LYNN

HUNT

A invenção dos direitos humanos
Uma história
Tradução

Rosaura Eichenberg

COMPANHIA DAS LETRAS

Copyright © 2007 by Lynn H u n t Publicado originalmente nos Estados Unidos p o r W. W. N o r t o n & Company, Inc. Grafia a t u a l i z a d a s e g u n d o o A c o r d o O r t o g r á f i c o d a Língua P o r t u g u e s a d e 1990, q u e e n t r o u e m vigor n o Brasil c m 2009. Título original

Invcnting h u m a n rights — A history Capa M a r i a n a Newlands Foto de capa © Gianni Dagli O r t i / Corbis/ LatinStock Índice remissivo Luciano Marchiori Preparação Lucas M u r t i n h o Revisão Ana Maria Barbosa Huendel Viana
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip) (Câmara Brasileira d o Livro, SP, Brasil) H u n t , Lynn A invenção dos direitos h u m a n o s ; unia história / Lynn Hunt ; tradução Rosaura Eichenberg.— São P a u l o : Companhia das Letras, 2009. Título o r i g i n a l : Invcnting h u m a n r i g h t s : a history ISBN 978-85-359-1459-7 I. Direitos humanos na literatura 2. Direitos humanos - História 3. Tortura - História I. Titulo. 09-03980 índice para catálogo sistemático' 1. Direitos h u m a n o s : Ciência política : História Í:DO-323.09

Para Lee e Jane Irmãs, Amigas, Inspiradoras

[2009] Todos os direitos desta edição reservados à
E D I T O R A S C H W A R C Z LTDA.

Rua Bandeira Paulista 702 cj. 32 04532-002 — São Paulo — SP Telefone (11) 3707-3500 Fax(ll)3707-3501 www.companhiadasletras.com.br

Sumário

Agradecimentos I n t r o d u ç ã o — " C o n s i d e r a m o s estas verdades autoevidentes"
1. "TORRENTES DE E M O Ç Õ E S "

9 13
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Lendo romances e imaginando
2 . "OSSOS DOS SEUS OSSOS"

a igualdade

Abolindo a tortura
3. "ELES DERAM UM GRANDE EXEMPLO" 113

Declarando os direitos
4. "ISSO NÃO TERMINARÁ N U N C A " 146

As consequências

das declarações
177

5. " A FORÇA MALEÁVEL DA H U M A N I D A D E "

Porque os direitos humanos fracassaram sucesso no longo prazo

a princípio, mas

tiveram

Apêndice — Três declarações: 1776,1789,1948 Notas Créditos das imagens índice remissivo

217 237 271 273

Agradecimentos

E n q u a n t o escrevia este livro, beneficiei-me de incontáveis sugestões oferecidas p o r amigos, colegas e participantes de vários s e m i n á r i o s e conferências. N e n h u m a expressão de g r a t i d ã o d e m i n h a parte p o d e r i a pagar as dívidas q u e tive a felicidade de c o n Irair, e só espero que alguns dos credores r e c o n h e ç a m as suas contribuições e m certas passagens ou notas. O ato de proferir as C o n ferências P a t t e n n a U n i v e r s i d a d e d e I n d i a n a , as C o n f e r ê n c i a s Merle Curti na Universidade de Wisconsin e as Conferências James W. Richards na Universidade de Virginia propiciou o p o r t u n i d a d e s inestimáveis p a r a testar as m i n h a s n o ç õ e s preliminares. Alguns insights excelentes t a m b é m v i e r a m d o p ú b l i c o e m C a m i n o College; Carleton College; C e n t r o de Investigación y Docencia E c o n ó micas, Cidade d o México; Universidade de F o r d h a m ; Instituto de Pesquisa Histórica, Universidade de Londres, Lewis & Clark College; P o m o n a College; U n i v e r s i d a d e de Stanford; Universidade Texas A&M; Universidade de Paris; Universidade de Ulster, Coleraine; Universidade de Washington, Seattle; e n a m i n h a instituição, a Universidade da Califórnia, Los Angeles (UCLA). O financia-

m e n t o p a r a a m a i o r parte d a m i n h a pesquisa proveio da Cátedra Eugen Weber de História M o d e r n a Europeia n a UCLA, e a pesquisa foi m u i t o facilitada pela riqueza verdadeiramente excepcional das
bibliotecas d a UCLA.

eu escrevia este livro, m a s ainda posso escutar as suas palavras d e e n c o r a j a m e n t o e a p o i o . D e d i c o este livro às m i n h a s i r m ã s Lee e Jane, e m r e c o n h e c i m e n t o , ainda q u e i n a d e q u a d o , p o r t u d o o q u e temos partilhado ao longo d e m u i t o s anos. Elas m e e n s i n a r a m as m i n h a s primeiras lições sobre os direitos, a resolução de conflitos e o amor.

A maioria das pessoas pensa que o ensino fica abaixo da pesquisa n a lista de prioridades dos professores universitários, m a s a ideia p a r a este livro s u r g i u o r i g i n a l m e n t e d e u m a coletânea d e d o c u m e n t o s q u e editei e t r a d u z i c o m o objetivo d e ensinar estud a n t e s d o s c u r s o s d e g r a d u a ç ã o : The French Revolution Human Rights: A Brief Documentary and History (Boston/ Nova York:

Bedford/ St. Martin's Press, 1996). U m a bolsa da National E n d o w m e n t for the H u m a n i t i e s m e ajudou a completar aquele projeto. Antes de escrever este livro, publiquei u m breve esboço, " T h e Paradoxical Origins of H u m a n Rights", in Jeffrey N. Wasserstrom, Lynn H u n t e M a r i l y n B. Young, eds., Human Rights and Revolutions ( L a n h a m , MD: R o w m a n & Littlefield, 2000), p p . 3-17. Alguns dos a r g u m e n t o s n o capítulo 2 f o r a m p r i m e i r o desenvolvidos d e u m m o d o diferente e m "Le C o r p s au XVIII siècle: les origines des droits
E

de l'homme", Diogène, 203 (julho-setembro de 2003), p p . 49-67. Da ideia até a execução final, a estrada, pelo m e n o s n o m e u caso, é longa e às vezes árdua, m a s se t o r n a transitável c o m a ajuda d a q u e l e s q u e m e são p r ó x i m o s e q u e r i d o s . Joyce A p p l e b y e Suzanne Desan leram os p r i m e i r o s r a s c u n h o s dos m e u s três primeiros capítulos e d e r a m sugestões maravilhosas p a r a aperfeiçoá-los. A m i n h a editora na W. W. N o r t o n , A m y Cherry, forneceu o tipo de atenção minuciosa à redação e ao argumento com que a maioria dos autores só consegue sonhar. Sem Margaret Jacob e u n ã o teria escrito este livro. Ela m e e s t i m u l o u c o m o seu p r ó p r i o entusiasmo pela pesquisa e redação, c o m a sua valentia e m se avent u r a r e m d o m í n i o s novos e controversos e, n ã o m e n o s i m p o r t a n t e , c o m a sua capacidade de deixar t u d o de lado p a r a p r e p a r a r u m j a n tar refinado. Ela sabe o q u a n t o lhe devo. M e u pai m o r r e u e n q u a n t o

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Introdução

"Consideramos estas verdades autoevidentes"

Às vezes grandes textos s u r g e m da reescrita sob pressão. N o seu p r i m e i r o r a s c u n h o d a Declaração da I n d e p e n d ê n c i a , p r e p a r a d o e m m e a d o s de j u n h o de 1776, T h o m a s Jefferson escreveu: " C o n s i d e r a m o s q u e estas verdades são sagradas e inegáveis: q u e t o d o s os h o m e n s são c r i a d o s iguais & i n d e p e n d a n t e s [sic], q u e dessa criação igual derivam direitos inerentes 8c inalienáveis, e n t r e os quais estão a preservação da vida, a liberdade & a busca d a felicidade". E m g r a n d e p a r t e graças às suas p r ó p r i a s revisões, a frase de Jefferson logo se livrou dos soluços para falar e m t o n s mais claros, mais vibrantes: " C o n s i d e r a m o s estas verdades autoevidentes: q u e t o d o s os h o m e n s são criados iguais, d o t a d o s pelo seu C r i a d o r de certos Direitos inalienáveis, q u e entre estes estão a Vida, a Liberd a d e e a busca da Felicidade". C o m essa única frase, Jefferson t r a n s f o r m o u u m típico d o c u m e n t o d o século xvin sobre injustiças políticas n u m a proclamação d u r a d o u r a dos direitos h u m a n o s .
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Treze a n o s mais t a r d e , Jefferson estava e m Paris q u a n d o os franceses c o m e ç a r a m a pensar e m redigir u m a declaração d e seus direitos. E m janeiro de 1 7 8 9 — v á r i o s meses antes da q u e d a d a Bas13

tilha — , o m a r q u ê s de Lafayette, amigo de Jefferson e veterano da G u e r r a d a I n d e p e n d ê n c i a a m e r i c a n a , d e l i n e o u u m a declaração francesa, m u i t o provavelmente c o m a ajuda de Jefferson. Q u a n d o a Bastilha caiu, e m 14 de julho, e a Revolução Francesa c o m e ç o u p a r a valer, a n e c e s s i d a d e d e u m a d e c l a r a ç ã o oficial g a n h o u i m p u l s o . Apesar dos melhores esforços de Lafayette, o d o c u m e n t o n ã o foi forjado p o r u m a única m ã o , c o m o Jefferson fizera p a r a o Congresso americano. E m 20 de agosto, a nova Assembleia Nacional c o m e ç o u a discussão de 24 artigos r a s c u n h a d o s p o r u m comitê desajeitado de q u a r e n t a d e p u t a d o s . Depois de seis dias de debate t u m u l t u a d o e infindáveis e m e n d a s , os d e p u t a d o s franceses só t i n h a m a p r o v a d o dezessete artigos. Exaustos pela disputa p r o l o n gada e precisando tratar de outras questões p r e m e n t e s , os d e p u t a dos v o t a r a m , e m 27 de agosto de 1789, p o r suspender a discussão d o r a s c u n h o e a d o t a r p r o v i s o r i a m e n t e os a r t i g o s já a p r o v a d o s c o m o a sua Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o Cidadão. O d o c u m e n t o tão freneticamente a j a m b r a d o era espantoso n a sua i m p e t u o s i d a d e e simplicidade. Sem m e n c i o n a r n e m u m a única vez rei, nobreza o u igreja, declarava q u e "os direitos naturais, inalienáveis e sagrados d o h o m e m " são a fundação de t o d o e qualquer governo. Atribuía a soberania à nação, e n ã o ao rei, e declarava q u e t o d o s são iguais p e r a n t e a lei, a b r i n d o p o s i ç õ e s p a r a o talento e o m é r i t o e e l i m i n a n d o implicitamente t o d o o privilégio baseado n o nascimento. Mais extraordinária q u e qualquer garantia particular, entretanto, era a universalidade das afirmações feitas. As referências a "homens", "homem", " t o d o h o m e m " , "todos os homens", "todos os cidadãos", "cada cidadão", "sociedade" e " t o d a sociedade" eclipsavam a única referência ao p o v o francês. C o m o resultado, a publicação da declaração galvanizou i m e d i a t a m e n t e a opinião pública m u n d i a l sobre o t e m a dos direitos, t a n t o contra c o m o a favor. N u m sermão proferido e m Londres e m 4 de n o v e m b r o de 1789, Richard Price, amigo de Benjamin Fran14

klin e crítico frequente d o governo inglês, t o r n o u - s e lírico a respeito dos novos direitos d o h o m e m . "Vivi p a r a ver os direitos dos h o m e n s mais b e m compreendidos do que nunca, e nações a n s i a n d o p o r liberdade q u e p a r e c i a m ter p e r d i d o a ideia d o q u e isso fosse." I n d i g n a d o c o m o e n t u s i a s m o i n g ê n u o d e Price pelas "abstrações metafísicas" dos franceses, o famoso ensaísta E d m u n d Burke, m e m b r o d o P a r l a m e n t o britânico, rabiscou u m a resposta furiosa. O seu panfleto, Reflexões sobre a revolução em França (1790), foi logo reconhecido c o m o o texto f u n d a d o r d o conservad o r i s m o . " N ã o s o m o s os c o n v e r t i d o s p o r Rousseau", t r o v e j o u Burke. "Sabemos que n ã o fizemos n e n h u m a descoberta, e pensam o s q u e n e n h u m a descoberta deve ser feita, n o tocante à m o r a l i dade. [...] N ã o fomos estripados e a m a r r a d o s p a r a q u e p u d é s s e m o s ser p r e e n c h i d o s c o m o p á s s a r o s e m p a l h a d o s n u m m u s e u , c o m farelos, trapos e pedaços miseráveis de papel b o r r a d o sobre os direitos d o h o m e m . " Price e Burke h a v i a m c o n c o r d a d o s o b r e a Revolução Americana: os dois a a p o i a r a m . Mas a Revolução Francesa a u m e n t o u bastante o valor da aposta, e as linhas de b a t a l h a logo se f o r m a r a m : era a a u r o r a de u m a n o v a era de l i b e r d a d e b a s e a d a n a r a z ã o o u o início de u m a q u e d a implacável r u m o à anarquia e à violência?
2

Por quase dois séculos, apesar da controvérsia provocada pela Revolução Francesa, a Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o C i d a d ã o e n c a r n o u a p r o m e s s a de direitos h u m a n o s universais. E m 1948, q u a n d o as Nações Unidas a d o t a r a m a Declaração Universal dos Direitos H u m a n o s , o artigo I dizia: "Todos os seres h u m a n o s n a s c e m livres e iguais e m dignidade e direitos". E m 1789, o artigo l d a Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o C i d a d ã o já havia p r o c l a m a d o : "Os h o m e n s nascem e p e r m a n e c e m livres e iguais e m direitos". E m b o r a as modificações n a linguagem fossem significativas, o eco entre os dois d o c u m e n t o s é inequívoco. As origens dos d o c u m e n t o s n ã o nos dizem necessariamente
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2 a

n a d a d e significativo sobre as suas consequências. I m p o r t a realm e n t e q u e o esboço tosco de Jefferson tenha passado p o r 86 alterações feitas p o r ele m e s m o , pelo C o m i t ê dos Cinco* o u pelo C o n gresso? Jefferson e A d a m s c l a r a m e n t e p e n s a v a m q u e sim, p o i s a i n d a estavam d i s c u t i n d o sobre q u e m c o n t r i b u i u c o m o q u ê n a década de 1820, a última de suas longas e m e m o r á v e i s vidas. Entretanto, a Declaração da I n d e p e n d ê n c i a n ã o tinha natureza constitucional. Declarava simplesmente intenções, e passaram-se q u i n ze a n o s antes q u e os estados finalmente ratificassem u m a Bill of Rights m u i t o diferente e m 1791. A D e c l a r a ç ã o d o s Direitos d o H o m e m e d o Cidadão afirmava salvaguardar as liberdades individuais, m a s n ã o i m p e d i u o s u r g i m e n t o de u m governo francês q u e r e p r i m i u os direitos (conhecido c o m o o Terror), e futuras constituições francesas — houve m u i t a s delas — f o r m u l a r a m declarações diferentes o u passaram sem n e n h u m a declaração. A i n d a mais p e r t u r b a d o r é q u e aqueles q u e c o m t a n t a c o n fiança declaravam n o final d o século xvin q u e os direitos são u n i versais vieram a d e m o n s t r a r que t i n h a m algo m u i t o m e n o s inclusivo e m m e n t e . N ã o ficamos surpresos p o r eles considerarem que as crianças, os i n s a n o s , os p r i s i o n e i r o s o u os e s t r a n g e i r o s e r a m incapazes o u indignos de plena participação n o processo político, pois p e n s a m o s da m e s m a m a n e i r a . M a s eles t a m b é m excluíam aqueles sem propriedade, os escravos, os negros livres, e m alguns casos as minorias religiosas e, s e m p r e e p o r t o d a p a r t e , as m u l h e res. E m anos recentes, essas limitações a "todos os h o m e n s " p r o v o caram m u i t o s comentários, e alguns estudiosos até q u e s t i o n a r a m se as declarações t i n h a m u m verdadeiro significado de e m a n c i p a * O C o m m i t t e e of Five, f o r m a d o p o r T h o m a s Jefferson, J o h n A d a m s , B e n j a m i n F r a n k l i n , R o b e r t L i v i n g s t o n e R o g e r S h e r m a n , foi d e s i g n a d o p e l o C o n g r e s s o a m e r i c a n o e m 11 d e j u n h o d e 1776 p a r a e s b o ç a r a D e c l a r a ç ã o d a I n d e p e n d ê n c i a americana. (N.T.)

ção. Os fundadores, os q u e e s t r u t u r a r a m e os que redigiram as declarações t ê m sido julgados elitistas, racistas e misóginos p o r sua incapacidade de considerar todos verdadeiramente iguais em direitos. N ã o d e v e m o s e s q u e c e r as restrições i m p o s t a s aos d i r e i t o s pelos h o m e n s d o século xvin, m a s p a r a r p o r aí, d a n d o p a l m a d i n h a s nas costas pelo nosso p r ó p r i o "avanço" c o m p a r a t i v o , é n ã o c o m p r e e n d e r o principal. C o m o é que esses h o m e n s , vivendo e m sociedades construídas sobre a escravidão, a s u b o r d i n a ç ã o e a s u b serviência a p a r e n t e m e n t e natural, c h e g a r a m a imaginar h o m e n s n a d a p a r e c i d o s c o m eles, e e m alguns casos t a m b é m m u l h e r e s , c o m o iguais? C o m o é q u e a igualdade de direitos se t o r n o u u m a verdade "autoevidente" e m lugares tão improváveis? É espantoso que h o m e n s c o m o Jefferson, u m s e n h o r de escravos, e Lafayette, u m aristocrata, p u d e s s e m falar dessa forma dos direitos autoevidentes e inalienáveis d e t o d o s os h o m e n s . Se p u d é s s e m o s c o m p r e e n d e r c o m o isso veio a acontecer, c o m p r e e n d e r í a m o s m e l h o r o que os direitos h u m a n o s significam para nós hoje e m dia.

O PARADOXO

DA

AUTOEVIDÊNCIA

Apesar de suas diferenças de linguagem, as duas declarações do século xvm se baseavam n u m a afirmação de autoevidência. Jefferson d e i x o u isso explícito q u a n d o escreveu: " C o n s i d e r a m o s estas v e r d a d e s a u t o e v i d e n t e s " . A d e c l a r a ç ã o francesa afirmava categoricamente q u e "a ignorância, a negligência o u o m e n o s p r e z o dos direitos d o h o m e m são as únicas causas dos males públicos e da c o r r u p ç ã o governamental". Pouca coisa t i n h a m u d a d o a esse respeito e m 1948. Verdade, a Declaração das Nações Unidas assumia u m t o m mais legalista: "Visto que o reconhecimento da dignid a d e i n e r e n t e a t o d o s os m e m b r o s d a família h u m a n a e de seus direitos iguais e inalienáveis é o f u n d a m e n t o da liberdade, da j u s 17

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tiça e d a p a z n o m u n d o " . Mas isso t a m b é m constituía u m a afirmação d e a u t o e v i d ê n c i a , p o r q u e "visto q u e " significa l i t e r a l m e n t e "sendo fato que". E m outras palavras, "visto q u e " é simplesmente u m m o d o legalista de afirmar algo d e t e r m i n a d o , autoevidente. Essa afirmação de a u t o e v i d ê n c i a , crucial p a r a os direitos h u m a n o s m e s m o nos dias de hoje, dá origem a u m paradoxo: se a igualdade dos direitos é tão autoevidente, p o r que essa afirmação t i n h a de ser feita e p o r que só era feita e m t e m p o s e lugares específicos? C o m o p o d e m os direitos h u m a n o s ser universais se n ã o são universalmente reconhecidos? Vamos nos contentar c o m a explicação, d a d a pelos redatores de 1948, de que " c o n c o r d a m o s sobre os direitos, desde q u e n i n g u é m nos p e r g u n t e p o r quê"? Os direitos p o d e m ser "autoevidentes" q u a n d o estudiosos discutem há mais de dois séculos sobre o que Jefferson queria dizer c o m a sua expressão? O debate continuará para sempre, p o r q u e Jefferson n u n c a sentiu a necessidade de se explicar. N i n g u é m d o C o m i t ê dos Cinco o u d o C o n g r e s s o quis revisar a sua afirmação, m e s m o m o d i f i c a n d o e x t e n s a m e n t e o u t r a s seções de sua versão preliminar. A p a r e n t e m e n t e c o n c o r d a v a m c o m ele. Mais ainda, se Jefferson tivesse se explicado, a autoevidência da afirmação teria se evaporado. U m a afirmação que requer discussão não é evidente p o r si m e s m a .
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tribuições? C o m o , então, explicamos a r e p e n t i n a cristalização das afirmações dos direitos h u m a n o s n o final d o século XVIII? Os direitos h u m a n o s r e q u e r e m três qualidades encadeadas: devem ser naturais (inerentes nos seres h u m a n o s ) , iguais (os m e s m o s p a r a t o d o m u n d o ) e universais (aplicáveis p o r t o d a p a r t e ) . Para q u e os direitos sejam direitos humanos, t o d o s os h u m a n o s e m todas as regiões d o m u n d o devem possuí-los igualmente e apenas p o r causa de seu status c o m o seres h u m a n o s . Acabou sendo mais fácil aceitar a qualidade n a t u r a l dos direitos d o que a sua igualdade ou universalidade. De muitas maneiras, ainda estamos aprend e n d o a lidar c o m as implicações da d e m a n d a p o r igualdade e u n i versalidade de direitos. C o m q u e idade alguém t e m direito a u m a p l e n a p a r t i c i p a ç ã o política? O s i m i g r a n t e s — n ã o - c i d a d ã o s — p a r t i c i p a m dos direitos o u n ã o , e de quais? Entretanto, n e m o caráter natural, a igualdade e a universalidade são suficientes. Os direitos h u m a n o s só se t o r n a m significativos q u a n d o g a n h a m c o n t e ú d o político. N ã o são os direitos d e h u m a n o s n u m estado d e natureza: são os direitos de h u m a n o s e m s o c i e d a d e . N ã o são a p e n a s direitos h u m a n o s e m o p o s i ç ã o aos direitos divinos, o u direitos h u m a n o s e m o p o s i ç ã o aos direitos animais: são os direitos de h u m a n o s vis-à-vis u n s aos outros. São, p o r t a n t o , direitos garantidos n o m u n d o político secular ( m e s m o q u e sejam c h a m a d o s "sagrados"), e são direitos que r e q u e r e m u m a participação ativa daqueles que os d e t ê m . A igualdade, a universalidade e o caráter natural dos direitos g a n h a r a m u m a expressão política d i r e t a pela p r i m e i r a vez n a Declaração da I n d e p e n d ê n c i a americana d e 1776 e na Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o Cidadão de 1789. E m b o r a se referisse aos "antigos direitos e liberdades" estabelecidos pela lei inglesa e derivados d a história inglesa, a Bill ofRights inglesa de 1689 n ã o declarava a igualdade, a universalidade o u o caráter n a t u r a l d o s direitos. E m contraste, a Declaração da I n d e p e n d ê n c i a insistia q u e
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Acredito q u e a afirmação de a u t o e v i d ê n c i a é crucial p a r a a história dos direitos h u m a n o s , e este livro busca explicar c o m o ela veio a ser tão convincente n o século XVIII. Felizmente, ela t a m b é m propicia u m p o n t o focal n o q u e t e n d e a ser u m a história m u i t o difusa. Os direitos h u m a n o s t o r n a r a m - s e t ã o u b í q u o s n a atualid a d e q u e p a r e c e m r e q u e r e r u m a h i s t ó r i a i g u a l m e n t e vasta. As ideias gregas sobre a pessoa individual, as noções r o m a n a s de lei e direito, as d o u t r i n a s cristãs da alma... O risco é q u e a história dos direitos h u m a n o s se t o r n e a história da civilização ocidental o u agora, às vezes, até a história d o m u n d o inteiro. A antiga Babilônia, o h i n d u í s m o , o b u d i s m o e o islã t a m b é m n ã o d e r a m as suas con-

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"todos os h o m e n s são criados iguais" e que todos possuem"direitos inalienáveis". D a m e s m a f o r m a , a Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o Cidadão proclamava que "Os h o m e n s nascem e perm a n e c e m livres e iguais e m direitos". N ã o os h o m e n s franceses, n ã o os h o m e n s brancos, n ã o os católicos, mas "os homens", o que t a n t o naquela época c o m o agora não significa apenas machos, mas pessoas, isto é, m e m b r o s d a raça h u m a n a . E m o u t r a s palavras, e m algum m o m e n t o entre 1689 e 1776 direitos que t i n h a m sido considerados m u i t o frequentemente c o m o sendo de d e t e r m i n a d o povo — o s ingleses nascidos livres, p o r e x e m p l o — f o r a m transformados e m direitos h u m a n o s , direitos naturais universais, o que os franceses c h a m a v a m les droits de Vhomme, o u "os direitos d o homem".
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das por tanto tempo contra os habitantes inofensivos da África, e que a moralidade, a reputação e os melhores interesses do nosso país desejam há muito proscrever.

Ao sustentar q u e os africanos gozavam de direitos h u m a n o s , Jefferson n ã o tirava n e n h u m a ilação sobre os escravos n e g r o s n o país. O s direitos h u m a n o s , pela definição d e Jefferson, n ã o capacitava os africanos — m u i t o m e n o s os afro-americanos — a agir e m seu p r ó p r i o n o m e .
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D u r a n t e o século x v n i , e m inglês e e m francês, os t e r m o s "direitos h u m a n o s " , "direitos d o gênero h u m a n o " e " d i r e i t o s d a h u m a n i d a d e " se m o s t r a r a m t o d o s d e m a s i a d o gerais p a r a servir ao e m p r e g o político d i r e t o . Referiam-se antes ao q u e d i s t i n g u i a os h u m a n o s d o divino, n u m a p o n t a da escala, e dos a n i m a i s , n a o u -

OS D I R E I T O S H U M A N O S E " O S DIREITOS D O

HOMEM"

tra, d o q u e a direitos p o l i t i c a m e n t e relevantes c o m o a l i b e r d a d e de expressão o u o direito de participar n a política. Assim, n u m d o s e m p r e g o s m a i s a n t i g o s (1734) de "direitos d a h u m a n i d a d e " e m francês, o acerbo crítico literário Nicolas Lenglet-Dufresnoy, ele p r ó p r i o u m padre católico, satirizava "aqueles m o n g e s inimitáveis d o século vi, que r e n u n c i a v a m tão inteiramente a t o d o s 'os direitos da h u m a n i d a d e ' q u e p a s t a v a m c o m o animais e a n d a v a m p o r t o d a p a r t e c o m p l e t a m e n t e nus". D a m e s m a forma, e m 1756, Voltaire podia p r o c l a m a r c o m i r o n i a que a Pérsia era a m o n a r q u i a e m q u e mais desfrutava dos "direitos da h u m a n i d a d e " , p o r q u e os persas t i n h a m os m a i o r e s " r e c u r s o s c o n t r a o tédio". O t e r m o " d i r e i t o h u m a n o " apareceu e m francês pela p r i m e i r a vez e m 1763 signific a n d o algo semelhante a "direito natural", m a s n ã o p e g o u , apesar de ser u s a d o p o r Voltaire n o seu a m p l a m e n t e influente Tratado sobre a tolerância!' E n q u a n t o os ingleses c o n t i n u a r a m a preferir "direitos n a t u rais" o u s i m p l e s m e n t e " d i r e i t o s " d u r a n t e t o d o o século x v n i , os franceses i n v e n t a r a m u m a n o v a expressão n a década d e 1760 —
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U m a breve incursão n a história dos t e r m o s ajudará a fixar o m o m e n t o d o s u r g i m e n t o d o s direitos h u m a n o s . As pessoas d o século x v n i n ã o u s a v a m f r e q u e n t e m e n t e a e x p r e s s ã o "direitos h u m a n o s " e, q u a n d o o faziam, e m geral q u e r i a m dizer algo diferente d o significado que hoje lhe a t r i b u í m o s . Antes de 1789, Jefferson, p o r exemplo, falava c o m m u i t a frequência de "direitos n a t u rais". C o m e ç o u a u s a r o t e r m o "direitos d o h o m e m " s o m e n t e depois de 1789. Q u a n d o e m p r e g a v a "direitos h u m a n o s " , q u e r i a dizer algo mais passivo e m e n o s político d o q u e os direitos naturais ou os direitos d o h o m e m . E m 1806, p o r exemplo, u s o u o t e r m o ao se referir aos males d o tráfico de escravos:

Eu lhes felicito, colegas cidadãos, por estar próximo o período em que poderão interpor constitucionalmente a sua autoridade para afastar os cidadãos dos Estados Unidos de toda participação ulterior naquelas violações dos direitos humanos que têm sido reitera20

"direitos d o h o m e m " {droits de l'homme).

"O(s) direito(s) n a t u -

Antes de 1789, "direitos d o h o m e m " t i n h a p o u c a s incursões no inglês. Mas a Revolução A m e r i c a n a incitou o m a r q u ê s de C o n dorcet, defensor d o I l u m i n i s m o francês, a d a r o p r i m e i r o passo para definir "os direitos d o homem", que p a r a ele incluíam a segurança da pessoa, a segurança da p r o p r i e d a d e , a justiça imparcial e idônea e o direito de c o n t r i b u i r para a formulação das leis. N o seu ensaio de 1786, " D e l'influence de la r é v o l u t i o n d ' A m é r i q u e sur l'Europe", C o n d o r c e t ligava explicitamente os direitos d o h o m e m à Revolução Americana: " O espetáculo de u m g r a n d e povo e m q u e os direitos d o h o m e m são respeitados é útil p a r a t o d o s os o u t r o s , apesar da diferença de clima, costumes e constituições". A Declaração da I n d e p e n d ê n c i a americana, ele proclamava, era n a d a m e n o s q u e " u m a exposição simples e sublime desses direitos q u e são, ao m e s m o t e m p o , t ã o s a g r a d o s e h á t a n t o t e m p o esquecidos". E m janeiro de 1789, E m m a n u e l - J o s e p h Sieyès u s o u a expressão n o seu incendiário panfleto c o n t r a a nobreza, O que é o Terceiro Estado?. O r a s c u n h o de u m a declaração dos direitos, feito p o r Lafayette e m janeiro de 1789, referia-se explicitamente aos "direitos d o homem", referência t a m b é m feita p o r C o n d o r c e t n o seu p r ó p r i o r a s c u n h o d o início de 1789. D e s d e a p r i m a v e r a de 1789 — isto é, m e s m o antes da q u e d a da Bastilha e m 14 de j u l h o — m u i t o s debates sobre a necessidade de u m a declaração dos "direitos d o h o m e m " p e r m e a v a m os círculos políticos franceses.
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ral(is)" o u "a lei n a t u r a l " (droit naturel t e m a m b o s os significados e m francês) t i n h a m histórias mais longas q u e recuavam centenas de a n o s n o passado, m a s talvez c o m o consequência"o(s) direito(s) n a t u r a l ( i s ) " t i n h a u m n ú m e r o exagerado de possíveis significados. Às vezes significava simplesmente fazer sentido d e n t r o da o r d e m tradicional. Assim, p o r exemplo, o bispo Bossuet, u m porta-voz a favor d a m o n a r q u i a absoluta de Luís xiv, u s o u "direito n a t u r a l " s o m e n t e ao descrever a e n t r a d a de Jesus Cristo n o céu ("ele e n t r o u n o céu pelo seu p r ó p r i o direito n a t u r a l " ) .
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O t e r m o "direitos d o h o m e m " c o m e ç o u a circular e m francês depois de sua aparição e m O contrato social (1762), d e Jean-Jacques Rousseau, ainda q u e ele n ã o desse ao t e r m o n e n h u m a definição e ainda q u e — ou talvez p o r q u e — o usasse ao lado de "direitos da humanidade","direitos d o cidadão"e"direitos da soberania". Q u a l q u e r que fosse a razão, p o r volta de j u n h o de 1763, "direitos d o h o m e m " t i n h a se t o r n a d o u m t e r m o c o m u m , s e g u n d o u m a revista clandestina: Os atores da Comédie française representaram hoje, pela primeira vez, Manco [uma peça sobre os incas no Peru ], de que falamos antes. É uma das piores tragédias já construídas. Há nela um papel para um selvagem que poderia ser muito belo: ele recita cm verso tudo o que temos lido espalhado sobre reis, liberdade e os direitos do homem, em A desigualdade de condições, em Emílio, em O contrato social.

Q u a n d o a l i n g u a g e m d o s direitos h u m a n o s a p a r e c e u , n a segunda m e t a d e d o século xvin, havia a princípio p o u c a definição explícita desses direitos. Rousseau n ã o ofereceu n e n h u m a explicação q u a n d o u s o u o t e r m o "direitos d o h o m e m " . O jurista inglês William Blackstone os definiu c o m o "a liberdade natural da h u m a nidade", isto é, os "direitos a b s o l u t o s d o h o m e m , c o n s i d e r a d o c o m o u m agente livre, d o t a d o de discernimento para distinguir o b e m d o mal". A maioria daqueles que usavam a expressão nas décadas de 1770 e 1780 n a França, c o m o D ' H o l b a c h e Mirabeau, figu23

E m b o r a a peça n ã o e m p r e g u e de fato a expressão precisa "os direitos d o homem", m a s antes a relacionada "direitos de nosso ser", é claro que o t e r m o havia e n t r a d o n o uso intelectual e estava de fato diretamente associado c o m as obras de Rousseau. O u t r o s escritores d o I l u m i n i s m o , c o m o o b a r ã o D ' H o l b a c h , Raynal e Mercier, a d o t a r a m a expressão nas décadas de 1770 e 1780.
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ras controversas d o I l u m i n i s m o , referia-se aos direitos d o h o m e m c o m o se fossem óbvios e não necessitassem de n e n h u m a justificação o u definição; eram, e m outras palavras, autoevidentes. D ' H o l b a c h argumentava, p o r exemplo, que se os h o m e n s temessem m e n o s a m o r t e "os direitos do h o m e m seriam defendidos c o m mais ousadia". M i r a b e a u denunciava os seus perseguidores, q u e n ã o t i n h a m " n e m caráter n e m alma, p o r q u e n ã o t ê m a b s o l u t a m e n t e n e n h u m a ideia d o s direitos dos h o m e n s " . N i n g u é m a p r e s e n t o u u m a lista precisa desses direitos a n t e s de 1776 (a d a t a d a D e c l a r a ç ã o de Direitos da Virgínia redigida p o r George Mason). " A a m b i g u i d a d e dos direitos h u m a n o s foi percebida pelo pastor calvinista jean-Paul Rabaut Saint-Étienne, q u e escreveu ao rei francês e m 1787 para se queixar das limitações de u m projeto de edito de tolerância p a r a protestantes c o m o ele p r ó p r i o . E n c o r a jado pelo s e n t i m e n t o crescente e m favor dos direitos d o h o m e m , R a b a u t insistiu: " s a b e m o s hoje o q u e são os direitos n a t u r a i s , e eles certamente d ã o aos h o m e n s m u i t o mais d o q u e o edito concede aos protestantes. [...] C h e g o u a h o r a e m q u e n ã o é mais aceitável q u e u m a lei invalide a b e r t a m e n t e os direitos da h u m a n i d a d e , que são m u i t o b e m conhecidos e m t o d o o m u n d o " . Talvez eles fossem b e m conhecidos, m a s o p r ó p r i o R a b a u t a d m i t i a q u e u m rei católico n ã o p o d i a sancionar oficialmente o direito calvinista ao culto público. E m suma, t u d o d e p e n d i a — c o m o ainda d e p e n d e — da interpretação dada ao q u e n ã o era "mais aceitável".
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se ressoa d e n t r o de cada indivíduo. Além disso, t e m o s m u i t a cerleza de q u e u m direito h u m a n o está e m questão q u a n d o nos sentimos h o r r o r i z a d o s pela sua violação. R a b a u t Saint-Étienne sabia (|ue p o d i a apelar ao c o n h e c i m e n t o implícito d o q u e n ã o era "mais aceitável". E m 1755, o influente escritor d o I l u m i n i s m o francês I )enis Diderot t i n h a escrito, a respeito d o droit naturel, q u e "o uso desse t e r m o é t ã o familiar q u e quase n i n g u é m deixaria de ficar convencido, n o interior de si m e s m o , de q u e a n o ç ã o lhe é obviamente conhecida. Esse s e n t i m e n t o interior é c o m u m t a n t o p a r a o lilósofo q u a n t o p a r a o h o m e m q u e a b s o l u t a m e n t e n ã o refletiu". ( ] o m o o u t r o s de seu t e m p o , Diderot dava apenas u m a indicação vaga d o significado de direitos naturais: " c o m o homem", concluía, "não t e n h o o u t r o s direitos n a t u r a i s q u e sejam v e r d a d e i r a m e n t e inalienáveis a n ã o ser aqueles da h u m a n i d a d e " . Mas ele tocara n a qualidade mais i m p o r t a n t e dos direitos h u m a n o s : eles r e q u e r i a m certo " s e n t i m e n t o interior" a m p l a m e n t e p a r t i l h a d o .
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Até Jean-Jacques Burlamaqui, o austero filósofo suíço da lei natural, insistia que a liberdade só podia ser e x p e r i m e n t a d a pelos s e n t i m e n t o s i n t e r i o r e s d e c a d a h o m e m : "Tais p r o v a s d e s e n t i m e n t o estão acima de t o d a objeção e p r o d u z e m a convicção m a i s p r o f u n d a m e n t e arraigada". Os direitos h u m a n o s n ã o são apenas nina d o u t r i n a formulada e m d o c u m e n t o s : baseiam-se n u m a disposição e m relação às o u t r a s pessoas, u m conjunto de convicções sobre c o m o são as pessoas e c o m o elas d i s t i n g u e m o c e r t o e o e i r a d o n o m u n d o secular. As ideias filosóficas, as tradições legais e .1 política revolucionária precisaram ter esse tipo de p o n t o de refeiciicia e m o c i o n a l interior p a r a que os direitos h u m a n o s fossem verdadeiramente "autoevidentes". E, c o m o insistia Diderot, esses M i i i i m e n t o s t i n h a m de ser e x p e r i m e n t a d o s p o r m u i t a s pessoas, Bio s o m e n t e pelos filósofos q u e escreviam sobre eles." O que sustentava essas noções de liberdade e direitos era u m • onjunto de pressuposições sobre a a u t o n o m i a individual. Para
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C O M O OS D I R E I T O S SE T O R N A R A M

AUTOEVIDENTES

Os direitos h u m a n o s são difíceis de d e t e r m i n a r p o r q u e sua definição, e na verdade a sua p r ó p r i a existência, d e p e n d e t a n t o das e m o ç õ e s q u a n t o d a r a z ã o . A reivindicação de a u t o e v i d ê n c i a se baseia e m última análise n u m apelo emocional: ela é convincente
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ter direitos h u m a n o s , as pessoas d e v i a m ser vistas c o m o indivíd u o s separados q u e e r a m capaz.es de exercer u m julgamento m o r a l i n d e p e n d e n t e ; c o m o dizia Blackstone, os direitos d o h o m e m a c o m p a n h a v a m o indivíduo "considerado c o m o u m agente livre, d o t a d o de discernimento p a r a distinguir o b e m d o mal". Mas, p a r a q u e se t o r n a s s e m m e m b r o s de u m a c o m u n i d a d e política baseada n a q u e l e s j u l g a m e n t o s m o r a i s i n d e p e n d e n t e s , esses i n d i v í d u o s a u t ô n o m o s t i n h a m de ser capazes de sentir empatia pelos o u t r o s . T o d o m u n d o teria direitos s o m e n t e se t o d o m u n d o pudesse ser visto, de u m m o d o essencial, c o m o semelhante. A igualdade n ã o era apenas u m conceito abstrato ou u m slogan político. T i n h a de ser internalizada de alguma forma. E m b o r a c o n s i d e r e m o s n a t u r a i s as ideias d e a u t o n o m i a e i g u a l d a d e , j u n t o c o m os direitos h u m a n o s , elas só g a n h a r a m influência n o século XVIII. O filósofo m o r a l c o n t e m p o r â n e o J. B. Schneewind investigou o q u e ele c h a m a de "a invenção da a u t o n o mia". "A nova perspectiva q u e surgiu n o fim d o século XVIII", afirma ele, "centrava-se na crença de q u e t o d o s os indivíduos n o r m a i s são igualmente capazes de viver j u n t o s n u m a m o r a l i d a d e de a u t o c o n trole." Por trás desses " i n d i v í d u o s n o r m a i s " existe u m a longa história de luta. N o século XVIII (e de fato até o presente) n ã o se imagin a v a m todas as "pessoas" c o m o igualmente capazes de a u t o n o m i a m o r a l . D u a s qualidades relacionadas m a s distintas estavam implicadas: a capacidade de raciocinar e a i n d e p e n d ê n c i a de decidir p o r si m e s m o . A m b a s t i n h a m de estar presentes p a r a q u e u m indivíd u o fosse m o r a l m e n t e a u t ô n o m o . Às crianças e aos insanos faltava a necessária capacidade de raciocinar, m a s eles p o d e r i a m a l g u m dia ganhar o u recuperar essa capacidade. Assim c o m o as crianças, os escravos, os c r i a d o s , os s e m p r o p r i e d a d e e as m u l h e r e s n ã o t i n h a m a i n d e p e n d ê n c i a de status r e q u e r i d a p a r a s e r e m p l e n a m e n t e a u t ô n o m o s . As crianças, os criados, os sem p r o p r i e d a d e e talvez até os escravos p o d e r i a m u m dia t o r n a r - s e a u t ô n o m o s , cres-

( c n d o , a b a n d o n a n d o o serviço, a d q u i r i n d o u m a p r o p r i e d a d e o u 1 o i n p r a n d o a sua liberdade. Apenas as m u l h e r e s n ã o pareciam ter n e n h u m a dessas o p ç õ e s : e r a m definidas c o m o i n e r e n t e m e n t e 1 lependentes de seus pais o u m a r i d o s . Se os p r o p o n e n t e s dos direitos h u m a n o s n a t u r a i s , iguais e universais excluíam a u t o m a t i c a mente algumas categorias de pessoas d o exercício desses direitos, era p r i m a r i a m e n t e p o r q u e v i a m essas pessoas c o m o m e n o s d o q u e plenamente capazes de a u t o n o m i a m o r a l .
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Entretanto, o p o d e r r e c é m - d e s c o b e r t o da empatia podia funcionar até c o n t r a os p r e c o n c e i t o s mais d u r a d o u r o s . E m 1791, o g o v e r n o r e v o l u c i o n á r i o francês c o n c e d e u direitos iguais aos judeus; e m 1792, até os h o m e n s sem p r o p r i e d a d e foram e m a n c i pados; e e m 1794, o governo francês aboliu oficialmente a escravidão. N e m a a u t o n o m i a n e m a e m p a t i a e s t a v a m d e t e r m i n a d a s : e r a m habilidades q u e p o d i a m ser aprendidas, e as limitações "aceitáveis" d o s direitos p o d i a m ser — e f o r a m — q u e s t i o n a d a s . O s direitos n ã o p o d e m ser definidos de u m a vez p o r todas, p o r q u e a sua base e m o c i o n a l c o n t i n u a a se deslocar, e m p a r t e c o m o reação Is declarações de direitos. Os direitos p e r m a n e c e m sujeitos a discussão p o r q u e a nossa percepção de q u e m t e m direitos e d o q u e são (".ses direitos m u d a c o n s t a n t e m e n t e . A r e v o l u ç ã o dos d i r e i t o s 1111 m a n o s é, p o r definição, contínua. A a u t o n o m i a e a e m p a t i a são práticas culturais e não apenas ideias, e p o r t a n t o são i n c o r p o r a d a s de forma bastante literal, isto r, têm d i m e n s õ e s t a n t o físicas c o m o e m o c i o n a i s . A a u t o n o m i a n i i l i v i d u a l d e p e n d e d e u m a percepção crescente da separação e d o (Ifáter sagrado dos c o r p o s h u m a n o s : o seu c o r p o é seu, e o m e u iOrpo é m e u , e devemos a m b o s respeitar as fronteiras entre os corpos u m d o o u t r o . A e m p a t i a d e p e n d e do r e c o n h e c i m e n t o de q u e I tutros s e n t e m e p e n s a m c o m o fazemos, de que nossos sentimeni " . interiores são s e m e l h a n t e s de u m m o d o essencial. P a r a ser l U t ô n o m a , u m a p e s s o a t e m d e estar l e g i t i m a m e n t e s e p a r a d a e

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p r o t e g i d a na sua separação; mas, para fazer c o m q u e os direitos a c o m p a n h e m essa separação corporal, a individualidade de u m a pessoa deve ser apreciada de forma mais e m o c i o n a l . Os direitos h u m a n o s d e p e n d e m tanto d o d o m í n i o de si m e s m o c o m o d o recon h e c i m e n t o de q u e t o d o s os o u t r o s são igualmente senhores de si. É o d e s e n v o l v i m e n t o i n c o m p l e t o dessa última c o n d i ç ã o q u e dá origem a todas as desigualdades de direitos que nos têm preocup a d o ao longo de toda a história. A a u t o n o m i a e a empatia n ã o se materializaram a partir d o ar rarefeito d o século xvni: elas t i n h a m raízes profundas. D u r a n t e o longo p e r í o d o de vários séculos, os indivíduos t i n h a m c o m e ç a d o a se afastar das teias da c o m u n i d a d e , t o r n a n d o - s e agentes cada vez m a i s i n d e p e n d e n t e s t a n t o legal c o m o p s i c o l o g i c a m e n t e . U m m a i o r respeito pela integridade corporal e linhas de demarcação mais claras entre os c o r p o s individuais h a v i a m sido p r o d u z i d o s pelo limiar cada vez mais elevado da vergonha a respeito das funções corporais e pelo senso crescente de decoro corporal. C o m o t e m p o , as pessoas c o m e ç a r a m a d o r m i r sozinhas o u apenas c o m u m cônjuge na cama. Usavam utensílios para c o m e r e c o m e ç a r a m a c o n s i d e r a r repulsivo u m c o m p o r t a m e n t o a n t e s t ã o aceitável, c o m o jogar c o m i d a n o c h ã o o u l i m p a r excreções c o r p o r a i s nas roupas. A constante evolução de noções de interioridade e profundidade da psique, desde a alma cristã à consciência protestante e às noções de sensibilidade d o século xvni, p r e e n c h i a a individualid a d e c o m u m n o v o c o n t e ú d o . Todos esses processos o c o r r e r a m d u r a n t e u m longo p e r í o d o . Mas houve u m avanço repentino n o desenvolvimento dessas práticas na segunda m e t a d e d o século xvni. A a u t o r i d a d e absoluta dos pais sobre os filhos foi questionada. O público c o m e ç o u a ver os espetáculos teatrais o u a escutar música e m silêncio. Os retratos e as p i n t u r a s de gênero desafiaram o p r e d o m í n i o das grandes telas mitológicas e históricas da p i n t u r a acadêmica. O s r o m a n c e s e os
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i < > rnais proliferaram, t o r n a n d o as histórias das vidas c o m u n s acessíveis a u m a m p l o público. A t o r t u r a c o m o p a r t e d o processo j u d i cial e as formas mais extremas de p u n i ç ã o c o r p o r a l c o m e ç a r a m a ser vistas c o m o inaceitáveis. Todas essas m u d a n ç a s c o n t r i b u í r a m para u m a percepção d a separação e d o a u t o c o n t r o l e dos c o r p o s individuais, j u n t o c o m a possibilidade d e e m p a t i a c o m outros. As noções de integridade corporal e individualidade empática, investigadas nos p r ó x i m o s capítulos, t ê m histórias não dessemelhantes da dos direitos h u m a n o s , aos quais estão intimamente relacionadas. Isto é, as m u d a n ç a s nos p o n t o s de vista parecem acontecer todas ao m e s m o t e m p o , em m e a d o s d o século xvni. Considere-se, por exemplo, a tortura. Entre 1700 e 1750, a maioria dos empregos da palavra " t o r t u r a " e m francês se referia às dificuldades q u e u m escritor experimentava para e n c o n t r a r u m a expressão apropriada. Assim, Marivaux e m 1724 se referia a " t o r t u r a r a m e n t e para extrair reflexões". A t o r t u r a , isto é, a t o r t u r a legalmente autorizada p a r a obter confissões de culpa ou n o m e s d e cúmplices, tornou-se u m a questão de g r a n d e i m p o r t â n c i a depois q u e Montesquieu atacou a prática n o seu Espírito das leis (1748). N u m a das suas passagens mais influentes, Montesquieu insiste q u e "Tantas pessoas inteligentes e tantos h o m e n s de gênio escreveram c o n t r a esta prática [a t o r t u r a judicial] q u e n ã o o u s o falar d e p o i s deles". Acrescenta então, u m tanto enigmaticamente: "Eu ia dizer q u e talvez ela fosse apropriada para o governo despótico, n o qual t u d o q u e inspira m e d o contribui para o vigor d o governo; ia dizer q u e os escravos entre os gregos e os romanos... Mas escuto a voz da natureza gritando contra mim". Aqui t a m b é m a a u t o e v i d ê n c i a — " a voz da natureza gritando"—fornece o f u n d a m e n t o para o a r g u m e n t o . D e p o i s de Montesquieu, Voltaire e m u i t o s outros, especialmente o italiano Beccaria, se j u n t a r i a m à c a m p a n h a . Na década de 1780, a abolição da tortura e das formas bárbaras de punição corporal t i n h a m se t o r n a d o artigos essenciais na nova d o u t r i n a dos direitos h u m a n o s .
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As m u d a n ç a s nas reações aos corpos e individualidades das o u t r a s pessoas f o r n e c e r a m u m s u p o r t e crítico para o n o v o fundam e n t o secular da a u t o r i d a d e política. E m b o r a Jefferson escrevesse q u e o "seu C r i a d o r " t i n h a d o t a d o os h o m e n s de direitos, o p a p e l d o C r i a d o r t e r m i n a v a ali. O g o v e r n o já n ã o d e p e n d i a de D e u s , m u i t o m e n o s da interpretação da v o n t a d e de D e u s apresent a d a p o r u m a igreja. " G o v e r n o s são instituídos entre os homens", disse Jefferson,"para assegurar esses Direitos", e eles derivam o seu p o d e r "do C o n s e n t i m e n t o dos Governados". Da m e s m a forma, a D e c l a r a ç ã o francesa de 1789 m a n t i n h a q u e o "objetivo de t o d a associação política é a preservação dos direitos n a t u r a i s e i m p r e s critíveis d o h o m e m " e q u e o "princípio de t o d a soberania reside essencialmente n a nação". A a u t o r i d a d e política, nessa visão, derivava da natureza mais interior dos indivíduos e da sua capacidade de criar a c o m u n i d a d e p o r m e i o d o c o n s e n t i m e n t o . Os cientistas p o l í t i c o s e os h i s t o r i a d o r e s t ê m e x a m i n a d o essa c o n c e p ç ã o d a a u t o r i d a d e política a p a r t i r de â n g u l o s v a r i a d o s , m a s t ê m p r e s t a d o p o u c a atenção à visão dos corpos e das individualidades q u e a t o r n o u possível.
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111 i v a s

sensações a respeito d o eu interior. Cada u m à sua m a n e i r a

reforçava a n o ç ã o d e u m a c o m u n i d a d e b a s e a d a e m i n d i v í d u o s . m l ô n o m o s e empáticos, q u e p o d i a m se relacionar, p a r a além d e Ni ias famílias imediatas, associações religiosas o u até nações, c o m valores universais maiores.
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N ã o h á n e n h u m m o d o fácil o u óbvio de p r o v a r o u m e s m o medir o efeito das novas experiências culturais sobre as pessoas d o século xviii, m u i t o m e n o s sobre as suas concepções dos direitos. O s isl udos científicos das reações atuais à leitura e ao ato de ver tele\ is.io

revelaram-se bastante difíceis, e eles t ê m a v a n t a g e m de exasujeitos vivos q u e p o d e m ser expostos a estratégias de pes-

miiiar

quisa s e m p r e m u t á v e i s . A i n d a assim, os n e u r o c i e n t i s t a s e os psicólogos cognitivos t ê m feito algum progresso e m ligar a b i o l o gia d o cérebro a resultados psicológicos e n o fim das contas até lociais e culturais. M o s t r a r a m , p o r exemplo, que a capacidade de 1 onstruir narrativas é baseada n a biologia d o cérebro, sendo crucial para o desenvolvimento de qualquer n o ç ã o d o eu. Certos tipos ilc lesões cerebrais a f e t a m a c o m p r e e n s ã o n a r r a t i v a , e d o e n ç a s 1 o r n o o a u t i s m o m o s t r a m q u e a capacidade de empatia — o recouliecimento de q u e os o u t r o s t ê m m e n t e s c o m o a nossa — t e m m na base biológica. Na sua m a i o r parte, entretanto, esses estudos •.o e x a m i n a m u m l a d o d a e q u a ç ã o : o b i o l ó g i c o . M e s m o q u e a maioria dos psiquiatras e até alguns neurocientistas c o n c o r d e m | U e o p r ó p r i o cérebro é influenciado p o r forças sociais e culturais,
essa

M e u a r g u m e n t o fará g r a n d e uso da influência de novos tipos de experiência, desde ver imagens e m exposições públicas até ler r o m a n c e s epistolares i m e n s a m e n t e p o p u l a r e s sobre o a m o r e o casamento. Essas experiências ajudaram a difundir as práticas da a u t o n o m i a e da empatia. O cientista político Benedict A n d e r s o n a r g u m e n t a que os jornais e os r o m a n c e s c r i a r a m a " c o m u n i d a d e imaginada" que o nacionalismo requer p a r a florescer. O q u e p o d e ria ser d e n o m i n a d o "empatia imaginada" antes serve c o m o fundam e n t o dos direitos h u m a n o s q u e d o n a c i o n a l i s m o . É i m a g i n a d a n ã o n o s e n t i d o de i n v e n t a d a , m a s n o s e n t i d o d e q u e a e m p a t i a requer u m salto de fé, de i m a g i n a r que alguma o u t r a pessoa é c o m o você. O s relatos de t o r t u r a p r o d u z i a m essa e m p a t i a i m a g i n a d a p o r m e i o de novas visões da dor. Os r o m a n c e s a geravam i n d u z i n d o
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interação t e m sido mais difícil de estudar. Na verdade, o p r ó -

11] i > eu t e m se m o s t r a d o m u i t o difícil de examinar. Sabemos q u e < l ei 1 í o s a experiência de ter u m eu, mas os neurocientistas não con'.eguiram d e t e r m i n a r o local dessa experiência, m u i t o m e n o s • plicar c o m o ela funciona.
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Se a n e u r o c i ê n c i a , a p s i q u i a t r i a e a psicologia a i n d a estão nu e i las sobre a n a t u r e z a d o eu, e n t ã o talvez n ã o seja s u r p r e e n 1 lente que os historiadores t e n h a m se m a n t i d o totalmente afasta31

dos d o assunto. A maioria dos historiadores provavelmente acredita q u e o eu é, e m alguma m e d i d a , m o d e l a d o p o r fatores sociais e culturais, isto é, q u e a individualidade n o século x significava algo diferente d o q u e significa p a r a n ó s hoje e m dia. Mas p o u c o se sabe sobre a história da pessoa c o m o u m conjunto de experiências. Os estudiosos t ê m escrito bastante sobre o s u r g i m e n t o d o individualismo e d a a u t o n o m i a c o m o d o u t r i n a s , p o r é m m u i t o m e n o s sobre c o m o o p r ó p r i o eu p o d e r i a m u d a r ao longo d o t e m p o . C o n c o r d o c o m o u t r o s historiadores q u e o significado d o eu m u d a ao longo d o t e m p o , e acredito que a experiência — e n ã o apenas a ideia — da individualidade m u d a de forma decisiva p a r a algumas pessoas n o século xviii. M e u a r g u m e n t o d e p e n d e da n o ç ã o de q u e ler relatos de tort u r a o u r o m a n c e s epistolares teve efeitos físicos q u e se t r a d u z i r a m e m m u d a n ç a s cerebrais e t o r n a r a m a sair d o cérebro c o m o novos conceitos sobre a organização da vida social e política. O s novos tipos de leitura (e de visão e audição) c r i a r a m novas experiências individuais (empatia), q u e p o r sua vez t o r n a r a m possíveis novos conceitos sociais e políticos (os direitos h u m a n o s ) . Nestas páginas tento d e s e m a r a n h a r c o m o esse processo se realizou. C o m o a história, m i n h a disciplina, t e m d e s d e n h a d o p o r t a n t o t e m p o q u a l quer forma de a r g u m e n t o psicológico — nós historiadores falam o s frequentemente de r e d u c i o n i s m o psicológico, m a s n u n c a de r e d u c i o n i s m o sociológico o u c u l t u r a l — , ela t e m o m i t i d o e m g r a n d e p a r t e a possibilidade de u m a r g u m e n t o q u e d e p e n d e de u m relato sobre o que acontece d e n t r o d o eu. Estou t e n t a n d o voltar de novo a atenção p a r a o que acontece d e n t r o das m e n t e s i n d i v i d u a i s . Esse p o d e r i a p a r e c e r u m l u g a r óbvio para p r o c u r a r u m a explicação das m u d a n ç a s sociais e políticas transformadoras, m a s as m e n t e s individuais — salvo as dos grandes pensadores e escritores — t ê m sido s u r p r e e n d e n t e m e n t e negligenciadas n o s t r a b a l h o s recentes das ciências h u m a n a s e
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sociais. A atenção t e m se voltado para o contexto social e cultural, e n ã o p a r a o m o d o c o m o as m e n t e s individuais c o m p r e e n d e m e r e m o d e l a m esse contexto. Acredito que a m u d a n ç a social e política — nesse caso, os direitos h u m a n o s — ocorre p o r q u e m u i t o s indivíduos tiveram experiências semelhantes, n ã o p o r q u e todos h a b i tassem o m e s m o c o n t e x t o social, m a s p o r q u e , p o r m e i o de suas i nterações entre si e c o m suas leituras e visões, eles realmente criaram u m n o v o contexto social. E m suma, estou insistindo que qualquer relato de m u d a n ç a histórica deve n o fim das contas explicar a alteração das m e n t e s individuais. Para q u e os direitos h u m a n o s se (ornassem autoevidentes, as pessoas c o m u n s precisaram ter novas compreensões que nasceram de novos tipos de sentimentos.

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i. "Torrentes de emoções"
Lendo romances e imaginando a igualdade

U m a n o antes de publicar O contrato social, Rousseau g a n h o u atenção internacional c o m u m r o m a n c e de sucesso, Júlia ou A nova Heloísa (1761). E m b o r a os leitores m o d e r n o s achem q u e a f o r m a d o r o m a n c e epistolar o u e m cartas t e m às vezes u m desenvolvim e n t o t o r t u r a n t e m e n t e lento, os leitores d o século xvin reagiram de m o d o visceral. O subtítulo excitou as suas expectativas, pois a história medieval d o a m o r c o n d e n a d o de Heloísa e Abelardo era b e m c o n h e c i d a . P e d r o A b e l a r d o , filósofo e clérigo católico d o século xii, seduziu a sua aluna Heloísa e pagou u m alto preço nas mãos d o tio dela: a castração. Separados para sempre, os dois a m a n tes e n t ã o t r o c a r a m cartas íntimas que cativaram leitores ao longo tios séculos. A paródia c o n t e m p o r â n e a de Rousseau parecia a p r i n cípio a p o n t a r n u m a direção m u i t o diferente. A nova Heloísa, Júlia, t a m b é m se apaixona pelo seu tutor, m a s desiste d o miserável Saint- Preux para satisfazer seu pai autoritário, que exige o seu c a s a m e n t o c o m W o l m a r , u m soldado russo mais velho que no passado salvara a vida d o pai de Júlia. Ela n ã o só supera a sua paixão p o r Saint-Preux mas t a m b é m parece aprender a amá-lo simplesmente c o m o amigo

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antes de morrer, após salvar seu filho p e q u e n o d o afogamento. Será que Rousseau procurava celebrar a submissão à autoridade d o pai e d o esposo, ou tinha a intenção de retratar c o m o trágico o ato de ela sacrificar os seus próprios desejos? O e n r e d o , m e s m o c o m suas a m b i g u i d a d e s , n ã o explica a explosão de emoções e x p e r i m e n t a d a pelos leitores de Rousseau. O q u e os c o m o v i a era a sua intensa identificação c o m as p e r s o n a gens, especialmente Júlia. C o m o Rousseau já desfrutava de celeb r i d a d e i n t e r n a c i o n a l , a notícia da i m i n e n t e p u b l i c a ç ã o d o seu r o m a n c e se espalhou c o m o u m rastilho de pólvora, e m parte p o r q u e ele lia t r e c h o s d o r o m a n c e e m voz alta p a r a vários a m i g o s . E m b o r a Voltaire fizesse p o u c o d a o b r a , c h a m a n d o - a "esse lixo miserável", Jean le R o n d d'Alembert, que coeditou a Encyclopédie c o m Diderot, escreveu a Rousseau para dizer que tinha " d e v o r a d o " o livro e avisá-lo de q u e devia esperar ser c e n s u r a d o n u m "país e m q u e se fala t a n t o d o s e n t i m e n t o e da p a i x ã o e t ã o p o u c o se os conhece". O Journal desSavantsadmiúa que o r o m a n c e t i n h a defeitos e até algumas passagens cansativas, m a s concluía q u e s o m e n t e os de coração e m p e d e r n i d o p o d i a m resistir às "torrentes de e m o ções que t a n t o devastam a alma, que p r o v o c a m de forma tão i m p e riosa e tirânica lágrimas tão amargas".
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Os cortesãos, o clero, os oficiais militares e t o d a sorte de pessoas c o m u n s escreviam a Rousseau p a r a descrever seus s e n t i m e n tos de u m "fogo devorador", suas "emoções e mais emoções, convulsões e mais convulsões". U m contava q u e n ã o t i n h a c h o r a d o a m o r t e de Júlia, m a s q u e estava "gritando, u i v a n d o c o m o u m anim a l " (figura 1). C o m o observou u m comentarista d o século xx a respeito dessas cartas, os leitores d o r o m a n c e n o século xvin n ã o o liam c o m prazer, m a s antes c o m "paixão, delírio, espasmos e soluços". A t r a d u ç ã o inglesa apareceu dois meses após a edição original francesa; s e g u i r a m - s e dez edições e m inglês e n t r e 1761 e 1800. C e n t o e q u i n z e edições da versão francesa f o r a m publicadas n o
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I I C U R A í . O leito de morte de Júlia lista cena provocou mais sofrimento do que qualquer outra em Júlia, ou Á nova Heloísa. A gravura de Nicolas Delaunay, baseada num desenho do famoso artista Jean-Michel Moreau, apareceu numa edição de 1782 das I ' I n a s reunidas de Rousseau.

m e s m o p e r í o d o p a r a satisfazer o a p e t i t e v o r a z de u m p ú b l i c o internacional q u e lia francês.
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I 'ameia, a h e r o í n a d o r o m a n c e de m e s m o n o m e escrito p o r S a m u e l Richardson, igual e m e s m o superior a h o m e n s ricos c o m o o sr. B., o e m p r e g a d o r e futuro sedutor de Pamela. O s r o m a n c e s apresentavam a ideia de q u e todas as pessoas são f u n d a m e n t a l m e n t e s e m e lhantes p o r causa de seus s e n t i m e n t o s í n t i m o s , e m u i t o s r o m a n c e s m o s t r a v a m e m particular o desejo de a u t o n o m i a . Dessa forma, a leitura dos r o m a n c e s criava u m senso de igualdade e e m p a t i a p o r meio d o envolvimento a p a i x o n a d o c o m a narrativa. Seria coincidência que os três maiores r o m a n c e s de identificação psicológica do século XVIII — Pamela (1740) e Clarissa (1747-8), de Richardson, e Júlia (1761), de Rousseau — t e n h a m sido t o d o s publicados no p e r í o d o q u e i m e d i a t a m e n t e p r e c e d e u o s u r g i m e n t o d o c o n ceito dos "direitos d o h o m e m " ? N ã o é preciso dizer q u e a empatia n ã o foi inventada n o século XVIII. A capacidade de e m p a t i a é universal, p o r q u e está arraigada na biologia d o cérebro: d e p e n d e de u m a capacidade de base biológica, a d e c o m p r e e n d e r a s u b j e t i v i d a d e d e o u t r a s pessoas e ser capaz de imaginar q u e suas experiências interiores são semelhantes às nossas. As crianças q u e sofrem de a u t i s m o , p o r exemplo, t ê m grande dificuldade e m decodificar as expressões faciais c o m o indicadoras de s e n t i m e n t o s e e m geral enfrentam problemas para atribuir estados subjetivos a o u t r o s . O a u t i s m o , e m s u m a , é caracterizado pela incapacidade de sentir empatia pelos o u t r o s .
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A leitura de Júlia p r e d i s p ô s os seus leitores p a r a u m a n o v a forma de empatia. E m b o r a Rousseau tenha feito circular o t e r m o "direitos humanos", esse n ã o é o t e m a principal d o r o m a n c e , q u e gira e m t o r n o de paixão, a m o r e virtude. Ainda assim, Júlia encorajava u m a identificação e x t r e m a m e n t e intensa c o m os personagens e c o m isso tornava os leitores capazes d e sentir empatia além das fronteiras de classe, sexo e nação. Os leitores do século XVIII, c o m o as pessoas antes deles, sentiam empatia p o r aqueles que lhes e r a m p r ó x i m o s e p o r aqueles q u e e r a m m u i t o o b v i a m e n t e seus s e m e lhantes — as suas famílias imediatas, os seus parentes, as pessoas de sua p a r ó q u i a , os seus iguais sociais costumeiros e m geral. Mas as pessoas d o século XVIII tiveram de a p r e n d e r a sentir empatia cruz a n d o fronteiras mais a m p l a m e n t e definidas. Aléxis de Tocqueville c o n t a u m a história relatada pelo secretário d e Voltaire s o b r e m a d a m e de Châtelet, que não hesitava e m se despir n a frente de seus criados, "não considerando ser u m fato c o m p r o v a d o que os camareiros fossem homens". Os direitos h u m a n o s só p o d i a m fazer sentido q u a n d o os camareiros fossem t a m b é m vistos c o m o h o m e n s .
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ROMANCES E EMPATIA

Romances c o m o Júlia levavam os leitores a se identificar c o m personagens c o m u n s , q u e lhes e r a m p o r definição pessoalmente d e s c o n h e c i d o s . Os leitores s e n t i a m e m p a t i a pelos p e r s o n a g e n s , especialmente pela heroína ou pelo herói, graças aos m e c a n i s m o s da p r ó p r i a forma narrativa. Por m e i o da troca fictícia de cartas, e m outras palavras, os romances epistolares e n s i n a v a m a seus leitores n a d a m e n o s que u m a nova psicologia e nesse processo estabeleciam os f u n d a m e n t o s p a r a u m a nova o r d e m política e social. Os r o m a n c e s t o r n a v a m a Júlia da classe m é d i a e até c r i a d o s c o m o
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N o r m a l m e n t e , t o d o m u n d o a p r e n d e a sentir empatia desde u m a tenra idade. E m b o r a a biologia propicie u m a predisposição essencial, cada cultura m o d e l a a expressão d e empatia a seu m o d o . A e m p a t i a só se desenvolve p o r m e i o da interação social: p o r t a n t o , as f o r m a s dessa i n t e r a ç ã o c o n f i g u r a m a e m p a t i a de m a n e i r a s i m p o r t a n t e s . N o século xviii, os leitores de r o m a n c e s a p r e n d e r a m a estender o seu alcance de empatia. Ao ler, eles sentiam empatia além de fronteiras sociais tradicionais entre os nobres e os plebeus, os senhores e os criados, os h o m e n s e as m u l h e r e s , talvez até entre
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os adultos e as crianças. E m consequência, passavam a ver os o u tros — i n d i v í d u o s que n ã o c o n h e c i a m p e s s o a l m e n t e — c o m o seus s e m e l h a n t e s , t e n d o os m e s m o s t i p o s de e m o ç õ e s i n t e r n a s . Sem esse processo de aprendizado, a "igualdade" talvez n ã o tivesse u m significado p r o f u n d o e, e m particular, n e n h u m a c o n s e q u ê n c i a política. A igualdade das almas n o céu n ã o é a m e s m a coisa q u e direitos iguais aqui na terra. Antes d o século xvin, os cristãos aceitavam p r o n t a m e n t e a p r i m e i r a sem admitir a segunda. A capacidade de identificação através das linhas sociais p o d e ter sido adquirida de várias maneiras, e n ã o m e atrevo a dizer q u e a leitura de r o m a n c e s tenha sido a única. Ainda assim, ler r o m a n ces parece especialmente p e r t i n e n t e , e m p a r t e p o r q u e o auge de d e t e r m i n a d o tipo de r o m a n c e — o r e p i s t o l a r — c o i n c i d e c r o n o l o gicamente c o m o n a s c i m e n t o dos direitos h u m a n o s . O r o m a n c e epistolar cresceu c o m o gênero entre as décadas de 1760 e 1780 e depois, u m tanto misteriosamente, extinguiu-se na década de 1790. Romances de t o d o s os tipos t i n h a m sido publicados antes, m a s eles d e c o l a r a m c o m o gênero n o século xvill, especialmente depois de 1740, a data da publicação de Pamela, de Richardson. N a França, oito novos r o m a n c e s f o r a m p u b l i c a d o s e m 1701, 52 e m 1750 e 112 e m 1789. Na Grã-Bretanha, o n ú m e r o de novos r o m a n ces a u m e n t o u seis vezes entre a p r i m e i r a década d o século xvin e a década de 1760: cerca de trinta novos r o m a n c e s apareceram t o d o a n o n a década de 1770, q u a r e n t a p o r a n o n a de 1780 e setenta p o r a n o na de 1790. Além disso, mais pessoas sabiam ler, e os r o m a n c e s de e n t ã o apresentavam pessoas c o m u n s c o m o p e r s o n a g e n s centrais, e n f r e n t a n d o os p r o b l e m a s c o t i d i a n o s d o a m o r e d o casam e n t o e c o n s t r u i n d o sua carreira n o m u n d o . A capacidade de ler e escrever tinha a u m e n t a d o a p o n t o de até criados, h o m e n s e m u l h e res, l e r e m r o m a n c e s nas g r a n d e s cidades, e m b o r a a l e i t u r a d e romances n ã o fosse então, n e m seja agora, c o m u m entre as classes baixas. Os camponeses franceses, que chegavam a constituir 8 0 %
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da p o p u l a ç ã o , n ã o t i n h a m o c o s t u m e de ler r o m a n c e s , isso q u a n d o sabiam ler.
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Apesar das limitações d o l e i t o r a d o , os h e r ó i s e as h e r o í n a s c o m u n s d o r o m a n c e d o século xvin, de R o b i n s o n C r u s o é e T o m Jones a Clarissa H a r l o w e e Julie d ' É t a n g e s , t o r n a r a m - s e n o m e s familiares, m e s m o o c a s i o n a l m e n t e p a r a aqueles q u e n ã o s a b i a m ler. O s personagens aristocráticos c o m o D o m Quixote e a princesa de Clèves, t ã o p r o e m i n e n t e s n o s r o m a n c e s d o século xvii, agora d a v a m lugar a c r i a d o s , m a r i n h e i r o s e m o ç a s d a classe m é d i a ( e n q u a n t o filha de u m p e q u e n o n o b r e suíço, até Júlia parece b e m classe m é d i a ) . A escalada e x t r a o r d i n á r i a d o r o m a n c e à p r e e m i nência n o século xvin n ã o passou despercebida, e os estudiosos a ligaram ao longo dos a n o s ao capitalismo, às a m b i ç õ e s d a classe média, ao crescimento d a esfera pública, ao s u r g i m e n t o da família nuclear, a u m a m u d a n ç a n a s relações de g ê n e r o e até a o s u r g i m e n t o d o n a c i o n a l i s m o . Q u a i s q u e r q u e t e n h a m sido as razões p a r a o desenvolvimento d o r o m a n c e , o m e u interesse é pelos seus efeitos psicológicos e pelo m o d o c o m o ele se liga ao s u r g i m e n t o dos direitos h u m a n o s . " Para chegar ao estímulo da identificação psicológica p r o p o r c i o n a d o pelo r o m a n c e , c o n c e n t r o - m e sobre três r o m a n c e s epistolares especialmente influentes: f tília, de Rousseau, e dois r o m a n c e s de seu predecessor inglês e m o d e l o confesso, Samuel Richardson: Pamela(l740) e Clarissa (1747-8). O m e u a r g u m e n t o p o d e r i a ter a b a r c a d o o r o m a n c e d o século xvin e m geral, e teria e n t ã o consider a d o as m u i t a s m u l h e r e s q u e escreveram romances e os p e r s o n a gens masculinos, c o m o T o m Jones ou Tristram Shandy, q u e definitivamente t a m b é m receberam muita atenção. Decidi m e c o n c e n t r a r e m Júlia, Pamela e Clarissa, três romances escritos p o r h o m e n s e c e n t r a d o s e m h e r o í n a s , p o r causa de seu indiscutível i m p a c t o cultural. Eles n ã o p r o d u z i r a m sozinhos as m u d a n ç a s n a e m p a t i a a q u i t r a ç a d a s , m a s u m e x a m e m a i s d e t a l h a d o d e sua
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recepção c e r t a m e n t e m o s t r a o n o v o a p r e n d i z a d o da empatia e m ação. Para c o m p r e e n d e r o q u e era novo a respeito d o " r o m a n c e " — u m r ó t u l o só a d o t a d o pelos escritores n a s e g u n d a m e t a d e d o século xviii — é proveitoso ver o que r o m a n c e s específicos p r o v o cavam e m seus leitores. N o r o m a n c e epistolar, n ã o h á n e n h u m p o n t o de vista autoral fora e a c i m a d a ação ( c o m o m a i s t a r d e n o r o m a n c e realista d o século xix): o p o n t o de vista autoral são as perspectivas dos person a g e n s expressas e m suas cartas. Os "editores" das cartas, c o m o Richardson e Rousseau se d e n o m i n a v a m , criavam u m a sensação vívida de realidade exatamente p o r q u e a sua autoria ficava obscurecida d e n t r o da troca de cartas. Isso tornava possível u m a sensação intensificada de identificação, c o m o se o personagem fosse real, e n ã o fictício. M u i t o s c o n t e m p o r â n e o s c o m e n t a r a m essa experiência, alguns c o m alegria e assombro, o u t r o s c o m p r e o c u p a ç ã o e até repulsa. A publicação dos r o m a n c e s de Richardson e Rousseau p r o d u z i u reações i n s t a n t â n e a s — e n ã o a p e n a s n o s países e m q u e foram originalmente publicados. U m francês a n ô n i m o , q u e agora se sabe que era u m clérigo, publicou u m a carta de 42 páginas e m 1742 d e t a l h a n d o a "ávida" recepção d a d a à t r a d u ç ã o francesa de Pamela: " N ã o se p o d e e n t r a r n u m a casa s e m e n c o n t r a r u m a Pamela". E m b o r a afirme q u e o r o m a n c e t e m m u i t o s defeitos, o a u t o r confessa: "Eu o devorei". ("Devorar" se t o r n a r i a a metáfora mais c o m u m para a leitura desses romances.) Ele descreve a resistência de Pamela às investidas d o sr. B., seu patrão, c o m o se eles foss e m antes pessoas reais q u e p e r s o n a g e n s fictícios. D e s c o b r e - s e p r e s o pelo e n r e d o . T r e m e q u a n d o Pamela está e m perigo, sente indignação q u a n d o personagens aristocráticos c o m o o sr. B. agem de forma indigna. A sua escolha de palavras e tipo de linguagem reforçam repetidamente a sensação de absorção e m o c i o n a l criada pela leitura.
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O r o m a n c e c o m p o s t o de cartas p o d i a p r o d u z i r esses efeitos psicológicos extraordinários p o r q u e a sua f o r m a narrativa facilitava o desenvolvimento de u m "personagem", isto é, u m a pessoa c o m u m eu interior. N u m a das p r i m e i r a s cartas d e Pamela, tentou seduzi-la: Ele me beijou duas ou três vezes, com uma avidez assustadora.—Por fim, arranqüei-me de seus braços, e estava saindo do pavilhão, mas ele me reteve e fechou a porta. Eu teria dado a minha vida por um vintém. E ele disse, não vou lhe fazer mal, Pamela, não tenha medo de mim. Eu disse, não vou ficar. Não vai, garota! Disse ele: Você sabe com quem está falando? Perdi todo o medo, e todo o respeito, e disse: Sim, sei, senhor, até demais! — Bem que posso esquecer que sou sua criada, quando o senhor esquece o que é próprio de um patrão, SOLUCEI e chorei com muita tristeza. Que garota tola você é, disse ele: Eu lhe fiz algum mal? — Sim, senhor, disse eu, o maior mal do mundo: o senhor me ensinou a esquecer quem eu sou e o que me é próprio; e diminuiu a distância que o destino criou entre nós, rebaixando-se para tomar liberdades com uma pobre criada. por exemplo, a nossa h e r o í n a descreve p a r a a m ã e c o m o o seu p a t r ã o

Lemos a carta j u n t o c o m a m ã e . N e n h u m narrador, n e m m e s m o aspas se i n t e r p õ e m e n t r e n ó s e a p r ó p r i a Pamela. N ã o p o d e m o s deixar de nos identificar c o m Pamela e experimentar c o m ela a eliminação potencial da distância social, b e m c o m o a ameaça à sua c o m p o s t u r a (figura 2).
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E m b o r a tenha m u i t a s qualidades teatrais e seja representada para a m ã e de Pamela p o r m e i o da escrita, a cena difere t a m b é m d o teatro p o r q u e Pamela p o d e escrever c o m mais detalhes sobre suas emoções interiores. M u i t o mais tarde, ela escreverá páginas sobre suas ideias de suicídio q u a n d o seus planos de fuga fracassam. U m a peça, e m contraste, n ã o p o d e r i a se d e m o r a r dessa m a n e i r a sobre a
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manifestação de u m eu interior, q u e n o palco e m geral t e m de ser i nferido a partir da ação o u da fala. U m r o m a n c e de m u i t a s centenas de páginas p o d i a revelar u m p e r s o n a g e m ao longo d o t e m p o e, ai nda p o r cima, a partir da perspectiva d o eu interior. O leitor n ã o segue apenas as ações de Pamela: ele participa d o florescimento de sua personalidade e n q u a n t o ela escreve. O leitor se t o r n a simultan e a m e n t e P a m e l a , m e s m o q u a n d o se i m a g i n a u m ( a ) a m i g o ( a ) dela e u m observador de fora. Assim que se t o r n o u c o n h e c i d o c o m o o a u t o r de Pamela e m 1741 (ele p u b l i c o u o r o m a n c e a n o n i m a m e n t e ) , Richardson c o m e çou a receber cartas, a m a i o r i a de entusiastas. O seu amigo A a r o n I lill p r o c l a m o u q u e o r o m a n c e era "a alma da religião, b o a educação, discrição, b o m caráter, espirituosidade, fantasia, belos pensamentos e moralidade". Richardson tinha enviado u m exemplar para as filhas de Aaron n o início de d e z e m b r o de 1740, e Hill rabiscou u m a resposta i m e d i a t a : " N ã o t e n h o feito n a d a s e n ã o ler o romance para o u t r o s , e escutar que outros o leiam para m i m , desde que m e chegou às m ã o s ; e acho provável q u e n ã o faça nada mais, por só Deus sabe q u a n t o t e m p o ainda p o r vir [...] ele se apodera, Iodas as noites, d a i m a g i n a ç ã o . Tem u m feitiço e m cada u m a de suas páginas; m a s é o feitiço da paixão e d o significado". O livro c o m o q u e enfeitiçava os seus leitores. A n a r r a t i v a — a troca de carlas — arrebatava i n e s p e r a d a m e n t e a todos, i n t r o d u z i n d o - o s n u m novo conjunto de experiências.
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Hill e suas filhas n ã o estavam sozinhos. A loucura p o r Pamela FIGURA 2. O sr. B. lê uma das cartas de Pamela a seus pais Numa das cenas iniciais do romance, o sr. B. se aproxima impetuosamente de Pamela e pede para ver a carta que ela está escrevendo. Escrever é o meio de autonomia de Pamela. Os artistas e os editores não resistiram a acrescentar representações visuais das principais cenas. A gravura do artista holandês Jan Punt apareceu numa antiga tradução francesa publicada em Amsterdã. logo t r a g o u a Inglaterra. N u m a vila, dizia-se, os habitantes tocar a m os sinos da igreja depois de escutar o r u m o r de q u e o sr. B. linha finalmente se casado c o m Pamela. U m a segunda impressão a p a r e c e u e m j a n e i r o de 1741 (o original foi p u b l i c a d o em 6 de n o v e m b r o de 1740), u m a terceira e m m a r ç o , u m a quarta em m a i o e u m a q u i n t a e m setembro. A essa altura, o u t r o s já t i n h a m escrito paródias, críticas extensas, p o e m a s e imitações d o original. A elas
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deveriam se seguir, c o m o passar dos anos, muitas adaptações teatrais, pinturas e gravuras das cenas principais. Em 1744, a tradução francesa entrou para o índex papal dos livros proibidos, o n d e logo se veria a c o m p a n h a d a de Júlia, de Rousseau, j u n t o c o m muitas outras obras d o Iluminismo. N e m t o d o m u n d o encontrava nesses r o m a n ces "a alma da religião" o u "a moralidade" que Hill afirmara ver.
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l a m a n h o de Clarissa s e m d ú v i d a d e s a n i m o u a l g u n s leitores: m e s m o antes de os t r i n t a volumes m a n u s c r i t o s i r e m p a r a o prelo, Richardson se p r e o c u p o u e t e n t o u cortar o r o m a n c e . U m b o l e t i m literário parisiense a p r e s e n t o u u m j u l g a m e n t o misto sobre a leitura da t r a d u ç ã o francesa: "Ao ler este livro, experimentei algo n e m um pouco c o m u m , o mais intenso prazer e o mais aborrecido tédio". M a s dois a n o s m a i s t a r d e o u t r o c o l a b o r a d o r d o b o l e t i m a n u n c i o u que o gênio de Richardson, ao apresentar tantos p e r s o nagens individualizados, tornava Clarissa "talvez a o b r a mais surpreendente que já surgiu das m ã o s de u m h o m e m " .
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Q u a n d o Richardson c o m e ç o u a publicar Clarissa e m d e z e m b r o d e 1747, as expectativas e r a m elevadas. Q u a n d o os ú l t i m o s volumes (foram sete ao todo, cada u m c o m trezentas a q u a t r o c e n tas páginas!) a p a r e c e r a m e m d e z e m b r o de 1748, R i c h a r d s o n já t i n h a recebido cartas i m p l o r a n d o que ele oferecesse u m final feliz. Clarissa foge c o m o devasso Lovelace para escapar d o p r e t e n d e n t e abominável p r o p o s t o pela sua família. Ela então t e m de resistir a Lovelace, q u e acaba e s t u p r a n d o Clarissa depois de drogá-la. Apesar d o oferecimento a r r e p e n d i d o de casamento p o r parte de Lovelace, e de seus p r ó p r i o s sentimentos pelo sedutor, Clarissa m o r r e , o c o r a ç ã o p a r t i d o pelo a t a q u e d o devasso à sua v i r t u d e e à sua c o n s c i ê n c i a de si m e s m a . Lady D o r o t h y B r a d s h a i g h c o n t o u a Richardson a sua reação à cena da m o r t e : " O m e u â n i m o é estran h a m e n t e arrebatado, m e u sono é agitado, acordando à noite i r r o m p o n u m choro de paixão, como t a m b é m m e aconteceu à h o r a d o café esta m a n h ã , e c o m o m e acontece neste m o m e n t o " . O poeta T h o m a s Edwards escreveu e m janeiro de 1749: " N u n c a senti t a n t a tristeza n a m i n h a vida c o m o p o r essa q u e r i d a menina", referida a n t e r i o r m e n t e c o m o "a divina Clarissa".
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E m b o r a Rousseau acreditasse que o seu r o m a n c e era superior ao de Richardson, ele ainda assim considerava Clarissa o m e l h o r de todo o resto: " N i n g u é m ainda escreveu, e m q u a l q u e r língua, u m romance igual a Clarissa, n e m m e s m o algum que dele se aproxime". As c o m p a r a ç õ e s e n t r e Júlia e Clarissa c o n t i n u a r a m p o r t o d o o século. Jeanne-Marie Roland, esposa de u m ministro e c o o r d e n a d o r i n f o r m a l d a facção política g i r o n d i n a d u r a n t e a R e v o l u ç ã o I 'rancesa, confessou a u m amigo e m 1789 que ela relia o r o m a n c e de Rousseau t o d o ano, mas ainda considerava a obra de Richardson o i u m e da perfeição. " N ã o há n i n g u é m n o m u n d o que apresente u m r o m a n c e capaz de s u p o r t a r u m a c o m p a r a ç ã o c o m Clarissa: é a o b r a - p r i m a d o gênero, o m o d e l o e o desespero de todo imitador."" Tanto os h o m e n s c o m o as mulheres se identificavam c o m as I m o i n a s desses r o m a n c e s . Pelas cartas a Rousseau, s a b e m o s q u e os h o m e n s , m e s m o os oficiais militares, r e a g i a m i n t e n s a m e n t e a Iiília. U m certo Louis François, oficial militar a p o s e n t a d o , escreveu a Rousseau: "Você m e deixou louco p o r ela. Imagine e n t ã o as lagrimas que sua m o r t e a r r a n c o u de m i m . [...] N u n c a verti lágrimas mais deliciosas. Essa leitura teve u m efeito tão p o d e r o s o sobre mim que acredito que teria m o r r i d o de b o m grado d u r a n t e aquele MI p r e m o m o m e n t o " . Alguns leitores reconheciam explicitamente .i sua identificação c o m a heroína. C. J. Panckoucke, que se t o r n a 47

Clarissa a g r a d o u mais aos leitores cultos q u e ao público e m geral, m a s ainda assim teve cinco edições n o s treze a n o s seguintes e foi logo t r a d u z i d o p a r a o francês (1751), o a l e m ã o (1751) e o holandês (1755). U m estudo das bibliotecas particulares m o n t a das entre 1740 e 1760 m o s t r o u q u e Pamela e Clarissa estavam entre os três romances ingleses (Tom Jones, de H e n r y Fielding, era o terceiro) c o m m a i s p r o b a b i l i d a d e d e s e r e m e n c o n t r a d o s nelas. O
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ria u m famoso editor, disse a Rousseau: "Senti passar pelo m e u coração a pureza das emoções de Júlia". A identificação psicológica que c o n d u z à empatia cruzava claramente as fronteiras de gênero. Os leitores m a s c u l i n o s de Rousseau n ã o só n ã o se identificavam c o m Saint-Preux, o a m a n t e a que Júlia é forçada a renunciar, como sentiam ainda m e n o s empatia p o r Wolmar, o seu m a n s o esposo, ou pelo b a r ã o D'Étanges, o seu pai tirânico. C o m o as leitoras, os h o m e n s se identificavam c o m a própria Júlia. A luta de Júlia para d o m i n a r as suas paixões e levar u m a vida virtuosa tornava-se a sua luta.
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própria u m a romancista de sucesso, p u b l i c o u a n o n i m a m e n t e u m panfleto de 56 páginas d e f e n d e n d o o r o m a n c e . E m b o r a seu i r m ã o I lenry tivesse publicado u m dos primeiros artigos satíricos sobre Pamela {An apologyfor the life ofmrs. Shamela Andrews, and misrepresentations in which, lhe many notoriousfalsehoods ofa Book calde um

led "Pamela", are exposed and refuted [ Uma apologia à vida da sra. Shamela Andrews, na qual as muitas falsidades e deturpações livro chamado "Pamela"são desmascaradas e refutadas], 1741), ela

l i nha se t o r n a d o u m a b o a amiga de Richardson, q u e p u b l i c o u u m tle seus r o m a n c e s . U m a das suas personagens fictícias, o sr. Clark, insiste que Richardson conseguiu atraí-lo de tal m o d o p a r a d e n t r o da teia de ilusões "que de m i n h a parte estou i n t i m a m e n t e familiarizado c o m t o d o s os Harlow [sic], c o m o se os tivesse c o n h e c i d o desde os primeiros a n o s da m i n h a infância". O u t r a p e r s o n a g e m , a srta. Gibson, insiste nas v i r t u d e s da técnica literária d e Richardson: " M u i t o verdadeiro, senhor, é o seu c o m e n t á r i o d e q u e u m a história contada dessa m a n e i r a só p o d e se desenrolar l e n t a m e n t e , de q u e os personagens só p o d e m ser vistos p o r aqueles q u e p r e s tam u m a atenção precisa ao conjunto; e n t r e t a n t o , o a u t o r g a n h a u m a v a n t a g e m escrevendo n o t e m p o presente, c o m o ele p r ó p r i o o chama, e na primeira pessoa: o fato de q u e as suas pinceladas p e n e t i a m i m e d i a t a m e n t e n o coração, e sentimos todas as desgraças q u e ele pinta; n ã o só c h o r a m o s por, mas c o m Clarissa, e a a c o m p a n h a mos, passo a passo, p o r todas as suas desgraças". " O célebre fisiologista e estudioso literário suíço A l b r e c h t v o n I laller publicou u m a apreciação a n ô n i m a de Clarissa e m inans Magazine Gentlee m 1749. Von Haller l u t o u c o m t o d a s as forças
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Pela sua p r ó p r i a forma, p o r t a n t o , o r o m a n c e epistolar era capaz d e d e m o n s t r a r q u e a individualidade d e p e n d i a de qualidades d e " i n t e r i o r i d a d e " (ter u m â m a g o ) , p o i s os p e r s o n a g e n s expressam seus s e n t i m e n t o s í n t i m o s nas suas cartas. Além disso, o r o m a n c e epistolar m o s t r a v a q u e t o d o s os i n d i v í d u o s t i n h a m essa i n t e r i o r i d a d e ( m u i t o s dos p e r s o n a g e n s escrevem) e, conseq u e n t e m e n t e , q u e t o d o s os indivíduos e r a m de certo m o d o iguais, p o r q u e t o d o s e r a m semelhantes p o r possuir essa interioridade. A troca de cartas t o r n a a criada Pamela, p o r exemplo, antes u m m o d e l o de individualidade e a u t o n o m i a o r g u l h o s a q u e u m estereótipo dos o p r i m i d o s . C o m o Pamela, Clarissa e Júlia p a s s a m a representar a p r ó p r i a individualidade. O s leitores se t o r n a m mais conscientes da capacidade q u e existe e m si p r ó p r i o e e m t o d o s os o u t r o s indivíduos.
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Desnecessário dizer que n e m todos e x p e r i m e n t a r a m os m e s m o s sentimentos ao ler esses romances. O sagaz romancista inglês H o r a c e Walpole zombava das "lamentações tediosas" de Richard son,"que são q u a d r o s da vida elevada c o m o seriam concebidos p o r u m livreiro, e romances c o m o seriam espiritualizados p o r u m p r o fessor metodista". E n t r e t a n t o , m u i t o s s e n t i r a m r a p i d a m e n t e q u e Richardson e Rousseau t i n h a m m e x i d o n u m nervo cultural vital. Apenas u m mês depois da publicação dos v o l u m e s finais de Clarissa, Sarah Fielding, a i r m ã d o g r a n d e rival d e R i c h a r d s o n e ela
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para c o m p r e e n d e r a originalidade de Richardson. E m b o r a a p r e 1 iasse as m u i t a s v i r t u d e s d e r o m a n c e s franceses a n t e r i o r e s , V o n I laller insistia q u e eles n ã o ofereciam "geralmente n a d a mais d o q u e r e p r e s e n t a ç õ e s das ilustres ações d e pessoas ilustres", e n q u a n t o n o r o m a n c e de Richardson o leitor vê u m p e r s o n a g e m " n a
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m e s m a posição de vida e m q u e nós p r ó p r i o s nos encontramos". O a u t o r suíço e x a m i n o u a t e n t a m e n t e o formato epistolar. E m b o r a os leitores talvez tivessem dificuldade e m acreditar q u e todos os personagens gostavam de passar o seu t e m p o registrando os seus sent i m e n t o s e p e n s a m e n t o s íntimos, o r o m a n c e epistolar podia apresentar retratos m i n u c i o s a m e n t e acurados de personagens individuais e c o m isso evocar o q u e Haller chamava de compaixão: " O patético n u n c a foi exposto c o m igual força, e é manifesto e m milhares de exemplos q u e os t e m p e r a m e n t o s mais e m p e d e r n i d o s e insensíveis t ê m sido suavizados até a compaixão, derretendo-se e m lágrimas pela m o r t e , pelos sofrimentos e pelas tristezas de Clarissa". Ele concluía q u e " N ã o c o n h e c e m o s n e n h u m a representação, e m n e n h u m a língua, que chegue p e r t o de p o d e r competir c o m esse romance".
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r o m a n c e s t ê m sido l i d o s c o m a t e n ç ã o e s a b o r e a d o s " . Seria melhor c o n c e n t r a r - s e e m t o r n á - l o s b o n s , sugeria, d o q u e t e n t a r suprimi-los por completo.
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Os ataques n ã o t e r m i n a r a m q u a n d o a p r o d u ç ã o de r o m a n c e s disparou e m m e a d o s d o século. E m 1755, o u t r o clérigo católico, o abade A r m a n d - P i e r r e Jacquin, escreveu u m a o b r a de q u a t r o c e n t a s páginas p a r a m o s t r a r q u e a leitura de r o m a n c e s solapava a m o r a I idade, a religião e t o d o s os p r i n c í p i o s da o r d e m social. " A b r a m essas obras", ele insistia, "e vocês verão e m quase todas os direitos ila justiça divina e h u m a n a violados, a a u t o r i d a d e dos pais sobre os filhos desdenhada, os laços sagrados d o c a s a m e n t o e da a m i z a d e r o m p i d o s . " O p e r i g o residia p r e c i s a m e n t e n o s seus p o d e r e s d e atração: ao m a r t e l a r c o n s t a n t e m e n t e as seduções d o a m o r , eles e s t i m u l a v a m os leitores a agir s e g u n d o seus piores i m p u l s o s , a recusar o conselho de seus pais e da igreja, a ignorar as censuras morais da c o m u n i d a d e . O único lado b o m e m que Jacquin p o d i a pensar era a falta de u m a força d u r a d o u r a nos romances. O leitor podia devorar u m r o m a n c e n a p r i m e i r a leitura, m a s jamais o reler. "Eu estava e r r a d o e m profetizar q u e o r o m a n c e de Pamela logo seria esquecido? [...] Acontecerá o m e s m o e m três anos c o m Tom lonese Clarissa? *
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DEGRADAÇÃO OU

MELHORA?

Os c o n t e m p o r â n e o s s a b i a m p o r suas p r ó p r i a s experiências q u e a leitura desses r o m a n c e s t i n h a efeitos sobre os corpos, e n ã o apenas sobre as m e n t e s , m a s d i s c o r d a v a m e n t r e si sobre as c o n sequências. O clero católico e p r o t e s t a n t e d e n u n c i a v a o potencial de o b s c e n i d a d e , sedução e d e g r a d a ç ã o m o r a l . Já e m 1734, N i c o las Lenglet-Dufresnoy, ele p r ó p r i o u m clérigo e d u c a d o n a Sorb o n n e , a c h o u necessário d e f e n d e r os r o m a n c e s c o n t r a os seus colegas, a i n d a q u e sob u m p s e u d ô n i m o . Refutou p r o v o c a d o r a m e n t e t o d a s as objeções q u e levavam as a u t o r i d a d e s a p r o i b i r r o m a n c e s " c o m o estímulos q u e servem p a r a inspirar e m n ó s sent i m e n t o s q u e são d e m a s i a d o vivos e d e m a s i a d o a c e n t u a d o s " . I n s i s t i n d o q u e os r o m a n c e s e r a m a p r o p r i a d o s e m q u a l q u e r p e r í o d o , ele concedia q u e "em t o d o s os t e m p o s a c r e d u l i d a d e , o a m o r e as m u l h e r e s t ê m r e i n a d o : assim, e m t o d o s os t e m p o s os
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Queixas semelhantes fluíam das penas dos protestantes ingleses. O reverendo Vicesimus Knox r e s u m i u décadas de ansiedades subsistentes e m 1779, q u a n d o p r o c l a m o u q u e os romances e r a m d e g e n e r a d o s , prazeres c u l p a d o s q u e desviavam as jovens inteligências de u m a l e i t u r a m a i s séria e edificante. A excitação n o s romances britânicos só servia para disseminar os hábitos libertinos franceses e explicava a c o r r u p ç ã o da presente era. Os r o m a n ces de R i c h a r d s o n , a d m i t i a Knox, t i n h a m sido escritos c o m "as i ntenções mais puras". Mas inevitavelmente o autor tinha n a r r a d o cenas e excitado sentimentos que e r a m incompatíveis c o m a virt u d e . O s clérigos n ã o e s t a v a m s o z i n h o s n o seu desprezo p e l o
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r o m a n c e . U m a estrofe e m Lady's Magazine de 1771 resumia u m a visão a m p l a m e n t e partilhada: With Pamela, by name, No better acquainted; For as novels I hate, My mind is not tainted. [Pamela, só de nome, Mais não conheço; Como romances odeio, Minha mente é sem defeito.] Muitos moralistas t e m i a m q u e os r o m a n c e s semeassem descont e n t a m e n t o , especialmente n a m e n t e de criados e moças. " O m é d i c o suíço S a m u e l - A u g u s t e Tissot ligava a leitura d e r o m a n c e s à m a s t u r b a ç ã o , q u e ele pensava provocar u m a degeneração física, mental e m o r a l . Tissot acreditava q u e os corpos tend i a m n a t u r a l m e n t e a se deteriorar, e que a m a s t u r b a ç ã o apressava o processo t a n t o nos h o m e n s c o m o nas mulheres. "Só o que posso dizer é q u e o ócio, a inatividade, ficar t e m p o demais n a cama, u m a cama q u e seja demasiado macia, u m a dieta rica, picante, salgada e cheia de vinhos, amigos suspeitos e livros licenciosos são as causas mais p r o p e n s a s a gerar esses excessos." C o m "licenciosos" Tissot n ã o q u e r i a dizer a b e r t a m e n t e p o r n o g r á f i c o s : n o século
XVIII,
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Assim, os clérigos e os médicos c o n c o r d a v a m e m ver a leitura de r o m a n c e s e m t e r m o s de p e r d a — d e t e m p o , de fluidos vitais, d e religião e de m o r a l i d a d e . S u p u n h a m q u e a leitora imitaria a ação do r o m a n c e e se a r r e p e n d e r i a mais tarde. U m a leitora de Clarissa, por e x e m p l o , p o d e r i a d e s c o n s i d e r a r os desejos d a sua família e concordar, c o m o Clarissa, e m fugir c o m u m devasso tipo Lovelace, que a conduziria, p o r b e m o u p o r mal, à sua ruína. E m 1792, u m crítico inglês a n ô n i m o ainda insistia q u e "o a u m e n t o de r o m a n c e s ajuda a explicar o a u m e n t o da prostituição e os i n ú m e r o s adultérios e fugas de q u e o u v i m o s falar nas diferentes regiões d o reino". Segundo essa visão, os r o m a n c e s estimulavam exageradamente o corpo, encorajavam u m a absorção e m si m e s m o m o r a l m e n t e suspeita e p r o v o c a v a m ações d e s t r u t i v a s e m relação à a u t o r i d a d e familiar, m o r a l e religiosa.
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R i c h a r d s o n e Rousseau reivindicavam antes o papel de e d i lor q u e o de autor, p a r a q u e p u d e s s e m se esquivar d a m á r e p u t a ção associada aos r o m a n c e s . Q u a n d o p u b l i c o u Pamela, Richardson n u n c a se referia à o b r a c o m o u m r o m a n c e . O título c o m p l e t o da p r i m e i r a e d i ç ã o é u m e s t u d o s o b r e p r o t e s t o s excessivos: Pamela: Ou a virtude recompensada. Numa série de cartas pela famipriliares de uma bela bonzela a seus pais: agora publicadas meira vez para cultivar os princípios tes de jovens fundamento agradavelmente sos e patéticos, inflamaras de ambos entretém, os sexos. Uma narrativa por uma variedade despida

da virtude e religião nas menque tem o seu curioimagens e ao mesmo tempo em que de incidentes de todas aquelas

na verdade e na natureza; é inteiramente

"licencioso" significava algo q u e tendia ao erótico, m a s era distinto d o m u i t o mais objetável "obsceno". O s r o m a n c e s sobre o a m o r — e a maioria dos r o m a n c e s d o século xvni contava histórias de a m o r — escorregavam m u i t o facilmente p a r a a categoria dos licenciosos. N a I n g l a t e r r a , as m o ç a s n o s i n t e r n a t o s p a r e c i a m especialm e n t e e m perigo, p o r causa de sua capacidade de conseguir esses livros "imorais e r e p u g n a n t e s " para lê-los n a cama.
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que, em muitas obras calculadas apenas para a diversão, tendem a mentes que deveriam instruir. O prefácio "pelo e d i t o r " Richardson justifica a p u b l i c a ç ã o das "seguintes C a r t a s " e m termos m o r a i s : elas i n s t r u i r ã o e aperfeiçoarão as m e n t e s dos jovens, inculcarão a religião e a m o r a l i d a d e , p i n t a r ã o o vício "em suas cores a p r o p r i a d a s " etc.
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E m b o r a t a m b é m se referisse a si m e s m o c o m o editor, R o u s seau c l a r a m e n t e considerava sua o b r a u m r o m a n c e . Na p r i m e i r a frase d o prefácio d e Júlia, R o u s s e a u ligava os r o m a n c e s à s u a famosa crítica d o teatro: "As g r a n d e s cidades d e v e m ter teatros; e os povos c o r r u p t o s , Romances". C o m o se isso n ã o fosse aviso suficiente, Rousseau t a m b é m apresentava u m prefácio q u e consistia n u m a "Conversa sobre R o m a n c e s entre o Editor e u m H o m e m de Letras". Nele, o p e r s o n a g e m "R" ( R o u s s e a u ) a p r e s e n t a t o d a s as acusações habituais c o n t r a o r o m a n c e p o r ele b r i n c a r c o m a i m a g i n a ç ã o p a r a criar desejos q u e os leitores n ã o p o d e m satisfazer virtuosamente:

(I esenvolver u m a visão m u i t o mais positiva d o f u n c i o n a m e n t o d o romance. Já ao defender Richardson, Sarah Fielding e Von Haller i i n h a m c h a m a d o atenção para a empatia o u compaixão estimulada I >cla leitura de Clarissa. Nessa nova visão, os r o m a n c e s o p e r a v a m sobre os leitores para torná-los mais compreensivos e m relação aos outros, e m vez de apenas absorvidos e m si m e s m o s , e assim m a i s morais, e n ã o m e n o s . U m dos defensores m a i s a r t i c u l a d o s d o romance foi Diderot, autor d o artigo sobre o direito natural p a r a a üncyclopéâie e ele p r ó p r i o u m r o m a n c i s t a . Q u a n d o R i c h a r d s o n morreu, em 1761, Diderot escreveu u m panegírico c o m p a r a n d o - o aos maiores autores entre os antigos: Moisés, H o m e r o , Eurípides e Sófocles. Diderot se alongou mais, entretanto, sobre a imersão d o leitor n o m u n d o d o r o m a n c e : "Apesar d e t o d a s as p r e c a u ç õ e s , assume-se u m papel nas suas obras, somos lançados nas conversas, aprovamos, c e n s u r a m o s , a d m i r a m o s , ficamos irritados, sentimos i ndignação. Q u a n t a s vezes não m e surpreendi gritando, c o m o acontece c o m as crianças que foram levadas ao teatro pela primeira vez: ' N ão acredite, ele está e n g a n a n d o você. [...] Se você for lá, estará perdido'." A narrativa de Richardson cria a impressão de que você está 1) resente, reconhece Diderot, e ainda mais, q u e esse é o seu m u n d o , e i ião u m país m u i t o distante, n ã o u m local exótico, não u m conto de ladas. "Os seus personagens são tirados da sociedade c o m u m [...] as paixões que ele p i n t a são as que sinto e m m i m mesmo."
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Escutamos a queixa de que os Romances perturbam as mentes das pessoas: posso muito bem acreditar. Ao dispor interminavelmente diante dos olhos dos leitores os pretensos encantos de um estado que não é o deles, eles os seduzem, levam-nos a ver o seu próprio estado com desprezo e trocam-no na imaginação por um estado que os leitores são induzidos a amar. Tentando ser o que não somos, passamos a acreditar que somos diferentes do que somos, e esse é o caminho para a loucura.

E, m e s m o assim, Rousseau passa então a apresentar u m r o m a n c e a seus leitores. Ele até atirou a luva e m desafio. Se alguém quer m e criticar p o r tê-lo escrito, diz Rousseau, que ele o diga p a r a todas as pessoas d o m u n d o , m e n o s p a r a m i m . D e m i n h a p a r t e , j a m a i s p o d e r i a ter qualquer estima p o r u m h o m e m desses. O livro p o d e ria escandalizar quase t o d o m u n d o , Rousseau alegremente a d m i te, m a s ao m e n o s n ã o p r o p o r c i o n a r á a p e n a s u m p r a z e r t é p i d o . Rousseau esperava p l e n a m e n t e q u e os seus leitores tivessem reações violentas.
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Diderot n ã o usa os t e r m o s "identificação" o u "empatia", m a s apresenta u m a descrição convincente dos dois. N ó s nos reconhecemos nos personagens, ele admite, saltamos imaginativamente p a r a 0 meio da ação, sentimos os m e s m o s sentimentos que os p e r s o n a gens estão e x p e r i m e n t a n d o . E m suma, a p r e n d e m o s a sentir e m p a 1 ia p o r alguém q u e n ã o é nós m e s m o s e n ã o p o d e jamais ter contato direto c o n o s c o (ao c o n t r á r i o , d i g a m o s , d o s m e m b r o s da n o s s a la mília), m a s q u e ainda assim, de u m m o d o imaginativo, é t a m b é m nós m e s m o s , s e n d o esse u m elemento crucial n a identificação. Esse

Apesar das p r e o c u p a ç õ e s de R i c h a r d s o n e R o u s s e a u a respeito de suas r e p u t a ç õ e s , alguns críticos já t i n h a m c o m e ç a d o a 54

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p r o c e s s o explica p o r q u e P a n c k o u c k e escreveu p a r a Rousseau: "Senti passar pelo m e u coração a pureza das emoções de Júlia". A e m p a t i a d e p e n d e da identificação. D i d e r o t percebe q u e a técnica narrativa de Richardson o atrai inelutavelmente para essa experiência. É u m a espécie de i n c u b a d o r a d o a p r e n d i z a d o e m o c i o n a l : " N o e s p a ç o d e a l g u m a s h o r a s , passei p o r u m g r a n d e n ú m e r o de situações q u e a m a i s longa das vidas n ã o p o d e n o s oferecer ao longo de sua total d u r a ç ã o . [...] Senti q u e t i n h a a d q u i r i d o experiência". Diderot se identifica t a n t o c o m os personagens q u e se sente r o u b a d o n o final d o r o m a n c e : "Tive a m e s m a sensação q u e e x p e r i m e n t a m os h o m e n s q u e , i n t i m a m e n t e e n t r e l a ç a d o s , viveram j u n t o s p o r u m longo t e m p o e agora estão a p o n t o de se separar. N o final, tive de repente a impressão de q u e h a v i a m m e deixado sozinho".
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gina t r a n s p o r t a d o para a cena descrita. Kames descrevia essa "presença ideal" c o m o u m estado de transe. O leitor é "lançado n u m a espécie de devaneio" e, " p e r d e n d o a consciência d o eu e da leitura, sua presente ocupação, concebe t o d o incidente c o m o se ocorresse na sua presença, precisamente c o m o se ele fosse u m a t e s t e m u n h a (>cular". O q u e é mais i m p o r t a n t e para Kames é q u e essa transfori nação p r o m o v e a moralidade. A "presença ideal" a b r e o leitor p a r a sentimentos q u e reforçam os laços da sociedade. O s indivíduos são a trancados de seus interesses privados e motivados a d e s e m p e n h a r "a tos de generosidade e benevolência". A "presença ideal" era o u t r o termo para "o feitiço d a paixão e d o significado" de A a r o n Hill.
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T h o m a s Jefferson a p a r e n t e m e n t e p a r t i l h a v a essa o p i n i ã o . (,)uando Robert Skipwith, q u e se casou c o m a m e i a - i r m ã da esposa de Jefferson, escreveu a ele e m 1771 p e d i n d o u m a lista d e livros i e c o m e n d a d o s , Jefferson sugeriu m u i t o s d o s clássicos, antigos e m o d e r n o s , de política, religião, direito, ciência, filosofia e história. lilements of Criticism de Kames estava n a lista, m a s Jefferson c o m e Çou o seu catálogo c o m poesia, peças teatrais e r o m a n c e s , incluindo os d e L a u r e n c e S t e r n e , H e n r y Fielding, J e a n - F r a n ç o i s M a r montel, Oliver G o l d s m i t h , Richardson e Rousseau. N a carta q u e a c o m p a n h a v a a lista d e leituras, Jefferson se t o r n a v a e l o q u e n t e sobre "as diversões da ficção". C o m o Kames, ele insistia q u e a fic• 0 poderia gravar na m e m ó r i a t a n t o os princípios c o m o a prática d.i virtude. C i t a n d o especificamente Shakespeare, M a r m o n t e l e • e m e , Jefferson explicava que, ao ler essas obras, e x p e r i m e n t a m o s • m nós p r ó p r i o s o forte desejo de praticar atos c a r i d o s o s e gratos" > . inversamente, ficamos r e p u g n a d o s c o m as m á s a ç õ e s o u a c o n duta i m o r a l . A ficção, ele insistia, p r o d u z o d e s e j o d a i m i t a ç ã o moral c o m u m a eficácia ainda m a i o r q u e a da leitura d e história.
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Diderot s i m u l t a n e a m e n t e perdeu a si m e s m o n a ação e recup e r o u a si m e s m o n a leitura. Ele t e m u m a percepção mais nítida da separação de seu eu — agora se sente solitário — , m a s t a m b é m percebe c o m mais clareza q u e os o u t r o s t a m b é m p o s s u e m u m a individualidade. E m o u t r a s palavras, t e m o q u e ele p r ó p r i o chamava aquele " s e n t i m e n t o i n t e r i o r " q u e é necessário aos direitos h u m a n o s . D i d e r o t c o m p r e e n d e , a l é m disso, q u e o efeito d o r o m a n c e é inconsciente: " N ó s n o s sentimos atraídos para o b e m com u m a impetuosidade que não reconhecemos. Quando confrontados c o m a injustiça, e x p e r i m e n t a m o s u m a aversão q u e n ã o sabemos c o m o explicar para n ó s mesmos". O r o m a n c e exerce o seu efeito pelo processo de envolvimento n a narrativa, e n ã o p o r discursos moralizadores explícitos.
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A leitura de ficção recebeu o seu t r a t a m e n t o filosófico mais sério n o livro Elements of Criticism (1762), de H e n r y H o m e , lorde Kames. O jurista e filósofo escocês n ã o discutia os r o m a n c e s de per si na obra, m a s a r g u m e n t a v a q u e a ficção e m geral cria u m a espécie de "presença ideal" o u " s o n h o acordado" e m q u e o leitor se i m a 56

Em última análise, o q u e estava e m jogo nesse c o n f l i t o de o p i i sobre o r o m a n c e era n a d a m e n o s d o q u e a v a l o r i z a ç ã o d a v i . l , i secular c o m u m c o m o o f u n d a m e n t o da m o r a l i d a d e . A o s
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o l h o s d o s críticos d a l e i t u r a desse g ê n e r o , a s i m p a t i a p o r u m a h e r o í n a de r o m a n c e estimulava o que havia de pior n o indivíduo (desejos ilícitos e autorrespeito excessivo) e d e m o n s t r a v a a degen e r a ç ã o irrevogável d o m u n d o secular. Para os a d e p t o s da n o v a visão de m o r a l i z a ç ã o e m p á t i c a , e m contraste, essa identificação m o s t r a v a que o despertar de u m a paixão podia ajudar a transform a r a n a t u r e z a interior d o i n d i v í d u o e p r o d u z i r u m a sociedade m a i s m o r a l . A c r e d i t a v a m q u e a n a t u r e z a i n t e r i o r dos h u m a n o s fornecia u m a base p a r a a a u t o r i d a d e social e política. " Assim, o feitiço m á g i c o l a n ç a d o pelo r o m a n c e m o s t r o u ter efeitos de longo alcance. E m b o r a os adeptos d o r o m a n c e n ã o o dissessem t ã o e x p l i c i t a m e n t e , eles c o m p r e e n d i a m q u e escritores c o m o R i c h a r d s o n e Rousseau estavam efetivamente a t r a i n d o os seus leitores para a vida cotidiana c o m o u m a espécie de experiência religiosa substituta. Os leitores a p r e n d i a m a apreciar a intensid a d e e m o c i o n a l do c o m u m e a capacidade de pessoas c o m o eles de criar p o r sua p r ó p r i a conta u m m u n d o m o r a l . O s direitos h u m a n o s c r e s c e r a m n o c a n t e i r o s e m e a d o p o r esses s e n t i m e n t o s . O s direitos h u m a n o s só p u d e r a m florescer q u a n d o as pessoas a p r e n d e r a m a pensar nos o u t r o s c o m o seus iguais, c o m o seus semelhantes e m algum m o d o fundamental. A p r e n d e r a m essa igualdade, ao m e n o s e m parte, e x p e r i m e n t a n d o a identificação c o m p e r s o n a gens c o m u n s q u e pareciam d r a m a t i c a m e n t e presentes e familiares, m e s m o que e m última análise fictícios. '
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sorte de Tristram Shandy (1759-67), d e Sterne, e d o alter ego d e Sterne, Yorick, e m Uma viagem sentimental (1768). As escritoras t i n h a m t a m b é m os seus entusiastas, t a n t o entre os leitores c o m o entre as leitoras. O abolicionista e r e f o r m a d o r penal francês Jacques-Pierre Brissot citava Júlia c o n s t a n t e m e n t e , m a s o seu r o m a n ce inglês favorito era Cecília (1782), d e F a n n y Burney. C o m o o exemplo de Burney confirma, e n t r e t a n t o , as personagens femininas p o s s u í a m u m a posição elevada: t o d o s os seus três r o m a n c e s t i n h a m os n o m e s das heroínas apresentadas.
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As heroínas e r a m convincentes p o r q u e a sua busca de a u t o n o m i a n u n c a p o d i a ser p l e n a m e n t e b e m - s u c e d i d a . As m u l h e r e s t i n h a m p o u c o s direitos legais sem os pais o u m a r i d o s . Os leitores a c h a v a m a b u s c a de i n d e p e n d ê n c i a d a h e r o í n a e s p e c i a l m e n t e c o m o v e n t e p o r q u e logo c o m p r e e n d i a m as restrições q u e essa m u l h e r i n e v i t a v e l m e n t e enfrentava. N u m final feliz, P a m e l a se casa c o m o sr. B. e aceita os limites implícitos de sua liberdade. E m contraste, Clarissa m o r r e , e m vez de se casar c o m Lovelace depois que ele a estupra. E m b o r a Júlia pareça aceitar a imposição d o pai, r e n u n c i a n d o ao h o m e m q u e ama, ela t a m b é m m o r r e n a cena final. Alguns críticos m o d e r n o s t ê m visto m a s o q u i s m o ou m a r t í r i o nessas histórias, m a s os c o n t e m p o r â n e o s p o d i a m ver outras características. Tanto os leitores c o m o as leitoras se identificavam c o m essas p e r s o n a g e n s , p o r q u e as m u l h e r e s d e m o n s t r a v a m m u i t a força d e v o n t a d e , m u i t a p e r s o n a l i d a d e . Os leitores n ã o q u e r i a m apenas salvar as heroínas: q u e r i a m ser c o m o elas, até m e s m o c o m o Clarissa e Júlia, apesar de suas m o r t e s trágicas. Quase toda a ação

O E S T R A N H O DESTINO DAS

MULHERES

nos três r o m a n c e s gira e m t o r n o d e expressões da vontade feminina, e m geral u m a v o n t a d e q u e t e m de se atritar c o m restrições dos pais e da sociedade. Pamela deve resistir ao sr. B. para m a n t e r o seu senso de virtude e o seu senso de individualidade, e a sua resistência acaba p o r c o n q u i s t á - l o . Clarissa se m a n t é m firme c o n t r a sua família e depois contra Lovelace p o r razões b e m parecidas, e n o

N o s três r o m a n c e s a q u i escolhidos, o foco d a identificação psicológica é u m a j o v e m p e r s o n a g e m f e m i n i n a c r i a d a p o r u m autor masculino. É claro, ocorria t a m b é m a identificação c o m personagens masculinos. Jefferson, p o r exemplo, seguia a v i d a m e n t e a
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final Lovelace quer desesperadamente casar-se c o m Clarissa, u m a oferta q u e ela recusa. Júlia deve desistir de Saint-Preux e a p r e n d e r a a m a r a sua vida c o m Wolmar: a luta é toda sua. E m cada r o m a n c e , t u d o remete ao desejo de i n d e p e n d ê n c i a da heroína. As ações dos p e r s o n a g e n s masculinos só servem para realçar essa vontade femin i n a . O s leitores que s e n t i a m e m p a t i a pelas heroínas a p r e n d i a m q u e t o d a s as pessoas — até as mulheres — aspiravam a u m a m a i o r a u t o n o m i a , e e x p e r i m e n t a v a m imaginativamente o esforço psicológico q u e a luta acarretava. Os r o m a n c e s d o século xvin refletiam u m a p r e o c u p a ç ã o cultural mais profunda c o m a a u t o n o m i a . Os filósofos d o I l u m i n i s m o acreditavam firmemente que t i n h a m sido pioneiros nessa área n o século XVIII. Q u a n d o falavam de liberdade, q u e r i a m dizer a u t o n o m i a individual, q u e r fosse a l i b e r d a d e d e expressar o p i n i õ e s o u praticar a religião escolhida, q u e r a i n d e p e n d ê n c i a ensinada aos m e n i n o s , se fossem seguidos os preceitos de Rousseau n o seu guia educativo, Emilio (1762). A narrativa iluminista da conquista da a u t o n o m i a atingiu o seu ápice n o ensaio de 1784 d e I m m a n u e l Kant, " O que é o Iluminismo?". Ele o definiu celebremente c o m o "a h u m a n i d a d e saindo da i m a t u r i d a d e e m q u e ela p r ó p r i a incorreu". A i m a t u r i d a d e , ele continuava, "é a incapacidade de e m p r e g a r a p r ó p r i a c o m p r e e n s ã o sem a orientação de outro". O I l u m i n i s m o , para Kant, significava a u t o n o m i a intelectual, a capacidade de p e n sar p o r si m e s m o . " A ênfase d o I l u m i n i s m o sobre a a u t o n o m i a individual nasceu da revolução n o p e n s a m e n t o político d o século XVII, iniciada p o r H u g o G r o t i u s e J o h n Locke. Eles t i n h a m a r g u m e n t a d o q u e o a c o r d o social de u m h o m e m a u t ô n o m o c o m o u t r o s i n d i v í d u o s t a m b é m a u t ô n o m o s era o único f u n d a m e n t o possível da a u t o r i d a d e política legítima. Se a a u t o r i d a d e justificada p e l o d i r e i t o divino, pela escritura e pela história devia ser substituída p o r u m contrato entre h o m e n s a u t ô n o m o s , e n t ã o os m e n i n o s t i n h a m de
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ser ensinados a pensar p o r si m e s m o s . Assim, a t e o r i a educacional, modelada d e forma m u i t o influente p o r Locke e Rousseau, deslocou-se de u m a ênfase n a obediência reforçada p e l o castigo p a r a o ( ultivo cuidadoso d a razão c o m o o principal m o v i m e n t o da i n d e xe udência. Locke explicava a i m p o r t â n c i a das n o v a s práticas e m Pensamentos sobre a educação (1693): " D e v e m o s c u i d a r p a r a q u e nossos filhos, q u a n d o crescidos, sejam c o m o n ó s p r ó p r i o s . [...] I'referimos ser considerados criaturas racionais e ter nossa liberdade; n ã o g o s t a m o s d e n o s sentir c o n s t r a n g i d o s sob c o n s t a n t e s repreensões e intimidações". C o m o Locke r e c o n h e c i a , a a u t o n o mia política e intelectual d e p e n d i a de e d u c a r as crianças ( n o seu caso, t a n t o os m e n i n o s c o m o as m e n i n a s ) s e g u n d o novas regras: a a u t o n o m i a requeria u m a nova relação c o m o m u n d o , e n ã o a p e n a s novas ideias.
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Ter p e n s a m e n t o s e decisões p r ó p r i o s r e q u e r i a , assim, t a n t o m u d a n ç a s psicológicas e políticas c o m o filosóficas. E m Emílio, Rousseau pedia q u e as m ã e s ajudassem a c o n s t r u i r paredes psicológicas e n t r e os seus filhos e t o d a s as pressões sociais e políticas externas. " M o n t e m desde cedo", ele r e c o m e n d a v a , " u m cercado ao redor da alma de seu filho." O pregador e panfletário político inglês Richard Price insistia e m 1776, ao escrever e m a p o i o aos colonos americanos, que u m dos q u a t r o aspectos gerais da liberdade era a liberdade física, "esse princípio da Espontaneidade, ou Autodeterminação, que nos t o r n a Agentes". Para ele, a liberdade era s i n ô n i m o de a u t o d i r e ç ã o o u a u t o g o v e r n o , a m e t á f o r a p o l í t i c a nesse caso sugerindo u m a metáfora psicológica; m a s as d u a s e r a m i n t i m a mente relacionadas.
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O s r e f o r m a d o r e s i n s p i r a d o s pelo I l u m i n i s m o q u e r i a m ir além de p r o t e g e r o c o r p o o u cercar a a l m a c o m o r e c o m e n d a v a Rousseau. Exigiam u m a ampliação d o â m b i t o d a t o m a d a de decisão i n d i v i d u a l . As leis revolucionárias francesas s o b r e a família d e m o n s t r a m a profundidade d a preocupação sentida e m relação
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às limitações tradicionais impostas à independência. E m m a r ç o d e 1790, a n o v a Assembleia N a c i o n a l aboliu a p r i m o g e n i t u r a , q u e dava direitos especiais de herança ao primeiro filho, e as infames lettres de cachet, q u e p e r m i t i a m às famílias encarcerar as crianças sem j u l g a m e n t o . Em agosto d o m e s m o ano, os d e p u t a d o s estabeleceram conselhos de família para ouvir as disputas entre pais e filhos até a idade de vinte anos, e m vez de p e r m i t i r aos pais o controle exclusivo sobre os seus filhos. E m abril de 1791, a Assembleia decretou que todas as crianças, m e n i n o s e m e n i n a s , deviam h e r d a r igualmente. Depois, e m agosto e setembro de 1792, os d e p u t a d o s d i m i n u í r a m a idade d a m a i o r i d a d e d e 25 p a r a 21 anos, declararam q u e os adultos já n ã o p o d i a m estar sujeitos à a u t o r i d a d e p a t e r n a e instituíram o divórcio pela p r i m e i r a vez n a história francesa, torn a n d o - o acessível t a n t o p a r a os h o m e n s c o m o p a r a as m u l h e r e s pelos m e s m o s motivos legais. E m s u m a , os revolucionários fizer a m t u d o o que foi possível para expandir as fronteiras da a u t o n o m i a pessoal.
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obrigatória p a r a o j o v e m Emílio o u q u e Robinson

Crusoétenha

sido p u b l i c a d o pela p r i m e i r a vez nas c o l ô n i a s a m e r i c a n a s e m 1774, b e m n o m e i o d o n a s c i m e n t o d a crise d a i n d e p e n d ê n c i a . Robinson Crusoé foi u m d o s best-sellers coloniais a m e r i c a n o s d e 1775, só rivalizado p o r Cartas de lorde Chesterfield a seu filho e O legado de um pai a suas filhas, de John Gregory, popularizações das v isões d e Locke sobre a e d u c a ç ã o d e m e n i n o s e m e n i n a s .
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As tendências n a vida das pessoas reais se m o v i a m n a m e s m a direção, ainda q u e de f o r m a mais hesitante. O s jovens esperavam cada vez mais p o d e r fazer as suas p r ó p r i a s escolhas de casamento, e m b o r a as famílias a i n d a exercessem g r a n d e pressão s o b r e eles, i o m o podia ser o b s e r v a d o nos r o m a n c e s c o m enredos q u e g i r a m em t o r n o desse p o n t o ( p o r exemplo, Clarissa). As práticas d e criar as crianças t a m b é m revelam m u d a n ç a s sutis d e atitude. O s ingleses a b a n d o n a r a m o c o s t u m e d e enrolar os bebês e m p a n o s antes dos franceses (a Rousseau p o d e - s e d a r u m considerável c r é d i t o I nrr dissuadir os franceses desse hábito), m a s m a n t i v e r a m p o r m a i s l e m p o o d e b a t e r n o s m e n i n o s n a escola. N a d é c a d a d e 1750, as famílias aristocráticas inglesas t i n h a m d e i x a d o de usar correias para guiar o c a m i n h a r d e seus filhos, d e s m a m a v a m os bebês m a i s cedo e, c o m o as crianças já n ã o e r a m enroladas e m p a n o s , e n s i n a vam m a i s cedo o uso d o b a n h e i r o n a h o r a d e fazer as necessidades, ludo sinal de u m a ênfase crescente na independência.
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N a G r ã - B r e t a n h a e e m suas c o l ô n i a s n o r t e - a m e r i c a n a s , o desejo de m a i o r a u t o n o m i a p o d e ser mais facilmente retraçado e m autobiografias e romances d o q u e na lei, ao m e n o s antes da Revolução Americana. De fato, e m 1753, a Lei d o C a s a m e n t o t o r n o u ilegais n a I n g l a t e r r a os c a s a m e n t o s d a q u e l e s a b a i x o d e 21 a n o s , a m e n o s que o pai ou o guardião consentisse. Apesar dessa reafirmação d a a u t o r i d a d e p a t e r n a , a antiga d o m i n a ç ã o p a t r i a r c a l d o s m a r i d o s sobre as esposas e d o s pais s o b r e os filhos d e c l i n o u n o século x v m . De Robinson Crusoé (1719), de Daniel Defoe, à Autobiografia (escrita e n t r e 1771 e 1788) de B e n j a m i n F r a n k l i n , os escritores ingleses e a m e r i c a n o s c e l e b r a r a m a i n d e p e n d ê n c i a c o m o u m a v i r t u d e cardinal. O r o m a n c e d e Defoe sobre o m a r i nheiro naufragado fornecia u m m a n u a l sobre c o m o u m h o m e m podia aprender a se defender sozinho. N ã o é s u r p r e e n d e n t e , p o r t a n t o , q u e Rousseau t e n h a t o r n a d o o r o m a n c e d e Defoe l e i t u r a
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Entretanto, a história era às vezes mais confusa. O divórcio n a Inglaterra, ao contrário d e o u t r o s países protestantes, era v i r t u a l m e n t e impossível n o século x v m : entre 1700 e 1857, q u a n d o a Lei das Causas M a t r i m o n i a i s estabeleceu u m t r i b u n a l especial p a r a ouvir casos d e divórcio, apenas 325 divórcios foram c o n c e d i d o s pela lei privada d o P a r l a m e n t o n a Inglaterra, n o País de Gales e n a Irlanda. E m b o r a o n ú m e r o de divórcios tivesse de fato crescido, de catorze n a p r i m e i r a m e t a d e d o século x v m p a r a 117 n a s e g u n d a metade, o divórcio estava p a r a todos os efeitos limitado a h o m e n s
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aristocratas, pois os motivos exigidos t o r n a v a m quase impossível a o b t e n ç ã o d o divórcio p a r a as m u l h e r e s . O s n ú m e r o s i n d i c a m apenas 2,34 divórcios concedidos p o r a n o na segunda m e t a d e d o século xviii. Depois q u e os revolucionários franceses instituíram o d i v ó r c i o , e m c o n t r a s t e , 20 m i l divórcios f o r a m c o n c e d i d o s n a França entre 1792 e 1803, o u 1800 p o r ano. As colônias britânicas n a América d o N o r t e seguiam e m geral a prática inglesa de proibir o divórcio m a s permitir alguma forma de separação legal; p o r é m a p ó s a i n d e p e n d ê n c i a , as petições de divórcio c o m e ç a r a m a ser aceitas pelos novos t r i b u n a i s n a m a i o r i a dos estados. Estabelecendo u m a tendência depois repetida na França revolucionária, as mulheres p r o t o c o l a r a m a maioria das petições de divórcio nos p r i meiros anos da i n d e p e n d ê n c i a dos novos Estados U n i d o s .
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c o m o a m o r a l i d a d e podia ser derivada da razão h u m a n a , e n ã o d a Sagrada Escritura, o u c o m o a a u t o n o m i a devia ser preferida à o b e iliência cega. Mas era o u t r a coisa c o m p l e t a m e n t e diferente conciliar esse indivíduo o r i e n t a d o para si m e s m o c o m o b e m c o m u m . ()s filósofos escoceses de m e a d o s d o século p u s e r a m a questão da c o m u n i d a d e secular n o c e n t r o da sua o b r a e a p r e s e n t a r a m u m a resposta filosófica q u e repercutia a prática d a e m p a t i a e n s i n a d a pelo r o m a n c e . O s filósofos, c o m o as p e s s o a s d o século x v m d e m o d o mais geral, c h a m a v a m a sua resposta de "simpatia". Usei o (ermo "empatia" p o r q u e , apesar de ter e n t r a d o n o vernáculo a p e nas n o século xx, ele capta m e l h o r a vontade ativa de se identificar c o m os o u t r o s . Simpatia agora significa frequentemente piedade, (> que p o d e implicar condescendência, u m s e n t i m e n t o i n c o m p a t í vel c o m u m verdadeiro s e n t i m e n t o de igualdade.
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E m n o t a s escritas e m 1771 e 1772 s o b r e u m caso legal d e divórcio, T h o m a s Jefferson ligava claramente o divórcio aos direitos naturais. O divórcio devolveria "às mulheres o seu direito n a t u ral de igualdade". Ele insistia que, p o r sua p r ó p r i a natureza, os cont r a t o s p o r c o n s e n t i m e n t o m ú t u o d e v i a m ser dissolúveis se u m a das partes quebrasse o a c o r d o — o m e s m o a r g u m e n t o q u e os revol u c i o n á r i o s franceses u s a r i a m e m 1792. A l é m disso, a possibilid a d e d o divórcio legal assegurava a "liberdade de afeição", t a m b é m u m direito natural. Na "busca da felicidade", t o r n a d a famosa pela Declaração da Independência, estaria incluído o direito ao divórcio p o r q u e a "finalidade d o casamento é a R e p r o d u ç ã o & a Felicidade". O direito à busca da felicidade requeria, p o r t a n t o , o divórcio. N ã o é p o r acaso q u e Jefferson a p r e s e n t a r i a a r g u m e n t o s s e m e l h a n t e s p a r a u m divórcio e n t r e as colônias a m e r i c a n a s e a Grã-Bretanha q u a t r o anos mais tarde.
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A palavra "simpatia" t i n h a u m significado m u i t o a m p l o n o século xvm. Para Francis H u t c h e s o n , a simpatia era u m a espécie de s e n t i d o , u m a faculdade m o r a l . Mais n o b r e d o q u e a visão o u a a u d i ç ã o , s e n t i d o s p a r t i l h a d o s c o m os a n i m a i s , p o r é m m e n o s nobre d o que a consciência, a simpatia ou s e n t i m e n t o de solidariedade tornava a vida social possível. Pela força da natureza h u m a n a , anterior a qualquer raciocínio, a simpatia atuava c o m o u m a espécie de força gravitacional social para trazer as pessoas para fora de si m e s m a s . A simpatia assegurava q u e a felicidade n ã o p o d i a ser definida apenas pela autossatisfação."Por u m a espécie de contágio ou infecção", c o n c l u í a H u t c h e s o n , " t o d o s os nossos p r a z e r e s , m e s m o aqueles d o tipo mais inferior, são e s t r a n h a m e n t e intensificados pelo fato de serem partilhados c o m os outros."
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A d a m Smith, autor de A riqueza das nações (1776) e aluno de I l u t c h e s o n , d e d i c o u u m a de suas p r i m e i r a s o b r a s à q u e s t ã o d a simpatia. N o capítulo inicial da sua Teoria dos sentimentos morais (1759), ele usa o exemplo da t o r t u r a para chegar à maneira c o m o a simpatia opera. O q u e nos faz sentir compaixão pelo sofrimento
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A m e d i d a que pressionavam pela expansão da a u t o d e t e r m i nação, as pessoas d o século xvm defrontavam-se c o m u m dilema: o que propiciaria a origem da c o m u n i d a d e nessa nova o r d e m q u e intensificava os direitos d o i n d i v í d u o ? U m a coisa era explicar
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de alguém que está sendo torturado? Ainda que o sofredor seja u m irmão, n u n c a p o d e m o s experimentar diretamente o que ele sente. P o d e m o s apenas nos identificar com o seu sofrimento p o r meio da nossa imaginação, que n o s coloca a nós p r ó p r i o s na sua situação s u p o r t a n d o os m e s m o s t o r m e n t o s , " c o m o que e n t r a m o s n o seu corpo e n o s t o r n a m o s e m alguma medida ele próprio". Esse processo de identificação i m a g i n a t i v a — s i m p a t i a — p e r m i t e que o observador sinta o que a vítima da t o r t u r a sente. O observador só é capaz de se t o r n a r u m ser verdadeiramente moral, entretanto, q u a n d o dá o p r ó x i m o passo e c o m p r e e n d e que ele t a m b é m é passível dessa identificação imaginativa. Q u a n d o consegue ver a si p r ó p r i o c o m o o objeto dos sentimentos dos outros, é capaz de desenvolver dentro de si m e s m o u m "espectador imparcial" que serve c o m o sua bússola moral. A autonomia e a simpatia, portanto, a n d a m juntas para Smith. Apenas u m a pessoa a u t ô n o m a p o d e desenvolver u m "espectador imparcial" d e n t r o de si mesma, mas ela só p o d e fazê-lo, explica Smith, caso se identifique c o m os outros primeiro.'
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A simpatia e a sensibilidade a t u a v a m e m favor de m u i t o s g r u pos n ã o e m a n c i p a d o s , m a s n ã o d a s m u l h e r e s . C a p i t a l i z a n d o o sucesso d o r o m a n c e e m invocar novas f o r m a s d e identificação psi( ológica, os p r i m e i r o s a b o l i c i o n i s t a s e n c o r a j a v a m os escravos libertos a escrever suas autobiografias r o m a n c e a d a s , às vezes par(ialmente fictícias, a fim de g a n h a r a d e p t o s p a r a o m o v i m e n t o n a s i ente. Os males da escravidão a d q u i r i r a m v i d a q u a n d o foram descritos e m p r i m e i r a m ã o p o r h o m e n s c o m o O l a u d a h E q u i a n o , cujo livro The Inter estingNar rative ofthe Life of Olaudah Written by Himself'foi Equiano, or (iustavus Vassa, TheAfrican. p u b l i c a d o pela

primeira vez e m Londres, e m 1789. Mas a m a i o r i a dos abolicionistas deixou de relacionar sua causa c o m os direitos das m u l h e r e s . I >cpois d e 1789, m u i t o s r e v o l u c i o n á r i o s franceses a s s u m i r i a m posições públicas e vociferantes e m favor d o s direitos d o s protestantes, j u d e u s , negros livres e até escravos, ao m e s m o t e m p o q u e se o p o r i a m ativamente a conceder direitos às m u l h e r e s . N o s novos listados U n i d o s , e m b o r a a escravidão se apresentasse i m e d i a t a mente c o m o t e m a para u m debate acalorado, os direitos das m u lheres p r o v o c a v a m a i n d a m e n o s c o m e n t á r i o p ú b l i c o d o q u e n a f i a n ç a . As m u l h e r e s n ã o o b t i v e r a m direitos políticos iguais e m n e n h u m lugar antes d o século xx.
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A simpatia o u a sensibilidade — o ú l t i m o t e r m o era m u i t o mais difundido em francês — tiveram u m a ressonância cultural a m p l a n o s dois lados d o A t l â n t i c o na ú l t i m a m e t a d e d o século XVIII. T h o m a s Jefferson lia H u t c h e s o n e S m i t h , e m b o r a tivesse c i t a d o especificamente o r o m a n c i s t a L a u r e n c e S t e r n e c o m o aquele que oferecia "o m e l h o r curso de moralidade". D a d a a u b i q u i d a d e de referências a simpatia e sensibilidade n o m u n d o atlântico, n ã o parece acidental q u e o p r i m e i r o r o m a n c e escrito p o r u m a m e r i c a n o , publicado e m 1789, tivesse c o m o título The Power of Sympathy. A simpatia e a sensibilidade p e r m e a v a m de tal m o d o a literatura, a p i n t u r a e até a medicina que alguns m é d i c o s começar a m a se p r e o c u p a r c o m u m excesso dessas faculdades, q u e eles receavam p o d e r levar à melancolia, à h i p o c o n d r i a o u aos " v a p o res". Os médicos achavam que as d a m a s d e s o c u p a d a s (as leitoras) e r a m especialmente suscetíveis.
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As pessoas d o século xvin, c o m o quase t o d o m u n d o na história h u m a n a antes delas, v i a m as m u l h e r e s c o m o d e p e n d e n t e s , u m estado definido pelo seu status familiar, e assim, p o r definição, n ã o plenamente capazes de a u t o n o m i a política. Elas p o d i a m lutar pela , i i i I o d e t e r m i n a ç ã o c o m o u m a virtude privada, m o r a l , s e m estabelei er ligação c o m os direitos políticos. T i n h a m direitos, m a s n ã o I i o I í ticos. Essa visão se t o r n o u explícita q u a n d o os revolucionários l i . m c e s e s r e d i g i r a m u m a n o v a C o n s t i t u i ç ã o e m 1789. O a b a d e I 1111 nanuel-Joseph Sieyès, u m intérprete ilustre da t e o r i a constituI [onal, explicava a distinção emergente entre os direitos n a t u r a i s e civis, de u m lado, e os direitos políticos, de o u t r o . T o d o s os habi-

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tantes de u m país, inclusive as mulheres, p o s s u í a m os direitos de u m cidadão passivo: o direito à proteção de sua pessoa, p r o p r i e d a d e e liberdade. Mas n e m t o d o s e r a m cidadãos ativos, sustentava ele, c o m direito a participar diretamente das atividades públicas. "As mulheres, ao m e n o s n o presente estado, as crianças, os estrangeiros, aqueles que n ã o c o n t r i b u e m para m a n t e r a o r d e m pública" e r a m definidos c o m o cidadãos passivos. A ressalva de Sieyès, "ao m e n o s n o p r e s e n t e estado", deixava u m a p e q u e n a b r e c h a p a r a m u d a n ç a s futuras n o s direitos das m u l h e r e s . O u t r o s t e n t a r i a m explorar essa brecha, m a s sem sucesso n o c u r t o prazo.
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Aprender a sentir e m p a t i a abriu o c a m i n h o p a r a os direitos h u m a n o s , m a s n ã o assegurava que t o d o s seriam capazes de seguir i m e d i a t a m e n t e esse c a m i n h o . N i n g u é m c o m p r e e n d e u isso m e I hor, n e m se afligiu mais a esse respeito, d o q u e o a u t o r da Declaração da Independência. N u m a carta de 1802 ao clérigo, cientista e r e f o r m a d o r inglês Joseph Priestley, Jefferson exibiu o e x e m p l o americano p a r a o m u n d o inteiro: "É impossível n ã o ter consciência de q u e estamos agindo p o r t o d a a h u m a n i d a d e ; de q u e circunstâncias negadas a o u t r o s , m a s a nós concedidas, i m p u s e r a m - n o s o dever de e x p e r i m e n t a r qual é o grau de liberdade e a u t o g o v e r n o que u m a sociedade p o d e se arriscar a conceder a seus indivíduos", lefferson pressionava pelo mais elevado "grau de liberdade" i m a gj nável, o que para ele significava abrir a participação política p a r a lautos h o m e n s b r a n c o s q u a n t o fosse possível, e talvez eventualmente até para os índios, se eles p u d e s s e m ser transformados e m .!)• ricultores. E m b o r a reconhecesse a h u m a n i d a d e dos negros e até O S direitos dos escravos c o m o seres h u m a n o s , n ã o imaginava u m estado e m que eles o u as m u l h e r e s de q u a l q u e r cor tivessem p a r t e al iva. M a s esse era o m a i s elevado g r a u de liberdade imaginável pa ra a imensa maioria dos a m e r i c a n o s e e u r o p e u s , m e s m o 24 anos mais tarde, n o dia da m o r t e de Jefferson.
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Os p o u c o s que de fato defendiam os direitos das mulheres n o século xviii e r a m ambivalentes a respeito dos romances. Os oposit o r e s t r a d i c i o n a i s d o s r o m a n c e s a c r e d i t a v a m q u e as m u l h e r e s e r a m especialmente suscetíveis ao enlevo da leitura sobre o amor, e até os defensores dos romances, c o m o Jefferson, p r e o c u p a v a m -se c o m os seus efeitos sobre as jovens. E m 1818, u m Jefferson m u i t o mais velho d o que aquele e n t u s i a s m a d o c o m seus romancistas preferidos e m 1771 alertava sobre "a paixão desregrada" p o r r o m a n ces entre as moças. " O resultado é u m a imaginação intumescida" e " u m juízo doentio". N ã o é s u r p r e e n d e n t e , p o r t a n t o , que os defensores ardentes dos direitos das mulheres levassem essas suspeitas a sério. C o m o jefferson, M a r y Wollstonecraft, a m ã e d o feminismo m o d e r n o , contrastou explicitamente a leitura de r o m a n c e s — "o único tipo de leitura calculado para atrair u m a inteligência i n o cente e frívola" — c o m a leitura de história e c o m a c o m p r e e n s ã o racional ativa de m o d o mais geral. N o e n t a n t o , a p r ó p r i a Wollstonecraft escreveu dois r o m a n c e s centrados e m heroínas, r e s e n h o u m u i t o s romances n a i m p r e n s a e a eles se referia c o n s t a n t e m e n t e n a sua c o r r e s p o n d ê n c i a . Apesar de suas objeções às prescrições de Rousseau para a educação feminina e m Emílio, ela leu avidamente Júlia e usava expressões l e m b r a d a s de Clarissa e dos r o m a n c e s de Sterne para transmitir suas p r ó p r i a s e m o ç õ e s nas cartas.
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2. "Ossos dos seus ossos"
Abolindo a tortura

E m 1762, n o m e s m o a n o e m que Rousseau u s o u pela p r i m e i ra vez o t e r m o "direitos d o homem", u m tribunal na cidade de Toulouse, n o sul da França, c o n d e n o u u m protestante francês de 64 anos c h a m a d o Jean Calas p o r assassinar seu filho para i m p e d i r q u e ele se convertesse ao c a t o l i c i s m o . O s juízes c o n d e n a r a m Jean à m o r t e pelo suplício da roda. Antes da execução, Calas p r i m e i r o teve d e s u p o r t a r u m a t o r t u r a j u d i c i a l m e n t e s u p e r v i s i o n a d a conhecida c o m o a "questão preliminar", q u e se destinava a conseguir q u e aqueles já c o n d e n a d o s n o m e a s s e m seus cúmplices. C o m os p u n h o s atados b e m apertados a u m a b a r r a atrás dele, Calas foi esticado p o r u m sistema de manivelas e roldanas que puxava firm e m e n t e seus braços p a r a cima, e n q u a n t o u m peso de ferro m a n t i n h a os pés n o lugar (figura 3). Q u a n d o Calas se recusou a fornecer n o m e s depois de duas aplicações, foi atado a u m b a n c o e jarros de água foram despejados à força pela sua garganta, e n q u a n t o a b o c a era m a n t i d a aberta p o r dois p a u z i n h o s (figura 4). Pression a d o de novo a citar n o m e s , diz-se q u e ele r e s p o n d e u : " O n d e n ã o h á crime, n ã o p o d e haver cúmplices". I'IGURA3. Tortura judicial E quase impossível encontrar representações da tortura judicialmente sancionada. Esta xilografía de página inteira do século xvi (21,6 x 14,4 cm) tem o objetivo de mostrar um método empregado em Toulouse que se parece com o sofrido por Jean Calas dois séculos mais tarde. É uma versão da tortura judicial mais comumente usada na Europa, chamada strap¡mdo, nome derivado da palavra italiana para puxão ou rasgão violento.

A m o r t e n ã o se seguia i m e d i a t a m e n t e , n e m se pretendia q u e assim fosse. O suplício d a roda, reservado aos h o m e n s c o n d e n a d o s por h o m i c í d i o o u assalto n a estrada, ocorria e m dois estágios. Primeiro, o carrasco atava o c o n d e n a d o a u m a cruz e m forma de X e esmagava s i s t e m a t i c a m e n t e os ossos de seus antebraços, p e r n a s , coxas e braços, desferindo e m cada u m deles dois golpes brutais, l'or m e i o de u m sarilho preso à corda ao redor d o pescoço d o cond e n a d o , u m assistente e m b a i x o d o cadafalso e n t ã o deslocava as vértebras d o pescoço c o m p u x õ e s violentos n a corda. E n q u a n t o isso, o carrasco fustigava a c i n t u r a c o m três golpes fortes da vara d e ferro. Depois o carrasco descia o c o r p o q u e b r a d o e o prendia, c o m os m e m b r o s t o r t u r a n t e m e n t e inclinados para trás, a u m a roda d e c a r r u a g e m e m cima de u m poste de três m e t r o s . Ali o c o n d e n a d o p e r m a n e c i a b a s t a n t e t e m p o d e p o i s da m o r t e , c o n c l u i n d o " u m e s p e t á c u l o m u i t o terrível". N u m a i n s t r u ç ã o secreta, o t r i b u n a l concedeu a Calas a graça de ser estrangulado depois de duas h o r a s de t o r m e n t o , antes q u e seu c o r p o fosse ligado à roda. Calas m o r r e u ainda p r o t e s t a n d o inocência.' O "caso" Calas galvanizou a atenção q u a n d o foi adotado p o r Voltaire alguns meses d e p o i s d a execução. Voltaire a r r e c a d o u d inheiro para a família, escreveu cartas e m n o m e de vários m e m b r o s da família Calas c o m o intuito de apresentar suas visões originais dos latos e depois publicou u m panfleto e u m livro baseados n o caso. O mais famoso desses foi o seu Tratado sobre a tolerância por ocasião da morte de Jean Calas, n o qual ele usou pela primeira vez a expressão "direito h u m a n o " ; o p o n t o principal de seu a r g u m e n t o era q u e a FIGURA 4. Tortura pela água A xilografía do século xvi (21,6 x 14,4 cm) mostra um método francês de tortura pela água. Não é exatamente o mesmo que Calas sofreu, mas chega perto o suficiente para transmitir a ideia geral. intolerância não podia ser u m direito h u m a n o (ele não p r o p u n h a o a r g u m e n t o positivo de q u e a liberdade de religião era u m direito 11 u m a n o ). Voltaire n ã o protestou inicialmente n e m contra a tortura, nem contra o suplício da roda. O que o enfureceu foi o fanatismo religioso q u e ele c o n c l u i u ter m o t i v a d o a polícia e os juízes: "É impossível ver c o m o , seguindo esse princípio [o direito h u m a n o ] ,

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u m h o m e m p o d e dizer a outro, 'acredite n o que eu acredito e n o que você n ã o p o d e acreditar, senão vai morrer'. É assim que eles falam e m Portugal, Espanha e Goa [países infames pelas suas inquisições]".
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ção de Voltaire c o m e ç o u a m u d a r , e cada vez m a i s o p r ó p r i o sistema de justiça criminal, e especialmente o seu e m p r e g o da t o r t u r a e da crueldade, passou a ser criticado. Nos seus textos iniciais s o b r e Calas, e m 1762-3, Voltaire n ã o u s o u n e m u m a única vez o t e r m o geral " t o r t u r a " ( e m p r e g a n d o e m seu lugar o e u f e m i s m o legal "a questão"). Ele d e n u n c i o u a t o r t u r a judicial pela p r i m e i r a vez e m 1766 e depois estabeleceu frequentemente a ligação entre Calas e a tortura. A compaixão n a t u r a l leva t o d o m u n d o a detestar a c r u e l dade da t o r t u r a judicial, insistia Voltaire, e m b o r a ele p r ó p r i o n ã o tivesse dito essas palavras antes. "A t o r t u r a t e m sido a b o l i d a e m < >utros países, e c o m sucesso: a questão está, p o r t a n t o , decidida." As visões de Voltaire m u d a r a m t a n t o que e m 1769 ele se sentiu c o m pelido a acrescentar u m artigo sobre " T o r t u r a " a seu Dicionário filosófico, publicado pela p r i m e i r a vez e m 1764 e já n o índex p a p a l tios livros proibidos. N o artigo, Voltaire emprega a sua a l t e r n â n c i a habitual d o ridículo e d o ataque fulminante p a r a c o n d e n a r as p r á ticas francesas c o m o incivilizadas: os estrangeiros julgam a F r a n ç a pelas suas peças teatrais, r o m a n c e s , versos e belas atrizes, s e m s a b e r que n ã o h á nação mais cruel que a França. U m a nação civilizada, conclui Voltaire, já n ã o p o d e seguir "antigos costumes atrozes". O c i ue h á m u i t o t e m p o t i n h a parecido aceitável a ele e a m u i t o s o u t r o s passava a ser p o s t o e m dúvida.
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C o m o o culto calvinista público tinha sido proibido n a França desde 1685, as autoridades a p a r e n t e m e n t e n ã o precisavam se esforçar m u i t o p a r a acreditar q u e Calas tivesse m a t a d o o filho p a r a i m p e d i r a sua conversão ao catolicismo. Certa noite, depois d o jantar, a família tinha e n c o n t r a d o Mare-Antoine p e n d e n d o n u m vão de p o r t a que abria para u m a despensa nos fundos da casa, u m aparente suicídio. Para evitar o escândalo, afirmaram ter descoberto o corpo n o chão, presumivelmente vítima de assassinato. O suicídio era punível pela lei n a França: u m a pessoa que cometesse suicídio não podia ser enterrada e m chão consagrado e, se considerada culp a d a n u m julgamento, o corpo podia ser e x u m a d o , arrastado pela cidade, p e n d u r a d o pelos pés e atirado n o lixo. A polícia se aproveitou das incoerências n o t e s t e m u n h o da família e logo p r e n d e u o pai, a m ã e e o i r m ã o j u n t o c o m seu criado e u m visitante, a c u s a n d o t o d o s de assassinato. U m t r i b u n a l local c o n d e n o u o pai, a m ã e e o i r m ã o à t o r t u r a p a r a obter confissões de culpa ( c h a m a d a a "questão preparatória"), m a s n a apelação o Parlement* de Toulouse revogou a sentença d o t r i b u n a l local, recusou-se a aplicar a t o r t u r a antes da c o n d e n a ç ã o e considerou culp a d o apenas o pai, esperando q u e ele nomeasse os o u t r o s q u a n d o t o r t u r a d o p o u c o antes da sua execução. A publicidade inexorável dada p o r Voltaire ao caso valeu p a r a o resto da família, q u e ainda n ã o t i n h a sido inocentada. O Conselho Real p r i m e i r o a n u l o u os veredictos p o r razões técnicas e m 1763 e 1764 e depois, e m 1765, v o t o u a favor da absolvição de t o d o s os envolvidos e da devolução dos bens confiscados da família. D u r a n t e a tempestade a respeito d o caso Calas, o foco de aten-

Assim c o m o a c o n t e c e u c o m os direitos h u m a n o s de m o d o mais geral, as novas atitudes sobre a t o r t u r a e sobre u m a p u n i ç ã o mais h u m a n a se cristalizaram p r i m e i r o n a d é c a d a de 1760, n ã o .i penas n a França, m a s e m o u t r o s países e u r o p e u s e nas c o l ô n i a s americanas. Frederico, o G r a n d e , da Prússia, amigo de Voltaire, já linha abolido a t o r t u r a judicial nas suas terras e m 1754. O u t r o s imitaram seu exemplo nas décadas seguintes: a Suécia e m 1772, a Áustria e a Boêmia e m 1776. E m 1780, a m o n a r q u i a francesa elim i n o u o uso da t o r t u r a p a r a extrair confissões de culpa antes d a i o n d e n a ç ã o , e e m 1788 aboliu p r o v i s o r i a m e n t e o uso d a t o r t u r a
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* Parlement:

c o r t e d e justiça. ( N . T . )

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p o u c o antes da execução para obter os n o m e s de cúmplices. E m 1783, o governo britânico d e s c o n t i n u o u a procissão pública para T y b u r n , o n d e as execuções t i n h a m se t o r n a d o u m i m p o r t a n t e e n t r e t e n i m e n t o popular, e i n t r o d u z i u o uso regular da "queda", u m a plataforma mais elevada que o carrasco deixava cair para asseg u r a r e n f o r c a m e n t o s m a i s r á p i d o s e mais h u m a n o s . E m 1789, o governo revolucionário francês r e n u n c i o u a todas as formas de tort u r a judicial, e e m 1792 introduziu a guilhotina, q u e tinha a intenção de t o r n a r a execução da p e n a de m o r t e uniforme e tão indolor q u a n t o possível. N o final d o século xvm, a opinião pública parecia exigir o fim da t o r t u r a judicial e de muitas indignidades infligidas aos corpos dos condenados. C o m o o médico americano Benjamin Rush insistia e m 1787, n ã o devemos esquecer que até os criminosos "possuem almas e corpos compostos dos m e s m o s materiais que os de nossos amigos e conhecidos. São ossos dos seus ossos".
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brasa e o u t r o s m é t o d o s . A t o r t u r a p a r a o b t e r os n o m e s de c ú m p l i ces era p e r m i t i d a pela lei colonial de Massachusetts, m a s a p a r e n t e mente n u n c a era o r d e n a d a .
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As f o r m a s b r u t a i s de p u n i ç ã o d e p o i s d a c o n d e n a ç ã o e r a m ubíquas n a E u r o p a e nas Américas. E m b o r a a Bill ofRights britânica d e 1689 proibisse e x p r e s s a m e n t e o castigo cruel, os-juízes ainda sentenciavam os criminosos ao poste dos açoites, ao b a n c o dos afogamentos, ao t r o n c o , ao p e l o u r i n h o , ao ferro de marcar, à execução p o r a r r a s t a m e n t o e e s q u a r t e j a m e n t o (desmembram e n t o d o c o r p o p o r m e i o de cavalos) o u , p a r a as mulheres, arraslamento, esquartejamento e m o r t e n a fogueira. O q u e constituía u m a p u n i ç ã o "cruel" d e p e n d i a claramente das expectativas culturais. Foi s o m e n t e e m 1790 q u e o P a r l a m e n t o b r i t â n i c o p r o i b i u q u e i m a r as mulheres n a fogueira. Antes, e n t r e t a n t o , havia a u m e n tado d r a m a t i c a m e n t e o n ú m e r o de ofensas capitais, q u e segundo algumas estimativas triplicou n o século xvm e e m 1753 t i n h a cont r i b u í d o p a r a t o r n a r as p u n i ç õ e s p o r assassinato ainda mais h o r ríveis a fim de a u m e n t a r seu p o d e r d e dissuasão. O P a r l a m e n t o t a m b é m o r d e n o u q u e os c o r p o s de t o d o s os assassinos fossem entregues a cirurgiões p a r a dissecação — naquele t e m p o considerada u m a i g n o m í n i a — e concedeu aos juízes a autoridade discricionária de o r d e n a r que o c o r p o de q u a l q u e r assassino masculino fosse d e p e n d u r a d o a c o r r e n t a d o d e p o i s d a execução. Apesar d o crescente desconforto c o m esse escarnecer d o cadáver dos assassinos, a prática só foi definitivamente abolida e m 1834/' N ã o s u r p r e e n d e q u e a p u n i ç ã o nas colónias tenha seguido os p a d r õ e s estabelecidos n o c e n t r o i m p e r i a l . Assim, u m terço d e todas as sentenças n a Corte Superior de Massachusetts, m e s m o n a última m e t a d e d o século x v m , exigia h u m i l h a ç õ e s públicas q u e iam desde usar cartazes até a p e r d a de u m a orelha, a m a r c a ç ã o a ferro e o açoite. U m c o n t e m p o r â n e o e m Boston descreveu c o m o "as mulheres e r a m tiradas de u m a imensa jaula, n a qual e r a m arras77

TORTURA E CRUELDADE

A t o r t u r a judicialmente supervisionada p a r a extrair confissões t i n h a sido i n t r o d u z i d a o u reintroduzida n a maioria dos países e u r o p e u s n o século XIII, c o m o c o n s e q u ê n c i a d o reflorescim e n t o da lei r o m a n a e d o e x e m p l o da I n q u i s i ç ã o católica. N o s séculos xvi, xvii e Xvm, m u i t a s das m a i s refinadas inteligências legais da E u r o p a d e d i c a r a m - s e a codificar e regularizar o uso d a t o r t u r a judicial para i m p e d i r abusos p e r p e t r a d o s p o r juízes exager a d a m e n t e zelosos o u sádicos. A G r ã - B r e t a n h a t i n h a s u p o s t a m e n t e substituído a t o r t u r a judicial pelos júris n o século XIII, m a s a t o r t u r a ainda ocorria nos séculos xvi e XVII nos casos de sedição e feitiçaria. C o n t r a as bruxas, p o r exemplo, os m a g i s t r a d o s escoceses mais severos e m p r e g a v a m ferroadas, privação d e sono, t o r t u r a pelas " b o t a s " ( e s m a g a r as p e r n a s ) , q u e i m a d u r a s c o m ferro e m
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tadas sobre rodas desde a prisão, e atadas n u m poste c o m as costas nuas, nas quais e r a m aplicadas trinta o u quarenta chicotadas entre os gritos das culpadas e o t u m u l t o da turba". A Bill ofRights britâ-

nica n ã o protegia os escravos, p o r q u e eles não e r a m considerados pessoas c o m direitos legais. Virginia e Carolina d o Norte p e r m i t i a m expressamente a castração de escravos p o r ofensas hediondas, e e m Maryland, nos casos de p e q u e n a traição o u incêndio criminoso p o r p a r t e de u m escravo, a m ã o direita era cortada e o escravo depois enforcado, a cabeça cortada, o corpo esquartejado e as partes desm e m b r a d a s exibidas e m p ú b l i c o . A i n d a na d é c a d a de 1740, os escravos e m Nova York p o d i a m ser queimados até a m o r t e de forma t o r t u r a n t e m e n t e lenta, supliciados na roda ou d e p e n d u r a d o s p o r correntes até m o r r e r e m p o r falta de alimento.
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A maioria das sentenças d e t e r m i n a d a s pelos tribunais franceses n a última m e t a d e d o século xvin ainda incluía alguma forma de castigo corporal público, c o m o a marcação a ferro, o açoite o u o uso d o colarinho de ferro (que ficava preso a u m poste ou ao pelour i n h o — figura 5). N o m e s m o a n o e m que Calas foi executado, o Parlementde Paris* sentenciou apelações de processos penais con-

tra 235 h o m e n s e mulheres julgados e m p r i m e i r a instância n o trib u n a l de Châtelet ( u m tribunal de instância inferior) de Paris: 82 foram sentenciados ao b a n i m e n t o e à marcação a ferro, e m geral c o m b i n a d o s c o m açoites; nove à m e s m a c o m b i n a ç ã o mais o colar i n h o de ferro; dezenove à marcação a ferro e ao a p r i s i o n a m e n t o ; vinte ao confinamento n o Hospital Geral,** depois de serem m a r c a d o s a ferro e / o u t e r e m d e u s a r o c o l a r i n h o d e ferro; d o z e a o enforcamento; três ao suplício da roda; e u m a m o r r e r q u e i m a d o * O Parlementde Paris era a mais alta corte de justiça do Antigo Regime. (N.T.) ** Fundado por Luís xiv, o Hospital Geral servia para recolher marginais, indigentes etc. (N. T.)

Le -véritable PorlraiiiTtre' dâpres nature sur Lh Place du Palais Roy\il,d'Emmanuel Jean delà Caste cotndamné par Jugement souverain de M vie Lieutenant G- de Police, dii28.Jau/l 1760• au Carcan pendant 3.Jaurs a Ittmanpl, et aux Galères a perpétuité^).

FIGURA 5. O colarinho de ferro A. ideia deste castigo era uma humilhação pública. Esta reprodução de um artista anônimo mostra um homem condenado por fraude e libelo em 1760. Segundo a legenda, ele foi primeiro preso ao colarinho de ferro por três dias e depois marcado a ferro e enviado às galés para o resto da vida.

na fogueira. Se todos os outros tribunais de Paris fossem incluídos n a conta, o n ú m e r o de h u m i l h a ç õ e s públicas e mutilações a u m e n t a ria para quinhentas ou seiscentas, c o m u m a s dezoito execuções — e m apenas u m ano, n u m a única jurisdição.
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italiano recente n ã o rejeitava apenas a t o r t u r a e o castigo cruel, m a s t a m b é m — n u m a atitude extraordinária p a r a a é p o c a — a p r ó p r i a p e n a de m o r t e . C o n t r a o p o d e r absoluto dos governantes, a o r t o doxia religiosa e os privilégios da nobreza, Beccaria p r o p u n h a u m p a d r ã o d e m o c r á t i c o d e justiça: "a m a i o r felicidade d o m a i o r número". V i r t u a l m e n t e t o d o reformador a partir de então, de P h i ladelphia a M o s c o u , o citava. " Beccaria a j u d o u a valorizar a nova linguagem d o s e n t i m e n t o . Para ele, a p e n a de m o r t e só podia ser "perniciosa p a r a a sociedade, pelo e x e m p l o de b a r b á r i e q u e proporciona", e ao objetar a " t o r m e n t o s e crueldade inútil" na p u n i ç ã o ele os ridicularizava c o m o "o i n s t r u m e n t o de u m fanatismo furioso". Além disso, ao justificar a sua intervenção ele expressava a esperança de que se "eu c o n t r i b u i r p a r a salvar d a agonia da m o r t e u m a vítima infeliz da tirania, o u d a i g n o r â n c i a i g u a l m e n t e fatal, a sua b ê n ç ã o e l á g r i m a s d e êxtase serão para m i m u m consolo suficiente p a r a o desprezo de
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A p e n a de m o r t e podia ser i m p o s t a de cinco m a n e i r a s diferentes n a França: decapitação para os nobres; enforcamento para os criminosos c o m u n s ; a r r a s t a m e n t o e esquartejamento p o r ofensas c o n t r a o s o b e r a n o c o n h e c i d a s c o m o lèse-majesté; morte na fogueira p o r heresia, magia, incêndio criminoso, e n v e n e n a m e n t o , bestialidade e sodomia; e o suplício da roda p o r assassinato ou salt e a m e n t o . O s juízes o r d e n a v a m a r r a s t a m e n t o e esquartejamento e m o r t e n a fogueira c o m p o u c a frequência n o século xvili, m a s o suplício da roda era m u i t o c o m u m : na jurisdição d o Parlementde Aix-en-Provence, n o sul da França, p o r exemplo, quase a m e t a d e das 53 s e n t e n ç a s de m o r t e i m p o s t a s e n t r e 1760 e 1762 era pelo suplício da roda.'' Mas da década de 1760 em diante, c a m p a n h a s de vários tipos levaram à abolição da t o r t u r a sancionada pelo estado e a u m a crescente m o d e r a ç ã o nos castigos (até para os escravos). Os reformadores a t r i b u í a m suas realizações à difusão d o h u m a n i t a r i s m o d o I l u m i n i s m o . E m 1786, o reformador inglês Samuel Romilly o l h o u p a r a trás e a f i r m o u cheio de confiança q u e "à m e d i d a q u e os h o m e n s refletem e r a c i o c i n a m sobre esse t e m a i m p o r t a n t e , as noções absurdas e bárbaras de justiça q u e prevaleceram p o r eras t ê m sido d e m o l i d a s , e t ê m sido a d o t a d o s p r i n c í p i o s h u m a n o s e racionais e m seu lugar". M u i t o d o i m p u l s o i m e d i a t o p a r a p e n s a r sobre o assunto veio d o c u r t o e vigoroso Dos delitos e das penas, publicado e m 1764 p o r u m aristocrata italiano de 24 anos, Cesare Beccaria. P r o m o v i d o pelos círculos e m t o r n o de Diderot, t r a d u zido r a p i d a m e n t e p a r a o francês e o inglês e a v i d a m e n t e lido p o r Voltaire n o decorrer d o caso Calas, o p e q u e n o livro de Beccaria examinava o sistema de justiça criminal de cada nação. O sistema
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t o d a a h u m a n i d a d e " . Depois de ler Beccaria, o jurista inglês William Blackstone estabeleceu a conexão q u e se tornaria característica a p ó s a visão d o I l u m i n i s m o : a lei c r i m i n a l , afirmava Blacks t o n e , deve s e m p r e "se c o n f o r m a r aos d i t a d o s d a v e r d a d e e d a justiça, aos s e n t i m e n t o s h u m a n i t á r i o s e aos direitos indeléveis d a humanidade"." E n t r e t a n t o , c o m o m o s t r a o exemplo de Voltaire, a elite e d u cada, e até m u i t o s dos principais reformadores, não c o m p r e e n d e u i m e d i a t a m e n t e a conexão entre a linguagem nascente dos direitos e a t o r t u r a e o castigo cruel. Voltaire escarneceu d o malogro da justiça n o caso Calas, m a s n ã o objetou originalmente ao fato de q u e o velho fora t o r t u r a d o o u supliciado n a roda. Se a compaixão n a t u ral leva t o d o m u n d o a detestar a c r u e l d a d e da t o r t u r a judicial, c o m o Voltaire disse mais tarde, p o r ç|ue isso não era óbvio antes da década de 1760, n e m m e s m o para ele? Evidentemente, antolhos de
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a l g u m tipo h a v i a m a t u a d o p a r a inibir a operação da empatia antes desse p e r í o d o .
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as m ã o s . Cuspir, c o m e r n u m a tigela c o m u m e d o r m i r n u m a c a m a c o m u m e s t r a n h o t o r n a r a m - s e atos r e p u g n a n t e s o u ao m e n o s desagradáveis. As explosões violentas de e m o ç ã o e o c o m p o r t a m e n t o agressivo p a s s a r a m a ser s o c i a l m e n t e inaceitáveis. Essas m u d a n ç a s d e a t i t u d e e m relação ao c o r p o e r a m as i n d i c a ç õ e s superficiais de u m a t r a n s f o r m a ç ã o subjacente. Todas assinalavam 0 a d v e n t o d o i n d i v í d u o fechado e m si m e s m o , cujas fronteiras t i n h a m de ser respeitadas n a interação social. A c o m p o s t u r a e a a u t o n o m i a r e q u e r i a m u m a crescente autodisciplina.
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Q u a n d o os escritores e os reformadores legais d o I l u m i n i s m o c o m e ç a r a m a questionar a t o r t u r a e a p u n i ç ã o cruel, ocorreu u m a viravolta quase completa de atitude ao longo de algumas décadas. A descoberta d o s e n t i m e n t o de c o m p a n h e i r i s m o constituía p a r t e dessa m u d a n ç a , m a s a p e n a s p a r t e . O q u e era preciso a l é m da e m p a t i a — n a verdade, nesse caso, u m a p r e c o n d i ç ã o necessária p a r a a e m p a t i a c o m o c o n d e n a d o pela j u s t i ç a — e r a u m novo interesse pelo c o r p o h u m a n o . Antes sagrado a p e n a s d e n t r o de u m a o r d e m r e l i g i o s a m e n t e definida, e m q u e os c o r p o s i n d i v i d u a i s p o d i a m ser m u t i l a d o s o u t o r t u r a d o s para o b e m c o m u m , o c o r p o se t o r n o u s a g r a d o p o r si p r ó p r i o n u m a o r d e m secular q u e se baseava n a a u t o n o m i a e i n v i o l a b i l i d a d e d o s i n d i v í d u o s . Esse desenvolvimento ocorre e m d u a s partes. Os corpos g a n h a r a m u m valor m a i s positivo q u a n d o se t o r n a r a m m a i s s e p a r a d o s , m a i s senhores de si m e s m o s e mais individualizados d u r a n t e o d e s e n r o lar d o século XVIII, e n q u a n t o as violações dos corpos provocavam mais e mais reações negativas.

As m u d a n ç a s d o século xviii nos espetáculos musicais e teatrais, n a arquitetura doméstica e na arte d o retrato tiveram c o m o base essas alterações de longo p r a z o nas atitudes. Além disso, essas novas experiências r e v e l a r a m - s e cruciais p a r a o s u r g i m e n t o da própria sensibilidade. Nas décadas depois de 1750, em vez de camin h a r p e l o t e a t r o p a r a e n c o n t r a r e conversar c o m os a m i g o s , o público das óperas c o m e ç o u a escutar a música em silêncio, o que 1 he facultava sentir fortes emoções individuais e m reação à música. U m a m u l h e r c o n t o u a sua reação à ó p e r a Alceste, de Gluck, q u e estreou e m Paris e m 1776: "Escutei essa nova o b r a c o m u m a p r o funda atenção. [...] Desde os primeiros compassos fui invadida p o r u m forte s e n t i m e n t o d e a d m i r a ç ã o r e v e r e n t e e senti d e n t r o de m i m esse i m p u l s o religioso c o m tal intensidade [...] que sem m e dar conta caí de joelhos n o m e u camarote e permaneci nessa posição, suplicante e c o m as m ã o s unidas, até o final da peça". A reação dessa m u l h e r é especialmente notável, p o r q u e ela (a carta é assinada Pauline de R***) traça u m paralelo explícito c o m a experiência religiosa. O f u n d a m e n t o de toda a autoridade estava se desloc a n d o d e u m a e s t r u t u r a religiosa t r a n s c e n d e n t a l p a r a u m a estrutura h u m a n a interior; m a s esse deslocamento só podia fazer sentido p a r a as pessoas se fosse e x p e r i m e n t a d o de u m m o d o pessoal, até m e s m o í n t i m o .
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A PESSOA A U T Ô N O M A

E m b o r a possa parecer q u e os corpos estão s e m p r e inerentem e n t e separados u m d o o u t r o , ao m e n o s após o n a s c i m e n t o , as fronteiras entre os corpos se t o r n a r a m mais n i t i d a m e n t e definidas depois d o século xiv. Os indivíduos se t o r n a r a m mais a u t ô n o m o s à m e d i d a que s e n t i a m cada vez mais a necessidade de guardar p a r a si m e s m o s os seus excretos corporais. O limiar da v e r g o n h a b a i x o u , e n q u a n t o a pressão p o r a u t o c o n t r o l e a u m e n t o u . O ato de defecar ou u r i n a r e m público t o r n o u - s e cada vez mais repulsivo. As pessoas c o m e ç a r a m a usar lenços e m vez de assoar o nariz c o m
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Os frequentadores d o teatro exibiam u m a tendência m a i o r
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p a r a as a r r u a ç a s d u r a n t e os espetáculos d o q u e os a m a n t e s d a m ú s i c a , m a s m e s m o n o t e a t r o novas p r á t i c a s a n u n c i a v a m u m f u t u r o diferente e m q u e as peças s e r i a m r e p r e s e n t a d a s n u m a a t m o s f e r a s e m e l h a n t e a u m silêncio religioso. D u r a n t e g r a n d e p a r t e d o século xvin, os espectadores parisienses c o o r d e n a v a m os atos de tossir, cuspir, espirrar e soltar gases p a r a p e r t u r b a r os espetáculos de q u e n ã o gostavam, e d e m o n s t r a ç õ e s públicas de e m briaguez e de brigas i n t e r r o m p i a m frequentemente as frases dos artistas. Para colocar os e s p e c t a d o r e s a u m a d i s t â n c i a m a i o r e assim t o r n a r m a i s difíceis as p e r t u r b a ç õ e s , a possibilidade d e se s e n t a r n o p a l c o foi e l i m i n a d a n a França e m 1759. E m 1782, os esforços para estabelecer a o r d e m na plateia ou parterre culminar a m n a instalação de b a n c o s n a C o m é d i e Française; antes disso, os e s p e c t a d o r e s n a plateia a n d a v a m l i v r e m e n t e nesse espaço e às vezes c o m p o r t a v a m - s e mais c o m o u m a t u r b a d o q u e c o m o u m público. E m b o r a os b a n c o s fossem a c a l o r a d a m e n t e contestados n a i m p r e n s a da época e vistos p o r alguns c o m o u m a t a q u e p e r i goso à liberdade e franqueza da plateia, a direção dos acontecimentos t i n h a se t o r n a d o clara: as explosões coletivas d e v i a m dar lugar a experiências interiores individuais e mais tranquilas.
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assim, o m o v i m e n t o e m direção à privacidade individual n ã o deve ser exagerado, ao m e n o s n a França. Os viajantes ingleses queixav a m - s e i n c e s s a n t e m e n t e d a p r á t i c a francesa d e três o u q u a t r o estranhos dormirem n u m mesmo quarto n u m a hospedaria (ainda q u e e m camas separadas), d o uso de lavatórios à vista d e todos, d o ato de u r i n a r n a lareira e d o de jogar o c o n t e ú d o dos p e n i cos n a r u a pelas janelas. As suas queixas atestam, e n t r e t a n t o , u m processo e m a n d a m e n t o e m a m b o s os países. Na Inglaterra, u m n o v o e x e m p l o notável era o circuito d e c a m i n h a d a n o j a r d i m , desenvolvido nas grandes p r o p r i e d a d e s rurais entre as décadas de 1740 e 1760: o circuito fechado, c o m suas vistas e m o n u m e n t o s c u i d a d o s a m e n t e escolhidos, destinava-se a intensificar a c o n t e m plação e a recordação privadas.
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O s corpos s e m p r e t i n h a m sido centrais p a r a a p i n t u r a e u r o peia, m a s antes d o século XVII e r a m c o m m u i t a frequência os corpos da Sagrada Família, dos santos católicos o u dos governantes e seus cortesãos. N o século XVII e especialmente n o xvin, mais pessoas c o m u n s c o m e ç a r a m a e n c o m e n d a r p i n t u r a s de si mesmas e de suas famílias. Depois de 1750, as exposições públicas regulares — elas p r ó p r i a s u m a nova característica da vida social — apresentavam n ú m e r o s crescentes de retratos de pessoas c o m u n s e m Londres e Paris, m e s m o que a p i n t u r a histórica ainda ocupasse oficialm e n t e a posição de premier genre.

A arquitetura residencial reforçava esse sentido de separação do indivíduo. A "câmara" (chambre) nas casas francesas t o r n o u - s e cada vez mais especializada na segunda m e t a d e d o século xvin. A sala, antes de finalidade geral, t r a n s f o r m o u - s e n o " q u a r t o de d o r mir", e nas famílias mais ricas as crianças t i n h a m q u a r t o s de d o r m i r s e p a r a d o s d o de seus pais. Dois terços das casas parisienses t i n h a m q u a r t o s d e d o r m i r n a s e g u n d a m e t a d e d o século x v i n , e n q u a n t o apenas u m a e m sete tinha salas destinadas às refeições. A elite da sociedade parisiense c o m e ç o u a insistir n u m a variedade de q u a r t o s para uso privado, q u e iam desde os boudoirs (que vem d o francês bouâer para " a m u a r - s e " — u m q u a r t o para expressar seu m a u h u m o r e m privado) à toalete e aos q u a r t o s de b a n h o . Ainda

Nas colônias britânicas n a América d o N o r t e , a arte do retrato d o m i n a v a as artes visuais, e m parte p o r q u e as tradições políticas e eclesiásticas e u r o p e i a s t i n h a m m e n o r p e s o . A i m p o r t â n c i a d o s retratos só fez crescer nas colônias n o século xvin: q u a t r o vezes mais retratos foram p i n t a d o s nas colônias e n t r e 1750 e 1776 d o q u e e n t r e 1700 e 1750, e m u i t o s desses r e t r a t o s r e p r e s e n t a v a m cidadãos c o m u n s e p r o p r i e t á r i o s de terras (figura 6 ) . Q u a n d o a p i n t u r a h i s t ó r i c a g a n h o u n o v a p r o e m i n ê n c i a n a França sob a Revolução e o I m p é r i o Napoleónico, os retratos ainda constituíam
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uns 4 0 % das p i n t u r a s apresentadas n o s Salons. O s preços cobrados pelos p i n t o r e s de r e t r a t o s a u m e n t a r a m nas ú l t i m a s d é c a d a s d o século xviii, e as gravuras levaram os retratos a u m público m a i s a m p l o d o que os m o d e l o s originais e suas famílias. O mais famoso pintor inglês da era, sir Joshua Reynolds, fez a sua reputação c o m o retratista e, segundo H o r a c e Walpole, "resgatou a p i n t u r a de retratos da insipidez".
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U m e s p e c t a d o r c o n t e m p o r â n e o e x p r e s s o u o seu d e s d é m depois de ver o n ú m e r o de retratos na exposição francesa de 1769: A multidão de retratos, senhor, que me impressiona por toda parte, força-me, a despeito de mim mesmo, a falar agora deste assunto e a tratar deste tema árido e monótono que tinha reservado para o final. Em vão o público há muito tempo reclama da multidão de burgueses que deve passar incessantemente em revista. [...] A facilidade do gênero, a sua utilidade e a vaidade de todas essas personagens mesquinhas estimulam nossos artistas principiantes. [...] Graças ao infeliz gosto do século, o Salon está se tornando uma mera galeria de retratos.

0 "infeliz g o s t o " d o século e m a n a v a d a I n g l a t e r r a , s e g u n d o os franceses, e assinalava para m u i t o s a i m i n e n t e vitória d o comércio sobre a verdadeira arte. N o seu artigo "Retrato" para a Encyclopédie ile m u i t o s volumes de Diderot, o chevalier Louis de Jaucourt concluía que "o gênero de p i n t u r a mais seguido e p r o c u r a d o na InglaFIGURA 6. Retrato do capitão John Pigott feito por Joseph Blackburn Como muitos artistas ativos nas colônias americanas, Joseph Blackburn nasceu e foi muito provavelmente educado na Inglaterra antes de ir para Bermuda em 1752 e no ano seguinte para Newport, em Rhode Island. Depois de pintar muitos retratos em Newport, Boston e Portsmouth, em New Hampshire, ele retornou para a Inglaterra em 1764. Esta pintura a óleo do final da década de 1750 ou início dos anos 1760 (127 x 101,6 cm) forma um par com o retrato da esposa de Pigott. Blackburn era conhecido por sua atenção minuciosa às rendas e a outros detalhes nas roupas. 1 erra é o d o retrato". Mais tarde n o m e s m o século, o escritor LouisSébastien Mercier t e n t o u t r a n q u i l i z a r os espíritos: "os ingleses si >bressaem nos retratos, e n a d a supera os retratos de Regnols [ sic], entre os quais os principais exemplos são os maiores, e m t a m a n h o maturai, e n o m e s m o p a t a m a r das p i n t u r a s históricas" (figura 7). I )o seu c o s t u m e i r o m o d o a s t u t o , Mercier t i n h a c a p t a d o o elem e n t o crítico — n a Inglaterra, os retratos e r a m comparáveis ao
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principal gênero da Academia de Belas-Artes francesa, as p i n t u r a s históricas. A pessoa c o m u m p o d i a e n t ã o ser heróica m e r a m e n t e em v i r t u d e de sua individualidade. O c o r p o c o m u m t i n h a a g o r a distinção.
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É verdade que os retratos p o d i a m t r a n s m i t i r algo c o m p l e t a m e n t e diferente d a i n d i v i d u a l i d a d e . À m e d i d a q u e a r i q u e z a comercial crescia aos t r a n c o s e b a r r a n c o s n a G r ã - B r e t a n h a , n a França e e m suas colônias, e n c o m e n d a r retratos c o m o u m a m a r c a de s t a t u s e n o b r e z a refletia u m a u m e n t o m a i s geral d o c o n s u mismo. A semelhança n e m s e m p r e tinha i m p o r t â n c i a nessas e n c o mendas. As pessoas c o m u n s n ã o q u e r i a m parecer c o m u n s n o s seus retratos, e alguns p i n t o r e s de retratos g a n h a r a m r e p u t a ç ã o m a i s por sua capacidade de p i n t a r rendas, sedas e cetins d o q u e faces. Entretanto, e m b o r a os retratos às vezes focalizassem r e p r e s e n t a ções de t i p o s o u alegorias d e v i r t u d e s o u riqueza, n a s e g u n d a metade d o século xvili esses retratos d i m i n u í r a m de i m p o r t â n c i a q u a n d o os artistas e seus clientes c o m e ç a r a m a preferir r e p r e s e n l ações mais naturais da individualidade psicológica e fisionômica. Além disso, a p r ó p r i a proliferação de retratos individuais e s t i m u lou a visão de q u e cada pessoa era u m indivíduo — isto é, singular, separado, distinto e original, e assim é que devia ser r e p r e s e n t a d o . " As m u l h e r e s d e s e m p e n h a r a m u m papel às vezes s u r p r e e n FIGURA 7. Retrato de lady Charlotte Fitz-William, mezzotinto feito por James MacArdell de umapintura realizada por sir Joshua Reynolds, 1754 Reynolds ganhou fama por pintar retratos de figuras importantes da sociedade britânica. Ele frequentemente pintava apenas as faces e as mãos de seus modelos, deixando ao cuidado de especialistas ou assistentes a roupagem e a indumentária. Charlotte tinha somente oito anos na época deste retrato, mas o seu penteado, os brincos e o broche de pérola lhe dão uma aparência mais velha. Reproduções como esta levaram a fama de Reynolds ainda mais longe. James MacArdell fez mezzotintos de muitos retratos pintados por Reynolds. A legenda diz: "J. Reynolds pinxt. J. McArdell fecit. Lady Charlotte Fitz-William. Publicado por J. Reynolds de acordo com a Lei do Parlamento 1754". dente nesse desenvolvimento. A voga de romances c o m o Clarissa, que focalizavam m u l h e r e s c o m u n s c o m u m a rica v i d a i n t e r i o r , fazia c o m q u e as p i n t u r a s alegóricas de modelos f e m i n i n o s c o m laces semelhantes a máscaras parecessem irrelevantes o u s i m p l e s m e n t e decorativas. N o e n t a n t o , c o m o os p i n t o r e s p r o c u r a v a m cada vez mais franqueza e intimidade psicológica nos s e u s r e t r a los, a relação entre o p i n t o r e o m o d e l o tornou-se mais c a r r e g a d a cie u m a visível tensão sexual, especialmente q u a n d o as m u l h e r e s pintavam os h o m e n s . E m 1775, James Boswell registrou a s críticas de Samuel Johnson contra as retratistas: "Ele [Johnson] achava a
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p i n t u r a de retratos u m e m p r e g o i m p r ó p r i o para as mulheres. 'A prática pública de q u a l q u e r arte, e o ato de perscrutar a face dos h o m e n s , é algo m u i t o i n d e l i c a d o n u m a mulher'". Ainda assim, várias p i n t o r a s de retratos se t o r n a r a m verdadeiras celebridades n a ú l t i m a m e t a d e d o século xvin. Denis D i d e r o t e n c o m e n d o u o seu retrato a u m a delas, a artista alemã A n n a T h e r b u s c h . Na sua crítica d o Salon de 1767, o n d e a p i n t u r a apareceu, Diderot sentiu q u e precisava se defender c o n t r a a sugestão de que t i n h a d o r m i d o c o m a artista, " u m a m u l h e r q u e n ã o é bonita". Mas ele t a m b é m teve de a d m i t i r q u e sua filha ficou t ã o i m p r e s s i o n a d a c o m a s e m e lhança d o retrato feito p o r T h e r b u s c h q u e precisava se controlar p a r a n ã o o beijar cem vezes, na ausência de seu pai, p o r m e d o de arruinar a pintura.
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Assim, e m b o r a alguns críticos talvez julgassem a semelhança n o s r e t r a t o s s e c u n d á r i a p a r a o valor estético, a p a r e c e n ç a era o b v i a m e n t e m u i t o valorizada p o r m u i t o s clientes e p o r u m crescente n ú m e r o de críticos. N o seu autorrevelador Journal to Eliza, escrito e m 1767, Laurence Sterne se refere r e p e t i d a m e n t e à "sua doce I m a g e m s e n t i m e n t a l " — o retrato de Eliza, provavelmente feito p o r R i c h a r d Cosway, t u d o o q u e ele t e m de sua a m a d a ausente. "A sua I m a g e m é Você Mesma — t o d a Sentimento, Suavidade e Verdade. [...] Original m u i t o querida! C o m o se parece c o m você — e se parecerá — até q u e você a faça desaparecer pela sua presença." Assim c o m o aconteceu n o r o m a n c e epistolar, t a m b é m n a p i n t u r a de r e t r a t o s as m u l h e r e s d e s e m p e n h a r a m u m p a p e l f u n d a m e n t a l n o processo da e m p a t i a . A i n d a q u e a m a i o r i a d o s h o m e n s , e m teoria, quisesse q u e as m u l h e r e s c o n s e r v a s s e m os papéis de m o d é s t i a e v i r t u d e , na prática as m u l h e r e s inevitavelm e n t e representavam e assim evocavam o sentimentalismo, u m a atitude q u e s e m p r e ameaçava ir além das suas p r ó p r i a s fronteiras.
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FIGURA 8. Fisionotraço de Jefferson A legenda diz: Quenedy dei. ad vivum et sculpt. (Traçado a partir modelo vivo e gravado por Quenedey.)

T ã o valorizada era a s e m e l h a n ç a , p o r fim, q u e e m 1786 o músico e gravurista francês Gilles-Louis C h r é t i e n i n v e n t o u u m a
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c

máquina chamada

fisionotraço,

que produzia mecanicamente

estimuladas para fazer o b e m e dissuadidas de seguir seus instintos mais baixos. Essa tendência para o m a l n a h u m a n i d a d e resultava do p e c a d o original, a d o u t r i n a cristã de q u e t o d o s são i n a t a m e n t e predispostos para o p e c a d o desde q u e Adão e Eva foram privados da graça de Deus n o j a r d i m d o Éden. Os escritos de Pierre-François M u y a r t de Vouglans nos d ã o u m a c o m p r e e n s ã o rara da posição tradicionalista, pois ele foi u m dos p o u c o s juristas q u e aceitaram o desafio de Beccaria e publicaram defesas dos m é t o d o s antigos. Além de suas m u i t a s obras sobre a lei criminal, Muyart t a m b é m escreveu ao m e n o s dois panfletos d e f e n d e n d o o c r i s t i a n i s m o e a t a c a n d o seus críticos m o d e r n o s , especialmente Voltaire. E m 1767, publicou u m a refutação, p o n t o por p o n t o , das ideias de Beccaria. Opôs-se n o s t e r m o s mais fortes à tentativa de Beccaria de f u n d a m e n t a r o seu sistema sobre "os sen(imentos inefáveis d o coração". "Eu m e o r g u l h o de ter tanta sensibilidade q u a n t o q u a l q u e r pessoa", insistia, " m a s sem dúvida n ã o l e n h o u m a o r g a n i z a ç ã o d e fibras [ t e r m i n a ç õ e s nervosas] t ã o frouxa q u a n t o a de nossos m o d e r n o s criminalistas, pois não senti esse e s t r e m e c i m e n t o suave de q u e falam." E m vez disso, M u y a r t sentiu surpresa, para n ã o dizer choque, q u a n d o viu que Beccaria construiu seu sistema sobre as ruínas de t o d o o senso c o m u m .
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retratos de perfil (ver figura 8). O perfil original e m t a m a n h o n a t u ral era depois reduzido e gravado sobre u m a placa de cobre. Entre as centenas de perfis produzidos p o r Chrétien, primeiro e m colab o r a ç ã o c o m E d m é Quenedey, u m m i n i a t u r i s t a , e depois rivaliz a n d o c o m ele, encontrava-se u m de T h o m a s Jefferson p r o d u z i d o e m abril de 1789. U m emigrado francês introduziu o processo nos Estados U n i d o s , e Jefferson m a n d o u fazer o u t r o perfil e m 1804. Agora u m a curiosidade histórica há m u i t o obscurecida pelo surgim e n t o da fotografia, o fisionotraço é ainda o u t r o sinal d o interesse e m representar pessoas c o m u n s — Jefferson à parte — e em captar as m e n o r e s diferenças entre cada pessoa. Além disso, c o m o sugerem os comentários de Sterne, o retrato, especialmente a miniatura, servia frequentemente c o m o u m desencadeador de lembranças e u m a o p o r t u n i d a d e para reencontrar u m a e m o ç ã o amorosa.
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O ESPETÁCULO P Ú B L I C O DA DOR

C a m i n h a r pelo j a r d i m , escutar música e m silêncio, usar u m lenço e ver retratos são t o d a s ações q u e p a r e c e m a c o m p a n h a r a imagem d o leitor empático, e q u e parecem c o m p l e t a m e n t e i n c o n gruentes c o m a t o r t u r a e execução de Jean Calas. Mas os p r ó p r i o s juízes e legisladores que sustentavam o sistema legal tradicional e d e f e n d i a m até a sua d u r e z a s e m d ú v i d a e s c u t a v a m m ú s i c a e m silêncio, e n c o m e n d a v a m retratos e p o s s u í a m casas c o m q u a r t o s de dormir, e m b o r a talvez n ã o tivessem lido os r o m a n c e s p o r causa da sua associação c o m a s e d u ç ã o e a devassidão. O s m a g i s t r a d o s endossavam o sistema tradicional de crime e castigo p o r q u e acreditavam que os culpados d o crime só p o d i a m ser controlados p o r u m a força externa. Na visão tradicional, as pessoas c o m u n s n ã o s a b i a m regular suas p r ó p r i a s paixões. T i n h a m d e ser lideradas,
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M u y a r t z o m b o u d a a b o r d a g e m racionalista de Beccaria. " S e n t a d o n o seu g a b i n e t e , [o a u t o r ] c o m e ç a a redigir as leis d e Iodas as nações e nos leva a c o m p r e e n d e r q u e até agora n u n c a tivemos u m p e n s a m e n t o exato o u sólido sobre esse assunto crucial." A razão de ser tão difícil reformar a lei criminal, segundo Muyart, era q u e ela estava baseada sobre a lei positiva e d e p e n d i a m e n o s d o raciocínio q u e d a experiência e d a prática. O q u e a experiência ensinava era a necessidade de controlar os indisciplinados, e n ã o .1 lagar as suas sensibilidades: " Q u e m , de fato, n ã o sabe que, c o m o ()s h o m e n s são m o d e l a d o s pelas suas paixões, o seu t e m p e r a m e n t o d o m i n a m u i t o frequentemente os seus sentimentos?". Os h o m e n s
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devem ser julgados c o m o são, n ã o c o m o deveriam ser, ele insistia, e só o p o d e r de u m a justiça vingadora q u e inspira u m t e m o r reverente podia refrear esses t e m p e r a m e n t o s .
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A ostentação da d o r n o cadafalso era destinada a insuflar o t e r r o r n o s e s p e c t a d o r e s e dessa f o r m a servia c o m o u m i n s t r u m e n t o de dissuasão. Os que a p r e s e n c i a v a m — e as multidões e r a m frequentemente i m e n s a s — e r a m levados a se identificar c o m a d o r da pessoa c o n d e n a d a e, p o r m e i o dessa e x p e r i ê n c i a , a sentir a majestade e s m a g a d o r a da lei, d o Estado e, e m última instância, de Deus. Muyart, p o r t a n t o , achava revoltante q u e Beccaria tentasse justificar os seus a r g u m e n t o s p o r referência à "sensibilidade e m relação à d o r d o culpado". Essa sensibilidade fazia o sistema tradicional funcionar. "Precisamente p o r q u e cada h o m e m se identificava com o q u e acontecia ao o u t r o e p o r q u e ele tinha u m h o r r o r n a t u r a l à dor, era necessário preferir, n a escolha d o s castigos, aquele que fosse mais cruel p a r a o c o r p o d o culpado."
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Pela c o m p r e e n s ã o tradicional, as dores d o c o r p o n ã o pertenciam i n t e i r a m e n t e à pessoa c o n d e n a d a i n d i v i d u a l . Essas d o r e s t i n h a m os propósitos religiosos e políticos mais elevados da redenção e reparação da c o m u n i d a d e . Os corpos p o d i a m ser mutilados c o m o objetivo de i m p o r a autoridade, e q u e b r a d o s o u q u e i m a d o s c o m o objetivo de restaurar a o r d e m m o r a l , política e religiosa. E m o u t r a s palavras, o ofensor servia c o m o u m a espécie d e v í t i m a sacrificai, cujo sofrimento restauraria a i n t e g r i d a d e d a c o m u n i dade e a o r d e m d o Estado. A natureza sacrificai d o rito n a França era s u b l i n h a d a pela inclusão de u m ato formal de p e n i t ê n c i a (a amende honorablé) e m m u i t a s sentenças francesas, q u a n d o o crim i n o s o c o n d e n a d o carregava u m a tocha de fogo e parava na frente de u m a igreja para pedir p e r d ã o a c a m i n h o d o cadafalso.
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9. Procissão para Tyburn, por William Hogarth, 1747 0 aprendiz ocioso executado em Tyburn é a ilustração 11 da série de 1 logarth Industryand Idleness [Atividade e ociosidade], que compara o destino de dois aprendizes. Esta representa o triste fim de Thomas Idle, o aprendiz ocioso [em inglês, the idle apprentice]. A forca pode ser vista no fundo à direita, perto da tribuna para a multidão. Um pregador metodista discursa enfadonhamente para o prisioneiro, que está provavelmente lendo a sua Bíblia enquanto é transportado de carroça ao lado de seu caixão. Um homem vende bolos no primeiro plano à direita. O seu cesto está rodeado por quatro velas porque ele está ali desde o amanhecer, servindo as pessoas que chegaram cedo para conseguir bons lugares. I Im garoto está roubando a sua carteira. Atrás da mulher apregoando a confissão de Thomas Idle está outra, vendendo gim guardado no cesto preso à sua cintura. À sua frente uma mulher dá um soco num homem, enquanto outro homem ali perto se prepara para atirar um cachorro no pregador. Hogarth capta toda a desordem da multidão da execução. A legenda diz: "Desenhado & Gravado por Wm Hogarth Publicado segundo a Lei do Parlamento 30 de setembro de 1747".
F I G U R A

C o m o a p u n i ç ã o era u m rito sacrificai, a festividade inevitavelmente a c o m p a n h a v a e às vezes eclipsava o m e d o . As execuções públicas r e u n i a m milhares de pessoas para celebrar a recuperação
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c o m u n i t á r i a d o d a n o d o crime. As execuções e m Paris ocorriam n a m e s m a praça — a Place de Greve — e m q u e os fogos de artifício celebravam os nascimentos e os casamentos da família real. C o m o os observadores frequentemente relatavam, entretanto, essa festivid a d e t i n h a e m si u m a qualidade imprevisível. As classes inglesas educadas expressavam cada vez mais a sua desaprovação das "cenas espantosas de embriaguez e devassidão" que a c o m p a n h a v a m t o d a execução e m Tyburn (figura 9). E m cartas, os observadores deplor a v a m q u e a m u l t i d ã o ridicularizasse os clérigos enviados p a r a prestar assistência aos prisioneiros, que os aprendizes de cirurgiões e os amigos dos executados brigassem pelos cadáveres, e de m o d o geral q u e houvesse a expressão de u m a "espécie de Alegria, c o m o se o Espetáculo que t i n h a m presenciado lhes proporcionasse Prazer e m vez de Dor". Relatando u m enforcamento n o inverno de 1776, o MorningPostde Londres reclamava que a "multidão impiedosa se c o m p o r t a v a c o m u m a indecência e x t r e m a m e n t e d e s u m a n a — g r i t a n d o , r i n d o , a t i r a n d o bolas de neve u n s n o s o u t r o s , p r i n c i p a l m e n t e naqueles poucos que manifestavam u m a compaixão a p r o priada pelas desgraças de seus semelhantes".
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sas sobre as t o r t u r a s infligidas a nossos semelhantes". Desnecessário dizer, n ã o é " s e m d ú v i d a " q u e essa fosse a e m o ç ã o p r e d o m i nante das m u l h e r e s . A m u l t i d ã o já n ã o sentia as e m o ç õ e s q u e o espetáculo se destinava a provocar.
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A dor, o castigo e o espetáculo público d o sofrimento p e r d e ram t o d o s as suas a m a r r a s religiosas n a segunda m e t a d e d o século xviii, m a s o processo n ã o a c o n t e c e u de r e p e n t e e n ã o era m u i t o b e m c o m p r e e n d i d o à época. M e s m o Beccaria deixou de ver todas as consequências d o n o v o p e n s a m e n t o q u e ele t a n t o c o n t r i b u i u para cristalizar. Q u e r i a p ô r a lei n u m a base r o u s s e a u n i a n a e m vez <le religiosa: as leis "devem ser convenções entre os h o m e n s n u m estado de liberdade", sustentava. Mas e m b o r a argumentasse e m favor de u m a m o d e r a ç ã o d o c a s t i g o — q u e deveria ser "o m e n o r p o s sível n o caso d a d o " e " p r o p o r c i o n a l ao c r i m e " — , Beccaria ainda insistia q u e ele deveria ser público. Para ele, a exposição pública garantia a transparência da lei.
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N a visão individualista e secular que nascia, as dores p e r t e n ciam apenas ao sofredor, aqui e agora. A atitude e m relação à d o r não m u d o u p o r causa d o aperfeiçoamento m é d i c o n o t r a t a m e n t o da dor. O s q u e exerciam a medicina tentavam certamente aliviar a dor à época, m a s os verdadeiros passos pioneiros e m anestesia só aconteceram e m m e a d o s d o século xix, c o m o uso d o éter e d o clorofórmio. E m vez disso, a m u d a n ç a de atitude surgiu c o m o u m a consequência da reavaliação d o corpo individual e de suas dores. (:omo a d o r e o p r ó p r i o c o r p o agora p e r t e n c i a m s o m e n t e ao indivíduo, e n ã o à c o m u n i d a d e , o indivíduo já n ã o podia ser sacrificado p a r a o b e m da c o m u n i d a d e ou para u m propósito religioso mais elevado. C o m o o r e f o r m a d o r inglês H e n r y Dagge insistia, "o b e m da sociedade é p r o m o v i d o c o m mais sucejsso pelo respeito aos indivíduos". E m vez da expiação de u m pecado, o castigo devia ser visto c o m o o p a g a m e n t o de u m a " d í v i d a " c o m a sociedade, e claramente n e n h u m p a g a m e n t o p o d i a ser esperado de u m corpo m u t i -

M e s m o q u a n d o a m u l t i d ã o era m a i s m o d e r a d a , só o seu t a m a n h o já podia ser p e r t u r b a d o r . U m visitante britânico e m Paris relatou u m a execução pelo suplício da r o d a e m 1787: " O b a r u l h o da m u l t i d ã o era c o m o o m u r m ú r i o rouco causado pelas ondas d o m a r q u e b r a n d o ao longo de u m a costa rochosa: p o r u m m o m e n t o amainava; e n u m silêncio terrível a m u l t i d ã o contemplava o carrasco pegar u m a b a r r a de ferro e dar início à tragédia, golpeando o antebraço da vítima". M u i t o p e r t u r b a d o r p a r a este e m u i t o s o u t r o s observadores era o g r a n d e n ú m e r o de espectadoras: "É espantoso q u e a p a r t e mais delicada da criação, cujos s e n t i m e n t o s são t ã o r e q u i n t a d a m e n t e ternos e refinados, venha e m grandes n ú m e r o s para ver u m espetáculo tão sangrento; m a s , sem dúvida, é a piedade, a compaixão b o n d o s a que sentem o q u e as t o r n a tão ansio96

V. '
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lado. Se a d o r t i n h a servido c o m o o símbolo da reparação n o antigo regime, agora a d o r parecia u m obstáculo a qualquer quitação significativa. N u m exemplo dessa m u d a n ç a de visão, m u i t o s juízes nas colônias britânicas n a América d o N o r t e c o m e ç a r a m a i m p o r m u l t a s p o r delitos c o n t r a a p r o p r i e d a d e e m vez de chibatadas.
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década de 1780. M u i t o s advogados, p o r exemplo, p u b l i c a r a m p e t i ções n a década de 1760 d e n u n c i a n d o a injustiça da c o n d e n a ç ã o d e Calas, mas, c o m o Voltaire, n e n h u m deles se o p u n h a ao e m p r e g o d a lortura judicial ou ao suplício d a roda. Eles t a m b é m focalizavam o fanatismo religioso, q u e estavam convencidos de haver i n c i t a d o tanto as pessoas c o m u n s c o m o os juízes e m Toulouse. As petições se alongavam sobre o m o m e n t o d a t o r t u r a e m o r t e de Jean Calas, mas sem questionar a sua legitimidade c o m o i n s t r u m e n t o s penais. Na verdade, as petições e m favor de Calas essencialmente s u s tentavam as pressuposições q u e estão p o r trás da t o r t u r a e d o castigo cruel. Os defensores de Calas p r e s s u p u n h a m q u e o c o r p o c o m a d o r diria a verdade: Calas p r o v o u a sua inocência q u a n d o c o n t i n u o u s u s t e n t a n d o - a m e s m o c o m a d o r e o sofrimento (figura 10). lim linguagem típica d o lado p r ó - C a l a s , Alexandre-Jerôme Loyseau de M a u l é o n insistia q u e " C a l a s s u p o r t o u a questão [a t o r t u r a ] c o m u m a resignação h e r o i c a q u e só p e r t e n c e à inocência". E n q u a n t o seus ossos estavam s e n d o esmagados u m a u m , Calas p r o n u n c i o u "estas palavras c o m o v e n t e s " : " M o r r o i n o c e n t e ; Jesus Cristo, a p r ó p r i a inocência, desejou fervorosamente m o r r e r c o m u m s o f r i m e n t o ainda m a i s c r u e l . D e u s p u n e e m m i m o p e c a d o daquele infeliz [o filho de Calas] q u e se m a t o u . [...] Deus é justo, e adoro os seus castigos". Loyseau a r g u m e n t a v a , além d o mais, q u e a "perseverança majestosa" d o velho Calas provocou u m a inversão dos s e n t i m e n t o s da p o p u l a ç ã o . V e n d o - o afirmar r e p e t i d a m e n t e a sua i n o c ê n c i a d u r a n t e os seus t o r m e n t o s , o p o v o de T o u l o u s e c o m e ç o u a sentir compaixão e a se a r r e p e n d e r da suspeita irracional q u e antes sentia em relação a o calvinista. Cada golpe da vara d e I erro "soava.no fundo das a l m a s " daqueles que presenciavam a exe(. tição, e "torrentes de lágrimas se d e r r a m a v a m , tarde demais, d e lodos os olhos presentes". As " t o r r e n t e s de lágrimas" seriam s e m pre " d e m a s i a d o tardias" e n q u a n t o as pressuposições p o r trás d a lortura e d o castigo cruel c o n t i n u a s s e m sem q u e s t i o n a m e n t o .
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Na nova visão, c o n s e q u e n t e m e n t e , o castigo cruel executado n u m cenário público constituía u m ataque à sociedade, em vez de sua reafirmação. A d o r brutalizava o indivíduo — e p o r identificação os espectadores — e m vez de abrir a p o r t a p a r a a salvação p o r m e i o d o a r r e p e n d i m e n t o . Assim, o advogado inglês William Eden d e n u n c i o u a exposição dos cadáveres: " d e i x a m o - n o s a p o d r e c e r c o m o espantalhos nas sebes, e nossas forcas estão a m o n t o a d a s de carcaças h u m a n a s . Alguma dúvida de q u e u m a familiaridade forçada c o m esses objetos possa ter qualquer o u t r o efeito que não seja o de e m b o t a r os sentimentos e destruir os preconceitos benevolentes das pessoas?". E m 1787, Benjamin Rush podia afastar até as últim a s dúvidas. "A reforma de u m c r i m i n o s o jamais p o d e ser levada a efeito p o r u m castigo público", afirmava sem rodeios. O castigo p ú b l i c o d e s t r ó i q u a l q u e r sensação de v e r g o n h a , n ã o p r o d u z m u d a n ç a s de a t i t u d e e, e m vez d e f u n c i o n a r c o m o u m i n s t r u m e n t o de dissuasão, t e m o efeito oposto nos espectadores. E m b o r a concordasse c o m Beccaria n a sua oposição à p e n a de m o r t e , o dr. Rush o a b a n d o n a v a ao a r g u m e n t a r que o castigo devia ser privado, m i n i s t r a d o p o r trás das paredes de u m a prisão e o r i e n t a d o p a r a a reabilitação, isto é, a readaptação d o c r i m i n o s o à sociedade e à sua liberdade pessoal, "tão cara a t o d o s os homens".
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OS E S T E R T O R E S DA

TORTURA

A conversão das elites às novas visões d a d o r e d a p u n i ç ã o ocorreu em estágios entre o início da década de 1760 e o final d a
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A principal dessas pressuposições era a de q u e a t o r t u r a podia incitar o c o r p o a falar a verdade, m e s m o q u a n d o a m e n t e individual resistisse. U m a longa t r a d i ç ã o fisionômica n a E u r o p a t i n h a sustentado que o caráter p o d i a ser d e s v e n d a d o a partir das marcas ()u sinais d o corpo. N o final d o século xvi e n o XVII foram publicadas várias obras sobre "metoposcopia", p r o m e t e n d o ensinar os leilores a interpretar o caráter o u a sorte de u m a pessoa a partir das linhas, rugas ou m a n c h a s n a face. U m dos títulos típicos era o de Richard Saunders: Physiognomie, The Symmetrical Proportions and Accurately Explained, and Chiromancie, Metoposcopie, Significametopose acuprevisíveis and Signal Moles of the Body, Fully

with their Natural-Predictive

lionsBoth toMen and Women [Fisionomia e quiromancia, copia, as proporções simétricas e os sinais do corpo plenamente radamente explicados, com suas significações naturais

tanto para os homens como para as mulheres], publicado e m 1653. Sem ter de e n d o s s a r as v a r i a n t e s m a i s e x t r e m a s dessa t r a d i ç ã o , muitos e u r o p e u s acreditavam q u e os corpos p o d i a m revelar a pessoa interior de u m a forma involuntária. E m b o r a remanescentes FIGURA IO. Sentimentalizando o caso Calas A reprodução do caso Calas que teve circulação mais ampla foi esta, em tamanho grande (originalmente 3 4 x 4 5 cm), realizada pelo artista e gravurista alemão Daniel Chodowiecki, que fez a gravura a partir de sua própria pintura a óleo da cena. A água-forte estabeleceu a sua reputação e manteve viva a afronta sentida por toda parte devido ao castigo de Calas. Chodowiecki tinha se casado com uma mulher pertencente a uma família de refugiados protestantes franceses em Berlim apenas três anos antes de produzir esta gravura. desse p e n s a m e n t o a i n d a p u d e s s e m ser e n c o n t r a d o s n o final d o século xviii e início d o xix, n a forma, p o r exemplo, da frenología, a maioria dos cientistas e médicos se virou contra ele depois de 1750. Argumentavam que a aparência exterior do corpo não tinha n e n h u m a relação c o m a a l m a o u caráter interior. Assim, o criminoso p o d i a dissimular, e o i n o c e n t e p o d i a m u i t o b e m confessar u m crime q u e n ã o cometera. C o m o Beccaria insistia ao a r g u m e n tar c o n t r a a t o r t u r a , "o r o b u s t o escapará e o fraco será condenado". A dor, n a análise de Beccaria, n ã o p o d i a ser "o teste da verdade, c o m o se a verdade residisse nos m ú s c u l o s e fibras de u m desgraçado sob tortura". A d o r era m e r a m e n t e u m a sensação sem conexão c o m o s e n t i m e n t o m o r a l . '
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O s relatos dos advogados diziam relativamente p o u c o sobre I reação de Calas à t o r t u r a , p o r q u e "a questão" ocorria em privado,
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longe dos olhos dos observadores. A aplicação privada da t o r t u r a t o r n a v a - a especialmente repulsiva aos olhos de Beccaria. Significava q u e o acusado perdia a sua "proteção pública" m e s m o antes de ser considerado culpado, e que qualquer valor impeditivo da p u n i ção t a m b é m se perdia. Os juízes franceses t a m b é m começavam clar a m e n t e a sentir algumas dúvidas, sobretudo a respeito da t o r t u r a p a r a conseguir confissões de culpa. Depois de 1750, os parlements franceses (tribunais regionais de apelação) c o m e ç a r a m a intervir para i m p e d i r o uso da t o r t u r a antes do julgamento d o caso ("tort u r a p r e p a r a t ó r i a " ) , c o m o o Parlementde Toulouse fez n o caso Calas. Eles t a m b é m decretavam c o m m e n o s frequência a p e n a de m o r t e , e o r d e n a v a m mais a m i ú d e que o c o n d e n a d o fosse estrangulado antes de ser q u e i m a d o n a fogueira o u colocado sobre a roda.
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o u t r o s e s t a v a m p r o n t o s a fazê-lo e m seu n o m e . O seu t r a d u t o r francês, o abade A n d r é Morellet, m o d i f i c o u a o r d e m d a apresenlação d e Beccaria p a r a c h a m a r a a t e n ç ã o p a r a a ligação com os "direitos d o h o m e m " . Morellet t i r o u a ú n i c a referência de Beccaria a seu objetivo de a p o i a r os "direitos d o h o m e m " (i diritti degli uomini) d o final d o c a p í t u l o 11 n a e d i ç ã o i t a l i a n a o r i g i n a l de 1764, p a s s a n d o - a p a r a a i n t r o d u ç ã o d a t r a d u ç ã o francesa de 1766. D e f e n d e r os d i r e i t o s d o h o m e m a g o r a p a r e c i a ser o principal objetivo de Beccaria, e esses d i r e i t o s e r a m a f i r m a d o s c o m o o baluarte essencial c o n t r a o sofrimento individual. O rearranjo de Morellet foi a d o t a d o e m m u i t a s t r a d u ç õ e s subsequentes e até em edições italianas p o s t e r i o r e s .
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Apesar dos esforços de Muyart, a m a r é se virou contra a tortura n a década de 1760. E m b o r a tivessem sido publicados anter i o r m e n t e ataques à t o r t u r a , o fio d'água das publicações se t o r n o u u m a t o r r e n t e . L i d e r a n d o as acusações estavam as m u i t a s t r a d u ções, reimpressões e reedições de Beccaria. U m a s 28 edições italianas, m u i t a s c o m falsos cólofons, e nove francesas foram publicadas antes de 1800, apesar de o livro ter aparecido n o índex papal dos livros proibidos e m 1766. U m a t r a d u ç ã o inglesa foi publicada e m Londres e m 1767, e a ela se seguiram edições e m Glasgow, Dublin, E d i m b u r g o , Charleston e Philadelphia. Traduções alemãs, holandesas, polonesas e espanholas apareceram p o u c o depois. O t r a d u tor l o n d r i n o de Beccaria c a p t o u o espírito mutável dos t e m p o s : "as leis penais [...] ainda são tão imperfeitas, e se fazem a c o m p a n h a r p o r tantas circunstâncias desnecessárias de crueldade e m todas as nações, que u m a tentativa de reduzi-las ao p a d r ã o da razão deve interessar a t o d a a h u m a n i d a d e " .
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Mas os juízes n ã o r e n u n c i a r a m t o t a l m e n t e à t o r t u r a , e n ã o teriam concordado com o desprezo de Beccaria pela estrutura religiosa da tortura. O reformador italiano denunciava sumariamente "outro motivo ridículo para a tortura, a saber, limpar um homem da infâmia". Esse "absurdo" só podia ser explicado c o m o "fruto da religião". C o m o a própria tortura era u m a causa de infâmia para a vítima, n ã o podia lavar a m a n c h a . Muyart de Vouglans defendia a t o r t u r a contra os argumentos de Beccaria. O exemplo de u m inocente falsam e n t e c o n d e n a d o empalidecia e m c o m p a r a ç ã o aos "milhões de outros" que eram culpados, mas que jamais p o d e r i a m ter sido condenados sem o emprego da tortura. A tortura judicial não só era, portanto, útil, c o m o t a m b é m podia ser justificada pela antiguidade e universalidade de seu emprego. As exceções frequentemente citadas só provavam a regra, insistia Muyart, que devia ser procurada na história da p r ó p r i a França e n o Sacro I m p é r i o R o m a n o . S e g u n d o Muyart, o sistema de Beccaria contradizia a lei canónica, a lei civil, a lei internacional e a "experiência de todos os séculos". O p r ó p r i o Beccaria n ã o enfatizava a c o n e x ã o e n t r e as suas visões sobre a t o r t u r a e a nascente l i n g u a g e m d o s direitos. M a s
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A crescente influência de Beccaria era tão dramática que os opositores d o I l u m i n i s m o acusavam a existência de u m a conspiração. U m a coincidência q u e ao caso Calas tivesse sucedido o tratado definidor sobre a reforma penal? Redigido, além do mais, p o r
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u m italiano anteriormente ignoto, com conhecimento apenas superficial d a lei? E m 1779, o s e m p r e i n c e n d i á r i o j o r n a l i s t a Simon-Nicolas-Henri Linguet noticiou que u m a testemunha havia lhe exposto t u d o :

D u r a n t e as décadas de 1770 e 1780, a c a m p a n h a pela abolição da t o r t u r a e pela m o d e r a ç ã o d o castigo g a n h o u i m p u l s o q u a n d o sociedades eruditas nos estados italianos, n o s cantões suíços e n a França o f e r e c e r a m p r ê m i o s p a r a os m e l h o r e s e n s a i o s s o b r e a reforma penal. O governo francês a c h o u a intensidade crescente d a crítica tão p r e o c u p a n t e q u e o r d e n o u que a academia de C h â l o n s - s u r - M a r n e parasse d e i m p r i m i r cópias d o e n s a i o v e n c e d o r d e 1780, de Jacques-Pierre Brissot de Warville. Mais d o q u e q u a l q u e r nova proposta, a retórica injuriosa de Brissot d i s p a r o u os alarmes:

Pouco depois do caso Calas, os enciclopedistas, armados com os tormentos da vítima e aproveitando circunstâncias propícias, embora sem se comprometer diretamente, como é o seu costume, escreveram ao reverendo padre Barnabite em Milão, que é seu banqueiro italiano e um famoso matemático. Contaram-lhe que era o momento de desencadear uma catilinária contra o rigor dos castigos e contra a intolerância; que a filosofia italiana devia fornecer a artilharia, e eles fariam uso dela secretamente em Paris.

Esses direitos sagrados que o homem recebeu da natureza, que a sociedade viola tão frequentemente com o seu aparato judicial, ainda requerem a supressão de muitos de nossos castigos mutiladores e a suavização daqueles que devemos preservar. É inconcebível que uma nação gentil [douce], vivendo num clima temperado sob um governo moderado, possa combinar um caráter amável e costumes pacíficos com a atrocidade de canibais. Pois os nossos castigos judiciais exalam apenas sangue e morte, e só tendem a inspirar fúria e desespero no coração do acusado.

Linguet reclamava q u e o t r a t a d o de Beccaria era a m p l a m e n t e visto c o m o u m a petição indireta e m favor de Calas e outras recentes vítimas de injustiça. A influência de Beccaria a j u d o u a galvanizar a c a m p a n h a contra a t o r t u r a , m a s n o início o processo foi lento. Dois artigos sobre a t o r t u r a n a Encyclopédie de Diderot, a m b o s publicados e m 1765, c a p t a m a ambiguidade. N o primeiro, sobre a jurisprudência da t o r t u r a , A n t o i n e - G a s p a r d Boucher d'Argis se refere prosaicam e n t e aos " t o r m e n t o s v i o l e n t o s " a q u e o a c u s a d o é s u b m e t i d o , m a s s e m n e n h u m j u l g a m e n t o s o b r e o seu m é r i t o . N o a r t i g o seguinte, entretanto, q u e considerava a t o r t u r a p a r t e d o procedim e n t o c r i m i n a l , o chevalier de J a u c o u r t m a r t e l a c o n t r a o seu e m p r e g o , d e s d o b r a n d o t o d o s os a r g u m e n t o s existentes desde a "voz da h u m a n i d a d e " às deficiências da t o r t u r a e m fornecer u m a evidência segura da culpa o u d a i n o c ê n c i a . D u r a n t e a s e g u n d a m e t a d e da década de 1760, cinco novos livros a p a r e c e r a m advogando a reforma da lei criminal. Na década de 1780, e m contraste, 39 livros desse tipo foram publicados.
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O governo francês n ã o gostou de se ver c o m p a r a d o a canibais, m a s na década de 1780 a barbárie da t o r t u r a judicial e o castigo cruel t i n h a m se t o r n a d o u m m a n t r a d a r e f o r m a . E m 1781, J o s e p h - M i c h e l - A n t o i n e Servan, u m antigo defensor da reforma penal, aplaudiu a recente decisão de Luís xvi de abolir a t o r t u r a p a r a obter u m a confissão de culpa, "essa infame t o r t u r a que p o r tantos séculos u s u r p o u o t e m p l o da p r ó p r i a justiça e o t r a n s f o r m o u n u m a escola d e s o f r i m e n t o , o n d e os carrascos professavam o refinam e n t o d a dor". A t o r t u r a judicial era p a r a ele " u m a espécie d e esfinge [...] u m m o n s t r o a b s u r d o i n d i g n o de e n c o n t r a r asilo entre os povos selvagens".
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Encorajado p o r o u t r o s reformadores apesar de sua j u v e n t u d e
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e falta de experiência, Brissot se dedicou e m seguida a publicar u m a o b r a de dez volumes, Bibliothèquephilosophique Politique et du Juriconsulte du Législateur, du (1782-5), q u e teve de ser impressa n a

e n t r e t a n t o , a pressão d e m e u s ferros (eu [isto é, D u p a t y ] p o s s o m u i t o b e m acreditar, t r i n t a meses nos ferros!) m a c h u c o u t a n t o a m i n h a p e r n a q u e ela g a n g r e n o u ; quase tiveram de amputá-la". A cena t e r m i n a c o m D u p a t y e m lágrimas. Dessa forma o advogado explora ao m á x i m o a sua solidariedade para c o m os prisioneiros.
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Suíça e c o n t r a b a n d e a d a para a França e reunia o texto de Brissot e o u t r o s escritos sobre a reforma. E m b o r a apenas u m sintetizador, Brissot claramente ligava a t o r t u r a aos direitos h u m a n o s : "Alguém é jovem demais, q u a n d o se trata de defender os direitos ultrajados da humanidade?". O t e r m o " h u m a n i d a d e " ("o espetáculo da h u m a nidade sofredora", p o r exemplo) aparecia repetidas vezes nas suas p á g i n a s . E m 1788, Brissot f u n d o u a Sociedade dos A m i g o s d o s Negros, a primeira sociedade francesa pela abolição da escravatura. Assim, a c a m p a n h a pela reforma penal t o r n o u - s e cada vez m a i s i n t i m a m e n t e associada c o m a defesa geral dos direitos h u m a n o s .
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D u p a t y e n t ã o m u d a de n o v o a p e r s p e c t i v a , dessa vez d i r i gindo-se d i r e t a m e n t e aos juízes: "Juízes de C h a u m o n t , Magistrados, Criminalistas, vós o escutais? [... ] Eis o grito d a razão, d a verdade, da justiça e da Lei". Por fim, D u p a t y convoca d i r e t a m e n t e a intervenção d o rei. I m p l o r a q u e o m o n a r c a escute o sangue d o s i n o c e n t e s , de Calas a seus três l a d r õ e s a c u s a d o s : " d i g n e - s e , d a altura de seu t r o n o , digne-se a dar u m a o l h a d a e m todas as ciladas sangrentas de sua legislação criminal, o n d e perecemos, o n d e t o d o s os dias i n o c e n t e s p e r e c e m ! " A p e t i ç ã o e n t ã o c o n c l u i c o m u m a súplica d e várias páginas p a r a q u e Luís xvi reforme a legislação criminal de a c o r d o c o m a razão e a h u m a n i d a d e .
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Brissot e m p r e g o u as m e s m a s estratégias retóricas dos advogados q u e escreviam petições das várias causes célebres francesas d a década de 1780: eles n ã o só defendiam seus clientes e r r o n e a m e n t e a c u s a d o s , m a s t a m b é m a t a c a v a m cada vez m a i s o sistema legal c o m o u m t o d o . Aqueles q u e escreviam petições a d o t a v a m e m geral a voz e m p r i m e i r a pessoa de seus clientes, p a r a desenvolver n a r r a tivas r o m a n e s c a s m e l o d r a m á t i c a s que p r o v a v a m a sua tese. Essa estratégia retórica c u l m i n o u e m duas petições escritas p o r u m dos c o r r e s p o n d e n t e s de Brissot, C h a r l e s - M a r g u e r i t e D u p a t y , u m m a g i s t r a d o de B o r d e a u x r e s i d e n t e e m Paris q u e i n t e r v e i o e m n o m e de três h o m e n s c o n d e n a d o s ao suplício d a roda p o r r o u b o agravado. A primeira petição de Dupaty, de 1786, c o m 251 páginas, n ã o só d e n u n c i a v a c a d a deslize d o p r o c e s s o judicial c o m o incluía u m relato detalhado de seu e n c o n t r o c o m os três h o m e n s na prisão. Nesse relato, D u p a t y passa inteligentemente de sua visão da cena na primeira pessoa para a dos prisioneiros: "E eu, Bradier [ u m dos c o n d e n a d o s ] , e n t ã o disse, m e t a d e d o m e u c o r p o ficou inchado p o r seis meses. E eu, disse Lardoise [outro dos c o n d e n a dos] , graças a Deus fui capaz de resistir [a u m a epidemia n a prisão];

A petição de D u p a t y incitou de tal f o r m a a o p i n i ã o pública em favor d o acusado e c o n t r a o sistema legal que o Parlementde Paris v o t o u que fosse p u b l i c a m e n t e q u e i m a d a . O porta-voz d o trib u n a l d e n u n c i o u o estilo r o m a n e s c o da petição: D u p a t y "vê a seu lado a h u m a n i d a d e t r e m e n d o e e s t e n d e n d o - l h e as m ã o s , u m a terra natal desgrenhada m o s t r a n d o - l h e as suas feridas, a nação inteira a s s u m i n d o a voz de D u p a t y e o r d e n a n d o q u e fale em seu nome". Mas o t r i b u n a l se m o s t r o u i m p o t e n t e p a r a conter a m a r é crescente da opinião. Jean Caritat, m a r q u ê s de C o n d o r c e t , e m breve o defensor dos direitos h u m a n o s m a i s coerente e d e m a i o r projeção d a Revolução Francesa, p u b l i c o u dois panfletos e m favor de D u p a t y n o final de 1786. E m b o r a n ã o fosse ele p r ó p r i o u m advogado, C o n dorcet atacou o "desprezo pelo h o m e m " d e m o n s t r a d o pelo t r i b u nal e a c o n t í n u a "violação manifesta da lei n a t u r a l " que se t o r n a r a patente n o caso Calas e e m o u t r o s j u l g a m e n t o s injustos realizados desde e n t ã o .
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E m 1788, a p r ó p r i a C o r o a francesa já t i n h a se associado a m u i t a s d a s n o v a s a t i t u d e s . N o d e c r e t o q u e abolia p r o v i s o r i a m e n t e a t o r t u r a antes da execução p a r a obter n o m e s de c ú m p l i ces, o g o v e r n o de Luís xvi falava de " r e a f i r m a r a i n o c ê n c i a [...] r e m o v e r d o castigo q u a l q u e r excesso de severidade [... e] p u n i r os malfeitores c o m t o d a a m o d e r a ç ã o que a h u m a n i d a d e exige". N o seu t r a t a d o de 1780 sobre a lei criminal francesa, M u y a r t r e c o n h e cia q u e , ao defender a validade de confissões obtidas p o r m e i o de t o r t u r a , " n ã o ignoro a b s o l u t a m e n t e o fato de q u e devo c o m b a t e r u m sistema q u e mais d o q u e n u n c a g a n h o u crédito e m t e m p o s recentes". M a s ele se recusava a e n t r a r n o debate, insistindo q u e seus opositores e r a m s i m p l e s m e n t e polemistas e q u e ele t i n h a a força d o p a s s a d o p o r t r á s d e sua p o s i ç ã o . A c a m p a n h a pela reforma p e n a l n a França foi tão b e m - s u c e d i d a q u e e m 1789 a correção dos abusos n o código criminal constituía u m a das questões mais f r e q u e n t e m e n t e citadas nas listas de queixas p r e p a r a d a s p a r a os futuros Estados Gerais.
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ligou os defeitos d o castigo p ú b l i c o à n o v a n o ç ã o d o i n d i v í d u o a u t ô n o m o mas solidário. C o m o médico, Rush admitia algum emprego de dor c o r p o r a l n o castigo, e m b o r a ele claramente preferisse "trabalho, vigilância, solidão e silêncio", u m r e c o n h e c i m e n t o da individualidade e potencial utilidade d o c r i m i n o s o . O castigo público se mostrava m u i t o objetável, aos seus olhos, pela sua t e n d ê n c i a a d e s t r u i r a s i m p a t i a , "a v i c e - r e g e n t e d a b e n e v o l ê n c i a divina e m nosso m u n d o " . Essas são as palavras-chave: a simpatia — o u o que agora c h a m a m o s e m p a t i a — p r o p i c i a v a os f u n d a m e n tos d a m o r a l i d a d e , a c e n t e l h a d o d i v i n o n a v i d a h u m a n a , " e m nosso m u n d o " . "A sensibilidade é a sentinela d a faculdade moral", afirmava Rush. Ele equiparava essa sensibilidade a " u m senso r e p e n t i n o d e justiça", u m a espécie de reflexo c o n d i c i o n a d o para o b e m m o r a l . O castigo p ú b l i c o dava u m c u r t o - c i r c u i t o n a s i m p a t i a : " q u a n d o a desgraça que os c r i m i n o s o s sofrem é o efeito de u m a lei d o Estado, a q u e n ã o se p o d e resistir, a simpatia d o espectador é a b o r t a d a e r e t o r n a vazia ao seio e m q u e foi despertada". Assim, o castigo público solapava os s e n t i m e n t o s sociais, t o r n a n d o os espectadores

AS PAIXÕES E A PESSOA

cada vez mais insensíveis: os espectadores p e r d i a m os seus sentim e n t o s d e " a m o r u n i v e r s a l " e a sensação de q u e os c r i m i n o s o s t i n h a m corpos e almas semelhantes aos seus.
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Ao longo desse debate cada vez mais unilateral, os novos significados atribuídos ao corpo t i n h a m se t o r n a d o mais p l e n a m e n t e evidentes. O corpo q u e b r a d o de Calas o u até a p e r n a gangrenada de Lardoise, o ladrão acusado de Dupaty, g a n h a r a m u m a nova dignidade. Nas idas e vindas sobre a t o r t u r a e o castigo cruel, essa dignidade apareceu p r i m e i r o nas reações negativas aos ataques j u d i ciais que sofreu. Mas c o m o t e m p o t o r n o u - s e o m o t i v o , c o m o era e v i d e n t e nas petições d e D u p a t y , d e s e n t i m e n t o s positivos de empatia. Só mais para o fim d o século x v m é q u e as pressuposições d o novo m o d e l o se t o r n a r a m explícitas. N o seu c u r t o m a s ilumin a d o r panfleto de dezoito páginas de 1787, o dr. Benjamin Rush
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E m b o r a Rush c e r t a m e n t e se considerasse u m b o m cristão, o seu m o d e l o de pessoa diferia e m quase t o d o s os aspectos daquele p r o p o s t o p o r Muyart d e Vouglans na sua defesa da t o r t u r a e dos castigos c o r p o r a i s t r a d i c i o n a i s . Para M u y a r t , o p e c a d o original explicava a incapacidade dos h u m a n o s de controlar as suas p a i xões. Era verdade q u e as paixões forneciam a força m o t i v a d o r a d a vida, m a s a sua turbulência, o u m e s m o rebeldia, inerente t i n h a d e ser c o n t r o l a d a pela r a z ã o , pelas pressões da c o m u n i d a d e , pela igreja e, n a falta dela, n o caso d o crime, pelo Estado. Na visão d e Muyart, as fontes d o c r i m e (vício) e r a m as paixões desejo e m e d o ,
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"o desejo de se adquirir coisas q u e não se t ê m e o m e d o de se perder aquelas q u e se têm". Essas paixões sufocavam os sentimentos de h o n r a e justiça gravados pela lei natural n o coração h u m a n o . A D i v i n a P r o v i d ê n c i a dava aos reis a s u p r e m a a u t o r i d a d e sobre a vida dos h o m e n s , q u e eles delegavam aos juízes, reservando para si m e s m o s o direito d o perdão. O objetivo principal da lei criminal era, p o r t a n t o , a prevenção d o triunfo d o vício sobre a virtude. C o n ter o m a l inerente da h u m a n i d a d e era o lema da visão de justiça de Muyart.
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S u b s c r e v e n d o u m a filosofia explicitamente m a t e r i a l i s t a o u n ã o — e a maioria das pessoas n ã o a subscrevia — , vários m e m b r o s das elites cultas p a s s a r a m a sustentar u m a visão das paixões m u i t o diferente daquela defendida p o r M u y a r t . A e m o ç ã o e a razão p a s s a r a m a ser vistas c o m o parceiras. As paixões e r a m "o único M o t o r d o Ser Sensível e d o s Seres Inteligentes", s e g u n d o o fisiologista suíço Charles B o n n e t . As paixões e r a m boas e p o d i a m ser m o b i l i zadas pela educação p a r a o aperfeiçoamento da h u m a n i d a d e , q u e agora era vista c o m o aperfeiçoável e m vez de i n e r e n t e m e n t e m á . Por essa visão, os c r i m i n o s o s t i n h a m c o m e t i d o erros, m a s p o d i a m ser r e e d u c a d o s . A l é m disso, as p a i x õ e s , b a s e a d a s n a b i o l o g i a , n u t r i a m a sensibilidade m o r a l . O s e n t i m e n t o era a reação e m o c i o nal a u m a sensação física, e a m o r a l i d a d e era a e d u c a ç ã o d e s s e s e n t i m e n t o p a r a trazer à luz o seu c o m p o n e n t e social (a sensibilid a d e ) . Laurence Sterne, o r o m a n c i s t a favorito de T h o m a s Jefferson, colocou o n o v o credo da era n a b o c a de Yorick, o p e r s o n a g e m central de seu r o m a n c e r e v e l a d o r a m e n t e intitulado Uma sentimental: viagem

Os reformadores e m última análise invertiam as pressuposições filosóficas e políticas desse m o d e l o e defendiam e m seu lugar o cultivo, p o r m e i o da educação e da experiência, de qualidades h u m a n a s i n e r e n t e m e n t e boas. E m m e a d o s d o século xvm, alguns filósofos d o I l u m i n i s m o t i n h a m a d o t a d o u m a p o s i ç ã o sobre as paixões q u e n ã o diferia daquela proposta recentemente pelo n e u rologista A n t ó n i o D a m á s i o , q u e insiste e m q u e as e m o ç õ e s são cruciais p a r a o r a c i o c í n i o e a consciência, e n ã o h o s t i s a eles. E m b o r a D a m á s i o ligue suas raízes intelectuais a Espinosa, filósofo holandês d o século XVII, as elites europeias só passaram a aceitar de m o d o abrangente u m a avaliação mais positiva das e m o ç õ e s — d a s paixões, c o m o eles as c h a m a v a m — n o século XVIII. O " e s p i n o s i s m o " t i n h a m á r e p u t a ç ã o p o r levar ao m a t e r i a l i s m o (a a l m a é apenas matéria, p o r isso n ã o h á alma) e ao ateísmo (Deus é a n a t u reza, p o r t a n t o n ã o há D e u s ) . E m m e a d o s d o século x v m , alguns dos pertencentes às profissões cultas t i n h a m aceitado, ainda assim, u m a espécie de materialismo implícito ou mitigado, q u e n ã o fazia afirmações teológicas sobre a alma, mas a r g u m e n t a v a q u e a m a t é ria p o d i a p e n s a r e sentir. Essa versão d o m a t e r i a l i s m o c o n d u z i a logicamente à posição igualitária de que t o d o s os h u m a n o s t ê m a m e s m a organização física e m e n t a l e, p o r t a n t o , de q u e a experiência e a educação, e n ã o o nascimento, explicam as diferenças entre eles.
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Cara sensibilidade! [...] eterna fonte de nossos sentimentos! — é aqui que te descubro — e esta é a tua divindade que se agita d e n t r o de mim [...] que sinto algumas alegrias generosas e afetos generosos além de mim mesmo — tudo vem de ti, grande — grande SENSÓRIO do mundo! que vibra mesmo quando um único fio de cabelo cai sobre o chão, no deserto mais remoto da tua criação.

Sterne encontrava essa sensibilidade até n o "camponês mais r u d e " .

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Talvez pareça u m t a n t o e x a g e r a d o estabelecer u m a l i g a ç ã o entre assoar o nariz c o m u m lenço, escutar música, ler u m r o m a n c e o u e n c o m e n d a r u m retrato e a abolição da t o r t u r a e a m o d e r a ç ã o do castigo cruel. Mas a t o r t u r a legalmente sancionada n ã o t e r m i n o u apenas p o r q u e os juízes desistiram desse expediente, o u p o r 111

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q u e os escritores d o I l u m i n i s m o finalmente se o p u s e r a m a ela. A t o r t u r a t e r m i n o u p o r q u e a estrutura tradicional da d o r e da pessoa se d e s m a n t e l o u e foi s u b s t i t u í d a p o u c o a p o u c o p o r u m a n o v a e s t r u t u r a , n a q u a l os i n d i v í d u o s e r a m d o n o s d e seus c o r p o s , t i n h a m direitos relativos à individualidade e à inviolabilidade desses corpos, e reconheciam e m outras pessoas as m e s m a s paixões, s e n t i m e n t o s e simpatias que v i a m e m si m e s m o s . "Os h o m e n s e às vezes mulheres", p a r a voltar ao b o m dr. Rush pela última vez, "cujas pessoas d e t e s t a m o s [ c r i m i n o s o s c o n d e n a d o s ] p o s s u e m almas e corpos c o m p o s t o s dos m e s m o s materiais que os de nossos amigos e conhecidos." Se c o n t e m p l a m o s as suas misérias "sem e m o ç ã o ou simpatia", e n t ã o o p r ó p r i o "princípio da simpatia cessará c o m p l e t a m e n t e d e a t u a r ; e [...] logo p e r d e r á o seu l u g a r n o c o r a ç ã o humano".
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3. "Eles deram u m grande exemplo"
Declarando os direitos

DECLARAÇÃO: A a ç ã o d e afirmar, dizer, a p r e s e n t a r o u a n u n c i a r aberta, explícita o u f o r m a l m e n t e ; afirmação o u asserção positiva; u m a asserção, a n ú n c i o o u proclamação e m t e r m o s enfáticos, solenes o u legais. [...] U m a proclamação ou afirmação pública incorp o r a d a n u m d o c u m e n t o , i n s t r u m e n t o o u ato público. — English Dictionary, 2 ed. eletrônica.
a

Oxford

Por que os direitos d e v e m ser apresentados n u m a declaração? Por q u e os países e os cidadãos sentem a necessidade dessa afirmação formal? As c a m p a n h a s p a r a abolir a t o r t u r a e o castigo cruel a p o n t a m para u m a resposta: u m a afirmação formal e pública confirma as m u d a n ç a s q u e o c o r r e r a m nas atitudes subjacentes. Mas as declarações de direitos e m 1776 e 1789 f o r a m a i n d a mais longe. Mais d o q u e assinalar transformações nas atitudes e expectativas gerais, elas a j u d a r a m a t o r n a r efetiva u m a transferência de soberania, de Jorge 111 e o P a r l a m e n t o britânico p a r a u m a nova república n o caso a m e r i c a n o e d e u m a m o n a r q u i a q u e reivindicava u m a a u t o r i d a d e s u p r e m a p a r a u m a nação e seus representantes n o caso

1
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francês. E m 1776 e 1789, as declarações a b r i r a m p a n o r a m a s políticos i n t e i r a m e n t e novos. As c a m p a n h a s c o n t r a a t o r t u r a e o castigo cruel seriam fundidas, a partir de então, c o m toda u m a legião de o u t r a s causas de direitos h u m a n o s , cuja relevância só se t o r n o u clara depois q u e as declarações foram feitas. A história da palavra"declaração" fornece u m a p r i m e i r a indicação da m u d a n ç a n a soberania. A palavra inglesa"declaration" v e m d a francesa declaration. E m francês, a palavra se referia origin a l m e n t e a u m catálogo de terras a serem dadas e m troca d o juram e n t o de vassalagem a u m senhor feudal. Ao longo d o século
XVII,

" Q u a n d o , n o C u r s o dos a c o n t e c i m e n t o s h u m a n o s , t o r n a - s e n e cessário q u e u m p o v o dissolva os laços políticos q u e o l i g a m a o u t r o e a s s u m a e n t r e as p o t ê n c i a s d a t e r r a a posição s e p a r a d a e igual a q u e lhe dão direito as Leis da N a t u r e z a e d o D e u s da N a t u reza, u m respeito decente pelas opiniões d a h u m a n i d a d e r e q u e r que ele declare [ m i n h a ênfase] as causas q u e o i m p e l e m à separação". U m a expressão de "respeito decente" n ã o p o d i a obscurecer o p o n t o p r i n c i p a l : as c o l ô n i a s e s t a v a m se d e c l a r a n d o u m E s t a d o separado e igual e se a p o d e r a n d o de sua p r ó p r i a soberania.* E m c o n t r a s t e , e m 1789 os d e p u t a d o s franceses a i n d a n ã o estavam p r o n t o s p a r a r e p u d i a r explicitamente a soberania de seu rei. Mas eles ainda assim quase realizaram esse repúdio, ao omitir d e l i b e r a d a m e n t e q u a l q u e r m e n ç ã o ao rei n a sua Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o C i d a d ã o : " O s r e p r e s e n t a n t e s d o p o v o francês, r e u n i d o s e m Assembleia Nacional e c o n s i d e r a n d o q u e a ignorância, a negligência o u o m e n o s p r e z o dos direitos do h o m e m são as únicas causas dos males públicos e da c o r r u p ç ã o governam e n t a l , resolveram a p r e s e n t a r n u m a declaração [ m i n h a ênfase] solene os direitos naturais, inalienáveis e sagrados d o homem". A Assembleia tinha de fazer algo mais além de proferir discursos o u r a s c u n h a r leis sobre questões específicas. T i n h a de aspirar a escrever p a r a a p o s t e r i d a d e q u e os direitos n ã o fluíam de u m a c o r d o entre o governante e os cidadãos, m e n o s ainda de u m a petição a ele o u d e u m a carta concedida p o r ele, m a s antes da natureza dos p r ó prios seres h u m a n o s . Esses atos de declarar t i n h a m ao m e s m o t e m p o u m ar r e t r ó grado e avançado. E m cada caso, os declarantes afirmavam estar c o n f i r m a n d o direitos q u e já existiam e e r a m inquestionáveis. Mas ao fazê-lo efetuavam u m a revolução n a soberania e criavam u m a base i n t e i r a m e n t e nova p a r a o governo. A Declaração da I n d e p e n -

p a s s o u cada vez mais a se referir às afirmações públicas d o rei. E m o u t r a s palavras, o ato de declarar estava ligado à soberania. Q u a n d o a a u t o r i d a d e se deslocou dos senhores feudais para o rei francês, o p o d e r de fazer declarações t a m b é m m u d o u de m ã o s . Na Inglaterra, o inverso t a m b é m é válido: q u a n d o os súditos q u e r i a m de seus reis a reafirmação de seus direitos, eles r e d i g i a m as suas p r ó p r i a s declarações. Assim, a M a g n a Carta ("Great Charter") de 1215 formalizou os direitos dos barões ingleses e m relação ao rei inglês; a Petição de Direitos de 1628 c o n f i r m o u os "diversos Direitos e Liberdades dos Súditos"; e a Bill of Rights inglesa de 1689 valid o u "os verdadeiros, antigos e indubitáveis direitos e liberdades d o povo deste reino".
1

E m 1776 e 1789, as palavras "carta", "petição" e"bill" pareciam i n a d e q u a d a s para a tarefa de garantir os direitos (o m e s m o seria verdade e m 1948). "Petição" e "bill" i m p l i c a v a m u m p e d i d o o u apelo a u m p o d e r superior ( u m bill era originalmente " u m a petição ao soberano"), e "carta" significava frequentemente u m antigo d o c u m e n t o o u escritura. "Declaração" tinha u m ar m e n o s m o f a d o e s u b m i s s o . A l é m disso, a o c o n t r á r i o de "petição", "bill" o u até "carta", "declaração" podia significar a intenção de se a p o d e r a r da soberania. Jefferson, p o r t a n t o , c o m e ç o u a Declaração de I n d e p e n dência c o m a seguinte explicação d a necessidade de declará-la:
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* Ver n o A p é n d i c e o texto c o m p l e t o .

U5

dência afirmava q u e o rei Jorge III t i n h a pisoteado os direitos preexistentes dos colonos e q u e suas ações justificavam o estabelecim e n t o de u m governo separado: "sempre q u e qualquer F o r m a de G o v e r n o se t o r n e destrutiva desses fins [assegurar os direitos], é Direito d o Povo alterá-la o u aboli-la, e instituir n o v o Governo". Da m e s m a forma, os d e p u t a d o s franceses declararam q u e esses direitos t i n h a m sido simplesmente ignorados, negligenciados ou desprezados; n ã o a f i r m a r a m q u e os t i n h a m i n v e n t a d o . "A p a r t i r de agora", entretanto, a declaração p r o p u n h a q u e esses direitos constituíssem o f u n d a m e n t o d o governo, e m b o r a n ã o o tivessem sido n o passado. M e s m o afirmando q u e esses direitos já existiam e que eles os estavam m e r a m e n t e d e f e n d e n d o , os d e p u t a d o s criavam algo r a d i c a l m e n t e n o v o : governos justificados pela sua garantia dos direitos universais.

tánico, e n q u a n t o a Declaração d a I n d e p e n d ê n c i a de 1776 invocava claramente os direitos universais de t o d o s os h o m e n s . Depois os americanos m o n t a r a m a sua p r ó p r i a tradição particularista c o m a C o n s t i t u i ç ã o d e 1787 e a Bill of Rights de 1791. E m contraste, os franceses a d o t a r a m q u a s e i m e d i a t a m e n t e a versão universalista, e m p a r t e p o r q u e ela solapava as reivindicações particularistas e históricas da m o n a r q u i a . N o s debates sobre a Declaração francesa, o d u q u e M a t h i e u de M o n t m o r e n c y exortou seus colegas d e p u t a dos a "seguir o exemplo dos Estados Unidos: eles d e r a m u m g r a n d e exemplo n o n o v o hemisfério; v a m o s dar u m exemplo p a r a o u n i " 2

verso . Antes q u e os a m e r i c a n o s e os franceses declarassem os direitos d o h o m e m , os p r i n c i p a i s p r o p o n e n t e s d o u n i v e r s a l i s m o viviam às m a r g e n s das g r a n d e s potências. Talvez essa p r ó p r i a m a r ginalidade tenha capacitado u m p u n h a d o de pensadores h o l a n d e ses, alemães e suíços a t o m a r a iniciativa n o a r g u m e n t o de que os direitos e r a m universais. Já e m 1625, u m jurista calvinista holandês, H u g o Grotius, p r o p ô s u m a n o ç ã o de direitos que se aplicava a t o d a a h u m a n i d a d e , n ã o apenas a u m país o u a u m a tradição legal. Ele definia "direitos n a t u r a i s " c o m o algo a u t o c o n t r o l a d o e concebível s e p a r a d a m e n t e da v o n t a d e de Deus. Sugeria t a m b é m que as pessoas p o d i a m usar os seus direitos — sem a ajuda da religião — p a r a estabelecer os f u n d a m e n t o s contratuais da vida social. O seu s e g u i d o r a l e m ã o S a m u e l Pufendorf, o p r i m e i r o professor d e direito n a t u r a l e m Heidelberg, delineou as realizações de Grotius na sua história geral dos e n s i n a m e n t o s d o direito natural, publicada e m 1678. E m b o r a criticasse Grotius e m certos pontos, Pufendorf ajudou a solidificar a reputação de Grotius c o m o u m a fonte p r i m o r d i a l da corrente universalista d o p e n s a m e n t o dos direitos.
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D E C L A R A N D O OS DIREITOS NOS E S T A D O S

UNIDOS

N o começo, os americanos n ã o t i n h a m a intenção clara de se separar da Grã-Bretanha. N i n g u é m imaginava n a década de 1760 q u e os direitos os levariam a e n t r a r n u m t e r r i t ó r i o t ã o n o v o . O r e m o d e l a m e n t o da sensibilidade ajudou a t o r n a r a ideia dos direitos mais tangível para as classes cultas, nos debates sobre a t o r t u r a e o castigo cruel, p o r exemplo; m a s a n o ç ã o dos direitos m u d o u t a m b é m e m reação às circunstâncias políticas. Havia duas versões da linguagem dos direitos n o século xvni: u m a versão particularista (direitos específicos de u m povo o u tradição nacional) e u m a universalista (os direitos d o h o m e m e m geral). O s a m e r i c a n o s usav a m u m a ou o u t r a linguagem, o u a m b a s e m c o m b i n a ç ã o , d e p e n d e n d o das circunstâncias. D u r a n t e a crise da Lei d o Selo e m m e a dos da década de 1760, p o r exemplo, os panfletários a m e r i c a n o s enfatizavam os seus direitos c o m o colonos d e n t r o d o I m p é r i o Bri116

O s teóricos suíços d o direito n a t u r a l teorizaram sobre essas ideias n o início d o século xvni. O mais influente deles, Jean-Jacques Burlamaqui, ensinava direito e m Genebra. Ele sintetizou os
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vários escritos sobre direito n a t u r a l d o século xvil em Principes du droit naturel (1747). C o m o seus predecessores, Burlamaqui forneceu p o u c o c o n t e ú d o político o u legal específico para a noção dos direitos naturais universais: o seu principal objetivo era provar que eles existiam e derivavam da razão e da natureza h u m a n a . Ele atualizou o conceito ao ligá-lo àquilo que os filósofos escoceses c o n t e m p o r â n e o s c h a m a v a m de senso m o r a l interior (antecipando, assim, o a r g u m e n t o dos m e u s primeiros capítulos). Traduzida imediatam e n t e para o inglês e o holandês, a obra de Burlamaqui foi amplam e n t e usada c o m o u m a espécie de livro-texto d a lei natural e dos direitos naturais na última m e t a d e d o século xvin. Rousseau, entre outros, a d o t o u Burlamaqui c o m o u m p o n t o de partida.
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ridade absoluta a fim d e i m p e d i r a "guerra de t o d o s c o n t r a t o d o s " q u e d o contrário sucederia. E n q u a n t o Grotius havia igualado o s direitos naturais à vida, ao corpo, à liberdade e à h o n r a ( u m a lista que parecia questionar, e m particular, a escravidão), Locke definia os direitos naturais c o m o "Vida, Liberdade e Propriedade". C o m o enfatizava a posse — P r o p r i e d a d e — , Locke n ã o q u e s t i o n a v a a escravidão. Justificava a escravidão de cativos c a p t u r a d o s n u m a g u e r r a justa. Locke até p r o p u n h a u m a legislação p a r a a s s e g u r a r q u e " t o d o h o m e m livre d e C a r o l i n a t e n h a p o d e r e a u t o r i d a d e absolutos sobre seus escravos negros"/' E n t r e t a n t o , a p e s a r d a influência de H o b b e s e Locke, u r n a g r a n d e p o r ç ã o , se n ã o a m a i o r p a r t e da discussão inglesa, e p o r t a n t o americana, sobre os direitos naturais n a primeira m e t a d e do século xviii manteve o foco sobre os direitos particulares h i s t o r i c a m e n t e f u n d a m e n t a d o s d o inglês nascido livre, e n ã o sobre d i r e i t o s universalmente aplicáveis. Escrevendo na década de 1750, W i l l i a m Blackstone explicava p o r q u e os seus conterrâneos p u n h a m o f o c o sobre seus direitos particulares e m vez de atentar para os u n i v e r sais: "Estas [liberdades naturais] e r a m o u t r o r a , quer p o r h e r a n ç a * quer p o r aquisição, os direitos de toda a h u m a n i d a d e ; mas, e s t a n d o agora n a m a i o r i a d o s o u t r o s países d o m u n d o mais o u m e n o s degradados e destruídos, pode-se dizer q u e n o presente eles c o n t i n u a m a ser, de u m m o d o peculiar e enfático, os direitos do p o v o d a Inglaterra". M e s m o q u e os direitos tivessem sido outrora u n i v e r sais, afirmava o p r o e m i n e n t e jurista, apenas os ingleses, e m s u a superioridade, t i n h a m conseguido m a n t ê - l o s .
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A o b r a de B u r l a m a q u i estimulou u m a renovação mais geral das teorias da lei n a t u r a l e dos direitos naturais na Europa Ocidental e nas colônias n o r t e - a m e r i c a n a s . Jean Barbeyrac, o u t r o protestante g e n e b r i n o , publicou u m a nova t r a d u ç ã o francesa d a o b r a -chave de Grotius e m 1746; antes ele havia publicado u m a t r a d u ção francesa de u m a das obras de Pufendorf sobre direito natural. U m a biografia a d u l a t ó r i a de G r o t i u s , escrita p e l o francês Jean Lévesque de Burigny, saiu e m 1752 e foi t r a d u z i d a para o inglês em 1754. E m 1754, T h o m a s Rutherforth publicou as suas conferências sobre Grotius e direito n a t u r a l proferidas n a Universidade de Cambridge. Grotius, Pufendorf e Burlamaqui eram todos b e m c o n h e c i d o s d o s r e v o l u c i o n á r i o s a m e r i c a n o s , c o m o Jefferson e Madison, q u e e r a m versados em direito.
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Os ingleses t i n h a m p r o d u z i d o dois pensadores universalistas capitais n o século xvil: T h o m a s H o b b e s e J o h n Locke. As suas obras e r a m b e m conhecidas nas colônias britânicas da América d o Norte, e Locke e m particular ajudou a formar o p e n s a m e n t o político a m e r i c a n o , talvez a i n d a m a i s d o q u e i n f l u e n c i o u as visões inglesas. H o b b e s teve m e n o s i m p a c t o d o q u e Locke, p o r q u e ele acreditava que os direitos naturais t i n h a m de se r e n d e r a u m a a u t o -

Da década de 1760 e m diante, entretanto, o fio u n i v e r s a l i s t a dos direitos c o m e ç o u a se entrelaçar c o m o particularista n a s c o l ô nias britânicas da América d o Norte. JúiThe Rights ofthe BritisH Colonies Asserted and Proved ( 1 7 6 4 ) , p o r e x e m p l o , o a d v o g a d o James Otis, de Boston, confirmava t a n t o os direitos n a t u r a i s d o s colonos ("A natureza colocou todos eles n u m estado de i g u a l d a d ^
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e l i b e r d a d e perfeita") c o m o seus direitos civis e políticos c o m o cidadãos britânicos: "Todo súdito britânico nascido n o continente d a América, o u e m qualquer o u t r o dos d o m í n i o s britânicos, está a u t o r i z a d o pela lei de Deus e d a natureza, pela lei c o m u m e pela lei d o P a r l a m e n t o [...] a usufruir de t o d o s os direitos naturais, essenciais, inerentes e inseparáveis d e nossos colegas súditos n a G r ã -Bretanha". Ainda assim, dos "direitos de nossos colegas súditos" e m 1764 até os "direitos inalienáveis" de "todos os h o m e n s " de Jefferson e m 1776 foi mister dar o u t r o passo gigantesco.
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d a d e universal. Esse p e n s a m e n t o universalista tornava os colonos capazes de i m a g i n a r u m r o m p i m e n t o c o m a tradição e a soberania britânica.
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M e s m o antes d e o C o n g r e s s o declarar a i n d e p e n d ê n c i a , os c o l o n o s c o n v o c a r a m convenções estaduais p a r a substituir o g o v e r n o britânico, e n v i a r a m instruções c o m os seus delegados p a r a exigir i n d e p e n d ê n c i a e c o m e ç a r a m a r a s c u n h a r C o n s t i t u i ç õ e s estaduais q u e f r e q u e n t e m e n t e incluíam declarações de direitos. A Declaração de Direitos da Virginia, de 1 2 d e j u n h o de 1776, proclamava q u e " t o d o s os h o m e n s são p o r natureza igualmente livres e i n d e p e n d e n t e s e t ê m certos direitos inerentes", q u e e r a m definidos c o m o "a fruição da vida e da liberdade, c o m os m e i o s de adquirir e possuir p r o p r i e d a d e s e de buscar e obter felicidade e segurança". Ainda mais i m p o r t a n t e , a Declaração da Virginia passava a oferecer u m a lista d e direitos específicos, c o m o a liberdade de imprensa e a l i b e r d a d e d e o p i n i ã o religiosa: ela a j u d o u a estabelecer o m o d e l o n ã o só para a Declaração da I n d e p e n d ê n c i a , m a s t a m b é m p a r a a definitiva Bill ofRightsda Constituição d o s Estados Unidos. Na primavera de 1776, declarar a i n d e p e n d ê n c i a — e declarar os d i r e i t o s universais e m vez de b r i t â n i c o s — t i n h a a d q u i r i d o momentum nos círculos políticos.'"

O fio universalista dos direitos engrossou na década de 1760 e especialmente na de 1770, q u a n d o se alargou a brecha entre as colônias n o r t e - a m e r i c a n a s e a Grã-Bretanha. Se os colonos q u e r i a m estabelecer u m n o v o país s e p a r a d o , n ã o p o d i a m c o n t a r m e r a m e n t e c o m os direitos dos ingleses nascidos livres. Caso contrário, estavam q u e r e n d o u m a reforma, e n ã o a independência. Os direitos universais p r o p o r c i o n a v a m u m f u n d a m e n t o lógico melhor, e assim os discursos das eleições americanas nas décadas d e 1760 e 1770 c o m e ç a r a m a citar d i r e t a m e n t e B u r l a m a q u i e m defesa dos "direitos da h u m a n i d a d e " . Grotius, Pufendorf e especialmente Locke apareciam entre os autores mais frequentemente citados nos escritos políticos, e B u r l a m a q u i p o d i a ser e n c o n t r a d o em n ú m e r o s cada vez maiores de bibliotecas públicas e particulares. Q u a n d o a a u t o r i d a d e britânica c o m e ç o u a e n t r a r e m colapso, em 1774, os colonos passaram a se considerar e m algo semelhante ao estado de natureza a respeito d o qual t i n h a m lido. B u r l a m a q u i t i n h a afirmado: "A ideia d o Direito, e ainda m a i s a da lei natural, e estão manifestamente relacionadas c o m a natureza d o h o m e m . É p o r t a n t o dessa p r ó p r i a natureza d o h o m e m , da sua constituição da sua condição q u e devemos deduzir os princípios desta ciência". B u r l a m a q u i falava apenas da natureza d o h o m e m e m geral, n ã o sobre a c o n d i ç ã o dos c o l o n o s a m e r i c a n o s o u a c o n s t i t u i ç ã o da Grã-Bretanha, mas sobre a constituição e a condição da h u m a n i 120

Assim, os a c o n t e c i m e n t o s de 1774-6 f u n d i r a m t e m p o r a r i a m e n t e os p e n s a m e n t o s particularista e universalista sobre os direitos nas colônias insurgentes. E m reação à G r ã - B r e t a n h a , os colon o s p o d i a m citar os seus direitos já e x i s t e n t e s c o m o s ú d i t o s britânicos e, ao m e s m o t e m p o , reivindicar o d i r e i t o universal a u m g o v e r n o q u e assegurasse os seus direitos inalienáveis c o m o h o m e n s iguais. Entretanto, c o m o os últimos de fato anulavam os p r i meiros, à m e d i d a q u e se m o v i a m mais decisivamente para a indep e n d ê n c i a os a m e r i c a n o s sentiam a necessidade d e declarar os seus direitos c o m o parte da transição de u m estado d e natureza de volta a u m governo civil — o u de u m estado de sujeição a Jorge III em
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direção a u m a nova política republicana. Os direitos universalistas n u n c a t e r i a m sido declarados nas colônias a m e r i c a n a s sem o m o m e n t o revolucionário criado pela resistência à autoridade britânica. E m b o r a n e m t o d o s c o n c o r d a s s e m sobre a i m p o r t â n c i a de declarar os direitos ou sobre o conteúdo dos direitos a serem declarados, a independência abriu a p o r t a para a declaração dos direitos.
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tido de q u e os colonos " c a r r e g a m consigo apenas aquela p a r t e das leis inglesas q u e é aplicável à sua situação": p o r t a n t o , se "inovações" m i n i s t e r i a i s v i o l a m "seus direitos n a t u r a i s c o m o h o m e n s [ingleses] livres", a cadeia de g o v e r n o é "quebrada", p o d e n d o - s e esperar q u e os colonos exerçam seus "direitos naturais". Richard Price t o r n o u o apelo ao universalismo m u i t o explícito e m seu p a n fleto i m e n s a m e n t e influente de 1776, Observations Civil Liberty, the Principies of Government, ofthe War with America. on theNature of and the Justice andPolicy

M e s m o n a Grã-Bretanha, u m a n o ç ã o mais universalista dos direitos c o m e ç o u a se i n t r o d u z i r sorrateiramente n o discurso n a década de 1760. Os debates sobre os direitos t i n h a m se aquietado c o m a r e s t a u r a ç ã o d a estabilidade depois da revolução de 1688, que havia resultado n a Bill ofRights. O n ú m e r o de títulos de livros q u e i n c l u í a m alguma m e n ç ã o aos "direitos" declinou constantem e n t e n a G r ã - B r e t a n h a d o início dos a n o s 1700 aos a n o s 1750. Q u a n d o se intensificou a discussão internacional da lei natural e dos direitos naturais, os n ú m e r o s c o m e ç a r a m a se elevar de novo n a década de 1760 e c o n t i n u a r a m a crescer a partir de então. N u m longo panfleto de 1768 q u e denunciava o patrocínio aristocrático de posições clericais n a Igreja da Escócia, o a u t o r invocava t a n t o "os direitos naturais da h u m a n i d a d e " c o m o "os direitos naturais e civis dos BRETÕES LIVRES". D a m e s m a forma, o p r e g a d o r anglicano William D o d d a r g u m e n t a v a q u e o p a p i s m o era "incoerente c o m os Direitos Naturais dos HOMENS e m geral e dos INGLESES e m particular". A i n d a assim, o político d a oposição J o h n Wilkes s e m p r e empregava a linguagem de "vosso direito hereditário c o m o INGLESES" ao apresentar seus a r g u m e n t o s n a década de 1760. The Letters ofjunius, cartas a n ô n i m a s publicadas c o n t r a o governo britânico n o final da década de 1760 e início da de 1770, t a m b é m usava a linguagem dos "direitos d o povo" para se referir aos direitos sob a tradição e a lei inglesas.
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O seu texto p a s s o u p o r n ã o m e n o s d e

quinze edições e m Londres e m 1776, e foi reimpresso n o m e s m o a n o e m D u b l i n , E d i m b u r g o , Charleston, N o v a York e Filadélfia. Price b a s e o u o seu a p o i o aos c o l o n o s n o s " p r i n c í p i o s gerais d a Liberdade Civil", isto é, n o "que a razão, a e q u i d a d e e os direitos da h u m a n i d a d e propiciam", e n ã o n o precedente, n o estatuto ou nas cartas (a prática da liberdade inglesa n o passado). O panfleto de Price foi t r a d u z i d o p a r a o francês, o alemão e o holandês. O seu trad u t o r holandês, Joan D e r k van der Capellen tot den Poli, escreveu a Price e m d e z e m b r o de 1777 e relatou o seu p r ó p r i o apoio, n u m discurso mais tarde impresso e de ampla circulação, à causa a m e ricana: "Considero os a m e r i c a n o s h o m e n s valentes que defendem de u m m o d o m o d e r a d o , p i e d o s o e corajoso os direitos que receb e m , s e n d o h o m e n s , n ã o d o Poder Legislativo da Inglaterra, m a s do p r ó p r i o Deus".
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O panfleto de Price p r o v o c o u u m a feroz controvérsia na Grã-Bretanha. U n s trinta panfletos apareceram quase i m e d i a t a m e n t e e m resposta, a c u s a n d o Price de falso p a t r i o t i s m o , p a r t i d a r i s m o , parricidio, anarquia, sedição e até traição. O panfleto de Price inseriu "os direitos naturais da humanidade", "os direitos da natureza h u m a n a " e e s p e c i a l m e n t e "os direitos inalienáveis d a n a t u r e z a h u m a n a " n a agenda da Europa. C o m o u m a u t o r claramente reconhecia, a questão crucial era a seguinte: saber "se existem direitos inerentes à Natureza H u m a n a , tão ligados à v o n t a d e q u e tais direi123

A guerra entre os colonos e a Coroa britânica t o r n o u a t e n d ê n cia universalista mais p l e n a m e n t e manifesta n a p r ó p r i a Grã-Bretanha. U m folheto de 1776 assinado " M . D."cita Blackstone n o sen122

tos n ã o p o d e m ser alienados". Era a p e n a s u m sofisma, afirmava esse o p o s i t o r , a r g u m e n t a r q u e " h á certos direitos d a N a t u r e z a H u m a n a q u e são inalienáveis". A esses os h o m e n s t i n h a m d e r e n u n c i a r — u m h o m e m t i n h a de "desistir d o governo de seu ser pela sua p r ó p r i a v o n t a d e " — a fim de e n t r a r n o estado civil. As polêmicas m o s t r a m q u e o significado de direitos naturais, liberdade civil e democracia era objeto de atenção e debate de muitas das melhores inteligências políticas da Grã-Bretanha.
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'preceitos, n a d a q u e ' o r d e n e o h o m e m a praticar qualquer u m dos atos q u e se alega serem i m p o s t o s pela pretensa lei da Natureza. Se a l g u m h o m e m c o n h e c e a l g u m desses preceitos, que ele os p r o duza. Se são produzíveis, n ã o deveríamos n o s dar ao t r a b a l h o de 'descobri-los', c o m o n o s s o a u t o r [Blackstone] p o u c o d e p o i s n o s diz que devemos fazer, c o m a ajuda da razão". B e n t h a m se o p u n h a à ideia de q u e a lei n a t u r a l era inata à pessoa e p o d i a ser descoberta pela razão. Assim, rejeitava b a s i c a m e n t e toda a tradição da lei n a t u r a l e c o m ela os direitos naturais. O p r i n cípio da utilidade (a m a i o r felicidade d o m a i o r n ú m e r o de pessoas, u m a ideia q u e ele t o m o u e m p r e s t a d a de Beccaria), ele a r g u m e n t a ria mais tarde, servia c o m o a m e l h o r m e d i d a d o certo e d o errado. Só cálculos baseados e m fatos, e m vez de j u l g a m e n t o s baseados na razão, p o d i a m fornecer a base para a lei. D a d a essa posição, a sua rejeição p o s t e r i o r d a D e c l a r a ç ã o d o s D i r e i t o s d o H o m e m e d o C i d a d ã o é m e n o s s u r p r e e n d e n t e . N u m panfleto em q u e critica a Declaração francesa artigo p o r artigo, ele negou categoricamente a existência de direitos naturais. "Os direitos naturais são u m m e r o a b s u r d o : os direitos naturais e imprescritíveis, u m a b s u r d o retórico, u m a b s u r d o bombástico." " Apesar d e seus críticos, o d i s c u r s o d o s direitos estava gan h a n d o i m p u l s o desde a d é c a d a d e 1760. O s "direitos naturais", então s u p l e m e n t a d o s pelos "direitos d o gênero humano", "direitos da h u m a n i d a d e " e "direitos d o homem", t o r n a r a m - s e expressões corriqueiras. C o m o seu potencial político i m e n s a m e n t e intensificado pelos conflitos a m e r i c a n o s das décadas de 1760 e 1770, o disc u r s o dos direitos universais c r u z o u de volta o Atlântico p a r a a G r ã - B r e t a n h a , a República H o l a n d e s a e a França. E m 1768, p o r e x e m p l o , o e c o n o m i s t a francês de m e n t e r e f o r m i s t a P i e r r e -Samuel d u Pont de N e m o u r s ofereceu a sua p r ó p r i a definição dos "direitos d e cada homem". A sua lista incluía a liberdade de escolher u m a ocupação, o livre comércio, a educação pública e a tribu125
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A distinção entre as liberdades natural e civil proposta pelos opositores de Price serve para lembrar que a articulação dos direitos naturais engendrava a sua p r ó p r i a tradição contrária, que continua até os dias atuais. C o m o os direitos naturais, q u e cresceram em oposição a governos vistos c o m o despóticos, a tradição contrária era t a m b é m reativa, a r g u m e n t a n d o q u e os direitos n a t u r a i s constituíam u m a invenção ou que n u n c a p o d e r i a m ser inalienáveis (e p o r t a n t o e r a m irrelevantes). H o b b e s já tinha a r g u m e n t a d o , n a m e t a d e d o século xvii, q u e os h o m e n s d e v e r i a m r e n u n c i a r aos direitos naturais (que p o r t a n t o não eram inalienáveis) para estabelecer u m a sociedade civil ordeira. Robert Filmer, o inglês p r o p o nente da autoridade patriarcal, refutou Grotius explicitamente e m 1679 e declarou ser u m "absurdo" a d o u t r i n a da "liberdade natural". Em Patriar dia (1680), ele n o v a m e n t e contradisse a noção da igualdade e liberdade natural da h u m a n i d a d e , a r g u m e n t a n d o que todas as pessoas nascem sujeitas aos pais; o único direito natural, na visão de Filmer, é inerente ao p o d e r régio, que deriva d o m o d e l o original do poder patriarcal e está confirmado nos Dez M a n d a m e n t o s .
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Mais influente n o longo prazo foi a visão de Jeremy B e n t h a m , q u e argumentava que só i m p o r t a v a a lei positiva (real e m vez de ideal ou natural). E m 1775, m u i t o antes de se t o r n a r famoso c o m o o pai d o Utilitarismo, B e n t h a m escreveu u m a crítica sobre Commentaries on the Laws ofEngland, de Blackstone, e x p o n d o a sua rejeição d o conceito de lei natural: " N ã o há isso q u e c h a m a m de
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tação p r o p o r c i o n a l . E m 1776, D u Pont se apresentou c o m o voluntário p a r a ir às colônias americanas e relatar os acontecimentos ao governo francês ( u m a oferta q u e n ã o foi aproveitada). Mais tarde D u P o n t se t o r n o u amigo í n t i m o de Jefferson, e e m 1789 foi eleito d e p u t a d o pelo Terceiro Estado.
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tos h u m a n o s p o d e r i a m ter d e f i n h a d o p o r falta d e i n t e r e s s e . D e p o i s d e insuflar u m i n t e r e s s e d i f u n d i d o p e l o s " d i r e i t o s d o h o m e m " n o início da d é c a d a de 1760, o p r ó p r i o Rousseau se desiI udiu. N u m a longa carta escrita e m j a n e i r o de 1769 sobre as suas c o n v i c ç õ e s religiosas, R o u s s e a u a t a c o u o u s o excessivo d e s t a " b e l a p a l a v r a ' h u m a n i d a d e ' " . O s s o f i s t i c a d o s m u n d a n o s , "as m e n o s h u m a n a s das pessoas", i n v o c a v a m - n a c o m t a n t a frequência q u e ela estava se " t o r n a n d o insípida, até ridícula". A h u m a n i d a d e t i n h a d e ser gravada n o s corações, insistia Rousseau, e n ã o a p e n a s i m p r e s s a nas páginas dos livros. O i n v e n t o r d a expressão "direitos d o h o m e m " n ã o viveu p a r a ver o i m p a c t o p l e n o da i n d e p e n d ê n c i a a m e r i c a n a : ele m o r r e u e m 1778, o a n o e m q u e a F r a n ç a se j u n t o u a o l a d o a m e r i c a n o c o n t r a a G r ã - B r e t a n h a . E m b o r a Rousseau soubesse de B e n j a m i n F r a n k l i n , u m a verdad e i r a c e l e b r i d a d e n a F r a n ç a desde sua c h e g a d a c o m o m i n i s t r o dos c o l o n o s rebeldes e m 1776, e n u m a ocasião tivesse defendido o direito dos a m e r i c a n o s de p r o t e g e r suas liberdades m e s m o que fossem " o b s c u r o s o u desconhecidos", ele expressava p o u c o interesse pelos assuntos a m e r i c a n o s .
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E m b o r a a Declaração da I n d e p e n d ê n c i a talvez n ã o tenha sido " p r a t i c a m e n t e esquecida", c o m o Pauline Maier recentemente p r o clamou, a linguagem universalista dos direitos r e t o r n o u essencialm e n t e ao seu lar n a E u r o p a d e p o i s de 1776. Os novos governos estaduais dos Estados U n i d o s c o m e ç a r a m a a d o t a r declarações individuais dos direitos já e m 1776, m a s os Artigos da Confederação d e 1777 n ã o i n c l u í a m n e n h u m a d e c l a r a ç ã o d e direitos, e a Constituição de 1787 foi aprovada sem n e n h u m a declaração desse tipo. A Bill of Rights americana só passou a existir c o m a ratificação das p r i m e i r a s dez e m e n d a s da C o n s t i t u i ç ã o , e m 1791, e era u m d o c u m e n t o p r o f u n d a m e n t e particularista q u e protegia os cidadãos a m e r i c a n o s contra abusos cometidos pelo seu governo federal. E m c o m p a r a ç ã o , a Declaração da I n d e p e n d ê n c i a e a Declaração de Direitos da Virginia de 1776 t i n h a m feito afirmações m u i t o m a i s universalistas. N a d é c a d a d e 1780, os direitos n a A m é r i c a t i n h a m a s s u m i d o u m a posição m e n o s i m p o r t a n t e d o q u e o interesse e m c o n s t r u i r u m a n o v a e s t r u t u r a i n s t i t u c i o n a l n a c i o n a l . C o m o consequência, a Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o Cidadão de 1789 de fato precedeu a Bill of Rights americana, e logo atraiu a atenção internacional.
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As r e p e t i d a s referências à h u m a n i d a d e e aos direitos d o h o m e m c o n t i n u a r a m apesar d o escárnio de Rousseau, irias p o d e r i a m ter sido ineficazes se os acontecimentos n a América n ã o tivessem lhes d a d o mais p o d e r de fogo. Entre 1776e 1783,nove diferentes t r a d u ç õ e s francesas d a D e c l a r a ç ã o d a I n d e p e n d ê n c i a e ao m e n o s cinco traduções francesas de várias constituições e declarações de direitos estaduais p r o p i c i a r a m aplicações específicas de d o u t r i n a s d e direitos e a j u d a r a m a cristalizar o senso de q u e o g o v e r n o francês t a m b é m p o d e r i a ser estabelecido sobre n o v o s f u n d a m e n t o s . E m b o r a alguns reformadores franceses preferissem u m a m o n a r q u i a constitucional n o estilo inglês, e C o n d o r c e t p o r sua p a r t e expressasse d e s a p o n t a m e n t o c o m o "espírito aristocrático" d a n o v a C o n s t i t u i ç ã o dos Estados U n i d o s , m u i t o s se e n t u 127

d e c l a r a n d o

os d i r e i t o s

n a

f r a n ç a

Apesar do afastamento americano do universalismo na década de 1780, os "direitos d o h o m e m " r e c e b e r a m u m g r a n d e e m p u r r ã o d o exemplo a m e r i c a n o . Sem ele, n a v e r d a d e , os direi126

siasmavam c o m a capacidade americana de escapar ao peso m o r t o d o passado e estabelecer o a u t o g o v e r n o .
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ção igual, igualdade de t r a t a m e n t o p e r a n t e a lei, proteção c o n t r a a prisão arbitrária e q u e tais.
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O s precedentes americanos t o r n a r a m - s e ainda mais convincentes q u a n d o os franceses e n t r a r a m n u m estado de emergência constitucional. E m 1788, enfrentando u m a bancarrota causada em grande m e d i d a pela participação francesa na Guerra da Independ ê n c i a a m e r i c a n a , Luís xvi c o n c o r d o u e m c o n v o c a r os Estados Gerais, q u e t i n h a m se r e u n i d o pela última vez e m 1614. Q u a n d o c o m e ç a r a m as eleições dos delegados, ruídos surdos de declarações já p o d i a m ser ouvidos. E m janeiro de 1789, u m amigo de Jefferson, Lafayette, p r e p a r o u u m r a s c u n h o de declaração, e nas s e m a n a s seguintes C o n d o r c e t silenciosamente formulou o seu. O rei tinha p e d i d o q u e o clero (o P r i m e i r o E s t a d o ) , os n o b r e s (o S e g u n d o Estado) e o povo c o m u m (o Terceiro Estado) n ã o só elegessem delegados, m a s t a m b é m fizessem listas de suas queixas. Várias listas redigidas e m fevereiro, m a r ç o e abril de 1789 se referiam aos "direitos inalienáveis d o h o m e m " , aos "direitos imprescritíveis dos h o m e n s livres", aos "direitos e dignidade do h o m e m e d o cidadão" o u aos "direitos dos h o m e n s livres e esclarecidos", mas p r e d o m i n a v a m os "direitos d o homem". A linguagem dos direitos estava agora se difundindo rapidamente na atmosfera da crescente crise.
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O s d e l e g a d o s v i e r a m c o m as suas listas de q u e i x a s p a r a a a b e r t u r a oficial dos Estados Gerais e m 5 d e maio de 1789. Depois de s e m a n a s de debates fúteis sobre o p r o c e d i m e n t o , os d e p u t a d o s d o Terceiro Estado se d e c l a r a r a m u n i l a t e r a l m e n t e m e m b r o s d e u m a Assembleia Nacional e m 17 de j u n h o ; eles afirmavam representar t o d a a nação, e n ã o apenas o seu "estado". M u i t o s d e p u t a dos clericais logo se j u n t a r a m a eles, e e m p o u c o t e m p o os n o b r e s não tiveram o u t r a escolha senão a b a n d o n a r os trabalhos o u t a m b é m aderir. E m 19 de j u n h o , b e m n o m e i o dessas lutas, u m d e p u t a d o p e d i u q u e a n o v a Assembleia começasse i m e d i a t a m e n t e a " g r a n d e tarefa de u m a declaração de direitos", que ele insistia ter sido exigida pelos eleitores; e m b o r a estivesse longe de ser universalmente reclamada, a ideia estava c o m t o d a a certeza n o ar. U m C o m i t ê sobre a C o n s t i t u i ç ã o foi m o n t a d o e m 6 de julho, e e m 9 de j u l h o o c o m i t ê a n u n c i o u à Assembleia Nacional q u e começaria c o m u m a "declaração dos direitos n a t u r a i s e imprescritíveis d o h o m e m " , d e n o m i n a d a n a recapitulação da sessão "a declaração dos direitos d o h o m e m " .
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T h o m a s Jefferson, e n t ã o e m Paris, escreveu a T h o m a s Paine na I n g l a t e r r a e m 11 de j u l h o , d a n d o u m relato esbaforido dos acontecimentos que se desenrolavam. Paine era o autor de Common Sense ( 1 7 7 6 ) , o panfleto m a i s influente d o m o v i m e n t o da i n d e p e n d ê n c i a a m e r i c a n a . S e g u n d o Jefferson, os d e p u t a d o s da Assembleia Nacional " l a n ç a r a m p o r terra o velho governo, e estão agora c o m e ç a n d o a construir o u t r o da estaca zero". Relatava que eles c o n s i d e r a v a m que a p r i m e i r a tarefa devia ser o r a s c u n h o de " u m a D e c l a r a ç ã o dos direitos n a t u r a i s e imprescritíveis d o h o m e m " — os m e s m o s t e r m o s usados pelo C o m i t ê sobre a Constituição. Jefferson t r o c o u m u i t a s ideias c o m Lafayette, que naquele m e s m o dia leu o seu p r ó p r i o r a s c u n h o de u m a proposta de decla129

Algumas listas de queixas t— as dos n o b r e s mais frequentem e n t e q u e as d o clero o u d o Terceiro Estado — exigiam de forma explícita u m a d e c l a r a ç ã o d e direitos ( e m geral as q u e t a m b é m p e d i a m u m a nova Constituição). Por exemplo, a nobreza da região Béziers, n o sul, requeria q u e "a assembleia geral adotasse c o m o sua verdadeira tarefa preliminar o exame, r a s c u n h o e declaração dos direitos d o h o m e m e d o cidadão". A lista de queixas d o Terceiro Estado da g r a n d e Paris intitulou a sua segunda seção "Declaração de direitos" e apresentou u m a lista desses direitos. Q u a s e todas as listas p e d i a m direitos específicos de u m a o u o u t r a forma: liberdade de imprensa, liberdade de religião e m alguns casos, tributa128

ração p a r a a Assembleia. Vários o u t r o s d e p u t a d o s p r o e m i n e n t e s c o r r e r a m e n t ã o a i m p r i m i r as suas p r o p o s t a s . A t e r m i n o l o g i a variava: "os direitos do h o m e m n a sociedade", "os direitos d o cidad ã o francês" o u s i m p l e s m e n t e "direitos", m a s "os direitos d o h o m e m " p r e d o m i n a v a nos títulos.
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novo. O s direitos d o h o m e m f o r n e c i a m os p r i n c í p i o s para u m a visão alternativa de governo. C o m o os a m e r i c a n o s h a v i a m feito antes, os franceses d e c l a r a r a m os direitos c o m o p a r t e de u m a crescente r u p t u r a c o m a a u t o r i d a d e estabelecida. O d e p u t a d o Rabaut Saint-Étienne c o m e n t o u esse paralelo e m 18 de agosto: "como os a m e r i c a n o s , q u e r e m o s n o s r e g e n e r a r , e assim a declaração d e direitos é essencialmente necessária".
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E m 14 d e j u l h o , três dias d e p o i s q u e Jefferson escreveu a Paine, as m u l t i d õ e s e m Paris se a r m a r a m e a t a c a r a m a prisão da Bastilha e o u t r o s símbolos da a u t o r i d a d e real. O rei havia o r d e n a d o q u e milhares de tropas entrassem e m Paris, levando m u i t o s d e p u t a d o s a temer u m golpe contrarrevolucionario. O rei retirou os seus soldados, m a s a questão de u m a declaração ainda não fora s o l u c i o n a d a . N o final de j u l h o e início d e agosto, os d e p u t a d o s ainda estavam d e b a t e n d o se precisavam de u m a declaração, se ela deveria aparecer n o t o p o da Constituição e se deveria ser a c o m p a n h a d a p o r u m a declaração dos deveres do cidadão. A divisão sobre a necessidade de u m a declaração refletia os desacordos f u n d a m e n tais sobre o c u r s o dos a c o n t e c i m e n t o s . Se a a u t o r i d a d e m o n á r quica precisasse simplesmente de alguns reparos, u m a declaração dos "direitos d o h o m e m " n ã o era necessária. Para aqueles, e m contraste, que c o n c o r d a v a m c o m o diagnóstico de Jefferson de q u e o g o v e r n o t i n h a de ser r e c o n s t r u í d o d o n a d a , u m a d e c l a r a ç ã o de direitos era essencial. Por fim, e m 4 de agosto, a assembleia votou p o r redigir u m a declaração de direitos sem os deveres. N i n g u é m e n t ã o o u desde então explicou a d e q u a d a m e n t e c o m o a opinião a c a b o u m u d a n d o e m favor de rascunhar essa declaração, e m g r a n d e p a r t e p o r q u e os d e p u t a d o s estavam tão o c u p a d o s c o n f r o n t a n d o as questões cotidianas que n ã o c o m p r e e n d i a m as grandes consequências de cada u m a de suas decisões. C o m o resultado, as suas cartas e até m e m ó rias p o s t e r i o r e s m o s t r a r a m - s e t o r t u r a n t e m e n t e vagas s o b r e as m u d a n ç a s de m a r é da opinião. Sabemos q u e a m a i o r i a t i n h a passado a a c r e d i t a r ser necessário u m f u n d a m e n t o i n t e i r a m e n t e
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O debate se a n i m o u e m m e a d o s de agosto, apesar de alguns d e p u t a d o s z o m b a r e m a b e r t a m e n t e d a "discussão metafísica". C o n f r o n t a d a c o m u m a série d e s n o r t e a n t e de alternativas, a Assembleia Nacional decidiu considerar u m d o c u m e n t o de c o m p r o misso redigido p o r u m s u b c o m i t ê de q u a r e n t a m e m b r o s , n a sua m a i o r p a r t e a n ô n i m o s . N o m e i o da c o n t í n u a incerteza e ansiedade sobre o f u t u r o , os d e p u t a d o s d e d i c a r a m seis dias a u m d e b a t e t u m u l t u a d o (20-24 de agosto, 26 de agosto). C o n c o r d a r a m a respeito de dezessete artigos e m e n d a d o s entre os 24 propostos (nos Estados Unidos, os estados individuais ratificaram apenas dez das doze primeiras e m e n d a s propostas p a r a a Constituição). Exaurida pela discussão dos artigos e e m e n d a s , e m 27 de agosto a Assembleia votou p o r adiar q u a l q u e r o u t r a discussão p a r a depois da redação de u m a n o v a C o n s t i t u i ç ã o . A q u e s t ã o n u n c a foi reaberta. Dessa m a n e i r a u m t a n t o a m b í g u a , a Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o C i d a d ã o a d q u i r i u a sua forma definitiva.* Os d e p u t a d o s franceses declaravam que todos os h o m e n s , e não só os franceses,"nascem e p e r m a n e c e m livres e iguais em direitos" (artigo I ) . Entre os "direitos naturais, inalienáveis e sagrados d o h o m e m " estavam a liberdade, a p r o p r i e d a d e , a segurança e a resistência à opressão (artigo 2 ) . C o n c r e t a m e n t e , isso significava que quaisquer limites aos direitos t i n h a m de ser estabelecidos n a lei (artigo 4 ) . "Todos os cidadãos" t i n h a m o direito de participar
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* Ver n o A p ê n d i c e o texto c o m p l e t o .

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n a formação da lei, que deveria ser a m e s m a p a r a todos (artigo 6 ), e c o n s e n t i r n a t r i b u t a ç ã o (artigo 14), q u e deveria ser d i v i d i d a igualmente segundo a capacidade de pagar (artigo 13). Além disso, a declaração proibia "ordens arbitrárias" (artigo 7°), punições desnecessárias (artigo 8 ) e q u a l q u e r presunção legal de culpa (artigo 9 ) o u a p r o p r i a ç ã o governamental desnecessária da p r o p r i e d a d e (artigo 17). E m t e r m o s u m t a n t o vagos, insistia que " [ n ] i n g u é m deve ser molestado p o r suas opiniões, m e s m o as religiosas" (artigo 10), e n q u a n t o afirmava c o m mais vigor a liberdade de i m p r e n s a (artigo 11). N u m único d o c u m e n t o , p o r t a n t o , os d e p u t a d o s franceses tent a r a m condensar tanto as proteções legais dos direitos individuais como u m novo fundamento para a legitimidade do governo. A soberania se baseava exclusivamente na nação (artigo 3 ), e a"sociedade" tinha o direito de considerar que t o d o agente público devia prestar contas de seus atos (artigo 15). N ã o era feita n e n h u m a m e n ção ao rei, tradição, história o u c o s t u m e s franceses, n e m à Igreja Católica. Os direitos e r a m declarados "na presença e sob os auspícios d o Ser Supremo", mas p o r mais "sagrados" q u e fossem n ã o lhes era atribuída u m a origem sobrenatural. Jefferson t i n h a sentido a necessidade de afirmar que todos os h o m e n s e r a m "dotados pelo seu Criador" c o m direitos, m a s os franceses d e d u z i a m os direitos de origens inteiramente seculares: a natureza, a razão e a sociedade. D u r a n t e os debates, Mathieu de M o n t m o r e n c y havia afirmado que "os direitos do h o m e m na sociedade são eternos" e " n ã o é necessária n e n h u m a sanção para reconhecê-los". O desafio à antiga o r d e m n a Europa não poderia ter sido mais direto.
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religiões e os sexos n ã o apareciam n a declaração. E m b o r a a a u s ê n cia d e especificidade logo criasse p r o b l e m a s , a generalidade d a s afirmações n ã o era u m a g r a n d e surpresa. O C o m i t ê sobre a C o n s tituição t i n h a se c o m p r o m e t i d o o r i g i n a l m e n t e e m p r e p a r a r a t é q u a t r o d o c u m e n t o s diferentes sobre os direitos: (1) u m a declaração dos direitos d o h o m e m ; (2) dos direitos d a nação; (3) dos d i r e i tos d o rei; e (4) dos direitos dos cidadãos sob o governo francês. O d o c u m e n t o a d o t a d o c o m b i n a v a o p r i m e i r o , o segundo e o q u a r t o , m a s sem definir as qualificações p a r a a cidadania. Antes de p a s s a r aos aspectos específicos (os direitos d o rei o u as qualificações p a r a a cidadania), os d e p u t a d o s se e m p e n h a r a m p r i m e i r o em estabelecer princípios gerais p a r a t o d o o governo. A esse respeito, o a r t i g o 2 é típico: " O objetivo de t o d a associação política é a preservação dos direitos naturais e imprescritíveis d o homem". Os d e p u t a d o s q u e r i a m p r o p o r a base d e t o d a associação política — n ã o d a m o n a r q u i a , n ã o d o governo francês, m a s de t o d a associação política. Eles teriam de se voltar e m breve para o governo francês.
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O a t o de d e c l a r a r n ã o resolvia t o d a s as questões. D e fato, emprestava m a i o r urgência a algumas dessas questões — os direitos daqueles que n ã o t i n h a m p r o p r i e d a d e o u das minorias religiosas, p o r exemplo — e abria novas questões sobre grupos, c o m o os escravos o u as m u l h e r e s , que n u n c a h a v i a m detido u m a posição política (a serem examinadas n o p r ó x i m o capítulo). Talvez a q u e les q u e se o p u n h a m a u m a declaração tivessem p e r c e b i d o q u e o p r ó p r i o ato de declarar teria u m efeito galvanizador. Declarar era mais d o q u e esclarecer artigos de doutrina: ao fazer a declaração, os d e p u t a d o s se a p o d e r a v a m efetivamente d a s o b e r a n i a . C o m o resultado, o ato de declarar abriu u m espaço antes i n i m a g i n á v e l para o debate político: se a nação era soberana, qual era o p a p e l d o rei, e q u e m representava m e l h o r a nação? Se os direitos s e r v i a m c o m o o f u n d a m e n t o da legitimidade, o que justificava a s u a limitação a pessoas de certas idades, sexos, raças, religiões o u riqueza?
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N e n h u m dos artigos da declaração especificava os direitos de g r u p o s p a r t i c u l a r e s . " O s h o m e n s " , "o h o m e m " , "cada h o m e m " , I "todos os cidadãos", "cada cidadão", "a sociedade", "qualquer socied a d e " e r a m c o n t r a s t a d o s c o m "ninguém", " n e n h u m indivíduo", " n e n h u m h o m e m " . Era literalmente t u d o o u n a d a . As classes, as
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A l i n g u a g e m dos direitos h u m a n o s t i n h a g e r m i n a d o p o r algum t e m p o nas novas práticas culturais da a u t o n o m i a individual e i n t e g r i d a d e corporal, m a s depois i r r o m p e u r e p e n t i n a m e n t e e m t e m p o s de rebelião e revolução. Q u e m devia, queria o u podia controlar os seus efeitos? D e c l a r a r os direitos t a m b é m teve c o n s e q u ê n c i a s fora da França. A Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o Cidadão t r a n s f o r m o u a linguagem de t o d o m u n d o quase da noite para o dia. A m u d a n ç a p o d e ser e n c o n t r a d a de forma especialmente clara nos escritos e discursos de Richard Price, o p r e g a d o r britânico dissid e n t e q u e havia inflamado a controvérsia c o m seu discurso dos "direitos da h u m a n i d a d e " e m apoio aos colonos a m e r i c a n o s e m 1 7 7 6 . 0 seu panfleto de 1784, Observations American Revolution, on theImportance ofthe c o n t i n u a v a n a m e s m a veia: c o m p a r a v a o

denação especialmente d u r a . A sua linguagem enfureceu T h o m a s l'aine, q u e se a g a r r o u a essa p a s s a g e m n o t ó r i a n a sua réplica de 1791, Os direitos do homem: uma resposta ao ataque do sr. Burke à Revolução Francesa. " O sr. Burke, c o m sua c o s t u m e i r a violência", escreveu Paine, "insultou a Declaração dos Direitos d o H o m e m . [...] A essa cham o u de 'pedaços miseráveis de papel b o r r a d o sobre os direitos d o homem'. O sr. Burke p r e t e n d e negar q u e o h o m e m tenha direitos? Nesse caso, deve querer dizer q u e n ã o existem esses tais direitos e m n e n h u m lugar, e q u e ele p r ó p r i o n ã o t e m n e n h u m : pois q u e m existe n o m u n d o senão o h o m e m ? " E m b o r a a resposta de M a r y Wollstonecraft, Vindication Right Honourable the Revolution Edmund ofthe Rights ofMen, in a Letter to the on Burke; Occasioned by his Reflections

in France, tivesse sido publicada antes, e m 1790, Os

m o v i m e n t o de independência a m e r i c a n o à i n t r o d u ç ã o d o cristian i s m o e predizia que ele "produziria u m a difusão geral dos princípios da h u m a n i d a d e " (apesar d a escravidão, q u e ele c o n d e n a v a c a t e g o r i c a m e n t e ) . N u m s e r m ã o d e n o v e m b r o de 1789, Price endossava a nova terminologia francesa: "Vivi p a r a ver os direitos dos h o m e n s m a i s b e m c o m p r e e n d i d o s d o q u e n u n c a , e nações a n s i a n d o p o r liberdade q u e pareciam ter p e r d i d o a ideia d o q u e isso fosse. [... ] Depois de partilhar os benefícios de u m a Revolução [ 1688], fui p o u p a d o para ser t e s t e m u n h a de duas o u t r a s Revoluções [a americana e a francesa], a m b a s gloriosas".
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direitos do homem c a u s o u u m i m p a c t o a i n d a mais direto e estup e n d o , e m parte p o r q u e Paine aproveitou a ocasião para a r g u m e n tar c o n t r a t o d a s as formas d e m o n a r q u i a hereditária, inclusive a inglesa. A sua o b r a teve várias edições inglesas ainda n o p r i m e i r o a n o de sua publicação.
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C o m o consequência, o e m p r e g o d a l i n g u a g e m dos direitos a u m e n t o u d r a m a t i c a m e n t e depois de 1789. As evidências dessa o n d a p o d e m ser p r o n t a m e n t e e n c o n t r a d a s n o n ú m e r o de títulos e m inglês q u e u s a m a p a l a v r a " d i r e i t o s " : ele q u a d r u p l i c o u n a década d e 1790 (418) e m c o m p a r a ç ã o c o m a de 1780 (95) ou c o m q u a l q u e r década anterior d u r a n t e o século xvni. Algo semelhante aconteceu e m holandês: rechten van des mensch apareceu pela p r i m e i r a vez e m 1791 c o m a t r a d u ç ã o de Paine, sendo depois seguido p o r m u i t o s usos n a década de 1790. Rechten des menschen apareceu logo depois nas terras e m q u e se falava o alemão. U m t a n t o iron i c a m e n t e , p o r t a n t o , a p o l ê m i c a e n t r e os escritores d e l í n g u a inglesa levou os "direitos d o h o m e m " francês a u m público internacional. O impacto foi m a i o r d o que t i n h a sido depois de 1776,

O panfleto escrito e m 1790 p o r E d m u n d Burke contra Price, Reflexões sobre a revolução na França, desencadeou p o r sua vez u m frenesi de discussão e m várias l i n g u a g e n s s o b r e os direitos d o h o m e m . Burke a r g u m e n t a v a q u e o "novo i m p é r i o c o n q u i s t a d o r de luz e r a z ã o " n ã o p o d i a p r o p i c i a r u m f u n d a m e n t o a d e q u a d o para u m governo b e m - s u c e d i d o , q u e t i n h a de estar arraigado nas tradições d u r a d o u r a s d e u m a nação. Na sua acusação aos novos princípios franceses, Burke escolheu a Declaração p a r a u m a con134

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p o r q u e os franceses t i n h a m u m a m o n a r q u i a c o m o as da maioria das o u t r a s nações europeias, e eles n u n c a a b a n d o n a r a m a linguag e m d o u n i v e r s a l i s m o . O s escritos i n s p i r a d o s pela Revolução Francesa t a m b é m elevaram o nível da discussão a m e r i c a n a dos direitos: os seguidores de Jefferson invocavam c o n s t a n t e m e n t e os "direitos d o homem", m a s os federalistas tratavam c o m desprezo u m a linguagem associada c o m "excesso d e m o c r á t i c o " ou ameaças à a u t o r i d a d e estabelecida. Essas disputas ajudaram a disseminar a linguagem dos direitos h u m a n o s p o r t o d o o m u n d o ocidental.
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H o m e m e do Cidadão. O s participantes da m a r c h a forçaram o rei e sua família a se m u d a r de Versalhes para Paris e m 6 de o u t u b r o . N o m e i o dessa r e n o v a d a agitação, e m 8-9 de o u t u b r o , a Assembleia aprovou o decreto p r o p o s t o pelo seu comitê. Ao m e s m o t e m p o , os deputados v o t a r a m p o r se j u n t a r ao rei e m Paris.
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A Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o Cidadão t i n h a traçado apenas p r i n c í p i o s gerais de justiça: a lei devia ser a m e s m a para t o d o s , n ã o devia p e r m i t i r a prisão arbitrária ou castigos além daqueles "estrita e o b v i a m e n t e necessários", e o acusado devia ser considerado inocente até ser julgado culpado. O decreto de 8-9 de o u t u b r o de 1789 começava c o m u m a invocação da declaração: "A Assembleia Nacional, c o n s i d e r a n d o q u e u m dos principais direitos d o h o m e m , p o r ela reconhecido, é o de usufruir, q u a n d o acusado de u m delito criminal, de t o d a a liberdade e segurança para a defesa que possa ser conciliada c o m o interesse da sociedade que p e d e a p u n i ç ã o dos crimes [...]". Passava e n t ã o a especificar os p r o cedimentos, a maioria dos quais se destinava a assegurar a transparência para o público. N u m lance inspirado pela desconfiança n o judiciário então e m vigor, o decreto requeria a eleição d e comissários especiais e m cada distrito p a r a ajudar e m todos os casos criminais, inclusive n a s u p e r v i s ã o d a coleta d e evidências e t e s t e m u n h o s . Garantia o acesso da defesa a todas as informações reunidas e a natureza pública de t o d o s os p r o c e d i m e n t o s criminais, p o n d o e m prática u m dos princípios mais acalentados por Beccaria. O mais c u r t o dos 28 artigos n o decreto, o artigo 24, é o mais interessante para nossos propósitos. Ele abolia todas as formas de t o r t u r a e t a m b é m o uso de u m b a n c o baixo e h u m i l h a n t e (a sellette) p a r a o interrogatório final d o acusado perante os seus juízes. Luís xvi havia s u p r i m i d o a n t e r i o r m e n t e a "questão preparatória", o e m p r e g o da t o r t u r a p a r a o b t e r confissões de culpa, m a s t i n h a proibido apenas p r o v i s o r i a m e n t e o uso da "questão preliminar", a tortura p a r a obter os n o m e s de cúmplices. O governo d o rei tinha
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ABOLINDO A TORTURA E A PUNIÇÃO

CRUEL

Seis semanas depois de aprovarem a Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o Cidadão, e m e s m o antes que tivessem sido determinadas as ressalvas a votar, os d e p u t a d o s franceses aboliram todos os usos da t o r t u r a judicial c o m o parte de u m a reforma provisória do p r o c e d i m e n t o criminal. E m 10 de setembro de 1789, o conselho da cidade de Paris enviou u m a petição formal à Assembleia Nacional e m n o m e d a "razão e h u m a n i d a d e " , d e m a n d a n d o r e f o r m a s judiciais i m e d i a t a s q u e n ã o só " r e s g a t a r i a m a i n o c ê n c i a " c o m o "estabeleceriam m e l h o r as provas d o crime e t o r n a r i a m a condenação mais certa". Os m e m b r o s d o conselho da cidade fizeram a petição p o r q u e muitas pessoas t i n h a m sido presas pela n o v a G u a r d a Nacional, c o m a n d a d a e m Paris p o r Lafayette, nas s e m a n a s de sublevação depois de 14 de julho. Poderia o sigilo habitual dos p r o cedimentos judiciais fomentar a manipulação e a chicana dos inimigos da Revolução? E m resposta, a Assembleia Nacional n o m e o u u m Comitê dos Sete para redigir as reformas mais prementes, não apenas para Paris mas para t o d a a nação. E m 5 de o u t u b r o , sob a pressão de u m a m a r c h a impressionante a Versalhes, Luís xvi d e u finalmente a sua aprovação formal à Declaração dos Direitos d o

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e l i m i n a d o a selletteem

m a i o de 1788, m a s c o m o a ação era m u i t o

Q u a n d o c h e g o u a h o r a d e c o m p l e t a r a revisão d o c ó d i g o penal a p ó s m a i s de d e z o i t o meses, o d e p u t a d o e n c a r r e g a d o d e apresentar a reforma invocou todas as noções que t i n h a m se torn a d o familiares d u r a n t e as c a m p a n h a s c o n t r a a t o r t u r a e a p u n i ç ã o cruel. Louis-Michel Lepeletier d e Saint-Fargeau, o u t r o r a juiz n o Parlementde Paris, s u b i u à t r i b u n a e m 23 d e m a i o d e 1791 p a r a a p r e s e n t a r os p r i n c í p i o s d o C o m i t ê sobre a Lei C r i m i n a l ( u m a c o n t i n u a ç ã o d o C o m i t ê dos Sete n o m e a d o e m setembro de 1789). D e n u n c i o u as " t o r t u r a s atrozes imaginadas e m séculos b á r b a r o s e ainda assim conservadas e m séculos esclarecidos", a falta d e p r o p o r ç ã o e n t r e os crimes e as punições ( u m a das principais queixas de Beccaria) e a "ferocidade geralmente absurda" das leis a n t e r i o res. "Os p r i n c í p i o s de h u m a n i d a d e " agora m o d e l a r i a m o código penal, q u e n o futuro se basearia antes na reabilitação p o r m e i o d o trabalho q u e n a p u n i ç ã o sacrificai p o r meio d a dor.
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recente os d e p u t a d o s c o n s i d e r a r a m necessário t o r n a r a sua p r ó pria posição b e m clara. A sellette era u m i n s t r u m e n t o de h u m i l h a ção e representava o tipo de a t a q u e à dignidade d o indivíduo que os d e p u t a d o s a g o r a c o n s i d e r a v a m inaceitável. O d e p u t a d o q u e a p r e s e n t o u o decreto p a r a o c o m i t ê reservou a discussão dessas m e d i d a s p a r a o fim, c o m o intuito de sublinhar a sua i m p o r t â n c i a simbólica. T i n h a insistido c o m os seus colegas desde o início q u e "vocês n ã o p o d e m deixar n o Código corrente m a n c h a s q u e revolt a m a h u m a n i d a d e ; vocês c e r t a m e n t e q u e r e m q u e elas desapareç a m sem demora". Depois se t o r n o u quase lacrimoso q u a n d o chegou ao t e m a da tortura:

Acreditamos que devemos à humanidade apresentar-lhes uma observação final. O rei já [...] baniu da França a prática absurdamente cruel de arrancar do acusado, por meio de tortura, a confissão de crimes [...] mas ele lhes deixou a glória de completar esse grande ato de razão e justiça. Permanece ainda em nosso código a tortura preliminar!...] os refinamentos mais execráveis de crueldade] ainda são empregados para obter a revelação dos cúmplices. Fixem seus olhos nesse resquício de barbárie, por favor, senhores, e logrem proscrever de seus corações essa prática. Seria um espetáculo belo e comovente para o universo: ver um rei e uma nação, unidos pelos laços indissolúveis de um amor recíproco, rivalizando entre si no zelo pela perfeição das leis, um tentando superar o outro na construção de monumentos à justiça, à liberdade e à humanidade.

T ã o b e m - s u c e d i d a s t i n h a m sido as c a m p a n h a s c o n t r a a tort u r a e a p u n i ç ã o cruel q u e o comitê colocou a seção sobre as p u n i ções antes da seção q u e definia os crimes n o novo código penal. Todas as sociedades e x p e r i m e n t a m o crime, mas a p u n i ç ã o reflete a p r ó p r i a natureza de u m a política pública. O comitê p r o p ô s u m a revisão completa d o sistema penal para d a r c o r p o aos novos valores cívicos: e m n o m e d a igualdade, t o d o s seriam julgados n o s m e s m o s t r i b u n a i s sob a m e s m a lei e s e r i a m suscetíveis às m e s m a s punições. A privação d a liberdade seria a p u n i ç ã o exemplar, o q u e significava q u e ser enviado para as galés n o m a r e p a r a o exílio seria substituído pelo a p r i s i o n a m e n t o e p o r trabalhos forçados. O s conc i d a d ã o s d o c r i m i n o s o n a d a s a b e r i a m s o b r e a significância d a p u n i ç ã o se o c r i m i n o s o fosse s i m p l e s m e n t e enviado p a r a o u t r o lugar, fora d o alcance d a visão pública. O comitê até defendia elim i n a r a p e n a de m o r t e à exceção dos casos de rebelião c o n t r a o Estado, m a s sabia que enfrentaria resistência q u a n t o a esse p o n t o . O s d e p u t a d o s v o t a r a m p o r reinstalar a p e n a d e m o r t e p a r a alguns
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Na esteira d a declaração d e direitos, a t o r t u r a foi p o r fim c o m p l e t a m e n t e abolida. A abolição d a t o r t u r a n ã o estava n a a g e n d a d o governo da cidade de Paris e m 10 de setembro, m a s os d e p u t a d o s n ã o resistiram à o p o r t u n i d a d e apresentada de t o r n á - l a o clímax de sua primeira revisão d o código criminal.
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crimes, e m b o r a excluíssem t o d o s os crimes religiosos c o m o a heresia, o sacrilégio o u a prática da magia. (A s o d o m i a , antes punível c o m a m o r t e , n ã o era mais considerada crime.) A p e n a de m o r t e só seria e x e c u t a d a pela decapitação, antes reservada aos n o b r e s . A guilhotina, inventada para t o r n a r a decapitação o m e n o s dolorosa possível, c o m e ç o u a ser praticada e m abril de 1 7 9 2 . 0 suplício da roda, a q u e i m a n a fogueira, "essas t o r t u r a s q u e a c o m p a n h a v a m a p e n a de m o r t e " desapareceriam; " t o d o s esses h o r r o r e s legais são detestados pela h u m a n i d a d e e pela opinião pública", insistia Lepeletier. "Esses espetáculos cruéis d e g r a d a m a m o r a l pública e são indignos de u m século h u m a n o e esclarecido."
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honorable)

em que o c o n d e n a d o , vestindo apenas u m a camisa,

c o m u m a corda ao r e d o r d o pescoço e u m a t o c h a n a m ã o , ia até a p o r t a de u m a igreja e i m p l o r a v a o perdão de D e u s , d o rei e d a j u s tiça. E m lugar disso, o c o m i t ê p r o p u n h a u m a p u n i ç ã o baseada n o s direitos c h a m a d a d e "degradação cívica", q u e p o d e r i a ser a ú n i c a p u n i ç ã o o u ser acrescentada a u m período de e n c a r c e r a m e n t o . O s p r o c e d i m e n t o s e r a m descritos e m detalhes p o r Lepeletier. O c o n d e n a d o era c o n d u z i d o a u m lugar p ú b l i c o especificado, o n d e o escrivão d o t r i b u n a l c r i m i n a l lia e m voz alta estas palavras: " O seu país o considerou c u l p a d o de u m a ação desonrosa. A lei e o t r i b u nal lhe t i r a m a posição de cidadão francês". O c o n d e n a d o era e n t ã o preso n u m colarinho d e ferro e ali p e r m a n e c i a exposto ao público p o r duas h o r a s . O seu n o m e , o seu crime e o seu j u l g a m e n t o seriam escritos n u m cartaz colocado abaixo da sua cabeça. As mulheres, os estrangeiros e os recidivistas criavam u m p r o b l e m a , e n t r e t a n t o : c o m o p o d i a m p e r d e r os seus direitos de votar o u o direito de ocup a r u m cargo público, q u a n d o não t i n h a m esses direitos? O artigo 32 tratava especificamente desse p o n t o : n o caso de u m a sentença de "degradação cívica" c o n t r a mulheres, estrangeiros ou recidivistas, eles e r a m c o n d e n a d o s ao colarinho de ferro p o r duas horas e usavam u m cartaz s e m e l h a n t e ao prescrito p a r a os h o m e n s , mas o escrivão n ã o lia a frase a respeito da perda da posição cívica.
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C o m o a reabilitação e o reingresso d o c r i m i n o s o n a sociedade e r a m as metas principais, a mutilação corporal e as marcas de ferro e m b r a s a se t o r n a r a m intoleráveis. A i n d a assim, Lepeletier se estendeu bastante sobre a questão das marcas feitas c o m ferro e m brasa: c o m o a sociedade se protegeria contra criminosos c o n d e n a dos sem n e n h u m tipo de sinal p e r m a n e n t e de seu status? Concluiu que n a nova o r d e m seria impossível q u e v a g a b u n d o s o u c r i m i n o sos passassem despercebidos, p o r q u e as municipalidades m a n t e r i a m registros exatos c o m os n o m e s de cada habitante. Marcar os seus corpos de forma p e r m a n e n t e impediria q u e se reintegrassem n a sociedade. Nisso c o m o n a questão mais geral da dor, os d e p u t a dos t i n h a m de seguir u m c a m i n h o sem m u i t a m a r g e m de erro: a p u n i ç ã o devia ter, s i m u l t a n e a m e n t e , efeitos de dissuasão e r e a d a p tação. A p u n i ç ã o n ã o p o d i a ser tão degradante a p o n t o de i m p e d i r q u e os c o n d e n a d o s se reintegrassem n a sociedade. C o m o c o n s e
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A " d e g r a d a ç ã o cívica" p o d e parecer formulística, m a s ela apontava para a reorientação n ã o só d o código penal mas do sist e m a político e m geral. O c o n d e n a d o agora era u m cidadão, n ã o u m súdito: p o r t a n t o , ele o u ela (as mulheres e r a m cidadãs "passivas") n ã o p o d i a m ser obrigados a s u p o r t a r a tortura, castigos desnecessariamente cruéis o u penalidades excessivamente desonrosas. Q u a n d o a p r e s e n t o u a r e f o r m a d o c ó d i g o penal, Lepeletier distinguiu entre dois tipos de p u n i ç ã o : castigos corporais (prisão, m o r t e ) e castigos desonrosos. E m b o r a todas as punições tivessem u m a d i m e n s ã o de v e r g o n h a o u desonra, c o m o o próprio Lepele-

quência, e m b o r a prescrevesse a exposição pública dos c o n d e n a d o s , às vezes acorrentados, o código penal limitava c u i d a d o s a m e n t e a exposição ( n o m á x i m o três dias) d e p e n d e n d o d a g r a v i d a d e d o delito. Os d e p u t a d o s t a m b é m q u e r i a m acabar c o m o colorido religioso da punição. E l i m i n a r a m o ato formal da penitência (arriende
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tier afirmava, os d e p u t a d o s q u e r i a m circunscrever o uso de castigos desonrosos. Eles m a n t i v e r a m a exposição pública e o colarinho de ferro, m a s s u p r i m i r a m o ato de penitência, o uso d o t r o n c o e d o p e l o u r i n h o , o ato de arrastar o c o r p o n u m a espécie de a r m a ç ã o depois da m o r t e , a r e p r i m e n d a judicial e o ato de declarar indefinid a m e n t e e m aberto u m caso contra o acusado (sugerindo p o r t a n t o a culpa). "Propomos", dizia Lepeletier, "que vocês a d o t e m o princípio [do castigo d e s o n r o s o ] , m a s multipliquem m e n o s as variações, que ao dividi-lo enfraquecem este p e n s a m e n t o terrível e salutar: a sociedade e as leis proferem u m anátema contra alguém que se corr o m p e u pelo crime." Podia-se desonrar u m criminoso e m n o m e da sociedade e das leis, mas n ã o e m n o m e da religião o u d o rei.
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princípio inspirador da m o n a r q u i a c o m o f o r m a d e governo. M u i tos consideravam a h o n r a a província especial d a aristocracia. N o seu ensaio sobre castigos desonrosos, Robespierre t i n h a a t r i b u í d o a p r á t i c a de d e s o n r a r famílias inteiras aos defeitos d a p r ó p r i a n o ç ã o de h o n r a : Se consideramos a natureza dessa honra, fértil em caprichos, sempre inclinada a uma excessiva sutileza, frequentemente apreciando as coisas pelo seu glamour e não pelo seu valor intrínseco e os homens pelos seus acessórios, títulos que lhes são alheios, e não pelas suas qualidades pessoais, podemos facilmente compreender como ela [a honra] podia entregar ao desprezo aqueles que têm como ente querido um vilão punido pela sociedade.

N u m o u t r o passo q u e significou u m r e a l i n h a m e n t o fundamental, os d e p u t a d o s decidiram que os novos castigos desonrosos se destinavam apenas ao indivíduo criminoso, n ã o à sua família. C o m os tipos tradicionais de castigo desonroso, os m e m b r o s das famílias dos c o n d e n a d o s sofriam d i r e t a m e n t e as consequências. N e n h u m deles podia c o m p r a r cargos ou o c u p a r posições públicas, a sua p r o p r i e d a d e ficava, e m alguns casos, sujeita a confisco, e eles e r a m considerados igualmente d e s o n r a d o s pela c o m u n i d a d e . E m 1784, o jovem advogado Pierre-Louis Lacretelle g a n h o u u m p r ê m i o da Academia Metz p o r u m ensaio e m q u e defendia que a vergonha do castigo desonroso n ã o devia ser estendida aos m e m b r o s da família. O s e g u n d o p r ê m i o foi p a r a u m j o v e m a d v o g a d o d e A r r a s c o m u m e x t r a o r d i n á r i o futuro, M a x i m i l i e n R o b e s p i e r r e , q u e a d o t o u a m e s m a posição. Essa atenção ao castigo d e s o n r o s o reflete u m a m u d a n ç a sutil m a s i m p o r t a n t e n o conceito de h o n r a : c o m o desenvolvimento de u m a n o ç ã o dos direitos h u m a n o s , a c o m p r e e n s ã o tradicional de h o n r a começava a ser atacada. A h o n r a tinha sido a qualidade

E n t r e t a n t o , Robespierre t a m b é m d e n u n c i o u o a t o d e reservar a decapitação (considerada mais h o n r a d a ) apenas p a r a os nobres. Ele q u e r i a q u e t o d a s as pessoas fossem i g u a l m e n t e h o n r a d a s o u q u e renunciassem ao p r ó p r i o conceito de h o n r a ?
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M e s m o antes da década de 1780, e n t r e t a n t o , a h o n r a estava p a s s a n d o p o r m u d a n ç a s . "Honra", s e g u n d o a edição de 1762 d o dicionário da Académie Française, significa "virtude, probidade". "Ao falar das mulheres", e n t r e t a n t o , "a h o n r a significa castidade, modéstia." Na segunda m e t a d e d o século xvni, observa-se cada vez m a i s q u e as distinções de h o n r a separavam mais os h o m e n s das m u l h e r e s que os aristocratas dos c o m u n s . Para os h o m e n s , a h o n r a estava se t o r n a n d o ligada à virtude, a qualidade q u e M o n t e s q u i e u associava c o m repúblicas: t o d o s os cidadãos eram h o n r a d o s se foss e m virtuosos. Sob o n o v o regime, a h o n r a t i n h a a ver c o m as ações, n ã o c o m o nascimento. A distinção entre os h o m e n s e as mulheres p a s s o u da h o n r a p a r a as questões de cidadania, b e m c o m o para as formas de p u n i ç ã o . A h o n r a (e a virtude) das mulheres era privada e doméstica, a dos h o m e n s era pública. Tanto os h o m e n s como as
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pes-

soal m a i s i m p o r t a n t e sob a m o n a r q u i a ; de fato, M o n t e s q u i e u a r g u m e n t o u e m seu O espírito das leis (1748) q u e a h o n r a era o
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m u l h e r e s p o d i a m ser d e s o n r a d o s n a p u n i ç ã o , m a s a p e n a s os h o m e n s t i n h a m direitos políticos a perder. Tanto n a p u n i ç ã o c o m o n o s d i r e i t o s , os a r i s t o c r a t a s e os c o m u n s a g o r a e r a m iguais; os h o m e n s e as mulheres, n ã o .
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escrever essas palavras. D u r a n t e a Revolução, ele p r i m e i r o a t a c o u a prestigiada Académie Française, q u e o tinha elegido e m 1 7 8 1 , e depois se a r r e p e n d e u de suas ações e a defendeu. Chegar à A c a d é m i e era a m a i o r h o n r a q u e p o d i a ser conferida a u m escritor s o b a m o n a r q u i a . A Académie foi abolida e m 1793 e revivida sob N a p o leão. C h a m f o r t c o m p r e e n d e u n ã o só a m a g n i t u d e d a m u d a n ç a n a h o n r a — a dificuldade d e m a n t e r as distinções sociais n u m m u n d o i m p a c i e n t e m e n t e e q u a l i z a d o r — , m a s t a m b é m a conexão d o n o v o código p e n a l c o m tal modificação. O c o l a r i n h o d e ferro t i n h a se t o r n a d o o m í n i m o d e n o m i n a d o r c o m u m da p e r d a d e h o n r a .
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A d i l u i ç ã o d a h o n r a n ã o p a s s o u d e s p e r c e b i d a . E m 1794, o escritor Sébastien-Roch Nicolas C h a m f o r t , u m dos m e m b r o s da elitista Académie Française, satirizou a m u d a n ç a : É uma verdade reconhecida que o nosso século tem posto as palavras no seu lugar: ao banir sutilezas escolásticas, dialéticas e metafísicas, ele retornou ao simples e verdadeiro na física, na moral e na política. Falando apenas da moral, percebe-se o quanto esta palavra, honra, incorpora ideias complexas e metafísicas. O nosso século sentiu os inconvenientes dessas ideias e para trazer tudo de volta ao simples, para impedir todo abuso de palavras, estabeleceu que a honra permanece integral para todo homem que nunca foi um ex-condenado. No passado essa palavra foi uma fonte de equívocos e contestações; no presente, nada poderia ser mais claro. O homem foi colocado no colarinho de ferro ou não? Essa é a pergunta a ser feita. É uma simples pergunta factual que pode ser facilmente respondida pelos registros do escrivão do tribunal. Um homem que não foi colocado no colarinho de ferro é um homem de honra que pode reivindicar qualquer coisa, cargos no ministério etc. Tem ingresso garantido nas corporações profissionais, nas academias, nas cortes do soberano. Percebe-se como a clareza e a precisão nos poupam de brigas e discussões, e como o comércio da vida se torna conveniente e fácil.

O n o v o código penal foi apenas u m a das m u i t a s c o n s e q u ê n cias q u e d e r i v a r a m da Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o Cidadão. O s d e p u t a d o s t i n h a m reagido à r e c o m e n d a ç ã o insistente do d u q u e de M o n t m o r e n c y — "dar u m grande exemplo" redigindo u m a declaração d e direitos — e e m a l g u m a s semanas c o m e ç a r a m a descobrir c o m o p o d i a m ser imprevisíveis os efeitos d e s s e exemplo. "A ação d e afirmar, dizer, apresentar o u a n u n c i a r a b e r t a , explícita o u formalmente", implícita n o ato d e declarar, t i n h a u m a lógica p r ó p r i a . U m a vez a n u n c i a d o s a b e r t a m e n t e , os direitos p r o p u n h a m n o v a s q u e s t õ e s — q u e s t õ e s antes n ã o cogitadas e n ã o cogitáveis. O ato d e declarar os direitos revelou-se apenas o p r i m e i r o passo n u m processo e x t r e m a m e n t e t e n s o q u e c o n t i n u a até os nossos dias.

C h a m f o r t tinha as suas próprias razões para levar a h o n r a a sério. U m a criança a b a n d o n a d a de pais desconhecidos, C h a m f o r t construiu u m a reputação literária e se t o r n o u o secretário pessoal da i r m ã de Luís xvi. M a t o u - s e n o auge d o Terror, p o u c o depois de
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4. "Isso não terminará nunca"
As consequências das declarações

decidiu entrar n o e m a r a n h a d o d a questão. " N ã o h á meio-termo", insistiu. O u vocês estabelecem u m a religião oficial d o Estado, o u a d m i t e m que os m e m b r o s de q u a l q u e r religião p o d e m votar e ocupar cargos públicos. C l e r m o n t - T o n n e r r e insistia que a crença religiosa n ã o devia ser motivo p a r a a exclusão dos direitos políticos e que, p o r t a n t o , os j u d e u s t a m b é m d e v i a m ter direitos iguais. Mas não era t u d o . A profissão t a m b é m n ã o devia ser m o t i v o de exclusão, ele a r g u m e n t o u . Os carrascos e os atores, a q u e m e r a m negados direitos políticos n o passado, agora d e v i a m ter acesso a eles. (Os carrascos c o s t u m a v a m ser c o n s i d e r a d o s d e s o n r a d o s p o r q u e gan h a v a m a vida m a t a n d o pessoas, e os atores p o r q u e fingiam ser o u t r a pessoa.) C l e r m o n t - T o n n e r r e acreditava e m coerência: "devem o s o u p r o i b i r c o m p l e t a m e n t e as peças teatrais, o u e l i m i n a r a desonra associada ao ato de representar".
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P o u c o antes d o Natal d e 1789, os d e p u t a d o s da Assembleia Nacional francesa se v i r a m n o m e i o de u m debate peculiar. C o m e çou e m 21 d e dezembro, q u a n d o u m d e p u t a d o p r o p ô s a questão d o s direitos d e v o t o d o s n ã o - c a t ó l i c o s . "Vocês d e c l a r a r a m q u e t o d o s os h o m e n s nascem e p e r m a n e c e m livres e iguais e m direitos", ele l e m b r o u a seus colegas d e p u t a d o s . " D e c l a r a r a m que n i n g u é m p o d e ser p e r t u r b a d o p o r suas opiniões religiosas." H á m u i tos d e p u t a d o s p r o t e s t a n t e s e n t r e n ó s , ele o b s e r v o u , e assim a Assembleia devia decretar i m e d i a t a m e n t e q u e os n ã o - c a t ó l i c o s p o s s a m ser eleitos pelo voto, o c u p a r cargos e aspirar a q u a l q u e r posto civil o u militar, " c o m o os o u t r o s cidadãos". Os "não-católicos" consistiam u m a categoria estranha. Q u a n d o Pierre Brunet de Latuque a u s o u na sua p r o p o s t a de decreto, ele claramente queria dizer protestantes. Mas n ã o incluía t a m b é m os judeus? A França era o lar de u n s 40 mil j u d e u s e m 1789, além de ter de 100 mil a 200 mil p r o t e s t a n t e s (os católicos f o r m a v a m os outros 9 9 % da p o p u l a ç ã o ) . Dois dias depois da intervenção inicial de B r u n e t de Latuque, o c o n d e Stanislas de C l e r m o n t - T o n n e r r e i 6
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As questões dos direitos revelavam, p o r t a n t o , u m a tendência a se suceder e m cascata. Assim q u e os d e p u t a d o s consideraram o status dos protestantes c o m o u m a m i n o r i a religiosa sem direitos civis, os j u d e u s estavam fadados a vir à baila; q u a n d o as exclusões religiosas e n t r a r a m na agenda, as profissionais n ã o d e m o r a r a m a segui-las. Já e m 1776 J o h n A d a m s t e m e r a u m a progressão ainda mais radical e m Massachusetts. A James Sullivan ele escreveu:

Pode acreditar, senhor, é perigoso abrir uma Fonte de Controvérsia e altercação tão fértil como a que seria aberta pela tentativa de alterar as Qualificações dos Votantes. Isso não terminará nunca. Surgirão novas reivindicações. As mulheres exigirão o voto. Os garotos de 12 a 21 anos pensarão que seus Direitos não são suficientemente considerados, e todo Homem sem um tostão exigirá uma Voz igual a qualquer outra em todas as Leis do Estado.

A d a m s n ã o p e n s a v a r e a l m e n t e q u e as m u l h e r e s o u as crianças p e d i r i a m o direito de votar, m a s temia as consequências de esten147

der o sufrágio aos h o m e n s sem p r o p r i e d a d e . Era m u i t o mais fácil argumentar contra "todo H o m e m sem u m tostão" a p o n t a n d o p e d i d o s ainda mais absurdos que p o d e r i a m vir daqueles e m patamares ainda mais inferiores n a escala social.
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que p o u c o s H o m e n s q u e n ã o p o s s u e m P r o p r i e d a d e têm u m julgam e n t o próprio".
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A cronologia básica d a extensão d o s direitos é mais fácil d e seguir n a França, p o r q u e os direitos políticos e r a m definidos pela legislatura n a c i o n a l , e n q u a n t o n o s n o v o s E s t a d o s U n i d o s tais direitos e r a m regulados pelos estados individuais. Na s e m a n a d e 20-27 de o u t u b r o de 1789, os d e p u t a d o s a p r o v a r a m u m a série de decretos estabelecendo as condições d e elegibilidade p a r a votar: (1) ser francês o u ter se t o r n a d o francês p o r m e i o de naturalização; (2) ter atingido a m a i o r i d a d e , estabelecida e n t ã o e m 25 anos; (3) ter r e s i d i d o n a z o n a eleitoral ao m e n o s p o r u m a n o ; (4) p a g a r i m p o s t o s diretos n u m c ô m p u t o igual ao valor local de três dias de trabalho ( u m c ô m p u t o mais elevado era exigido n o caso da elegib i l i d a d e p a r a o c u p a r cargos); (5) n ã o ser c r i a d o d o m é s t i c o . O s d e p u t a d o s n a d a diziam sobre religião, raça o u sexo ao estabelecer esses r e q u i s i t o s , e m b o r a fosse c l a r a m e n t e p r e s s u p o s t o q u e as m u l h e r e s e os escravos estavam excluídos. D u r a n t e os meses e anos seguintes, g r u p o após g r u p o foi alvo de discussões específicas, e p o r fim a m a i o r i a deles conseguiu direitos políticos iguais. O s h o m e n s protestantes g a n h a r a m seus direitos e m 24 de d e z e m b r o de 1789, assim c o m o todas as profissões. O s h o m e n s j u d e u s obtiveram finalmente o m e s m o avanço e m 27 de s e t e m b r o de 1791. Alguns m a s n e m t o d o s os h o m e n s negros livres c o n q u i s t a r a m direitos políticos e m 15 de m a i o de 1791, m a s os p e r d e r a m e m 24 de s e t e m b r o e depois os v i r a m restabelecidos e a p l i c a d o s de m o d o m a i s geral e m 4 d e a b r i l d e 1792. E m 10 d e agosto de 1792, os direitos de votar foram estendidos a t o d o s os h o m e n s (na França m e t r o p o l i t a n a ) à exceção dos criados e desemp r e g a d o s . E m 4 de fevereiro de 1794, a escravidão foi abolida e direitos iguais concedidos, ao m e n o s e m princípio, aos escravos. Apesar dessa quase inimaginável extensão dos direitos políticos a g r u p o s antes n ã o e m a n c i p a d o s , a linha foi traçada nas mulheres: as
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Tanto n o s novos Estados U n i d o s c o m o n a França, as declarações de direitos se referiam a "homens", "cidadãos", "povo" e "socied a d e " sem cuidar das diferenças n a posição política. M e s m o antes q u e a D e c l a r a ç ã o francesa fosse r a s c u n h a d a , u m a s t u t o teórico constitucional, o abade Sieyès, t i n h a a r g u m e n t a d o a favor de u m a distinção entre os direitos naturais e civis dos cidadãos, de u m lado, e os direitos políticos, de o u t r o . As mulheres, as crianças, os est r a n g e i r o s e aqueles q u e n ã o p a g a v a m t r i b u t o s d e v i a m ser s o m e n t e cidadãos "passivos". "Apenas aqueles que c o n t r i b u e m p a r a a o r d e m p ú b l i c a são c o m o os v e r d a d e i r o s acionistas d a g r a n d e empresa social. Somente eles são os verdadeiros cidadãos ativos."
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Os m e s m o s princípios já estavam em vigor há m u i t o t e m p o d o o u t r o lado d o Atlântico. As treze colônias n e g a v a m o voto às mulheres, aos negros, aos índios e aos sem p r o p r i e d a d e . E m Delaware, p o r exemplo, o sufrágio era l i m i t a d o aos h o m e n s b r a n c o s adultos q u e possuíssem c i n q u e n t a acres de terra, q u e tivessem residido e m Delaware p o r dois anos, q u e fossem naturais da região o u n a t u r a l i z a d o s , q u e n e g a s s e m a a u t o r i d a d e d a Igreja Católica R o m a n a e que reconhecessem q u e o Antigo e o Novo Testamentos e r a m o b r a da inspiração divina. Depois da independência, alguns estados d e c r e t a r a m c o n d i ç õ e s m a i s liberais. A Pensilvânia, p o r exemplo, estendeu o direito de votar a t o d o s os h o m e n s a d u l t o s livres q u e pagassem t r i b u t o s de q u a l q u e r i m p o r t â n c i a , e Nova Jersey p e r m i t i u p o r u m c u r t o p e r í o d o que as m u l h e r e s q u e tivessem alguma p r o p r i e d a d e votassem; m a s a maioria dos estados reteve as suas qualificações referentes à p r o p r i e d a d e , e m u i t o s c o n s e r v a r a m os testes religiosos, ao m e n o s p o r algum t e m p o . John A d a m s capt o u a visão d o m i n a n t e : "tal é a Fragilidade d o C o r a ç ã o h u m a n o
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m u l h e r e s n u n c a g a n h a r a m direitos políticos iguais d u r a n t e a Revolução. Elas g a n h a r a m , entretanto, direitos iguais de herança e o direito ao divórcio.

revelou-se u m b e m m u i t o positivo. E x a t a m e n t e p o r ter deixado de I ado q u a l q u e r questão específica, a discussão dos princípios gerais, em julho-agosto de 1789, a j u d o u a p ô r e m ação m o d o s de pensar que a c a b a r a m p r o m o v e n d o interpretações mais radicais das especificidades necessárias. A d e c l a r a ç ã o se d e s t i n a v a a a r t i c u l a r os direitos universais da h u m a n i d a d e e os direitos políticos gerais d a nação francesa e d o s seus c i d a d ã o s . N ã o oferecia qualificações específicas p a r a a participação ativa. A instituição d e u m governo requeria o m o v i m e n t o d o geral p a r a o específico: assim q u e as eleições foram estabelecidas, a definição das qualificações p a r a votar e o c u p a r cargos t o r n o u - s e u r g e n t e . A v i r t u d e de c o m e ç a r c o m o geral t o r n o u - s e visível assim q u e as questões específicas passaram a ser consideradas. O s protestantes foram o p r i m e i r o g r u p o de identidade definida a se apresentar p a r a consideração, e a discussão a seu respeito estabeleceu u m a característica d u r a d o u r a das d i s p u t a s s u b s e quentes: u m g r u p o n ã o p o d i a ser c o n s i d e r a d o e m s e p a r a d o . O s protestantes n ã o p o d i a m se apresentar sem levantar a questão dos j u d e u s . D a m e s m a forma, os direitos dos atores n ã o p o d i a m ser q u e s t i o n a d o s sem invocar o espectro dos carrascos, o u os direitos dos negros livres sem c h a m a r atenção para os escravos. Q u a n d o escreviam sobre os direitos das mulheres, os panfletistas os c o m p a r a v a m inevitavelmente aos dos h o m e n s sem p r o p r i e d a d e e aos dos escravos. M e s m o as discussões sobre a m a i o r i d a d e (que foi d i m i n u í d a d e 25 para 21 a n o s e m 1792) d e p e n d i a m da sua c o m p a ração c o m a infância. O status e os direitos de protestantes, judeus, negros livres o u mulheres e r a m d e t e r m i n a d o s , e m g r a n d e medida, pelo seu lugar na g r a n d e rede de g r u p o s que constituíam a c o m u n i d a d e organizada. O s protestantes e os j u d e u s já t i n h a m aparecido j u n t o s nos debates sobre o r a s c u n h o de u m a declaração. U m jovem d e p u t a d o n o b r e , o c o n d e de Castellane, t i n h a a r g u m e n t a d o q u e os protes151

A LÓGICA DOS DIREITOS: MINORIAS

RELIGIOSAS

A Revolução Francesa, mais d o q u e qualquer o u t r o acontecim e n t o , revelou que os direitos h u m a n o s t ê m u m a lógica interna. Q u a n d o e n f r e n t a r a m a necessidade de t r a n s f o r m a r seus n o b r e s ideais e m leis específicas, os d e p u t a d o s desenvolveram u m a espécie d e escala d e c o n c e p t i b i l i d a d e o u d i s c u t i b i l i d a d e . N i n g u é m sabia de a n t e m ã o q u e g r u p o s iam aparecer n a discussão, q u a n d o surgiriam ou qual seria a decisão sobre o seu status. P o r é m , mais cedo o u mais tarde t o r n o u - s e claro q u e conceder direitos a alguns g r u p o s (aos protestantes, p o r exemplo) era mais facilmente imaginável d o que concedê-los a outros (as m u l h e r e s ) . A lógica d o p r o cesso determinava que, logo q u e surgia u m g r u p o cuja discussão fosse m u i t o concebível ( h o m e n s c o m propriedades, protestantes), aqueles n a m e s m a espécie d e categoria m a s localizados m a i s abaixo na escala de conceptibilidade ( h o m e n s sem p r o p r i e d a d e , judeus) apareciam na agenda. A lógica d o processo n ã o movia os acontecimentos necessariamente adiante, m a s e m longo prazo era essa a tendência. Os opositores dos direitos dos j u d e u s , p o r exemplo, usavam o caso dos protestantes (ao contrário dos judeus, eles e r a m ao m e n o s cristãos) p a r a convencer os d e p u t a d o s a adiar a questão dos direitos judaicos. Entretanto, e m m e n o s de dois anos os j u d e u s ainda assim conseguiram direitos iguais, e m p a r t e p o r que a discussão explícita de seus direitos t i n h a t o r n a d o a concessão de direitos iguais aos j u d e u s mais imaginável. N o s m e c a n i s m o s dessa lógica, a n a t u r e z a s u p o s t a m e n t e metafísica da Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o C i d a d ã o
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t a n t e s e os j u d e u s d e v i a m p o s s u i r o "mais s a g r a d o d e t o d o s os direitos, o da liberdade de religião". N o entanto, m e s m o ele insistia q u e n e n h u m a religião específica devia ser citada n a declaração. Rabaut Saint-Étienne, ele p r ó p r i o u m pastor calvinista de Languedoc, o n d e viviam m u i t o s calvinistas, m e n c i o n a v a a d e m a n d a de liberdade de religião para os não-católicos n a sua lista de queixas local. Rabaut incluía explicitamente os j u d e u s entre os não-católicos, m a s o seu a r g u m e n t o , c o m o o de t o d o s os demais n o debate, dizia respeito à liberdade de religião, e n ã o aos direitos políticos das m i n o r i a s . Depois de h o r a s de u m debate t u m u l t u a d o , os d e p u t a dos a d o t a r a m e m agosto u m artigo de c o m p r o m i s s o que n ã o fazia m e n ç ã o aos direitos políticos (artigo 10 da declaração): " N i n g u é m deve ser molestado p o r suas opiniões, m e s m o as religiosas, desde q u e sua manifestação n ã o p e r t u r b e a o r d e m pública estabelecida pela lei". A formulação era deliberadamente a m b í g u a e até interp r e t a d a p o r alguns c o m o u m a vitória dos conservadores, q u e se o p u n h a m c o m ferocidade à liberdade de religião. O culto público dos protestantes não p e r t u r b a r i a "a o r d e m pública"?
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res d o s p r o t e s t a n t e s q u i s e r a m alegar q u e os p r o t e s t a n t e s n ã o p o d i a m participar porque a Assembleia n ã o tinha votado u m decreto nesse sentido: afinal, os protestantes t i n h a m sido excluídos dos cargos políticos pela lei desde a revogação d o Edito de Nantes, e m 1685, e n e n h u m a lei subsequente havia revisado f o r m a l m e n t e o seu status político. Brunet e seus p a r t i d á r i o s a r g u m e n t a r a m q u e os p r i n c í p i o s gerais p r o c l a m a d o s n a Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o Cidadão n ã o a d m i t i a m exceções, q u e todos aqueles que satisfaziam as condições etárias e e c o n ô m i c a s de elegibilidade t i n h a m de ser a u t o m a t i c a m e n t e elegíveis e q u e , p o r t a n t o , as restrições anteriores c o n t r a os protestantes já n ã o e r a m válidas.
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E m o u t r a s palavras, o universalismo abstrato da declaração estava i m p o n d o as suas consequências. N e m Brunet n e m qualquer o u t r a p e s s o a p r o p ô s a q u e s t ã o d o s direitos das m u l h e r e s nesse m o m e n t o : a elegibilidade a u t o m á t i c a a p a r e n t e m e n t e n ã o a b a r cava a diferença sexual. Mas n o m i n u t o e m q u e se discutiu o status dos protestantes dessa maneira, os diques c e d e r a m . Alguns d e p u tados reagiram c o m alarme. A proposição de C l e r m o n t - T o n n e r r e de e s t e n d e r os direitos dos protestantes p a r a todas as religiões e profissões d e u o r i g e m a u m intenso debate. E m b o r a a questão dos direitos dos p r o t e s t a n t e s tivesse c o m e ç a d o a discussão, quase t o d o m u n d o agora a d m i t i a que eles deviam ter os m e s m o s direitos dos católicos. Estender os direitos p a r a os carrascos e atores suscitou apenas objeções isoladas, e m grande parte frívolas, mas a sugestão de conceder direitos políticos aos judeus provocou u m a resistência furiosa. Até u m d e p u t a d o aberto a u m a eventual emancipação dos j u d e u s a r g u m e n t o u que a "sua ociosidade, a sua falta de tato, u m r e s u l t a d o necessário das leis e condições h u m i l h a n t e s a q u e estão sujeitos e m m u i t o s lugares, t u d o c o n t r i b u i p a r a t o r n á - l o s odiosos". D a r - l h e s d i r e i t o s , n a sua visão, a p e n a s d e s e n c a d e a r i a u m a reação p o p u l a r violenta contra eles (e, de fato, t u m u l t o s contra os j u d e u s já t i n h a m o c o r r i d o n o leste d a F r a n ç a ) . E m 24 de

E m dezembro, m e n o s de seis meses mais tarde, entretanto, a maioria dos d e p u t a d o s tomava a liberdade de religião c o m o algo n a t u r a l . M a s a l i b e r d a d e de religião t a m b é m implicava direitos políticos iguais p a r a as m i n o r i a s religiosas? B r u n e t de L a t u q u e p r o p ô s a q u e s t ã o dos direitos políticos dos p r o t e s t a n t e s a p e n a s u m a semana depois da redação dos regulamentos para as eleições municipais e m 14 de d e z e m b r o de 1789. I n f o r m o u a seus colegas que os não-católicos estavam sendo excluídos das listas dos votantes sob o pretexto de q u e n ã o t i n h a m sido explicitamente incluídos nos regulamentos. "Os senhores certamente n ã o quiseram", disse esperançosamente, "deixar q u e as opiniões religiosas fossem u m a razão oficial para excluir alguns cidadãos e admitir outros." A linguagem de Brunet era reveladora: os d e p u t a d o s estavam t e n d o de interpretar as suas ações anteriores à luz d o presente. Os oposito152

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d e z e m b r o de 1789 — véspera de Natal — a Assembleia votou p o r estender direitos políticos iguais aos "não-católicos" e a todas as profissões, ao m e s m o t e m p o q u e adiavam a questão dos direitos políticos dos j u d e u s . O v o t o e m favor dos direitos políticos dos protestantes foi evidentemente maciço, segundo os participantes, e u m d e p u t a d o escreveu n o seu diário sobre "a alegria q u e se m a n i festou n o m o m e n t o e m que o decreto foi aprovado".
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desagradável, e assim alinhavam-se c o m a esquerda, q u e apoiava a extensão dos direitos. M a s até o principal exemplo de o b s t r u c i o n i s m o citado p o r Tackett, o r u i d o s o d e p u t a d o clerical e abade Jean M a u r y , a r g u m e n t a v a e m favor d o s direitos dos p r o t e s t a n t e s . A posição de M a u r y fornece u m indício d o processo, pois ele ligava o apoio dos direitos políticos dos protestantes ao ato de negar os dos j u d e u s : "Os protestantes t ê m a m e s m a religião e as m e s m a s leis q u e n ó s [...] já p o s s u e m os m e s m o s direitos". M a u r y p r o c u r a v a estabelecer dessa m a n e i r a u m a distinção e n t r e os protestantes e os j u d e u s . E n t r e t a n t o , os j u d e u s e s p a n h ó i s e p o r t u g u e s e s d o sul da França começaram imediatamente a preparar u m a petição à A s s e m b l e i a N a c i o n a l c o m o a r g u m e n t o d e q u e eles t a m b é m já estavam exercendo os seus direitos políticos e m nível local. A tentativa d e o p o r u m a m i n o r i a religiosa c o n t r a o u t r a só alargava a fenda n a p o r t a .
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A reviravolta na opinião sobre os protestantes foi espantosa. Antes d o Edito de Tolerância de 1787, os protestantes n ã o t i n h a m sido capazes de praticar legalmente a sua religião, casar o u t r a n s mitir sua p r o p r i e d a d e . Depois de 1787, eles p o d i a m praticar a sua religião, casar p e r a n t e os oficiais locais e registrar os nascimentos d e seus filhos. G a n h a r a m a p e n a s direitos civis, e n t r e t a n t o , n ã o direitos iguais de p a r t i c i p a ç ã o política, e a i n d a n ã o p o s s u í a m o direito de praticar a sua religião e m público. Isso era reservado u n i c a m e n t e aos católicos. A l g u m a s das altas c o r t e s t i n h a m c o n t i n u a d o a resistir à aplicação d o edito ao longo de 1788 e 1789. E m agosto de 1789, p o r t a n t o , estava longe de ser evidente q u e a m a i o ria d o s d e p u t a d o s apoiava a v e r d a d e i r a l i b e r d a d e d e religião. Entretanto, n o final de d e z e m b r o t i n h a m concedido direitos políticos iguais aos protestantes. O que explicava a m u d a n ç a de opinião? Rabaut Saint-Étienne atribuía a transformação de atitudes à d e m o n s t r a ç ã o de responsabilidade cívica dos d e p u t a d o s protestantes. Vinte e q u a t r o protestantes, inclusive ele p r ó p r i o , t i n h a m sido eleitos d e p u t a d o s e m 1789. M e s m o antes disso os protestantes t i n h a m o c u p a d o cargos locais apesar das proscrições oficiais, e n a incerteza dos primeiros meses de 1789 m u i t o s protestantes t i n h a m p a r t i c i p a d o das eleições p a r a os Estados Gerais. O principal historiador da Assembleia Nacional, T i m o t h y Tackett, atribui a m u d a n ç a de o p i n i ã o sobre os p r o t e s t a n t e s a lutas políticas i n t e r n a s d e n t r o da Assembleia: os m o d e r a d o s achavam o o b s t r u c i o n i s m o da direita cada vez m a i s
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O status dos protestantes foi t r a n s f o r m a d o t a n t o pela teoria c o m o pela prática, isto é, pela discussão d o s princípios gerais da liberdade de religião e pela participação real dos protestantes e m assuntos locais e nacionais. Brunet de L a t u q u e t i n h a invocado o p r i n c í p i o geral ao a f i r m a r q u e os d e p u t a d o s n ã o p o d e r i a m ter desejado q u e "as opiniões religiosas fossem u m a razão oficial para excluir alguns cidadãos e admitir outros". N ã o q u e r e n d o admitir o p o n t o geral, M a u r y t i n h a de conceder o p r á t i c o : os protestantes já exerciam os m e s m o s direitos q u e os católicos. A discussão geral e m agosto deixara i n t e n c i o n a l m e n t e essas q u e s t õ e s n ã o resolvidas, a b r i n d o a p o r t a p a r a reinterpretações p o s t e r i o r e s e, ainda m a i s i m p o r t a n t e , sem fechar a p o r t a para a p a r t i c i p a ç ã o e m assuntos locais. O s protestantes e até alguns j u d e u s t i n h a m se precipitado p a r a aproveitar ao m á x i m o as novas o p o r t u n i d a d e s apresentadas. Ao contrário dos protestantes antes d o Edito de Tolerância de 1787, os j u d e u s franceses n ã o sofriam p e n a l i d a d e s p o r professar p u b l i c a m e n t e a sua religião, m a s t i n h a m p o u c o s direitos civis e
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n e n h u m direito político. Na verdade, o caráter francês dos judeus era e m a l g u m a m e d i d a questionado. O s calvinistas e r a m franceses q u e t i n h a m se desviado d o c a m i n h o ao abraçar a heresia, e n q u a n t o os j u d e u s e r a m originalmente estrangeiros q u e constituíam u m a n a ç ã o s e p a r a d a d e n t r o da França. Assim, os j u d e u s alsacianos e r a m conhecidos oficialmente c o m o "a nação judaica da Alsácia". Mas " n a ç ã o " t i n h a u m significado m e n o s nacionalista nessa época d o que teria mais tarde nos séculos xix e xx. C o m o a maioria dos j u d e u s n a F r a n ç a , os j u d e u s alsacianos c o n s t i t u í a m u m a n a ç ã o u m a vez q u e v i v i a m d e n t r o d e u m a c o m u n i d a d e j u d a i c a cujos direitos e obrigações t i n h a m sido d e t e r m i n a d o s pelo rei e m cartas patentes especiais. Eles t i n h a m o direito de governar alguns de seus assuntos e até decidir casos e m suas próprias cortes de justiça, mas t a m b é m sofriam u m a legião de restrições aos tipos de comércio que p o d i a m praticar, aos lugares o n d e p o d i a m viver e às profissões a que p o d i a m aspirar.'' Os escritores do I l u m i n i s m o t i n h a m escrito frequentemente sobre os j u d e u s , e m b o r a n e m s e m p r e de m o d o positivo, e depois da concessão de direitos civis aos protestantes e m 1787 a atenção se deslocou p a r a a tentativa de m e l h o r a r a situação dos j u d e u s . Luís xvi c r i o u u m a c o m i s s ã o p a r a e s t u d a r a q u e s t ã o e m 1788, t a r d e demais para q u e fosse t o m a d a qualquer m e d i d a antes da Revolução. E m b o r a os direitos políticos dos judeus estivessem abaixo dos c o n c e d i d o s aos p r o t e s t a n t e s n a escala de c o n c e p t i b i l i d a d e , os j u d e u s se beneficiaram da atenção atraída para o seu caso. Entret a n t o , a discussão explícita n ã o se t r a d u z i u i m e d i a t a m e n t e e m direitos. Trezentas e sete das listas de queixas redigidas n a p r i m a vera de 1789 m e n c i o n a v a m explicitamente os j u d e u s , m a s a o p i nião estava claramente dividida. Dezessete p o r cento u r g i a m pela limitação do n ú m e r o de j u d e u s p e r m i t i d o s n a França e 9 % advog a v a m a sua expulsão, e n q u a n t o a p e n a s 9 - 1 0 % i n s i s t i a m n a melhoria de suas condições. Entre as milhares de listas de queixas,
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apenas oito advogavam a concessão de direitos iguais aos j u d e u s . A i n d a assim, era u m n ú m e r o m a i o r que o d a q u e l a s q u e faziam a m e s m a reivindicação p a r a as m u l h e r e s .
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Os direitos dos j u d e u s p a r e c e m se ajustar à regra geral de q u e os p r i m e i r o s esforços p a r a p r o p o r a questão d o s direitos saem freq u e n t e m e n t e pela culatra. A posição e m g r a n d e p a r t e negativa das listas de queixas p r e n u n c i a v a a recusa dos d e p u t a d o s a c o n c e d e r direitos políticos aos j u d e u s e m d e z e m b r o de 1 7 8 9 . Ao longo d o s vinte meses seguintes, e n t r e t a n t o , a lógica dos d i r e i t o s fez avançar a discussão. Apenas u m m ê s depois d o a d i a m e n t o d o debate d o s direitos dos j u d e u s , os j u d e u s espanhóis e p o r t u g u e s e s d o sul d a França a p r e s e n t a r a m a sua petição à Assembleia, a r g u m e n t a n d o que, c o m o os protestantes, eles já estavam p a r t i c i p a n d o da política e m a l g u m a s cidades francesas n o sul, c o m o B o r d e a u x . F a l a n d o pelo C o m i t ê sobre a Constituição, o bispo católico liberal Charles- M a u r i c e d e T a l l e y r a n d - P é r i g o r d e s s e n c i a l m e n t e e n d o s s o u essa posição. O s j u d e u s n ã o estavam p e d i n d o novos direitos de cidadania, ele insistiu, estavam apenas p e d i n d o p a r a " c o n t i n u a r a gozar esses direitos", u m a vez q u e eles, c o m o os p r o t e s t a n t e s , já os estav a m e x e r c e n d o . A s s i m , a Assembleia p o d i a c o n c e d e r d i r e i t o s a a l g u n s j u d e u s s e m m u d a r o status d o s j u d e u s e m geral. D e s s a m a n e i r a , o a r g u m e n t o d a prática podia se virar c o n t r a aqueles q u e q u e r i a m distinções categóricas." O discurso de Talleyrand p r o v o c o u u m a c o m o ç ã o , especialm e n t e entre os d e p u t a d o s da Alsácia-Lorena, l a r da m a i o r p o p u l a ção j u d a i c a . O s j u d e u s d o leste d a França e r a m asquenazes q u e falavam iídiche. Os h o m e n s t i n h a m barba, ao c o n t r á r i o dos sefarditas de Bordeaux, e os r e g u l a m e n t o s franceses r e s t r i n g i a m - n o s e m g r a n d e parte a ter c o m o o c u p a ç ã o o e m p r é s t i m o de d i n h e i r o e a mascataria. As relações e n t r e eles e seus devedores c a m p o n e s e s n ã o e r a m e x a t a m e n t e amigáveis. Os d e p u t a d o s da região n ã o p e r d e r a m t e m p o e m a p o n t a r a consequência inevitável de seguir a
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o r i e n t a ç ã o d e Talleyrand: "a exceção p a r a os j u d e u s d e Bordeaux [ m a j o r i t a r i a m e n t e sefarditas] logo resultará n a m e s m a exceção p a r a os o u t r o s j u d e u s d o reino". Enfrentando objeções vociferantes, os d e p u t a d o s ainda assim v o t a r a m p o r 374 a 224 n o sentido de q u e " t o d o s os j u d e u s conhecidos c o m o j u d e u s portugueses, espan h ó i s e d e Avignon c o n t i n u a r ã o a exercer os direitos q u e t ê m exercido até o presente", e p o r t a n t o "exercerão os direitos dos cidadãos ativos, d e s d e q u e satisfaçam os requisitos estabelecidos pelos decretos da Assembleia Nacional [para a cidadania ativa] ".'
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v a m de algumas centenas e n ã o t i n h a m status corporativo, a p r e s e n t a r a m a sua p r i m e i r a petição à Assembleia Nacional ainda e m agosto de 1789. Já p e d i a m que os deputados "consagrem o nosso título e direitos de Cidadãos". Uma s e m a n a mais tarde, os representantes da m u i t o mais numerosa comunidade dos judeus na Alsácia e n a Lorena t a m b é m publicaram u m a carta aberta p e d i n d o a cidadania. Q u a n d o os d e p u t a d o s reconheceram os direitos dos j u d e u s d o sul, em janeiro de 1790, os judeus de Paris, da Alsácia e da Lorena u n i r a m - s e p a r a apresentar u m a petição e m conjunto. C o m o alguns d e p u t a d o s t i n h a m q u e s t i o n a d o se os j u d e u s realm e n t e q u e r i a m a cidadania francesa, os peticionários t o r n a r a m a sua posição clara c o m o água: "Eles p e d e m que as distinções degradantes q u e sofreram até o presente sejam abolidas e q u e eles sejam declarados CIDADÃOS". O S peticionários sabiam exatamente c o m o apresentar seu caso. Depois de u m a longa revisão de todos os preconceitos havia m u i t o existentes contra os judeus, concluíam c o m u m a invocação da inevitabilidade histórica: "Tudo está m u d a n d o ; a sorte dos judeus deve m u d a r ao m e s m o tempo; e as pessoas n ã o ficarão mais surpresas c o m essa m u d a n ç a particular d o q u e c o m t o d a s aquelas q u e veem ao seu redor t o d o dia. [...] Liguem o aperf e i ç o a m e n t o d a s o r t e d o s j u d e u s à revolução; a m a l g a m e m , p o r assim dizer, esta revolução parcial c o m a revolução geral". D a t a r a m o seu panfleto c o m a m e s m a data em que a Assembleia votou p o r criar u m a exceção para os j u d e u s do sul.
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O voto a favor de direitos para alguns j u d e u s de fato t o r n o u m a i s difícil, n o l o n g o p r a z o , r e c u s á - l o s p a r a o u t r o s . E m 27 d e s e t e m b r o de 1791, a Assembleia revogou t o d a s as suas reservas e exceções anteriores c o m respeito aos judeus, c o n c e d e n d o a t o d o s os j u d e u s direitos iguais. Exigiu t a m b é m q u e os j u d e u s prestassem u m j u r a m e n t o cívico r e n u n c i a n d o aos privilégios e isenções especiais negociados pela m o n a r q u i a . Nas palavras de C l e r m o n t - T o n nerre: " D e v e m o s recusar t u d o aos j u d e u s c o m o u m a nação e c o n ceder t u d o aos j u d e u s c o m o indivíduos". E m troca da renúncia a suas p r ó p r i a s cortes de justiça e leis, eles se t o r n a r i a m cidadãos franceses individuais c o m o t o d o s os outros. Mais u m a vez, a prática e a teoria o p e r a v a m n u m a relação d i n â m i c a m ú t u a . Sem a teoria, isto é, os princípios e n u n c i a d o s n a declaração, a referência a alguns j u d e u s que já praticavam esses direitos teria causado p o u c o impacto. Sem a referência à prática, a teoria p o d e r i a ter p e r m a n e cido u m a letra m o r t a ( c o m o a p a r e n t e m e n t e c o n t i n u o u a ser para as m u l h e r e s ) .
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E m d o i s a n o s , p o r t a n t o , as m i n o r i a s religiosas t i n h a m g a n h a d o direitos iguais n a França. Claro q u e o preconceito n ã o havia desaparecido, especialmente c o m relação aos j u d e u s . A i n d a assim, u m a p e r c e p ç ã o d a e n o r m i d a d e de tal m u d a n ç a e m t ã o p o u c o t e m p o p o d e ser estabelecida p o r simples comparações. Na Grã-Bretanha, os católicos g a n h a r a m acesso às Forças Armadas, às universidades e ao Judiciário e m 1793. Os judeus britânicos tiver a m d e esperar até 1845 para conseguir as mesmas concessões. O s
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N o e n t a n t o , os d i r e i t o s n ã o e r a m a p e n a s c o n c e d i d o s p e l o corpo legislativo. Os debates sobre os direitos incitavam as c o m u n i d a d e s de m i n o r i a s a falar p o r si m e s m a s e a exigir r e c o n h e c i m e n t o igual. O s p r o t e s t a n t e s t i n h a m m a i o r acesso aos debates p o r q u e p o d i a m falar p o r m e i o de seus d e p u t a d o s já eleitos p a r a a Assembleia Nacional. M a s os j u d e u s parisienses, q u e n ã o passa158

católicos só p u d e r a m ser eleitos p a r a o P a r l a m e n t o b r i t â n i c o depois d e 1829, os j u d e u s depois d e 1858. A história registrada nos novos Estados U n i d o s foi u m p o u c o melhor. A p e q u e n a população judaica nas colônias britânicas n a América d o Norte, que contava apenas c o m cerca de 2.500 indivíduos, n ã o t i n h a igualdade política. D e p o i s da i n d e p e n d ê n c i a , a m a i o r p a r t e dos novos Estados U n i d o s c o n t i n u o u a restringir a ocupação de cargos públicos (e e m alguns estados o ato d e votar) aos protestantes. A p r i m e i r a e m e n d a d a C o n s t i t u i ç ã o , redigida e m s e t e m b r o d e 1789 e ratificada e m 1791, garantia a liberdade d e religião, e depois disso os estados retir a r a m gradativamente os seus testes religiosos. O processo prosseguiu e m geral pelos m e s m o s dois estágios observados na Grã-Bretanha: p r i m e i r o os católicos, depois os judeus, g a n h a r a m direitos políticos p l e n o s . Massachusetts, p o r exemplo, abriu e m 1780 os cargos p ú b l i c o s p a r a q u a l q u e r u m "da religião cristã", e m b o r a esperasse até 1833 p a r a fazer a m e s m a coisa c o m t o d a s as religiões. Seguindo o exemplo de Jefferson, a Virginia agiu c o m mais rapidez, c o n c e d e n d o direitos iguais e m 1785, e a Carolina d o Sul e a Pensilvânia trilharam o m e s m o c a m i n h o e m 1790. R h o d e Island só o faria e m 1842.
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escravidão. Depois d e a n o s d e c a m p a n h a s d e petições encabeçadas pela Sociedade p a r a a Abolição d o Tráfico d e Escravos, d e inspiração quaker, o P a r l a m e n t o b r i t â n i c o v o t o u pelo fim da participação no tráfico de escravos e m 1807 e decidiu e m 1833 abolir a escravidão nas colônias britânicas. A história nos Estados Unidos foi m a i s sombria p o r q u e a C o n v e n ç ã o Constitucional d e 1787 n ã o concedeu ao governo federal o c o n t r o l e sobre a escravidão. Apesar d e o Congresso ter t a m b é m v o t a d o a proibição d a i m p o r t a ç ã o d e escravos em 1807, os Estados U n i d o s só aboliram oficialmente a escravidão e m 1865, q u a n d o a 13 e m e n d a da C o n s t i t u i ç ã o foi ratificada. Além disso, o status d o s negros livres n a realidade declinou em m u i t o s estados d e p o i s d e 1776, a t i n g i n d o o seu nadir n o n o t ó rio caso Dred Scott, d e 1857, q u a n d o a S u p r e m a Corte dos Estados Unidos declarou q u e n e m os escravos n e m os negros livres e r a m cidadãos. Dred Scott só foi d e r r u b a d o e m 1868, q u a n d o a 1 4
a a

e m e n d a da Constituição d o s estados Unidos foi ratificada, g a r a n t i n d o q u e "Todas as pessoas nascidas ou naturalizadas nos Estados U n i d o s e sujeitas à sua jurisdição são cidadãos dos Estados U n i d o s e d o estado e m q u e residem".
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O s abolicionistas n a F r a n ç a s e g u i r a m a o r i e n t a ç ã o inglesa, criando e m 1788 u m a sociedade i r m ã m o d e l a d a s e g u n d o a b r i t â nica Sociedade p a r a a Abolição d o Tráfico d e Escravos. C a r e c e n d o de a m p l o a p o i o , a francesa S o c i e d a d e d o s A m i g o s d o s N e g r o s p o d e r i a ter n a u f r a g a d o n ã o fossem os a c o n t e c i m e n t o s de 1789, q u e a colocaram e m p r i m e i r o plano. As opiniões dos Amigos dos Negros n ã o p o d i a m ser i g n o r a d a s p o r q u e e n t r e seus p r o e m i n e n tes m e m b r o s estavam Brissot, C o n d o r c e t , Lafayette e o abade B a p tiste-Henri Grégoire, t o d o s participantes famosos de c a m p a n h a s pelos direitos h u m a n o s e m o u t r a s arenas. Grégoire, u m clérigo católico da Lorena, t i n h a defendido m e s m o antes de 1789 o relax a m e n t o de restrições c o n t r a os j u d e u s n o leste da França e e m 1789 p u b l i c o u u m p a n f l e t o a d v o g a n d o d i r e i t o s iguais p a r a os
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NEGROS LIVRES, ESCRAVIDÃO E RAÇA

A força i n t i m i d a d o r a da lógica revolucionária d o s direitos p o d e ser vista c o m a i n d a m a i o r clareza nas decisões francesas sobre os negros livres e os escravos. Mais u m a vez, a c o m p a r a ç ã o é reveladora: a França concedeu direitos políticos iguais aos negros livres (1792) e e m a n c i p o u os escravos (1794) m u i t o antes d e qualquer o u t r a nação q u e possuía escravos. Apesar d e conceder direitos às m i n o r i a s religiosas b e m antes dos seus p r i m o s britânicos, os novos Estados U n i d o s ficaram m u i t o atrás n o tocante à questão da
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h o m e n s d e cor livres. C h a m a v a atenção para o racismo

florescente

As d e m a n d a s crescentes d o s n e g r o s e m u l a t o s livres e r a m m u i t o mais perigosas p a r a a c o n t i n u i d a d e d o status quo. Excluídos p o r decreto real de praticar a m a i o r i a das profissões o u até de a d o tar o n o m e de parentes b r a n c o s , as pessoas de cor livres ainda assim p o s s u í a m consideráveis p r o p r i e d a d e s : u m terço das plantações e u m q u a r t o dos escravos e m Saint D o m i n g u e , p o r exemplo. Q u e r i a m ser t r a t a d o s d a m e s m a f o r m a q u e os b r a n c o s e ao m e s m o t e m p o m a n t e r o sistema de escravos. U m d e seus delegados e m Paris e m 1789, V i n c e n t O g é , t e n t o u c o n q u i s t a r os c u l t i v a d o r e s b r a n c o s e n f a t i z a n d o os seus interesses c o m u n s c o m o d o n o s d e p l a n t a ç õ e s : " V e r e m o s d e r r a m a m e n t o de s a n g u e , nossas t e r r a s invadidas, os objetos d e n o s s o t r a b a l h o d e s t r u í d o s , nossas casas q u e i m a d a s [...] o escravo levará a revolta mais longe". A sua solução era conceder direitos iguais aos h o m e n s de cor livres c o m o ele p r ó p r i o , que então ajudariam a conter os escravos, ao m e n o s p o r u m t e m p o . Q u a n d o o seu apelo aos cultivadores b r a n c o s fracassou e o apoio dos Amigos dos Negros m o s t r o u - s e igualmente inútil, Ogé voltou a Saint D o m i n g u e e n o o u t o n o de 1790 incitou u m a revolta dos h o m e n s d e cor livres. A revolta fracassou, e Ogé foi supliciado na roda.' ' Mas o apoio aos direitos dos h o m e n s de cor livres não p a r o u p o r aí. E m Paris, a agitação c o n t í n u a dos Amigos dos Negros conquistou u m decreto, e m m a i o de 1791, q u e concedia direitos políticos a t o d o s os h o m e n s de cor livres nascidos de mães e pais livres. D e p o i s q u e os escravos d e Saint D o m i n g u e se r e b e l a r a m , e m agosto de 1791, os d e p u t a d o s r e s c i n d i r a m até esse decreto altam e n t e restritivo, m a s a p r o v a r a m u m mais generoso e m abril de 1792. N ã o s u r p r e e n d e q u e os d e p u t a d o s agissem de maneira confusa, pois a situação real nas colônias era desnorteante. A revolta dos escravos, q u e c o m e ç o u e m m e a d o s de agosto de 1791, havia atraído até 10 mil insurgentes já n o final d o mês, u m n ú m e r o que c o n t i n u a v a a crescer r a p i d a m e n t e . B a n d o s a r m a d o s de escravos
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dos colonos b r a n c o s . "Os brancos", sustentava, " t e n d o o p o d e r d o seu lado, d e c i d i r a m injustamente q u e a pele escura exclui o indivíd u o das vantagens da sociedade."
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A i n d a assim, a concessão d e direitos aos n e g r o s e m u l a t o s livres e a abolição da escravatura n ã o se d e r a m p o r aclamação. O n ú m e r o de abolicionistas n a nova Assembleia Nacional era m u i t o m e n o r q u e o daqueles q u e t e m i a m mexer c o m o sistema de escravos e as imensas riquezas q u e ele trazia para a França. E m geral, os cultivadores b r a n c o s e os mercadores dos p o r t o s d o Atlântico c o n seguiam retratar os Amigos dos Negros c o m o fanáticos q u e p r e t e n d i a m f o m e n t a r a insurreição dos escravos. E m 8 de m a r ç o de 1790, os d e p u t a d o s v o t a r a m p o r excluir as colônias da Constituição e p o r t a n t o da Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o Cidadão. O p o r t a - v o z d o comitê colonial, A n t o i n e Barnave, explicou q u e "a aplicação rigorosa e universal dos princípios gerais n ã o é conveniente p a r a [as colônias... A] diferença e m t e r m o s de lugares, c o s t u m e s , clima e p r o d u t o s nos parecia r e q u e r e r u m a diferença nas leis". O decreto t a m b é m tornava crime a incitação de t u m u l t o nas colônias.
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Apesar dessa recusa, o discurso dos direitos abriu o seu c a m i n h o inelutavelmente p o r t o d a a escala social nas colônias. C o m e ç o u n o t o p o c o m os cultivadores b r a n c o s d a m a i o r e m a i s rica colônia, Saint D o m i n g u e (hoje H a i t i ) . E m m e a d o s d e 1788, eles exigiram reformas n o c o m é r c i o e n a representação das colônias nos v i n d o u r o s Estados Gerais. E m p o u c o t e m p o , a m e a ç a v a m exigir a i n d e p e n d ê n c i a , c o m o os n o r t e - a m e r i c a n o s , se o g o v e r n o nacional tentasse interferir n o sistema dos escravos. O s b r a n c o s das classes mais baixas, p o r o u t r o lado, esperavam q u e a revolução n a F r a n ç a lhes trouxesse c o m p e n s a ç ã o c o n t r a os b r a n c o s m a i s ricos, q u e n ã o desejavam p a r t i l h a r o p o d e r político c o m m e r o s artesãos e comerciantes.
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massacravam os brancos e q u e i m a v a m os c a m p o s de cana -de-açúcar e as casas das plantações. Os cultivadores i m e d i a t a m e n t e culp a r a m os Amigos dos Negros e a difusão d e " l u g a r e s - c o m u n s sobre os Direitos d o H o m e m " .
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a m ã o dos legisladores. C o m o m o s t r a v a o a r g u m e n t o de Kersaint, os direitos d o h o m e m e r a m inevitavelmente p a r t e da discussão, m e s m o n a Assembleia q u e os t i n h a declarado inaplicáveis às colônias. Os acontecimentos levaram os d e p u t a d o s a reconhecer a sua aplicabilidade e m lugares, e e m relação a g r u p o s , q u e eles t i n h a m o r i g i n a l m e n t e e s p e r a d o excluir desses d i r e i t o s . Aqueles q u e se o p u n h a m a conceder direitos aos h o m e n s de cor livres concordav a m a respeito de u m p o n t o central c o m aqueles que apoiavam a ideia de conferir esses direitos: os direitos dos h o m e n s de cor livres n ã o p o d i a m ser s e p a r a d o s d a reflexão s o b r e o p r ó p r i o sistema escravagista. Assim, u m a vez r e c o n h e c i d o s esses direitos o p r ó x i m o passo se t o r n a v a ainda mais inevitável. N o v e r ã o d e 1793, as c o l ô n i a s francesas estavam e m total sublevação. U m a r e p ú b l i c a havia s i d o d e c l a r a d a n a França, e a guerra agora o p u n h a a n o v a república à Grã-Bretanha e à Espanha n o Caribe. O s cultivadores b r a n c o s p r o c u r a r a m fazer alianças c o m os b r i t â n i c o s . Alguns dos escravos rebeldes de Saint D o m i n g u e j u n t a r a m - s e aos e s p a n h ó i s , q u e c o n t r o l a v a m a m e t a d e leste d a ilha, Santo D o m i n g o , e m troca de promessas de liberdade para si m e s m o s . M a s a E s p a n h a n ã o t i n h a a m e n o r intenção de abolir a escravidão. E m agosto de 1793, enfrentando u m colapso total da a u t o r i d a d e francesa, dois comissários enviados da França começar a m a oferecer a e m a n c i p a ç ã o aos escravos que lutavam pela República Francesa, e depois t a m b é m a suas famílias. Além disso, p r o m e t i a m concessões de terra. N o final d o mês, estavam p r o m e t e n d o liberdade a províncias inteiras. O decreto e m a n c i p a n d o os escravos d o n o r t e abria c o m o artigo P da Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o Cidadão: "Os h o m e n s nascem e p e r m a n e c e m livres e iguais e m direitos". E m b o r a inicialmente temerosos de u m a t r a m a britânica p a r a solapar o p o d e r francês p o r m e i o da libertação de escravos, os d e p u t a d o s e m Paris v o t a r a m p o r abolir a escravidão e m t o d a s as colônias e m fevereiro de 1794. Agiram assim que escu165

D e q u e lado os h o m e n s de cor livres se posicionavam nessa luta? Eles t i n h a m servido nas milícias acusadas de c a p t u r a r escravos fugidos e às vezes e r a m eles p r ó p r i o s d o n o s de escravos. E m 1789, os Amigos dos Negros os t i n h a m retratado n ã o só c o m o u m b a l u a r t e c o n t r a u m potencial levante d e escravos, m a s t a m b é m c o m o m e d i a d o r e s e m q u a l q u e r futura abolição d a escravatura. Agora os escravos t i n h a m se rebelado. Tendo inicialmente rejeit a d o a visão dos Amigos dos Negros, u m n ú m e r o cada vez maior de d e p u t a d o s e m Paris c o m e ç o u d e s e s p e r a d a m e n t e a endossá-la n o início de 1792. Esperavam q u e os h o m e n s de cor livres p u d e s sem se aliar às forças francesas e aos b r a n c o s de classe baixa contra t a n t o os cultivadores q u a n t o os escravos. Entre os d e p u t a d o s , u m a n t i g o oficial naval, n o b r e e d o n o d e p l a n t a ç õ e s , expôs o argum e n t o : "Essa classe [os b r a n c o s p o b r e s ] é reforçada pela dos h o m e n s de cor livres que p o s s u e m p r o p r i e d a d e : esse é o p a r t i d o da Assembleia Nacional nesta ilha. [...] Os receios de nossos colonos [cultivadores brancos] têm, p o r t a n t o , f u n d a m e n t o , u m a vez que eles t ê m t u d o a t e m e r da influência de nossa revolução sobre os seus escravos. Os direitos d o h o m e m d e r r u b a m o sistema e m que se assentam as suas fortunas. [...] S o m e n t e m u d a n d o os seus p r i n cípios é que [os colonos] salvarão as suas vidas e as suas fortunas". O d e p u t a d o A r m a n d - G u y Kersaint p a s s o u a defender a p r ó p r i a abolição gradual da escravidão. Na verdade, os negros e m u l a t o s livres d e s e m p e n h a r a m u m papel a m b í g u o d u r a n t e t o d o o levante dos escravos, ora se aliando aos b r a n c o s contra os escravos, ora se aliando aos escravos contra os brancos.
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Mais u m a vez, a p o t e n t e c o m b i n a ç ã o de teoria (declaração dos direitos) e prática (nesse caso, franca revolta e rebelião) forçou
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t a r a m relatos e m p r i m e i r a m ã o de três h o m e n s — u m branco, u m m u l a t o e u m escravo liberto — enviados de Saint D o m i n g u e para explicar a n e c e s s i d a d e d a e m a n c i p a ç ã o . A l é m da "abolição d a escravidão negra e m todas as colônias", os d e p u t a d o s decretaram "que t o d o s os h o m e n s , sem distinção de cor, residindo nas colônias, são cidadãos franceses e gozarão de t o d o s os direitos assegurados pela Constituição".
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e m agosto de 1793 q u e " E u q u e r o que a Liberdade e a Igualdade rein e m e m Saint D o m i n g u e . Trabalho p a r a q u e elas p a s s e m a existir. Uni-vos a nós, i r m ã o s [ c o m p a n h e i r o s insurgentes], e lutai c o n o s co pela m e s m a causa". Sem a declaração inicial, a abolição da escravatura e m 1794 teria p e r m a n e c i d o inconcebível.
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E m 1802, Napoleão enviou u m a i m e n s a força expedicionária d a F r a n ç a p a r a c a p t u r a r T o u s s a i n t - L o u v e r t u r e e restabelecer a escravidão nas colônias francesas. T r a n s p o r t a d o de volta p a r a a França, Toussaint m o r r e u n u m a prisão fria, louvado p o r William W o r d s w o r t h e c e l e b r a d o pelos abolicionistas e m t o d a p a r t e . W o r d s w o r t h acolheu o zelo de Toussaint pela liberdade: Though fallen thyself, never to rise again, Live, and take comfort. Thou hast left behind Powers that will work for thee; air, earth, and skies; There's nota breathing of the common wind That will forget thee; thou hast great allies; Thy friends are exultations, agonies, And love, and mans unconquerable mind.

A abolição da escravatura foi u m ato de p u r o altruísmo esclarecido? Dificilmente. A c o n t í n u a revolta dos escravos e m Saint D o m i n g u e e sua conjunção c o m a guerra e m m u i t a s frentes deixav a m p o u c a escolha aos comissários, e p o r t a n t o aos d e p u t a d o s e m Paris, se quisessem conservar até m e s m o u m a p e q u e n a porção de sua ilha-colônia. Mas, c o m o revelavam as ações dos britânicos e dos espanhóis, ainda havia m u i t o espaço de m a n o b r a p a r a m a n t e r a escravidão n o seu lugar: eles p o d i a m p r o m e t e r a e m a n c i p a ç ã o exclusivamente àqueles que passassem para o seu lado, sem oferecer a abolição geral da escravatura. Mas a propagação dos "direitos d o h o m e m " tornou a m a n u t e n ç ã o da escravidão m u i t o mais difícil p a r a os franceses. A m e d i d a q u e se espalhava n a França, a discussão dos direitos boicotava a tentativa da legislatura de m a n t e r as colônias fora da Constituição, precisamente p o r ser inevitável q u e incitasse os h o m e n s de cor livres e os p r ó p r i o s escravos a fazer novas d e m a n d a s e a lutar ferozmente p o r elas. Desde o começo os cultivadores e seus aliados p e r c e b e r a m a a m e a ç a . O s d e p u t a d o s coloniais e m Paris escreveram secretamente p a r a as colônias a fim de instruir seus amigos a "vigiar as pessoas e os a c o n t e c i m e n t o s ; p r e n d e r os suspeitos; apoderar-se de quaisquer escritos e m q u e a palavra ' l i b e r d a d e ' seja m e r a m e n t e p r o n u n c i a d a " . E m b o r a os escravos talvez n ã o tivessem c o m p r e e n d i d o t o d a s as sutilezas da d o u t r i n a dos direitos d o h o m e m , as próprias palavras p a s s a r a m a ter u m efeito inegavelmente talismânico. O ex-escravo Toussaint-Louverture, que se tornaria e m breve o líder da revolta, p r o c l a m o u
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[Embora tu próprio caído, para não mais te erguer, Vive e consola-te. Deixaste para trás Poderes que lutarão por ti: o ar, a terra e os céus; Nem um único sopro do vento comum Te esquecerá; tens grandes aliados; Teus amigos são o júbilo, a agonia E o amor, e a mente inconquistável do homem.] A ação de Napoleão retardou a abolição definitiva da escravatura nas colônias francesas até 1848, q u a n d o u m a segunda república chegou ao poder. Mas ele n ã o conseguiu fazer o t e m p o andar c o m pletamente para trás. Os escravos de Saint D o m i n g u e recusaram167

-se a aceitar a s u a s o r t e e resistiram c o m sucesso ao exército de N a p o l e ã o até a retirada francesa, q u e deixou p a r a trás a primeira n a ç ã o liderada p o r escravos libertos, o Estado i n d e p e n d e n t e d o Haiti. D o s 60 mil soldados franceses, suíços, alemães e poloneses enviados à ilha, apenas u n s p o u c o s milhares r e t o r n a r a m ao o u t r o lado d o oceano. Os outros t i n h a m t o m b a d o e m combates ferozes o u pela febre amarela q u e d i z i m o u milhares, inclusive o c o m a n d a n t e - c h e f e das forças expedicionárias. E n t r e t a n t o , m e s m o nas colônias o n d e a escravidão foi restaurada c o m sucesso o gosto d a liberdade n ã o foi esquecido. Depois q u e a revolução de 1830 n a França substituiu a m o n a r q u i a ultraconservadora, u m abolicionista visitou G u a d a l u p e e relatou a reação dos escravos à sua b a n deira tricolor, a d o t a d a pela república e m 1794. "Signo glorioso d e nossa emancipação, nós te saudamos!", gritaram quinze o u vinte escravos. "Olá, b a n d e i r a b e n é v o l a , q u e v e m d o o u t r o l a d o d o o c e a n o p a r a a n u n c i a r o t r i u n f o de nossos a m i g o s e as h o r a s de nossa libertação."
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exclusão universal das m u l h e r e s dos direitos políticos n o século xviii e d u r a n t e a m a i o r p a r t e da história h u m a n a — as mulheres n ã o g a n h a r a m o direito d e v o t a r nas eleições n a c i o n a i s e m n e n h u m lugar d o m u n d o antes d o fim d o século xix — , é mais surp r e e n d e n t e q u e os direitos das mulheres n ã o t e n h a m sequer sido discutidos na arena pública d o q u e o fato d e as mulheres em última análise n ã o os t e r e m g a n h a d o . Os direitos das m u l h e r e s estavam claramente mais abaixo n a escala de "conceptibilidade" d o q u e os de o u t r o s grupos. A "questão d a m u l h e r " veio à t o n a periodicamente n a E u r o p a d u r a n t e os séculos xvii e xvm, s o b r e t u d o c o m respeito à educação das m u l h e res, o u à falta dessa educação, m a s os direitos delas não t i n h a m sido o foco d e n e n h u m a discussão p r o l o n g a d a n o s anos que levam à Revolução Francesa ou à Americana. Em contraste c o m os protestantes franceses, os j u d e u s o u até os escravos, o status das m u l h e res n ã o t i n h a sido objeto d e g u e r r a s d e panfletos, c o m p e t i ç õ e s p ú b l i c a s de e n s a i o s , c o m i s s õ e s d o governo o u organizações d e defesa especialmente organizadas, como os Amigos dos Negros. Esse descaso talvez se devesse ao fato de que as mulheres não c o n s t i t u í a m u m a m i n o r i a p e r s e g u i d a . E r a m o p r i m i d a s s e g u n d o os nossos p a d r õ e s , e o p r i m i d a s p o r causa de seu sexo, m a s não e r a m u m a m i n o r i a , e c e r t a m e n t e n i n g u é m estava t e n t a n d o forçá-las a m u d a r d e i d e n t i d a d e , c o m o acontecia c o m os protestantes e os j u d e u s . Se alguns c o m p a r a v a m a sua sorte à escravidão, p o u c o s levavam a analogia além d o reino da metáfora. As leis limitavam os d i r e i t o s d a s m u l h e r e s , s e m d ú v i d a , m a s elas r e a l m e n t e t i n h a m a l g u n s d i r e i t o s , ao c o n t r á r i o d o s escravos. Pensava-se q u e as m u l h e r e s e r a m m o r a l m e n t e , se não intelectualmente, d e p e n d e n tes d e seus pais e m a r i d o s , m a s n ã o se imaginava q u e fossem desprovidas de a u t o n o m i a ; n a verdade, a sua inclinação pela a u t o n o m i a requeria u m a vigilância constante de supostas autoridades de t o d o s os t i p o s . T a m p o u c o e r a m desprovidas d e voz, m e s m o e m
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D E C L A R A N D O OS D I R E I T O S DAS

MULHERES

E m b o r a os d e p u t a d o s p u d e s s e m concordar — se pressionados — q u e a declaração de direitos se aplicava a " t o d o s os h o m e n s , s e m distinção d e cor", apenas u m p u n h a d o se d i s p u n h a a dizer q u e ela se aplicava t a m b é m às mulheres. Ainda assim, os direitos das m u l h e r e s s u r g i r a m n a discussão, e os d e p u t a d o s e s t e n d e r a m os direitos civis das m u l h e r e s e m i m p o r t a n t e s n o v a s d i r e ç õ e s . As m o ç a s g a n h a r a m o direito a o divórcio pelas m e s m a s razões d e seus m a r i d o s . O divórcio n ã o era p e r m i t i d o pela lei francesa antes de sua decretação em 1792. A m o n a r q u i a restaurada revogou o divórcio e m 1816, e o divórcio só foi r e i n s t i t u í d o e m 1884, e m e s m o e n t ã o c o m m a i s restrições d o q u e as aplicadas e m 1792. D a d a a
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assuntos políticos: as d e m o n s t r a ç õ e s e t u m u l t o s a respeito d o preço d o p ã o revelaram r e p e t i d a m e n t e essa verdade, antes e d u r a n t e a Revolução Francesa.
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P o r é m , m e s m o a q u i a lógica dos direitos seguiu o seu c a m i n h o , a i n d a q u e de f o r m a espasmódica. E m j u l h o de 1790, C o n d o r cet c h o c o u os seus leitores c o m u m surpreendente editorial j o r n a lístico, "Sobre a a d m i s s ã o das mulheres aos direitos d a cidadania", t o r n a n d o explícito o f u n d a m e n t o lógico d o s direitos h u m a n o s , que t i n h a se desenvolvido constantemente n a segunda m e t a d e d o século XVIII: "os direitos d o s h o m e n s r e s u l t a m a p e n a s d o fato de que eles são seres sensíveis, capazes de a d q u i r i r ideias m o r a i s e de r a c i o c i n a r s o b r e essas ideias". As m u l h e r e s n ã o t ê m as m e s m a s características? " C o m o as mulheres têm as m e s m a s qualidades", ele insistia, "elas t ê m n e c e s s a r i a m e n t e d i r e i t o s iguais." C o n d o r c e t tirava a c o n c l u s ã o lógica q u e os seus colegas r e v o l u c i o n á r i o s t i n h a m tanta dificuldade e m deduzir p o r si m e s m o s : " O u n e n h u m indivíduo n a h u m a n i d a d e t e m direitos verdadeiros, o u t o d o s t ê m os m e s m o s ; e q u e m v o t a c o n t r a o direito d e o u t r o , q u a l q u e r q u e seja a sua religião, cor o u sexo, abjurou a p a r t i r desse m o m e n t o os seus p r ó p r i o s direitos". Aí estava a filosofia m o d e r n a dos d i r e i t o s h u m a n o s n a sua forma pura, claramente articulada. As particularidades dos h u m a nos (excluindo-se talvez a idade, as crianças a i n d a não sendo capazes de raciocinar por conta própria) não d e v e m pesar na balança, n e m m e s m o dos direitos políticos. Condorcet t a m b é m explicava por que tantas mulheres, b e m c o m o homens, t i n h a m aceitado sem questionar a subordinação inj ustificável das mulheres: "O hábito pode familiarizar os h o m e n s c o m a violação de seus direitos naturais a p o n t o de, entre aqueles que os perderam, ninguém s o n h a r e m reclamá-los, n e m acreditar que sofreu u m a injustiça". Ele desafiava os seus leitores a reconhecer que as mulheres sempre t i v e r a m direitos, e que o cost u m e social os cegara p a r a essa verdade f u n d a m e n t a l .
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As m u l h e r e s s i m p l e s m e n t e n ã o c o n s t i t u í a m u m a categoria política claramente separada e distinguível antes da Revolução. O e x e m p l o d e C o n d o r c e t , o m a i s a b e r t o defensor m a s c u l i n o d o s direitos políticos das m u l h e r e s d u r a n t e a Revolução, é revelador. Já e m 1781 ele publicou u m panfleto exigindo a abolição da escravatura. N u m a lista q u e incluía reformas propostas para os c a m p o n e ses, os p r o t e s t a n t e s e o sistema de justiça c r i m i n a l , b e m c o m o o estabelecimento d o livre comércio e a vacinação contra a varíola, as m u l h e r e s n ã o eram m e n c i o n a d a s . Elas apenas se t o r n a r a m u m a questão p a r a esse pioneiro dos direitos h u m a n o s u m a n o depois d o início da revolução.
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E m b o r a algumas t e n h a m votado p o r p r o c u r a ç ã o nas eleições p a r a os E s t a d o s Gerais e u m p e q u e n o n ú m e r o d e d e p u t a d o s achasse q u e as mulheres, o u ao m e n o s as viúvas q u e p o s s u í a m p r o priedades, p o d e r i a m votar n o futuro, as m u l h e r e s c o m o tais, isto é, c o m o u m a potencial categoria de direitos, a b s o l u t a m e n t e n ã o apareceram nas discussões da Assembleia Nacional entre 1789 e 1791. Alista alfabética dos e n o r m e s Archives parlementaires cita " m u l h e res" a p e n a s d u a s vezes: n u m dos casos u m g r u p o de b r e t ã s q u e p e d i a p a r a fazer u m j u r a m e n t o cívico e n o o u t r o u m g r u p o d e m u l h e r e s parisienses que enviava u m discurso. E m contraste, os j u d e u s apareciam e m discussões diretas dos d e p u t a d o s ao m e n o s e m dezessete ocasiões diferentes. N o final de 1789, atores, carrascos, p r o t e s t a n t e s , j u d e u s , n e g r o s livres e até h o m e n s p o b r e s p o d i a m ser imaginados c o m o cidadãos, ao m e n o s p o r u m n ú m e r o substancial de d e p u t a d o s . Apesar dessa recalibração c o n t í n u a d a escala de conceptibilidade, os direitos iguais p a r a a classe feminina p e r m a n e c i a m inimagináveis p a r a quase t o d o m u n d o , t a n t o h o m e n s c o m o mulheres.
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E m setembro de 1791, a dramaturga antiescravagista O l y m p e de Gouges virou a Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o Cidadão pelo avesso. A sua Declaração dos D i r e i t o s da Mulher insistia

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q u e "A m u l h e r nasce livre e p e r m a n e c e igual ao h o m e m e m direit o s " (artigo I ) . "Todas as cidadãs e cidadãos, s e n d o iguais aos seus [da lei] olhos, devem ser igualmente admissíveis a todas as dignid a d e s , cargos e e m p r e g o s públicos, s e g u n d o a sua capacidade e s e m n e n h u m a o u t r a d i s t i n ç ã o q u e n ã o seja a de suas v i r t u d e s e talentos" (artigo 6 ) . A inversão da linguagem d a declaração oficial de 1789 n ã o nos parece chocante n o presente, m a s certamente chocou à época. Na Inglaterra, M a r y Wollstonecraft n ã o foi tão longe q u a n t o as suas c o m p a n h e i r a s francesas, q u e exigiam direitos políticos a b s o l u t a m e n t e iguais p a r a as m u l h e r e s , m a s escreveu c o m mais detalhes e c o m u m a paixão intensa sobre as m a n e i r a s c o m o a educação e a tradição h a v i a m tolhido a inteligência das mulheres. E m Vindication of the Rights ofWoman, p u b l i c a d o e m 1792, ela ligava a e m a n c i p a ç ã o das mulheres à implosão de todas as formas de hierarquia n a sociedade. C o m o D e Gouges, Wollstonecraft foi vítima de difamação p ú b l i c a pela sua o u s a d i a . O d e s t i n o d e D e Gouges foi ainda pior, pois ela a c a b o u na guilhotina, c o n d e n a d a c o m o u m a contrarrevolucionaria " i m p u d e n t e " e u m ser inatural (um "homem-mulher").
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V a m o s a n t e s n o s d e s v e n c i l h a r d o p r e c o n c e i t o d o sexo, a s s i m c o m o nos l i b e r a m o s d o preconceito contra a cor d o s negros." O s d e p u t a d o s n ã o s e g u i r a m a sua orientação.
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E m vez disso, e m o u t u b r o d e 1793, os d e p u t a d o s a t a c a r a m os clubes de mulheres. Reagindo a lutas nas ruas entre m u l h e r e s a respeito d o uso de insígnias revolucionárias, a C o n v e n ç ã o v o t o u p o r s u p r i m i r t o d o s os clubes políticos para mulheres sob o pretexto d e q u e tais clubes só as d e s v i a v a m d e seus a p r o p r i a d o s d e v e r e s d o m é s t i c o s . S e g u n d o o d e p u t a d o q u e a p r e s e n t o u o d e c r e t o , as mulheres n ã o t i n h a m o c o n h e c i m e n t o , a aplicação, a dedicação o u a a b n e g a ç ã o exigidos p a r a governar. D e v i a m se ater às "funções privadas a q u e as m u l h e r e s são destinadas pela p r ó p r i a natureza". O f u n d a m e n t o lógico n ã o era n e n h u m a novidade; o q u e era n o v o era a necessidade de vir a público e proibir as m u l h e r e s de f o r m a r e frequentar clubes políticos. As mulheres p o d e m ter surgido p o r ú l t i m o nas discussões e c o m o t e m a de m e n o r i m p o r t â n c i a , m a s os seus direitos a c a b a r a m e n t r a n d o n a agenda, e o q u e foi dito a seu respeito na década de 1790 — especialmente e m favor dos direitos — teve u m i m p a c t o q u e d u r o u até o presente.
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U m a vez d e s e n c a d e a d o o momentum,

os direitos das m u l h e -

A lógica d o s direitos t i n h a forçado até os direitos das m u l h e res a sair d a n é v o a o b s c u r a d o h á b i t o , a o m e n o s n a F r a n ç a e n a I n g l a t e r r a . N o s E s t a d o s U n i d o s , o descaso c o m os direitos d a s m u l h e r e s atraiu relativamente p o u c a discussão pública antes de 1792, e n ã o apareceram escritos americanos n a era revolucionária q u e p o s s a m ser c o m p a r a d o s aos d e Condorcet, O l y m p e d e G o u g e s ou M a r y Wollstonecraft. Na verdade, antes da publicação de Vindication of the Rights ofWoman, de Wollstonecraft, e m 1792, o c o n ceito d o s direitos das m u l h e r e s q u a s e n ã o recebeu a t e n ç ã o n a Inglaterra n e m n a América. A p r ó p r i a Wollstonecraft havia d e s e n volvido as suas influentes n o ç õ e s sobre o a s s u n t o n u m a reação direta à Revolução Francesa. Na sua primeira o b r a sobre direitos, Vindication of the Rights ofMen (1790), ela contestou as acusações
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res n ã o ficaram l i m i t a d o s às publicações d e u n s p o u c o s indivíd u o s pioneiros. Entre 1791 e 1793, as m u l h e r e s estabeleceram clubes políticos e m ao m e n o s c i n q u e n t a cidades p r o v i n c i a n a s e de m a i o r p o r t e , b e m c o m o e m Paris. Os direitos das m u l h e r e s c o m e ç a r a m a ser d e b a t i d o s n o s clubes, e m j o r n a i s e e m panfletos. E m abril de 1793, d u r a n t e a c o n s i d e r a ç ã o d a c i d a d a n i a n u m a n o v a p r o p o s t a de C o n s t i t u i ç ã o p a r a a república, u m d e p u t a d o a r g u m e n t o u d e t a l h a d a m e n t e em favor de direitos políticos iguais p a r a as m u l h e r e s . A sua i n t e r v e n ç ã o m o s t r a v a q u e a ideia t i n h a g a n h a d o a l g u n s a d e p t o s . " H á s e m d ú v i d a u m a diferença", ele admitia, "a dos sexos [...] m a s n ã o c o m p r e e n d o c o m o u m a diferença sexual c o n t r i b u i p a r a u m a desigualdade n o s direitos. [...]
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de Burke c o n t r a os direitos d o h o m e m n a França. Isso a levou a considerar, p o r sua vez, os direitos d a mulher.
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m o s t r o u q u e as m u l h e r e s n ã o t i n h a m p e r d i d o d e vista as m e t a s enunciadas n o s p r i m e i r o s a n o s da revolução: É compreensível que [no Antigo Regime] não se acreditasse necessário assegurar a uma metade da humanidade metade dos direitos ligados aos seres humanos; mas seria mais difícil compreender que se tenha podido deixar inteiramente de reconhecer [os direitos] das mulheres durante os últimos dez anos, naqueles momentos em que as palavras igualdade e liberdade ressoavam por toda parte, naqueles momentos em que a filosofia, ajudada pela experiência, iluminava sem cessar o homem a respeito de seus verdadeiros direitos.

Se o l h a r m o s além das p r o c l a m a ç õ e s oficiais e decretos dos políticos h o m e n s , a m u d a n ç a de expectativa a respeito dos direitos das m u l h e r e s é m a i s i m p r e s s i o n a n t e . S u r p r e e n d e n t e m e n t e , p o r exemplo, Vindication ofthe Rights ofWoman p o d i a ser e n c o n t r a d o e m mais bibliotecas particulares americanas n o início da república d o q u e Os direitos do homem, de Paine. E m b o r a o p r ó p r i o Paine n ã o desse atenção aos direitos das mulheres, o u t r o s os consideravam. N o início d o século xix, sociedades de debates, discursos de f o r m a t u r a e revistas populares nos Estados U n i d o s tratavam regul a r m e n t e das pressuposições de gênero p o r trás d o sufrágio m a s culino. Na França, as m u l h e r e s aproveitaram as novas o p o r t u n i d a des de publicação criadas pela liberdade de i m p r e n s a para escrever m a i s livros e panfletos d o q u e n u n c a . O direito das m u l h e r e s à herança igual provocou incontáveis processos n a justiça, p o r q u e as m u l h e r e s d e t e r m i n a r a m se a g a r r a r ao q u e era a g o r a l e g i t i m a m e n t e delas. Afinal, os direitos n ã o e r a m u m a p r o p o s i ç ã o t u d o - o u - n a d a . O s novos direitos, m e s m o que n ã o fossem direitos políticos, a b r i a m o c a m i n h o de novas o p o r t u n i d a d e s p a r a as m u l h e res, e elas logo as a p r o v e i t a r a m . C o m o as ações a n t e r i o r e s d o s protestantes, j u d e u s e h o m e n s de cor livres já t i n h a m m o s t r a d o , a c i d a d a n i a n ã o é apenas algo a ser c o n c e d i d o pelas a u t o r i d a d e s : é algo a ser c o n q u i s t a d o p o r si m e s m o . U m a m e d i d a d a a u t o n o m i a m o r a l é essa c a p a c i d a d e d e a r g u m e n t a r , insistir e, p a r a alguns, lutar.
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Ela atribuía esse descaso c o m os direitos das m u l h e r e s ao fato de q u e as massas masculinas acreditavam facilmente q u e limitar o u até aniquilar o p o d e r das m u l h e r e s a u m e n t a r i a o p o d e r dos h o m e n s . N o seu artigo, Pipelet citava a o b r a de Wollstonecraft sobre os direitos das m u l h e r e s , m a s não reivindicava para as mulheres o direito de votar ou o c u p a r cargos públicos.
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Pipelet d e m o n s t r a v a u m a c o m p r e e n s ã o sutil da tensão entre a lógica revolucionária dos direitos e as restrições continuadas dos c o s t u m e s . "É e s p e c i a l m e n t e d u r a n t e a r e v o l u ç ã o [...] q u e as m u l h e r e s , s e g u i n d o o e x e m p l o dos h o m e n s , r a c i o c i n a m m u i t o sobre a sua verdadeira essência e t o m a m atitudes e m consequência desse seu pensar." Se continuava a o b s c u r i d a d e o u a ambiguid a d e sobre o t e m a dos direitos das mulheres (e Pipelet e m p r e s t o u u m t o m de g r a n d e incerteza a muitas de suas passagens), era p o r q u e o I l u m i n i s m o n ã o havia p r o g r e d i d o o suficiente: as pessoas c o m u n s , e especialmente as mulheres c o m u n s , continuavam n ã o e d u c a d a s . À m e d i d a q u e as m u l h e r e s g a n h a v a m e d u c a ç ã o , elas d e m o n s t r a v a m inevitavelmente os seus talentos, pois o mérito n ã o t e m sexo, afirmava Pipelet. Ela concordava c o m T h é r e m i n que as m u l h e r e s d e v i a m ser e m p r e g a d a s c o m o mestres-escolas e ter a

D e p o i s d e 1793, as m u l h e r e s se v i r a m m a i s r e p r i m i d a s n o m u n d o oficial da política francesa. E n t r e t a n t o , a p r o m e s s a d e direitos n ã o havia sido c o m p l e t a m e n t e e s q u e c i d a . N u m l o n g o artigo publicado e m 1800 sobre De la condition desfemmes Republiques, dans les de Charles T h é r e m i n , a p o e t a e d r a m a t u r g a C o n s -

t a n c e Pipelet ( m a i s t a r d e c o n h e c i d a c o m o C o n s t a n c e de Salm)
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permissão p a r a defender os seus "direitos naturais e inalienáveis" nos tribunais. Se a p r ó p r i a Pipelet n ã o chegou a advogar direitos políticos plenos p a r a as m u l h e r e s foi p o r q u e ela estava reagindo ao q u e via c o m o p o s s í v e l — i m a g i n á v e l , argumentável — nos seus dias. Mas, c o m o m u i t o s o u t r o s , ela via q u e a filosofia dos direitos n a t u r a i s t i n h a u m a lógica implacável, m e s m o q u e a i n d a n ã o tivesse sido e l a b o r a d a n o caso das m u l h e r e s essa o u t r a m e t a d e d a h u m a n i dade. A n o ç ã o dos "direitos d o homem", c o m o a p r ó p r i a revolução, abriu u m espaço imprevisível p a r a discussão, conflito e m u d a n ç a . A p r o m e s s a daqueles direitos p o d e ser negada, s u p r i m i d a o u simplesmente c o n t i n u a r n ã o c u m p r i d a , m a s n ã o m o r r e .

5. "A força maleável da humanidade"
Por que os direitos humanos fracassaram a princípio, mas tiveram sucesso no longo prazo

Os direitos h u m a n o s e r a m simplesmente " u m absurdo retórico, u m a b s u r d o bombástico", c o m o afirmava o filósofo Jeremy Bentham? A longa lacuna n a história dos direitos h u m a n o s , de sua f o r m u l a ç ã o inicial nas revoluções a m e r i c a n a e francesa até a Declaração Universal das Nações U n i d a s e m 1948, faz q u a l q u e r u m p a r a r p a r a pensar. O s direitos n ã o d e s a p a r e c e r a m n e m n o p e n s a m e n t o n e m n a ação, m a s as discussões e os decretos agora o c o r r i a m quase exclusivamente d e n t r o d e e s t r u t u r a s nacionais específicas. A n o ç ã o de vários t i p o s de direitos g a r a n t i d o s pela Constituição — os direitos políticos dos trabalhadores, das m i n o rias religiosas e das mulheres, p o r exemplo — continuou a ganhar t e r r e n o n o s séculos xix e xx, m a s os debates sobre direitos naturais u n i v e r s a l m e n t e aplicáveis d i m i n u í r a m . O s t r a b a l h a d o r e s , p o r exemplo, g a n h a r a m direitos c o m o trabalhadores britânicos, franceses, alemães o u a m e r i c a n o s . O nacionalista italiano d o século xix Giuseppe Mazzini c a p t o u o n o v o foco sobre a nação q u a n d o fez a p e r g u n t a retórica: " O q u e é u m País [...] senão o lugar em que os nossos direitos individuais estão mais seguros?". Foram necessá1 7 6

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rias d u a s guerras m u n d i a i s devastadoras para estilhaçar essa confiança n a nação.
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cretizado. A Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o C i d a d ã o , arquivada j u n t o c o m a Constituição de 1790, n ã o havia i m p e d i d o a supressão d o dissenso e a execução de todos aqueles vistos c o m o inimigos. Apesar das críticas de Burke, m u i t o s escritores e políticos n a E u r o p a e nos Estados U n i d o s h a v i a m saudado entusiasticamente a Declaração dos Direitos e m 1789. Q u a n d o a Revolução Francesa t o r n o u - s e mais radical, e n t r e t a n t o , a opinião pública c o m e ç o u a se dividir. O s governos m o n á r q u i c o s , e m particular, reagiram fortem e n t e contra a proclamação de u m a república e a execução d o rei. E m d e z e m b r o de 1792, T h o m a s Paine foi forçado a fugir p a r a a França q u a n d o u m t r i b u n a l britânico o julgou culpado de sedição p o r atacar a m o n a r q u i a hereditária n a segunda p a r t e de Os direitos do homem. O governo britânico seguiu adiante c o m u m a c a m p a n h a sistemática d e t o r m e n t o e p e r s e g u i ç ã o d o s defensores das ideias francesas. E m 1798, s o m e n t e 22 anos depois da declaração dos direitos iguais de t o d o s os h o m e n s , o Congresso dos Estados U n i d o s a p r o v o u as Leis dos Estrangeiros e da Sedição para limitar as críticas ao governo a m e r i c a n o . O novo espírito dos t e m p o s p o d e ser visto nos c o m e n t á r i o s feitos e m 1797 p o r John Robinson, u m professor de filosofia n a t u r a l n a Universidade de E d i m b u r g o . Ele invectivava c o n t r a "essa m á x i m a maldita, q u e agora o c u p a t o d a m e n t e , d e p e n s a r c o n t i n u a m e n t e e m nossos direitos e exigi-los a n s i o s a m e n t e de t o d a parte". Essa obsessão d o s direitos era "o m a i o r v e n e n o da vida" s e g u n d o Robinson, que a via c o m o a causa principal da sublevação política existente, m e s m o na Escócia, e da guerra entre a França e seus vizinhos, que agora ameaçava tragar t o d a a Europa.
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DEFICIÊNCIAS DOS DIREITOS DO

HOMEM

O n a c i o n a l i s m o só a s s u m i u a p o s i ç ã o de e s t r u t u r a d o m i n a n t e p a r a os direitos g r a d u a l m e n t e , depois de 1815, c o m a queda de Napoleão e o fim da era revolucionária. Entre 1789 e 1815, duas concepções diferentes de a u t o r i d a d e g u e r r e a r a m entre si: os direitos d o h o m e m de u m lado e a sociedade hierárquica tradicional d o o u t r o . Cada lado invocava a nação, e m b o r a n e n h u m deles fizesse afirmações sobre a d e t e r m i n a ç ã o da i d e n t i d a d e pela etnicidade. Por definição, os direitos d o " h o m e m " r e p u d i a v a m qualquer ideia de que os direitos d e p e n d i a m da nacionalidade. E d m u n d Burke, p o r o u t r o lado, havia t e n t a d o ligar a sociedade hierárquica a certa concepção de nação, a r g u m e n t a n d o q u e a liberdade só p o d i a ser g a r a n t i d a p o r u m governo a r r a i g a d o n a história de u m a nação, c o m ênfase sobre a história. O s direitos só funcionavam, ele insistia, q u a n d o nasciam de tradições e práticas de longa data. Aqueles q u e apoiavam os direitos d o h o m e m h a v i a m n e g a d o a i m p o r t â n c i a d a tradição e da história. Precisamente p o r q u e se baseava e m "abstrações metafísicas", a Declaração francesa, sustentava Burke, n ã o tinha força e m o c i o n a l suficiente p a r a i m p o r a obediência. C o m o p o d e r i a m aqueles "pedaços miseráveis de papel b o r r a d o " ser c o m p a r a d o s ao a m o r a Deus, ao a m o r reverente aos reis, ao dever c o m os magistrados, à reverência aos padres e à deferência para c o m os superiores? Os revolucionários t e r i a m de usar a violência p a r a se m a n t e r n o p o d e r , ele já t i n h a c o n c l u í d o e m 1790. Q u a n d o os republicanos franceses executaram o rei e passar a m ao Terror c o m o u m sistema r e c o n h e c i d o de governo, c o m o fizeram e m 1793 e 1794, o prognóstico de Burke parecia ter se con178

A cautela de R o b i n s o n q u a n t o aos direitos empalidecia e m c o m p a r a ç ã o c o m os mísseis de ataque lançados sobre o continente pelos m o n a r q u i s t a s c o n t r a r r e v o l u c i o n a r i o s . S e g u n d o Louis d e Bonald, u m conservador s e m papas na língua, "a revolução c o m e 179

ç o u c o m a d e c l a r a ç ã o dos direitos d o h o m e m e só t e r m i n a r á q u a n d o os direitos de D e u s f o r e m declarados". A declaração d e direitos, afirmava, representava a m á influência da filosofia d o Ilum i n i s m o e, j u n t o c o m ela, o ateísmo, o p r o t e s t a n t i s m o e a m a ç o naria, q u e ele colocava t o d o s n o m e s m o saco. A declaração encorajava as pessoas a negligenciar os seus deveres e a pensar apenas e m seus desejos individuais. Já que n ã o podia servir c o m o u m freio p a r a essas paixões, ela c o n s e q u e n t e m e n t e levou a França direto à a n a r q u i a , ao t e r r o r e à d e s i n t e g r a ç ã o social. A p e n a s u m a Igreja Católica revivida, protegida p o r u m a m o n a r q u i a restaurada e legít i m a , p o d i a i n c u l c a r p r i n c í p i o s m o r a i s v e r d a d e i r o s . Sob o rei B o u r b o n reinstalado e m 1815, Bonald a s s u m i u a liderança p a r a revogar as leis r e v o l u c i o n á r i a s s o b r e o divórcio e restabelecer a censura rigorosa antes da publicação.
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As intervenções contraditórias de N a p o l e ã o m o s t r a v a m q u e os direitos n ã o precisavam ser vistos c o m o u m p a c o t e único. Ele i n t r o d u z i u a tolerância religiosa e direitos políticos e civis iguais para as m i n o r i a s religiosas e m t o d o s os lugares e m q u e governou; m a s e m casa, n a França, l i m i t o u s e v e r a m e n t e a l i b e r d a d e de expressão de t o d o s e b a s i c a m e n t e e l i m i n o u a liberdade de i m p r e n s a . O i m p e r a d o r francês acreditava q u e "os h o m e n s n ã o n a s c e m p a r a serem livres. [...] A liberdade é u m a necessidade sentida p o r u m a p e q u e n a classe de h o m e n s a q u e m a n a t u r e z a d o t o u c o m m e n t e s mais nobres d o q u e a massa dos h o m e n s . C o n s e q u e n t e m e n t e , ela p o d e ser r e p r i m i d a c o m i m p u n i d a d e . A igualdade, p o r o u t r o lado, agrada às massas". O s franceses n ã o desejavam a verdadeira liberdade, na sua opinião: eles simplesmente aspiravam a ascender ao t o p o d a s o c i e d a d e . Sacrificariam os seus direitos políticos p a r a assegurar a sua igualdade legal.
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Antes d o r e t o r n o dos reis B o u r b o n , q u a n d o os republicanos franceses e mais tarde Napoleão espalharam a m e n s a g e m da Revol u ç ã o Francesa p o r m e i o d a c o n q u i s t a militar, os direitos d o h o m e m ficaram e m a r a n h a d o s c o m a agressão imperialista. Para seu crédito, a influência da França induziu os suíços e os h o l a n d e ses a abolir a t o r t u r a e m 1798; a E s p a n h a os s e g u i u e m 1808, q u a n d o o i r m ã o de Napoleão governou c o m o rei. Depois da q u e d a de Napoleão, entretanto, os suíços r e i n t r o d u z i r a m a t o r t u r a e o rei espanhol restabeleceu a Inquisição, q u e usava a t o r t u r a p a r a obter confissões. Os franceses t a m b é m encorajaram a e m a n c i p a ç ã o dos j u d e u s e m t o d o s os lugares d o m i n a d o s p e l o s seus exércitos. E m b o r a os g o v e r n a n t e s q u e r e t o r n a v a m ao p o d e r e l i m i n a s s e m alguns desses direitos r e c e n t e m e n t e a d q u i r i d o s n o s estados italiano e alemão, a emancipação dos j u d e u s m o s t r o u - s e p e r m a n e n t e nos Países Baixos. U m a vez q u e a emancipação dos j u d e u s era vista c o m o francesa, os bandoleiros que a t o r m e n t a v a m as forças francesas e m alguns territórios r e c é m - c o n q u i s t a d o s t a m b é m atacav a m frequentemente os j u d e u s .
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Sobre a questão da escravidão, N a p o l e ã o se revelou inteiram e n t e coerente. D u r a n t e u m a breve calmaria na luta n a Europa e m 1802, ele enviou expedições militares às colônias n o Caribe. E m b o r a deixasse as suas intenções deliberadamente vagas n o início, para n ã o provocar u m levante geral dos escravos libertos, as instruções dadas ao seu c u n h a d o , u m dos generais c o m a n d a n t e s , deixavam os seus objetivos b e m claros. Assim que chegassem os soldados deviam ocupar p o n t o s estratégicos e obter o controle d a região. E m seguida d e v i a m "perseguir os rebeldes sem piedade", d e s a r m a r t o d o s os negros, p r e n d e r os seus líderes e transportá-los de volta à França, a b r i n d o o c a m i n h o para restaurar a escravidão. Napoleão tinha certeza de que "a perspectiva de u m a república negra é igualmente pert u r b a d o r a p a r a os espanhóis, os ingleses e os americanos". O seu p l a n o fracassou e m Saint D o m i n g u e , que g a n h o u a sua i n d e p e n dência c o m o Haiti, m a s teve sucesso e m outras colônias francesas. O s m o r t o s n a luta e m Saint D o m i n g u e c h e g a r a m a 150 mil; u m d é c i m o da população de Guadalupe foi m o r t a ou deportada.
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N a p o l e ã o t e n t o u criar u m h í b r i d o e n t r e os direitos d o h o m e m e a sociedade hierárquica tradicional, m a s n o fim das contas a m b o s os lados rejeitaram a cria bastarda. Napoleão foi criticado pelos tradicionalistas devido à sua ênfase n a tolerância religiosa, n a abolição d o feudalismo e n a igualdade p e r a n t e a lei, e pelo o u t r o lado devido às restrições que i m p ô s a u m grande n ú m e r o de liberdades políticas. Conseguiu ficar e m paz c o m a Igreja Católica, m a s n u n c a se t o r n o u u m governante legítimo aos olhos dos tradicionalistas. Para os defensores dos direitos, a sua insistência na igualdade p e r a n t e a lei n ã o conseguiu contrabalançar a sua revivescência da nobreza e a criação de u m i m p é r i o hereditário. Q u a n d o p e r d e u o poder, o i m p e r a d o r francês foi d e n u n c i a d o t a n t o pelos tradicionalistas c o m o pelos defensores dos direitos c o m o u m tirano, u m désp o t a e u m u s u r p a d o r . U m dos críticos mais persistentes de N a p o leão, a escritora G e r m a i n e d e Stáel, p r o c l a m o u e m 1817 que o seu ú n i c o legado e r a m "mais alguns segredos n a arte d a tirania". De Stâel, c o m o t o d o s os o u t r o s comentaristas t a n t o da esquerda c o m o da direita, só se referia ao líder d e p o s t o pelo seu s o b r e n o m e , Bonaparte, e n u n c a lhe dava o t r a t a m e n t o imperial d o p r i m e i r o n o m e , Napoleão.
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a n d o u ele criou novas entidades (o d u c a d o d e Varsóvia, o reino da Itália, a confederação d o R e n o ) , p r o d u z i u novas o p o r t u n i d a d e s o u provocou novas animosidades que alimentariam aspirações nacionais. O seu d u c a d o d e Varsóvia l e m b r o u aos poloneses q u e existira o u t r o r a u m a Polônia, antes de ela ser engolida p o r Prússia, Áustria e Rússia. M e s m o q u e os novos governos italiano e alemão t e n h a m desaparecido depois da q u e d a de N a p o l e ã o , eles h a v i a m m o s t r a d o q u e a unificação nacional era concebível. Ao d e p o r o rei da Espanha, o i m p e r a d o r francês abriu a p o r t a p a r a os m o v i m e n tos de i n d e p e n d ê n c i a s u l - a m e r i c a n o s nas décadas de 1810 e 1820. Simon Bolívar, o libertador d e Bolívia, P a n a m á , C o l ô m b i a , Equador, P e r u e Venezuela, falava a m e s m a l i n g u a g e m n a s c e n t e d o n a c i o n a l i s m o e m p r e g a d a p o r seus c o n g ê n e r e s n a E u r o p a . " O nosso solo nativo", dizia c o m e n t u s i a s m o , "desperta s e n t i m e n t o s ternos e lembranças deliciosas. [...] Q u e alegações de a m o r e dedicação p o d i a m ser m a i o r e s ? " O s e n t i m e n t o n a c i o n a l oferecia a força e m o c i o n a l que faltava àqueles "pedaços miseráveis de papel b o r r a d o " ridicularizados p o r Burke.
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E m reação ao i m p e r i a l i s m o francês, alguns escritores alemães r e j e i t a r a m t u d o o q u e era francês — inclusive os direitos d o h o m e m — e desenvolveram u m n o v o s e n t i d o de nação, baseado explicitamente na etnicidade. C a r e c e n d o d e u m a estrutura única de n a ç ã o - E s t a d o , os n a c i o n a l i s t a s a l e m ã e s enfatizavam e m seu lugar a mística do Volk o u p o v o , u m caráter p r ó p r i o alemão que o d i s t i n g u i a d o s o u t r o s p o v o s . O s p r i m e i r o s sinais de p r o b l e m a s futuros já p o d i a m ser percebidos nas visões expressas n o início d o século xix pelo nacionalista a l e m ã o Friedrich Jahn. " Q u a n t o mais p u r o u m povo, melhor", ele escreveu. As leis d a natureza, sustentava, o p e r a v a m c o n t r a a m i s t u r a d e raças e povos. Para Jahn os "direitos sagrados" e r a m os d o p o v o alemão, e ele ficava tão exasp e r a d o c o m a influência francesa q u e exortava seus colegas alem ã e s a p a r a r c o m p l e t a m e n t e d e falar francês. C o m o t o d o s os
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O NACIONALISMO ENTRA EM

CENA

A vitória das forças da o r d e m m o s t r o u - s e efêmera n o longo prazo, e m g r a n d e parte graças aos desenvolvimentos ativados pelo seu nêmesis, Napoleão. Ao longo d o século xix o nacionalismo surp r e e n d e u a m b o s os lados dos debates revolucionários, transform a n d o a discussão dos direitos e criando novos tipos de hierarquia q u e e m última análise ameaçavam a o r d e m tradicional. As aventuras imperialistas d o c o r s o e m e r g e n t e c a t a l i s a r a m i n a d v e r t i d a m e n t e as forças d o n a c i o n a l i s m o , d e Varsóvia a Lima. Por o n d e
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nacionalistas subsequentes, Jahn recomendava insistentemente que se escrevesse e estudasse a história patriótica. M o n u m e n t o s , funerais públicos e festivais populares deviam todos se concentrar em assuntos alemães, e n ã o ideais universais. N o m e s m o m o m e n t o e m que os europeus travavam as maiores batalhas contra as ambições i m p e riais de Napoleão, Jahn p r o p u n h a fronteiras s u r p r e e n d e n t e m e n t e amplas para essa nova Alemanha. Ela devia incluir, ele afirmava, a Suíça, os Países Baixos, a D i n a m a r c a , a Prússia e a Áustria, e u m a nova capital devia ser construída c o m o n o m e de Teutona.
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direitos de o u t r o s g r u p o s étnicos. O s alemães r e u n i d o s e m F r a n k furt redigiram u m a n o v a Constituição n a c i o n a l p a r a a A l e m a n h a , m a s n e g a r a m q u a l q u e r a u t o d e t e r m i n a ç ã o aos d i n a m a r q u e s e s , poloneses ou tchecos d e n t r o de suas fronteiras propostas. O s h ú n garos q u e p e d i a m i n d e p e n d ê n c i a d a Á u s t r i a i g n o r a v a m os interesses dos r o m e n o s , eslovacos, croatas e eslovenos, q u e c o n s t i t u í a m mais da m e t a d e d a p o p u l a ç ã o da H u n g r i a . A competição interétnica c o n d e n o u ao fracasso as revoluções de 1848, e c o m elas a ligação entre os direitos e a a u t o d e t e r m i n a ç ã o nacional. A unificação nacional da A l e m a n h a e d a Itália foi o b t i d a nas décadas de 1850 e 1860 p o r guerras e diplomacia, e a garantia d o s direitos individuais n ã o d e s e m p e n h o u n e n h u m papel. Antes e n t u s i a s t i c a m e n t e p r o n t o p a r a assegurar os direitos p o r m e i o d a difusão d a a u t o d e t e r m i n a ç ã o n a c i o n a l , o n a c i o n a l i s m o se t o r n o u cada vez m a i s fechado e defensivo. A m u d a n ç a refletia a e n o r m i d a d e da tarefa de criar u m a nação. A ideia de q u e a E u r o p a p o d i a ser c a p r i c h a d a m e n t e dividida e m nações-Estados de etnicidade e cultura relativamente h o m o g ê n e a s era d e s m e n t i d a pelo p r ó p r i o m a p a linguístico. Toda n a ç ã o - E s t a d o abrigava m i n o rias linguísticas e culturais n o século xix, m e s m o aquelas estabelecidas havia m u i t o t e m p o , c o m o a G r ã - B r e t a n h a e a França. Q u a n d o foi d e c l a r a d a a r e p ú b l i c a n a F r a n ç a , e m 1870, m e t a d e d o s cidadãos n ã o sabia falar francês: os o u t r o s falavam dialetos ou línguas regionais c o m o o bretão, o franco-provençal, o basco, o alsaciano, o catalão, o córsico, o occitano ou, nas colônias, o crioulo. U m a g r a n d e c a m p a n h a de educação teve d e ser e m p r e e n d i d a p a r a integrar t o d o s n a nação. As nações aspirantes enfrentavam pressões ainda maiores p o r causa da m a i o r heterogeneidade étnica: o c o n d e C a m i l l o di Cavour, p r i m e i r o - m i n i s t r o d o n o v o Reino da Itália, t i n h a c o m o p r i m e i r a língua o dialeto p i e m o n t ê s , e m e n o s de 3 % de seus concidadãos falavam o italiano p a d r ã o . A situação era ainda mais caótica n a E u r o p a Oriental, o n d e m u i t o s g r u p o s étni185

C o m o Jahn, a m a i o r i a dos p r i m e i r o s nacionalistas preferia u m a f o r m a d e m o c r á t i c a de g o v e r n o , p o r q u e ela m a x i m i z a r i a o senso de p e r t e n c i m e n t o à nação. E m consequência, os tradicionalistas se o p u s e r a m i n i c i a l m e n t e ao n a c i o n a l i s m o e à unificação alemã e italiana, t a n t o q u a n t o t i n h a m se o p o s t o aos direitos d o h o m e m . Os primeiros nacionalistas falavam a linguagem revolucionária d o universalismo messiânico, m a s para eles a nação, e m vez dos direitos, servia c o m o u m t r a m p o l i m para o universalismo. Bolívar acreditava que a C o l ô m b i a iluminaria o c a m i n h o p a r a a liberdade e a justiça universais; Mazzini, fundador da nacionalista Sociedade da Jovem Itália, p r o c l a m o u q u e os italianos liderariam u m a c r u z a d a universal dos p o v o s o p r i m i d o s pela l i b e r d a d e ; o p o e t a A d a m Mickiewicz achava q u e os poloneses m o s t r a r i a m o c a m i n h o para a libertação universal. Os direitos h u m a n o s agora d e p e n d i a m da a u t o d e t e r m i n a ç ã o nacional, e a p r i o r i d a d e p e r t e n cia necessariamente à última. D e p o i s de 1848, os tradicionalistas c o m e ç a r a m a aceitar as d e m a n d a s nacionalistas, e o n a c i o n a l i s m o p a s s o u da e s q u e r d a p a r a a direita n o espectro político. O fracasso das revoluções nacionalista e constitucionalista e m 1848 n a A l e m a n h a , n a Itália e n a H u n g r i a abriu o c a m i n h o p a r a essas m u d a n ç a s . O s nacionalistas interessados e m garantir os direitos d e n t r o das nações recentem e n t e propostas m o s t r a v a m - s e d e m a s i a d o dispostos a rejeitar os
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cos diferentes v i v a m e m g r a n d e i n t i m i d a d e . U m a Polônia revivida, p o r exemplo, incluiria n ã o só u m a c o m u n i d a d e substancial de j u d e u s , m a s t a m b é m lituanos, u c r a n i a n o s , alemães e bielo-russos, cada u m c o m sua língua e tradições. A dificuldade de criar o u m a n t e r a h o m o g e n e i d a d e étnica c o n t r i b u i u p a r a a crescente p r e o c u p a ç ã o c o m a imigração e m t o d o o m u n d o . P o u c o s se o p u n h a m à i m i g r a ç ã o a n t e s d a d é c a d a de 1860, m a s ela passou a ser criticada nos países anfitriões nas décadas de 1880 e 1890. A Austrália t e n t o u i m p e d i r o influxo de asiáticos p a r a p o d e r conservar o seu caráter inglês e irlandês. Os Estados U n i d o s p r o i b i r a m a imigração da C h i n a e m 1882 e de toda a Ásia e m 1917, e d e p o i s , e m 1924, e s t a b e l e c e r a m cotas p a r a t o d o s os d e m a i s c o m base n a c o m p o s i ç ã o étnica c o r r e n t e da p o p u l a ç ã o n o r t e - a m e r i c a n a . O g o v e r n o b r i t â n i c o a p r o v o u u m a Lei dos Estrangeiros e m 1905 para i m p e d i r a imigração de "indesejáveis", que m u i t o s interpretavam serem os j u d e u s da E u r o p a Oriental. Ao m e s m o t e m p o que os trabalhadores e criados c o m e ç a r a m a ganhar direitos políticos iguais nesses países, barreiras b l o q u e a v a m aqueles que n ã o partilhavam as m e s m a s origens étnicas. Nessa nova atmosfera protetora, o nacionalismo assumiu u m caráter mais xenófobo e racista. E m b o r a a xenofobia pudesse ter c o m o alvo q u a l q u e r g r u p o estrangeiro (os chineses n o s Estados Unidos, os italianos n a França o u os poloneses n a A l e m a n h a ) , as últimas décadas d o século xix assistiram a u m crescimento alarm a n t e d o antissemitismo. Os políticos de direita n a A l e m a n h a , n a Áustria e n a França usavam jornais, clubes políticos e, e m alguns casos, novos partidos políticos para atiçar o ódio aos j u d e u s c o m o inimigos da verdadeira nação. Depois de duas décadas de p r o p a ganda antissemítica nos jornais de direita, o Partido C o n s e r v a d o r Alemão fez d o antissemitismo u m artigo oficial da sua plataforma e m 1892. Mais o u m e n o s na m e s m a época, o caso Dreyfus fez estragos n a política francesa, c r i a n d o divisões d u r a d o u r a s e n t r e os

defensores e os opositores de Dreyfus. O caso c o m e ç o u e m 1894, q u a n d o u m oficial j u d e u d o exército c h a m a d o Alfred Dreyfus foi e r r o n e a m e n t e acusado de espionar para a A l e m a n h a . Q u a n d o foi julgado culpado apesar do grande n ú m e r o de evidências p r o v a n d o a sua inocência, o famoso romancista Emile Zola p u b l i c o u u m artigo o u s a d o n a p r i m e i r a página dos jornais a c u s a n d o o exército e o governo francês de acobertar as tentativas de i n c r i m i n a r falsamente Dreyfus. E m resposta à crescente m a r é de opinião e m favor de Dreyfus, u m a r e c é m - f o r m a d a Liga Antissemítica francesa f o m e n t o u t u m u l t o s e m m u i t a s cidades e m e t r ó p o l e s , às vezes incluindo ataques de milhares de agitadores a propriedades j u d a i cas. A Liga conseguia mobilizar tantas pessoas p o r q u e várias cidades t i n h a m jornais q u e p r o d u z i a m e m g r a n d e q u a n t i d a d e diatribes antissemíticas. O governo ofereceu a Dreyfus u m p e r d ã o e m 1899 e finalmente o exonerou e m 1906, m a s o antissemitismo torn o u - s e mais venenoso p o r t o d a parte. E m 1895, Karl Lueger conseguiu se eleger prefeito de Viena c o m u m p r o g r a m a antissemítico. Ele se t o r n a r i a u m dos heróis de Hitler.

EXPLICAÇÕES BIOLÓGICAS PARA A

EXCLUSÃO

Q u a n d o se t o r n o u mais i n t i m a m e n t e entrelaçado c o m a etnicidade, o nacionalismo a l i m e n t o u u m a ênfase crescente nas explicações biológicas para a diferença. Os a r g u m e n t o s para os direitos d o h o m e m t i n h a m se baseado n a pressuposição da igualdade da n a t u r e z a h u m a n a em todas as culturas e classes. Depois da Revolução Francesa, t o r n o u - s e cada vez mais difícil reafirmar as diferenças s i m p l e s m e n t e c o m base n a tradição, nos costumes ou n a história. As diferenças t i n h a m de ter u m f u n d a m e n t o mais sólido se os h o m e n s quisessem m a n t e r a sua superioridade e m relação às mulheres, os brancos e m relação aos negros o u os cristãos em rela187

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ção aos j u d e u s . E m suma, se os direitos deviam ser m e n o s q u e u n i versais, iguais e naturais, era preciso explicar p o r quê. E m consequência, o século xix presenciou u m a explosão de explicações biológicas da diferença. I r o n i c a m e n t e , p o r t a n t o , a p r ó p r i a n o ç ã o de direitos h u m a nos abriu i n a d v e r t i d a m e n t e a p o r t a p a r a formas mais virulentas de sexismo, racismo e antissemitismo. C o m efeito, as afirmações de alcance geral sobre a igualdade n a t u r a l de t o d a a h u m a n i d a d e suscitavam asserções igualmente globais sobre a diferença natural, p r o d u z i n d o u m n o v o tipo de opositor aos direitos h u m a n o s , até mais p o d e r o s o e sinistro d o que os tradicionalistas. As novas form a s de racismo, antissemitismo e sexismo ofereciam explicações biológicas p a r a o caráter n a t u r a l da diferença h u m a n a . N o novo racismo, os j u d e u s n ã o e r a m apenas os assassinos de Jesus: a sua inerente inferioridade racial ameaçava macular a pureza dos b r a n cos p o r m e i o d a miscigenação. O s negros já n ã o e r a m inferiores p o r s e r e m escravos: m e s m o q u a n d o a abolição d a e s c r a v a t u r a a v a n ç o u p o r t o d o o m u n d o , o r a c i s m o se t o r n o u m a i s , e n ã o m e n o s , v e n e n o s o . As m u l h e r e s n ã o e r a m s i m p l e s m e n t e m e n o s racionais que os h o m e n s p o r serem m e n o s educadas: a sua biologia as destinava à vida p r i v a d a e d o m é s t i c a e as t o r n a v a inteiram e n t e i n a d e q u a d a s para a política, os negócios o u as profissões. Nessas novas d o u t r i n a s biológicas, a educação o u as m u d a n ç a s n o m e i o a m b i e n t e jamais p o d e r i a m alterar as estruturas hierárquicas inerentes na natureza h u m a n a . Entre as novas d o u t r i n a s biológicas, o sexismo era a m e n o s organizada e m t e r m o s políticos, a m e n o s sistemática e m t e r m o s intelectuais e a m e n o s negativa e m t e r m o s e m o c i o n a i s . Afinal, n e n h u m a n a ç ã o p o d i a se r e p r o d u z i r s e m as m ã e s : p o r t a n t o , e m b o r a fosse concebível a r g u m e n t a r q u e os escravos n e g r o s deviam ser enviados de volta p a r a a África ou que os j u d e u s d e v i a m ser p r o i b i d o s de residir e m d e t e r m i n a d o local, n ã o era possível
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excluir c o m p l e t a m e n t e as m u l h e r e s . Assim, p o d i a - s e admitir que elas p o s s u í a m qualidades positivas q u e talvez fossem importantes n a esfera privada. Além disso, c o m o as m u l h e r e s diferiam claram e n t e d o s h o m e n s e m t e r m o s biológicos ( e m b o r a o grau dessa diferença ainda p e r m a n e ç a t e m a de debate), p o u c o s descartavam i m e d i a t a m e n t e os a r g u m e n t o s biológicos sobre a diferença entre os sexos, q u e t i n h a u m a história m u i t o m a i s longa q u e os argum e n t o s biológicos sobre as raças. M a s a Revolução Francesa havia m o s t r a d o q u e até a diferença sexual, o u ao m e n o s a sua i m p o r t â n cia política, p o d i a ser q u e s t i o n a d a . C o m o s u r g i m e n t o de argum e n t o s explícitos para a igualdade política das mulheres, o argum e n t o biológico para a inferioridade das m u l h e r e s m u d o u . Elas já n ã o o c u p a v a m u m p a t a m a r mais baixo n a m e s m a escala biológica d o s h o m e n s , o q u e as t o r n a v a b i o l o g i c a m e n t e semelhantes aos h o m e n s , ainda que inferiores. As m u l h e r e s agora e r a m cada vez mais m o l d a d a s c o m o biologicamente diferentes: elas se t o r n a r a m o "sexo oposto". " N ã o é fácil d e t e r m i n a r a h o r a exata n e m m e s m o a natureza dessa m u d a n ç a n o p e n s a m e n t o sobre as mulheres, m a s o período da Revolução Francesa parece ser crítico. Os revolucionários franceses t i n h a m invocado a r g u m e n t o s e m g r a n d e parte tradicionais p a r a a diferença das mulheres e m 1793, q u a n d o as proibiram de se r e u n i r e m clubes políticos. " E m geral, as mulheres n ã o são capazes de p e n s a m e n t o s elevados e m e d i t a ç õ e s sérias", p r o c l a m a v a o p o r t a - v o z d o governo. Nos anos seguintes, entretanto, os médicos n a F r a n ç a t r a b a l h a r a m m u i t o p a r a d a r a essas ideias vagas u m a base mais biológica. O principal fisiologista francês da década de 1790 e início dos anos 1800, Pierre Cabanis, argumentava q u e as m u l h e r e s t i n h a m fibras musculares mais fracas e a massa cerebral m a i s delicada, o que as t o r n a v a incapazes para as carreiras p ú b l i cas, m a s a sua consequente sensibilidade volátil adequava-as p a r a os papéis de esposa, m ã e e ama. Esse p e n s a m e n t o ajudou a estabe189
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lecer u m a n o v a tradição e m que as mulheres pareciam predestinadas a se realizar d e n t r o dos limites d a d o m e s t i c i d a d e o u de u m a esfera feminina separada.
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t i n h a m sido restringidos provava apenas que o hábito e o costume exerciam grande poder, e n ã o que tais restrições fossem autorizadas pela razão. D a m e s m a forma, p a r a os abolicionistas a escravidão n ã o d e m o n s t r a v a a inferioridade dos africanos negros: revelava m e r a m e n t e a ganância d o s escravagistas e cultivadores b r a n c o s . Assim, aqueles q u e rejeitavam a ideia de direitos iguais p a r a os judeus ou negros necessitavam de u m a d o u t r i n a — u m caso conv i n c e n t e m e n t e a r r a z o a d o — p a r a apoiar a sua posição, especialm e n t e depois que os judeus t i n h a m g a n h a d o direitos e a escravidão fora abolida nas colônias britânicas e francesas, e m 1833 e 1848, respectivamente. Ao longo d o século xix, os opositores dos direitos para os judeus e os negros recorreram cada vez mais à ciência, ou ao que passava p o r ciência, p a r a e n c o n t r a r essa d o u t r i n a . Pode-se r e m o n t a r a ciência d a raça ao fim d o século xvin e aos esforços p a r a classificar os povos d o m u n d o . Dois fios tecidos n o século xvin entrelaçaram-se n o xix: p r i m e i r o , o a r g u m e n t o de q u e a h i s t ó r i a t i n h a v i s t o u m d e s e n v o l v i m e n t o sucessivo dos povos r u m o à civilização e d e q u e os b r a n c o s e r a m os mais avançados d o g r u p o ; e segundo, a ideia de q u e as características p e r m a n e n t e s h e r d a d a s d i v i d i a m as p e s s o a s d e a c o r d o c o m a raça. O r a c i s m o , c o m o u m a d o u t r i n a sistemática, d e p e n d i a d a conjunção dos dois. Os p e n s a d o r e s d o século x v m p r e s s u p u n h a m q u e todos os povos acabariam p o r alcançar a civilização, e n q u a n t o os teóricos raciais d o século xix acreditavam q u e s o m e n t e certas raças o fariam, p o r causa de suas inerentes qualidades biológicas. É possível e n c o n t r a r e l e m e n t o s dessa conjunção e m cientistas d o início d o século xix, c o m o o n a t u r a l i s t a francês Georges Cuvier, q u e escreveu e m 1817 q u e " c e r t a s causas i n t r í n s e c a s " i m p e d i a m o d e s e n v o l v i m e n t o das raças negra e mongólica. S o m e n t e depois d a m e t a d e d o século, e n t r e t a n t o , é q u e essas ideias aparecem na sua f o r m a p l e n a m e n t e articulada.
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N o seu influente t r a t a d o A sujeição das mulheres

(1869), o

filósofo inglês J o h n Stuart Mili q u e s t i o n o u a p r ó p r i a existência dessas diferenças biológicas. Insistia que n ã o p o d e m o s saber c o m o os h o m e n s e as mulheres diferem q u a n t o à sua natureza, p o r q u e só os v e m o s n o s seus papéis sociais correntes. " O que agora se c h a m a a n a t u r e z a das mulheres", a r g u m e n t a v a , "é algo e m i n e n t e m e n t e artificial." Mill li gava a r e f o r m a d o status das m u l h e r e s ao p r o gresso social e e c o n ô m i c o global. A s u b o r d i n a ç ã o legal das m u l h e res, afirmava, "é errada e m si m e s m a " e "deve ser substituída p o r u m princípio de perfeita igualdade, n ã o a d m i t i n d o n e n h u m p o d e r o u privilégio n u m dos lados n e m incapacidade n o outro". N ã o foi necessário n e n h u m equivalente das ligas o u p a r t i d o s antissemíticos, entretanto, p a r a m a n t e r a força d o a r g u m e n t o biológico. E m 1908, n u m caso legal p e r a n t e a S u p r e m a Corte dos Estados U n i d o s q u e criou jurisprudência, o juiz Louis Brandéis u s o u os m e s m o s velhos a r g u m e n t o s ao explicar p o r que o sexo p o d i a ser u m a base legal para classificação. A "organização física da mulher", as suas funções m a t e r n a i s , a criação dos filhos e a m a n u t e n ç ã o d o lar a colocavam n u m a categoria diferente e separada. O " f e m i n i s m o " se t o r n a r a u m t e r m o de uso c o m u m n a década de 1890, e a resistência às suas d e m a n d a s era feroz. As m u l h e r e s só c o n s e g u i r a m o direito de v o t a r n a Austrália e m 1902, n o s E s t a d o s U n i d o s e m 1920, n a Grã-Bretanha e m 1928 e n a França e m 1944.
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À semelhança d o sexismo, o racismo e o antissemitismo assum i r a m novas formas depois da Revolução Francesa. O s p r o p o s i t o res dos direitos d o h o m e m , e m b o r a ainda n u t r i s s e m m u i t o s estereótipos negativos sobre os j u d e u s e os negros, já n ã o aceitavam a existência d o p r e c o n c e i t o c o m o base suficiente p a r a u m a r g u m e n t o . O fato d e q u e os direitos d o s j u d e u s n a F r a n ç a s e m p r e
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(

O e p í t o m e d o gênero p o d e ser e n c o n t r a d o n o Essai sur Viné191

galité des races humaines

(1853-5), de A r t h u r G o b i n e a u . U s a n d o

m e i o da influência de C h a m b e r l a i n , os arianos de G o b i n e a u se torn a r a m u m elemento central d a ideologia racial de Hitler.
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u m a miscelânea de argumentos derivados da arqueologia, da etnologia, da linguística e da historia, o d i p l o m a t a e h o m e m de letras francês a r g u m e n t a v a q u e u m a hierarquia das raças fundam e n t a d a n a biologia d e t e r m i n a v a a historia da h u m a n i d a d e . N a p a r t e inferior ficavam as raças de pele escura, animalistas, inintelectuais e i n t e n s a m e n t e sensuais; logo acima na escala v i n h a m os amarelos, apáticos e medíocres m a s práticos; e n o t o p o estavam os povos b r a n c o s , perseverantes, intelectualmente enérgicos e aventurosos, que equilibravam " u m extraordinário instinto para a o r d e m " c o m " u m p r o n u n c i a d o gosto pela liberdade". D e n t r o da raça b r a n c a , o r a m o a r i a n o reinava s u p r e m o . " T u d o o q u e é grande, n o b r e e proveitoso n a s obras d o h o m e m sobre esta terra, n a ciência, n a arte e n a civilização" deriva d o s a r i a n o s , concluía Gobineau. M i g r a n d o de seu lar inicial na Asia Central, os arianos t i n h a m propiciado a estirpe original para as civilizações indiana, egípcia, chinesa, r o m a n a , europeia e até, p o r m e i o da colonização, astecaeinca.
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G o b i n e a u d e u u m m o l d e secular e a p a r e n t e m e n t e sistemático a ideias já e m circulação e m g r a n d e p a r t e d o m u n d o ocidental. E m 1850, p o r e x e m p l o , o a n a t o m i s t a escocês R o b e r t K n o x publicou The Races ofMen, e m q u e a r g u m e n t a v a q u e "a raça, o u a descendência hereditária, é t u d o : ela c a r i m b a o h o m e m " . N o a n o seguinte, o chefe d o sindicato d o s c o m p o s i t o r e s tipográficos d a P h i l a d e l p h i a , J o h n C a m p b e l l , a p r e s e n t o u o seu Negro Beingan Examination ofthe Falsely Assumed Equality ofthe ofMankind. Mania, Races

O racismo n ã o estava limitado ao sul dos Estados U n i -

dos. C a m p b e l l citava Cuvier e Knox, entre o u t r o s , p a r a insistir n a selvageria e b a r b á r i e d o s negros e p a r a a r g u m e n t a r c o n t r a qualquer possibilidade de igualdade entre b r a n c o s e negros. C o m o o p r ó p r i o G o b i n e a u t i n h a criticado o t r a t a m e n t o dos escravos africanos n o s Estados U n i d o s , os seus t r a d u t o r e s a m e r i c a n o s tiveram de e l i m i n a r esses t r e c h o s p a r a t o r n a r a o b r a m a i s palatável a o s sulistas p r ó - e s c r a v i d ã o q u a n d o ela foi p u b l i c a d a e m inglês, e m 1856. Assim, a perspectiva da abolição da escravatura ( q u e só se oficializou n o s Estados U n i d o s e m 1865) só intensificou o i n t e resse pela ciência racial.
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A miscigenação explicava t a n t o a ascensão c o m o a q u e d a de civilizações, segundo G o b i n e a u . "A questão étnica d o m i n a t o d o s os o u t r o s problemas da historia e d e t é m a sua chave", escreveu. Ao contrário de alguns de seus futuros seguidores, entretanto, G o b i n e a u achava que os arianos já t i n h a m p e r d i d o a sua força p o r m e i o de casamentos entre g r u p o s étnicos diferentes e que, ainda q u e isso o desgostasse, o i g u a l i t a r i s m o e a d e m o c r a c i a a c a b a r i a m t r i u n fando, o q u e assinalaria o fim da p r ó p r i a civilização. E m b o r a as n o ç õ e s fantasiosas de G o b i n e a u recebessem p o u c o i m p u l s o n a França, o i m p e r a d o r G u i l h e r m e i da A l e m a n h a ( q u e g o v e r n o u d e 1861 a 1888) considerou-as t ã o apropriadas q u e conferiu cidadania h o n o r á r i a ao francês. Elas t a m b é m foram adotadas pelo c o m positor alemão Richard Wagner e depois pelo genro de Wagner, o escritor inglês e germanófilo H o u s t o n Stewart C h a m b e r l a i n . P o r
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C o m o d e m o n s t r a m os t í t u l o s d a s o b r a s de G o b i n e a u e C a m p b e l l , a característica c o m u m e m g r a n d e p a r t e d o p e n s a m e n t o racista era u m a reação visceral contra a noção de igualdade. G o b i n e a u confessou a Tocqueville o asco q u e lhe provocavam "os macacões sujos [trabalhadores]" q u e t i n h a m participado da revolução de 1848 na França. D e sua parte, Campbell sentia r e p u g n â n cia a partilhar u m a plataforma política c o m h o m e n s de cor. O q u e antes havia definido u m a rejeição aristocrática da sociedade m o d e r n a — ter de se m i s t u r a r c o m as camadas inferiores — assumia a g o r a u m significado racial. O a d v e n t o d a política de massa n a ú l t i m a m e t a d e d o século xix p o d e ter corroído aos poucos o senso
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de diferença de classe (ou criado a ilusão de que o desgastava), mas n ã o e l i m i n o u c o m p l e t a m e n t e a diferença, q u e se d e s l o c o u d o registro de classe p a r a o de raça e sexo. O estabelecimento d o sufrágio universal masculino combinava c o m a abolição da escravatura e o início da imigração e m massa p a r a t o r n a r a igualdade m u i t o mais concreta e ameaçadora.
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justificar o imperialismo. E m 1861, o explorador britânico Richard B u r t o n a d o t o u u m discurso q u e logo se t o r n a r i a p a d r ã o . O africano, dizia, "possui e m g r a n d e m e d i d a as piores características dos tipos orientais inferiores — estagnação da m e n t e , indolência d o corpo, deficiência moral, superstição e paixão infantil". Depois da década de 1870, essas atitudes d e s c o b r i r a m u m público de massa e m n o v o s j o r n a i s de p r o d u ç ã o b a r a t a , s e m a n á r i o s i l u s t r a d o s e exposições etnográficas. M e s m o n a Argélia, considerada parte da França após 1848, os nativos só g a n h a r a m direitos depois de m u i t o t e m p o . E m 1865 u m decreto d o governo declarou-os súditos, e n ã o cidadãos, e n q u a n t o e m 1870 o Estado francês t o r n o u os j u d e u s argelinos c i d a d ã o s n a t u r a l i z a d o s . Os h o m e n s m u ç u l m a n o s só g a n h a r a m direitos políticos iguais e m 1947. A "missão civilizadora" n ã o era u m projeto de c u r t o prazo.
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O imperialismo agravou ainda mais esses desenvolvimentos. Ao m e s m o t e m p o e m q u e aboliam a escravidão nas suas colônias de exploração, as potências europeias estendiam o seu d o m í n i o na África e na Ásia. Os franceses invadiram a Argélia e m 1830 e termin a r a m p o r incorporá-la à França. Os britânicos a n e x a r a m Cingap u r a e m 1819 e a N o v a Z e l â n d i a e m 1840, além de a u m e n t a r implacavelmente o seu controle sobre a índia. E m 1914, a África tinha sido dividida entre a França, a Grã-Bretanha, a Alemanha, a Itália, a Bélgica, a Espanha e Portugal. Quase n e n h u m estado africano saiu ileso. E m b o r a e m alguns casos o g o v e r n o estrangeiro tivesse na verdade t o r n a d o os países mais "atrasados", ao destruir as indústrias locais e m favor das importações d o centro imperial, os e u r o p e u s e m geral tiraram apenas u m a lição de suas conquistas: eles t i n h a m o direito — e o d e v e r — d e "civilizar" os lugares b á r b a ros e mais atrasados que governavam. N e m todos os defensores dessas aventuras imperiais p r o m o viam o racismo explícito. John Stuart Mill, que t r a b a l h o u p o r m u i tos anos p a r a a C o m p a n h i a Britânica das índias Orientais, a a d m i nistradora efetiva d o governo britânico na índia até 1858, rejeitava as explicações biológicas da diferença. Ainda assim, até ele acreditava q u e os estados principescos da í n d i a e r a m "selvagens", c o m "pouca o u n e n h u m a lei" e vivendo n u m a condição " m u i t o p o u c o acima d o m a i s elevado dos animais". Apesar de Mill, o i m p e r i a lismo e u r o p e u e a ciência racial desenvolveram u m a relação simbiótica: o imperialismo das "raças conquistadoras" tornava as afirm a ç õ e s raciais m a i s verossímeis, e a ciência racial ajudava a
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G o b i n e a u n ã o havia considerado os j u d e u s u m caso especial na sua elaboração da ciência racial, mas os seus seguidores sim. E m seu Foundations ofthe Nineteenth Century, publicado na Aleman h a e m 1899, H o u s t o n Stewart C h a m b e r l a i n combinava as ideias de G o b i n e a u sobre raça e o misticismo alemão a respeito d o Volk c o m u m ataque a c r i m o n i o s o c o n t r a os j u d e u s , "esse povo estrangeiro" que escravizou "os nossos governos, a nossa lei, a nossa ciência, o nosso comércio, a nossa literatura, a nossa arte". C h a m b e r lain apresentava a p e n a s u m n o v o a r g u m e n t o , m a s ele teve u m a influência direta sobre Hitler: entre todos os povos, apenas os arian o s e os j u d e u s t i n h a m m a n t i d o a sua pureza racial, o q u e significava q u e agora eles deviam lutar u m contra o o u t r o até a m o r t e . E m o u t r o s aspectos, C h a m b e r l a i n a m o n t o o u u m a variedade de ideias cada vez mais c o m u n s .
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E m b o r a o antissemitismo m o d e r n o se baseasse nos estereótip o s cristãos negativos s o b r e os j u d e u s q u e já circulavam havia séculos, a d o u t r i n a a s s u m i u novas características depois da década de 1870. Ao contrário dos negros, os j u d e u s já não representavam
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u m estágio inferior d o desenvolvimento histórico, c o m o h a v i a m representado, p o r exemplo, n o século xviii. E m vez disso, eles significavam as ameaças d a p r ó p r i a m o d e r n i d a d e : o m a t e r i a l i s m o excessivo, a emancipação e a participação política d e g r u p o s m i n o ritários e o cosmopolitismo " d e g e n e r a d o " e "desarraigado" d a vida u r b a n a . As c a r i c a t u r a s n o s j o r n a i s p i n t a v a m os j u d e u s c o m o gananciosos, fingidos e devassos; os jornalistas e os panfletistas escreviam sobre o controle judaico d o capital m u n d i a l e sua m a n i p u l a ç ã o c o n s p i r a t ó r i a d o s p a r t i d o s p a r l a m e n t a r e s (figura 11). U m a caricatura americana de 1894, m e n o s malévola d o q u e m u i tas de suas congêneres europeias, m o s t r a os c o n t i n e n t e s d o m u n d o rodeados pelos tentáculos de u m polvo colocado n o lugar das ilhas britânicas. O polvo traz a etiqueta ROTSCHILD, e m referência à rica e poderosa família judaica. Esses esforços m o d e r n o s d e difamação g a n h a r a m força c o m Os protocolos dos sábios de Sião, u m d o c u m e n t o fraudulento que t i n h a o p r o p ó s i t o de revelar u m a conspiração judaica para m o n t a r u m supergoverno que controlaria o m u n d o inteiro. P u b l i c a d o p r i m e i r a m e n t e n a Rússia e m 1903 e d e s m a s c a r a d o c o m o u m a falsificação e m 1 9 2 1 , Os protocolos foram m e s m o assim r e p e t i d a m e n t e reimpressos pelos nazistas n a A l e m a n h a , sendo até os nossos dias ensinados c o m o fato nas escolas de alguns países árabes. Assim, o novo a n t i s s e m i t i s m o c o m b i nava e l e m e n t o s t r a d i c i o n a i s e m o d e r n o s : os j u d e u s d e v i a m ser excluídos dos direitos e até expulsos da nação p o r q u e e r a m d e m a F I G U R A

11. A Revolução Francesa: antes ehoje. Caran d'Ache em Psst...!, 1 8 9 8 .

siado diferentes e demasiado poderosos.

Caran d'Ache era o pseudônimo de Emmanuel Poiré, um cartunista político francês que publicou caricaturas antissemitas durante o caso Dreyfus na França. Esta caricatura brinca com uma imagem comum da Revolução Francesa de 1789, mostrando o camponês oprimido por um nobre (porque os nobres eram isentos de alguns impostos). Nos tempos modernos, o camponês tem de carregar ainda mais fardos: sobre seus ombros estão um político republicano, um maçom e, no topo, um financista judeu. Caran d'Ache também publicou várias imagens ridicularizando Zola. De Psst...!, n 3 7 , 1 5 de outubro de 1898.
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SOCIALISMO E COMUNISMO

O nacionalismo n ã o foi o ú n i c o m o v i m e n t o de massas a surgir n o século xix. A semelhança d o nacionalismo, o socialismo e o c o m u n i s m o se f o r m a r a m n u m a reação explícita a limitações visí197

veis d o s direitos individuais c o n s t i t u c i o n a l m e n t e e s t r u t u r a d o s . E n q u a n t o os p r i m e i r o s nacionalistas q u e r i a m direitos para todos os povos, e n ã o apenas p a r a aqueles c o m estados já estabelecidos, os socialistas e os comunistas q u e r i a m assegurar que as classes baixas tivessem igualdade social e e c o n ô m i c a , e n ã o apenas direitos políticos iguais. E n t r e t a n t o , m e s m o q u a n d o c h a m a v a m atenção para direitos q u e t i n h a m sido defraudados pelos propositores dos direitos d o h o m e m , as organizações socialistas e comunistas rebaix a v a m i n e v i t a v e l m e n t e a i m p o r t â n c i a d o s direitos c o m o u m a meta. A p r ó p r i a visão de M a r x era b e m delineada: a emancipação política p o d i a ser alcançada p o r m e i o da igualdade legal d e n t r o da sociedade burguesa, mas a verdadeira emancipação h u m a n a requeria a destruição da sociedade burguesa e suas proteções constitucionais da p r o p r i e d a d e privada. Ainda assim, os socialistas e os comunistas p r o p u s e r a m duas questões d u r a d o u r a s sobre os direitos. Os direitos políticos e r a m suficientes? E o direito individual à p r o t e ç ã o da p r o p r i e d a d e privada p o d i a coexistir c o m a necessid a d e de a s o c i e d a d e f o m e n t a r o b e m - e s t a r d e seus m e m b r o s m e n o s afortunados? Assim c o m o o nacionalismo t i n h a passado p o r duas fases n o século xix, i n d o d o entusiasmo inicial sobre a a u t o d e t e r m i n a ç ã o a u m p r o t e c i o n i s m o mais defensivo sobre a identidade étnica, t a m b é m o socialismo evoluiu c o m o t e m p o . Passou de u m a p r i m e i r a ênfase e m r e c o n s t r u i r a sociedade p o r m e i o s pacíficos, m a s n ã o políticos, a u m a divisão entre aqueles a favor da política p a r l a m e n tar e aqueles pela d e r r u b a d a violenta dos governos. D u r a n t e a p r i meira m e t a d e d o século xix, q u a n d o os sindicatos e r a m ilegais n a maioria dos países e os trabalhadores n ã o t i n h a m direito ao voto, os socialistas se c o n c e n t r a r a m e m revolucionar as novas relações sociais criadas pela industrialização. N ã o p o d i a m esperar g a n h a r as eleições q u a n d o os trabalhadores n ã o p o d i a m votar, o q u e cont i n u o u a ser v e r d a d e até p e l o m e n o s a d é c a d a d e 1870. E m vez
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disso, os pioneiros socialistas m o n t a r a m fábricas-modelo, c o o p e rativas de p r o d u t o r e s e de c o n s u m i d o r e s e c o m u n i d a d e s experim e n t a i s p a r a s u p e r a r o conflito e a a l i e n a ç ã o e n t r e os g r u p o s sociais. Q u e r i a m capacitar os trabalhadores e os p o b r e s a tirar p r o veito d a n o v a o r d e m industrial, "socializar" a i n d ú s t r i a e substituir a c o m p e t i ç ã o pela cooperação. Muitos desses p r i m e i r o s socialistas p a r t i l h a v a m u m a desconfiança e m relação aos "direitos d o h o m e m " . O principal socialista francês das décadas d e 1820 e 1830, Charles Fourier, a r g u m e n t a v a q u e as constituições e o discurso dos direitos inalienáveis e r a m u m a hipocrisia. O q u e p o d e r i a m significar os "direitos imprescritíveis d o cidadão", q u a n d o o indigente " n ã o t e m n e m a liberdade de t r a b a l h a r " n e m a a u t o r i d a d e de exigir emprego? O direito de trabalhar suplantava t o d o s os o u t r o s direitos, n a sua opinião. C o m o Fourier, m u i t o s dos p r i m e i r o s socialistas citavam o ato de n ã o conceder direitos às m u l h e r e s u m sinal da b a n c a r r o t a das d o u t r i n a s anteriores de direitos. As m u l h e r e s p o d e r i a m atingir a libertação s e m a abolição da p r o p r i e d a d e p r i v a d a e d o s códigos legais q u e sustentavam o patriarcado?
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Dois fatores alteraram a trajetória d o socialismo n a segunda m e t a d e d o século xix: o advento d o sufrágio universal masculino e o s u r g i m e n t o d o c o m u n i s m o (o t e r m o " c o m u n i s t a " apareceu pela p r i m e i r a vez e m 1840). Os socialistas e o s c o m u n i s t a s então se divid i r a m entre os q u e visavam estabelecer u m m o v i m e n t o político parlamentar, c o m p a r t i d o s e c a m p a n h a s p a r a os cargos públicos, e aqueles, c o m o os bolcheviques na Rússia, q u e insistiam que apenas a d i t a d u r a d o proletariado e a revolução total t r a n s f o r m a r i a m as condições sociais. O s p r i m e i r o s acreditavam que o estabelecim e n t o gradual d o voto p a r a t o d o s os h o m e n s abria a perspectiva de q u e os trabalhadores p o d e r i a m atingir os seus objetivos d e n t r o d a p o l í t i c a p a r l a m e n t a r . O P a r t i d o Trabalhista b r i t â n i c o , p o r exemplo, foi f o r m a d o e m 1900 a partir de u m a variedade de sindi-

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catos, p a r t i d o s e clubes preexistentes p a r a p r o m o v e r os interesses e a eleição de trabalhadores. Por o u t r o lado, a Revolução Russa de 1917 e n c o r a j o u o s c o m u n i s t a s e m t o d a p a r t e a a c r e d i t a r q u e a transformação social e econômica total estava prestes a se realizar e q u e a participação na política p a r l a m e n t a r só desperdiçava energias necessárias para o u t r o s tipos de luta. C o m o era de se esperar, os dois r a m o s t a m b é m diferiam na sua visão dos direitos. Os socialistas e comunistas que a d o t a v a m o processo político t a m b é m p a t r o c i n a v a m a causa dos direitos. U m d o s f u n d a d o r e s d o P a r t i d o Socialista francês, Jean Jaurès, a r g u m e n t a v a q u e u m Estado socialista "só r e t é m a sua l e g i t i m i d a d e e n q u a n t o assegura os direitos individuais". Ele apoiava Dreyfus, o sufrágio universal masculino e a separação d a Igreja e d o Estado, e m s u m a , direitos políticos iguais p a r a t o d o s os h o m e n s , b e m c o m o a m e l h o r a da vida dos trabalhadores. Jaurès considerava a Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o Cidadão u m d o c u m e n t o de i m p o r t â n c i a universal. O s d o o u t r o lado seguiam M a r x mais d e p e r t o ao argumentar, c o m o fazia u m socialista francês opositor d e Jaurès, q u e o Estado burguês só podia s e r " u m i n s t r u m e n t o de conservadorismo e opressão social".
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de possuir p r o p r i e d a d e q u a n d o o necessário era se livrar d a p r o p r i e d a d e ; incluíam o direito de negociar q u a n d o o necessário e r a se livrar d o s n e g ó c i o s . M a r x n ã o gostava p a r t i c u l a r m e n t e d a ênfase p o l í t i c a n o s d i r e i t o s d o h o m e m . O s d i r e i t o s p o l í t i c o s diziam respeito aos meios, pensava ele, e n ã o aos fins. " O h o m e m político" era " a b s t r a t o , artificial", n ã o "autêntico". O h o m e m só p o d i a recuperar a sua autenticidade r e c o n h e c e n d o q u e a e m a n c i p a ç ã o h u m a n a n ã o p o d i a ser alcançada p o r m e i o da política: ela requeria u m a revolução focalizada nas relações sociais e n a a b o l i ção da p r o p r i e d a d e privada.
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Essas visões e p o s t e r i o r e s variações a seu respeito e x e r c e r a m i n f l u ê n c i a n o m o v i m e n t o socialista e c o m u n i s t a p o r m u i t a s gerações. Os bolcheviques p r o c l a m a r a m u m a Declaração dos Direitos d o Povo T r a b a l h a d o r e E x p l o r a d o e m 1918, m a s ela n ã o incluía n e m u m ú n i c o d i r e i t o político o u legal. A sua m e t a e r a "abolir toda a exploração do h o m e m pelo h o m e m , e l i m i n a r c o m p l e t a m e n t e a divisão d a sociedade e m classes, e s m a g a r i m placavelmente a resistência d o s e x p l o r a d o r e s [e] estabelecer u m a o r g a n i z a ç ã o socialista d a sociedade". O p r ó p r i o L ê n i n c i t a v a M a r x ao a r g u m e n t a r c o n t r a q u a l q u e r ênfase n o s direitos i n d i v i d u a i s . A n o ç ã o d e u m d i r e i t o igual, a f i r m a v a L ê n i n , é e m si m e s m a u m a violação d a i g u a l d a d e e u m a injustiça, p o r q u e está baseada na"leiburguesa". O s assim c h a m a d o s direitos iguais p r o tegem a p r o p r i e d a d e p r i v a d a e p o r t a n t o p e r p e t u a m a e x p l o r a ç ã o d o s t r a b a l h a d o r e s . Joseph Stálin p r o c l a m o u u m a n o v a C o n s t i t u i ç ã o e m 1936 q u e afirmava g a r a n t i r a l i b e r d a d e de e x p r e s s ã o , de i m p r e n s a e de religião, m a s o seu governo n ã o hesitou e m d e s p a c h a r centenas de milhares d e inimigos d a classe, d i s s i d e n t e s e até colegas m e m b r o s d o p a r t i d o p a r a c a m p o s d e p r i s i o n e i r o s o u execução i m e d i a t a .
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O p r ó p r i o Karl M a r x só havia d i s c u t i d o os direitos d o h o m e m c o m a l g u m a m i n ú c i a n a sua j u v e n t u d e . N o seu e n s a i o "Sobre a q u e s t ã o judaica", p u b l i c a d o e m 1843, cinco a n o s antes d o Manifesto comunista, M a r x c o n d e n a v a os p r ó p r i o s f u n d a m e n t o s da Declaração dos Direitos d o H o m e m e d o C i d a d ã o . " N e n h u m d o s s u p o s t o s d i r e i t o s d o h o m e m " , q u e i x a v a - s e , "vai a l é m d o h o m e m egoísta." A assim c h a m a d a liberdade só dizia respeito a o h o m e m c o m o u m ser isolado, n ã o c o m o p a r t e de u m a classe o u c o m u n i d a d e . O direito de p r o p r i e d a d e só g a r a n t i a o direito d e b u s c a r o interesse p r ó p r i o sem considerar os o u t r o s . O s direitos d o h o m e m g a r a n t i a m a liberdade de religião q u a n d o a necessid a d e dos h o m e n s era se livrar d a religião; c o n f i r m a v a m o direito
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AS G U E R R A S M U N D I A I S E A B U S C A DE NOVAS

SOLUÇÕES

fusão e a destruição d e i x a r a m m i l h õ e s d e refugiados n o final d a g u e r r a , m u i t o s deles q u a s e i n c a p a z e s de i m a g i n a r u m f u t u r o e vivendo e m c a m p o s para pessoas desalojadas. A i n d a o u t r o s foram forçados a se reassentar p o r razões étnicas (2,5 m i l h õ e s de alemães, p o r exemplo, foram expulsos d a Tchecoslováquia e m 1946). Todas as potências envolvidas n a g u e r r a a t a c a r a m civis n u m o u n o u t r o m o m e n t o ; m a s , q u a n d o a guerra t e r m i n o u , as revelações sobre a escala dos h o r r o r e s d e l i b e r a d a m e n t e p e r p e t r a d o s pelos alemães c h o c a r a m o público. As fotografias tiradas na libertação dos c a m pos de extermínio nazistas m o s t r a v a m as consequências estarreced o r a s d o antissemitismo, q u e t i n h a sido justificado pelo discurso da s u p r e m a c i a racial a r i a n a e d a purificação nacional. O s julgam e n t o s de N u r e m b e r g de 1945-6 não só c h a m a r a m a atenção d o g r a n d e p ú b l i c o p a r a essas atrocidades, m a s t a m b é m estabelecer a m o precedente de q u e os governantes, os funcionários e o pessoal militar p o d i a m ser p u n i d o s p o r crimes "contra a humanidade". M e s m o antes d o fim d a guerra, os A l i a d o s — e m particular os Estados U n i d o s , a União Soviética e a Grã-Bretanha — d e t e r m i n a r a m aperfeiçoar a Liga das Nações. U m a conferência realizada e m San Francisco na primavera de 1945 estabeleceu a estrutura básica para u m n o v o c o r p o internacional, as Nações Unidas. Ele teria u m C o n s e l h o d e Segurança d o m i n a d o pelas g r a n d e s potências, u m a Assembleia Geral c o m delegados d e t o d o s os p a í s e s - m e m b r o s e u m Secretariado chefiado p o r u m secretário-geral à guisa de Poder Executivo. O e n c o n t r o t a m b é m providenciou u m a Corte Internacional de Justiça e m Haia, nos Países Baixos, para substituir u m a corte semelhante estabelecida pela Liga das Nações e m 1921. Cinq u e n t a e u m países a s s i n a r a m a C a r t a das Nações U n i d a s c o m o m e m b r o s fundadores e m 26 de j u n h o de 1945. A p e s a r d o s u r g i m e n t o das evidências d o s c r i m e s nazistas contra os judeus, os ciganos, os eslavos e o u t r o s , os diplomatas que se r e u n i r a m e m San Francisco tiveram d e ser estimulados e incita203

Ao m e s m o t e m p o q u e os bolcheviques começavam a estabelecer a sua d i t a d u r a d o proletariado n a Rússia, as baixas a s t r o n ô micas da Primeira G u e r r a M u n d i a l incitavam os líderes dos Aliados, e m breve vitoriosos, a e n c o n t r a r u m novo m e c a n i s m o para assegurar a paz. Q u a n d o os bolcheviques assinaram u m t r a t a d o de p a z c o m os a l e m ã e s e m m a r ç o d e 1918, a Rússia t i n h a p e r d i d o quase 2 milhões de h o m e n s . Q u a n d o a guerra t e r m i n o u na frente ocidental e m n o v e m b r o de 1918, até 14 milhões de pessoas t i n h a m m o r r i d o , a m a i o r i a delas s o l d a d o s . Três q u a r t o s dos h o m e n s mobilizados p a r a lutar n a Rússia e na França a c a b a r a m feridos o u m o r t o s . E m 1919, os d i p l o m a t a s q u e redigiram os acordos d e paz f u n d a r a m u m a Liga das Nações para m a n t e r a paz, supervisionar o d e s a r m a m e n t o , arbitrar as disputas entre as nações e garantir os direitos p a r a as m i n o r i a s nacionais, m u l h e r e s e crianças. A Liga fracassou, apesar de alguns esforços nobres. O Senado dos Estados U n i d o s se recusou a ratificar a participação americana; n o início foi n e g a d o à A l e m a n h a e à Rússia o ingresso n o q u a d r o d o s associados; e, e m b o r a p r o m o v e s s e a a u t o d e t e r m i n a ç ã o n a Europa, a Liga a d m i n i s t r o u as antigas colônias alemãs e territórios d o agora defunto I m p é r i o O t o m a n o p o r m e i o de u m sistema de " m a n d a tos", justificados mais u m a vez pelo m a i o r progresso e u r o p e u e m relação aos o u t r o s povos. Além disso, a Liga se m o s t r o u i m p o t e n t e para deter o s u r g i m e n t o d o fascismo n a Itália e d o n a z i s m o n a Alem a n h a e p o r t a n t o n ã o c o n s e g u i u i m p e d i r a deflagração d a Segunda Guerra Mundial. A Segunda G u e r r a M u n d i a l estabeleceu u m a nova referência para a barbárie c o m os seus quase incompreensíveis 60 milhões d e m o r t o s . Além d o mais, a maioria dos m o r t o s dessa vez era de civis, e 6 milhões e r a m j u d e u s m o r t o s apenas p o r serem j u d e u s . A c o n 202

dos a p ô r os direitos h u m a n o s n a agenda. E m 1944, t a n t o a Grã-Bretanha c o m o a União Soviética h a v i a m rejeitado propostas de incluir os direitos h u m a n o s n a Carta das Nações Unidas. A Grã- B r e t a n h a t e m i a o e n c o r a j a m e n t o q u e tal ação p o d e r i a d a r aos m o v i m e n t o s de i n d e p e n d ê n c i a nas suas colônias, e a União Soviética n ã o queria n e n h u m a interferência n a sua esfera de influência, então e m expansão. Além disso, os Estados U n i d o s t i n h a m inicialm e n t e se o p o s t o à sugestão da C h i n a de q u e a carta deveria incluir u m a afirmação sobre a igualdade de todas as raças. A pressão vinha de d u a s direções diferentes. M u i t o s estados de t a m a n h o p e q u e n o e m é d i o n a América Latina e n a Ásia p e d i a m insistentemente mais atenção aos direitos h u m a n o s , e m parte p o r q u e se ressentiam da d o m i n a ç ã o arrogante das grandes potências sobre os p r o c e d i m e n t o s . Além disso, u m a m u l t i d ã o de organizações religiosas, trabalhistas, femininas e cívicas, a maioria baseada nos Estados U n i d o s , tentava influenciar d i r e t a m e n t e os delegados d a conferência. Apelos urgentes feitos face a face p o r representantes d o C o m i t ê Judaico A m e r i c a n o , d o C o m i t ê C o n j u n t o pela Liberdade Relig iosa, d o Congresso das O r g a n i z a ç õ e s Industriais (CIO) e da Associação Nacional p a r a o Progresso das Pessoas de C o r (NAACP) a j u d a r a m a m u d a r a visão de f u n c i o n á r i o s d o D e p a r t a m e n t o de Estado dos Estados Unidos, q u e c o n c o r d a r a m e m p ô r os direitos h u m a n o s n a Carta das Nações U n i d a s . A U n i ã o Soviética e a Grã-Bretanha d e r a m o seu c o n s e n t i m e n t o p o r q u e a carta t a m b é m garantia que as Nações Unidas n u n c a i n t e r v i r i a m nos assuntos internos de u m país.
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Comissão dos Direitos H u m a n o s , q u e d e c i d i u q u e sua p r i m e i r a tarefa devia ser o e s b o ç o de u m a c a r t a d o s d i r e i t o s h u m a n o s . C o m o presidente d a comissão, Eleanor Roosevelt d e s e m p e n h o u u m papel central ao c o n s e g u i r q u e u m a d e c l a r a ç ã o fosse r a s c u n h a d a e depois guiá-la pelo complexo processo de aprovação. J o h n H u m p h r e y , u m professor de direito de q u a r e n t a anos da Universidade McGill, n o C a n a d á , p r e p a r o u u m r a s c u n h o preliminar. Esse texto t i n h a de ser revisado p o r t o d a a comissão, posto a circular p o r todos os E s t a d o s - m e m b r o s , depois revisto pelo Conselho Social e E c o n ô m i c o e, se a p r o v a d o , enviado p a r a a Assembleia Geral, n a qual devia ser p r i m e i r o c o n s i d e r a d o pelo Terceiro C o m i t ê sobre A s s u n t o s Sociais, H u m a n i t á r i o s e Culturais. O Terceiro C o m i t ê t i n h a delegados de t o d o s os E s t a d o s - m e m b r o s , e q u a n d o o rascun h o foi discutido a U n i ã o Soviética p r o p ô s e m e n d a s para quase t o d o s os artigos. O i t e n t a e três r e u n i õ e s (apenas d o Terceiro C o m i t ê ) e quase 170 e m e n d a s mais tarde, u m rascunho foi sancion a d o p a r a ser v o t a d o . P o r fim, e m 10 de d e z e m b r o de 1948, a Assembleia Geral a p r o v o u a Declaração Universal dos Direitos H u m a n o s . Q u a r e n t a e oito países v o t a r a m a favor, oito países d o bloco soviético abstiveram-se e n e n h u m votou contra.
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C o m o seus predecessores d o século xvin, a Declaração U n i versal explicava n u m p r e â m b u l o p o r q u e esse p r o n u n c i a m e n t o f o r m a l t i n h a se t o r n a d o necessário. " O desrespeito e o desprezo pelos direitos h u m a n o s t ê m resultado e m atos bárbaros que ofend e r a m a consciência d a h u m a n i d a d e " , afirmava. A variação e m r e l a ç ã o à l i n g u a g e m d a D e c l a r a ç ã o francesa original de 1789 é reveladora. E m 1789, os franceses t i n h a m insistido que "a ignorância, a negligência o u o m e n o s p r e z o dos direitos do h o m e m são as únicas causas dos males públicos e da corrupção governamental". A " i g n o r â n c i a " e até a simples "negligência" já não eram possíveis. E m 1948 t o d o s sabiam, presumivelmente, qual era o significado dos direitos h u m a n o s . Além disso, a expressão "males públicos" de
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O c o m p r o m i s s o c o m os direitos h u m a n o s a i n d a n ã o estava n e m u m p o u c o assegurado. A C a r t a das N a ç õ e s U n i d a s d e 1945 enfatizava as questões de segurança i n t e r n a c i o n a l e dedicava apenas a l g u m a s l i n h a s ao "respeito e c u m p r i m e n t o u n i v e r s a l d o s direitos h u m a n o s e das liberdades f u n d a m e n t a i s p a r a t o d o s , sem d i s t i n ç ã o de raça, sexo, l í n g u a o u religião". M a s ela criava u m a
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1789 n ã o captava a m a g n i t u d e dos acontecimentos recentemente e x p e r i m e n t a d o s . O d e s r e s p e i t o e o d e s p r e z o p r o p o s i t a i s pelos direitos h u m a n o s t i n h a m p r o d u z i d o atos d e u m a b r u t a l i d a d e quase inimaginável. A D e c l a r a ç ã o Universal n ã o reafirmava s i m p l e s m e n t e as noções de direitos individuais d o século xvni, tais c o m o a iguald a d e p e r a n t e a lei, a liberdade de expressão, a liberdade de religião, o direito d e participar d o governo, a proteção d a p r o p r i e d a d e p r i vada e a rejeição da t o r t u r a e da p u n i ç ã o cruel. Ela t a m b é m proibia expressamente a escravidão e providenciava o sufrágio universal e igual p o r votação secreta. Além disso, requeria a liberdade d e ir e vir, o direito a u m a nacionalidade, o direito de casar e, c o m mais controvérsia, o direito à segurança social; o direito de trabalhar, c o m p a g a m e n t o igual para t r a b a l h o igual, t e n d o p o r base u m salário de subsistência; o direito ao descanso e ao lazer; e o direito à educação, q u e devia ser grátis n o s níveis elementares. N u m a época de e n d u r e c i m e n t o das linhas de conflito da Guerra Fria, a Declaração Universal expressava u m c o n j u n t o de aspirações e m vez d e u m a realidade p r o n t a m e n t e alcançável. Delineava u m conjunto de obrigações m o r a i s p a r a a c o m u n i d a d e m u n d i a l , m a s n ã o t i n h a n e n h u m m e c a n i s m o d e imposição. Se tivesse incluído u m m e c a n i s m o p a r a i m p o r as obrigações m o r a i s , n u n c a teria sido a p r o vada. E n t r e t a n t o , apesar de t o d a s as suas deficiências, o d o c u m e n t o teria efeitos n ã o d e t o d o diferentes daqueles causados pelos seus predecessores d o século xviil. Por mais de c i n q u e n t a anos ele t e m estabelecido o p a d r ã o para a discussão e ação internacionais sobre os direitos h u m a n o s . *

A D e c l a r a ç ã o Universal cristalizou 150 a n o s de luta pelos direitos. D u r a n t e t o d o o século xix e o início d o xx, algumas sociedades benevolentes t i n h a m m a n t i d o acesa a c h a m a dos direitos h u m a n o s universais, e n q u a n t o as nações se voltavam para d e n t r o de si m e s m a s . As principais organizações desse tipo e r a m as sociedades inspiradas pelos quakers, fundadas p a r a c o m b a t e r o tráfico d e escravos e a escravidão. A britânica Sociedade p a r a a Abolição d o Tráfico de Escravos, criada e m 1787, distribuía literatura e imagens abolicionistas e organizava grandes c a m p a n h a s de petições dirigidas ao Parlamento. O s seus líderes desenvolveram laços p r ó ximos c o m os abolicionistas nos Estados Unidos, na França e n o Caribe. Q u a n d o , em 1807, o P a r l a m e n t o a p r o v o u u m projeto de lei p a r a acabar c o m a participação britânica n o tráfico de escravos, os abolicionistas d e r a m u m n o v o n o m e ao seu g r u p o , o de Sociedade A n t i e s c r a v i d ã o , e p a s s a r a m a o r g a n i z a r g r a n d e s c a m p a n h a s de petições para que o P a r l a m e n t o abolisse a p r ó p r i a escravidão, o q u e finalmente aconteceu em 1833. A Sociedade Antiescravidão Estrangeira e Britânica e n t ã o t o m o u a b a t u t a e p r o m o v e u agitações p a r a o fim da escravidão e m outros países, especialmente nos Estados U n i d o s . Por sugestão dos abolicionistas americanos, a sociedade britânica organizou u m a convenção mundial antiescravidão e m L o n d r e s , e m 1840, p a r a c o o r d e n a r a luta i n t e r n a c i o n a l c o n t r a a escravidão. Apesar de os delegados terem se recusado a permitir a participação formal de m u l h e r e s abolicionistas, assim ajudando a precipitar o m o v i m e n t o sufragista das mulheres, eles favoreceram a causa internacional c o m o desenvolvimento de novos contatos i n t e r n a c i o n a i s , i n f o r m a ç õ e s sobre as c o n d i ç õ e s dos escravos e resoluções q u e d e n u n c i a v a m a escravidão " c o m o u m pecado contra D e u s " e c o n d e n a v a m aquelas igrejas q u e a apoiavam, especialm e n t e n o sul dos Estados Unidos. E m b o r a fosse d o m i n a d a pelos b r i t â n i c o s e a m e r i c a n o s , a c o n v e n ç ã o " m u n d i a l " estabeleceu o
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* Ver n o A p ê n d i c e o texto c o m p l e t o .

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m o l d e p a r a futuras c a m p a n h a s internacionais pelo sufrágio das mulheres, pela proteção d o trabalho infantil, pelos direitos dos trabalhadores e u m a legião de outras questões, algumas relacionadas a direitos e o u t r a s não, c o m o a abstêmia.
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Nas décadas depois de 1948, f o r m o u - s e aos t r a n c o s e b a r r a n cos u m consenso internacional sobre a i m p o r t â n c i a de se defender os direitos h u m a n o s . A Declaração Universal é m a i s o início d o processo d o q u e o seu a p o g e u . E m n e n h u m o u t r o lugar o p r o gresso dos direitos h u m a n o s foi mais visível d o q u e entre os c o m u nistas, que t i n h a m resistido p o r t a n t o t e m p o a esse apelo. Desde o início da década de 1970, os p a r t i d o s c o m u n i s t a s da E u r o p a Ocidental r e t o r n a r a m a u m a posição m u i t o semelhante à exposta p o r Jaurès n a França na virada d o século. Eles s u b s t i t u í r a m "a d i t a d u r a d o p r o l e t a r i a d o " nas suas p l a t a f o r m a s oficiais p e l o a v a n ç o d a d e m o c r a c i a e e n d o s s a r a m explicitamente os direitos h u m a n o s . N o final da década de 1980, o bloco soviético c o m e ç o u a se mover na m e s m a direção. O secretário-geral d o Partido C o m u n i s t a Mikhail G o r b a t c h e v p r o p ô s ao Congresso d o Partido C o m u n i s t a de 1988, e m M o s c o u , q u e a União Soviética fosse a partir daquela data u m Estado sob o d o m í n i o da lei c o m "a m á x i m a proteção para os direitos e a liberdade d o indivíduo soviético". Naquele m e s m o ano, foi criado pela p r i m e i r a vez u m d e p a r t a m e n t o de direitos h u m a n o s n u m a escola de direito soviética. O c o r r e r a certa convergência. A Declaração Universal de 1948 incluía direitos sociais e econômicos — o direito à segurança social, o direito ao t r a b a l h o , o direito à educação, p o r exemplo — , e nos anos 1980 a maioria dos partidos socialistas e comunistas havia desistido de sua anterior hostilidade aos direitos políticos e civis.
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D u r a n t e as décadas de 1950 e 1960, a causa dos direitos h u m a nos internacionais assumiu u m a posição de m e n o r i m p o r t â n c i a e m relação às lutas anticoloniais e de independência. Ao t é r m i n o da P r i m e i r a G u e r r a M u n d i a l , o presidente a m e r i c a n o W o o d r o w Wilson insistira n o t o r i a m e n t e e m q u e a paz d u r a d o u r a devia se assentar sobre o princípio da a u t o d e t e r m i n a ç ã o nacional. "Todo povo", insistia ele, " t e m o direito de escolher a soberania sob a qual deverá viver." T i n h a e m m e n t e os poloneses, os tchecos e os sérvios — n ã o os africanos — , e ele e seus aliados c o n c e d e r a m i n d e p e n dência à Polônia, à Tchecoslováquia e à Iugoslávia p o r q u e se consideravam n o direito de dispor dos territórios antes c o n t r o l a d o s pelas potências derrotadas. A Grã-Bretanha c o n c o r d o u e m incluir a a u t o d e t e r m i n a ç ã o n a c i o n a l n a C a r t a Atlântica d e 1941, q u e e x p u n h a os p r i n c í p i o s c o m p a r t i l h a d o s pelos Estados U n i d o s e pela G r ã - B r e t a n h a p a r a travar a guerra, m a s W i n s t o n Churchill insistiu q u e esse conceito se aplicava a p e n a s à E u r o p a , e n ã o às colônias da Grã-Bretanha. Os intelectuais africanos d i s c o r d a r a m e i n c o r p o r a r a m a questão à sua crescente c a m p a n h a pela i n d e p e n dência. E m b o r a as Nações Unidas tivessem deixado de t o m a r u m a posição forte sobre a descolonização n o s seus p r i m e i r o s anos, já e m 1952 h a v i a m c o n c o r d a d o e m t o r n a r a a u t o d e t e r m i n a ç ã o u m a p a r t e oficial d o seu p r o g r a m a . A m a i o r i a dos e s t a d o s africanos r e c u p e r o u a sua i n d e p e n d ê n c i a , pacificamente o u pela força, n a década de 1960. E m b o r a às vezes incorporassem nas suas constituições os direitos e n u m e r a d o s , p o r exemplo, na C o n v e n ç ã o E u r o peia para a Proteção dos Direitos H u m a n o s e Liberdades F u n d a mentais de 1950, a garantia legal dos direitos foi frequentemente vítima dos caprichos da política internacional e intertribal.
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As organizações n ã o governamentais (agora chamadas ONGS) n u n c a desapareceram, m a s g a n h a r a m mais influência internacional a partir d o início da década de 1980, e m grande parte por causa d a difusão da p r ó p r i a globalização, ONGS c o m o Anistia Internacional ( f u n d a d a e m 1961), Anti-Slavery I n t e r n a t i o n a l ( u m a contin u a ç ã o da Sociedade Antiescravidão), H u m a n Rights Watch (fund a d a e m 1978) e Médicos sem Fronteiras (fundada e m 1971), para não falar e m incontáveis g r u p o s locais cujas atividades são desco209

nhecidas fora de suas regiões, p r o v i d e n c i a r a m apoio fundamental p a r a os direitos h u m a n o s nas últimas décadas. Essas ONGS frequent e m e n t e exerceram mais pressão sobre governos danosos e contrib u í r a m mais p a r a sanar a fome, a d o e n ç a e o t r a t a m e n t o brutal de d i s s i d e n t e s e m i n o r i a s d o q u e as p r ó p r i a s N a ç õ e s U n i d a s , m a s quase todas elas b a s e a r a m os seus p r o g r a m a s nos direitos articulados n u m a o u n o u t r a parte da Declaração Universal.
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OS L I M I T E S DA E M P A T I A

O que devemos concluir do ressurgimento da tortura e da limpeza étnica, d o e m p r e g o c o n t i n u a d o d o e s t u p r o c o m o a r m a de guerra, da opressão c o n t i n u a d a das m u l h e r e s , d o crescente tráfico sexual de crianças e m u l h e r e s e das práticas subsistentes da escravidão? Os direitos h u m a n o s nos d e s a p o n t a r a m p o r se m o s t r a r e m i n a d e q u a d o s p a r a a sua tarefa? U m p a r a d o x o entre distância e p r o x i m i d a d e está e m ação nos t e m p o s m o d e r n o s . Por u m lado, a difusão da capacidade de ler e escrever e o desenvolvimento de r o m a n ces, jornais, rádio, filmes, televisão e i n t e r n e t t o r n a r a m possível q u e mais e mais pessoas s i n t a m empatia p o r aqueles q u e vivem e m lugares distantes e e m circunstâncias m u i t o diferentes. Fotos de crianças m o r r e n d o de fome e m Bangladesh o u relatos de milhares d e h o m e n s e m e n i n o s a s s a s s i n a d o s e m Srebrenica, n a Bósnia, p o d e m mobilizar m i l h õ e s de pessoas p a r a q u e enviem dinheiro, mercadorias e às vezes a si p r ó p r i a s c o m o ajuda ao povo de outros lugares, o u p a r a que exortem seus governos o u organizações internacionais a intervir. Por o u t r o lado, relatos e m p r i m e i r a m ã o cont a m c o m o vizinhos e m R u a n d a se m a t a v a m uns aos outros, com furiosa b r u t a l i d a d e , p o r causa da e t n i c i d a d e . Essa violência em close está longe de ser excepcional o u recente: os judeus, os cristãos e os m u ç u l m a n o s t e n t a m h á m u i t o t e m p o explicar p o r que o bíblico C a i m , filho de Adão e Eva, m a t o u seu i r m ã o Abel. À medida q u e se p a s s a m os anos depois das atrocidades nazistas, pesquisas cuidadosas t ê m m o s t r a d o q u e seres h u m a n o s c o m u n s , sem anomalias psicológicas n e m paixões políticas ou religiosas, p o d e m ser i n d u z i d o s , nas c i r c u n s t â n c i a s "corretas", a e m p r e e n d e r o que s a b e m ser assassinato e m massa e m c o m b a t e s c o r p o a corpo. Os t o r t u r a d o r e s na Argélia, n a A r g e n t i n a e e m A b u Ghraib também c o m e ç a r a m c o m o soldados c o m u n s . Os t o r t u r a d o r e s e os assassi-

Desnecessário dizer que ainda é mais fácil endossar os direitos h u m a n o s do q u e os impor. O fluxo constante de conferências e convenções internacionais contra o genocídio, a escravidão, o uso da t o r t u r a e o racismo e a favor da proteção das mulheres, crianças e minorias m o s t r a q u e os direitos h u m a n o s ainda precisam ser resgatados. As Nações Unidas a d o t a r a m u m a Convenção Suplementar sobre a Abolição da Escravatura, d o Tráfico de Escravos e das Instituições e Práticas Análogas à E s c r a v a t u r a e m 1956, p o r é m ainda assim estima-se que haja 27 milhões de escravos n o m u n d o hoje. A p r o v a r a m a C o n v e n ç ã o c o n t r a a T o r t u r a e O u t r o s Tratam e n t o s o u Penas Cruéis, D e s u m a n o s o u Degradantes e m 1984 porque a t o r t u r a n ã o desapareceu, q u a n d o suas formas judiciais foram abolidas n o século x v m . E m vez de ser e m p r e g a d a n u m cenário legalmente sancionado, a t o r t u r a passou aos quartos dos fundos da polícia e das forças militares secretas, e n e m tão secretas, dos Estados m o d e r n o s . Os nazistas a u t o r i z a r a m explicitamente o uso d o "aperto" contra os comunistas, as testemunhas de Jeová, os sabotadores, os terroristas, os dissidentes, os "elementos antissociais" e os "vagabundos poloneses o u soviéticos". As categorias já n ã o são exat a m e n t e as mesmas, mas a prática resiste. A África d o Sul, os franceses n a Argélia, o Chile, a Grécia, a Argentina, o Iraque, os americanos e m Abu G h r a i b — a lista jamais termina. A esperança de acabar c o m os "atos bárbaros" ainda n ã o se t o r n o u realidade.
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n o s são c o m o n ó s e f r e q u e n t e m e n t e infligem d o r a pessoas que estão b e m diante deles.
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e m p a t i a m o r a l m e n t e mais eficaz. Os críticos daquela época e m u i tos críticos atuais r e s p o n d e r i a m q u e u m senso de dever religioso m a i s elevado precisa ser ativado p a r a fazer a empatia funcionar. Na o p i n i ã o deles os h u m a n o s n ã o p o d e m vencer a sua p r o p e n s ã o interior à apatia o u ao mal p o r conta própria. U m antigo presidente d a A m e r i c a n Bar Association [ O r d e m dos A d v o g a d o s a m e r i c a n a ] expressou essa o p i n i ã o c o m u m . " Q u a n d o os seres h u m a n o s n ã o são vistos c o m o s e m e l h a n t e s a Deus", disse ele, "os seus direitos básicos p o d e m m u i t o b e m p e r d e r a sua raison d'être metafísica." Sozinha, a ideia dos atributos h u m a n o s c o m u n s n ã o é suficiente.
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Assim, e m b o r a as formas m o d e r n a s de comunicação t e n h a m e x p a n d i d o os meios de sentir empatia pelos o u t r o s , elas n ã o t ê m sido capazes de assegurar que os h o m e n s ajam c o m base nesse sent i m e n t o de c a m a r a d a g e m . A ambivalência q u a n t o à força da e m p a tia p o d e ser e n c o n t r a d a d o século xvin e m d i a n t e , t e n d o sido expressa até p o r aqueles que e m p r e e n d e r a m explicar a sua operação. Na sua Teoria dos sentimentos morais, A d a m Smith considera a reação de " u m h o m e m h u m a n i t á r i o n a Europa" ao ficar sabendo de u m t e r r e m o t o n a China que m a t a centenas de milhões de pessoas. Ele dirá todas as coisas adequadas, prediz Smith, e continuará c o m as suas atividades c o m o se n a d a tivesse acontecido. Se, e m c o n traste, soubesse que perderia o d e d o m í n i m o n o dia seguinte, ele se agitaria e viraria de u m lado para o o u t r o a noite inteira. Estaria disposto a sacrificar as centenas de milhões de chineses e m troca d o seu d e d o m í n i m o ? N ã o , não estaria, afirma Smith. Mas o que leva u m a pessoa a resistir a essa barganha? " N ã o é a força maleável da h u m a nidade", insiste Smith, que nos t o r n a capazes de agir contra o interesse p r ó p r i o . Tem de ser u m a força mais forte, a da consciência: "É a razão, o princípio, a consciência, o habitante d o peito, o h o m e m interior, o grande juiz e árbitro da nossa conduta".
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A d a m S m i t h focaliza u m a q u e s t ã o q u a n d o h á r e a l m e n t e duas. Smith considera q u e a empatia p o r aqueles distantes está n a m e s m a categoria dos s e n t i m e n t o s p o r aqueles que nos são próxim o s , apesar de reconhecer q u e o que nos confronta diretamente é m u i t o mais m o t i v a d o r d o q u e os problemas enfrentados p o r aqueles q u e estão distantes. As d u a s questões, p o r t a n t o , são: o que p o d e n o s m o t i v a r a agir c o m b a s e e m n o s s o s s e n t i m e n t o s pelos q u e estão distantes, e o que faz o s e n t i m e n t o de camaradagem entrar n u m tal colapso q u e p o d e m o s torturar, aleijar ou até matar os que n o s são mais próximos? A distância e a proximidade, os sentimentos positivos e os negativos, t u d o t e m de entrar na equação. D a m e t a d e d o século x v i n e m d i a n t e , e precisamente p o r causa d o s u r g i m e n t o de u m a n o ç ã o dos direitos h u m a n o s , essas tensões se t o r n a r a m cada vez mais mortíferas. Todos os que faziam c a m p a n h a s c o n t r a a escravidão, a t o r t u r a legal e o castigo cruel n o final d o século xvin r e a l ç a v a m a c r u e l d a d e nas suas narrativas e m o c i o n a l m e n t e a r r e b a t a d o r a s . Eles p r e t e n d i a m provocar a repulsa, m a s o d e s p e r t a r de sensações, p o r m e i o da leitura e da visão de gravuras explícitas d o sofrimento, n e m sempre podia ser c u i d a d o s a m e n t e c a n a l i z a d o . D a m e s m a forma, o r o m a n c e q u e suscitava u m a a t e n ç ã o i n t e n s a p a r a os sofrimentos de m o ç a s c o m u n s a s s u m i u o u t r a s formas mais sinistras no final do século
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A p r ó p r i a lista de Smith e m 1759 — razão, princípio, c o n s ciência, o h o m e m interior — capta u m elemento i m p o r t a n t e n o estado atual d o d e b a t e sobre e m p a t i a . O q u e é s u f i c i e n t e m e n t e forte p a r a n o s m o t i v a r a agir c o m base e m nosso s e n t i m e n t o de camaradagem? A heterogeneidade da lista de Smith indica q u e ele p r ó p r i o t i n h a a l g u m p r o b l e m a p a r a r e s p o n d e r essa q u e s t ã o : "razão" é s i n ô n i m o de "o habitante d o peito"? Smith parecia acreditar, c o m o m u i t o s ativistas dos direitos h u m a n o s hoje e m dia, q u e u m a c o m b i n a ç ã o de invocações aos princípios dos direitos e a p e los emocionais ao s e n t i m e n t o d e c a m a r a d a g e m p o d e m t o r n a r a
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XVIII.

O r o m a n c e gótico, exemplificado p o r The Monk (1796), cie

n u a m e n t e a versão dos direitos h u m a n o s d o século xviil, p a r a se assegurar q u e o " H u m a n o s " n a Declaração Universal dos Direitos 11 u m a n o s elimine t o d a s as a m b i g u i d a d e s d o " h o m e m " nos "direitos d o h o m e m " . A cascata d e direitos c o n t i n u a , e m b o r a s e m p r e c o m u m g r a n d e conflito sobre c o m o ela deve fluir: o direito de u m a mulher a escolher versus o direito de u m feto a viver, o direito d e m o r r e r c o m d i g n i d a d e versus o direito absoluto à vida, os direitos dos inválidos, os direitos dos homossexuais, os direitos das crianças, os direitos dos a n i m a i s — os a r g u m e n t o s n ã o t e r m i n a r a m , n e m v ã o t e r m i n a r . O s q u e fizeram c a m p a n h a s pelos direitos h u m a n o s n o século xvin p o d i a m c o n d e n a r os seus o p o s i t o r e s c o m o tradicionalistas insensíveis, interessados apenas e m m a n t e r u m a o r d e m social baseada antes n a desigualdade, n a particularid a d e e n o c o s t u m e histórico d o q u e n a igualdade, na universalid a d e e nos direitos n a t u r a i s . M a s já n ã o p o d e m o s n o s dar ao luxo de u m a simples rejeição de visões mais antigas. Na o u t r a p o n t a da luta pelos direitos h u m a n o s , q u a n d o a crença neles se t o r n a mais difundida, t e m o s de enfrentar o m u n d o q u e foi forjado p o r esse esforço. Temos de i m a g i n a r o q u e fazer c o m os t o r t u r a d o r e s e os assassinos, c o m o prevenir o seu s u r g i m e n t o n o futuro sem deixar de reconhecer, o t e m p o t o d o , q u e eles são nós. N ã o p o d e m o s n e m tolerá-los n e m desumanizá-los. A e s t r u t u r a dos direitos h u m a n o s , c o m seus órgãos internacionais, cortes internacionais e convenções internacionais, talvez seja exasperadora n a sua lentidão para reagir o u na sua repetida incapacidade de atingir seus objetivos principais, m a s n ã o existe n e n h u m a e s t r u t u r a m a i s a d e q u a d a p a r a c o n f r o n t a r essas q u e s tões. As c o r t e s e as o r g a n i z a ç õ e s g o v e r n a m e n t a i s , p o r mais q u e t e n h a m alcance internacional, serão s e m p r e freadas p o r considerações geopolíticas. A história dos direitos h u m a n o s m o s t r a que os direitos são afinal mais b e m defendidos pelos sentimentos, convicções e ações de m u l t i d õ e s de indivíduos, que exigem respostas
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M a t t h e w Lewis, apresentava cenas de incesto, e s t u p r o , tortura I assassinato, e essas cenas sensacionalistas p a r e c i a m ser cada vez mais a razão d o exercício, e m d e t r i m e n t o d o estudo dos sentimcn tos i n t e r i o r e s o u r e s u l t a d o s m o r a i s . O m a r q u ê s d e Sade fez o r o m a n c e gótico dar u m passo além para se transformar n u m a por nografia explícita da dor, r e d u z i n d o d e l i b e r a d a m e n t e a seu núcleo sexual as longas e dilatadas cenas de sedução de r o m a n c e s mais antigos, c o m o Clarissa, de Richardson. Sade visava revelar os significados ocultos dos r o m a n c e s anteriores: sexo, d o m i n a ç ã o , dor I p o d e r e m vez de amor, empatia e benevolência. O "direito natural" p a r a ele significava apenas o direito de agarrar o m á x i m o de poder possível e sentir prazer e m brandi-lo sobre os outros. N ã o é m e r o acaso q u e Sade t e n h a escrito q u a s e t o d o s os seus r o m a n c e s na década de 1790, d u r a n t e a Revolução Francesa.
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Assim, a n o ç ã o dos direitos h u m a n o s t r o u x e n a sua esteira toda u m a sucessão de gêmeos malignos. A reivindicação de direitos universais, iguais e naturais estimulava o crescimento de novas e às vezes fanáticas ideologias da diferença. Alguns novos m o d o s de g a n h a r c o m p r e e n s ã o empática a b r i r a m o c a m i n h o para u m sensacionalismo da violência. O esforço para expulsar a crueldade de suas a m a r r a s legais, judiciais e religiosas tornava-a mais acessível c o m o u m a ferramenta diária de d o m i n a ç ã o e desumanização. Os crimes inteiramente d e s u m a n o s d o século xx só se t o r n a r a m concebíveis q u a n d o t o d o s p u d e r a m afirmar serem m e m b r o s iguais da família h u m a n a . O r e c o n h e c i m e n t o dessas dualidades é essencial p a r a o futuro d o s direitos h u m a n o s . A e m p a t i a n ã o se e x a u r i u , c o m o alguns t ê m afirmado. Mais d o q u e n u n c a , t o r n o u - s e u m a força mais p o d e r o s a para o b e m . Mas o efeito c o m p e n s a t ó r i o de violência, dor e d o m i n a ç ã o t a m b é m é m a i o r d o q u e n u n c a .
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Os direitos h u m a n o s são o ú n i c o baluarte q u e p a r t i l h a m o s c o m u m e n t e contra esses males. Ainda devemos aperfeiçoar conti214

c o r r e s p o n d e n t e s ao seu senso í n t i m o de afronta. O pastor protes t a n t e R a b a u t Saint-Étienne já t i n h a c o m p r e e n d i d o essa verdade e m 1787, q u a n d o escreveu ao governo francês p a r a reclamar dos defeitos d o n o v o edito que oferecia tolerância religiosa aos protestantes. " C h e g o u a hora", disse ele, "em q u e n ã o é mais aceitável que u m a lei invalide a b e r t a m e n t e os direitos da h u m a n i d a d e , que são m u i t o b e m conhecidos e m t o d o o m u n d o . " As declarações — em 1776, 1789 e 1948 — p r o v i d e n c i a r a m u m a p e d r a de t o q u e para esses direitos d a h u m a n i d a d e , recorrendo ao senso d o que "não é mais aceitável" e ajudando, p o r sua vez, a t o r n a r as violações ainda mais inadmissíveis. O processo t i n h a e t e m e m si u m a inegável circularidade: c o n h e c e m o s o significado dos direitos h u m a n o s porq u e nos afligimos q u a n d o são violados. As verdades dos direitos h u m a n o s talvez sejam paradoxais nesse sentido, m a s apesar disso ainda são autoevidentes.

APÊNDICE

Três declarações 1776,1789,1948

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Declaração da Independência, 1776

NO CONGRESSO,

4 de julho de 1776.

A Declaração unânime dos treze Estados unidos da América.

Q u a n d o , n o C u r s o d o s a c o n t e c i m e n t o s h u m a n o s , torna-se necessário q u e u m povo dissolva os laços políticos que o ligam a o u t r o e a s s u m a entre as p o t ê n c i a s d a Terra a posição separada e igual a q u e lhe dão direito as Leis da Natureza e d o Deus da N a t u reza, u m respeito decente pelas opiniões da h u m a n i d a d e r e q u e r que ele declare as causas q u e o i m p e l e m à separação. C o n s i d e r a m o s estas v e r d a d e s a u t o e v i d e n t e s : q u e t o d o s o s h o m e n s são c r i a d o s iguais, d o t a d o s pelo seu C r i a d o r de c e r t o s Direitos inalienáveis, q u e e n t r e estes estão a Vida, a Liberdade e a b u s c a da Felicidade. — Q u e p a r a assegurar esses direitos, Govern o s são instituídos e n t r e os H o m e n s , d e r i v a n d o seus justos p o d e res d o c o n s e n t i m e n t o dos g o v e r n a d o s . — Q u e , s e m p r e q u e q u a l q u e r F o r m a de G o v e r n o se t o r n e destrutiva desses fins, é Direito d o Povo alterá-la o u aboli-la, e i n s t i t u i r n o v o G o v e r n o , a s s e n 219

t a n d o s u a f u n d a ç ã o nesses p r i n c í p i o s e o r g a n i z a n d o os seus p o d e r e s d a f o r m a que lhe pareça m a i s conveniente p a r a a realização da sua Segurança e Felicidade. A p r u d ê n c i a , de fato, dita que os G o v e r n o s estabelecidos h á m u i t o t e m p o n ã o d e v e m ser m u d a dos p o r causas superficiais e t r a n s i t ó r i a s ; e, assim s e n d o , t o d a experiência t e m m o s t r a d o q u e a h u m a n i d a d e está m a i s disposta a sofrer, e n q u a n t o os males são suportáveis, d o q u e a se desagravar a b o l i n d o as formas a q u e está a c o s t u m a d a . M a s q u a n d o u m a longa sequência de abusos e u s u r p a ç õ e s , p e r s e g u i n d o invariavelm e n t e o m e s m o Objeto, revela o desígnio de reduzir o p o v o a u m D e s p o t i s m o a b s o l u t o , é seu d i r e i t o , é seu dever, d e r r u b a r tal G o v e r n o , e p r o v i d e n c i a r novos Guardiães p a r a sua futura segurança. — Tal t e m sido a tolerância paciente destas Colônias; e tal é agora a necessidade q u e as força a alterar os Sistemas anteriores d e G o v e r n o . A história d o p r e s e n t e Rei da G r ã - B r e t a n h a é u m a história de repetidas injúrias e u s u r p a ç õ e s , t o d a s t e n d o p o r objetivo direto o estabelecimento de u m a Tirania absoluta sobre estes E s t a d o s . P a r a p r o v á - l o , q u e os Fatos sejam s u b m e t i d o s a u m m u n d o honesto.

os Arquivos públicos, c o m o ú n i c o propósito d e fatigá-los até q u e se s u b m e t e s s e m a suas m e d i d a s . Ele dissolveu as C â m a r a s de Representantes r e p e t i d a s vezes, p o r se o p o r e m c o m firmeza viril a suas invasões dos direitos d o povo. Ele recusou p o r m u i t o t e m p o , depois dessas dissoluções, fazer c o m q u e o u t r o s fossem eleitos; c o m isso, os p o d e r e s Legislativos, i n c a p a z e s d e A n i q u i l a ç ã o , r e t o r n a r a m ao P o v o e m geral p a r a s e r e m exercidos; p e r m a n e c e n d o o Estado, n e s s e m e i o - t e m p o , e x p o s t o a t o d o s os p e r i g o s de invasão e x t e r n a o u c o n v u l s ã o interna. Ele se e m p e n h o u e m i m p e d i r o p o v o a m e n t o desses Estados, o b s t r u i n d o p a r a esse fim as Leis de Naturalização d e Estrangeiros, r e c u s a n d o aprovar o u t r a s q u e encorajassem as m i g r a ç õ e s p a r a cá, e i m p o n d o mais condições p a r a novas A p r o p r i a ç õ e s de Terras. Ele dificultou a A d m i n i s t r a ç ã o da Justiça, r e c u s a n d o Assentim e n t o a Leis que estabeleciam poderes Judiciários. Ele t o r n o u os Juízes d e p e n d e n t e s apenas da V o n t a d e d o sober a n o q u a n t o à posse dos cargos e ao valor e p a g a m e n t o dos salários. Ele c r i o u u m a m u l t i d ã o de Novos Cargos, e p a r a cá e n v i o u enxames de Oficiais p a r a a t o r m e n t a r o nosso p o v o e devorar-lhe c o m p l e t a m e n t e a substância. Ele m a n t e v e entre n ó s , e m t e m p o s de paz, Exércitos P e r m a nentes sem o C o n s e n t i m e n t o de nossos corpos legislativos. Ele t e n t o u t o r n a r o p o d e r Militar i n d e p e n d e n t e e superior ao p o d e r Civil. Ele c o m b i n o u c o m o u t r o s p a r a nos s u b m e t e r a u m a jurisdição alheia à nossa C o n s t i t u i ç ã o e n ã o reconhecida pelas nossas leis; d a n d o Assentimento a seus Atos de pretensa legislação: Para Aquartelar g r a n d e s corpos de tropas a r m a d a s entre nós; Para protegê-las, p o r u m a r r e m e d o de Julgamento, da p u n i ção p o r quaisquer Assassinatos q u e viessem a cometer contra os Habitantes destes Estados;
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Ele recusou Assentimento a Leis, as mais salutares e necessárias para o b e m público. Ele p r o i b i u aos G o v e r n a d o r e s aprovar Leis d e i m p o r t â n c i a imediata e urgente, a m e n o s q u e sua aplicação fosse suspensa até que se obtivesse seu Assentimento; e, q u a n d o assim suspensas, deix o u totalmente de lhes dar atenção. Ele recusou aprovar outras Leis p a r a a c o m o d a r grandes dist r i t o s d e pessoas, a m e n o s q u e essas pessoas a b r i s s e m m ã o d o direito de Representação n o Legislativo, u m direito inestimável para elas e temível apenas p a r a os tiranos. Ele convocou os corpos legislativos a se reunir e m lugares inusitados, desconfortáveis e distantes dos locais e m q u e se g u a r d a m
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P a r a c o r t a r o n o s s o C o m é r c i o c o m t o d a s as regiões d o mundo; Para fixar I m p o s t o s sem o nosso C o n s e n t i m e n t o ; Para n o s privar, e m m u i t o s casos, dos benefícios d o Julgam e n t o pelo Júri; Para nos transportar além-Mar para sermos julgados por pretensos delitos; Para abolir o Sistema livre de Leis Inglesas n u m a Província vizinha, aí estabelecendo u m governo Arbitrário e a m p l i a n d o - l h e as fronteiras, a fim de torná-lo, ao m e s m o t e m p o , u m exemplo e u m instrumento adequado para introduzir o m e s m o domínio absoluto nestas Colônias; Para nos t o m a r as nossas Cartas, abolindo as nossas Leis mais valiosas e a l t e r a n d o f u n d a m e n t a l m e n t e as F o r m a s de n o s s o s Governos; Para suspender os nossos C o r p o s Legislativos, declarando-se investido d o p o d e r para legislar para nós e m t o d o e qualquer caso. Ele abdicou d o Governo aqui, ao nos declarar fora da sua p r o teção e travar G u e r r a contra nós. Ele s a q u e o u os n o s s o s m a r e s , d e v a s t o u as nossas C o s t a s , incendiou as nossas cidades e destruiu a vida de nosso povo. Ele está, neste m o m e n t o , t r a n s p o r t a n d o grandes Exércitos de Mercenários estrangeiros para completar a obra de m o r t e , desolação e tirania, já iniciada e m circunstâncias de Crueldade & perfídia quase sem paralelo nas eras mais bárbaras e totalmente indignas d o Chefe de u m a nação civilizada. Ele obrigou nossos concidadãos Aprisionados em alto-Mar a pegar em armas contra o p r ó p r i o País deles, a se t o r n a r os carrascos de seus amigos e I r m ã o s , o u a t o m b a r e m eles p r ó p r i o s pelas Mãos desses seus semelhantes. Ele p r o v o c o u i n s u r r e i ç õ e s d o m é s t i c a s e n t r e n ó s , e e m p e n h o u - s e e m lançar sobre os h a b i t a n t e s de nossas fronteiras os
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cruéis í n d i o s Selvagens, cuja conhecida regra d e g u e r r a é a destruição d e t o d o s sem distinção de idade, sexo e c o n d i ç õ e s . E m t o d a etapa dessas O p r e s s õ e s , N ó s f i z e m o s P e d i d o s d e Reparação nos t e r m o s mais h u m i l d e s : Nossas r e p e t i d a s Petições só t ê m recebido c o m o resposta repetidas injúrias. U m Príncipe cujo caráter é assim m a r c a d o p o r t o d o ato q u e define u m T i r a n o é inap r o p r i a d o p a r a ser o governante de u m p o v o livre. T a m p o u c o t e m o s sido descorteses c o m n o s s o s i r m ã o s brittânicos [sic]. D e t e m p o s em t e m p o s , nós os t e m o s a l e r t a d o sobre as tentativas d e seu legislativo n o sentido de estender sobre nós u m a jurisdição injustificável. Temos lhes l e m b r a d o as circunstâncias de nossa emigração e colonização. Temos apelado à sua justiça e m a g n a n i m i d a d e nativas, e t e m o s rogado, pelos laços d e nosso p a r e n tesco c o m u m , que desautorizem essas u s u r p a ç õ e s q u e i n t e r r o m p e r i a m , i n e v i t a v e l m e n t e , as nossas ligações e c o r r e s p o n d ê n c i a . Eles t a m b é m t ê m sido surdos à voz da justiça e d a c o n s a n g u i n i dade. Devemos, portanto, admitir a necessidade, que denuncia nossa S e p a r a ç ã o , e c o n s i d e r á - l o s , assim c o m o c o n s i d e r a m o s o resto d a h u m a n i d a d e , Inimigos na Guerra, A m i g o s n a Paz.

N ó s , p o r t a n t o , os R e p r e s e n t a n t e s d o s E s t a d o s U n i d o s da A m é r i c a , R e u n i d o s e m C o n g r e s s o Geral, a p e l a n d o ao Juiz Sup r e m o d o m u n d o pela retidão de nossas intenções, publicamos e declaramos solenemente, em Nome e por Autoridade do b o m Povo destas Colônias, q u e estas Colônias U n i d a s são e p o r direito d e v e m ser Estados Livres e Independentes; q u e elas estão Desobrigadas d e t o d a Vassalagem p a r a c o m a C o r o a Britânica, e que t o d o vínculo político entre elas e o Estado da Grã-Bretanha é e deve ser t o t a l m e n t e dissolvido; e que, c o m o Estados Livres e I n d e p e n d e n tes, elas t ê m pleno Poder p a r a declarar Guerra, concluir a Paz, cont r a i r Alianças, estabelecer C o m é r c i o e p r a t i c a r t o d o s os o u t r o s
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Atos e Negócios q u e os Estados I n d e p e n d e n t e s t ê m o direito de fazer. E p a r a apoiar esta Declaração, c o m u m a firme confiança n a p r o t e ç ã o d a D i v i n a Providência, e m p e n h a m o s m u t u a m e n t e as nossas Vidas, as nossas F o r t u n a s e a nossa sagrada H o n r a . Fonte: Paul Leicester Ford, ed., The Writings of Thomas Jefferson, 10 vols. (Nova York: G. P. P u t n a m ' s Sons, 1892-9), vol. 2, p p . 42-58; <www.archives.gov/national-archives-experience/charters/declaration_transcript.html>.

Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, 1789

O s representantes d o povo francês, reunidos e m Assembleia N a c i o n a l e c o n s i d e r a n d o q u e a i g n o r â n c i a , a negligência o u o m e n o s p r e z o dos direitos d o h o m e m são as únicas causas dos males públicos e d a c o r r u p ç ã o g o v e r n a m e n t a l , resolveram a p r e s e n t a r n u m a declaração solene os direitos naturais, inalienáveis e sagrad o s d o h o m e m : p a r a q u e esta declaração, p o r estar c o n s t a n t e m e n t e presente a t o d o s os m e m b r o s d o corpo social, possa s e m p r e l e m b r a r a t o d o s os seus direitos e deveres; p a r a q u e os atos d o s p o d e r e s Legislativo e Executivo, p o r e s t a r e m a t o d o m o m e n t o sujeitos a u m a c o m p a r a ç ã o c o m o objetivo d e t o d a i n s t i t u i ç ã o política, p o s s a m ser m a i s p l e n a m e n t e respeitados; e p a r a q u e as d e m a n d a s dos cidadãos, p o r estarem a partir de agora f u n d a m e n tadas e m princípios simples e incontestáveis, possam s e m p r e visar a m a n t e r a Constituição e o bem-estar geral. E m c o n s e q u ê n c i a , a Assembleia N a c i o n a l r e c o n h e c e e declara, na presença e sob os auspícios do Ser Supremo, os seguintes direitos d o h o m e m e d o cidadão: 1. O s h o m e n s n a s c e m e p e r m a n e c e m livres e iguais em direi 224 225

t o s . As d i s t i n ç õ e s sociais só p o d e m ser b a s e a d a s n a utilidade comum. 2 . 0 objetivo de toda associação política é a preservação dos direitos n a t u r a i s e imprescritíveis d o h o m e m . Esses direitos são a liberdade, a p r o p r i e d a d e , a segurança e a resistência à opressão. 3. O p r i n c í p i o de t o d a s o b e r a n i a reside e s s e n c i a l m e n t e n a n a ç ã o . N e n h u m c o r p o e n e n h u m i n d i v í d u o p o d e exercer u m a a u t o r i d a d e q u e n ã o e m a n e expressamente da nação. 4. A liberdade consiste e m p o d e r fazer t u d o o q u e não prejud i q u e o o u t r o : assim, o exercício d o s direitos n a t u r a i s de cada h o m e m n ã o t e m o u t r o s limites senão aqueles q u e asseguram aos o u t r o s m e m b r o s d a s o c i e d a d e o desfrute dos m e s m o s direitos. Esses limites só p o d e m ser d e t e r m i n a d o s pela lei. 5. A lei só t e m o direito de proibir aquelas ações que são prejudiciais à sociedade. N e n h u m obstáculo deve ser i n t e r p o s t o ao que a lei n ã o proíbe, n e m p o d e alguém ser forçado a fazer o que a lei n ã o ordena. 6. A lei é a expressão da v o n t a d e geral. Todos os cidadãos t ê m o direito de participar, e m pessoa ou p o r m e i o de seus representantes, n a sua formação. Deve ser a m e s m a para t o d o s , q u e r proteja, q u e r penalize. Todos os cidadãos, s e n d o iguais a seus olhos, são igualmente admissíveis a todas as dignidades, cargos e e m p r e g o s públicos, segundo a sua capacidade e sem n e n h u m a o u t r a distinção que n ã o seja a de suas virtudes e talentos. 7. N e n h u m h o m e m p o d e ser i n d i c i a d o , p r e s o o u d e t i d o exceto e m casos d e t e r m i n a d o s pela lei e segundo as formas que a lei prescreve. Aqueles q u e solicitam, lavram, e x e c u t a m o u m a n d a m executar ordens arbitrárias devem ser p u n i d o s ; m a s os cidadãos i n t i m a d o s o u detidos p o r força da lei d e v e m obedecer i m e diatamente, t o r n a n d o - s e culpados pela resistência. 8. Apenas punições estrita e o b v i a m e n t e necessárias p o d e m ser estabelecidas pela lei, e n i n g u é m p o d e ser p u n i d o s e n ã o p o r
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força d e u m a lei estabelecida e p r o m u l g a d a a n t e s d o t e m p o d o delito, e legalmente aplicada. 9. Sendo t o d o h o m e m considerado inocente até ser declarado c u l p a d o , se for c o n s i d e r a d o indispensável p r e n d ê - l o , t o d o rigor desnecessário para deter a sua pessoa deve ser s e v e r a m e n t e reprim i d o pela lei. 10. N i n g u é m deve ser molestado p o r suas o p i n i õ e s , m e s m o as religiosas, d e s d e q u e sua m a n i f e s t a ç ã o n ã o p e r t u r b e a o r d e m pública estabelecida pela lei. 11. A livre comunicação de pensamentos e opiniões é u m dos mais preciosos direitos d o h o m e m . Todo cidadão p o d e , p o r t a n t o , falar, escrever e publicar livremente, se aceitar a responsabilidade p o r qualquer abuso dessa liberdade nos termos estabelecidos pela lei. 12. A salvaguarda dos direitos d o h o m e m e d o cidadão requer u m a força pública. Essa força é, p o r t a n t o , instituída para o b e m de t o d o s , e n ã o p a r a o benefício privado daqueles a q u e m é confiada. 13. Para a m a n u t e n ç ã o da a u t o r i d a d e pública e para as despesas da a d m i n i s t r a ç ã o , a t r i b u t a ç ã o c o m u m é indispensável. Ela deve ser dividida i g u a l m e n t e e n t r e t o d o s os cidadãos de a c o r d o c o m sua capacidade de pagar. 14. Todos os cidadãos t ê m o direito de exigir, p o r si m e s m o s ou p o r m e i o de seus representantes, que lhes seja d e m o n s t r a d a a necessidade dos impostos públicos, de concordar livremente c o m a sua existência, de a c o m p a n h a r o seu e m p r e g o e de determinar os meios de distribuição, avaliação e arrecadação, b e m como a d u r a ção dos impostos. 15. A sociedade t e m o direito de considerar que todo agente público da administração deve prestar contas de seus atos. 16. N ã o possui C o n s t i t u i ç ã o a sociedade em que a garantia d o s d i r e i t o s n ã o esteja a s s e g u r a d a o u a s e p a r a ç ã o dos p o d e r e s estabelecida. 17. C o m o a p r o p r i e d a d e é u m direito inviolável e sagrado,
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n i n g u é m p o d e ser dela p r i v a d o , a n ã o ser q u a n d o a necessidade pública legalmente comprovada a requeira indubitavelmente e sob condição de u m a justa e prévia compensação. Fonte: La Constitution française, Présentée au Roi par

Declaração Universal dos Direitos Humanos, 1948

l'Assemblée Nationale,

le 3 septembre 1791 (Paris, 1791).

PREÂMBULO

Visto q u e o r e c o n h e c i m e n t o da dignidade inerente a t o d o s os m e m b r o s da família h u m a n a e de seus direitos iguais e inalienáveis é o f u n d a m e n t o da liberdade, da justiça e da paz n o m u n d o , Visto q u e o desrespeito e o desprezo pelos direitos h u m a n o s t ê m resultado e m atos b á r b a r o s q u e o f e n d e r a m a consciência da h u m a n i d a d e e que o advento de u m m u n d o e m q u e os seres h u m a nos t e n h a m liberdade de expressão e crença e a liberdade de viver sem m e d o e privações foi p r o c l a m a d o c o m o a aspiração mais elevada d o h o m e m c o m u m , Visto que é essencial que os direitos h u m a n o s sejam protegidos pelo estado de direito, p a r a q u e o h o m e m n ã o seja c o m p e l i d o a recorrer, e m última instância, à rebelião contra a tirania e a opressão, Visto q u e é essencial p r o m o v e r o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações, Visto q u e os povos das Nações Unidas reafirmaram, n a Carta, sua fé nos direitos h u m a n o s fundamentais, n a dignidade e valor da pessoa h u m a n a e na igualdade de direitos dos h o m e n s e mulheres,
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e q u e d e c i d i r a m p r o m o v e r o progresso social e melhores padrões de vida e m m a i o r liberdade, Visto q u e os E s t a d o s - m e m b r o s se c o m p r o m e t e r a m a desenvolver, e m cooperação c o m as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos h u m a n o s e liberdades fundamentais e o c u m p r i m e n t o desses direitos e liberdades, Visto q u e u m a c o m p r e e n s ã o c o m u m desses direitos e liberdades é da m a i o r i m p o r t â n c i a p a r a o p l e n o c u m p r i m e n t o desse compromisso,

i n d e p e n d e n t e , sob tutela, n ã o a u t ô n o m o o u c o m q u a l q u e r o u t r a limitação de soberania. Artigo 3 '. Todo ser h u m a n o t e m direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. Artigo 4". N i n g u é m deve ser m a n t i d o e m escravidão o u servidão: a escravidão e o tráfico de escravos d e v e m ser p r o i b i d o s e m todas as suas formas.
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A ASSEMBLEIA GERAL p r o c l a m a ESTA DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS

DIREITOS HUMANOS c o m o u m ideal c o m u m a ser a l c a n ç a d o p o r todos os povos e todas as nações, p a r a que t o d o indivíduo e t o d o órgão da sociedade, t e n d o s e m p r e em m e n t e esta Declaração, p r o cure, pelo e n s i n a m e n t o e pela e d u c a ç ã o , p r o m o v e r o respeito a esses direitos e liberdades e, p o r m e d i d a s progressivas de caráter nacional e internacional, assegurar o seu r e c o n h e c i m e n t o e c u m p r i m e n t o universais e efetivos, t a n t o entre os povos dos p r ó p r i o s E s t a d o s - m e m b r o s c o m o e n t r e os p o v o s d o s t e r r i t ó r i o s sob sua jurisdição.

Artigo 5 . N i n g u é m deve ser s u b m e t i d o à t o r t u r a o u a u m trat a m e n t o o u p u n i ç ã o cruel, d e s u m a n o ou degradante.

e

Artigo 6". Todo ser h u m a n o t e m o direito de ser reconhecido, p o r t o d a parte, c o m o u m a pessoa p e r a n t e a lei.

Artigo 7\ T o d o s são iguais p e r a n t e a lei e t ê m direito, s e m q u a l q u e r distinção, a u m a proteção igual d a lei. Todos t ê m direito a u m a proteção igual c o n t r a qualquer discriminação q u e viole esta Declaração e contra q u a l q u e r incitamento a tal discriminação.

Artigo 1". Todos os seres h u m a n o s nascem livres e iguais e m dignidade e direitos. São d o t a d o s de razão e consciência e devem agir uns para c o m os o u t r o s n u m espírito de fraternidade. Artigo 2'-. Todo ser h u m a n o p o d e fruir de t o d o s os direitos e liberdades apresentados nesta Declaração, sem distinção de qualquer sorte, c o m o raça, cor, sexo, língua, religião, o p i n i ã o política o u de o u t r a o r d e m , origem nacional o u social, bens, n a s c i m e n t o ou qualquer o u t r o status. Além disso, n e n h u m a distinção deve ser feita c o m base n o status político, jurisdicional o u internacional d o país o u t e r r i t ó r i o a q u e u m a pessoa p e r t e n c e , seja ele t e r r i t ó r i o
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Artigo 8". Todo ser h u m a n o t e m direito a receber, dos t r i b u nais nacionais c o m p e t e n t e s , u m a reparação efetiva para atos q u e violem os direitos f u n d a m e n t a i s a ele concedidos pela constituição o u pela lei. Artigo 9". N i n g u é m deve ser s u b m e t i d o à prisão, à detenção o u ao exílio arbitrários. Artigo 10. Todo ser h u m a n o tem direito, em total igualdade, a u m a audiência justa e pública, p o r parte de u m tribunal i n d e p e n 231

dente e imparcial, para a d e t e r m i n a ç ã o de seus direitos e deveres e de q u a l q u e r acusação criminal contra a sua pessoa.

(2) N i n g u é m deve ser arbitrariamente d e s t i t u í d o de sua nacionalidade, n e m lhe será n e g a d o o direito de m u d a r d e nacionalidade. Artigo 16. (1) Os h o m e n s e mulheres a d u l t o s , sem q u a l q u e r restrição de raça, nacionalidade ou religião, t ê m o direito de casar e fundar u m a família, fazendo jus a direitos iguais e m relação ao casamento, d u r a n t e o c a s a m e n t o e n a sua dissolução. (2) O c a s a m e n t o deve ser realizado s o m e n t e c o m o livre e pleno c o n s e n t i m e n t o dos futuros cônjuges. (3) A família é a u n i d a d e de g r u p o n a t u r a l e f u n d a m e n t a l d a sociedade e t e m direito à proteção da sociedade e d o Estado. Artigo 17.(1) Todo ser h u m a n o tem direito à p r o p r i e d a d e , só o u e m sociedade c o m o u t r o s . (2) N i n g u é m deve ser arbitrariamente d e s t i t u í d o de sua p r o priedade.

Artigo 11.(1)

Todo ser h u m a n o a c u s a d o d e u m delito t e m

direito à p r e s u n ç ã o de inocência até q u e seja provada a sua culpa de acordo c o m a lei, n u m j u l g a m e n t o público e m q u e lhe t e n h a m sido asseguradas todas as garantias necessárias p a r a a sua defesa. (2) N i n g u é m deve ser considerado culpado p o r q u a l q u e r ato o u omissão q u e n ã o constituía delito p e r a n t e o direito nacional o u internacional n a época e m q u e foi cometido. T a m p o u c o deve ser imposta u m a p e n a mais pesada d o q u e a aplicável n a época e m q u e o delito foi c o m e t i d o .

Artigo 12. N i n g u é m deve ser sujeito a interferências arbitrárias na sua privacidade, família, lar o u correspondência, n e m a ataques à sua h o n r a e reputação. Todo ser h u m a n o t e m direito à p r o teção da lei contra tais interferências o u ataques.

Artigo 18. Todo ser h u m a n o t e m direito à liberdade de p e n s a m e n t o , consciência e religião; este direito i n c l u i a l i b e r d a d e d e m u d a r de religião ou crença, e a liberdade de manifestar a sua religião o u crença pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, s o z i n h o o u e m c o m u n i d a d e c o m o u t r o s , e m p ú b l i c o ou e m privado.

Artigo 13. (1) Todo ser h u m a n o t e m o direito à liberdade de l o c o m o ç ã o e residência d e n t r o das fronteiras de cada Estado. (2) Todo ser h u m a n o t e m o direito de sair de q u a l q u e r país, inclusive d o seu p r ó p r i o , e de retornar ao seu país.

Artigo 14.(1) Todo ser h u m a n o vítima de perseguição t e m o direito de p r o c u r a r e receber asilo e m outros países. (2) Este direito n ã o p o d e ser invocado n o caso de u m a perseguição l e g i t i m a m e n t e m o t i v a d a p o r crimes n ã o políticos o u p o r atos contrários aos propósitos e princípios das Nações Unidas.

Artigo 19. Todo ser h u m a n o t e m direito à liberdade de o p i nião e expressão; este direito inclui a liberdade de ter opiniões s e m quaisquer interferências e d e p r o c u r a r , receber e transmitir informações e ideias p o r q u a l q u e r m e i o de c o m u n i c a ç ã o e i n d e p e n d e n t e m e n t e de fronteiras.

Artigo 15.(1) Todo ser h u m a n o t e m direito a u m a nacionalidade.
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Artigo 20.(1) Todo ser h u m a n o t e m direito à liberdade de r e u nião e associação pacíficas.
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(2) N i n g u é m p o d e ser obrigado a pertencer a u m a associação. Artigo 21.(1) Todo ser h u m a n o t e m o direito de participar d o governo de seu país, d i r e t a m e n t e ou p o r m e i o de representantes livremente escolhidos. (2) Todo ser h u m a n o t e m igual direito de acesso ao serviço público n o seu país. (3) A v o n t a d e d o p o v o deve ser a b a s e d a a u t o r i d a d e d o governo; esta v o n t a d e deve ser expressa e m eleições periódicas e l e g í t i m a s , p o r sufrágio u n i v e r s a l e igual, realizadas p o r v o t o secreto o u p o r p r o c e d i m e n t o equivalente q u e assegure a liberd a d e de voto. Artigo 22. Todo ser h u m a n o , c o m o m e m b r o da sociedade, t e m direito à segurança social e à realização, p o r m e i o de esforço nacional e cooperação internacional e de acordo c o m a organização e os recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua d i g n i d a d e e ao livre desenvolvim e n t o da sua personalidade.

Artigo 24. Todo ser h u m a n o t e m direito ao descanso e ao lazer, inclusive a u m a limitação razoável das h o r a s d e t r a b a l h o e a férias periódicas r e m u n e r a d a s .

Artigo 25.(1) Todo ser h u m a n o tem direito a u m p a d r ã o de vida que lhe assegure, para si m e s m o e para sua família, saúde e bem-estar, incluindo alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, b e m c o m o o direito à segurança e m caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice o u perda dos meios de subsistência e m circunstâncias fora de seu controle. (2) A m a t e r n i d a d e e a infância t ê m direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças, nascidas d e n t r o o u fora d o casam e n t o , devem ter a m e s m a proteção social. Artigo 26.(1) Todo ser h u m a n o t e m direito à educação. A e d u cação deve ser gratuita, ao m e n o s nos estágios elementares e fund a m e n t a i s . A educação elementar deve ser obrigatória. A educação técnica e profissional deve ser colocada à disposição d e t o d o s , e a educação superior deve ser igualmente acessível a t o d o s c o m base n o mérito.

Artigo 23.(1) Todo ser h u m a n o t e m direito ao trabalho, à livre escolha d o emprego, a condições justas e satisfatórias d e trabalho e à proteção contra o desemprego. (2) Todo ser h u m a n o , sem q u a l q u e r distinção, t e m direito a p a g a m e n t o igual para trabalho igual. (3) Todo ser h u m a n o q u e trabalha t e m direito a u m a r e m u neração justa e satisfatória q u e assegure p a r a si m e s m o e p a r a sua família u m a existência à altura da dignidade h u m a n a , s u p l e m e n tada, se necessário, p o r o u t r o s meios de proteção social. (4) Todo ser h u m a n o t e m o direito de organizar sindicatos e deles participar para a proteção de seus interesses.

(2) A educação deve ser o r i e n t a d a p a r a o pleno desenvolvim e n t o da personalidade h u m a n a e para o fortalecimento d o resp e i t o p e l o s direitos h u m a n o s e l i b e r d a d e s f u n d a m e n t a i s . Deve p r o m o v e r a c o m p r e e n s ã o , a tolerância e a amizade entre todas as nações e g r u p o s raciais o u religiosos, e deve fomentar as atividades das Nações Unidas para a m a n u t e n ç ã o da paz. (3) Os pais t ê m o direito prioritário de escolher o tipo de e d u cação q u e será d a d o a seus filhos.

Artigo 27. (1) Todo ser h u m a n o t e m o direito de p a r t i c i p a r livremente n a vida cultural da c o m u n i d a d e , apreciar as artes e p a r ticipar d o progresso científico e seus benefícios.
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234

(2) T o d o ser h u m a n o t e m direito à p r o t e ç ã o dos interesses morais e materiais q u e resultem de q u a l q u e r p r o d u ç ã o científica, literária o u artística de sua autoria. Artigo 28. Todo ser h u m a n o t e m direito a u m a o r d e m social e internacional e m q u e os direitos e liberdades estabelecidos nesta Declaração p o s s a m ser p l e n a m e n t e realizados. Artigo 29.(1) lidade é possível. (2) N o exercício d e seus direitos e l i b e r d a d e s , t o d o ser h u m a n o deve estar sujeito apenas às limitações d e t e r m i n a d a s pela lei exclusivamente c o m o p r o p ó s i t o d e assegurar o d e v i d o recon h e c i m e n t o e respeito pelos direitos e liberdades dos outros e de satisfazer as j u s t a s exigências d a m o r a l , da o r d e m p ú b l i c a e d o bem-estar geral de u m a sociedade democrática. (3) Estes direitos e liberdades n ã o p o d e m ser exercidos, e m h i p ó t e s e a l g u m a , c o n t r a os p r o p ó s i t o s e p r i n c í p i o s das N a ç õ e s Unidas. Artigo 30. N a d a nesta Declaração p o d e ser i n t e r p r e t a d o de m a n e i r a a implicar que q u a l q u e r Estado, g r u p o o u pessoa t e m o direito de se envolver e m q u a l q u e r atividade ou executar q u a l q u e r ato destinado à destruição de q u a l q u e r u m dos direitos e liberdades aqui estabelecidos. Todo ser h u m a n o t e m deveres p a r a c o m a co-

Notas

m u n i d a d e e m q u e o livre e pleno desenvolvimento da sua p e r s o n a -

I N T R O D U Ç Ã O

[ P P .

13-33]
Jefferson, 31 vols. ( P r i n c e t o n :

1. Julian P. Boyd, ed., The Papers of Thomas

P r i n c e t o n U n i v e r s i t y Press, 1950- ),vol. 1 ( 1 7 6 0 - 6 6 ) , esp. p . 4 2 3 , m a s ver t a m b é m pp. 309-433. 2. D. O . T h o m a s , ed., Political Writings/ Richard Price ( C a m b r i d g e / N o v a

York: C a m b r i d g e U n i v e r s i t y Press, 1991 ) , p . 195. C i t a ç ã o d e B u r k e t i r a d a d o p a r á grafo 144, d i s p o n í v e l o n - l i n e e m < w w w . b a r t l e b y . c o m / 2 4 / 3 / 6 . h t m l > : on the French Revolution, Reflections

vol. xxiv, p a r t e 3 ( N o v a York: P. F. Collier & S o n , 1909sobre a revolução em França,

-14; B a r t e b l y . c o m , 2 0 0 1 ) . [Ed. brasileira: Reflexões

t r a d . R e n a t o d e A s s u m p ç ã o Faria (Brasília: U N B , 1997).] 3. J a c q u e s M a r i t a i n , u m d o s líderes d o C o m i t é d a
U N E S C O

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York: R a n d o m H o u s e , 2 0 0 1 ) , p . 77. S o b r e a D e c l a r a ç ã o A m e r i c a n a , ver P a u l i n e Maier, American Scripture: Making the Declaration of Independence ( N o v a York:

Fonte: M a r y A n n G l e n d o n , A World Made New: Eleanor Rooseveltand the Universal Declaration ofHuman Rights (Nova York: R a n d o m H o u s e , 2 0 0 1 ) , p p . 310-4; < w w w . u n . o r g / O v e r v i e w / rights.html>.

Alfred A. Knopf, 1997), p p . 2 3 6 - 4 1 . 4. S o b r e a d i f e r e n ç a e n t r e a D e c l a r a ç ã o d e I n d e p e n d ê n c i a a m e r i c a n a e a D e c l a r a ç ã o d o s D i r e i t o s inglesa d e 1689, ver M i c h a e l P. Z u c k e r t , Natural and the New Republicanism pp. 3-25. 5. A citação d e Jefferson é t i r a d a d e A n d r e w A. L i p s c o m b e Albert F.. Bergh, Rights

( P r i n c e t o n : P r i n c e t o n U n i v e r s i t y Press, 1994), esp.

236

237

eds., The Writings

of Thomas Jefferson, 20 vols. ( W a s h i n g t o n , D.C.: T h o m a s Jeffer-

B u r l a m a q u i , q u e o u s o u n o s u m á r i o d e Principes maqui, Conseiller d'État, et ci-devant Professeur

du droit naturel en droit naturel

par /. /. et civil à

BurlaGenève

s o n M e m o r i a l A s s o c i a t i o n o f t h e U n i t e d States, 1903-4), vol. 3 , p . 4 2 1 . Fui c a p a z d e seguir o u s o d o s t e r m o s p o r Jefferson g r a ç a s a o site d e s u a s citações, c r i a d o p e l a biblioteca da Universidade de Virginia: <http://etext.lib.virginia.edu/jeffer-

( G e n e b r a : B a r r i l l o t et fils, 1 7 4 7 ) , p a r t e 1, c a p . v u , seção 4 ( " F o n d e m e n t g é n é r a l des D r o i t s d e l ' h o m m e " ) . A p a r e c e c o m o " d i r e i t o s d o h o m e m " n a t r a d u ç ã o i n g l e s a de N u g e n t ( L o n d r e s , 1748). R o u s s e a u d i s c u t e as ideias de B u r l a m a q u i s o b r e o droit naturelem s e u Discours sur l'origine complètes, et les fondements de l'inégalité parmi les hom-

s o n / q u o t a t i o n s > . H á m u i t o m a i s a ser feito s o b r e a q u e s t ã o d o s t e r m o s d o s direit o s h u m a n o s , e à m e d i d a q u e os b a n c o s de d a d o s o n - l i n e se e x p a n d e m e são refin a d o s essa p e s q u i s a se t o r n a m e n o s e m b a r a ç o s a . " D i r e i t o s h u m a n o s " é u s a d o d e s d e o s p r i m e i r o s a n o s d o século x v n i e m inglês, m a s a m a i o r i a d a s o c o r r ê n c i a s a p a r e c e f r e q u e n t e m e n t e e m conj u n ç ã o c o m religião, c o m o e m "direitos d i v i n o s e h u m a n o s " o u até " d i r e i t o d i v i n o d i v i n o " vs. " d i r e i t o d i v i n o h u m a n o " . Este ú l t i m o o c o r r e in M a t t h e w T i n d a l , The Rights of the Christian Romish, Church Asserted, against the

mes, 1 7 5 5 , Oeuvres

ed. B e r n a r d G a g n e b i n e M a r c e l R a y m o n d , 5 vols. sobre a

( P a r i s : G a l l i m a r d , 1 9 5 9 - 9 5 ) , vol. 3 ( 1 9 6 6 ) , p . 124. [Ed. b r a s i l e i r a : Discurso origem e os fundamentos Alegre:
L & P M ,

da desigualdade

entre os homens, t r a d . P a u l o N e v e s ( P o r t o secrets pour jusqu'à sernos secrets

2 0 0 8 ) . ] O r e l a t o s o b r e Manco é t i r a d o de Mémoires de la République

vir à l'histoire

des lettres en France, depuis MDCCIXII

and All Other Priests Who Claim an Independent

Power over It ( L o n d r e s , Procee-

jours, 3 6 v o l s . ( L o n d r e s : J. A d a m s o n , 1 7 8 4 - 9 ) , vol. 1, p. 2 3 0 . As Mémoires

1706), p . liv; o p r i m e i r o e m , p o r e x e m p l o , A Compleat dings of the Parliament 1710), p p . 8 4 e 8 7 . of Great Britain

History of the Whole Sacheverell

c o b r i a m o s a n o s 1762-87. S e m ser o b r a d e u m ú n i c o autor ( L o u i s Petit d e B a c h a u m o n t m o r r e u e m 1771), m a s p r o v a v e l m e n t e d e vários, as " m e m ó r i a s " i n c l u í a m resenhas de livros, panfletos, peças teatrais, concertos musicais, exposições de a r t e e casos s e n s a c i o n a i s n o s t r i b u n a i s — v e r J e r e m y D. P o p k i n e B e r n a d e t t e F o r t , The M é m o i r e s secrets and the Culture of Publicity in Eighteenth-Century France

against Dr. Henry

(Londres,

6. A l i n g u a g e m d o s direitos h u m a n o s é t r a ç a d a m u i t o facilmente e m francês graças ao Project for A m e r i c a n a n d F r e n c h Research o n t h e T r e a s u r y o f t h e French Language ( A R T F L ) , u m b a n c o d e d a d o s o n - l i n e de u n s 2 mil textos franceses d o s séculos
XIII

( O x f o r d : Voltaire F o u n d a t i o n , 1998), e L o u i s A. Oliver, " B a c h a u m o n t t h e C h r o nicler: A Q u e s t i o n a b l e R e n o w n " , in Studies on Voltaire and the Eighteenth Century,

ao

XX. ARTFL

inclui a p e n a s u m a seleção d e textos escritos e m francês, e favo-

rece a l i t e r a t u r a e m d e t r i m e n t o d e o u t r a s categorias. E n c o n t r a - s e u m a descrição d o recurso e m <http://humanities.uchicago.edu/orgs/ARTFL/artfl.flyer.html>. Nicolas Lenglet-Dufresnoy, De l'usage des romans. Où l'on fait voir leur utilité et leurs différents caractères. Avec une bibliothèque des romans, accompagnée de remarques cri-

v o l . 143 ( V o l t a i r e F o u n d a t i o n : B a n b u r y , O x f o r d , 1975), p p . 1 6 1 - 7 9 . C o m o o s v o l u m e s foram publicados depois das datas q u e pretendiam cobrir, n ã o p o d e m o s t e r a b s o l u t a certeza d e q u e o u s o d e " d i r e i t o s d o h o m e m " fosse t ã o c o m u m e m 1763 q u a n t o o a u t o r s u p õ e . N o p r i m e i r o a t o , c e n a I I , M a n c o recita: " N a s c i d o s , c o m o eles, n a floresta, m a s r á p i d o s e m n o s c o n h e c e r / E x i g i n d o t a n t o o t í t u l o c o m o os d i r e i t o s d e n o s s o ser/ L e m b r a m o s a s e u s corações s u r p r e s o s / T a n t o este t í t u l o c o m o estes d i r e i t o s h á t a n t o t e m p o p r o f a n a d o s " — A n t o i n e Le B l a n c d e Guillet, Manco-Capac, premier Ynca Du Pérou, Tragédie, Représentée pour lapre-

tiques sur leurs choix et leurs éditions ( A m s t e r d a m : Vve d e Poilras, 1734; G e n e b r a : Slatkine R e p r i n t s , 1970),p. 245. Voltaire, Essay sur l'histoire générale et sur les moeurs et l'esprit des nations, depuis Charlemagne jusqu'à um nos jours ( G e n e b r a : C r a m e r ,
C D - R O M

1756), p . 292. C o n s u l t a n d o Voltaire électronique, coligidas d e Voltaire, e n c o n t r e i droit humain

pesquisável das o b r a s no

u s a d o sete vezes ( droits humains,

mière fois par les Comédiens 1 7 8 2 ) , p . 4.

François ordinaires

du Roi, le 12 Juin 1763 ( P a r i s : Belin,

plural, n u n c a ) , q u a t r o delas n o Tratado sobre a tolerância e u m a vez e m três o u t r a s obras. Em
ARTFL

a expressão aparece u m a vez in L o u i s - F r a n ç o i s R a m o n d , lettres

de

9. " D i r e i t o s d o h o m e m " a p a r e c e u m a vez in W i l l i a m B l a c k s t o n e , taries on the Laws ofEngland,

Commen-

W. Coxe à W. Melmoth

(Paris: Belin, 1 7 8 1 ) , p . 9 5 , m a s n o c o n t e x t o significa lei

4 vols. ( O x f o r d , 1 7 6 5 - 9 ) , v o l . 1 ( 1 7 6 5 ) , p . 1 2 1 . 0 p r i -

h u m a n a e m o p o s i ç ã o à lei divina. A função d e b u s c a d o Voltaire e l e t r ô n i c o t o r n a v i r t u a l m e n t e impossível d e t e r m i n a r c o m r a p i d e z se Voltaire u s o u droits de o u droits de l'humanité em
!

m e i r o u s o q u e e n c o n t r e i e m inglês está e m J o h n Perceval, Earl of E g m o n t , A Full and Fair Discussion mental of the Pretensions of the Dissenters, to the Repeal of the Sacra-

l'homme

q u a l q u e r u m a de suas o b r a s (a b u s c a só indica as m i l h a por exemplo, na mesma obra, e não n u m a
ARTFL).

Test ( L o n d r e s , 1 7 3 3 ) , p . 1 4 . A p a r e c e t a m b é m n a " e p í s t o l a p o é t i c a " d e 1 7 7 3 ,

res d e referências a droits e homme, expressão consecutiva, e m c o n t r a s t e a 7.
ARTFL

The Dying Negro, e n u m t r a t a d o a n t e r i o r d o l í d e r abolicionista G r a n v i l l e S h a r p , A Declaration of the People's Natural Right to a Share in the Legislature... (Londres,

d á a citação c o m o s e n d o d e J a c q u e s - B é n i g n e B o s s u e t , ( 1704, Paris: V r i n , 1966), p . 4 8 4 .

Méditations

1774), p . xxv. E n c o n t r e i esses d a d o s u s a n d o o s e r v i ç o o n - l i n e de T h o m s o n Galé, E i g h t e e n t h C e n t u r y Collections O n l i n e , e sou g r a t a a Jenna G i b b s - B o y e r pela ajuda nessa pesquisa. A citação de C o n d o r c e t está e m Marie Louise S o p h i e de

sur l'Évangile

8. R o u s s e a u p o d e ter t o m a d o o t e r m o "direitos d o h o m e m " d e J e a n - J a c q u e s

238

239

G r o u c h y , m a r q u e s a d e C o n d o r c e t , ed., Oeuvres complètes

de Condorcet,

21 vols.

Philosophy A invenção

( C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n i v e r s i t y Press, 1998), p . 4. [Ed. brasileira: da autonomia: uma história da filosofia moral moderna, t r a d . M a g d a

( B r u n s w i c k / P a r i s : V i e w e g H e n r i c h s , 1 8 0 4 ) , vol. X I , p p . 2 4 0 - 2 , 2 4 9 , 2 5 1 . Sieyès u s o u o t e r m o droits de l'homme a p e n a s u m a vez: "Il n e faut p o i n t j u g e r d e ses

F r a n ç a L o p e s ( S ã o L e o p o l d o : U n i s i n o s , 2 0 0 1 ) . ] A a u t o n o m i a p a r e c e ser o elem e n t o crucial q u e falta n a s t e o r i a s d a lei n a t u r a l até m e a d o s d o século X V I I I . C o m o a r g u m e n t a H a a k o n s s e n , " S e g u n d o a m a i o r i a d o s a d v o g a d o s da lei n a t u r a l n o s séculos x v n e xviii, a a ç ã o m o r a l consistia e m estar sujeito à lei n a t u r a l e c u m p r i r o s d e v e r e s i m p o s t o s p o r essa lei, e n q u a n t o o s d i r e i t o s e r a m d e r i v a d o s , s e n d o meros meios para o c u m p r i m e n t o dos deveres" — K n u d Haakonssen, Law and Moral Philosophy: From Grotius to the Scottish Enlightenment Natural (Cam-

d e m a n d e s p a r les o b s e r v a t i o n s isolées d e q u e l q u e s a u t e u r s p l u s o u m o i n s i n s t r u i t s d e s d r o i t s d e l ' h o m m e " [ N ã o se d e v e j u l g a r s u a s [ d o T e r c e i r o E s t a d o ] d e m a n d a s pelas o b s e r v a ç õ e s isoladas d e a l g u n s a u t o r e s m a i s o u m e n o s c o n h e c e d o r e s d o s d i r e i t o s d o h o m e m ] — E m m a n u e l Sieyès, Le Tiers-État (1789; Paris: E.

C h a m p i o n , 1888), p . 36. N a s u a c a r t a a James M a d i s o n escrita e m Paris e m 12 d e J a n e i r o d e 1 7 8 9 , T h o m a s Jefferson e n v i o u o r a s c u n h o d a d e c l a r a ç ã o feito p o r Lafayette. O s e g u n d o p a r á g r a f o c o m e ç a v a : "Les d r o i t s d e l ' h o m m e a s s u r e n t sa p r o p r i é t é , sa l i b e r t é , s o n h o n n e u r , sa vie" [Os d i r e i t o s d o h o m e m a s s e g u r a m s u a p r o p r i e d a d e , s u a l i b e r d a d e , s u a h o n r a , s u a v i d a ] —Jefferson Papers, vol. 14,p. 4 3 8 .

b r i d g e : C a m b r i d g e U n i v e r s i t y Press, 1996), p . 6. A esse respeito, B u r l a m a q u i , q u e t a n t o i n f l u e n c i o u o s a m e r i c a n o s n a s d é c a d a s d e 1760 e 1770, p o d e m u i t o b e m m a r c a r u m a t r a n s i ç ã o i m p o r t a n t e . B u r l a m a q u i insiste q u e os h o m e n s estão s u b m e t i d o s a u m p o d e r s u p e r i o r , m a s q u e esse p o d e r d e v e e s t a r de a c o r d o c o m a n a t u r e z a i n t e r i o r d o h o m e m : " P a r a q u e regule as ações h u m a n a s , a lei deve estar a b s o l u t a m e n t e de acordo c o m a natureza e a constituição do h o m e m , relacion a d a , e n f i m , c o m a s u a felicidade, q u e é a q u i l o q u e a r a z ã o o leva n e c e s s a r i a m e n l e a b u s c a r " — B u r l a m a q u i , Príncipes, p . 89. S o b r e a i m p o r t â n c i a geral d a a u t o n o Making

O r a s c u n h o d e C o n d o r c e t data de u m p o u c o antes da a b e r t u r a dos Estados- G e r a i s e m 5 d e m a i o d e 1789, in I a i n M c L e a n e F i o n a H e w i t t , eds., Foundations of Social Choice and Political Theory Condorcet:

(Aldershot, Hants: Edward

Elgar, 1994), p . 57; ver p p . 2 5 5 - 7 0 s o b r e o r a s c u n h o d a d e c l a r a ç ã o " d o s direitos", e m q u e a p a r e c e a e x p r e s s ã o "direitos d o h o m e m " , e m b o r a n ã o n o t í t u l o . Ver os text o s d o s v á r i o s p r o j e t o s p a r a u m a d e c l a r a ç ã o in A n t o i n e d e B a e c q u e , ed., L'An droits de l'homme (Paris: Presses d u
CNRS,

Ides

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1988). vol. 1, p . 1 2 1 . P. H .

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d ' H o l b a c h , Système de la Nature ( 1770; L o n d r e s , 1771 ), p . 336. H . C o m t e d e M i r a b e a u , Lettres écrites du donjon (1780; Paris, 1792), p . 4 1 . 11. C i t a d o in Lynn H u n t , ed., The French Revolution Brief Documentary History(Boston: and Human Rights: A

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12. D e n i s D i d e r o t e Jean le R o n d d ' A l e m b e r t , eds., Encyclopédie naire raisonné

des sciences, des arts et des métiers, 17 vols. (Paris, 1 7 5 1 - 8 0 ) , vol. 5

( 1 7 5 5 ) , p p . 115-6. Esse v o l u m e i n c l u i dois artigos diferentes s o b r e " D r o i t N a t u rel". O p r i m e i r o é i n t i t u l a d o " D r o i t N a t u r e l ( M o r a l e ) ", p p . 115-6, e c o m e ç a c o m o asterisco editorial característico de Diderot (assinalando a sua autoria); o s e g u n d o é i n t i t u l a d o " D r o i t d e la n a t u r e , o u D r o i t naturel", p p . 131 - 4 , e é a s s i n a d o "A" ( A n t o i n e - G a s p a r d B o u c h e r d ' A r g i s ) . A i n f o r m a ç ã o s o b r e a a u t o r i a v e m d e J o h n L o u g h , " T h e C o n t r i b u t o r s t o t h e Encyclopédie", ter E. Rex, Inventory in R i c h a r d N . S c h w a b e W a l of the Plates, with

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outre ce qui a été publié à diverses époques les fragments

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à Paris, 16 vols. (Paris: G a r n i e r , 1877-82, N e n d e l n , Lich-

t e n s t e i n : K r a u s , 1968), p p . 25 e 248 (25 d e j a n e i r o d e 1751 e 1 5 d e j u n h o d e 1753). O a b a d e G u i l l a u m e T h o m a s Raynal foi o a u t o r d o p r i m e i r o e F r i e d r i c h M e l c h i o r G r i m m m u i t o p r o v a v e l m e n t e escreveu o s e g u n d o . 13. R i c h a r d s o n n ã o r e t r i b u i u o elogio d e R o u s s e a u : ele afirmava ter a c h a d o i m p o s s í v e l 1er

N o u v e l l e H é l o ï s e (1731-1761)

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Wri-

• -is

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113: T h e o d o r e B e s t e r m a n , ed., Correspondence -December 1765, vol. 29 ( 1 9 7 3 ) : 346.

17. Ellen G. Miles, ed., The Portrait in Eighteenth

D E : U n i v e r s i t y of D e l a w a r e Press, 1993), p . 10. G e o r g e T. M . Shackelford e M a r y T a v e n e r H o l m e s , A Magic Mirror: The Portrait in France, ¡700-^00 (Houston:

1 1 . 0 e r u d i t o h o l a n d ê s P i e t e r S p i e r e n b u r g liga a m o d e r a ç ã o d a p u n i ç ã o à crescente e m p a t i a : "A m o r t e e o s o f r i m e n t o d e seres h u m a n o s e r a m e x p e r i m e n t a d o s c a d a vez m a i s c o m o d o l o r o s o s , só p o r q u e as o u t r a s p e s s o a s e r a m c a d a vez m a i s p e r c e b i d a s c o m o seres h u m a n o s s e m e l h a n t e s " — S p i e r e n b u r g , The tacle of Suffering: Executions Metropolis to the European and the Evolution Experience of Repression: From a Spec-

M u s e u m of t h e Fine Arts, 1986), p . 9. A citação d e W a l p o l e foi t i r a d a d e D e s m o n d Shawe-Taylor, The Georgians: Eighteenth-Century Portraiture and Society ( L o n -

dres: B a r r i e & Jenkins, 1990), p . 2 7 . 18. Lettres sur les peintures, sculptures et gravures de Mrs. de I'Academie MDCCLXXIX

Preindustrial

( C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n i v e r s i t y Press, c i t a ç õ e s p p . 4 3 , 107 e 112.

Royale, exposées au Sallon du Louvre, depuis MDCCLXVI1jusqu'en

1 9 8 4 ) , p . 185. B e c c a r i a , Crimes

and Punishments,

( L o n d r e s : J o h n A d a m s o n , 1780), p . 51 (Salon de 1769). Ver t a m b é m Rémy G. Saisselin, Style, Truth and the Portrait (Cleveland: C l e v e l a n d M u s e u m of Art, 1 9 6 3 ) , esp. p . 27. As r e c l a m a ç õ e s q u a n t o à a r t e d o r e t r a t o e aos "tableaux c o n t i n u a r a m n a d é c a d a d e 1770 — L e t t r e s sur les peintures, a r t i g o d e J a u c o u r t p o d e ser e n c o n t r a d o e m Encyclopedic dessciences, des arts et desmétiers,\lvols. du petit genre"

Blackstone t a m b é m d e f e n d i a p u n i ç õ e s p r o p o r c i o n a i s a o s c r i m e s e l a m e n t a v a o grande n ú m e r o de crimes punidos c o m a pena de m o r t e na I n g l a t e r r a — W i l l i a m Blackstone, Commentaries on the Laws of England, 4 vols., 8 e d . ( O x f o r d : C l a r e n 1

p p . 76, 2 1 2 , 2 2 9 . O raisonnc

d o n Press, 1778), vol. I V , p . 3. B l a c k s t o n e cita M o n t e s q u i e u e Beccaria n u m a n o t a nessa p á g i n a . S o b r e a influência d e Beccaria s o b r e B l a c k s t o n e , ver C o l e m a n P h i l -

ou dictionnaire

(Paris, 1751-80), vol. 13 (1765),p. 153. ( )

250

251

c o m e n t á r i o d e M e r c i e r d a d é c a d a d e 1780 é c i t a d o e m Shawe-Taylor, The gians,^. 21.

Geor-

28. St. J o h n , Letters from France, vol. I I : c a r t a d e 2 3 d e j u l h o d e 1 7 8 7 , p . 13. 2 9 . Crimes and Punishments, p p . 2 e 179.

19. S o b r e a i m p o r t â n c i a d a s r o u p a s e o i m p a c t o d o c o n s u m i s m o n a p i n t u r a d e r e t r a t o s n a s c o l ô n i a s b r i t â n i c a s d a A m é r i c a d o N o r t e , ver T. H . B r e e n , " T h e M e a n i n g o f ' L i k e n e s s ' : P o r t r a i t - P a i n t i n g in a n E i g h t e e n t h - C e n t u r y C o n s u m e r Society", in M i l e s , ed., The Portrait, p p . 3 7 - 6 0 . 2 0 . A n g e l a R o s e n t h a l , "She's G o t t h e L o o k ! E i g h t e e n t h - C e n t u r y F e m a l e P o r t r a i t P a i n t e r s a n d t h e P s y c h o l o g y of a P o t e n t i a l l y ' D a n g e r o u s E m p l o y m e n t ' " , in J o a n n a W o o d a l l , ed., Portraiture: Facing the Subject ( M a n c h e s t e r : M a n c h e s t e r

30. A r e s p e i t o d o s e s t u d o s d o século x v m s o b r e a d o r , v e r M a r g a r e t C . J a c o b e M i c h a e l J. Sauter, " W h y D i d H u m p h r y D a v y a n d A s s o c i a t e s N o t P u r s u e t h e P a i n - A l l e v i a t i n g Effects of N i t r o u s Oxide?", journal of the History of Medicine, 58

(abril d e 2 0 0 2 ) : 161-76. D a g g e c i t a d o i n M c G o w e n , " T h e B o d y a n d P u n i s h m e n t in E i g h t e e n t h - C e n t u r y England", p. 669. Sobre m u l t a s c o l o n i a i s , ver Preyer, " P e n a l Measures", p p . 3 5 0 - 1 . 3 1 . E d e n c i t a d o in M c G o w e n , " T h e B o d y a n d P u n i s h m e n t i n E i g h t e e n t h - C e n t u r y England", p. 670. A m i n h a análise segue a de M c G o w e n e m m u i t o s a s p e c t o s . B e n j a m i n R u s h , An Enquiry, ver esp. p p . 4 , 5 , 1 0 e 15. 32. U m a fonte essencial, n ã o só s o b r e o caso Calas m a s s o b r e a p r á t i c a d a t o r t u r a d e m o d o m a i s geral, é Lisa S i l v e r m a n , Tortured Subjects: Pain, Truth, and

U n i v e r s i t y P r e s s , 1 9 9 7 ) , p p . 1 4 7 - 6 6 ( c i t a ç ã o d e B o s w e l l p . 1 4 7 ) . Ver t a m b é m K a t h l e e n N i c h o l s o n , " T h e I d e o l o g y of F e m i n i n e ' V i r t u e ' : T h e Vestal V i r g i n in F r e n c h E i g h t e e n t h - C e n t u r y Allegorical P o r t r a i t u r e " , in i b i d , p p . 5 2 - 7 2 . D e n i s D i d e r o t , Oeuvres complètes de Diderot, revue sur les éditions originales, compre-

nant ce qui a été publié Bibliothèque mouvement

à diverses époques et les manuscrits notices, notes, table analytique.

inédits,

conservés à la et le

the Body in Early Modern France ( C h i c a g o : U n i v e r s i t y of C h i c a g o P r e s s , 2 0 0 1 ). Ver t a m b é m A l e x a n d r e - J é r ô m e Loyseau d e M a u l é o n , Mémoire pour Donat, Pierre et pour requêtes

de l'Ermitage, philosophique

Étude sur Diderot

au XVIII' siècle, par J. Assézat, 20 vols. (Paris: G a r n i e r , II, arts du des-

Louis Calas (Paris: Le B r e t o n , 1762), p p . 3 8 - 9 ; e Élie d e B e a u m o n t , Mémoire Dame Anne-Rose Cabibel, veuve Calas, et pour ses enfants sur le renvoi aux

1875-7; N e n d e l n , L i c h t e n s t e i n : K r a u s , 1966), vol. 11: Beaux-Arts sin {Salons), pp. 260-2. Journey,^p. 158 e 164.

de l'Hôtel au Souverain,

ordonné par arrêt du Conseil du 4 juin 1764 ( P a r i s : L. C e l -

2 1 . S t e r n e , A Sentimental

lot, 1765). Élie de B e a u m o n t r e p r e s e n t o u a família Calas p e r a n t e o C o n s e l h o Real. and S o b r e a p u b l i c a ç ã o desse t i p o d e p e t i ç ã o legal, ver S a r a h M a z a , Private Public Affairs: The C a u s e s C é l è b r e s ofPrerevolutionary sity of California Press, 1 9 9 3 ) , p p . 19-38. 3 3 . Alain C o r b i n , J e a n - J a c q u e s C o u r t i n e e G e o r g e s Vigarello, e d s . , du corps, 3. vols. (Paris: É d i t i o n s d u Seuil, 2 0 0 5 - 6 ) , vol. \\Dela Lumières ( 2 0 0 5 ) , p p . 3 0 6 - 9 . [Ed. brasileira: História Renaissance Histoire aux Lives and

22. H o w a r d C. Rice, Jr., "A ' N e w ' Likeness of T h o m a s Jefferson", William
a

Mary Quarterly, 3 série, vol. 6, l i 1 (janeiro de 1949) : 84-9. S o b r e o processo d e m o d o m a i s geral, ver Tony Halliday, Facing the Public: Portraiture French Revolution in the Aftermath of the

France ( B e r k e l e y : U n i v e r -

(Manchester: M a n c h e s t e r University Press, 1999), p p . 43-7.

23. M u y a r t n ã o pôs o seu n o m e n o s panfletos q u e d e f e n d i a m o cristian i s m o : Motifs de ma foi en Jésus-Christ, par un magistrat (Paris: Vve Hérissant, de certains

do corpo, 3 vols., t r a d . L ú c i a às Luzes.] Crimes and

1776) e Preuves de l'authenticité critiques modernes.

de nos évangiles, de

contre les assertions de Motifs

M . E. O r t h ( P e t r ó p o l i s : Vozes, 2 0 0 8 ) , vol. 1: Da Renascença Punishments, p p . 58 e 60.

Lettre à Madame

Par l'auteur

de ma foi en

Jésus-Christ

(Paris: D u r a n d et Belin, 1785). du Traité des délits et

3 4 . O Parlement

d e B u r g u n d y d e i x o u d e o r d e n a r a question

préparatoire

2 4 . P i e r r e - F r a n ç o i s M u y a r t d e V o u g l a n s , Réfutation peines, etc., i m p r e s s a n o final d e s e u Les Lois criminelles naturel (Paris: B e n o î t M o r i n , 1780), p p . 8 1 1 , 8 1 5 e 830. 2 5 . Ibid., p . 830. 26. S p i e r e n b u r g , The Spectacle of Sufferings. 27. A n o n . , Considerations on theDearness 53.

d e p o i s d e 1766, e o seu e m p r e g o d a p e n a d e m o r t e d e c l i n o u d e 1 3 - 1 4 , 5 % d e t o d a s as c o n d e n a ç õ e s c r i m i n a i s n a p r i m e i r a m e t a d e d o século xviu p a r a m e n o s d e 5 % e n t r e 1770 e 1789. O e m p r e g o d a question préparatoire, entretanto, aparente-

de France, dans leur ordre

m e n t e n ã o d i m i n u i u n a F r a n ç a — J a c o b s o n , " T h e P o l i t i c s of C r i m i n a l L a w Reform", p p . 3 6 - 4 7 . (Londres: Corin Life 3 5 . Crimes and Punishments, glans, Réfutation p p . 6 0 - 1 (ênfase n o o r i g i n a l ) . M u y a r t d e V o u -

of Corn and Provisions Letter-Writer;

J. A l m o n , 1767), p . 3 1 ; A n o n . , The Accomplished respondent. Containing Familiar

or, Universal Occasions

du Traité, p p . 8 2 4 - 6 .

Letters on the Most Common

36. Ver Venturi, ed., Cesare Beccaria, p p . 3 0 - 1 , a edição italiana definitiva d e 1766 (a ú l t i m a s u p e r v i s i o n a d a p e l o p r ó p r i o B e c c a r i a ) . O p a r á g r a f o a p a r e c e n o m e s m o lugar n a t r a d u ç ã o inglesa original, n o cap. 11. Sobre o e m p r e g o p o s t e r i o r d a o r d e m francesa, ver, p o r e x e m p l o , Dei delitti e delle pene. Edizione rivista, coretta, e

(Londres, 1779),pp. 1 4 8 - 5 0 . D o n n a T . A n d r e w e R a n d a l l M c G o w e n , and Mrs. Rudd: Forgery and Betrayal in Eighteenth-Century London

ThePerreaus (Berkeley:

U n i v e r s i t y of California Press, 2001 ), p . 9.

252

253

disposta secondo Fordine delia traduzionefrancese

approvato

dall'autore

(Londres:

4 4 . M a z a , Private Lives and Public Affairs, p . 2 5 3 . J a c o b s o n , " T h e Politics of C r i m i n a l Law Reform", p p . 3 6 0 - 1 . 4 5 . J o u r d a n , ed., Recueil general des anciennes M u y a r t d e V o u g l a n s , Les Loix criminelles, lois françaises, vol. 28, p . 5 2 8 .

Presso la Società dei Filosofi, 1774), p . 4. S e g u n d o Luigi Firpo, essa edição foi n a verd a d e p u b l i c a d a p o r Coltellini e m L i v o r n o — Luigi Firpo, " C o n t r i b u t o alia bibliografia dei Beccaria. (Le edizioni italiane settecentesche del Dei delitti e in Atti del convegno internazionale dellepene)",

p . 7 9 6 . N o ranking

da frequência dos

su Cesare Beccaria, p p . 3 2 9 - 4 5 3 , esp. p p . 378-9.

a s s u n t o s p o r d o c u m e n t o (1 s e n d o o g r a u m a i s alto, 1125 o m a i s b a i x o ) , o c ó d i g o c r i m i n a l teve 70,5 p a r a o Terceiro E s t a d o , 27,5 p a r a a N o b r e z a e 3 3 7 p a r a as P a r ó q u i a s ; o p r o c e s s o legal teve 3 4 p a r a o Terceiro E s t a d o , 77,5 p a r a a N o b r e z a e 15 p a r a as P a r ó q u i a s ; a a c u s a ç ã o e as p e n a l i d a d e s c r i m i n a i s t i v e r a m 60,5 p a r a o Terceiro E s t a d o , 76 p a r a a N o b r e z a e 171 p a r a as P a r ó q u i a s ; e as p e n a l i d a d e s pela lei c r i m i n a l t i v e r a m 41,5 p a r a o Terceiro E s t a d o , 213,5 p a r a a N o b r e z a e 340 p a r a as P a r ó q u i a s . As d u a s f o r m a s d e t o r t u r a j u d i c i a l m e n t e s a n c i o n a d a s n ã o c h e g a r a m a ter g r a u s a s s i m t ã o e l e v a d o s , p o r q u e a " q u e s t ã o p r e p a r a t ó r i a " já t i n h a s i d o definit i v a m e n t e e l i m i n a d a e a " q u e s t ã o p r e l i m i n a r " fora t a m b é m p r o v i s o r i a m e n t e a b o lida. O ranking d o s a s s u n t o s é t i r a d o d e G i l b e r t S a p h i r o e J o h n Markoff, tionary Demands: A Content Analysis Revolu1789

37. A p r i m e i r a o b r a francesa a b e r t a m e n t e crítica ao e m p r e g o judicial d a tort u r a a pareceu e m 1682 e foi escrita p o r u m i m p o r t a n t e m a g i s t r a d o n o Parlement de

Dijon, A u g u s t i n Nicolas; o seu a r g u m e n t o era c o n t r a o uso d a t o r t u r a e m j u l g a m e n tos d e f e i t i ç a r i a — S i l v e r m a n , Tortured Subjects, p . 1 6 1 . 0 e s t u d o m a i s c o m p l e t o das várias edições italianas de Beccaria p o d e ser e n c o n t r a d o e m Firpo, " C o n t r i b u t o alia bibliografia de Beccaria", p p . 3 2 9 - 4 5 3 . S o b r e a t r a d u ç ã o inglesa e p a r a o u t r a s línguas, ver Marcello M a e s t r o , Cesare Beccaria and the Origins of Penal Reform (Philadelphia:

Temple University Press, 1973), p. 43. S u p l e m e n t e i a sua c o n t a g e m das edições d e líng u a inglesa c o m o English S h o r t T i d e Catalogue. Crimes and Punishments, p . iii. politi-

38. V e n t u r i , ed., Cesar Beccaria, p . 4 9 6 . 0 t e x t o a p a r e c e u e m Annales ques et littéraires 5 ( 1779), d e Linguet. 39. Encyclopédie ou dictionnaire raisonné des sciences, des arts et des

of the C a h i e r s d e D o l é a n c e s of

métiers,

( S t a n f o r d : S t a n f o r d U n i v e r s i t y Press, 1998), p p . 4 3 8 - 7 4 . 4 6 . R u s h , An Enquiry, p p . 13 e 6 - 7 . esp. p p . 3 7 - 8 . Body and Emotion in

17 vols. (Paris, 1751 - 8 0 ) , vol. 13 ( 1765), p p . 7 0 2 - 4 . J a c o b s o n , " T h e Politics of C r i m i n a l Law Reform", p p . 2 9 5 - 6 . 4 0 . J a c o b s o n , " T h e Politics of C r i m i n a l Law Reform", p . 316. V e n t u r i , ed., Cesare Beccaria, p . 5 1 7 . J o s e p h - M i c h e l - A n t o i n e S e r v a n , Discours sur le progrès connoissances humaines en général, de la morale, et de la législation en des

4 7 . M u y a r t d e V o u g l a n s , Les Loix criminelles,

4 8 . A n t ó n i o D a m á s i o , The Feeling of What Happens: the Making of Consciousness

( S a n D i e g o : H a r c o u r t , 1999) [ed. brasileira: O

misté-

particulier

rio da consciência:

do corpo e das emoções ao conhecimento

de si, t r a d . L a u r a TeiJoy,

(n. p., 1781),p. 99 4 1 . T e n h o u m a o p i n i ã o m a i s favorável d o s escritos s o b r e lei c r i m i n a l d e Brissot d o q u e R o b e r t D a r n t o n . Ver, p o r e x e m p l o , George Washington's Unconventional Guide to the Eighteenth Century False Teeth: An

xeira M o t t a (São P a u l o : C o m p a n h i a d a s Letras, 2000) ], e Looking for Spinoza: Sorrow,

and the Feeling Brain ( S a n D i e g o : H a r c o u r t , 2 0 0 3 ) [ed. b r a s i l e i r a : Em t r a d . João Baptista d a

busca de Espinosa: prazer e dor na ciência dos sentimentos,

( N o v a York: W . W . N o r t o n , 2 0 0 3 ) , t r a d . José G e r a l d o

C o s t a A g u i a r (São P a u l o : C o m p a n h i a d a s Letras, 2 0 0 4 ) ] . A n n T h o m s o n , " M a t e rialistic T h e o r i e s of M i n d a n d Brain", in W o l f g a n g Lefèvre, ed., Between Newton, and Kant: Philosophy and Science in the Eighteenth Century Leibniz,

esp. p . 165. [Ed. brasileira: Os dentes falsos de George Washington,

C o u t o (São P a u l o : C o m p a n h i a das Letras, 2005).] As citações d e Brissot s ã o t i r a das d e Théorie des lois criminelles, 2 vols. (Paris: J. P. Aillaud, 1836), vol. 1, p p 6-7.

(Dordrecht:

Kluwer Academic Publishers, 2001), p p . 149-73. 4 9 . Jessica Riskin, Science in the Age of Sensibility: cists of the French Enlightenment The Sentimental Empiri-

4 2 . Essas estratégias r e t ó r i c a s s ã o a n a l i s a d a s e m p r o f u n d i d a d e e m M a z a , Private Lives and Public Affairs. Q u a n d o Brissot p u b l i c o u o seu Théorie des lois criminelles ( 1 7 8 1 ) , escrito o r i g i n a l m e n t e p a r a u m c o n c u r s o d e e n s a i o s e m B e r n a ,

( C h i c a g o : U n i v e r s i t y of C h i c a g o Press, 2 0 0 2 ) , Journey, p . 117.

c i t a ç ã o d e B o n n e t , p . 5 1 . S t e r n e , A Sentimental 5 0 . R u s h , An Enquiry, p . 7.

D u p a t y lhe escreveu c o m o i n t u i t o d e c e l e b r a r o esforço d e a m b o s " p a r a fazer a v e r d a d e , e c o m ela a h u m a n i d a d e , triunfar". A c a r t a foi r e i m p r e s s a n a e d i ç ã o d e 1836, Théorie des lois criminelles, v o l . 1, p . vi. [ C h a r l e s - M a r g u e r i t e D u p a t y ] , condamnés àla roue (Paris: P h i l i p p e - D e n y s

Mémoire justificatif

pour trois hommes

3.

" E L E S

D E R A M

U M

G R A N D E

E X E M P L O "

[ P P .

113"45]
Dictionnaires

P i e r r e s , 1786), p . 2 2 1 . 4 3 . D u p a t y , Mémoire justificatif, p p . 226 e 2 4 0 . L'Humanité aparece muitas 1. O s i g n i f i c a d o d e " d e c l a r a ç ã o " p o d e ser p e s q u i s a d o i n d'autrefois, função de
ARTFI.

vezes n a p e t i ç ã o e e m v i r t u a l m e n t e t o d o p a r á g r a f o n a s ú l t i m a s p á g i n a s .

e m <www.lib.uchicago.edu/efts/ARTFl./projci:ts/

254

2 5 5

d i c o s X O t í t u l o oficial d a Bill ofRights

inglesa d e 1689 era " U m a Lei D e c l a r a n d o

la N a t u r e u n e L i b e r t é 8c u n e i n d é p e n d a n c e , qu'ils n e p e u v e n t p e r d r e q u e p a r l e u r c o n s e n t e m e n t " [ P r o v a - s e e m Direito Natural que t o d o s os h o m e n s r e c e b e m d a

o s D i r e i t o s e as L i b e r d a d e s d o S ú d i t o e E s t a b e l e c e n d o a Sucessão d a Coroa". 2. Archives parlementaires tifs et politiques de 1787à 1860: Recueil complet des débats législa-

N a t u r e z a u m a L i b e r d a d e 8c u m a i n d e p e n d ê n c i a q u e eles n ã o p o d e m p e r d e r s e n ã o p o r s e u c o n s e n t i m e n t o ] — M. d e V a t t e l , Le Droit des gens ou principes naturelle appliques à la conduite etaux affaires des nations et des souverains, de la hi 2 vols.

des chambres françaises,

série 1,99 vols. (Paris: L i b r a i r i e A d m i n i s -

t r a t i v e d e P. D u p o n t , 1 8 7 5 - 1 9 1 3 ) , vol. 8, p . 3 2 0 . 3. S o b r e a i m p o r t â n c i a d e G r o t i u s e d o seu t r a t a d o O direito da guerra e da paz ( 1 6 2 5 ) , v e r R i c h a r d Tuck, Natural Rights Théories: Their Origin and Develop-

( L e y d e n : A u x D é p e n s d e la c o m p a g n i e , 1 7 5 8 ) , vol. l , p . 2 . 6. J o h n Locke, Two Treatises of Government (Cambridge: Cambridge Unisobre o governo, trad.

ment ( C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n i v e r s i t y Press, 1979). Ver t a m b é m L é o n Ingber, "La T r a d i t i o n d e G r o t i u s . Les D r o i t s d e l ' h o m m e et le d r o i t n a t u r e l à l ' é p o q u e c o n t e m p o r a i n e " , Cahiers de philosophie politique et juridique, n" 11 : " D e s T h é o r i e s d u Natu-

versity Press, 1963), p p . 3 6 6 - 7 . [Ed. b r a s i l e i r a : Dois tratados

Júlio Fischer (São P a u l o : M a r t i n s F o n t e s , 1998).] J a m e s F a r r , " ' S o Vile a n d M i s e r a b l e a n E s t a t e ' : T h e P r o b l e m o f Slavery i n Locke's Political T h o u g h t " , Theory, vol. 14, n 2 ( m a i o d e 1986): 2 6 3 - 8 9 , c i t a ç ã o p . 2 6 3 . 7. W i l l i a m B l a c k s t o n e , Commentaries on the Laws of England, 8' ed., 4 vols.
a

Political

d r o i t n a t u r e l " ( C a e n , 1988): 4 3 - 7 3 . S o b r e Pufendorf, ver T. J. H o c h s t r a s s e r , ral Law Théories Press, 2 0 0 0 ) . in the Early Enlightenment

(Cambridge: C a m b r i d g e University

( O x f o r d : C l a r e n d o n Press, 1 7 7 8 ) , v o l . l , p . 1 2 9 . A i n f l u ê n c i a d o d i s c u r s o d o s d i r e i t o s n a t u r a i s é e v i d e n t e n o s c o m e n t á r i o s d e B l a c k s t o n e , p o r q u e ele c o m e ç a a s u a d i s c u s s ã o n o livro 1 c o m u m a c o n s i d e r a ç ã o s o b r e os "direitos absolutos dos indi-

4. N ã o m e c o n c e n t r e i a q u i n a d i s t i n ç ã o e n t r e a lei n a t u r a l e os d i r e i t o s n a t u rais, e m p a r t e p o r q u e n a s o b r a s e m francês, c o m o a d e B u r l a m a q u i , ela é f r e q u e n t e m e n t e p o u c o n í t i d a . A l é m disso, as p r ó p r i a s figuras p o l í t i c a s d o s é c u l o x v m n ã o faziam n e c e s s a r i a m e n t e d i s t i n ç õ e s claras. O t r a t a d o d e B u r l a m a q u i d e 1747 foi t r a d u z i d o i m e d i a t a m e n t e p a r a o i n g l ê s c o m o The Principies of Natural Law

víduos", c o m os q u a i s ele q u e r i a d i z e r " a q u e l e s q u e p e r t e n c e r i a m às s u a s p e s s o a s m e r a m e n t e n u m estado de natureza, e q u e t o d o h o m e m t e m o direito de possuir, d e n t r o o u fora d a s o c i e d a d e " (1:123, m e s m a s p a l a v r a s n a e d i ç ã o d e 1766, D u b l i n ) . H á u m a l i t e r a t u r a i m e n s a s o b r e a relativa i n f l u ê n c i a d a s ideias u n i v e r s a l i s t a s e particularistas dos direitos nas colónias britânicas n a América d o Norte. U m a a l u s ã o s o b r e esses d e b a t e s p o d e ser e n c o n t r a d a e m D o n a l d S. Lutz, " T h e Relative I n f l u e n c e o f E u r o p e a n W r i t e r s o n Late E i g h t e e n t h - C e n t u r y A m e r i c a n Political Thought", American Political Science Review, 78 ( 1 9 8 4 ) : 1 8 9 - 9 7 . of the British Colonies Asserted and Proved ( B o s t o n :

(1748) e depois p a r a o holandês (1750), d i n a m a r q u ê s (1757), italiano (1780) e finalmente e s p a n h o l ( 1850) — B e r n a r d G a g n e b i n , Burlamaqui et le droit naturel

( G e n e b r a : E d i t i o n s d e la Frégate, 1944), p . 2 2 7 . G a g n e b i n a f i r m a q u e B u r l a m a q u i t i n h a m e n o s i n f l u ê n c i a n a F r a n ç a , m a s u m d o s ilustres a u t o r e s q u e e s c r e v i a m p a r a a Encyclopédie ( B o u c h e r d'Argis) u s o u - o c o m o s u a f o n t e p a r a u m d o s a r t i -

gos s o b r e a lei n a t u r a l . S o b r e as visões d e B u r l a m a q u i a r e s p e i t o d a r a z ã o , d a n a t u reza h u m a n a e da filosofia escocesa, v e r J. J. B u r l a m a q u i , Principes rel par J.}. Burlamaqui, Conseiller d'État, et ci-devant du droit natuet

8. J a m e s O t i s , TheRights

Professeur en droit naturel

Edes 8c Gill, 1764), citações p p . 28 e 3 5 . 9. S o b r e a influência d e B u r l a m a q u i n o s conflitos a m e r i c a n o s , ver Ray F o r -

civil à Genève ( G e n e b r a : B a r r i l l o t et fils, 1747), p p . 1-2 e 165. 5. Jean Lévesque d e Burigny, Vie de Grotius, avec l'histoire de négociations auxquelles il fut employé, de ses ouvrages, et

rest H a r v e y , Jean Jacques Burlamaqui: tionalism

A Liberal Tradition

in American

Constitu-

2 vols. (Paris: D e b u r e l ' a î n é , 1 7 5 2 ) . T. Law Being the substance ofa Course 2

( C h a p e l Hill: U n i v e r s i t y o f N o r t h C a r o l i n a Press, 1 9 3 7 ) , p . 116. S o b r e as

R u t h e r f o r d , D. D. F. R. S., Institutes

of Natural

citações d e P u f e n d o r f , G r o t i u s e L o c k e , ver Lutz, " T h e Relative I n f l u e n c e of E u r o p e a n Writers", esp. p p . 193-4; sobre a presença de B u r l a m a q u i nas bibliotecas a m e r i c a n a s , v e r D a v i d L u n d b e r g e H e n r y F. M a y , " T h e E n l i g h t e n e d R e a d e r i n America", American m a q u i , Principes Quarterly, 28 ( 1 9 7 6 ) : 2 6 2 - 9 3 , esp. p . 2 7 5 . C i t a ç ã o d e B u r l a -

of Lectures on Grotius de Jure Belli et Paci, read in St. Johns Collège Cambridge,

vols. ( C a m b r i d g e : J. B e n t h a m , 1 7 5 4 - 6 ) . As p a l e s t r a s d e R u t h e r f o r d p a r e c e m ser u m a exemplificação perfeita d a ideia d e H a a k o n s s e n d e q u e a ênfase d a t e o r i a d a lei n a t u r a l s o b r e os deveres m o s t r o u - s e m u i t o difícil d e se c o n c i l i a r c o m a ênfase e m e r g e n t e s o b r e os d i r e i t o s n a t u r a i s q u e c a d a p e s s o a p o s s u i ( a i n d a q u e G r o t i u s tivesse c o n t r i b u í d o p a r a a m b a s ) . O u t r o j u r i s t a s u í ç o , E m e r d e Vattel, e s c r e v e u t a m b é m e x t e n s a m e n t e s o b r e a lei n a t u r a l , m a s ele se c o n c e n t r o u m a i s n a s relações e n t r e as n a ç õ e s . Vattel t a m b é m insistia n a l i b e r d a d e e i n d e p e n d ê n c i a n a t u r a i s d e t o d o s os h o m e n s . " O n p r o u v e e n Droit Naturel, q u e t o u s les h o m m e s t i e n n e n t d e

du droit naturel, p . 2.

10. S o b r e o c r e s c e n t e desejo d e d e c l a r a r a i n d e p e n d ê n c i a , ver P a u l i n e Maier, American Scripture, p p . 4 7 - 9 6 . S o b r e a D e c l a r a ç ã o d a V i r g i n i a , ver Kate M a s o n 1725-1792,2 vols. ( N o v a York: G. P. P u t n a m ' s

R o w l a n d , The Life of George Mason, Sons, 1892),vol. l . p p . 4 3 8 - 4 1 .

11. U m a discussão breve m a s e x t r e m a m e n t e pertinente é encontrada e m

256

257

Jack N . R a k o v e , Declaring

Rights: A Brief History

with Documents

( B o s t o n : Bed-

( 1 9 8 3 ) , p . 2 4 3 . U m a bibliografia c o m p l e t a e n c o n t r a - s e e m D. O . T h o m a s , J o h n S t e p h e n s e P. A. L. J o n e s , A Bibliography of the Works of Richard Price ( A l d e r s h o t ,

ford B o o k s , 1 9 9 8 ) , esp. p p . 3 2 - 8 . 12. S o u g r a t a a Jennifer P o p i e l pela p e s q u i s a inicial s o b r e o s t í t u l o s ingleses e m p r e g a n d o o E n g l i s h S h o r t Title C a t a l o g u e . N ã o faço d i s t i n ç ã o n o e m p r e g o d o t e r m o "direitos", e n ã o excluo o c o n s i d e r á v e l n ú m e r o d e r e i m p r e s s õ e s a o l o n g o d o s a n o s . O n ú m e r o d e u s o s d e direitos n o s t í t u l o s d o b r o u d o s a n o s 1760 p a r a o s a n o s 1770 ( d e 51 n a d é c a d a d e 1760 p a r a 109 n a d e 1770) e d e p o i s p e r m a n e c e u q u a s e o m e s m o n a d é c a d a d e 1780 ( 9 5 ) . [ W i l l i a m G r a h a m of N e w c a s t l e ] , A n Attempt to Prove, That Every Species of Patronage is Foreign to the Nature of the

H a n t s : Scolar Press, 1993), esp. p p . 5 4 - 8 0 . J. D. v a n d e r C a p e l l e n , c a r t a d e 14 d e d e z e m b r o d e 1777, in P e a c h e T h o m a s , eds., The Correspondence v o l . 1 , p . 262. 14. Civil Liberty Asserted, Anarchical Dangerous and the Rights of the Subject Defended, Dr. Price. In which his Sophistical Contained against The of Richard Price,

Principles of the Reverend Tenets, and Principles

Reasonings,

of False Patriotism, and Refuted.

in his O b s e r v a in

t i o n s o n Civil Liberty, etc. are Exposed

In a Letter to a Gentleman

Church, and, That any MODIFICATIONS, proposed, LIBERTY, are INSUFFICIENT wherewith

which either have been, or ever can be of the

theCountry.ByaFriendtotheRightsoftheConstitution(Londres:].WiMe,

1776),

to regain, and secure her in the Possession

citações p p . 3 8 - 9 . O s o p o s i t o r e s d e Price n ã o n e g a v a m n e c e s s a r i a m e n t e a e x i s t ê n cia d e d i r e i t o s u n i v e r s a i s . Às vezes eles s i m p l e s m e n t e se o p u n h a m às p o s i ç õ e s específicas d e Price n o P a r l a m e n t o o u à relação d a G r ã - B r e t a n h a c o m as c o l ô n i a s . P o r e x e m p l o , The Honor of Parliament and the Justice of the Nation Vindicated. In

CHRISThath

made her free... ( E d i m b u r g o : J . G r a y 8cG.Als-

t o n , 1 7 6 8 ) , p p . 163 e 167. Já e m 1753, u m c e r t o J a m e s T o d t i n h a p u b l i c a d o u m p a n f l e t o i n t i t u l a d o The Natural Narrative Rights of Mankind Asserted: Or a Just and of Edinburgh against Mr. Faithful James

of the Illegal Procedure of the Presbytery

a Reply to Dr. Price's O b s e r v a t i o n s o n t h e N a t u r e of Civil L i b e r t y ( L o n d r e s : W . D a v i s , 1776) usa a e x p r e s s ã o " o s d i r e i t o s n a t u r a i s d a h u m a n i d a d e " p o r t o d o o livro n u m s e n t i d o favorável. D a m e s m a f o r m a , o a u t o r d e Experience Preferable to

Tod Preacher of the Gospel... ( E d i m b u r g o , 1753). W i l l i a m D o d d , Popery tent with the Natural lar: A Sermon Rights of MEN in general, and of ENGLISHMEN at Charlotte-Street Chapel in

inconsisparticu-

Preached

(Londres: W. Faden, 1768).

Theory. An Answer to Dr. Price's O b s e r v a t i o n s o n t h e N a t u r e of Civil Liberty, and the Justice and Policy of the War with America ( L o n d r e s : T. P a y n e , 1776) n ã o vê

S o b r e Wilkes, ver p o r e x e m p l o "To t h e Electors of A y l e s b u r y (1764)", in English Liberty: Being a Collection of Interesting ning the Private Correspondence, Tracts, From the Year 1762 to 1769 Contaiof John

n e n h u m p r o b l e m a e m se referir a o s "direitos d a n a t u r e z a h u m a n a " (p. 3) o u a o s " d i r e i t o s d a h u m a n i d a d e " ( p . 5). 15. A l o n g a réplica d e F i l m e r a G r o t i u s p o d e ser e n c o n t r a d a e m " O b s e r v a t i o n s C o n c e r n i n g t h e O r i g i n a l of G o v e r n m e n t " , n o s e u The Free-holders Grand

Public Letters, Speeches, and Addresses,

Wilkes, Esq. ( L o n d r e s : T. B a l d w i n , s. d . ) , p . 125. S o b r e J u n i u s , ver, p o r e x e m p l o , as c a r t a s xii (30 d e m a i o d e 1769) e xni (12 d e j u n h o d e 1769) in The Letters of Junius, 2 vols. ( D u b l i n : T h o m a s E w i n g , 1 7 7 2 ) , p p . 69 e 8 1 . 13. [ M a n a s s e h D a w e s ] , A Letter to Lord Chatham, War of Great Britain Unhappy against America; Reviewing Concerning the Present Its Black-

Inquest, TouchingOur

Sovereign Lord the Kingandhis

Parliament

( L o n d r e s , 1679).

Candidly

and Impartially of Sir William

Ele r e s u m e a sua p o s i ç ã o : "Apresentei b r e v e m e n t e a q u i as i n c o n v e n i ê n c i a s i r r e m e d i á v e i s q u e a c o m p a n h a m a doutrina da liberdade natural e da comunidade de

Cause and Consequence;

and wherein

The Doctrine

stone as Explained in his Celebrated C o m m e n t a r i e s o n t h e Laws of E n g l a n d , is Opposed to Ministerial on Government Tyranny, and Held up in Favor of America. With some Thoughts

todas as coisas; estes e m u i t o m a i s a b s u r d o s são f a c i l m e n t e e l i m i n a d o s , se a o c o n t r á r i o m a n t e m o s o domínio natural e privado de Adão c o m o a f o n t e d e t o d o o Power of Kings ( L o n -

by a Gentleman

of the Inner Temple ( L o n d r e s : G. Kearsley, s.d.; on the Nature

g o v e r n o e p r o p r i e d a d e " — p . 5 8 . Patriarcha: d r e s : R. C h i s w e l et al., 1685), esp. p p . 1-24.

Or the Natural

m a n u s c r i t o 1776), citações p p . 17 e 2 5 . R i c h a r d Price, Observations

of Civil Liberty, citação p . 7. P r i c e a l e g o u e x i s t i r e m o n z e e d i ç õ e s d e s e u t r a t a d o n u m a c a r t a a J o h n W i n t h r o p — D. O. T h o m a s , The Honest Mind: The Thought

16. C h a r l e s W a r r e n Everett, ed., A Comment cism of William Bentham Blackstone's

on the Commentaries:

A

CritiJeremy

C o m m e n t a r i e s o n t h e Laws of E n g l a n d by

and Work of Richard Price ( O x f o r d : C l a r e n d o n Press, 1977), p p . 1 4 9 - 5 0 . 0 sucesso d o panfleto foi i n s t a n t â n e o . Price escreveu a W i l l i a m A d a m s , e m 14 d e fevereiro d e 1776, q u e o p a n f l e t o fora p u b l i c a d o t r ê s dias a n t e s e já estava q u a s e i n t e i r a m e n t e e s g o t a d a a s u a e d i ç ã o d e m i l c ó p i a s — W. B e r n a r d Peach e D. O. T h o m a s , eds., The Correspondence of Richard Price, 3 vols. ( D u r h a m , N C : D u k e U n i v e r s i t y 1778

(Oxford: C l a r e n d o n Press, 1928), citações pp. 37-8. " N o n s e n s e u p o n

Stilts, o r P a n d o r a ' s Box O p e n e d , o r T h e F r e n c h D e c l a r a t i o n of Rights Prefixed t o t h e C o n s t i t u t i o n of 1791 Laid O p e n a n d Exposed", r e i m p r e s s o in P h i l i p S c h o field, C a t h e r i n e P e a s e - W a t k i n e C y p r i a n B l a m i r e s , eds., The Collected Jeremy Bentham. Other Writings Rights, Representation, on the French Revolution Works of

and Reform: N o n s e n s e u p o n Stilts and ( O x f o r d : C l a r e n d o n Press, 2 0 0 2 ) , p p .

Press, e Cardiff: University of Wales Press, 1 9 8 3 - 9 4 ) , vol. 1: July 1748-March

258

259

3 1 9 - 7 5 , c i t a ç ã o p . 3 3 0 . 0 p a n f l e t o , escrito e m 1795, só foi p u b l i c a d o e m 1816 ( e m francês) e 1824 ( e m inglês). 17. D u P o n t t a m b é m i n s i s t i a n o s d e v e r e s r e c í p r o c o s d o s i n d i v í d u o s — P i e r r e d u P o n t d e N e m o u r s , De l'Origine ( 1 7 6 8 ) , i n E u g è n e D a i r e , ed., Physiocrates. de la Rivière, l'Abbé Bandeau, 335-66, citação p. 342. 18. S o b r e a " p r a t i c a m e n t e e s q u e c i d a " D e c l a r a ç ã o d a I n d e p e n d ê n c i a , ver Maier, American Scripture, p p . 160-70. et des progrès Quesnay Dupont d'une science nouvelle Mercier

Les Droits de l'homme

et la conquête

des libertés: Des Lumières

aux révolutions

de

1848 ( G r e n o b l e : Presses U n i v e r s i t a i r e s d e G r e n o b l e , 1988), p p . 4 4 - 9 . 23. Archives parlementaires, 8:135,217. Jefferson, 31 v o l s . ( P r i n c e t o n : to November30,1789

24. Julian P. Boyd, ed., The Papers of Thomas

de Nemours,

P r i n c e t o n U n i v e r s i t y Press, 1950- ) , v o l . 15: March 27,1789,

Le Trosne (Paris: L i b r a r i e d e G u i l l a u m i n , 1846), p p .

( 1958), p p . 266-9. Os títulos dos vários projetos e n c o n t r a m - s e e m A n t o i n e d e B a e c q u e , ed., L'An Ides droits de l'homme. ciais s o b r e o p a n o d e f u n d o d o s d e b a t e s . 2 5 . R a b a u t é c i t a d o e m d e B a e c q u e , L'An I, p . 138. S o b r e a d i f i c u l d a d e d e explicar a m u d a n ç a d e o p i n i õ e s a r e s p e i t o d a n e c e s s i d a d e d e u m a d e c l a r a ç ã o , ver T i m o t h y Tackett, Becoming Assembly and the Emergence a Revolutionary: of a Revolutionary The Deputies Culture of the French National D e B a e c q u e oferece i n f o r m a ç õ e s e s s e n -

19. A carta d e R o u s s e a u c r i t i c a n d o o u s o excessivo d e " h u m a n i d a d e " p o d e ser e n c o n t r a d a e m R. A. Leigh, ed., Correspondance seau, vol. 2 7 , Janvier 1769-Avril complète de Jean Jacques Rous-

1770 ( O x f o r d : Voltaire F o u n d a t i o n , 1980), p . 15

( 1789-1790)

(Princeton:

( c a r t a d e R o u s s e a u a L a u r e n t A y m o n d e F r a n q u i è r e s , 15 d e j a n e i r o d e 1769). Sou g r a t a a Melissa Verlet pela sua p e s q u i s a s o b r e esse t e m a . S o b r e R o u s s e a u ter c o n h e c i d o B e n j a m i n F r a n k l i n e sua defesa d o s a m e r i c a n o s , ver o relato d e T h o m a s Bentley d a t a d o d e 6 d e a g o s t o d e 1776, e m Leigh, ed., Correspondance Janvier 1775-Juillet 1778,pp. complète, vol. 40,

P r i n c e t o n U n i v e r s i t y Press, 1 9 9 6 ) , p . 183. 26. Sessão d a A s s e m b l e i a N a c i o n a l d e 1" d e a g o s t o d e 1789, Archives mentaires,^: 230. parle-

27. A n e c e s s i d a d e d e q u a t r o d e c l a r a ç õ e s é m e n c i o n a d a n a " r e c a p i t u l a ç ã o " d a d a p e l o C o m i t ê s o b r e a C o n s t i t u i ç ã o e m 9 d e j u l h o d e 1789 — Archives mentaires^: 217. Writings parle-

2 5 8 - 6 3 ("[...] os a m e r i c a n o s , q u e ele disse n ã o t e r e m

m e n o s direito d e d e f e n d e r as suas l i b e r d a d e s p o r s e r e m o b s c u r o s o u d e s c o n h e c i dos", p . 2 5 9 ) . A l é m d e s s e r e l a t o d e u m v i s i t a n t e d e R o u s s e a u , n ã o h á m e n ç ã o a t e m a s a m e r i c a n o s n a s cartas d o p r ó p r i o R o u s s e a u d e 1775 até a s u a m o r t e . 20. Elise M a r i e n s t r a s e N a o m i W u l f , " F r e n c h T r a n s l a t i o n s a n d R e c e p t i o n of t h e D e c l a r a t i o n of I n d e p e n d e n c e " , Journal of American History, 85 ( 1 9 9 9 ) : 1299-

2 8 . C o n f o r m e c i t a d o e m D. O . T h o m a s , ed., Richard Price: Political ( C a m b r i d g e : C a m b r i d g e U n i v e r s i t y Press, 1 9 9 1 ) , p p . 1 1 9 e 195. 2 9 . A p a s s a g e m d e Direitos do homem

p o d e ser e n c o n t r a d a e m " H y p e r t e x t

on American History from the Colonial Period until M o d e r n Times", D e p a r t m e n t of H u m a n i t i e s C o m p u t i n g , Universidade de G r o n i n g e n , Países Baixos, <http://odur.let.nl/~usa/_D/1776-1800/paine/ROM/rofm04.htm> (consultado e m 13 d e j u l h o d e 2 0 0 5 ) . A p a s s a g e m d e B u r k e p o d e s e r e n c o n t r a d a e m < w w w . b a r t l e b y . e o m / 2 4 / 3 / 6 . h t m l > ( c o n s u l t a d o e m 7 d e abril d e 2 0 0 6 ) . 3 0 . S o b r e o s t í t u l o s ingleses, ver n o t a 12 a c i m a . O n ú m e r o d e t í t u l o s i n g l e ses q u e u s a m a palavra " d i r e i t o s " n a d é c a d a d e 1770 foi 109, m u i t o m a i s e l e v a d o q u e n a d é c a d a d e 1760, m a s a i n d a s ó u m q u a r t o d o n ú m e r o e n c o n t r a d o na d é c a d a d e 1790. O s t í t u l o s h o l a n d e s e s p o d e m ser e n c o n t r a d o s n o S h o r t Title C a t a l o g u e N e t h e r l a n d s . S o b r e as t r a d u ç õ e s a l e m ã s d e P a i n e , ver H a n s A r n o l d , " D i e Aufn a h m e v o n T h o m a s P a i n e Schriften in D e u t s c h l a n d " , PMLA, 72 (1959): 3 6 5 - 8 6 . S o b r e as ideias d e Jefferson, ver M a t t h e w S c h o e n b a c h l e r , " R e p u b l i c a n i s m in t h e Age of D e m o c r a t i c R e v o l u t i o n : T h e D e m o c r a t i c - R e p u b l i c a n Societies of t h e

- 3 3 4 . Joyce A p p l e b y , " A m e r i c a as a M o d e l for t h e R a d i c a l F r e n c h R e f o r m e r s of 1789", William and Mary Quarterly, 3" série, vol. 2 8 , n" 2 (abril d e 1971 ): 2 6 7 - 8 6 . parlementaires, 1:

2 1 . S o b r e o s e m p r e g o s d e s s a s e x p r e s s õ e s , ver Archives

711; 2:57,139,348,383; 3:256,348,662,666,740; 4:668; 5:391,545. O s primeir o s seis v o l u m e s d o s Archives parlementaires c o n t ê m apenas u m a seleção das

m i l h a r e s d e listas d e q u e i x a s e x i s t e n t e s ; o s e d i t o r e s i n c l u í r a m m u i t a s d a s listas "gerais" (as d o s n o b r e s , clero e Terceiro E s t a d o d e t o d a u m a r e g i ã o ) e a l g u m a s d o s estágios p r e l i m i n a r e s . S o u g r a t a a S u s a n M o k h b e r i pela p e s q u i s a s o b r e esses term o s . A m a i o r p a r t e d a análise d o c o n t e ú d o das listas d e q u e i x a s foi realizada a n t e s q u e h o u v e s s e e s c a n e a m e n t o e p e s q u i s a e l e t r ô n i c a e, p o r t a n t o , reflete o s i n t e r e s ses específicos d o s a u t o r e s e os m e i o s u m t a n t o c a n h e s t r o s d e a n á l i s e a n t e s d i s p o n í v e i s — G i l b e r t S a p h i r o e J o h n Markoff, Revolutionary 22. Archives Nationalism parlementaires, Demands. French

2 : 3 4 8 ; 5: 2 3 8 . B e a t r i c e F r y H y s l o p ,

1790s", Journal of the Early Republic,

18 ( 1 9 9 8 ) : 2 3 7 - 6 1 . S o b r e o i m p a c t o d e W o l l -

in 1789According

to the General Cahiers ( N o v a York: C o l u m b i a U n i des droits de l'homme

s t o n e c r a f t n o s Estados U n i d o s , ver R o s e m a r i e Z a g a r r i , " T h e Rights of M a n a n d W o m a n in P o s t - R e v o l u t i o n a r y America", William vol. 5 5 , n" 2 (abril d e 1998): 2 0 3 - 3 0 . 3 1 . S o b r e a d i s c u s s ã o d e 10 d e s e t e m b r o d e 1789, ver Archivesparlementaiand Mary Quarterly, 3" série,

versity Press, 1934), p p . 9 0 - 7 . S t é p h a n e Rials, La Déclaration

et du citoyen (Paris: H a c h e t t e , 1989). U m t a n t o d e s a p o n t a d o r é C l a u d e C o u r v o i sier,"Les D r o i t s d e l ' h o m m e d a n s les c a h i e r s d e doléances", in G é r a r d C h i n é a , ed.,

260

•(.I

res, 8 : 6 0 8 . S o b r e a d i s c u s s ã o e p a s s a g e m finais, ver ibid., 9 : 3 8 6 - 7 , 3 9 2 - 6 . 0 m e l h o r relato d a política e m t o r n o d a n o v a legislação c r i m i n a l e p e n a l p o d e ser e n c o n t r a d o e m R o b e r t o M a r t u c c i , La Costituente ed il problema pénale in Francia, 1789-

Máximas

e pensamentos,

t r a d . C l á u d i o F i g u e i r e d o ( R i o d e J a n e i r o : José O l y m p i o ,

2007).] Eve Katz, " C h a m f o r t " , Yale French Studies, n" 4 0 ( 1 9 6 8 ) : 3 2 - 4 6 .

-1791 ( M i l ã o : Giuffre, 1984). M a r t u c c i m o s t r a q u e o C o m i t ê d o s Sete t o r n o u - s e o C o m i t ê s o b r e a Lei C r i m i n a l . 32. Archives parlementaires, 9: 3 9 4 - 6 (o d e c r e t o final) e 9: 2 1 3 - 7 ( r e l a t ó r i o 1. Archives parlementaires, 10: 6 9 3 - 4 , 7 5 4 - 7 . S o b r e o s a t o r e s , ver P a u l FrieBodies and Theatricality in the Age of the

4. "isso

N Ã O

T E R M I N A R Á

N U N C A "

[ P P .

146-76]

d o c o m i t ê a p r e s e n t a d o p o r B o n A l b e r t B r i o i s d e B e a u m e t z ) . O a r t i g o 24 n o d e c r e t o final e r a u m a v e r s ã o l e v e m e n t e revisada d o a r t i g o 2 3 o r i g i n a l , s u b m e t i d o p e l o c o m i t ê e m 2 9 d e s e t e m b r o . Ver t a m b é m E d m o n d S e l i g m a n , La Justice Francependantla Révolution, en

d l a n d , Political Actors: Representative French Revolution

( I t h a c a , N Y : C o r n e l l U n i v e r s i t y Press, 2 0 0 2 ) , esp. p p . 2 1 5 - 7 .

2 vols. (Paris: Librairie P i o n , 1913), vol. 1, p p . 197-

2. C i t a d o e m Joan R. G u n d e r s e n . ' T n d e p e n d e n c e , C i t i z e n s h i p , a n d t h e A m e r i c a n Revolution", Signs: Journal of Women in Culture and Society, 13 ( 1987): 6 3 - 4 . 3. E m 2 0 - 2 1 d e j u l h o d e 1789 Sieyès leu o s e u " R e c o n n a i s s a n c e et e x p o s i t i o n r a i s o n n é e d e s d r o i t s d e l ' h o m m e et d u c i t o y e n " p a r a o C o m i t ê s o b r e a C o n s t i t u i ç ã o . O t e x t o foi p u b l i c a d o c o m o Préliminaire B a u d o i n , 1789). 4. S o b r e as qualificações p a r a v o t a r e m D e l a w a r e e n a s o u t r a s treze c o l ô n i a s , ver P a t r i c k T. C o n l e y e J o h n P. K a m i n s k y , eds., The Bill of Rights and the States: Colonial and Revolutionary Origins of American The de la constitution française (Paris:

-204. A linguagem usada pelo comitê sustenta a posição t o m a d a por Barry M. S a p h i r o d e q u e o " h u m a n i t a r i s m o " d o I l u m i n i s m o a n i m a v a as c o n s i d e r a ç õ e s d o s d e p u t a d o s — S a p h i r o , Revolutionary C a m b r i d g e U n i v e r s i t y Press, 1993). 33. Archives parlementaires, 26:319-32. Justice in Paris, 1789-1790 (Cambridge:

34. I b i d . , 2 6 : 3 2 3 . A i m p r e n s a focalizava q u a s e e x c l u s i v a m e n t e a q u e s t ã o da p e n a de m o r t e , e m b o r a alguns n o t a s s e m c o m aprovação a eliminação da m a r c a d e f e r r o e m b r a s a . O o p o s i t o r m a i s v o c i f é r a n t e d a p e n a d e m o r t e foi L o u i s P r u d h o m m e e m Révolutions de Paris, 98 ( 2 1 - 2 8 d e m a i o d e 1 7 9 1 ) , p p . 3 2 1 - 7 , e

Liberties ( M a d i s o n , wi: M a d i s o n

H o u s e , 1992), esp. p . 2 9 1 . A d a m s é c i t a d o in Jacob Katz C o g a n , " T h e L o o k W i t h i n : P r o p e r t y , Capacity, a n d Suffrage in N i n e t e e n t h - C e n t u r y America", Yale Law Journal, 107 ( 1 9 9 7 ) : 4 7 7 .

9 9 (28 d e m a i o - 4 d e j u n h o d e 1791 ), p p . 3 6 5 - 4 7 0 . P r u d h o m m e citava B e c c a r i a como apoio. 3 5 . 0 t e x t o d o c ó d i g o c r i m i n a l p o d e ser e n c o n t r a d o e m taires,3\: 3 2 6 - 3 9 (sessão d e 25 d e s e t e m b r o d e 1791). Archivesparlemen-

5. A n t o i n e d e B a e c q u e , éd., L'An Ides droits de l'homme, p p . 174-9 (23 de a g o s t o ) . T i m o t h y Tackett, Becoming 6. Archives parlementaires,

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a Revolutionary,

36. Ibid., 2 6 : 3 2 5 . 3 7 . R o b e s p i e r r e é c i t a d o e m c o n f o r m i d a d e c o m a c r í t i c a q u e Lacretelle p u b l i c o u a r e s p e i t o d o e n s a i o : " S u r le d i s c o u r s q u i avait o b t e n u u n s e c o n d p r i x à l ' A c a d é m i e d e M e t z , p a r M a x i m i l i e n R o b e s p i e r r e " , e m P i e r r e - L o u i s Lacretelle, Oeuvres, 6 vols. (Paris: B o s s a n g e , 1 8 2 3 - 4 ) , vol. m , p p . 3 1 5 - 3 4 , c i t a ç ã o p . 3 2 1 . O p r ó p r i o e n s a i o d e Lacretelle e n c o n t r a - s e n o v o l . lit, p p . 2 0 5 - 3 1 4 . Ver t a m b é m J o s e p h I. S h u l i m , " T h e Youthful R o b e s p i e r r e a n d H i s A m b i v a l e n c e T o w a r d t h e A n c i e n Régime", Eighteenth-Century Studies, 5 ( p r i m a v e r a d e 1972): 3 9 8 - 4 2 0 . Fui

10 (Paris, 1878): 6 9 3 - 5 .

7. Ibid., 780 e 782. A frase-chave d o d e c r e t o diz: " N ã o p o d e ser a p r e s e n t a d o n e n h u m m o t i v o p a r a excluir d a elegibilidade u m c i d a d ã o , a n ã o ser aqueles q u e r e s u l t a m d e d e c r e t o s c o n s t i t u c i o n a i s " . S o b r e a r e a ç ã o à decisão a r e s p e i t o d o s p r o t e s t a n t e s , ver Journal d'Adrian l'Assemblée Constituante, Duquesnoy, Député du tiers état de Bar-le-Duc sur

2 vols. (Paris, 1 8 9 4 ) , vol. 11, p . 2 0 8 . Ver t a m b é m Ray-

m o n d Birn, "Religious T o l e r a t i o n a n d F r e e d o m of Expression", in Dale v a n Kley, ed., The French Idea of Freedom: of1789 The Old Regime and the Declaration of the Rights

alertada para a importância da h o n r a n o sistema de justiça criminal p o r Gene Ogle, " P o l i c i n g S a i n t D o m i n g u e : Race, V i o l e n c e , a n d H o n o r in a n O l d R e g i m e Colony", diss. P h D , U n i v e r s i t y of P e n n s y l v a n i a , 2 0 0 3 . 38. A d e f i n i ç ã o d e h o n r a n o d i c i o n á r i o d a A c a d é m i e F r a n ç a i s e p o d e ser encontrada em
ARTFL,

(Stanford: S t a n f o r d U n i v e r s i t y Press, 1994), p p . 2 6 5 - 9 9 . 8. Tackett, Becoming a Revolutionary, p p . 2 6 2 - 3 . Archives parlementaires, 10

(Paris, 1878): 7 5 7 . 9. R o n a l d Schechter, Obstinate 1715-1815 Hebrews: Representations of Jews in France,

<http://colet.uchicago.edu/cgi-bin/dicolloo.ptf-lstrip-

(Berkeley: U n i v e r s i t y of California Press, 2 0 0 3 ) , p p . 18-34.

pedhw+honneur>. 3 9 . S é b a s t i e n - R o c h - N i c o l a s C h a m f o r t , Maximes et pensées, anecdotes et

10. D a v i d F e u e r w e r k e r , " A n a t o m i e d e 307 cahiers d e d o l é a n c e s d e 1789", Annales: E. S. G , 20 ( 1965): 4 5 - 6 1 . 11 (Paris, 1880): 364.

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11. Archives parlementaires,

262

263

12. I b i d . , 3 6 4 - 5 ; 31 (Paris, 1880): 372. 13. As p a l a v r a s d e C l e r m o n t - T o n n e r r e são t i r a d a s d e seu d i s c u r s o d e 23 d e d e z e m b r o d e 1789 — ibid., 10 (Paris, 1878): 7 5 4 - 7 . A l g u n s críticos t o m a m o d i s c u r s o d e C l e r m o n t - T o n n e r r e c o m o u m e x e m p l o d a recusa a e n d o s s a r a diferença étnica dentro da c o m u n i d a d e nacional. Mas u m a interpretação mais anódina p a r e c e justificada: o s d e p u t a d o s a c r e d i t a v a m q u e t o d o s os c i d a d ã o s d e v e m viver s o b as m e s m a s leis e i n s t i t u i ç õ e s , p o r t a n t o u m g r u p o d e c i d a d ã o s n ã o p o d i a ser j u l g a d o e m t r i b u n a i s s e p a r a d o s . T e n h o c l a r a m e n t e u m a visão m a i s positiva q u e Schechter, q u e d e s c a r t a a " e m a n c i p a ç ã o fabulosa d o s judeus". O d e c r e t o d e 27 d e s e t e m b r o d e 1 7 9 1 , ele i n s i s t e , "era m e r a m e n t e u m a r e v o g a ç ã o d e r e s t r i ç õ e s " e m u d o u "o s t a t u s a p e n a s d e u m p u n h a d o d e j u d e u s , a saber, a q u e l e s q u e satisfaz i a m as c o n d i ç õ e s r i g o r o s a s " p a r a a c i d a d a n i a ativa. Q u e o d e c r e t o tivesse c o n c e d i d o a o s j u d e u s direitos iguais aos d e t o d o s o s o u t r o s c i d a d ã o s franceses p a r e c e n ã o ser m u i t o significativo p a r a ele, m e s m o q u e o s j u d e u s s ó t e n h a m g a n h a d o essa i g u a l d a d e n o e s t a d o d e M a r y l a n d e m 1826 o u n a G r ã - B r e t a n h a e m 1858 — Schechter, Obstinate Hebrews, p. 1 5 1 . Obstiadres-

s a i n t , " M o y e n s p r o p o s é s à l ' A s s e m b l é e N a t i o n a l e p o u r r é t a b l i r la p a i x et l ' o r d r e d a n s les c o l o n i e s " ) . 2 2 . D u b o i s , Avengers Nationale, of the New World, esp. p . 163. Décret de la an second de la République française, Convention une et indi-

du 16 jour de pluviôse,

visible (Paris: I m p r i m e r i e N a t i o n a l e Executive d u L o u v r e , a n o 11 [ 1794] ). 2 3 . P h i l i p D. C u r t i n , " T h e D e c l a r a t i o n of t h e R i g h t s of M a n i n S a i n t - D o m i n g u e , 1788-1791", Hispanic American Historical Review, 30 ( 1 9 5 0 ) : 1 5 7 -

- 7 5 , citação p . 162. S o b r e T o u s s a i n t , ver D u b o i s , Avengers of the New World, p . 176. D u b o i s f o r n e c e u m relato c o m p l e t o d o interesse d o s escravos p e l o s d i r e i t o s d o homem. 2 4 . S o b r e o f r a c a s s o d o s e s f o r ç o s d e N a p o l e ã o , v e r D u b o i s , Avengers. O

p o e m a d e W o r d s w o r t h , "To T o u s s a i n t L ' O v e r t u r e " ( 1 8 0 3 ) , p o d e ser e n c o n t r a d o e m E. d e S e l i n c o u r t , é d . , The Poetical Works of William Wordsworth, 5 vols. of

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1787-1804

( C h a p e l Hill: University of N o r t h C a r o l i n e Press, 2 0 0 4 ) , citação p . 4 2 1 . desjuifs établis en France, du 24 2 5 . A explicação p a r a a exclusão d a s m u l h e r e s t e m s i d o m u i t o d e b a t i d a n o s ú l t i m o s t e m p o s . Ver, p o r e x e m p l o , a m u i t o sugestiva i n t e r v e n ç ã o d e A n n e Verjus, Le Cens de la famille: 26. Réflexions 1781), p p . 9 7 - 9 . 27. As referências às m u l h e r e s e a o s j u d e u s e n c o n t r a m - s e e m Archives lementaires, parLes femmes et le vote, 1789-1848 (Paris: Belin, 2 0 0 2 ) .

14. U m a d i s c u s s ã o d a s p e t i ç õ e s j u d a i c a s e n c o n t r a - s e e m Schechter, nate Hebrews, p p . 165-78, citação p . 166; Petition sée à 1'Assemblée Nationale, le 28 Janvier

1790, sur I'ajournement

décembre

1789 (Paris: P r a u l , 1 7 9 0 ) , citações p p . 5 - 6 , 9 6 - 7 . 15. S t a n l e y F. C h y e t , " T h e Political R i g h t s of Jews in t h e U n i t e d States: 1776-1840", American Jewish Archives, 1 0 ( 1 9 5 8 ) : 1 4 - 7 5 . S o u g r a t a a B e t h W e n g e r pela

sur l'esclavage des nègres (Neufchâtel: Société t y p o g r a p h i q u e ,

s u a ajuda nessa q u e s t ã o . 16. U m útil p a n o r a m a d o caso d o s E s t a d o s U n i d o s p o d e ser e n c o n t r a d o e m C o g a n , " T h e L o o k W i t h i n " . Ver t a m b é m D a v i d Skillen B o g e n , " T h e M a r y l a n d C o n t e x t of Dred Scott: T h e D e c l i n e in t h e Legal Status of M a r y l a n d Free Blacks, 1776-1810", American 17. Mémoire Journal of Legal History, 34 ( 1 9 9 0 ) : 3 8 1 - 4 1 1 . desgens de couleur ou sang-mêlés de St.-Domingue, et Gré-

3 3 (Paris, 1889): 3 6 3 , 4 3 1 - 2 . S o b r e as o p i n i õ e s a r e s p e i t o d a s v i ú v a s , a Revolutionary, p . 105. de la Société de

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enfaveur

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272

273

autismo, 31,39 autocontrole, 26,29,82 a u t o d e t e r m i n a ç ã o n a c i o n a l , 184-5,208 a u t o n o m i a i n d i v i d u a l : a escrita c o m o expressão da, 44; autodisciplina r e q u e r i d a pela, 8 3 ; b u s c a das h e r o í n a s d a ficção p e l a , 5 9 - 6 0 ; c o m o liberdade, 6 1 ; das mulheres, 26,586 0 , 6 4 , 6 7 - 9 , 169; ênfase e d u c a c i o nal na, 60, 6 1 ; interioridade c o m o evidência da, 30, 48; j u l g a m e n t o m o r a l e, 2 6 , 2 4 1 a u t o r i d a d e p o l í t i c a : a c o r d o social s o b r e a, 60; p r e s e r v a ç ã o d o s d i r e i t o s c o m o b a s e da, 30

B o n a l d , Louis d e , 1 7 9 - 8 0 , 2 6 6 Bonnet, Charles, 111,255 Bossuet, Jacques-Bénigne, 22,238 Boswell, J a m e s , 8 9 , 2 5 2 Boucher d'Argis, Antoine-Gaspard, 104,240,256 Bradshaigh, Lady Dorothy, 46,243 Brandeis, Louis, 190,267 Brissot, J a c q u e s - P i e r r e , 5 9 , 1 0 5 - 6 , 1 6 1 , 245,254 B r u n e t de L a t u q u e , P i e r r e , 1 4 6 , 1 5 2 - 3 , 155 Burke.Edmund, 15,134,135,174,1789,183,237,261 Burlamaqui, Jean-Jacques, 25, 117-8, 120,238-41,256-7

n a s c o l ô n i a s a m e r i c a n a s , 148, 160; táticas d a I n q u i s i ç ã o d o , 7 4 , 7 6 , 1 8 0 C a v o u r , C a m i l l o di, 185 cérebro, funcionamento do, 31,39 Chamberlain, H o w a r d Stewart, 192-3, 195,268 Chamfort, Sébastien-Roch Nicolas, 144-5,262,263 C h o d o w i e c k i , D a n i e l , 100 C h r é t i e n , Gilles-Louis, 9 0 , 9 2 C h u r c h i l l , W i n s t o n , 208 Clarissa (Richardson): dilema femi-

dos Direitos H u m a n o s e Liberdades F u n d a m e n t a i s ( 1 9 5 0 ) , 2 0 8 corpo: caráter revelado pelo, 99, 101; d i g n i d a d e d o , 108; i n t e g r i d a d e d o , 2 7 - 8 , 3 0 , 8 2 , 2 4 1 ; n a p i n t u r a , 85 C o r t e I n t e r n a c i o n a l d e Justiça, 2 0 3 C o s w a y , R i c h a r d , 90 c r i a n ç a s : c o n t r o l e d o s pais s o b r e as, 2 8 , 61-2; educação das, 60-2; práticas de criação das, 63 c r i m e s c o n t r a a h u m a n i d a d e , 202 cristianismo, 93, 134,245, 252; iguald a d e das almas n o , 28, 40; p e c a d o o r i g i n a l n o , 9 3 , 109; ver catolicismo, protestantismo Cuvier, G e o r g e s , 1 9 1 , 1 9 3 , 2 6 7 também

nino apresentado em, 46,53,59,63; p u b l i c a ç ã o de, 39, 46; reações dos leitores a, 4 6 , 4 8 , 4 9 , 5 1 , 5 5 , 6 8 , 8 9 C l e r m o n t - T o n n e r r e , c o n d e Stanislas de, 146-7,153,158,264 clínica m é d i c a , t r a t a m e n t o d a d o r na, 97

B a r b e y r a c , Jean, 118 B a r n a v e , A n t o i n e , 162 Bastilha, a t a q u e à p r i s ã o da, 130 Beccaria, C e s a r e , 8 0 , 8 1 , 9 3 - 4 , 9 7 , 1 0 1 4, 139, 2 4 8 , 2 5 0 - 1 , 2 5 3 - 4 ; a m p l a influência d e , 8 0 - 1 , 1 0 2 , 1 0 3 - 4 , 1 2 5 , 250-1,262; oposto à pena de morte, 80, 8 1 , 98; p r o c e d i m e n t o s c r i m i nais p ú b l i c o s a p o i a d o s p o r , 9 7 , 9 8 , 101, 137; s o b r e a t o r t u r a , 29, 8 0 - 1 , 101-2; s o b r e os direitos d o h o m e m , 102-3 B e n t h a m , Jeremy, 1 2 4 - 5 , 1 7 7 , 2 5 0 - 1 , 256,259 Bill of Rights, americana ( 1 7 9 1 ) , 16,

Burney, Fanny, 59 Burton, Richard, 195,267

Dagge, Henry, 97,253 Damásio, António, 110,255 decapitação, 80,140,143 14 E m e n d a , 161 13 E m e n d a , 161 d e c l a r a ç ã o ( d e f i n i ç ã o ) , 113-4 Declaração da Independência (1776): Bill ofRightsvs., 16, 126; b u s c a d a
a a

C a b a n i s , P i e r r e , 189 Calas, Jean, 7 0 - 5 , 7 8 , 8 0 - 1 , 9 2 , 9 9 - 1 0 4 , 107-8,247-8,250,253 Calas, M a r c - A n t o i n e , 74 calvinistas, 1 5 2 , 1 5 6 C a m p b e l l , J o h n , 193 c a p a c i d a d e d e 1er e escrever, 4 0 , 2 1 1 capitalismo, 41,246 C a r a n d ' A c h e ( E m m a n u e l P o i r é ) , 196 carrascos, 1 0 5 , 1 4 7 , 1 5 1 , 1 5 3 , 1 7 0 , 2 2 2 Carta Adântica (1941),208 casamento: autoridade dos pais n o , 623; direitos d e d i v ó r c i o e, 6 2 - 4 , 150, 168, 180; e n t r e d i f e r e n t e s g r u p o s , 188,192 Castellane, C o m t e d e , 151 catolicismo: a r g u m e n t o dos direitos n a t u r a i s c o n t r a , 122; d i r e i t o s civis britânicos e , 1 5 9 ; d o m í n i o n a França d o , 2 4 , 7 0 , 7 4 , 1 4 6 , 1 5 5 , 1 7 9 , 1 8 1 ;

c o l a r i n h o d e ferro, 7 8 , 7 9 , 1 4 1 - 2 , 1 4 4 , 145 C o m i t ê d o s Sete, 1 3 6 , 1 3 9 , 2 6 2 Comitê sobre a Constituição, 129,133, 157,261,263 C o m i t ê s o b r e a Lei C r i m i n a l , 1 3 9 , 2 6 2 Common Sense ( P a i n e ) , 129

felicidade na, 64; Declaração da V i r g i n a vs., 121; direitos h u m a n o s a f i r m a d o s n a , 1 3 , 2 3 , 1 1 5 - 6 , 126; franceses influenciados pela, 20, 127; t e x t o da, 2 1 9 - 2 3 ; t r a n s f e r ê n c i a d e s o b e r a n i a a f i r m a d a n a , 115 Declaração de Direitos da Virgínia (1776), 121,126 Declaração dos Direitos da M u l h e r (1791),171 D e c l a r a ç ã o d o s Direitos d o H o m e m e d o C i d a d ã o ( 1 7 8 9 ) : a d o ç ã o da, 13, 131; afirmação de autoevidência da, 17; a p r o v a ç ã o real da, 136; c o n -

comunidade, autonomia individual vs.,64 c o m u n i s m o , 197,199 Condorcet, m a r q u ê s de, 23,107,127-8, 161,171,173,239-40,265; sobre os d i r e i t o s d a s m u l h e r e s , 170-2 c o n s c i ê n c i a , 65 C o n s t i t u i ç ã o ( E U A ) , 117, 1 2 1 , 1 2 6 - 7 , 131,161 consumismo, 89,252 Contrato social, O ( R o u s s e a u ) , 2 2 , 3 5

117,121,126 Bill of Rights, b r i t â n i c a ( 1 6 8 9 ) , 19, 7 7 , 114,122,256 B l a c k b u r n , Joseph, 86 B l a c k s t o n e , W i l l i a m , 2 3 , 2 6 , 8 1 , 119, 122,124-5,239-40,250,257-9 bolcheviques, 199,201-2 Bolívar, S i m ó n , 1 8 3 , 1 8 4 , 2 6 7

C o n v e n ç ã o C o n s t i t u c i o n a l , 161 Convenção Europeia para a Proteção

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trovérsia dos direitos

inflamada

33; bases biológicas para exclusão d o s , 1 8 7 - 9 5 ; c o m o n a t u r a i s , 19, 1 1 5 - 2 5 , 2 5 6 - 7 ; conflitos e n t r e , 215; da liberdade, 6 1 , 1 8 1 , 2 0 0 ; da toler â n c i a religiosa, 24, 7 3 - 4 , 1 2 1 , 132, 146, 1 5 2 , 1 5 4 - 5 , 160; d a s m i n o r i a s é t n i c a s , 1 8 5 ; ver também negros;

9, 1 5 1 , 1 5 3 , 1 5 7 , 1 6 8 - 7 5 , 1 7 7 , 1 8 9 9 0 , 1 9 9 , 2 0 7 , 2 6 5 ; direitos naturais vs.,67,123,124,148; dos trabalhad o r e s , 1 7 7 , 1 9 8 ; i g u a l d a d e vs., 1 8 1 ; n o s E U A , 148; n o s t e r r i t ó r i o s c o l o niais, 1 9 4 - 5 ; p o s s e d e p r o p r i e d a d e vs., 2 6 , 1 4 8 , 1 6 3 , 1 7 0 ; profissão vs., 147, 149, 1 5 3 ; r a ç a v s . , 149, 1 5 1 , 160-7; r e q u i s i t o s d e i d a d e d o s , 1478,151 divórcio, 6 2 - 4 , 1 5 0 , 1 6 8 , 1 8 0 D o d d , William, 122,258 dor: c o m o experiência c o m u n a l , 94; pornografia da, 214; t r a t a m e n t o médico da, 97 Dos delitos e das penas ( B e c c a r i a ) , 8 0 , 248 DredScott, 161,264

38-43, 4-9, 55-6, 60;

fronteiras

pela, 15, 1 3 4 - 5 ; c r i t é r i o s d o s d i r e i tos p o l í t i c o s e, 1 5 0 - 1 , 1 5 3 ; D e c l a r a ção das N a ç õ e s U n i d a s vs., 2 0 5 ; d e c l a r a ç ã o d o s direitos d a s m u l h e res m o d e l a d a n a , 1 7 1 ; e x c l u s ã o c o l o n i a l da, 162; l i b e r d a d e religiosa n a , 1 3 2 , 1 4 6 , 152; m o t i v a ç ã o d a , 127-30; m u d a n ç a de soberania

s o c i o c u l t u r a i s t r a n s p o s t a s pela, 2 7 , 3 8 - 9 ; f u n c i o n a m e n t o d o c é r e b r o e, 3 1 , 39; i g u a l d a d e e, 26, 39; l i m i t e s da, 212, 213, 214; reformas crimin a i s p r o d u z i d a s pela, 8 2 ; s i m p a t i a vs., 6 5 ; t o r t u r a e, 3 0 , 1 0 8 - 0 9 e m p r e g a d o s domésticos, direitos políticos d o s , 149 Encyclopédie (Diderot), 36,55,87,104,

j u d e u s ; d e n t r o da e s t r u t u r a n a c i o n a l , 177; d i r e i t o s d i v i n o s vs., 2 3 8 ; esforços i n t e r n a c i o n a i s p a r a , 2 0 2 7, 2 0 9 , 2 1 5 ; foco p a r t i c u l a r i s t a vs. p e n s a m e n t o universalista sobre, 116-8, 120, 122-6; fontes seculares d o s , 132; g a r a n t i a g o v e r n a m e n t a l dos, 19,133, 178,184-5; igualdade dos, 17-9, 1 8 7 - 8 , 2 0 1 ; intolerância rejeitada c o m o , 73-4; orientação socialista sobre, 197-201; p o d e r p a t r i a r c a l vs., 1 2 4 , 1 7 8 , 1 9 9 ; p o l í t i c o s vs. n a t u r a i s , 6 7 , 124, 148; ver também direitos políticos; reco-

s u g e r i d a pela, 133; o rei o m i t i d o n a , 115, 132; p r e c e d e n t e s a m e r i c a n o s p a r a , 19, 127, 1 3 1 ; r a s c u n h o d a , 1 3 0 - 1 ; r e a ç õ e s críticas a, 125, 135, 179; reações socialistas a, 199-200; sobre o g o v e r n o c o m o fiador d o s direitos, 2 9 , 1 1 5 , 1 3 3 ; terminologia dos direitos na, 23, 240; texto da, 225, 227, 229; universalidade da, 14,19,117,153,199,200 Declaração dos Direitos dos Trabalhadores e dos Explorados (1918), 200-1 Declaração Universal dos Direitos

240,244,251,254,256 enforcamentos, 76,78 Equiano, Olaudah, 67,247 escravidão: abolição a m e r i c a n a da, 160-1, 193; abolição francesa da, 27, 149, 1 6 0 - 1 , 1 6 5 - 7 ; a b o l i c i o n i s tas e, 6 7 , 1 6 1 - 2 , 1 6 7 , 1 9 1 , 2 0 7 ; a ç õ e s i n t e r n a c i o n a i s c o n t r a a, 2 0 6 - 7 , 2 1 0 ; a r g u m e n t o s dos direitos naturais c o n t r a a, 2 0 , 1 1 9 , 1 3 4 ; d e p r i s i o n e i ros e m g u e r r a s j u s t a s , 119; direitos d a s m u l h e r e s vs., 6 7 , 1 5 1 , 169; n a s c o l ô n i a s francesas, 1 6 1 - 7 , 1 8 1 , 1 9 1 ; n e g r o s livres vs., 1 5 1 ; p u n i ç ã o c o r -

D r e y f u s , Alfred, 1 8 6 - 7 , 1 9 6 , 2 0 0 D u Pont de N e m o u r s , Pierre-Samuel, 125,260 Dupaty, Charles-Marguerite, 106-8, 254

n h e c i m e n t o progressivo dos, 27, 177; s o c i e d a d e h i e r á r q u i c a t r a d i c i o n a l a m e a ç a d a p e l o s , 1 7 8 - 8 1 ; terminologia dos, 20-4,238; universalidade dos, 14,16,18-20,69,116-8, 120,122-6,132,136,177,188 direitos h u m a n o s , d e c l a r a ç õ e s d o s : d a O N U ver D e c l a r a ç ã o U n i v e r s a l d o s D i r e i t o s H u m a n o s ; francesa ver

Humanos (1948),15,205,215,229 Defoe, D a n i e l , 62 d e g r a d a ç ã o cívica, 141 D e l a u n a y , Nicolas, 37 D e z M a n d a m e n t o s , 124 Dicionário Filosófico (Voltaire) , 7 5 , 2 4 8

Eden, William, 98 E d i t o d e Tolerância ( 1 7 8 7 ) , 154-5 educação, 63; a u t o n o m i a da individualidade na, 60-1; das mulheres, 6 8 , 1 7 5 ; p ú b l i c a , 125 Edwards, T h o m a s , 46 Elements 245 Emílio ( R o u s s e a u ) , 2 2 , 6 0 - 1 , 6 3 , 6 8 , 2 4 6 e m o ç ã o ver p a i x õ e s e m p a t i a : através d a s l i n h a s d o g ê n e r o , 48, 60; c o m o meio de aperfeiçoam e n t o m o r a l , 5 5 - 8 , 6 5 - 6 , 1 0 9 ; defin i ç ã o , 6 5 ; d e s e n v o l v i m e n t o da, 2 7 , 39; evocada n o s r o m a n c e s , 3 1 - 2 , ofCriticism (Kames), 56-7,

p o r a l e, 78; relatos a u t o b i o g r á f i c o s da, 67 Espinosa, 110,255 Essai sur l'inégalité des races humaines

(Gobineau), 191,267 E s t a d o s U n i d o s : Bill of Rights d o s , 16, 117, 1 2 1 , 126; C o n s t i t u i ç ã o d o s , 117, 1 2 1 , 1 2 6 - 7 , 1 3 1 , 1 6 1 ; d i r e i t o s das m i n o r i a s religiosas n o s , 15960; eligibilidade d o s direitos p o l í t i cos e x p a n d i d a n o s , 148; e s c r a v i d ã o nos, 20,78,160-1,193; nascimento r e v o l u c i o n á r i o d o s , 15, 2 3 , 6 1 - 2 , 1 2 2 , 1 3 4 ; restrições é t n i c a s d e i m i g r a ç ã o n o s , 186; s o b r e g r u p o s d a

Diderot, Denis, 2 5 , 5 5 - 6 , 8 0 , 9 0 , 2 4 0 , 2 4 3 , 245, 252; enciclopédia de, 36, 87, 1 0 4 , 2 4 0 , 244; s o b r e d i r e i t o s n a t u rais, 25; sobre R i c h a r d s o n , 5 5 , 2 4 5 direito r o m a n o , 76 Direitos 174 direitos h u m a n o s : a b o l i ç ã o d a t o r t u r a l i g a d a a o s , 1 0 2 - 3 , 106, 108, 1 1 3 , 254; a u t o e v i d ê n c i a d o s , 17, 2 4 , 2 9 , do homem, Os ( P a i n e ) , 1 3 5 ,

D e c l a r a ç ã o d o s Direitos d o H o m e m e do Cidadão; nos E U A , 116-8,120, 122-6; ver também Bill of Rights,

americana; Declaração da Independência; transferência de soberania sugerida p o r , 1 1 4 - 5 , 1 3 2 - 3 direitos políticos: d a s m i n o r i a s religiosas, 146, 1 4 8 - 9 , 1 5 1 - 6 1 , 177, 1 8 1 , 263; das m u l h e r e s , 67-9, 141,147-

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paz i n t e r n a c i o n a l , 202-4; sufrágio f e m i n i n o n o s , 190 Estados-Gerais, 170,240 eu interior, revelação corporal do, 99, 101 e x p e r i ê n c i a religiosa: a p r e c i a ç ã o a r t í s tica d a , 8 3 ; m o r a l i d a d e secular vs., 57,58 expressão, liberdade de, 2 1 , 1 8 1 , 2 0 1 , 206,229

f e m i n i n o c o n c e d i d o n a , 190; ver também Assembleia N a c i o n a l F r a n ç o i s , Louis, 4 7 F r a n k l i n , B e n j a m i n , 14, 16, 6 2 , 127, 249,260 F r e d e r i c o II (o G r a n d e ) , rei d a Prússia, 75 frenologia, 101

Haller, A l b r e c h t v o n , 4 9 - 5 0 , 5 5 Heloísa, 35,37,242 herança, direitos de, 6 2 , 1 5 0 , 1 7 4 heterogeneidade étnica, m o v i m e n t o s n a c i o n a l i s t a s vs., 185 Hill,Aaron,45,57,243 Hitler,Adolf,187,193,195 Hobbes, T h o m a s , 118-9,124 H o g a r t h , W i l l i a m , 95

i n d i v i d u a l i s m o , a r t e d o r e t r a t o e, 8 5 92 i n d u s t r i a l i z a ç ã o , 198 Inquisição Católica, 76,180 interioridade, 28,48 Itália, u n i f i c a ç ã o da, 184-5

Jacquin, Armand-Pierre, 51,244 Jahn, Friedrich, 183-4,267 j a r d i n s , c i r c u i t o d e c a m i n h a d a e m , 85 Jaucourt, Louis de, 87,104,251 Jaurès,Jean,200,209,268 Jefferson, T h o m a s : a D e c l a r a ç ã o F r a n cesa e, 1 3 , 1 2 9 , 1 3 0 , 2 4 0 ; c o m o a u t o r da Declaração da Independência,

Gagnebin, Bernard, 239,256 G l u c k , C h r i s t o p h W i l l i b a l d v o n , 83

H o l b a c h , P a u l - H e n r i - D i e t r i c h d', 2 2 4,240 h o n r a , 142-5 H u m p h r e y , J o h n , 205 H u t c h e s o n , Francis, 6 5 , 6 6 , 2 4 7

família, r e f o r m a s legais francesas n a , 61-2 federalistas, 136 feitiçaria, 7 6 , 2 4 9 , 2 5 4 feminismo, 68,190 Fielding, H e n r y , 4 6 , 5 7 Fielding, S a r a h , 4 8 , 5 5 Filmer.Robert, 124,259 fisionotraço, 92

Gobineau, Arthur de, 192-3,195,267 G o l d s m i t h , Oliver, 57 G o r b a t c h e v , M i k h a i l , 209 G o u g e s , O l y m p e d e , 171 - 3 , 2 6 5 G r ã - B r e t a n h a : a b o l i ç ã o d a escravatura da, 1 6 0 , 2 0 7 ; c o n t r o v é r s i a d o s direitos n a , 1 2 3 - 5 , 2 5 9 ; direitos p a r t i c u lares d o s h o m e n s livres d a , 116, 119-20; direitos políticos d a s m i n o rias religiosas na, 159; d o c u m e n t o s

identificação, 3 6 , 3 8 - 9 , 5 5 - 8 , 2 4 5 igualdade: argumentos biológicos

1 3 , 1 6 - 8 , 6 4 , 120, 132; c r i t é r i o s d e p a r t i c i p a ç ã o p o l í t i c a d e , 6 9 , 160; e s c r a v i d ã o e, 1 7 , 2 0 , 6 9 ; r e t r a t o d e , 9 1 - 2 ; s o b r e o d i v ó r c i o , 64; s o b r e o governo c o m o segurança dos direitos, 30; sobre r o m a n c e s , 57-8, 66, 6 8 , 1 1 1 ; t e r m o s d o s direitos h u m a n o s e m p r e g a d o s por, 2 0 , 1 3 6 Jesus C r i s t o , 2 2 , 9 9 Johnson, Samuel, 89,251 Jorge m, rei d a I n g l a t e r r a , 1 1 3 , 1 1 6 , 1 2 1 j o r n a i s , 2 9 , 30, 172, 1 8 6 - 7 , 1 9 5 , 197, 211 Journal to Eliza ( S t e r n e ) , 90 judeus: direitos políticos concedidos a o s , 2 7 , 146, 149, 1 5 1 - 3 , 1 5 5 - 6 1 , 170, 180, 195, 2 6 4 ; g e n o c í d i o n a zista c o n t r a , 2 0 2 ; p r e c o n c e i t o x e nófobo europeu contra, 186-91, 195,197 J u l g a m e n t o s d e N u r e m b e r g , 203 Júlia ( R o u s s e a u ) , 3 8 , 4 1 , 4 6 , 5 6 , 5 9 , 6 8 , 2 4 3 ; e n r e d o d e , 3 5 , 5 9 ; prefácio d e , 54; r e a ç õ e s e m p á t i c a s d o s l e i t o r e s

c o n t r a , 1 9 0 - 5 ; crítica social da, 2 0 1 ; d a s a l m a s cristãs vs. d i r e i t o s t e r r e n o s , 4 0 ; d o sistema p e n a l , 139; d o s direitos h u m a n o s , 17-9,187-8,201; e m p a t i a e, 2 6 , 3 9 , 5 8 ; l i b e r d a d e s políticas vs., 181 I l u m i n i s m o , 2 2 - 5 , 4 6 , 6 0 - 1 , 8 1 - 2 , 103, 112,156, 1 7 5 , 1 8 0 , 2 4 4 , 262; a u t o n o m i a individual enfatizada pelo, 60-1; reformas do sistema criminal e, 8 0 - 1 , 2 5 1 ; s o b r e e m o ç õ e s , 110-1 i m i g r a ç ã o , r e s t r i ç õ e s racistas n a , 186, 194 imperialismo, 183,194 imprensa, liberdade de, 121,128,132, 174,181 í n d e x papal dos livros p r o i b i d o s , 46, 75,103 í n d i a , d o m í n i o b r i t â n i c o da, 194

F i t z - W i l l i a m , L a d y C h a r l o t t e , 88 Foucault, Michel, 241,251 Fourier, C h a r l e s , 1 9 9 , 2 6 8 F r a n ç a : a n t i s s e m i t i s m o n a , 186-7; A r gélia i n c o r p o r a d a à, 193-4; D e c l a r a ção dos Direitos do H o m e m e d o C i d a d ã o ver D e c l a r a ç ã o d o s D i r e i tos d o H o m e m e d o C i d a d ã o (ent r a d a p r i n c i p a l ) ; dialetos r e g i o n a i s da, 185; diferenças religiosas na, 24, 7 0 , 7 4 , 1 4 6 , 1 4 9 - 5 8 ; escravidão colonial d a , 1 6 1 - 7 , 1 8 1 , 190; i m p e r i a lismo da, 179-81, 183, 193-5; n a P r i m e i r a G u e r r a M u n d i a l , 202; R e v o l u ç ã o A m e r i c a n a a j u d a d a pela, 127; R e v o l u ç ã o F r a n c e s a , 1 4 - 5 , 4 7 , 107, 135-6, 150, 1 6 9 - 7 0 , 173, 1798 0 , 1 8 7 , 1 8 9 - 9 0 , 1 9 6 , 2 1 4 ; sufrágio

d o s direitos n a , 1 9 , 7 7 , 1 1 4 , 1 2 2 , 2 5 6 ; r e s t r i ç õ e s d e i m i g r a ç ã o d a , 186; s e p a r a ç ã o a m e r i c a n a da, 1 1 6 , 1 2 0 , 1 2 2 , 1 2 7 ; sufrágio f e m i n i n o n a , 190; t e r r i t ó r i o s c o l ô n i a s da, 1 9 4 , 2 0 8 G r a h a m , William, 258 G r é g o i r e , B a p t i s t e - H e n r i , 161 G r i m m , Friedrich Melchior, 243,245 G r o t i u s , H u g o , 6 0 , 1 1 7 - 2 0 , 124, 2 4 1 , 256-7,259 G u a d a l u p e , escravos e m , 1 6 8 , 1 8 1 G u i l h e r m e I d a A l e m a n h a , 192 guilhotina, 76,140,172 Guyomar, Pierre, 265

Haakonssen, Knud, 241,256 Haiti (Saint D o m i n g u e ) , levante dos escravos d o , 1 6 2 - 3 , 1 6 5 - 7 , 1 8 1 , 2 6 2

individualidade, 28-9, 3 2 , 4 8 , 56, 59, 8 9 , 1 0 9 , 1 1 2 ; ver também autono-

mia individual; interioridade

278

279

a, 3 6 , 4 7 ; s u b t í t u l o d e , 3 5 ; s u c e s s o d e , 36

Luís X V I , rei d a F r a n ç a , 1 0 5 , 1 0 7 - 8 , 1 2 8 , 1 3 6 - 7 , 1 4 4 , 1 5 6 , 2 4 8 ; ações r e v o l u c i o n á r i a s c o n t r a , 130, 136; r e f o r -

mulheres: a u t o n o m i a pessoal das, 26, 58-60,64,67-9,169; como heroínas d e ficção, 5 9 - 6 0 , 6 8 ; ver também

organizações
(ONGS),

não

governamentais

209-10

Otis, James, 119,257

Kames, H e n r y H o m e , Lorde, 56-7,245 Kant, I m m a n u e l , 6 0 , 2 4 5 , 2 5 5 Kersaint,Armand-Guy, 164-5,264 K n o x , R o b e r t , 193 K n o x , V i c e s i m u s , 51

m a s d o sistema c r i m i n a l de, 105, 107-8,137,248

romances; c o m o pintoras de retratos, 8 9 - 9 0 ; d e p e n d ê n c i a m o r a l i m p u t a d a às, 2 6 , 169; d i r e i t o s d e d i Paine, T h o m a s , 129,130,135,174,179, 261 pais, a u t o r i d a d e a b s o l u t a d o s , 28 paixões: a u t o c o n t r o l e das, 82; c o m p o r t a m e n t o c r i m i n a l l i g a d o a, 10910; c o n t r o l e e x t e r n o d a s , 9 2 , 9 3 ; r a z ã o vs., 110-1 Pamela ( R i c h a r d s o n ) , 4 0 - 1 , 4 4 , 4 9 , 5 1 ; d i f e r e n ç a s d e classe e m , 3 9 , 4 2 ; efeito m o r a l d e , 5 2 - 3 ; p o p u l a r i d a d e de, 4 2 - 6 ; reações e m o c i o n a i s a, 4 2 3 ; restrições d a h e r o í n a e m , 59 P a n c k o u c k e , C. J., 4 7 , 5 6 nacionalismo, 30,41, 178,182-7,1978,241; polonês, 183,186 Nações Unidas, 15,17,177,203-4,208, 210, 229-30, 232, 235-6; Declaração Universal dos Direitos H u m a n o s aprovada pelas, 204-6, 210, 229-36 Napoleão Bonaparte, 145,167-8,178, 180-4,249,265 n a z i s m o , 202 negros: inferioridade biológica atrib u í d a a o s , 1 8 7 - 9 5 ; l i v r e s , 16, 6 7 , 1 4 9 , 1 5 1 , 1 6 0 - 1 , 170; ver escravidão N i c o l a s , A u g u s t i n , 254 também Patriarcha (Filmer), 124,259

M a c A r d e l l , J a m e s , 88 Madison, James, 118,240 M a g n a C a r t a ( 1 2 1 5 ) , 114

v ó r c i o d a s , 6 2 - 4 , 1 4 9 , 168; d i r e i t o s políticos das, 6 7 - 9 , 1 4 1 , 1 4 7 - 9 , 1 5 1 , 153,157,168-75,177,189-90,199, 2 0 7 , 2 6 5 ; h o n r a das, 143; l i m i t a ç õ e s b i o l ó g i c a s a t r i b u í d a s às, 187, 1 8 8 90; p u n i ç ã o criminal das, 7 7 , 1 4 1 , 172; s e n t i m e n t o a s s o c i a d o às, 9 0 , 97 Muyart de Vouglans, Pierre-François, 93-4,102-3,108-11,252-3,255

Lacretelle, P i e r r e - L o u i s , 1 4 2 , 2 6 2 Lafayette, m a r q u ê s d e , 14, 1 7 , 2 3 , 1 2 8 , 129,136,161,240 Larner, C h r i s t i n a A., 249 Le Blanc d e Guillet, A n t o i n e , 239 Lei d a s C a u s a s M a t r i m o n i a i s ( 1 8 5 7 ) , 63 Lei d o C a s a m e n t o ( 1 7 5 3 ) , 62 lei positiva, 9 3 , 1 2 4 Leis d o s E s t r a n g e i r o s e d a S e d i ç ã o ( 1 7 9 8 ) , 179 L e n g l e t - D u f r e s n o y , N i c o l a s , 2 1 , 50, 238,244 L ê n i n , 201 Lepeletier de Saint-Fargeau, Louis- M i c h e l , 139-42 Letters ofjunius, The, 1 2 2 , 2 5 8

Maier, P a u l i n e , 1 2 6 , 2 3 7 , 2 4 2 , 2 5 7 , 2 6 0 Manco (Le B l a n c d e G u i l l e t ) , 2 2 , 2 3 9 m a r c a d e ferro e m b r a s a , 262 Marivaux, Pierre Carlet de C h a m b l a i n de, 2 9 , 2 4 1 M a r t u c c i , R o b e r t o , 262 M a r x , Karl, 1 9 8 , 2 0 0 - 1 , 2 6 8 Mason, George, 24,257 m a s t u r b a ç ã o , 52 materialismo, 110,197 M a u r y , Jean, 155 Mazzini, Giuseppe, 177,184,266 Mercier, Louis-Sébastien, 22, 8 7 , 2 5 2 , 260 m e t o p o s c o p i a , 101 M i c k i e w i c z , A d a m , 184 Mill, J o h n S t u a r t , 1 9 0 , 1 9 4 Mirabeau, conde de, 23,24,240 m o n a r q u i a , 2 1 , 2 2 , 7 5 , 1 1 3 , 117, 127, 133,135-6,142,145,158,168,17980 Montesquieu, barão de, 2 9 , 1 4 2 - 3 , 2 4 1 , 250 Montmorency, Mathieu, d u q u e de, 117,132,145 M o r e a u , J e a n - M i c h e l , 37 M o r e l l e t , A n d r é , 103 m o v i m e n t o de independência h ú n garo, 185 m u ç u l m a n o s a r g e l i n o s , 195

pecado original, 93,109 pelourinho, 77,78,142,249 pena de morte: administração menos d o l o r o s a da, 7 6 , 1 0 2 , 1 3 9 - 4 0 ; a d m i nistrações t o r t u r a n t e s da, 70, 77, 80, 99, 131-40; execução pública da, 73, 76, 94-99; fator dissuasivo d a , 7 7 ; o p o s i ç ã o à, 8 0 - 1 , 9 8 , 139, 250, 262; taxas de i m p l e m e n t a ç ã o da, 7 7 , 1 0 2 , 2 5 3 penitência, atos formais dos c r i m i n o sos d e , 9 4 , 1 4 0 - 1 Pensamentos 61 p e r f o r m a n c e s m u s i c a i s , 83 Petição d e D i r e i t o s ( 1 6 2 8 ) , 114 ofthe sobre a educação (Locke),

lettres de cachet, 62 Lévesque d e Burigny, Jean, 1 1 8 , 2 5 6 Lewis, M a t t h e w , 2 1 4 l i b e r d a d e , a u t o g o v e r n o c o m o , 61 l i b e r t i n a g e m , 51 Liga das N a ç õ e s , 2 0 2 - 3 L i n g u e t , S i m o n - N i c o l a s - H e n r i , 104, 254 Locke, J o h n . , 6 0 - 1 , 6 3 , 1 1 8 - 2 0 , 2 5 7 Loyseau de Mauléon, Alexandre-

Observations American Observations

on the Importance Revolution

Pigott, J o h n , 86 Pipelet, Constance Salm), 174-6,266 Place d e Greve, 96 p o d e r p a t r i a r c a l , 124 (Constance de

( P r i c e ) , 134 of Civil

Jérôme, 99,253 Lueger.Karl, 187 Luís xiv, rei d a F r a n ç a , 2 2 , 7 8

on the Nature

Liberty ( P r i c e ) , 1 2 3 , 2 4 6 , 2 5 8 - 9 Ogé,Vincent,163,264

28o

281

P o i r é , E m m a n u e l ( C a r a n cTAche), 196 p r e s e n ç a ideal, 5 6 , 5 7 P r i c e , R i c h a r d , 1 4 - 5 , 6 1 , 1 2 3 - 4 , 134, 237,246,258,259,261 Priestley, J o s e p h , 69 Primeira Guerra Mundial, 202,208 P r i m e i r o E s t a d o , 128 p r i m o g e n i t u r a , 62 p r i v a c i d a d e , n o p r o j e t o d o lar, 85 propriedade: apropriação governa-

d e s o n r a da, 141-5; igualdade da, 139; r e f o r m a s francesas d a , 136-45; v a l o r dissuasivo d a , 7 7 , 9 4 , 9 8 , 1 4 0 ; visões religiosas d a , 9 2 - 3 , 9 7 - 8 , 1 0 2 , 1 0 9 - 1 0 , 1 4 0 ; ver também punição

R e y n o l d s , Sir J o s h u a , 8 7 - 8 Richardson, Samuel, 39,41,243; c o m o autor a n ô n i m o , 45,243; c o m o "editor" de romances epistolares, 42, 5 3 - 4 ; r e a ç õ e s d o s l e i t o r e s a, 4 5 - 9 , 51,55-6 Rights ofthe. British Colonies Asserted

R u s h , B e n j a m i n , 7 6 , 9 8 , 1 0 8 - 9 , 112, 249,253,255 Rutherford, T h o m a s , 256

Sade, m a r q u ê s d e , 2 1 4 , 2 6 9 Saint D o m i n g u e ver H a i t i Salm, C o n s t a n c e d e ( C o n s t a n c e P i p e let),174 Saphiro, Barry M., 255,260,262 S a u n d e r s , R i c h a r d , 101

corporal; pena de m o r t e ; tortura P u n t , Jan, 44

and Proved, The ( O t i s ) , 1 1 9 , 2 5 7 quartos de dormir, 84,92 q u e i m a n a fogueira, 7 7 - 8 , 8 0 , 1 0 2 , 1 4 0 Q u e n e d e y , E d m é , 91-2 questão preliminar, 70,137,255 questão preparatória, 74,137,255 Robespierre, Maximilien de, 142-3, 262 Robinson Crusoé ( D e f o e ) , 4 1 , 6 2 , 6 3

m e n t a l da, 1 3 1 ; crítica socialista da, 1 9 8 - 2 0 1 ; d i r e i t o s ligados à, 2 6 , 1 4 8 , 1 6 3 , 170; d o s n e g r o s livres, 1 6 3 ; e s c r a v o s c o m o , 119; p u n i ç ã o p e l o confisco da, 142 protestantismo: consciência individ u a l n o , 2 8 ; direitos políticos franceses e, 1 4 6 , 1 4 9 , 1 5 1 - 5 8 , 2 6 3 ; m a i o ria a m e r i c a n a , 160; n a F r a n ç a , 2 4 , 70,146,180,216 Protocolos dos sábios de Sião, Os, 197 P r u d h o m m e , L o u i s , 262 P u f e n d o r f , S a m u e l , 1 1 7 - 8 , 120, 2 5 6 , 257 p u n i ç ã o : o b e d i ê n c i a i m p o s t a pela, 61 p u n i ç ã o corporal, 29; das crianças na escola, 6 3 ; d o s escravos, 78; f o r m a s brutais de, 2 9 , 7 7 , 2 4 9 ; h u m i l h a ç ã o n a , 7 9 - 8 0 , 137, 1 4 1 - 3 ; m o d e r a ç ã o n a , 105, 108, 2 5 0 - 1 ; m u l t a s , 9 8 ; m u t i l a ç ã o n a , 80, 140; p u n i ç õ e s v e r g o n h o s a s vs., 1 4 1 ; r e a b i l i t a ç ã o v s . , 9 8 , 1 3 9 - 4 0 ; ver r a m b é m p u n i ç ã o criminal; pena de m o r t e ; tortura punição criminal: abordagens racion a i s da, 8 0 - 1 , 9 3 ; c o m o r e p a r a ç ã o à c o m u n i d a d e , 94, 9 8 ; c o n d i ç õ e s d a p r i s ã o e, 106; das m u l h e r e s , 7 7 , 1 4 1 , 1 7 1 ; d e m e m b r o s d a família, 142;

Schechter, R o n a l d , 2 6 3 - 4 Schneewind,J.B.,26,240 sefarditas, 157 S e g u n d a G u e r r a M u n d i a l , 202 S e g u n d o E s t a d o , 128 sellette, 137 s e n s i b i l i d a d e , 2 8 , 66; ver também patia; simpatia s e n s o m o r a l i n t e r i o r , 118 S e r v a n , J o s e p h - M i c h e l - A n t o i n e , 105, 254 sexismo, 188,190 S h a k e s p e a r e , W i l l i a m , 57 Sieyès, E m m a n u e l - J o s e p h , 2 3 , 6 7 - 8 , 148,240,247,263 s i m p a t i a , 5 8 , 6 5 - 7 , 109, 112; ver bém e m p a t i a sindicatos, 198-9,234 S k i p w i t h , R o b e r t , 57 Smith, Adam, 65,212-3,247 Sobre a admissão das mulheres aos tamem-

R o b i s o n , J o h n , 179 roda, suplício da, 7 0 , 7 3 , 7 8 , 8 0 , 9 6 , 9 9 , 106,140,247

Rabaut Saint-Étienne, Jean-Paul, 24-5, 131,152,154,216,261 r a c i s m o , 162, 188, 1 9 0 - 1 , 1 9 3 - 4 , 2 1 0 ; ver também antissemitismo

Roland, Jeanne-Marie, 47,243 romances: autonomia individual nos, 58-60; busca da a u t o n o m i a pelas personagens femininas, 58-60, 68; efeitos m o r a i s d o s , 4 5 , 5 0 - 8 , 6 7 - 8 ; epistolares, 3 0 , 3 2 , 3 8 , 4 1 , 2 4 3 ; g ó t i cos, 214; identificação d o s leitores c o m os p e r s o n a g e n s d o s , 3 6 , 3 8 , 4 2 3,45-8, 55-6, 58-60; leitorado dos, 4 1 , 4 5 - 6 ; n a t u r e z a i n t e r i o r revelada n o s , 3 0 , 4 3 , 4 8 , 5 8 ; peças t e a t r a i s vs., 43; pessoas c o m u n s c o m o personagens centrais dos, 2 9 , 4 0 , 8 9 ; p o n t o d e vista d o a u t o r , 42; reações e m p á ticas aos, 3 1 - 2 , 3 8 - 4 9 , 5 5 - 6 , 6 0 , 6 6 Romilly, S a m u e l , 8 0 , 2 5 0 - 1 Roosevelt, Eleanor, 2 0 5 , 2 3 6 - 7 R o t h s c h i l d , família, 197 R o u s s e a u , Jean-Jacques: c o m o r o m a n cista, 3 5 - 6 , 4 1 , 4 6 - 8 , 5 3 - 4 , 5 7 - 8 , 2 4 3 ; sobre Richardson, 47, 243; teorias educacionais de, 60-3,68; termos de direitos h u m a n o s usados por, 22-3,70,127,238 R u a n d a , conflito é t n i c o e m , 211

Raven, James, 2 4 2 - 3 Raynal, G u i l l a u m e T h o m a s , 2 2 , 2 4 3 r a z ã o , 6 1 , 6 5 ; justiça c r i m i n a l e, 8 0 , 8 1 , 94; p a i x ã o vs., 1 1 0 , 1 1 1 religião: a r g u m e n t o s d o s d i r e i t o s n a t u r a i s c o n t r a i n s t i t u i ç õ e s d a , 122; l i b e r d a d e d e , 128, 132, 146, 152, 1 5 4 - 5 , 160, 2 0 0 , 2 0 4 , 2 0 6 ; p u n i ç ã o c r i m i n a l i n f l u e n c i a d a pela, 9 2 , 9 3 , 97-8, 102,109-10,140; tolerância da,24,73-4,121,132,146,152,1545 , 1 6 0 , 1 8 1 - 2 , 2 1 6 , 2 4 8 ; ver também

catolicismo; cristianismo; judeus; protestantismo r e v o g a ç ã o d o E d i t o d e N a n t e s , 153 revoluções: c o m p r o m i s s o comunista com, 199,200; Revolução Americ a n a , 15, 2 3 , 6 2 ; R e v o l u ç ã o F r a n cesa, 1 4 - 5 , 4 7 , 1 0 7 , 1 3 5 - 6 , 1 5 0 , 1 6 9 70, 1 7 3 , 1 7 9 - 8 0 , 187, 1 8 9 - 9 0 , 196, 214; R e v o l u ç ã o Russa, 2 0 0

direitos da cidadania 171 s o c i a l i s m o , 197-9

(Condorcet),

Sociedade Antiescravidão, 207,209 s o c i e d a d e b u r g u e s a , 198 Sociedade dos Amigos dos Negros, 106,161 s o c i e d a d e h i e r á r q u i c a , 178,182

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S o c i e d a d e p a r a a A b o l i ç ã o d o Tráfico d e Escravos, 1 6 1 , 2 0 7 sodomia, 80,140 S p i e r e n b u r g , Peter, 2 5 0 , 2 5 2 Staèl, G e r m a i n e d e , 266 Stalin, J o s e p h , 201 S t a r o b i n s k i , Jean, 2 4 5 Sterne, Laurence, 5 7 , 5 9 , 6 6 , 6 8 , 9 0 , 9 2 , 111,252,255 strappado,7\ suicídio, 4 3 , 7 4 Sujeição das mulheres, A ( M i l l ) , 190

2; m é t o d o s d e , 7 0 , 7 4 , 7 6 , 1 3 7 ; m o t i v a ç ã o religiosa d a , 1 0 2 , 1 8 0 ; n o c a s o Calas, 70, 7 4 , 9 9 ; p a r a o b t e r informações, 29,70,74-6,99,101 -2,104, 108,138,180; pena de m o r t e a d m i nistrada com, 70,77,80,99,131 -40; r e s s u r g i m e n t o c o n t e m p o r â n e o da, 210-1 T o u s s a i n t - L o u v e r t u r e , 166-7 trabalhadores, direitos políticos dos, 177,198 Tratado sobre a tolerância por ocasião

p o r , 73-4; s o b r e o caso d a t o r t u r a d e Calas, 7 3 - 4 , 8 0 - 1 , 9 9 , 2 4 8 , 2 5 0

W o l l s t o n e c r a f t , M a r y , 6 8 , 135, 1 7 2 - 3 , 175,247,261,265 Wordsworth, William, 167,265

W a g n e r , R i c h a r d , 192 Walpole, Horace, 4 8 , 8 7 , 2 4 4 , 2 5 1 Wilkes, J o h n , 1 2 2 , 2 5 8 Wilson, Woodrow, 208 Zola, E m i l e , 1 8 7 , 1 9 6 x e n o f o b i a , 186

Suprema Corte dos Estados Unidos, 161,190 supremacia: ariana, 203

da morte de Jean Calas ( V o l t a i r e ) , 73 tributação, 125,129,132,227 Tristram Shandy(Steme),4l, 59

Tackett, T i m o t h y , 1 5 4 - 5 , 2 6 1 , 2 6 3 , 2 6 5 Talleyrand-Périgord, rice d e , 157-8 teatro, 4 3 , 5 4 - 5 , 8 3 , 2 4 5 t e o r i a d a lei n a t u r a l , 2 5 6 ; ver também Charles-Mau-

t r o n c o ( i n s t r u m e n t o de t o r t u r a ) , 77, 142,249 T y b u r n , execuções p ú b l i c a s e m , 7 6 , 9 5 6

direitos h u m a n o s ; c o m o n a t u r a i s Teoria dos sentimentos 65,212,247,269 T e r c e i r o E s t a d o , 2 3 , 126, 1 2 8 - 9 , 2 4 0 , 255,260 Terror, 1 6 , 1 4 4 , 1 7 8 T h e r b u s c h , A n n a , 90 Théremin, Charles, 174-5,266 Tissot, S a m u e l - A u g u s t e , 5 2 , 2 4 4 , 2 4 7 Tocqueville, Alexis d e , 3 8 , 1 9 3 , 2 4 2 , 2 6 7 Tod, James, 2 5 8 Tom Jones (Fielding), 41,46,51 morais ( S m i t h ) ,

U n i ã o Soviética, 2 0 3 - 5 , 209; na Prim e i r a G u e r r a M u n d i a l , 202 Utilitarismo, 124,250

Van d e r C a p e l l e n t o t d e n Poli, J o a n Derk, 123,259 Vattel, E m e r d e , 2 5 6 - 7 Viagem sentimental, 111 v i d a secular, 57 Vindication of the Rights of Woman Uma ( S t e r n e ) , 5 9 ,

( W o l l s t o n e c r a f t ) , 172-4 v i o l ê n c i a : d a r e v o l u ç ã o p o l í t i c a , 179; reportagens da mídia moderna

t o r t u r a : a b o l i ç ã o oficial d a , 7 5 , 108, 136-9,248-9; afirmações dos direit o s h u m a n o s vs., 1 0 2 - 3 , 106, 108, 1 1 3 , 2 5 4 ; c a m p a n h a c o n t r a a, 1026,108,254; convenção da O N U contra, 210; e m p a t i a e, 30, 1 0 8 - 9 , 1 1 1 -

sobre, 211; sensacionalismo da, 214 Voltaire, 2 1 , 29, 36, 38, 73-5, 8 1 , 9 3 , 238-9, 242, 248, 250, 260; argum e n t o dos direitos h u m a n o s usado

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