UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS
DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LITERATURA BRASILEIRA
SIM E NÃO – O RITMO BINÁRIO
em A Paixão segundo G.H., de Clarice Lispector
Tony Mon!
D!""#$%&'o (# M#"$%(o %)$#"#n%(% %o
P$o*$%+% (# P,"-G$%(-%&'o #+ L!#$%-$%
B$%"!.#!$% (o D#)%$%+#no (# L#$%"
C./""!0%" # V#$n/0-.%" )%$% o1#n&'o (o
2-.o (# M#"$# #+ L!#$%-$% B$%"!.#!$%3
O$!#n%(o$4 P$o53 D$3 V%.#n!+ A)%$#0!(o F%0!o.!
S'o P%-.o
6778
“E os outros? Os outros não estão dentro de mim. Para os outros, que
observam de fora, as minhas idéias, os meus sentimentos, têm um nariz.
O meu nariz. E têm um par de olhos, os meus olhos, que eu não vejo e eles
vêem. ue rela!ão e"iste entre as minhas idéias e o meu nariz? Para mim,
nenhuma. Eu não penso #om o nariz nem, pensando, reparo no meu nariz.
E os outros? Os outros, que não podem ver dentro de mim as minhas idéias e
que vêem, de fora, o meu nariz? Para os outros, as minhas idéias e o meu
nariz têm tanta rela!ão, que, se aquelas, suponhamos, fossem muito sérias e
este, pela sua forma, fosse muito rid$#ulo, desatariam a rir.%
& 'ui(i Pirandello &
“)ão se trata de ouvir uma série de frases que enun#iam al(o*
o que importa é a#ompanhar a mar#ha de um mostrar.%
& +artin ,eide((er &
“-./ do que eu es#revo é mentira. O resto eu invento.%
& +anoel de 0arros -
1
2os meus pais, 3osa e 4ernando, e irmãos, 5el6 e 2le", que me deram o #hão.
2o 2bilio e ao 7é +edeiros, pelas t8ti#as e estraté(ias #ompartilhadas.
9 +a$ra, que me tirou o #hão.
2o :alentim, pela a#olhida.
;
ÍNDICE
3esumo <
2bstra#t =
>ntrodu!ão para romper o silên#io ?
>. O impasse #omo for!a motriz do te"to @
1. Arês des#aminhos ideais & ordem, beleza e limpeza @
Besor(anizar & um primeiro olhar sobre o te"to -
Cujeira & mais al(uns espasmos ;1
0eleza & a proposta de elimina!ão da media!ão estéti#a D.
;. 2qui e ali DE
>>. 5ompasso bin8rio <E
>>>. P8thos e liberdade @D
5onsidera!Fes finais antes do silên#io 1.?
0iblio(rafia
Be 5lari#e 'ispe#tor 1.@
Cobre 5lari#e 'ispe#tor 1.@
Geral 1.-
D
RESUMO
Esta disserta!ão é uma leitura de A Paixão segundo G.H., de 5lari#e 'ispe#tor.
Aem #omo fo#o a questão da liberdade do homem no mundo e de suas possibilidades de
dizer, #omo tratadas no roman#e. 2pro"ima&se em diversos aspe#tos da #r$ti#a de 0enedito
)unes H obra da es#ritora, no que diz respeito H identifi#a!ão e Hs diferen!as entre 5lari#e e
o e"isten#ialismo de Cartre. Ima idéia de ritmo bin8rio é formulada, su#essão de
afirma!Fes e ne(a!Fes, que d8 #adên#ia ao te"to e o estrutura. Os dois tempos desse ritmo
são rela#ionados a duas idéias diferentes de liberdade, J1K a de poder Je ser obri(ado aK
es#olher e J;K a de não ser obri(ado a Jnem poderK es#olher. 4ormuladas #omo
#ara#ter$sti#as de dimensFes diferentes do ser humano, as duas vias que tais liberdades
abrem não podem ser sintetizadas numa Lni#a.
PALAVRAS-CHAVE
5'23>5E '>CPE5AO3, '>AE32AI32 032C>'E>32, 3O+2)5E 032C>'E>3O, EM>CAE)5>2'>C+O, '>0E3B2BE
<
ABSTRACT
Ahis dissertation is about 5lari#e 'ispe#torNs A Paixão Segundo G.H. >ts main
fo#us is on the issue of manOindNs freedom and its possibilities of sa6in(, as dealt Pith in
the novel. >n man6 respe#ts, it is #lose to 0enedito )unesN viePpoint in Phat re(ards the
similarities and differen#es betPeen 5lari#e 'ispe#tor and the Cartrean e"istentialism. 2
sense of binar6 rh6thm is built, sequen#e of statements and ne(atives, Phi#h stru#tures the
te"t and (ives it a #aden#e. Ahis rh6thmNs tPo tempos are related to tPo different ideas
about freedom. 4irst, the sense of bein( able Jhavin( toQbein( for#ed toK #hoose and,
se#ond, of not bein( for#ed to Jor bein( able toK #hoose. Enoun#ed as #hara#teristi#s of
human bein(sN different dimensions, the tPo paths opened up b6 these senses of freedom
#annot be mer(ed into a sin(le Phole.
KEYWORDS
5'23>5E '>CPE5AO3, 0327>'>2) '>AE32AI3E, 0327>'>2) )O:E', EM>CAE)A>2'>C+, 43EEBO+
=
Introdução !r! ro"#r o $%&'n(%o
2 #omple"idade de A Paixão segundo G.H. nun#a me abriu uma porta Lni#a para
entrar. 9 minha primeira leitura, h8 não muitos anos, porta al(uma foi aberta, nenhuma
que eu #onse(uisse definir sem dLvida #omo porta. Buas ou três leituras depois, tantas
portas tinham sido abertas que eu não sabia por qual delas entrar. )a inde#isão, per#ebi
todas elas se fe#hando de novo antes que eu entrasse. Bepois de um tempo, portas abertas
de novo, #ome#ei a entrar sem es#olher demais. 2 alternRn#ia entre nenhuma e muitas
portas ainda não parou. 9s vezes o livro me faz sentido nenhum, Hs vezes tantoJsK
sentidoJsK que tudo me pare#e Sbvio a ponto de nem mere#er ser e"presso.
)o pro#esso de tomar nota Jini#ialmenteK e es#rever a disserta!ão JultimamenteK,
#ada idéia de interpreta!ão deformou a anterior. 5ada nova leitura e #ada nova refle"ão me
e"i(iram repensar tudo. 5ada mudan!a na maneira #omo eu or(anizo, para mim, o livro,
pede a retomada de toda m$nima fra!ão das idéias que (uardo sobre ele.
2 or(aniza!ão deste te"to final da disserta!ão é o retrato de um per#urso. 2
prin#$pio, sem saber por que porta entrar, ele(i três & ordem, limpeza e beleza & sem a
preo#upa!ão, ainda, de sistematizar qualquer #oisa. Essa primeira apro"ima!ão resultou no
primeiro #ap$tulo. Ba an8lise da idéia de beleza, fui levado a pensar em #omo 5lari#e
estrutura seu roman#e, ainda nesse #ap$tulo. 2(ora, al(um tempo depois, essas primeiras
p8(inas me soam mais li(adas a uma tentativa de se fazer sujeito, a uma #ren!a em um tipo
de liberdade que me norteou e que eu re#onhe#i no roman#e.
uando terminei a reda!ão desse #ap$tulo, des#obri que ele fun#ionava para mim
#omo par8frase do te"to, e que eu pre#isava, então, sistematizar al(umas idéias. O se(undo
#ap$tulo é essa tentativa de reor(anizar o livro passando por elementos que estruturam sua
#onstru!ão & #omo se dão as rela!Fes temporais e #ausais, #omo se rela#ionam sujeito e
mundo, enun#iador, te"to e re#ep!ão. 'istei também uma pequena série de pro#edimentos
que dão ao roman#e determinado ritmo, que determinam a mar#ha do te"to em seus
(randes e em seus pequenos elementos. )esse #ap$tulo, as duas maneiras de entender
liberdade no te"to & possibilidade de es#olher e não obri(a!ão de es#olher & estão mais
balan#eadas e asso#iadas ao ritmo bin8rio, afirma!ão se(uida de ne(a!ão.
?
Por fim, no ter#eiro #ap$tulo, arrisquei um olhar mais leve sobre as questFes da
lin(ua(em e da liberdade, apro"imando meus pontos de vista dos do #r$ti#o 0enedito
)unes, e o te"to de 5lari#e dos de Cartre, fazendo as devidas distin!Fes.
Ae"to es#rito, fla(rei&me mudando a terminolo(ia, adi#ionando notas e parênteses a
fim de amole#er as afirma!Fes que pare#essem #ertas demais. Cinto que #ada linha poderia
ser melhor es#rita. Aentei tantas vezes (uardar distRn#ia do te"to de A Paixão segundo
G.H. ... penso Hs vezes que, é poss$vel, se tentasse por muito tempo ainda melhorar as
linhas desse trabalho, a#abaria, #omo Pierre +enard que es#reveu o ui"ote, es#revendo A
Paixão.
E
CAPÍTULO I
O IMPASSE COMO )OR*A MOTRI+ DO TE,TO
- - Tr'$ d#$(!"%n.o$ %d#!%$ - ord#"/ 0#&#1! # &%"#1!
)o #entro das dis#ussFes de G.,., tanto #omo persona(em envolvida na
e"periên#ia narrada quanto #omo narradora dos fatos, est8 a #ontraposi!ão entre dois pSlos,
fi(urados no livro de uma infinidade de maneiras. O primeiro pSlo & li(ado a palavra, a
forma, a valores e a si(nifi#ados & #hamaremos, para ini#iar as dis#ussFes, de moral. O
se(undo & o pSlo da e"istên#ia não si(nifi#ada nem avaliada, do informe, do in#ontido, do
or(Rni#o & ser8 #hamado, a prin#$pio, de neutro.
)o per#urso narrativo, +oral se identifi#a, por e"emplo, #om valores ideais, tais
#omo beleza, limpeza e ordem. Aais valores são desafiados pela for!a de uma e"istên#ia
#ontin(ente que toma a persona(em G.,. e relativiza si(nifi#ados e formas pré&#on#ebidas.
Em A Paixão Segundo G.H.
1
, o #onflito é e"presso pela in#on(ruên#ia entre os valores e
si(nifi#ados de G.,. antes do seu en#ontro #om a barata, pelos novos valores e
si(nifi#ados, apSs a e"periên#ia, e pelo #aos destitu$do de valores durante a e"periên#ia. 2
#ons#iên#ia da persona(em re#onhe#e par#elas de si e do mundo in#on#ili8veis #om seus
valores e si(nifi#ados, ou, talvez, #om quaisquer valores e si(nifi#ados. O enun#iado de
G.,. narradora é uma tentativa de dar uma forma ao informe que a in#omoda e se livrar do
des#onforto da falta de sentido de sua e"periên#ia.
Ima primeira leitura do depoimento de G.,. pode levar H suspeita de que sua
e"periên#ia #om a barata JepisSdio em torno do qual se or(anizam as tensFes narrativasK
seria es#lare#edora e JreKordenadora, o que faria #om que moralQnão&moral devessem se
arranjar em fun!ão dos tempos Jantes, depois e duranteK da e"periên#ia. )o entanto, essas
rela!Fes temporais não se formam de um modo a isolar o neutro e a#omod8&lo em palavra
num per$odo separado dos demais, justamente por de palavra não se tratar. 2 passa(em de
um estado a outro não se d8 de maneira definitiva, não sendo poss$vel tra!ar uma evolu!ão
que não possa ser questionada. Im estado não supera #om se(uran!a um estado anterior, o
1
PCG, & '>CPE5AO3, 5. A Paixão segundo G.H. 3io de TaneiroU 3o##o, 1--@.
@
que faz da passa(em do tempo, linear, #onforme o te"to é lido, uma dimensão diferente do
tempo que se enrola em si, supera e volta, #onstrSi e des#onstrSi.
;
2inda, #omo o te"to se
diz e se ne(a, torna&se dif$#il dizer o quanto são diferentes os estados de antes e depois da
e"periên#ia.
2 fim de per#orrer A Paixão segundo G.H., levantar questFes e fazer a primeira
apro"ima!ão ao #aos da e"periên#ia que o te"to se propFe retratar, es#olheu&se analisar o
modo #omo se d8 a rela!ão de G.,. #om os três #on#eitos & ordem, limpeza e beleza & e
investi(ar #omo essa rela!ão se modifi#a ao lon(o do te"to e de a#ordo #om a situa!ão
#onstru$da pela autora. 2#ompanhar o per#urso da narrativa pelo ponto de vista de #ada
uma dessas dimensFes morais é verifi#ar a medida em que #ada uma dessas dimensFes é
des#onstru$da #omo um aspe#to da des#onstru!ão da moral #omo um todo. 2inda, essa
tentativa de des#onstru!ão vale #omo amostra(em da difi#uldade Jse não impossibilidadeK
de G.,. para dizer o neutro, para superar o in#Vmodo da e"periên#ia e para or(anizar
qualquer #oisa sem que questione a or(aniza!ão a ponto de se paralisar. 2o #ontr8rio, toda
a estrutura interna da narrativa se estabele#e a#ompanhada pelo impasse, que tende a
impedir os movimentos e as supera!Fes. Os su#essos lo#ais são sempre #ontest8veis
quando dispostos numa es#ala de espa!o ou de tempo mais abran(ente ou quando da
mudan!a dos pontos de vista.
D#$or2!n%1!r - u" r%"#%ro o&.!r $o0r# o t#3to
Bos três valores ideais es#olhidos para a#ompanhar o per#urso de G.,., ordem é o
mais abran(ente. )ão é dif$#il rela#ion8&lo a limpeza e a beleza. Ce tudo estiver em seu
devido lu(ar, se(undo al(um prin#$pio de ordena!ão, pode&se dizer que h8 ordem e, por
deriva!ão, também limpeza. Bo mesmo modo, #ertas rela!Fes de simetria, #ertas
#ombina!Fes de #ores e de formas são sempre rela#ionados a beleza Jou a al(um #on#eito
de belezaK. 2ssim, ordem é o #on#eito ideal abran(ente que se opFe ao #aos, que
#orresponde ao mundo or(Rni#o não avaliado.
;
Pode&se dizer que h8 três (randes momentos no per#urso da persona(emU J1K G.,. antes da e"periên#ia, J;K
G.,. durante a e"periên#ia e JDK G.,. apSs a e"periên#ia. 2s #oisas se #ompli#am se #onsiderarmos o fato de
que em muitos momentos o tempo do narrador JDK e o da narrativa J;K se #onfundem. 2lém disso, tanto em
J;K quanto em JDK h8 movimento, evolu!ão, retro#esso e questionamento na apreensão e na refle"ão sobre a
e"periên#ia.
-
Besde a primeira linha de PCG,, h8 passa(ens que podem ilustrar a oposi!ão
ordemQ#aos, tensão #entral da obra e li(ada a moralQneutro. 'o(o no primeiro par8(rafo do
livroU
)ão sei o que fazer do que vivi, tenho medo dessa desor(aniza!ão
profunda. )ão #onfio no que me a#onte#eu. 2#onte#eu&me al(uma #oisa
que eu, pelo fato de não saber #omo viver, vivi uma outra? 2 isso queria
#hamar desor(aniza!ão, e teria a se(uran!a de me aventurar, porque
saberia depois para onde voltarU para a or(aniza!ão anterior. JPCG,, 11K
2 narrativa #ome!a e ordem e moral j8 estão asso#iadas. Bo mesmo modo, caos e
neutro. 2 prin#$pio, G.,. tende a rela#ionar também, inequivo#amente, moral a sua vida
anterior H e"periên#ia, e neutro ao nL#leo vivo do seu en#ontro #om a barata. Em
questionamentos posteriores, no entanto, G.,. relativizar8 as possibilidades de separa!ão
dos dois pSlos. 2 G.,. posterior H e"periên#ia é a que tenta fazer o dif$#il balan!o entre os
#omponentes opostos.
Para a minha anterior moralidade profunda & minha moralidade era o
desejo de entender e, #omo eu não entendia, eu arrumava as #oisas, foi
sS ontem e a(ora des#obri que sempre fora profundamente moralU eu sS
admitia a finalidade & para a minha profunda moralidade anterior, eu ter
des#oberto que estou tão #ruamente viva quanto essa #rua luz que ontem
aprendi, para aquela minha moralidade, a (lSria dura de estar viva é um
horror. JPCG,, ;;K
2ssim, ordem e moral asso#iadas, G.,. apresenta&se #om #erta #ompulsão para a
or(aniza!ão, derivada de seus bem delimitados prin#$pios morais & Wprofundamente moralW.
Aal disposi!ão a or(anizar torna&se in#ompat$vel #om a refle"ão desen#adeada pela
e"periên#ia vivida, e faz do #aos, vislumbrado a partir do en#ontro #om a barata, um terror
que se transfi(ura em medo. Por sua vez, medo se opFe a #ora(em, ne#ess8ria para in#luir
o #aos no rol de valores e si(nifi#ados do indiv$duo, em vez de i(nor8&lo ou enquadr8&lo
nos moldes pré&estabele#idos pela moral j8 internalizada. Em outras palavras, G.,. se
en#ontra frente a um dilemaU J1K jo(ar fora toda a re#ente e"periên#ia, J;K fra(ment8&la e
1.
distribu$&la pelos moldes antes e"istentes, o que seria o mesmo que destru$&la ou JDK
assimil8&la em novos moldes, o que e"i(iria que novos valores fossem #riados, que al(uns
dos anti(os fossem destru$dos e, num se(undo plano, um prin#$pio destruidor fosse
in#lu$do na sua moral, que assim seria menos r$(ida, disposta a #onstantes atualiza!Fes.
Essas três possibilidades, em termos dialéti#os, são manifesta!Fes de J1K não a#eitar a
ant$tese ao modo moral ini#ial, permane#endo num ponto que ser8 tese, no #aso de a tensão
poder ser entendida #omo um par dialéti#o* J;K des#artar a ant$tese por #onform8&la nos
moldes pré&estabele#idos pela tese* JDaK #onse(uir a s$ntese entre a moralidade anterior
JteseK e a e"periên#ia #om a barata e suas deriva!Fes Jant$teseK. 2inda, é poss$vel que JDbK
tese e ant$tese #onvivam na G.,. posterior H e"periên#ia sem que um modo sintéti#o seja
estabele#ido. Essa é a primeira bus#a em PCG, em rela!ão a suas possibilidades #omo
te"toU a tentativa de des#onstru!ão da moral anterior de G.,. Je"#essivamente r$(idaK #omo
meio de assimilar a e"periên#ia.
Ima ima(em forte dessa estrutura é o ser humano #om três pernas, modo pelo qual
a narradora des#reve sua e"istên#ia anterior ao en#ontro #om a barata. X humano um ser
humano de três pernas? Ce(undo G.,., e"#essivamente humano Jou, na transposi!ão da
ima(em para o #ampo dos valores, e"#essivamente moralK. E"pressa assim na ima(em
(rotes#a, a estrutura dialéti#a ini#ial, que pode levar da moral anterior a uma moral
posterior diferente, é, não sS o retrato de uma possibilidade, uma proposta para fazer do
humano apenas humano.
Perdi al(uma #oisa que me era essen#ial, o que j8 não é mais. )ão me é
ne#ess8ria, assim #omo se eu tivesse perdido uma ter#eira perna que até
então me impossibilitava de andar mas que fazia de mim um tripé
est8vel.
Essa ter#eira perna eu perdi. E voltei a ser uma pessoa que nun#a fui.
:oltei a ter o que nun#a tiveU apenas duas pernas. Cei que somente #om
duas pernas é que posso #aminhar. +as a ausên#ia inLtil da ter#eira me
faz falta e me assusta, era ela que fazia de mim uma #oisa en#ontr8vel
por mim mesma, e sem sequer pre#isar me pro#urar. JPCG,, 11&1;K
Besse modo, a G.,. anterior é apresentada #omo um equil$brio hiperest8ti#o, em
que os sustent8#ulos do equil$brio, as três pernas, são em nLmero maior do que o m$nimo
11
ne#ess8rio. 2 G.,. posterior, no entanto, #om apenas duas pernas, seria um equil$brio
isost8ti#o, e qualquer esfor!o adi#ional sobre ela faria #om que ela se movimentasse. Por
outro lado, a diminui!ão da ri(idez no equil$brio, embora dê menos sustenta!ão a #ada
posi!ão, pode ser en#arada #omo maior liberdade. +ais uma vez, o jo(o entre #ora(em e
medo apare#e. 2 #ora(em rela#iona&se ao #aos, é #ondi!ão ne#ess8ria para enfrent8&lo
sem, pre#ipitadamente, se render H forma f8#il e aprisionar o #aos em moldes r$(idos e pré&
#on#ebidos. 3ela#iona&se também H liberdade de #aminhar #om apenas duas pernas. )o
entanto, essa mesma liberdade é #ontestada na seqYên#ia do te"to.
+as e a(ora? estarei mais livre?
)ão. JPCG,, 1;K
Esta não&liberdade que G.,. atribui a si pare#e ser resultado da nova ordem, que
embora menos r$(ida Japenas duas pernasK, ainda é ordem. uando se est8 no pSlo da
ordem, torna&se dif$#il vislumbrar o pSlo oposto, que não #abe nas #ate(orias dessa
or(aniza!ão, ou de or(aniza!ão al(uma. O que faz, no #aso de G.,., #om que uma ordem
se diferen#ie qualitativamente da outra é a #ora(em, a disposi!ão para dei"ar a ordem e
perder&se, o que pode ser entendido #omo a disponibilidade que a moral deve ter para
in#luir a possibilidade de ser insufi#iente ou inadequada. Enquanto G.,. #ontinua tentando
enquadrar a e"periên#ia em formatos pré&determinados sem a disposi!ão de des#artar tais
formatos, a liberdade não se apresenta, e a or(aniza!ão de G.,. não difere
si(nifi#ativamente da que ela utilizava antes de sua e"periên#ia. )esse in$#io de te"to, a
persona(em os#ila ainda entre a moral r$(ida anti(a e a possibilidade de uma nova moral,
mais fle"$vel, enquanto o novo prin#$pio or(anizador J+oralK vai sendo formado Je
deformadoK ao lon(o de suas refle"Fes. 2inda re(ida pela moral r$(ida anterior, apenas
ordem JbemK e desordem JmalK disso#iadas podem ser re#onhe#idas. Pela estrutura moral
anterior, não é poss$vel uma ordem que a#eite a possibilidade da desordem em seus
prSprios prin#$pios. J+esmo porque o prin#$pio moral anterior se vê #omo #apaz e, assim,
não vê a ne#essidade de uma moral que não seja ele mesmoK. 2inda, um novo sistema
moral é uma proposta, não Jao menos por enquantoK al(o estabele#ido, para #onse(uir
formalizar a e"periên#ia heterodo"a #om a barata. )ão é (arantido, a prin#$pio, que a
1;
disposi!ão para mudar e fle"ibilizar valores e si(nifi#ados dê resultado satisfatSrio lo(o
que se #onfi(ure e tente se estabele#er.
5ontr8rio H #ora(em, o medo asso#ia&se H paralisa!ão, ao e"#esso de se(uran!a, Hs
três pernas e H ordem e"#essiva, talvez desne#ess8ria.
Estou desor(anizada porque perdi o que não pre#isava? )esta minha
nova #ovardia & a #ovardia é o que de mais novo me a#onte#eu, é a
minha maior aventura, essa minha #ovardia é um #ampo tão amplo que
sS a (rande #ora(em me leva a a#eit8&la &, na minha nova #ovardia, que é
#omo a#ordar de manhã na #asa de um estran(eiro, não sei se terei
#ora(em de simplesmente ir. X dif$#il perder&se. X tão dif$#il que
provavelmente arrumarei depressa um modo de me a#har, mesmo que
a#har&me seja de novo a mentira de que vivo. JPCG,, 1;K
Por medo JW#ovardiaWK em rela!ão H nova des#oberta & a desor(aniza!ão &, G.,.
suspeita que lo(o en#ontrar8 uma nova or(aniza!ão, e a isso d8 o nome de WmentiraW.
Embora não se e"pli#ite, no tre#ho a#ima, por #ontraste é poss$vel inferir que o pSlo da
desordem, neutro, rela#iona&se #om verdade. E que as diferentes ordens poss$veis seriam
diferentes mentiras. Ce a nova ordem in#luir em si a disposi!ão para mudar J#ora(emK, ser8
si(nifi#ativamente diferente da anterior. Ce não, ser8 mais um sistema r$(ido de valores.
3efor!a&se assim a proposta de que se dei"e o e"#esso de moral Jor(aniza!ãoK, a(ora
#hamado de WmentiraW, e que, por de#orrên#ia, apro"ime&se do pSlo neutro, WverdadeW.
Ima #ompli#a!ão, no entanto, pode e"istir nessa proposi!ãoU ao #aos não se #he(aria pela
ordem, pois não se trata de e"tremos opostos de uma es#ala, mas de entidades
qualitativamente diferentes. )ão bastaria eliminar o e"#esso de ordem, mas in#luir nesta
ordem a disposi!ão J#ora(emK de, vez por outra, abandonar&se no #aos.
Ontem no entanto perdi durante horas e horas a minha monta(em
humana. Ce tiver #ora(em, eu me dei"arei #ontinuar perdida. +as tenho
medo do que é novo e tenho medo de viver o que não entendo & quero
sempre ter a (arantia de pelo menos estar pensando que entendo, não sei
me entre(ar H desorienta!ão. JPCG,, 1;&1DK
1D
)este primeiro momento, o de des#onstru!ão de valores, livrar&se das estruturas
r$(idas or(anizadas se torna tão ne#ess8rio aos objetivos lo#ais que a#aba se atribuindo ao
objetivo Jo sujeito desprovido de #onstru!Fes desne#ess8rias que o dei"am r$(ido demaisK
o valor de verdade. +ais tarde, G.,. questiona o movimento de des#onstru!ão e a sua
valoriza!ão e"#essiva. O que antes pare#ia verdade Jo pSlo neutro e a des#oberta desse
pSloK, é relativizado em verdade par#ial, parte de uma estrutura dupla, moral e neutra, que
#ara#terizaria a #ondi!ão humana. Ima nova moral não seria, mesmo sendo menos r$(ida,
a desordem que ela pretenderia simular.
4inalmente, a #ovardia se asso#ia #om a vontade de entender, a ne#essidade de dar
forma H e"periên#ia. 2 persona(em tem medo de não entender, não poder prever, não
poder formular. O medo de G.,. é o de simplesmente #aminhar, simplesmente WserW, viver
num plano anterior ao de poder formular, diferente do plano da palavra e de qualquer
forma ou ordem.
5omo é que se e"pli#a que meu maior medo seja e"atamente em rela!ãoU
a ser? e no entanto não h8 outro #aminho. 5omo se e"pli#a que o meu
maior medo seja justamente o de ir vivendo o que for sendo? #omo é que
se e"pli#a que eu não tolere ver, sS porque a vida não é o que eu pensava
e sim outra & #omo se antes eu tivesse sabido o que eraZ JPCG,, 1DK
Ba suposi!ão de sempre ser poss$vel or(anizar, a G.,. anterior H e"periên#ia
a(arra&se H idéia de haver uma seqYên#ia lS(i#a no viver e que seu esfor!o de ordem atual
e o poss$vel sofrimento de#orrente desse esfor!o, que #alaria uma por!ão desor(anizada de
si mesma, seriam #ompensados por al(o futuro. Em diversas passa(ens do livro, esta idéia
de sa#rif$#io atual pela re#ompensa futura é formalizada pela palavra Wesperan!aW. 2
esperan!a, para G.,., li(a&se assim a seu medo. 2 esperan!a é o sentimento que sustenta a
ordem atual e o medo é o que evita que a desordem se apodere da e"istên#ia da
persona(em. O binVmio esperança e medo é #ertamente sustent8#ulo da idéia b$bli#a da
Pai"ão, ou seja, o sofrimento atual de um indiv$duo pelo bem futuro de todos e de si. Pode
ser lida, por e"emplo em termos freudianos
D
, #omo a minimiza!ão das manifesta!Fes das
pulsFes a(ressivas e erSti#as Jtanatos e erosK em fun!ão da ordem #ivilizatSria. O mal&estar
seria aquietado pela esperan!a, enquanto eros e tanatos seriam paralisados pelo medo, que
D
43EIB, C. WO +al estar na #iviliza!ãoW InU Os Pensadores: reud !".#$%. Cão PauloU 2bril 5ultural, 1-E@.
1<
se apro"ima bastante da idéia do sentimento de #ulpa feito do embate da ordem
#ivilizatSria e do supere(o #om as pulsFes primitivas animais.
)o #omplemento do primeiro #ap$tulo do livro, passa&se então a des#rever a tensão
entre ordem e #aos em termos da possibilidade de formalizar em palavras a e"periên#ia
não&verbal. 2 prin#$pio, G.,. não a#redita nessa possibilidade embora não veja outra
alternativa a não ser or(anizar o que viveu, #omo se or(anizar fosse a #ondi!ão humana, ou
parte dela. )essa or(aniza!ão do #aos, perde&se a e"periên#ia, tem&se apenas uma suspeita
do que ela foi. 2ssim, uma tensão do te"to se #onstitui em torno de formalizar e dizer al(o
in#ompleto ou qualitativamente diferente da e"periên#ia, ou #alar&se. )o entanto, a
an(Lstia produzida pelo silên#io não seria suport8vel e, mais uma vez, dizer Jformalizar,
or(anizarK #onstitui&se #omo fatalmente humanoU o Lni#o #aminho poss$vel é fra#assado no
fundamento. 2 diferen!a entre a e"periên#ia e a forma JpalavrasK #onse(uida ini#ialmente
é tão (rande que #he(a&se mesmo a duvidar da e"periên#ia vivida, que tem mar#as na
memSria, embora não formalizadas. Ou, as mar#as na memSria estão formalizadas e j8
perderam o informe da e"periên#ia.
uem sabe nada e"istiuZ uem sabe me a#onte#eu apenas uma lenta e
(rande dissolu!ão? E que minha luta #ontra essa desinte(ra!ão est8
sendo estaU a de tentar a(ora dar&lhe uma forma? Ima forma #ontorna o
#aos, uma forma d8 #onstru!ão H substRn#ia amorfa & a visão de uma
#arne infinita é a visão dos lou#os, mas se eu #ortar a #arne em peda!os e
distribu$&los pelos dias e pelas fomes & então ela não ser8 mais perdi!ão e
lou#uraU ser8 de novo a vida humanizada. JPCG,, 1<K
2 e"periên#ia e"istiu justamente pela não&or(aniza!ão, e sS seria reatin(ida pela
não&or(aniza!ão. 2 or(aniza!ão fun#ionaria, se tanto, #omo um simula#ro da
desor(aniza!ão. X a idéia da obra de arte que tenta se apro"imar do Jsimular umK
indiz$vel
<
, a ordem que bus#a a desordem, o Wes#orpião en#ala#radoW Jima(em utilizada por
Bavi 2rri(u##i Tr. para des#rever a obra de Tulio 5ort8zar
=
K. 5omo o des#rito tantas vezes
na obra de 5lari#e, por e"emplo em &gua 'i"a
(
e na prSpria PaixãoU
<
Ou, de maneira alternativa, pode ser a obra de arte que questiona as possibilidades de dizer, questiona a si
mesma, questiona a lin(ua(em e afirma&se #omo fra#asso, sempre simula!ão, nun#a a e"periên#ia.
=
233>GI55> T3., B. O )scorpião )ncalacrado. Cão PauloU Perspe#tiva, 1--=.
?
2: & '>CPE5AO3, 5. &gua 'i"a. 3io de TaneiroU 3o##o, 1---.
1=
Ouve&me, ouve meu silên#io. O que falo nun#a é o que falo e sim outra
#oisa. J2:, ;@K
O melhor ainda não foi es#rito. O melhor est8 nas entrelinhas. J2:, @?K
O indiz$vel sS poder8 ser me dado pelo fra#asso da minha lin(ua(em
JPCG,, 1E?K
Então es#rever é o modo de quem tem a palavra #omo is#aU a palavra
pes#ando o que não é palavra. uando essa não&palavra & a entrelinha &
morde a is#a, al(uma #oisa se es#reveu. Ima vez que se pes#ou a
entrelinha, poder&se&ia #om al$vio jo(ar a palavra fora. +as a$ #essa a
analo(iaU a não&palavra, ao morder a is#a, in#orporou&a. J2:, ;.K
2 distRn#ia entre a palavra e a #oisa é mostrada também, por G.,., simboli#amente,
em seu prSprio nome. WG.,.W, que é menos que um nome, est8 para as possibilidades da
palavra assim #omo as palavras estão para as #oisas. O nome que é ainda menos que um
nome, G.,., simboliza a in#ompletude que é a palavra diante das #oisas.
O resto era o modo #omo pou#o a pou#o eu havia me transformado na
pessoa que tem o meu nome.
E a#abei sendo o meu nome. X sufi#iente ver no #ouro de minhas valises
as ini#iais G.,., e eis&me. Aambém dos outros eu não e"i(ia mais do que
a primeira #obertura das ini#iais do nome. JPCG,, ;=K
Aambém no tre#ho #itado WIma forma #ontorna o #aos, uma forma d8 #onstru!ão H
substRn#ia amorfa & a visão de uma #arne infinita é a visão dos lou#os, mas se eu #ortar a
#arne em peda!os e distribu$&los pelos dias e pelas fomes & então ela não ser8 mais perdi!ão
e lou#uraU ser8 de novo a vida humanizada.W, a #arne #ortada em peda!os remete ao
pro#edimento do *ragmento na es#rita de 5lari#e. 2inda que a soma simples dos
fra(mentos não reproduza o todo, pois nenhuma forma #ontornar8 o infinito, o fra(mento é
Ltil #omo re#urso de es#rita na medida, justamente, em que #on#retiza em si a idéia da
par#ialidade na representa!ão Jsimula!ãoK de um todo. O fra(mento, enquanto forma
par#ial, tem em si a idéia da pre#ariedade da forma e, parado"almente, por assumir&se
par#ial, #onfi(ura melhor a totalidade do que uma simula!ão que se afirme total. Esse é um
1?
dos tantos esfor!os de 5lari#e 'ispe#tor para não e"#luir da sua tentativa de te"to a idéia
de que é te"to Jartif$#io, #onstru!ãoK e não uma e"periên#ia mimetizada.
2inda, se a narrativa #aminha basi#amente por questionamentos de um indiv$duo
diante do mundo, não se pode i(norar que as possibilidades de ordena!ão #om as quais
G.,. pauta sua vida são #ompartilhadas entre ela e um (rupo so#ial & a razo8vel
objetividade da palavra e a fé J#onfian!aK em que o que se diz ser8 entendido. )ão é
#asual, por e"emplo, que a e"periên#ia de G.,. se dê num #anto esque#ido de seu
apartamento. O quarto dos fundos Jque pode simbolizar as profundezas da psi#olo(ia da
persona(em, esque#ida, afastada do dia&a&diaK é sem dLvida também uma referên#ia so#ial.
X no quarto da empre(ada que G.,. se desnuda de sua moralidade e en#ara&se amoral. O
movimento é semelhante a v8rios outros no livroU a persona(em vai de um pSlo JpatroaK a
outro Jempre(adaK de modo a definir o tipo de rela!ão a ser questionada. O oposto
eviden#ia a relativiza!ão da #ate(oria ini#ial, mas é, em (eral, na anula!ão de ambas as
#ate(orias, ou na anula!ão de sua oposi!ão, que se(ue a narrativa. )o #aso a(ora dis#utido,
a apresenta!ão dos dois pSlos da ordem so#ial é substitu$do pelo JdesK#aminho neutro, da
e"periên#ia do indiv$duo, independente de qualquer ordena!ão de #lasse.
,avia anos que eu sS tinha sido jul(ada pelos meus pares e pelo meu
prSprio ambiente, que eram, em suma, feitos por mim mesma e para
mim mesma. JPCG,, <.K
2ssim, embora não seja tão e"pl$#ito na obra J#omo o é, por e"emplo, em A Hora
da )strelaK, a ordem so#ial é enun#iada em #r$ti#a. 2 inser!ão so#ial e histSri#a da obra se
d8, além de em passa(ens #omo a #ita!ão do quarto da empre(ada, em estruturas mais
profundas da #onstru!ão narrativa. )os termos de 2dorno, em W'$ri#a e Co#iedadeW
E
, o
te"to #lari#eano não se isolaria da so#iedade em que a obra est8 inserida mesmo que não
fizesse referên#ia direta Je não é o #asoK a elementos estruturadores dessa so#iedade, na
medida em que a verdadeira obra de arte
@
ultrapassaria as ideolo(ias para poder dizer o que
estas es#ondem, embora permita leituras menos abran(entes em que a subjetividade do
enun#iador afasta&se de sua so#iedade. 5omo na passa(em a se(uir, a persona(em G.,. é
retratada lon(e do #onv$vio so#ial, mas repleta de elementos representantes da estrutura
E
2BO3)O, A. W'$ri#a e Co#iedadeW, InU Os Pensadores v. D@. Cão PauloU 2bril 5ultural, 1-@..
@
:ale dizer que WverdadeiraW não #ombinaria #om Wobra de arteW se(undo o dis#urso de G.,. em PCG,.
1E
so#ial. G.,. é espelho de uma #lasse, em v8rios aspe#tos, e de uma ideolo(ia que
ultrapassa os limites de #lasse desde o momento de seu nas#imento, o que pode ser
#hamado de uma moral.
Eu não me impunha um papel mas me or(anizara para ser #ompreendida
por mim, não suportaria não me en#ontrar no #at8lo(o. +inha per(unta,
se havia, não eraU “que sou%, mas “entre quais sou%. +eu #i#lo era
#ompletoU o que eu vivia no presente j8 se #ondi#ionava para que eu
pudesse posteriormente me entender. Im olho vi(iava a minha vida. 2
esse olho ora provavelmente eu #hamava de verdade, ora de moral, ora
de lei humana, ora de Beus, ora de mim. Eu vivia mais dentro de um
espelho. Bois minutos depois de nas#er eu j8 havia perdido minhas
ori(ens.
-
JPCG,, ;@K
Aal submissão a valores e si(nifi#ados de um (rupo fazem #om que o #on#eito de
ordem não seja puramente lS(i#o&matem8ti#o, mas moral. O #on#eito de ordem, para a
G.,. inserida em seu meio, não est8 e"#lusivamente rela#ionado, por e"emplo, a entropia
Jmedida matem8ti#a do (rau de desordem de um sistemaK, mas a um jul(amento de #erto e
errado. Ordem, para a G.,. moral, é #orreto e asso#ia&se a bom J(ostoK, enquanto
desordem é mau&(osto. Besordem é imoral aos olhos ideolS(i#os de G.,. )o entanto, H
G.,. inserida na e"periên#ia #om a barata, o que antes era desordem torna&se, de a#ordo
#om o des#rito por ela, neutro e não submetido a jul(amentos morais, amoral portanto.
Im passo antes do #l$ma", um passo antes da revolu!ão, um passo antes
do que se #hama amor. Im passo antes de minha vida & que, por uma
espé#ie de forte $mã ao #ontr8rio, eu não transformava em vida* e
também por uma vontade de ordem. ,8 um mau&(osto na desordem de
viver. E mesmo eu nem saberia, se tivesse desejado, transformar esse
passo latente em passo real. JPCG,, ;@K
Ce, por um lado, a des#onstru!ão ideolS(i#a pare#e induzir a idéia de um ser
humano essen#ialmente amoral e sem ordem, por outro h8, ao lon(o do te"to, diversas
-
)este tre#ho h8 também a separa!ão entre eu e mim, o que revela uma #ondi!ão tanto subjetiva quanto
objetiva do ser humano retratado em G.,., produto das es#olhas de um eu e produto das es#olhas de um mim.
1@
passa(ens que revelam o ser humano #omo um sujeito or(anizador.
E não apenas viva & #omo estava apenas viva aquela barata
primariamente monstruosa & mas or(anizadamente viva #omo uma
pessoa. JPCG,, --K
X nessa par#ela or(anizadora que se diferen#ia o humano do or(Rni#o. Em A
Paixão Segundo G.H., diversas vezes apare#e a palavra WhumanoW, ou derivadas desta, para
se referir justamente a essa #ara#ter$sti#a humana que diferen#ia o homem do animal. O
per#urso do livro, no entanto, é #umprido em uma primeira parte Jdes#onstru!ão moralK
mais pela simula!ão do solo inumano, o mundo monstruoso da barata & o neutro que
também est8 no homem mas que não é o que o faz espe#ifi#amente humano & do que pela
apresenta!ão da par#ela humana or(anizada e verbaliz8vel.
2ssim, em A Paixão Segundo G.H., apesar de o livro poder ser asso#iado a um
movimento de des#onstru!ão, um #onvite ao amoral Jo que, do ponto de vista da
moralidade, in#luiria o moral e o imoral, sem fazer jul(amentoK, o ser humano é des#rito
#omo inevitavelmente or(anizador JmoralK. Besse modo, h8, não um movimento de
simples des#onstru!ão, mas a #r$ti#a H #onstru!ão reifi#ada. 2 or(aniza!ão #adu#a e
e"#essiva é que é alvo de #r$ti#a. Ce or(anizar é inevit8vel, que se o fa!a mantendo a
#ons#iên#ia de que se trata de uma #onstru!ão que flutua no ar. :olta&se então H idéia de
que a elimina!ão irrestrita da ordem não é uma es#olha humana. 2 elimina!ão da ordem se
daria, de a#ordo #om o te"to, apenas nos #onhe#idos momentos epifRni#os #lari#eanos, na
#omunhão #om o indiz$vel. 2 proposta, se h8 uma, é o estabele#imento de uma ordem que
in#lua em si a possibilidade de estar errada, o que faz dessa or(aniza!ão al(o mais
dinRmi#o que r$(idos #on#eitos de #erto e errado, #omo no #aso da elimina!ão da ter#eira
perna Jo e"#esso de humanidade que é desumanidadeK, o que não elimina o equil$brio mas
d8 a ele al(uma liberdade. +ais do que isso, vislumbrar a desordem numa e"periên#ia
epifRni#a seria o inespe#$fi#o na e"istên#ia, j8 que a or(aniza!ão é que é o espe#ifi#amente
humano. Or(anizar é inevit8vel. 3esta então o modo de ser or(anizado.
O par8(rafo a se(uir ilustra bem muito do j8 dito até aquiU
'evantei&me enfim da mesa do #afé, essa mulher. )ão ter naquele dia
nenhuma empre(ada iria me dar o tipo de atividade que eu queriaU o de
1-
arrumar. Cempre (ostei de arrumar. Cuponho que esta seja a minha Lni#a
vo#a!ão verdadeira. Ordenando as #oisas, eu #rio e entendo ao mesmo
tempo. +as tendo aos pou#os, por meio de dinheiro razoavelmente bem
investido, enrique#ido o sufi#iente, isso impediu&me de usar essa minha
vo#a!ãoU não perten#esse eu por dinheiro e por #ultura H #lasse a que
perten!o, e teria normalmente tido o empre(o de arrumadeira numa
(rande #asa de ri#os, onde h8 muito o que arrumar. 2rrumar é a#har a
mel+or *orma.
1.
JPCG,, DDK
W+elhorW, nesse #onte"to, pare#e menos um jul(amento moral abran(ente que a
satisfa!ão $ntima de um motivo. W+elhorW é um jeito que sirva H ne#essidade de matar uma
fome, seja ele qual for, sem ter que se ajustar a um modelo (eneraliz8vel e ideal.
[ [ [
Em A Paixão Segundo G.H. é, assim, #entral a oposi!ão entre ordem e desordem.
Bependendo dos olhos de quem lê, pode ser vista #omo a #ontraposi!ão entre #ons#iente e
in#ons#iente Jpsi#an8liseK, ou entre apol$neo e dionis$a#o J)ietzs#heK, por e"emplo, além
de v8rias outras possibilidades de re#ortar e or(anizar o livro. 5omo qualquer sistema de
idéias, as idéias de 4reud e )ietzs#he podem se adaptar bem ou mal ao objeto que pre#isa
ser dito. Para 5lari#e, em A Paixão Segundo G.H., pare#e razo8vel que qualquer destes ou
quaisquer outros sistemas de idéias jamais se adaptem #ompletamente ao objeto. 2mbos
são Lteis e par#iais Jpois, enquanto sistema, são dis#urso, ordem que se opFe ao #aosK.
2l(o que diferen#iaria no fundamento um sistema de outro seria a in#lusão da
possibilidade da falha. >sso d8 dinRmi#a ao homem que adere a um ou a outro sistema.
5lari#e refere&se sempre, no livro, a WmoralW, al(o que faz desses sistemas de idéias
entes ne#essariamente li(ados a valores. Im sistema moral e"#essivamente r$(ido, #omo o
em que estava inserida G.,. antes de sua e"periên#ia epifRni#a, não in#lui nele mesmo a
possibilidade de ser falho nem a maleabilidade para se moldar, se ne#ess8rio for, para
melhor simular um mundo. Presa nesta moral, G.,. é medrosa, o que equivale a dizer que
ela re#eia o novo e tende a permane#er #om os mesmos valores, a não ser que uma
e"periên#ia radi#al #omo foi a que teve a empurre para outro lu(ar. 2 difi#uldade de
1.
J(rifos meusK
;.
assumir a nova moral est8 justamente na falta de #ora(em, ou seja, o medo li(ado H moral
anterior. 2 #ora(em é o elemento que faria a diferen!a si(nifi#ativa entre a moral anterior e
a nova moral e permitiria que o indiv$duo se dei"asse, por vezes, no in#ompreens$vel,
a#eitando a falha Ja possibilidade de o sistema moral não #ompreender a e"periên#ia #omo
um todoK. X também da #ora(em e da a!ão Jque se opFem H ina!ão provo#ada pelo medoK
que sur(e a possibilidade de que a nova moral seja dinRmi#a, mold8vel. )este ponto, ação
se #onfunde #om es#olha e liberdade, e se opFe ao medo, que estaria asso#iado a uma
estrutura equivalente H m8&fé sartriana, e que impediria o homem de se #onhe#er e de se
fazer sujeito no mundo.
Su4#%r! - "!%$ !&2un$ #$!$"o$
5omo j8 foi dito, limpeza, assim #omo ordem, asso#ia&se a valores ideais
adquiridos durante a forma!ão do indiv$duo para fa#ilitar sua vida em so#iedade e a
e"istên#ia da so#iedade em rela!ão a ele. 4az parte de um #onjunto b8si#o de re(ras para
distin(uir #erto e errado. Bifere da ordem, no entanto, por ser mais espe#$fi#o. X poss$vel
entender limpeza #omo um tipo de ordem. Bentro das possibilidades de si(nifi#a!ão,
limpeza é um #on#eito prS"imo de hi(iene e, assim, muitas vezes se rela#iona diretamente
#om o #orpo humano e sensibiliza os diferentes Sr(ãos dos sentidos. Ordem afeta, de modo
(eral, ini#ialmente a visão. 'impeza ou sujeira podem ser re#onhe#idas pelo olfato e pelo
paladar, por e"emplo, portas mais es#an#aradas para as v$s#eras humanas, e, pelo menos
nesse aspe#to, rela#ionam&se de maneira mais imediata #om a fa#eta animal J#orpoK do
homem. Por essa espe#ifi#idade em rela!ão H ordem, a des#onstru!ão do #on#eito do que
seja limpo abre as portas para a e"plora!ão do in#ontrol8vel humano em suas rea!Fes
espasmSdi#as, imediatas, #aSti#as e in#ontinentes.
)o #aso da limpeza Je de ordem também, é poss$vel em al(uns #asosK, a rea!ão
adversa provo#a a suspensão dos #ontroles usuais e das #adeias #ausais e temporais. Cob
efeito do nojo e"tremo, suspende&se o mundo & o indiv$duo passa a ser apenas seu nojo e o
desespero de livrar&se dele. OuU suspendem&se as distRn#ias entre o sujeito e o mundo,
sendo tudo o nojo. Aorna&se mais evidente, assim, a difi#uldade de separar o moral do não&
moral nesta dimensão em que o #on#eito #onstru$do histori#amente e so#ialmente provo#a
;1
uma rea!ão e leva o indiv$duo ao in#ontrol8vel. O indiv$duo tem restrin(idas suas
possibilidades de es#olha.
O prin#$pio que re(e a moral de G.,. em rela!ão H limpeza é des#rito ini#ialmente
#omo o de uma vestal. :esta, a deusa romana equivalente H (re(a ,éstia, era a respons8vel
pela #onserva!ão do fo(o do qual dependeria a salva!ão da #idade. 2s vestais eram
sa#erdotisas, vir(ens #omo :esta, que tornariam poss$vel a missão da deusa. Parte do
trabalho das vestais era então a limpeza do templo. Em 3oma, instituiu&se a :est8lia, festa
(randiosa realizada sempre na mesma épo#a do ano, épo#a de maus au(Lrios, para a
purifi#a!ão da #idade. 2 purifi#a!ão sS era #onsiderada #ompleta quando todo o li"o da
#idade era jo(ado num rio. O fato de a limpeza ser feita e"atamente apSs uma (rande festa
não é #asual. X a manuten!ão da limpeza e da ordem da #idade depois da sujeira e da
desordem autorizadas. W:estalW, em A paixão segundo G.H., é um s$mbolo forte de
limpeza, #omo a deusa :esta e suas sa#erdotisas vestais, asso#iado H #onserva!ão dos
prin#$pios morais, da fam$lia e da #idade. Evidentemente, limpeza e ordem estão
asso#iadas nas fi(uras m$ti#as de :esta e das vestais. 2 e"periên#ia de G.,. #om a barata é
diretamente asso#iada H sujeira e, em paralelo, H suspensão da vi(ên#ia da moral, enquanto
a vestal representa a moral que se esfor!a em (uardar a ordem e a limpeza tradi#ionais.
5urioso também é que a sujeira é autorizada em determinado momento por uma instRn#ia
li(ada H moral & as vestais fazem parte do sistema normativo &, o que retrata a des#onfian!a
impl$#ita no dis#urso de G.,. em rela!ão H suspensão f8#il e inten#ional das leis morais.
Cou a vestal de um se(redo que não sei mais qual foi. E sirvo ao peri(o
esque#ido. Coube o que não pude entender, minha bo#a fi#ou selada, e
sS me restaram os fra(mentos in#ompreens$veis de um ritual. JPCG,,
1?K
Besse modo, a suspensão das leis morais tem que passar por Je fi#a sempre
asso#iada aK leis rituais. Estes en#adeamentos lS(i#o&m8(i#os são re#orrentes na obra de
5lari#e 'ispe#tor e respondem pela apro"ima!ão do indiv$duo H re(ião do impasse em que
ele estaria i(ualmente sujeito aos des$(nios do #ontrol8vel e do não&#ontrol8vel.
2 limpeza é, assim, um ideal de ordem sobre as ne#essidades f$si#as, Hs vezes
pulsionais. X ne#ess8rio, por e"emplo, #omer Wdeli#adamenteW, sem se sujar.
;;
Esse modo de não ser era tão mais a(rad8vel, tão mais limpoU pois, sem
estar a(ora sendo irVni#a, sou uma mulher de esp$rito. E de #orpo
espirituoso. 9 mesa do #afé eu me enquadrava #om meu robe bran#o,
meu rosto limpo e bem es#ulpido, e um #orpo simples. Be mim
irradiava&se a espé#ie de bondade que vem da indul(ên#ia pelos prSprios
prazeres e pelos prazeres dos outros. Eu #omia deli#adamente o meu, e
deli#adamente en"u(ava a bo#a #om o (uardanapo. JPCG,, D;K
2 limpeza asso#ia&se também H beleza #omo, por e"emplo, um de seus #ritérios.
2mbas, limpeza e beleza, fazem parte do sistema moral em que G.,. se insere. 0asta a ela
que reproduza os valores desse sistema para que seja re#onhe#ida pelos demais membros
do (rupo #omo al(uém bonito e limpo. 2o mesmo tempo, (anhar8 outras qualidades
valorizadas no (rupo, #omo (enerosidade e (ra!a. Em a#ordo #om tais #ritérios, uma
pessoa, #omo G.,., #ria a ima(em de inofensiva Jnão ofere#e ris#os ao (rupoK. 2
passa(em a se(uir ilustra bastante bem toda essa asso#ia!ão de idéiasU
Enquanto eu mesma era, mais do que limpa e #orreta, era uma répli#a
bonita. Pois tudo isso é o que provavelmente me torna (enerosa e bonita.
0asta o olhar de um homem e"perimentado para que ele avalie que eis
uma mulher de (enerosidade e (ra!a, e que não d8 trabalho, e que não
rSi um homemU mulher que sorri e ri. 3espeito o prazer alheio, e
deli#adamente eu #omo o meu prazer, o tédio me alimenta e
deli#adamente me #ome, o do#e tédio de uma lua&de&mel. JPCG,, D1K
Essa idéia de #ita!ão dos #omportamentos do (rupo em vez de a!ão #om maior
autoria repete&se ao lon(o do livro. Os valores do (rupo ditam #omportamentos, o que
si(nifi#a que os motivos dos homens tornam&se e"teriores a eles mesmos. 2 alma Janima,
aquilo que d8 a vida, prin#$pio motorK dos seres Jnão é razo8vel utilizar a palavra
Windiv$duoW nesse #onte"toK é e"terior a eles. O per#urso de G.,. aponta, #omo ser8
dis#utido mais H frente, para uma rela!ão menos submissa entre o homem e o mundo, de
modo que seus prSprios motivos sejam #onsiderados em sua e"istên#ia. 2ssim, o homem
se moveria por uma asso#ia!ão entre sua alma no (rupo so#ial e sua alma, a(ora sim,
individual.
;D
)a passa(em da p8(ina D;, #itada h8 pou#o, pare#e haver uma ironia fina na
#ontraposi!ão dessa alma motora e a palavra Wesp$ritoW, que seria o modo de #lassifi#ar
edu#adamente al(uém que se(uisse H ris#a, sem e"a(eros, os pre#eitos da moral do (rupo.
)a mesma frase, a observa!ão Wsem estar a(ora sendo irVni#aW intensifi#a o tom irVni#o da
passa(em. >ronia, no sentido de Wdis#urso distan#iadoW. Biz&se uma #oisa, para dizer o
#ontr8rio. Be determinado ponto de vista moral, Wesp$ritoW é, em al(umas a#ep!Fes, o
#ontr8rio do que é WalmaW.
2 primeira ima(em importante que asso#ia, no livro, a e"periên#ia de G.,. #om a
barata #omo al(o sujo é o quarto da empre(ada. 2 e"pe#tativa de G.,. é a de en#ontrar um
quarto sujo e, que por um prin#$pio moral & por ser sujeira &, deve ser evitado ou es#ondido.
o quarto da empre(ada devia estar imundo, na sua dupla fun!ão de
dormida e depSsito de trapos, malas velhas, jornais anti(os, papéis de
embrulho e barbantes inLteis. Eu o dei"aria limpo e pronto para a nova
empre(ada. JPCG,, D<K
)o entanto, o que ela en#ontra é um quarto limpo e arrumado pela empre(ada
Tanair, que no silên#io fez #om que mesmo as por!Fes mais es#ondidas da #asa estivessem
arrumadas. X #omo se houvesse diferentes #amadas de e"istên#ia, mais ou menos
a#ess$veis, sobrepostas, e que todas as #amadas que G.,. podia al#an!ar, da sala ao quarto
de empre(ada, estivessem submetidas a sua r$(ida moral. E que a vida nua, amoral,
estivesse ainda mais es#ondida, talvez ina#ess$vel.
2 ima(em da empre(ada sur(e forte #omo elemento da lS(i#a so#ial, a mesma de
G.,.. Tanair #olabora #om G.,., embora em #amadas mais es#ondidas, para manter a
limpeza e a ordem da #asa. )este ponto, elas não se diferen#iariam essen#ialmente, pois
partilhariam os mesmos valores Jsem que lu(ares so#iais possam ser #onfundidos. 2
prSpria G.,. se refere a isso quando supFe que, não tivesse dinheiro e #ultura, seria
arrumadeiraK. 2mbas trabalham em #amadas diferentes da mesma ordem JmoralK. 2s
#amadas menos valorizadas JTanair, o quarto da empre(adaK são, num primeiro momento,
tidas #omo desordenadas e sujasU desvalorizadas e desa#onselhadas JproibidasK #omo
qualquer outra por!ão do des#onhe#ido.
;<
não perten#esse eu por dinheiro e por #ultura H #lasse a que perten!o, e
teria normalmente tido o empre(o de arrumadeira numa (rande #asa de
ri#os, onde h8 muito o que arrumar. JPCG,, DDK
)ão é poss$vel ne(ar, no entanto, que G.,. e Tanair, justamente pelo dinheiro e pela
#ultura, assumem diferentes papéis so#iais. 2s #ara#ter$sti#as que as fazem diferentes são
um parRmetro e"terior a elas & o dinheiro & e um adquirido ao lon(o da vida & #ultura
11
,
ferramentas espe#$fi#as para pensar, que #ada uma adquire de um modo devido H distin!ão
entre as #lasses onde elas se en#ai"am desde que nas#eram & dentro de um a#ordo e uma
lS(i#a so#iais, #omuns Hs duas, que pou#o dependem de suas es#olhas. Bo ponto de vista
moral, a empre(ada é quem est8 mais perto da sujeira o tempo todo, enquanto H patroa
resta apenas a arruma!ão mais fina. Esse movimento de #olo#ar G.,. patroa no papel de
arrumadeira faz #om que ela se apro"ime da sujeira, #onhe#endo o avesso do seu mundo
moral limpo. )o entanto, o movimento que vai da limpeza JmoralK H sujeira JimoralK sS se
#ompleta #om a anula!ão dos opostos, #omo tantos outros e"emplos no livro, apontando
para o não&moral, que é o espa!o da e"periên#ia #om a barata. 2ssim, além do lo#al & o
quarto da empre(ada& , a empre(ada, papel so#ial, é também ima(em que anun#ia a
e"periên#ia #om o imundo J#lassifi#a!ão feita pelo ponto de vista de uma moralidadeK.
2inda, os papéis so#iais de G.,. e de Tanair se diferen#iam por um papel ser
essen#ialmente bra!al e o outro intele#tual, embora submetidos a diversos pontos #omuns
de uma mesma ideolo(ia.
5urioso é que, ao en#ontrar o quarto limpo, um desa(rado f$si#o é sentido por G.,.,
o que normalmente seria sentido pelo #ontato #om a sujeira e não #om a limpeza. >sso faz
#om que se relativize a re(ra moral, #omo $ndi#e do neutro amoral que o dis#urso da
narradora pretende dizer.
+as ao abrir a porta meus olhos se franziram em reverbera!ão e
desa(rado f$si#o.
X que em vez da penumbra #onfusa que esperava, eu esbarrava na visão
de um quarto que era um quadril8tero de bran#a luz* meus olhos se
11
2 #ultura se #onfunde, muitas vezes, #om a ideolo(ia, e #om ela intera(e para forne#er ao indiv$duo seus
modos de re#ortar o mundo. G.,. e Tanair #ompartilham v8rios desses modos de pensar, mas se diferen#iam
por terem histSrias de vida separadas pelas determina!Fes de #lasse. Em A Hora da estrela, es#rito treze anos
depois de PCG,, essas determina!Fes que as diferen#iam passam da periferia ao #entro das dis#ussFes da
narrativa, na oposi!ão entre o narrador 3odri(o C.+. e a prota(onista +a#abéa.
;=
prote(iam franzindo&se.
,8 #er#a de seis meses & o tempo que aquela empre(ada fi#ara #omi(o &
eu não entrava ali, e meu espanto vinha deparar #om um quarto
inteiramente limpo.W JPCG,, DEK
2 inversão da sensa!ão é dada pela quebra de e"pe#tativas. 4rente H limpeza onde
haveria sujeira, é #omo se G.,. pisasse em falso em seu mundo #onhe#ido e vislumbrasse
o tamanho do abismo no qual iria #air. G.,. en#ara, pela primeira vez em seu per#urso,
seus pro#essos subterrRneos e des#onhe#idos, embora ainda morais Jpersonifi#ados na
empre(adaK. X pela representa!ão das diferentes #amadas da ordem que 5lari#e pode
or(anizar um livro que fala de desordem. X pelo re#onhe#imento de uma ordem antes
des#onhe#ida que se simula a desordem. O fenVmeno or(anizado des#onhe#ido é
absorvido #omo desordem para quem JaindaK não possui as #ate(orias ne#ess8rias para
or(aniz8&lo.
O desa(rado f$si#o em rela!ão H vis$vel limpeza do quarto da empre(ada retrata
também uma moral que (uarda os lu(ares espe#$fi#os mesmo para a desordem e a sujeira.
2profundando&se nas #amadas de sua e"istên#ia, G.,. #ontinua, durante v8rias #amadas,
submetida a prin#$pios morais. ,8 ordem até na simulada desordem. 2 moral, nesse
sentido, é mais profunda que as aparên#ias, ela re(e #omportamentos que podem ser
#onsiderados naturais. Embai"o da #onstru!ão ordenada, en#ontra&se outra #onstru!ão
ordenada. E embai"o desta... até a barata. Ou na ima(em da barataU
E eis que eu des#obria que, apesar de #ompa#ta, ela é formada de #as#as
e #as#as pardas, finas #omo as de uma #ebola, #omo se #ada uma
pudesse ser levantada pela unha e no entanto sempre apare#er mais uma
#as#a, e mais uma. Aalvez as #as#as fossem as asas, mas então ela devia
ser feita de #amadas e #amadas finas de asas #omprimidas até formar
aquele #orpo #ompa#to. JPCG,, =?K
Bos per#ursos de ordena!ão e limpeza, nas#e uma nova idéia no livro, a de que, em
#amadas mais profundas, #on#retizadas no quarto da empre(ada, h8 valores e si(nifi#ados
em nSs que seriam apenas vest$(io da histSria da humanidade, não ne#essariamente da
nossa histSria pessoal. Esses vest$(ios seriam fra(mentos de uma or(aniza!ão que teve
;?
al(uma utilidade imediata em al(um momento da histSria da espé#ie e que restaram #omo
valores e si(nifi#ados, ainda e"istentes, mas que perderam sua li(a!ão imediata #om o
mundo e"istente. X um #onjunto de idéias que a#ompanha toda a humanidade,
#ompartilhadas pela #ultura ou pelos (enes, resqu$#ios fSsseis fra(mentados de nossa
histSria e de valores ne#ess8rios em outras épo#as. 2 nSs, hoje, podem ser Lteis, ou, em
(eral, apenas #ompli#ar o entendimento de nSs mesmos e nossas motiva!Fes. )o tre#ho a
se(uir, ajudam no retrato desse ar#abou!o fra(mentado, a a(ulha que to#a a mLsi#a que j8
a#abou, as referên#ias ao outro que e"iste dentro de si mesmo, H rainha afri#ana, do pa$s
estran(eiro.
E nada ali fora feito por mim. )o resto da #asa o sol se filtrava de fora
para dentro, raio ameno por raio ameno, resultado do jo(o duplo de
#ortinas pesadas e leves. +as ali o sol não pare#ia vir de fora para dentro
\...] Eu me preparara para limpar #oisas sujas mas lidar #om aquela
ausên#ia me desnorteava.
Per#ebi então que estava irritada. O quarto me in#omodava fisi#amente
#omo se no ar ainda tivesse até a(ora permane#ido o som do ris#ar do
#arvão se#o na #al se#a. O som inaud$vel do quarto era #omo o de uma
a(ulha rodando no dis#o quando a fai"a de mLsi#a j8 a#abou. Im #hiado
neutro de #oisa, era o que fazia a matéria de seu silên#io. 5arvão e unha
se juntando, #arvão e unha, tranqYila e #ompa#ta raiva daquela mulher
que era a representante de um silên#io #omo se representasse um pa$s
estran(eiro, a rainha afri#ana. E que ali dentro de minha #asa se alojara,
a estran(eira, a inimi(a indiferente. JPCG,, <;&<DK
2inda, nota&se nessa idéia das #amadas morais parte da #on#ep!ão de que a
lin(ua(em Ja moralK est8 diretamente li(ada a finalidades J1K imediatas ou J;K fSsseis,
resqu$#ios de finalidades imediatas de antepassados. Bessa ordena!ão muitas vezes
desne#ess8ria é que G.,. tenta então se livrar enquanto #umpre um per#urso. ueria se
livrar & enquanto des#obria suas #amadas arqueolS(i#as, de sua heran!a filo(enéti#a,
resultado da e"periên#ia de seus antepassados & pelo menos do que não é sua prSpria
;E
e"periên#ia, para atin(ir al(o que, depois do despojamento, seria ainda ela mesma. G.,.
#orre atr8s de uma identidade anterior a todas as #amadas dispens8veis, de modo que ainda
seja ela mesma. Bentro do (uarda&roupa, mais uma #amada retirada, ela mesma,
finalmente, a sujeira, era a barata.
5omo ali, no quarto nu e esturri#ado, a (ota virulentaU numa limpa
proveta de ensaio uma (ota de matéria.
Olhei o quarto #om des#onfian!a. ,avia a barata, então.W JPCG,, <@K
E quando se livra das por!Fes mais anteriores da moral Jque se #on#retiza em
ordem, beleza e limpezaK, G.,. des#obre em si um porquê para tanta proibi!ão a#umulada
durante uma histSria, o proibido que se simboliza na vontade de matar.
Eu me embria(ava pela primeira vez de um Sdio tão l$mpido #omo de
uma fonte, eu me embria(ava #om o desejo, justifi#ado ou não, de matar.
Aoda uma vida de aten!ão & h8 quinze sé#ulos eu não lutava, h8 quinze
sé#ulos eu não matava, h8 quinze sé#ulos eu não morria & toda uma vida
de aten!ão a#uada reunia&se a(ora em mim e batia #omo um sino mudo
#ujas vibra!Fes eu não pre#isava ouvir, eu as re#onhe#ia. 5omo se pela
primeira vez enfim eu estivesse ao n$vel da )atureza.W JPCG,, =DK
Para 4reud
1;
, três são as a!Fes proibidas mais #omuns Hs diversas #ulturasU
assassinato, #anibalismo e in#esto J4reud admite que, em determinadas #ulturas e
determinadas situa!Fes, as proibi!Fes podem ser suspensasK. 5ertamente, tais atos teriam
seus fundamentos nos motivos animais mais b8si#osU a(ressividade, fome e reprodu!ão,
que são #ontrolados pelas #ulturas para fa#ilitar a vida em so#iedade. uando G.,.
en#ontra em si a vontade de matar é porque j8 se livrou de diversas #amadas #ulturais que a
proibiam mesmo de saber que possu$a tal vontade. +ais H frente, no livro, depois de se
identifi#ar #om a barata, fazendo desta um duplo, não resiste ao desejo de #olo#8&la na
bo#aU #omê&la, e, assim, assumir também o #anibalismo #omo um desejo seu. 2ntes,
porém, para sentir a barata #omo um semelhante, pre#isou passar pelo nojo, asso#iado H
sujeira e H barata desde tempos imemoriais.
1;
43EIB, C. WO porvir de uma ilusãoW InU Os Pensadores: reud !".#$%. Cão PauloU 2bril 5ultural, 1-E@.
;@
2ssim, enquanto se livrava de seus valores #ulturais, G.,. livrava&se da no!ão de
sujo e limpo. +as essa no!ão é tão vis#eral que, mesmo quando j8 est8 disposta a #olo#ar a
barata na bo#a, ainda sente nojo. Pou#o depois é que per#ebe que ainda havia moralidade a
ser des#artada, que o ato de sobrepujar o prSprio nojo era desprendimento mas também
hero$smo JmoralidadeK.
O livro se(ue, então, para a tentativa de re#onstru!ão dos valores, de modo menos
r$(ido. O nojo é re#olo#ado no rol de qualidades ne#ess8rias ao ser humano. )o entanto, a
proposta é que o nojo seja reinte(rado #omo a #ons#iên#ia de um limite, não a proibi!ão
irra#ional imposta e"ternamente. Bepois de des#onstruir os valores, #onstrSi&se uma moral
em que todos os valores são question8veis e de #uja #onstru!ão tem&se mais #ons#iên#ia. O
nojo é um limite sobre o qual sabe&se que, ultrapassado, não se estar8 sendo
espe#ifi#amente humano. Bepois do nojo, não h8 #ontrole. )ão é mais a idéia de #erto ou
errado, mas de assumir ou não um ris#o.
+as o nojo me é ne#ess8rio assim #omo a polui!ão das 8(uas é
ne#ess8ria para pro#riar&se o que est8 nas 8(uas. O nojo me (uia e me
fe#unda. JPCG,, 11DK
[ [ [
-impeza é, em A pai"ão segundo G.H., #omo ordem, um #on#eito asso#iado a
moral. G.,. vive sua e"periên#ia epifRni#a no dia em que resolve arrumar JlimparK o
apartamento, depois que a empre(ada foi definitivamente embora. 2 persona(em vai da
sala ao quarto da empre(ada. '8 abre o arm8rio e en#ontra a barata. Esse per#urso espelha
uma #omple"idade moral que vai sendo e"plorada pela persona(em. 2s primeiras #amadas
atravessadas ainda são morais, uma moralidade antes des#onhe#ida de G.,., até que, ao
n$vel do )eutro, en#ontra a si mesma espelhada na barata. Enquanto bus#a, não sabe o quê,
G.,. #ria a e"pe#tativa de en#ontrar o sujo, por e"emplo no quarto da empre(ada, mas o
quarto est8 surpreendentemente limpo, uma moralidade J#ulturaK des#onhe#ida, mas ainda
moralidade. 5onforme se apro"ima da e"periên#ia neutra, a barata, a sujeira e o nojo são
des#ritos #om mais freqYên#ia. +as na identifi#a!ão #om a barata, somem os opostos
sujeiraQlimpeza no silên#io da e"periên#ia não&verbal.
;-
2pSs arran#arQperder todas as #amadas de #ultura e en#ontrar&se na barata, G.,.
pro#ura, #omo ne#essidade, re#onstruir. Em vez, no entanto, de re#onstruir uma moral
r$(ida #om pre#eitos definitivos de #erto e errado, pro#ura um sistema provisSrio. O errado,
o sujo por e"emplo, passa a ser um limite. 2travess8&lo é arris#ado mas não proibido. 2
#ons#iên#ia do ris#o substitui, em G.,., pelo menos #omo proposta, as proibi!Fes
irra#ionais e ideolS(i#as.
Audo fun#iona #omo um pro#esso de esvaziamento da moralidade, restando, num
pro#esso idealmente bem su#edido, apenas a moral provisSria, de pequena abran(ên#ia, e a
irra#ionalidade or(Rni#a. :ale notar que pro#essos ideais não #orrespondem de modo
al(um a sistemas morais provisSrios. G.,. per#ebe isso ao lon(o da narrativa,
des#onfiando de toda a des#onstru!ão moral e denun#iando a seqYên#ia #omo construção
de uma desconstrução.
B#&#1! - ! roo$t! d# #&%"%n!ção d! "#d%!ção #$t5t%(!
2ntes de abordar a espe#ifi#idade de beleza em rela!ão a A Paixão segundo G.H.,
vale dizer mais uma vez que, assim #omo ordem e limpeza, limpeza fun#iona #omo uma
das fa#etas da moralidade. O belo, se(undo o que se diz no livro, é uma idéia sobre a qual
os indiv$duos numa so#iedade estão de a#ordo. 3ela#iona&se ao dis#urso e H razão.
^itt(enstein, em suas In"estigaç.es ilos/*icas
1D
, é #ontundente nesse aspe#to. Ce, em sua
obra anterior, o 0ractatus -/gico ilos/*ico
1<
, ele en#arna o ponto de #ulminRn#ia da idéia
de que a lin(ua(em e a lS(i#a são proje!Fes de al(o interior aos indiv$duos, o que ele
#hamou de objetos simples Ja #omuni#a!ão entre os indiv$duos seria poss$vel justamente
por todo o (ênero humano possuir em sua natureza esses objetosK, no se(undo livro
^itt(enstein ne(a radi#almente o que disse antes e afirma que a #omuni#a!ão e a razão
e"istiriam somente no #ontato entre seres humanos, nas#idas de ne#essidades e a!Fes
#on#retiz8veis. 2ssim, não haveria dentro do indiv$duo nada que motivasse sua lin(ua(em
a não ser sua disposi!ão para es#olher e a(ir. Para #on#retizar essas vontades, #riam&se as
lin(ua(ens #omo modo de intera(ir #om o outro e #om o mundo.
1D
^>AAGE)CAE>), '. In"estigaç.es ilos/*icas. Cão PauloU 2bril 5ultural, 1-@<.
1<
^>AAGE)CAE>), '. 0ractatus -ogico1P+ilosop+icus. Cão PauloU )a#ional, 1-?@.
D.
5lari#e pare#e se apro"imar bastante do se(undo momento de refle"ão de
^itt(enstein. Em A Paixão segundo G.H., a lin(ua(em se separa radi#almente de uma
instRn#ia não&verbal, que é normalmente o de que se fala quando se fala da obra #lari#eana.
2 lin(ua(em não daria #onta da e"pressão daquilo que os persona(ens e"perimentam em
seus momentos epifRni#os. 2 e"periên#ia do não&verbal é #omo uma visão m$sti#aU a
sensa!ão da totalidade é dada pela e"periên#ia mais simples, apenas e"istir, sem finalidade.
O ser, não o nada. 5omo para ^itt(enstein, a lin(ua(em est8 sempre li(ada a uma
finalidade, H e"periên#ia en(ajada. 2 lin(ua(em é #onstru!ão e se asso#ia H realiza!ão de
um trabalho. 2 e"istên#ia simples, total e sem finalidade, fi#aria assim in#omuni#8vel. O
belo liter8rio, apoiado na palavra, não poderia, dentro dessa #on#ep!ão de lin(ua(em, ser
outra #oisa que não uma e"pressão humana submetida a finalidades espe#$fi#as sem se
referir a nenhum modelo absoluto.
)as palavras de G.,., duas diferentes idéias são e"pressas por beleza. 2 primeira é
uma beleza moral, li(ada H #omuni#a!ão e, ne#essariamente, H finalidade. Os #ritérios são
e"teriores, os valores e si(nifi#ados são dados. O belo é a #ita!ão, em al(um modo, de tais
#ritérios so#iais.
2 espirituosa ele(Rn#ia de minha #asa vem de que tudo aqui est8 entre
aspas. Por honestidade #om uma verdadeira autoria, eu #ito o mundo, eu
o #itava, j8 que ele não era nem eu nem meu. 2 beleza, #omo a todo o
mundo, uma #erta beleza era o meu objetivo? eu vivia em beleza?
JPCG,, D1K
Bessa beleza, G.,. se desli(a pou#o a pou#o em sua e"periên#ia #om a barata.
2 se(unda beleza é a beleza do neutro, da totalidade, do mer(ulho em si mesmo
que se faz pelo abandono da lin(ua(em e da moral. 5hama&se WbelezaW por ne#essidade,
posterior H e"periên#ia, de dar um nome H #oisa. Enquanto a primeira beleza, li(ada
diretamente ao mundo da palavra, se submete a uma #lassifi#a!ão e pode re#eber o
#arimbo WbeloW sem que isso seja motivo de questionamento, a beleza do neutro re#ebe este
nome JbelezaK não pelo que é em si. O todo Jenquanto todo e antes de ser re#ortadoK não
pode ser #arimbado por um observador Je"ternoK pois não haveria nada e"terior a este
todo. B8&se o nome de beleza, então, a al(o que é apro"imado pelo dis#urso, passando&se
pelo #aminho da primeira beleza, a moral Jpor analo(ia a al(o #lassifi#8vel e da ordem do
D1
dis#ursoK. 2ssim, indo&se do belo idealizado ao destitu$do de beleza, eventualmente
a#res#entando #ara#ter$sti#as do feio idealizado Joposto ao beloK, #obre&se toda uma
dimensão moral de beleza, do mais ao menos belo. O que não pode ser #ompreendido,
resumido a esta dimensão Jtodo o per#ursoK, é a beleza neutra. Bo mesmo modo, ordem e
limpeza foram utilizados para des#rever o neutro.
)ão a #laridade que nas#e de um desejo de beleza e moralismo, #omo
antes mesmo sem saber eu me propunha* mas a #laridade natural do que
e"iste, e é essa #laridade natural o que me aterroriza. JPCG,, 1@K
Ce(uindo esse #aminho, tem&se que, para 5lari#e 'ispe#tor Jidéia e"pressa nas
palavras da narradora G.,.K, a sua bus#a ini#ial é por dizer o neutro e não pela beleza
petrifi#ada da moral r$(ida.
Centia que o meu de dentro, apesar de matéria fofa e bran#a, tinha no
entanto for!a de rebentar meu rosto de prata e beleza, adeus beleza do
mundo. 0eleza que me é a(ora remota e que não quero mais & estou sem
poder mais querer a beleza & talvez nun#a tivesse querido mesmo, mas
era tão bomZ ou me lembro #omo o jo(o da beleza era bom, a beleza era
uma transmuta!ão #ont$nua.
+as #om al$vio infernal eu me despe!o dela. JPCG,, @DK
Cua bus#a é por uma estéti#a que seja a não&estéti#a, o parado"o da #omuni#a!ão
pela e"pressão não formalizada. +ais uma vez, o es#orpião morde o prSprio rabo, #omo na
j8 #itada ima(em de Bavi 2rri(u##i Tr. para a obra de Tulio 5ort8zarU O )scorpião
encalacrado
1=
. 2té um limite em que a es#rita seria menos que um #Sdi(o, apenas um
(rafismo.
2té #riar a verdade do que me a#onte#eu. 2h, ser8 mais um (rafismo que
uma es#rita, pois tento mais uma reprodu!ão que uma e"pressão.
JPCG,, ;1K
1=
233>GI55> T3., B. op.cit.
D;
)este ponto, as fi(uras tra!adas na parede do quarto de Tanair (anham, enquanto
(rafismo, a for!a de es#rita. +ais ainda, em épo#as imemoriais, atribu$a&se poder m8(i#o
Hs fi(uras tra!adas nas paredes das #avernas. O desenho não sS representava o objeto #omo
presentifi#ava e era, de al(um modo, o prSprio objeto. 2ssim, uma #ena de #a!a
#on#retizada numa parede era j8 a #a!a realizada. 2 apro"ima!ão entre o si(nifi#ante e o
objeto Jou #enaK motivador do si(nifi#ado era total. )um e"tremo é e"atamente essa a
proposta m8(i#a de 5lari#e nas palavras de G.,. O movimento de apro"ima!ão entre
palavra e (rafismo é semelhante H apro"ima!ão entre (rafismo e ente f$si#o. 2 m8(i#a
imposs$vel do ponto de vista da lS(i#a se daria pela apro"ima!ão #ompleta entre palavra e
fenVmeno.
)o n$vel de apenas (rafismo, a e"pressão verbal es#rita apro"ima&se demais de um
dos aspe#tos da e"periên#ia JvisualK, embora entre em #ontradi!ão #om a e"pressão
liter8ria, fundada na palavra, no s$mbolo. )esse aspe#to, a proposta de 5lari#e JG.,.K não é
a da e"pressão mas a da reprodu!ão da e"periên#ia, o que e"i(iria a total desinte(ra!ão dos
sujeitos e da palavra, a identifi#a!ão do sujeito #om o objeto, assim #omo o ato de G.,.
#olo#ar a barata na bo#a é um ato desesperado de identifi#a!ão que elimina o sujeito e seu
ponto de vista.
9s vezes & Hs vezes nSs mesmos manifestamos o ine"pressivo & em arte
se faz isso, em amor de #orpo também & manifestar o ine"pressivo é
#riar. JPCG,, 1<;K
Cer8 pre#iso “purifi#ar&me% muito mais para in#lusive não querer o
a#rés#imo dos a#onte#imentos. 2nti(amente purifi#ar&me si(nifi#aria
uma #rueldade #ontra o que eu #hamava de beleza, e #ontra o que eu
#hamava de “eu%, sem saber que “eu% era um a#rés#imo de mim. JPCG,,
1EDK
Por outro lado, desde que se assume a impossibilidade de a literatura sem palavra, a
proposta, se ainda houver uma, passa a ser a de produzir uma literatura que esteja o mais
prS"imo poss$vel de uma e"periên#ia, em vez de ser reprodu!ão da e"periên#ia & palavras
que fun#ionem para o leitor #omo al(o presente e não a simples reprodu!ão do passado.
Em &gua 'i"a, diversos questionamentos sobre o assuntoU
DD
\...] isto tudo não a#onte#e em fatos reais, mas sim no dom$nio de uma
arte? Cim J2:, 1-K
Eu não. uero uma verdade inventada. J2:, ;.K
Para 5ort8zar, a literatura Jmodo espe#$fi#o da obra de arteK deve fu(ir H lin(ua(em
petrifi#ada, ao si(nifi#ado pré&definido, se tiver a inten!ão de se apro"imar da e"periên#ia
viva. 2 e"periên#ia, que é sempre nova, su#essão de momentos presentes, é simulada pela
lin(ua(em que é nova, que surpreende. Embora a #omuni#a!ão dependa de um a#ordo
anterior, entre os interlo#utores, sobre a lin(ua(em, é ne#ess8rio que esse a#ordo seja
m$nimo, que Jna ima(em de G.,.K se elimine a ter#eira perna, desne#ess8ria.
)ada mais material e dialéti#o e tan($vel que a pura ima(em que não se
ata H véspera. J5ort8zar
1?
K
E quando estranho a palavra a$ é que ela al#an!a seu sentido. J2:, E?K
2ssim, o #on#eito Jne#essariamente moralK de beleza proposto por 5lari#e alinha&se
#om as demais ramifi#a!Fes de A Paixão Segundo G.H. na proposta de uma moral menos
r$(ida. Aal moral menos r$(ida, que se apro"ima #onstantemente do amoral e que in#lui a
possibilidade de sua prSpria falha, e"i(e um modo de e"pressão também menos r$(ido, não
petrifi#ado, que não se identifique #om a lin(ua(em da véspera. 2 simula!ão do amoral se
d8 pela desor(aniza!ão da lin(ua(em, pela supressão de parte dos moldes pré&
estabele#idos, pelo uso do fra(mento, do parado"o, pela surpresa, pelo susto. Ce toda
e"periên#ia é nova, a novidade na e"pressão é a forma adequada para que o formal seja
re#ebido pelo leitor #omo al(o prS"imo do informe. )ão identifi#ando o que leu #om suas
leituras anteriores, seus moldes morais de si(nifi#ados, é que o leitor apro"ima a palavra da
e"periên#ia não&verbal. Bo mesmo modo, a utiliza!ão da lin(ua(em tem de diminuir a
vi(ên#ia dos valores de bonito e feio para apro"imar a palavra JmoralK do amoral.
Pois nun#a até hoje temi tão pou#o a falta de bom&(ostoU es#revi
“va(alhFes de mudez%, o que antes eu não diria porque sempre respeitei
a beleza e a sua modera!ão intr$nse#a.
1?
5O3A_723, T. Prosa do Obser"at/rio. Cão PauloU Perspe#tiva, 1-E<.
D<
Bisse “va(alhFes de mudez%, meu #ora!ão se in#lina humilde, e eu
a#eito. Aerei enfim perdido todo um sistema de bom&(osto? +as ser8
este meu (anho Lni#o? uanto eu devia ter vivido presa para sentir&me
a(ora mais livre somente por não re#ear mais a falta de estéti#a...
JPCG,, ;.K
O #on#eito JmoralK de beleza perde, assim, validade eterna e torna&se apenas
#on#eito. 2 #ons#iên#ia de sua fluidez é parte da proposi!ão de uma moral menos r$(ida.
+as o que hoje é feio ser8 daqui a sé#ulos visto #omo beleza, porque
ter8 #ompletado um de seus movimentos. JPCG,, 1=-K
3omper&se&iam então, junto #om as no!Fes de bom (osto, as no!Fes de (ênero
liter8rio, de roman#e, o que de al(um modo justifi#a a estranheza de al(uns ao en#arar A
Paixão Segundo G.H. #omo um roman#e, pela quase ausên#ia de enredo. Em &gua 'i"a,
essa no!ão de (ênero é ainda mais radi#almente rompida. Ce nos livros anteriores a este,
a#ompanhavam o t$tulo uma nota, tal #omo W#ontosW, Wroman#eW, em &gua 'i"a, a nota é o
mais amplo Wfi#!ãoW. Beste livro é a #onhe#ida frase sobre (êneros liter8riosU
Gênero não me pe(a mais J2:, 1DK
[ [ [
2lém de ordem e limpeza, também beleza se rela#iona diretamente a moral. O
per#urso de G.,., na anula!ão de sua subjetividade até a identifi#a!ão #ompleta, ou quase,
#om o objeto & a barata &, se d8 a#ompanhado da relativiza!ão das #ertezas a respeito das
idéias de bonito e feio, ao mesmo tempo que todas as outras #ate(orias morais são
i(ualmente dissolvidas.
+as a(ora tenho uma moral que pres#inde de beleza.W JPCG,, 1=1K
2 espe#ifi#idade da dis#ussão a respeito do belo em rela!ão aos seus pares & limpo
e or(anizado & é que introduz, nessa dis#ussão, a idéia #lari#eana sobre a obra de arte e, em
D=
parti#ular, a literatura. )a medida em que a proposta de G.,. é o estabele#imento de uma
moral que in#lua em si a #ons#iên#ia do seu avesso JamoralK, o retrato dessa moral e"i(e a
relativiza!ão de qualquer #ate(oria lS(i#a, o que nas palavras de G.,. se #onfunde #om as
#ate(orias morais. Ima tensão sur(e dessa idéia na medida em que a literatura se baseia
em #Sdi(os e or(aniza!ão, situa!ão oposta ao mundo amoral repleto de parado"os
1E
. Aal
tensão é um dos poten#iais que movem a literatura de 5lari#e 'ispe#tor. Enquanto
literatura, é ordem, é palavra, é moral, é finalidade, mesmo que tente retratar, ou finja
retratar a desordem Jo mundo não&verbal, sem finalidade, não avaliado nem si(nifi#adoK. 2
beleza bus#ada por 5lari#e 'ispe#tor, o fundamento estéti#o de sua obra, apesar de possuir
uma fa#eta moral Jno sentido usado por G.,.K, pois é palavra, aponta para a beleza neutra
de simplesmente ser. Aal beleza, uma impossibilidade lS(i#a, e"iste pelo menos enquanto
#ate(oria liter8ria em sua obra. 2 palavra que quer servir H não&palavra poderia até não
e"istir #omo efeito no leitor mas sur(e, ao menos, #omo proposta de es#rita.
[ [ [
Ce se observa o dis#urso de G.,. #omo uma proposta de des#onstru!ão que é
se(uida de uma #onstru!ão, o primeiro movimento é #ompletado #om al(um su#esso, j8
que G.,. não #onse(ue se livrar da e"periên#ia que viveu e a levou a um impasse e ao
questionamento e fle"ibiliza!ão de sua moralidade, o que #onfi(urou um estado
supostamente mais livre. 5omo proposta e #omo movimento, foi realizada a passa(em da
ri(idez moral H moral m$nima. 5omo for!a oposta, o impasse, #ara#ter$sti#o do se(undo
estado, menos moral, des#onfia de que tenha havido realmente um movimento, e su(ere
que a des#onstru!ão não passa de uma idealiza!ão de uma #onstru!ão. Este impasse
a#ompanha toda a narrativa e faz #om que qualquer #on#lusão Jen#adeamento de idéias e,
portanto, estrutura finitaK seja questionado. 2 tentativa de G.,. de se des#onstruir para
dizer&se passa a ser, enquanto diz, a #onstru!ão que versa sobre uma des#onstru!ão se(uida
de uma #onstru!ão.
1E
CS h8 realmente parado"os no mundo pré&verbal quando ele é observado de um ponto de vista.
5ompletamente inserido no mundo pré&verbal, da e"periên#ia irrefletida, o sujeito não teria #ate(orias que se
#ontrapusessem para per#eber situa!Fes parado"ais. +ais que isso, inserido na pura e"istên#ia, sequer h8 um
sujeito, instRn#ia ne#ess8ria para haver um ponto de vista.
D?
Para 4reud, a tr$ade de ideais #ulturais & ordem, beleza e limpeza & é fundamental na
internaliza!ão da #ultura pelo indiv$duo. Ordem, beleza e limpeza formariam uma série de
valores e si(nifi#ados para o indiv$duo que o ajudariam a #onviver em so#iedade. )o
entanto, na #iviliza!ão, que não é ideal, os ideais so#iais entram por vezes em #onflito #om
os objetivos e"pressos pelo Princ2pio do prazerU obter um m8"imo poss$vel de prazer e
afastar&se o mais poss$vel do desprazer. X desse #onflito que nas#eria, para 4reud, o mal1
estar da ci"ilização. Em A Paixão Segundo G.H., o #onflito é e"presso pelos valores e
si(nifi#ados de G.,. antes do seu en#ontro #om a barata, pelos valores e si(nifi#ados apSs
a e"periên#ia, e pelo #aos destitu$do de valores durante a e"periên#ia.
Evidentemente, a beleza, a limpeza e a ordem o#upam uma posi!ão
espe#ial entre as e"i(ên#ias da #iviliza!ão.
1@
2 relativiza!ão do movimento de des#onstru!ão da moral e as possibilidades de
#onstru!ão a partir de um solo preparado por esta des#onstru!ão é o que ser8 apro"imado a
se(uir.
6 - !7u% # !&%
Bo ponto de vista da razão
1-
, todo o roman#e A Paixão Segundo G.H. a#onte#e Jse
moveK em torno da tensão e"istente entre os dom$nios da moral e do neutro. )essa tensão,
moral e neutro podem ser substitu$dos por diversas #lassifi#a!Fes mais ou menos
equivalentes, e"pressas por outras palavras. 2inda assim, não é simples #on#retizar demais
essa tensão em elementos da narrativa que simbolizem apenas um ou outro #ampo.
3eformulandoU não h8 dois persona(ens, dois lu(ares, dois tempos, dois pontos de vista
que #onfi(urem inquestionavelmente e sempre os pSlos moral e não&moral da tensão
fundante da narrativa. O pSlo não&moral, o da e"istên#ia não si(nifi#ada, talvez possa ser
lo#alizado prS"imo da barata. O pSlo moral, no entanto, espe#ifi#amente humano, não
1@
43EIB, C. WO +al&estar na #iviliza!ãoW InU Os Pensadores: reud !".#$%. Cão PauloU 2bril 5ultural, 1-E@.
1-
X importante que se di(a que qualquer #lassifi#a!ão Jou ordena!ão ou (eneraliza!ão ou separa!ão ou
distan#iamentoK feita ser8 feita sempre do ponto de vista da razão Jou de uma razãoK. +esmo um ponto de
vista sS pode e"istir no dom$nio da razão. )o dom$nio da não&razão, um todo amorfo, in#lassifi#8vel, não h8
diferen#ia!ão entre sujeito e objeto, o que seria ne#ess8rio para o estabele#imento de pontos de vista.
DE
pode ser separado do não&moral. Audo o que é si(nifi#ado JmoralK é, ao mesmo tempo, ou
em outro tempo, também não si(nifi#ado. O humano em G.,. é tanto moral quanto não&
moral.
Be a#ordo #om seu modo mais prSprio, literatura é lin(ua(em e, assim, si(no.
uando a proposta dessa literatura é o retrato do que não é ela, o impasse se apresenta
inevit8vel. 2 lin(ua(em, or(anizada, que pretende retratar ordem e não&ordem, #onvive
sempre #om a ne#essidade de ser e não ser ela mesma. )o dom$nio da arte, o impasse é
levado a um e"tremo interessante. Estivesse a ordem retratando também a ordem, a
literatura se daria no #ampo do eni(ma. 0astaria ao leitor se(uir #aminhos lS(i#os do te"to
para si(nifi#ar a obra de al(um modo Jpossivelmente diferente da si(nifi#a!ão ima(inada
pelo autor, mas isso importa pou#o. O fato é que a lin(ua(em que não pretende sair do
dom$nio da ordem, da moral, fun#iona #omo um eni(ma, ou seja, uma proposi!ão moral
or(anizada a ser desvendadaK.
+as não, a literatura de 5lari#e 'ispe#tor pretende a ilS(i#a #onfi(ura!ão do
informe, a #onstru!ão do nun#a #onstru$do. Em sua proposta, a narrativa da persona(em
G.,. depende da e"istên#ia simultRnea de ser ordem e ser não&ordem, ainda que
ne#essariamente submetidas H ordem que é o te"to #onstru$do. 2 in#on(ruên#ia lS(i#a,
assim, depende de um pa#to adi#ional entre leitor e obra, o que faria #om que a obra fosse
para o leitor, além de eni(ma Jne#ess8rio H de#odifi#a!ão do te"toK, al(o a ser apenas
#ontemplado sem a e"pe#tativa de uma solu!ão JmistérioK.
Cur(em da possibilidade deste pa#to duplo nem sempre a#ertado entre leitor e obra
& a obra simultaneamente #omo eni(ma e mistério & rela!Fes entre leitores e 5lari#e
'ispe#tor #omumente en#ontradas, por e"emplo, nas salas de aula de 'iteratura 0rasileira.
,8 um primeiro modo de ler 5lari#e 'ispe#tor & o do leitor a quem bastam os eni(mas,
#ujos si(nifi#ados do mundo e da literatura são um simples desvendar, um leitor #ujo
dis#urso, modo #omo or(aniza o que leu, tende Hs #onstru!Fes interpret8veis, dis#urso que
não in#lui a dLvida sobre si nem sua poss$vel rela!ão emp8ti#a #om te"to & para o qual a
obra de 5lari#e seria uma #onstru!ão falha na medida em que o mistério, insolLvel, fo(e da
ordem lS(i#a. 5lari#e 'ispe#tor pare#e e"#essivamente reli(iosa, ou e"#essivamente irreal,
ou e"#essivamente lou#a. Be outro lado, uma se(unda leitura #omum é feita por aqueles
que en#ontram em 5lari#e 'ispe#tor Je espe#ifi#amente em A Paixão Segundo G.H.K a
possibilidade de não bus#arem um si(nifi#ado, se não quiserem, por se sentirem
D@
#onfort8veis #om as poss$veis leituras m$sti#as Jou m$ti#as, ou reli(iosasK da obra. Esse
se(undo leitor desta#a&se do mundo da a!ão e mantém&se no mundo da #ontempla!ão do
mistério, não se entusiasma #om as possibilidades de interven!ão dele no si(nifi#ado da
obra Jo que pode ser sinal de sua falta de disposi!ão para intervir no mundo que o #er#a, ou
de sua des#ren!a em suas possibilidades de interven!ãoK.
Ima ter#eira leitura é aquela em que o lu(ar da narra!ão de A Paixão segundo
G.H. é al(o prS"imo da fronteira entre mistério e eni(ma, entre moral e não&moral, o que
faz do pa#to entre leitor e obra al(o um pou#o mais #omple"o. +ais do que isso, o lu(ar da
narrativa pede para ser tratado Hs vezes #omo eni(ma, Hs vezes #omo mistério e, muitas
vezes, para ser tratado #omo mistério e eni(ma ao mesmo tempo, o que d8 espe#ifi#idade
ao #ontrato entre leitor e obra. O leitor deveria, assim, estar apto a os#ilar entre J1K o
#aminho do trabalho #ient$fi#o desvendador, J;K o #aminho do #ulto ao misterioso, da
admira!ão ante ao m8(i#o e JDK ter a espe#$fi#a #apa#idade de manter&se em ambos os
#aminhos ao mesmo tempo.
;.
Beriva&se dessa ter#eira possibilidade de leitura que o lu(ar da narrativa #lari#eana
é prS"imo da #ons#iên#ia do impasse, lu(ar no qual os opostos são i(ualmente presentes.
Pode ser uma in#on(ruên#ia lS(i#a, mas se d8 no Rmbito da arte Jou da vidaK, desde que o
a#ordo entre obra JmundoK e leitor J#ons#iên#iaK seja assim a#ertado. Bo leitor, são pedidos
o distan#iamento, prSprio ao eni(ma Jpostura #ient$fi#a, ra#ionalK, e a apro"ima!ão, o
envolvimento, prSprios ao mistério Jpostura reli(iosa, m$ti#aK. 2sso#iada a outros aspe#tos
do livro, esta postura de apro"ima!ão e afastamento pode ser vista #omo um elemento de
#onstru!ão tr8(i#a e relida #omo a #oe"istên#ia da perspe#tiva apol$nea JdistRn#iaK e da
não&perspe#tiva dionis$a#a Japro"ima!ãoK asso#iadas.
2 arte épi#a é uma arte “apol$ni#a%, #omo diz o termo estéti#o* pois
2polo, o que atin(e lon(e, é o deus do remoto, da distRn#ia, da
objetividade, o deus da ironia. JAhomas +annK
;1
;.
Ima observa!ão salta então frente a esses pa#tos sistematizados entre leitor e obra. Podem ser eles também
#onstru!Fes a serem ne(adas por outras #onstru!Fes. Para estar mais em a#ordo #om a #adên#ia do te"to
#lari#eano, esse pa#to é #onstru!ão e ser8, ele também, destru$do se for visto #omo pres#ri!ão ou do(ma.
Embora seja uma (eneraliza!ão que apro"ima PCG, de al(uma tradi!ão liter8ria brasileira, #omo
#oment8rio, a es#olha de 5lari#e por uma literatura que se ne(a é a es#olha de 5lari#e por uma literatura que
se ne(a.
;1
+2)), Ahomas. “2 2rte do roman#e% InU )nsaios. Perspe#tiva, p.1?.
D-
5omo diz Pasta TLnior, em um ensaio sobre o Grande sertão: "eredas
33
, que se
adapta bem, em diversos aspe#tos, a A Paixão segundo G.H., Wnão h8 um sS n$vel de
sentido no Grande sertão que não responda a essa fSrmula&base, que #onstitui assim o
desenho interno de #ada um de seus temas e motivosW. Por Wessa fSrmula baseW, Pasta se
refere H #oe"istên#ia de eni(ma e mistério #omo Wum mesmo prin#$pio or(anizadorW do
te"to. Ce(undo o ensaio, tal #ara#ter$sti#a, que se mes#la #om uma série de outras, seria
#omum a diversas obras #apitais da literatura brasileira. )o te"to de 5lari#e 'ispe#tor, o
parado"o é b8si#o desde a apro"ima!ão de palavras de sentido oposto Jn$vel dos pequenos
elementosK até as su#essivas ne(a!Fes de qualquer #on#lusão Jpar#ialK tirada na narrativa.
5omo diz o ensaio de Pasta Tr., a impossibilidade de s$ntese dialéti#a é estrutural, não
sendo superada ao lon(o de toda a narrativa
;D
.
2 impossibilidade de s$ntese dialéti#a entre elementos opostos in#on#ili8veis
aponta, assim, para a paralisa!ão, o que é #ertamente uma possibilidade de leitura de
(rande parte da obra de 5lari#e 'ispe#tor. O impasse é, portanto, o lu(ar eterno da
narrativa, sem que haja supera!ão definitiva. O tempo não é uma fle#ha apontada
e"#lusivamente para uma dire!ão, mas a su#essão de um #onjunto de possibilidades que
podem se repetir. E se repetem. Bar si(nifi#a!ão H e"istên#ia Jser moralK é inevitavelmente
humano e paralelo H e"istên#ia não si(nifi#ada JamoralK. )ão h8 um itiner8rio poss$vel que
si(a e"#lusivamente por um dos JdesK#aminhos Jordem ou #aosK. Cer humano é ambos os
pSlos, #onstruir e destruir J#onstruir e re#onstruirK.
,8, vale lembrar, uma evolu!ão ini#ial pela qual passa a persona(em G.,. antes de
se estabele#er no impasse Jque pare#e ser definitivoK. 2 G.,. anterior a sua e"periên#ia
epifRni#a não é apenas humana, é e"#essivamente humana, #omo e"emplifi#a a ima(em da
mulher #om três pernas. 2 perda de uma das pernas simboliza, #omo j8 foi dito, o
;;
P2CA2 T3., T.2. WO 3oman#e de 3osa & temas do Grande sertão e do 0rasilW. InU 4o"os )studos 1 5)67AP
n.==, nov. 1---, pp.?1&E..
)este ensaio de Pasta Tr. en#ontram&se diversos outros elementos apli#8veis a A Paixão segundo
G.H. que podem fazer uma apro"ima!ão entre 5lari#e 'ispe#tor e a tradi!ão liter8ria brasileira.
;D
E"emplo de afirma!ão e ne(a!ão sem supera!ão é o si(nifi#ado dado por G.,. ao (esto e"tremo de #olo#ar
a barata na bo#a. )um primeiro momento, ela #onsidera o (esto do desprendimento m8ximo, s2mbolo e
afirma!ão de sua liberdade, de ter&se livrado de qualquer moral. Em se(uida, volta&se ao mesmo fato e o vê
#omo heroiza!ão, #omo supervaloriza!ão do (esto, o que seria o #ontr8rio do desprendimento. 2s palavras
Wm8"imoW e Ws$mboloW j8 são, elas mesmas, perten#entes ao modo lS(i#o, #lassifi#atSrio, do ser.
Outro e"emplo da impossibilidade de movimento de G.,. é a resolu!ão de, depois de todo o
per#urso da narrativa para estabele#er&se no impasse e para estabele#er o impasse #omo seu lu(ar prSprio,
desistir e sair para dan!ar. Cua dLvida é então a es#olha da #or do vestido. O impasse, ou o prin#$pio éti#o de
liberdade é, ele&mesmo, posto em dLvida Jneste #aso, afirmado #omo impossibilidade apesar de, ao mesmo
tempo, ponto de #he(ada desejado. 2 Lni#a es#olha poss$vel naquele momento é a #or do vestido, bastante
pequena em rela!ão a mudan!as ima(in8veis de maior abran(ên#iaK.
<.
equil$brio mais dinRmi#o desej8vel, ou seja, a apro"ima!ão do impasse. 2ssim, embora boa
parte da narrativa se dê numa re(ião onde pare#e não haver supera!ão poss$vel, uma
proposta é formulada no livro e é a de afastar&se da moral e"#essiva e mover&se para a
re(ião do impasse, onde o ser humano não seria pou#o nem e"#essivamente qualquer
#oisa, seria apenas humano. Este é o per#urso ilustrado por (rande parte do que foi dito na
parte deste trabalho referente a ordem, limpeza e beleza. E"iste, assim, uma passa(em do
humano e"#essivamente moral a um humano menos moral. Aal proposta Jno estado de
proposta, ainda não se definiu #omo al#an!ada ou não & al#an!8vel ou nãoK apro"ima
5lari#e 'ispe#tor não sS da tradi!ão liter8ria brasileira JPasta Tr.K #omo também das
perspe#tivas humanistas mais difundidas no sé#ulo MM, apoiadas na fenomenolo(ia e no
e"isten#ialismo.
Cobre o e"isten#ialismo em 5lari#e 'ispe#tor, muito j8 foi dito. Pode&se, no
entanto, insistir em al(uns pontos que ajudam a #ompreender a obra da autora. Bo ponto de
vista do e"isten#ialismo sartriano, a e"istên#ia humana deve estar submetida a uma ordem
que se baseia em a#eitar a liberdade. X pre#iso esvaziar a #ons#iên#ia e assumir a
liberdade. >sso poderia ser e"emplifi#ado justamente pela proposta #lari#eana de
apro"ima!ão do impasse. Beste lu(ar, o impasse, a #ons#iên#ia teria se libertado de tudo o
que é moral. 5lari#e representa o per#urso de des#onstru!ão da moral pela bus#a do eu
mais desprendido do mundo, o menor eu que ainda não tivesse perdido sua identidade.
Esse eu m$nimo é representa!ão razo8vel da #ons#iên#ia livre sartriana. 2 partir desse
suporte m$nimo, #om m8"ima liberdade, o homem pode #onstruir o que quiser e ser moral.
2 ne#essidade de permane#er no impasse Jequil$brio inst8velK é a de ter #ons#iên#ia de que
a moral é #onstru!ão, de que pode ser des#onstru$da. )esse #omprometimento #om a
liberdade, Cartre apSia a justifi#ativa éti#a de seu e"isten#ialismo. Cem essa justifi#ativa, a
des#onstru!ão pura e simples, a relativiza!ão absoluta de valores e si(nifi#ados, levaria H
paralisa!ão e H desordem. O #omprometimento éti#o faz #om que os atos sejam e"pressão
de uma es#olha moral.
Bo mesmo modo, o movimento proposto por G.,. não é e"#lusivamente o da
des#onstru!ão Jque se apresenta no livro #omo #onstru!ão de des#onstru!ãoK, mas o da
#onstru!ão a partir da #ons#iên#ia o mais livre poss$vel. 2 idéia da des#onstru!ão é a mais
f8#il de observar nas diversas leituras #r$ti#as do livro. 2 de #onstru!ão a partir do impasse
é que é mais rara. :ale notar ainda que pare#e haver uma tendên#ia maior H #ren!a na
<1
#onstru!ão em Cartre Jparti#ularmente o Cartre mais alinhado aos movimentos pol$ti#os de
esquerdaK do que em 5lari#e 'ispe#tor. Em A Paixão segundo G.H., o impasse é #ondi!ão
permanente e, apSs #ada #onstru!ão, se(ue&se a des#onstru!ão. 2 dLvida mesmo sobre o
prin#$pio éti#o sartriano é posta #lara n`A Paixão. )o livro, #ada vez que uma proposta de
#onstruir é feita, lo(o é se(uida da dLvida sobre possibilidades dessa #onstru!ão.
O prSprio pro#esso de des#onstru!ão moral Jmultifa#etado em, por e"emplo,
des#onstru!ão dos #on#eitos r$(idos de ordem, beleza e limpezaK é tido, em determinado
momento da narrativa, #omo uma #onstru!ão da des#onstru!ão. Em al(um aspe#to, isso é
Sbvio na medida em que o dito é dis#urso, ne#essariamente #onstru!ão, o que #onfi(ura
sempre o impasse de se apli#ar um sistema a al(o que é ne#essariamente assistem8ti#o. 2s
possibilidades de #onstru!ão estarão sempre ali#er!adas no nada, prontas a desmoronar.
Pre#8rias, as es#olhas resumem&se no fim do livro, a es#olher a #or do vestido que se usar8
para dan!ar naquela noite, nada mais permanente que isso, nem de maior abran(ên#ia.
[ [ [
Tulio 5ort8zar diz al(o interessante sobre quais seriam as bases fundantes de sua
obra e de al(uns de seus #ontemporRneos. Em sua 0eoria do t9nel
3:
, 5ort8zar afirma que
sua literatura é devedora de dois sistemas bastante difundidos no sé#ulo MMU o
e"isten#ialismo e o surrealismo. 2 asso#ia!ão das idéias de ambos ajusta&se bastante bem a
5lari#e 'ispe#tor e ajuda a entender sua obra.
0em na superf$#ie, pode&se tra!ar um #aminho que #olo#a o e"isten#ialismo de
Cartre #omo devedor de toda uma histSria filosSfi#a baseada na razão. Esse e"isten#ialismo
pode, assim, ser #olo#ado no pSlo da razão do impasse fundador da obra de 5lari#e e
asso#iado a uma #ientifi#idade e a um pensamento positivo em rela!ão Hs possibilidades
ra#ionais humanas que se asso#ia ao desvendamento de eni(mas. )o outro pSlo & o da
e"plora!ão e da e"periên#ia #om o misterioso &, o surrealismo. E"isten#ialismo e
surrealismo fun#ionam eles mesmos, se juntos, #omo tensão, embora não se e"#luam.
Ce(undo Pasta Tr., Wquem quiser de fato ler o Grande sertão (uardando fidelidade H
demanda do livro, ter8 de lê&lo ao mesmo tempo #om o isolamento e a distRn#ia que supFe
o roman#e moderno e #om o fusionamento e a participação que, no limite, sS #onhe#em o
;<
5O3A_723, T. Obra 5r2tica !". 1%. 3io de TaneiroU 5iviliza!ão 0rasileira, 1--@.
<;
mito e o rito.W
;=
Paralela a esta visão, é a se(uinte, feita na introdu!ão de 2ntonio 5andido
a O )scorpião encalacrado, lon(o ensaio de Bavi 2rri(u##i Tr sobre a obra de Tulio
5ort8zarU WEste livro não é sobre 5ort8zar, pois pode ser lido também #omo se o assunto
fosse a #rise atual da arte e da literatura* ou antes, a #rise dos meios tradi#ionais do que se
#hamava e"pressão art$sti#a e liter8ria. Bavi 2rri(u##i Tr. aborda o estudo da sua
destrui!ão, que pode ser ritual, mas pode também ser ontol/gicaW
;?
. W3itualW e WontolS(i#aW
ajustam&se bem aos simultRneos WritoW e Wdistan#iamentoW, que Pasta Tr. identifi#a #om
pre#isão em seu ensaio sobre o Grande sertão.
Ba mesma introdu!ão de 2ntonio 5andido é WE não esque!amos o modo #erteiro
pelo qual 5ort8zar é #ara#terizado #omo quem, nesta aventura peri(osa, evita a dire!ão do
imposs$vel e permane#e na hesita!ãoW, o impasse.
O primeiro tre#ho de 2ntonio 5andido #itado a#ima aponta para dois #aminhos, o
que #ara#teriza uma possibilidade de or(aniza!ão. O que difere A Paixão Segundo G.H. da
proposta de Tulio 5ort8zar é a impossibilidade radi#al em G.,. de dei"ar o impasse,
enquanto que para 5ort8zar a destrui!ão das possibilidades absolutas do livro e da
#omuni#a!ão não é vista #om tanta des#onfian!a e pessimismo. 2 desfeti#hiza!ão
;E
do
livro é, para 5ort8zar, um avan!o, uma evolu!ão, enquanto que para G.,., se é um avan!o,
é #ontraditoriamente um avan!o em dire!ão ao impasse.
2 #ompara!ão, vale dizer, é #ompli#ada na medida em que se est8 observando um
ensaio assinado por um es#ritor J5ort8zarK e as #onsidera!Fes de uma persona(em JG.,.K,
que pare#em se apro"imar das idéias da autora. Besmente, no entanto, a identifi#a!ão
absoluta de G.,. #om 5lari#e 'ispe#tor o fato de 5lari#e, apesar de viver sob o dom$nio do
impasse, não ter se #alado. 5ontinua es#revendo e or(anizando seu pensamento. )ão é o
(rito espasmSdi#o de quem a(oniza. X a fala or(anizada de um es#ritor. 2 arma!ão tr8(i#a
#onstru$da em torno do impasse e da ne#essidade de dizer é desfeita #om a a#eita!ão da
dimensão humana Jem a#ordo #om as tentativas de deseroiza!ãoK. 5ontinua&se es#revendo,
#ontinua&se e"istindo. Este passo adi#ional, o de dei"ar o objeto livro e apro"imar&se do
seu autor, faz&se ne#ess8rio também porque a prSpria es#ritora dei"a sua identidade no
objeto. 2 introdu!ão do livro, es#rita em primeira pessoa, é assinada por 5.'. e não por
G.,. 5lari#e 'ispe#tor dei"a ali $ndi#e de uma inten!ão de se fazer #onfundir #om a
;=
P2CA2 T3., T.2. op.cit., p.?;.
;?
Pref8#io de 2ntonio 5andido a 233>GI55> T3., B. op. cit. J(rifos meusK
;E
5ara#teriza&se #omo feti#he a valoriza!ão do livro #omo objeto bem a#abado em vez de o en"er(ar #omo
resultado da pr8ti#a Je"istên#iaK de um sujeito no mundo.
<D
persona(em narradora do livroU não assina o nome, mas apenas as ini#iais, #omo as de
G.,. X nessa introdu!ão, também, que se en#ontra uma das (randes mar#as de positividade
do te"to J#ontrapondo&se a (rande parte do dis#urso do eterno impasse de G.,.K
\...] este livro nada tira de nin(uém. 2 mim, por e"emplo, a persona(em
G.,. foi dando pou#o a pou#o uma ale(ria dif$#il* mas #hama&se ale(ria.
5.'. JPCG,, EK
)o entanto, em A Paixão Segundo G.H., nada permane#e #omo absoluto, nem
mesmo a arma!ão tr8(i#a que a#ompanha todo o enun#iado de G.,. Aambém não #ontinua
absoluto o que desarma tal #onstru!ão, que é a a#eita!ão da dimensão humana, a a#eita!ão
do impasse, da derrota poss$vel. O impasse se impFe até mesmo depois de sua
des#onstru!ão ra#ional Jpar#ialK. O dis#urso or(anizado é também (rito desesperado. 2
#ons#iên#ia do impasse, que é #ons#iên#ia, #oe"iste eternamente #om o pSlo não&moral e
do des#ontrole. 2ssim, quando a #ons#iên#ia é a#ionada, o impasse se impFe e
impossibilita o movimento de supera!ão. 3esta a possibilidade do movimento menos
(eneraliz8vel, ritual, por estar menos prS"imo do pSlo da #ons#iên#ia livre e mais da
submissão ao misterioso.
Besse modo, o que pode ser lido #omo a;ui e ali, mistério e eni(ma, razão e não&
razão, tem de ser lido também #omo nem a;ui, nem ali, pois o impasse des#onstrSi toda
no!ão #onstru$da, e #onstrSi e des#onstrSi e #onstrSi..., in#lusive a si mesmo.
2lém dessa idéia ini#ial de simultaneidade de mistério e eni(ma, outras passa(ens
do itiner8rio de Pasta Tr. em seu ensaio sobre Guimarães 3osa ajudam a ler 5lari#e
'ispe#tor. Por e"emplo, na medida em que o impasse não impede #ompletamente o
movimento, apesar de não permitir o movimento linear, reto, de supera!Fes su#essivas.
Permite, isso sim, um movimento, talvez pendular, que tro#a a paisa(em e a e"istên#ia
lo#al, mas que não elimina o impasse, que é questão de fundo. )ão h8 a#Lmulo de
e"periên#ia nesse movimento que permita a supera!ão inequ$vo#a e definitiva de um
tempo passado.
2ssim, o tempo em A Paixão segundo G.H. não é o tempo linear usual do roman#e
do sé#ulo M>M que se ajusta #om fa#ilidade a uma idéia de supera!Fes histSri#as, seja por
evolu!ão JlentaK ou revolu!ão JabruptaK.
<<
3etomoU A Paixão segundo G.H. e o e"isten#ialismo sartriano identifi#am&se, num
primeiro momento, pela proposta de que o homem deve livrar&se de falsas #ertezas, de
verdades trans#endentes, e assumir sua e"istên#ia terrena sem se enquadrar em sistemas de
idéias inquestion8veis. >sso leva, em 5lari#e 'ispe#tor, ao impasse, e em Cartre H liberta!ão
do homem. Essa ne#essidade de não se #olo#ar sob nenhuma re(ra espe#$fi#a
Jtrans#endenteK abre uma possibilidade parado"al e interessanteU es#rever não pode se
submeter a uma prioridade estéti#a, mas deve ser e"pressão de um indiv$duo #omo modo
de esse indiv$duo e"istir. >sso faz #om que o livro seja objeto question8vel. )o #aso de
5lari#e 'ispe#tor, a questão foi abordada quando da difi#uldade de enquadrar al(uns de
seus livros sob etiquetas inequ$vo#as #omo roman#e, novela, #onto, ensaio et#. 2
#on#lusão semelhante a essa, #he(ou&se pelo #aminho da des#onstru!ão dos #ritérios de
beleza. O fato de o livro questionar&se enquanto livro Je todo o feti#he que o objeto e a
obra de arte podem a(lutinarK e fazer dele parte de uma e"istên#ia é #on#lusão poss$vel de
premissas do e"isten#ialismo ao mesmo tempo que pode levar a formula!Fes, #omo as do
surrealismo, em que anulam&se as fronteiras da arte e da vida a fim de que tudo seja
me#anismo para #onhe#erJ&seK. )este ponto, e"isten#ialismo e surrealismo apro"imam&se.
O aparente parado"o desse louva&a&deus devorando sua prSpria fonte de
prazer en#obre a verdade de um divSr#io entre dois homens sS
e"teriormente semelhantesU o que e"iste para es#rever e o que es#reve
para e"istir.
;@
Este aniquilamento da distRn#ia entre livro e autor, pela supressão da ne#essidade
de re(ras estéti#as Jque mediavam a rela!ãoK, ajusta&se H apro"ima!ão de diversos
narradores de 5lari#e 'ispe#tor a ela mesma, a es#ritora. O te"to soa #onfessional. 2inda,
#omo de#larado pela prSpria es#ritora na #onhe#ida entrevista a Tulio 'erner JA: 5ulturaK,
em 1-EE, Weu es#revo para não morrerW. Ou, nas palavras de Tulio 5ort8zar, #itadas a#ima,
Wo que es#reve para e"istirW. )o roman#e tradi#ional, que pode ser sintetizado na obra e
proposi!Fes liter8rias de 4laubert, o objeto livro era fo#o do feti#he, sendo que autor e sua
e"istên#ia fi#avam num se(undo plano. 2 arte se dava no objeto livro e não era #omum
que es#ritores questionassem esse distan#iamento entre autor e obra.
;@
5O3A_723, T. Obra 5r2tica !". 1%. 3io de TaneiroU 5iviliza!ão 0rasileira, 1--@, p.D=.
<=
)ão é novidade afirmar que razFes estéti#as presidem a obra
flaubertiana, na qual os valores éti#os emanam naturalmente da
personalidade do es#ritor e de sua tem8ti#a, mas nun#a apare#em
inten#ionalmente inseridos numa trama. Jp.D;K
Ce(undo 5ort8zar, para al(uns autores a sensa!ão de que o meio de sua e"pressão
Jlin(ua(emK limitaria as possibilidades de sua atitude art$sti#a era ou esque#ida ao lon(o da
vida J0alza#K, ou permane#ia #omo dLvida H parte da #ria!ão. Em sua prSpria obra,
Wnenhum dos es#ritores vo#a#ionais pare#e re#onhe#er a dLvida que an(ustia o es#ritor
#ontemporRneo, refle"o lo#alizado de uma an(Lstia (eneralizada do homem de nossos
diasU W\...] de que talvez as possibilidades e"pressivas estejam impondo limites ao
e"prim$vel* que o verbo #ondi#ione seu #onteLdo, que a palavra esteja empobre#endo seu
prSprio sentido.WJp.D-K Este es#ritor WrebeldeW do sé#ulo MM, que es#reve #omo modo de
e"istir, jamais esque#e que a ferramenta que o ajuda a atravessar a barreira entre ele e o
outro é a mesma que torna evidente a distRn#ia entre ambos. Enquanto ferramenta para
uma travessia, a lin(ua(em serve bem ao #aminho da bus#a ontolS(i#a #omo tentativa de
supera!ão do impasse. Enquanto evidên#ia da pre#ariedade da #omuni#a!ão, a lin(ua(em
aumenta a #ons#iên#ia do impasse e favore#e sua perpetua!ão. Est8 formulado em outros
termos o impasse #lari#eano, es#rever #omo tentativa de superar uma distRn#ia e #omo
evidên#ia da e"istên#ia dessa distRn#ia. Por outro lado, olhado pelo impasse, o movimento
or(anizado, que supera e estabele#e seqYên#ias e supera!Fes, depende também ele de uma
#ren!a pré&ra#ional na razão, o que #onfi(ura uma #onstru!ão apoiada em nada.
<?
CAPÍTULO II
COMPASSO BIN8RIO
2 minha vida é #omo se me batessem #om ela.
& 4ernando Pessoa &
2pSs per#orrer A Paixão segundo G.H. utilizando #omo (uia a oposi!ão sempre
tensionada entre os pSlos humano e não&humano Jem al(umas de suas diversas
formaliza!FesK do que G.,. des#reve de sua e"periên#ia no mundo J(eralK e #om a barata
Jespe#$fi#oK, pelas vertentes da des#onstru!ão e da #onstru!ão, proponho a(ora e"aminar
em mais detalhes o que seria o su<eito #lari#eano em PCG, e #omo esse sujeito se
rela#iona #om o mundo em que est8 inserido, quanto a suas possibilidades de a!ão nesse
mundo & liberdade & e quanto a suas possibilidades de #onhe#imento.
)a medida em que a lin(ua(em éU
JaK matéria #om a qual se te#e o livro,
JbK tema em PCG,, parti#ularmente quanto a suas JimKpossibilidades de
e"pressarQelaborar a e"periên#ia heterodo"a, e
J#K flu"o entre sujeito e mundo
, a lin(ua(em ser8 observada em espe#ial a fim de #onfe##ionar um esquema que ajude a
#ompreender G.,., sua e"periên#ia, seu mundo e seu relato J#omo e"pressão de um sujeito
Jfi##ionalK e #omo tessitura do livro por seu autorK.
2 questão da lin(ua(em em 5lari#e 'ispe#tor parte da impossibilidade da mimese
de uma e"periên#ia heterodo"a Jine"tensivaK no te"to. Aal impossibilidade pode ser
atribu$da a diferentes aspe#tos da e"periên#ia em rela!ão ao suporte te"tual e a sua
re#ep!ãoU
J1K Em primeiro lu(ar, qualquer e"periên#ia de #urta dura!ão, quando transposta
em detalhes num te"to, toma mais tempo do leitor do que sua dura!ão ori(inal. 2
intensidade do fenVmeno é transformada na e"tensão da des#ri!ão dos diversos influ"os
sensoriais, das par#elas do espa!o, das sensa!Fes e"perimentadas et#. Essa é uma das
#ara#ter$sti#as que diferen#ia os suportes mais dependentes do tempo, #omo a literatura,
<E
dos suportes menos dependentes do tempo, #omo a pintura, em que os sentidos Jao menos
a visão, na pinturaK podem ser a#essados sem que a e"periên#ia pre#ise ser distendida
numa dimensão temporal. Be modo (eral, trata&se da diferen!a entre a dura!ão da
e"periên#ia narrada e a dura!ão da frui!ão do te"to
;-
.
J;K Os flu"os entre sujeito e mundo são mediados por maneiras de re#ortar o mundo
de modo que sejam apreendidos pelos diversos falantes. Ce os modos de apreensão são
#ulturalmente #onstru$dos, não h8 #omo (arantir que tais modos de apreensão sejam os
mesmos para todos os homens
D.
. 2ssim, a informa!ão #odifi#ada por um indiv$duo não
en#ontraria a #have de de#odifi#a!ão equivalente H que a #odifi#ou.
JDK )o Rmbito da vida ordin8ria, a lin(ua(em fun#iona bem. O que (arante essa
fun#ionalidade é a fi"idez dos si(nifi#ados das palavras em determinados #onte"tos
D1
bem
#onhe#idos pelos part$#ipes dos atos de #omuni#a!ão. uando, no entanto, o emissor quer
e"pressar al(o e"traordin8rio, distante dos jo(os de lin(ua(em #onhe#idos pelo re#eptor, as
palavras do emissor serão entendidas pelo re#eptor, que bus#a uma interpreta!ão, #omo
partes de al(um outro jo(o de lin(ua(em #onhe#ido de antemão. )este sentido, por
e"emplo, é que 5lari#e faz a advertên#ia na introdu!ão do livro WEste é #omo um livro
qualquerW, prevendo que o leitor suporia um jo(o de lin(ua(em adequado a um livro
qualquer. )o entanto, al(o um pou#o diferente JW#omo um livro qualquerWK pode ser
esperado a partir deste anLn#io.
J<K 2 ri(idez das si(nifi#a!Fes, determinada histori#amente, impede que #erta
intuição seja e"pressa porque os re#ortes de mundo e"istentes e #ompartilhados não se
en#ai"am em tal intui!ão. 2ssim, não é poss$vel montar a intui!ão #om os fra(mentos
Jre#ortesK dispon$veis. Em W2 intui!ão filosSfi#aW
D;
, 0er(son trata dessa impossibilidade.
3esta então ao emissor or(anizar os fra(mentos de modo a apro"imar o que quer dizer. E
or(anizar de novo os mesmos fra(mentos dispon$veis de outro modo. E de outro modo. 2s
;-
Be modo menos espe#$fi#o ainda, a palavra, que é a ponte entre duas instRn#ias distantes, é a evidên#ia da
distRn#ia entre as instRn#ias. 2 palavra apro"ima #ons#iên#ias distintas, tempos distintos, lu(ares distintos.
Por outro lado, por preen#her uma fenda, pFe em evidên#ia tal afastamento.
D.
Ce são #ulturalmente #onstru$dos, não são #omo o sujeito trans#endental Oantiano. )este #aso, #omo os
re#ortes que todos os homens fariam do mundo seriam os mesmos, a #omuni#a!ão se estabele#eria #om
menos problemas do que para os sujeitos moldados histori#amente.
D1
^itt(enstein #hamou tais #onte"tos de Wjo(os de lin(ua(emW. Estabele#em&se entre os parti#ipantes de #ada
jo(o Jsitua!ãoK re(ras que (arantem a fun#ionalidade no uso das palavras. uando, por e"emplo, um pedreiro
(rita a seu #ole(a WtijoloW, o se(undo lan!a um tijolo para #ima de um telhado, onde se lo#alizava o primeiro.
)esse #aso, ambos #onhe#em as re(ras do jo(o, fundamentado na finalidade lo#alizada de enviar tijolos para
#ima de uma laje.
^>AAGE)CAE>), '. In"estigaç.es ilos/*icas. Cão PauloU 2bril 5ultural, 1-@<.
D;
0E3GCO), ,. A Intuição ilos/*ica. 'isboaU 5olibri, 1--<.
<@
pe!as montadas fun#ionam #omo ima(ens impre#isas do que se quer dizer. Bizer Wnão é ",
não é 6, não é z,...W, ainda que não #onfi(ure a e"pressão positiva da intui!ão, apro"ima a
intui!ão em ne(ativo diversas vezes pois afirma ", 6 e z #omo ima(ens antes de ne(8&las.
En"er(a&se simultaneamente a positividade da apro"ima!ão Jquase =K e sua ne(atividade
J;uase JanãoK éK.
)esse #aso, a ri(idez que (arante a #omuni#a!ão nas situa!Fes ordin8rias é que
impede a #omuni#a!ão do não&ordin8rio proveniente da e"periên#ia $ntima.
5omo observa!ão, h8 em PCG, pelo menos uma referên#ia H mudan!a do sistema
de si(nifi#a!ão baseado em palavrasU
+as o que hoje é feio ser8 daqui a sé#ulos visto #omo beleza, porque
ter8 #ompletado um de seus movimentos. JPCG,, 1=-K
J=K Ce a intui!ão a ser #omuni#ada tem #omo #ara#ter$sti#as essen#iais a sua não
formaliza!ão e a sua unidade, #ara#ter$sti#as que seriam ne#essariamente perdidas pela
e"pressão em palavra, a palavra não é meio satisfatSrio para e"press8&la. E"press8&la não é
poss$vel. 2 intimidade do sujeito e o mundo são separados por uma fenda que impede que
se misturem e se #onfundam. )o universo #lari#eano Jo que in#lui G.,.K, a per#ep!ão
dessa separa!ão re(ulamentar é dada pela idéia intuitiva da não&separa!ão, da inte(ra!ão,
proveniente dos momentos epifRni#os re#orrentes na obra da autora.
+endiloP
DD
, em sua lon(a refle"ão sobre as estruturas do roman#e, #omenta o
roman#e moderno e suas de#laradas impossibilidadesU
\...] impressFes inst8veis, va#ilantes, in#onsistentes, que se queimam e se
e"tin(uem #om a nossa #ons#iên#ia delas.
D<
Aemos a#esso apenas ao mundo j8 e"presso em palavras, j8 re#ortado. )ão e"istiria
mais a e"periên#ia, mas um ponto de vista sobre ela.
Poderia qualquer l$n(ua forne#er palavras e arranjos sufi#ientes mesmo
para su(eri&las?
DD
+E)B>'O^, 2.2. O 0empo e o 7omance. Cão Paulo, 5ultri"QEBICP, 1-E<.
D<
3>5,23BCO), Boroth6
#f. +E)B>'O^, 2.2 op.cit., p.=E.
<-
O roman#e, então, pelas limita!Fes de seu meio, nun#a pode atin(ir a
realidade, a vida, a verdade ou qualquer outra dessas abstra!Fes Wmuito
#arre(adasW.
Audo que tem sido dito e #onhe#ido no mundo est8 em lin(ua(em, em
palavras \...] os si(nifi#ados das palavras mudam #om os pensamentos
das pessoas. Então nin(uém #onhe#e nada #om #erteza. Audo depende
da maneira #omo al(o é e"presso.
D=
Be modo (eral, todas as poss$veis #ausas, aqui listadas, da indizibilidade do
indiz$vel, estão presentes em PCG,, #onfundem&se em al(uns pontos, e são, #ada uma,
mais ou menos #entrais #onforme avan!a o enun#iado. 2 impossibilidade J1K não se atém
Hs diferentes #onfi(ura!Fes dos seres, nem #omo membros de (rupos so#iais, nem #omo
individualidades. 4osse apenas essa a impossibilidade de transmissão de uma e"periên#ia,
poder&se&ia abandonar o livro #omo meio de transmissão do que se quer dizer e montar um
me#anismo que reproduzisse as #ondi!Fes ori(inais & por e"emplo, montar um quarto
#omo o de G.,., #olo#ar uma barata no arm8rio e (uiar a e"periên#ia. )o quarto&
laboratSrio idealizado, o leitor estaria sujeito a diversos influ"os vindos do mundo e não
seria diferente de G.,. ao apreender tais influ"os. 2 questão té#ni#a, determinada pela
estrutura da lin(ua(em, é dizer a intensidade do que foi e"perimentado sem utilizar
#ate(orias pré&e"istentes, tendo #omo meio apenas a seqYên#ia linear e temporal do
dis#urso. X uma proposta fra#assada desde o prin#$pio, mas h8 diferentes maneiras de
fra#assar.
Entre as poss$veis #on#ep!Fes de lin(ua(em que abar#ariam as afirma!Fes de G.,.
sobre o assunto, uma #ara#ter$sti#a ne#ess8ria é a de a lin(ua(em se submeter a uma
*inalidade, de ela fun#ionar a prin#$pio #omo ferramenta. O que faz o uso da lin(ua(em ser
adequado, ou não, é sua *uncionalidade. Em diversas passa(ens do livro, a#ompanhando
sua tentativa de se livrar de sua par#ela e"#essivamente humanizada, G.,. J5lari#eK se
refere H ne#essidade de evitar a finalidade, ou faz a observa!ão de que a G.,. anterior H
e"periên#ia era e"#essivamente li(ada H finalidade. 2 defesa dos valores ideais Jo belo, o
or(anizado, o limpo, o moral, o bom, enquanto fins moraisK estaria assim subordinada H
realiza!ão ou não das inten!Fes dos sujeitos envolvidos em #ada intera!ão lin(Y$sti#a. 2
D=
+E)B>'O^, 2.2. op.cit. , pp.=E&=@.
=.
estrutura #omple"a da #ultura seria, desse modo, a #ristaliza!ão dos diversos flu"os
lin(Y$sti#os ini#ialmente vin#ulados a uma finalidade #lara e lo#al. 2 moral institu$da seria
a representa!ão sistem8ti#a do interesse de indiv$duos, o que pode representar o interesse
de (rupos. X desse modo que G.,. pode per#eber&se a prin#$pio livre, #om al(um poder
por, ao mesmo tempo, J1K ser moral e J;K perten#er ao (rupo so#ial #ujos interesses tal
moral pare#e servir. Por outro lado, des#onfia dessa moral, que lhe d8 poder mas que é
obede#ida #om ri(idez sem ter sido es#olhida. 2 palavra nas#e #omo intermedi8ria entre o
sujeito e o #umprimento de seus desejos b8si#os, e se solidifi#a de modo a aperfei!oar a
ferramenta que permite que a finalidade seja atin(ida #om mais efi#iên#ia pelos diversos
membros de um (rupo. 5onforme aumenta, no entanto, a estrutura (anha uma infinidade
de novos elementos, o que pode difi#ultar a identifi#a!ão das finalidades. 2 palavra (anha
então uma se(unda dimensão ne#ess8ria. O indiv$duo #umpre um pro#edimento por
subordinar&se a uma finalidade que não é #onhe#ida. 2(e&se em fun!ão de um bem maior,
de valores ideais, de um sistema moral baseado em fundamentos des#onhe#idos. 2ssim,
apro"imam&se a moral, a solidifi#a!ão dos si(nifi#ados e valores, e a finalidade. >ndiv$duo
e finalidade estão separados por uma estrutura lin(Y$sti#a (i(antes#a que impede que,
utilizando&se da palavra, o indiv$duo en"er(ue a finalidade da ferramenta que ele utilizou.
Para a minha anterior moralidade profunda & minha moralidade era o
desejo de entender e, #omo eu não entendia, eu arrumava as #oisas, foi
sS ontem e a(ora des#obri que sempre fora profundamente moralU eu sS
admitia a finalidade JPCG,, ;;K
O que eu estava vendo naquele monstruoso interior de m8quina, que era
a 8rea interna de meu edif$#io, o que eu estava vendo eram #oisas feitas,
eminentemente pr8ti#as e #om finalidade pr8ti#a. JPCG,, D?K
E eu & eu via. )ão havia #omo não vê&la. )ão havia #omo ne(arU minhas
#onvi#!Fes e minhas asas se #restavam rapidamente e não tinham mais
finalidade. Eu não podia mais ne(ar. )ão sei o que é que eu não podia
mais ne(ar, mas j8 não podia mais. E nem podia mais me so#orrer, #omo
antes, de toda uma #iviliza!ão que me ajudaria a ne(ar o que eu
via.JPCG,, E?K
=1
Estabele#idas as no!Fes de #erto e errado Je todos os modos de avaliar as pr8ti#as
humanas em fun!ão dos ideais morais vi(entesK, o homem a(e diretamente submetido a
este balizamento, #erto e errado, e indiretamente submetido a uma finalidade qualquer
des#onhe#ida que dele(a poderes ao balizamento. Esse modo #ontrolado de a(ir pode não
trazer re#ompensa imediata ao indiv$duo. 2 re#ompensa é adiada. O indiv$duo a(e na
e"pe#tativa de que haja uma finalidade des#onhe#ida que o re#ompense. Esse sentimento
de espera por uma re#ompensa futura des#onhe#ida é outra tSpi#a #lari#eana em PCG,U a
esperança. >dentifi#am&se assim esperan!a, finalidade e moral, que se #onstroem na
dimensão do tempo e do humanizado, e se opFem H e"periên#ia revelatSria de G.,. #om a
barata, a#onte#ida em um aqui, a(ora, uno e ilimitado, um instante1<8. J#omo definiu
5lari#e 'ispe#tor em &gua 'i"aK.
E uma desilusão. +as desilusão de quê? se, sem ao menos sentir, eu mal
devia estar tolerando minha or(aniza!ão apenas #onstru$da? Aalvez
desilusão seja o medo de não perten#er mais a um sistema. )o entanto se
deveria dizer assimU ele est8 muito feliz porque finalmente foi
desiludido. O que era antes não me era bom. +as era desse não&bom que
eu havia or(anizado o melhorU a esperan!a. Be meu prSprio mal eu havia
#riado um bem futuro. JPCG,, 1DK
2 esperan!a de quê? Pela primeira vez eu me espantava de sentir que
havia fundado toda uma esperan!a em vir a ser aquilo que eu não era. 2
esperan!a & que outro nome dar? & que pela primeira vez eu a(ora iria
abandonar, por #ora(em e por #uriosidade mortal. 2 esperan!a, na minha
vida anterior, teria se fundado numa verdade? 5om espanto infantil, eu
a(ora duvidava.
Para saber o que realmente eu tinha a esperar, teria eu antes que passar
pela minha verdade? 2té que ponto até a(ora eu havia inventado um
destino, vivendo no entanto subterraneamente de outro? JPCG,, =@K
o que sai da barata éU “hoje%, bendito o fruto de teu ventre & eu quero a
atualidade sem enfeit8&la #om um futuro que a redima, nem #om uma
esperan!a & até a(ora o que a esperan!a queria em mim era apenas
es#amotear a atualidade. JPCG,, @DK
=;
:ale notar que é no dom$nio das ferramentas que lhe são dadas que G.,. pode
elaborar sua e"periên#ia, ainda que tenha e queira dar a essas ferramentas uma finalidade
pou#o usual. X dentro do dom$nio da palavra que G.,. se vê adiando al(o, estendendo um
dis#urso para falar do ine"tens$vel, do que é a(ora.
D?
Estou adiando. Cei que tudo o que estou falando é sS para adiar & adiar o
momento em que terei que #ome!ar a dizer, sabendo que nada mais me
resta a dizer. Estou adiando o meu silên#io. 2 vida toda adiei o silên#io?
mas a(ora, por desprezo pela palavra, talvez enfim eu possa #ome!ar a
falar. JPCG,, ;;K
Bevido H ri(idez do sistema de lin(ua(em Jque é sistema de valores e si(nifi#adosK,
que não se molda a ponto de se ajustar H e"periên#ia pou#o ortodo"a, e devido ao
des#onhe#imento das finalidades Lltimas desse sistema é que G.,. J5.'.K se vê na
ne#essidade de estabele#er uma lin(ua(em que seja menos que uma lin(ua(em, que seja
#omo uma massa fluida J8(ua viva, (eléia vivaK que endure#e espontaneamente sobre a
memSria Jtambém a afetivaK de sua e"periên#ia, de modo a #onstruir um relato satisfatSrio.
Para isso, G.,. estabele#e sua tentativa de des#onstru!ão de #on#eitos, de aquisi!ão de
liberdade em rela!ão ao sistema lin(Y$sti#o dispon$vel e #ompartilhado. X dLbio, no
entanto, que tal pro#esso de liberta!ão seja apenas uma des#onstru!ão. Enquanto relato, ele
é #ertamente a #onstru!ão de um relato. Enquanto vivên#ia, pode ser, #omo suspeitou
G.,., a heroiza!ão de uma #onstru!ão r$(ida artifi#iosa que se diz des#onstru!ão ou
liberdade.
T8 que tenho de salvar o dia de amanhã, j8 que tenho que ter uma forma
porque não sinto for!a de fi#ar desor(anizada, j8 que fatalmente
pre#isarei enquadrar a monstruosa #arne infinita e #ort8&la em peda!os
assimil8veis pelo tamanho de minha bo#a e pelo tamanho da visão dos
meus olhos, j8 que fatalmente su#umbirei H ne#essidade de forma que
vem de meu pavor de fi#ar indelimitada & então que pelo menos eu tenha
a #ora(em de dei"ar que essa forma se forme sozinha #omo uma #rosta
D?
Bo mesmo modo, 3odri(o C.+. se vê adiando a narrativa de +a#abéa por não en#ontrar no sistema
dis#ursivo o modo e o tom de dizer al(o muito mais sutil. Em A Hora da estrela, h8 ainda a separa!ão de
#lasses entre narrador e persona(em, o que d8 espe#ifi#idade H in#apa#idade de o sistema lin(Y$sti#o do
narrador dizer o narrado.
=D
que por si mesma endure#e, a nebulosa de fo(o que se esfria em terra. E
que eu tenha a (rande #ora(em de resistir H tenta!ão de inventar uma
forma.
DE
JPCG,, 1=K
5omo foi dito anteriormente, o sujeito #lari#eano é usualmente separado do ser do
mundo que o #er#a. Ele e"perimenta um não&perten#imento que é fundante de boa parte da
obra da es#ritora. 2ssim separado, ele não tem #omo #onhe#er diretamente esse ser. O
sujeito tem a#esso apenas ao fenVmeno, ou seja, ao produto da intera!ão entre o ser, as
#apa#idades sensoriais e os modos de re#ortar e apreender o mundo. Perde assim o sentido
qualquer espe#ula!ão sobre uma causalidade
D@
objetiva. Ou melhor, perde o sentido o
homem supor ter a#esso a essa #ausalidade Lltima, aos fundamentos do ser. 3esta ao
sujeito sua tendên#ia por or(anizar os fenVmenos, observar padrFes de repeti!ão e #riar
#ritérios baseados na e"periên#ia.
'evantei&me enfim da mesa do #afé, essa mulher. )ão ter naquele dia
nenhuma empre(ada iria me dar o tipo de atividade que eu queriaU o de
arrumar. Cempre (ostei de arrumar. Cuponho que esta seja a minha Lni#a
vo#a!ão verdadeira. Ordenando as #oisas, eu #rio e entendo ao mesmo
tempo. JPCG,, DDK
Pro#edimento semelhante é utilizado quando o sujeito se vê envolvido por uma
e"periên#ia heterodo"a, imprevista, epifRni#a e rara, #omo o en#ontro de G.,. #om a
barata. 3esta ao sujeito a vontade de or(anizar, a#ompanhada da impossibilidade de
utiliza!ão, neste #aso, dos #ritérios prévios. Por ser raro, o fenVmeno heterodo"o não se
#onfirma e re#onfirma pela repeti!ão. Cão diferentes, nesse aspe#to, dos pro#edimentos
usuais em que as #ausalidades estabele#idas se #onfirmam #om tanta freqYên#ia que
(anham status de verdade. Ce minha sensa!ão de sede é minimizada diariamente, h8 anos,
pela in(estão de 8(ua, dizer que 8(ua provo#a o fim da sede tem #omprova!ão emp$ri#a
di8ria. 2inda, se, além de raro, o fenVmeno é de natureza diferente dos demais, falha
mesmo a apro"ima!ão desse fenVmeno por e"periên#ias semelhantes anteriores, j8 que não
DE
>nventar uma forma seria artifi#ioso, seria re#ortar a e"periên#ia em formas pré&#on#ebidas. 2 tentativa,
porque a e"istên#ia de uma forma pare#e irrevo(8vel, é que a forma surja sem a interferên#ia das formas j8
e"istentes.
D@
2 #ausalidade em PCG, rela#iona&se #om a idéia de temporalidade, que ser8 dis#utida e ilustrada a se(uir.
=<
h8 semelhan!as sufi#ientes. )o #aso das epifanias #lari#eanas, a bre#ha entre sujeito e
mundo desapare#e pelo #urto per$odo em que o sujeito e"perimenta JintuiK a
indivisibilidade do ser, supostamente sem a media!ão de seus modos usuais de apreensão.
O sujeito sente&se in#lu$do no mundo que, #omo re(ra, o e"#lui e em rela!ão ao qual é
hetero(êneo.
Em PCG,, G.,. sequer sabia dessa bre#ha que a separava do ser. :ivia em
#onforto, aparentemente sem tensFes que a aborre#essem demais. 2 e"periên#ia #om o uno
é que faz evidente a bre#ha, a separa!ão, o mistério, e que torna tensa sua vivên#ia lo(o
apSs o en#ontro #om a barata.
D-
,8 outras narrativas de 5lari#e 'ispe#tor em que a fenda
ontolS(i#a (enéri#a é fi(urada em um não&perten#imento mais espe#$fi#o. Por e"emplo, o
não&perten#imento da menina ruiva de WAenta!ãoW
<.
& num mundo de morenas, loiras e
ne(ras & que se transforma em perten#imento quando ela en#ontra o #a#horrinho de pêlo
vermelho* ou a mulher de WO 0LfaloW
<1
, que é alheia a sua prSpria a(ressividade. Para
G.,., sua solidão ontolS(i#a é fi(urada também na sua solidão #omo indiv$duo numa
so#iedadeU mora sS, não teve filhos nem qualquer rela!ão que não pudesse ser #hamada de
pré&#l$ma", de adiamento, de promessa, de esperan!a e se opusesse H e"periên#ia do
instante&j8, de sua sensa!ão de perten#imento no ser do mundo.
<;
2 barata não é apenas um
outroQmesmo num #ritério espe#$fi#o J#abelos vermelhosK ou a evidên#ia da falta de al(o
determinado JSdioK. Ela é a #have para o vislumbre de um não&perten#imento fundante e
tão (enéri#o quanto poss$vel do homem em rela!ão ao mundo.
2 lin(ua(em é, então, grosso modo, um sistema de s$mbolos, #om valores e
si(nifi#ados a eles asso#iados, que, em determinadas situa!Fes, têm ou não fun#ionalidade,
isto é, atendem ou não a uma inten!ão de um ou mais indiv$duos envolvidos nesse jo(o
espe#$fi#o de lin(ua(em ou de indiv$duos não envolvidos nesse jo(o Jneste #aso, os
envolvidos podem não #onhe#er a inten!ão, a finalidade de sua prSpria pr8ti#aK. )um
sistema bem formado, apesar de a finalidade do jo(o não se #ompletar em si, (arante&se
D-
)ão se pode e"#luir a idéia de que, de tão heterodo"as e informul8veis, as epifanias das persona(ens, ainda
que se repitam, podem ser esque#idas até que outra epifania abale o razo8vel equil$brio ordin8rio. 5omo da
e"periên#ia epifRni#a sobra pou#o ou nada, a epifania é sempre novidade ao sujeito que não tem ferramentas
para lidar #om ela.
<.
'>CPE5AO3, 5. WAenta!ãoW InU A -egião estrangeira. Cão PauloU 3o##o, 1---.
<1
'>CPE5AO3, 5. WO 0LfaloW InU -aços de am2lia. .Cão PauloU 3o##o, 1---.
<;
)ão se pode esque#er que, devido a sua #lasse so#ial, G.,. era in#lu$da na so#iedade. )o entanto, sua
in#lusão baseava&se em moralidade e, ne#essariamente, adiamento Jesperan!aK, sendo qualitativamente
diferente da in#lusão ontolS(i#a e"perimentada. O adiamento é $ndi#e sufi#iente para se afirmar a
par#ialidade da in#lusão.
==
que a soma dos efeitos dos jo(os de lin(ua(em produza o efeito *inal desejado. )o entanto,
no meio da #omple"idade dos sistemas, e pelo fato de os jo(adores des#onhe#erem as
inten!Fes não lo#ais da estrutura, é poss$vel que os jo(adores modifiquem o jo(o
minimamente, jul(ando que não ser8 prejudi#ada a efetividade da a!ão lin(Y$sti#a. X
poss$vel também que determinadas pr8ti#as sejam esque#idas e que o en#adeamento dos
jo(os não mais se dê. X poss$vel que determinados #omportamentos JmoralU moros JlatimK,
#ostumesK sejam valorizados ou desvalorizados apesar de suas finalidades não terem mais
validade. O homem asso#ia a determinados dis#ursos Jfra(mentos lin(Y$sti#osK um valor
positivo Jou ne(ativoK e espera Jesperan!aK por uma re#ompensa futura JfinalidadeK que,
nesses #asos, não e"istir8. O sistema apresenta&se firme e aparenta #ontinuidade quando é,
na verdade, formado por fra(mentos pou#o #one"os, #omo uma #orda, r$(ida, formada por
uma infinidade de pequenos peda!os de fibra devidamente tor#idos e tensionados.
Besse modo, resta no sistema de lin(ua(emQ#ultura uma infinidade de fra(mentos
inLteis asso#iados a virtudes Ja bom, a belo, a limpo...K. 2 #ultura torna&se um r$(ido
sistema #heio de ru$nas, de fSsseis, que re(em idéias e #omportamentos, que moldam as
possibilidades humanas e que fazem os homens a(irem, por respeito ao #Sdi(o moral, de
determinado modo.
+as al(o da natureza terr$vel (eral & que mais tarde eu e"perimentaria
em mim, al(o da natureza fatal sa$ra fatalmente das mãos da #entena dos
oper8rios pr8ti#os que havia trabalhado #anos de 8(ua e de es(oto, sem
nenhum saber que estava er(uendo aquela ru$na e($p#ia para a qual eu
a(ora olhava #om o olhar de minhas foto(rafias de praia. JPCG,, D?K
Por enquanto, hoje, eu vivia no silên#io daquilo que da$ a três milênios,
depois de erosado e de novo er(uido, seria de novo es#adas, (uindastes,
homens e #onstru!Fes. Eu estava vivendo a pré&histSria de um futuro.
5omo uma mulher que nun#a teve filhos mas os ter8 da$ a três milênios,
eu j8 vivia hoje do petrSleo que em três milênios ia jorrar. JPCG,, 1.EK
+entalmente tra#ei um #$r#ulo em torno das semi&ru$nas das favelas, e
#onhe#i que ali poderia ter outrora vivido uma #idade tão (rande e
l$mpida quanto 2tenas no seu apo(eu, #om meninos #orrendo entre
mer#adorias e"postas nas ruas. JPCG,, 1.@K
=?
Essas ru$nas de #ultura seriam, assim, limitadores inLteis das possibilidades
humanas. Em outras palavras, o homem abre mão de al(uma liberdade em favor de uma
esperan!a abstrata, de uma finalidade des#onhe#ida, sistematizada em uma #ultura
fra(mentada. Os #omportamentos não apenas são re(idos por finalidades des#onhe#idas
que servem a sujeitos vivos, supostamente sujeitos #om poder na so#iedade, mas também
por finalidades que serviriam a interesses de sujeitos mortos e inten!Fes ana#rVni#as. 2
ri(idez e a (randiosidade desse sistema moral são fi(ura!ão das difi#uldades de G.,. para
formular uma e"periên#ia não ortodo"a, isto é, sem finalidade.
2inda sobre a #on#ep!ão de que se atribui #ausalidade a partir da e"periên#ia, da
repeti!ão, da fun#ionalidade e da memSria
<D
, o #onhe#imento #ient$fi#o&ra#ional sS (anha
le(itimidade quando #onfirmado empiri#amente. +esmo a #iên#ia a#aba por se apoiar na
crença da re(ularidade dos fenVmenos, na idéia de que é razo8vel dizer que 2&b0 para um
fenVmeno 2 que é sempre observado a#oplado ao fenVmeno 0. 2 #iên#ia Je tudo o que se
apSia nelaK é, assim, um sistema de #ren!as. O ra#io#$nio e o trabalho #ient$fi#os são
seqYên#ias de etapas que resultam em produtos emp$ri#os. O trabalho e o ra#io#$nio
#ient$fi#os se submetem, também, ao #ritério de fun#ionalidade. 2 razão espe#ulativa e a
metaf$si#a devem perder valor, se(undo esta #on#ep!ão sobre as rela!Fes #ausais, por
#are#erem de #omprova!ão emp$ri#a. 2s #ausas Lltimas, ina#ess$veis ao homem, não
deveriam ser objeto de questionamento na medida em que a razão pura, independente da
e"periên#ia, não é fonte de #onhe#imento. >sso faz do livro e da elabora!ão da e"periên#ia
em palavras al(o se#und8rio em rela!ão H e"periên#ia e aumenta a sensa!ão de
impossibilidade da es#rita, a não ser que se #onsidere a es#rita Jou a leituraK #omo
e"periên#ia ela&mesma.
+ais ainda, a razão e o trabalho #ient$fi#os, neste #aso, se i(ualam ao trabalho e H
razão ritual, por estarem ambos sujeitos ao #ritério da fun#ionalidade.
Coube o que não pude entender, minha bo#a fi#ou selada, e sS me
restaram os fra(mentos in#ompreens$veis de um ritual. JPCG,, 1?K
<<
<D
O homem per#ebe os fenVmenos 2 e 0, que se repetem na mesma seqYên#ia 2, 0. O homem atribui uma
#ausalidade 2&b0 e a (uarda na memSria de modo a esperar que, o#orrido 2, lo(o o#orra 0.
<<
,8 um sentido adi#ional para WritualW, que não elimina o sentido aqui apresentado, que ser8 dis#utido mais
a frente. Arata&se do ritual #omo o modo de o humano #umprir seu destino, o ritual #omo a m8s#ara que faz o
homem espe#ifi#amente humano.
=E
Beste ponto de vista, toda a tem8ti#a do m8(i#o e do ritual (anham for!a em
PCG,. O roman#e, na sua totalidade, por e"emplo, é a passa(em de um persona(em, de
um ambiente #otidiano a um ambiente diferente, espe#ial, onde se toma #ontato #om
par#elas de si que antes estavam es#ondidas, #om a in(estão final de uma por!ão de
matéria que é parte de um todo vislumbrado. Bo mesmo modo é o ritual de tomar a hSstia,
na i(reja, apSs a #onfissão dos pe#ados.
Bado, assim, que a #ausalidade é uma #ate(oria que o sujeito atribui a determinadas
seqYên#ias de fenVmenos a partir da e"periên#ia, da repeti!ão e da #ren!a de que a mesma
seqYên#ia ser8 observada no futuroU #omo é #onstru$da em PCG, a dimensão da
temporalidade?
2 temporalidade rela#iona&se #om a #ausalidade por ambas se submeterem aos
#ritérios emp$ri#os. 2 temporalidade, a prin#$pio, é #omo um ritmo que bate subja#ente ao
mundo, que a#ompanha a su#essão dos fenVmenos, ou mar#a a ausên#ia dessa su#essão
Japreendida muitas vezes pelo viés do tédioK.
Porque o tédio é insosso e se pare#e #om a #oisa mesmo. E eu não fora
(rande bastanteU sS os (randes amam a monotonia. O #ontato #om
supersom do atonal tem uma ale(ria ine"pressiva que sS a #arne, no
amor, tolera. Os (randes têm a qualidade vital da #arne, e, não sS
toleram o atonal, #omo a ele aspiram. JPCG,, 1<1K
O tempo é a pulsa!ão que a#ompanha a e"istên#ia do JnoK mundo, subja#ente Hs
aparên#ias, e que não aponta para uma posi!ão espe#$fi#a Jperspe#tiva teleolS(i#aK, mas
apenas se repeteU pulsa. X o ritmo do neutro.
A Paixão segundo G.H. não é um livro que se vin#ule a uma idéia tradi#ional de
livro bem formado. 0oa parte de suas possibilidades de sedu!ão est8 na dissolução das
*ormas que possam ser re#onhe#idas #omo formas. )ão se trata da dissolu!ão efetiva de
todas as formula!Fes, j8 que das formas depende a #omuni#a!ão, mas a simula!ão Jneste
aspe#to, sim, bem formadaK dessa dissolu!ão. O leitor tem que ser en(anado, levado pela
mão pelo #aminho que é também des#aminho, pelas #onstantes destrui!Fes e #onstru!Fes
das (uias, e mudan!as de sentido. 2 a#eita!ão pelo leitor, ao lon(o do per#urso de G.,., de
uma parada ou de outra e de sua su#essiva ne(a!ão é $ndi#e de que o leitor in#lina&se a
=@
dissolver, $ndi#e de sua prSpria dissolu!ão, mas não pode dei"ar de ser, enquanto literatura,
ordem que simula a indiferen#ia!ão. )essa simula!ão dissimulada, não h8 lu(ar para a
#on#eitualiza!ão a não ser que pelo lado ne(ativo. 2ssim, a re(ra Jas e"#e!Fes a
#onfirmamK é que temporalidade, tanto quanto outras #ate(orias usuais da ontolo(ia, do
roman#e ou da vida, não se apresenta afirmativamente #omo forma not8vel em #ontraste
#om o fundo, mas #omo forma Jou fi(uraK que ne(a a forma usual e que se afirma enquanto
ne(a!ão. )e(a a forma usual ao mesmo tempo que simula ser não&forma. 2 idéia de tempo
se apresenta, então, por vest$(ios de uma temporalidade Jassim #omo a idéia de
#ausalidadeK. Aemporalidade e #ausalidade li(am&se no te"to pela maneira #omo os
fra(mentos desse te"to se su#edem e por al(umas ima(ens que fi(uram su#essFes de
eventos.
Bas poss$veis divisFes de PCG,, a mais evidente é a divisão em partes que
poder$amos #hamar de #ap$tulos. Bentro de #ada #ap$tulo, é desenvolvida a narrativa, #om
al(uma autonomia em rela!ão Hs demais partes. 2 interfa#e entre os #ap$tulos Jisso é bem
mar#adoK se d8 de um modo em que a Lltima frase de um é a primeira frase do #ap$tulo
se(uinte. 2ssim, a autonomia entre as partes se arti#ula em um ponto #omum. Bentro de
um #ap$tulo, o movimento da narrativa se(ue um #urso até determinado ponto, a Lltima
frase. Besse ponto, se(ue&se para um outro, não #ausado pelo anterior, apenas ante#edido.
2 narrativa não se(ue um #aminho linear, ela se adia, se enrola e desenrola, volta. 2
su#essão de #ap$tulos não aponta para um lu(ar Juma s$nteseK, é feita por #aminhos, mas
também por des#aminhos. 2 temporalidade e a #ausalidade apresentadas a partir dessa
#ara#ter$sti#a da #apitula!ão não é muito mais que um ritmo pulsante. Im fenVmeno se(ue
o outro, mas não por uma lS(i#a a#ess$vel. Bessa lS(i#a Lltima do mundo temos apenas a
e"periên#ia, a transfi(ura!ão da lS(i#a em fenVmeno. 2lém disso, seria espe#ula!ão.
Ba mesma maneira, no misterioso mural na parede do quarto de Tanair, os tra!os
têm uma #ara#ter$sti#a semelhante H #apitula!ãoU
O tra!o era (rosso, feito #om ponta quebrada de #arvão. Em al(uns
tre#hos o ris#o se tornava duplo #omo se um tra!o fosse o tremor do
outro. JPCG,, D-K
Im tra!o não é a de#orrên#ia lS(i#a do anterior se(undo um planejamento. O tra!o
é o des#ontrole Jnão um des#ontrole qualquer, mas um que se vin#ula ao tra!o anterior pelo
=-
ponto #omum, a interse#!ão entre os dois tra!os&tremoresK. Bessa ima(em, é poss$vel
também derivar a idéia de pou#a autonomia do sujeito em rela!ão ao mundo, j8 que seu
#ontrole sobre as de#isFes Jliberdade & tra!oK est8 submetido a instRn#ias não #ontroladas
Jsujei!ão & tremorK.
'o(o no in$#io de seu enun#iado, quando vai se referir a sua e"periên#ia Jainda não
narradaK, G.,. refere&se a seu en#ontro #om a barata #omo um tremor, uma anomalia no
que a #iviliza!ão propunha #omo re(ularidadeU
)ão #ompreendo o que vi. E nem mesmo sei se vi, j8 que meus olhos
terminaram não se diferen#iando da #oisa vista. CS por um inesperado
tremor das linhas, sS por uma anomalia na #ontinuidade ininterrupta de
minha #iviliza!ão, é que por um 8timo e"perimentei a vivifi#ar a morte.
JPCG,, 1=K
>sso faz faz da #ausalidade objetiva uma lS(i#a ina#ess$vel aos dedos (rossos da
#iviliza!ão.
Essa aten!ão H idéia de não haver uma #ausalidade bem #omportada, de 2 &b 0 não
ser uma rela!ão re(ida por uma ne#essidade & fosse esta proveniente do homem Jpois este
não #ontrola os fenVmenosK ou do mundo Jpois o homem não tem a#esso Hs #ausas Lltimas
num mundo objetivoK & é #on#retizada no livro também na su#essão de movimentos e
paradas da narrativa. Os movimentos de bus#a por uma verdade são su#edidos pelo
re#onhe#imento de que não havia verdade objetiva apreens$vel, mas atribui!ão do valor de
verdade. Então move&se para outro destino a partir do fra#asso anterior, repetindo o #i#lo.
Aanto no modo de finalizar e #ome!ar os #ap$tulos, quanto nos tra!os&tremores do mural e
no ritmo de movimentos e paradas da narrativa, as rela!Fes temporais e #ausais são
su#essFes de eventos #uja lS(i#a, se h8 uma, est8 além da #ompreensão humana, são parte
de um mistério pou#as vezes intu$do Japenas nas epifaniasK.
uanto aos #ap$tulos e H temporalidade, uma Lltima observa!ãoU o Lltimo #ap$tulo
a#aba em seis travessFes, e"atamente #omo #ome!a o primeiro #ap$tulo. Pode&se tomar
esse fato #omo a representa!ão de um tempo #$#li#o, em a#ordo #om os demais padrFes
r$tmi#os do te"to, que retomam seu prin#$pio apSs al(um movimento. O #i#lo #omo
ima(em de temporalidade limita também as possibilidades humanas. )ão é vi8vel a bus#a
de um #ume absoluto evolutivo & os #umes são lo#ais e se(uidos de depressFes. )ão h8
?.
também uma evolu!ão #lara, apenas a su#essão de estados diferentes no mundo e no
sujeito. 2s #onquistas, de modo (eral em PCG,, não são definitivas. )ada (arante que a
ter#eira perna que se perde não ser8 (anha em momento posterior. Os v$n#ulos entre fatos
su#essivos são tão obs#uros e inusitados J#omo um en#ontro #om uma barata ou #om um
#e(o mas#ando #hi#le levar a uma ilumina!ãoK que, num estado posterior, o sujeito pode
mesmo des#onfiar de sua memSria sobre o que a#abou de a#onte#er, #omo o que relata
G.,. sobre sua e"periên#ia do dia anterior. Os diferentes estados pelos quais o sujeito
passa se des#onhe#em e fazem #om que o sujeito, ele&mesmo, seja dependente da obs#ura
#ausalidade do mundo, representa!ão das su#essFes sem evolu!ão, seja por a#Lmulo de
e"periên#ia, seja por refle"ão. O #i#lo d8 uma perspe#tiva tr8(i#a H #ondi!ão Jou naturezaK
humana. O homem se(ue um destino #ujas rela!Fes #ausais des#onhe#e. O homem se
repete #omo #ondi!ãoQnaturezaQdestino tr8(i#o nessa oscilação entre saberQnão saber,
#omunhãoQsepara!ão, satisfa!ãoQinsatisfa!ão, movimentoQparada, neutroQpalavra et#.
Be #on#ep!ão semelhante é o tempo no #onto W2 uinta histSriaW
<=
. )esse #onto,
um mesmo fato é narrado de diferentes perspe#tivas não e"#ludentes, Wporque nenhuma
delas mente a outraW. O #onto insiste num pro#esso que é o mesmo e é o novo, um ritmo
simples em que a narradora e"pli#a a morte das baratas que lhe apare#eram no
apartamento. Publi#ado em épo#a prS"ima H publi#a!ão de PCG,, W2 uinta histSriaW tem
diversos pontos #omuns #om o roman#e. Biz a narradora numa das histSrias WEstreme#i de
mau prazer H visão daquela vida dupla de feiti#eira. E estreme#i também ao aviso do (esso
que se#aU o v$#io de viver que rebentaria meu molde interno. _spero instante de es#olha
entre #aminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e #erta de que qualquer es#olha seria a do
sa#rif$#ioU eu ou minha alma. Es#olhi. E hoje ostento se#retamente no #ora!ão uma pla#a
de virtudeU WEsta #asa foi dedetizadaW W. )esse tre#ho est8 bem #lara a #ondi!ão humana
duplaU a ordem JeuK e a desordem JalmaK. )essa histSria, a vontade de matar é ao fim
a#oplada H e"pli#a!ão por um valor ideal de limpeza, a #asa estava limpa de baratas. O
#i#lo induzido pela forma do #onto que é v8rios #ontos em seqYên#ia é também e"presso
na alternRn#ia entre motivos Jda alma e da desordemK e e"pli#a!Fes Jdo eu, da palavra e da
ordemK. O ritual ini#ial Jor(anizadoK do preparo do veneno, semelhante ao de #ontar uma
histSria por noite, é se(uido por uma noite de perdi!ão e morte. E essa vida dupla se
renovariaU WEu iria então renovar todas as noites o a!L#ar letal? #omo quem j8 não dorme
<=
'>CPE5AO3, 5. W2 uinta histSriaW InU A -egião )strangeira. 3io de TaneiroU 3o##o, 1---.
?1
sem a avidez de um rito?W 2 #on#ep!ão (eral de W2 uinta histSriaW difere um pou#o de
PCG, por #onse(uir #ontar histSrias, todas elas verdadeiras, sem que uma ne(ue a outra,
sem que nada pre#ise ser ne(ado. ,8 mais a#eita!ão da falibilidade do dis#urso, todos são
poss$veis, não ne#essariamente falsos. Em PCG,, #ada seqYên#ia afirmativa é se(uida de
uma ne(a!ão. )ão é um fato #ontado de #in#o ou mil e uma maneiras, mas um fato
#ontado de maneira nenhuma. Em W2 uinta histSriaW, a palavra se afirma* em PCG,, a
palavra se ne(a.
Be volta a PCG,, o tempo é um pulsar, um ritmo que apenas e"iste, se repete.
Era a alta monotonia de uma eternidade que respira. JPCG,, -1K
2 temporalidade é, de modo (eral, #$#li#a, o que #ontraria a idéia de esperan!a e
salva!ão. 2s rela!Fes #ausais são, em primeiro lu(ar, obs#uras aos homens, #omo
fundamento, apreens$veis somente enquanto fenVmenos JresultadosK. 2 partir disso, a idéia
de +istoricidade (anha duas #ara#ter$sti#as. 2 primeira é que não pode haver histSria #omo
evolu!ão, a#Lmulo e supera!ão. 2 histSria, se e"trapolada a partir da vivên#ia de G.,., é a
su#essão de momentos pou#o #one#tados entre si. 2 idéia de a#Lmulo é #onstru$da de
modo ne(ativo, j8 que o que se a#umula, muitas vezes, é #ultura fossilizada, restos inLteis
de si(nifi#ados e valores que limitam a liberdade humana. 2 se(unda #ara#ter$sti#a é a
or(ani#idade do momento histSri#o. O #onjunto de re(ras or(anizadas é r$(ido e difundido.
Os sujeitos estão submetidos a ele. uanto H lin(ua(em, por e"emplo, fa#eta da #ultura, a
difusão e a#eita!ão de um mesmo sistema (arante o flu"o de informa!ão ordin8ria entre os
indiv$duos. Por outro lado, o sistema lin(Y$sti#o pode não a#olher bem al(uma informa!ão
e"traordin8ria, #omo a e"periên#ia $ntima de G.,. e não dar #onta de dizê&la.
<?
,istSria é,
então, a su#essão de momentos histSri#os or(Rni#os. Aal su#essão apresenta em rela!ão H
#ultura, ainda que de modo ne(ativo, a idéia do a#Lmulo. T8 as idéias de supera!ão e
evolu!ão não #ondizem #om as linhas prin#ipais da temporalidade em PCG,. Ima
temporalidade #$#li#a Je uma #ausalidade obs#ura, apreendida enquanto fenVmeno e não
enquanto #ausaK, não d8 ao homem e H histSria perspe#tivas afirmativas de evolu!ão e
<?
2pesar de, diversas vezes, a difi#uldade de inser!ão do sujeito e de sua e"periên#ia poderem ser vistas
#omo #onseqYên#ia de uma separa!ão ontolS(i#a entre indiv$duo e mundo, G.,. J5.'.K trata, em outras
passa(ens, mais #on#retamente, a difi#uldade de utiliza!ão da lin(ua(em #omo uma ri(idez do sistema de
si(nifi#ados e valores de determinado momento histSri#o.
?;
supera!ão. 2 ne#essidade da #onfirma!ão emp$ri#a Jainda que a e"periên#ia não dê a#esso
a uma :erdadeK elimina desse modo a possibilidade de trans#endên#ia & nem mesmo o
futuro pode trans#ender Jdiferen#iar&se em valor & melhorarK o presente. 2penas é outro. O
mundo, #omo apreendido por al(uns persona(ens de 'ispe#tor, é uma su#essão de
revolu!Fes JtremoresK sem sujeito.
Por fim, o tempo que avan!a é o modo #omo o homem apreende os eternos
instantes&j8 do ser. 0or(es definiu esse tempo de maneira #lara, num #onto, o que ajuda a
ilustrar a fratura fundante entre homem e mundo J(atos e baratas são mundoK.
\...] pensou, enquanto alisava o pêlo preto \de um (ato], que aquele
#ontato era ilusSrio e que estavam #omo separados por um #ristal,
porque o homem vive no tempo, na su#essão, e o m8(i#o animal, na
atualidade, na eternidade do instante.
<E
Toão 2dolfo ,ansen es#olhe o mesmo animal para des#rever a atemporalidade de
+a#abéa & W#omo um (ato, não tem distan#iamento, sendo atemporalW
<@
.
)essa #on#ep!ão, o tempo passa a ser um modo #omo o homem or(aniza sua
e"periên#ia e, #$#li#o ou não, é produto humano sobre seu estar no mundo e não um dado
do mundo em si.
Este #laustro para o homem Ja falta de #ertezas, inte(ra!ão e perspe#tivas de
mudan!as #ontroladasK elimina, #omo dis#urso, uma parte das possibilidades efetivas do
homem no mundo. Ima questão que se #olo#a então éU quais são as possibilidades de G.,.
Jo ser humano emblem8ti#o no livroK no mundo? Onde estaria e de que tipo seria a
liberdade? 2ntes, porém, é pre#iso dis#utir uma aparente in#on(ruên#ia entre J1K esta
postura empirista, que na apreensão e or(aniza!ão do mundo se submete H #ritérios de
e*eti"idade,
<-
e na razão se fortale#e por al(um #eti#ismo Jrejei!ão a qualquer do(matismo,
ou qualquer afirma!ão #ate(Sri#a baseada em razão espe#ulativa e não submetida a
verifi#a!ão emp$ri#aK, e J;K o movimento desesperado na bus#a de uma e"pli#a!ão para
uma e"periên#ia ortodo"a, o que se pare#e mais #om a bus#a por uma verdade
trans#endente do que #om a bus#a por uma solu!ão que fun#ione quando apli#ada a um
problema #ir#unstan#ial.
<E
0O3GEC, T.'. WO CulW InU icç.es. GloboU 3io de Taneiro, 1-@<, p.1?<.
<@
,2)CE), T.2. WIma estrela de mil pontasW InU -2ngua e -iteratura, Cão Paulo, J1EK, 1-@-, pp. 1.E&1;;.
<-
5omo na dis#ussão anterior, que torna indiferentes a #iên#ia e o ritual.
?D
Pois bem, a bus#a de um trans#endente absoluto pare#e ser em PCG, a
e"trapola!ão m8"ima da vontade de or(anizar, #ara#ter$sti#a humana. Ce or(anizar é
(eneralizar a e"periên#ia #ir#unstan#ial de modo a poder utiliz8&la numa outra
#ir#unstRn#ia, a prever um fenVmeno 0 a partir de um fenVmeno 2, a trans#endên#ia
absoluta seria uma re(ra que diria que a partir de 2 sempre obtemos 0. O absoluto seria
também uma supra&or(aniza!ão que permitiria dizer a e"periên#ia.
5omo, no livro, nenhum absoluto sobrevive ao e"ame do anti&do(matismo, a
su#essão de #on#lusFes e dLvidas sobre tais #on#lusFes sS #essa porque o livro a#aba
J#onsiderando que o Lltimo #ap$tulo a#aba #omo o primeiro #ome!a & o #i#lo &, esse ritmo
dado pelo Wsim não sim nãoW não #essa nun#a, e é ima(em prSpria ao pulsar inerente ao ser
quando obser"adoK. 2 postura #éti#a Janti&do(m8ti#aK, que não dei"a que um ju$zo possa
ser (eneralizado Jepoc+=
=.
K permeia o livro tanto em rela!ão H razão Jimpossibilidade de
afirmar al(o #ate(Sri#o baseado em espe#ula!ão puramente ra#ionalK quanto em rela!ão H
e"periên#ia Jimpossibilidade de afirmar al(o #ate(Sri#o baseado na apreensão do mundo
pelos sentidosK. O que faz a narrativa andar, no entanto, é a bus#a da (eneraliza!ão e a
espe#ula!ão que, lo(o em se(uida, serão submetidas H epoc+= nessa #adên#ia de aquis e
alis.
2 insistên#ia é o nosso esfor!o, a desistên#ia é o prêmio. 2 este sS se
#he(a quando se e"perimentou o poder de #onstruir, e, apesar do (osto
de poder, prefere&se a desistên#ia. JPCG,, 1E?K
Então, o que move a enun#ia!ão é um per#urso interno ao sujeito, W2 trajetSria
somos nSs mesmos.W JPCG,, 1E?K, a peripé#ia interna, uma bus#a ra#ional, submetida a
#onfirma!ão emp$ri#a, e re(ulada por uma instRn#ia, que pode ser dita #éti#a, #uja atua!ão
é não (eneralizar #on#lusFes lo#ais. Esta instRn#ia #éti#a evita que o sujeito estabele!a um
#aminho bem determinado, permane#endo na bus#a ra#ional sem se en(ajar firme em uma
#on#lusão par#ial. 2 enun#ia!ão tenta não parar em moraliza!Fes, que são #omo a j8
des#rita lin(ua(em #ristalizada. Esta lin(ua(em paira entre os sujeitos e permite que eles
=.
)poc+= é uma palavra (re(a, muitas vezes asso#iada ao pensamento #éti#o pirrVni#o, que si(nifi#a a
suspensão do ju$zo. 2 razão espe#ulativa não deve ser fundamento para a forma!ão de ju$zos. )o #aso em
que um ju$zo não é a#ess$vel pela observa!ão, ele deve ser suspenso. 2#eitam&se as limita!Fes das fa#uldades
humanas. >sso não si(nifi#a que, na pr8ti#a, uma a!ão não seja feita. O ju$zo sobre essa pr8ti#a, apenas, é que
fi#a suspenso.
?<
interajam, na bus#a por um suporte anterior mais $ntimo e (enéri#o onde, possivelmente,
pudessem ser apoiadas as es#olhas e re(ras morais. 5omo a vi(ilRn#ia #éti#a não dei"a que
esta moral $ntima se estabele!a, a peripé#ia #ontinua sem que o sujeito Ja persona(emK se
#onstitua para a(ir no mundo. uando, no fim do livro, G.,. de#ide sair e dan!ar, não é
por ter en#ontrado um suporte moral firme, mas por apoiar sua de#isão na desistên#ia da
pro#ura.
2 narrativa Jenun#iadoK é, desse modo, a tentativa de #onstituir um sujeito moral
autênti#o antes de ele ir ao mundo, o que não se d8 pela via da #onstru!ão Jelabora!ão em
lin(ua(emK. G.,. não des#arta, no entanto, que haja um prin#$pio anterior a essa
#onstru!ão, a#eita&o #omo mistério e admite não formul8&lo afirmativamente. O prin#$pio
anterior é $ntimo e informul8vel Jpara que possa não se submeter Hs determina!Fes do
dis#urso #on#eitualK.
=1
:olta&se então H questão de onde estariam as possibilidades de #onstitui!ão do
sujeito diante do mundo, em PCG,, se não pela bus#a de um prin#$pio fundador para
dialo(ar #om as de#isFes morais humanas. Buas possibilidades ini#iais sur(em talvez da
vontade de dar sentido Lni#o ao per#urso interior de G.,. Jsua tentativa de formula!ão do
disformeK.
2 primeira dessas interpreta!Fes é a supervaloriza!ão do fato de, no fim de seu
enun#iado, G.,. apazi(uar (rande parte das tensFes que motivaram o te"to, lo(o que d8 o
mistério #omo a#eito. Esta perspe#tiva i(nora a alternRn#ia, ao lon(o do livro, entre JaK
momentos de a#eita!ão Jde uma interpreta!ãoK e parada, e JbK movimento em bus#a de uma
nova interpreta!ãoQformaliza!ão. >(nora também os ind$#ios de temporalidade #$#li#a e
valoriza uma par#ela do enun#iado Jo fim da leituraK que, num #i#lo, é tão posterior quanto
anterior a todo o resto. Bo mesmo modo que a idéia de histSria não tem v$n#ulo ne#ess8rio
#om a idéia de evolu!ão e de supera!ão, o estado de G.,. do fim do livro não é #laramente
melhor que o ini#ial.
=1
W2 moralidade. Ceria simplSrio pensar que o problema moral em rela!ão aos outros #onsiste em a(ir #omo
se deveria a(ir, e o problema moral #onsi(o mesmo é #onse(uir sentir o que se deveria sentir? Cou moral H
medida que fa!o o que devo, e sinto #omo deveria? Be repente a questão moral me pare#ia não apenas
esma(adora, #omo e"tremamente mesquinha. O problema moral, para que nos ajust8ssemos a ele, deveria ser
simultaneamente menos e"i(ente e maior. Pois #omo ideal é ao mesmo tempo pequeno e inatin($vel.
Pequeno, se se atin(e* inatin($vel, porque nem ao menos se atin(e. “O es#Rndalo ainda é ne#ess8rio, mas ai
daquele por quem vem o es#Rndalo% & era no )ovo Aestamento que estava dito? 2 solu!ão tinha que ser
se#reta. A =tica da moral = mant>1la em segredo. 2 liberdade é um se(redo.W JPCG,, @?&@E, (rifos meusK
?=
Be outro lado est8 a interpreta!ão que fo#a a impossibilidade de afirma!Fes
#ate(Sri#as e definitivas e trata essa impossibilidade #omo a impossibilidade e a
inviabilidade da e"istên#ia humana. Tunta&se a isso a sujei!ão do homem a JaK uma
ideolo(ia sS#io&histori#amente determinada e JbK sua determina!ão enquanto matéria
J(eneri#amente, tanto quanto uma pedraK ou enquanto animal Jmenos (eneri#amente, tanto
quanto uma barataK, e as impossibilidades humanas #aminham para o absoluto. O que
diferen#iaria o homem do animal seria que, além de sua submissão ao or(Rni#o, o homem
se submeteria também a uma ideolo(ia Jou a uma moralK.
)enhuma dessas visFes a respeito de PCG, abran(e a dinRmi#a da enun#ia!ão,
suas diferentes paradas e movimentos. X pre#iso, no entanto, es#lare#er al(uns pontos
antes de esbo!ar uma interpreta!ão um pou#o mais abran(ente.
=;
A Paixão segundo G.H. é um (uia de salva!ão ou a porta para uma perdi!ão?
Ce dermos Hs possibilidades humanas de es#olha e a!ão o nome (enéri#o de
liberdade, não é dif$#il elen#ar diferentes possibilidades e, esquemati#amente, diferen#iar
as liberdades. O quanto um pensamento ou #omportamento é determinado pela #ondi!ão
or(Rni#a ou pela #ondi!ão ideolS(i#a do homem, por suas #ir#unstRn#ias lo#ais e
espe#$fi#as ou por sua #ondi!ão ontolS(i#a, tudo isso pode se rela#ionar #om a palavra
liberdade.
2 prin#$pio, o enun#iado é movido por uma vontade de dizer e pela pro#ura do
lu(ar em que dizer seja poss$vel. )o #aminho, #onforme possibilidades são vislumbradas e
ne(adas enquanto liberdade, é #onstru$da uma trilha de impossibilidades investi(adas, até
então #onsideradas poten#iais de liberdade.
O des#ontrole da e"periên#ia que es#apa não en#ontra re#ipiente adequado na
palavra. )o #ome!o, a bus#a pela palavra é também o adiamento da bus#a e o vislumbre
das impossibilidades. 2 bus#a pela palavra que di(a é antes a bus#a por um poder dizer,
por um fazer&se sujeito em #ontraposi!ão a sujeitar&se ao or(Rni#o e H histSria. +as o
#aminho da enun#ia!ão passa sempre pela sujei!ão H palavra J#onven!ão so#ialK* o
#aminho da enun#ia!ão de G.,., pelo re#onhe#imento de si no outro, isto é, o #aminho do
=;
OuU é pre#iso, no entanto, es#lare#er al(uns pontos, o que j8 ser8 a tentativa de uma interpreta!ão mais
abran(ente, sem que apenas a idéia final seja a interpreta!ãoU W)ão se trata de ouvir uma série de frases que
enun#iam al(o* o que importa é a#ompanhar a mar#ha de um mostrar.W J,E>BEGGE3, +. WAempo e CerW, InU Os
Pensadores. Cão PauloU 2bril 5ultural, 1-@..K
??
fazer&se sujeito, passa pelo sujeitar&se e por se re#onhe#er objeto Jna identifi#a!ão #om a
barataK.
O primeiro movimento de liberta!ão é a bus#a por uma palavra autênti#a, que não
seja apenas a reprodu!ão de dis#ursos. Ce, por um lado, a bus#a dessa lin(ua(em se
rela#iona #om a elimina!ão da esperan!a Jna medida em que não se ata a uma finalidade
futura, muitas vezes des#onhe#idaK, pFe em evidên#ia a finalidade, ainda que lo#al e menos
mediada. 2 prin#$pio, este seria j8 um (anho de liberdade pois desvin#ula Jmesmo que
par#ialmenteK o indiv$duo do #laustro ideolS(i#o do tempo histSri#o. X poss$vel dizer, de
outro modo, que esse movimento de PCG, é a tentativa de se fazer menos moral,
libertando&se das #onven!Fes #ompartilhadas, dos valores e si(nifi#ados fi"os e vi(entes,
na bus#a por um prin#$pio mais $ntimo e autênti#o.
=D
Por um lado, esse movimento se #ompleta e permite, ao menos, que e"ista uma
enun#ia!ão #om uma aparên#ia bem #ara#ter$sti#a, a qual muitos leitores #onsideram
WestranhaW. E ser estranho, o modo de dizer, é uma maneira de não estar obviamente
submetido a uma moral J#ompartilhada e r$(idaK.
Por outro lado, não h8 #omo ter #erteza de que não se est8 sendo moral, ainda que
de um modo diferente e mais dis#reto. Ce se est8 submetido a uma moral que molda
pensamentos, a aparên#ia de diferente pode ser um arranjo novo dos mesmos moldes.
G.,. os#ila entre estes dois pontos, o de se a#har mais livre e o de se a#har mais
vin#ulada aos moldes histSri#os e H palavra inautênti#a. 5aminha e bus#a uma or(aniza!ão
enquanto a liberdade lhe pare#e a#ess$vel. 2(ita&se e re#lama Jo enun#iado #aminhaK
pro#urando a liberdade enquanto não se sente livre Jou se a(ita #omo que na disposi!ão de
livrar&se da desa(rad8vel idéia de não ser potenteK.
Cempre os#ilando entre a idéia de estar pensando e a idéia de estar reproduzindo
dis#ursos Jse(uindo um pro(rama #ujo prin#$pio é ina#ess$velK, G.,. depara&se #om uma
por!ão, também sua, que não é pensamento. 2 identifi#a!ão #om a barata dispara, entre
tantas outras #onseqYên#ias, a identifi#a!ão de G.,. #om sua e"istên#ia or(Rni#a&animal.
Bepara&se #om prin#$pios, #omo a sobrevivên#ia do indiv$duo e da espé#ie, #om sua
a(ressividade fundadora, #om o fato de não ter tido filhos. 4rente a mais essa
impossibilidade, pois estaria se(uindo o plano para o qual teria sido pro(ramada #omo
animal, paralisa&se mais uma vez por não en#ontrar suas possibilidades.
=D
)a parte >>> deste trabalho, essa revolta #ontra a lin(ua(em petrifi#ada ser8 entendida #omo a "ia
rom?ntica se(undo a qual o te"to de 5lari#e 'ispe#tor se desenvolve.
?E
5olo#a&se mais uma vez em movimento até per#eber espe#ifi#idade em ser humana,
mulher, e não barata. Paralisa&se #ada vez que vê reifi#ada a #on#lusão que era antes seu
#aminho. 2#eita ser humana, #om as limita!Fes da histSria e da biolo(ia, #om sua poss$vel
Je jamais (arantidaK liberdade espremida entre por!Fes enormes de impossibilidades,
liberdade que é enquanto sensa!ão de liberdade e que não é enquanto sensa!ão de
impotên#ia.
En#ara&se então #omo matéria, #omo parte de uma pulsa!ão neutra que é o mundo
sendo. Aão livre quanto uma pedra. )o mundo em que as #oisas apenas são, liberdade faz
bem pou#o sentido. 2 #ons#iên#ia de que se e"iste, de que al(o e"iste, é dado emp$ri#o do
homem no mundo, não de um mundo em si. O e"ame do ser Jo mundoK em si não d8
qualquer idéia do que seja liberdade ou #ons#iên#ia. 'iberdade e #ons#iên#ia são outra
#oisa.
Em um mundo assim formulado, sem trans#endên#ias, o fato de e"istir uma outra
#oisa, que não o mundo material, ou seja, a #ons#iên#ia, vai #ontra a lS(i#a razo8vel de
quem observa mas não se per#ebe observando. O mundo e"iste e é observado. O homem
tem #ons#iên#ia de que e"iste e de que e"iste o mundo, pelo menos enquanto fenVmeno. O
fato de haver #ons#iên#ia é #omo uma m8(i#a. Por serem essen#ialmente diferentes, não se
pode dizer nada da #ons#iên#ia a partir da investi(a!ão do mundo JserK, a não ser dizer, por
e"periên#ia, que h8 uma #ons#iên#ia. X nesse ponto que um (rande impasse se d8 em
PCG,. 2 #ons#iên#ia é o que difere o homem de todo o resto observ8vel. O homem "> o
mundo. 2 barata é o mundo.
Cartre, neste ponto, fundamenta seu e"isten#ialismo formulando que o homem é
liberdade, que a #ons#iên#ia JnadaK é radi#almente livre para es#olher. )ão elimina a
e"istên#ia de todos os #ondi#ionantes ideolS(i#os e f$si#os, mas d8 ao homem toda a
liberdade de es#olha. Para 5lari#e, em PCG,, a questão neste ponto (anha um dis#urso um
pou#o diferente. 5omo na #ita!ão de ,eide((er Jemprestada de C#hellin(K que afirma que
o Lltimo fundamento Jfundo a GrundK é um abismo Jsem fundo a AbgrundK, não h8
espe#ula!ão ra#ional ou emp$ri#a que (aranta a elimina!ão do mistério de o homem ver
J#ons#iên#iaK e não simplesmente e"istir JserK. 2 #on#lusão #lari#eana, mais ao (osto da
epoc+= do #éti#o que ao da razão afirmativa de Cartre, é a de que a es#olha mais
fundamental do viver é a#eitar ou não o mistério.
?@
)o Rmbito desse mistério est8 também o postulado un$vo#o de Cartre de que
#ons#iên#ia é liberdade. Para 5lari#e, dentro dos su#essivos #aminhar e parar, os
#ompassos se or(anizam em torno da aparên#ia de liberdade J#omo no postulado sartrianoK
e de observa!ão. Ce o homem se sente livre, pode #onstruir* se se sente apenas um
observador de um mundo que pulsa a sua revelia, é imposs$vel se envolver numa bus#a
Jor(anizada ou nãoK que não seja a da prSpria liberdade. Cem desvelar o mistério, o homem
os#ila entre a sensa!ão de ser livre e a sensa!ão de apenas observar, sendo ambas
Jliberdade e sujei!ãoK i(ualmente poss$veis do ponto de vista da razão. 'iberdade não
passaria de um #on#eito #ujo valor é atribu$do pelo homem.
Cem que um dos dois pSlos perdure, um ser humano #omo G.,. mar#a sua
e"istên#ia por um perambular que não insiste numa via, que não se vin#ula a um #aminho
sem que uma instRn#ia questionadora lo(o o impe!a de se mover.
2ssim, numa bus#a que #ome!a #om um não poder dizer, G.,. propFe uma
liberdade que é seu dis#urso pou#o vin#ulado a uma moral. )ão #on#lui #ate(ori#amente
que o dis#urso é livre mas ne(a a possibilidade de, se(uindo a moral, produzir um dis#urso
autênti#o. Besse modo, autoriza seu dis#urso pela suspensão de um ju$zoU não é poss$vel
saber se se é ou não livre utilizando um sistema lin(Y$sti#o que padroniza valores e
si(nifi#ados. 2o menos, propFe um #aminho, sua forma de dis#urso, que se não é livre,
pode pare#er livre. Bis#urso valorizado, G.,. vai de en#ontro a todas as impossibilidades
do homem no mundo & submissão H histSria, H or(ani#idade da matéria e a outras #ondi!Fes
materiais, tais #omo ser impedida de sair do quarto pois a porta do (uarda&roupa a
impedia
=<
& até #he(ar ao impasse fundador, o mistério sobre a liberdade de uma
#ons#iên#ia no mundo.
)a minha #lausura entre a porta do arm8rio e o pé da #ama, eu ainda não
tentara de novo mover os pés para sair, mas re#uara o dorso para tr8s
#omo, se mesmo na sua e"trema lentidão, a barata pudesse dar um bote &
eu j8 havia visto as baratas que de sLbito voam, a fauna alada. JPCG,,
=1K
=<
)um n$vel do te"to, as impossibilidades lo#ais #omo a #lausura de um #orredor fe#hado pela porta de um
arm8rio podem ser lidas também #omo fi(ura!Fes de uma impossibilidade humana mais (eral, #ondi!ão
humana fatal.
?-
2 impossibilidade de fundamentar o pensamento em qualquer instRn#ia que
trans#enda o indiv$duo faz #om que o dis#urso #onfessional seja a re(ra para os dis#ursos
poss$veis. 2 amostra(em para qualquer #on#lusão é o #onjunto de impressFes no sujeito de
suas intera!Fes #om o mundo, não o mundo ele&mesmo, e as rela!Fes #ausais levam
sempre uma (rande mar#a de dLvida devido ao des#onhe#imento das supostas leis de um
mundo objetivo.
Bo mesmo modo, não um fato objetivo mas uma impressão, a liberdade e"iste
enquanto a#eita&se e se tenta #onstruir. X sensa!ão de poder. uando uma #onstru!ão,
apoiada em nada, in#omoda, des#onstrSi&se.
G.,. vivia no Lltimo andar de uma superestrutura, e, mesmo #onstru$do
no ar, era um edif$#io sSlido, ela prSpria no ar, assim #omo as abelhas
te#em a vida no ar. JPCG,, ?@K
+as, e"atamente o lento a#Lmulo de sé#ulos automati#amente se
empilhando, era o que, sem nin(uém per#eber, ia tornando a #onstru!ão
no ar muito pesada, essa #onstru!ão ia&se saturando de si mesmaU ia
fi#ando #ada vez mais #ompa#ta, em vez de se tornar #ada vez mais
fr8(il. O a#Lmulo de viver numa superestrutura tornava&se #ada vez mais
pesado para se sustentar no ar. JPCG,, ?@K
G.,., representante do (ênero humano, é o pulsar, o ritmo desse #i#lo de #onstruir e
des#onstruir, de a#reditar e duvidar, de #aminhar #om uma destina!ão e a(itar&se
aleatoriamente.
Bado o que foi dito até a(ora, h8 diversos fatores que separam a inten!ão de um
formulador de dis#urso e a internaliza!ão de al(o por um se(undo indiv$duo atin(ido pelo
dis#urso do primeiro. 2s dLvidas sobre as #ausalidades no mundo fazem do dis#urso que
se pretende estritamente lS(i#o uma espe#ula!ão inefetiva. 2tin(ir uma se(unda
#ons#iên#ia por um dis#urso depende mais de movê&la de um estado de des#ren!a que
#onven#ê&la por uma lS(i#a. 2 lS(i#a apSia&se no nada Jo mistérioK e, do mesmo modo que
a #iên#ia se i(uala ao ritual por dependerem ambos de #ren!as e se submeterem ao #ritério
da efetividade, o dis#urso ra#ional #l8ssi#o se i(uala ao dis#urso passional. 2 medida da
efetividade do dis#urso é o efeito produzido na audiên#ia e não um #ritério de #orre!ão
E.
e"terno Hs #ir#unstRn#ias desse dis#urso. Besse modo, o dis#urso #lari#eano em PCG, se
reveste de ares de impossibilidade, ne(a o dis#urso, mas é dis#urso. )e(a uma #erta
or(aniza!ão, mas é or(aniza!ão Jpois é dis#ursoK. 4in(e ser essen#ialmente ne(a!ão,
enquanto afirma&se #omo dis#urso. E, se to#a a audiên#ia, é porque e"trapolou a #ondi!ão
de or(aniza!ão, despertou identifi#a!ão e estranhamento, e foi, de al(um modo, efetivo.
)ão se en#ai"a bem nas #ate(orias (enéri#as da fi#!ão, ou do te"to Jroman#e, novela,
ensaio, et#K, mas tem efeito. 2ssim, mais retSri#a Jquer #onven#er, #omoverK que
ar(umenta!ão Jquer estar #orretoK. 4o#a no efeito produzido e não no objeto em si. Itiliza
rela!Fes lS(i#as e ordens pré&estabele#idas Jou nãoK apenas na medida em que esses
artif$#ios lhe são Lteis no a#esso ao outro. 2 vida não é uma #iên#ia.
2 vida, meu amor, é uma (rande sedu!ão JPCG,, ?1K
X pou#o razo8vel não des#onfiar de uma enun#ia!ão de quase duzentas p8(inas que
se diz desesperada e fi(ura uma aporia em boa parte de seu per#urso. ,8 em PCG, uma
série de pro#edimentos que permitem o desenrolar do enun#iado e ajudam a fazer um te"to
e"tremamente or(anizado dar ares de desespero. O livro é a #onstru!ão feita por uma
es#ritora. Ela d8 voz a uma persona(em&narradora. X #onstru!ão or(anizada de um
desesperoU Wes#reveu esse livro, no ano de 1-?D, e em pou#o menos de um anoW
==
, não em
uma tarde ou duas. O e"ame das estruturas do dis#urso do livro pode desvendar, então,
al(uns prin#$pios or(anizadores, de al(um modo ne(ados pelo prSprio dis#urso de G.,. O
desabafo da persona(em é e"pressão não de sua subjetividade desesperada, mas da
subjetividade #ontrolada de um autor Jse é que al(um #ontrole & liberdade & é poss$velK. Im
dis#urso que ne(a as possibilidades de si mesmo não pode ter #omo fo#o a #onstru!ão de si
#omo uma obra no mundo. Ele aponta para fora de si, para a impressão de mar#as numa
#ons#iên#ia. 2 retSri#a #lari#eana em PCG, fin(e falar sozinha #omo jorro espontRneo
quando é tentativa or(anizada de preen#her a fenda que separa uma #ons#iên#ia do que não
é ela, e de diminuir a solidão an(ustiante do homem Jsem #onsola!Fes #ate(Sri#as e
trans#endentesK jo(ado no mundo.
2inda #omo estraté(ia, o modo #onfessional do dis#urso, que refor!a a idéia de
solidão e isolamento, pode produzir, por identifi#a!ão, a dissolu!ão da idéia de solidão,
==
GOA'>0, ).0. 5larice 1 @ma "ida ;ue se conta. Cão PauloU _ti#a, 1--=.
E1
quando a audiên#ia solidariza&se #om o enun#iado na sua solidão. ,8 inte(ra!ão a um
(rupo quando o solit8rio sabe que não é o Lni#o a ser sS.
5omo estraté(ia, então, de simula!ão do informe, o te"to é #onstru$do em boa parte
#omo ne(a!ão. O que usualmente na literatura salta do fundo, a forma, afirma&se ne(ando&
se. O artif$#io é ne(ar o que se pare#er #om uma afirma!ão e dissolver a forma que amea!a
enrije#er. 5ada vez que o leitor re#onhe#er uma ima(em, ela deve ser ne(ada. uando
#aminhar por si for poss$vel & distan#iando&se da falta, que é #ondi!ão humana &, o #hão
deve ser retirado #omo lembran!a para a falta de ali#er#es de qualquer #onstru!ão. 2
a#eita!ão final da falta de #hão é o estado parado"al da presen!a de um dis#urso sobre a
falta.
2 dissolu!ão das formas é o projeto ra#ionalmente irrealiz8vel de a forma ser não&
forma. 2 palavra deve servir #omo is#a ao que não é palavra.
)os termos dos jo(os de lin(ua(em propostos por ^itt(enstein, o leitor vai tentar
interpretar o que lê de a#ordo #om as re(ras dos jo(os j8 #onhe#idos. 2o mesmo tempo,
aprende a adaptar seus jo(os H situa!ão que vai sendo #onstru$da. Ce o dis#urso pretende
falar de al(o diferente, se ele pretende #onven#er o leitor de que o que ele diz não é al(o
antes formalizado, o que lhe resta, dentro do dom$nio das formas, é ser um dis#urso que
não se pare!a #om os dis#ursos j8 #onhe#idos. uanto aos jo(os de lin(ua(em, o dis#urso
deve estar espe#ialmente preo#upado em estabele#er um novo jo(o em vez de fazer #om
que um dos anteriores fun#ione bem. )esse sentido, o adiamento da narrativa dos fatos em
PCG, a#ompanha uma série de avisos de que o que se diz não é o que se quer dizer.
2inda, #omo o que se quer dizer é sempre hetero(êneo em rela!ão ao que se diz, a
estraté(ia é estabele#er um jo(o de lin(ua(em que se apSie na idéia de, a fim de ser bem&
su#edido, não ser nenhum dos jo(os de lin(ua(em #onhe#idos. )o limite, ne(a&se
enquanto possibilidade. 2 partir dessa Lltima ne(a!ão, é pre#iso #rer na não&lin(ua(em, no
que não foi dito, em uma #omunhão não&verbal entre as #ons#iên#ias. 2li8s, essa não é
uma #ara#ter$sti#a espe#$fi#a desse dis#urso, espe#$fi#o dele é dei"ar e"pl$#ita a
ne#essidade de #ren!a. 5omo uma fenda separa o homem de tudo o que não é ele, tentar se
#omuni#ar apSia&se na #ren!a de poder se #omuni#ar. 5omo j8 foi dito, a liberdade não é
uma #onstata!ão emp$ri#a nem al(o deriv8vel pela lS(i#a, a questão da liberdade é dentro
de um mistério que se pode a#reditar de um modo JliberdadeK ou de outro JdeterminismoK.
E;
O non1sense em PCG,, ou seja, a falta de e"pansão lS(i#a que abarque o absurdo
da e"istên#ia, é mais dado pela ne(a!ão que pela afirma!ão de formas. ,8 em outras
literaturas que tratam doJsK absurdoJsK da e"istên#ia a formaliza!ão do absurdoU o homem
que a#orda inseto, o que vomita #oelhos ou, mesmo na literatura de 5lari#e 'ispe#tor, as
ima(ens mais bem formadas do #e(o que mas#a #hi#les, ou da menor mulher do mundo.
=?
O absurdo em PCG, é dado por um fato #orriqueiro Juma mulher que se depara #om uma
barataK em que formas diretamente li(adas H narrativa Jo quarto, o (uarda&roupa, a #ama, o
apartamento, a barata, o retrato, a mulherK são pou#as e #otidianas. Em A Aetamor*ose, por
e"emplo, o elemento estranho se formaU uma #ons#iên#ia que se vê asso#iada a um #orpo
de inseto. Em PCG,, o absurdo se en#ontra na não&forma, ainda que apresentado pela
palavra JformaK.
2ssim, diferente de outros te"tos prS"imos na tradi!ão liter8ria e nos seus temas,
PCG, se afirma ne(andoJ&seK. )ão se trata da apresenta!ão de um dis#urso non1sense, mas
a afirma!ão pelo dis#urso de que h8 um non1sense. 5ada sentido formado deve ser ne(ado.
O te"to de PCG,, que se assemelha a diversos outros te"tos de 5lari#e 'ispe#tor
=E
,
é, assim, ao mesmo tempo, formaliza!ão de um ali#er#e Jdis#ussão dos sustent8#ulos de
um te"toK e de uma #onstru!ão sobre esse ali#er#e. E, tudo, sobre o mistério, que pode ser
nada Jos momentos de maior paralisa!ão da persona(em, nos quais fundamenta!ão al(uma
pare#e poss$velK ou outra #oisa, des#onhe#ida Jo sentimento de al(uma possibilidade de
#onstru!ãoK.
Be volta H dissolu!ão das formas, PCG, se apro"ima de al(umas propostas
surrealistas. O prSprio (esto de provar a barata poderia ser derivado das propostas
surrealistas de manter #ontato #om par#elas menos #onhe#idas do homem pela
e"perimenta!ão do diferente. O dis#urso de G.,. se apSia, também, na tentativa de
eliminar #ensuras da psique. 2l(o que se assemelha H proposta da es#rita autom8ti#a
per#orre todo o enun#iado de G.,. na sua bus#a por uma lin(ua(em mais autênti#a, que
e"presse a intimidade da persona(em e se submeta menos aos pre#eitos JmoralK impostos
Jsu(eridosK por uma so#iedade. )o entanto, no #aso de G.,. e de A Paixão segundo G.H.,
o estranho não é a fi(ura!ão de um boi numa sala de estar. X um al(o, que se(uindo muitos
=?
)a ordemU
c24c2, 4. A Aetamor*ose. Cão PauloU 5ompanhia das 'etras, ;....
5O3A_723, T. W5arta a uma senhorita em ParisW InU 6esti8rio. )ova 4ronteira, 1-@?.
'>CPE5AO3, 5. W2morW InU -aços de am2lia. 3io de TaneiroU 3o##o, 1--@.
'>CPE5AO3, 5. W2 menor mulher do mundoW InU -aços de am2lia. 3io de TaneiroU 3o##o, 1--@.
=E
&gua 'i"a, WO ovo e a (alinhaW, W2 (eléia vivaW, para #itar e"emplos dos mais prS"imos e #onhe#idos.
ED
dos padrFes da lin(ua(em #onven#ional, não se resume a uma fi(ura pou#o usual, mas, de
modo (eral, H ne(a!ão de diversas fi(uras usuais. 2 aparente proposta de es#rita
autom8ti#a se d8, #omo idéia de G.,., em uma tarde, o que não #orresponde H or(aniza!ão
lS(i#a de um livro que tomou meses de es#rita de sua autora. O jorro de idéias de G.,. e
seu tom #onfessional são simula!ão de um flu"o de #ons#iên#ia. O trabalho do artista não
est8, #omo poderia, no fato de sentar&se e se dispor a es#rever seu flu"o de #ons#iên#ia
enquanto este #orre, mas em simular um flu"o de #ons#iên#ia que o#orresse sem que o
artista se dispusesse a re(istr8&lo.
Esse esfor!o que farei a(ora por dei"ar subir H tona um sentido, qualquer
que seja, JPCG,, 1=K
=@
O novo jo(o de lin(ua(em de PCG,, se atin(ir seu objetivo, far8 #om que o leitor
esteja atento H não&palavra em si mesmo ou no mundo, a partir da palavra is#a, que ser8
ne(ada lo(o que a não&palavra morder.
Bentro deste dis#urso artifi#ioso sobre al(o que é não&palavra, al(uns
pro#edimentos se repetem e são si(nifi#ativos para o estudo do te"to #lari#eano e dos
efeitos produzidos. Esses pro#edimentos têm por objetivo a #onstru!ão de um dom$nio em
que se diz pela ne(a!ão do que se diz.
Ima primeira estrutura re#orrente em PCG,, j8 #omentada, é uma su#essão de
movimentos que #ulminam num (rande não. Em primeiro lu(ar, afirma&se um valor ou
si(nifi#ado J"K e se vai (radualmente ne(ando&o ao se per#orrer toda uma dimensão lS(i#a
desse valor, de d" a &", o que #orresponde a toda a (ama de possibilidades de e"istên#ia
quantitativa de " num fenVmeno. Em se(uida, afirmada a dimensão " Jainda que ne(ada
em #ada parteK, ne(a&se ", #omo dimensão, afirmando que o que se pretendia dizer era al(o
que não pode ser dito em fun!ão de ". Im pro#edimento #omo esse tende a ne(ar
diferen!as
=-
, o que faz #om que o neutro, indiferen#iado, seja afirmado na ne(a!ão das
diferen!as. Essa estrutura é utilizada em diversos aspe#tos da narrativa, por e"emplo, #omo
j8 foi dito, na apresenta!ão e posterior ne(a!ão dos valores ideais Jordem, beleza e
=@
2lém de diversas outras passa(ens j8 #itadas neste trabalho sobre a bus#a de uma es#rita mais adequada
aos propSsitos de des#rever a e"periên#ia #om a barata.
=-
d" e &" são i(ualmente inLteis na afirma!ão do que se quer afirmar. d" e &" Jlimpo e sujo, por e"emploK
tornam&se indiferentes
E<
limpezaK. O belo, por e"emplo, é apresentado pela ima(em do apartamento de bom (osto,
se(undo #ritérios so#iais. Em se(uida, G.,. se diri(e ao quarto da empre(ada J#uja porta
d8 para os fundos do prédioK, representante do feio Jnão&beloK. O movimento #ontinua #om
o en#ontro #om a barata. Per#orrida toda a e"tensão da dimensão " a beleza, ne(a&se tudo
pois o que se quer dizer não é #lassifi#8vel se(undo essa dimensão. O neutro é indiferente
quanto H beleza, não pode ser des#rito #omo uma fun!ão dela.
\...] ah, não quero dizer que é o #ontr8rio da beleza, “#ontr8rio de
beleza% nem faz sentido & o que sai da barata éU “hoje%, bendito o fruto
de teu ventre & eu quero a atualidade sem enfeit8&la #om um futuro que a
redima, JPCG,, @DK
Pela apresenta!ão e ne(a!ão su#essivas de diversas dimensFes, afirma&se al(o que é
ne(ativo em rela!ão a qualquer #lassifi#a!ão, que não é fun!ão de nenhuma dessas
dimensFes e que é indiferen#i8vel.
Aambém na ordem so#ial, esta estrutura é en#ontrada. Tanair e G.,. são a prin#$pio
apresentadas #omo opostas dentro de uma ordem so#ial e e"tremos dentro de uma
dimensão simples que vai de, por e"emplo, patrão Jd"K a empre(ado J&"K. 2 dimensão é
então ne(ada quando G.,. re#onhe#e que #ontin(ên#ias as levaram a assumir uma ou outra
posi!ão e que, na verdade, responderiam, de posi!Fes diferentes, a uma mesma moral. Essa
dimensão é ne(ada mais uma vez quando se re#onhe#e a identidade das duas enquanto
mulheres. )e(ada uma ter#eira vez quando a indiferen#ia!ão atin(e o ponto mais alto,
quando tudo é matéria Jviva ou nãoK e quando G.,. não se diferen#ia nem da barata, Wvai
a#onte#er o amor de duas baratasW JPCG,, 11DK, que, ali8s, era antes identifi#ada #om
TanairU WE a(ora eu entendia que a barata e Tanair eram os verdadeiros habitantes do
quartoW JPCG,, <-K.
2 (rande ne(a!ão se d8 pela indiferen#ia!ão do sim e do não, pela apro"ima!ão de
aparentes opostos. Im se(undo pro#edimento, #ujo sentido também aponta para a
indiferen#ia!ão, é a apresenta!ão direta de idéias opostas para denominar o mesmo
fenVmeno. Em (eral, essa denomina!ão parado"al est8 asso#iada H apresenta!ão do neutro.
Ela serve para relativizar o sentido das palavras e a#entuar sua impre#isão. 2o mesmo
tempo, #ria uma possibilidade de se referir ao impre#iso e indiferen#iado.
E=
5omo e"emplo, as idéias deusQpara$soQanjo são utilizadas para denominar o neutro
tanto quanto seus opostos usuais demVnioQinferno. Em outros #asos, a justaposi!ão de
idéias #ontraditSrias é ainda mais evidente. Im adjetivo pode qualifi#ar um substantivo de
sentido oposto.
\...] a mão H mão mal&assombrada do Beus JPCG,, 1@K
2inda, h8 a possibilidade de utilizar a mesma palavra #om sentidos diferentes. +ais
uma vez, relativizam&se os sentidos das palavras. Palavras li(adas H tradi!ão reli(iosa #ristã
são utilizadas tanto no sentido #ristão quanto em outro, um que aponte para o neutro
indiferen#iado. WBeusW é o e"emplo paradi(m8ti#o da utiliza!ão do pro#edimento. 2inda
presa a uma moral #ristã, G.,. apela para um deus humanizado.
Canta +aria, mãe de Beus, ofere!o&vos a minha vida em tro#a de não ser
verdade aquele momento de ontem. JPCG,, E?K
O apelo, feito diversas vezes ao lon(o de PCG,, pare#e um tanto #om uma
repeti!ão de palavras esvaziadas. Esvaziando&se a palavra, aponta&se para o que é amoral.
W+as é a mais primeira ale(ria. E sS esta, enfim, enfimZ é o pSlo oposto ao pSlo do
sentimento&humano&#ristão. Pelo pSlo da mais primeira ale(ria demon$a#a, eu per#ebia
lon(inquamente e pela primeira vez & que havia realmente um pSlo oposto.W JPCG,, 1.DK.
Em outros momentos, deus apare#e #omo a matéria não si(nifi#ada do mundoU
+as eu quero muito mais que istoU quero en#ontrar a reden!ão no hoje,
no j8, na realidade que est8 sendo, e não na promessa, quero en#ontrar a
ale(ria neste instante & quero o Beus naquilo que sai do ventre da barata
& mesmo que isto, em meus anti(os termos humanos, si(nifique o pior,
em termos humanos, o infernal. JPCG,, @D & @<K
Entre os diversos outros e"emplos, a palavra WamorW é utilizada no sentido
humanizado, da rela!ão positiva entre duas pessoas, W2ssim #omo também aos homens eu
não os havia feito meus, e podia então admir8&los e sin#eramente am8&los, #omo se ama
sem e(o$smos, #omo se ama a uma idéia. )ão sendo meus, eu nun#a os torturavaW JPCG,,
E?
D.&D1K, e num sentido neutro, #omo na tendên#ia de a matéria Jo mundoK se or(anizar de
#ertos modos e não de outros, W+as que abismo entre a palavra e o que ela tentava, que
abismo entre a palavra amor e o amor que não tem sequer sentido humano & porque &
porque amor é a matéria viva. 2mor é a matéria viva?W JPCG,, ?EK, al(o #omo o pulsar do
mundo silen#ioso e indiferente ao homem.
Outro pro#edimento bastante utilizado são as diversas e #ara#ter$sti#as
manifesta!Fes dos en#adeamentos dos blo#os de te"to. 5omo j8 foi #omentado, a repeti!ão
da Lltima frase de um #ap$tulo na primeira frase do se(uinte #ria a ima(em de uma #orrente
em que os elos se to#am em um Lni#o ponto. Os diversos elos se ajustam e formam um
#onjunto, mas o #onjunto não é uma ordem r$(ida em que um elo determina o elo se(uinte.
2o #ontr8rio, #ada elo (uarda boa independên#ia em rela!ão aos demais. >sso refor!a a
idéia da or(aniza!ão ritual, em que as a!Fes se su#edem sem que si(am uma re(ra
(eneraliz8vel J#omo na #iên#iaK, obede#endo apenas a uma finalidade espe#$fi#a.
Por outro lado, #omo o livro se #onstrSi por uma seqYên#ia de afirma!Fes em
se(uida ne(adas, os fra(mentos razoavelmente independentes #obrem um #ampo (rande de
possibilidades de afirma!ão, que são ne(adas, apontando para uma tendên#ia de ne(ar
qualquer afirma!ão, e para o ep$lo(o, que é a a#eita!ão de que não se tem mesmo a#esso ao
mistério, de que haver8 um não depois de qualquer sim. Besse modo, apesar de os elos
variarem no #onteLdo, afirm8&los e ne(8&los é uma #onstante e formaliza um modelo de
#ondi!ão humana.
Paralela H ima(em da #orrente formada pelos #ap$tulos, é a ima(em também j8
#itada dos tra!os que são o tremor do tra!o anterior. 2ssim #omo os elos, os tra!os têm um
ponto #omum #om seu pre#edente mas não são determinados por eles. O tra!o se(uinte é
resultado de uma anomalia, uma for!a não #ontrolada & o tremor. Essa ima(em pode ser
#omparada Hs determina!Fes das a!Fes humanas por suas por!Fes não #ontroladas, #omo
suas pai"Fes, de modo que as a!Fes humanas sejam pou#o determinadas por arb$trio
prSprio, mas por ser o homem seduzido por al(um fator que não é sua #ons#iên#ia. )a raiz
etimolS(i#a da palavra seduzir Jdo latim, se!d%1ducere, #onduzir H parte, tirar do #aminhoK
est8 também a reprodu!ão desse pro#edimento que fi(ura as impossibilidades humanas
diante de um mundo misterioso Jrestrito a#esso H #o(ni!ãoK e sedutor Jque apela H não&
razão do homemK.
EE
5onfi(ura&se assim um quadro de sins e nãos, de paradas e desvios, que dão ritmo
ao enun#iado.
Em seu ensaio WO ritmoW
?.
, O#tavio Paz defende a idéia de que o ritmo Jo tempoK
não é medida do mundo, não é um modo de re#ortar o mundo dando a ele si(nifi#ado, mas
é uma instRn#ia anterior Hs medidas, a qual ele #hama de Wvisão de mundoW.
O ritmo não é medida & é visão do mundo. 5alend8rios, moral, pol$ti#a,
té#ni#a, artes filosofia, tudo enfim o que #hamamos de #ultura tem ra$zes
no ritmo.
?1
Os su#essivos afirmar e ne(ar dão a PCG, um ritmo bastante #ara#ter$sti#o. 5omo
numa mLsi#a, o ritmo volta a seu in$#io su#essivas vezes. +as a #ada volta, é outro. X ao
mesmo tempo a repeti!ão de uma #ondi!ão e uma su#essão que não se repete.
\...] o tempo é um permanente trans#ender. Cua essên#ia é o mais e a
ne(a!ão desse mais. O tempo afirma o sentido de modo parado"alU
possui um sentido & o de ir mais além, sempre fora de si & que não #essa
de ne(ar a si mesmo #omo sentido. BestrSi&se, ao destruir&se, se repete*
#ada repeti!ão é, porém, uma mudan!a. Cempre o mesmo e a ne(a!ão do
mesmo \...] uando o ritmo se desdobra diante de nSs, al(o passa #omo
eleU nSs.
?;

+endiloP se refere também ao ritmo e as formas no roman#e modernoU
Em muitos roman#es modernos, o ritmo superou o enredo* ou, para usar
a nova terminolo(ia, forma!Fes substitu$ram a forma.
?D
Em PCG,, este ritmo Jafirmar e ne(arK, e"presso em #ada fra(mento e em #ada
elemento do livro, faz #om que #ada #ompasso bin8rio seja a ima(em da #ondi!ão de G.,.
no mundo. Governada por dois poten#iais, G.,. J1K bus#a estabele#er as bases para poder
?.
P27, O. WO 3itmoW InU O Arco e a lira. 3io de TaneiroU )ova 4ronteira, 1-@;.
?1
Ibidem, p.E1.
?;
Ibidem, p ?-.
?D
+E)B>'O^, 2.2. O 0empo e o 7omance. Cão Paulo, 5ultri"QEBICP, 1-E<, p.==.
E@
#aminhar e al#an!ar finalidades Jmuitas vezes misteriosasK ao mesmo tempo que J;K destrSi
as #onstru!Fes por não en#ontrar fundamento e"pl$#ito trans#endente que sustente a
#aminhada.
O a#oplamento dos mSdulos do ritmo formulam, no entanto, al(o fi"o, a afirma!ão
de sins e nãos #omo visão de mundo. 2 #ondi!ão humana é #onstruir e destruir, nem
apenas um nem apenas outro.
E é inLtil pro#urar en#urtar o #aminho e querer #ome!ar j8 sabendo que a
voz diz pou#o, j8 #ome!ando por ser despessoal. Pois e"iste a trajetSria,
e a trajetSria não é apenas um modo de ir. 2 trajetSria somos nSs
mesmos. Em matéria de viver nun#a se pode #he(ar antes. 2 via&#rL#is
não é um des#aminho, é a passa(em Lni#a, não se #he(a senão através
dela e #om ela. 2 insistên#ia é o nosso esfor!o, a desistên#ia é o prêmio.
2 este sS se #he(a quando se e"perimentou o poder de #onstruir, e,
apesar do (osto de poder, prefere&se a desistên#ia. 2 desistên#ia tem que
ser uma es#olha. Besistir é a es#olha mais sa(rada de uma vida. Besistir
é o verdadeiro instante humano. E sS esta é a (lSria prSpria de minha
#ondi!ão. JPCG,, 1E?K
)ão se trata de um a#eitar que se prolon(ue indefinidamente num ohm mRntri#o
nem uma ne(a!ão que paralisa in#ontest8vel. O mSdulo r$tmi#o se repete numa visão
#$#li#a da #ondi!ão humana e se renova sem que uma ordem trans#endente, além do ritmo,
determine o prS"imo #ompasso. 2 su#essão, em si, é que determina o ritmo fi"o que
pare#e trans#ender e apontar para um lu(ar que é renova!ão embora seja repeti!ão.
O ritmo bin8rio é a #ondi!ão que limita o homem mas não limita os modos que
poderão preen#her os #ompassos de sins e nãos.
X a arma!ão tr8(i#a que transforma o ser humano em um pequeno me#anismo
parti#ipante de uma m8quina #ujas leis não #onhe#e. O homem #umpre o destino de
os#ilar, independentemente de a#eitar ou não sua #ondi!ão. Ora #rê e se li(a H vida, ora não
#rê e é ne(ativo em rela!ão a ela. 2#eitar ou não tal #ondi!ão não o livra do destino. )o
m8"imo ameniza as an(Lstias intr$nse#as Hs passa(ens mais dif$#eis. Aalvez nem isso,
E-
talvez a sensa!ão de liberdade e de ameniza!ão de an(Lstias seja parte do #umprimento do
destino. 2 outra parte seria a an(Lstia evidente.
?<
To(uete das leis do mundo, o homem poderia até ter al(uma liberdade no
preen#himento dos sins e nãos, o que faria pou#a diferen!a j8 que seus estados mais
$ntimos & sensa!ão de estar vin#ulado ou desvin#ulado ao mundo & seriam dados por
determina!Fes e"teriores.
,8 momentos, em PCG,, de ape(o JpositividadesK H vida. 2inda que reti#entes, tais
momentos revelam uma vontade de vida que amea!a ne(ar o determinismo do destino,
prin#ipalmente pela lo#aliza!ão, no livro, de dois desses momentos positivos. 'o(o na
introdu!ão, #omo avalia!ão (lobal do per#urso de G.,., 5.'. refere&se a tal per#urso #omo
Wale(ria dif$#ilW. 5ompletaU Wmas #hama&se ale(riaW. Im tanto arbitr8rio se #omparado ao
tom determinista do te"to Ja#ompanhado do mistério #onstituinte da rela!ão entre homem e
mundoK, o #oment8rio su(ere ao leitor que ele pro#ure a tal ale(ria no te"to, ainda que
alerte para a difi#uldade da tarefa.
Bo mesmo modo, no fim do te"to, depois de des#artar todas as possibilidades
humanas, atribui a uma #erta aceitação a sa$da para a manuten!ão do v$n#ulo Jmenos
tensoK #om a vida. Por ser o momento final do livro, a afirma!ão fun#iona também #omo
#on#lusão lS(i#a do per#urso, #omo se tudo o que antes foi afirmado não tivesse sido
também ne(ado.
Outra passa(em que destoa do ritmo determin$sti#o do te"to é a que atribui al(uma
evolu!ão ao homem, aprendiza(em, não apenas mudan!a sem valora!ão.
Ele, o homem do futuro, nos afa(aria, remotamente nos #ompreendendo,
#omo eu remotamente ia depois me entender, sob a memSria da memSria
da memSria j8 perdida de um tempo de dor, mas sabendo que nosso
tempo de dor ia passar assim #omo a #rian!a não é uma #rian!a est8ti#a,
é um ser #res#ente. JPCG,, 11.K
?<
X verdade que, por não #onhe#er as leis que re(em seu destino, o homem pode até mesmo ter (randes
possibilidades de liberdade. )o entanto é a sensa!ão de liberdade ou não que ele e"perimenta, e não a
poss$vel liberdade poten#ial, que re(e seus humores. Ce se a#ompanha o #aminhar das refle"Fes de G.,.,
pode&se supor que suas sensa!Fes de potên#ia os#ilam sem permane#er prioritariamente num dos dois pSlosU
liberdade ou #laustro. 2 sensa!ão de liberdade permite que a persona(em #onstrua seu relato. CimultRnea, ou
não, a sensa!ão de #laustro permeia o te"to de dLvidas e impasses.
@.
5om a e"#e!ão dessas si(nifi#ativas, embora raras, passa(ens Je talvez mais uma
ou outra passa(em ainda mais reti#enteK, a #ondi!ão humana se impFe #omo destino
inalien8vel. 2s determina!Fes materiais e #ulturais se impFem ao homem J#ons#ienteK
#omo se impFem H barata Jsupostamente in#ons#ienteK. 2s afirma!Fes de al(uma ale(ria,
al(uma liberdade e al(uma evolu!ão, dadas nas passa(ens a#ima #itadas, fazem #om que o
livro seja diferente de uma aporia absoluta. +as apenas um pou#o, de maneira reti#ente e
apoiado, #omo tudo, em nada.
)a entrevista #on#edida a Tulio 'erner JA: 5ultura, 1-EEK, 5lari#e pare#e refor!ar
a visão tr8(i#a da vida e a os#ila!ão do homem entre afirm8&la Ja vidaK e ne(8&la.
Per(untada #omo ela se sentia, então, durante o per$odo em que não es#revia, 5lari#e
responde W:amos ver se eu renas!o de novo. Por enquanto eu estou mortaW. Es#rever
Jmodo espe#$fi#o de utilizar a lin(ua(emK torna&se então a maneira #omo ela #umpria seu
destino humano, #omo ela se li(ou ao plano se#reto do mundo e da vida.
)este Lltimo ano de vida, 5lari#e repetiu publi#amente a vontade de não ser vista
#omo es#ritora, mas #omo pessoa, de a#ordo #om a idéia de que es#rever não era profissão
es#olhida mas modo de ser espe#ifi#amente humana e #umprir um destino. Biferente dos
es#aravelhos, o ser humano WperdeuW sua m8s#ara natural.
& Eu seiU nSs dois sempre tivemos medo de minha solenidade e da tua
solenidade. Pens8vamos que era uma solenidade de forma. E nSs sempre
disfar!8vamos o que sab$amosU que viver é sempre questão de vida e de
morte, da$ a solenidade. Cab$amos também, embora sem o dom da (ra!a
de sabê&lo, que somos a vida que est8 em nSs, e que nSs nos servimos. O
Lni#o destino #om que nas#emos é o do ritual. Eu #hamava “m8s#ara% de
mentira, e não eraU era a essen#ial m8s#ara da solenidade. Aer$amos de
pVr m8s#aras de ritual para nos amarmos. Os es#aravelhos j8 nas#em
#om a m8s#ara que se #umprirão. Pelo pe#ado ori(inal, nSs perdemos
nossa m8s#ara. JPCG,, 11?K

2 lin(ua(em Jes#reverK fun#iona para G.,., o ser humano retratado por 5lari#e
'ispe#tor em A Paixão segundo G.H., #omo maneira de #umprir seu destino, sem ter
#ons#iên#ia das #ausas Lltimas de suas a!Fes. X a m8s#ara humana, or(anizadora de
@1
modelos e rituais, a servi!o de um plano não #onhe#ido, ou de suas prSprias es#olhas. )ão
se sabe.
2 lin(ua(em é o suporte do ritual #om o qual o ser humano #umpre de maneira
pre#8ria Jpois sequer sabe que J#omoK #umpreK e pre#isa Jpois #umpreK seu destino fatal.
@;
CAPÍTULO III
P8THOS E LIBERDADE
Aenho v8rias #aras. Ima é quase bonita, outra é quase
feia. Cou um o quê? Im quase tudo.
& 5.'. &
9%2: - - (!0#ç! L-P ;W%tt2#n$t#%n/ <!$tro=>
,8 uma fi(ura ali em #ima. Este te"to tem determinadas #ara#ter$sti#as que fazem
#om que quem o leia espere que a fi(ura a#ima, ou qualquer outra por!ão de tinta no papel,
tenha um si(nifi#ado, uma fun!ão ou uma inten!ão. Entender o que a fi(ura si(nifi#a ou
representa passa em al(um momento por uma tentativa de re&#onhe#imento. Ce a fi(ura é
apresentada #omo a #abe!a de um pato, ainda que não o en"er(uemos lo(o, pro#uramos
um bi#o, um olho et#. 3e#onhe#ê&lo é distin(uir #ara#ter$sti#as que o enquadrem na
#ate(oria WpatoW. 2 partir do instante do re#onhe#imento, a fi(ura (anha afinidade #om
outros patos. 2inda, em al(um (rau, outras #ara#ter$sti#as de outros patos, que não estão na
fi(ura, são a ela vin#uladas. 2o mesmo tempo, sabendo&se que a fi(ura é um pato Je de
al(um modo j8 é um pato no seu modo de ser apreendido e tratado por aquele que o
re#onhe#eK, a fi(ura não pode ser um #avalo, uma (alinha, um #arro ou um martelo.
Ce, por outro lado, a fi(ura é apresentada #omo a #abe!a de uma lebre, pro#uramos
então na fi(ura as orelhas, a bo#a, o olho, e ela dei"a de ser um pato. 2 fi(ura a(ora é uma
@D
lebre, não é um #avalo, não é uma #asa, não é um pato. Essa é parte da dis#ussão que
^itt(enstein
?=
faz da fi(ura de TastroP em suas In"estigaç.es ilos/*icas.
X #urioso que a partir do momento em que re#onhe#emos uma #abe!a de lebre,
perdemos a #abe!a de pato, e vi#e&versa. Aemos difi#uldade de tratar objetos que não
#orrespondem a modelos anteriormente #onstru$dos, que não podem ser bem aparentados
#om outros objetos. 2 #abe!a '&P, a partir do momento em que entendemos a
representa!ão simultRnea do pato e da lebre, passa a ser um objeto sin(ular e #onfuso. Para
ser apresentada, é pre#iso passar pela referên#ia a objetos #onhe#idos Jpato e lebreK para
apenas depois ne(8&los. )ão é um pato, não é uma lebre, é uma #abe!a '&P. Porém, depois
da e"posi!ão, torna&se dif$#il apa(ar o per#urso que foi feito durante a apresenta!ão do
novo objeto. 2 fi(ura fi#a sendo uma não&lebre, um não&pato, em vez de ser apenas o
objeto esquisito #abe!a '&P.
2 #omple"idade da defini!ão do objeto faz #om que sua apresenta!ão e seu
re#onhe#imento sejam e"tensos, diferente do que a#onte#e #om a apreensão da
#ontin(ên#ia que apenas é & o objeto se rela#ionar por vias lS(i#as #om uma série de outras
#oisas e trans#ende o Winstante&j8W.
2inda, no pro#esso de ne(a!ão do per#urso da defini!ão para tentar fi#ar apenas
#om a e"periên#ia de ver uma #abe!a '&P, resta muita sujeira Jtra!os, Hs vezes
irre#onhe#$veis, do per#ursoK. X pre#iso, então, ne(ar também esta sujeira. +ais H frente,
apa(ar também todas as ne(a!Fes para que a #abe!a '&P surja sozinha, instantRnea, o que
não pare#e tarefa das mais f8#eis para seres dotados de memSria. Besde o instante se(uinte
ao e"ato e $nfimo momento de sua apari!ão frente a uma #ons#iên#ia, a #abe!a não é nem
apenas uma forma sem #onteLdo, nem e"periên#ia pura. uando #ome!am a sur(ir
questFes #omo Wo que é isso?W, Wque é que o autor quis dizer #om isso?W et#, ela j8 se
estabele#eu em um #on#eito, que vai (anhando forma e a(re(ando si(nifi#ado
Jtrans#endendo o intante&j8K, enquanto a #ons#iên#ia a tem sob sua aten!ão.
>sso faz #om que, no #aso de 5lari#e 'ispe#tor em PCG,, o te"to trafe(ue pela
ne(a!ão insistente de tudo o que ele mesmo diz JpatoU não é um pato, lebreU não é uma
lebreK e pare#e, muitas vezes, não sair do lu(ar & uma espé#ie de retrato de um impasse
hiperbSli#o alimentado por si mesmo. O su#esso da tarefa de #onstruir Jum te"toK
des#onstruindo torna&se ainda mais improv8vel, pela Spti#a da razão, quando é adi#ionada
?=
^>AAGE)CAE>), '. In"estigaç.es ilos/*icas. Cão PauloU 2bril 5ultural, 1-@<.
@<
a tudo a tendên#ia humana de #ompletar J#lassifi#ar, sistematizar, (eneralizarK o que se diz
e #ompar8&lo a modelos prévios, mesmo no #aso de um borrão* ou então des#artar a
man#ha, em vez de tom8&la #omo man#ha e assim, disforme mesmo, apreendê&la, por
e"emplo #ate(orizando&a #omo `man#ha` ou #omo `disforme`. X #omum que se tome o
tremor #omo tra!o, assim #omo um ponto de tinta torna&se um olho quando se #onhe#e
modelos para #abe!as de lebres e de patos.
^itt(enstein apresenta uma se(unda fi(ura para falar desta tendên#ia humana a
#ompletar.
9%2: 6 - ;W%tt2#n$t#%n>
uando se olha esta fi(ura, é #omum que os nove se(mentos de reta tornem&se a
representa!ão de um prisma tridimensional, #om volume. 2inda mais, o prisma pode ser
um de(rau, parte de uma es#ada. X dif$#il, para um homem do sé#ulo MM, não assumir as
#onven!Fes da perspe#tiva em desenho e fazer da fi(ura bidimensional um volume, talvez
até a representa!ão par#ial uma es#ada ou al(o pare#ido. CupFem&se as entrelinhas. )o
#aso de 5lari#e 'ispe#tor, mesmo que a entrelinha j8 esteja fis(ada, ainda h8 de se
des#artar as linhas. Ima diferen!a, porém, é que a entrelinha não #ostuma ser as #ostas de
um de(rau asso#iado a seu volume, mas um não&volume ou uma não&forma. O avesso da
forma, enquanto forma, não serviria. O que se bus#a, ainda que pela forma, é o avesso da
idéia de forma.
2inda, dependendo da le(enda que se dê H fi(ura, pode&se induzir o modo #omo ela
é re#ebida. Ce se trata de um de(rau, ima(ina&se lo(o uma es#ada* se se trata de uma #ai"a
de vidro, o interior da #ai"a passa a ser relevante* se são se(mentos de reta num plano
bidimensional, o que poderia ser um retRn(ulo em perspe#tiva, na parte lateral da #ai"a,
passa a ser um losan(o. 4i#a dif$#il etiquetar a fi(ura sem tirar dela possibilidades de
@=
si(nifi#a!ão e sem (uiar a #omplementa!ão da fi(ura por #ontinuidade f$si#a Jparte da
es#adaK ou de si(nifi#a!ão Juma #ai"a pode #onter #oisasK .
Toão 2dolfo ,ansen, em seu ensaio sobre A Hora da estrela
??
, aponta para o
pro#edimento de um enun#iado se(undo o qual diluem&se as formas para #onstruir
JdestruirK o te"to, #omo modo de afirma!ão da impossibilidade de um narrador
intele#tualizado Jum es#ritorK pensar o e"#lu$do Jnão se trata de pensar sobre eleK. O
fra#asso tematizado (anha for!a de su#esso quando é su#esso de fi(ura!ão do fra#asso,
embora seja desfi(ura!ão enquanto pro#edimento. Em A Hora da estrela, a
impossibilidade do dis#urso pode ser lida #omo resultado da separa!ão so#ial, de #lasse,
entre 3odri(o C.+. JnarradorK e +a#abéa JnarradoK, W+a#abéa é de outra #lasse, ela que é
uma des#lassifi#adaW
?E
. O dis#urso de uma das #lasses não serve H apreensão da outra.
+a#abéa es#orre l$quida sem poder ser #on#retizada em forma. Em PCG,, semelhante, a
separa!ão in#on#ili8vel se d8 entre sujeito narrador e objeto narrado que, parado"o, são a
mesma pessoa, eu distinto de si mesmo. O tempo que separa a e"periên#ia #om a barata,
imanente, e o tempo da narrativa, sempre trans#endente pela ne#essidade de permanên#ia
da palavra, é o que faz fra#assar a tentativa de G.,&eu&narradora pensar e dizer a G.,&
outro&objeto. WO narrador se narra dissolvendo&se \...] para impedir que uma fala plena de
natureza reproduza o padrão institu#ional dos materiais & dis#ursos & das transforma!Fes de
seu 2utorW
?@
, eviden#ia Wa #onven!ão da #ompetên#ia letrada enquanto eviden#ia a
in#ompetên#ia de sua #onven!ãoW
?-
.
W:o#ê sabe se a (ente pode #omprar um bura#o?W
E.
, diz +a#abéa pela #onstru!ão
de 3odri(o C.+., na verdade 5lari#e 'ispe#tor, e pFe em relevo, pelo non1sense da
per(unta, a in#ompatibilidade dos valores entre narrador e narrado. )este #aso, trata&se do
#onhe#imento sobre o WvalorW em dinheiro das #oisas, base da diferen#ia!ão entre as
#lasses so#iais, sobre o qual 3odri(o C.+. tem dom$nio e +a#abéa não. Para G.,., a
in#ompatibilidade se d8 entre a narradora submetida a valores e a suposta instRn#ia neutra,
e"periên#ia pura, alheia a #lassifi#a!Fes e jul(amentos.
??
,2)CE), T.2. WIma estrela de mil pontasW InU -2ngua e -iteratura, Cão Paulo, J1EK, 1-@-, pp.1.E&1;;.
?E
Ibidem, p.11..
?@
Ibidem, p.1.-.
?-
Ibidem, p.11;.
E.
'ispe#tor, 5. A Hora da estrela. 3io de TaneiroU3o##o, 1--@, p.<-.
@?
O #inema, ao lon(o de seus pou#o mais de #em anos de e"istên#ia, foi #riando seus
artif$#ios JferramentasQ#Sdi(osK para produzir ilusFes e #ontar histSrias. Im sonho, por
e"emplo, pode ser retratado por uma ima(em emba!ada, por tons diferentes das #ores ou
por um aviso, anterior ou posterior, de al(uém adorme#endo ou a#ordando. )o entanto,
(ra!as ao treinamento do espe#tador, é poss$vel hoje retratar um sonho sem aviso tão
e"pl$#ito. 2o entrar numa sala de #inema, uma pessoa j8 habituada #om determinados
padrFes de ilusão não se assusta mais #om al(uns dos antes assustadores filmes dos anos
vinte ou trinta. Pode até rir de al(uma obviedade na #onstru!ão da ilusão, riso que pode ser
interpretado #omo distan#iamento, ao #ontr8rio do envolvimento sinalizado por al(um
susto.
Ce os autores de filmes quisessem que soubéssemos imediatamente que a
#ena se passa na mente, poderiam até usar um artif$#io me#Rni#o, fazer a
fi(ura os#ilar, ou se dissolver (radualmente, ou se enevoar até
desapare#er. Esse re#urso formal, embora possa pare#er in(ênuo ou
elementar, era sufi#iente para es#lare#er, a #ertas platéias, que estava
a#onte#endo uma r8pida fu(a da realidade
E1
Para retratar a novidade Jo sustoK e evitar o afastamento que o re#onhe#imento e a
ra#ionaliza!ão determinam, é pre#iso ne(ar a fSrmula apreJeKndida de antemão pelo
espe#tador. 2inda, pela supressão da representa!ão dos limites bem determinados entre
sono e vi($lia, pode&se bus#ar a produ!ão de um efeito improv8vel quando as fronteiras
formais são mais r$(idas. )ão se trata apenas de retratar um sonho de uma maneira nova & a
novidade vale pelo que #arre(a de imprevisto, surpreendente e mal formado Jnão
re#onhe#ido, dif$#il de #lassifi#arK. 2 partir do momento em que a e"periên#ia se endure#e
numa forma espe#$fi#a a#eita, o novo j8 foi perdido. O e"#esso de forma Jpalavra ou o que
quer que sejaK faz perder o silên#io e o es#uro dos interst$#ios. W)um famoso #oment8rio,
E1
5233>e3E, T.5. A -inguagem secreta do cinema. 3io de TaneiroU )ova 4ronteira, 1--=, p.1E.
Essa r8pida passa(em sobre o #inema ilustra um prin#$pio de (ram8ti#a sobre o qual autores e
espe#tadores estão de a#ordo de modo a que uma idéia anterior Ja fronteira entre vi($lia e sonhoK seja
retratada. )ão se trata de um #onhe#imento universalmente #ompartilhado, mas um #Sdi(o #riado, ensinado e
aprendido. Im e"emplo interessante, no mesmo livro, d8 #onta de sessFes de #inema na _fri#a do #ome!o do
sé#ulo, em que os espe#tadores re#onhe#iam pessoas, objetos, movimentos, mas não #onse(uiam montar
enredos minimamente #omple"os nem re#onhe#er li(a!Fes simples entre uma #ena e outra separadas por um
#orte de #Rmara. Para tornar os filmes mais Jou menosK interessantes, adi#ionou&se, ao lado da tela, um
fun#ion8rio que era en#arre(ado de e"pli#ar as #enas H audiên#ia. Jp.1DK
@E
Ca#ha Guitr6 disse uma vezU `O #on#erto que vo#ês ouviram é de ^olf(an( 2madeus
+ozart. E o silên#io que veio depois também é de +ozart.` \...] :8rios mLsi#os
#ontemporRneos dizem que seu objetivo prin#ipal é deslo#ar&se de um silên#io a outro.W
E;
uando entra na sala de #inema, o espe#tador se insere em determinado sistema de
idéias rela#ionado ao que é, para ele, #inema. Bo mesmo modo, ao en#ontrar uma man#ha
emoldurada, tenta responder a suas per(untas sobre ela JWo que é isso?W, por e"emploK de
a#ordo #om seu #onhe#imento sobre artes pl8sti#as. 2ntes de se dar por satisfeito, ir8
pro#urar olhos, bi#os, orelhas, frutas, animais, letras, entre outras possibilidades de
de#odifi#a!ão e interpreta!ão, para talvez dizer que é uma Wobra abstrataW, e"pressão #om a
qual emoldura o que não #onse(ue apreender em outras #ate(orias. Esse modo de
#onte"tualizar salva pela se(uran!a da forma, ainda que transforme, Hs vezes, um susto
numa #ai"a enorme que o #ontenha. O que se vê é uma #ai"a. O susto fi#a bem es#ondido
l8 dentro.
O vis$vel nos tranqYiliza. Audo o que podemos dar forma nos
tranqYiliza. +esmo que esta forma seja e"trava(ante, ainda assim ela
vem de nossas mãos, nSs a modelamos. O que perturba não tem forma
definida, que se possa reproduzir, por mais inteli(ente que seja a
tentativa* e ainda assim o sentimos respirar e se mover, #hutando&nos e
Hs vezes nos mordendo.
ED
2 prSpria 5lari#e, numa #rVni#a de jornal #hamada W2bstrato é o fi(urativoW, dizU
WAanto em pintura #omo em mLsi#a e literatura, tantas vezes o que #hamam de abstrato me
pare#e apenas o fi(urativo de uma realidade mais deli#ada e mais dif$#il, menos vis$vel a
olho nu.W
E<
, o que se li(a H idéia de uma nomen#latura (rosseira que não adere H sutileza da
realidade. )esse #aso, a realidade é a prSpria arte e a palavra (rosseira e redutora é a
etiqueta Warte abstrataW.
2 #apa de um roman#e, bem #omo tudo o que ademais fun#iona #omo suporte
Jpapel, tamanho, numera!ão de p8(inasK, faz #om que o leitor #he(ue H primeira linha de
te"to j8 munido de uma por!ão de ferramentas prSprias para de#odifi#ar e interpretar
E;
Ibidem, p.DD.
ED
Ibidem, p.-E.
E<
'>CPE5AO3, 5. A Bescoberta do mundo. 3io de TaneiroU 3o##o, 1---, p.D1?.
@@
roman#es. 5lari#e 'ispe#tor #ompartilha #om v8rios de seus #ontemporRneos a proposta de
questionar tais ferramentas e formaliza!Fes #ristalizadas
E=
. 5omo v8rios outros, apSia&se
em um estilo Jparti#ularK que #ontrapFe a autora aos outros autores e H tradi!ão. 2ssim
#omo Guimarães 3osa Jpara #itar apenas um #ontemporRneo brasileiroK, tem suas obras
re#onhe#idas pelo modo de #onstruir um te"to, ao ponto de o adjetivo clariceano poder ser
#unhado Jsemelhante a rosianoK. )o entanto, em PCG, e em al(uns outros te"tos seus,
5lari#e radi#aliza na bus#a pela parado"al forma não formalizada, de uma maneira que o
roman#e passa a se afirmar mais pela ne(a!ão que pela afirma!ão de suas possibilidades.
G.,., narradora, des#onfia daquilo que a#abou de inventar #omo des#ri!ão do que viveu. 2
novidade não permane#e #omo tal por mais de al(umas pou#as linhas. Biferente de outros
autores que, apesar de des#onfiados, apSiam no vazio suas #onstru!Fes Jseus te"tosK e do
vazio se esque#em, a 5lari#e 'ispe#tor de PCG, não se afasta demais do vazio nun#a.
E?

O jo(o de lin(ua(em \...] se(ue, pre#isamente, em 5lari#e 'ispe#tor,
uma dire!ão oposta ao de Guimarães 3osa. Guimarães 3osa, ao
#ontr8rio de 5lari#e 'ispe#tor, apresenta um etilo do acr=scimo \...]
al#an!a trans#endên#ia através da afirma!ão do mundo.
E=
5omo j8 foi esbo!ado no #ap$tulo >, quando da referên#ia ao ensaio de Tulio 5ort8zar sobre o roman#e
#ontemporRneo.
5O3A_723, T. Obra 5r2tica !". 1%. 3io de TaneiroU 5iviliza!ão 0rasileira, 1--@.
E?
3elativo a essa insistên#ia pela dissolu!ão, o Jbem&humoradoK poema de Toão 5abral de +ello )etoU
5O)A2+ BE 5'23>5E '>CPE5AO3
Im dia, 5lari#e 'ispe#tor
inter#ambiava #om ami(os
dez mil anedotas de morte,
e do que tem de sério e #ir#o.
)isso #he(am outros ami(os,
vindos do futebol,
#omentando o jo(o, re#ontando&o,
refazendo&o, de (ol a (ol.
uando o futebol esmore#e,
abre a bo#a um silên#io enorme
e ouve&se a voz de 5lari#eU
:amos voltar a falar de morte?
InU Agrestes. 3io de TaneiroU )ova 4ronteira, 1-@=.
@-
Em 5lari#e 'ispe#tor \...] uma espé#ie de mer(ulho nas potên#ias
obs#uras da vida, através da ne(a!ão do mundo, das rela!Fes humanas,
da éti#a. )a sua visão de realidade, o Cer e o )ada se identifi#am.
EE
O dis#urso se debate perto do nada, tematizando&o, antes de tematizar qualquer
#oisa. ,8 uma ne#essidade sistem8ti#a de não se identifi#ar #om #onstru!ão al(uma, não
insistir em #aminho nenhum sem lo(o voltar ao des#aminho. Essa ne#essidade
pro(ram8ti#a de não se identifi#ar #om qualquer formaliza!ão
E@
faz #om que todo o
dis#urso esteja sempre pronto para ir a qualquer lu(ar, embora não v8 nun#a Jem #erto
ponto de vistaK a lu(ar nenhum & uma tentativa de mimetizar o silên#io pela palavra
E-
.
2 moldura do quadro e a #apa do livro, além de anun#iarem um tipo de e"periên#ia,
su(erem um #onjunto de valores e si(nifi#ados. >sto insere a pintura e o roman#e, para o
espe#tador, na ordem de #oisas que são produto da vontade humana, de suas es#olhas
#ons#ientes* ou, pelo menos, o roman#e, #omo obra humana, insere&se no rol das tentativas
humanas de atin(ir finalidades. 3oquetin, narrador de A 48usea, questiona al(uns valores
intr$nse#os de um roman#e que diferem, no fundamento, da e"periên#ia.
+as é pre#iso es#olherU viver ou narrar. \...]
uando se vive, nada a#onte#e. Os #en8rios mudam, as pessoas entram e
saem, eis tudo. )un#a h8 #ome!os. Os dias se su#edem aos dias, sem
rima, nem solu!ãoU é uma soma monStona e intermin8vel. Be quando em
quando se pro#ede a um total par#ial, dizendoU faz três anos que viajo,
três anos que estou em 0ouville. Aambém não h8 fimU nun#a dei"amos
uma mulher, um ami(o, uma #idade, de uma sS vez.
EE
)I)EC, 0enedito. O Aundo Imagin8rio de 5larice -ispector.InU O Borso do 0igre. Cão PauloU Perspe#tiva,
1-?-, pp.1D@&1@-.
E@
5omo j8 foi dito v8rias vezes neste trabalho, a dissolu!ão das formas deve ser relativizada na medida em
que um Jnão&Kroman#e de #ento e oitenta p8(inas foi #onstru$do e não desapare#e dissolvido no ar.
E-
)um depoimento dado na 4esta 'iter8ria de Parat6 J4'>PK de ;..=, +arina 5olasanti, ami(a prS"ima de
5lari#e 'ispe#tor, #omentava sobre o h8bito que 5lari#e tinha de mentir Jé bastante #onhe#ida a #onfusão
sobre sua idade produzida por ela mesmaK. Cempre que #he(ava H #asa de 5lari#e, notava a (rande
quantidade de livros soltos por todos os lados. Ce per(untada, no entanto, o que estava lendo, 5lari#e
normalmente respondia que não estava lendo nada, que lia muito pou#o. Para +arina 5olasanti, essa era mais
uma das mentiras de 5lari#e que não entendia. Passados uns anos, e in#omodada #om a histSria, #he(ou H
#on#lusão de que 5lari#e tinha ne#essidade de não se identifi#ar #om nada. Ce dissesse que lia BostoievsOi,
as outras pessoas a olhariam #om essa informa!ão em vez de olharem&na desarmados.
Esta pequena narra!ão se alinha bastante bem #om a idéia de que os narradores de 5lari#e 'ispe#tor,
G.,. em parti#ular, estão num lu(ar de fala sempre prS"imo do vazio de não&identifi#a!ão, de não&
si(nifi#a!ão, de não&palavra, de não&subjetiva!ão & um esfor!o (rande para dizer sem dizer, ou para não&dizer
dizendo.
-.
\...] :iver é isso. +as quando se narra a vida, tudo muda* simplesmente
é uma mudan!a que nin(uém notaU a prova é que se fala de histSrias
verdadeiras. 5omo se pudesse haver histSrias verdadeiras* os
a#onte#imentos o#orrem num sentido e nSs os narramos em sentido
inverso. Pare#emos #ome!ar do in$#ioU WEra numa bela noite de outono
de 1-;;. Eu era es#revente em +arommes.W E na verdade foi pelo *im
que #ome!amos. Ele est8 ali, invis$vel e presente, é ele que #onfere a
essas pou#as palavras a pompa e o "alor de um #ome!o. WEstava
passeando, sa$ra do vilarejo sem per#eber, pensava em meus problemas
de dinheiro.W Essas frases, tomadas simplesmente pelo que são,
si(nifi#am que o sujeito estava absorto, deprimido, a #em lé(uas de uma
aventura, e"atamente nesse tipo de estado de esp$rito em que se dei"am
passar os a#onte#imentos sem vê&los. +as o fim, que transforma tudo, j8
est8 presente. Para nSs o sujeito j8 é o herSi da histSria. Cua depressão,
seus problemas de dinheiro são bem mais pre#iosos do que os nossos,
doura&os a luz das pai"Fes futuras.
\...] Esque#emos que o futuro ainda não estava ali* o sujeito passeava
numa noite sem press8(ios, que lhe propor#ionava de #ambulhada suas
riquezas monStonas, ele não es#olhia.
uis que os momentos de minha vida tivessem uma seqYên#ia e uma
ordem #omo os de uma vida que re#ordamos. O mesmo, ou quase, que
tentar #apturar o tempo.
@.

)ão importa se e"pressão da es#olha do indiv$duo, ou se e"pressão, pelo indiv$duo,
de uma ideolo(ia #ompartilhada e histori#amente determinada, a simples media!ão da
palavra torna j8 estranha a tentativa de es#rever #om isen!ão de finalidade, na medida em
que a palavra #arre(a nela moldes JmoldurasK e finalidades Jmuitas vezes irre#onhe#$veisK
da ideolo(ia a ela asso#iada.
O roman#e é obra humana or(anizada e pressupFe usualmente determinadas
rela!Fes #ausais. O dis#urso é or(anizado se(undo finalidades, tanto J1K o final do livro
quanto J;K al(uma inten!ão do autor. )ão se trata da su#essão de momentos presentes sem
ne#essidade de en#adeamento lS(i#o. 2 utiliza!ão de uma lin(ua(em, pelo autor,
#ompartilhada em (rande parte #om o leitor, faz #om que os pressupostos lS(i#os dessa
@.
C23A3E, T.P. A 48usea. 3io de TaneiroU 3e#ord, 1--E, pp. ??&?E. J(rifos meusK
-1
lin(ua(em estejam mais presentes o tempo todo na frui!ão do livro. )a e"periên#ia
#otidiana ordin8ria, os pressupostos lS(i#os estão presentes no sujeito e #orrespondem aos
a#onte#imentos do mundo. Por isso, a lin(ua(em serve #omo ferramenta adequada ao
mundo #otidiano. X a n8usea, e"periên#ia não ordin8ria, que questiona tais pressupostos
lS(i#os e, por #onseqYên#ia, a prSpria lin(ua(em. >sen!ão de finalidade si(nifi#aria a
suspensão do tempo, o presente sem #onseqYên#ia futura Jsem a tentativa humana de
(eneralizar a seqYên#ia lo#al para formular uma lei de #ausalidade re#orrenteK e sem
histori#idade. 2 palavra é tão pre#8ria quanto o ato #riminoso que, para ne(ar uma moral,
inverte uma re(ra. )a medida em que o sistema pode ter san!Fes para as inversFes, que
fazem também parte do sistema, inverter uma re(ra nun#a ne(a o sistema sem que o afirme
ao avesso.
+artim, em A Aaçã no escuro, é herSi i#Vni#o dessa tentativa de inversão da
moral. +artim #omete um #rime Jque ao fim revela&se fra#assado mesmo na sua inten!ão
primeira, anterior aos jul(amentos, j8 que a esposa não havia morridoK #omo ne(a!ão
ini#ial de um sistema. 2 essa tentativa, 0enedito )unes, em O Brama da -inguagem
@1
, d8
o nome de Wsa$da romRnti#aW. Ela se baseia na #ren!a da liberdade e autonomia do homem
diante de um sistema de valores. 2o mesmo tempo, inevit8vel, a primeira ne(a!ão da
moral, pelo imoral, transforma&se em afirma!ão da trans(ressão. Pode&se dizer, por outro
lado, que o (esto de ne(a!ão é s$mbolo da possibilidade de JsempreK ne(ar. Besse modo, o
imoral, se não se trata da afirma!ão de um #omportamento trans(ressor espe#$fi#o, é, no
m$nimo, a afirma!ão da possibilidade de ne(ar, o que pode ser parafraseado em afirma!ão
da liberdade de escol+a. Gilberto +artins tem opinião semelhanteU
)o entanto, o#orre que aquele que possui o poder da palavra e o dis#urso
da #erteza é dotado também de livre arb$trio e da op!ão de es#olha. 2o
#ontr8rio do hero$smo da 2nti(Yidade 5l8ssi#a, em que o destino é mais
do que mera #ontin(ên#ia, determinando o #omportamento do herSi, a
heroi#idade moderna #olo#a nas mãos do homem a #ondi!ão de seu
prSprio destino. \...] +artim opta pelo ato #riminoso, assumindo
posteriormente as puni!Fes de#orrentes \...] e o herSi #onfunde&se, a(ora,
#om o #riminoso.
@;
@1
)I)EC, 0. O Brama da linguagem. Cão PauloU _ti#a, 1-@-.
@;
+23A>)C, G.4. As 'igas de um +ero2smo "ago: tr>s estudos sobre A Aaçã no escuroC. Cão PauloU
44'5,QICP, 1--E, p.E?. Jdisserta!ão de mestradoK.
-;
Ce visto #omo o #omportamento interditado, o mal é justamente a a!ão que inverte
o #omportamento re#omendado. >ndependentemente de a manifesta!ão do mal ser produto
de uma potên#ia animal humana, de uma es#olha livre #ons#iente, de for!as so#iais ou se é
resultado de uma intera!ão entre as três possibilidades anteriores, a so#iedade ele(e
determinados #omportamentos #omo a#eitos e outros #omo vetados, #om a finalidade de
manuten!ão e produ!ão de uma ordem avaliada #omo positiva. O mal é um #on#eito
#ompartilhado, do (rupo, e, a prin#$pio, para ser identifi#ado, independe de que tipo
poten#ial individual Jse #ons#iente ou in#ons#ienteK o tenha (erado. Aal divisão entre #erto
e errado é determinante não sS nas a!Fes so#iais do homem #omo também nos seus
pro#essos mentais, seus modos de apreender o mundo e e"pressar&se em palavras. 'ivrar&
se dessa determina!ão moral imposta é for!a motriz para v8rios persona(ens da autora. O
mal, #omo primeira inversão das for!as que apontam e re#omendam o bem, é a tentativa
rom?ntica em bus#a de liberdade, e pode ser identifi#ado, #omo primeiro e"emplo, #om o
#rime de +artim.
O mal, em outros te"tos, #omo WO bLfaloW
@D
, assume outra fa#eta, além daquela da
proibi!ão so#ialU a do poten#ial a(ressivo animal vetado so#ialmente. 2 prisão da
persona(em do #onto a um sistema de valores veta seu en#ontro #om partes de si mesma, a
ponto de ela promover uma bus#a or(anizada do mal no jardim zoolS(i#o. O mal neste
#aso não é a a!ão maldosa, mas uma potên#ia (eradora de maldade. 2 bus#a se #olo#a,
então, em rela!ão ao mesmo sistema que veta o #rime J#omo o de +artimK, não pela
e"e#u!ão Jimoral mas não amoralK do ato mas pela bus#a de uma ener(ia es#ondida pelo
#Sdi(o moral, no homem, ainda no estado de potên#ia, e não avaliada em bem ou mal Jo
bLfalo es#aparia de internalizar o #Sdi(o moralK. 2ntes do en#ontro, o Sdio & o mal, neste
#onto &, fi#ava transfi(urado
>ma(inar que talvez nun#a e"perimentasse o Sdio de que sempre fora
feito o seu perdão.
@<
, e mesmo no a#esso ao primitivo, são re#onhe#idas ainda manifesta!Fes do Sdio que
en#obriam o Sdio poten#ial
@D
'>CPE5AO3, 5. WO 0LfaloW InU -aços de am2lia. 3io de TaneiroU 3o##o, 1---.
@<
Ibidem
-D
Então, nas#ida do ventre, de novo subiu, implorante, em onda va(arosa,
a vontade de matar f seus olhos molharam&se (ratos e ne(ros numa
quase feli#idade, não era o Sdio ainda, por enquanto apenas a vontade
atormentada de Sdio #omo um desejo, a promessa do desabro#hamento
#ruel
@=
até, por fim, sur(ir Win#ompreens$vel e quente, enfim in#ompreens$velW, sem que assuma
forma de WperdãoW ou de Wvontade de matarW.
Im ter#eiro e"emplo
@?
em que o mal é apresentado, desta vez não #omo bus#a do
persona(em, é W2 'e(ião estran(eiraW
@E
. )este #onto, Ofélia & uma #rian!a muito adulta, o
que pode ser interpretado #omo `devidamente #onformada e enrije#ida pela moral` & W#omo
uma atua!ão toda interior, #omo se para tudo houvesse um tempo, levantava #om #uidado a
saia de babados, sentava&se, ajeitava os babados \...] Ainha opinião formada a respeito de
tudo.W
@@
, quando #olo#ada em #ontato #om um animal des#onhe#ido, um pinto, tem
despertada em si uma a(ressividade antes des#onhe#ida, que a leva rapidamente a matar o
animal. Bistante do lu(ar de muitos dos narradores e prota(onistas #lari#eanos, onde o
equil$brio inst8vel e o ine"pli#8vel são o #en8rio, para Ofélia as #oisas tinham sentido
e"ato e se #on#atenavam de maneira lS(i#a. 2 #ausalidade, dif$#il de ser estabele#ida
quando tra!os e tremores se #onfundem, é Sbvia quando apresentada pela moral mais
r$(ida desta #rian!a.
Eu ainda preferia #onselho e #r$ti#a. T8 menos toler8vel era seu h8bito de
usar a palavra portanto #om que li(ava as frases numa #on#atena!ão que
não falhava.
@-

2qui, o mal é uma potên#ia in#ontida, posta em a!ão. )ão se trata de uma viola!ão
#ons#iente JHs vezes, planejadaK de uma lei, mas da e#losão r8pida de uma potên#ia
destrutiva. 2s #ate(orias morais são dissolvidas e a maturidade se esvai.
@=
Ibidem
@?
,8 dezenas de outros e"emplos na obra #lari#eana. Cervimo&nos destes para apresentar nuan#es do mal que
nos ajudam a espe#ifi#ar o pro#edimento em PCG,.
@E
'>CPE5AO3, 5. W2 'e(ião Estran(eiraW InU A -egião )strangeira. 3io de TaneiroU 3o##o, 1---.
@@
Ibidem, p.-1.
@-
Ibidem, p.-;. J(rifos meusK
-<
Biante de meus olhos fas#inada, ali diante de mim, #omo um
e#toplasma, ela estava se transformando em #rian!a.
-.

O mal de Ofélia é paralelo H for!a, neutra em rela!ão H moral, que move G.,. no
WassassinatoW da barata. Essa for!a, quando e#lode, es#apa tanto do #ontrole moral do
indiv$duo quanto es#apa das possibilidades de ser des#rita. Em W2 'e(ião estran(eiraW, o
assassinato do pinto o#orre em surdina e, neste #aso, distante dos olhos da narradora
adulta, $ndi#e de que também a lS(i#a e a #ausalidade fossem obs#uras a quem narra.
)ão vi quando foi, não vi quando voltou. Em al(um momento por a#aso
e distra$da, senti h8 quanto tempo havia silên#io.
-1
Aambém em WO 0LfaloW o apare#imento do Sdio se d8 disforme, no animal muito
preto do qual a fa#e, de tão es#ura, não dei"ava distin(uir as formas, Wtão preto que H
distRn#ia a #ara não tinha tra!os.W
-;
. Biferente do mal de Ofélia, sur(ido do inesperado e
sema visar, o mal para a persona(em de WO 0LfaloW sur(e depois de a persona(em passar
por v8rios animais do zoolS(i#o, numa bus#a or(anizada por ela mesma.
Em PCG,, a e#losão do neutro é de dif$#il des#ri!ão mesmo para a narradora que
tudo viven#iou. 5omo des#rito no tre#ho de A n8usea antes #itado, a vivên#ia e a narrativa
são instRn#ias e"#ludentes.
-D
)a impossibilidade de envolver #om aderên#ia, em palavras,
as for!as e os fatos presentes no a#onte#imento produzido pelo des#ontrole, a fi"a!ão em
palavras é dada por uma embala(em que sempre sobra eQou falta em rela!ão ao referente. X
#omo (uardar no #on#eito Warte abstrataW toda aquela e"pressão art$sti#a que #omuni#a e
faz referên#ia ao mundo, mas de um modo irre#onhe#$vel.
O paralelo entre a e"periên#ia de Ofélia e a de G.,. é refor!ado também no modo
de des#rever o indes#rit$vel. 2 mesma Wale(ria dif$#ilW de G.,. é o que a narradora adulta
-.
Ibidem, p.-=.
-1
Ibidem, p.--.
-;
X, aqui, dif$#il de re#onhe#er as formas do que não pode ser dito, tanto quanto em rela!ão H empre(ada
Tanair, indiz$vel pelo dis#urso de #lasse de G.,., #ujo rosto a narradora não lembra, ou quanto a +a#abéa,
#ujos tra!os es#apam ao narrador 3odri(o C.+.
-D
>sso est8 em a#ordo #om Cartre, embora ele não #onsidere o mal inconsciente #omo uma potên#ia humana
mas #omo uma a!ão das #ontin(ên#ias sobre a #ons#iên#ia J#ons#iên#ia, para ele, é equivalente a ser humano
e a liberdadeK.
-=
supFe ter a#onte#ido #om a menina. WEm silên#io eu via a dor de sua ale(ria dif$#il.W
-<
Q W2
mim, por e"emplo, a persona(em G.,. foi dando pou#o a pou#o uma ale(ria dif$#il* mas
#hama&se ale(ria.W JPCG,, EK
5omo definiu Pasta Tr.
-=
, trata&se da JinKe"pressão do mist=rio & em oposi!ão ao
enigma & que deve ser #ontemplado e não pode ser de#ifrado
-?
. 'i(ado a este mistério est8
o #ontraponto da sa$da rom?ntica na obra de 5lari#e 'ispe#tor, que é, se(undo a
terminolo(ia de 0enedito )unes, a sa$da m2stica. 2 primeira sa$da baseia&se, entre outras
for!as, na revolta #omo possibilidade de liberta!ão. 2ssim, o #onflito entre uma ordem e o
sujeito revoltado #onfi(ura&se #omo a!ão e depende da op!ão que o indiv$duo tem de se
opor Hs diretrizes de a!ão do mundo. Bo outro lado, a sa$da m2stica baseia&se numa
transforma!ão interior ao homem de um modo que ele entenda al(o sobre as #onfi(ura!Fes
e os movimentos do mundo em rela!ão a ele. 5omo é uma transforma!ão interior, o
entendimento pode passar também por entender&se.
)a "ia rom?ntica, entre as premissas do movimento do sujeito estão suas
possibilidades de, pela revolta, modifi#ar o mundo e"terior. O indiv$duo a#redita em sua
#apa#idade de es#olha e modifi#a!ão do mundo. )isso baseia&se sua idéia de liberdade. Em
+E
-E
, tal sa$da torna&se um tanto des#onjuntada por dois motivos. Em primeiro lu(ar, a
es#olha do sujeito, sua revolta Jo #rimeK é mal su#edida na medida em que a tentativa não
se #on#retiza em assassinato da mulher. Ceu #ontrole sobre o mundo é sobreposto pelas
#ir#unstRn#ias que a(em além de sua es#olha. Em se(undo lu(ar, o sistema de re(ras por
ele violado Jem parti#ular, não matarK est8 de tal modo #on#retizado nele e no mundo que a
san!ão ao #rime vem Jele é presoK e é a#eita por ele #omo momento final do livro
-@
.
-<
'>CPE5AO3, 5. W2 'e(ião Estran(eiraW InU A -egião )strangeira. 3io de TaneiroU 3o##o, 1---, p.-=.
-=
P2CA2 T3., T.2. WO 3oman#e de 3osa & temas do Grande sertão e do 0rasilW. InU 4o"os )studos 1 5)67AP
n.==, nov. 1---, p.?;.
-?
Bo mesmo modo, o mal, assim #omo a lou#ura, desvios das #onven!Fes sobre o #omportamento moral e
ra#ional, são afastados da so#iedade em prisFes e mani#Vmios, #omo modo de separar o des#ontrolado da
so#iedade #ontrolada. Be al(um modo, a arte que é pou#o entendida em termos ra#ionais e re#onhe#$veis,
embora seja apreendida e toque o ser humano, (anha denomina!Fes do tipo Warte abstrataW, assim #omo as
prisFes e mani#Vmios retêm o des#ontrole moral e ra#ional, assim #omo a palavra Jmoral e ra#ionalK não
#onse(ue ser pre#isa e aderir ao des#ontrole. Bo mesmo modo, no mural misterioso na parede do quarto de
Tanair, os tra!os J#ontroleK #onfundem&se #om os tremores Jdes#ontroleK para formar fi(uras humanas, e bem
ilustrar a difi#uldade de a palavra Jtra!oK apreender sozinha também a e"periên#ia humana, por e"emplo, de
mal e de lou#ura.
-E
+E & '>CPE5AO3, 5. A Aaçã no escuro. 3io de TaneiroU 3o##o, 1---.
-@
Em 5rime e 5astigo, o prota(onista 3asOolniOov faz uma lon(a e"posi!ão sobre sua tese de dividir os
homens em ordin8rios e e"traordin8rios. Ce ele era um e"traordin8rio, e é prov8vel que assim se sentisse, seu
#rime estaria justifi#ado. Ce(undo ele, o homem ordin8rio deve se sujeitar Hs re(ras do mundo. Os
e"traordin8rios, ao #ontr8rio, estariam a#ima das re(ras. Aeriam, por isso, autoriza!ão éti#a para viol8&las.
-?
Aal a#eita!ão da san!ão é j8 o sinal de um ter#eiro entrave para a via romRnti#a.
2#eitar é re#onhe#er a potên#ia do mundo e a impotên#ia do sujeito, o que minimiza o
sentido da revolta. 2#eitar é parte da sa$da m$sti#a, na qual, ao invés de se fazer sujeito, o
indiv$duo se entende #omo objeto das a!Fes do mundo. )ntender e aceitar rela#ionam&se,
ainda, de um modo ne(ativoU o pro#esso de transforma!ão interior que #onfi(ura a sa$da
m$sti#a, e que é um entendimento do que é o homem, do que é o mundo e de suas rela!Fes,
é também a a#eita!ão de que o homem não entender8. 2ssim, a sa$da m$sti#a pressupFe o
mistério e baseia&se na sujei!ão do indiv$duo Hs for!as do mundo.
Por fim, uma das tensFes que movem a narrativa em +E, e que não é resolvida, é a
tentativa de #on#ilia!ão entre as vias m$sti#a e romRnti#a. 0enedito )unes refere&se a W#air
num po!o horizontalW para representar os dois ei"os distintos e independentes. 2l(umas
premissas de um e de outro ei"o são opostas & a!ão e sujei!ão, revolta e a#eita!ão, por
e"emplo & e não #oe"istem num mesmo momento sem que produzam uma tensão, não
entre posi!Fes diferentes do mesmo ei"o, mas entre ei"os diferentes. O que pode a#onte#er
é a su#essão de momentos de al$vios par#iais de tensão & ora pela via romRnti#a, ora pela
via m$sti#a &, o que d8 o ritmo bin8rio de sins e nãos. O #rime de +artim, baseado nas
idéias da via romRnti#a da liberdade de es#olha e da revolta #omo fundamento de mudan!a,
W#ulminar8 na amar(a desistên#ia e na resi(na!ão muda do final do roman#e.W
--
, diferente
do que a#onte#e no fim de PCG,, em que desistir é o prêmio pelo esfor!o, não é amar(o
#omo é para +artim, é Wale(ria dif$#il, mas #hama&se ale(riaW.
3etomo e sintetizoU o mal nos diferentes te"tos de 5lari#e 'ispe#tor, #omo fa#eta
do neutro Jsemelhante H n8usea de 3oquetinK, sur(e de diversos modos, entre elesU
resultado de uma bus#a JWO bLfaloWK, #omo a!ão trans(ressora que (uarda par#ela de
Estes homens possuiriam uma #apa#idade superior de entender os pro#essos do mundo, justifi#ando os meios
pelos fins. 2ssim, 3asOolniOov teria #ometido um #rime, se(undo as leis dos homens, autoriz8vel por sua
#ondi!ão de homem e"traordin8rio. Besses homens dependeriam as evolu!Fes, as revolu!Fes e as (randes
linhas de for!a do #urso da histSria. 2os demais, ordin8rios, restaria o #umprimento quase que maquinal das
re(ras.
2pSs as peripé#ias que passam pela perspe#tiva da #ulpa, da prisão e por pensamentos #om
tendên#ias paranSi#as, o persona(em alivia boa parte de suas tensFes numa sa$da m$sti#o&reli(iosa quando
#ome!a a ler a 0$blia e a se interessar pelo #ristianismo. )o entanto, a sa$da de 3asOolniOov (uarda um (rau
de verdade trans#endente e metaf$si#a, diferente do que a#onte#e no mistério prSprio da matéria Jdeste
mundo aquiK em que se apSia o misti#ismo #lari#eano.
BOCAO>E:Cc>, 4. 5rime e 5astigo. Cão PauloU Editora D<, ;..1.
--
+23A>)C, G. op.cit., p.1<D.
-E
es#olha da #ons#iên#ia Jo #rime de +artim em +EK e #omo e"plosão in#ontrol8vel e
imprevista de ener(ia des#onhe#ida J#omo em W2 'e(ião estran(eiraWK.
Em PCG,, #ontinuam presentes tanto a via m$sti#a quanto a via romRnti#a. Esta
Lltima (anha #ara#ter$sti#as parti#ulares devido H solidão f$si#a da persona(em. Ela não
est8 #olo#ada, ao lon(o do re#orte de sua vida narrado, frente a outros persona(ens ou a
a(entes so#iais e"teriores que a jul(uem. Aampou#o seu #rime é previsto pelas leis so#iais
e"pl$#itas em que ela se enquadraria. Ela mata uma barata e não uma pessoa. uanto a se
apro"imar e mesmo #omer da #arne proibida dos animais rastejantes, #onforme #ita!ão
b$bli#a por ela retomada, não h8 no seu relato indi#a!ão de que G.,. se importe
ra#ionalmente #om estas re#omenda!Fes, talvez por não se sentir parte do (rupo de #ristãos
que porventura vejam o te"to b$bli#o #omo t8bua pres#ritiva de #omportamentos. >nteressa&
se, de outro modo, pela investi(a!ão dos fundamentos humanos do veto b$bli#o. JCubmete&
se a uma moral, enquanto in#ons#iente disso, mas não tem motivos ra#ionais que a
prendam aos pre#eitos da reli(ião ou a qualquer #oisa.K
Eu me sentia imunda #omo a 0$blia fala dos imundos. Por que foi que a
0$blia se o#upou tanto dos imundos, e fez uma lista dos animais
imundos e proibidos? por que se, #omo os outros, também eles haviam
sido #riados? E por que o imundo era proibido? Eu fizera o ato proibido
de to#ar no que é imundo. JPCG,, E1K
O #rime, dentre os fatos narrados, se d8 em rela!ão a proibi!Fes obs#uras de uma
moral internalizada. Cua rela!ão #om a barata desafia seus padrFes de ordem, beleza e
limpeza, entre tantas outras dimensFes idealiz8veis poss$veis, que são fa#es de um padrão
moral dif$#il de abandonar. 2o mesmo tempo em que tenta se livrar dos modos pré&
estabele#idos de re#ortar o mundo, avaliar, si(nifi#ar e sentir, para dar #onta de sua
e"periên#ia #om a barata, G.,. dis#ute #om as prSprias palavras, que são formaliza!Fes
desses modos pré&estabele#idos. 2 revolta, prSpria da via romRnti#a, também se formaliza,
no #entro das dis#ussFes, #omo a bus#a pela palavra nova que não se rela#ione a um
sistema fi"o Jpois, se assim fosse, teria a ri(idez da trans#endên#ia entre os homens e entre
os temposK, palavra que seja #ir#unstan#ial e fu(az #omo a e"periên#ia. uando a via
romRnti#a é trazida para o dom$nio da revolta #ontra a palavra, sur(e a impossibilidade
lS(i#a da palavra que quer ser não&palavra.
-@
2 via romRnti#a li(a&se também a uma bus#a pela palavra adequada e perfeita
1..
.
)e(a&se a palavra, pois ela é sempre e"pressão da par#ialidade e do humano. 2 e"periên#ia
#ompleta se d8 no Rmbito não&humano, no silên#io da e"istên#ia não si(nifi#ada. O todo,
aqui, não se rela#iona #om a idéia de um #ontrole e"terior ao mundo Jtrans#endenteK, mas a
uma idéia de apreensão da m8quina do mundo
1.1
pela palavra, aqui mesmo, de modo a
produzir e"periên#ia e não apenas aludir a ela.
)a outra dimensão, in#on#ili8vel #om a primeira, a via m$sti#a tende o tempo todo
para a dissolu!ão da palavra Je de qualquer outra formaK em silên#io. Essa via (anha um
valor espe#ial pelo fato de ser enun#iada #om mais firmeza no momento final do livro,
1..
2 palavra, sempre par#ial, re#orte, quer ser total.
Perfe#tum & lat. #ompletamente feito.
1.1
W2 +8quina do mundoW, de Brummond, e WO 2lephW, de 0or(es, são dois dos inLmeros e"emplos da
litera!ão de um me#anismo total. )o entanto, tais e"emplos são menos an(ustiantes que a totalidade
#lari#eana de G.,., fu(idia, fu(az, in#ompreens$vel, que se realiza #omo uma sensa!ão passada, perdida entre
os #a#os da e"periên#ia esbo!ada em palavra. O 2leph, por e"emplo, tem permanên#ia, lu(ar fi"o,
determinado, e tem #orrespondente em ima(ens objetivas Jao #ontr8rio das sensa!Fes disformes, parado"ais e
inenarr8veis de G.,.K
C1 )st8 no porão da sala de <antar. Q...Q A escada do porão era empinada, meus tios me tin+am
proibido descer, mas algu=m me *alou ;ue +a"ia um mundo no porão.C Jp.1D.K
Co lugar onde estão, sem se con*undirem, todos os lugares do mundo, "istos de todos os ?ngulos.C
Jp.1D.K
CD8 sabes, = indispens8"el o dec9bito dorsal. 0amb=m o são a escuridão, a imobilidade, certa
acomodação ocular. 0u te encostas no piso de ti<olos e *ixas o ol+ar no d=cimo nono degrau da tal escada.C
Jp.1D1K
Guarda&se, também, a distRn#ia entre sujeito e objeto. O sujeito ainda pode bus#ar o 2leph, se
quiser. Ele est8 l8 H espera, num lu(ar bem determinado e objetivo. G.,., no entanto, e"perimenta a
totalidade pela indiferen#ia!ão que a toma em rela!ão ao mundo, o que apa(a as fronteiras entre o eu e o
outro.
O problema da des#ri!ão do 2leph em palavras também é enfrentado, mas a difi#uldade se en#ontra
em des#rever o infinito pelo finito, sem que se questione muito a objetividade e a permanên#ia da
e"periên#ia. O Lni#o senão sobre a #apa#idade do narrador apresentado por ele mesmo é o paulatino
apa(amento da memSria do objeto.
C0oda linguagem = um al*abeto de s2mbolos cu<o exerc2cio pressup.e um passado ;ue os
interlocutores compartemE como transmitir aos outros o in*inito Alep+, ;ue min+a t2mida mem/ria mal e
mal abarcaFC Jp.1D;K
CAesmo por;ue o problema central = insol9"el: a enumeração, se;uer parcial, de um con<unto
in*inito. 4este instante gigantesco, "i mil+.es de atos agrad8"eis ou atrozesE nen+um me assombrou mais
;ue o *ato de todos ocuparem o mesmo ponto, sem superposição e sem transpar>ncia. O ;ue os meus ol+os
"iram *oi simult?neoE o ;ue transcre"erei ser8 sucessi"o, pois a linguagem o =. Algo, entretanto,
registrarei.C Jp.1DDK
Para G.,., a e"periên#ia se d8 sem que haja observador isento. O observador est8 #ompletamente
dissolvido no mundo, sua per#ep!ão est8 alterada em rela!ão a seu estado ordin8rio, a partir do qual far8 sua
tentativa de des#ri!ão.
0O3GEC, T.'. WO 2lephW InU O Alep+. GloboU Porto 2le(re, 1-ED.
2)B32BE, 5.B. W2 +8quina do mundoW InU 7eunião: 1G li"ros de poesia. 3io de TaneiroU Tosé
Ol6mpio, 1-E?.
--
#omo a aceitação de que o mundo #aminha e de que permane#e um mistério independente
das a!Fes e bus#as humanas JWa!ãoW e Wbus#aW apro"imam&se dos métodos da via
romRnti#aK. 3elativiza&se um pou#o a superioridade da a#eita!ão em rela!ão H bus#a pelas
indu!Fes ao tempo #$#li#o feitas ao lon(o do livro, o que faz do fim um instante qualquer,
indiferente de qualquer outro momento do te"to.
Esta irredutibilidade das duas vias numa sS vem desde o t$tulo. Este, #omo um todo,
tem a mesma fSrmula das pai"Fes b$bli#as JPai"ão Ce(undo Cão Toão, por e"emploK e,
nesta a#ep!ão, remete ao #aminho de 5risto, que pa(a pelos pe#ados de todos os homens
#om a finalidade de redimir a humanidade. X a ale(oria do sofrimento presente #om
finalidade alheia Jalheia tanto por ser feito por outrem quanto por ser feito num momento
#om #onseqYên#ias planejadas, afastadas no tempo em rela!ão a esse momentoK.
5omparada H trajetSria enun#iativa de G.,., tem afinidade #om o sa#rif$#io da palavra
#ristalizada em nome de um mistério indiz$vel, ou #om o sofrimento de não #onse(uir
e"pressar a e"periên#ia pela palavra asso#iado a al(uma esperan!a de #omuni#ar pelas
entrelinhas.
)a tradi!ão filosSfi#a, o cogito
1G3
#artesiano, que fun#iona #omo evidên#ia #om a
qual afirma&se Jdiferen#iandoK o homem em rela!ão a tudo o que não é homem, introduz a
oposi!ão entre os fatos do mundo e os fatos do homem. Os fatos do mundo obede#eriam a
leis ne#ess8rias e inapel8veis sem que uma es#olha fosse feita. O homem, no entanto,
possuiria liberdade e a(iria, não se(undo leis ne#ess8rias, mas de a#ordo #om suas
es#olhas. Aambém, ele(eria #ritérios e atrelaria suas es#olhas presentes a fins futuros. O
modo #omo G.,. se ape(a H via m$sti#a e"i(e a ne(a!ão deste prin#$pio filosSfi#o que
postula a liberdade de es#olha #omo #ara#ter$sti#a humana inalien8vel. )o e"isten#ialismo
sartriano, por e"emplo, herdeiro do cogito #artesiano, a liberdade asso#ia&se a um prin#$pio
éti#o em que, na impossibilidade de alienar o homem de sua liberdade, a(ir #omo que
abrindo mão da es#olha é j8 es#olher não es#olher, e #onstitui uma afirma!ão, ainda que
pelo ato lo#alizado, de uma es#olha moral.
Em PCG,, quando o enun#iado trilha a via m$sti#a, a idéia de liberdade pare#e
diferente. 2brir mão da liberdade submetendo&se aos pro#essos do mundo é tido #omo
liberdade de não ter que es#olher, e não é em si uma es#olha pois essa liberdade em rela!ão
H obri(a!ão de es#olher não vem do indiv$duo mas o toma a partir do e"terior. Besse
1.;
5ogito ergo sum, Bes#artesU Penso, lo(o e"isto.
1..
modo, apare#e uma se(unda a#ep!ão da palavra paixão do t$tulo do livro. 5omo muitas
vezes é traduzido, o p8t+os (re(o tem o sentido de afe#!ão, aquilo que toma o indiv$duo de
fora para dentro, sem que ele es#olha. Para a situa!ão do homem neste momento, tanto em
G.,. quanto em al(uns outros te"tos, 5lari#e 'ispe#tor es#olhe justamente o nome de
WliberdadeW.
)o #onto WPerdoando BeusW
1.D
, por e"emplo, a narradora se apresenta tomada por
uma pou#o usual sensa!ão de #ompletude. E"perimenta sua #omunhão #om o mundo que
apenas e"iste, e o retrata #omo um amor materno por Beus, sem posses nem hierarquias
entre eu e mundo. B8 a esse estado de #omunhão, que apare#e sem que ela per#eba, o
nome de WlivreW. W2inda não per#ebera que na verdade não estava distra$da, estava era de
uma aten!ão sem esfor!o, estava sendo uma #oisa muito raraU livre.W Cobre sua
possibilidade de provo#ar este estado, ne(a&a, WEnquanto eu inventar Beus, Ele não e"isteW,
o que é paralelo H impossibilidade de avaliar em positivo ou ne(ativo sua e"periên#ia, pois
do amor materno passa a um estado de Sdio quando um (rande rato ruivo apare#e sob seus
pés, também Beus.
2ssim, liberdade é uma palavra que apro"ima um estado individual, um ponto de
vista sobre o mundo. Pode se referir tanto H possibilidade de es#olher quanto H não&
obri(a!ão e impossibilidade de es#olher. O lu(ar de fala do narrador e"pressa um ou outro
estado, o que faz #om que muito do que se passa em 5lari#e 'ispe#tor esteja sempre
prS"imo de uma #at8strofe. >sto si(nifi#a que um equil$brio inst8vel determina a liberdade
de es#olher Je de narrarK, podendo a qualquer momento ser afetado por uma #ausa não
#ontrolada e passar do #ontrole sens$vel ao des#ontrole inenarr8vel. Em (eral, os elementos
que fazem esta transi!ão, em 5lari#e 'ispe#tor, não são (randiosos e des#onhe#idos, mas
ordin8rios e #otidianos. 2 instabilidade do equil$brio que permite #aminhar não é vis$vel
antes de o des#ontrole tomar al(um persona(em, pois não difere, na aparên#ia, do mundo
ordin8rio. O equil$brio vem sem se anun#iar demais, embora o #lima de instabilidade Hs
vezes se anun#ie na narrativa.
Eu não sabia que tudo aquilo fazia parte do que ia a#onte#er. +il vezes
antes o movimento provavelmente #ome!ara e depois se perdera. Bessa
vez o movimento iria ao fim, e eu não pressentia. JPCG,, D=K
1.D
'>CPE5AO3, 5. WPerdoando BeusW InU elicidade 5landestina. 3io de TaneiroU 3o##o, 1---.
1.1
5omo diz o narrador de A 48usea no tre#ho j8 #itado neste #ap$tulo, quando se
narra, #ome!a&se sempre pelo fim, o te"to todo sele#iona os fatos por al(uma motiva!ão
que j8 e"iste. 2 G.,. que narra sua e"periên#ia j8 passou pelo des#ontrole e, quando narra,
tenta pVr ordem, en#ontrar en#adeamentos lS(i#os, evidên#ias que não tinha notado no
momento ou pou#o antes da e"periên#ia.
2ffonso 3omano de Cant`2nna
1.<
j8 havia feito esta apro"ima!ão entre PCG, e a
Aeoria das 5at8strofes. 2 Aeoria das 5at8strofes se o#upa do estudo de fenVmenos f$si#os
inst8veis, rela#iona&se diretamente #om al(uns prin#$pios da Aeoria do 5aos, nos quais
pequenas mudan!as nas vari8veis observadas podem produzir efeitos enormes nos
resultados dos fenVmenos. Im e"emplo simples dessa idéia é o de uma bolinha qui#ando
no piso plano H beira de um abismo. 5ent$metros para #8, a bolinha #ontinua sob a
previsibilidade de um piso plano. 5ent$metros para l8, a bolinha pode ser levada ao
imprevis$vel do abismo #entena de metros abai"o. Este espa!o horizontal de pou#os
#ent$metros que separa o piso plano e o abismo é o dom$nio das teorias do 5aos e da
5at8strofe. )um dos sentidos, nesse plano horizontal, as re(ras do mundo J#ausalidade, por
e"emploK são bem determinadas e (eneraliz8veis. )o outro sentido, o do abismo, a partir
de #erto momento suspende&se a lS(i#a usual e as possibilidades humanas de es#olher.
2li8s, a idéia de queda é bastante ilustrativa para a e"periên#ia de G.,. Ce o
equil$brio de três pernas é perdido, o que a #olo#a inst8vel H beira do abismo, a queda
#atastrSfi#a est8 pronta para a#onte#er. Esse é o lu(ar por e"#elên#ia de muito dos
narradores e persona(ens #lari#eanosU prS"imos de um abismo. +as o abismo é invis$vel
antes de se #air nele, imposs$vel evit8&lo. Aambém, durante a queda, não se sai por vontade
prSpria. X #omo se, mesmo que o persona(em estivesse parado, o abismo sur(isse sob seus
pés. E depois de a queda #essar, a possibilidade de que haja um abismo em qualquer lu(ar
sob o #hão firme vis$vel torna&se presente e faz absurda a vida ordin8ria, vis$vel, relat8vel e
or(anizada.
)o #aso de PCG,, uma #onjun!ão dif$#il de or(anizar de estados interiores e
disposi!ão de objetos, e"teriores, todas vari8veis usuais da vida da persona(em Ja barata, o
quarto, o hor8rio...K, faz #om que G.,. seja levada a um mundo distante de seu #hão usual
previs$vel ou, pelo menos, #ontrol8vel.
1.<
C2)A`2))2, 2.3. WO 3itual epifRni#o do te"toW InU '>CPE5AO3, 5. A Paixão Segundo G.H. Jed. #r$ti#aK. 3io
de TaneiroU I43T, 1--?.
1.;
Em um mundo assim, em que o equil$brio #ontrolado pode sofrer, a qualquer
momento, uma mudan!a enorme por fatores imprevis$veis que levam os prota(onistas a
estados também imprevis$veis, a evidên#ia da #ontin(ên#ia e des#ontrole do mundo pelo
homem é muito maior do que em narrativas de equil$brios mais est8veis. 2 palavra, para
#omuni#ar, e"i(e permanên#ia. )o desequil$brio, permanente é a mudan!a. 2ssim, a
palavra sS pode ser moldada no equil$brio. Coma&se a isso o fato de que, #omo j8 foi
#omentado nas partes pre#edentes deste trabalho, a palavra não é apenas e"pressão de um
pensamento mas também o prSprio me#anismo de pensar. 2ssim, a palavra Jdo #ontroleK
torna&se ferramenta pou#o adaptada a e"pressar o des#ontrole. 2 permanên#ia de
si(nifi#ado e"i(ida H palavra para que #omunique não é adequada H e"pressão do
des#ontrole Jque tem enorme poten#ial de mudan!aK.
Essa visão de mundo, do Wmundo (randeW que não #abe nas mãos do homem, em
que as for!as que a(em no indiv$duo são, em (rande parte, devidas a poten#iais que não a
sua es#olha, apro"ima 5lari#e 'ispe#tor do e"isten#ialismo sartriano, e G.,. de 3oquetin
Jprota(onista de A 48useaK. 2o lon(o de todo o roman#e, termos #omo Wpor a#asoW,
Wa#asoW, Wva(osW, WzumbidoW, Wsem importRn#iaW dão a idéia de #ontin(ên#ia.
5ompreendi então tudo que nos separavaU o que eu podia pensar a seu
respeito não o atin(iaU não passava de psi#olo(ia #omo a que se faz nos
roman#es. +as seu jul(amento me trespassava #omo um (l8dio e
questionava até meu direito de e"istir. E era verdade, sempre me
aper#ebera dissoU não tinha o direito de e"istir. Cur(ira por a#aso, e"istia
#omo uma pedra, uma planta, um mi#rSbio. +inha vida se desenvolvia
ao a#aso e em todos os sentidos. Enviava&me Hs vezes sinais va(os*
outras vezes eu per#ebia apenas um zumbido sem importRn#ia.W
1.=

O que os afasta, G.,. e 3oquetin, no entanto, são a postura de a#eita!ão das
#ontin(ên#ias de G.,., H qual ela d8 o nome de liberdade, e a revolta ne#ess8ria a dei"ar
evidente a liberdade J#ons#iên#iaK da #on#ep!ão de mundo de Cartre.
5omo Lltimo refL(io, o homem sartriano tem sempre o direito de resistir em
#ons#iên#ia. Este homem sofre pelo seu inalien8vel distan#iamento do mundo. Pelo mesmo
1.=
C23A3E, T.P. A 48usea. 3io de TaneiroU 3e#ord, 1--E, p.1;-.
1.D
distan#iamento, tem abri(ado seu direito de es#olha & sua liberdade, poder de es#olher, não
pode ser afetada pelo mundo. )este #onte"to, a n8usea em Cartre é a per#ep!ão #ons#iente
do mundo que e"iste sem uma inten!ão Jseja moral, seja estéti#a, seja éti#a et#K. Para G.,.,
sua e"periên#ia #om a barata também apresenta a #ontin(ên#ia do mundo, mas, em vez de
a #ons#iên#ia ainda (uardar autonomia JliberdadeK, a per#ep!ão de G.,. é provo#ada por
determina!ão e"terna. )esse momento de revela!ão m$sti#a, a #ons#iên#ia da persona(em
é um olho que vê mas não es#olhe. 4ora deste espa!o&tempo de revela!ão, pou#o ou nada
desta e"periên#ia é ra#ionaliz8vel, formaliz8vel. 3esta o mistério informe, a intui!ão que
nun#a é palavra, que talvez Jnun#a é poss$vel ter #ertezaK, no te"to, seja entrelinha. )ão é
um Eu #ons#iente que se afirma, mas um Eu que some.
Para bus#ar o Eu, o Wmim de mimW verdadeiro e essen#ial, +artim anula
e destrSi o Outro, sua esposa. Porém, fra#assado, retorna ao mundo
#li#herizado dos outros. G.,. per#ebe, diferentemente, ser ne#ess8rio
matar o WeuW para al#an!ar o Eu* somente #om a despersonaliza!ão & a
Wviolenta!ão de nSs mesmosW que #onduz H indiferen#ia!ão das
e"istên#ias & atin(ir&se&ia o Cer.
1.?
Para 3oquetin, a revela!ão da #ontin(ên#ia se #onfi(ura, depois, em afirma!ão de
sua liberdade, j8 que nenhuma lei e"iste antes de sua prSpria es#olha. Para G.,., de outro
modo, a revela!ão da #ontin(ên#ia, que a toma sem que ela es#olha e sem muito se
anun#iar Jde modo semelhante H n8usea sartrianaK, não se afasta demais em momento
al(um. )o mundo formalizado em livro por Cartre, os abismos es#ondidos são em nLmero
bem menor que no mundo de G.,. ou de al(uns outros persona(ens de 5lari#e 'ispe#tor.
O lu(ar de fala dos narradores #lari#eanos é sempre prS"imo de abismos onde nenhuma
or(aniza!ão e"iste. ,8 um dia(nSsti#o semelhante do mundoU o homem livre inserido
numa dinRmi#a de mundo sem inten!Fes a#ess$veis. +as Cartre opta por #on#entrar&se na
liberdade e em suas prSprias inten!Fes. 2 5lari#e 'ispe#tor de PCG, mais a#eita al(umas
determina!Fes do mundo.
1.?
+23A>)C, G. op. cit., p.1?@.
Essa #ita!ão su(ere que o sujeito possa violentar&se e atin(ir o Cer pelo #aminho da es#olha. G.,.
não é tão positiva a respeito disso. 2 indiferen#ia!ão se daria por afe#!ão JpassivamenteK, não por es#olha. 2
bus#a não leva H epifania.
1.<
Con$%d#r!ç?#$ 9%n!%$ !nt#$ do $%&'n(%o
)o primeiro #ontato, eu não entendi o livro. )em muitas per(untas eu tinha sobre
ele. 4oi depois que apare#eram as dLvidas, se a e"periên#ia de G.,. tinha produzido
mudan!a na persona(em, feito #om que ela fosse si(nifi#ativamente diferente, ou apenas
diferente* se suas tentativas de dizer a e"periên#ia teriam servido apenas para que ela se
livrasse do in#Vmodo do informe ou se teriam servido para #riar novos moldes para
re#ortar a vida. 5omo para todas as questFes em A Paixão segundo G.H., ainda que eu
dissesse sim para al(uma op!ão de resposta, teria que dizer não em se(uida. Porque é desse
jeito.
+esmo a alternRn#ia de sins e nãos, que pode ser dita #onstante em todo o livro, se
ne(a porque o livro a#aba, em al(um lu(ar h8 silên#io, que é o oposto do livro. E não h8
silên#io, porque esse silên#io a que me refiro é j8 uma idéia de silên#io, uma #onstru!ão
ne(ativa. O silên#io é o que se diz dele, ou o que não se diz dele, dizendo outra #oisa.
2preendido, não é mais silên#io.
Bissolver a forma é então simula!ão de informe. E é pre#iso depois dissolver a
idéia de informe, e depois a idéia de dissolver, e depois a de idéia, e a de depois. Cim não
sim não. E, muito antes, a idéia de roman#e, que enquanto reproduzir modelos não ser8 o
no"o que poderia soar #omo e"periên#ia e não reprodu!ão a quem o lesse.
O enun#iado de G.,. preo#upa&se #om o dizer mais que #om os #onteLdos e fatos
ditos. X para pVr em evidên#ia a prisão que é a lin(ua(em que ela fin(e fu(ir da prisão o
tempo todo para depois re#onhe#er que talvez não tenha fu(ido mesmo. +esmo as vias
rom?ntica e m2stica, propostas por 0enedito )unes, sS são vias por serem forma. E se os
motivos humanos e os motivos do mundo não são o que se diz deles mas, talvez, a
tentativa de perdurar, a sobrevivên#ia da espé#ie e do indiv$duo, isso ainda é forma, é
modo de ver o mundo, os animais e o homem. Enquanto houver uma e"pli#a!ão, essa não
é o mundo.
O ritmo da palavra dita ainda é forma e, se a#hamos que entendemos al(uma #oisa,
mesmo o ritmo, perdemos a #oisa e sS o que temos é #onstru!ão. E se h8 al(uma #oisa
além desse modo de e"istir, é al(o que não a entrelinha, que j8 é idéia de entrelinha. X al(o
que es#apa e, dif$#il de entender, a (ente Hs vezes ainda #rê na sua e"istên#ia.
1.=
2 liberdade bus#ada numa forma menos fSssil e mais fluida é tão palavra quanto a
liberdade de não pre#isar es#olher. O modo de o homem ser espe#ifi#amente humano pode
ser tanto e"pressão de uma liberdade #omo de uma imposi!ão do mundo. Essa dLvida se
afirma tanto no enun#iado de G.,. que a impede de dizer muito mais que o silên#io. 2o
mesmo tempo, para ne(ar o sim anterior, o não&dizer, G.,. diz.
Bo lu(ar de fala de G.,., não é poss$vel es#olher revolu!Fes #oletivas. Aalvez
paralisa!Fes #oletivas. G.,., se per#ebesse al(uma vez ser pres#ritiva, pres#reveria lo(o
um #ontr8rio, ou um nada. Es#olhe, no m8"imo, a #or do prSprio vestido e um lu(ar onde
passar8 a noite. O espa!o e o tempo presentes não permitem maior e"pansão. 2 desistên#ia
#omo prêmio é fazer um sim pou#o maior, que dure uma noite talvez, antes do prS"imo
não.
1.?
BIBLIO@RA)IA
A 3e#omendo, para biblio(rafia mais e"tensa e an8lise da fortuna #r$ti#a d`A Paixão
segundo G.H.U
2+232', Em$lia. O -eitor segundo G.H. 5otiaQCPU 2teliê, ;..=.
D# C&!r%(# L%$#(tor
A Bescoberta d o mundo. 3io de TaneiroU 3o##o, 1---.
A Hora da estrela. 3io de TaneiroU 3o##o, 1--@.
A -egião estrangeira. 3io de TaneiroU 3o##o, 1---.
A Aaçã no escuro. 3io de TaneiroU 3o##o, 1---.
A Paixão segundo G.H. 3io de TaneiroU 3o##o, 1--@.
&gua "i"a. 3io de TaneiroU 3o##o, 1---.
elicidade clandestina. 3io de TaneiroU 3o##o, 1---.
-aços de *am2lia. 3io de TaneiroU 3o##o, 1---.
So0r# C&!r%(# L%$#(tor
2+232', Em$lia. O -eitor segundo G.H. 5otiaQCPU 2teliê, ;..=.
0O3E''>, Ol(a. 5larice -ispector: esboço para um poss2"el retrato. 3io de TaneiroU )ova
4ronteira, 1-@1.
52)B>BO, 2ntonio. 4o 7aiar de 5larice -ispector. >n :8rios Es#ritos. Cão PauloU Buas
5idades, 1-E..
ggggggggggggggggg. @ma tentati"a de 7eno"ação. >n 0ri(ada 'i(eira. Cão PauloU
+artins, 1-<=.
GOA'>0, ).0. 5larice 1 @ma "ida ;ue se conta. Cão PauloU _ti#a, 1--=.
,2)CE), T.2. WIma estrela de mil pontasW >nU -2ngua e -iteratura J1EK, Cão Paulo, 1-@-,
pp.1.E&1;;.
c2,), B.+. A "ia cr9cis do outro: aspectos da identidade e da alteridade na obra de
5larice -ispector. Cão PauloU 44'5,QICP, ;... Jdisserta!ão de mestradoK.
'>CPE5AO3, 5. A Paixão Segundo G.H. Jed. #r$ti#aK. 3io de TaneiroU I43T, 1--?.
+23A>)C, G.4. As 'igas de um +eroismo "ago: tr>s estudos sobre A Aaçã no escuroC. Cão
PauloU 44'5,QICP, 1--E Jdisserta!ão de mestradoK.
gggggggggg. Alter!c%idades 1 um exerc2cio de escalas !espaço p9blico, modos de
sub<eti"ação e *ormas de sociabilidade na obra de 5larice -ispector%. Cão PauloU
44'5,QICP, 1--E Jtese de doutoradoK.
1.E
)I)EC, 0enedito. O Brama da linguagem: uma leitura de 5larice -ispector. Cão PauloU
_ti#a, 1-@-.
ggggggggggggggg. O Aundo de 5larice -ispector. +anaus, Governo do Estado
2mazonas, 1-??.
ggggggggggggggg. O Aundo Imagin8rio de 5larice -ispector. >nU O Borso do 0igre. Cão
PauloU Perspe#tiva, 1-?- JEnsaiosK.
3OCE)02I+, h. Aetamor*oses do Aal. Cão PauloU Edusp, 1---.
C_, Ol(a de. 5larice -ispector: Processos 5riati"os. Pittsbur(U >beroameri#ana, 1-@<.
ggggggggg. A )scritura de 5larice -ispector. PetrSpolisU :ozes,1-E-.
C2)A`2))2, 2fonso 3omano de. A -eitura de 5larice. 3io de TaneiroU 'ittera, 1-ED.
^2'B+2), 0erta. 5larice -ispector. A Paixão segundo 5larice -ispector. Cão PauloU
0rasiliense, 1-@D.
@#r!&
2BO3)O, A. W'$ri#a e Co#iedadeW, >nU Os Pensadores v. D@. Cão PauloU 2bril 5ultural, 1-@..
ggggggggggg. W2 Posi!ão do narrador no roman#e #ontemporRneo W, >nU Os Pensadores v.
D@. Cão PauloU 2bril 5ultural, 1-@..
2)B32BE, 5.B. W2 +8quina do mundoW >nU 7eunião: 1G li"ros de poesia. 3io de TaneiroU
Tosé Ol6mpio, 1-E?.
23>CAiAE'EC Po=tica. Porto 2le(re, Globo, 1-??.
233>GI55> T3., B. O )scorpião )ncalacrado. Cão PauloU Perspe#tiva, 1--=.
0E3GCO), ,enri A Intuição ilos/*ica. 'isboa, 5olibri, 1--<.
0O3GEC, T.'. WO CulW >nUicç.es. GloboU 3io de Taneiro, 1-@<.
ggggggggggg . WO 2lephW >nU O Alep+. GloboU Porto 2le(re, 1-ED.
5233>e3E, T.5. A -inguagem secreta do cinema. 3io de TaneiroU )ova 4ronteira, 1--=.
5O3A_723, Tulio Obra 5r2tica JD volumesK. 3io de TaneiroU 5iviliza!ão 0rasileira, 1--@.
gggggggggggg. 6esti8rio. )ova 4ronteira, 1-@?.
1.@
gggggggggggg. O Dogo da Amarelin+a. 3io de TaneiroU 5iviliza!ão 0rasileira, 1---.
gggggggggggg. Prosa do Obser"at/rio. Cão PauloU Perspe#tiva, 1-E<.
gggggggggggg. 'alise de 5ron/pio. Cão Paulo, Perspe#tiva, 1-E<.
BOCAO>E:Cc>, 4. 5rime e 5astigo. Cão PauloU Editora D<, ;..1.
4O3CAE3, E.+. Aspectos do 7omance. Porto 2le(re, Globo, 1-?-.
43EIB, C. WO porvir de uma ilusãoW >nU Os Pensadores: reud !".#$%. Cão PauloU 2bril
5ultural, 1-E@.
gggggggggg WO +al&estar na #iviliza!ãoW >nU Os Pensadores: reud !".#$%. Cão PauloU
2bril 5ultural, 1-E@.
,E>BEGGE3, +. WAempo e CerW, >nU Os Pensadores. Cão PauloU 2bril 5ultural, 1-@..
c24c2, 4. A Aetamor*ose. Cão PauloU 5ompanhia das 'etras, ;....
+2)), Ahomas. “2 2rte do roman#e% >nU )nsaios. Cão PauloU Perspe#tiva , ;....
+E'O )EAO, T.5. Agrestes. 3io de TaneiroU nova 4ronteira, 1-@=.
+E)B>'O^, 2.2. O 0empo e o 7omance. Cão Paulo, 5ultri"QEBICP, 1-E<.
P2CA2 T3., T.2. WO 3oman#e de 3osa & temas do Grande sertão e do 0rasilW. >nU 4o"os
)studos 1 5)67AP n.==, nov. 1---, pp.?1&E..
P27, O. O Arco e a lira. 3io de TaneiroU )ova 4ronteira, 1-@;.
3OCE)4E'B, 2natol W3efle"Fes sobre o roman#e modernoW. >nU AextoH5ontexto. Cão Paulo,
Perspe#tiva, 1-E1.
C23A3E, Tean&Paul. A 48usea. 3io de TaneiroQCão PauloU 3e#ordQ2tala6a, 1--E.
ggggggggggggg. Iue = -iteratura. Cão PauloU _ti#a, 1---.
ggggggggggggg. O Cer e o )ada. PetrSpolisU :ozes, ;....
^>AAGE)CAE>), '. In"estigaç.es ilos/*icas. Cão PauloU 2bril 5ultural, 1-@<.
^>AAGE)CAE>), '. 0ractatus -ogico1P+ilosop+icus. Cão PauloU )a#ional, 1-?@.
1.-