à
necessidade que a criança tem de amor e atenção por parte dos pais. Desde que essas
necessidades sejam satisfeitas, as frustrações de outras espécies importam muito pouco. Não
que sejam particularmente boas para a criança. Com efeito, uma das artes de ser um bom pai
ou uma boa mãe reside na habilidade para distinguir as frustrações evitáveis das inevitáveis.
Uma quantidade imensa de atrito e raiva em crianças pequenas, e de perda de paciência por
parte dos pais, pode ser evitada por procedimentos simples como apresentar um brinquedo
atraente antes de intervir para retirar das mãos da criança a melhor peça de porcelana da mãe,
ou atraí-la para a cama com insinuante bom humor em vez de exigir a pronta obediência, ou
permitir-lhe que escolha a sua própria dieta e coma ao seu próprio jeito, incluindo, se ela
assim o desejar, o uso da mamadeira até os dois anos de idade ou mais. A quantidade de
ansiedade e irritação que resultam da expectativa de que crianças pequenas se conformem às
nossas próprias idéias sobre o que, como e quando devem comer é ridícula e trágica — ainda
mais por dispormos hoje de tantos estudos minuciosos que demonstram a eficiência com que
bebês e crianças pequenas podem regular suas próprias dietas, e a conveniência e comodidade
que resultam para os pais quando esses métodos são adotados (Davis, 1939).
Admitido, entretanto, que existem muitas situações em que a frustração de uma
criança pode ser evitada sem inconvenientes para nós e com efeitos benéficos sobre o estado
de ânimo de todos, há outras situações em que não pode. O fogo é perigoso, a porcelana
quebra, a
12

tinta mancha tapetes, uma faca pode ferir uma outra criança e ferir também a própria criança.
Como evitaremos essas catástrofes? A primeira regra é organizar a casa de modo que os
fósforos e outros artigos combustíveis estejam sempre guardados, e que as porcelanas, facas e
tintas fiquem sempre fora do alcance. A segunda é a intervenção cordial mas firme. E curioso
como tantos adultos inteligentes pensam que a única alternativa para deixar uma criança
correr solta é infligir-lhe castigos. Uma política de intervenção firme mas amistosa, sempre
que uma criança estiver fazendo alguma coisa que queremos impedir, não só cria menos
azedume do que uma punição mas, a longo prazo, é muito mais eficaz. Creio que uma das
grandes ilusões da civilização ocidental é a eficácia do castigo como um meio de controle.
Para crianças mais velhas e adultos, a punição tem seus usos como auxiliar de outros
métodos; acredito que, nos primeiros anos, o castigo é despropositado por ser desnecessário e
porque pode criar, através da ansiedade e do ódio, males muito maiores do que aqueles que
pretendia curar.
Felizmente, com os bebês e as crianças de pouca idade, que são muito menores do que
nós, a intervenção amistosa é fácil; num abrir e fechar de olhos, podemos agarrar uma criança
e levá-la para longe do lugar de perigo. O preço que isso exige é a nossa presença quase
constante, um preço que aconselhamos os pais a pagarem. Em todo caso, não tem qualquer
fundamento a idéia de que as crianças pequenas podem ser disciplinadas para obedecer a
regras, de modo que se mantenham na linha, mesmo em nossa ausência. As crianças
rapidamente aprendem a saber do que é que nós gostamos e não gostamos, mas não possuem
o equipamento psíquico necessário para satisfazer sempre os nossos desejos em nossa
ausência. A menos que se aterrorize uma criança ao ponto de levá-la à inércia, o
disciplinamento de nossos filhos está fadado ao fracasso, e aqueles que o tentam só podem
esperar frustração e exaustão. Um modelo que exemplifica a prática da intervenção firme mas
amigável é a professora talentosa de jardim de infância, e os pais podem aprender muito com
os métodos que ela usa.
Cumpre assinalar que essa técnica de intervenção amistosa não só evita a estimulação
da raiva e do azedume, ainda que inconscientes, que acredito serem inseparáveis da punição,
mas fornece à criança um modelo para a regulação efetiva de seus conflitos. Mostra-lhe que a
violência, o ciúme e a voracidade podem ser dominados por meios pacíficos e que não há
necessidade de recorrer a métodos drásticos de condenação e punição que, quando copiados
por uma criança, podem sofrer distorções e converter-se, por causa de sua imaginação
primitiva, em culpa e implacável autopunição patológicas. Trata-se, é claro, de
13

uma técnica baseada na concepção que Donald Winnicott nos expôs, de acordo com os
ensinamentos de Melanie Klein — a concepção segundo a qual existe nos seres humanos a
semente de uma moralidade inata que, se tiver oportunidade de germinar, proporciona à
personalidade da criança os alicerces emocionais do comportamento moral. É uma noção que
coloca a par do conceito de pecado original, do qual a psicanálise descobre tantas provas no
coração humano, o conceito de preocupação original pelo nosso semelhante ou de bondade
original, a qual, se beneficiada por circunstâncias favoráveis, acabará por ganhar a primazia. É
uma concepção cautelosamente otimista da natureza humana, que acredito ser justificada.

Problemas emocionais dos pais.

Vimos até aqui algumas das condições para o cuidado com crianças que parecem suscetíveis
de promover o desenvolvimento saudável da capacidade de regular o conflito. E o momento
adequado para considerar o problema do ponto de vista dos pais. Poder-se-á perguntar se
estamos aconselhando os pais a serem eternamente amorosos, tolerantes e controladores
amistosos. Penso que não... e, como pai, espero que não. Nós, pais, também temos nossos
sentimentos de raiva e ciúme; e, quer isso nos agrade ou não, é inevitável que eles por vezes
se exprimam, quando não de um modo deliberado, pelo menos inadvertidamente. É minha
convicção, e certamente minha esperança, que, se os antecedentes gerais de sentimento e
relacionamento são bons, uma explosão ocasional de mau humor ou uma palmada eventual
não podem causar sérios danos; isso tem a vantagem, por certo, de aliviar os nossos próprios
sentimentos e, talvez, de mostrar também aos nossos filhos que temos os mesmos problemas
que eles. Tais expressões espontâneas de emoção, talvez com um pedido subseqüente de
desculpas se tivermos ido longe demais, podem distinguir-se nitidamente da punição, com seu
pressuposto formal sobre o certo e o errado. O aforismo de Bernard Shaw, de nunca bater
numa criança, a não ser quando se estiver com a cabeça quente, é um bom conselho.
Um ponto que aqueles que não são pais devem ter em mente é que sempre foi muito
mais fácil cuidar dos filhos dos outros do que dos próprios. Em virtude do vínculo emocional
que liga a criança aos pais e os pais à criança, as crianças sempre se comportam de um modo
mais “infantil” com seus pais do que com outras pessoas. Ouve-se com freqüência pessoas
bem intencionadas comentarem que uma certa criança
14

se comporta maravilhosamente com elas, e que o seu comportamento difícil com a mãe se
deve à maneira insensata como esta lida com o filho; a acusação usual é que a mãe a estraga
com mimos! Tais críticas geralmente são injustificadas e constituem, com muito mais
freqüência, manifestações da ignorância de quem critica do que de incompetência dos pais.
Isto é verdadeiro até no mundo das aves. Jovens tentilhões perfeitamente capazes de se
alimentarem por si mesmos, começam imediatamente implorando comida, de um modo
infantil, assim que avistam seus pais.
Os pais, especialmente a mãe, são, pois, pessoas muito caluniadas; receio que
caluniadas sobretudo pelos profissionais, tanto médicos como profissionais de outras áreas
afins. No entanto, seria absurdo pretender que os pais não cometam erros. Alguns erros
nascem da ignorância, mas talvez mais numerosos sejam os que são fruto dos problemas
emocionais inconscientes que têm origem em nossa própria infância. Quando examinamos
crianças numa clínica de orientação infantil, pode parecer que, num certo número de casos, as
suas dificuldades resultam da ignorância dos pais sobre coisas tais como os efeitos nocivos da
privação materna ou da punição prematura e excessiva, mas, com freqüência muito maior, os
problemas surgem porque os próprios pais têm dificuldades emocionais de que só estão
parcialmente conscientes e que não podem controlar. Por vezes, eles leram todos os livros
mais recentes sobre cuidados com crianças e assistiram a todas as conferências de psicólogos,
na esperança de descobrirem a melhor maneira de lidar com seus filhos, mas, apesar disso, as
coisas continuam saindo erradas. De fato, o fracasso de muitos pais cheios de “idéias
psicológicas” na realização de um bom trabalho na criação dos filhos deixou-os céticos,
desvalorizando as idéias. Isso é um erro. O que devemos entender, contudo, é que o
importante não é apenas o que fazemos, mas o modo como o fazemos. Se a mãe é ansiosa e
ambivalente, amamentar quando o bebê pede acarretará provavelmente mais problemas do
que a amamentação rotineira, regulada pelo relógio, quando a mãe é uma pessoa descontraída
e feliz. O mesmo acontece com os métodos modernos versus métodos antiquados de
treinamento de hábitos de higiene. Isso não significa que os métodos modernos não sejam
melhores; quer dizer que eles são apenas uma parte daquilo que importa, e que os seres
humanos, desde a infância, são mais sensíveis às atitudes emocionais daqueles que os cercam
do que a qualquer outra coisa.
Não há mistério nisso; nem há necessidade de invocar um sexto sentido. Os bebês são
mais sensíveis e estão mais atentos ao significado de tons de voz, gestos e expressões faciais
do que os adultos; e, desde os
15

primeiros dias de vida, são profundamente sensíveis ao modo como são manipulados *(1).
Uma mãe extremamente ansiosa, de quem estou tratando, disse-me como descobriu que seu
bebê de dezoito meses, de quem se queixa por ser muito chorão e apegado a ela, reage de
maneira muito diferente conforme a maneira como vê a mãe sair do quarto. Se ela se levanta
de um salto e sai correndo para evitar que a panela que está fervendo derrame, o bebê chora e
exige que ela volte. Mas se a mãe sai do quarto calmamente e sem estardalhaço, ele mal se
apercebe de que ficou sozinho. Além da compreensão intelectual, que eu não menosprezo, é
sobretudo da sensibilidade dos pais para as reações de seu bebê e da capacidade, sobretudo da
mãe, para se adaptar intuitivamente às necessidades dele que nasce uma prática eficaz de
cuidar das crianças.
Isto não constitui novidade nenhuma. Ouvimos freqüentemente de professores e outros
profissionais que uma criança está sofrendo por causa da atitude de um de seus pais,
geralmente a mãe. Dizem-nos que a mãe é uma criatura excessivamente ansiosa ou repressora
do bebê, super-possessiva ou propensa à rejeição, e tais comentários são repetidamente
justificados. Mas o que os críticos geralmente não levam em conta é a origem inconsciente
dessas atitudes desfavoráveis. Por conseguinte, os pais desorientados vêem-se alvo de uma
mistura de exortação e críticas, cada uma delas mais inútil e ineficaz do que as outras.
Uma abordagem psicanalítica esclarece a origem das dificuldades parentais e, ao
mesmo tempo, fornece uma base racional para ajudar os pais. Muitas das dificuldades com
que os pais se defrontam, o que não chega a causar surpresa a ninguém, resultam da sua
incapacidade para regular a própria ambivalência. Quando nos tornamos pais para uma
criança, poderosas emoções são despertadas, emoções tão fortes quanto as que vinculam um
bebê à mãe ou um amante a outro. Nas mães, em particular, existe o mesmo desejo de
possessão completa, a mesma devoção e a mesma renúncia a outros interesses. Mas,
lamentavelmente, a par de todos esses sentimentos deliciosos e ternos, ocorre também, com
excessiva freqüência, uma mistura — hesito em dizê-lo — de ressentimento, e até de ódio. A
intrusão de hostilidade nos sentimentos de uma mãe ou de um pai pelo seu bebê parece tão
estranha, tão chocante e, muitas vezes, tão horripilante, que muita gente terá dificuldade em
acreditar. Entretanto, é uma realidade e, por vezes, uma sombria realidade para um dos pais e
para a criança. Qual é a sua origem?

Nota de rodapé:

*(1). Ver, por exemplo, o relato de Stewart et al. (1954) sobre bebês que choram
excessivamente. Verificaram que era uma resposta às dificuldades que as mães
experimentavam em lidar com os filhos de um modo coerente.
16

Embora ainda seja difícil explicar essa hostilidade, parece evidente que os sentimentos que
são despertados em nós quando nos tornamos pais têm muito em comum com os sentimentos
que foram suscitados em nós, quando crianças, por nossos pais e irmãos. A mãe que sofreu
privação pode, se não se tomou incapaz de sentir afeição, experimentar uma intensa
necessidade de possuir o amor do bebê e fazer tudo o que estiver ao seu alcance para
assegurar-se de que o obtém. A mãe que, quando criança, tinha ciúmes de um irmão mais
novo, poderá experimentar agora uma hostilidade absurda e exorbitante pelo novo e
pequenino “estranho” que veio instalar-se na família. Esse sentimento, entretanto, é mais
comum no pai. A mãe (ou o pai) cujo amor pela própria mãe era impregnado de antagonismo
pelo modo autoritário como, em criança, foi por ela tratada(o), será passível de irritar-se e
abominar o modo como o bebê faz valer e impõe suas exigências.
Acredito que o problema não reside na simples repetição de antigos sentimentos —
talvez uma certa dose desses sentimentos esteja presente em todos os pais — mas, sobretudo,
na incapacidade parental para tolerar e regular esses sentimentos. Aqueles que, na infância,
experimentaram intensa ambivalência em relação aos pais ou irmãos, e que recorreram então,
inconscientemente, a um dos muitos mecanismos primitivos e precários de resolver o conflito
a que me referi antes — repressão, deslocamento, projeção, etc. — estão despreparados para a
renovação do conflito quando se tomam pais. Em vez de reconhecerem a verdadeira natureza
de seus sentimentos em relação à criança e de ajustarem seu comportamento, vêem-se
instigados e impelidos por forças que ignoram, e mostram-se perplexos por serem incapazes
de agir com todo o amor e paciência que desejam. A dificuldade deles reside em que o
ressurgimento dos sentimentos ambivalentes está sendo enfrentado, sem que o saibam, pelos
mesmos métodos primitivos e precários a que recorreram em sua própria infância, numa
época da vida em que não dispunham de melhores métodos. Assim, a mãe que está
constantemente apreensiva com a possibilidade de que seu bebê morra, não tem consciência
do impulso em seu próprio íntimo para matá-lo *(1) e, adotando a mesma solução que adotou
na infância em relação a seus desejos de morte contra a própria mãe, esforça-se
obstinadamente, de um modo incessante e infrutífero, por afastar todos os perigos que possam
vir de outros lados: acidentes, doenças, negligência de vizinhos. O pai que se ressente do
monopólio do bebê sobre a mãe — sua esposa — e insiste em que as atenções dela são
escassas, não tem consciência de que está sendo motivado pela mesma espécie de ciúme que
sentiu na infância quando nasceu um irmão mais novo.

Nota de rodapé:

*(1). Existem muitos e diferentes estados de espírito que podem levar uma mãe a estar
constantemente apreensiva temendo que seu bebê morra, sendo que o desejo inconsciente de
matar a criança é apenas um deles. Entre outros estão a perda anterior de um filho pequeno, a
perda de um irmão durante a infância e o comportamento violento do pai da criança. Ver a
discussão das fobias nos capítulos 18 e 19 de Attachment and Loss [Ligação e Perda], volume
2.
17

O mesmo é verdade a respeito da mãe impelida a possuir todo o amor de seu bebê e que, por
sua abnegação incansável, tenta assegurar-se de que não é dada ao bebê nenhuma desculpa
para alimentar quaisquer outros sentimentos que não sejam de amor e gratidão. Essa mãe, que
à primeira vista parece ser tão carinhosa, gera em seu bebê, inevitavelmente, um grande
ressentimento em face de tamanha exigência de amor; e também uma grande culpa em razão
das alegações dela de que é uma mãe tão boa, que não se justifica nenhum outro sentimento
além da gratidão. Comportando-se desse modo, é claro que ela não tem consciência de que é
digna de amor — o amor que ela nunca teve quando era criança. Quero repetir que, em minha
opinião, não é simplesmente o fato de os pais terem essas motivações que cria as dificuldades
para os filhos; o que causa problemas é os pais ignorarem seus próprios motivos, e recorrerem
inconscientemente à repressão, à racionalização e à projeção, para lidar com seus próprios
conflitos íntimos.
Provavelmente não existe nada mais prejudicial para uma relação do que uma parte
atribuir suas próprias falhas e defeitos à outra, convertendo-a em bode expiatório.
Infelizmente, os bebês e as crianças pequenas são perfeitos bodes expiatórios, pois
manifestam de forma nua e crua todos os pecados de que a carne é herdeira; são egoístas,
ciumentos, sujos, interessados em sexo e propensos a explosões coléricas, à obstinação e à
voracidade. Os pais que carregam consigo um sentimento de culpa em relação a uma ou outra
dessas fraquezas podem tornar-se extremamente intolerantes diante de suas manifestações
num filho pequeno. Atormentarão a criança com suas tentativas fúteis para erradicar o vício.
Lembro-me de um pai, atormentado a vida inteira pela masturbação, que tentou impedi-la em
seu filho colocando-o sob um chuveiro frio sempre que o encontrava com a mão nos órgãos
genitais. Agindo desse modo, o pai apenas conseguiu intensificar o sentimento de culpa da
criança, e também o seu medo e aversão à autoridade. Algumas das relações entre pais e
filhos mais envenenadas que levam a graves problemas nas crianças resultam do fato de os
pais verem ciscos nos olhos de seus filhos para não verem toras nos seus.
Ninguém com orientação psicanalítica que tenha trabalhado numa clínica de
orientação infantil pode ter deixado de se impressionar com a freqüência com que esses e
outros problemas emocionais comparáveis ocorrem nos pais de crianças que foram
encaminhadas para tratamento, ou com o elevado grau em que os problemas dos pais parecem
ter criado ou exacerbado as dificuldades das crianças. Com efeito, são tão freqüentes, que em
muitas clínicas é dada tanta atenção aos pais, ajudando-os a resolverem seus problemas
emocionais, quanto às crianças, ajudando-as a resolverem os delas. Portanto, não deixa de ser
interessante pensar que
18

esse é um aspecto da doença psicológica que parece ter sido quase desconhecido para Freud e,
talvez por essa razão, um dos aspectos a que, em minha opinião, os psicanalistas ainda têm
que prestar a devida atenção. Entretanto, acredito que seja um dos mais promissores para o
futuro. A limitada experiência que temos sugere que a ajuda especializada aos pais nos meses
críticos, antes e depois do nascimento, e nos primeiros anos de vida de uma criança pode ser
extremamente importante para ajudá-los a desenvolverem as relações afetivas e
compreensivas, que quase todos eles desejam com o bebê. Sabemos que os primeiros anos de
um bebê, quando, sem que ele o saiba, os alicerces de sua personalidade são assentados,
constituem um período crítico de seu desenvolvimento. Analogamente, parece que os
primeiros meses e anos após o nascimento de um bebê são um período crítico no
desenvolvimento de uma mãe e de um pai. Na fase inicial, os sentimentos dos novos pais
parecem mais acessíveis do que em outros períodos, a ajuda é freqüentemente procurada e
bem recebida, e, como as relações na família ainda são plásticas, essa ajuda é eficaz. Mesmo
que seja relativamente modesta, se for uma ajuda qualificada e oportuna poderá ter efeitos
duradouros. Se o nosso pensamento é correto, então a família com um novo bebê é um ponto
estratégico para quebrar o círculo maligno de crianças perturbadas que, ao crescerem,
convertem-se em pais perturbados que, por sua vez, lidam com seus filhos de tal modo que a
geração seguinte desenvolverá as mesmas perturbações ou outras semelhantes. As vantagens
do tratamento de crianças pequenas são hoje muito conhecidas; estamos advogando agora que
também os pais deveriam ser ajudados logo depois que tenham “nascido”.
O pensamento contemporâneo talvez ainda não tenha reconhecido como uma das
principais causas dos erros dos pais a distorção que os conflitos inconscientes oriundos de sua
própria infância acarretam aos sentimentos que eles nutrem em relação aos filhos. Isso não é
apenas perturbador e alarmante para os pais muitos dos quais têm a esperança natural de ver
as dificuldades familiares em alguma outra parte que não em seus próprios corações —, mas
também é desconcertante para os médicos e outros investigadores profissionais — que
descobrem que muitos dos problemas com que se defrontam situam-se num domínio
aparentemente intangível, sobre o qual não possuem conhecimentos, nem são treinados para
ajudar a resolvê-los. Não obstante, é evidente que essa é a realidade e, se os pais têm que
receber a ajuda esclarecida que os capacite a se tornarem os bons pais que ambicionam ser, os
profissionais terão que ter uma compreensão maior do conflito inconsciente e do papel que
esse conflito desempenha na criação de distúrbios
19

nos cuidados que os pais dispensam a seus filhos. Isto suscita um problema de primeira ordem
— demasiado amplo para que possamos considerá-lo neste capítulo.

Conflito extrapsíquico e conflito intrapsíqiuco.

O ponto de vista que estou defendendo, como se verá, baseia-se na convicção de que muita
infelicidade e muita enfermidade mental se devem a influências ambientais, as quais está a
nosso alcance mudar. Em psicanálise, como em outros ramos da psiquiatria, de fato, em todas
as ciências biológicas, discute-se constantemente sobre as contribuições da hereditariedade e
da aprendizagem, sobre o que é inato e o que é adquirido. O nosso problema é entender por
que razão um indivíduo cresce sem grandes dificuldades em sua vida impulsiva, enquanto um
outro é flagelado por esses impulsos. Não pode haver dúvidas de que variações na dotação
hereditária e na influência do meio ambiente desempenham importantes papéis. O próprio
Freud, entretanto, talvez em razão de sua primeira hipótese ambiental (a referente à influência
da sedução infantil) estar comprovadamente errada, foi cauteloso em incluir variações
ambientais na explicação das dificuldades de seus pacientes; e, à medida que foi
envelhecendo, parecia acreditar cada vez mais que pouco podia ser feito em termos de
mudanças ambientais para mitigar a força do conflito infantil. Muitos psicanalistas o seguiram
nessa noção. Alguns, de fato, não só sustentaram que aqueles dentre nós que se mostram mais
esperançosos estão equivocados, mas também manifestaram suas apreensões, temendo que a
ênfase sobre o significado do meio ambiente nos faça desviar as atenções do fato crucial do
conflito intrapsíquico. Cumpre admitir que esse perigo existe e que analistas escreveram
livros sobre os cuidados com a criança focalizando principalmente o conflito extrapsíquico,
ou seja, o conflito entre as necessidades da criança e as oportunidades limitadas que o meio
ambiente proporciona para a satisfação dessas necessidades. Embora, como já assinalei, eu
acredite que esse conflito extrapsíquico entre necessidades internas e oportunidades externas
para satisfazê-las é bastante real, quero deixar claro que, em minha opinião, ele tem em si
mesmo, importância limitada para o desenvolvimento psíquico. Quanto ao meio ambiente
externo, o que importa é saber em que medida as frustrações e outras influências impostas por
ele desenvolvem o conflito intrapsíquico de tal forma e com tanta intensidade que o
equipamento psíquico imaturo do bebê não possa regulá-la satisfatoriamente. É com este
critério que devemos
20

avaliar os méritos ou deméritos dos cuidados com crianças, e é abordando o problema desse
modo, creio eu, que a psicanálise tem sua principal contribuição a dar.
Embora eu seja um adepto convicto e entusiasta da noção segundo a qual as situações
concretas que um bebê experimenta têm importância crucial para o seu desenvolvimento,
repito que não desejo dar a impressão de que sabemos hoje como habilitar todas as crianças a
crescerem sem perturbações emocionais. Creio que já sabemos muita coisa e que, se
pudermos aplicar nossos conhecimentos atuais (e em virtude da escassez de profissionais
qualificados receio que esse seja um grande “se”), ocorrerá um aumento substancial da
felicidade humana e uma tremenda redução das doenças psicológicas. Entretanto, seria
absurdo supor que já temos tantos conhecimentos que podemos garantir que uma criança, se
tiver tal ou tal experiência, crescerá sem maiores dificuldades. Existem problemas espinhosos
a resolver, como os que decorrem do efeito deturpador das fantasias de uma criança e sua
interpretação errônea do mundo que a rodeia *(1), assunto que não abordei neste capítulo;
mas, além disso, também podem existir dificuldades sobre cuja origem nada sabemos
atualmente. Mesmo sobre aquelas de que já temos alguma compreensão, os nossos
conhecimentos ainda são escassos e não têm uma base suficiente de dados sistematicamente
coletados.
Só o futuro revelará as linhas de pesquisa mais fecundas. Toda pesquisa é um jogo de
azar, e temos que jogar o nosso dinheiro nos cavalos em que tivermos palpite. Num campo tão
vasto, a minha tendência é apostar nos mestiços. Parece-me provável que estudos de
motivação em crianças pequenas, especialmente o estudo do modo como a mãe e o bebê
desenvolvem suas relações impregnadas de alta carga emocional, uma preocupação tão
central da psicanálise, ganharão muito em clareza e precisão se lhes aplicarmos conceitos e
métodos de pesquisa derivados da escola européia de estudos do comportamento animal,
liderada por Lorenz e Tinbergen e freqüentemente conhecida como etologia. Penso também
que o nosso insight do mundo cognitivo que uma criança pequena constrói para si, depois
habita e finalmente modela, progrediria bastante com os conceitos e métodos de pesquisa que
tiveram Piaget como pioneiro. Também é lícito esperar que a teoria da aprendizagem
esclareça o processo de aprendizagem que ocorre nos meses e anos críticos em que uma nova
personalidade nasce. Entretanto, ainda que eu considere as contribuições desse tipo
indispensáveis, elas serão estéreis se não forem constantemente interpretadas à luz dos
conhecimentos adquiridos pelo contato íntimo com a vida emocional de crianças e pais num
contexto clínico, usando métodos como os introduzidos por Melanie Klein e Anna Freud,
entre outros psicanalistas de crianças, e indo buscar sua inspiração última no homem cujo
centenário de nascimento celebramos esta semana.

Nota de rodapé:

*(1). Acredito que o caráter deturpador das fantasias infantis foi muito exagerado pela teoria
psicanalítica tradicional. Quanto mais detalhes se conhecer sobre os acontecimentos da vida
de uma criança e sobre aquilo que lhe foi dito, aquilo que ela ouviu ou observou mas se espera
que não saiba, mais claramente se poderão ver suas idéias sobre o mundo e sobre o que
acontecerá no futuro como construções perfeitamente razoáveis. Os dados que demonstram
esse ponto de vista são apresentados nos capítulos finais do segundo volume e em todo o
terceiro volume de Attachment and Loss.
21

Pós-Escrito.

A maioria dos temas esboçados na conferencia reproduzida neste capitulo foram retomados
em conferencias subseqüentes desta coletânea. Para uma descrição dos trabalhos mais
recentes sobre o desenvolvimento das relações mãe-bebê, ver Stern (1977).
22

Abordagem etológica da pesquisa sobre desenvolvimento infantil *(1).

Em sua conferência anual na primavera de 1957, a Sociedade Britânica de Psicologia
organizou um simpósio sobre “A Contribuição de Teorias Atuais para uma Compreensão do
Desenvolvimento da Criança”. Fui convidado a fazer uma palestra sobre a contribuição que se
poderá esperar da etologia; e outras três sobre teoria da aprendizagem associativa, sobre
psicanálise e sobre os construtores de sistemas, Piaget e Freud. Todas as quatro contribuições
foram publicadas no fim desse ano.
Um problema central tanto para a psicologia clínica quanto para a psicologia social é a
natureza e o desenvolvimento das relações de uma criança com outras pessoas. Em sua
abordagem desse problema, a tendência dos psicólogos é adotar um de dois enfoques: se
tiverem uma orientação acadêmica e experimental, tenderão a privilegiar uma ou outra forma
de teoria da aprendizagem; se tiverem orientação clínica, seguirão uma ou outra forma de
psicanálise. Ambos os enfoques levaram à realização de valiosos trabalhos. Entretanto, as
tentativas de relacionar uma perspectiva com a outra têm sido poucas e não muito bem-
sucedidas, ao passo que a desconfiança e as críticas mútuas entre adeptos de uma e outra têm
sido comuns.
Os psicanalistas foram os primeiros a conceber as relações sociais no homem como
sendo mediadas por instintos que emanam de raízes biológicas e impelem o indivíduo à ação.

Nota de rodapé:

*(1). Originalmente publicado em British Journal of Medical Psychology (1957), 30: 230-40.
23

Grande parte da teoria psicanalítica tem levado em conta esses instintos, seu surgimento
sucessivo e gradual na ontogenia, sua organização gradativa, e nem sempre bem-sucedida, em
totalidades mais complexas, os conflitos que surgem quando dois ou mais instintos estão
ativos e são incompatíveis, a ansiedade e culpa a que dão origem, as defesas chamadas a agir
para enfrentá-las. Preocupados com essas paixões humanas primitivas que, em virtude da
rudimentaridade dos mecanismos existentes para governá-la, são capazes, como sabemos por
termos pago o preço da experiência, de nos levar à realização de atos que mais tarde
lamentamos, os psicanalistas têm freqüentemente manifestado impaciência para com a
abordagem dos teóricos da aprendizagem. Em sua teorização, parece haver muito pouco lugar
para o sentimento humano ou para a motivação que jorra das profundezas inconscientes e
irracionais. Ao analista e ao psicólogo clínico, sempre pareceu que o teórico da aprendizagem
está tentando meter à força um litro de natureza humana rebelde dentro de um dedal de rígida
e pretensiosa teoria.
Inversamente, os teóricos da aprendizagem criticam os psicanalistas. As definições de
instinto são notoriamente insatisfatórias e suscetíveis de degenerar em alegórico. Embora as
descrições clínicas sejam volumosas, os relatos de observação sistemática continuam sendo
escassos. O método experimental se faz notar por sua ausência. Pior que tudo, as hipóteses
são freqüentemente formuladas de tal maneira que é impossível testá-las — um defeito fatal
para o progresso científico. A teoria da aprendizagem, sustenta-se corretamente, define os
seus termos, formula as suas hipóteses operacionalmente e passa a testá-las mediante
experimentos adequadamente planejados.
Como alguém que se esforça por ser um clínico e um cientista, tenho sido agudamente
sensível a esse conflito. Como clínico, considero a abordagem de Freud a mais
recompensadora; não só ele atraiu a atenção para problemas psicológicos de importância
clínica imediata, como também a sua série de conceitos invocadores de um inconsciente
dinâmico constitui na prática um modo útil de ordenação de dados. Entretanto, como cientista,
sinto-me muitas vezes contrafeito em face do status precário de muitas de nossas observações,
da obscuridade de muitas de nossas hipóteses e, sobretudo, da ausência de qualquer tradição
que exija que as hipóteses sejam testadas. Esses defeitos são responsáveis, creio eu, pelas
controvérsias — com excessiva freqüência acaloradas e estéreis — que têm caracterizado a
história psicanalítica. Tenho perguntado a muitos colegas como poderemos submeter a
psicanálise a uma maior disciplina científica, sem sacrificar as suas inigualáveis
contribuições.
24

Foi nesse estado de espírito que me deparei, há alguns anos, com a obra que vem
sendo realizada pelos etologistas. Fiquei imediatamente empolgado. Aí estava uma
comunidade de biólogos dedicados ao estudo do comportamento de animais em seu habitat
natural, que não só usavam conceitos como os de instinto, conflito e mecanismo de defesa,
extraordinariamente semelhantes aos que são empregados em nosso trabalho clínico do dia-a-
dia, como faziam descrições maravilhosamente detalhadas do comportamento e haviam criado
uma técnica experimental para submeter suas hipóteses a provas. Continuo hoje tão
impressionado quanto estava então. A etologia, creio eu, está estudando os fenômenos
relevantes de um modo científico. Na medida em que estuda o desenvolvimento do
comportamento social e, especialmente, o desenvolvimento de relações familiares em
espécies inferiores, acredito que está estudando um comportamento análogo, e talvez, por
vezes, homólogo, a muito do que nos preocupa clinicamente; na medida em que usa a
descrição de campo, hipóteses com conceitos operacionalmente definidos e experimentos,
está empregando um rigoroso método científico. É verdade que somente depois de ser
provada no cadinho da atividade de pesquisa saberemos se a etologia é, de fato, uma
abordagem tão fecunda com seres humanos quanto o é com espécies inferiores. Basta dizer
que se trata de uma abordagem que se impõe mais vivamente a mim, porque acredito que ela
pode fornecer o repertório de conceitos e dados necessários, se quisermos que os dados e
insights proporcionados por outras abordagens, notadamente os da psicanálise, da teoria da
aprendizagem e de Piaget, sejam explorados e integrados.
Recapitulando sucintamente as principais características do enfoque etológico,
comecemos pela obra de Darwin (1850), não só porque ele foi um etologista antes da palavra
ter sido inventada, mas também porque uma preocupação básica da etologia é a evolução do
comportamento através do processo de seleção natural.
Em A Origem das Espécies, escrito exatamente há um século, Darwin dedica um
capítulo ao instinto, no qual assinala que cada espécie é dotada de seu próprio repertório
peculiar de padrões de comportamento, do mesmo modo que é dotada de suas próprias
peculiaridades de estrutura anatômica. Enfatizando que “os instintos são tão importantes
quanto a estrutura corporal para o bem-estar de cada espécie”, Darwin formula a hipótese de
que “todos os instintos mais complexos e maravilhosos” se originaram através do processo de
seleção natural, tendo preservado as variações continuamente acumuladas que são
biologicamente vantajosas. Ilustra a sua tese com referências às características
25

do comportamento de várias espécies de insetos, como as formigas e as abelhas, e de aves,
como o cuco.
Depois de Darwin, os zoólogos têm-se empenhado em descrever e catalogar os
padrões de comportamento que são característicos de uma determinada espécie e que, embora
variáveis e modificáveis em certo grau, são marcas tão distintivas da espécie quanto o papo
vermelho do pintarroxo ou as estrias da pele do tigre. Não podemos confundir a atividade da
fêmea do cuco na época da postura com a da gansa, a micção do cavalo com a do cão, a corte
do mergulhão com a do galo de capoeira. Em cada caso, o comportamento exibido tem o
cunho da espécie particular e, portanto, é específico da espécie, para usar um termo
conveniente embora um tanto desajeitado. Como esses padrões se desenvolvem de um modo
característico em quase todos os indivíduos de uma espécie e até em indivíduos criados em
isolamento, é evidente que são, em grande medida, herdados e não aprendidos. Por outro lado,
encontramos indivíduos em que tais padrões não se desenvolveram ou adquiriram formas
peculiares, e poderemos concluir, portanto, que o meio ambiente também tem certa influência.
Isto lembra-nos que, em organismos vivos, estrutura e função só podem desenvolver-se num
determinado meio ambiente e que, embora a hereditariedade seja poderosa, a forma exata que
cada um adquire dependerá da natureza desse meio ambiente.
Os padrões de comportamento específicos da espécie em que estamos interessados
são, com freqüência, espantosamente complexos. Considere-se, por exemplo, o desempenho
de um chapim-real na construção de seu belo ninho em cúpula e recoberto de liquens.
Compreende a escolha de um local, a coleta primeiro de musgo e depois de fios de teia de
aranha para formar uma plataforma e, gradualmente, por movimentos laterais, enquanto
permanece sentado na plataforma, o musgo é tecido até formar uma taça. Esta cresce de
maneira regular e uniforme à medida que o pássaro vai tecendo o ninho à sua própria volta,
até que, como resultado de continuar tecendo por cima da cabeça, o ninho ganha uma
cobertura em abóbada. Entrementes, foram adicionados liquens à parede externa e foi deixado
apenas um orifício aberto para a entrada. Finalmente, as paredes laterais da entrada são
reforçadas e o ninho é revestido interiormente com uma profusão de penas macias. Neste
desempenho surpreendente existem catorze tipos distintos de movimento e combinações de
movimento, alguns comuns a outras espécies, outros específicos desta espécie, cada um deles
adaptado ao meio ambiente particular do casal e tudo tão bem organizado no tempo e no
espaço que o resultado é uma estrutura coerente, distinta de tudo o que
26

se encontra na natureza e que concorre para uma função vital na sobrevivência da raça dos
chapins-reais (Tinbergen, citado por Thorpe, 1956).
Outros padrões são muito mais simples. Quando sacudimos o ninho de um melro,
numerosas cabecinhas feias se espicham para fora, cada uma delas com uma gigantesca boca
escancarada; quando colocamos um pinto de 24 horas numa mesa com grãos de comida, ele
debica logo, de modo preciso, em cada um deles. Mas até mesmo esses padrões mais simples
estão longe de ser rudimentares. A resposta de bico escancarado dos filhotes de melro é
suscitada e orientada por uma Gestalt visual, assim como pelo estremecimento do ninho; as
bicadas do pinto estão organizadas de tal modo no espaço e no tempo que cada grão é
alcançado com exatidão impecável. E evidente que tais padrões de comportamento não podem
ser simples reflexos. Em primeiro lugar, sua organização é mais complexa e dirigida para o
comportamento em um nível global; em segundo lugar, parece que, uma vez ativados,
possuem freqüentemente um ímpeto motivacional próprio que só cessa em circunstâncias
especiais.
Os etologistas estudam esses padrões de comportamento específicos da espécie; o
termo ethos deriva do grego e significa “da natureza da coisa *(1). Desde os tempos de
Darwin, uma finalidade principal desse estudo permaneceu taxonômica, ou seja, a
classificação das espécies com referência às suas relações mais próximas, vivas e mortas.
Verificou-se que, apesar da variabilidade potencial, a fixidez relativa desses padrões nas
diferentes espécies de peixes e aves é tal, que eles podem ser usados para fins de classificação
com um grau de confiabilidade não inferior ao das estruturas anatômicas. Uma visita à estação
de pesquisas de Konrad Lorenz, na Alemanha, demonstra rapidamente o interesse permanente
de Lorenz em rever a classificação taxonômica de patos e gansos por referência aos seus
padrões de comportamento. Do mesmo modo, um dos principais objetivos de Niko Tinbergen
é fazer um completo inventário descritivo em termos de comportamento de muitas espécies de
aves marinhas. Enfatizo isto para mostrar o grau em que esses padrões de comportamento são
específicos para cada espécie, são herdados e fazem parte da natureza do organismo, tanto
quanto seus ossos.
Neste ponto, dou-me conta de que alguns leitores talvez estejam um pouco
impacientes. Sim, poderão dizer alguns, tudo isso é muito interessante e pode ser verdadeiro
quanto a peixes e aves, mas quem nos garante que se aplica também aos mamíferos, para não
falar do homem?

Nota de rodapé:

*(1). Para uma discussão dos termos, ver Tinbergen (1955).
27

O comportamento do mamífero não se distingue por sua variabilidade e pela parte que cabe à
aprendizagem? Estamos certos de que existem padrões herdados de comportamento nos
mamíferos? O etologista responderá: Sim, é verdade que no mamífero o comportamento é
mais variável e que a aprendizagem desempenha um papel importante mas, não obstante, cada
espécie exibe um comportamento que lhe é peculiar — por exemplo, a respeito da locomoção,
alimentação, corte e acasalamento, e cuidados com os filhotes — e parece muito improvável
que esses padrões sejam inteiramente aprendidos. Além disso, como Beach demonstrou com
ratos, e Colhas e Blauvelt com cabras, é produtivo estudar esse comportamento pelos mesmos
métodos e conceituar os dados do mesmo modo que provou ser tão compensador no caso dos
vertebrados inferiores. No que se refere aos padrões de comportamento, não há qualquer sinal
de que exista uma ruptura entre peixes, aves e mamíferos, que seja mais acentuada do que no
tocante à anatomia. Pelo contrário, apesar da introdução de novas e importantes
características, existem todos os sinais de uma seqüência evolucionária. Padrões inatos de
comportamento parecem tão importantes para mediar os processos biológicos básicos de
mamíferos quanto de outras espécies; e, na medida em que o Homem compartilha dos
componentes anatômicos e fisiológicos desses processos com os mamíferos inferiores, seria
estranho que não compartilhasse também, pelo menos em certa medida, de seus componentes
comportamentais.
Para fins taxonômicos, a descrição minuciosa de padrões de comportamento pode ser
suficiente. Para uma ciência do comportamento, entretanto, precisamos saber muito mais. Em
especial, precisamos conhecer o máximo possível sobre a natureza das condições internas e
externas do organismo que regem o padrão.
Os etologistas deram uma importante contribuição para o nosso conhecimento das
condições externas relevantes para o organismo. Heinroth foi um dos primeiros a assinalar
que os padrões de comportamento específicos da espécie são freqüentemente ativados pela
percepção de Gestalten visuais ou auditivas bastante simples a que elas são inatamente
sensíveis. Exemplos muito conhecidos disso, analisados por meio de experimentos que usam
bonecos de vários formatos e cores, são a resposta de acasalamento do macho do esgana-gato,
a qual é suscitada pela percepção de uma forma que se assemelha a uma fêmea grávida, a
resposta de bico escancarado do filhote da gaivota falcoeira, suscitada pela percepção de um
ponto vermelho semelhante ao que se observa no bico de uma ave adulta, e a resposta de
ataque de um pintarroxo, suscitada pela percepção em seu próprio território de um tufo de
penas vermelhas semelhante ao que existe no peito de um macho rival.
28

Em todos os três casos, a resposta parece ser provocada pela percepção de uma Gestalt muito
simples, conhecida como um “estímulo de sinal”.
Uma parte considerável do trabalho etológico tem sido dedicada à identificação dos
estímulos de sinal que suscitam os vários padrões de comportamento específicos das espécies
em peixes e aves. Na medida em que muitos desses padrões de comportamento são
mediadores do comportamento social — corte, acasalamento, alimentação dos filhotes pelos
pais e seguimento dos pais pelos filhotes — muita coisa foi elucidada sobre a natureza da
interação social. Em dezenas de espécies, foi demonstrado que o comportamento propiciador
do acasalamento e parentalidade é controlado pela percepção de estímulos-sinais apresentados
por outros membros da mesma espécie, como a envergadura de uma cauda ou a cor de um
bico, ou um trinado ou um chamamento, cujas características essenciais são as de Gestalten
relativamente simples. Tais estímulos-sinais são conhecidos como “detonadores sociais”.
Os necessários estímulos externos são tão simples nos mamíferos quanto em peixes e
aves? Essa questão foi recentemente discutida pelo psicólogo norte-americano Beach, cujos
trabalhos sobre o comportamento de acasalamento do rato macho e o de recuperação de
filhotes por ratas se baseiam em métodos e conceitos semelhantes aos da escola européia de
etologia, com suas raízes zoológicas. Após numerosos experimentos, Beach e Jaynes (1956)
chegaram a conclusões de que, à primeira vista, parecem colocar os ratos numa categoria
diferente dos pintarroxos; ambas as respostas, concluíram eles, dependem de um padrão de
estímulo que é de natureza multissensorial. No entanto, mostram-se cautelosos, e, numa
comunicação pessoal, Beach sublinhou a possibilidade, apresentada por Tinbergen, “de que,
se fragmentarmos a resposta maternal total da fêmea adulta em seções ou segmentos, é
possível concluir que cada elemento no padrão seqüencial era, de fato, controlado por uma
simples pista sensorial”. Além disso, na mesma comunicação, Beach observou que “o
comportamento de mamíferos muito jovens poderia perfeitamente ser governado por
controles sensoriais mais simples do que aqueles que operam na idade adulta” e que é mais do
que provável que alguns deles sejam suscitados por algo que se aproxima de um estímulo-
sinal. Opiniões deste gênero, provenientes de um investigador do gabarito de Beach, em nada
contribuem para corroborar o ponto de vista de que uma abordagem etológica é inaplicável a
mamíferos.
Também podem ser usados experimentos para elucidar as condições internas do
organismo que são necessárias à ativação de um padrão
29

de comportamento. Tais condições incluem a maturação do corpo e do sistema nervoso
central, como no caso do vôo de pássaros no período de crescimento, e o equilíbrio endócrino,
como no caso do comportamento sexual da grande maioria dos vertebrados, senão todos.
Também incluem a recente ativação ou não do padrão, pois sabe-se que muitas atividades
instintivas são menos facilmente evocadas depois de terem estado recentemente em ação do
que depois de um período de quiescência. Após a cópula, poucos animais são sexualmente
excitados com tanta facilidade quanto eram antes. Essas mudanças e outras comparáveis
devem-se claramente a uma mudança no estado do próprio organismo e, em muitos casos, os
experimentos demonstram que essa mudança reside no sistema nervoso central. Para explicar
essas mudanças, Lorenz (1950) fez a hipótese de uma série de reservatórios, cada um deles
cheio de “energia específica de reação” apropriada a um determinado padrão de
comportamento. Concebeu cada reservatório como controlado por uma válvula (o IRM —
innate releasing mechanism *(1) que pode ser aberta pela percepção do estímulo-sinal
apropriado, de modo que a energia específica de reação será descarregada na realização do
comportamento específico. Quando a energia se esgota no reservatório, o comportamento
cessa. Supôs que, subseqüentemente, com a válvula fechada, a energia acumula-se de novo e,
após um certo tempo, o processo está pronto para repetir-se. Este modelo psico-hidráulico de
instinto, com seu reservatório e acumulação de “energia”, apresenta uma semelhança óbvia
com a teoria dos instintos exposta por Freud, e não parece improvável que Freud e Lorenz
fossem levados a propor modelos semelhantes como resultado de terem tentado explicar
comportamentos semelhantes.
Seja como for, esse modelo psico-hidráulico está hoje desacreditado. Deixou de ser
adotado por Lorenz e por Tinbergen; e, de minha parte, espero que chegue o dia em que seja
também abandonado pelos psicanalistas. Pois não só é mecanicamente rudimentar, como não
faz jus aos dados existentes. Numerosos trabalhos experimentais em anos recentes
demonstraram que os padrões de comportamento cessam porque foram “amortecidos” ou
“desligados”, não porque tenham sido esvaziados de alguma energia hipotética. Vários
processos psicológicos podem levar a esse resultado. Um deles, que afeta o comportamento a
longo prazo, é a habituação. Um outro, que o afeta a curto prazo, é ilustrado por experimentos
que usam cães submetidos a esofagotomia.

Nota de rodapé:

*(1). IRM — mecanismo inato de desencadeamento. (N. do T.)

Estas experiências demonstraram que os atos de comer e beber são encerrados por meio de
estímulos proprioceptivos e (ou) interoceptivos que se originam na boca, esôfago e estômago,
e que, no animal intato, são a conseqüência da própria realização desses atos; em outras
palavras, existe um mecanismo para o feedback negativo. Tal cessação não se deve à fadiga
nem à saciação da necessidade de comida e bebida; pelo contrário, o próprio ato origina os
estímulos de feedback que lhe põem termo. [Para discussão desse processo, ver Deutsch
(1953) e Hinde (1954).]
Igualmente interessantes são as observações de etologistas segundo as quais o
comportamento tanto pode ser ativado por estímulos exteroceptivos, quanto ser terminado por
eles. Moynihan (1953), por exemplo, demonstrou que o impulso da chapalheta para chocar só
se reduz quando ela se senta sobre uma ninhada completa de ovos arrumados de forma
adequada. Enquanto essa situação persistir, a ave permanecerá tranqüilamente sentada. Se os
ovos forem retirados ou desarrumados, a chapalheta ficará irrequieta e tenderá a fazer todos os
movimentos de nidificação. Esse desassossego prossegue até que ela experimente de novo os
estímulos provenientes de uma ninhada completa de ovos arrumados de forma apropriada.
Hinde (1954) também observou que, no começo da primavera, a simples presença de um
tentilhão fêmea leva a uma redução do comportamento de corte do macho, como cantar e
procurar. Quando a fêmea está presente, ele se mantém quieto e calado, quando ela está
ausente, o tentilhão torna-se imediatamente ativo. Neste caso, onde um padrão de
comportamento socialmente relevante é suprimido por estímulos-sinais, poderíamos talvez
falar de um “supressor social” como um termo paralelo de um detonador social.
Parece provável que os conceitos de detonador social e supressor social sejam valiosos
no estudo da interação social não-verbal em seres humanos, sobretudo a interação que
contiver uma carga emocional; voltarei a fazer referência a eles quando examinar a possível
aplicação dessas idéias à pesquisa sobre o desenvolvimento infantil.
O nosso modelo básico para o comportamento instintivo é, pois, uma unidade que
compreende um padrão de comportamento específico da espécie governado por dois
mecanismos complexos, um que controla a sua ativação e o outro a sua terminação. Verifica-
se, não raras vezes, que um certo número de padrões distintos, cada um dos quais merece um
estudo detalhado, estão conjugados de tal maneira que resulta um comportamento tão
complexo quanto o de cortejar e construir ninhos. A função biológica desses padrões e de sua
organização superior é concorrer para os processos vitais básicos do metabolismo e da
reprodução;
31

são as contrapartes, ao nível global do comportamento, dos processos fisiológicos igualmente
envolvidos no metabolismo e na reprodução, os quais são desde longa data o objeto de estudo
da fisiologia. Tal como estes últimos, suas principais formas em cada espécie são herdadas e,
como sugeriu Darwin há um século, suas variações hereditariamente transmissíveis estão
sujeitas à seleção natural, tanto quanto qualquer outra característica herdada.
Naturalmente, esse modelo não é exclusivo da etologia. Um modelo análogo foi
proposto independentemente por, pelo menos, um psicólogo experimental (Deutsch, 1953), e
boa parte dos dados experimentais referentes ao papel dos estímulos interoceptivos foi
coletada por psicólogos e fisiologistas. Isso ilustra a natureza complementar dos enfoques
etológico e psicológico. Não são complementares apenas; depois de William James não
faltaram psicólogos profundamente atentos aos fenômenos estudados por etologistas e alguns,
como Yerkes e Beach, deram contribuições notáveis. As principais contribuições dos
etologistas têm sido a análise de uma seqüência complexa de comportamento instintivo, como
cortejar e construir ninhos, num certo número de padrões complexos, cada um deles
governado por seu próprio e complexo mecanismo e organizados conjuntamente num todo
maior; o isolamento daquelas características do padrão que são herdadas; e a descoberta de
que tanto em sua ativação como em sua terminação os estímulos exteroceptivos
desempenham um papel importante.
Antes de considerarmos a aplicação desses conceitos à pesquisa do desenvolvimento
infantil, quero referir-me rapidamente a dois outros conceitos para os quais etologistas e
psicólogos têm dado contribuições — os de fases sensíveis do desenvolvimento *(1) e de
regulação do conflito. Ambos os conceitos são centrais para a psicanálise e a nossa crescente
compreensão de ambos reveste-se de particular interesse para os clínicos.
Foi apurado que, no indivíduo em crescimento, os padrões de comportamento
específicos da espécie passam freqüentemente por fases sensíveis de desenvolvimento,
durante as quais algumas de suas características são determinadas permanentemente, ou
quase. As fases sensíveis, que ocorrem comumente, embora não necessariamente, no início do
ciclo vital, afetam o desenvolvimento em, pelo menos, quatro aspectos diferentes:
(a) se, de fato, a resposta se desenvolve ou não;
(b) a intensidade com que é posteriormente exibida;
(c) a forma motora precisa que assume; e
(d) os estímulos que a ativam ou terminam.

Nota de rodapé:

*(1). Na versão original, usei a expressão então corrente “fase crítica do desenvolvimento”.
Esta, porém, tem a desvantagem de implicar que a ocorrência ou não de um determinado
desenvolvimento tem um caráter de tudo-ou-nada, o que está longe de ser o caso. Por isso,
depois foi adotada a expressão “fase sensível do desenvolvimento” para indicar que, durante
essa fase, o curso do desenvolvimento em questão não é mais do que especialmente sensível a
condições ambientais.
32

(a) Os padrões que se desenvolvem em todos os membros de uma espécie quando
criados num meio ambiente “normal” podem deixar inteiramente de aparecer se o meio
ambiente foi restringido de alguma forma especial. Assim, foi verificado que a resposta de dar
bicadas, que é evidente em todos os pintos de um dia de idade num meio ambiente comum,
nunca se desenvolve se o pinto for confinado num recinto escuro durante os seus primeiros
catorze dias de vida (Padilla, 1935). Analogamente, a tendência do patinho putrião para seguir
um objeto em movimento, que está em sua fase mais sensível cerca de dezesseis horas após
sair da casca, não se desenvolve se o patinho não tiver, em suas primeiras quarenta horas,
qualquer objeto para seguir (Weidman, 1956). Em cada caso, faltou o período sensível para a
“mobilização” da resposta e, portanto, a resposta esteve inteiramente ausente.
(b) Em outros casos, o padrão pode desenvolver-se do modo usual mas, em virtude de
uma experiência particular na infância, manifestar-se no adulto com intensidade incomum.
Um exemplo muito conhecido é a variação no comportamento de entesouramento, dos ratos
adultos, após alguns dias de frustração alimentar. Os ratos que foram submetidos, pouco
depois de nascer, a um período de frustração alimentar intermitente, tendem, quando adultos,
a armazenar muito mais pelotas de comida do que os ratos que não passaram por tal
experiência. Essa pesquisa, é claro, foi realizada por um psicólogo experimental, Hunt
(1941).
(c) Em muitos casos, a parte motora do padrão é suscetível de processos de
aprendizagem e, em alguns, apurou-se que essa suscetibilidade está confinada a um período
limitado. Um dos exemplos mais bem estudados é a aprendizagem do canto dos tentilhões.
Thorpe (1956) mostrou que, embora certas características do canto se desenvolvam mesmo
num tentilhão criado em isolamento, outras são aprendidas, e essa aprendizagem está
confinada a períodos especiais do primeiro ano do pássaro. O canto que ele aprende então é o
que cantará o resto de sua vida.
(d) Os estímulos que ativam ou terminam um padrão de comportamento podem, no
começo, ser gerais, e mais tarde, através de um processo de aprendizagem, tornar-se restritos.
Esse processo de restrição, segundo se apurou, também pode ser confinado a um breve
período do ciclo vital. O famoso trabalho de Lorenz (1935) sobre o “imprinting” nos filhotes
de ganso é muito conhecido; enquanto que, no começo, um gansinho seguirá qualquer objeto
em movimento que esteja dentro de certos e amplos limites de tamanho, após alguns dias ele
somente seguirá a espécie de objetos a que está acostumado, seja a mãe gansa ou um
33

homem; e faz isso independentemente de ter recebido alimento ou conforto do objeto. Um
outro exemplo muito conhecido é o do cordeiro órfão criado na fazenda, que contrai uma
fixação em seres humanos e deixa, daí em diante, de ter relações sociais com ovelhas e
carneiros.
Finalmente, desejo chamar a atenção para a descoberta de que, na vida cotidiana
comum do animal, surgem constantemente situações de conflito. Acabaram os tempos em que
se supunha que só o Homem carregava o peso de impulsos conflitantes; sabemos hoje que
aves e animais de todas as espécies também estão sujeitos a eles. Aprendemos, além disso,
que o desfecho de tais conflitos varia muito e, por vezes, é tão mal adaptado, quanto pode sê-
lo nos seres humanos. Não é necessário confrontar animais com tarefas insuperáveis para que
eles façam coisas absurdas; uma ligeira distração da mãe mamífera, pouco depois de ter dado
à luz, deslocará o mecanismo sensitivo que regula os impulsos potencialmente conflitantes de,
por um lado, comer as secundinas e, por outro, cuidar da cria, e isso leva-a a continuar
comendo de modo que devorará não só as secundinas como o próprio filhote. Muito mais será
aprendido, creio eu, com o estudo dos modos como o conflito é regulado em animais e as
condições que levam um indivíduo a adotar um ou outro padrão desajustado. A minha
expectativa pessoal é de que, também nesse aspecto, descobriremos que existem fases
sensíveis de desenvolvimento, cujo resultado determina que modo de regulação cada animal
adotará habitualmente daí em diante. E para esse problema — fases sensíveis no
desenvolvimento de modos de regular o conflito — que eu gostaria particularmente de ver
dirigida a pesquisa; pois estou confiante em que a solução desse problema nos fornecerá uma
chave para a compreensão das origens das neuroses. Até onde me é dado saber, ainda não foi
dada atenção a isso.

Aplicação de conceitos etológicos à pesquisa do desenvolvimento da criança.

São esses, pois, os principais conceitos propostos pelos etologistas. Em seu conjunto,
fornecem-nos uma abordagem muito diferente daquelas da teoria da aprendizagem e da
psicanálise; entretanto, não são incompatíveis, em absoluto, com os componentes substanciais
desses dois outros enfoques. Falta ver, ainda, se a abordagem etológica leva à melhor
compreensão dos dados do desenvolvimento da criança e se fornece um estímulo para mais e
melhores pesquisas. Parece indubitável, porém, que nos fornece uma perspectiva diferente
para observarmos as coisas e
34

nos leva a empreender diferentes tipos de pesquisa. Ilustrarei isso considerando duas
características muito conhecidas do comportamento social dos bebês: o sorriso e a tendência
deles, a partir dos seis meses de idade, para se ligarem à sua figura materna familiar.
James Barrie disse-nos que, quando o primeiro bebê sorriu, o sorriso desfez-se em mil
fragmentos e cada um deles converteu-se num duende. Posso acreditar piamente nisso. Os
sorrisos de bebês são coisas poderosas e fascinantes, deixando suas mães enfeitiçadas e
escravizadas. Quem irá duvidar de que o bebê que mais prontamente retribui um sorriso à sua
mãe é o mais bem amado e o mais bem cuidado?
Nestas observações preliminares aventurei-me diretamente numa descrição e
exploração etológica do sorriso do bebê. Apresentei a vocês o sorriso infantil como um
detonador social — um padrão de comportamento, provavelmente específico da espécie, no
Homem, que, em circunstâncias normais, amadurece nas primeiras semanas de vida e que tem
como uma das funções suscitar na mãe o comportamento maternal. Além disso, mencionei a
possibilidade de que se tenha desenvolvido na evolução da espécie humana uma taxa
diferencial de sobrevivência favorecendo os bebês que sorriem bem. Visto por esse prisma,
estarei interessado, é claro, em identificar as condições, internas e externas ao bebê, que são
necessárias para provocar um sorriso, e as condições que levam à sua terminação. Em
especial, tentarei apurar se responde a estímulos-sinais visuais e auditivos, e se está ou não
sujeito, sob qualquer aspecto, às fases sensíveis do desenvolvimento. Além disso, espero vê-lo
atuando como um componente na organização superior de padrões de comportamento que
compreendem o “comportamento de ligação” no bebê ligeiramente mais velho, ou seja, o
complexo de comportamento que liga a criança à figura materna. Pesquisas nesse sentido
estão sendo empreendidas em Tavistock pelo meu colega Anthony Ambrose *(1).
Essa abordagem, que pode ser facilmente integrada à teoria da aprendizagem,
contrasta com a que é rigorosamente confinada pela teoria da aprendizagem.
Há cerca de 20 anos, Dennis (1935) notou que os bebês (de sete a dezesseis semanas)
sorriam a um rosto e uma voz humanos. Como teórico da aprendizagem, acreditava que o
rosto e a voz não podiam ser os estímulos não-condicionados e, assim, realizou experimentos
para ver se podia identificar o estímulo não-condicionado. O seu método consistiu em criar os
bebês de tal modo que, tanto quanto possível, sua amamentação e outros cuidados fossem
realizados de forma que eles não pudessem ver um rosto humano e que não lhes fosse dirigida
a palavra; a sua expectativa era de que, com o passar do tempo, seria possível determinar para
o que é que os bebês sorriam naturalmente.

Nota de rodapé:

*(1). Ver o estudo de Ambrose (1974).
35

Os resultados que obteve, entretanto, não confirmaram suas expectativas; os bebês criados
desse modo ainda sorriam para um rosto humano e nenhuma outra condição de estímulo era
mais eficaz do que essa. Por conseguinte, Dennis declarou que não obtivera provas da
existência de um estímulo não-condicionado para a resposta de sorrir à qual o rosto humano
pudesse ter ficado condicionado.
Não obstante, Dennis não podia crer no que seus olhos viam. Desconhecendo os
trabalhos de Heinroth e Lorenz, continuou rejeitando a possibilidade de que o próprio rosto
humano seja um eficaz estímulo não-aprendido, usando o argumento (errado) de que não
havia provas de uma especificidade semelhante no controle sensorial de respostas não-
aprendidas em animais. Preferiu, pelo contrário, apresentar uma teoria especulativa segundo a
qual esse sorriso acaba sendo provocado mediante um processo de condicionamento “por
qualquer estímulo que anuncia o término da aflição a que o bebê estava sujeito”. E evidente
que um apoio exclusivo e irrestrito na teoria da aprendizagem, embora inspirando
experimentos interessantes, tinha tomado difícil para Dennis conceder o devido peso tanto às
suas próprias descobertas quanto a explicações alternativas.
Dez anos depois, Spitz e Wolf (1946) publicaram mais alguns trabalhos experimentais
sobre o sorriso do bebê. Numa série de experimentos usando máscaras, eles demonstraram
que em bebês entre dois e seis meses de idade, oriundos de diferentes origens raciais e
culturais, o sorriso é evocado pela qualidade configurativa visual do rosto humano.
Afirmaram ainda que essa configuração deve incluir como elementos dois olhos na posição
frontal do rosto em movimento. Essas observações foram amplamente confirmadas e
ampliadas por Ahrens (1954), que também mostrou como a configuração necessária para
suscitar o sorriso torna-se mais complexa com a idade. Parece irrefutável, e esses dois
pesquisadores concordam, que pelo menos um dos estímulos exteroceptivos que evocam um
sorriso no bebê de dois para três meses é uma Gestalt visual relativamente simples. Portanto, é
uma surpresa descobrir que, ao examinar o componente motor do sorriso, Spitz não o
considera um padrão inato e específico da espécie. Deixou claro, em comunicações pessoais,
que o considera, pelo contrário, uma resposta motora aprendida em resultado do
condicionamento instrumental. Equiparando-a à aprendizagem da linguagem através da
seleção e uso especializado de fonemas naturalmente dados, Spitz escreve:
“Uma seleção ocorre pela supressão progressiva (ou abandono) dos padrões não-
adaptados aos fins e pelo reforço dos padrões de comportamento adaptados aos fins.
36

Foi isso que eu pretendi significar quando disse que a resposta de sorriso é um padrão de
comportamento adquirido em resposta aos cuidados maternos; ele está presente desde o
começo, como uma de muitas dezenas de padrões de comportamento fisionômico; é
cristalizado, dentre todos eles, em resposta à solicitude da mãe, ou seja, ao início da relação
objetal”.
Spitz não admite facilmente a noção de que o padrão pode ser, pelo contrário, inato no
bebê humano e de que, por volta das seis semanas de idade, está organizado e pronto a ser
provocado pelos estímulos apropriados.
Entretanto, nada seria mais provável. No fim das contas, grandes riscos foram
assumidos durante a evolução do Homem. Em seu equipamento, o fiel da balança inclinou-se
acentuadamente em favor da flexibilidade de comportamento e, portanto, da aprendizagem,
em oposição à fixidez inata. Seria, no entanto, muito estranho que a segurança biológica
resultante de padrões fixos fosse completamente abandonada. Suponho que chorar, chupar e
sorrir sejam alguns dos nossos muitos padrões motores inatos e representem a garantia da
natureza contra deixar tudo ao acaso da aprendizagem.
Reconheço, no entanto, que o caso não está provado e talvez nunca seja provado de
um modo absoluto. Além disso, quero enfatizar que nada existe no quadro que apresentei que
seja incompatível com o fato de o sorriso ser influenciado pela aprendizagem. Com efeito,
temos boas razões para acreditar que seja. Recentemente, Brackbill (1956) relatou um
experimento em que dois grupos de bebês entre 14 e 18 semanas de idade foram submetidos,
durante 15 dias cada, a “recompensas” de dois graus diferentes por seus sorrisos, sendo a
“recompensa” uma atenção extra por parte da experimentadora. No final do período, os dois
grupos divergiam significativamente, no sentido esperado, quanto à freqüência e persistência
de seus sorrisos. A conclusão de que o sorriso é influenciado pelo condicionamento
instrumental parece estar bem baseada nas provas apresentadas por Brackbill. Qualquer outra
suposição de que o sorriso deva ser entendido exclusivamente em termos de condicionamento
instrumental não é justificada pelos dados oferecidos pela autora e, como já disse, parece
improvável. Andar e correr são aperfeiçoados pela prática, e nem por isso concluímos que
esses comportamentos sejam adquiridos unicamente por aprendizagem — e se o fizéssemos
estaríamos certamente errados!
Muita coisa depende do modo como conceituamos o sorriso do bebê; as questões
sobre desenvolvimento social para as quais procuramos respostas na pesquisa serão
formuladas de modo diferente, é possível que todas as nossas concepções da interação social
humana sejam
37

diferentes, e as técnicas educacionais e clínicas com as quais concordamos terão ênfases
diferentes. Examinemos brevemente como isso afetará a pesquisa sobre o desenvolvimento
social nos primeiros anos de vida.
Se adotarmos, sem restrições, o ponto de vista da teoria da aprendizagem,
conceberemos o Homem como um animal sem respostas sociais inatas. Estaremos, então,
como Heathers (1955) e Gewirtz (1956) reconhecem, diante do problema de explicar como é
que, aos sete ou oito meses de idade, um bebê desenvolveu uma forte ligação emocional com
sua mãe. Grande parte do nosso trabalho experimental terá por objetivo, nesse caso, elucidar
como esse desenvolvimento ocorreu através de processos de aprendizagem baseados na
satisfação de necessidades fisiológicas.
Se, por outro lado, adotamos um ponto de vista etológico, procederemos de um modo
muito diferente. Em primeiro lugar, estaremos atentos a numerosos padrões de
comportamento específicos da espécie em bebês, como o sorriso, que concorrem para a
interação com a mãe. (Dois que podem ser considerados desse tipo e que esperamos estudar
na Tavistock são o choro e a tendência dos bebês para estenderem os braços, o que parece ser
sempre interpretado pelos adultos como um desejo de ser apanhado no colo.) Tendo
identificado esses padrões, tentaremos analisar os estímulos detonadores e supressores a que
eles são sensíveis. Esperamos encontrar que esses estímulos sejam comumente apresentados
pela mãe e iremos procurá-los em coisas tais como a sua aparência, o tom de sua voz e a
pressão de seus braços. Além disso, estaremos atentos às fases sensíveis pelas quais essas
respostas podem passar (tanto quanto à sua maturação como quanto a seus componentes
aprendidos), ao processo mediante o qual as numerosas respostas sociais são integradas num
todo mais complexo, às situações em que conflitam com respostas incompatíveis, como
hostilidade ou fuga, às situações de estresse suscetíveis de acarretar sua desintegração
temporária ou, possivelmente, permanente, a seus efeitos sobre o comportamento materno,
etc.
É evidente que se trata de dois programas de pesquisa muito diferentes. Além de sua
adequação às concepções oriundas da experiência psicanalítica e outras experiências clínicas,
uma razão principal para se preferir o programa etológico é que ele já provou ser fecundo na
análise do desenvolvimento e da interação social em outras espécies, ao passo que a teoria da
aprendizagem, como o próprio Gewirtz sublinhou, foi desenvolvida para explicar fenômenos
que são relativamente mais simples e que, por conseguinte, ainda precisa demonstrar sua
pertinência.
38

Espero não ser necessário repetir que, ao preferir a abordagem etológica não estou
descartando a teoria da aprendizagem. Pelo contrário, para se entender muitos dos processos
de mudança a que estão sujeitos os componentes de padrões instintivos, a teoria da
aprendizagem é indispensável e, portanto, complementar da etologia.
Analogamente, a obra de Piaget (1937) também é complementar da etologia. Mesmo
que estejamos certos ao considerar que, nos primeiros meses de vida do bebê, os estímulos
detonadores e supressores de padrões de comportamento social são da natureza de simples
Gestalten, isto logo deixa de ser verdade. Já por volta dos seis meses de idade os estímulos
mediadores do comportamento social do bebê incluem complexas imagens mentais, ao passo
que no segundo ano ele está desenvolvendo a capacidade de pensamento simbólico que
aumenta consideravelmente os estímulos que se revestem de significação social. Para
compreender essa mudança, parece provável que os conceitos de Piaget se mostrem
indispensáveis. Entretanto, não precisamos supor que, pelo fato de um indivíduo ter-se
tornado capaz de utilizar objetos de percepção e conceitos mais complexos, ele deixe
necessariamente de ser influenciado por estímulos mais primitivos. Pelo contrário, não parece
improvável que, à semelhança dos chimpanzés, descritos com tanta compreensão por Yerkes
(1943: 35-6), continuemos sendo influenciados por tais estímulos e que, em condições de
ansiedade e estresse, sejamos particularmente sensíveis a eles.
Isso nos leva à relação entre a etologia e a psicanálise. E evidente que, na medida em
que se ocupa do Homem como um animal que usa símbolos, dotado de extraordinárias
capacidades para aprender e, portanto, para protelar, distorcer e disfarçar a expressão de
respostas instintivas, a psicanálise está explorando uma região adjacente e complementar da
etologia. Contudo, na medida em que se ocupa das próprias respostas instintivas, parece
provável que as duas disciplinas coincidam em muitos pontos. Nesse contexto, é interessante
refletir sobre a convicção expressa por Freud há mais de 40 anos (Freud, 1915) de que, para
uma compreensão mais profunda do instinto, a psicologia precisaria da ajuda da biologia. Em
conseqüência do desenvolvimento da ciência da etologia, que tem suas raízes mergulhadas na
biologia, acredito ter chegado agora o momento em que a teoria psicanalítica do instinto pode
ser reformulada. Não é esta a ocasião para tentarmos um tão vasto e polêmico
empreendimento. Entretanto, será evidente que noções tais como as de narcisismo primário e
de controle do instinto como resultados exclusivos da aprendizagem social não merecerão
muita atenção, ao passo que as de relações humanas primárias, inevitabilidade do conflito
39

intrapsíquico, defesas contra o conflito e modos de regulá-lo, serão noções centrais. Um dos
resultados dessa reformulação poderá ser um corpo teórico mais parcimonioso e coerente.
O desenvolvimento de todas essas linhas de pensamento pela pesquisa empírica será
tarefa de uma geração. Se isso será empreendido ou não, dependerá de um clima de opinião
na psicologia britânica que valorize todas essas abordagens, reconheça-as como
reciprocamente complementares e, assim, leve os estudantes de graduação e pós-graduação a
receberem instrução sobre os princípios que as regem.

Pós-Escrito.

A abordagem defendida foi adotada com notável êxito por Mary Salter Ainsworth, de quem
numerosas publicações são indicadas nas Referências do presente volume, e também por
Nicholas Blurton Jones (1972).
Para uma exposição atualizada dos conceitos e dados etológicos em relação ao
homem, ver Hinde (1974).

3. O luto na infância e suas implicações para a psiquiatria *(1).

Todos os anos, a Associação Psiquiátrica Americana convida para as suas reuniões anuais um
conferencista, usualmente um psiquiatra de fora dos Estados Unidos, para fazer uma palestra
em honra de Adolf Meyer. Fui convidado para falar na reunião realizada na primavera de
1961, em Chicago. O texto foi publicado mais tarde, nesse mesmo ano.

Durante meio século ou mais, existiu uma escola de pensamento que acreditava que as
experiências da infância desempenham um importante papel na determinação da propensão de
um indivíduo para, ao crescer, contrair ou não uma doença mental. Adolf Meyer deu uma
grande contribuição para o desenvolvimento dessa escola. Ao insistir que o paciente
psiquiátrico é um ser humano e que seu pensamento, seu sentimento e seu comportamento
perturbados devem ser examinados no contexto do ambiente em que está vivendo e em que
viveu, Adolf Meyer convidou-nos a prestar atenção a todos os complexos detalhes da
biografia do paciente como possíveis pistas para a sua doença. “A mais valiosa característica
determinante é, via de regra, a forma de evolução do complexo [sintoma], o tempo, a duração
e as circunstâncias de seu desenvolvimento.” Embora eu não encontre provas de que o próprio
Adolf Meyer estivesse grandemente interessado em experiências sobre os primeiros tempos
da infância, elas situam-se obviamente em seu campo de visão e constituem, de fato, uma
extensão lógica de seu trabalho.

Nota de rodapé:

*(1). Publicado originalmente em American Journal of Psychiatry (1961) 118: 481-98.
Copyright, 1961, The American Psychiatric Association. Reimpresso com autorização.
41

Com o passar dos anos, fortaleceu-se a convicção de que as experiências da infância se
revestem de grandes conseqüências para o desenvolvimento da doença psiquiátrica.
Entretanto, a hipótese básica sempre foi objeto de viva controvérsia. Alguns afirmaram que a
hipótese está errada — que a doença psiquiátrica não tem suas raízes nos primeiros anos da
infância mas em algum outro lugar; enquanto que aqueles que acreditam que a hipótese é
fecunda ainda continuam, nas décadas de 1960 e 1970, procurando descobrir, precisamente,
quais são as experiências relevantes. Boa parte da controvérsia decorre da dificuldade em
realizar pesquisas satisfatórias nessa área — dificuldade que decorre, principalmente, do
longo intervalo de tempo entre os acontecimentos considerados importantes e o início da
doença declarada. Portanto, para a ciência da psicopatologia, o problema que se coloca é
como explorar melhor a área a fim de se alcançar um terreno mais sólido. O meu plano é
fornecer aqui uma descrição dos progressos recentes numa linha de investigação — aquela
que se propõe compreender o efeito que a perda dos cuidados maternos nos primeiros anos da
infância tem sobre o desenvolvimento da personalidade.
Nos últimos vinte anos, acumularam-se muitas provas que indicam a existência de
uma relação causal entre a perda dos cuidados matemos nos primeiros anos de vida e o
desenvolvimento da personalidade perturbada (Bowlby, 1951). Muitos desvios comuns
parecem resultar de uma experiência desse gênero — desde a formação do caráter delinqüente
até uma personalidade propensa aos estados de ansiedade e à doença depressiva. Embora haja
ainda alguns psiquiatras que contestam essa conclusão geral, uma atitude mais usual consiste
em aceitar que existe, provavelmente, alguma coisa nessa relação e pedir informações mais
minuciosas. Uma solicitação particular tem sido para que se formule uma hipótese capaz de
fornecer uma explicação plausível de como os efeitos perniciosos atribuídos à separação e
privação resultam de tais experiências. Nas linhas que se seguem apresentarei um esboço do
caminho para onde as provas parecem estar nos conduzindo.
Esta investigação não obedece à prática usual da pesquisa psiquiátrica, que começa
com um síndrome clínico mais ou menos definido e depois tenta delinear a patologia
subjacente. Começa, pelo contrário, com um determinado tipo de experiência, a perda da
figura materna na infância, e tenta em seguida descrever os processos psicológicos e
psicopatológicos que dela resultam comumente. Uma mudança desse tipo na orientação da
pesquisa ocorreu há muito tempo na medicina fisiológica. Por exemplo, nos estudos sobre a
patologia da infecção pulmonar crônica, o investigador já não começa com um grupo apenas
de casos de
42

infecção crônica, para descobrir o agente (ou agentes) infeccioso que está atuando. É muito
mais provável que comece com um agente específico, talvez o bacilo de Koch ou algum vírus
recém-identificado, a fim de estudar os processos fisiológicos e fisiopatológicos a que ele dá
origem. Assim fazendo, ele poderá descobrir muitas coisas que não são imediatamente
relevantes para as condições pulmonares infecciosas crônicas. Não só ele poderá elucidar
certas infecções agudas e condições subclínicas, mas é quase certo que descobrirá (e
esclarecerá) quais são as infecções de outros órgãos, além dos pulmões, provocadas pelo
organismo patogênico que escolheu para estudo. O investigador deixou de ter como interesse
central a pesquisa de um determinado síndrome clínico, passando a interessar-se mais pelas
múltiplas seqüelas de um agente patogênico específico.
O agente patogênico que nos interessa é a perda da figura materna durante o período
compreendido entre, aproximadamente, seis meses e seis anos de idade. Durante os primeiros
meses de vida, o bebê aprende a discriminar uma certa figura, usualmente a mãe, e
desenvolve um grande prazer em estar na sua companhia. Depois dos seis meses de idade,
aproximadamente, o bebê mostra suas preferências de modo inconfundível (Schaffer, 1958).
Durante a segunda metade do primeiro ano de vida, e a totalidade do segundo e terceiro, a
criança está intimamente ligada à sua figura materna, o que significa que fica contente na
companhia dela e aflita quando ela está ausente. Mesmo separações momentâneas levam
freqüentemente a criança a protestar; e as mais demoradas sempre envolvem os mais
vigorosos protestos. Após o terceiro ano, o comportamento de ligação é suscitado um pouco
menos prontamente do que antes, embora a mudança seja apenas de grau *(1). A partir do
primeiro aniversário, outras figuras, como o pai ou uma avó, também podem tornar-se
importantes para a criança, de modo que a sua ligação não se limita mais a uma única figura.
No entanto, existe usualmente uma preferência bem marcada por uma determinada pessoa. À
luz da filogenia, é provável que os vínculos instintivos que ligam o bebê humano a uma figura
materna sejam construídos de acordo com o mesmo padrão geral presente em outras espécies
mamíferas (Bowlby, 1958; Rollman-Branch, 1960; Harlow e Zimmermann, 1959).
A maioria das crianças não passa por qualquer desintegração dessa ligação primária
em seus primeiros anos de vida. Elas vivem com sua figura materna e, durante os períodos
relativamente breves em que a mãe está ausente, são cuidadas por uma figura secundária
familiar. Por outro lado, uma minoria sofre tais desintegrações. A mãe pode abandonar o lar
ou morrer; a criança pode ser deixada num hospital ou instituição; pode ser transferida de uma
figura materna para uma outra.

Nota de rodapé:

*(1). Na versão original da conferência que forma este capítulo, referi-me a uma mudança na
“força” da ligação. Entretanto, ficou provado que é extremamente enganador conceber a
ligação como algo que varia de acordo com sua força, e a idéia foi abandonada por
pesquisadores esclarecidos. Com freqüência, é útil pensar que a ligação varia segundo uma
dimensão “segurança-ansiedade”. Ver a minha análise da questão nos parágrafos iniciais do
Capítulo 15 de Attachment and Loss [Ligação e Perda], Vol. 2.
43

A interrupção pode ser longa ou breve, acontecer uma única vez ou repetir-se. As
experiências englobadas sob a designação geral de privação materna são, pois, múltiplas e
nenhuma investigação pode estudá-las todas. Portanto, para que a pesquisa seja eficaz, a
experiência a ser estudada deve ser definida com muita precisão em cada projeto.
Quanto às estratégias de pesquisa, o investigador tem uma escolha (Ainsworth e
Bowlby, 1954). Uma possibilidade óbvia é examinar uma amostra de crianças mais velhas e
adultos que em seus primeiros anos de vida tenham passado por essa experiência, para ver se
eles diferem ou não de uma amostra comparável de pessoas que não tenham passado pela
experiência. Embora adotada com brilhantismo por Goldfarb (1955), essa estratégia apresenta
muitas dificuldades práticas. As principais são: a localização de uma amostra adequada; a
seleção e o exame dos controles apropriados; a utilização de instrumentos idôneos para medir
as características da personalidade que se espera que apresentem diferenças. Uma abordagem
alternativa consiste em estudar as respostas da criança durante a experiência e no período
imediatamente posterior. Depois de passar vários anos não muito produtivos usando a
primeira estratégia, o meu grupo de pesquisa concentrou-se, durante a maior parte da década
passada, na segunda. Isso tem dado resultados muito mais gratificantes.

Separação da mãe e luto na infância.

Os dados que nos interessam basicamente são as observações do comportamento de crianças
saudáveis de uma idade definida, ou seja, no segundo e no terceiro ano de idade, expostas a
uma situação igualmente definida, a saber, uma estada de duração limitada numa creche
residencial ou enfermaria de hospital, onde foram assistidas da maneira tradicional. Isto
significa que a criança foi retirada dos cuidados de sua figura materna e de todas as figuras
secundárias, assim como de seu ambiente familiar, e passou a ser cuidada num lugar estranho
por uma série de pessoas desconhecidas. Outros dados surgiram de observações do
comportamento da criança em seu lar nos meses subseqüentes ao seu regresso, e dos
depoimentos de seus pais sobre esse período. Graças ao trabalho de James Robertson e
Christoph Heinicke, dispomos agora de um considerável acervo de observações. Algumas
delas já foram publicadas (Robertson e Bowlby, 1952; Robertson, 1953a, b; Bowlby, 1953;
Heinicke, 1956), mas outras ainda estão por divulgar *(1).

Nota de rodapé:

*(1). Ver especialmente o estudo relatado por Heinicke e Westheimer (1966), do qual algum
dados e conclusões são por nós apresentados no Capítulo 4.
44

Estamos bastante confiantes nos modelos comuns porque as observações feitas por outros
investigadores (Burlingham e Freud, 1942, 1944; Prugh e outros, 1953; Illingworth e Holt,
1955; Roudinesco, Nicolas e David, 1952; Aubry, 1955; Schaffer e Callender, 1959)
registram seqüências de respostas substancialmente semelhantes.
No contexto descrito, um bebê de quinze a trinta meses que venha tendo uma relação
bastante segura com sua mãe e nunca se tenha separado dela antes, mostrará, via de regra,
uma seqüência previsível de comportamento. Essa seqüência pode ser decomposta em três
fases, de acordo com a atitude dominante da mãe. Descrevemo-las como as fases de protesto,
desespero e desligamento *(1). Primeiro com lágrimas e raiva, o bebê exige que sua mãe
regresse e parece ter esperança de conseguir reavê-la. Esta é a fase de protesto, e pode durar
vários dias. Depois, torna-se mais calmo mas, para um observador perspicaz, é evidente que o
bebê continua tão preocupado quanto estava antes com a ausência da mãe e ainda anseia pelo
seu regresso; mas suas esperanças dissiparam-se e ele entra na fase de desespero. Essas duas
fases se alternam freqüentemente: a esperança converte-se em desespero e o desespero em
renovada esperança. Finalmente, porém, ocorre uma mudança maior. O bebê parece esquecer
sua mãe, de modo que, quando ela regressa, permanece curiosamente desinteressado e,
inclusive, pode parecer que não a reconhece. Esta é a terceira fase — a do desligamento. Em
cada uma dessas fases a criança é propensa a birras e episódios de comportamento destrutivo,
muitas vezes de um tipo inquietantemente violento.
O comportamento da criança ao voltar para casa depende da fase atingida durante o
período de separação. Usualmente, durante um certo tempo, mostra-se indiferente e nada
pede; em que grau e por quanto tempo, depende da duração da separação e da freqüência das
visitas. Por exemplo, quando esteve fora e sem receber visitas durante semanas ou meses, e
atingiu assim os primeiros estágios do desligamento, é possível que a indiferença persista
durante um período que vai de uma hora a um dia ou mais. Quando finalmente se desfaz,
torna-se manifesta a intensa ambivalência de seus sentimentos pela mãe. Desencadeia-se uma
tempestade de sentimentos, intenso apego à mãe e, sempre que esta se afasta, nem que seja
por instantes, uma intensa ansiedade e raiva. Daí em diante, por semanas ou meses, a mãe
poderá estar sujeita a solicitações ansiosas de sua presença constante e a recriminações
furiosas quando se ausenta.

Nota de rodapé:

*(1). Em alguns artigos anteriores, foi usada a palavra “negação” para designar a terceira fase.
Ela tem, contudo, muitas desvantagens e foi abandonada.
45

Entretanto, quando a criança esteve fora por um período superior a seis meses ou quando
houve separações repetidas, de modo a ter sido alcançado um estágio avançado de
desligamento, há o perigo de que a criança fique permanentemente desligada e nunca mais
recupere sua afeição pelos pais *(1). Ora, na interpretação desses dados e em seu
relacionamento com a psicopatologia, um conceito-chave é o de luto. Existem, de fato, boas
razões para acreditar que a seqüência de respostas descrita — protesto, desespero e
desligamento — é uma seqüência que, numa variante ou outra, é característica de todas as
formas de luto. Após uma perda inesperada, parece haver sempre uma fase de protesto,
durante a qual a pessoa que sofreu a perda se empenha, na realidade ou em pensamento e
sentimento, em recuperar a pessoa perdida *(2) e a recrimina por sua deserção. Durante esta
fase de desespero e a seguinte, os sentimentos são ambivalentes, enquanto que o estado de
ânimo e a ação variam entre uma expectativa imediata, expressa numa intimação raivosa para
que a pessoa regresse, até um profundo desespero, expresso em suspiros contidos — ou até
mesmo inexprimido. Embora a esperança e o desespero alternados possam continuar por
muito tempo, acabará por desenvolver-se um certo grau de desligamento emocional da pessoa
perdida. Após ter passado pela desorganização da fase do desespero, o comportamento nesta
fase se reorganiza com base na ausência permanente da pessoa. Embora este quadro do luto
sadio não seja inteiramente familiar aos psiquiatras, as provas de sua veracidade parecem
convincentes (Bowlby, 1961b).
Se este ponto de vista é correto, as reações de crianças pequenas ao serem removidas
para um hospital ou instituição devem ser simplesmente consideradas como variantes de
processos básicos de luto. Parece que os mesmos tipos de respostas ocorrem, na mesma
seqüência, independentemente da idade. Tal como os adultos, bebês e crianças pequenas que
perderam uma pessoa amada sentem pesar e passam por períodos de luto (Bowlby, 1960b).
Parece haver apenas duas diferenças inter-relacionadas. Uma, é que na criança a escala de
tempo é abreviada, embora muito menos do que, por vezes, se pensava. A outra, que é
significativa para a psiquiatria, é que na infância os processos que culminam no desligamento
têm condições para se desenvolverem prematuramente, tanto mais que coincidem (e
mascaram) com um forte anseio residual pela pessoa perdida e raiva contra ela; estes
sentimentos persistem, prontos para manifestar-se, em nível inconsciente.

Nota de rodapé:

*(1). Numerosas variáveis influenciam o comportamento da criança durante e depois da
separação, e isso torna difícil uma breve exposição esquemática. A descrição feita aplica-se
especialmente ao comportamento de uma criança que não recebe visitas e é cuidada por
enfermeiras ou outras pessoas que manifestam pouca compreensão ou compaixão pela aflição
dela. Parece provável que visitas livres e uma assistência mais esclarecida podem mitigar os
processos descritos, mas existe muito pouca informação confiável sobre isso.
*(2). Na versão original deste capítulo (e em alguns lugares dos dois anteriores), segui a
tradição psicanalítica de referência a “relações objetais”, “o objeto amado” e “o objeto
perdido”. Abandonei esse uso pouco tempo depois. Não só ele decorre de um paradigma
teórico que mesmo em 1961 eu já não mais sustentava, como considero seriamente errôneo
mencionar uma outra pessoa como um objeto, pois implica a relação com algo inerte e não
com outro ser humano que desempenha um papel igual ou talvez dominante na determinação
de como a relação se desenvolve. Portanto, ao voltar agora a publicar o que foi a conferência
original, alterei a redação e passei a mencionar sempre uma “pessoa amada” ou uma “pessoa
perdida”, em vez de “objeto amado” ou “objeto perdido”.
46


Em virtude desse início prematuro do desligamento, os processos de luto na infância
geralmente tomam um curso *(1) que seria considerado patológico em crianças mais velhas e
nos adultos.
Uma vez que reconhecemos que a separação de uma criança pequena de sua amada
figura materna precipita comumente processos de luto de tipo patológico, estamos aptos a
relacionar os nossos dados com os obtidos em muitas outras investigações. Temos, por um
lado, as conclusões de estudos de investigadores que partiram do estudo do sentimento de
pesar dos adultos para uma investigação de psicopatologia (Lindemann, 1944; Jacobson,
1957; Engel, 1961): por outro, temos as investigações dos pesquisadores — muito mais
numerosos — que seguiram o modelo tradicional de pesquisa psiquiátrica, que começa com
um paciente e tenta descobrir quais foram os eventos anteriores com significação causal, e
formularam a hipótese de que a perda de uma pessoa amada é, de algum modo, patogênica.
As pesquisas que apontaram a perda de uma pessoa amada como provavelmente
patogênica são elas mesmas de diversos tipos. Em primeiro lugar, existem os numerosos
estudos, dos quais Luto e Melancolia (1917), de Freud, é o protótipo, que relacionam um
síndrome psiquiátrico de início relativamente agudo — como um estado de ansiedade, doença
depressiva, ou histeria — com uma perda mais ou menos recente, e propõem que o quadro
clínico deve ser entendido como o resultado do fato de o luto ter seguido um curso patológico.
Em seguida, temos os estudos, quase tão numerosos, que relacionam um síndrome
psiquiátrico de grau mais crônico, como a tendência para a depressão episódica ou uma
dificuldade para experimentar sentimentos, com uma perda que ocorreu na infância ou
adolescência do paciente. Em terceiro lugar, cita-se a extensa literatura psicanalítica que
procura relacionar a propensão para a doença psiquiátrica na idade adulta com alguma falha
no desenvolvimento psíquico durante a infância. Em quarto lugar, há uma série crescente de
estudos que mostram que na vida de pessoas que contraíram doença psiquiátrica houve,
durante a infância, uma incidência elevada de perdas; e, finalmente, registre-se a observação
impressionante de que há indivíduos que são suscetíveis de contrair uma doença psiquiátrica
numa idade que parece ser determinada por um episódio de sua infância, quando sofreram a
perda de um dos pais — as chamadas reações de aniversário.
Ora, é certamente impossível discutir de modo sistemático, num único artigo, a
pertinência das provas fornecidas por cada uma dessas fontes. O máximo que podemos fazer é
apoiarmo-nos em alguns estudos típicos de cada um desses campos (mas excluindo as reações
de aniversário)

Nota de rodapé:

*(1). Está agora claro que o processo de luto em crianças não necessita adotar um curso que
leve à patologia, se bem que tal aconteça com bastante freqüência. O advérbio
“habitualmente” usado no texto, aqui e em outros pontos do capítulo, é, portanto,
desorientador. As condições que influenciam o desfecho são examinadas por Furman (1974) e
tratadas em detalhe também na Parte III de Attachment and Loss, Vol. 3.
47

e mostrarmos de modo sucinto como esses dados parecem conjugar-se. Entretanto, como a
tese gravita toda ela em torno da natureza dos processos que entram em ação no luto e,
especialmente, os que estão presentes na primeira fase, é necessário dispensar-lhes mais
atenção.

Impulsos para recuperar e para recriminar a pessoa perdida: seu papel na psicopatologia.

Nem sempre se percebe que a raiva constitui uma resposta imediata à perda, comum e talvez
invariável. Em lugar da raiva indicando que o luto está seguindo um curso patológico — uma
opinião sugerida por Freud e comumente sustentada — as provas existentes evidenciam que a
raiva, incluindo a raiva com relação à pessoa perdida, é parte integrante da reação de pesar. A
função dessa raiva parece ser a de reforçar o ímpeto dos esforços vigorosos tanto para reaver a
pessoa perdida como para dissuadi-la de uma nova deserção, que são marcas distintivas da
primeira fase do luto. Como até hoje não se tem prestado muita atenção a essa fase e como,
além disso, ela parece ser crucial para um entendimento da psicopatologia, toma-se necessário
explorá-la mais completamente.
Como nos casos de morte um esforço carregado de raiva para recuperar a pessoa
perdida é tão obviamente inócuo, há uma tendência para considerá-lo patológico em si
mesmo. Acredito que isso é um erro. Longe de ser patológica, as provas sugerem que a
expressão manifesta desse impulso irresistível, por mais fora da realidade e inútil que seja, é
uma condição necessária para que o luto siga um curso saudável. Somente depois que todos
os esforços foram feitos para reaver a pessoa perdida é que, segundo parece, o indivíduo
adquire um estado de ânimo capaz de fazê-lo admitir a derrota e de reorientá-lo para um
mundo em que a pessoa amada é aceita como irreparavelmente ausente. O protesto, incluindo
uma exigência raivosa do retomo da pessoa e uma recriminação contra ela por ter desertado
faz parte da resposta à perda, tanto por parte de um adulto (especialmente quando se trata de
uma perda súbita) como por parte de uma criança.
Isso poderá parecer desconcertante. Como explicar que tais exigências e recriminações
sejam feitas mesmo quando a pessoa já não pode ser trazida de volta? Por que um irrealismo
tão gritante? Acredito existir uma boa resposta, originada na teoria da evolução.
Em primeiro lugar, um exame das respostas comportamentais à perda que são
manifestadas por espécies não-humanas — aves, mamíferos
48

inferiores e primatas — sugere que essas respostas têm antigas raízes biológicas. Embora não
estejam registradas em toda a sua extensão, as informações existentes mostram, contudo, que
muitas (senão todas) as características descritas para seres humanos — ansiedade e protesto,
desespero e desorganização, desligamento e reorganização — também são a regra em muitas
outras espécies *(1).
Em segundo lugar, não é difícil perceber que essas respostas devem ter evoluído. Na
existência primitiva e natural, perder o contato com o grupo familiar imediato é extremamente
perigoso, sobretudo para os filhotes. Portanto, é do interesse da segurança individual e da
reprodução da espécie que existam fortes laços unindo os membros de uma família ou de uma
família extensa; e isso requer que toda a separação, ainda que breve, seja respondida por um
esforço imediato, automático e vigoroso para recuperar a família, especialmente o membro
com quem a ligação é mais forte, e para desencorajar esse membro a uma nova separação. Por
essa razão, sugere-se que as determinantes herdadas do comportamento (freqüentemente
qualificadas de instintivas) evoluíram de tal modo que as respostas padronizadas à perda de
pessoas amadas são sempre, em primeiro lugar, impulsos para reavê-las e, depois, para
recriminá-las. Entretanto, se os impulsos para recuperar e recriminar são respostas
automáticas inerentes ao organismo, conclui-se que elas entrarão em ação como resposta a
toda e qualquer perda, sem discriminar entre aquelas que são realmente recuperáveis e
aquelas, estatisticamente raras, que não o são. É uma hipótese desse tipo, creio eu, que explica
por que uma pessoa que sofreu uma perda experimenta comumente um impulso irresistível
para reaver a pessoa, mesmo sabendo que a tentativa é infrutífera, e para recriminá-la por ter
partido, mesmo quando sabe que a recriminação é irracional.
Logo, se tanto o esforço inútil para recuperar a pessoa perdida como as recriminações
furiosas contra ela por ter desertado não são sinais de patologia, poder-se-á perguntar: então,
de que modo se distingue o luto patológico do luto saudável? O exame dos elementos de
demonstração sugere que uma das principais características do luto patológico é a
incapacidade para expressar abertamente esses impulsos para reaver e recriminar a pessoa
perdida, com toda a saudade do desertor e toda a raiva contra ele que esses impulsos
implicam.

Nota de rodapé:

*(1). As demonstrações foram reexaminadas por Bowlby (1961b) e Pollock (1961). Para dar
um exemplo citado por Pollock: um chimpanzé que tinha perdido sua companheira fez
repetidos esforços para reanimá-la. Guinchou raivosamente e, algumas vezes, expressou sua
cólera arrancando tufos de pêlo de sua própria cabeça. Depois, houve choro e luto. Com o
tempo, ficou mais intimamente ligado ao seu tratador e mostrava-se mais irritado do que antes
quando o tratador ia embora.
49

Em vez de sua expressão aberta que, apesar de ser tempestuosa e estéril, leva a um resultado
saudável, os impulsos de recuperação e recriminação, com toda a sua ambivalência de
sentimentos, cindem-se e são reprimidos. Daí em diante, continuam como sistemas ativos na
personalidade mas, incapazes de encontrar uma expressão direta e manifesta, passam a
influenciar os sentimentos e o comportamento de um modo estranho e distorcido. Daí as
numerosas formas de perturbação de caráter e doença neurótica.
Darei um breve exemplo ilustrativo de uma dessas formas, extraído de um caso
relatado por Helene Deutsch (1937). Quando veio para uma análise, esse homem, com trinta e
poucos anos, não apresentava dificuldades neuróticas aparentes. O quadro clínico, entretanto,
era de um caráter inexpressivo e carente de afetividade. Helene Deutsch descreve como o
paciente “mostrou um completo bloqueio de emoções e sentimentos, sem o menor insight...
Não tinha relações amorosas, nem amigos, nem interesse real por qualquer coisa. Em todos os
tipos de experiências mostrava a mesma reação apagada e apática. Não havia empenho nem
desapontamento... Não havia reações de pesar pela morte de pessoas próximas, nem
sentimentos inamistosos ou impulsos agressivos”. Como se desenvolveu essa personalidade
estéril e mutilada? À luz de uma hipótese a respeito do luto na infância, a história, em
conjunto com o material proveniente da análise, pudemos construir uma explicação plausível.
Primeiro, a história: Quando o paciente tinha cinco anos de idade, sua mãe falecera, e
disseram que ele tinha reagido a essa perda sem qualquer emoção (3). Daí por diante, além
disso, ele não tinha conservado lembrança de nenhum evento anterior à morte da mãe.
Segundo, o material proveniente da análise: O paciente descreveu como, durante os últimos
anos de sua infância, costumava deixar aberta a porta de seu quarto, “na esperança de que um
grande cão se aproximasse dele, fosse muito carinhoso com ele e satisfizesse todos os seus
desejos”. Associada a essa fantasia estava uma vívida recordação da infância de uma cadela
que deixara suas crias sozinhas e desamparadas, ao morrer pouco depois de dar à luz. Embora
nessa fantasia a saudade oculta da mãe que ele perdeu pareça plenamente evidente, ele não a
expressa de modo simples e direto. Pelo contrário, todas as recordações de sua mãe tinham
desaparecido da consciência e, na medida em que podiam ser percebidos, os afetos
conscientes em relação a ela eram hostis.
Para explicar o curso de desenvolvimento neste caso, a hipótese que estou
apresentando (e que não é muito diferente da de Helene Deutsch) é que, após a morte da mãe,
em lugar de haver uma expressão plena do impulso para recuperar sua mãe e da raiva pela
deserção dela, o luto do paciente tinha-se deslocado precipitadamente para uma situação de
desligamento.

Nota de rodapé:

*(1). Na versão original deste capítulo (e em alguns lugares dos dois anteriores), segui a
tradição psicanalítica de referência a “relações objetais”, “o objeto amado” e “o objeto
perdido”. Abandonei esse uso pouco tempo depois. Não só ele decorre de um paradigma
teórico que mesmo em 1961 eu já não mais sustentava, como considero seriamente errôneo
mencionar uma outra pessoa como um objeto, pois implica a relação com algo inerte e não
com outro ser humano que desempenha um papel igual ou talvez dominante na determinação
de como a relação se desenvolve. Portanto, ao voltar agora a publicar o que foi a conferência
original, alterei a redação e passei a mencionar sempre uma “pessoa amada” ou uma “pessoa
perdida”, em vez de “objeto amado” ou “objeto perdido”.
50

Assim fazendo, a saudade e a raiva tinham-se trancado no íntimo do paciente, potencialmente
ativo mas fechado para o mundo, e só o remanescente de sua personalidade tinha ficado livre
para desenvolvimento subseqüente. Por conseguinte, ele cresceu gravemente empobrecido. Se
esta hipótese é válida, a tarefa do tratamento consiste em ajudar o paciente a recuperar sua
saudade latente da mãe que perdeu e sua raiva latente por ela o ter abandonado; em outras
palavras, a regressar à primeira fase do luto com toda a sua ambivalência de sentimento e que,
na época da perda, tinha sido omitida ou contornada. A experiência de muitos analistas, bem
ilustrada num artigo de Root (1957), sugere que, de fato, só assim uma tal pessoa pode voltar
a ter uma vida de sentimento e ligação.
Essa hipótese é fortemente confirmada por nossas observações de crianças separadas
de suas mães e que não recebem visitas, especialmente por aquilo que sabemos sobre os
estágios iniciais do desligamento que se seguem ao protesto e desespero. Quando uma criança
separada ingressa na fase de desligamento, ela parece já não se preocupar com sua mãe
ausente e ter-se adaptado satisfatoriamente ao seu novo ambiente. Quando a mãe reaparece
para levá-la de volta para casa, em vez de recebê-la efusivamente e de se agarrar a ela, a
criança mantém-se distante e indiferente; é uma situação que a maioria das mães acha
deprimente e incompreensível. Contudo, se a separação não durou tempo demais, essa
situação é reversível, e o interesse especial está naquilo que acontece após a reversão.
Algumas horas ou alguns dias depois de estar de novo com sua mãe, o comportamento
de desligamento é substituído não só por toda a antiga ligação mas também por uma ligação
muito mais intensa. Isso mostra que, durante o período de desligamento, os laços que
vinculam a criança à mãe não se dissiparam por completo, como foi sugerido por Anna Freud
(1960) *(1), nem houve um simples esquecimento. Pelo contrário, os dados mostram que,
durante a fase de desligamento, as respostas que ligam a criança à mãe e a levam a empenhar-
se para reavê-la estão sujeitas a um processo defensivo. São de algum modo, removidas da
consciência, mas permanecem latentes e prontas a serem reativadas, com elevada intensidade,
quando as circunstâncias mudam *(2).

Nota de rodapé:

*(1). Numa publicação anterior (Burlingham e Freud, 1942), entretanto, Anna Freud adotou
um ponto de vista semelhante ao adotado aqui.
*(2). A mudança de circunstância requerida varia com o estágio para o qual o desligamento
progrediu. Quando a criança ainda está nas fases iniciais, a renovação da ligação segue logo á
nova união com a mãe; quando a criança atingiu um estágio avançado, talvez seja necessário
um tratamento psicanalítico.
51

Isto significa que, em bebês e crianças pequenas, a experiência de separação inicia
habitualmente processos defensivos que levam à saudade da pessoa perdida e a recriminações
pela deserção, tornando-se uns e outros inconscientes. Em outras palavras, na infância o
indivíduo reage à perda com processos de luto que habitualmente *(1) enveredam por um
caminho que, nos adultos, é considerado patológico.
A questão que surge agora é saber se os processos defensivos que são tão
impressionantes após uma perda na infância são de natureza diferente do que ocorre no luto
saudável ou se eles também ocorrem no luto saudável, mas apresentando alguma diferença de
forma ou de timing. As evidências sugerem que, de fato, eles ocorrem (Bowlby, 1961b) mas
que, no processo saudável, o seu desencadeamento é protelado. Por conseguinte, os impulsos
para recuperar a pessoa perdida e para recriminá-la têm tempo suficiente para se expressarem,
de modo que, através da repetida omissão, eles são gradualmente abandonados ou, em termos
da teoria da aprendizagem, extintos. O que parece acontecer na infância (e no luto patológico
de anos ulteriores), por outro lado, é a aceleração do desenvolvimento de processos
defensivos. Como resultado disso, os impulsos de recuperação e recriminação não tem uma
oportunidade de extinguir-se e, pelo contrário, persistem, com sérias conseqüências.
Voltemos a aplicar, em poucas palavras, essas idéias ao paciente de Helene Deutsch.
Após a morte de sua mãe, quando ele tinha cinco anos, segundo parece, saudade e raiva
desapareceram do eu consciente do paciente. Contudo, a fantasia da visita do cão mostra que,
não obstante, ambos os sentimentos persistem a nível inconsciente. Isto e as provas oriundas
de outros casos evidenciam que, embora imobilizados, tanto o seu amor quanto a sua raiva
permaneceram dirigidos para a recuperação da mãe morta. Assim, bloqueados a serviço de
uma causa irrealizável, esses sentimentos acabaram por se perder para uma personalidade em
desenvolvimento. Com a perda da mãe também se perdera a vida emocional e sentimental do
paciente *(2).
Dois termos técnicos comuns são usados para designar os processos em ação: fixação
e repressão. Inconscientemente, a criança permanece fixada à mãe que perdeu: seus impulsos
para reavê-la e recriminá-la, e as emoções ambivalentes a eles ligados, sofreram repressão.
Um outro processo defensivo, estreitamente relacionado com a repressão e alternativo
para esta, também pode ocorrer em conseqüência da perda. Trata-se da “divisão do ego”
(Freud, 1938).

Nota de rodapé:
*(1). Está agora claro que o processo de luto em crianças não necessita adotar um curso que
leve à patologia, se bem que tal aconteça com bastante freqüência. O advérbio
“habitualmente” usado no texto, aqui e em outros pontos do capítulo, é, portanto,
desorientador. As condições que influenciam o desfecho são examinadas por Furman (1974) e
tratadas em detalhe também na Parte III de Attachment and Loss, Vol. 3.
*(2). Não raras vezes, uma criança não responde com emoção à morte de um dos pais porque
recebeu pouca ou nenhuma informação sobre o que aconteceu e, mesmo que seja informada,
não lhe é dada a oportunidade de expressar seus sentimentos e emoções, ou de fazer perguntas
a um adulto compreensivo. Para referências, ver a nota 4 acima.
52

Em tais casos, uma parte da personalidade, secreta mas consciente, nega que a pessoa tenha
realmente desaparecido e afirma que ela ainda está em comunicação com o paciente, ou que
em breve ela reaparecerá; simultaneamente, uma outra parte da personalidade compartilha
com os parentes e amigos o conhecimento de que a pessoa está irremediavelmente perdida,
para sempre. Por mais incompatíveis que sejam, as duas partes coexistem durante muitos e
muitos anos. Tal como no caso da repressão, as divisões do ego também culminam em doença
psiquiátrica.
Por que, em alguns casos, a parte que ainda anseia por reaver a pessoa perdida seria
consciente e, em outros, seria inconsciente? Essa é uma questão que não está esclarecida.
Tampouco são claras as condições que levam algumas crianças órfãs a se desenvolverem de
modo satisfatório e outras não *(1). Este problema tem sido estudado por Hilgard (Hilgard,
Newman e Fisk, 1960). O que parece certo, entretanto, é que a precipitação do início dos
processos defensivos, repressão ou divisão, com a fixação resultante, ocorre muito mais
facilmente na infância do que em anos mais maduros. Nesse fato reside, a meu ver, a
explicação principal de por que e como as experiências de perda nos primeiros anos da
infância acarretam o desenvolvimento defeituoso da personalidade e a propensão para a
doença psiquiátrica.
Portanto, a hipótese que estou formulando é de que, na criança pequena, a experiência
de separação da figura materna é especialmente suscetível de evocar processos psicológicos
tão cruciais para a psicopatologia quanto a inflamação e seu resultante tecido cicatricial para a
fisiopatologia. Isso não significa que o resultado inevitável seja uma mutilação da
personalidade; mas significa que, como no caso de, digamos, uma febre reumática, forma-se
com muita freqüência um tecido cicatricial que leva, mais tarde, a uma disfunção mais ou
menos séria. Segundo parece, os processos em questão são variantes patológicas daquelas que
caracterizam o luto saudável.
Embora esta posição teórica esteja muito próxima de outras já existentes no campo, ela
parece, não obstante, ser diferente de todas. Sua força reside no fato de relacionar as respostas
patológicas com que nos deparamos em pacientes mais velhos com as respostas à perda que
são realmente observadas nos primeiros anos da infância, fornecendo assim um elo mais
sólido entre as condições psiquiátricas da vida adolescente e adulta e a experiência infantil.
Passemos agora a comparar essa formulação com algumas das que a precederam.

Nota de rodapé:

*(1). Sabe-se hoje muito mais sobre as condições relevantes; ver as notas 4 e 5 acima.
53

Duas tradições na teorização psicanalítica.

Durante o século atual, numerosos psicanalistas e psiquiatras procuraram relacionar doença
psiquiátrica, perda de uma pessoa amada, luto patológico e experiência infantil.
Já passaram mais de sessenta anos desde que Freud apresentou pela primeira vez a
idéia de que a histeria e a melancolia são manifestações de luto patológico, em conseqüência
de uma morte mais ou menos recente (Freud, 1954), e mais de quarenta anos desde que, em
Luto e Melancolia, ele apresentou a hipótese de um modo sistemático (Freud, 1917). Daí em
diante, não faltaram estudos que, de modos diferentes, corroborassem a hipótese freudiana
*(1). A experiência clínica e uma leitura das demonstrações deixam poucas dúvidas sobre a
verdade da principal proposição — a de que muitas doenças psiquiátricas são uma expressão
de luto patológico — ou a de que tais doenças incluem muitos casos de estado de ansiedade,
depressão e histeria, e também mais de um tipo de distúrbio de caráter. É evidente que um
vasto e importante campo foi aqui descoberto; para que seja completamente explorado, são
necessários novos e minuciosos trabalhos.
A controvérsia começa quando passamos a considerar por que alguns indivíduos
reagem à perda com esses modos patológicos, e outros, não; e a hipótese que estou propondo
pertence ao grupo de hipóteses que procuram explicar a origem de tais respostas diferenciais.
Uma hipótese que influenciou todos os investigadores subseqüentes de orientação
psicológica foi delineada por Abraham (1924). Em conseqüência de ter analisado numerosos
pacientes melancólicos, chegou à conclusão de que “em última instância, a depressão
melancólica deriva de experiências desagradáveis que ocorreram na infância do paciente”.
Sugere portanto que esses melancólicos, durante a infância, sofreram do que Abraham
chamou uma “paratimia primordial”. Nessas passagens, entretanto, ele nunca usou as palavras
pesar e luto; nem está claro que ele tenha reconhecido que, para a criança pequena, a
experiência de perder a mãe (ou de perder o amor dela) seja, na verdade, um sofrimento
profundo, como que de orfandade.
Depois de Abraham, muitos outros psicanalistas, ao procurarem descrever as raízes
infantis da doença depressiva e das personalidades propensas a desenvolvê-la, têm chamado a
atenção para as experiências infelizes nos primeiros anos de vida de seus pacientes. Contudo,
excetuando-se a tradição teórica iniciada por Melanie Klein, poucos conceituaram as
experiências em termos de perda e luto patológico. Entretanto, quando estudamos as
experiências a que se referem, parece evidente ser esse o quadro de referência a que elas
melhor se ajustam.

Nota de rodapé:

*(1). Ver especialmente os livros de Parkes (1972), e Glick, Weiss e Parkes (1974).
54

Darei como exemplos três pacientes descritos na literatura.
Em 1936, Gero descreveu dois pacientes que sofriam de depressão. Um deles,
concluiu o autor, tinha sido “carente de amor” quando criança; o outro fora enviado para uma
creche residencial e só voltara para casa quando tinha três anos de idade. Ambos mostraram
intensa ambivalência em relação a qualquer pessoa que era amada, uma condição que,
acreditava Gero, podia ser atribuída à experiência infantil. No segundo caso, ele se refere a
uma fixação à mãe e a uma incapacidade para perdoá-la pela separação. Edith Jacobson, em
sua extensa obra sobre a psicopatologia da depressão, apóia-se regularmente numa paciente,
Peggy, cuja analise descreve em dois estudos (1943, 1946). Quando foi encaminhada para
tratamento, Peggy, de 24 anos de idade, encontrava-se num estado de grave depressão, com
impulsos suicidas e despersonalização; esses sintomas tinham sido precipitados por uma
perda atual, a perda do homem a quem amava. A experiência infantil a que Edith Jacobson
atribui maior ênfase ocorreu quando Peggy tinha três anos e meio. Nessa época, a mãe foi
hospitalizada para ter um novo bebê, enquanto Peggy e seu pai ficaram em casa com a avó
materna. Começaram as brigas entre a sogra e o genro, e o pai de Peggy foi embora. “A
criança ficou sozinha, decepcionada com o pai e aguardando ansiosamente o regresso da mãe.
Entretanto, quando a mãe voltou da maternidade trazia o bebê.” Peggy lembra-se de ter
sentido, nessa época, que “Essa não é minha mãe, é uma pessoa diferente” (um sentimento
que sabemos não ser incomum em crianças pequenas que estiveram separadas de suas mães
por algumas semanas). Foi pouco depois desse episódio, acredita Edith Jacobson, que “a
menina teve sua primeira depressão profunda”.
Ora, poder-se-á perguntar se os acontecimentos na infância desses pacientes foram
recordados com exatidão e também se os analistas estão certos em atribuir-lhes tanto
significado para o desenvolvimento emocional de seus pacientes. Mas, se aceitarmos, como
estamos inclinados a fazer, tanto a validade dos acontecimentos quanto o seu significado *(1),
creio que o conceito de luto patológico é o que melhor se ajusta à descrição da reação do
paciente na época e ao relacionamento do acontecimento na infância com a doença
psiquiátrica na vida adulta. Porém, nenhum dos dois autores, Gero e Jacobson, utiliza esse
conceito.

Nota de rodapé:

*(1). No caso de Peggy, há razões para crer que a separação aos três anos e meio foi apenas a
culminação de uma série de distúrbios em seu relacionamento com a mãe, descrita como uma
mulher dominadora que disciplinava a criança com severidade.
55

Ambos preferiram usar conceitos tais como “desapontamento” e “desilusão”, que parecem ter
um significado diferente.
Muitos outros analistas, embora atentos em maior ou menor grau para o papel
patogênico desses eventos na infância, tampouco identificam a resposta da criança à perda
com o luto. Um desses autores é Fairbairn (1952). Um segundo é Stengel que, em seus
estudos sobre o devaneio compulsivo (1939, 1941, 1943), chama especial atenção para o
impulso de recuperação do objeto perdido. Um terceiro autor sou eu mesmo, em meus
primeiros estudos (Bowlby, 1944, 1951). Outros são Anna Freud (1960) e René Spitz (1946);
ao contestarem a noção de que bebês e crianças pequenas sentem pesar, rejeitam como uma
possibilidade a hipótese de que o desenvolvimento do caráter neurótico e psicótico seja, por
vezes, o resultado de um sentimento de luto na infância ter enveredado por um caminho
patológico.
Uma razão principal pela qual a resposta da criança à perda não é tão freqüentemente
identificada com o luto parece ser uma tradição que limita o conceito de “luto” a processos
que têm um desfecho saudável. Embora esse uso, como qualquer outro, seja legítimo, tem
uma séria desvantagem: logicamente, toma-se impossível discutir quaisquer variantes do luto
que possam parecer patológicas.
As dificuldades a que esse uso dá origem estão ilustradas no artigo de Helene Deutsch,
“Absence of Grief” [Ausência de Pesar] (1937), já citado. Em suas considerações, vemos que
a autora reconhece com vigor o lugar central que a perda da pessoa amada na infância ocupa
na produção de sintomas e de desvios de caráter, assim como de um mecanismo de defesa
que, em conseqüência da perda, poderá redundar em ausência de emoção e sentimento.
Contudo, embora a autora relacione esse mecanismo ao luto, ele é representado mais como
uma alternativa do que como uma variante patológica do luto. Se bem que, à primeira vista,
essa distinção possa parecer meramente de terminologia, seu significado é mais profundo;
com efeito, considerar o processo defensivo que resulta de uma perda na infância como uma
alternativa do luto significa omitir aqueles processos defensivos de espécies semelhantes mas
de menor grau e início mais tardio que também participam do luto saudável, e esquecer
também que o que é patológico não são tanto os próprios processos defensivos mas,
sobretudo, a sua intensidade e o seu início prematuro.
Do mesmo modo, embora Freud estivesse, por uma parte, profundamente interessado
no papel patogênico do luto e, por outra, especialmente em seus últimos anos, também tivesse
consciência do papel patogênico da perda na infância, ele nunca apontou o luto infantil e sua
56

predisposição para adotar um curso patológico como conceitos que conjugam esses dois
conjuntos de idéias. Isso ficou bem ilustrado em sua discussão sobre a divisão do ego no
processo defensivo, à qual estava dedicando especial atenção no final de sua vida (1938).
Num dos seus artigos sobre o assunto (1927), Freud descreve dois pacientes nos quais
uma divisão do ego se seguira à perda do pai. Escreveu ele: “Na análise de dois jovens, tomei
conhecimento de que ambos — um em seu segundo ano de vida e o outro aos dez anos —
tinham-se recusado a reconhecer a morte do pai... e, no entanto, nem um nem outro haviam
contraído uma psicose. Um segmento muito importante de realidade tinha sido assim negado
pelo ego...”. Mas, continua Freud, “fora somente uma corrente dos processos mentais que não
reconhecera a morte do pai; havia uma outra que tinha plena consciência do fato; aquela que
era coerente com a realidade [ou seja, a morte do pai] manteve-se lado a lado com a que
correspondia a um desejo” [o de que o pai ainda vivesse] (1927). Entretanto, nesse e em
outros artigos sobre o mesmo tema, Freud não relaciona a descoberta de tais divisões do ego
com a patologia do luto em geral nem com o luto infantil em particular. Reconheceu-as,
porém, como seqüelas não incomuns de perdas sofridas no começo da vida. Quando discute
suas conclusões, Freud observa:
“Suspeito de que ocorrências semelhantes não são raras, em absoluto, na infância”. Estudos
estatísticos recentes mostram-nos que a suspeita de Freud era fundamentada.
Assim, um exame da literatura mostra que, apesar do significado fortemente
patogênico atribuído à perda de um dos pais e à perda de amor, na tradição principal da
teorização psicanalítica a origem do luto patológico e da conseqüente doença psiquiátrica no
adulto não está ligada à predisposição dos processos de luto para adotarem um curso
patológico quando ocorrem após uma perda sofrida na infância.
Acredito que uma importante contribuição de Melanie Klein (1935, 1940) foi ter
estabelecido essa relação. Afirma que bebês e crianças pequenas se afligem e passam por
fases de depressão, e que seus modos de responder em tais períodos são determinantes da
maneira como, no resto da vida, responderão a novas perdas. Certos métodos de defesa,
acredita Klein, devem ser entendidos como “dirigidos contra a prostração por causa do objeto
perdido”. Sob esse aspecto, minha abordagem é semelhante à dela. Surgem diferenças,
entretanto, a respeito dos acontecimentos considerados importantes, da idade em que eles
ocorrem, e da natureza e origem da ansiedade e agressão.
As perdas de que fala Melanie Klein são patogênicas, situando-se todas no primeiro
ano de vida e, em sua grande maioria, relacionadas
57

com a amamentação e o desmame. A agressão é considerada uma expressão do instinto de
morte, e a ansiedade o resultado de sua projeção. Nada disso me parece convincente. Em
primeiro lugar, as provas que ela apresenta a respeito da importância decisiva do primeiro ano
de vida e do desmame, quando minuciosamente examinadas, deixam de ser convincentes
(Bowlby, 1960b). Em segundo lugar, as hipóteses sobre agressão e ansiedade dificilmente se
ajustam a um quadro de referência baseado em teoria biológica (Bowlby, 1960a). Creio que
em razão dos detalhes intrincados com que Melanie Klein envolveu a hipótese sobre o papel
do luto infantil, detalhes esses que muitos consideram pouco plausíveis, a própria hipótese
acabou sendo desprezada. É uma pena.
Portanto, embora não considere que nos pormenores a teoria de Melanie Klein sobre a
posição depressiva explique de modo satisfatório por que os indivíduos se desenvolvem de
modos tão diversos que, enquanto alguns reagem à perda ulterior com um luto saudável
outros o fazem com uma ou outra forma de luto patológico, a minha posição é que, apesar
disso, a teoria kleineana contém os germes de um modo muito produtivo de ordenamento dos
dados. A meu ver, os dados apontam para um outro desdobramento segundo o qual o objeto
mais significativo que pode ser perdido não é o seio materno, mas a própria mãe (e, por vezes,
o pai); o período vulnerável não está limitado ao primeiro ano mas estende-se por vários anos
da infância (como sustentou Freud, 1938); e a perda de um dos pais dá origem não só à
ansiedade e ao pesar primários de separação, mas a processos de luto em que a agressão, cuja
função é realizar a reunião, desempenha um papel importante. Embora atendo-se
rigorosamente aos dados, esta formulação tem o mérito adicional de se ajustar facilmente à
teoria biológica.
Embora as diferenças entre o ponto de vista de Melanie Klein e o meu sejam
substanciais, a área de concordância também é substancial. Ambos sustentamos como
hipótese principal que os processos de luto que ocorrem nesses primeiros anos de vida são
mais suscetíveis do que quando ocorrem na adolescência e na idade adulta de adotar um curso
patológico e, portanto, de deixar daí em diante o indivíduo mais propenso do que outros a
responder de maneira análoga a uma nova perda. A versão dessa teoria que estou agora
propondo parece ser coerente com boa parte do material clínico publicado na literatura e já
mencionado. Inclui os casos de Freud de divisões do ego, os casos de Stengel de devaneio
compulsivo, os pacientes depressivos descritos por Abraham, Gero e Edith Jacobson, e os
pacientes com desvios de caráter descritos por Helene Deutsch, Melanie Klein, Fairbairn e eu
próprio. Também é coerente com os numerosos estudos publicados nas duas
58

últimas décadas que mostram que a incidência de perdas na infância, nas vidas de pacientes
que sofrem de doença psiquiátrica e de desvios de caráter, é significativamente mais elevada
do que na população geral. [Como os dados estatísticos até 1967 são apresentados no próximo
capítulo, os que constavam da versão original deste foram omitidos. Parte dos comentários,
entretanto, foi mantida.]
No entanto, dada a importância que os dados estatísticos têm para a minha
argumentação, é possível que surjam algumas dúvidas. Em primeiro lugar, devemos estar
atentos para a falácia post hoc ergo propter hoc. Em segundo lugar, mesmo que estejamos
certos ao afirmar a existência de uma relação causal entre a perda prematura e a doença
subseqüente, não se segue que ela seja sempre mediada pelos processos patológicos
anteriormente descritos. De fato, existem duas outras espécies de processos que, em alguns
casos, quase certamente dão origem à patologia. Uma delas consiste no processo de
identificação com os pais, o qual é parte integrante do desenvolvimento saudável mas leva,
freqüentemente, à dificuldade após a morte de um deles *(1). A outra espécie é evocada pelo
membro sobrevivente do casal, viúvo ou viúva, cuja atitude para com a criança poderá mudar
e tomar-se patogênica.
Há uma outra dificuldade que a hipótese deve enfrentar. Embora seja verdade que há
uma incidência maior de morte de pais na infância de indivíduos que, mais tarde, são
propensos a desenvolver certos tipos de personalidade e certas formas de doença, a incidência
absoluta é, no entanto, baixa. Perguntar-se-á: como explicar os outros casos? Existe mais de
uma explicação possível.
Em primeiro lugar, a fim de basear a minha tese em provas sólidas, restringi
deliberadamente a maior parte da discussão à incidência da morte de um dos pais. Quando são
incluídas outras causas de perda dos pais nos primeiros anos, a percentagem de casos afetados
aumenta consideravelmente. Além disso, em muitos dos casos em que não houve nenhum
episódio de separação real no espaço entre a criança e um dos pais, existem freqüentemente
provas de que houve, não obstante, separação de outro tipo e mais ou menos grave. Rejeição,
perda de amor (talvez com a chegada de um novo bebê ou em virtude de depressão da mãe),
perda de afeição de um dos pais pelo outro e situações semelhantes, têm todas como fator
comum a perda pela criança de um ente a quem ama e a quem está ligada. Se o conceito de
perda for ampliado para cobrir a perda de amor, esses casos deixarão de constituir exceções.

Nota de rodapé:

*(1). Distúrbios psiquiátricos cm que a identificação com o pai (ou mãe) que se perdeu
desempenha um papel significativo vêm sendo estudados há muito tempo por analistas. São
particularmente claros nas reações de aniversário (Hilgard e Newman, 1959).
59

Parece improvável, contudo, que tal ampliação abranja todos o casos incluídos nos
síndromes psiquiátricos em questão. Se esse for comprovadamente o caso, então será
necessário procurar alguma outra explicação para os que não são considerados pela presente
hipótese. Talvez num exame mais apurado o quadro clínico de tais casos se mostre
substancialmente diferente daqueles que são relatados. Também pode acontecer que as
condições clínicas se mostrem essencialmente semelhantes, mas os processos patológicos em
ação em casos não relatados tenham sido iniciados por eventos de uma espécie diferente.
Enquanto essas e outras possibilidades não forem exploradas, os problemas subsistirão.
Entretanto, como raramente existe uma relação simples entre síndrome, processo patológico e
experiência patogênica, os problemas não são diferentes dos que ocorrem constantemente em
outros campos da pesquisa médica.

Conclusão.

É provável que a maior parte da pesquisa no campo da psiquiatria ainda comece hoje com um
produto final, um paciente doente, e procure desvendar a seqüência de acontecimentos,
psicológicos e fisiológicos, que parecem ter culminado em sua doença. Isso resulta em muitas
e sugestivas hipóteses mas, como qualquer outro método de investigação, tem algumas
limitações. Uma das características preponderantes de uma ciência em progresso é a
exploração de tantos métodos quantos puderem ser criados. Quando na medicina fisiológica a
pesquisa foi ampliada para incluir a investigação sistemática de um ou outro agente
patogênico e seus efeitos, colheu-se uma enorme quantidade de conhecimentos. Talvez não
esteja distante o dia em que o mesmo seja possível em psiquiatria.
Por causa de suas implicações práticas e científicas, o estudo de respostas à perda da
figura materna nos primeiros anos de vida é um dos mais promissores. No aspecto prático,
existe a probabilidade de nos tornarmos capazes de desenvolver medidas para impedir, pelo
menos, algumas formas de enfermidade mental. Sob o aspecto científico, há oportunidades
que são proporcionadas pela identificação de um evento da infância, que é provavelmente
patogênico, que pode ser claramente definido e cujos efeitos sobre a personalidade em
desenvolvimento podem ser sistematicamente estudados por observação direta.
Existem, é claro, muitos outros acontecimentos na infância, além de uma perda, que
constituem uma boa razão para acreditar que também
60

contribuam para o desenvolvimento da personalidade perturbada e da doença psiquiátrica. Um
exemplo é a criança estar exposta a uma ou outra das várias espécies de atitude parental que
há muito são objeto de preocupação e esforço terapêutico nas clínicas psiquiátricas infantis.
Para cada uma delas, a tarefa de pesquisa consiste, primeiro, em definir o evento ou a
seqüência de eventos; segundo, em localizar uma amostra de casos em que o evento ou a
seqüência de eventos está ocorrendo, de modo que os seus efeitos sobre o desenvolvimento
psicológico possam ser estudados; e, finalmente, relacionar os processos que se apurou serem
desencadeados por tal evento ou eventos com os processos presentes em pacientes com
doença declarada. As conseqüências de tal ampliação dos limites da pesquisa são do maior
alcance.

4. Efeitos sobre o comportamento do rompimento de um vínculo afetivo *(1).

Durante vários anos, a Eugenics Society organizou simpósios sobre a interação de fatores
genéticos e ambientais no desenvolvimento humano. O quarto simpósio, realizado em
Londres no outono de 1967, ocupou-se de “Influências Genéticas e Ambientais Sobre o
Comportamento”. O estudo que se segue foi uma contribuição para o simpósio, e foi
publicado no ano seguinte.

Médicos de família, sacerdotes e leigos perceptivos sabem, há muito tempo, que existem
poucos golpes para o espírito humano tão grandes quanto a perda de alguém próximo e
querido, O senso-comum tradicional sabe que podemos ser esmagados pelo pesar e morrer
por causa de um grande sofrimento, e também que um amante repudiado é capaz de fazer
coisas que são insensatas ou perigosas para ele mesmo e para os outros. Sabe ainda que não
sentimos amor e nem pesar por um ser humano qualquer, mas apenas por um ou alguns seres
humanos em particular. O núcleo daquilo que eu chamo de “vínculo afetivo” é a atração que
um indivíduo sente por um outro indivíduo.
Até décadas recentes, a ciência teve pouco a dizer sobre esses assuntos. Cientistas
experimentais nas tradições da psicologia seja fisiológica seja da teoria hulliana da
aprendizagem da psicologia nunca mostraram interesse pelos vínculos afetivos e, por vezes,
falaram e agiram como se eles não existissem.

Nota de rodapé:

*(1). Publicado originalmente em Thoday, J. M. e Parker, A. S. (orgs.) (1968), Genetic and
Environmental Influences on Behaviour. Edimburgo: Oliver & Boyd. Reimpresso com
autorização de The Eugenics Society.
63

Os psicanalistas, pelo contrário, há muito reconheceram a importância imensa dos vínculos
afetivos nas vidas e problemas de seus pacientes, mas demoraram para desenvolver uma
estrutura científica adequada, dentro da qual a formação, manutenção e rompimento de tais
vínculos possam ser entendidos. A lacuna foi preenchida pelos etologistas, começando com o
estudo clássico de Lorenz, The Companion in the Bird’s World (1935), prosseguindo com
inúmeros experimentos sobre imprinting (Bateson, 1966; Sluckin, 1964) até aos estudos do
comportamento de ligação em primatas não-humanos (Hinde e Spencer-Booth, 1967; Sade,
1965), e inspirando os psicólogos a realizarem estudos semelhantes com seres humanos
(Ainsworth, 1967; Schaffer e Emerson, 1964).

Prevalecimento da vinculação.

Antes de examinarmos os efeitos do rompimento de vínculos, é conveniente uma nota sobre a
vinculação e seu prevalecimento. O trabalho a que nos referimos mostra que, mesmo que não
sejam universais em aves e mamíferos, vínculos fortes e persistentes entre indivíduos são a
regra em numerosas espécies. Os tipos de vínculos que são formados diferem de uma espécie
para outra, sendo os mais comuns aqueles que existem entre os pais e sua prole, e entre
adultos de sexos opostos. Nos mamíferos, incluindo os primatas, o primeiro e mais persistente
de todos os vínculos é geralmente entre a mãe e seu filho pequeno, um vínculo que
freqüentemente persiste até a idade adulta. Como resultado de todos esses trabalhos, é
possível, agora, considerarmos os fortes e persistentes vínculos afetivos estabelecidos por
seres humanos a partir de um ponto de vista comparativo.
A vinculação afetiva é o resultado do comportamento social de cada indivíduo de uma
espécie, diferindo conforme o outro indivíduo de sua espécie com quem ele esteja tratando;
isso implica, é claro, uma aptidão para reconhecer indivíduos. Enquanto que cada membro de
um par vinculado tende a manter-se na proximidade do outro e a suscitar, no outro, o
comportamento de manutenção da proximidade, os indivíduos que não estão assim vinculados
não mostram tais tendências; com efeito, quando dois indivíduos não estão vinculados,
freqüentemente um deles resiste vigorosamente a qualquer abordagem que o outro possa
tentar. São exemplos disso as atitudes dos pais diante da aproximação de filhotes que não são
os seus, e as atitudes de um macho frente à aproximação de um outro macho.
A característica essencial da vinculação afetiva é que os dois parceiros
64

tendem a manter-se próximos um do outro. Quando, por qualquer razão, se separam, cada um
deles procurará o outro, mais cedo ou mais tarde, a fim de reatar a proximidade. Qualquer
tentativa, por parte de terceiros, para separar um par vinculado encontrará vigorosa
resistência; não é raro o mais forte dos parceiros atacar o intruso enquanto o mais fraco trata
de fugir ou, talvez, de se agarrar ao parceiro mais forte. Exemplos óbvios são as situações em
que um intruso tenta tirar os filhotes de perto de uma mãe, por exemplo, o bezerro da vaca, ou
separar a fêmea de um par heterossexual vinculado, por exemplo, ganso e gansa.
De uma forma um tanto paradoxal, o comportamento de tipo agressivo desempenha
um papel decisivo na manutenção de vínculos afetivos. Assume duas formas distintas:
primeiro, ataques e afugentamento de intrusos e, segundo, a punição de um parceiro errante,
seja ele esposa, marido ou filho. Há provas de que boa parte do comportamento agressivo de
um tipo desconcertante e patológico tem origem em uma ou outra dessas formas (Bowlby,
1963).
Os vínculos afetivos e os estados subjetivos de forte emoção tendem a ocorrer juntos,
como sabem todos os romancistas e autores teatrais. Assim, muitas das mais intensas emoções
humanas surgem durante a formação, manutenção, rompimento e renovação de vínculos
emocionais. Em termos de experiência subjetiva, a formação de um vinculo é descrita como
“apaixonar-se”, a manutenção de um vínculo como “amar alguém”, e a perda de um parceiro
como “sofrer por alguém”. Analogamente, a ameaça de perda gera ansiedade e a perda real
causa tristeza; ao passo que ambas as situações podem despertar raiva. Finalmente, a
manutenção incontestada de um vínculo é experimentada de segurança, e a renovação de um
vínculo como uma fonte de júbilo. Assim, qualquer pessoa interessada na psicologia e
psicopatologia da emoção, seja em animais ou no homem, não tardará em deparar-se com
problemas de vinculação afetiva: o que faz com que os vínculos se desenvolvam e para que
existem, e, especialmente, as condições que afetam a forma assumida pelo seu
desenvolvimento.
Na medida em que psicólogos e psicanalistas tentaram explicar a existência de
vínculos afetivos, quase sempre foram invocadas as razões de alimento e sexo. Assim, na
tentativa de explicarem por que uma criança se liga à mãe, teóricos da aprendizagem (Dollard
e Miller, 1950; Sears, Maccoby e Levin, 1957) e psicanalistas (Freud, 1938) supuseram, cada
um por seu lado, que isso se deve ao fato de a mãe alimentar o bebê. Na tentativa de
compreenderem por que adultos se ligam uns aos outros, o sexo foi comumente considerado a
explicação óbvia e suficiente. Entretanto, quando as provas são minuciosamente examinadas,
65

verifica-se que essas explicações são insuficientes. Atualmente, há provas abundantes de que,
não só entre as aves mas também entre os mamíferos, os filhos ligam-se a objetos maternos
apesar de não serem alimentados por essa fonte (Harlow e Harlow, 1965; Cairns, 1966), e de
que os vínculos afetivos entre adultos não são, de modo algum, necessariamente
acompanhados por relações sexuais; ao passo que, inversamente, relações sexuais ocorrem,
com freqüência, independentemente de quaisquer vínculos afetivos persistentes.
O que se sabe hoje acerca da ontogenia dos vínculos afetivos sugere que estes se
desenvolvem porque a criatura nasce com uma forte inclinação para se aproximar de certas
classes de estímulos, notadamente os que lhe são familiares, e para evitar outras classes de
estímulos — os estranhos. Quanto à função, a observação de animais em seu habitat natural
sugere nitidamente que a função biológica de quase toda, senão de toda a vinculação entre
indivíduos da mesma espécie é a proteção contra predadores — uma função tão importante
quanto a nutrição ou a reprodução para a sobrevivência de uma população, mas que
geralmente tem sido menosprezada por investigadores confinados entre as quatro paredes de
um laboratório e preocupados apenas com o homem que vive em sociedades economicamente
desenvolvidas.
Sejam essas hipóteses corroboradas ou não por pesquisas subseqüentes, a capacidade
de um indivíduo para estabelecer vínculos afetivos de um tipo adequado a cada fase do ciclo
vital de sua espécie e ao seu próprio sexo constitui, obviamente, uma capacidade tão típica de
indivíduos da espécie mamífera quanto as capacidades, por exemplo, de ver, ouvir, comer e
digerir. E é muito provável que uma capacidade de vinculação tenha um valor de
sobrevivência para uma espécie, tão grande quanto qualquer dessas outras capacidades
estudadas desde longa data. E comprovadamente produtivo considerar muitos distúrbios
psiconeuróticos e da personalidade nos seres humanos como um reflexo de um distúrbio da
capacidade para estabelecer vínculos afetivos, em virtude de uma falha no desenvolvimento
na infância ou de um transtorno subseqüente.

Rompimento de vínculos e doença psiquiátrica.

Aqueles que padecem de distúrbios psiquiátricos — psiconeuróticos, sociopáticos ou
psicóticos — manifestam sempre deterioração da capacidade para estabelecer ou manter
vínculos afetivos, uma deterioração que, com freqüência é grave e duradoura. Embora, em
alguns casos,
66

tal deterioração seja claramente secundária em relação a outras mudanças, em muitos é
provavelmente primária e deriva de falhas no desenvolvimento, que terão ocorrido numa
infância vivida num ambiente familiar atípico. Embora, sob esse aspecto, o rompimento dos
vínculos que ligam uma criança a seus pais não seja a única adversidade que o meio ambiente
pode apresentar, é a forma que tem sido registrada de um modo mais confiável e sobre cujos
efeitos mais sabemos *(1).
Ao examinarem as causas possíveis de distúrbio psiquiátrico na infância, os
psiquiatras infantis perceberam desde cedo que as condições antecedentes de incidência
significativamente elevada são a ausência de oportunidade para estabelecer vínculos afetivos
ou então as prolongadas e talvez repetidas rupturas de vínculos que foram estabelecidos
(Bowlby, 1951; Ainsworth, 1962). Embora seja amplamente sustentado o ponto de vista de
que tais condições não só estão associadas ao distúrbio subseqüente mas também causam tal
distúrbio, essa conclusão continua sendo, no entanto, discutível.
Estudos sobre a incidência de perdas na infância em diferentes amostras de populações
psiquiátricas têm-se multiplicado nos últimos anos. Em virtude das amostras e dos grupos de
controle serem tão diferentemente constituídos, dos critérios de perda serem definidos de
modos diferentes, e de uma série de acasos demográficos e estatísticos, a sua interpretação
não é fácil. No entanto, algumas descobertas, inclusive numerosos estudos recentes bem
controlados relatados por investigadores independentes, têm apresentado tanta coerência, que
podemos confiar razoavelmente neles. Foi sistematicamente apurado que dois síndromes
psiquiátricos e duas espécies de sintomas associados são precedidos por uma elevada
incidência de vínculos afetivos desfeitos durante a infância. As síndromes são a personalidade
psicopática (ou sociopática) e a depressão; os sintomas persistentes, a delinqüência e o
suicídio.
O psicopata (ou sociopata) é uma pessoa que, embora pão sendo psicótica ou
mentalmente subnormal, realiza persistentemente: (i) atos contra a sociedade, por exemplo,
crimes; (ii) atos contra a família, por exemplo, negligência, crueldade, promiscuidade sexual
ou perversão; (iii) atos contra a própria pessoa, por exemplo, toxicomania, suicídio ou
tentativa de suicídio, abandono repetido do emprego.
Em tais pessoas, a capacidade para estabelecer e manter vínculos afetivos é sempre
desordenada e, não raro, ausente.

Nota de rodapé:

*(1). Também existem valiosos estudos sobre a reação de adultos à morte de um ente querido
e as relações entre as reações de perda e a doença mental (Parkes, 1965). Numa exposição
sucinta como esta é impossível incluir uma discussão de todos esses dados.
67

Apurou-se que freqüentemente a infância de tais indivíduos foi seriamente perturbada pela
morte, divórcio ou separação dos pais, ou por outros eventos que resultam na ruptura de
vínculos afetivos, sendo que a incidência de tais perturbações é muito mais elevada do que em
qualquer outro grupo comparável, quer seja de pessoas da população geral, quer seja de
pessoas que apresentem quadros psiquiátricos de outras espécies. Por exemplo, num estudo de
bem mais de mil pacientes de ambulatório psiquiátrico, com menos de 60 anos de idade, Earle
e Earle (1961) diagnosticaram 66 como sociopatas e 1357 como portadores de algum outro
distúrbio. Adotando como critério a ausência da mãe durante seis meses ou mais, antes dos
seis anos de idade, Earle e Earle apuraram uma incidência de 41 % para os sociopatas e 5 %
para os restantes.
Quando o critério é ampliado, a incidência aumenta. Assim, Craft, Stephenson e
Granger (1964) adotaram como critério a ausência da mãe ou do pai (ou de ambos) antes de
dez anos de idade. Dos 66 internos do sexo masculino em hospitais especiais para psicopatas
agressivos, nada menos de 65 % tinham tido essa experiência. Num estudo de vários grupos
de controle, Craft mostra como a incidência desse tipo de experiência infantil se eleva com o
grau de conduta anti-social manifestada pelos membros de um grupo.
Outros que divulgaram conclusões estatisticamente significativas do mesmo tipo para
grupos de psicopatas e delinqüentes persistentes foram Naess (1962), Greer (l964a), e Brown
e Epps (1966); e para alcoólatras e toxicômanos, Dennehy (1966).
Nos psicopatas, a incidência de ilegitimidade e de transferência da criança de um “lar”
para outro é elevada. Não é por mero acaso que Brady, dos assassinatos “Moors”, era um
psicopata com essas características.
Um outro grupo psiquiátrico que mostra uma incidência muito alta de perda na
infância é o dos Pacientes suicidas, tanto os que tentaram o suicídio como os que o
consumaram *(1). O mais provável é que as perdas tenham ocorrido durante os primeiros
cinco anos de vida e tenham sido causadas não só pela morte de um dos pais mas também por
outras causas permanentes, principalmente a ilegitimidade e o divórcio. Nesses aspectos, os
pacientes suicidas tendem a assemelhar-se aos sociopatas e, como se verá mais adiante, a
diferir dos depressivos.

Nota de rodapé:

*(1). Embora qualquer grupo de suicidas e de indivíduos que tentaram o suicídio contenha
alguns sociopatas e alguns depressivos, a maioria será provavelmente diagnosticada como
sofrendo de neurose ou distúrbio de personalidade (Greer, Gunn e Koller, 1966) e constitui,
portanto, um grupo psiquiátrico bastante distinto.
68

Quadro 1. Incidência de perda ou ausência contínua de um ou de ambos os pais naturais
durante pelo menos 12 meses antes de completar 15 anos.

Idade da perda: 0-4 anos.
Pacientes não-psiquiátricos %: 9.
Pacientes psiquiátricos não-suicidas %: 9.
Indivíduos que tentaram o suicídio %: 26.


Idade da perda: 5-9 anos.
Pacientes não-psiquiátricos %: 12.
Pacientes psiquiátricos não-suicidas %: 10.
Indivíduos que tentaram o suicídio %: 11.

Idade da perda: 10-14 anos.
Pacientes não-psiquiátricos %: 7.
Pacientes psiquiátricos não-suicidas %: 7.
Indivíduos que tentaram o suicídio %: 11.

Idade da perda: duvidoso.
Pacientes não-psiquiátricos %: 0.
Pacientes psiquiátricos não-suicidas %: 2.
Indivíduos que tentaram o suicídio %: 1.

Idade da perda: 0-14 anos.
Pacientes não-psiquiátricos %: 28.
Pacientes psiquiátricos não-suicidas %: 28.
Indivíduos que tentaram o suicídio %: 49.

Idade da perda: N.
Pacientes não-psiquiátricos %: 156.
Pacientes psiquiátricos não-suicidas %: 156.
Indivíduos que tentaram o suicídio %: 156.

Dos numerosos estudos que relatam uma incidência muito alta de perda na infância
entre os indivíduos que tentam o suicídio — por exemplo, Bruhn (1962), Greer (1964b) e
Kessel (1965) —, um estudo recente de Greer, Gunn e Koller (1966) é um dos mais bem
controlados. Uma série de 156 indivíduos que tentaram o suicídio foi comparada com
amostras da mesma grandeza, de pacientes psiquiátricos não-suicidas e de pacientes de
cirurgia e obstetrícia sem história psiquiátrica; ambos os grupos de controle se equiparavam
ao de suicidas potenciais quanto à idade, sexo, classe e outras variáveis relevantes. Tomando
como critério de perda a ausência contínua de um ou ambos os pais durante, pelo menos, doze
meses, Greer apurou que tais eventos tinham ocorrido antes dos cinco anos de idade com
freqüência três vezes maior no grupo de suicidas potenciais do que em qualquer dos grupos de
controle — uma incidência de 26 % contra 9 % para cada um dos outros grupos (Quadro 1).
Além disso, as perdas no grupo de suicidas potenciais tendiam mais freqüentemente a
ser permanentes e de ambos os pais, ao passo que nos outros grupos diziam respeito, com
maior freqüência, a apenas um dos pais e eram perdas temporárias, causadas por exigências
tais como doença ou trabalho *(1).
Num outro estudo sobre o mesmo grupo de indivíduos que tentaram o suicídio (Greer
e Gunn, 1966), verificou-se que aqueles que tinham sofrido a perda dos pais antes de
completar quinze anos diferiam significativamente, em certos aspectos, dos que não tinham.
Uma dessas diferenças, em concordância com as outras conclusões, é o fato de que aqueles
que haviam sofrido uma perda na infância tinham maior probabilidade de ser diagnosticados
como sociopatas do que aqueles que não tinham sofrido uma perda na infância (18% contra
4%).

Nota de rodapé:

*(1). Ver também um estudo subseqüente das relações entre a orfandade na infância e as
idéias de suicídio, de autoria de Adam (1973).
69

Uma outra condição que está associada a uma incidência significativamente maior de
perda na infância é a depressão. Entretanto, o tipo de perda experimentada tende a ser de uma
espécie diferente da deterioração familiar geral, que é típica da infância de psicopatas e de
indivíduos que tentam o suicídio. Em primeiro lugar, na infância de depressivos, a perda
deve-se mais freqüentemente à morte de um dos pais do que à ilegitimidade, divórcio ou
separação. Em segundo lugar, nos depressivos, a incidência de orfandade tende a ser maior
durante o segundo qüinqüênio da infância e, em alguns estudos, também no terceiro.
Resultados desse tipo foram relatados por F. Brown (1961), Munro (1966), Dennehy (1966) e
Hill e Price (1967). As indicações são de que a perda de um dos pais por morte ocorre com
freqüência duas vezes maior num grupo de depressivos do que na população total *(1).
Assim, parece agora razoavelmente certo que, em numerosos grupos de pacientes
psiquiátricos, a incidência de rompimento de vínculos afetivos durante a infância é
significativamente elevada. Embora estes últimos estudos confirmem as conclusões anteriores
a respeito da maior incidência de perda da mãe durante os primeiros anos da infância, eles
também as ampliam. Para vários tipos de condições, sabe-se agora que as maiores incidências
de vínculos afetivos desfeitos incluem tanto os vínculos com os pais como com as mães, e são
observados entre os cinco e os catorze anos, tanto quanto nos primeiros cinco anos. Além
disso, nas condições mais extremas — sociopatia e tendências suicidas — não só é provável
que uma perda inicial tenha ocorrido nos primeiros anos de vida mas também é provável que
tenha sido uma perda permanente, seguida da experiência de repetidas mudanças de figuras
parentais.
No entanto, demonstrar uma incidência maior de algum fator é uma coisa; demonstrar
que ele desempenha um papel causal é outra coisa muito diferente. Embora a maioria dos
autores que apresentaram esses dados conclusivos acima referidos acredite que a maior
incidência de perdas na infância tem uma relação causal com o subseqüente distúrbio
psiquiátrico — e existem inúmeros relatos clínicos apontando nessa direção (para referências,
ver Bowlby, 1963) —, explicações alternativas ainda são possíveis. Como exemplo, a maior
incidência de morte materna e paterna em pacientes psiquiátricos poderia ser resultado do fato
de as diferenças entre as idades dos pacientes e de seus pais serem maiores do que a média
para a população.

Nota de rodapé:

*(1). Dados estatísticos a respeito da incidência de perda dos pais durante a infância em
adultos deprimidos têm sido freqüentemente contraditórios, e eu simplifiquei a versão original
deste parágrafo a fim de harmonizá-lo com o pensamento atual.
O estudo mais recente e abrangente do problema (embora confinado a mulheres) é o
de George Brown e Tirril Harris (1978). Eles concluem que a perda na infância contribui, de
três maneiras distintas, para a depressão clínica. Em primeiro lugar, as mulheres que perderam
a mãe por morte ou separação, antes dos 11 anos de idade, são mais propensas a reagir à
perda, ameaça de perda e outras dificuldades e crises na vida adulta mediante o
desenvolvimento de um distúrbio depressivo do que as mulheres que não experimentarem
essa perda na infância. Em segundo lugar, se uma mulher sofreu uma ou mais perdas de
membros da família por morte ou separação antes dos 17 anos de idade, qualquer depressão
que se desenvolva subseqüentemente é suscetível de ser mais grave do que numa mulher que
não tenha sofrido perdas desse tipo. Em terceiro lugar, a forma assumida pela perda na
infância afeta a forma de qualquer doença depressiva que possa desenvolver-se mais tarde.
Quando a perda na infância foi devida à separação, é provável que qualquer doença que seja
subseqüentemente contraída mostre características de depressão neurótica, com sintomas de
ansiedade. Quando a perda se deve a morte, qualquer doença que se desenvolva
subseqüentemente poderá apresentar características de depressão psicótica, com muito
retardamento.
Brown e Harris também chamam a atenção para alguns dos problemas, antes não
reconhecidos, de obtenção de números válidos quando se fazem comparações entre um grupo
de pacientes psiquiátricos e um grupo de controle.
70

Sendo assim, não só a morte de um dos pais ocorreria mais cedo, mas também haveria maior
probabilidade de o filho nascer com uma carga genética adversa. Assim, o que parece ser um
determinante ambiental poderia, no fim das contas, ser um determinante genético.
Não é fácil testar essa possibilidade. Para que ela seja corroborada, é preciso: primeiro,
que se verifique se as médias das diferenças entre as idades dos pacientes psiquiátricos e as de
suas mães (e/ou pais) são, de fato, superiores às médias para a população total; e, segundo,
que se possa demonstrar que a idade mais elevada dos pais na época do nascimento dos filhos
tem um efeito adverso sobre a dotação genética do filho, de tal modo que aumente a
probabilidade de distúrbios psiquiátricos. O primeiro requisito pode ser perfeitamente
satisfeito: provas recentes (Dennehy, 1966) sugerem que as médias das diferenças entre as
idades dos pacientes psiquiátricos e as dos seus pais podem situar-se acima das médias para a
população da qual eles provêm. Do segundo requisito, porém, é mais difícil obter provas. Em
termos claros, talvez leve ainda algum tempo para que a questão seja resolvida.
No entanto, aqueles que acreditam ser causal a relação entre o rompimento de vínculos
afetivos durante a infância e a deterioração da capacidade para manter vínculos afetivos,
típica das perturbações da personalidade na vida adolescente e adulta, apontam outras provas
que sustentam sua hipótese. Tais provas envolvem o modo pelo qual jovens primatas
humanos e sub-humanos se comportam quando um vínculo afetivo é rompido por separação
ou morte.

Efeitos a curto prazo de vínculos desfeitos.

Quando uma criança pequena se vê entre estranhos e sem suas figuras parentais familiares, ela
não só se mostra intensamente aflita no momento, mas suas relações subseqüentes com os
pais ficam comprometidas, pelo menos temporariamente. O comportamento observado em
crianças de dois anos de idade, durante e após uma breve estada numa creche residencial, é o
objeto de um sistemático estudo descritivo e estatístico empreendido na Tavistock por
Heinicke e Westheimer (1966). A parte do relatório para a qual chamo a atenção é aquela em
que eles comparam o comportamento, em relação à mãe, de dez crianças que tinham estado na
creche e agora voltaram para casa, com o de um grupo de controle formado por dez crianças
que permaneceram em casa o tempo todo.
Nas crianças separadas observaram-se duas formas de distúrbio do
71

comportamento afetivo, nenhuma das quais foi observada no grupo de controle de crianças
não-separadas. Uma forma é a de desligamento emocional; a outra, aparentemente oposta, é
uma implacável exigência para estar perto da mãe.
(1) No primeiro encontro com a mãe, após ter estado fora de casa com estranhos por
duas ou três semanas, uma criança de dois anos mantém-se caracteristicamente distante e
desligada. Enquanto que, durante seus primeiros dias fora de casa, é comum uma criança
chorar pateticamente pela mãe, quando finalmente regressa parece não a reconhecer ou evitá-
la. Em vez de se precipitar para a mãe e ficar agarrada às suas saias, como provavelmente
faria caso se perdesse numa loja durante meia hora, a criança freqüentemente a fica estudando
e recusa-se a dar-lhe a mão. Todo o comportamento de busca de proximidade, típica de um
vínculo afetivo, está ausente, usualmente para consternação intensa da mãe; e continua
ausente — às vezes apenas por alguns minutos, mas outras vezes durante dias, o reatamento
da ligação pode ser repentino mas, com freqüência, é lento e gradual. O tempo em que o
desligamento persiste está Positivamente correlacionado com o tempo de separação (Quadro
2).
(2) Quando — como é usual — o comportamento de ligação é reatado, uma criança
mostra-se comumente muito mais apegada do que antes da separação, Desagrada-lhe que a
mãe a deixe sozinha e tende a chorar ou a segui-la pela casa toda. O modo como essa fase
evolui depende muito de como sua mãe reage. Não raras vezes sobrevém um conflito, uma
criança exigindo a constante companhia de sua mãe e esta recusando a tal recusa evoca
prontamente na criança um comportamento hostil e negativo, capaz de desafiar ainda mais a
paciência da mãe. Das dez crianças separadas que foram observadas por Heinicke e
Westheimer, seis delas apresentaram um comportamento hostil intenso e persistente em
relação à mãe, e negativismo após a volta para casa; tal comportamento não foi observado nas
crianças não-separadas (Quadro 3).
É claro que ainda há uma grande distância entre mostrar que os vínculos de uma
criança com sua mãe, e freqüentemente também com seu pai, sofrem um desequilíbrio em
virtude de uma breve separação, e demonstrar de um modo inequívoco que separações longas
ou repetidas estão causalmente relacionadas com os subseqüentes distúrbios de personalidade.
Entretanto, o comportamento de desligamento tão típico de crianças pequenas, após uma
separação, não tem mais do que uma semelhança passageira com o comportamento de
desligamento de alguns psicopatas, embora seja difícil distinguir o comportamento
agressivamente exigente de muitas crianças recentemente reunidas à mãe do comportamento
agressivamente exigente de muitas personalidades histéricas.
72

Quadro 2. Número de crianças separadas e não-separadas que mostraram desligamento
durante os 3 primeiros dias após a reunião (ou durante período equivalente).

Nenhum desligamento:
Separadas: -.
Não-separados: 10.

Desligamento durante um único dia:
Separados: 1.
Não-separados: -.

Desligamento alterado com agarramento:
Separados: 4.
Não-separados: -.

Desligamento persistente durante 3 dias:
Separados: 5.
Não-separados: -.

Total: Separados 10. Não-separados 10.
Grau de desligamento correlacionado com a duração da separação: r: 0,82; p:0,01.

É comprovadamente útil o postulado de que, em cada tipo de caso, o comportamento
perturbado do adulto representa uma persistência, ao longo dos anos, de padrões desviantes do
comportamento de ligação que se estabeleceram em conseqüência do rompimento de vínculos
afetivos durante a infância. Por um lado, ajuda a organizar os dados e a orientar o
prosseguimento da pesquisa; por outro, fornece diretrizes para o trato cotidiano com esse tipo
de pessoa.
Para ampliar os nossos conhecimentos nesse campo, seria obviamente de valor
incalculável realizar uma longa série de experimentos a fim de investigar os efeitos, a curto e
a longo prazo, sobre o comportamento, do rompimento de um vínculo afetivo, levando em
conta a idade do indivíduo, a natureza do vínculo, a extensão e a freqüência dos rompimentos,
além de muitas outras variáveis.

Quadro 3. Número de crianças separadas e não-separadas que mostraram forte e persistente
hostilidade à mãe após
a reunião (ou durante período equivalente).

Pouco ou nenhum comportamento hostil ou negativismo em relação á mãe:
Separados: 4.
Não-separados: 10.

Forte e persistente comportamento hostil e negativismo em relação á mãe:
Separados: 6.
Não-separados: 0.
Total: Separados – 10. Não - separados – 10.
P: 0,01
73

Quadro 4.
Consternação pela separação temporária da mãe, do pai ou irmão, em meniscos anóxicos e
não anóxicos no nascimento.
2° ano:

Anóxicos:
Consternados: 8.
Não-consternados: 2.

Não-anóxicos:
Consternados: 2.
Não-consternados: 12.
Significância P: 0,01.

3° ano:

Anóxicos:
Consternados: 9.
Não-consternados: 2.

Não-anóxicos:
Consternados: 4.
Não-consternados: 7.

Significância P: 0,1.
O total de amostras compreende 29 pares de meninos equiparados por classe, ordem de
nascimento e idade da mãe.

Igualmente óbvio, entretanto, é que quaisquer experimentos desse tipo com sujeitos humanos
são rejeitados por motivos éticos. Por essas razões, é muito bem-vindo o fato de estarem
sendo agora empreendidos experimentos análogos usando primatas não-humanos. Dados
preliminares sugerem que, em bebês rhesus de seis meses de idade, os efeitos de uma perda
temporária da mãe (seis dias) não são, durante e após a separação, diferentes dos verificados
em crianças de dois anos (Spencer-Booth e Hinde, 1966) - por exemplo, aflição e nível
reduzido de atividade durante a separação, e uma tendência excepcionalmente forte para
apegar-se à mãe depois que voltaram a reunir-se. Além disso, as reações da mãe rhesus a esse
comportamento não diferem das da mãe humana. Até agora, porém, não há registro de que
nenhum bebê-macaco tenha mostrado desligamento, e isso poderá representar uma diferença
própria da espécie.
Tanto em bebês humanos como em macacos, verifica-se uma vasta gama de variações
individuais na reação ao rompimento de um vínculo. Parte dessa variação deve-se,
provavelmente, aos efeitos sobre um bebê de eventos que ocorrem durante a gravidez e o
parto. Assim, Ucko (1965) apurou que meninos que no parto tinham sofrido um período de
asfixia são muito mais sensíveis à mudança ambiental, inclusive separação da mãe, do que
meninos que não sofreram asfixia (Quadro 4). Por outro lado, é bem provável que uma outra
parte dessa variância seja geneticamente determinada. Com efeito, é uma hipótese razoável a
de
74

que uma das principais formas pelas quais os fatores genéticos atuam para influenciar o
desenvolvimento da saúde mental e da doença mental é através de seu efeito sobre o
comportamento de vinculação: em que grau e forma, e em que circunstâncias, pode um
indivíduo estabelecer e manter vínculos afetivos, e como reage ele ao rompimento desses
vínculos? Realizando estudos desse tipo, talvez seja possível no futuro conjugar as pesquisas
ambientais e genéticas sobre distúrbios de comportamento.
75

5. Separação e perda na família *(1).

Na primavera de 1968, quando eu estava na Califórnia, a Sociedade Psicanalítica de São
Francisco organizou uma conferência para profissionais das diversas áreas de saúde mental
sobre o tema “Separação e Perda”. Fui convidado a contribuir e apresentei então uma versão
do presente estudo, o qual foi posteriormente ampliado com a ajuda de meu colega, Colin
Murray Parkes, e publicado em 1970 sob nossa autoria conjunta. É reeditado aqui com a sua
permissão.

Provavelmente, todos nós estamos profundamente conscientes da ansiedade e consternação
que podem ser causadas por separações de entes queridos, do profundo e prolongado pesar
que se pode seguir à morte de um deles, e dos riscos que esses eventos constituem para a
saúde mental. Uma vez atentos para esses fatos, não será difícil ver que muitos dos problemas
que somos chamados a tratar em nossos pacientes devem ser atribuídos, pelo menos em parte,
a uma separação ou uma perda que ocorreu, seja recentemente, seja em algum período
anterior da vida. Ansiedade crônica, depressão intermitente ou suicídio são alguns dos tipos
mais comuns de problemas que hoje sabemos serem atribuíveis a tais experiências. Além
disso, sabe-se que as interrupções prolongadas ou repetidas do vínculo entre a mãe e o filho
pequeno, durante os primeiros cinco anos de vida da criança, são especialmente freqüentes em
pacientes diagnosticados mais tarde como personalidades psicopáticas ou sociopáticas.

Nota de rodapé:

*(1). Publicado originalmente em Anthony, E. J. e Koupernik, C. (orgs.) (1970), The Child in
His Family, Vol. 1. Nova Iorque: John Wiley, Copyright © 1970 John Wiley & Sons, Inc.
Reproduzido com permissão.
77

Os dados que comprovam essas afirmações, especialmente as que se referem à maior
incidência de perda de um dos pais durante a infância em amostras de pacientes com tais
problemas, quando comparados com amostras de controle são examinados em outro lugar
*(1). Um Ponto que desejamos enfatizar particularmente é que, embora as perdas ocorridas
durante os primeiros cinco anos sejam, provavelmente, muito perigosas para o futuro
desenvolvimento da personalidade as perdas ocorridas mais tarde na vida também são
potencialmente perigosas.
Embora esteja estatística e clinicamente comprovada a existência de uma relação
causal entre distúrbio psicológico e uma separação ou perda ocorrida em alguma fase da
infância, adolescência, ou até mesmo mais tarde, subsistem numerosos problemas na
compreensão dos processos em atividade e também das condições exatas que determinam se o
resultado é bom ou mau. Contudo, não os ignoramos inteiramente. O nosso plano neste artigo
consiste em dar atenção especial aos métodos por meio dos quais poderemos ajudar os nossos
pacientes. Quer sejam crianças ou adultos, quer a perda seja recente ou tenha ocorrido há
muito tempo, acreditamos que podemos discernir agora certos princípios em que basear a
nossa terapia.
Começaremos por descrever o pesar e o luto tal como ocorrem em adultos, e a partir
daí para a infância.

Pesar e luto na vida adulta.

Contamos hoje com uma soma Considerável de informações idôneas sobre o modo pelo qual
adultos reagem a uma perda importante. Elas provêm de numerosas fontes, notadamente os
estudos de Lindemann (1944) e Marris (1958), ampliados por um recente estudo, ainda
inédito em sua maior parte, de Parkes (1969, 1971b) *(2). Embora a intensidade do pesar
varie consideravelmente de indivíduo para indivíduo, e a duração de cada fase também varie,
existe um padrão geral básico.
Num estudo anterior (Bowlby, 1961b), sugeriu-se que o curso do luto pode dividir-se
em três fases principais, mas sabemos hoje, que essa divisão omitiu uma importante primeira
fase, a qual é usualmente bastante breve.

Nota de rodapé:

*(1). [Notadamente, os Capítulos 3 e 4 deste volume.]
*(2). As informações foram obtidas de uma amostra bastante representativa de 22 viúvas entre
os 26 e 65 anos de idade, durante o ano que se seguiu à perda do marido. Houve nada menos
do que Cinco longas entrevistas clínicas com cada viúva, aos 1, 3, 6, 9 e 18 meses após o
falecimento do cônjuge. Obteve-se um bom contato e muita gratidão foi expressa pela
compreensão oferecida Em dez casos, a morte do marido tinha sido repentina; em três, rápida;
e em nove tinha sido prevista com antecedência de, pelo menos, uma semana.
78

O que antes era enumerado como fases 1, 2 e 3, foi reordenado, portanto, como fases 2, 3 e 4.
As quatro fases agora reconhecidas são:
1. Fase de torpor ou aturdimento, que usualmente dura de algumas horas a uma
semana e pode ser interrompida por acessos de consternação e (ou) raiva extremamente
intensas.
2. Fase de saudade e busca da figura perdida, durando alguns meses e, com freqüência,
vários anos.
3. Fase de desorganização e desespero.
4. Fase de maior ou menor grau de reorganização.

Fase de torpor.

Em nosso estudo, a reação imediata à notícia da morte do marido variou muito de uma
viúva para outra. A maioria delas mostrou-se aturdida e, em graus variáveis, incapaz de
aceitar a notícia. Um caso em que a fase de torpor durou mais do que o geral foi o de uma
viúva que disse que, ao ser informada da morte do marido, permaneceu calma e “não sentiu
absolutamente nada” e ficou muito surpreendida, portanto, quando percebeu que estava
chorando copiosamente. Disse que evitou consciente e deliberadamente seus sentimentos,
porque temia ser vencida pela dor ou enlouquecer. Durante três semanas, continuou
relativamente calma e controlada, até que, finalmente, desmoronou na rua e desfez-se em
pranto. Refletindo sobre essas três semanas, descreveu-as mais tarde como sendo algo
parecido com “caminhar à beira de um poço negro e sem fundo”.
Muitas outras viúvas relataram que as notícias as tinham deixado inteiramente
impassíveis no começo. No entanto, essa calma que antecede a tempestade era quebrada, às
vezes, por acessos de emoção extrema, usualmente de medo mas, com freqüência, de raiva e,
em um ou dois casos, de exaltação.

Fase de saudade e procura da figura perdida.

Alguns dias, ou uma ou duas semanas depois da perda, ocorre uma mudança, e a
pessoa começa, embora apenas episodicamente, a dar-se conta da realidade da perda que
sofreu; isso leva a espasmos de intensa aflição e a crises de choro. Entretanto, quase ao
mesmo tempo, há grande desassossego, preocupações com pensamentos sobre a pessoa
perdida, muitas vezes acompanhados por uma sensação de sua presença
79

real, e uma tendência acentuada a interpretar sinais ou sons como uma indicação de que a
pessoa perdida está agora de volta. Por exemplo, ouvir o som do trinco da porta às 5 horas da
tarde é interpretado como sendo o marido regressando do trabalho, ou um homem na rua é
erroneamente percebido como o marido ausente.
Apurou-se que algumas dessas características, ou todas elas, ocorrem na grande
maioria das viúvas entrevistadas. Como as mesmas características são também relatadas por
muitos outros pesquisadores, não pode haver dúvida de que são um traço regular do
comportamento de luto e não são, em absoluto, características anormais.
Quando as provas desse tipo foram reexaminadas há alguns anos (Bowlby, 1961b),
sugerimos que, durante essa fase do luto, a pessoa é dominada por um impulso para buscar e
reaver a figura perdida. Por vezes, a pessoa tem consciência desse impulso, se bem que, com
maior freqüência, não tenha; algumas vezes, a pessoa deixa-se levar por ele voluntariamente,
como quando visita a sepultura ou outros lugares estreitamente associados à figura perdida,
mas outras vezes esforça-se por sufocar tal impulso por ser irracional e absurdo. Entretanto,
seja qual for a atitude que uma pessoa adote em relação a esse impulso, ela se vê impelida a
buscar e, se possível, recuperar o ente perdido.
Esse ponto de vista foi enunciado em 1961. Até onde nos é dado saber, até agora não
foi questionado, embora duvidemos de que já tenha sido geralmente aceito. Seja como for, as
provas de que dispomos hoje mostram que ele está bem fundamentado.
O texto seguinte é extraído de um estudo recente, onde ficam claras as provas da
hipótese da busca:
“Embora sejamos propensos a conceber a busca em termos do ato motor de
movimento inquieto no sentido das possíveis localizações do objeto perdido, [a busca]
também tem componentes perceptivos e ideacionais... Sinais do objeto só podem ser
identificados por referência a lembranças do objeto como ele era. Portanto, a busca de sinais
do objeto no mundo externo inclui o estabelecimento de uma ‘disposição’ perceptiva interna
derivada da prévia experiência do objeto.” (Parkes, 1969).
É dado o exemplo de uma mulher buscando seu filho pequeno que morreu: ela
movimenta-se incansavelmente pelos locais prováveis da casa, buscando com os olhos e
pensando no menino; ouve um estalido e imediatamente o identifica com o som dos passos do
filho na escada; grita, “John, é você?”. Os componentes desta seqüência são:
(a) movimentar-se inquietamente e esquadrinhar o meio ambiente;
(b) pensar intensamente na pessoa perdida;
80

(c) desenvolver uma “disposição” perceptiva, ou seja, uma disposição para perceber e
prestar atenção a quaisquer estímulos que sugiram a presença da pessoa, e ignorar todos
aqueles que não forem relevantes para esse objetivo;
(d) dirigir a atenção para as partes do meio ambiente em que seria possível a pessoa
estar;
(e) chamar a pessoa perdida.
Enfatiza-se que cada um desses componentes está presente em homens e mulheres que
perderam um ente querido; além disso, algumas das pessoas que sofrem uma perda estão
conscientes de um impulso de busca.
Duas características muito comuns do luto, que foram interpretadas em nossos escritos
anteriores como sendo parte desse impulso para a busca, são o choro e a raiva.
Darwin concluiu que (1872) as expressões faciais típicas do pesar no adulto resultam,
por um lado, de uma tendência para gritar como uma criança quando se sente abandonada e,
por outro, de uma inibição dos gritos. Chorar e gritar são, é claro, métodos por meio dos quais
uma criança comumente atrai e recupera sua mãe ausente, ou alguma outra pessoa que possa
ajudar a encontrá-la; e ocorrem no luto, acreditamos nós, com os mesmos objetivos em mente
— consciente ou inconscientemente.
Acreditamos que a freqüência com que a raiva se manifesta como parte do luto normal
tem sido habitualmente subestimada — talvez porque pareça tão despropositada e
vergonhosa. Entretanto, não pode haver dúvida acerca de sua ocorrência muito freqüente,
sobretudo nos primeiros dias. Lindemann e Marris ficaram impressionados com isso. A raiva
ficou evidente, pelo menos episodicamente, em 18 das 22 viúvas que foram estudadas por
Parkes, e em sete delas foi muito acentuada na época da primeira entrevista. Os alvos dessa
raiva eram uma pessoa da família (quatro casos), sacerdotes, médicos ou funcionários
públicos (cinco casos), e em quatro casos o próprio marido morto. Na maioria desses casos, a
razão dada para a raiva foi que a pessoa em questão tinha sido, de certo modo, responsável
pela morte, ou indiferente em relação a ela, quer para com o falecido ou para com a viúva.
Entre as quatro viúvas que expressaram sua raiva em relação ao marido morto, houve
uma que desabafou furiosamente durante uma entrevista, nove meses depois da perda: “Oh,
Fred, por que foi que você me deixou? Se você soubesse o inferno que isto é, nunca me teria
deixado!”.

81

Mais tarde, ela negou que estivesse furiosa e comentou: “Seria uma perversidade se isso
acontecesse”. Uma outra viúva também expressou suas recriminações raivosas contra o
marido por tê-la desertado.
Também foi comum um certo grau de auto-acusação geralmente quando em torno de
alguma omissão ou ação de menor importância associada à última doença ou à morte do
marido. Embora se registrassem momentos em que essas auto-acusações eram muito severas,
em nenhuma dessas viúvas eram tão intensas e implacáveis quanto em indivíduos cujo pesar
persistiu até ser, finalmente, diagnosticado como doença depressiva (Parkes, 1965).
No estudo anterior (Bowlby, 1961b), foi sublinhado que a raiva é usual e útil quando a
separação é apenas temporária; nesse caso, ajuda a vencer obstáculos à reunião com a figura
ausente; e, concretizada a reunião, as expressões recriminatórias em relação a quem parece ter
sido responsável pela separação tornam menos provável que uma separação volte a acontecer.
A raiva e as recriminações só são despropositadas quando a separação é permanente e
definitiva.
“Foi concluído o seguinte: existem, portanto, boas razões biológicas para que se reaja
a toda e qualquer separação de um modo automático e instintivo com um comportamento
agressivo; a perda irrecuperável é estatisticamente tão incomum que não é levada em conta.
No decorrer de nossa evolução, segundo parece, o nosso equipamento instintivo acabou sendo
formado de tal modo que se pressupõe que todas as perdas sejam recuperáveis, reagindo se
em conformidade com essa idéia.” (Bowlby, 1961b).
A hipótese central em toda a nossa tese é que muitas características da segunda fase do
luto devem ser entendidas como aspectos não só da saudade mas também da busca real da
figura perdida. Essa hipótese está intimamente relacionada, é claro, com o quadro de
comportamento de ligação que foi descrito por um de nós (Bowlby, 1969). Argumento que o
comportamento de ligação é uma forma de comportamento instintivo que se desenvolve tanto
em seres humanos como em outros mamíferos, durante a infância, e que tem como objetivo
ou meta a proximidade de uma figura materna. Sugere-se que a função do comportamento de
ligação é a proteção contra predadores. Embora o comportamento de ligação se manifeste de
maneira especialmente forte *(1) durante a infância, quando é dirigido para as figuras
parentais, ele continua em atividade durante a vida adulta, quando geralmente é dirigido para
alguma figura ativa e dominante, muitas vezes uma pessoa da família mas, outras vezes, um
patrão ou alguma pessoa mais velha da comunidade A teoria enfatiza que o comportamento
de ligação é suscitado sempre que uma pessoa (criança ou adulto) está doente ou em
dificuldades, e é muito intenso quando ela está assustada ou quando a figura de ligação não
pode ser encontrada.

Nota de rodapé:

*(1). Ver a Nota 1 do Capítulo 3.
82

e é muito intenso quando ela está assustada ou quando a figura de ligação não pode ser
encontrada. Uma vez que, à luz dessa teoria, o comportamento de ligação é considerado como
uma parte normal e saudável da constituição instintiva do homem, sustenta-se que é
extremamente errôneo qualificá-lo de “regressivo” ou pueril, quando observado numa criança
mais velha ou num adulto. Por essa razão, também, o termo “dependência” é considerado
passível de levar a uma perspectiva seriamente equivocada, porquanto, na linguagem
cotidiana, descrever alguém como dependente não pode deixar de implicar certas conotações
de censura. Em contrapartida, descrever alguém como ligado a outrem implica uma avaliação
positiva.
Este quadro do comportamento de ligação como um componente normal e saudável do
equipamento instintivo do homem leva-nos também a considerar a ansiedade de separação
como uma resposta natural e inevitável, sempre que uma figura de ligação está inexplicável
ou injustificadamente ausente. E à luz desta hipótese, acreditamos, que podem ser melhor
entendidos os acessos de pânico a que são propensas, como se sabe, as pessoas que perderam
um ente querido. Tais acessos têm probabilidade de ocorrer durante os primeiros meses após a
perda, especialmente quando a realidade dessa perda se impõe de maneira inapelável à pessoa
enlutada.
Tanto o nosso próprio estudo, em pequena escala mas intensivo, como a pesquisa
realizada por Maddison e Walker (1967), sugerem que a maioria das mulheres leva muito
tempo para superar a perda do marido. Seja qual for o modelo psiquiátrico segundo o qual são
julgadas, menos de metade delas conseguiu recuperar-se no final do primeiro ano. Das 22
viúvas entrevistadas por Parkes, duas foram consideradas ainda entregues a um profundo
pesar e outras nove estavam intermitentemente perturbadas e deprimidas. Somente quatro
pareciam estar conseguindo um bom ajustamento no final do primeiro ano. Insônia e vários
outros incômodos menores eram extremamente comuns. Na pesquisa empreendida por
Maddison e Walker, um quinto das viúvas estava ainda com a saúde muito debilitada e num
estado emocional perturbado no final do primeiro ano.
Enfatizamos esses dados, ainda que aborrecidos, por acreditarmos que os clínicos
alimentam, por vezes, expectativas irrealistas sobre a rapidez com que alguém deve superar
uma perda importante. É possível que algumas das formulações teóricas de Freud sejam um
tanto desorientadoras a esse respeito. Por exemplo, uma passagem freqüentemente citada de
Totem e Tabu (1902-3) diz o seguinte: “O luto tem uma tarefa psíquica muito precisa a
executar: a sua função é desligar as lembranças

83

esperanças do sobrevivente em relação ao morto”. Deve-se reconhecer u quando julgado
segundo esse critério, o luto é malsucedido. O próprio Freud, entretanto, apercebeu-se disso.
Assim, numa carta de condolências para Binswanger (ver E. L. Freud, 1961), escreveu:
“Embora eu saiba que após tamanha perda o estado agudo de luto acabará por dissipar-
se, também sei que permaneceremos inconsoláveis e nunca encontraremos um substituto. Seja
o que for que venha preencher a lacuna, e ainda que a preenchesse completamente,
continuaria sendo, não obstante, uma outra coisa. E, na realidade, é assim que deve ser. E a
única maneira de perpetuar aquele amor a que não queremos renunciar”.
As viúvas entrevistadas por Parkes após um ano de viuvez fizeram eco a essas
palavras. Mais de metade delas ainda achava difícil aceitar o fato de o marido estar morto; a
maioria delas ainda passava muito tempo pensando no passado e, por vezes, ainda tinha a
sensação da presença próxima do marido. Em nenhuma dessas viúvas as lembranças e as
esperanças haviam se desligado do morto.
Em nossos estudos, e também nos de Maddison e Walker, foi apurado que quanto mais
jovem é uma mulher ao enviuvar, mais intenso é o seu sentimento de luto e maior a
probabilidade de que sua saúde esteja alterada ao cabo de doze meses de viuvez. Em
contrapartida, se uma mulher já passou dos 65 anos quando seu marido morre, o golpe será
provavelmente muito menos incapacitador. É como se os laços entre eles já estivessem
começando a afrouxar. Essa diferença muito acentuada na intensidade e duração do luto
talvez possa fornecer uma pista para se compreender o que acontece após uma perda durante a
infância.

Pesar e luto na infância.

Há alguns anos, um de nós (Bowlby, 1960b) enfatizou que as crianças pequenas não só se
afligem com a separação, como também o pesar delas é freqüentemente muito mais demorado
do que por vezes se supõe. Em apoio desse ponto de vista, citaram-se algumas observações de
colegas — Robertson (1953b) e Heinicke (1956) *(1) — sobre o persistente pesar de crianças
de um e dois anos, em creches residenciais, ao ficarem separadas de suas mães, e também as
descrições de casos de crianças nas Hampstead Nurseries durante a guerra. Esses estudos
parecem deixar claro que, nessas circunstâncias, crianças de tenra idade se mostram
abertamente pesarosas com a falta da mãe durante, pelo menos, algumas semanas, chorando
por ela ou indicando de algum outro modo que ainda têm saudade dela e esperam o seu
regresso.

Nota de rodapé:

*(1). Ver também um estudo mais recente de Heinicke e Westheimer (1966).
84

A noção de que o pesar na infância é efêmero não resiste a um exame atento, à luz dessas
observações. Em especial, foi citada a descrição feita por Freud e Burlingham (1943) de um
menino de três anos e dois meses, cujo pesar persistiu claramente por muito tempo, embora
silenciosamente. Repetimos essa descrição agora por acreditarmos que contém muitos dados
importantes. Ao ser deixado na creche, Patrick foi aconselhado a ser um bom menino e não
chorar — caso contrário sua mãe não o visitaria.
“Patrick tentou cumprir sua promessa e não foi visto chorando. Em vez disso,
meneava lentamente a cabeça sempre que alguém olhava para ele, e garantia — para si
mesmo e para quem se interessasse em escutá-lo — que sua mãe viria buscá-lo, lhe vestiria o
casaco e o levaria de novo para casa com ela. Sempre que um ouvinte parecia acreditar, ele
ficava satisfeito; sempre que alguém o contradizia, Patrick desmanchava-se em choro
convulsivo.
Esse mesmo estado de coisas prosseguiu durante os dois ou três dias seguintes, com
vários elementos novos. Os acenos de cabeça assumiram um caráter mais compulsivo e
automático: ‘Minha mãe me vestirá o casaco e me levará de novo para casa’.
Mais tarde, foi acrescentada uma lista, cada vez maior, de peças de vestuário que sua
mãe lhe vestiria para sair: ‘Ela me vestirá o casaco, e as meias compridas, e fechará o zíper, e
me porá o gorro’.
Quando as repetições dessa fórmula se tomaram monótonas e intermináveis, alguém
lhe perguntou se não poderia parar de dizer sempre a mesma coisa. Patrick tentou de novo ser
um bom menino, como sua mãe queria que ele fosse. Deixou de repetir a fórmula em voz alta,
mas os movimentos de seus lábios mostravam que ele continuava recitando-a constantemente,
em silêncio, para si mesmo.
Ao mesmo tempo, substituiu as palavras por gestos, como se estivesse colocando o
gorro, vestindo um casaco imaginário, fechando o zíper, etc. O que num dia aparecia como
um movimento expressivo, era reduzido no dia seguinte a um mero gesto frustrado dos dedos.
Enquanto a maioria das outras crianças estavam ocupadas com seus brinquedos, jogando,
cantando, etc., Patrick, totalmente desinteressado, ficava de pé num canto, mexendo as mãos e
os lábios com uma expressão absolutamente trágica no rosto.” (Freud e Burlingham, 1942:
89.)
Muita controvérsia se seguiu aos primeiros estudos publicados de Bowlby; e
suspeitamos de que ainda passará algum tempo antes que todos os problemas ventilados
fiquem esclarecidos. Das muitas questões debatidas, há apenas duas sobre as quais queremos
fazer aqui alguns comentários. A primeira refere-se ao uso do termo luto; a segunda diz
respeito às semelhanças e diferenças entre o luto da criança e o luto do adulto.
85

Nos estudos anteriores, considerou-se útil usar o termo “luto” num sentido amplo, a
fim de abranger uma grande variedade de reações à perda, incluindo algumas que conduzem a
um resultado patológico, e também aquelas que se seguem a uma perda nos primeiros anos de
vida. A vantagem desse uso é que se toma então possível reunir numerosos processos e
condições que as provas mostram estar inter-relacionados — assim como o termo
“inflamação” é usado em fisiologia e patologia para reunir numerosos processos, alguns dos
quais têm um desfecho saudável e outros são malsucedidos e resultam em patologia. A prática
alternativa consiste em restringir o termo “luto” a uma forma particular de reação à perda, ou
seja, aquela “em que o objeto perdido é gradualmente descatexiado pelo doloroso e
prolongado trabalho de recordar e pelo teste da realidade” (Wolfenstein, 1966). Um perigo
desse uso, entretanto, é que pode levar a expectativas sobre como deveria ser o luto saudável,
que estão em discordância total daquilo que hoje sabemos ocorrer, realmente, em muitas
pessoas. Além disso, se preferirmos convencionar um uso restrito, vemo-nos diante da
necessidade de encontrar, ou talvez inventar, algum novo termo; pois acreditamos ser
essencial, se quisermos discutir produtivamente estas questões, dispor de alguma palavra
apropriada pela qual possamos nos referir a toda a gama de processos que entram em ação
quando é sofrida uma perda. Nesta ocasião, usaremos o termo “pesar” nesse sentido, uma vez
que já tem sido empregado por analistas de um modo bastante amplo e não existe objeção a
que crianças muito pequenas fiquem pesarosas.
Além de terem concentrado a atenção numa área central da psicopatologia, as
controvérsias de anos recentes têm tido muitos outros efeitos que devem ser bem acolhidos
por todos. Elas mostraram o quanto ainda sabemos pouco sobre o modo pelo qual crianças de
todas as idades, inclusive adolescentes, reagem a uma perda importante, e sobre que fatores
são responsáveis pelo desfecho mais favorável em alguns casos do que em outros *(1); em
segundo lugar, estimularam pesquisas valiosas.
Já enfatizamos como é muito difícil, mesmo para adultos, apreender inteiramente que
alguém muito próximo está morto e nunca mais voltará. Para crianças, evidentemente, é muito
mais difícil ainda. Wolfenstein (1966) relatou as respostas de numerosas crianças e
adolescentes que tinham perdido um dos pais e foram encaminhadas para análise, muitas
delas durante o primeiro ano após o falecimento. Entre os pontos que impressionaram o seu
grupo de observadores, salientou-se que “os sentimentos de tristeza tinham sido cerceados;
havia pouco choro. A imersão nas atividades da vida cotidiana continuou...”.

Nota de rodapé:

*(1). Atualmente sabe-se muito mais sobre as condições que afetam o curso do luto na
infância. Ver as Notas 4 e 5 do Capítulo 3.
86

Entretanto, gradualmente, os analistas que tratavam essas crianças aperceberam-se de que,
manifestamente ou não, elas estavam “negando o caráter definitivo da perda”, e de que a
expectativa da volta do ente perdido ainda estava presente em um nível mais ou menos
consciente. As mesmas e persistentes expectativas são registradas por Barnes (1964) como
tendo ocorrido em duas crianças de escola maternal que perderam suas mães quando tinham,
respectivamente, dois anos e meio e quatro anos de idade. Essas crianças continuaram
expressando a esperança e a expectativa de que a mãe regressaria.
Quando, no devido tempo com a ajuda dos analistas e de outros, essas crianças
gradualmente adquiriram consciência de que a mãe, de fato, nunca mais voltaria, reagiram
com pânico e raiva, tal como fizeram as viúvas descritas acima. Ruth, uma menina de 15 anos
descrita por Wolfenstein, comentou, alguns meses após a morte de sua mãe: “ Se mamãe
estivesse realmente morta, eu ficaria sozinha... Ficaria terrivelmente assustada”. Em outra
ocasião conta-se que Ruth, na cama, à noite, às vezes sentia-se desesperada, “cheia de
frustração, raiva e saudade. Arrancava as roupas de cama, embrulhava-as para lhes dar o
formato de um corpo humano e abraçava-se a elas”.
Assim, embora certamente existam diferenças entre o modo como uma criança reage à
perda e aquele como um adulto reage, também há semelhanças muito básicas.
Existe, além disso, uma outra semelhança para a qual desejamos chamar a atenção.
Acreditamos que não só a criança, mas também o adulto, necessita da assistência de uma
outra pessoa de sua inteira confiança, se quiser recuperar-se da perda sofrida. Ao examinarem
as reações de crianças à perda e a melhor forma de ajudá-las, quase todos os autores
enfatizaram como é imensamente importante que a criança disponha de uma pessoa que atue
como substituta permanente, a quem ela possa ligar-se gradualmente. Só em tais
circunstâncias podemos esperar que uma criança venha, em última instância, a aceitar a perda
como sendo irremediável e a reorganizar então sua vida interior de acordo com isso *(1).
Suspeitamos de que o mesmo ocorre no caso de adultos, se bem que na vida adulta possa ser
mais fácil encontrar também apoio na companhia de algumas outras pessoas. Isto leva a duas
questões inter-relacionadas e muito práticas: o que sabemos dos fatores que auxiliam ou
dificultam o luto saudável? Qual o melhor método para ajudar uma pessoa enlutada?

Nota de rodapé:

*(1). O quanto qualquer outro arranjo é insatisfatório foi expresso, de forma pungente, por
Wendy, a menina de quatro anos descrita por Barnes (1964). Quando o pai dela enumerou a
extensa lista de pessoas que conheciam Wendy e a amavam, ela respondeu tristemente: “Mas
quando mamãe não estava morta eu não precisava de tanta gente... eu precisava só de uma”.
87

Condições que favorecem ou dificultam o luto saudável.

Atualmente, os psiquiatras em geral concordam em que, para que o luto leve a um resultado
favorável, e não desfavorável, é necessário que a pessoa que sofreu uma perda expresse —
mais cedo ou mais tarde — seus sentimentos e emoções. “Soltai as palavras tristes”, escreveu
Shakespeare, “as penas que não falam sufocam o coração extenuado e fazem-no quebrantar”.
Entretanto, embora até aqui todos possamos concordar, para uma pessoa que é incapaz
de expressar seus sentimentos e para outra que esteja tentando ajudá-la a expressá-los,
permanecem as perguntas: Como soltar as palavras? Quais são os sentimentos a expressar? E
o que impede sua expressão?
Existem hoje provas de que os afetos mais intensos e perturbadores provocados por
uma perda são o medo de ser abandonado, a saudade da figura perdida e a raiva por não
reencontrá-la — afetos que estão associados, por um lado, ao anseio de buscar a figura
perdida e, por outro, a uma tendência para recriminar furiosamente quem quer que pareça ser
o responsável pela perda ou estar dificultando a recuperação da pessoa que foi perdida. A
pessoa que sofre uma perda parece lutar contra o destino, com todo o seu ser emocional, na
tentativa desesperada de reverter a marcha do tempo e reaver os tempos felizes que
subitamente lhe foram arrebatados. Em vez de enfrentar a realidade e tentar harmonizar-se
com ela, uma pessoa que sofre uma perda empenha-se numa luta contra o passado.
Evidentemente, para darmos à pessoa que sofre uma perda o tipo de ajuda que
desejaríamos dar, é essencial vermos as coisas do seu ponto de vista e respeitarmos seus
sentimentos — por menos realistas que possam parecer. Pois somente se a pessoa que sofre a
perda sentir que podemos, pelo menos, compreendê-la e simpatizar com ela nas tarefas que
estabeleceu para si mesma, haverá a possibilidade de que expresse todos os sentimentos que
estão fervilhando em seu íntimo — seu anseio pelo regresso da figura perdida, sua esperança
de que, milagrosamente, tudo possa ainda estar bem, sua raiva por ter sido desertada, suas
recriminações raivosas e injustas contra “esses médicos incompetentes”, “essas enfermeiras
incompetentes”, e contra seu próprio eu culpado; se tivesse feito isto e aquilo, ou não tivesse
feito isto e aquilo, talvez o desastre pudesse ter sido evitado.
Quer estejamos no papel de amigo de uma pessoa que recentemente
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sofreu uma perda ou no de terapeuta de alguém que sofreu há muitos anos a morte de um ente
querido e não conseguiu resolver seu luto, parece ser desnecessário e prejudicial colocarmo-
nos no papel de “representantes da realidade”: desnecessário, porque a pessoa que sofreu a
perda está, em alguma parte de si mesma, perfeitamente cônscia de que o mundo mudou;
prejudicial porque, ao ignorarmos o mundo tal como uma parte da pessoa ainda o vê,
afastamo-nos dela. O nosso papel deve ser, então, o de um companheiro pronto a oferecer
todo o apoio, preparado para explorar, em nossas discussões, todas as esperanças e desejos e
tênues possibilidades improváveis que a pessoa ainda acalenta, somados a todas as
recriminações, remorsos e decepções que a afligem. Eis dois exemplos.
Num estudo anterior (Bowlby, 1963), foi descrito o caso da Sra. Q, uma mulher de
aproximadamente 35 anos de idade; seu pai falecera inesperadamente após uma operação
facultativa, e numa época em que o terapeuta dela (J. B.) estava no exterior. Durante um ano,
a Sra. Q guardara seus sentimentos e suas idéias para si mesma; entretanto, no aniversário da
morte do pai, o verdadeiro quadro foi revelado.
“Contou-me agora que durante as semanas que se seguiram à morte de seu pai, tinha
vivido parcialmente convicta de que o hospital cometera um erro de identidade e de que, a
qualquer momento, eles telefonariam ‘para dizer que havia um engano e que seu pai estava
vivo e pronto para voltar para casa’. Além disso, estava especialmente zangada comigo pois
acreditava que, se eu tivesse estado disponível, poderia ter exercido a minha influência sobre
o hospital e, assim, conseguido que ela recuperasse o pai. Agora, doze meses depois, essas
idéias e esses sentimentos ainda persistiam. Ela ainda alimentava uma certa expectativa de um
recado do hospital, e ainda estava irritada por eu não entrar em contato com a direção de lá.
Além disso, secretamente, a Sra. Q estava fazendo preparativos para receber o pai em casa,
quando ele voltasse. Isso explicava por que ficara furiosa com a mãe por ter mandado
redecorar o apartamento em que os velhos tinham vivido juntos e também por que continuava
adiando a redecoração de seu próprio apartamento; ela sentia que era vital que quando o pai
finalmente regressasse pudesse encontrar os lugares que lhe eram familiares tal como os
deixara.” (Bowlby, 1963.)
Ora, não houve necessidade de o seu terapeuta intervir em nome da realidade; outros
já o tinham feito e ela sabia bem qual era a visão que seus parentes e amigos tinham de tudo
isso. O que ela precisava era de uma oportunidade para expressar a saudade, as esperanças e o
amargor que seus parentes e amigos não podiam entender. Ela contou que, na semana
anterior, pensara ter visto seu pai olhando a vitrina de uma loja e que tinha atravessado a rua
para inspecionar mais de perto o homem em questão. Descreveu sua fúria para com a
enfermeira que lhe
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transmitira a notícia da morte do pai e como se sentira tentada a jogá-la no chão de concreto e
a estourar-lhe os miolos. Contou como sentira que o seu terapeuta a traira por estar longe
justamente quando mais precisara dele; e falou de muitas outras coisas que, à luz fria do dia,
ela mesmo sabia não serem realistas e justas. O que ela necessitava do terapeuta, e esperamos
que tenha encontrado, era alguém que pudesse compreendê-la e se solidarizasse com o não-
realismo e a injustiça dela. Com o passar dos meses, suas esperanças e sua raiva foram se
dissipando, e a Sra. Q começou a se reconciliar com a realidade da perda.
O mesmo papel foi desempenhado com um rapaz de 16 anos, a quem chamaremos
Bill. Ele tinha sido examinado primeiro por um psiquiatra (J. B.) numa clínica, quando tinha
quatro anos de idade, porque as coisas estavam correndo mal em seu lar adotivo. A história
não era muito clara, mas depreendemos que a mãe de Bill era uma prostituta que colocara o
filho num lar adotivo, quando ele tinha dois anos, e depois desaparecera. Bill apresentou
grandes problemas e os pais adotivos recusaram-se a conservá-lo. Conseguiu-se para ele
assistência especial e, mais tarde, tratamento num estabelecimento residencial para crianças
com distúrbios sérios. Era examinado algumas vezes por ano na clínica pelo mesmo psiquiatra
e, desse modo, pudemos proporcionar-lhe uma certa continuidade. Agora, aos 16 anos,
terminaria a escola em breve.
Nessa entrevista, Bill falou ao psiquiatra sobre o seu plano de ir para a América
procurar a mãe. Já estivera numa empresa de navegação marítima e estava tentando conseguir
a passagem trabalhando a bordo de um cargueiro. Era um rapaz muito inteligente e seus
planos para a viagem pareciam viáveis. Mas imagine-se o espanto do psiquiatra! Aí estava um
rapaz que tinha visto a mãe pela última vez quando tinha apenas dois anos de idade e, desde
então, nunca mais tivera notícias nem ouvira falar dela, que não tinha a mínima idéia de onde
ela poderia estar, e que nem mesmo tinha a certeza do nome dela. Francamente, o plano era
um jogo de cabra-cega. Mas o psiquiatra conteve-se. Esse era o mundo de Bill e era o plano
de Bill, e ele o estava confidenciando ao seu terapeuta, cujo papel não era depreciá-lo nem
destruí-lo. De fato, a sessão toda foi dedicada à discussão do plano. Bill acreditava que seu pai
era um militar americano e que a mãe o acompanhara depois da guerra. Seus planos para
atravessar o Atlântico foram reexaminados, bem como os métodos pelos quais poderia ganhar
dinheiro suficiente do outro lado do Atlântico para continuar sua busca. Nenhuma objeção foi
levantada pelo psiquiatra, mas convidou Bill a voltar para uma nova conversa dentro de uma
semana, mais ou menos. Bill voltou.
90

Contou que tinha pensado muito sobre o plano, mas que agora começava a ter suas dúvidas.
Talvez fosse difícil localizar sua mãe; e talvez, mesmo que fosse bem-sucedido, ela não o
acolhesse de bom grado. Afinal de contas, refletiu Bill, ele não passaria de um estranho para
ela. Uma vez mais, dada uma oportunidade para explorar junto com alguém compreensivo
todos os sentimentos e planos que ele acariciara secretamente durante anos, o próprio senso de
realidade era suficiente.
Naturalmente, no caso de outros pacientes, sobretudo os mais velhos, que sofreram
uma perda vários anos antes, durante a infância ou adolescência, a tarefa de ajudá-los a
recuperar seus sentimentos perdidos, suas esperanças perdidas de reunião e sua raiva por
terem sido abandonados, pode ser longa e tecnicamente difícil. Mas os objetivos gerais
continuam sendo os mesmos.
Ansiar pelo impossível, raiva desmedida, choro impotente, horror ante a perspectiva
de solidão, súplicas lastimosas por compaixão e apoio — são esses os sentimentos que uma
pessoa que sofre uma perda necessita expressar e, por vezes, primeiro descobrir, para que faça
algum progresso. Entretanto, são sentimentos passíveis de serem encarados como indignos e
degradantes. Na melhor das hipóteses, expressá-los pode parecer humilhante; na pior, podem
atrair críticas e desprezo. Não é de admirar que tais sentimentos muitas vezes acabem não
sendo expressados, podendo mais tarde ser recalcados.
Isto leva-nos a fazer uma pergunta: Por que algumas pessoas acham mais difícil —
freqüentemente, muito mais difícil — do que outras expressar seus sentimentos de pesar?
Estamos convictos de que um motivo principal por que algumas pessoas acham
extremamente difícil expressar pesar é que a família em que elas foram criadas, e com a qual
ainda convivem, é daquelas em que o comportamento de ligação de uma criança é visto sem
simpatia, como algo a ser eliminado o mais rapidamente possível. Em tais famílias, o choro e
outras manifestações de protesto por uma separação podem ser qualificados como pueris,
coisa de bebês, e a raiva ou o ciúme como sentimentos altamente repreensíveis. Além disso,
nessas famílias, quanto mais uma criança pede para ficar com a mãe ou o pai, mais lhe é dito
que tais exigências são tolas e injustificadas; quanto mais a criança chora ou faz birras, mais
lhe dizem que é tola, caprichosa ou má. Em conseqüência de estar submetida a tais pressões, é
provável que a criança acabe aceitando esses padrões para si mesma; chorar, fazer exigências,
sentir-se furiosa porque não são satisfeitas, culpar os outros, tudo isso será julgado pela
criança como algo injustificado, censurável e ruim. Assim, quando sofre uma perda séria, em
vez de expressar o tipo de
91

sentimentos que invadem qualquer pessoa que sofre uma perda, ela tende a sufocá-los. Além
disso, seus parentes, produtos que são da mesma cultura familiar, compartilham
provavelmente das mesmas concepções críticas a respeito da emoção e sua expressão. E
assim, a própria pessoa que mais necessita de compreensão e encorajamento é aquela que tem
menos probabilidades de recebê-los.
Uma ilustração clara desse processo de internalização dos controles de censura nos é
dada pelo caso de Patrick, o menino de três anos, da Hampstead Nursery, descrito
anteriormente. Patrick, como se recordará, fora aconselhado a ser um bom menino,
comportar-se bem e não chorar — caso contrário sua mãe não iria visitá-lo. Parece provável
que isso era típico da atitude da mãe em relação às expressões de consternação do menino.
Portanto, não surpreende que ele se esforçasse por sufocar todos os seus sentimentos e, em
lugar de expressá-los, desenvolvesse um ritual que se tornou cada vez mais divorciado do
contexto emocional em que se originara.
Evitar o luto é uma importante variante patológica do pesar mas não é, acreditamos, a
única. Existem muitos adultos que sofrem perda os quais, ao procurarem a ajuda de
psiquiatras, dão poucas provas da inibição emocional que foi descrita acima. Pelo contrário,
como foi documentado num estudo anterior (Parkes, 1965), essas pessoas manifestam todas as
características do pesar de uma forma severa e prolongada. O problema aqui não é apurar por
que a paciente é incapaz de expressar pesar, mas por que ela (usualmente, é uma mulher) é
incapaz de superá-lo. Pode ser, é claro, que mesmo nesses casos exista algum componente
ainda não reconhecido do pesar que está sendo inibido; mas há três características que
parecem distinguir essas reações de pesar crônico e que podem sugerir uma explicação
alternativa.
Em primeiro lugar, verifica-se usualmente que a ligação da paciente com o marido
falecido foi extremamente íntima, sendo que boa parte da auto-estima e identidade do papel
da sobrevivente dependia da contínua presença do esposo. E muito provável que tais pacientes
relatem ter sofrido grande consternação mesmo durante breves separações temporárias no
passado. Em segundo lugar, a paciente não tem relações estreitas com um outro membro da
família para quem possa transferir alguns dos laços que a vinculavam ao seu esposo. Suas
relações intensas com ele parecem ter sido tão exclusivas que mesmo aqueles membros da
família que existem se afastaram, de modo que, após o falecimento, a sobrevivente não
encontrou pessoas nem interesses para distraí-la de seu pesar. Finalmente, as relações
matrimoniais talvez tenham sido de natureza ambivalente, pelo fato de o marido se ressentir
da conduta possessiva da esposa.
92

Em todo o caso, a sobrevivente geralmente descobre alguma fonte de auto-recriminação e
castiga-se por não ter conseguido ser melhor esposa e por ter permitido que seu marido
morresse. O pesar de tais pessoas freqüentemente parece conter um elemento de auto-punição,
como se o luto perpétuo se tivesse convertido num dever sagrado para com o morto, por meio
do qual o cônjuge sobrevivente poderá castigar-se e expiar suas culpas.
O tratamento de tais pacientes muitas vezes é difícil, pois elas parecem,
freqüentemente, saborear a oportunidade que lhes é dada de repetirem, sempre de novo, o
doloroso drama da perda que sofreram. Embora não haja concordância geral quanto ao valor
da psicoterapia para essas pacientes, muito pode ser feito para ajudar a restabelecer seu
envolvimento com o mundo. A família, o pároco local ou o serviço de amparo de uma
organização como Cruse ou Samaritans podem ser mobilizados para atuar como ponte,
enquanto que uma missa comemorativa, umas férias com amigos ou mesmo a redecoração da
casa podem constituir um momento culminante, um rito de passagem do papel de enlutada
para o novo papel de viúva.
Vista sob esse aspecto, a viuvez torna-se um problema de família. Portanto,
precisamos saber quais as mudanças que ocorrem na estrutura dinâmica de uma família
quando morre um de seus principais membros. Informações relevantes têm sido extraídas de
um estudo que está sendo realizado sobre jovens viúvos e viúvas *(1). Além dos problemas
emocionais, o problema mais imediato é o dos papéis. Quem, por exemplo, vai assumir os
papéis do marido morto? Alguns deles, como a administração dos assuntos domésticos,
passam para o membro sobrevivente do casal. Outros permanecem vagos; assim, muitas
viúvas dormem com um travesseiro ou almofadão ao lado delas na cama. Uma jovem viúva
geralmente tentará perceber seu marido morto como uma constante ajuda na tomada de
decisões, e fazer dos desejos e preferências dele a base para boa parte do próprio
comportamento dela. Quando for preciso tomar decisões que se situam fora do alcance desse
“árbitro interno”, ela recorrerá freqüentemente ao irmão do marido, como a pessoa mais
próxima dele em termos de cultura e sangue. Do mesmo modo, um viúvo tende a considerar a
sua cunhada como o membro mais útil da família de sua esposa e a procurar a ajuda dela para
tomar decisões acerca dos filhos ou dos assuntos domésticos.
Com o passar do tempo, entretanto, essas atribuições de papéis fenecem e são
seguidas, com freqüência, de uma gradual desintegração da família extensa. O viúvo ou a
viúva deixa de considerar a família do cônjuge como uma fonte de apoio e começa a
desenvolver um maior grau de autoconfiança, apesar da solidão e das tensões familiares
internas que isso acarreta.

Nota de rodapé:

*(1). Ver o livro de Glick, Weiss e Parkes (1974).
93

Os amigos e os filhos convertem-se então numa importante fonte de afirmação, à medida que
o viúvo ou a viúva desenvolve uma postura mais firme e enfrenta o mundo de novo.
A capacidade de um viúvo ou de uma viúva para enfrentar esses novos papéis e
responsabilidades depende claramente, em parte, da personalidade e experiência anterior, e,
em parte, das exigências feitas pelo ambiente familiar e do apoio que encontrar nele. Os filhos
pequenos podem ser um fardo ou uma bênção, assim como os parentes do cônjuge falecido; e
a mulher sem experiência de um trabalho fora de casa terá de superar muitos obstáculos. Não
surpreende que uma proporção significativa de viúvas não consiga encontrar qualquer modo
satisfatório de vida. Quando, depois de treze meses de viuvez, foram indagadas sobre como se
sentiam, 74% das jovens viúvas de Boston concordaram em que “você nunca supera isso”.
Um estudo que ilustra o papel que amigos e parentes desempenham para influenciar o
desfecho do luto foi realizado por Maddison e Walker (1967). Estudaram dois grupos, cada
um composto por vinte viúvas que concordaram em ser entrevistadas. Esses grupos foram
equiparados, o máximo possível, de acordo com as variáveis sociológicas mais comuns. Um
grupo tinha sido selecionado porque, ao fim de dez meses de viuvez, todos os seus membros
pareciam, com base em suas fichas de saúde, ter chegado a um resultado bastante favorável; o
outro grupo tinha sido selecionado porque suas fichas de saúde sugeriam não ter sido atingido
um resultado satisfatório. As entrevistas confirmaram que, de fato, as fichas de saúde
constituem um bom indicador de como uma pessoa está enfrentando os problemas emocionais
da viuvez.
No decorrer de longas entrevistas semi-estruturadas, o entrevistador indagou quem
tinha se colocado à disposição da viúva durante seus primeiros três meses de viuvez, e, a
respeito de cada uma dessas pessoas, se a considerara útil, inútil ou neutra. Além disso, foram
feitas perguntas para apurar se a viúva achara fácil ou difícil expressar seus sentimentos com
cada pessoa mencionada, se elas a tinham encorajado ou não a se deter sobre o passado, se
tinham insistido em dirigir sua atenção para os problemas do presente e do futuro, e se tinham
oferecido qualquer tipo de ajuda prática. Como o objetivo da investigação era apurar apenas
como as próprias viúvas lembravam seu relacionamento com outras pessoas, nenhuma
tentativa foi feita para checar se seus depoimentos correspondiam aos das pessoas com quem
elas tinham estado em contato.
Quando as respostas dos dois grupos de viúvas foram comparadas,
94

destacaram-se as seguintes diferenças. Em primeiro lugar, as viúvas cuja condição após doze
meses era desfavorável relataram que tinham recebido muito pouco encorajamento, tanto para
exprimirem seu pesar e raiva como para falarem sobre o marido morto e o passado.
Queixaram-se de que, pelo contrário, as pessoas pareciam tomar mais difícil a expressão de
sentimentos ao insistirem para que elas se refizessem e se controlassem, que afinal de contas
não eram as únicas a sofrer, que seria uma prova de sensatez enfrentarem os problemas do
futuro em lugar de ficarem repisando esterilmente o passado. Em contrapartida, as viúvas cujo
resultado do luto foi razoavelmente satisfatório relataram como as pessoas com quem tinham
tido contato haviam facilitado para elas o choro desinibido e a expressão de seus intensos
sentimentos; e descreveram o alívio que tinha sido poderem falar longa e livremente sobre os
tempos passados com o marido e as circunstâncias da morte dele.
Como interpretar esses dados? Uma explicação óbvia, e talvez a mais aceitável, é que
a atitude desses amigos e parentes levou a viúva a suprimir ou evitar expressões de pesar e
que o resultado patológico ocorrera em conseqüência disso. Pode ser também que a viúva
tenha atribuído a seus amigos e parentes o seu próprio medo de expressar sentimentos,
responsabilizando-os por sua própria incapacidade. Ou ambos os processos podem ter
ocorrido conjuntamente.
Entretanto, nem todas as formas de desfecho patológico descritas por Maddison e
Walker podem ser atribuídas à inibição ou evitação dos sentimentos de pesar; muitas viúvas
mostraram o síndrome do pesar crônico, descrito acima. Nesses casos, é possível que as
experiências descritas pelas viúvas reflitam um colapso de comunicação, de tal modo que a
família não era vista como compreensiva e útil. Faltando a compreensão e o apoio de parentes
e amigos, a viúva pode muito bem ter-se visto em dificuldades para encontrar qualquer
incentivo para recomeçar tudo, para se envolver em um novo investimento no mundo, com
todos os perigos de uma nova decepção e perda. Em vez disso, parece que a tendência dela é
de se voltar para o passado, de buscar constantemente o marido, que ela só poderá encontrar
nas recordações, e de condenar-se a um pesar persistente.
Isto nos leva ao nosso ponto final. Uma parte da teoria apresentada na literatura
psicanalítica e a linguagem usada nas discussões clínicas não nos satisfazem inteiramente. Por
exemplo, não é incomum o choro de adultos, após uma perda desastrosa, ser classificado
como “uma regressão”, ou o forte anseio pela companhia de uma outra pessoa, um impulso de
apego a outrem, ser descrito como expressão de “dependência infantil”. Não só acreditamos,
com bases científicas, que
95

essa teoria está equivocada, como representa francamente uma atitude que, se transferida para
o trabalho clínico, só pode reforçar as tendências de uma pessoa que sofreu uma perda a
sentir-se culpada e ter vergonha dos próprios sentimentos e comportamento que, em nosso
entender, mais a ajudarão a superar a perda, desde que os expresse.
Existem outras palavras e conceitos que acreditamos levarem às mesmas dificuldades.
“Pensamento mágico” e “fantasia” são termos que devem ser usados com extrema cautela.
Uma fantasia é, por definição, algo inteiramente não-realista; assim, designar as esperanças e
expectativas de uma criança quanto ao regresso de sua mãe morta como
“realização de um desejo em fantasia” é, em nosso entender, não fazer justiça a tais
sentimentos. A crença da Sra. Q em que seu pai ainda poderia estar vivo estava certamente
equivocada, como ela própria suspeitava, mas nada tinha de absurda. Ocasionalmente
cometem-se erros, e pessoas desaparecidas reaparecem quando menos são esperadas. As
idéias de Bill, o rapaz de 16 anos que alimentava a esperança de reencontrar sua mãe, eram
provavelmente mal concebidas mas, dadas certas premissas, constituíam um plano bastante
legitimo. Se evitarmos termos tão carregados como “negação da realidade” e “fantasia”, e
preferirmos usar frases tais como “não acreditar que tenha ocorrido X”, “acreditar que Y
ainda pode ser possível” ou “fazer um plano para conseguir Z”, parece-nos que
conseguiremos ver o mundo mais como os nossos pacientes o vêem, e manter aquela posição
neutra e empática a partir da qual, como sabemos por experiência, teremos mais condições de
os ajudar.
96

6. Autoconfiança e algumas condições que a promovem *(1).

No outono de 1970, a Tavistock Clinic celebrou o Jubileu de Ouro de sua fundação. Para
assinalar o evento, a Clínica e sua organização-irmã, o Tavistock Institute of Human
Relations, organizaram uma conferência em que foram apresentados trabalhos descrevendo as
pesquisas em
curso nas duas instituições. Uma versão do presente estudo foi incluída nessa conferência, e
uma versão ampliada foi publicada, mais tarde, nas atas da conferência.

O conceito de base segura.

Acumulam-se evidências de que seres humanos de todas as idades são mais felizes e mais
capazes de desenvolver melhor seus talentos quando estão seguros de que, por trás deles,
existem uma ou mais pessoas que virão em sua ajuda caso surjam dificuldades. A pessoa em
quem se confia, também conhecida como uma figura de ligação (Bowlby, 1969), pode ser
considerada aquela que fornece ao seu companheiro (ou à sua companheira) uma base segura
a partir da qual poderá atuar.
A necessidade de uma figura de ligação, uma base pessoal segura, não se limita
absolutamente às crianças, se bem que, em virtude de seus impulsos durante os primeiros anos
de vida, durante esses anos tal necessidade seja mais evidente e, portanto, objeto de mais
estudos. Há boas razões para acreditar, entretanto, que a necessidade ocorre também com
adolescentes e adultos maduros.

Nota de rodapé:

*(1). Originalmente publicado em Gosling, R. G. (org.) (1973), Support, Innovation and
Autonomy. Londres: Tavistock Publications. Reimpresso com permissão do Tavistock
Institute of Human Relations.
97

Reconhece-se que, nestes últimos, a necessidade é, em geral, menos evidente, e é provável
que seja diferente segundo os sexos e segundo as diferentes fases da vida. Por esses motivos,
e também por razões ligadas aos valores da cultura ocidental, a necessidade de uma base
segura para adultos tende freqüentemente a ser esquecida, ou mesmo denegrida.
No quadro de funcionamento da personalidade que daí emerge existem dois conjuntos
principais de influências. O primeiro diz respeito à presença ou ausência, parcial ou total, de
uma figura de confiança, disposta e apta a fornecer o tipo de base segura necessária em cada
fase do ciclo vital. Estas constituem as influências externas ou ambientais. O segundo
conjunto diz respeito à capacidade ou incapacidade relativa de um indivíduo, primeiro, para
reconhecer quando uma pessoa é digna de confiança e está disposta a fornecer uma base, e,
segundo, se houver esse reconhecimento, para colaborar com tal pessoa de modo que seja
iniciada e mantida uma relação mutuamente gratificante, Estas constituem as influências
internas ou organísmicas.
Ao longo da vida, os dois conjuntos de influências interatuam de maneira complexa e
circular. Num sentido, o tipo de experiência que uma pessoa tem, especialmente durante a
infância, tem uma grande influência sobre o fato de ela esperar ou não encontrar mais tarde
uma base pessoal segura, e também sobre o grau de competência que possui para iniciar e
manter relações mutuamente gratificantes, quando a oportunidade se oferece. No sentido
oposto, a natureza das expectativas que uma pessoa tem e o grau de competência que possui
desempenham um importante papel na determinação dos tipos de pessoas com quem se
associa e do modo como, nesse caso, elas a tratam. Em virtude dessas interações, seja qual for
o primeiro padrão a se estabelecer, é esse que tende a persistir. Esta é uma das principais
razões por que o padrão de relações familiares que uma pessoa experimenta durante a infância
se reveste de uma importância tão decisiva para o desenvolvimento de sua personalidade.
Vista sob esta luz, o funcionamento da personalidade saudável em toda e qualquer
idade reflete, em primeiro lugar, a capacidade do indivíduo para reconhecer figuras adequadas
que estão dispostas e aptas a proporcionar-lhe uma base segura, e, em segundo lugar, a sua
capacidade para colaborar com essas figuras em relações mutuamente gratificantes. Em
contrapartida, muitas formas de funcionamento da personalidade perturbada refletem a
reduzida capacidade de um indivíduo para reconhecer figuras adequadas e dispostas a
fornecer uma base segura e (OU) uma reduzida capacidade para colaborar em relações
gratificantes
98

com qualquer dessas figuras, quando encontradas. Tal deterioração pode ser de diversos graus
e assumir muitas formas: apego ansioso, exigências excessivas ou muito intensas para a idade
e para a situação, não-envolvimento indiferente e independência desafiadora.
Paradoxalmente, a personalidade saudável, quando vista sob essa luz, mostra não ser
tão independente quanto os estereótipos culturais supõem. Os ingredientes essenciais são a
capacidade para confiar nos outros quando a ocasião requer, e para saber em quem é
conveniente confiar. Uma pessoa funcionando de modo saudável é, pois, capaz de trocar
papéis quando a situação muda. Ora está fornecendo uma base segura a partir da qual seu
companheiro ou companheiros podem atuar; ora sente satisfação em confiar em um ou outro
de seus companheiros que, em compensação, lhe proporciona essa base.
A capacidade para adotar um ou outro papel, de acordo com as circunstâncias, é bem
ilustrada por muitas mulheres durante sucessivas fases de suas vidas, desde a gravidez até a
maternidade, passando pelo parto. Uma mulher capaz de enfrentar com êxito essas mudanças
está apta, durante a gravidez e o puerpério, segundo apurou Wenner (1966), tanto a expressar
o seu desejo de apoio e ajuda como também a proporcionar apoio e ajuda, de uma forma
direta e efetiva, a uma figura apropriada. Seu relacionamento com o marido é estreito, e ela se
mostra ávida e contente por confiar no apoio dele. Por sua vez, ela é capaz de dá-lo
espontaneamente a outros, inclusive ao seu bebê. Por outro lado, diz Wenner, uma mulher que
passa por sérias dificuldades emocionais durante a gravidez e o puerpério tem,
comprovadamente, dificuldade em confiar em outras pessoas. Ela é incapaz de expressar seu
desejo de apoio ou então expressa-o de um modo agressivamente exigente, refletindo num
caso ou outro sua falta de confiança em que esse apoio lhe será dado. Comumente, ela se
mostra insatisfeita com o que lhe pode ser dado e é incapaz de dar espontaneamente a outrem.
Para fornecer a continuidade de apoio potencial que é a essência de uma base segura,
as relações entre os indivíduos envolvidos deve persistir durante um período de tempo,
medido em anos. Embora, para a clareza da exposição, a teoria seja freqüentemente melhor
formulada em termos não-emocionais, cumpre ter sempre em mente que muitas das emoções
humanas mais intensas surgem durante a formação, manutenção, interrupção e renovação
daquelas relações em que um parceiro está fornecendo uma base segura ao outro, ou em que
eles alternam seus papéis. Enquanto que a manutenção inalterada de tais relações é
experimentada como uma fonte de segurança, a ameaça de perda provoca ansiedade e
freqüentemente raiva, e a perda real provoca o turbilhão de sentimentos, que é o pesar.
99

A posição teórica proposta inclui um certo número de conceitos conhecidos da teoria
psicanalítica da relação com o objeto; por exemplo, o conceito de dependência madura, de
Fairbairn, e o conceito de ambiente facilitador, de Winnicott, (Fairbairn, 1952; Winnicott,
1965). Difere, porém, da teoria clínica tradicional, em numerosos pontos. Um deles é a
evitação dos termos “dependência” e “necessidades de dependência”, os quais, segundo se
sustenta, são parcialmente responsáveis pela confusão muito séria na teoria existente. Um
segundo ponto é atribuir importância, para o desenvolvimento, a experiências ocorridas
durante todos os anos da infância e adolescência, e não quase exclusivamente aos primeiros
meses ou anos de vida. Outros pontos são que o esquema proposto é vazado em termos de
teoria de controle, e que se apóia não só em dados clínicos mas também nas conclusões de
uma vasta gama de estudos descritivos e experimentais, tanto de primatas humanos como não
humanos *(1).
Os objetivos deste ensaio são indicar algumas das evidências que corroboram o ponto
de vista esboçado, examinar sucintamente o que se conhece das condições que favorecem ou
impedem o desenvolvimento da personalidade saudável, tal como é aqui concebida, e, se
possível, esclarecer questões teóricas que têm sido comprovadamente embaraçosas.

Estudos de homens e jovens autoconfiantes.

Durante as duas últimas décadas, numerosos clínicos voltaram suas atenções para o estudo de
indivíduos que, é razoável crer, possuem personalidades saudáveis e funcionando bem. Não
só essas pessoas não mostram nenhum dos sinais habituais de distúrbio da personalidade,
tanto no presente quanto, até onde se pode averiguar, no passado, como também são
manifestamente autoconfiantes e bem-sucedidas em suas relações humanas e em seu trabalho.
Embora cada um dos estudos publicados até agora seja inadequado sob certos aspectos, as
conclusões são sugestivas. Em primeiro lugar, essas personalidades bem adaptadas
apresentam um perfeito equilíbrio entre, por um lado, iniciativa e auto-confiança, e, por outro,
a capacidade para buscar ajuda e fazer uso de ajuda quando a ocasião requer.

Nota de rodapé:

*(1). Tanto a teoria propriamente dita como as provas em que ela assenta são apresentadas em
major detalhe nos primeiro e segundo volumes de Attachment and Loss (Bowlby, 1969 e
1973).
100

Em segundo lugar, um exame de seu desenvolvimento mostra que elas foram criadas em
famílias estreitamente unidas, com pais que, segundo parece, nunca deixaram de lhes
propiciar apoio e estímulo. Em terceiro lugar, embora neste ponto as provas sejam menos
substanciais, a própria família foi, e ainda é, parte de uma rede social estável em que a criança
em desenvolvimento é bem acolhida e pode misturar-se com adultos e companheiros de sua
idade, muitos dos quais lhe são familiares desde os seus primeiros anos de vida.
Até onde nos é dado ver, cada estudo oferece o mesmo quadro — o quadro de uma
base familiar estável, a partir da qual primeiro a criança, depois o adolescente e, finalmente, o
jovem adulto se afasta numa série de saídas cada vez mais longas. Embora a autonomia seja
evidentemente encorajada em tais famílias, ela não é forçada. Cada passo segue o anterior,
numa série de estágios acessíveis. Embora os laços familiares possam ser atenuados, nunca
são quebrados.
Os astronautas têm uma posição destacada como homens autoconfiantes, capazes de
viver e trabalhar eficazmente em condições de grande risco e estresse. Seus desempenhos,
suas personalidades e suas histórias foram estudados por Korchin e Ruff. Em dois artigos
(Korchin e Ruff, 1964; Ruff e Korchin, 1967), eles publicaram suas conclusões preliminares
sobre uma pequena amostra de sete homens.
Apesar do elevado grau de autoconfiança e uma nítida preferência pela ação
independente, todos os homens declararam sentir-se “satisfeitos quando é necessária a
dependência de outros” e possuir capacidade para “manter a confiança, em condições que
poderiam parecer de desconfiança”. O desempenho da tripulação da Apolo 13, que sofreu
uma avaria no caminho para a Lua, é testemunho dessa capacidade. Não só os membros da
tripulação mantiveram sua própria eficiência em condições de grande perigo, mas
continuaram cooperando, confiante e eficazmente, com seus companheiros na base terrestre.
Passando às suas biografias, verificamos que esses homens “cresceram em
comunidades relativamente pequenas e bem organizadas, com uma considerável solidariedade
familiar e forte identificação com o pai... [Mostraram] um padrão de crescimento
relativamente tranqüilo e sem grandes obstáculos, em que puderam enfrentar os desafios
existentes, atingir níveis crescentes de aspirações, adquirir cada vez maior confiança e, dessa
forma, ganhar em competência”.
Um outro estudo, desta vez sobre jovens universitários que pareciam a seus
professores possuir uma boa saúde mental e prometer um bom futuro como líderes de sua
geração e como trabalhadores em prol da comunidade, foi relatado por Grinker (1962).
101

Entre os 65 estudantes entrevistados, Grinker considerou que apenas alguns deles
manifestavam uma estrutura neurótica de caráter. A grande maioria era de jovens íntegros,
sinceros e precisos em suas auto-avaliações, com “uma capacidade para estabelecer relações
humanas estreitas e profundas... com os membros de suas famílias, colegas, professores e o
entrevistador”. Seus depoimentos sobre experiências de ansiedade ou tristeza sugeriram que
tais sentimentos surgiam em situações apropriadas e não eram graves nem prolongados.
Quanto às suas experiências de vida familiar, o quadro geral descrito pelos estudantes
é notavelmente semelhante ao relatado pelos astronautas. Em quase todos os casos, ambos os
pais ainda estavam vivos. O quadro típico apresentado era o de um lar feliz e tranqüilo, em
que ambos os pais compartilhavam responsabilidades e interesses, e eram vistos pelos filhos
como generosos e afetuosos. Durante a infância, afirmaram, tinham-se sentido seguros com a
mãe, acima de qualquer outra pessoa. Ao mesmo tempo, identificaram-se fortemente com o
pai. Grinker relata muito mais provas que apóiam essas conclusões.
Os dados de um estudo do desenvolvimento, dos 10 aos 17 anos, de 34 adolescentes
de caracteres muito diferentes (Peck e Havighurst, 1960), e também de um pequeno estudo de
estudantes bem-sucedidos, durante sua transição do curso ginasial para o colegial (Murphey e
outros, 1963), são muito semelhantes aos apresentados por Grinker. As provas apresentadas
sugerem que a autoconfiança e a capacidade para confiar nos outros são fruto de uma família
que fornece sólido apoio à sua prole, combinado com o respeito por suas aspirações pessoais,
senso de responsabilidade e aptidão para lidar com o mundo. Em vez de abalar a
autoconfiança de um jovem, parece claro que o forte apoio da família pode estimulá-la.
Conclusões semelhantes são relatadas num estudo mais recente de 73 rapazes adolescentes
(Offer, 1969).
Esse mesmo padrão de autoconfiança baseada numa ligação segura com uma figura
em quem se confia, e desenvolvendo-se a partir desta, pode ser observado desde o primeiro
ano de vida de uma criança. Para saber se esses padrões primitivos são ou não os verdadeiros
precursores dos que se desenvolvem posteriormente, é preciso aguardar novas pesquisas.
Entretanto, para os que têm experiência em psiquiatria familiar, parece provável que sejam.
102

Desenvolvimento durante a infância.

Desde os primeiros trabalhos de Freud, um princípio fundamental da psicanálise tem sido de
que as bases da personalidade são alicerçadas durante os primeiros anos da infância. As
opiniões divergiram, porém, sobre quais os anos mais importantes, quais os processos
psicológicos envolvidos e que experiências influem na determinação do resultado final. Na
medida em que dados empíricos relevantes estavam faltando, era inevitável que o debate
chegasse a um beco sem saída. Agora, entretanto, graças ao trabalho de psicanalistas,
psicólogos clínicos e etologistas, as condições estão mudando. Embora os dados ainda sejam
lamentavelmente insuficientes, os que existem já são suficientes para permitir uma tentativa
de articulação sistemática dos dados e da teoria. Além disso, graças aos progressos registrados
na biologia teórica, a própria teoria pode ser reformulada de um modo mais adequado aos
dados. Assim, atualmente as perspectivas de avanço são boas.
Entre os que se situam na vanguarda desse movimento, não se pode deixar de citar
Mary Salter Ainsworth, que, depois de ter trabalhado na Tavistock entre 1950 e 1954,
continuou estudando os problemas de ligação e separação. Como resultado desses estudos, ela
publicou um estudo naturalista sobre a interação mãe-criança em Uganda (Ainsworth, 1967),
e está agora apresentando os resultados de um estudo planejado sobre a interação mãe-bebê
em famílias brancas de classe média em Baltimore, Maryland.
Durante o seu estudo sobre a infância, em Uganda, Ainsworth notou como os bebês,
uma vez adquirida mobilidade, comumente usam a mãe como uma base a partir da qual
realizam suas explorações. Quando as condições são favoráveis, afastam-se da mãe em saídas
exploratórias e regressam para junto dela de tempos em tempos. Por volta dos oito meses de
idade, quase todos os bebês observados que tinham tido uma figura materna estável a quem
estavam ligados mostraram esse comportamento; mas em caso de ausência da mãe, tais saídas
organizadas tornavam-se muito menos evidentes ou cessavam. Subseqüentemente, Anderson
(1972) realizou observações semelhantes de exploração a partir de uma base, por crianças
entre quinze meses e dois anos e meio que brincavam num recanto isolado de um jardim de
Londres enquanto suas mães estavam tranqüilamente sentadas num banco.
Em seu projeto cuidadosamente planejado em Baltimore, Ainsworth não só pôde
estudar mais minuciosamente essa espécie de comportamento mas, além disso, descreveu
muitas variações individuais,
103

observadas numa amostra de 23 bebês *(1) de doze meses de idade. Foram feitas observações
do comportamento exploratório e de ligação dos bebês, e do equilíbrio entre ambos, quando
os bebês estavam em casa com suas mães e também quando eram colocados numa situação
ligeiramente estranha de teste. Além disso, tendo obtido dados sobre o tipo de cuidados
matemos que cada bebê recebera durante o primeiro ano de vida (mediante sessões
prolongadas de observação a intervalos de três semanas nos lares das crianças), Ainsworth
tem condições de propor hipóteses que conjuguem certos tipos de organização
comportamental aos doze meses a certos tipos de experiência anterior de cuidados maternos.
O projeto está descrito e os resultados preliminares são relatados em Ainsworth e Bell (1970);
as diferenças individuais e seus antecedentes são examinados em Ainsworth, Bell e Stayton
(1971, 1974).
As conclusões do estudo mostram que, com apenas algumas exceções, o modo como
um bebê de doze meses se comporta, com ou sem sua mãe em casa, e o modo como se
comporta com e sem ela numa situação ligeiramente estranha de teste, têm muita coisa em
comum. Tomando por base as observações de comportamento nos dois tipos de situação, é
possível classificar os bebês em cinco grupos principais, de acordo com dois critérios: (a) se
exploram muito ou pouco quando em situações diferentes, e (b) como tratam a mãe — quando
ela está presente, quando ela se afasta e quando ela regressa *(2).
Os cinco grupos, com um certo número de bebês classificáveis em cada um deles, são
os seguintes:
GRUPO P: O comportamento exploratório de um bebê deste grupo varia com a situação e é
mais evidente na presença da mãe. Ele usa a mãe como base, mantém-se atento ao paradeiro
dela e troca olhares com ela. De tempos em tempos, volta para junto da mãe e desfruta do
contato com ela. Quando a mãe regressa, após uma breve ausência, o bebê a recebe
efusivamente. Nenhuma ambivalência se manifesta de modo evidente em relação à mãe. N =
8.

Nota de rodapé:

*(1). Embora a amostra total estudada na situação estranha compreenda 56 bebês, somente 23
deles foram também observados com a mãe em casa.
*(2). A classificação aqui apresentada, baseada no comportamento em ambos os tipos de
situação, é uma versão ligeiramente modificada da que foi apresentada por Ainsworth e seus
colaboradores (1971), na qual o comportamento de uma criança em seu próprio lar é a única
fonte de dados. Os bebês classificados aqui nos grupos P, Q e R são idênticos aos
classificados nos Grupos I, II e III de Ainsworth. Os bebês classificados aqui no Grupo T são
os mesmos classificados no Grupo V de Ainsworth, menos um bebê que, embora passivo em
casa, mostrou ser acentuadamente ativo no teste de situação estranha e foi, portanto,
transferido para o Grupo S. Os bebês no Grupo S são os mesmos do Grupo IV de Ainsworth,
mais o bebê transferido. A classificação aqui apresentada teve a aprovação da professora
Salter Ainsworth.
104

GRUPO Q: O comportamento destes bebês é muito semelhante ao dos bebês do Grupo P.
Diferem em que, primeiro, os bebês deste grupo tendem a explorar mais ativamente na
situação estranha e, segundo, tendem a ser um tanto ambivalentes em relação à mãe. Por um
lado, se ignorado por ela, um bebê pode tomar-se intensamente exigente; por outro, ele pode,
em contrapartida, ignorá-la ou evitá-la. Entretanto, em outras ocasiões, o par é capaz de
estabelecer uma comunicação recíproca feliz. N = 4.
GRUPO R: Um bebê deste grupo explora muito ativamente, quer a mãe esteja presente ou
ausente, quer a situação seja familiar ou estranha. Ele tende, além disso, a depender muito
pouco da mãe e, com freqüência, não está interessado em que ela o pegue no colo. Em outras
ocasiões, especialmente depois que sua mãe o deixou sozinho na situação estranha, o bebê
comporta-se de modo inteiramente contrário, ora buscando a proximidade da mãe e depois
evitando-a, ora procurando o contato e depois esquivando-se dela. N = 3.
GRUPO S: O comportamento dos bebês deste grupo é inconstante. Às vezes, parecem muito
independentes, embora, usualmente, apenas por breves períodos; outras vezes, parecem
intensamente ansiosos quanto ao paradeiro da mãe. São nitidamente ambivalentes no que se
refere ao contato com ela, buscando-o com freqüência, mas não parecendo desfrutá-lo quando
lhe é propiciado ou mesmo resistindo-lhe vigorosamente. De um modo bastante paradoxal,
eles tendem a ignorar a presença da mãe, quando na situação estranha, e a evitar a
proximidade e o contato com ela. N = 5.
GRUPO T: Estes bebês tendem a ser passivos, em casa e na situação estranha. Mostram
relativamente pouco comportamento exploratório, mas muito comportamento auto-erótico.
São notoriamente ansiosos acerca do paradeiro da mãe e choram na ausência dela; contudo,
podem ser acentuadamente ambivalentes com ela, quando a mãe regressa.
N=3.
Quando se faz uma tentativa de avaliação desses diferentes padrões de comportamento como
precursores do futuro desenvolvimento da personalidade, as oito crianças dos Grupos S e T
parecem ser as menos suscetíveis de desenvolver uma autoconfiança estável, combinada com
a confiança em outras pessoas. Algumas são passivas em ambas as situações; outras
exploram, mas só brevemente. A maior parte delas parece ansiosa quanto ao paradeiro da
mãe, e as relações com esta tendem a ser extremamente ambivalentes.
105

As três crianças do Grupo R são extremamente ativas na exploração, e parecem ser
intensamente independentes. Entretanto, suas relações com a mãe são cautelosas, mesmo
ligeiramente indiferentes. Para um clínico, elas dão a impressão de serem incapazes de confiar
nos outros e de terem desenvolvido uma independência prematura.
As quatro crianças do Grupo Q são mais difíceis de avaliar. Parecem situar-se a meio
caminho entre as do Grupo R e as do Grupo P.
Se a perspectiva adotada neste estudo for correta, as oito crianças do Grupo P serão as
que têm maiores probabilidades de, no devido tempo, desenvolver uma autoconfiança estável
combinada com a confiança em outras pessoas; pois são as que se movimentam mais livre e
confiantemente entre um interesse ativo na exploração de seu meio ambiente, e as pessoas e
coisas nele existentes, sem deixar de manter um estreito contato com a mãe. E verdade que
mostram, freqüentemente, menos autoconfiança do que as crianças dos Grupos Q e R, e que
na situação estranha são mais afetadas do que estas últimas pelas breves ausências da mãe.
Entretanto, suas relações com a mãe parecem ser sempre entusiásticas e confiantes, quer
expressas por beijos e abraços, quer em trocas de olhares e vocalizações à distância, e isso
parece ser muito promissor para o futuro delas.
Quando o tipo de cuidados maternos recebidos por cada um desses bebês é examinado,
usando os dados obtidos durante as longas visitas que os investigadores fizeram à casa de
cada um deles, de três em três semanas, durante o primeiro ano de vida do bebê, manifestam-
se interessantes diferenças entre os bebês de cada um dos cinco grupos.
Ao avaliar o comportamento de uma mãe em relação ao seu bebê, Ainsworth usa
quatro escalas distintas de nove pontos. Contudo, as classificações nessas escalas se
correlacionam a tal ponto que, no presente estudo, baseamo-nos nos resultados de apenas uma
escala. Trata-se da escala que mede o grau de sensibilidade ou insensibilidade manifestado
pela mãe aos sinais e comunicações de seu bebê. Enquanto que a mãe sensível parece estar
constantemente “sintonizada” para receber os sinais de seu bebê, é capaz de interpretá-los
corretamente e responder-lhes pronta e apropriadamente, a mãe insensível freqüentemente não
notará os sinais do seu bebê, interpretá-los-á incorretamente quando os notar, e responderá a
eles tardiamente, de um modo inadequado, ou não lhes dará resposta alguma.
Quando são examinadas as classificações nesta escala para as mães dos bebês em cada
um dos cinco grupos, verifica-se que as mães dos oito bebês no Grupo P obtêm uma
classificação uniformemente elevada (entre 5,5 e 9,0), as dos onze bebês nos Grupos R, S e T
situam-se numa
106

faixa uniformemente baixa (1,0 a 3,5) e as dos quatro bebês do Grupo Q estão numa faixa
intermediária (4,5 a 5,5). Essas diferenças são estatisticamente significativas (usando o Teste
U de Mann-Whitney).
As diferenças entre grupos, na mesma direção e, grosso modo, da mesma ordem de
magnitude, são igualmente apuradas quando as mães são classificadas nas outras três escalas.
Assim, as mães de bebês do Grupo P obtêm classificações elevadas nas escalas de aceitação-
rejeição, cooperação-interferência e acessibilidade desconhecimento. Inversamente, as mães
de bebês dos Grupos R, S e T são classificadas numa faixa de média para baixa em cada uma
dessas três escalas. As mães de bebês no Grupo Q mostram classificações que se situam mais
ou menos a meio caminho entre as classificações das mães de bebês no Grupo P e as de bebês
nos Grupos R, 5 e T, respectivamente.
É evidente que um grande número de novos estudos será ainda necessário para que
seja possível extrair conclusões com um alto grau de confiabilidade. Não obstante, os padrões
gerais de desenvolvimento da personalidade e de interação mãe-bebê visíveis aos doze meses
de idade são suficientemente semelhantes ao que se observa do desenvolvimento da
personalidade e da interação entre pais e filhos em anos subseqüentes para que seja plausível
acreditar que uns são os precursores dos outros. Pelo menos, os dados oferecidos por
Ainsworth demonstram que um bebê cuja mãe é sensível, acessível e receptiva, que aceita o
comportamento dele e é cooperativa no trato e no relacionamento com ele, está muito longe
de ser a criança exigente e infeliz que algumas teorias poderiam sugerir. Pelo contrário, os
cuidados maternos desse tipo são evidentemente compatíveis com uma criança que está
desenvolvendo uma medida limitada de autoconfiança por volta do seu primeiro aniversário,
combinada com um alto grau de confiança em sua mãe e de prazer na companhia dela *(1).
Outras fortes evidências apontando nessa direção foram apresentadas por Baumrind
(1967), que realizou um estudo muito minucioso de 32 crianças de jardim de infância, de três
e quatro anos de idade, e suas mães.
Assim, até onde alcançam as parcas evidências de que dispomos, sustenta-se a
hipótese de que uma autoconfiança bem alicerçada desenvolve-se paralelamente à confiança
num dos pais, o qual proporciona à criança uma base segura a partir da qual ela realizará suas
explorações.

Nota de rodapé:

*(1). Publicações mais recentes da Dra. Salter Ainsworth e seus colegas serão encontradas
num estudo de recapitulação de Ainsworth (1977) e numa monografia definitiva, Ainsworth e
Outros (1978).
107

Pontos de diferença em relação às formulações teóricas atuais.

Embora o esquema teórico aqui apresentado não seja muito diferente daquele adotado
implicitamente por muitos clínicos, ele difere num certo número de pontos de boa parte da
teoria correntemente ensinada. Entre essas diferenças, citaremos as seguintes:
(a) Uma ênfase, no esquema atual, sobre o parâmetro ambiental familiar-estranho, a
qual não existe na teoria tradicional;
(b) Ênfase, no esquema atual, sobre os muitos outros componentes da interação mãe-
bebê além da amamentação; sustenta-se que a excessiva ênfase sobre a amamentação
prejudicou imensamente a nossa compreensão do desenvolvimento da personalidade e as
condições que o influenciam;
(c) A substituição dos conceitos de “dependência” e “independência” pelos conceitos
de ligação, confiança, segurança e autoconfiança;
(d) A substituição da teoria da oralidade derivada da teoria dos objetos internos por
uma teoria de modelos operacionais do mundo e do eu, os quais são concebidos como sendo
construídos por cada indivíduo em resultado de sua experiência, determinam suas
expectativas, e com base nos quais o indivíduo traça seus planos.
Examinemos, uma de cada vez, essas diferenças, as quais estão intimamente
interligadas.
A imensa importância na vida de homens e animais do parâmetro familiar-estranho só
foi inteiramente reconhecida nas duas últimas décadas, muito depois de terem sido formuladas
as várias versões de teoria clínica ainda ensinadas. Sabe-se hoje que, em numerosas espécies,
sempre que uma situação se toma familiar a um indivíduo, ela é tratada como se fornecesse
segurança, ao passo que qualquer outra situação é tratada com reserva. Ao estranhamento
reage-se de um modo ambivalente; por um lado, ele é gerador de medo e retraimento, por
outro, suscita curiosidade e investigação. A predominância de uma ou de outra resposta
antitética depende de muitas variáveis: do grau de estranheza da situação, da presença ou
ausência de uma companhia, e do fato de o indivíduo que responde ser maduro ou imaturo,
bem disposto ou cansado, saudável ou doente.
A razão pela qual a familiaridade e a estranheza teriam acabado por exercer efeitos tão
poderosos sobre o comportamento é examinada na seção final deste capítulo, com especial
referência ao seu papel na proteção.
Enquanto a influência da familiaridade e estranheza sobre o comportamento do
homem não foi compreendida, as condições que levam uma criança a ligar-se à mãe dela eram
pouco entendidas. O ponto de vista mais plausível, subscrito por Freud e pela maioria dos
analistas, e
108

também pelos teóricos da aprendizagem, era que a variável mais importante consistia em ser
amamentado pela mãe. Essa teoria, uma teoria do impulso secundário, embora nunca tivesse
sido baseada em provas ou argumentos sistemáticos, logo se tomou amplamente aceita e
levou naturalmente a duas outras noções que atraíram numerosos adeptos. Uma diz que tudo o
que acontece nos primeiros meses de vida deve ser de importância muito especial para o
desenvolvimento subseqüente. A outra noção é de que, quando uma criança aprendeu a
alimentar-se sozinha, deixa de haver qualquer razão para que ela exija a presença da mãe; por
conseguinte, a criança deve abandonar tal “dependência”, a qual, daí em diante, passa a ser
estigmatizada como infantil ou pueril.
O ponto de vista aqui adotado, e apoiado por numerosas provas (Bowlby, 1969), é de
que o alimento desempenha apenas um papel secundário no comportamento de ligação de
uma criança à mãe, de que esse comportamento se manifesta com o máximo vigor *(1)
durante o segundo e o terceiro anos de vida e persiste com menos intensidade
indefinidamente, e de que a função do comportamento de ligação é a proteção. Corolários
desse ponto de vista são que a separação involuntária e a perda são potencialmente
traumáticas durante os anos da infância e adolescência, e que, com graus de intensidade
adequados, a propensão para manifestar o comportamento de ligação é uma característica
saudável e nada tem de pueril.
Do mesmo pressuposto tradicional, de que uma criança se liga à mãe por depender
dela como fonte de suas satisfações fisiológicas, provêm os conceitos e a terminologia de
“dependência” e “independência”. Desde que uma criança pode alimentar-se sozinha, dizem
os defensores da teoria do impulso secundário, ela deve tomar-se independente. Portanto, daí
em diante, qualquer desejo forte da presença de uma figura de ligação passa a ser considerado
como expressão de uma “necessidade infantil”, parte de um eu “pueril” que deve ficar para
trás.
Como termos e conceitos para expressar a teoria aqui proposta, “dependência” e
“independência” têm um certo número de graves inconvenientes; por conseguinte, são
substituídos por termos e conceitos tais como “confiar em”, “ligado a”, “contar com” e
“autoconfiança”. Em primeiro lugar, dependência e independência são inevitavelmente
concebidas como sendo mutuamente exclusivas; ao passo que, como já foi enfatizado, confiar
em outros e autoconfiança não só são compatíveis como são mutuamente complementares.
Em segundo lugar, descrever alguém como “dependente” implica inevitavelmente um matiz
pejorativo, ao passo que descrever alguém como “confiante em outra pessoa” nada tem de
depreciativo.
109

Em terceiro lugar, enquanto o conceito de ligação subentende sempre ligação a uma ou mais
pessoas especialmente amadas, o conceito de dependência não implica tal relacionamento
mas, pelo contrário, tende a ser anônimo.
Muito influenciado também pelo papel especial atribuído à amamentação e à oralidade
na teoria psicanalítica é o conceito de “objeto interno”, um conceito que é ambíguo sob
múltiplos aspectos (Strachey, 1941). Em seu lugar pode ser colocado o conceito, derivado da
psicologia cognitiva e da teoria do controle, de um indivíduo que desenvolve dentro de si
mesmo um ou mais modelos operacionais representando as principais características do
mundo à sua volta e de si mesmo como um agente nesse mundo. Tais modelos determinam
suas expectativas e previsões, e fornecem-lhe instrumentos para a construção de planos de
ação.
O que na teoria tradicional é denominado um “objeto bom”, pode ser reformulado,
dentro deste quadro de referência, como um modelo operacional de uma figura de ligação que
é concebida como acessível, confiável e pronta para ajudar, quando solicitada. Analogamente,
o que na teoria tradicional é designado como um “objeto mau”, pode ser reformulado como
um modelo operacional de uma figura de ligação a quem se atribuem características tais como
acessibilidade incerta, relutância em prestar ajuda ou, talvez, probabilidade de uma reação
hostil. Do mesmo modo, pensa-se que um indivíduo constrói um modelo operacional de si
mesmo, em relação a quem os outros responderão de certas formas previsíveis, O conceito de
modelo operacional do eu compreende dados que são atualmente concebidos em termos de
auto-imagem, auto-estima, etc.
Em que medida tais modelos operacionais são produtos válidos da experiência real de
uma criança ao longo dos anos, ou são versões distorcidas de tal experiência, é uma questão
de suma importância. Os trabalhos de psiquiatria da família dos últimos 25 anos apresentaram
numerosos dados sugerindo que a forma que o modelo adota é, de fato, fortemente
determinada pelas experiências reais de uma criança durante a infância, muito mais do que se
supunha antes. Este é um campo de interesse vital e requer, urgentemente, uma investigação
especializada. Um problema clínico e de pesquisa consiste em que os indivíduos perturbados
freqüentemente parecem manter dentro deles mais de um modelo operacional tanto do mundo
como do eu-no-mundo. Além disso, tais modelos múltiplos são freqüentemente incompatíveis
entre si e podem ser mais ou menos inconscientes.
Talvez se tenha dito o suficiente para mostrar que o conceito de modelos operacionais
é central para o esquema proposto. O conceito pode ser elaborado a fim de permitir que
muitos aspectos da estrutura
110

da personalidade e do mundo interno sejam descritos de modo a autorizar a pesquisa rigorosa
e a definição precisa.
Assim, a teoria aqui proposta não só está enunciada em linguagem diferente, mas
contém numerosos conceitos distintos daqueles usados pela teoria tradicional. Entre muitas
outras coisas, esses conceitos permitem uma nova abordagem do velho problema da ansiedade
de separação, a qual, quando excessiva, é inimiga do desenvolvimento da auto-confiança.

O problema da ansiedade de separação.

As numerosas observações do comportamento de crianças pequenas, quando retiradas de seus
pais e colocadas em ambientes estranhos com pessoas estranhas, descritas por James
Robertson e outros durante os últimos vinte anos, ainda não foram inteiramente articuladas na
teoria clínica. Não existe ainda concordância sobre as razões pelas quais a experiência é tão
aflitiva para uma criança na época, nem por que ela, posteriormente, se mostra tão
intensamente apreensiva com medo de que tal experiência volte a acontecer.
Em anos recentes, numerosos experimentos foram realizados com macacos jovens que
foram separados da mãe, usualmente por cerca de uma semana. Sejam quais forem as
diferenças que se prove existirem entre as reações de macacos e de seres humanos em tal
situação, o que impressiona de imediato é a semelhança da resposta. Na maioria das espécies
de macacos estudadas, o protesto pela separação e a depressão durante a mesma são muito
pronunciados e, após a reunião, o apego à mãe é muito maior. Nos meses subseqüentes,
embora os indivíduos variem, os bebês separados tendem, em média, a explorar menos e a
ficar mais tempo agarrados à mãe; e permanecem visivelmente mais tímidos do que os bebês
macacos que não experimentaram uma separação. (Para um exame destes dados, ver Hinde e
Spencer-Booth, 1971.)
Esses estudos de macacos são de grande valor na medida em que:
(a) Fornecem provas claras, graças a experimentos planejados que mantêm estáveis
numerosas variáveis, de que, na vida real, as observações de seres humanos tornam difícil
chegar-se a conclusões firmes;
(b) Demonstram que, mesmo quando todas as outras variáveis são mantidas
constantes, um período de separação da mãe suscita protesto e depressão durante a separação,
e uma ansiedade de separação muito maior após a reunião;
111

(c) Deixam claro que os tipos de resposta à separação que são observados em seres
humanos podem, em outras espécies, ser mediadas a um nível primitivo e, presumivelmente,
infra-simbólico.
Esta última conclusão questiona as várias teorias clinicamente derivadas que procuram
explicar a ansiedade de separação, dado que a maior parte delas considera virtualmente
axiomático que a separação involuntária de uma figura materna não pode, por si mesma, gerar
ansiedade ou medo e que, portanto, deve existir algum outro perigo que é previsto e temido.
Muitas e diversas sugestões foram propostas para o que poderia ser esse outro perigo. Por
exemplo, Freud (1926), que foi o primeiro a considerar a ansiedade de separação como um
problema-chave, sugeriu que, para os seres humanos, “a situação fundamental de perigo é
uma situação reconhecida, recordada e esperada de impotência e desamparo”. Melanie Klein
propôs teorias invocando um instinto de morte e medo de aniquilamento, e também teorias
derivadas de suas idéias sobre ansiedade depressiva e persecutória. O trauma do nascimento é
ainda uma outra sugestão. Revendo a literatura, fica muito claro que muitas das questões mais
veementemente debatidas em psicopatologia e psicoterapia gravitaram, e ainda gravitam, em
torno de como conceituamos a origem e natureza da ansiedade de separação (Bowlby, 1960a,
1961a, 1973). Como o debate prossegue há tanto tempo e com tão pouco progresso, levanta-se
a questão de saber se estão sendo formuladas as questões erradas e (ou) se estão sendo
utilizados pressupostos iniciais errados. Examinemos, pois, quais foram os pressupostos
iniciais.
Quase todas as teorias sobre o que provoca medo e ansiedade em seres humanos
partiram da suposição de que o medo só é apropriadamente suscitado em situações percebidas
como intrinsecamente dolorosas ou perigosas. Pensa-se que tal percepção deriva ou de
experiências prévias de dor ou então de alguma consciência inata de forças interiores
perigosas. Uma ou outra dessas suposições será encontrada na teoria da aprendizagem, na
psiquiatria tradicional, como é exemplificado num estudo de Lewis (1967), e em todas as
diversas versões da psicanálise e suas derivações.
Quem adotar um pressuposto desse tipo logo se defrontará com o fato de que os seres
humanos freqüentemente manifestam medo em numerosas situações comuns que não parecem
ser inerentemente dolorosas ou perigosas. Quantos de nós, poder-se-á perguntar, sentiremos
prazer em entrar sozinhos numa casa completamente estranha e imersa em total escuridão?
Que alívio sentiríamos se tivéssemos a companhia de alguém, ou uma boa luz, ou, de
preferência, um companheiro e uma luz!
112

Embora na infância situações desse gênero suscitem medo mais fácil e intensamente, é inútil
fingir que os adultos estão acima dessas coisas. Qualificar os medos desse tipo como
“infantis”, como se faz freqüentemente, é querer fugir a uma porção de questões.
É impressionante verificar como existem tão poucos estudos empíricos das situações
que comumente despertam medo em seres humanos, depois do trabalho sistemático de Jersild
no início da década de 1930. As publicações em que eles foram divulgados (por exemplo,
Jersild e Holmes, 1935;Jersild, 1943) são minas de informações úteis.
Em crianças entre o segundo e o quinto anos de vida, relata Jersild, existe um certo
número de situações bem definidas que habitualmente suscitam medo. Por exemplo,
asdescrições de 136 crianças, num período de três meses, mostram que nada menos de 10 %
delas mostraram medo, pelo menos numa ocasião, quando colocadas em confronto com cada
uma das seguintes situações: (a) ruído e eventos associados a ruído; (b) altura; (c) pessoas
estranhas, ou pessoas conhecidas com indumentária estranha; (d) objetos e situações de
natureza insólita; (e) animais; (f) dor ou pessoas associadas à dor.
Também existem provas abundantes de que as crianças manifestaram menos medo
quando acompanhadas de um adulto do que quando sozinhas. Para qualquer pessoa
familiarizada com crianças, esses dados dificilmente podem ser considerados revolucionários.
Entretanto, não é nada fácil harmonizá-los com os pressupostos dos quais parte a
maioria da teorização. Freud tinha perfeita noção disso e confessou-se perplexo com o
problema. Entre as soluções que ele buscou está a tão conhecida tentativa de distinguir entre
um perigo real e um perigo imaginário. A tese que ele expõe em Inibições, Sintomas e
Ansiedade (1926), pode ser sintetizada, usando suas próprias palavras: “Um perigo real é um
perigo que ameaça uma pessoa, oriundo de um objeto externo”. Portanto, sempre que a
ansiedade é “acerca de um perigo conhecido”, pode ser considerada como uma “ansiedade
realista”; ao passo que, sempre que for “acerca de um perigo desconhecido”, será “ansiedade
neurótica”. Como o medo de estar sozinho, no escuro ou com estranhos, é medo, na opinião
de Freud, de perigos desconhecidos, deve ser considerado neurótico (S. E., Vol. 20, pp. 165-
7). Além disso, como todas as crianças experimentam esses medos, sustenta-se que todas as
crianças sofrem de neurose (pp. 147-8). Certamente, há muitos que não se satisfazem com tal
solução.
As dificuldades com que Freud se debateu desaparecem quando se adota uma
abordagem comparativa do medo humano. Pois evidencia-se que o homem não é, em
absoluto, a única espécie que demonstra medo
113

em situações que não são intrinsecamente dolorosas ou perigosas (Hinde, 1970). Animais de
muitas espécies apresentam um comportamento de medo em resposta a ruídos e outras
mudanças bruscas de estimulação, ao escuro e também a estranhos e a eventos insólitos. O
abismo visual e um estímulo que rapidamente se expande também suscitam medo,
regularmente, em animais de numerosas espécies.
Quando indagamos como é que situações desses tipos podem tão facilmente gerar o
medo em animais de tantas espécies, não é difícil perceber que, embora nenhuma delas seja
intrinsecamente perigosa, cada uma dessas situações é, em certo grau, potencialmente
perigosa. Por outras palavras, enquanto nenhuma delas contém um alto risco, cada uma delas
comporta um risco ligeiramente mais elevado, mesmo que esse risco aumente, digamos, de 1
% para 5 %.
Vista sob este prisma, cada uma dessas situações causadoras de medo é considerada
um indício natural de maior risco. Reagir com medo a todas essas situações é, portanto,
reduzir os riscos. Como tal comportamento possui valor de sobrevivência, argumenta-se que o
equipamento genético de uma espécie toma-se tal que cada um de seus membros, ao nascer,
tende a se desenvolver de maneira a, usualmente, passar a se comportar dessa forma típica. O
homem não constitui exceção.
Uma distinção aqui invocada, e que é um lugar comum para os etologistas mas uma
fonte de muita confusão e perplexidade para os psicólogos experimentais e clínicos, é a
distinção entre causação e função biológica — por um lado, as condições que causam o
comportamento e, por outro, a contribuição desse comportamento para a sobrevivência da
espécie. Nesta teoria, considera-se que o estranhamento e outros sinais concretos
desempenham, cada um deles, um papel causal na geração do comportamento de medo;
enquanto que a função de tal comportamento é a proteção.
Talvez a distinção entre a causa e a função de um determinado comportamento possa
ser esclarecida com referência ao comportamento sexual, em que a distinção é tão óbvia, que
geralmente é lida como certa e virtualmente esquecida. Em termos claros, a distinção é assim
descrita: os estados hormonais do organismo e certas características do parceiro do sexo
oposto levam, em conjunto, ao interesse sexual e desempenham papéis causais na produção
do comportamento sexual. A função biológica desse comportamento, entretanto, é uma outra
questão; é a reprodução. Uma vez que causação e função são distintas, é possível, por meio da
contracepção, interferir entre o comportamento e a função a que ele serve.
Em animais de todas as espécies não-humanas, o comportamento
114

se processa sem que o animal (presumivelmente) tenha qualquer insight da função. O mesmo
pode ser dito da maioria dos seres humanos, a maior parte do tempo. Sob este prisma, nada há
de surpreendente no fato de os seres humanos reagirem habitualmente com um
comportamento de medo em certas situações, apesar de um observador de fora poder saber
que, em tais situações, o aumento do risco de vida é mínimo, ou nem mesmo isso. No início, a
pessoa simplesmente reage à situação — uma súbita mudança ou um alto nível de ruído, um
rosto estranho ou um acontecimento insólito, um movimento brusco — e não a qualquer
estimativa de risco. O cálculo prudente de risco pode ou não se seguir.
A separação relutante de uma criança de seus pais, ou de um adulto de um
companheiro em quem confia, pode ser simplesmente considerada como uma outra situação
do mesmo gênero, embora seja um exemplo um tanto especial. Mesmo em comunidades
civilizadas, existem muitas circunstâncias em que o risco é um tanto maior quando um
indivíduo está sozinho do que quando está acompanhado. Isso acontece especialmente durante
a infância. Por exemplo, os riscos de acidentes em casa obviamente são maiores quando se
deixa uma criança sozinha do que quando o pai ou a mãe estão por perto. O mesmo pode ser
dito de acidentes na rua. Em 1968, no distrito londrino de Southwark, 46% de todos os
acidentes de trânsito ocorreram com crianças de menos de 15 anos, com a mais alta incidência
no grupo etário dos três aos nove anos. Mais de 60 % dessas crianças estavam completamente
sozinhas, e dois terços das restantes estavam na companhia de apenas uma outra criança. Para
os velhos ou doentes, viver sozinho é um risco notório. Mesmo para adultos saudáveis,
excursionar pelas montanhas ou praticar alpinismo sozinho significa, materialmente, aumentar
o risco de vida. No meio ambiente em que o homem evoluiu, os riscos que acompanham o
estar sozinho devem ter sido, por certo, muito maiores. Uma simples reflexão mostra,
portanto, que, como estar sozinho aumenta o risco, não faltam razões para que o homem tenha
desenvolvido sistemas comportamentais que o levam a evitá-lo. No caso dos seres humanos,
reagir com medo à perda de um companheiro em quem se confia não é, pois, mais
desconcertante do que reagir com medo a qualquer dos outros indícios naturais de perigo
potencial — estranheza, movimento súbito, mudança brusca ou alto nível de ruído. Em todos
os casos, reagir assim tem valor de sobrevivência.
Uma característica muito especial do comportamento de medo em seres humanos e em
outros animais é o grau em que recrudesce em situações caracterizadas pela presença de dois
ou mais sinais concretos; por
115

exemplo, o estranho que subitamente se aproxima, o cão desconhecido que uiva, o ruído
inesperado que se ouve no escuro. Comentando sobre as observações feitas durante 21 dias
por pais acerca de situações causadoras de medo, Jersild e Holmes (1935) assinalam que
combinações de duas ou mais das seguintes características foram freqüentemente citadas em
conjunto: ruído, pessoas e situações estranhas, o escuro, movimento brusco e inesperado, e
estar sozinho. Enquanto que uma situação assinalada por uma única dessas características
poderá apenas alertar o indivíduo, o medo, mais ou menos intenso, pode perfeitamente ser
suscitado quando várias delas estão presentes em conjunto.
Porque a resposta a uma combinação de fatores é, com freqüência, muito maior ou
diferente do que a resposta a qualquer um deles isoladamente, é conveniente designar tais
situações como “compostos”, um termo escolhido para lembrar a analogia química (Bowlby,
1973).
Em conformidade com outros dados sobre os efeitos de situações compostas, os
experimentos com crianças e com macacos rhesus (Rowell e Hinde, 1963) mostram a enorme
diferença de intensidade das reações de medo segundo a presença ou ausência de um
companheiro de confiança. Por exemplo, Jersild e Holmes (1935) apuraram que, quando
crianças de três e quatro anos foram solicitadas a ir apanhar uma bola que rolara para um
corredor escuro, metade delas recusaram-se a fazê-lo, apesar dos incitamentos dos
experimentadores. Entretanto, quando um dos experimentadores as acompanhou, quase todas
as crianças se mostraram dispostas a ir procurar a bola no escuro. Diferenças do mesmo tipo
foram observadas em muitas outras situações levemente assustadoras, por exemplo, quando
uma criança foi solicitada a aproximar-se de um cachorro imenso, preso por uma corrente, e
acariciá-lo.
Esses resultados harmonizam-se de tal modo com a experiência comum que pode
parecer absurdo alongarmo-nos em sua descrição. Entretanto, é evidente que, quando
psicólogos e psiquiatras passam a teorizar sobre o medo e a ansiedade, o significado desses
fenômenos é seriamente subestimado. Por exemplo, quando se presta a devida atenção a esses
resultados, deixa de ser um mistério que, em quase todas as situações familiares, o medo e a
ansiedade sejam grandemente reduzidos pela mera presença de um companheiro de confiança.
Tais conclusões habilitam-nos a compreender também por que a acessibilidade dos pais e sua
disponibilidade para responder dá a uma criança, um adolescente ou um jovem adulto
condições para se sentirem seguros, e uma base a partir da qual podem confiantemente
proceder a explorações. Elucidam-nos igualmente sobre o modo como, da adolescência em
diante, outras figuras de confiança passam a ter funções semelhantes.
116

Isso nos leva de volta ao ponto de partida de nossa argumentação e ajuda a explicar
por que o apoio decidido e sistemático dos pais, combinado com o encorajamento e o respeito
pela autonomia de uma criança, muito longe de abalar a autoconfiança, fornece, pelo
contrário, as condições em que ela pode desenvolver-se melhor. Também ajuda a explicar por
que, inversamente, uma experiência de separação ou perda, ou ameaças de separação ou
perda, especialmente quando usadas pelos pais como sanções para induzir o bom
comportamento, podem abalar a confiança de uma criança nos outros e em si mesma,
acarretando assim um ou outro desvio do desenvolvimento ótimo — a falta de confiança em si
mesma, a ansiedade ou depressão crônica, o não-envolvimento distante ou a independência
arrogante que soa falso.
Uma autoconfiança bem fundamentada, podemos concluir, é, geralmente, o produto de
um crescimento lento e não reprimido, da infância até a maturidade, durante o qual, através da
interação com outros, incentivadores e confiáveis, a pessoa aprende a combinar a confiança
nos outros com a confiança em si mesma.
117

7. Formação e rompimento de vínculos afetivos *(1).

O Royal College of Psychiatrists organiza anualmente uma conferência em homenagem a
Henry Maudsley, que foi um benfeitor da instituição predecessora do College, a Royal
Medico-Psychological Association (e também do Hospital Maudsley). Fui convidado a
proferir a conferência de 1976 na reunião do College, realizada em Londres no outono. Foi
publicada em forma muito ampliada e em duas partes na primavera seguinte.

Etiologia e psicopatologia à luz da teoria da ligação.

Desde os tempos em que iniciei meus estudos de psiquiatria no Hospital Maudsley, meus
interesses concentraram-se na contribuição do meio ambiente de uma pessoa ao seu
desenvolvimento psicológico. Durante muitos anos, essa foi uma área menosprezada e só
agora está recebendo toda a atenção que merece. Isso não foi culpa do resoluto defensor do
estudo científico dos distúrbios mentais, cuja vida e obra recordamos hoje. Pois ainda que em
algumas passagens de seus escritos se possa pensar que Henry Maudsley deu pouca
importância aos fatores ambientais, isso está longe de ser verdadeiro, como fica evidente pela
leitura de seu influente livro, Responsibility in Mental Diseases, publicado há quase
exatamente um século. Com efeito, desde o início de sua carreira, a abordagem de Maudsley
foi de biólogo — como seria de se esperar do filho de um agricultor;

Nota de rodapé:

*(1). Originalmente publicado em British Journal of Psychiatry (1977), 130: 201-10 e 421-31.
Reimpresso com permissão do Royal College of Psychiatrists.
119

e ele sabia que em psiquiatria, como em todas as coisas biológicas, é necessário considerar “o
indivíduo e seu meio ambiente, o homem e suas circunstâncias”, e que isso requer que
adotemos uma abordagem em termos de desenvolvimento *(1). Assim, ao preparar esta
conferência, que me sinto muito honrado por ter sido convidado a proferir nesta data,
considero-me apoiado pela convicção de que o seu tema, o do desenvolvimento social e
emocional em diferentes tipos de ambiente familiar, está de acordo com tudo o que Henry
Maudsley defendeu.
O que, por uma questão de conveniência, designo como teoria da ligação, é um modo
de conceituar a propensão dos seres humanos a estabelecerem fortes vínculos afetivos com
alguns outros, e de explicar as múltiplas formas de consternação emocional e perturbação da
personalidade, incluindo ansiedade, raiva, depressão e desligamento emocional, a que a
separação e perda involuntárias dão origem. Como um corpo de teoria, lida com os mesmos
fenômenos que antes eram tratados em termos de “necessidade de dependência”, ou de
“relações com o objeto”, ou de “simbiose e individuação”. Embora incorpore muito do
pensamento psicanalítico, a teoria da ligação difere da psicanálise tradicional ao adotar um
certo número de princípios que derivam das disciplinas relativamente novas da etologia e
teoria do controle; assim fazendo, está habilitada a dispensar conceitos tais como os de
energia psíquica e impulso, e a estabelecer estreitos laços com a psicologia cognitiva. Os
méritos que se atribuem a ela são que, embora seus conceitos sejam psicológicos, eles são
compatíveis com os da neurofisiologia e da biologia do desenvolvimento, e que, também, se
conforma aos critérios habituais de uma disciplina científica.
Os defensores da teoria da ligação argumentam que muitas formas de distúrbio
psiquiátrico podem ser atribuídas ou a desvios no desenvolvimento do comportamento de
ligação ou, mais raramente, a uma falha em seu desenvolvimento; argumentam também que a
teoria esclarece a origem e o tratamento dessas condições Em suma, a tese desta conferência é
que, se quisermos ajudar terapeuticamente tais pacientes, é necessário que os habilitemos a
considerar minuciosamente como os seus modos atuais de perceber e lidar com pessoas
emocionalmente significativas, incluindo o terapeuta, podem ser influenciados e, talvez,
seriamente distorcidos pelas experiências que eles tiveram com seus pais durante os anos da
infância e adolescência, e que possivelmente — pelo menos algumas delas — ainda persistem
ou repercutem no presente.

Nota de rodapé:

*(1). A citação é de um ensaio de Maudsley publicado em 1860. Por esta e outras informações
sobre a vida e obra de Maudsley, estou grato à descrição feita por Sir Aubrey Lewis na 25
Conferência Maudsley (Lewis, 1951).
120

Isso implica que o paciente reveja essas experiências do modo mais honesto possível, uma
revisão que o terapeuta pode apoiar ou impedir. Numa breve exposição, só é possível enunciar
princípios e os fundamentos lógicos que os subentendem. Começamos com um breve esboço
do que se entende por teoria da ligação. (Para uma descrição mais completa dos dados em que
se baseia, os conceitos empregados e os argumentos a seu favor, com todas as referências, ver
os três volumes de Attachment and Loss, Bowlby, 1969, 1973, 1980.)
Até meados da década de 1950, só predominava um ponto de vista explicitamente
formulado sobre a natureza e origem dos vínculos afetivos, e, sobre essa questão, havia
concordância entre psicanalistas e teóricos da aprendizagem. Os vínculos entre indivíduos
desenvolvem-se, segundo era sustentado, porque um indivíduo descobre que, para satisfazer
certos impulsos, como por exemplo de alimentação na infância e de sexo na vida adulta, é
necessário um outro ser humano. Esse tipo de teoria propõe duas espécies de impulsos,
primários e secundários; classifica o alimento e o sexo como impulsos primários, e a
“dependência” e outras relações pessoais como secundários. Embora os teóricos das relações
objetais (Balint, Fairbairn, Guntrip, Klein, Winnicott) tentassem modificar essa formulação,
os conceitos de dependência, oralidade e regressão persistiram.
Os estudos dos efeitos perniciosos da privação de cuidados maternos sobre o
desenvolvimento da personalidade levaram-me a questionar a adequação do modelo
tradicional. No início da década de 1950, os trabalhos de Lorenz sobre imprinting, que tinham
sido publicados originalmente em 1935, tomaram-se mais geralmente conhecidos e
ofereceram uma abordagem alternativa. Lorenz tinha verificado que, pelo menos em algumas
espécies de aves, durante os primeiros dias de vida, desenvolvem-se fortes vínculos com uma
figura materna, sem qualquer referência à alimentação e simplesmente através da exposição
do filhote à figura em questão, com a qual se familiarizou. Argumentando que os dados
empíricos sobre o desenvolvimento do laço de um bebê humano com sua mãe podem ser
melhor entendidos em termos de um modelo derivado da etologia, delineei uma teoria da
ligação num ensaio publicado em 1958. Simultânea e independentemente, Harlow (1958)
publicou os resultados de seus primeiros estudos com filhotes de macacos rhesus criados com
bonecos como mães-substitutas. Um bebê macaco, apurou Harlow, agarrar-se-á a um boneco
que não o alimenta, desde que esse boneco seja macio e confortável.
Durante os últimos 15 anos, foram publicados numerosos estudos empíricos sobre
crianças (por exemplo, Robertson e Robertson, 1967-72;
121

Heinicke e Westheimer, 1966; Ainsworth, 1967; Ainsworth, Bell e Stayton, 1971, 1974;
Blurton Jones, 1972), a teoria foi consideravelmente ampliada (por exemplo, Ainsworth,
1969; Bowlby, 1969; Bischof, 1975), e foi examinada a relação entre a teoria da ligação e a
teoria da dependência (Maccoby e Masters, 1970; Gewirtz, 1972) *(1). Foram propostas
novas formulações a respeito da ansiedade patológica e da fobia (Bowlby, 1973), assim como
do luto e suas complicações psiquiátricas (por exemplo, Bowlby, 1961c; Parkes, 1965, 1971a,
1972). Parkes (1971b) ampliou a teoria para abranger toda a gama de reações observadas
sempre que uma pessoa se defronta com uma importante mudança em sua situação vital.
Foram feitos muitos estudos de comportamento comparável em espécies primatas (ver o
exame crítico desses estudos por Hinde, 1974).
Em suma, o comportamento de ligação é concebido como qualquer forma de
comportamento que resulta em que uma pessoa alcance ou mantenha a proximidade com
algum outro indivíduo diferenciado e preferido, o qual é usualmente considerado mais forte e
(ou) mais sábio. Embora seja especialmente evidente durante os primeiros anos da infância,
sustenta-se que o comportamento de ligação caracteriza os seres humanos do berço à
sepultura. Inclui o choro e o chamamento, que suscitam cuidados e desvelos, o seguimento e o
apego, e também os vigorosos protestos se uma criança ficar sozinha ou na companhia de
estranhos. Com a idade, a freqüência e intensidade com que esse comportamento se manifesta
diminuem gradativamente. No entanto, todas essas formas de comportamento persistem como
parte importante do equipamento comportamental do homem. Nos adultos, elas são
especialmente evidentes quando uma pessoa está consternada, doente ou assustada. Os
padrões de comportamento de ligação manifestados por um indivíduo dependem, em parte, de
sua idade atual, sexo e circunstâncias, e, em parte, das experiências que teve com figuras de
ligação nos primeiros anos de sua vida.
Como um modo de conceituar a manutenção da proximidade, a teoria da ligação, em
contraste com a teoria da dependência, enfatiza as seguintes características *(2):
(a) Especificidade. O comportamento de ligação é dirigido para um ou alguns indivíduos
específicos, geralmente em ordem clara de preferência.
(b) Duração. Uma ligação persiste, usualmente, por grande parte do ciclo vital.

Nota de rodapé:

*(1). Outros campos clinicamente importantes a que a teoria da ligação foi aplicada
eficazmente são as origens do vínculo mãe-bebê durante o período neonatal, por Marshall
Klaus e John Kennell (1976), distúrbios do relacionamento conjugal, por Janet Mattinson e
Ian Sinclair (1979), e as conseqüências emocionais da separação conjugal, por Robert S.
Weiss (1975).
*(2). Ao descrever estas características, baseio-me no texto de um artigo (Bowlby, 1975)
escrito para o Volume 6 do American Book of Psychiatry O 1975 by Basic Books, Inc., e
agradeço aos seus organizadores e editores pela permissão para fazê-lo.
122

Embora, durante a adolescência, as ligações da infância possam ser atenuadas e
suplementadas por novas ligações, e em alguns casos substituídas por estas últimas, as
primeiras ligações não são facilmente abandonadas e é muito comum persistirem.
(c) Envolvimento emocional *(1). Muitas das emoções mais intensas surgem durante a
formação, manutenção, rompimento e renovação de relações de ligação. A formação de um
vínculo é descrita como “apaixonar-se”, a manutenção de um vínculo como “amar alguém” e
a perda de um parceiro como “sofrer por alguém”. Do mesmo modo, a ameaça de perda gera
ansiedade e a perda real produz tristeza; enquanto que cada uma dessas situações é passível de
suscitar raiva. A manutenção inalterada de um vínculo afetivo é sentida como uma fonte de
segurança, e a renovação de um vínculo, como uma fonte de júbilo. Como tais emoções são
usualmente um reflexo do estado dos vínculos afetivos de uma pessoa, conclui-se que a
psicologia e psicopatologia da emoção é, em grande parte, a psicologia e psicopatologia dos
vínculos afetivos.
(d) Ontogenia. Na grande maioria dos bebês humanos, o comportamento de ligação com uma
figura preferida desenvolve-se durante os primeiros nove meses de vida. Quanto mais
experiência de interação social um bebê tiver com uma pessoa, maiores são as probabilidades
de que ele se ligue a essa pessoa. Por essa razão, torna-se a principal figura de ligação de um
bebê aquela pessoa que lhe dispensar a maior parte dos cuidados maternos. O comportamento
de ligação mantém-se ativado até o final do terceiro ano de vida; no desenvolvimento
saudável, torna-se, daí em diante, cada vez menos ativado.
(e) Aprendizagem. Se bem que aprender a distinguir o familiar do estranho constitua um
processo-chave no desenvolvimento da ligação, as recompensas e punições convencionais
usadas pelos psicólogos experimentais desempenham apenas um papel secundário. De fato,
uma ligação pode desenvolver-se apesar de repetidas punições por uma figura de ligação.
(f) Organização. Inicialmente, o comportamento de ligação é mediado por respostas
organizadas segundo linhas bastante simples. A partir do final do primeiro ano, passa a ser
mediado por sistemas comportamentais cada vez mais refinados, os quais são organizados
cibernéticamente e incorporam modelos representacionais do meio ambiente e do eu.

Nota de rodapé:

*(1). Embora este parágrafo seja pouco diferente de parágrafos semelhantes nos capítulos 4 e
6, deixo-o inalterado porque, sem ele, este capítulo ficaria seriamente incompleto.
123

Esses sistemas são ativados por certas condições e terminados por outras. Entre as condições
ativadoras estão o estranhamento, a fome, o cansaço e qualquer coisa que seja assustadora. As
condições terminais incluem a visão ou o som da figura materna e, especialmente, a interação
feliz com ela. Quando o comportamento de ligação é fortemente despertado, o término poderá
requerer o contato físico ou o agarramento à figura materna e (ou) ser acariciado por ela.
Inversamente, quando a figura materna está presente ou seu paradeiro é conhecido, uma
criança deixa de manifestar o comportamento de ligação e, em vez disso, desliga-se daquela e
explora o seu meio ambiente.
(g) Função biológica. O comportamento de ligação ocorre nos jovens de quase todas as
espécies de mamíferos e, em certas espécies, persiste durante toda a vida adulta. Embora haja
muitas diferenças de detalhe entre as espécies, a manutenção da proximidade com um adulto
preferido (quase sempre a mãe) por um animal imaturo é a regra geral, o que sugere que tal
comportamento possui um valor de sobrevivência. Num outro escrito (Bowlby, 1969)
argumentei que a mais provável função do comportamento de ligação é, de longe, a proteção,
principalmente contra os predadores.
Assim, o comportamento de ligação é concebido como uma classe de comportamento
distinta do comportamento de alimentação e do comportamento sexual, tendo, pelo menos,
um significado igual na vida humana. Nada existe de intrinsecamente pueril ou patológico
quanto a ele.
Cumpre assinalar que o conceito de ligação difere substancialmente do conceito de
dependência. Por exemplo, a dependência não está especificamente relacionada com a
manutenção da proximidade, não se refere a um indivíduo específico, nem está
necessariamente associada a uma emoção forte. Nenhuma função biológica lhe é atribuída.
Além disso, no conceito de dependência há implicações de valor que são o oposto exato
daquelas que o conceito de ligação subentende. Enquanto que qualificar uma pessoa como
dependente tende a ser depreciativo, descrevê-la como ligada a alguém pode muito bem ser
uma expressão de aprovação. Inversamente, ser uma pessoa desligada em suas relações
pessoais é considerado, usualmente, como um comportamento que nada tem de admirável. O
elemento depreciativo no conceito de dependência, o qual reflete um não-reconhecimento do
valor que o comportamento de ligação tem para a sobrevivência, constitui uma fraqueza fatal
para seu uso clínico.
No que se segue, o indivíduo que manifesta o comportamento de ligação é usualmente
mencionado como criança, e a figura de ligação como mãe.
124

Isso ocorre porque, até agora, o comportamento só foi minuciosamente estudado em crianças,
O que se expõe, entretanto, é aplicável também a adultos e a quem quer que esteja atuando
para eles como figura de ligação — freqüentemente um cônjuge, algumas vezes um dos pais
e, com freqüência maior do que se poderia supor, um filho.
Foi assinalado em (f) que, quando a mãe está presente ou seu paradeiro é conhecido e
ela está disposta a participar num intercâmbio amistoso, a criança geralmente deixa de
apresentar o comportamento de ligação e prefere explorar o seu meio ambiente. Nessa
situação, a mãe pode ser considerada como a fornecedora de uma base segura a partir da qual
a criança fará suas explorações, e à qual regressará, sobretudo quando se cansar ou se
assustar. No restante de sua vida, a pessoa é suscetível de manifestar o mesmo padrão de
comportamento, afastando-se cada vez mais e por períodos cada vez maiores daqueles a quem
ama, ainda que mantendo sempre o contato e regressando, mais cedo ou mais tarde. A base a
partir de onde um adulto opera será a sua família de origem, ou então uma nova base que ele
criou para si mesmo. Qualquer indivíduo que não possua tal base é um ser sem raízes e
intensamente solitário.
Na descrição feita até agora, foram mencionados dois padrões de comportamento além
da ligação, ou seja, a exploração e o cuidar.
Existem hoje evidências abundantes que apóiam o ponto de vista de que a atividade
exploratória é de grande importância per se, habilitando um animal ou uma pessoa a formar
um quadro coerente das características ambientais que podem, em qualquer momento, tornar-
se importantes para a sobrevivência. Crianças e outras criaturas muito jovens são
notoriamente curiosas e indagadoras, o que as leva comumente a se afastarem de suas figuras
de ligação. Neste sentido, o comportamento exploratório é antitético do comportamento de
ligação. Em indivíduos saudáveis, os dois tipos de comportamento normalmente se alternam.
O comportamento dos pais, e de qualquer pessoa que se incumba do papel de cuidar da
criança, é complementar do comportamento de ligação. A função de quem dispensa esses
cuidados consiste em, primeiro, estar disponível e pronto a atender quando solicitado, e,
segundo, intervir judiciosamente no caso de a criança ou a pessoa mais idosa de quem se
cuida estar prestes a meter-se em apuros. Não só isso constitui um papel básico, como existem
provas substanciais de que o modo como é desempenhado pelos pais determina, em grau
considerável, se a criança será mentalmente saudável ao crescer. Por essa razão, e também
porque é esse o papel que desempenhamos quando agimos como psicoterapeutas, sustentamos
que a nossa compreensão do mesmo se reveste de importância crucial para a prática da
psicoterapia.
125
Um outro ponto precisa ser assinalado, antes de examinarmos as implicações desse
esquema para uma teoria da etiologia e psicopatologia, e, por conseguinte, para a prática
psicoterapêutica. Refere-se à nossa compreensão da ansiedade e, em particular, da ansiedade
de separação.
Um pressuposto muito comum das teorias psiquiátricas e da psicopatologia é de que o
medo só deve manifestar-se em situações que sejam verdadeiramente perigosas, e que o medo
que se manifesta em qualquer outra situação é neurótico. Isto leva à conclusão de que, como a
separação de uma figura de ligação não pode ser considerada uma situação verdadeiramente
perigosa, a ansiedade em torno da separação dessa figura é, portanto, neurótica. O exame das
evidências mostra que tanto o pressuposto quanto a conclusão a que leva são falsos.
Quando abordada empiricamente, verifica-se que a separação de uma figura de ligação
pertence a uma classe de situações passíveis de suscitar medo, sendo que, no entanto,
nenhuma delas pode ser considerada intrinsecamente perigosa. Essas situações incluem, entre
outras, o escuro, as mudanças súbitas e acentuadas no nível de estímulo: ruídos fortes,
movimentos bruscos, pessoas estranhas e coisas insólitas. Há evidências de que animais de
muitas espécies se alarmam em tais situações (Hinde, 1970), e de que isso também é
verdadeiro no caso de crianças (Jersild, 1947), e mesmo de adultos. Além disso, o medo é
especialmente suscetível de ser provocado quando duas ou mais dessas condições estão
simultaneamente presentes, por exemplo, ouvir um ruído forte quando se está sozinho no
escuro.
Sustenta-se que a explicação dos motivos pelos quais tão regularmente indivíduos
reagem com temor a essas situações é que, embora nenhuma das situações seja
intrinsecamente perigosa, cada uma delas comporta um risco maior. Ruído, estranhamento,
isolamento e, para muitas espécies, a escuridão, são outras tantas condições estatisticamente
associadas a um risco maior. O ruído pode ser o prenúncio de um desastre natural: incêndio,
inundação ou terremoto. Para um animal jovem, um predador é estranho, movimenta-se e,
com freqüência, ataca de noite, sendo muito mais provável que o faça quando a vítima está
sozinha. Como tal comportamento promove assim o êxito da sobrevivência e da procriação,
prossegue a teoria, verifica-se que os jovens das espécies que sobreviveram, incluindo o
homem, são geneticamente propensos a se desenvolverem de modo a reagir ao ruído,
estranheza, aproximação súbita e escuridão; as reações características, em tais casos, são a
ação de evitação ou a fuga — de fato, eles se comportam como se o perigo estivesse
realmente presente. De um modo comparável, reagem ao isolamento procurando companhia.
As respostas de medo suscitadas pela ocorrência natural de tais indícios de perigo fazem parte
do equipamento comportamental básico do homem (Bowlby, 1973).
126
Vista sob este prisma, a ansiedade em tomo da separação involuntária de uma figura
de ligação assemelha-se à ansiedade que o comandante de uma força expedicionária sente
quando as comunicações com a sua base são cortadas ou ameaçadas.
Isso leva à conclusão de que a ansiedade em tomo de uma separação involuntária pode
ser uma reação perfeitamente normal e saudável. O que pode ser difícil de explicar é por que
tal ansiedade é despertada em algumas pessoas com uma intensidade tão grande ou, ao
contrário, em outras, com tão pouca intensidade. Isso nos conduz a questões de etiologia e
psicopatologia.
Ao longo de todo este século, tem sido acirrado o debate sobre o papel das
experiências infantis na causação dos distúrbios psiquiátricos. Não só os psiquiatras de
mentalidade tradicional têm sido céticos quanto à importância de tais experiências, como
também os psicanalistas, nas décadas de 1960 e 1970, mostraram uma atitude idêntica.
Durante muito tempo, a maioria dos analistas que atribuem importância à experiência da vida
real concentraram suas atenções nos dois ou três primeiros anos de vida e em certas técnicas
para cuidar de crianças — o modo como um bebê é alimentado e recebe treinamento de
higiene — no fato de a criança presenciar ou não as relações sexuais dos pais. A atenção à
interação familiar e ao modo como os pais tratam uma criança não foi estimulada. De fato,
alguns extremistas sustentaram que o estudo sistemático das experiências de uma pessoa no
seio de sua família está fora dos interesses próprios de um psicanalista.
Ninguém que se dedique à psiquiatria infantil, melhor denominada psiquiatria familiar,
pode compartilhar de tal ponto de vista. Numa grande maioria de casos, não só existem
evidências de relações familiares perturbadas mas, habitualmente, predominam problemas
emocionais dos pais que derivam de suas próprias infâncias infelizes. Assim, sempre me
pareceu que o problema não consiste em estudar ou não o ambiente familiar de um paciente
mas em decidir que características são importantes, que métodos de investigação são
exeqüíveis e que tipo de teoria se ajusta melhor aos dados. Uma vez que muitos outros
adotaram o mesmo ponto de vista, uma quantidade considerável de pesquisas razoavelmente
confiáveis vem sendo realizada por investigadores oriundos de várias disciplinas. É com base
nos resultados dessas pesquisas, interpretados em termos da teoria da ligação, que ofereço
agora as generalizações e as idéias que se seguem.
127
O ponto fundamental de minha tese é que existe uma forte relação causal entre as
experiências de um indivíduo com seus pais e sua capacidade posterior para estabelecer
vínculos afetivos, e que certas variações comuns dessa capacidade, manifestando-se em
problemas conjugais e em dificuldades com os filhos, assim como nos sintomas neuróticos e
distúrbios de personalidade, podem ser atribuídas a certas variações comuns no modo como
os pais desempenham seus papéis. Muitas das evidências em que a tese se baseia são
retomadas no segundo volume de Attachment and Loss (Capítulo 15 em diante). A principal
variável para a qual chamo a atenção é o grau em que os pais de uma criança (a) lhe fornecem
uma base segura e (b) a estimulam a explorar a partir dessa base. Nesses papéis, o
desempenho dos pais varia segundo vários parâmetros, dos quais o mais importante, porque
permeia todas as relações, talvez seja o grau em que os pais reconhecem e respeitam o desejo
e a necessidade que a criança tem de uma base segura, e ajustam seu comportamento a isso.
Isto implica, em primeiro lugar, uma compreensão intuitiva do comportamento de ligação de
uma criança e uma disposição para satisfazê-lo e, no momento adequado, terminá-lo; e, em
segundo lugar, o reconhecimento de que uma das fontes mais comuns de raiva na criança é a
frustração do seu desejo de amor e cuidados, e de que a sua ansiedade geralmente reflete a
incerteza quanto à disponibilidade dos pais. Complementar em importância ao respeito dos
pais pelos desejos de ligação de uma criança é o respeito pelo seu desejo de explorar e ampliar
gradualmente suas relações com crianças de sua idade e com outros adultos.
As pesquisas sugerem que, em muitas áreas da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos,
mais da metade da população infantil está crescendo na companhia de pais que proporcionam
tais condições a seus filhos pequenos. Geralmente, essas crianças crescem seguras e
autoconfiantes, e mostram-se confiantes, cooperativas e prestativas para com as outras
pessoas. Na literatura psicanalítica, diz-se que uma pessoa assim tem um ego forte; e pode ser
descrita como alguém que é dotado de “confiança básica” (Erikson, 1950), “dependência
madura” (Fairbairn, 1952), ou “introjetou um objeto bom” (Klein, 1948). Nos termos da
teoria da ligação, a pessoa é descrita como tendo construído um modelo representacional de si
mesma como sendo capaz de se ajudar e merecedora de ser ajudada se surgirem dificuldades.
128
Por outro lado, muitas crianças (em algumas populações, um terço ou mais) crescem
com pais que não oferecem essas condições. Cumpre assinalar aqui que o foco de atenção está
nas relações que os pais têm com um determinado filho, uma vez que os pais não tratam todos
os filhos da mesma maneira e podem proporcionar condições excelentes para um e condições
muito adversas para um outro.
Consideremos alguns dos padrões de desvio mais comuns de comportamento de
ligação apresentados por adolescentes e também por adultos, com exemplos de experiências
típicas da infância que aqueles que apresentam tais padrões provavelmente tiveram quando
crianças, e talvez ainda tenham.
Muitos daqueles que são encaminhados a psiquiatras são indivíduos ansiosos,
inseguros, geralmente descritos como superdependentes ou imaturos. Em condição de
estresse, tendem a desenvolver sintomas neuróticos, depressão ou fobia. As pesquisas revelam
que eles estiveram expostos a pelo menos um, e geralmente mais de um, de certos padrões
típicos da parentalidade patogênica, os quais incluem:
(a) ausência persistente de respostas de um ou ambos os pais ao comportamento eliciador de
cuidados, da criança, e/ou depreciação e rejeição marcada;
(b) descontinuidades da parentalidade, ocorrendo mais ou menos freqüentemente, incluindo
períodos em hospital ou instituição;
(c) ameaças persistentes por parte dos pais de não amar a criança, usadas como um meio para
controlá-la;
(d) ameaças, por parte dos pais, de abandonar a família, usadas ou como um método de
disciplinar a criança ou como uma forma de coagir o cônjuge;
(e) ameaças por parte de um dos pais de abandonar ou mesmo de matar o outro, ou então de
cometer suicídio (estas ameaças são mais comuns do que se poderia supor);
(f) indução de culpa à criança, afirmando que o comportamento dela é ou será responsável
pela doença ou morte de um dos pais.
Qualquer dessas experiências pode levar uma criança, um adolescente ou um adulto a
viver em constante ansiedade, com medo de perder sua figura de ligação e, por conseguinte, a
ter um baixo limiar para a manifestação do comportamento de ligação. A condição é melhor
descrita como de ligação ansiosa (*).

(*) Não existe qualquer prova em favor da idéia tradicional, ainda generalizada, de que
tal pessoa foi tratada com excessiva complacência quando criança e que, por isso, acabou
“estragada pelo mimo”.
129
Um conjunto adicional de condições a que alguns desses indivíduos estiveram
expostos, ou ainda estão, é quando um dos pais, geralmente a mãe, exerce pressão sobre eles
para atuarem como figura de ligação para ela, invertendo assim a relação normal. Os meios de
exercer tal pressão variam desde o encorajamento inconsciente de um senso prematuro de
responsabilidade para com os outros, até o uso deliberado de ameaças ou indução de culpa. Os
indivíduos tratados dessa maneira são passíveis de se tornarem excessivamente escrupulosos e
dominados por sentimentos de culpa, assim como ansiosamente ligados. Uma maioria de
casos de fobia escolar e agorafobia se produz, provavelmente, desse modo.
Todas as variantes de comportamento parental até aqui descritas são suscetíveis não só
de provocar raiva dos pais na criança, mas também de inibir a sua expressão. O resultado é
muito ressentimento parcialmente inconsciente, o qual persiste na vida adulta e expressa-se,
geralmente, num afastamento em relação aos pais e numa aproximação em relação a alguém
mais fraco, por exemplo, um cônjuge ou um filho. É provável que tal pessoa também esteja
sujeita a fortes anseios inconscientes de amor e apoio, os quais podem expressar-se por
alguma forma aberrante de comportamento eliciador de cuidados, por exemplo, tentativas
frouxas de suicídio, sintomas de conversão, anorexia nervosa, hipocondria, etc. (Henderson,
1974).
Um padrão de comportamento de ligação que é abertamente o oposto da ligação
ansiosa é o descrito por Parkes (1973) como autoconfiança compulsiva. Ao invés de buscar o
amor e os cuidados de outros, uma pessoa que apresenta esse padrão insiste em agüentar firme
e em fazer tudo por si mesma, sejam quais forem as condições. Também essas pessoas são
passíveis de desmoronar sob estresse e apresentar sintomas psicossomáticos ou depressão.
Muitas dessas pessoas tiveram experiências semelhantes às dos indivíduos que
desenvolvem uma ligação ansiosa; mas reagiram a elas de modo diferente, inibindo o
sentimento e o comportamento de ligação, e negando, talvez até ridicularizando, qualquer
desejo de relações estreitas com quem quer que pudesse dar amor e carinho. No entanto, não é
preciso ter muito discernimento para compreender que elas desconfiam profundamente de
quaisquer relações íntimas e aterroriza-as a simples idéia de terem que confiar em outra
pessoa, em alguns casos para evitar a dor de serem rejeitadas, e, em outros, para evitar serem
submetidas a pressões que as obriguem a cuidar de outra pessoa. Tal como no caso da ligação
ansiosa, é provável que exista muito ressentimento subjacente, o qual, quando suscitado, se
volta contra pessoas mais fracas, e também muito anseio inexprimido de amor e apoio.
130
Um padrão de comportamento de ligação relacionado com a auto-confiança
compulsiva é o de solicitude compulsiva. Uma pessoa que o manifesta pode envolver-se em
muitas relações íntimas, mas sempre no papel de dispensar cuidados, nunca de os receber.
Com freqüência, o indivíduo escolhido é um aleijado que poderá, por algum tempo, agradecer
os cuidados que lhe dispensam. Mas no caso da solicitude compulsiva, a pessoa esforça-se
também por cuidar de quem não procura nem agradece tal ajuda. A experiência típica da
infância de tais pessoas é terem tido uma mãe que, devido à depressão ou algum outro
impedimento, não pôde cuidar da criança mas, em vez disso, aceitou de bom grado ser
cuidada, e talvez tenha exigido também ajuda para cuidar de irmãos mais novos. Assim, desde
o começo da infância, a pessoa que se desenvolve desse modo descobre que o único vínculo
afetivo de que dispõe é um vínculo em que é sempre ela que deve ser solícita para com os
outros e que a única atenção que poderá receber é a atenção que dá a si mesma. (As crianças
que crescem em instituições também se desenvolvem, por vezes, desse modo.) Tal como na
autoconfiança compulsiva, também neste caso existe muito anseio latente de amor e
solicitude, e muita raiva latente para com os pais por não lhes terem dado amor e atenção; e,
uma vez mais, muita ansiedade e culpa em tomo da expressão desses desejos. Winnicott
(1965) descreveu indivíduos desse tipo como tendo desenvolvido um “falso eu” e concorda
em que a sua origem deve ser encontrada na pessoa que, quando criança, não recebeu
cuidados matemos “suficientemente bons”. Ajudar essa pessoa a descobrir o seu “verdadeiro
eu” implica ajudá-la a reconhecer e a deixar-se possuir pelo seu anseio de amor e atenção, e
por sua raiva para com aqueles que não souberam supri-la quando criança.
Os eventos da vida que são especialmente passíveis de atuar como fatores de estresse
em indivíduos cujo comportamento de ligação se desenvolveu em uma ou outra das direções
até aqui descritas são a doença grave ou morte de uma figura de ligação ou de alguém a quem
se era muito afeiçoado, ou alguma outra forma de separação. Uma doença grave intensifica a
ansiedade e talvez a culpa. A morte ou a separação confirmam as piores expectativas da
pessoa e levam ao desespero e à angústia. Nessas pessoas, o luto por uma morte ou separação
poderá seguir um curso atípico. No caso da ligação ansiosa, o luto tende a se caracterizar por
uma raiva extraordinariamente intensa e (ou) auto-recriminação acompanhada de depressão, e
tende a persistir por muito mais tempo que o normal. No caso da autoconfiança compulsiva, o
luto pode ser protelado por meses ou anos. Entretanto, irritabilidade e tensão geralmente estão
presentes e podem ocorrer depressões episódicas, mas muitas vezes tanto tempo depois, que
se perde de vista a conexão causal com a morte ou separação. Estas formas patológicas de luto
são discutidas por Parkes (1972).
131
As pessoas do tipo até aqui descrito não só são sujeitas a entrar em colapso após uma
perda ou separação, como também podem deparar-se com certas dificuldades típicas quando
casam e têm filhos. Em relação a um cônjuge, uma pessoa pode apresentar uma ligação
ansiosa e fazer constantes exigências de amor e atenção; ou ainda pode apresentar uma
solicitude compulsiva para com o cônjuge, com ressentimento latente por lhe parecer que não
esteja sendo apreciada e nem correspondida. Em relação a um filho, esses padrões também
podem se manifestar. No primeiro caso, a pessoa (pai ou mãe) exige que o filho cuide dela e,
no segundo, insiste em cuidar do filho mesmo quando isso deixou de ser apropriado, o que
resulta em “amor sufocante” (*). Distúrbios do comportamento dos pais resultam também do
fato de o filho ser percebido e tratado como se fosse um irmão mais novo, o que pode resultar,
por exemplo, em um pai sentir ciúme das atenções que sua mulher dispensa ao filho de
ambos.
Uma outra forma comum de distúrbio é quando um dos pais vê em seu filho uma
réplica dele mesmo, especialmente daqueles aspectos que ele se empenhou em reprimir em si
mesmo e que se esforça agora por reprimir também na criança. Nesses esforços, o pai (ou a
mãe) usará provavelmente uma versão dos mesmos métodos de disciplina — talvez rudes e
violentos, talvez reprovadores e sarcásticos, talvez indutores de culpa — a que foi submetido
(a) em criança e que resultaram no desenvolvimento dos mesmos problemas que se empenha
agora em prevenir ou curar, de maneira tão inadequada, no próprio filho. Um marido também
pode perceber e tratar sua mulher do mesmo modo. Analogamente, uma esposa e mãe pode
adotar esse padrão em sua percepção e maneira de tratar o marido ou o filho. Quando nos
defrontamos com um comportamento desagradável e frustrador desse tipo, é importante
lembrar que cada um de nós é capaz de fazer a outros aquilo que nos foi feito. O adulto tirano,
que maltrata os mais fracos, é a criança tiranizada e maltratada que cresceu.

(*) O termo “simbiótico” é usado, por vezes, para descrever essas relações
sufocantemente íntimas. Contudo, o termo não foi bem escolhido, visto que, em biologia,
refere-se a uma parceria mutuamente vantajosa entre dois organismos, ao passo que as
relações familiares assim denominadas são seriamente desajustadas. Descrever a criança
como “superprotegida” é igualmente errôneo, pois não são levadas em conta as insistentes
exigências de atenção que um dos pais está fazendo à criança.
132
Quando um indivíduo adota em relação a si mesmo ou aos outros as mesmas atitudes e
formas de comportamento que seus próprios pais adotaram e podem estar ainda adotando em
relação a ele, pode-se afirmar que ele se identifica com um dos pais. Os processos pelos quais
essas atitudes e formas de comportamento são adquiridas são, presumivelmente, os da
aprendizagem por observação e, assim, não diferem dos processos pelos quais outras formas
complexas de comportamento são adquiridas, inclusive as habilidades úteis.
Dos muitos outros padrões de funcionamento familiar e desenvolvimento da
personalidade perturbados que podem ser entendidos em termos do desenvolvimento
patológico do comportamento de ligação, um dos mais conhecidos é o indivíduo
emocionalmente desligado, incapaz de manter um vínculo afetivo estável com quem quer que
seja. As pessoas com essa incapacidade são classificadas como psicopatas e (ou) histéricas.
São freqüentemente delinqüentes e suicidas. A história típica é de prolongada privação de
cuidados matemos durante os primeiros anos de vida, geralmente combinada com rejeição
posterior ou ameaças de rejeição pelos pais ou pais adotivos (*).
Para explicar por que indivíduos de diferentes tipos continuam apresentando as
características descritas muito depois de terem crescido, parece necessário postular que, sejam
quais forem os modelos representacionais de figuras de ligação e do eu que um indivíduo
constrói durante sua infância e adolescência, eles tendem a persistir relativamente inalterados
até e durante toda a vida adulta. Por conseguinte, esse indivíduo tende a assimilar qualquer
nova pessoa com quem possa formar um vínculo afetivo, a esposa ou um filho, um patrão ou
o terapeuta, a um modelo existente (o de um ou outro de seus pais ou do próprio eu), e
continua freqüentemente a fazê-lo, apesar de repetidas provas de que o modelo é inadequado.
Analogamente, espera ser percebido e tratado por essas pessoas de um modo que seja
apropriado ao seu modelo do eu, e continuará com tais expectativas apesar de provas em
contrário. Tais percepções e expectativas distorcidas levam a diversas crenças errôneas sobre
as outras pessoas, a falsas expectativas acerca do modo como elas se comportarão e a ações
inadequadas, com a intenção de frustrar o comportamento esperado delas. Assim, para darmos
um simples exemplo, um homem que durante a infância foi freqüentemente ameaçado de
abandono pode facilmente atribuir intenções semelhantes à sua esposa. Portanto, interpretará
as coisas que ela diz ou faz em função

(*) Como todas as condições psiquiátricas mencionadas representam graus e padrões
variáveis da mesma psicopatologia subjacente, não existem mais perspectivas de distinguir
nitidamente umas das outras do que de distinguir nitidamente entre diferentes formas de
tuberculose. Para explicar as diferenças, provavelmente são importantes os fatores genéticos,
assim como as variações nas experiências pessoais de diferentes indivíduos.
133
dessas intenções que lhe atribui, e tomará então qualquer iniciativa que julgue ser a melhor
para enfrentar a situação que acredita existir. Sobrevirão equívocos e conflitos. Em tudo isso,
ele não tem consciência de que está sendo influenciado por suas experiências passadas, nem
de que suas atuais crenças e expectativas são infundadas.
Na teoria tradicional, os processos descritos são freqüentemente citados em termos de
“internalização de um problema”, e as atribuições e percepções errôneas são imputadas à
projeção, introjeção ou fantasia. Não só as afirmações resultantes tendem a ser ambíguas
como também o fato de tais atribuições e percepções errôneas derivarem diretamente de
experiências prévias da vida real só recebe uma vaga alusão, ou então é inteiramente
obscurecido. Acredito que a descrição dos processos em termos da psicologia cognitiva
garante muito maior precisão e possibilita a formulação de hipóteses em forma testável a
respeito do papel causal dos diferentes tipos de experiência infantil, através da persistência de
modelos representacionais de figuras de ligação e do eu num nível inconsciente.
Cumpre assinalar que modelos representacionais inadequados mas persistentes
coexistem freqüentemente com outros mais apropriados. Por exemplo, um marido pode
oscilar entre acreditar que sua esposa lhe é fiel e suspeitar de que ela pretende abandoná-lo. A
experiência clínica sugere que quanto mais fortes forem as emoções despertadas numa
relação, mais provável será que se tomem dominantes os modelos mais primitivos e menos
conscientes. Explicar esse funcionamento mental, que é tradicionalmente discutido em termos
de processos defensivos, apresenta um desafio aos psicólogos cognitivos — mas um desafio
do qual eles já estão se ocupando (por exemplo, Erdelyi, 1974) (2).

Alguns princípios de psicoterapia

Tais são, pois, os elementos de uma psicopatologia baseada na teoria da ligação. Que
orientação ela nos dá para avaliarmos os problemas de um paciente e ajudá-lo?
Em primeiro lugar, devemos decidir se o problema apresentado está entre aqueles a
que a teoria da ligação é aplicável, uma questão que ainda requer muita exploração. Se for
aplicável, examinaremos qual o padrão tipicamente assumido pelo comportamento de ligação
do paciente, levando em conta o que ele nos diz a respeito dele mesmo e das relações que
estabelece, e também como se relaciona conosco, seus ajudantes potenciais. Também
exploramos eventos relevantes de sua
134
vida, principalmente partidas, doenças sérias ou morte, e também chegadas, e examinamos em
que medida os sintomas apresentados podem ser entendidos como respostas recentes ou
tardias a esses eventos. No decorrer dessas explorações, podemos começar a obter alguma
idéia dos padrões de interação que predominam no lar atual do paciente, que pode ser o lar de
sua família de origem ou o da nova família que ele ajudou a criar, ou (talvez especialmente no
caso de mulheres) ambos. Qualquer material histórico que elucide o modo como os padrões
atuais se produziram serve para tornar mais nítidas as nossas percepções.
Uma importante dificuldade nesse processo de avaliação é que a informação oferecida
talvez omita fatos vitais ou os falsifique. Não só os parentes — pais ou cônjuge — são
capazes de omitir, suprimir ou falsificar tais fatos, mas o próprio paciente também poderá
fazê-lo. Isto, é claro, não ocorre por acidente. Em primeiro lugar, é evidente que muitos pais,
que por uma razão ou outra negligenciaram ou rejeitaram um filho pequeno, ameaçaram-no
de abandono, encenaram tentativas de suicídio, tiveram repetidas brigas entre eles ou se
apegaram à criança por causa de seu próprio desejo de contarem com uma figura que lhes
desse atenção, detestarão que os verdadeiros fatos sejam conhecidos. Inevitavelmente,
esperam críticas e recriminações e, assim, preferem distorcer a verdade, algumas vezes
inadvertidamente, outras deliberadamente. Do mesmo modo, os filhos de pais como esses
cresceram sabendo que a verdade não deve ser divulgada e talvez estejam meio convencidos
também de que eles mesmos são culpados por todos os problemas, como seus pais sempre
insistiram em afirmar. Um método comum de manter em segredo os distúrbios familiares
consiste em atribuir os sintomas a alguma outra causa; ele tem medo dos meninos na escola (e
não de que a mãe possa se suicidar); ela sofre de dores de cabeça e indigestão (e não porque a
mãe ameaça repudiá-la se ela sair de casa); ele foi difícil desde que nasceu (não que fosse
indesejado e negligenciado pelos pais); ela está sofrendo de uma depressão endógena (e no
entanto está chorando tardiamente a perda do pai, que ocorreu há muitos anos). Muitas vezes,
o que é descrito como sendo um sintoma é comprovadamente uma resposta que, divorciada da
situação que a provocou, parece inexplicável. Ou então um sintoma surge como resultado da
tentativa feita pelo paciente de evitar reagir com sentimento autêntico a uma situação
verdadeiramente aflitiva ou deprimente. Em um caso ou outro, uma primeira e importante
tarefa consiste em identificar a situação, ou situações, à qual o paciente está respondendo, ou
inibindo uma resposta.
É obviamente desejável que qualquer clínico que empreenda esse tipo de trabalho
disponha de um extenso conhecimento dos padrões
135
desviantes de comportamento de ligação e das experiências familiares patogênicas que
comumente se acredita contribuírem para os mesmos; e também deve estar familiarizado com
os tipos de informações que são freqüentemente omitidas, suprimidas ou falsificadas. Se
houver esse conhecimento, muitas vezes pode tornar-se evidente a falta de alguma informação
crucial ou o caráter duvidoso, quando não claramente falso, de certos tipos de afirmações.
Sobretudo, um clínico com experiência nesse tipo de trabalho sabe quando ainda tem que
descobrir os fatos e está preparado para esperar que as informações importantes venham à
tona ou para sondar cautelosamente as áreas promissoras. Os principiantes são capazes de
saltar para conclusões apressadas e cometer erros.
Ao elaborar um quadro clínico, será prudente o psiquiatra não confiar apenas nos
métodos tradicionais de entrevista mas, sim, sempre que possível, realizar uma ou mais
entrevistas com a família. Nenhuma outra técnica oferece maior probabilidade de revelar
rapidamente os padrões presentes sob sua verdadeira luz e de fornecer pistas sobre o modo
como eles se desenvolveram. Atualmente há numerosos livros sobre psiquiatria da família e
terapia da família. Embora eles chamem a atenção para a imensa influência que diferentes
padrões de interação podem exercer sobre cada membro da família e descrevam técnicas de
entrevista e modos de intervenção, os conceitos que usam não são os da teoria da ligação.
Para os fins da presente exposição eles são, portanto, de valor limitado.
Ainda há muito trabalho a ser feito antes de podermos ter certeza sobre quais os
distúrbios do comportamento de ligação que são tratáveis pela psicoterapia e quais os que não
são; e, se tratáveis, a qual dos vários métodos deve ser dada preferência. Muita coisa depende
da experiência, capacidade e recursos do clínico. De modo geral, podemos acompanhar Malan
(1963), usando como principal critério se o paciente e (ou) os membros de sua família
mostram disposição para explorar o problema apresentado de acordo com as diretrizes
descritas; geralmente, é no decorrer da nossa avaliação que ficará claro se é esse o caso, ou
não. À5 vezes, o paciente e seus familiares reagem, pronta ou relutantemente, à noção de que
o problema ou sintomas de que se queixam parecem fazer sentido em termos dos
acontecimentos e dos distúrbios familiares que estão descrevendo. Não é raro que essas idéias
sejam repulsivas para um ou mais e, ocasionalmente, são rejeitadas como irrelevantes e
absurdas. Dependendo dessas reações é que decidimos a nossa estratégia terapêutica.
Não temos espaço aqui para examinar todos os usos limitações dos muitos padrões
possíveis de intervenção terapêutica — seja com pais
136
e filhos (de todas as idades) ou com casais — que se tornaram hoje uma prática estabelecida.
Entrevistas conjuntas, entrevistas individuais, as duas alternadamente, tudo tem seu lugar,
assim como as sessões prolongadas que podem durar várias horas; mas estamos muito longe
de saber qual o padrão que pode ser indicado como o melhor para um determinado problema.
Existem, porém, certos princípios que são relevantes para qualquer desses procedimentos
terapêuticos. Por uma questão de facilidade de exposição, escolho o caso da terapia
individual, embora assinalando que é possível reformular o enunciado de cada princípio de
modo que se refira aos membros de uma família, em vez de uma única pessoa.
Em meu entender, a um terapeuta cabe realizar um certo número de tarefas inter-
relacionadas, entre as quais estão as seguintes:
(a) em primeiro lugar, e acima de tudo, proporcionar ao paciente uma base segura a partir da
qual ele possa explorar a si mesmo e explorar também suas relações com todos aqueles com
quem estabeleceu, ou poderá estabelecer, um vínculo afetivo; e, simultaneamente, fazer com
que fique claro para ele que todas as decisões sobre como analisar melhor uma situação e
sobre qual a melhor forma de agir devem ser dele, e que acreditamos que, com ajuda, ele é
capaz de tomar essas decisões;
(b) juntar-se ao paciente nessas explorações, encorajando-o a examinar as situações em que
atualmente ele se encontra com pessoas significativas, e os papéis que pode desempenhar
nelas, e também como reage em sentimento, pensamento e ação quando nessas situações;
(c) chamar a atenção do paciente para os modos como, talvez inadvertidamente, ele tende a
interpretar os sentimentos e o comportamento do terapeuta em relação a ele, e para as
previsões que ele (o paciente) faz e as ações que adota em resultado disso; e convidá-lo depois
a examinar se os seus modos de interpretar, predizer e atuar podem ser parcial ou totalmente
inadequados, à luz daquilo que sabe a respeito do terapeuta;
(d) ajudá-lo a examinar como as situações em que geralmente se encontra e suas reações
típicas a elas, incluindo o que pode estar acontecendo entre ele próprio e o terapeuta, podem
ser entendidas em termos das experiências da vida real que teve com figuras de ligação
durante a infância e adolescência (e talvez ainda esteja tendo), e de quais foram então (e
podem ser ainda) suas reações a elas.
137
Embora as quatro tarefas delineadas sejam conceitualmente distintas, na prática têm
que ser empreendidas simultaneamente. Pois uma coisa é o terapeuta fazer tudo o que estiver
ao seu alcance para ser uma figura confiável, útil e constante, e uma outra é o paciente
interpretá-lo como tal e confiar nele. Quanto mais desfavoráveis tiverem sido as experiências
do paciente com seus pais, menos fácil será para ele confiar agora no terapeuta, e mais
facilmente perceberá, interpretará e receberá negativarnente tudo o que o terapeuta fizer e
disser. Além disso, quanto menos confiar no terapeuta, menos lhe contará e mais difícil será
para ambas as partes explorar os eventos dolorosos, assustadores ou misteriosos que possam
ter ocorrido durante os anos de infância e adolescência do paciente. Finalmente, quanto menos
completo e exato for o quadro existente do que aconteceu no passado, mais difícil será para
ambas as partes entenderem os sentimentos e o comportamento atuais do paciente, e maior a
probabilidade de que persistam suas percepções e interpretações errôneas. Assim, verificamos
que cada paciente está confinado num sistema mais ou menos fechado, e só lentamente,
muitas vezes passo a passo, é possível ajudá-lo a escapar.
Das quatro tarefas, aquela que pode esperar mais é o exame do passado, visto que sua
única importância reside nos esclarecimentos que fornece para o presente. A seqüência, para o
terapeuta e o paciente trabalhando juntos freqüentemente poderá ser: primeiro reconhecer que
o paciente tende habitualmente a reagir a um determinado tipo de situação interpessoal de um
certo modo derrotista; em seguida, examinar que tipos de sentimentos e expectativas tais
situações comumente despertam nele; e, só depois disso, examinar se ele pode ter tido
experiências, recentes ou em seu passado distante, que contribuíram para o fato de ele reagir
com esses sentimentos e expectativas nas situações apresentadas. Dessa forma, lembranças de
experiências relevantes são evocadas, não simplesmente como acontecimentos infelizes, mas
em termos da influência penetrante que exercem no presente sobre os sentimentos,
pensamentos e ações do paciente.
É evidente que um grande número de psicoterapeutas, independentemente de suas
concepções teóricas, dedicam-se habitualmente a essas tarefas, de modo que muito do que
estou dizendo lhes é familiar há muito tempo. Na terminologia tradicional, as tarefas são
mencionadas como fornecimento de apoio, interpretação da transferência, e construção ou
reconstrução de situações passadas. Se é que há novos pontos que merecem ênfase na presente
formulação, eles são:
(a) atribuição de um lugar central, não só na prática mas também
138
em teoria, do nosso papel de dotar um paciente com uma base segura, a partir da qual ele
possa explorar e depois chegar às suas próprias conclusões e tomar suas próprias decisões;
(b) rejeitar as interpretações que postulam várias formas de fantasia mais ou menos
primitivas, e optar pela concentração nas experiências da vida real do paciente;
(c) voltar a atenção particularmente para os detalhes de como os pais do paciente podem
realmente ter-se comportado em relação a ele, não só durante sua infância mas também
durante a adolescência e até o presente; e também para o modo como ele costuma reagir;
(d) utilizar as interrupções no decorrer do tratamento, especialmente as impostas pelo
terapeuta, quer rotineiramente, como no caso de férias, quer excepcionalmente, como no caso
de doença ou outras oportunidades: primeiro, para observar como o paciente interpreta uma
separação e como reage a ela; depois, para ajudá-lo a reconhecer como está interpretando e
reagindo; e, finalmente, para examinar com ele como e por que ele se desenvolveria desse
modo.
Uma insistência no princípio de que a atenção de um paciente deve se voltar para o
exame do que podem ter sido suas experiências reais, e como essas experiências podem ainda
influenciá-lo, freqüentemente dá origem a um mal-entendido. Poder-se-á perguntar: será que
não estamos apenas encorajando um paciente a atribuir toda a responsabilidade por seus
problemas aos pais dele? E, sendo assim, que benefício pode resultar disso? Em primeiro
lugar, cumpre enfatizar que, como terapeutas, não nos compete determinar quem deve ser
incriminado ou por que razões. Nossa tarefa consiste, sim, em ajudar um paciente a
compreender em que medida ele percebe e interpreta erroneamente a conduta daqueles a
quem estima ou poderia estimar no presente, e como, em conseqüência, ele trata essas pessoas
de uma forma que produz resultados que ele lamenta ou deplora. Nossa tarefa, de fato,
consiste em ajudá-lo a reexaminar os modelos representacionais das figuras de ligação e dele
mesmo que, sem que se aperceba disso, estão governando suas percepções, previsões e ações,
e como esses modelos podem ter sido desenvolvidos durante sua infância e adolescência e, se
ele achar conveniente, ajudá-lo a modificar esses modelos à luz de experiências mais recentes.
Em segundo lugar, considerando que um paciente atribui culpas facilmente, devemos ser
capazes de assinalar as dificuldades emocionais e as experiências infelizes por que seus pais
talvez
139
tenham passado, despertando, assim, a sua simpatia e compreensão. Tendo em mente o nosso
papel médico, devemos abordar o comportamento dos pais, que pode ser profundamente
lamentável, de um modo tão objetivo quanto o modo pelo qual tentamos abordar o
comportamento do próprio paciente. O nosso papel não é atribuir culpas nem apontar
culpados, mas identificar cadeias causais com a finalidade de rompê-las ou atenuar suas
conseqüências.
Este é o momento oportuno para nos referirmos à terapia familiar, urna vez que, no
decorrer das entrevistas com a família, talvez seja possível adquirir uma perspectiva muito
mais extensa sobre o modo como surgiram as dificuldades atuais. Usando essas ocasiões para
traçar urna árvore genealógica detalhada, dados vitais podem ser desenterrados pela primeira
vez, especialmente quando são incluídos os avós. Como observou um colega, “é
surpreendente ver os efeitos que tem sobre um paciente ouvir seus avós falarem a respeito dos
avós deles”.
Embora eu acredite que os mesmos princípios se apliquem tanto à terapia familiar
como à terapia individual, as diferenças na aplicação são numerosas demais para podermos
discuti-las aqui, merecendo ser examinadas em detalhe num estudo à parte. Uma diferença
pode, entretanto, ser mencionada. Urna finalidade precípua da terapia familiar é habilitar
todos os membros da família a relacionarem-se uns com os outros de modo a que cada
membro possa encontrar uma base segura em seu relacionamento com a família, como ocorre
em todas as famílias que têm um funcionamento sadio. Com esse objetivo em vista, a atenção
se volta para a compreensão dos métodos pelos quais os membros da família às vezes
conseguem oferecer uns aos outros uma base segura, mas outras vezes não, por exemplo,
interpretando erroneamente os papéis uns dos outros, desenvolvendo falsas expectativas uns
em relação aos outros, ou quando dirigem a um membro da família formas de comportamento
que seriam adequadas se dirigidas a um outro. Por conseguinte, na terapia familiar, será
reservado menos tempo à interpretação da transferência do que na terapia individual. Uma
vantagem fundamental é que, quando a terapia se mostra eficaz, pode freqüentemente
terminar mais cedo e com menor dor e perturbação do que a terapia individual, no decorrer da
qual um paciente pode facilmente acabar considerando o terapeuta como a única base segura
que lhe é possível imaginar.
Voltemos agora a falar em termos de terapia individual.
Já enfatizei que, em minha opinião, uma importante tarefa terapêutica consiste em
ajudar um paciente a descobrir quais são as situações, atuais ou passadas, com que os seus
sintomas se relacionam, quer
140
se trate de respostas a essas situações ou de efeitos secundários da tentativa de não reagir a
elas. Entretanto, como foi o paciente que esteve exposto à situação em questão, ele já possui,
num certo sentido, todas as informações relevantes. Por que é, então, que ele necessita de
tanta ajuda para descobri-la?
O fato é que grande parte das informações mais importantes referem-se a eventos
extremamente dolorosos ou assustadores que o paciente, na verdade, preferiria esquecer.
Lembranças de ter sido sempre considerado inconveniente, de t•er tido que cuidar de uma
mãe deprimida, em vez de ter sido cuidado por ela, do terror e raiva que sentia quando o pai
era violento ou a mãe fazia ameaças, da culpa que o invadia quando lhe diziam que seu
comportamento faria seus pais ficarem doentes, do pesar, desespero e raiva que o dominavam
depois de uma perda, ou da intensidade de seus anseios não correspondidos durante um
período de separação forçada. Ninguém pode recordar tais eventos sem que se renove o seu
sentimento de angústia, ou raiva, ou culpa, ou desespero. Ninguém faz questão de acreditar
que seus próprios pais, que em outras ocasiões podem ter sido carinhosos e solícitos, em
alguns momentos se comportaram de forma mais deprimente. E, por outro lado, é muito
pouco provável que os pais estimulem seus filhos a registrar ou a recordar tais
acontecimentos; com efeito, com muita freqüência eles tentam negar as percepções dos filhos
e impõem-lhes o silêncio. Para os pais é igualmente penoso examinarem de que maneira o
próprio comportamento deles pode ter contribuído, e talvez ainda esteja contribuindo, para os
problemas atuais do filho. Portanto, existem, de todas as partes, fortes pressões para o
esquecimento e a distorção, a repressão e a falsificação, inocentando-se uma parte e
incriminando-se a outra. Concluímos, pois, que os processos defensivos têm como objetivo
impedir o reconhecimento ou a recordação de eventos da vida real e os sentimentos por eles
suscitados, assim como sempre tiveram por objetivo a tomada de consciência de impulsos ou
fantasias inconscientes. Com efeito, muitas vezes só quando a trajetória detalhada de alguma
relação perturbada e aflitiva é recordada e descrita é que vêm à mente o sentimento
despertado por ela e as ações cogitadas em resposta. Lembro-me bem de como uma jovem
inibida e silenciosa, de pouco mais de 20 anos, propensa a estados de ânimo supostamente
imprevisíveis e a crises histéricas em casa, respondeu ao meu comentário: “tenho a impressão
de que sua mãe realmente nunca a amou”. (Ela era a segunda filha, sendo seguida de perto por
dois filhos muito desejados.) Lavada em lágrimas, ela confirmou a minha opinião, citando,
palavra por palavra, comentários feitos pela mãe desde a infância até o presente, e o
desespero,
141
ciúme e raiva que o modo como a mãe a tratava despertavam nela. Seguiu-se naturalmente a
análise de sua profunda convicção de que eu também a achava antipática e de que suas
relações comigo seriam tão desastrosas quanto com a mãe, o que explicava os silêncios mal-
humorados que vinham impedindo a terapia.
A técnica desenvolvida para ajudar pessoas que sofreram perdas ilustra bem os
princípios que estou descrevendo. Nesse trabalho, os eventos em questão e os sentimentos,
pensamentos e ações por ele suscitados são recentes e, assim, comparados com os eventos e as
reações da infância, têm maiores probabilidades de ser recordados com nitidez e exatidão. Os
sentimentos dolorosos, além disso, ainda estão freqüentemente presentes ou, pelo menos, são
mais facilmente acessíveis.
Aqueles que se dedicam ao aconselhamento de pessoas que sofreram perdas (por
exemplo, Raphael, 1975) apuraram empiricamente que, para que elas sejam ajudadas, é
necessário encorajá-las a recordar e a descrever, muito detalhadamente, todos os eventos que
conduziram à perda, as circunstâncias que a cercaram e as experiências por que passou desde
então; com efeito, parece que somente desse modo é que uma viúva (*), ou qualquer outra
pessoa que sofreu uma perda, consegue distinguir suas esperanças, arrependimentos e
desesperos, sua ansiedade, raiva e talvez culpa, e, tão importante quanto isso, recapitular todas
as ações e reações que pretendia (e talvez ainda pretenda) realizar, por mais inadequadas e
arrasadoras que muitas delas sempre tenham sido, e certamente seriam agora. E desejável que
a pessoa que sofreu uma perda recapitule não só tudo o que cercou essa perda, como também
toda a história do relacionamento, todas as suas satisfações e deficiências, as coisas que foram
feitas e aquelas que ficaram por fazer. De fato, parece que só quando consegue relembrar e
reorganizar a experiência passada é que se torna possível para ela considerar-se viúva, refletir
sobre todas as suas possibilidades frituras, com suas limitações e oportunidades, e tirar delas o
maior proveito, sem tensões nem esgotamentos subseqüentes. O mesmo se aplica, é claro, a
viúvos e a pais que perderam um filho.
Até aqui, não mencionei qualquer conselho. A experiência do aconselhamento a
pessoas que sofreram perda mostra que, até que elas tenham tido tempo suficiente para
avançar em sua recapitulação do passado e em sua reorientação para o futuro, os conselhos
são muito mais nocivos do que benéficos. Além disso, a pessoa necessita muito mais de
informação do que de conselhos. Pois a situação da vida de uma

(*) Por razões demográficas, o desenvolvimento de técnicas de aconselhamento em
casos de perda fez-se principalmente com viúvas; por isso, são esses os casos quase sempre
citados, neste parágrafo e nos seguintes.
142
viúva é muito diferente do que era. Muitos caminhos conhecidos de ação foram agora
fechados e pode ser que faltem a ela informações sobre aqueles que lhe estão agora abertos, e
sobre as vantagens e desvantagens de cada um. Fornecer-lhe — ou orjentá4a no sentido de —
informações relevantes, e ajudá-la a examinar suas implicações para o futuro, deixando, ao
mesmo tempo, que ela tome as decisões, poderá ser, no momento oportuno, muito util.
Hamburg enfatizou reiteradamente a grande importância de uma pessoa buscar e utilizar
novas informações, como um passo necessário para enfrentar qualquer transição estressante
(Hamburg e Adams, 1967). Ajudar um paciente a fazer isso no momento certo e da maneira
correta constitui, pois, a quinta tarefa do terapeuta.
Quando se assiste a um paciente psiquiátrico, as tarefas a empreender e as técnicas
para realizá-las não são especificamente diferentes, creio eu, das usadas no aconselhamento a
pessoas que sofreram perda. Aquelas diferenças que porventura existam devem-se ao fato de
os modelos representacionais do paciente, e os padrões de comportamento neles baseados,
estarem firmemente estabelecidos há muito tempo, de muitos dos eventos que levaram ao seu
desenvolvimento terem ocorrido há muitos anos, e de o paciente e membros de sua família
relutarem profundamente em enfrentar de novo essas coisas. Por conseguinte, quando um
terapeuta ajuda um paciente psiquiátrico a explorar-se a si mesmo e a explorar o seu mundo,
ele tem um papel complexo a preencher.
Assim, deve encorajar o seu paciente a explorar, mesmo quando resiste a fazê-lo, e
também deve ajudá-lo na busca chamando a atenção para características da história que
parecem ter probabilidade de adquirir importância, descartando aquelas que, aparentemente,
são irrelevantes e podem desviá-lo. Com freqüência, o terapeuta chamará a atenção do
paciente para a sua relutância em examinar certas possibilidades e, talvez simultaneamente,
mostrará compreensão para com a perplexidade, angústia e dor que tal exame poderia
acarretar. Em tudo isto, como se notará, estou de acordo com os que acreditam que o papel do
terapeuta deve ser ativo. Entretanto, para ser eficaz, o terapeuta deve reconhecer que não pode
caminhar mais depressa do que o paciente e que, ao chamar a atenção, com demasiada
insistência, para temas dolorosos, despertará o medo em seu paciente e só ganhará a raiva e o
profundo ressentimento dele. Finalmente, o terapeuta nunca deve esquecer que, por mais
plausíveis e convincentes que lhe pareçam suas conjeturas, em comparação com o paciente
ele está em posição desfavorável para conhecer os fatos, e que, em última instância, aquilo
que o paciente acredita sinceramente é que deve ser aceito como definitivo.
143
Neste ponto, tocamos na questão imensamente importante das perspectivas e dos
valores do próprio terapeuta em relação ao paciente e seus problemas; pois sejam quais forem
as perspectivas e atitudes do terapeuta, elas não poderão deixar de influenciar as atitudes do
paciente, nem que seja através do processo altamente inconsciente da aprendizagem por
observação (identificação). Nesse processo, a experiência que o paciente tem do
comportamento e do tom de voz do terapeuta, e o modo como este aborda um tópico, são pelo
menos tão importantes quanto qualquer coisa que ele diga. Assim, com a teoria da ligação em
mente, um terapeuta transmitirá, sobretudo por meios não-verbais, seu respeito e simpatia
pelos desejos que seu paciente tem de amor e solicitude de seus familiares, sua ansiedade,
raiva e talvez desespero por ver seus desejos frustrados e (ou) difamados, não só no passado
mas também no presente, e a consternação e o pesar que talvez uma perda na infância possam
ter gerado; e mostrará compreender que conflitos, expectativas e emoções semelhantes
poderão atuar igualmente na relação terapêutica. Tanto através da comunicação não-verbal
como da comunicação verbal, um terapeuta transmitirá seu respeito e apoio ao desejo do seu
paciente de explorar o mundo e chegar às suas próprias decisões na vida; sem deixar de
reconhecer, ao mesmo tempo, que o paciente pode alimentar uma crença profundamente
enraizada, derivada daquilo em que outros insistiram, de que será incapaz de o conseguir.
Nesses contatos cotidianos, um certo padrão de condução de relações interpessoais é,
inevitavelmente, demonstrado pelo terapeuta, e isso não pode deixar de influenciar, em certa
medida, os pontos de vista de seu paciente. Por exemplo, em lugar do que pode ter sido um
padrão de recriminações, punições e revides, ou de coerção por indução de culpa, ou de
evasão e mistificação, o terapeuta introduz um padrão em que se destaca a tentativa de
compreender o ponto de vista da outra pessoa e de discuti-lo abertamente com ela. Em certos
pontos da terapia, a discussão desses diferentes modos de tratar pessoas e as prováveis
conseqüências de cada um deles pode ser uma estratégia útil. Durante essas discussões, o
terapeuta levantará questões e fornecerá informações, ao mesmo tempo que, uma vez mais,
deixará que o paciente tome as decisões.
É evidente que, para ser bem-feito, esse trabalho exige do terapeuta não só uma boa
apreensão dos princípios, como também a capacidade de empatia e de tolerar uma emoção
intensa e penosa. Aqueles que possuem uma tendência fortemente organizada para a
autoconfiança compulsiva não são os mais indicados para realizar tal trabalho — e é melhor
que não o façam.
144
Ao falarmos antes sobre as quatro tarefas básicas do terapeuta, foi enfatizado que,
embora conceitualmente distintas, elas devem, na prática, ser executadas simultaneamente.
Até que ponto a terapia pode e deve ser realizada com qualquer família ou paciente é uma
questão difícil e complexa. O ponto principal talvez seja que a reestruturação dos modelos
representacionais de uma pessoa e sua reavaliação de alguns aspectos das relações humanas,
com uma correspondente mudança em seus modos de lidar com as pessoas, provavelmente
será um trabalho lento e fragmentado. Em condições favoráveis, o terreno é preparado
primeiro de um ângulo, depois de outro. Na melhor das hipóteses, o avanço realiza-se em
espiral. Até onde o terapeuta pode ir e até que ponto se deixa envolver profundamente é uma
questão pessoal para ambas as partes. Por vezes, uma única sessão ou apenas meia dúzia de
sessões habilitam um paciente ou uma família a enxergar problemas sob uma nova luz ou,
talvez, a confirmar que um ponto de vista, rejeitado e ridicularizado por outros, é na verdade
plausível e pode ser adotado com vantagem. (Ver descrições e exemplos em Caplan, 1964;
Argles e Mackenzie, 1970; Lind, 1973; Heard, 1974.) Um valor especial das entrevistas
familiares conjuntas é que habilitam cada membro de uma família a descobrir como cada um
dos outros encara a vida familiar de todos eles, de modo que, em conjunto, partam para a sua
reavaliação e mudança. Com freqüência, essas entrevistas também habilitam todos os
membros da família a tomar conhecimento, quase sempre pela primeira vez, das experiências
infelizes que o pai ou a mãe podem ter tido em anos passados, experiências essas que, logo se
perceberá, tiveram como conseqüência o conflito familiar atual. (Um excelente exemplo, em
que uma crise conjugal atual remonta às conseqüências persistentes de luto deficiente após
uma perda na infância, foi descrito por Paul, 1967). Entretanto, há muitos outros casos,
sobretudo em pacientes que desenvolveram um falso eu altamente organizado e se tornaram
compulsivamente autoconfiantes ou dados a cuidar de outros, em que um período muito mais
extenso de tratamento poderá ser necessário, antes de se observar qualquer tipo de mudança.
Entretanto, quer a terapia seja breve ou prolongada, são claras as provas de que, se o
terapeuta não estiver preparado para estabelecer um relacionamento autêntico com uma
família ou um indivíduo, nenhum progresso pode ser esperado (Malan, 1963; Truax e
Mitchell, 1971). Isso implica que um terapeuta deve, na medida do possível, satisfazer o
desejo do paciente de ter uma base segura, embora reconhecendo
145
que os seus melhores esforços ficarão aquém do que um paciente deseja e do que lhe poderia
proporcionar total benefício; que deve participar das explorações do paciente como um
companheiro pronto a conduzir ou a ser conduzido; que deve estar disposto a discutir as
percepções que o paciente tem dele e o grau em que elas podem ou não ser adequadas, o que,
por vezes, não é fácil de determinar; e, finalmente, que não deve fingir o contrário se ficar
ansioso a respeito de um paciente ou for irritado por ele. Isto especialmente importante no
caso dos pacientes cujos pais sempre simularam afeição para encobrir a profunda rejeição
pelos filhos. Guntrip (1975) descreveu de maneira excelente ‘a tarefa do terapeuta: “Em meu
entender, é o fornecimento de uma relação humana confiável e compreensiva, de um tipo que
estabelece contato com a criança traumatizada profundamente reprimida, de modo a habilitar
[o paciente] a tornar-se cada vez mais capaz de viver, na segurança de uma nova relação
autêntica, com o legado traumático dos primeiros anos formativos, quando ele se infiltra ou
irrompe na consciência”.
Quando adota uma postura desse tipo, o terapeuta corre certos perigos, dos quais é
bom que tenha conhecimento. Em primeiro lugar, o anseio do paciente por obter uma base
segura e seu medo aflitivo de ser rejeitado podem tornar suas reclamações insistentes e
difíceis de tratar. Em segundo lugar, e muito mais grave, ao fazer tais reclamações, um
paciente pode estar empregando com o terapeuta os mesmos métodos que os pais talvez
usassem com ele, quando era criança. Assim, um homem cuja mãe, quando ele era criança,
inverteu a relação exigindo que o filho cuidasse dela, e que usou ameaças ou técnicas de
indução de culpa a fim de forçá-lo a isso, poderá, durante o tratamento, empregar essas
mesmas técnicas com seu terapeuta. É da maior importância, evidentemente, que o terapeuta
reconheça o que está acontecendo, remontando à origem das técnicas que estão sendo usadas
e resistindo a elas, isto é, colocando limites. Entretanto, quanto mais sutis forem as técnicas de
indução de culpa e quanto mais ansioso o terapeuta estiver por prestar ajuda, maior será o
perigo de ele ser aliciado. Desconfio de que uma seqüência desse tipo explica muitos dos
casos descritos por Balint (1968) como manifestações de “regressão maligna” e classificados
por outros como casos limítrofes. Os problemas clínicos a que podem dar origem estão bem
ilustrados por Main (1957) e também por Cohen e seus colaboradores (1954). Este último
grupo aponta o perigo de um terapeuta não reconhecer quando as expectativas de um paciente
se tornam irrealistas porque, quando fica claro que elas não serão satisfeitas, o paciente pode
subitamente sentir-se totalmente rejeitado e, assim, cair em desespero.
146
Como muitas das questões de que a teoria da ligação se ocupa são as mesmas tratadas
por outras teorias da psicopatologia — questões de dependência, relações objetais, simbiose e
ansiedade, pesar, narcisismo, traumas e processos defensivos — não surpreende que muitos
dos princípios terapêuticos a que ela conduz sejam conhecidos há muito tempo. Algumas das
sobreposições entre idéias que eu propus e as de Balint (1965, 1968), Winnicott (1965) e
outros, foram discutidas por Pedder (1976) a propósito do tratamento de um paciente
deprimido com um “falso eu”. Outras sobreposições, por exemplo, a equivalência do conceito
de jogo de Winnicott (1971) e do que designamos aqui por exploração, foram assinaladas por
Heard (1978). Sobreposições com as idéias de psicoterapeutas que chamaram atenção especial
para o papel desempenhado na gênese de depressões episódicas e de muitos outros sintomas
neuróticos por fracasso do luto quando da perda de um dos pais durante a infância ou
adolescência (por exemplo, Deutsch, 1937; Fleming e Altschul, 1963) ou por dificuldade de
aceitação da tentativa de suicídio de um dos pais (Rosen, 1955), também serão evidentes.
Contudo, embora essas sobreposições sejam bastante reais, também existem diferenças
significativas, tanto de ênfase como de orientação. Elas dependem, em parte, do modo como
concebemos o lugar do comportamento de ligação na natureza humana (ou, em contrapartida,
que uso fazemos dos conceitos de dependência, oralidade, simbiose e regressão) e, em parte,
de como acreditamos que uma pessoa adquire certas formas desagradáveis e autodestrutivas
de interação com aqueles que lhe são mais chegados, ou de crenças despropositadas, como,
por exemplo, a de que a pessoa é inerentemente incapaz de fazer qualquer coisa útil ou eficaz.
Todos aqueles que pensam em termos de dependência, oralidade ou simbiose referem-
se à expressão de desejos e comportamento de ligação por um adulto como sendo o resultado
de ele ter regredido para algum estado que se julga ser normal durante a infância,
freqüentemente o de mamar no seio materno. Isso leva os terapeutas a falarem a um paciente
sobre “a parte infantil do seu eu” ou “sua necessidade pueril de ser amado ou alimentado”, e a
referirem-se a alguém em prantos, após o falecimento de um ente querido, como estando num
“estado de depressão”. Em minha opinião, todas essas afirmações estão erradas, por razões
tanto teóricas como práticas. Quanto à teoria, já foi dito o suficiente para deixar claro que
considero o desejo de ser amado e protegido como uma parte integrante da natureza humana,
quer ao longo
147
da vida adulta, quer nos anos da infância e adolescência, e que a expressão de tal desejo deve
ser esperada em todo o adulto, especialmente em épocas de doença ou calamidade. No que se
refere à prática, parece altamente indesejável mencionar as “necessidades pueris” de um
paciente quando estamos tentando ajudá-lo a recuperar seus desejos naturais de ser amado e
protegido, os quais, em virtude de experiências infelizes no começo da vida, ele se esforçou
por negar. Interpretar e classificar esses desejos como pueris faz com que um paciente possa
facilmente interpretar nossos comentários como depreciativos e reminiscentes de um pai
desaprovador, que rejeita o filho que procura ser consolado, chamando-o de “bobo e infantil”.
Um modo alternativo de fazer alusão aos desejos de um paciente consiste em referir-se a seus
anseios de ser amado e protegido como sendo algo que todos nós possuímos mas que, no caso
dele, foi reprimido quando era uma criança (por motivos que poderemos então especificar)
(*).
Uma segunda área de diferença diz respeito ao modo pelo qual supomos que uma
pessoa passa a aplicar ao cônjuge ou aos filhos, e também, por vezes, ao terapeuta, certas
pressões desagradáveis, por exemplo, ameaças de suicídio ou modos sutis de indução de
culpa. No passado, embora o problema fosse reconhecido, não se deu muita atenção à
possibilidade de que o paciente tivesse aprendido a exercer essas pressões pelo fato de as ter
sofrido quando era criança e, consciente ou inconscientemente, estivesse agora copiando seus
pais.
Uma terceira área de diferença diz respeito à origem do prolongado desespero e
desamparo. Tradicionalmente, isso foi atribuído, de um modo quase exclusivo, aos efeitos da
culpa inconsciente, O ponto de vista que eu adoto, que está de acordo com os estudos de
Seligman sobre impotência aprendida (Seligman, 1975), e também é compatível com a noção
tradicional, é de que alguém que mergulhou facilmente em estados prolongados de
desesperança e desamparo esteve repetidamente exposto, na infância, a situações em que suas
tentativas de influenciar os pais para que lhe dedicassem mais tempo, afeição e compreensão,
nada mais encontraram do que repulsa e punição.
Finalmente, poder-se-á perguntar que provas existem de que uma terapia conduzida de
acordo com os princípios aqui expostos, em linhas gerais, é eficaz e, se for, em que tipos de
casos? A resposta é que não existem provas diretas porque nenhuma série de pacientes foi
tratada

(*) As distinções que estou fazendo são idênticas às feitas por Neki (1976), que
estabelece o contraste do valor dado pela cultura índia a “ligações afiliativas fortemente
interdependentes, fomentadas e levadas até a idade adulta” com o valor ocidental de
“independência orientada para a realização pessoal”. O seu exame de como esses ideais
divergentes afetam a terapia nesses aspectos obedece a diretrizes muito semelhantes às aqui
delineadas.
148
exatamente de acordo com essa orientação, de forma que é impossível qualquer investigação
dos resultados. O máximo que se pode dizer é que certas provas indiretas são promissoras.
Provêm de investigações sobre a eficácia da psicoterapia breve e do aconselhamento a
pacientes que sofreram perda.
Malan (1963, 1973) vem examinando há muitos anos os resultados da psicoterapia
breve (definida arbitrariamente como tendo, no máximo, 40 sessões) e concluiu que se pode
especificar um grupo de pacientes suscetíveis de se beneficiarem com um certo tipo de
psicoterapia cujas características também podem ser especificadas. Os pacientes que têm
possibilidade de colher benefícios são aqueles que, durante as primeiras entrevistas, mostram-
se aptos a enfrentar o conflito emocional e estão dispostos a explorar sentimentos e a
colaborar dentro de uma relação terapêutica. A técnica que provou ser eficaz foi aquela em
que o terapeuta se sentiu apto a compreender os problemas do paciente e a formular um plano;
e em que acompanhou a relação de transferência e a interpretou francamente, prestando
especial atenção à ansiedade e raiva do paciente quando o terapeuta fixou uma data de
término.
Na repetição do estudo, Malan e seus colegas chegaram à mesma conclusão. Além
disso, apuraram que “um importante fator terapêutico é a disposição do paciente para
envolver-se de um modo que repita uma relação da infância” com um ou outro de seus pais,
ou com ambos, e a sua habilidade, com a ajuda do terapeuta, para reconhecer o que está
acontecendo (Malan, 1973). Um estudo subseqüente feito pelo mesmo grupo, desta vez com
pacientes que melhoraram depois de uma única entrevista, apresenta novos dados que
comprovam essa conclusão (Malan e outros, 1975).
Embora a teoria de psicopatologia usada por Malan e seus colegas seja diferente, em
alguns aspectos, da que delineamos aqui, existem certas semelhanças importantes. Além
disso, como será notado, existe uma considerável semelhança entre os princípios de técnica
que ele considera eficazes e os defendidos aqui.
A avaliação da eficácia do aconselhamento a viúvas consideradas como tendo um
prognóstico desfavorável também aponta numa direção promissora. Entre as viúvas que
receberam a forma de aconselhamento acima descrito, apurou-se que o número das que
tinham progredido favoravelmente, ao fim de treze meses, era significativamente maior do
que entre as de um grupo de controle que não recebera qualquer espécie de aconselhamento
(Raphael e Maddison, 1976).
Deve-se reconhecer, é claro, que delinear princípios de terapia é muitíssimo mais fácil
do que aplicá-los nas condições sempre variadas
149
da prática clínica. Além disso, a própria teoria ainda se encontra num estágio inicial de
desenvolvimento, e muito trabalho ainda precisa ser feito. Entre as tarefas prioritárias está
determinar tanto a gama de condições clínicas para as quais a teoria é relevante como as
variantes particulares da técnica mais adequadas para tratá-las.
Entretanto, aqueles que adotam a teoria da ligação acreditam que tanto a sua estrutura
como sua relação com os dados empíricos são hoje tais que a sua utilidade pode ser testada
sistematicamente. Nos campos da etiologia e da psicopatologia, ela pode ser usada para
elaborar hipóteses específicas que relacionam diferentes formas de experiência familiar com
diferentes formas de distúrbio psiquiátrico e também, talvez, com as mudanças
neurofisiológicas que as acompanham, como Hamburg e seus colegas (1974) acreditam. No
campo da psicoterapia, pode ser usada para especificar a técnica terapêutica, descrever o
processo terapêutico e, dados os desenvolvimentos técnicos necessários, para medir a
mudança. À medida que as pesquisas prosseguirem, a própria teoria será, sem dúvida,
modificada e ampliada. Isso nos dá a esperança de que, no devido momento, a teoria da
ligação se mostre útil como um componente no seio do corpo mais amplo da ciência
psiquiátrica, que Henry Maudsley se esforçou ao máximo por fomentar.

Notas
(1) Outros campos clinicamente importantes a que a teoria da ligação foi aplicada
eficazmente são as origens do vínculo mãe-bebê durante o período neonatal, por Marshall
Klaus e John Kennell (1976), distúrbios do relacionamento conjugal, por Janet Mattinson e
Ian Sinclair (1979), e as conseqüências emocionais da separação conjugal, por Robert S.
Weiss (1975).
(2) Nos Capítulos 4 e 20 de Attachment and Loss, Volume 3, tracei um esboço do
modo como os processos defensivos podem ser abordados em termos de processamento de
informação humana. Ver também a monografia de Emanuel Peterfreund (1971).
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161
Indice de nomes
Abraham, K., 54, 58
Adam, K. S., 75
Adams, J. E., 143
Ahrens, R., 36
Ainsworth, M. D. S., 40, 44, 64, 67, 103-4, 107, 117, 122
Altschul, S., 147
Ambrose, Anthony, 35
Anderson, J. W., 103
Anthony, E.J., 77
Argies, P., 145
Aubry,J., 45
Balint, M., 121, 146, 147
Barnes, M. J., 87
Barrie, James, 35
Bateson, P. P. G., 64
Baumrind, D., 107
Beach, F. A., 28, 29, 32
Beil, S. M. 104, 122
Bischoff, M., 122
Blauvelt, H., 28
Bleuler, E., 4
Biurtonjones, N., 40, 122
Bowlby, J., ambivalência, 11; ansiedade de separação, 112; estratégias de pesquisa, 44;
ligação, 109, 127, 128; luto, 46, 52, 56, 57, 78, 80, 82, 89-90; perda, 44, 56, 69, 89-90, 121;
pesar da criança, 84, 85; vínculos, 67; vínculom 43
Brackbill, Y., 37
Brady, lan, 68
Brown, F., 68, 70
Brown, George, 75
Bruhn, J. G., 69
Burlingham, Dorothy, 9, 45, 51, 85
Cairus, R. B., 66
Cailender, W. M., 45
Caplan, G., 145
Cohen, M. B. 146
Craft, M., 68
Darwin, Charles, 25-7, 32, 81
David, M., 45
Davis, C. M., 12
Dennehy, C. M. 68, 70, 71
Dennis, W., 35-6
Deutsch, Helene, 50, 52, 56, 58, 147
Deutsch, J. A., 31, 32
Dollard, J., 65
Earle, A. M., 68
Earle, B. V., 68
Emerson, P., 64
Engel, G., 47
Epps, P., 68
Erdelyi, M. H., 134
Erikson, E. H., 128
Fairbairn, W. R. D., 56, 58, 100, 121, 128
163
Fisk, F., 53
Fleming, J., 147
Freud, Anna, 9, 22, 45, 51, 56, 85
Freud, E. L., 84
Freud, S., 1, 3, 4, 5, 7, 19, 20, 23, 24, 30, 39, 47-8, 52, 54, 56, 57, 58, 65, 83-4, 103, 112, 113
Furman, E., 61
Gerö, G., 55, 58
Gewirtz, J. L., 38, 122
Glick, I. O., 61, 96
Goldfarb, W., 44
Gosling, R. G., 97
Granger, C., 68
Greer, S., 68, 69
Grinker, R. R., 101, 102
Gunn, J. C., 68, 69
Guntrip, H., 121, 146
Hamburg, D. A., 143, 150
Harlow, H. F., 43, 66, 121
Harlow, M. R., 66
Harris, Tirril, 75
Havighurst, R. J., 102
Heard, D. H., 145, 147
Heathers, G., 38
Heinicke, Christoph, 11, 44, 61, 71-2, 84, 122
Heinroth, O., 28, 36
Henderson, A. S., 130
Hilgard, J. R., 53,59
Hill, O. W., 70
Hinde, R. A., 31, 40, 64, 74, 111, 114, 116, 122, 126
Holmes, F. B., 113, 116
Holt, K. S., 45
Hunt, J. McV., 33
Illingworth, R. S., 45
Jacobson, E., 47, 55, 58
James, Wilhiam, 32
Jaynes, J., 29
Jersild, A. T., 113, 116, 126
Kennell, J. H., 150
Kessel, N., 69
Klaus, M. H., 150
Klein, Melanie, 3, 14, 22, 54, 57-8, 112, 121, 128
Koller, K. M., 68, 69
Korchin, S. J., 101
Koupernik, C., 77
Levin, H., 65
Lewis, A., 112, 120
Lind, E., 145
Lindemann, E., 47, 78, 81
Lorenz, K., 6, 21, 27, 30, 33,36,64,121
Maccoby, E. E., 65, 122
Mackenzie, M., 145
Maddison, D., 83-4, 94-5, 149
Main, T. F., 146
Malan, D. M., 136, 145, 149
Marris, P., 78, 81
Masters,J. C., 122
Mattinson, J., 150
Maudsley, Henry, 119-20, 150
Meyer, Adolf, 41
Miller, N. E., 65
Mitchell, K. M., 145
Moynihan, M., 31
Munro, A., 70
Murphey, E. B., 102
Naess, S., 68
Neki, J. S., 148
Newman, M. F., 53, 59
Nicolas, J., 45
Padifla, S. G., 33
Parker, A. S., 63
Parkes, C. M., 61, 67, 77, 78, 80, 81, 82, 84, 92, 96, 122, 130, 132
Paul, N. L., 145
Peck, R. F., 102
Pedder, J., 147
Peterfreund, E., 150
Piaget, J., 21, 23, 25, 39
Pollock, G. H., 49
Popper, Yana, 10
Price, J. S., 70
Prugh, D., 45
Raphael, B., 142, 149
Robertson, J., 44, 84, 111, 121
164
Rollman-Branch, H. S., 43
Root, N., 51
Rosen, V. H., 147
Roudinesco, J., 45
Rowell, T. E., 116
Ruff, G. E., 101
Sade, D. S., 64
Schaffer, H. R., 43, 45, 64
Sears, R. R., 65
Seligman, M. E. P., 148
Shakespeare, W., 88
Shaw, Bernard, 14
Sinclair, 1. A. C., 150
Sluckin, W., 64
Spencer-Booth, Y., 64, 74, 111
Spitz, R. A., 36, 37
Stayton, D. J., 104, 122
Stengel, E., 56, 58
Stephenson, G., 68
Stern, D. N., 22
Stewart, A. H., 16
Strachey, A., 110
Sutherland, J. D., 1
Thoday,J. M., 63
Thorpe, W. H., 27, 33
Tinbergen, N., 21, 27, 29, 30
Truax, C. B., 145
Ucko, L. E., 74
Walker, W. L., 83-4, 94-5
Weidmann, U., 33
Weiss, R. S., 61, 96, 150
Wenner, N. K., 99
Westheimer, 1., 61, 7 1-2, 84, 122
Wilde, Oscar, 5
Winnicott, Donald, 3, 14, 100, 121, 131, 147
Wolf, K. M., 36
Wolfenstein, M., 86, 87
Yerkes, R. M., 32, 39
Zimmermann, R. R., 43
165