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Universidade Federal do Ceará

Instituto de Cultura e Arte
Faculdade de Filosofia
Professor: André Leclerc
Filosofia da Linguagem


José Rodrigo Serra Miziara

Uma breve passagem sobre a Filosofia da Linguagem na Idade
Média

Fortaleza – Ceará
2012.1

Introdução
Uma breve explicação dobre o período. A Idade Média é o espaço de tempo
compreendido entre os séculos V e XV. Por muito tempo teve-se a visão de que a Idade Média
foi senão uma estagnação, um retrocesso. Outra coisa que se pensava sobre a Idade Média,
talvez influenciado pelo fato da religião dominante ser uma só, a católica, era que o pensamento
medieval pudesse ser resumido em uma palavra: Deus.
Este trabalho será uma breve passagem pelo pensamento medieval, com ênfase na
linguagem, e tentará mostrar como a filosofia era levada a serio, não era um simples calço à
teologia, é tanto que na Idade Média pensou-se acerca de diversas questões como, ontologia,
lógica e ética, não somente religião.

Anselmo
No medievo, várias características da antiguidade remanesceram, como a estrutura
universitária formada pelo Trivium (gramatica, lógica, retórica) e os inúmeros comentários
sobre o Organon de Aristóteles. Vale lembrar que o comentário medieval não era um simples
adendo a obra, mas uma busca pela resposta aos problemas postos no texto e também uma
reformulação do pensamento a partir da obra.
Deste livro de Aristóteles seguem-se varias discursões acerca de relações semânticas,
dentre elas a paronímia, apresentada nas Categorias. Boécio (480 – 525), ilustre filósofo da
Antiguidade tardia, trabalha a questão dos parônimos. Ele segue uma conduta platônica, na qual
se existe uma relação de paronímia entre „gramático‟ e „gramática‟ (retomando um exemplo
dado nas Categorias), então se pode dizer que „gramático‟ participa da essência de „gramatica‟,
assim como o nome „branco‟ participa do nome „brancura‟ e o que é branco participa
ontologicamente da brancura. Deve-se atentar ao fato de que a paronímia se dá tanto em relação
as palavras, quanto as coisas diretamente, é uma relação linguista e ontológica.
No âmbito da linguagem, Anselmo de Canterbury (1033 – 1109), quanto à paronímia,
preservará a ideia de participação. Mas ele se questiona se „gramático‟ é uma substancia ou uma
qualidade. Dá duas possibilidades de interpretação, uma quanto a substancia, já que „gramático‟
se refere um homem e quanto à qualidade, já que „gramático‟ é aquele que possui conhecimento
acerca da gramatica. Então „gramático‟ tem dois tipos de significação, uma quanto à qualidade
per se (por si) e outra quanto à substância per aliud (por outra coisa). Ou seja, „gramático‟
quando se refere a uma pessoa, traz a tona uma qualidade, predicando o homem por outra coisa
e não predicando ele por si, já que não é da essência humana ser „gramático‟.
Outro ponto importante do pensamento de Anselmo é a logica da ação, tendo sido ele o
criador, antecipando uma questão que será debatida por Davidson, no texto “The logical form of
action sentences” de 1966. Anselmo propõe que o verbo fazer (facere) pode substituir qualquer
outro verbo, tendo como resultado esta combinação:
Fazer ser (facere esse) Fazer não ser (facere non esse)
Não fazer ser (non facere esse) Não fazer não ser (non facere non esse)
A estrutura utilizada é a mesma dos modais aristotélicos do quadrado de Boécio, com
poder invés de fazer. Dessa estrutura surgirá toda uma sistematização da distinção entre cometer
e omitir uma ação.

Abelardo
Abelardo (1079 – 1142), proeminente lógico medieval, assim como Anselmo retoma
questões deixadas por Boécio. Abelardo segue a interpretação boeciana quanto às relações entre
as palavras, signos, afeções e coisas. No seu pensamento segue-se a ideia de que as palavras
significam primeiro as intelecções e não primeiramente as coisas. Para Abelardo a palavra
produz um pensamento no ouvinte, “significar é produzir uma intelecção”. Mas as palavras
também significam as coisas, sendo que essas duas „significações‟ são processos distintos,
dentre eles estão: „significar‟, que se relaciona com o intelecto e representa a produção da
intelecção; „nomear‟ e „chamar‟ que se relacionam diretamente com a coisa. Segue-se um
exemplo: ao dizermos “a cadeira é branca” tratamos da “cadeira”, coisa e da “brancura” estado
de coisa, nada falamos da intelecção, mas a constituímos no espirito do ouvinte.
Talvez o ponto mais conhecido sobre a filosofia de Abelardo seja o problema dos
universais. Abelardo entra nesse ponto a partir do Isagoge de Porfírio, que formula três questões
sobre os universais:
1. Se são realidades subsistentes em si mesmas ou se consistem apenas em simples
conceitos mentais.
2. Ou, admitindo que sejam realidades subsistentes, se são corpóreas ou
incorpóreas.
3. Se são separadas ou se existem nas coisas sensíveis e dependem delas.
Abelardo formula ainda algumas questões:
4. O que torna possível dar os mesmos nomes universais a coisas diversas?
5. Qual a intelecção que corresponde aos nomes universais?
6. Os géneros e as espécies ainda teriam uma significação para o pensamento se os
indivíduos correspondentes cessassem de existir?
7. Os universais são coisas ou palavras?
Abelardo nega completamente que o universal seja uma coisa, ele argumenta: uma coisa
não pode ser predicado; o universal é predicado; logo o universal não pode ser uma
coisa. “Uma coisa não se predica com outra coisa.” Conclui então que os universais são
nomes, dai a famosa escola nominalista. Abelardo tenta, com essa conclusão, deslocar o
problema dos universais do âmbito ontológico para um âmbito lógico-gramatical.


Referências
ARISTÓTELES. Categorias. Tradução de Maria José Figueiredo. Lisboa: Instituto Piaget,
2000.
DUCLÓS, M. O problema dos universais em Pedro Abelardo. http:
//www.consciencia.org/pedro_abelardo.shtml#_edn2, São Paulo, 2008. Acesso em: 2012.
NEF, F. A Linguagem: uma abordagem filosófica. Tradução de Lucy Magalhães. Rio de
Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1995.
SANTOS, B. S. http: //www.bentosilvasantos.com. Disponivel em:
<http://www.bentosilvasantos.com/cms/index.php?download=OS%20UNIVERSAIS%20-
%20Porfirio,%20Boecio%20e%20Ockham.pdf>.