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CoMPANHIA DAS LETRAS
E. P . Thompson
Costumes
em comum
ESTU DOS SOB RE A
CU LTU RA POPU LAR
TRADICIONAL
Até poucos anos atrás amemória histórica da venda deesposas naInglater-
raseria mais bem descrita como amnésia. Quem iria querer lembrar práticas tão
bárbaras? Por volta da década de 1850, quase todos os comentadores admitiam
a visão de que a prática era a) extremamente rara, e b) totalmente ofensiva à
moralidade (embora, de forma asejustificar, alguns folcloristas começassem a
brincar com anoção de resíduos pagãos).
O tom do The book of days (1878) de Chambers érepresentativo. O quadro
"ésimplesmente um atentado à decência [...). Só pode ser considerado como
prova da ignorância apatetada e dos sentimentos brutais de parte de nossa po-
pulação rural". E o mais importante era repudiar edenunciar aprática, porque
os "vizinhos continentais" da Grã-B retanha tinham notado os "casos fortuitos
devenda de esposas", e"acreditam seriamente que éum hábito de todas as clas-
ses de nosso povo, citando-o constantemente como evidência de nossa civiliza-
ção inferior".' Com sua habitual frivolidade rancorosa, os franceses eram os
mais agressivos aesse respeito: milorde J ohn B ull' era representado, de botas e
esporas, no mercado de Smithfield, gritando "àquinze livres mafemmel" [mi-
nha mulher por quinze libras I), enquanto a senhora, presa por uma corda, se
mantinha de pé num pequeno cercado.'
The book of days conseguiu reunir apenas oito casos, entre 18'15e 1839, e
esses casos, junto com mais três ou quatro, foram postos em circulação, sem
maiores investigações, por meio de relatos dejornais ou de antiquários durante
cinqüenta anos ou mais. À medida que crescia o esclareciInento, acuriosidade
diminuía. Na primeira metade deste século, a memória histórica geralmente se
satisfazia comreferências fortuitas insignificantes emdescrições populares dos
costumes dopovo noséculo xvu!. Essas eramcomumente oferecidas como um
elemento colorido dentrodeumaliturgiaantitéticaquecontrastava aculturaani-
malesca dos pobres (Gin Lane, Tyburn" andMother Proctor's Pews [avida do
gim, cadafalso deTybumeos bancos damadre inspetora], aprática deaçular
cãescontratouros, osrojões atados emanimais, opugilismo combotaspregadas
nochão, ascorridas nuas, asvendas deesposas) comqualquer forma esclareci-
daquesupostamente asteriasubstituído. J
Contra esse fundo de indiferença, umapoderosa influência seafirmou: a
reconstrução cuidadosa da venda de uma esposa, num contexto humano
verossímil, assumindo umlugar significativo naestrutura doenredo deumro-
mance importante, The mayor of Casterbridge. Thomas Hardy foi umobser-
vador extremamente perspicaz doscostumes populares, eraramente seutraço é
mais seguro doquenesseromance. Mas noepisódio emqueMichael Henchard
vendesuaesposaSusannumafeiradebeiradeestrada aummarinheiro quepas-
sava, Hardy nãopareceter seapoiado naobservação (nemnatradição oral dire-
ta), mas emfontes jornalísticas. Essas fontes (como veremos) são geralmente
enigmáticas eopacas. Eoepisódio, assimcomoestádelineado noromance, com
suaorigem aparentemente casual esuaexpressão brutal, não seajusta às evi-
dências mais "típicas". O leilão deSusan Henchard não temcaracterísticas ri-
tuais; o comprador aparece fortuitamente e faz sua oferta no impulso do
momento. Hardy consegue reconstruir o episódio edesvendar as suas conse-
qüências deforma admirável, aoapresentar oconsenso popular geral quanto à
legitimidade datransação equanto aseucaráter irrevogável- umaconvicção
certamente partilhada por Susan Henchard' Mas, emúltimaanálise, aapresen-
taçãodeHardy aindarecaíanomesmo estereótipo doThe book of days. "Demi-
nha parte", diz o bêbado Henchard, "não vejo por que os homens que têm
mulheres ejá não as querem não deveriam se ver livres delas, como esses
ciganos fazemcomoscavalos velhos [...]. Por que não deveriamoferecê-Ias e
vendê-Ias emleilão ahomens queestão precisando dessetipodeartigo?"
O pressuposto subjacenteaambososrelatoséqueavendadaesposaerauma
compradiretadeumbem. E umavezestabelecido oestereótipo, édemasiado fá-
cil interpretar aevidênciapor meiodoclichê. Pode-seentãoadmitir queaesposa
eraleiloada como umanimal ou mercadoria, talvez contra asuavontade, seja
porqueomaridoqueriaseverlivredela, sejapormotivospuramente mercenários.
Como tal, ocostumedesautorizavaqualquer exameescrupuloso. Podiaser toma-
(11) Tybum foi, até 1783, o principal local de execuções públicas emLondres. "Gin Lane",
quadro deW. Hoganh (1697-1764) representando adegradação dos pobres alcoolizados pelo gim
queincentivou aaprovação doGinActem 175I, taxando abebida para inibir seuconsumo. (N. R.)
docomo umexemplo melancólico deabjeta opressão feminina, oucomo ilus-
traçãodaleviandadecomqueoshomens pobres consideravamocasamento.
Mas éesseestereótipo - enão ofato dequeasesposas eramocasional-
mente vendidas - querequer investigação. Dequalquer modo, parecia acon-
selhável coletar alguns dados antes de apresentar explicações seguras. Na
década de1960, commuita ajudadeamigos ecorrespondentes, comecei afor-
mar arquivos sobreasvendas "rituais" nos séculos XVIII eXIX; enofinal dadé-
cada de 1960edurante toda adécada de 1970, infligi esboços destecapítulo a
muitas audiências naGrã-B retanha enosEstados U nidos. Em1977,já tinhauns
trezentos casos em minhas fichas, embora pelo menos cinqüenta sejam
'demasiado vagos ou dovidosos para serem tomados como evidência. Nesse
meio tempo, adiava apublicação de minhas conclusões, embora elas fossem
sucintamente relatadas no trabalho deoutros pesquisadores.' Novo adiamento
fez comqueminhapesquisa setornasse ultrapassada, poisem1981foi publica-
doumvolumesubstancial, Wivesfor saZe [Esposas àvenda], escrito por Samuel
Pyeatt Menefee.
O estudo etnográfico dosI. Menefee foi realizado como dissertação junto
ao Departamento deAntropologia Social naU niversidade de Oxford, eo as-
sunto talvez tenha chegado ao conhecimento desse departamento quando dei
umapalestra sobreotemanumdeseusseminários, Nãopodiareivindicar direi-
tosautorais sobreotópico, enarealidade aminha intenção foradespertar oin-
teresse histórico e antropológico. Ainda assim, minha primeira reação foi
considerar quemeutrabalho setornara redundante pelaação deterceiros. O sr.
Menefee investigara o tema comgrande diligência; pesquisara emmuitas bi-
bliotecas erepartições deregistros civis; reunira material muito curioso eàs
vezesrelevante; eultrapassara minhaspróprias contas, comumapêndicede387
casos. Alémdisso, elepartilhava minharedefinição doritual aodaraseuvolume
osubtítulo "U mestudo etnográfico do divórcio popular britânico". Comum
pouco detristeza - pois otemamepreocupara por alguns anos- deixei meu
ensaio delado.
Retomo agora o estudo, apresentando-o tardiamente ao público, porque
nãoacho afinal queosr. Menefee eeutenhamos nosrepetido, nemqueasnos-
sas investigações sereportem às mesmas questões. O sI. Menefee escreveu o
textocomoaprendiz deetnógrafo, eseuconhecimento dahistóriasocial britâni-
caedesuas disciplinas erabásico. Por isso, tinhapouco discernimento docon-
texto social, poucos critérios para distinguir entre ae~idência confiável ea
adulterada, eseus exemplos fascinantes aparecem no meio deumamistura de
material irrelevante einterpretações contraditórias. Seu livro émuito meticu-
loso ecuidadosamente documentado, aoque devemos agradecer, mas elenão
podeser tomado como apalavra final sobreavendadasesposas.
o ritual talvez tenha interesse apenas marginal, epouca relevância geral
paraocomportamento sexual ouasnormas conjugais. Abreapenas umapeque-
najanela paraessas questões. Entretanto, nãohámuitas dessasjanelas, enunca
teremos umavisãopanorâmica atéquetodas ascortinas sejamabertas easpers-
pectivas secruzem. Dessa evidência fragmentária eenigmática, devemos ex-
trair todas as percepções possíveis sobre as normas easensibilidade de uma
culturaperdida, bemcomo sobre ascrises internas aos pobres.
Asevidências quantitativas arespeito davendadeesposas esuafreqüên-
cia são, sob muitos aspectos, as menos satisfatórias aserem oferecidas neste
capítulo, por issocomeçaremos por elas. Coletei cercadetrezentos casos, den-
treos quais rejeitei cinqüenta por seremduvidosos. Menefee lista 387 casos,
mas esse número inclui muitos casos vagos eduvidosos, freqüente contagem
dupladomesmo caso, ecasos quenãosãovendas rituais "verdadeiras". Vamos
dizer quetenho 250 casos autênticos, equeMenefee temtrezentos. Mas cerca
de 150casos aparecem emambas aslistas - casos coligidos emfontes evi-
dentes como Notes and Queries, osarquivos doThe Times, compilações defol-
cloreetc. Portanto, j untoscoletamos unsquatrocentos exemplos.
Ainda assim, achei necessário podar esse material, especialmente nos
primeiros anos (antes de 1760) enaqueles depois de 1880. A vendaoutrocade
esposa, para serviços domésticos ou sexuais, parece ter ocorrido ocasional-
mente namaioria dos lugares eépocas. Pode ser apenas uma transação aber-
rante, comousempretensa basecontratual- éregistrada, àsvezes, aindahojé
emdia. Infelizmente, alguns dos primeiros exemplos não fornecem quase ne-
nhumaevidência quanto ànatureza daprática. Assim, oregistro deumhistoria-
dor local "baseado numantigo documento relativo aB ilston" - "Novembro de
1692. J ohn, ofilho deNathan Whitehouse, deTipton, vendeu suamulher aosr.
B racegirdle" - podenãopossuir, semoutras evidências, apertinência paraser
contado como umcasodevendaritual deesposa.
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Masalguns dosexemplos pos-
teriores, embora mais bemdocumentados, também apresentam dificuldades.
Assim, em1913, umajovemcasada afirmou numtribunal depequenas contra-
venções de Leeds (num caso de reivindicação de sustento) que o marido a
vendera por umalibraaumcolega detrabalho quemorava naruavizinha. O fi-
lhofoi adotado pelo segundo homem: eleoaceitou por seis semanas, edepois
mandou queelaafogasse acriança. Masessehomemjá eracasado, emais tarde
voltou àsuamulher.
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Seessecaso foi umavendadeesposa, ocostumejáestava
numavançado estado dedecomposição, eapráticaseafastando dousoanterior-
menteaceito.
Há alguns casos antes de 1760edepois de 1880quefornecem melhores
evidências. Mas, para fins decontagem, decidi deixar os casos antes de 1760
parahistoriadores mais bemqualificados parainterpretar aevidência, eignorar
aqueles depois de 1880. Isso me reduziu a218 casos que posso aceitar como
autênticos entre 1760e 1880:
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Vendas de esposas: casos visíveis
1760- 1800 42
1800- 1840 121
1840- 1880 55
Oscasos vieramdetodas asregiões daInglaterra, mas sótenho umcaso daEs-
cócianesseperíodo ebempoucos casos doPaísdeGales. Oscondados comdez
oumaisexemplos são: Derbyshire (10), Devon(12), Kent (10), Lancashire (12),
Lincolnshire (14), Middlesex eLondres (19), Nottinghamshire (13), Stafford-
shire(16), Warwickshire (10), e(bemnotopo databela) Yorkshire(44).
Essesnúmeros mostrampoucacoisa, exceto queapráticacertamente ocor-
ria, eemmuitas regiões daInglaterra. Osnúmeros sãodecasos visíveis, eavisi-
bilidade deve ser considerada empelo menos três sentidos. Primeiro, são
ocorrências cujos vestígios por acaso setornaram claros para mim. Embora
Menefee eeu apresentemos omesmo perfil geral, emcerto sentido ambos de-
pendemos doquechamou aatenção dos folcloristas oudoquefoi registrado pe-
losjornais metropolitanos. Não existem fontes das quais sepossa extrair uma
amostra sistemática, eapenas umapesquisa detalhada nosjornais provincianos
detodas asregiões poderia pretender criar tal amostra.
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Segundo, havia ocor-
rências quetinhamdeadquirir umacertanotoriedade paradeixar algumtipode
vestígio nosregistros. U mavenda ritual napraçadomercado deumacidadere-
lativamente grande poderia ter esseefeito, mas tal não aconteceria necessaria-
mentecomumavendaprivada numataverna, anãoser quefosseacompanhada
dealguma circunstância inusitada. Como asegunda forma eraapreferida em
alguns distritos, egeralmente substituiu aprimeira forma depois de 1830ou
1840, nãoháesperança derecuperar quantidades precisas.
Maséavisibilidade numterceiro sentido aquetemmaisimportância, aque
oferece restrições mais amplas aquaisquer quantificações, eaque ilustra ana-
turezaescorregadia dasevidências comquedevemos lidar. Poisquando foi que
avendadeesposas setornou visível aumpúblico refinado oudeclassemédia,
sendo assimdignadeuma notanaimprensa? A resposta d~veestar relacionada
commudanças indistintas naconsciência social, nospadrões morais enosvalo-
resdasnotícias. A prática setornou temadereportagem ecomentários mais fre-
qüentes noinício doséculo XIX. Durante grandepartedoséculo XVU I, porém, os
jornais não seprestavam aveicular comentários sociais ou domésticos desse
tipo. Háboasrazões parasesupor queasvendasdeesposas fossemamplamente
praticadas bemantes de 1790. O costume foi pouco noticiado, porque não era
considerado digno deregistro, amenos que alguma circunstância adicional
(cômica, dramática, trágica, escandalosa) lheconferisse interesse. Essesilêncio
pode ter acontecido por vários motivos: ignorância polida (adistância entre a
cultura do público dejornais eados pobres), indiferença a umcostume tão
comumquenãoexigiacomentários, ouaversão. Asvendasdeesposas tornaram-
sedignas demenção naimprensajunto comoreflorescimento evangélico, que,
ao elevar o limiar da tolerância da classe média, redefiniu uma questão de
"ignorância" popular como umaquestão deescândalo público.
Isso temconseqüências infelizes. Pois embora aprática seja às vezes re-
latada depois de 1790como comédia oucaso deinteresse humano, émais fre-
qüentemente noticiada numtomde desaprovação moral tão forte aponto de
obliterar aquelaevidênciaquesóaobjetividadepoderiaterproduzido. Asvendas
deesposas mostravamqueum"sistema decomércio decarnehumana" nãoesta-
va"confinado àspraiasdaÁfrica"; acordaqueprendia aesposapoderiasermais
bemempregada paraenforcar ouchicotear aspartesinteressadas natransação; e
(comumente) era "uma cena muito desagradável evergonhosa" (Smithfield,
1832), "umadessas cenas revoltantes quesãoumadesgraça paraasociedade ci-
vilizada" (Norwich, 1823), "uma transação indecente edegradante" (York,
1820). O marido quevendiaaesposa era"umanimal emformahumana" (Not-
tingham, 1844), eaprópriaesposaerauma"vagabunda desavergonhada", ouob-
jeto depiedade sentimental.
Isso dificulta ainvestigação. U mcômputo por década dos casos visív.eis
entre1800e1860revela: 1800-9,22; 1810-9,32; 1820-9,33; 1830-9,47; 1840-9,
22; 1850-9, 14.
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Setraçado numgráfico, essecômputo mostrari;l umacurvaas-
cendente devendas, atingindo oclímax noinício dadécada de 1830(noveven-
das em1833) edepois caindo abruptamente. Mas umgráfico das vendas reais
poderia secontrapor aumgráfico das vendas visíveis. Pois esse último não re-
velaas vendas, mas aafronta moral provocada pelas vendas. Essa afronta era
acompanhada deumacrescente açãocontraasvendas por partedemagistrados,
policiais, funcionários do mercado emoralistas. Era também associada auma
corrente cada vez mais fortededesaprovação no âmbito daprópria cultura po-
pular, alimentada por fontes evangélicas, racionalistas eradicais ousindicais. É
bempossível queasvendas reais tenhamatingido oclímax emalgumponto no
século XVIIl oubemnoinício do século XIX, eapublicidade dadaàsvendas en-
tre1820e1850podeter revelado resíduos tardios eumtantoenvergonhados de
uma prática já emdeclínio. Essa publicidade, por sua vez, pode ter ajudado a
expulsar avenda deesposas dapraça do mercado, fazendo comque aprática
adotasse formas mais discretas.
Algumas evidências literárias confirmam essa sugestão. Assim háuma
claradescrição devenda ritual daesposa, comleilão público ecomentrega da
mulher presa por uma corda, numtratado legal primoroso sobre The laws res-
pecting women as they regard their natural rights [Asleis concementes àsmu-
lheresnoquediz respeito aseusdireitos naturais], publicado em1777. Nemeu,
nemMenefee temos muitos casos antes de1777queindiquem claramente uma
vendaritual, masoautor dessetratado nãoteriamotivos parainventar aquestão.
Emseu Observations on popular antiquities [Observações sobre antiguidades
populares], J ohn B rand também relata aprática emtermos que sugerem resí-
duos deuma tradição mais vigorosa: "U ma superstição extraordinária ainda
prevalece entre os mais baixos dentre os vulgares, adeque umhomem pode
vender legalmente asuamulher para outro, desde queeleaentregue comuma
corda ao redor do pescoço"." Combase nessas referências, poderíamos supor
que avenda ritual daesposa eralugar-comum em1777, dificilmente digna de
comentário, e que assim o fora por um século ou mais. Acho tal coisa im-
provável, eo tomdos relatos naimprensa sugere uma evolução diferente. As-
sim, umcasodeOxford em1789éregistrado como "omodo vulgar dedivórcio
adotado ultimamente"; em1790, umrelato deDerbyshire falavadaentrega da
mulher presanumacorda"naforma habitual quetemsidopraticada nosúltimos
tempos", enomesmo anojornais deDerby eB irmingham acharamnecessário
observar que, "como casos de venda de esposas vinham ocorrendo comfre-
qüência entre aclasse mais baixa do povo", essas vendas eram"ilegais esem
efeito"." Isso poderia sugerir que avenda deesposas, nasua·.f()[maritual do
leilão napraçadomercado edamulher presapor umacorda, embora difundida
emalgumas regiões do país, estava em 1777apenas lentamente seespalhando
paraoutras regiões." Por voltadadécada de 1800, osjornais sereferemaven-
das "no estilo habitual" ea"cenas vergonhosas queultimamente têmsetorna-
docomuns" .'. Mas aevidência arespeito dessa evolução éincerta, eaquestão
deveficar emaberto.
É sempre incerto seos casos relatados são aponta deumiceberg ou um
índice verdadeiro defreqüência." Emqualquer momento antes de1790-1830, a
visibilidade nãopodesertomadacomo indicador danaturezaexcepcional doca-
so. Quando em1819opároco deClipsham emRutland acusou umparoquiano
de comprar aesposa, observou-se que "o comprador feti escolhido para ser
punido por ser omais rico eomais apropriado para servir deexemplo" - mas
Clipsham naquela época tinha apenas 33casas e173habitantes. '6 Nasdécadas
de1830e1840, entretanto, hámais sugestões dequeoscasos visíveiseramcon-
siderados inusitados ouresíduos decostumes antigos. Em1839, umavendaem
Witney foi vista como "uma dessas ocorrências vergonhosas, felizmente pouco
[...] freqüentes"; enquanto uma venda em B ridlington no ano anterior foi com-
parada a "uma transação semelhante" ocorrida na mesma cidade dez anos
antes.
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O consenso da opinião esclarecida na metade do século XIX era o de que a
prática existia apenas entre os estratos mais inferiores dos trabalhadores, espe-
cialmente nas zonas rurais mais afastadas: como B rand dissera, "os mais baixos
dentre os vulgares". Isso pode ser verificado pelas ocupações atribuídas ao mari-
do ou ao comprador naminha amostra. Embora anatureza dos relatos não garan-
ta precisão de informações, são atribuídas ocupações em 158 casos:
Vendas de esposas: ocupações atribuídas ao marido ou ao comprador
l5Trabalhadores
8Mineiros decarvão (incluindo osmineiros eostrabalhadores nospoços das mi-
nas)
7Operários emescavações (incluindo osqueconstruíam valasediques)
6Cocheiros (incluindo postilhões ecavalariços)
5Ferreiros; agricultores; trabalhadores dafazenda ou"homens docampo"; sapa-
teiros; soldados; alfaiates
4Limpadores dechaminé; jardineiros
3Assentadores de tijolo; fabricantes de tijolo; açougueiros; carpinteiros ou
marceneiros; operários dafábrica; negociantes decavalos ougado; fabricantes
depregos; latoeiros
2Padeiros; escreventes; condutores deburros; lixeiros; cavalheiros; invernadores
degado; moleiros; trabalhadores emferro; marinheiros; fabricantes demalhas;
barqueiros; tecelões
iFabricante decestas; vendedor ambulante decobertores; fabricante decalças;
botoeiro; carroceiro; limpador decinzas; fabricante de lã; carvoeiro; cavador;
peleiro; vendedor ambulante de bolo de gengibre; chapeleiro; vendedor de
feno; condutor de porcos; acendedor de lampiões; pedreiro; fabricante de
colchões; funcionário; pintor; taverneiro; mercador de trapos; carregador de
areia; serrador; aceiro; cortador depedra; cortador depalha; negociante; guar-
daflorestal
Designados antes pelo cargo, situação devidaetc., doque pelaocupação: mendi-
gos (2); pensionistas (2); recém-chegados doexílio (2); caçador ilegal (I);eHen-
ry B rydges, 2"duque deChandos.
Deve-se acrescentar aessas sugestões gerais (mas imprecisas) que a venda de
esposas era predominante entre certos grupos ocupacionais, como operários de
ferrovias, barqueiros, funileiros ambulantes ou viajantes. Mas ocupações
altamente picarescas, com grande mobilidade emuitos acasos dasorte, parecem
ter encorajado - como acontece com os marinheiros eos soldados - notações
diferentes de"casamento", queeravisto por ambos oslados como umarranjo
mais transitório.
Essa tabela deocupações traz poucas surpresas (àexceção do duque de
Chandos)." Há umgrande grupo (19) envolvido de alguma maneira como
comércio de gado etransporte, freqüentadores provavelmente assíduos dos
mercados degado. Outro grupo (14) vemdos ofícios deconstrução, queparti-
lhavacomostrabalhadores emescavações umagrandemobilidade. Osrestantes
sãoos destatus social mais elevado. Dos dois reputados cavalheiros, umcom-
prou amulher deumfabricante delãemMidsomer Norton, Somerset, por seis
guinéus em1766; nãoémencionado nenhumritual público, avendafoi porcon-
trato particular, e, pelas declarações daesposa, elanão foi consultada (ver p.
249-50). No outro caso, emPlymouth em1822, ocavalheiro eraomarido eo
vendedor daesposa: voltaremos aessecaso inusitadamente bemdocumentado
(pp. 253-4). Ainda outro caso, emSmithfield em1815, chamou aatenção pre-
cisamente por causa dariqueza estatus das partes envolvidas: omarido erain-
vernador degado, ocomprador um"famoso negociante decavalos", opreço da
compraeraelevado (cinqüenta guinéus e"umcavalovaliosoqueserviademon-
taria ao comprador"), e"adama (o objeto da venda), jovem, bela eelegante-
mente vestida, foi levada ao mercado numa carruagem, eexposta aos olhos do
comprador comumacorda desedaaoredor dosombros, queestavamcobertos
por umrico véu de renda branca". Observou-se na imprensa emtomde re-
provação que"atéentãosóvíamos aqueles quepertencemàsclasses maisbaixas
dasociedade degradando-se dessejeito" .'9
O perfil ocupacional sugerido por essaamostra nãoéodosofícios deluxo,
nemodosartesãos qualificados, masoda culturaplebéiamaisantigaqueospre-
cedeuepor muito tempo comelescoexistiu. Ostrabalhadores naindústria pro-
dutoradefibratêxtil, tecidos, estãobempouco representados; emboraYorkshire
forneça mais exemplos do que qualquer outro condado, Yorkshire apresenta
mineiros decarvão eofícios nãoqualificados, mas nenhumtosquiador oucar-
dador,eapenas dois tecelões. Háferreiros naamostra, mas nenhumengenheiro
oufabricante deinstrumentos; háoperários emescavações, mas nenhum tra-
balhador do estaleiro; eapenas três trabalhadores demoinho ou operários de
fábrica. Por seremcasadas, asmulheres sãodescritas pelasuaaparência, com-
portamento ou suposta conduta moral, mas muito raramente pela ocupação.
Mas sabemos que havia duas empregadas de minas; pelo menos duas eram
mendigas, vendidas para poupar as taxas assistenciais daparóquia; uma era
operária defábrica, eoutrafazianovelos numafiação. '
Seriavão (por razões quesetornarão evidentes) quantificar aelevação ou
aqueda dopreço dasesposas. Notopo dalista(umcasoinsatisfatório), umcar-
voeiro deWolverhampton, em1865, teriasupostamente vendido aesposa para
ummarinheiro americano por cem libras, mais 2S libras por cada uma das duas
crianças.'" No outro extremo, as esposas eram entregues de graça ou por um
copo de cerveja; o valor mais baixo negociado foi três farthings. Talvez o preço
médio estivesse na faixa de dois xelins e seis pence a cinco xelins, embora
muitos exemplos fiquem acima ou abaixo desse valor. Mas o marido freqüente-
mente exigia uma tigela de ponche ou um galão de cerveja além do preço da
compra, e às vezes algum outro artigo - um relógio de pulso, uma peça de
roupa, uma porção de tabaco. U m condutor de burros de Westminster vendeu a
esposa para outro condutor por treze xelins eum burro. Num caso muito citado
emCarlisle (1832), umagricultor, que arrendava 42 acres, vendeu aesposa para
um pensionista por vinte xelins eum grande cachorro terra-nova. Ele retirou do
pescoço da mulher a corda de palha com que a conduzira ao mercado, e colo-
cando-a ao redor do pescoço de sua nova aquisição, dirigiu-se à tavema mais
próxima."
Isso ébom para aqueles que gostam de fofocas quantitativas, mas devemos
agora empreender trabalho sério equestionar: qual éo significado da forma de
comportamento que tentamos calcular? O material aparece na imprensa com
bastante freqüência, de forma abreviada ou de vez em quando sensacionalista,
opaca à investigação. A notícia pode ser brevíssima: "Na terça-feira, 2S de
fevereiro, um certo Hudson levou a sua mulher para o mercado de Stafford e
vendeu-a em leilão público, depois de muitas ofertas, por cinco xelins e cinco
pence".22 "U m sujeito chamado J ackson vendeu a sua mulher por dez xelins t<
seis pence em Retford, semana passada, no mercado público."2] Ou anotícia po-
dia ter um tom mais jocoso:
Segunda-feira passada, J onathan Heard,jardineiro emWitham, vendeu amulher e
ofilho, uma aveeonze porcos, por seis guinéus, para umassentador detijolos da
mesma localidade. Hoje ele os pediu de voltaeos recebeu de braços abertos no
meio deumaenorme multidão. Os mais beminformados acham queoassentador
detijolos fez umpéssimo negócio."
Ou a notícia podia ser bem mais completa. Em 1841, o Derby Mercury
descreveu uma "cena vergonhosa" no mercado de Stafford:
U mtrabalhador dehábitos vadios edissolutos chamado Rodney Hall, domicilia-
do emDunstone Heath, perto dePenkbridge, conduziu sua mulher para acidade
comumacorda presaaoredor deseucorpo, comoobjetivo devendê-Ia nomerca-
dopúblico aquemfizesse amelhor oferta. Depois delevá-Iaaomercado epagar o
imposto, eleafez desfilar duas vezes pela praça, quando veio aoseu encontro um
homemchamado B arlow, domesmo tipodevida, queacomprou por dezoito pence
eumaquarta decerveja, eela foi formalmente entregue ao comprador. As partes
foramentão aoB lue Post Innpara ratificar atransferência [...]."
Outro exemplo diz respeito aB arton-upon- Humber (Lincolnshire), 1847:
Naquarta-feira [...], oapregoador anunciou queaesposa deGeo. Wray, deB anow
[...], seria leiloada napraçadomercado deB arton àsonzehoras; [...] pontualmente
nahora marcada ocomerciante apareceu comadama, esta tendo umacorda nova
atada ao redor dacintura. Entre os gritos dos espectadores, o artigo foi posto em
leilãoe [...] anematadoporWm. Harwood, barqueiro, pelasomade umxelim, com
devolução detrês meio pence "para dar sorte". Harwood saiudebraços dados com
suasorridente aquisição, tão tranqüilo como setivessecomprado umnovocasaco
ouchapéu."
Esse é em geral todo o material que temos. Apenas em poucas vendas -
por exemplo, quando algum caso chega aos tribunais - conseguimos mais in-
formações. Mas o material não ésem valor e, quando examinado, aparecem cer-
tos padrões. A venda de uma esposa não era de modo algum um caso fortuito,
sendo raramente um evento cômico. Era altamente ritualizada: devia ser reali-
zada em público e com um cerimonial estabelecido. É possível que houvesse
duas formas de venda de esposa, preferidas em regiões diferentes do país e
coincidentes em certos pontos, o que confunde o quadro: I) aforma que requer
apublicidade napraça do mercado eouso dacorda; chamo aessa forma de"ver-
dadeira" venda ritual da esposa; 2) aforma que envolve um contrato de venda,
firmado napresença detestemunhas, eumritual abreviado de"entrega" num bar
público. Dentre meus 218 casos, a venda na praça do mercado é indicada em
121, a venda dentro de uma taverna (perante testemunhas) em dez casos, e um
contrato privado (sem menção àJ averna) em cinco casos. A corda é menciona-
da em 108 casos, em geral na praça do mercado, mas de vez em quando dentro
da taverna. Não há evidência quanto à forma (mercado, tavema ou corda) nos
restantes 82 casos.
Na verdadeira venda de esposa, o ritual prescrevia algumas das seguintes
formas, embora houvesse variações regionais e nem todas as formas discutidas
abaixo precisassem ser observadas num caso específico.
a) A venda devia ocorrer numa praça de mercado reconhecida ou outro lo-
cal semelhante de comércio. A antiguidade ou afamiliaridade influenciavam a
escolha. Freqüentemente as partes interessadas se posicionavam diante da anti-
ga"cruz" do mercado ou algum marco importante: emPreston (1817), oobelis-
co; em B olton (1835), o novo "poste do gás". 27 Se avenda ocorria numa grande
vila sem mercado, as partes interessadas executavam acerimônia na frente da
tavema principal ou em qualquer lugar onde em geral ocorriam as transações
públicas. Mas essas vendas nas vilas parecem ter sido raras, eaté emgrandes vi-
Ias as partes interessadas em geral se dirigiam àcidade de mercado, caminhan-
do quilômetros até alcançar seu objetivo."
De vez em quando o cenário da venda era alguma outra praça ou local de
comércio: em Dartmouth (1817), o cais" ou, como no romance de Hardy, uma
feira. A opinião popular tinha dúvidas quanto àlegitimidade dessas transações.
Num confuso caso no mercado de B ath (1833), uma dama "vistosamente traja-
da" epresa por uma corda de seda foi posta àvenda, embora j átivesse sido ven-
dida noutro dia da semana, por dois xelins e seis pence, na feira de Lansdown,
"mas onegócio não fora considerado legal; primeiro, porque avenda não foi fei-
tanum mercado público e, segundo, porque ocomprador já tinha uma esposa". 30
A segunda razão foi provavelmente aque mais pesou, pois certamente ocorriam
vendas de esposas em outras feiras.
ll
b) A venda era às vezes precedida por um anúncio público ou reclame.
Podia-se usar o apregoador ou o sineiro da cidade para dar anotícia, ou o mari-
do podia andar pelo mercado carregando um cartaz com um aviso da pretendi-
da venda. B aring-Gould registra ahistória de um taverneiro de Devonshire que
afixou um-
AVISO
Este épara informar aopúblico queJ ames Coleestádisposto avender suamulher
emleilão. Elaéuma mulher decente elimpa, com25anos. A venda deveocorrer
emNew Inn, napróxima quinta-feira, àssetehoras.'"
A história (e sua ortografia propositadamente cômica) não nos satisfaz, mesmo
que B aring-Gould insistisse em contá-Ia eafirmasse que amulher ainda era vi-
va na época em que redigia seu manuscrito (1908)32 Mas sem dúvida ocorriam
alguns anúncios prévios.
c) A corda era essencial para oritual. A mulher era levada ao mercado pre-
sa por uma corda, em geral amarrada ao redor do pescoço, às vezes ao redor da
cintura. Era geralmente nova efeita de corda mesmo (custava em torno de seis
pence), mas havia cordas de seda, cordas decoradas com fitas, tranças de palha
esimples "tinas que custavam um penny".
O simbolismo dacorda pode ter passado por alguma evolução. O termo de-
cisivo talvez seja "entrega". Alguns dos primeiros relatos sugerem que de vez
em quando o marido eo comprador chegavam primeiro a um acordo de venda
(que poderia ser redigido num documento), eque só então, no dia ou na semana
seguinte, a esposa era publicamente "entregue" ao comprador presa por uma
corda. Num exemplo tardio (Stockport, 1831), temos alorma das palavras es-
(m) NOTICEThis herebetohinformthepublickashowJ amesColebedispozedtoseU hiswife
byAuction.Her beadacent,clanelywoman,andbeof agetwenty-fiveears.Thesalebeto take
placeintheNewInn,ThursdayneXI,atseveno'clock.
critas. omarido firmou umacordo de vender aesposa para umaçougueiro,
B oothMilward: "Eu, B oothMilward, comprei deWilliamClayton asuamulher
por cincoxelins, aser entregue nodia25demarço de1831, presapor umacorda,
nacasadosr.J n. Lomax". O acordo, redigido numacervejaria, erafirmado pelo
marido etrêstestemunhas.
3J
Mas "entregue" aindanãoadquirira osentido casual deentregar mercado-
riasouumamensagem. Antes de 1800, emseuusocomum, significava "liberar,
renunciar inteiramente a, ceder, transferir para aposse ou aguarda deoutro"
(Oxford English dictionary). Assim, entregar alguém preso por uma corda
simbolizava aentrega da esposa à posse de outro, eaimportância do ritual
residia exatamente nademonstração pública deque o marido era umpartici-
pantevoluntário (ouresignado) desseatoderenúncia. Essapublicidade eratam-
bémessencial porquerevelavaoconsentimento daesposa- oudava-lhemeios
derepudiar umcontrato firmado entreomarido eoutro homemsemoconsenti-
mento dela.
Seja qual for o modo eaépoca emque surgiu, no final do século XvII! o
ritual dacorda eraconsiderado emmuitas regiões do país como umelemento
essencial deuma transferência "legal". EmThame, ocorreu arevenda deuma
esposa em1789: umhomem que vendera aesposa dois ou três anos antes por
meioguinéufoi informado pelos vizinhos deque"onegócio nãoeraválido, pois
elanãofoi vendida nomercado público". Por isso, ele"aconduziu setemilhas
puxadapor umacordaatéomercado deThame, ondeavendeupor dois xelinse
seispence, epagou quatro pence de imposto".J4
A esposa podia ser levada ao mercado puxada por umacorda, ouacorda
podia aparecer no momento da venda. (Se a mulher fosse tímida, talvez
preferisse queelafosse amarrada embaixo daroupa, aoredor dacintura, man-
tendo acordadereserva nobolso: quando começava oleilão, omarido segura-
va a ponta da corda.) E um ritual desse tipo tende a gerar seus próprios
refinamentos esuperstições locais. Emalguns casos, achava-senecessário fazer
amulher desfilar pelo mercado onúmero mágico detrês vezes.
J 5
Emoutros ca-
sos, aesposa erapuxada por umacordadurante todo ocaminho dasuacasaaté
omercado, edepois conduzida damesmamaneira paraoseunovolar.
J 6
O sim-
bolismo eraobviamente derivado do mercado de animais, eaqui eali inven-
tavam-se formas mais elaboradas para confirmar asimulação dequeamulher
eraumanimal. Seriatalvez, sobumaantigaformapopular, abrincadeira depas-
sar aperna no diabo (ou emDeus)? Os elementos adicionais mais freqüentes
eramatar amulher nacerca do mercado, prendê-Ia num'cercado deovelhas,
fazê-Iapassar pelos portões do pedágio (devez emquando, novamente asmá-
gicas três vezes) e, muito freqüentemente, pagar aosfuncionários domercado a
taxapelavendadeumanimal. Eparece ter sidoprática aceitaemalguns merca-
dos - inclusive, por algum tempo, emSmithfield - que os funcionários re-
cebessemessataxa.J 7
d) No mercado, alguémdeviafazer asvezes deleiloeiro, edeviahaver pe-
lo menos aaparência de umleilão público. Na maioria dos casos, o marido
leiloava amulher, mas devez emquando alguém de status oficial - umfun-
cionário do mercado, umempregado daassistência social, umleiloeiro ou um
negociante degado- desempenhava opapel.
Exibia-se considerável talentoemadotar oestilo deumleiloeiro qualifica-
do. Emseu aspecto mais melancólico, temos as lembranças de umvelho cro-
nistadeGloucester que, aindamenino noanode1838, estavaandando àtoapelo
mercado deanimais quando eleeseuscompanheiros viramumlavrador puxan-
do"por umacorda umamulher cansada, coberta depoeira":
U mvelho ebrincalhão negociante deporcos exclamou: "Olá, meuvelho. O quese
passa? O que vais fazer comavelha, afogá-Ia, enforcá-Ia, ouoquê?". "Não, vou
vendê-Ia", foi aresposta. Houve umcoro derisos. "Quem éela?", perguntou one-
gociante de porcos. "É aminha esposa", respondeu o lavrador, sobriamente, "e
umadas criaturas mais ordeiras, sérias, diligentes etrabalhadoras quejá surgiu. É
tão limpa earrumada como uma tlor, eémão-fechada, faz qualquer coisa para
poupar seispence; mastemumalínguaetanto, ficameincomodando damanhãaté
ameia-noite. Não tenho ummomento depaz por causa dasualíngua, por issocon-
cordamos emnosseparar, eelaconcordou empartir comaquele quefizesse aofer-
tamais alta nomercado (...]" "Vocêestádisposta aser vendida, minhasenhora?",
perguntou alguém. "Sim, estou", ela respondeu mordazmente. "Então", disse o
homem, "quanto medão por ela?" Fez-se uma pausa, então umvelho tocador de
vacas, comumavaradefreixo namão, berrou: "Seis pence por ela!". Segurando a
corda numadas mãos elevantando aoutra, omarido gritou noestilo estereotipado:
"Está emseispence, quem dáumxelim?". Houve outra pausa prolongada, então
eu, umjovem vivaz (...], imprudentemente exclamei: "U m xelim!". "Está emum
xelim. Ninguém dá mais?", gritou o marido (...]. Os espectadores riram e
caçoaràm, umchegou aexclamar: "O lance éseu, meu jovem I Ela vai ser ar-
rematada por ti!". Eu suava deapreensão [...]. Comrenovada seriedade, ovende-
dor gritou mais umavez: "Quemdádezoito pence, poiselaéumaexcelente mulher
que sabe assar uma fornada depão ou fazer bolinhos como ninguém". Para meu
grande alívio, umhomem bemarrumado edear respeitável fez aoferta, eomari-
do, batendo as mãos, exclamou: "Ela ésua, meu caro. Vocêganhou apechincha e
umaboamulher, emtudo anãoser asua língua. Cuide bemdela". O comprador pe-
gouaponta dacorda depois depagar osdezoito pence, elevouamulher embora."
orelato desperta suspeitas, comsua recordação literal de conversas de
cinqüenta anos antes. Semdúvida, ahistória foi floreada aoser contada, maso
episódio inclui características rituais encontradas namaioria dasvendas: ocon-
sentimento público damulher ("Vocêestádisposta aser vendida, minha senha-
ra?", "Sim, estou"), oleilão formal, aentrega dacorda. O marido passapor cima
daofertafrívoladomenino, masaceitalogoumaofertaséria(quepossivelmente
teriavindo dealguémesperado).
Os elogios elaborados do leiloeiro sobre asqualidades do artigo àvenda
Cela étão limpa earrumada como uma flor") eramtambém esperados pelo
povo. Era uma transação altamente teatral, eo marido àsvezes representava a
suapartecomumabravata cômica, entretendo osespectadores comumaaren-
gaqueeraemparte tradicional, emparte cuidadosamente ensaiada. (Essa era
talvez aforma deenfrentar uma situação deexposição pública.) Não sepode
confiar muito nosrelatos dejornais romanceados paraosleitores,'9emenos ain-
danasbaladas efolhetos sobreavendadeesposas, queeramrepertório-padrão
dos impressores:
o
Mas "Samuel Lett", uma balada deB ilston (Staffórdshire),
transmite pelo menos umsentido autêntico das expectativas humorísticas -
umaaltemância chistosa deelogios edifamações - provocadas pelo leilão:
Este épara dar oaviso
De que oLett das pernas tortas
Vai vender a sua esposa Sally
Pelo preço que conseguir.
Às doze horas em ponto
A venda vai começar.
Vocês todos, rapazes alegres,
Estejam lá com odinheiro.
Pois Sally é bonita
Eforte como um touro,
Quemjá a conhece
Sabe disso muito bem.
Ela sabe fazer pão
E come opão inteiro;
Faz cerveja como ninguém,
E bebe todas as taças. ,'"
U mleilão público era, portanto, central paraoritual, mas aformapermitia
improvisações e variedade. E nem sempre era bem-humorada. Podia ser
degradante paratodas aspartes envolvidas, eprincipalmente paraaesposa.
(IV) This is ter gie noticel That bandy legged Lenl Will sell his wife Sallyl For what hecan
get.ll At 12o'clock sertinl The sale'll begin.l So all yer gay fellersl B e there wi' yurtin.ll For Sal-
ly's good lookin' I And sound as abell.! If you'n ony once heerd her/You'n know that quite well.ll
Her bakes bread quite handyl An' eats it all up;lB rews beer, likeagood 'un.! An' drinks every cup.
e) O ritual exigiaatrocadealgumdinheiro. Eraemgeral umxelimoumais
queisso, embora àsvezes sedessemenos. O comprador comumente concorda-
vaempagar uma quantidade de bebida alémdo preço dacompra, eàs vezes
acrescentava-se uma soma adicional pelacorda. O marido freqüentemente de-
volvia ao comprador uma pequena fração do dinheiro da compra "para dar
sorte": nisso, as partes seguiam aforma antiga - e ainda emvigor - dos
mercados decavalos egado, adevolução do "dinheiro dasorte".
f) O momento real daentrega dacorda eraàs vezes solenizado pela troca
dejuramentos análogos aos deumacerimônia decasamento: " 'Vocêestá dis-
posta ame aceitar, minha senhora, e ame acompanhar nas boas e nas más
horas?' 'Estou', diz ela. 'E vocêestá disposto avendê-Iapelo queeuoferecer,
meusenhor?' 'Estou', dizele, 'elhedarei acordacomopartedonegócio'''.>'!De
vez emquando orelato anotaque aesposa devolveu oantigo anel ao marido e
recebeu umnovodocomprador. A transferência dapontadacordadovendedor
paraocomprador tambémpoderia ser acompanhada deumadeclaração públi-
capor parte do primeiro, afirmando que renunciava àmulher enão seria mais
responsável pelas dívidas eatos dela. Também podia ser ummomento para
despedidas sentimentais, comonumregistrodeSpalding(Lincolnshire) em1786:
Hand [pegou] acorda e[a] colocou sobreamulher, depois aentregou aHardy, pro-
nunciando asseguintes palavras: "Eu agora, minha querida, aentrego nasmãos de
Thomas Hardy, rezando paraqueasbênçãos deDeus osacompanhem, comtodaa
felicidade". Hardy respondeu: "Euagora, minhaquerida, arecebo comasbênçãos
deDeus, rezando pela felicidade" elC.E retirou acorda, dizendo: "Venha, minha
querida, euarecebo comumbeijo; evocê, Hand, teráumbeijo dedespedida"."
Aentregaeatrocapodiamserofimdacerimônia, opar recém-casado sain-
dorapidamente decena. Mas àsvezes acerimônia eratambémseguida pelaida
detodosostrêsenvolvidos, comtestemunhas eamigos, àtavernamaispróxima,
onde avenda podia ser "ratificada" pela assinatura de documentos. É claro,
haveriatambémnovosjuramentos comdrinques (que, como vimos, estavamàs
vezes incluídos nodinheiro dacompra ounadevolução por parte do vendedor
para"dar sorte").
Quando atroca era pré-arranjada, essa parte do procedimento dependia
presumivelmente daquantidade deboavontadeoumávontadenoar. Quando os
sentimentos hostis predominavam, mas era necessário um"documento", esse
podiaser redigido antes doleilão público, ecomavendamarido eesposasese-
paravamparasempre. Quando haviaboavontade, todososinteressados bebiam
eredigiam o documento juntos. Ainda existem alguns exemplos desses "con-
tratos", eomais freqüentemente citado éumaentrada nolivro das mercadorias
deB ell 1nn, Edgbaston Street, B irmingham: "31 de agosto de 1773. Samuel
Whitehouse, da paróquia deWillenhall [...] vendeu hoje asua mulher, M&ry
Whitehouse, no mercado aberto, para Thomas Griffith, de B irmingham, valor,
um xelim. Aceitou-a com todos os seus defeitos". Seguiam-se as assinaturas de
Samuel e Mary Whitehouse, e a de uma testemunha.-w U ns oitenta anos mais
tarde, temos umexemplo de Worcester:
Thomas Middleton entregou sua mulher Mary Middleton paraPhilip Rostins por
umxelimeumaquarta decerveja; eocasal seseparou definitivamente parasem-
pre, paranunca mais seatormentarem umao outro.
Testemunha. Thomas X Middleton, suamarca
Testemunha. Mary Middleton, suamulher
Testemunha. Philip X Rostins, suamarca
Testemunha. S. H. Stone, Crown Inn, Friar St."
Presumivelmente S. H. Stone era o dono da taverna, onde o documento foi
redigido. Éinteressante notar que, dos três interessados, apenas Mary Middle-
ton sabia assinar o nome.
Esses documentos eram guardados como "certidões de casamento", como
uma prova de respeitabilidade. Assim uma certa sra. Dunn, de Ripon, foi citada
em 1881 como tendo dito: "Sim, eufui casada com outro homem, mas ele me
vendeu para Dunn por 2S xelins, e tenho tudo no papel para mostrar, com selo
de recibo, pois não queria que as pessoas dissessem que estava vivendo em
adultério".'6 Tão convenci das estavam as pessoas quanto à legalidade do pro-
cedimento que tentavam conseguir a ajuda de um advogado para redigir esses
documentos, ou certificavam-no com selos oficiais. Em Soltou (1833), depois
do leilão na praça do mercado, as três partes interessadas foram para ataverna
One Horse Shoe, onde "o preço da compra foi pago depois de ter sido fornecido
um recibo com selo" e a esposa foi então "devidamente entregue". "O grupo
mais tarde comeu alguns bifes juntos, como uma refeição dedespedida, epagou
por duas quartas decerveja [...]."" O marido eamulher tinham vindo de uma vila
acinco milhas de distância, eo comprador era um vizinho do mesmo lugar. Vê-
seque o que poderia parecer, em uma notícia mais breve ou sensacionalista, um
leilão aberto edesestruturado, fora cuidadosamente planejado.
Isso abrange as principais características da "verdadeira" venda ritual de
esposas: o mercado aberto, apublicidade, acorda, a forma de leilão, atroca de
dinheiro, a transferência solene e, de vez em quando, a ratificação em docu-
mentos. Encontram-se às vezes elaborações ou formas mais exóticas (como
calçar os sapatos do primeiro marido)." Mas a única forma alternativa signi-
ficativa que deixou evidências claras foi ada transação màis privada no balcão
público de uma taverna. Embora se desse perante testemunhas, era uma forma
que evitava oclarão dapublicidade da venda no mercado público, epor isso pode
ter sido seriamente mal noticiada.'" Muito freqüentemente oscasos vinham àluz
quando alguma outraquestão (residência comdireito às leisdeassistência aos
pobres ouguarda dosfilhos) oslevavaperante asautoridades.
Em1828, astrês partes interessadas numadessas vendas foramajuizadas
nassessões trimestrais doTribunal deWest Kent, acusadas decontravenção, eo
processo do tribunal lança umpouco deluz sobre aforma davendaesobre as
opiniões aseu respeito. Os três interessados partilhavam uma choupana da
paróquia (concedida segundo asleis deassistência aospobres) emSpeldurst, e
combinaram seencontrar nataverna GeorgeandDragon navizinhaTonbridge.
O taverneiro depôs:
Skinner chegou emprimeiro lugar epediu umacaneca decerveja; sentou-se naco-
zinha; então veio asuaesposa, epouco depois Savage entrou; todos beberamjun-
tos, edali apouco Savage saiu; logo voltou, eSkinner então lhe disse: "Quer
comprar aminha mulher?". Elerespondeu: "Quanto quer por ela?". Skinner disse:
"U m xelim euma caneca de cerveja". Savage então lhe ofereceu meia coroa, e
Sk.inner lheentregou amulher; eles beberamjuntos, edepois foramembora; havia
umas quatro pessoas presentes; antes desaírem, amulher tirou umlenço dobolso,
queparecia ter sido atado aoredor dasuacintura, eSkinner otomou edisse: "Ago-
ranão tenho mais nadaaver comvocê, pode ircomSavage".
Nessecaso, tambémsabemos umpouco sobreasrazões davenda. Corriam
muitos boatos naviladequeasra. Sk.innertomaraSavagecomo amante. Por is-
so, osfiscais dospobres (queeramosdonos dachoupana) ordenaramqueSkin-
ner mandasse Savageembora, senão eletambémseriaexpulso decasa. Nasua
simplicidade, ostrês parecemter imaginado quecomavenda (ouatodedivór-
cio enovocasamento) as autoridades daparóquia permitiriam queSavage ea
novasra. Savage continuassem aarrendar achoupana semproblemas. Mas o
conselho paroquial deTonbridge nãofoi aplacado tãofacilmente. Talvez todos
ostrês tenhamsido despejados assimqueavenda setornou pública. Outalvez
Sk.innertenhaseguido seucaminho solitário daGeorge andDragon paraoasilo
público, ondeeleresidia naépoca doprocesso notribunal.
Aojulgar todos ostrês, o"muito erudito" presidente dotribunal sepermi-
tiu umpouco dehumor insípido ("a dama certamente não tinha o seupróprio
valor emalta estima, pois uma caneca decerveja eumxelimfoi aúnica im-
portância oferecida por essamercadoria valiosa"), antes depassar aníveis mais
elevados deexortação moral fiscalizadora. Aprática devender aesposa era"al-
tamente imoral eilegal" e"tinha uma tendência amenosprezar o santo sacra-
mento do matrimônio". Mas "o crime" teriasido pior setivessesido cometido
nomercado aberto. Levando tambémemconsideração ofatodequeodelito fo-
racometido "numestado deignorância", eleachou que bastava asentença de
umano deprisão paracada umdos envolvidos. Não háregistros parasaber se
asacomodações nacadeia local erammais oumenos salubres doqueasdoasi-
10 local. Os infratores condenados não tinham quase nada adizer em sua defe-
sa. A sra. Sk.inner declarou: "Meu marido não satisfazia meus desejos, epor es-
sarazão quis me separar" [um riso].5°
Fica claro-embora não ofosse na década de 1960, quando comecei aco-
letar esses dados - que temos deretirar avenda das esposas dacategoria deuma
brutal venda de gado ecolocá-Ia na do divórcio seguido de novo casamento. Is-
so ainda pode despertar expectativas impróprias, pois o que está envolvido é a
troca de uma mulher entre dois homens num ritual que humilha amulher tratan-
do-a como a um animal. Mas o simbolismo não pode ser interpretado apenas
dessa maneira, pois aimportância da publicidade da praça do mercado eda "en-
trega" por uma corda também introduz nas evidências assim fomecidas o fato
deque todos os três interessados concordavam com atroca. O consentimento da
esposa é uma condição necessária para a venda. Isso não quer dizer que o seu
consentimento não pudesse ser obtido sob coerção - afinal, um marido que de-
sejava (ou ameaçava) vender amulher não era grande coisa como consorte. U ma
esposa que foi vendida em Redruth (1820) eque foi levada, com seu comprador,
perante as sessões trimestrais do tribunal em Truro, "declarou que o marido a
maltratara tantas vezes, eexpressara asua intenção de vendê-Ia, que ela fora in-
duzida ase submeter à vergonha pública para se ver livre dele". Isso deve ter
ocorrido em alguns casos. Mas não era, talvez, toda averdade nesse caso de Re-
druth, pois aesposa depois admitiu "que vivera com [...] o seu comprador antes
de lhe ser publicamente vendida".51 Em muitas vendas, mesmo quando havia a
aparência de um leilão aberto e lances públicos, o comprador fora predetermi-
nado ejá era o amante da esposa.
Recuperar a"verdade" sobre qualquer história conjugal não éfácil: tentar
recuperá-la, a partir de recortes de jornais, depois de I SO anos, é empreender
uma tarefa infrutífera. Mesmo quando há afirmativas diretas sobre a "má con-
duta" da mulher antes da venda, o que nos éfornecido são apenas as evidências
dos boatos ou do escândalo. Mas essas evidências não nos dizem absolutamente
nada - vamos examinar três casos, todos do ano de 1E 37.
O primeiro diz respei to auma venda no mercado de manteiga emB radford
(WestYorkshire). O relato afirma: "O motivo alegado da separação era afalta de
moderação da esposa, cujos afetos teriam sido roubados por um velho cavador,
que de vez em quando almoçava na residência do casal". Quando o marido
começou o leilão, "o primeiro e único lance bana fide" foi um soberano do
cavador. "Foi imediatamente aceito, e, depois de paga a quantia, o novo casal
saiu caminhando em meio às imprecações do povo.""
O segundo caso ocorreu no mercado deWalsall. U m homem trouxe amu-
lher puxada por uma corda de uma vila a oito ou nove milhas de distância, e
vendeu-a em poucos minutos por dois xelins eseis pence. O comprador era um
fabricante de pregos, que viera da mesma vila. Segundo os relatos, tooos os três
interessados ficar·am satisfeitos. Na realidade, aesposa vivera com ocomprador
durante os últimos três anos.
53
O terceiro caso ocorreu em Wirksworth, Derbyshire. A esposa de J ohn
Allen fugira com J ames Taylor no verão anterior. Ao saber que ocasal estava em
Whaley B ridge, o "marido magoado" foi até láeencontrou-os juntos num alo-
jamento. "Ele exigiu três libras pelas roupas dela, oque Taylor disse que pagaria
sob a condição de que ele os acompanhasse aWirksworth no dia do mercado,
para entregá-Ia, segundo suas palavras, deacordo com alei." Aqui temos umca-
so claro de "entrega": Allen passou aponta da corda para Taylor, eredigiu uma
declaração formal.
"Eu, J ohn Allen, tiveminha esposa roubada por J ames Taylor, deShottle, noúlti-
modia II dejulho. Euatrouxeatéestemercado paravendê-ia por três xelins eseis
pence. Vocêquer comprá-Ia, J ames?" J ames respondeu: "Quero, aqui está o di-
nheiro, evocê étestemunha, Thomas Riley" - chamando ocaixeiro da taverna
que foraindicado paraesse fim.
Depois queoanel foi entregue aAllen, junto comtrês soberanos etrês xelins e
seis pence, ele apertou amão daesposa edo amante dela, desejando-lhes toda a
sortedo mundo."
É possível afirmar que o primeiro exemplo não oferece nada além de
boatos, mas o segundo e o terceiro casos não podem ser desconsiderados tão
facilmente. U m comprador não chega por acaso da mesma vila, aoito milhas de
distância, no momento davenda: tudo foi pré-arranjado. Nemé provável que um
repórter ti vesse inventado ahistória da fuga ecoabitação prévias. Na verdade, a
freqüência dos casos em que aesposa foi vendida aumhomem com quem elajá
estava vivendo - e, em alguns casos, vivera por três, quatro ou cinco anos
ll
-
propõe uma pergunta muito diferente: se tanto aesposa como o marido podiam
de vez em quando recorrer à fuga e ao abandono do lar, por que os dois ainda
achavam necessário passar pelo ritual público (e vergonhoso) da venda?
Voltarei aessa pergunta perscrutadora, embora aresposta afinal só possa ser
encontrada na história pessoal inacessível de cada caso. A dificuldade com esse
material não éapenas que aevidência seja muito insatisfatória, mas também que
não se pode apresentar definitivamente nenhum caso como "representativo". O
imperativo metodológico obrigatório dos dias de hoje équantificar, mas as com-
plexidades das relações pessoais são especialmente resistentes aessa prática. E o
"típico" relatocurto dejornal nãonosdánenhuma informação sobreosmotivos
daspartes interessadas - nãopassadorelato áridodeumavenda.
Entretanto, tentei comprimir osdados emclassificações grosseiras, como
seguinte resultado:
Vendas e.Jentativas de venda, 1760-1880: consentimento da esposa
Seminformação
Comoconsentimento daesposa
Esposa vendida paraoamante
Divórcio arranjado
Semconsentimento daesposa
Como "seminformação" significa nenhuma informação arespeito doponto em
questão, atabelamostra91casosquetêmoconsentimento ouaparticipação ati-
vadaesposa contra quatro semesseconsentimento. Seexaminamos asvendas
entre 1831e1850(aépocaemqueosrelatos dosjornais tendemaser maiscom-
pletos), encontramos:
Vendas, 1831-50: consenlimento da esposa
Seminformação 27
Comoconsentimento daesposa 10
Esposa vendida paraoamante 19
Divórcio arranjado 4
Semoconsentimento daesposa
Considero esses números evidênciá literária eimpressionista, emoposição
àevidência "sólida" destecapítulo, queéainvestigação minuciosa dos textos e
contextos. Asclassificações nãoseaplicamcomprecisão. Vamosexaminar ca-
daumapor suavez.
Sem o consentimento da esposa. As notas moralistas naépoca, bemcomo
grandepartedoscomentários históricos subseqüentes, sugeremqueaesposaera
umbempassivo ou alguém que seopunha à transação. Na realidade, três dos
quatro casos naprimeira tabela nãoresultaram emvendas. Emcada umdesses
casos, temos ainformação dequeonegócio foi realizado privadamente entre o
marido eocomprador, porémmais tarderenegado pelaesposa.
A exceção seencontra numa cartadirigida por Ann Parsons aummagis-
trado deSomerset, em9dejaneiro de 1768: ,
Sou afilhadeAnn Collier, que morava ao pédeRush Hill, enaprimeira parte da
minha vida, para minha grande mortificação, fui casada comumhomemque não
tinhaconsideração por si mesmo, nempelo meusustento epelodemeus filhos. No
início daúltima guerra, eleentrou paraoserviço do rei, e, meu senhor, não posso
lherelatar nemadécima parte dos abusos quedele recebi antes desuaadmissão e
depois deseuretomo doExército. Por fim, parasustentar osseuscaprichos, eleme
pôs àvendaemevendeu por seis libras eseis xelins, eeudenadasabia atéqueele
mecontou o que tinha feito. Ao mesmo tempo, ele me pediu que ficasse coma
criança pequena [...].
Para confirmar o seu relato, ela enviava em anexo uma certidão da venda reali-
zada entre o marido, J ohn Parsons de Midsomer Norton, fabricante de lã, eJ ohn
Tooker da mesma paróquia, cavalheiro: o documento transferia e passava Ann
Parsons "com todos equaisquer direitos de propriedade" aJ ohn Tooker.
A história ébastante clara. Mas Ann Parsons passava então asequeixar-
não de que avenda tivesse ocorrido, mas de que o marido não tivesse acatado o
acordo. Três meses depois da venda (que ocorreu em24 de outubro de 1766), o
marido "me visitou eme pediu mais dinheiro, tratando amim eao homem para
quem ele me vendeu com grande violência, arrombando aporta da casa, juran-
do que nos mataria aos dois", econtinuou com esse comportamento importuno,
até que ela pediu proteção aum magistrado que prendeu J ohn Parsons emShep-
ton Mallet. A prisão se dera no dia de são Miguel, eAnn Parsons agora temia a
vingança que ele poderia cometer quando fosse posto em liberdade. A razão de
sua petição ao magistrado era assegurar que omarido continuasse detido. Não é
fácil saber oque fazer desse caso. Ann Parsons pode ter sido vendida (conforme
seu testemunho) sem o seu conhecimento econsentimento; ou pode ter achado
que essa seria amelhor história para contar aojuiz de paz aquem estava pedin-
do proteção. U ma vez vendida - e (note-se) para um homem de status social
mais elevado -, écerto que ela desejava que o contrato fosse acatado, eestava
exercendo asua vingança contra o ex-marido com talento esucesso.'6
Nos outros casos de não-consentimento, há menos dados para explorar.
Num dos casos (North B ovey, Devon, por volta de 1866), diz-se que o marido
fez um acordo privado com o comprador para vender a mulher por '/" de galão
de cerveja. Ela repudiou o acordo, levou os dois filhos para Exeter, esó voltou a
North B ovey para o funeral do marido.
57
Outro caso veio àluz numjulgamento
por bigamia emB irmingham em 1823. Alegou-se que J ohn Homer, ex-soldado,
teria tratado amulher brutalmente epor fimateria vendido contra asua vontade,
presa por uma corda, no mercado. Mas o comprador era o irmão da mulher, que
por três xelins comprou a possibilidade de ela "sair" do casamento ou sua "re-
denção". (Não se sabe se esse caso deve ser classificado como sem consenti-
mento ou como divórcio arranjado.) Homer então supôs que estava livre para se
casar de novo, e cometeu o erro de passar por uma cerimônia formal na igreja.
Foi condenado por bigamia asete anos de degredo." No outro caso, na feira de
Swindon em 1775, dizia-se que um "ilustre sapateiro" de Wootton B assett fe-
chou umacordo formal com umnegociante degado para que lhe vendesse amu-
lher por cinqüenta libras, "entregando-a apedido do comprador na manhã
seguinte" - "Satisfeito como negócio, o comprador partiu numa dilio-ência
acompanhado por muitos deseus amigos, enfeitados compenachos, p;a de-
mandar o objeto da compra, quando, para desapontamento de todos, nem
Crispim, nemCrispiniana [...] puderam ser encontrados". 59
Esses casos nãocontradizem aregra, anotadapor alguns contemporâneos,
deque o consentimento daesposa era essencial. Tal regra éconfirmada pelas
ocasiõesemqueaesposa repudiacomvigor atentativadevenda. Nomercado de
Smithfield em1817, umvisitante viuumhomemlutando paracolocar umacor-
daaoredor dopescoço deumajovemdeextraordinária beleza. Nomeiodeuma
grandeecrescentemultidão, aesposaresistiaàtentativacomtodasassuasforças.
O povoeospoliciais intervieram, eocasal foi levadoperanteummagistrado. O
maridoexplicou queamulher forainfiel, equeeleestavaexercendo oseudireito
devendê-la.
60
Naresistência daesposa aouso dacorda, temos aconfirmação de
quetantoacordacomo oseuconsentimento eramessenciais paraconferir legi-
timidade àtransação. Mesmo quando ocomprador nãoerapré-arranjado, quan-
dohaviaumleilãoautêntico comlancesdopúblico, aesposa podiaexercer oveto.
Assimumrelato deManchester (1824) afirmaque"depois devários lances, ela
foi arrematada por cinco xelins; mas, como não gostoudocomprador, foi nova-
mente leiloada por três xelins e '/4 degalão decerveja".61Numcaso mais duvi-
dosoemB ristol (1823), aesposaestava"bemsatisfeita" comoseucomprador, o
qual, noentanto, revendeu-a aoutro; "como adama[...] nãogostoudamudança,
foi embora comamãe", recusando-se aser reclamada pelo segundo comprador,
anãoser "por ordemdeummagistrado, queencerrou ocaso".63
Devemter ocorrido casos de venda forçada deesposas emque amulher
consentiu porqueestavaaterrorizada, ouporqueerademasiado simplória ounão
tinhaamigos parapoder resistir.
6
]E devemter ocorrido outros casos nas taver-
nas queeramdesordens debêbados. No poema "Os prazeres do matrimônio",
WilliamB utton reconstruiu umdesses casos, quetalvez tenha servido demo-
deloparaavendaemThe mayor ofCasterbridge. A esposaentrou nacervejaria
parabuscar omarido elevá-Io paracasa, poisprecisava deajudaparacuidar do
"bando decrianças"; omarido ficou foradesi deraiva(embora "elegastasse o
dinheiro queela ganhava") evendeu-a para umcolega detaverna - William
Martin, fabricante demeias - por umacaneca decerveja:
A canecafoi pedida, o negócio fechado,
E nada devolvido para dar sorte.
Osdois pensaram na corda,
Mas descobriram que custaria quatro pence.
A idéia da cordafoi logo abandonada,
Por ser duas vezes o que Hannah custava,
PeLamesma razão nenhum dos dois quis
Pagar os quatro pence de imposto.
v
Masumdocumento davendafoi redigido eassinado entreosdois homens, com
osdoisfilhosdocasamento divididos - acriança maior ficaria comopai, obe-
bêdecolo comamãe. Durante tudo isso, aesposa édescrita como alguémque
nãoestádeacordo comavenda. Mas elaacaba partindo comojovemfabrican-
tedemeias, eperambula comeledeHinckley aLoughborough: eles seapaixo-
nam, vivemfelizes por umanoeficamdesolados quando omarido searrepende
eenviafiscais deHinckley para trazê-Iadevolta-
ELapartiu, mas de angústia chorava,
Oh, que o Laçopudesse ser desatado. V,6-'
opoema nãoéevidência, mastambémnãoédetodo ficção, pois sebaseia
nasexperiências dopoetaquando essefoi aprendiz numafábricademeiasnadé-
cadade 1740, eocomprador, WilliamMartin, eraseuamigo. Mas opoema fo-
ra escrito (ou reescrito) em 1793, e foi certamente reinventado apartir de
lembranças remotas.
65
Não estou sugerindo queasesposas não fossemàsvezes
vendidas sob coerção, mas que, seelas claramente repudiavam atransação, a
vendanãoeraconsiderada válida deacordo comatradição easanção dos cos-
tumes. A visão alternativa - davenda daesposa corno uma compra de gado
contra avontade damulher - apresenta dificuldades muito sérias. P~J isteria
significado infração dalei emvários pontos, emuitoprovavelmente caberiaurna
ação por estupro. Algumas esposas podiam ser demasiado ignorantes para
recorrer àlei, semparentes queviessememsuadefesa. Porém, mesmo nosécu-
loXVIII, osaldeões sabiamocaminho parabater àportadomagistrado, dopáro-
cooudofuncionário daparóquia, efogeatodaprobabilidade quenenhumcaso
desses jamais tivesse ocorrido. Sealgumdesses casos tivesse chegado aos tri-
bunais, osjuizes - emqualquer época depois de 1815- teriamaplicado uma
punição exemplar ecomomáximo depublicidade, pois aopinião educada pas-
saraaabominar aprática, eosjuízes depaz eospoliciais freqüentemente procu-
ravam intervir para evitá-Ia. Mas nenhum registro de ação desse tipo, por
iniciativa daesposa, oupor partedeseus parentes ouamigos, veioàluz.
Com o consentimento da esposa. Essaéacategoria menos satisfatória. A
evidência éderivada dealguma referência explícita aoconsentimento nafonte,
(v) The pint was order'd, bargain struck,/ And nothing back retum'd for luck.lThe parties of
ahalter thought,/ B ut this they found would cost agroat.!/ The halter scheme was instant lost,/ As
being twice what Hannah cost,l For that same reason neither would/ Pay fourpence that shemight
betoll'd.
(VI) She follow'd, but inanguish cried,l O that theknot could beuntied.
ou então aalguma expressão como: aesposa partiu como comprador "em
grandejúbilo", parecia "muito feliz", "muito satisfeita", ou"ansiosa". Incluem-
sealgunsoutros casos, emqueasindicações doconsentimento sãotãofortesque
não permitem nenhuma outra inferência: como, por exemplo, quando o
primeiro casamento eraapenas pelo direito consuetudinário equando avenda
eraseguida imediatamente por umsegundo casamento naigrejaounocartório,
ou naqueles casos emqueo marido logo searrependia davenda, tentavafazer
comqueaesposa voltasse paraele, maselarecusava.
Sem informações. Nesses casos, as fontes não dão nenhuma informação
quanto aoconsentimento daesposa. Masaleiturafoi rigorosa. Emvárioscasos,
seriapossível inferir oconsentimento daesposa apartir deevidências circuns-
tanciais: assim, quando todos ostrês interessados percorrem várias milhas para
ir deumavilaauma cidade-mercado; quando aesposa assina odocumento da
venda; quando aesposa évendida auminquilino ou vizinho; casos emqueo
marido vende (ou dá) os seus animais ou ferramentas detrabalho junto coma
mulher (sugerindo comisso queestá transferindo aonovo casal oseu meio de
vida); casos emqueomarido manifesta ciúme agudo, ouemquedámostras de
generosidade inusitada paracomonovo casal; ou umpunhado decasos regis-
trados por historiadores locais, queaindaacrescentam queosegundo casamen-
to foi feliz eduradouro. Admito pessoalmente que, emmuitos desses casos, a
esposa participou ativamente datroca, mas, como aevidência étênue, resisti à
tentação deretirá-Ios dapresente classificação.
Divórcio arranjado. Essepequeno grupo inclui quatro casos emqueaes-
posafoi vendida paraseus parentes - para oirmão, paraamãe, e(dois casos)
paraocunhado. O queissoindicaéqueavendatalveznãofosseapenas umatro-
caentre maridos; poderia ser igualmente umartifício pelo qual aesposa con-
seguia anular ocasamento existente, ou "se ver livredeseu casamento ao ser
comprada". Marido emulher sentiam-se então livresparaadotar umnovocôn-
juge. Seo marido estava tornando avida intolerável para amulher, ela podia
concordar comavendaefazer seus próprios arranjos paraa"compra" 6ó Empe-
lomenos umdesses casos, elaéindicada como suaprópriacompradora, evere-
moscomoissofoi possível, examinando umnotóriocasoem Plymouth (p. 253).
Tambémparecequeocomprador (noleilão público) nãoprecisava ser ohomem
comquem aesposa esperava viver, pois avenda podia ser efetuada para um
"agente" que atuava emnome do homem (ou até daprópria esposa)·? Final-
mente, essegrupo inclui doiscasos emquesomos simples,menteinformados de
queavendafoi realizada por um"arranjo prévio". E, emtrêscasos, aesposafoi
vendida por funcionários daassistência aos pobres.
6K
Numdesses casos, revelado noSecond annual report of the poor law com-
missioners (1836), vê-se queas instituições oficiais (oasilo, osfiscais dos po-
bres, oconselho paroquial, aigreja) coexistiamcomritosnãooficiais. Em1814,
Henry Cook, ummendigo comresidência emEffingham, Surrey, foi "detido pe-
los funcionários daparóquia deSlinford, Sussex, por ser opai do filho ilegíti-
mo" deumamulher deSlinford. "Deacordo comoantigo sistema, foi realizado
umcasamento forçado", masépossível inferir queocasal nãoviveujunto, pois'
seis meses mais tarde asra. Cook eo filho estavam no asilo para pobres de
Effingham. O chefedoasilo, quecontratava aadministração dacasapor umaso-
maanual fixa, reclamou dadespesa dosrecém-chegados. Por isso, osfiscais dos
pobres lhe disseram para levar asra. Cook (como consentimento de Henry
Cook) aCroydon, ondeelafoi devidamente vendida nomercado, presapor uma
corda, aJ ohn Earl, daparóquia deDorking, Surrey. Nãoéinformado seEarl era
oamante dasra. Cook ou não, nemcomo epor queeleentrou nahistória. Tudo
oquesabemos équeoxelimdopagamento foi providenciado pelochefedoasi-
lo deEffingham, queevidentemente estava muito ansioso por sever livredes-
ses encargos. Redigiu-se umrecibo comumselo decinco xelins, eochefe do
asilo foi uma das testemunhas do documento. O novo casal retomou então ao
asilo deEffinghampara anoitedenúpcias, antes deser enviado nodiaseguinte
para Dorking, onde (depois dadevida leitura das proclamas) passou pela ceri-
mônia decasamento naigreja: "nessa ocasião os funcionários daparóquia de
Effingham Ihesprovidenciaram umapernadecarneiro como ceiadecasamen-
to". Todas asdespesas dessas transações foramregistradas nacontabilidade da
paróquia e "regularmente aprovadas no conselho paroquial". A história de
começo infeliz terminou damesma maneira, pois asra. Earl (então comseteou
oitofilhos) foi abandonada por Earl (que"verificara" queoseucasamento "não
eraválido", presumivelmente porque asra. Cook-Earl foraforçadapor esses au-
gustos conspiradores - osfiscais, ochefedo asilo eoconselho paroquial- a
viver embigamia) elevada de volta aEffingham para ficar à mercê dos fun-
cionários daassistência aos pobres.
Não sepoderealmente depreender nadaarespeito daintimidade desseca-
so. A paternidade do primeiro filho atribuída aCook erafalsa? Earl eraamante
dasra. Cook? A únicacoisacertaéqueahistória conjugal dos três foi muito in-
fluenciada por funcionários preocupados comquestões financeiras; eque, em
1814-5, alegitimidade davenda ritual das esposas continuava inquestionável
nas paróquias deEffingham eDorking.
Esposa vendida ao amante. Nãoseincluiunenhumcaso nessegrupo, anão
ser que houvesse uma alegação explícita aesse respeito nafonte. Seria certa-
mentepossível acrescentar muitos ourroscasos tirados dascategorias de"como
consentimento" e"seminformações". Essapráticapodeser confirmada por uma
evidência literária. U mdosrelatos maiscompletos docostume édogeneral-de-
divisãoPillet, queviajoupelaInglaterra como prisioneiro deguerra (sobpalavra
de honra) durante as Guerras Napoleônicas. O seu capítulo sobre o assunto éin-
titulado "Divórcios entre os plebeus", eno seu relato avenda sempre contava com
o consentimento da mulher, ocorrendo em geral depois de sua "má conduta". O
comprador devia ser solteiro, e "geralmente é o amante da mercadoria vendida,
sendo bem familiarizado com ela. Ela só élevada ao mercado por uma questão de
formalidade".69 De qualquer modo, a venda só ocorria - como observou um
folclorista de Devon - "quando o matrimônio enfrentava uma crise" 7(1
Como se davam essas crises ... Neste ponto, devemos abandonar toda e
qualquer busca pelo típico. Não encontrei nenhum caso em que aevidência per-
mita reconstruir uma história conjugal detalhada. Mas hádois casos emque, por
razões acidentais, algumas informações sobreviveram. No primeiro, havia uma
disputa deresidência entre as paróquias de Spaxton eStogumber em Somerset.
Em 1745, quando tinha quinze anos, William B acon obtivera a residência em
Stogumber ao se empregar por um ano de serviço. Três anos mais tarde (]748),
ele foi "detido" como opai de uma criança bastarda de que Mary Gadd, da mes-
ma paróquia, estava então grávida. O casal foi forçado a se casar, embora
William B acon tenha declarado mais tarde que só soube de seu casamento pelos
comentários, pois foi "carregado para aigreja de Stogumber pelos funcionários
da paróquia", e"como estava muito bêbado, não sabe se realmente se casou ou
não". O casal nunca viveu junto: William deixou Mary em Stogumber eencon-
trou trabalho em B ridgewater, aalgumas milhas de distância. Mary deu àluz a
filha, B etty, em dezembro de 1748 (na ausência de William); vários anos mais
tarde, ela estava morando com Robert J ones, com quem teve mais dez filhos en-
tre 1757 e 1775. Nos anos. que se seguiram, William viveu com outra mulher,
com quem teve vários filhos.
Tudo isso sepassara sem nenhum ritual de venda deesposa até 1784, quan-
do tanto William como Mary já deviam estar na faixa dos cinqüenta anos. Então
os funcionários da assistência aos pobres de Stogumber intervieram mais uma
vez nos seus assuntos conjugais (ou extraconjugais). William B acon melhorara
um pouco a sua posição social, tornando-se o arrendatário de uns moinhos de
cereais na paróquia de Spaxton, adezesseis guinéus por ano. Assim Spaxton se
tomou asua paróquia de residência. Enquanto isso, parece que Mary eseus qua-
tro filhos menores se tornariam mendigos no futuro, eum dos filhos - ajovem
Mary - estava "grávida de uma criança". Ela tinha cerca de vinte anos, easua
gravidez foi a razão da ordem de remoção solicitada pelos funcionários da
paróquia deStogumber, "para não deixar que ela tivesse ofilho naparóquia, pois
seria um bastardo". No dia 18de dezembro de 1784, William B acon foi arrasta-
do para Stogumber einterrogado quanto àsua residência perante dois magistra-
dos. A ordem de remoção fora redigida, não apenas para ajovem Mary, mas
também para amãe eos três irmãos, embora nenhum deles fosse então umônus
paraaparóquia. O despotismo administrativo dasleis deassistência aospobres
estava prestes acair sobre asduas farrulias. Mary (amãe) eseus quatro filhos
menores seriamseparados deRobert J ones (opai dascrianças) emandados para
Spaxton, ondedeveriamser sustentados pelomoleiro esuafamília- etudoisso
depois detrintaeseisanos! Dois diasmais tarde(20dedezembro), WilliamB a-
con veio à praça do mercado de Stogumber para vender Mary eas crianças;
pediucincoxelinspor eles(istoé, umxelimpor cabeça), eRobert J ones "aceitou
pagar essepreço". Isso aconteceu nomesmo diaemquefoi executada aordem
deremoção - para expulsar todos os cinco para Spaxton, eavenda foi usada
pelas duas farrulias como umartifício paradesafiar aremoção."
Esse caso não é representativo de coisa alguma, a não ser da enorme
mesquinhez dos funcionários que aplicavam aLei dos Pobres. NemWilliam,
nemMary parecem ter sentido necessidade deumritual de"divórcio" atéomo-
mento emqueosfiscais tentaramdesfazer osseuslaresreais (senãolegais). (Se-
riaavendadeesposas umainovação bastanterecenteemSomerset?) Outrocaso
ocorreuemPlymouth em1822, tendoatraído atenção inusitada devido àriqueza
estatus dosinteressados. A essecaso, somos capazes deacrescentar alguns de-
talhes, arespeito dos quais omarido eamulher concordaram - ounão secon-
tradisseram. Correu o anúncio de que uma bela ejovem dama, que logo
receberia umaherança deseiscentas libras, desfilaria pela cidade montada em
seupróprio cavalo, para ser vendida nomercado degado. Elachegou ~ontual-
mente, acompanhada pelo palafreneiro dataverna Lord Exmouth, foi recebida
pelomarido, eoleilãojáatingira asomadetrêslibras (umlancedopalafreneiro)
quando ospoliciais intervieram, emarido emulher foramlevados àpresença do
prefeito nasededaprefeitura.
Interrogado, b marido declarou que não pensava que houvesse "algum
dano" emvender amulher. Eleeaesposanão viviamjuntos hábastante tempo;
foramcasados durante doisanos emeio, eelalhedeuumfilho trêsmeses depois
docasamento, umacriança sobre aqual (ainocência aqui sugerida ésurpreen-
dente) "atéonascimento elenadasabia". O bebêmorreu pouco depois - "Ele
arrumou umcaixão paraobebê, pagou asdespesas dofuneral, eafastou-o tran-
qüilamente deseucaminho, semjamais censurar aesposa por suaconduta; mas
tudo isso foi emvão. Ela logo o abandonou [...]" - e foi viver com outro
homem, dequemdesdeentão tiveraumfilho eestavaesperando outro. A venda
foraarranjada apedido damulher: eladissera quealguémestava disposto adar
vintelibras por ela- três libras nahora dacompra edezessete libras noNatal.
Eleanunciara avenda emModbury emtrês dias diferentes demercado, eviera
atéPlymouth apedido daesposa. A mulher confirmou o seu relato, acrescen-
tando que, como não sabia aocerto seoamante cumpriria apromessa decom-
prá-Ia no leilão, contratara o cavalariço da Lord Exmouth para libertá-Ia do
casamento, comprando-a com o seu próprio dinheiro, desde que o preço não ul-
trapassasse vinte libras. Ambos admitiam a legitimidade do ritual. O marido
disse que "muitas pessoas do campo lhe disseram que poderia vender amulher",
e aesposa acrescentou que "várias pessoas lhe tinham informado que tal coisa
podia ser realizada, por venda pública na praça num dia de mercado". "Não
havia nada de escuso na venda", declarou o marido."
O caso é bem atípico. O vocabulário do ritual de venda podia ser torcido
para muitos fins. Mas o caso ilustra claramente esse vocabulário, bem como o
apoio popular àlegitimidade da prática. É umexemplo interessante da desasso-
ciação de culturas coexistentes, o que permitia que muitas pessoas tivessem
acesso aalgumas das formas e sanções da lei e da Igreja, mas que ainda assim
aprovassem costumes que as ignoravam de vez em quando. "Que Deus abençoe
Vossa Excelência", disse umhomem deWest Country ao rev. B aring-Gould, "o'
senhor pode perguntar aqualquer umse isto não éumcasamento, bom, sólido e
cristão, etodos lhe dirão que é."7J
O ritual da venda da esposa era provavelmente uma "tradição inventada". 7"
Talvez só tenha sido inventada no final do século XVII, epossivelmente até mais
tarde. Sem dúvida, havia exemplos de venda de esposas antes de 1660, mas não
sei de nenhum caso que forneça evidência clara do leilão público eda corda.
75
O simbolismo era derivado do mercado, mas não necessariamente (a
princípio) do mercado de animais. Vários casos anteriores são de venda por pe-
so, e o mais bem documentado (que está registrado em queixas formais de fa-
bricários ao bispo) vem de Chinnor (Oxfordshire) em 1696, quando Thomas
Heath, um vendedor de malte, foi denunciado (e cumpriu pena) por ter vendido
aesposa por "'/" de pence" alibra.
76
Isso sugere que atransação primeiro tomou
emprestadas as formas do mercado demalte, queijo ou manteiga, esó mais tarde
(acorda, o leilão, os portões de pedágio, os impostos, os cercados) os do merca-
do de gado ou da feira de cavalos.
Isso não sugere umcostume antigo deorigem esquecida aolongo dos sécu-
los, mas a pressão de novas necessidades que buscavam um ritual para se
expressarem. U ma explicação, sugerida por observadores do século XIX, era que
a venda de esposas surgira como conseqüência das guerras~ com aseparação e
as novas ligações amorosas que daí advinham. Fato especialmente notado no fi-
nal das Guerras Napoleônicas: "Nos distritos manufatureiros, em 1815 e 1816,
dificilmente se passava umdia de mercado sem vendas desse tipo mês após mês.
As autoridades fechavam osolhos naépoca, easpessoas ficavamconvencidas
daperfeita legalidade doprocedimento". 77
Há alguma evidência quanto avendas desse tipo quando ummarido há
muito tempo ausente (ou supostamente morto) voltava do mar ou das guerras
para encontrar aesposa com umnovo marido enova família.?' As Guerras
Napoleônicas, quando multidões foramerradicadas dasparóquias, teriammul-
tiplicado essas ocasiões. Muitas esposas, como Margaret em "The ruined
cottage" [A choupana devastada] deWordsworth, teriamsidoabandonadas sem
notícias-
Ela não tivera
Notícias de seu marido; se vivia,
Ela não sabia que vivia; se morrera,
Ela não sabia que morrera. v,,,"
Mas esses casos são apenas umapequena minoria dentro denosso conjunto. A
maioria das vendas deesposa nãofoi causada por guerras.
O principal motivo eraocolapso doscasamentos, sendo avendaumartifí-
cio quetornava possível odivórcio público eumnovocasamento pelatrocade
umaesposa (enãodequalquer mulher) entredois homens. Paraqueesseartifí-
cio fosse eficaz, eram necessárias certas condições: o declínio da vigilância
punitiva daIgreja eseus tribunais sobre aconduta sexual; oconsentimento da
comunidade eumacerta autonomia dacultura plebéia emrelação àculta; uma
autoridade civil distanciada, desatenta outolerante. Essascondições existiamna
Inglaterra durante grande partedoséculo XVIII, quando oritual deitouraízes ese
tornou umaprática estabelecida.
Não épreciso explicar quecasamentos entramemcriseequealguma for-
madedivórcio éuma conveniência. Nessa época, não havia divórcio possível
paraopovoinglês ougalês. A alternativa talvez fossemastrocas informais eas
coabitações. Naprática, aausência deformalidades tinhaemgeral favorecido o
parceiro masculino, que- como mostram os registros das leis deassistência
aos pobres edas sessões trimestrais dos tribunais - encontrava maisfacilidade
emabandonar amulher eosfilhos doqueelaemabandoná-Ios. O homempodia
levar consigo umofício; uma vez escondido nacidade, asalvo dos fiscais dos
pobres, ele podia seestabelecer comuma nova parceira pelo direito consue-
tudinário. A mulher normalmente saíadeumcasamento impossível ouviolen-
toparaacasadospaisouparentes - anãoserquejátivesseencontrado umnovo
amante.
(Vil) She had learnedl No tidings of her husband; if he lived,l She knew nOllhm he lived; if
hewere dead,/ She knew no[ hewas dead.
Entreoshistoriadores queescreveram hácinqüenta anos, haviasugestões
dequeumagrande parte dos trabalhadores do século XVIlI vivianuma promis-
cuidade animal semnormas eformalidades, eembora essaacusação tenhasido
bastanterevista, delaaindarestamalguns ecos. Por vezesavendadaesposa tem
sido apresentada como umexemplo dessa brutalidade. Mas, claro, issoéexata-
mente oqueela não é. Seocomportamento sexual eas normas conjugais não
fossemestruturadas, qual teria sido anecessidade desse rito público tão espa-
lhafatoso? A venda da esposa foi inventada numa cultura plebéia, que era às
vezes crédula ousupersticiosa, mas que tinhaemaltaconta os rituais eas for-
malidades.
J áobservamos osbaluartes dessetipodecultura- aquelas comunidades,
às vezes descritas como prato-industriais, densamente unidas por laços depa-
rentesco eatividade econômica: os mineiros decarvão, oscuteleiros, os fabri-
cantes de malha, os fabricantes de meias, os ferreiros do B lack Country, os
tecelões, os que atuavam nos mercados enos transportes. Não importa seos
casamentos naigreja ou perante o direito consuetudinário fossem preferidos
nestaounaquelacomunidade,'o nemseastaxas defilhosbastardos econcepção
pré-nupcial estivessememelevação. Esses índices nãonosdizemtudooquepo-
demos querer saber sobre asnormas, asexpectativas, asreciprocidades conju-
gais e os papéis do casal, quando comprometido com um lar e filhos. O
casamento (formal oupelo direito consuetudinário) implicacoações dos paren-
tes, dos vizinhos, dos colegas de trabalho; envol vemuitos outros interesses
emocionais alémdos sentimentos das duas pessoas primariamente compro-
metidas. Quando considerarmos arough music, veremos queasexpectativas da
comunidade penetravam nolar dafamília, orientando eàsvezes restringindo a
conduta conjugal. Osolhos vigilantes dosparentes edosvizinhos tomavamim-
provável que os delitos conjugais passassem despercebidos nacomunidade
mais ampla. As disputas conjugais eramfreqüentemente levadas para fora de
casaerepresentadas como teatro derua, comumapeloloquaz aos vizinhos que
atuavamcomo umaaudiência dejurados.
Nãoeraumacultura puritana, eosmetodistas eosreformadores evangéli-
cos ficavamchocados comalicenciosidade quelheatribuíam, eespecialmente
comaliberdade sexual dosjovens esolteiros. Mas hámuitas evidências deque
oconsenso dessas comunidades eracapaz deimpor certasconvenções enormas,
alémdedefender ainstituição do próprio casamento, ou da unidade familiar
[household].
Essa unidade era não só doméstica como econômic~. Na verdade, éim-
possível indicar ondeasrelações "econômicas" terminavameondecomeçavam
asrelações "pessoais", pois ambas estavamimbricadas nomesmo contexto ge-
ral. Quando osnamorados secortejavam, eleseram"meuamor", masquando se
estabeleciam nanovaunidade familiar, passavamaser o"companheiro" umdo
outro, uma palavra que traz emseu bojo, emdoses iguais, o sentimento ea
função doméstica oupapel econômico. Éerrado supor que, como os homens e
as mulheres tinham necessidade de apoio econômico mútuo, ou daajuda dos
filhos notrabalho diário dacasa, issonecessariamente excluía oafeto egerava
uminstrumentalismo insensível. "Ossentimentos podemser mais, enãomenos,
ternos ouintensos pelo fatodeasrelações serem'econômicas' ecruciais paraa
sobrevivência mútua.""
Nessas comunidades, eraimpossível mudar deparceiro conjugal- epas-
sar paraumnovolar napróxima ruaounopróximo vilarejo - semser motivo
deescândalo diário econtínuo. A separação, especialmente sehouvesse filhos,
rasgava arededeparentescos eperturbava avizinhança trabalhadora.'2 Parecia
ameaçar osoutros lares. Masonovocasal talvez nãopudesseadotar asaídamais
fácil, migrando paraacidade maispróxima esua"anonimidade" mais tolerante,
simplesmente porque isso nãoerafácil. O ofício (fabricação depregos, manu-
fatura demalhas, mineração decarvão) podiaser local, talvez nãohouvesse ne-
nhumoutro empregador, nenhuma outrachoupana paraalugar. Seficassemna
suaprópria comunidade, erapreciso encontrar algumritual quereconhecesse a
transação.
Concordo com o mais cuidadoso historiador do casamento popular
britânico - J ohn Gillis - que avenda daesposa era vigorosamente àpoiada
nessas comunidades plebéias ouproto-industriais; queemgeral nãoeraumcos-
tumecamponês, eque"o próprio rito nãosedestinava alidar comcasamentos
emque houvesse propriedades ebens";') que asua freqüência declinava nas
grandes cidades, "onde aspessoas podiamseseparar ecasar denovo, semque
ninguémficasse sabendo ouseimportasse" - umaafirmação exagerada, pois
emqualquer ruadeumacidade aspessoas sabiamoufaziamquestão dedesco-
brir oqueestavaacontecendo. Emsuma, passamos deumaeconomia dousoda
terraparaumaeconomia damoeda: ocasamento comresidência éestabelecido
comaspoupanças conjuntas donoivoedanoiva(talvez como criados ouapren-
dizes), enãocomdotes oudireitos fundiários. Mas aindaestamos nummundo
comunal de umaregião trabalhadora comseu nexo demercado. E seacomu-
nidade éunida pelos laços deparentesco epelo trabalho comum, possui igual-
mente elementos decultura comum, feitos de fortes tradições orais (que são
essenciais paratransmitir osrituais populares) edeumaherança decostumes e
histórias freqüentemente codificados nodialeto dopovo.
Outrarazão paraapossível necessidade doritoquemarcavaodivórcio nes-
sascomunidades poderia levar aoexamedos recursos psíquicos desses homens
emulheres mais afundodoquenospermite anossacapacidade deanálise. Mas
pode-se arriscar que, mesmo quando ocasal trocava deparceiros esemudava
para outro distrito, os mais "simplórios" (como Hardy descreveu Susan Hen-
chard) continuariam asentir umdesconforto moral agudo, senãohouvesse al-
gumritoqueosliberasse dafidelidade oujuramentos anteriores. U mjuramento
podia causar umasanção terrível, uma obrigação inexorável, aos homens eàs
mulheres daquela época; eosvotos decasamento continham todaumacargade
saber tradicional.
Tudo isso afirma anecessidade de algum rito, eo próprio rito foi sufi-
cientemente descrito. Podeser visto como umatransação soturna, como teatro
derua, oucomo umritual dehumilhação. A descrição maisdensaquetemos de
todo oritual éareconstituição feitapor umjornalista observador, queoviuco-
moumacomédia decostumes noB lack Country (Apêndice, pp. 349-52). Mas a
forma era bastante flexível para comportar diferentes mensagens, segundo as
pessoas envolvidas eojulgamento dopúblico.
Isso pode ser ilustrado pela função do dinheiro pago natroca. A soma pa-
gavariavadamaissimples formalidade apreços substanciais. Eisalguns exem-
plos tirados de minhas anotações. EmStowmarket, em 1787, umfazendeiro
vendeu aesposa por cinco guinéus. Depois ele lhedeudepresente umguinéu
paracomprar umvestido novo, emandou queossinos repicassemparacelebrar
aocasião.'" EmSheffield, em1796, ummarido vendeu aesposa por seis pence.
Depois pagou umguinéu para que umacarruagem alevassejunto comocom-
prador atéManchester'5 EmHull, em 1806, umhomemvendeu amulher por
vinte guinéus aumsujeito que fora inquilino do casal durante quatro anos:
parece umpreço punitivo
H6
EmSmithfield, em 1832, aesposa foi vendida por
dez xelins, comdois xelins decomissão para o negociante degado. A esposa
pôde sair docercado nafrente datavema Half Moon, ondeostrês interessados
entãoentraram, tendooprimeiro maridogastoamaior partedodinheiro dacom-
pracomáguaeconhaque.'7 EmB oston (Lincolnshire), 1821, opreço pago foi
umxelim, tendo o marido devolvido onze pence ao comprador "para dar
sorte"." Mas no mesmo lugar, em l817, umaesposa fora vendida por três far-
things, eomarido "entregou nabarganha todaaparafernália daesposa, oquar-
todianteiro deumcarneiro, umacestaetc.".89
Queeraumritual dehumilhação paraaesposa, estáexplícito nosimbolis-
mo. A maioria dasesposas (como ade"Rough Moey", noApêndice) emalgum
momento sedesmanchava emlágrimas. Mas só porque diziacseque aesposa
"mal podia ser carregada por causa dos desmaios", enquanto estava sendo
"arrastada" por umacorda atéomercado (Darrmouth, 1817), não podemos ne-
cessariamente inferir que elaerauma participante contrária àtroca. Sabemos,
naquele caso, queelafoi vendida ao"seu primeiro amor", easuarelutância po-
diaigualmente provir dahumilhação daexposição pública.""A vergonha tam-
bémpodiaseestender ao marido queestavaadmitindo queforaenganado. Seo
relato éconfiá vel, J onathan J owett, um fazendeiro perto de Rotherham (1775),
enfrentou os trâmites da transação com uma "brincadeira ridícula". Concordou
em vender a mulher por 21 guinéus para William Taylor, oleiro, que ele sus-
peitava ser o amante da esposa, eentregou-a devidamente com uma "procissão
ordeira":
J owett seguia à frente, comacabeça ornamentada, por sua própria vontade, com
umgrande par dechifres decarneiro dourados, diante dos quais estavaescrita com
letras douradas aseguinte sentença, "coroeado por WilliamTaylor"; uma grande
coleira foracolocada ao redor deseupescoço, comumanel eumacorda nelaafi-
xados, pelos quais umdos vizinhos opuxava. E aesposa comumacorda aoredor
dopescoço foi levadapelo marido ao lugar marcado emmeio aos gritos deenco-
rajamento demil espectadores - J owett devolveu ao comprador umguinéu para
dar sorte, eambas aspartes pareciam satisfeitas comabarganha"
ocaso estava sendo representado aos olhos do público. Assim como ocon-
denado antes da execução, as partes desempenhavam os papéis esperados. Mas
tinham licença para improvisar as suas próprias falas. Para o marido, o teatro
providenciava aoportunidade de sal var asua dignidade. Ele podia ridicularizar
ehumilhar aesposa com aarenga do leiloeiro; ou podia sugerir que estava feliz
por se ver livre dela pedindo um preço ridículo; ou podia querer conquistar uma
reputação degenerosidade, mostrando asua boa vontade ao mandar que.os sinos
repicassem, ao despejar presentes sobre o novo casal, ou ao alugar uma carrua-
gem. Ou podia, como "Rough Moey", demonstrar uma resignação cômica: "To-
dos nós sabemos em que pé está a situação. Não há nada afazer, por isso não
adianta ser bárbaro".
Nem todas as separações eram suaves. Em alguns casos, comenta-se que
o marido teria manifestado raiva ou ciúme em relação ao rival. Em outros ca-
sos, ele "se arrependia" da venda e atormentava o novo casal. U m tecelão de
meias em Ansty (Leicestershire) vendeu a mulher para outro fabricante de
meias em 1829. Algumas semanas depois, ao passar pela casa do novo casal,
ele "viu a mulher trabalhando no tear, aparentemente bem satisfeita". Essa
visão de sua antiga companheira ajudando o seu rival oenfureceu de ciúme, ele
voltou com uma arma carregada ejá estava mirando a ex-esposa pela janela
quando umtranseunte interveio.
92
Outro caso que terminou em separação infe-
liz ocorreu no mercado de Goole (1849). U m barqueiro chamado Ashton fora
internado no hospital de Hull com uma infecção no joelho; enquanto isso (se-
gundo anotícia) amulher fugiu com seu amante, levando grande parte dos ob-
jetos do marido. Ao receber alta do hospital, Ashton descobriu o paradeiro do
casal, eos três acertaram a venda da esposa. A mulher foi obrigada asubir nu-
ma cadeira na praça do mercado com uma corda ao redor da cintura. Depois de
alguns lances "animados",
A mulher foi finalmente arrematada pelo amante por cinco xelins enove pence,
quando, estalando osdedos nacarado marido, elaexclamou: "Está vendo, seuim-
prestável, isso émais do que você conseguiria". E partiu, aparentemente com
grande alegria, aoladodeseunovosenhor emestre, omarido lheestendendo amão
quando passaram por eleedizendo: "U maperto demão, minha velha, antes denos
separarmos" .'''
Mas o caso não éassim tão "bárbaro", e sem dúvida alguma émenos bár-
baro do que as cenas que comumente ocorrem nos tribunais dedivórcio do sécu-
lo xx. Na verdade, éalinguagem dos repórteres moralistas que por vezes parece
mais bárbara do que o comportamento relatado. Como exemplo, eis uma notí-
cia de umjornal deYorkshire em 1829:
Segundo ocostume habitual [omarido] comprou umacorda nova, pelaqual pagou
seis pence, etendo-a amarrado ao redor do pescoço damulher, obrigou-a adesfi-
lar pela rua, asirigaita impudente não se vexando dessa exibição pública deseus
atrativos. Logo apareceu umcomprador, que ofereceu dezoito pence pelamulher
eacorda, eomarido não demorou aaceitar aproposta. A barganha foi realizada, e
ostrês desavergonhados seretiraram emmeio aosgritos damultidão paraumata-
verna, onde o dinheiro foi gasto, eo antigo proprietário da vagabunda bebeu à
saúde do comprador, tendo avadia declarado que estava bemsatisfeita com a
mudança, pois tinha "conseguido ohomem queelaamava"."
Sob essa linguagem estropiada, pode-se detectar humor, generosidade ementes
independentes.
Quando avenda setransformava em teatro derua, qual era opapel do públi-
co? As multidões eram às vezes numerosas - mencionava-se de vez em quan-
do "muitas centenas de pessoas" -, mas o mais comum era aaglomeração do
dia do mercado. Tanto quanto sepode inferir, aresposta do povo era ditada pela
sua opinião sobre os acertos eerros do caso conjugal específico representado à
sua frente. Quando se sabia que o marido maltratava aesposa, o novo casal po-
dia ser aplaudido ao passar; quando o marido era popular eachava-se que ele fo-
ra traído pela mulher eseu amante, amultidão podia assistir àcena com vaias e
pragas. Em Ferrybridge (Yorkshire), em 1815, o povo atirou bolas de neve e
lama no comprador enaesposa.
95
U m caso emNorth Yorkshire, quando opúbli-
co achou que um velho fora traído pela jovem mulher, resultou na queima das
efígies do novo casal no prado da aldeia.
96
E háoutros casos de rough music con-
tra o novo casal, amaioria depois de 1850, quando orito estava caindo emdesu-
SO.97 Em outras ocasiões, o público parece ter defendido o direito de os
interessados realizarem avenda. EmAshburn (Derbyshire), durante as Guerras
Napoleônicas, o general Pillet assistiu aumepisódio emque umjuiz de paz ten-
tou impedir avenda eos policiais foram atacados eapedrejados pela multidão.
Deforrnasemelhante, opovo protegeu avendadaintervenção das autoridades
emB olton (1835)98
Tem-se aimpressão deque, atéoinício doséculo XIX, nemasautoridades
seculares, nemas clericais demonstravam grande zelo emcensurar qualquer
uma das partes interessadas. Alguns clérigos emagistrados rurais tinham co-
nhecimento da prática, sendo possível encontrar entradas nos registros de
batismo: "Amie, filhadeMoses Stebbing, comumaesposacomprada quelhefoi
entregue presapor umacorda" (Perleigh, Essex, 1782)99 O magistrado queten-
touemvãointerviremAshburn confessou aogeneral queosmotivos desuaação
eramincertos. Elepodia tomar medidas contra as partes interessadas por per-
turbaremapaz ("entrando nomercado emmeioaumaespéciedetumulto"), mas
"quanto ao ato da venda emsi, acho que não tenho odireito de impedi-Ia [...]
porque está fundamentada numcostume preservado pelo povo, do qual seria
tal vez perigoso privá-lo" .1< XI U mtomdisciplinar setorna mais evidente depois
das guerras, comfortes eindignadas censuras dos tribunais eda imprensa, as
vendas sendo interrompidas por policiais eosparticipantes arrastados paraotri-
bunal.
'ol
Mas nãoeradetodo claro oqueos tribunais podiam fazer comeles. 102
Pois, aosolhos dalei, oritodavendadaesposa nãoeraumfato. (Sefosseaceito
comofato, aconseqüência seriabigamia.) Legalmente, osinteressados podiam
ter participado deumapantomima. Naverdade, quando umadisputa entreduas
paróquias sobreaguarda detrês crianças chegou perante assessões emB oston
(Lincolnshire) em 1819, considerou-se que, pela lei, apaternidade devia ser
atribuída aomarido legal damulher, J ohn Forrnan, mesmo queeleativesseven-
dido para outro homem, J oseph Holmes, dezessete anos antes, não coabitasse
comela, edois dos três filhos (omais velho tinha dozeanos) tivessemsido re-
gistrados nobatismo como filhos deJ oseph ePrudence Holmes. Osadvogados
argumentaram que a venda da esposa era "uma ação escandalosa", que se
deviam considerar legítimos os filhos de pais unidos legalmente pelo
matrimônio, eque"seria monstruoso admitir queummarido tomasse ainiciati-
vadetransformar os filhos daprópria mulher embastardos". O tribunal ratifi-
couessas opiniões.
,o3
Como todos concordavam queasvendas deesposa eram"monstruosas" e
"escandalosas", ostribunais podiaminstaurar processo por contravenção, mas
não por delito grave. J áacompanhamos odestino dos infelizes Charles eMary
Sk.innereJ ohnSavage, quesaíramdachoupana daassistência aos pobres oudo
asilo para aprisão, via taverna George andDragon emTonbridge (pp. 322-3).
Foram levados à prisão por uma acusação grandiosa, redigida (vi et armis) à
maneira doTribunal Superior deJ ustiça-
Sendopessoasdementeperversaedepravada,completamentedesprovidasdeum
devidosensodedecência,moralidadeereligião(...],eles,pelaforçadasarmas,as-
sociaram-se, coligaram-se efizeramumacordo paradesrespeitar osagrado estado
do matrimônio [...], paracorromper amoral dos súditos leais deSuaMajestade, e
para estimular o estado deadultério, perversidade edevassidão [...] isso eaquilo
[...] vendeu todos os seus direitos conjugais [...] etc. etc. [...] por umceno preço
valioso, (asaber) asoma deumxelimeumacaneca decerveja [...]etc. etal [...] para
ogrande desprazer deDeus Todo-Poderoso, para ogrande escândalo esubversão
do sagrado estado do matrimônio, da religião, da moral idade, dadecência eboa
ordem, emdesrespeito aorei, nosso soberano etc.'().l
Esses vilões monstruosos foram privilegiados em seu indiciamento. U m
comprador de Rutland teve de se contentar com aacusação de ser "uma pessoa
de mente eíndole perversa, indecente, lasciva, depravada edissoluta, ecomple-
tamente desprovida de qualquer senso de decência, moralidade e religião",
razão pela qual teve de pagar amulta de um xelim. 10' Era menos comum que as
esposas fossem incomodadas pelos tribunais, pois a lei supunha que agissem
sob as ordens ou controle dos maridos. Como Menefee demonstrou, aquestão
só entrou nos manuais deconsulta dos magistrados nadécada de 1830, época em
que foram impostas sentenças de prisão (de um, três, eaté de seis meses). '06
Isso pode ter contribuído para "diminuir as vendas deesposas", embora se-
ja mais provável que as tenha expulsado da praça do mercado para as tavernas.
A maior influência no declínio do ritual terá sido odeclínio de sua legitimidade
no consenso popular - aantiga cultura plebéia estava perdendo rapidamente a
sua autoridade, tendo de lidar com críticas internas e com incerteza quanto às
suas próprias sanções e códigos. A imprensa radical e cartista via aprática co-
mo escandalosa. 'O? Até Eliza Sharples, aesposa "moral" (isto é, pelo direito con-
suetudinário) de Richard Carlile, que reconhecia a função da venda como
divórcio, achava aprática ofensiva ebrutal: "Seria muito melhor uma separação
discreta, cada um podendo fazer uma nova e livre escolha. Enquanto as mulhe-
res consentirem emser tratadas como inferiores aos homens, édeesperar que os
homens sejam brutos".'o,
Pela metade do século, na agitação que provocou aLei das Causas Matri-
moniais de 1857 (a que estabeleceu pela primeira vez processos de divórcio se-
cular), havia comentários mais freqüentes sobre oduplo padrão que permitia um
divórcio difícil edispendioso para os ricos, por meio dos tribunais eclesiásticos
eda Câmara dos Lordes, mas que o negava aos pobres. Embora - como apon-
tava Punch - o mesmo processo também fosse permitido aos pobres:
No Tribunal Central, umcerto Stephen Cummins, pintol'; éjulgado culpado de
bigamia. Ele vende amulher por seis xelins, mais "umxelimparabeber àsaúde".
Para que atransação tenha aforma devida, Cummins dáumrecibo. Ao condenar
Cummins à prisão eaos trabalhos forçados durante umano, ojuiz declara: "Em
qualquer circunstância, seria umgrande delito público umhomem realizar aceri-
mônia decasamento com outra mulher, enquanto sua esposa ainda fosse viva".
Mas oproblema éque os pobres são tãodepravados - tão analfabetos! Eles não
procuramoTribunal Eclesiástico-eles não recorremàCâmara dos Lordes. Sem-
preépossível obter uma separação legal, que confere odireito de casamento fu-
turo, com aapresentação de evidências apropriadas - porém, os pobres não
querem comprar oseuremédio.'"'
Caroline Norton propôs o mesmo argumento em termos igualmente irados.
Desde aépoca de Henry VIII, o método inglês de divórcio "continua uma indul-
gência consagrada àaristocracia":
Asclasses mais pobres não têmnenhuma formadedivórcio. O homem ricorealiza
umnovocasamento, depois desedivorciar daesposa naCâmara dos Lordes: oseu
novocasamento élegal, osfilhos são legítimos [...]. O homempobre realiza umno-
vocasamento, semter sedivorciado daesposa naCâmara dos Lordes; oseu novo
casamento énulo, os filhos são bastardos, eele próprio está sujeito aser julgado
por bigamia [...]. Eles nemsempre infringem alei comconhecimento decausa-
pois nadaémaior do que aignorância dos pobres aesse respeito. Eles acreditam
queummagistrado podedivorciá-Ios, queumaausência deseteanos constitui uma
anulação dos laços matrimoniais, ouque podem dar umao outro permissão recí-
procaparasedivorciar. Eentre partedaspopulações rurais prevalece acrença mais
grosseira, deque umhomem pode legalmente vender aesposa, eassimromper os
J iIÇOS daunião! Eles acreditam emqualquer coisa, menos no que éfato - isto é,
queeles não podemfazer legalmente oque sabemser legalmente feito násclasses
superiores [...]."0
Nadécada de 1850, avenda da esposa era um resíduo nos bolsães onde a
antiga cultura "plebéia" ainda persistia. Há um caso tardio de 1858, em B rad-
ford (Yorkshire), que sugere um momento de insegurança cultural, quando a
transmissão oral das formas já está se deteriorando. Hartley Thompson pôs à
venda aesposa, "de aparência atraente", na frente de uma cervejaria num su-
búrbio de B radford. Segundo um relato, os cônjuges, ambos operários de uma
fábrica, "tinham se cansado mutuamente um do outro, e, era o que se dizia, ti-
nham sido mutuamente infiéis a seus votos de casamento". Acontecera uma
venda (não é explicado de que forma) para o amante da mulher, Ike Duncan,
também operário da fábrica. "Entretanto, descobriu-se mais tarde que alguma
formalidade, considerada essencial, não fora observada." Nessa nova ocasião,
cuidou-se de toda possível formalidade. O apregoador foi enviado pela cidade
para anunciar avenda. A esposa apareceu com uma corda nova, enfeitada com
bandeirolas vermelhas, brancas e azuis. Arrumou-se um leiloeiro a cavalo.
U ma grande multidão se formou. Mas os donos da fábrica onde os três traba-
lhavam impediram a venda, ameaçando despedir quem participasse do ritual.
Ike Duncan não teve permissão para deixar o trabalho, eaesposa declarou que
"não seria vendida para nenhuma outra pessoa [...] anão ser Ike". A venda foi
cancelada. III
Dadécada de 1850emdiante, apráticarecuou paraasformas maisdiscre-
tasdecontratos assinados perante testemunhas nobar. O casomais tardionami-
nhasériedeexemplos, emque semenciona especificamente umacorda, éode
Hucknall Torkard, perto de Sheffield, 1889, quando "um membro ilustre do
Exército daSalvação" vendeu aesposaparaumamigo por umxelimeconduziu-
aamarradapor umacordaatéacasadocomprador. 112 Oscontratos assinados vêm
àluz commais freqüência: umaldeão de Lincolnshire foi à repartição do selo
paracolocar umselonoseudocumento. IiJ Astrocas eramcasos tristeseàsvezes
furtivos, foraoudentro dastavernas. U matestemunha lembrou umavendadian-
tedeumatavernaemWhitechapel: omarido, "umsujeito deaparência miserá-
vel"; aesposa, "umamulher vestidarespeitavelmente, maisoumenoscomtrinta
anos"; osenhorio fazendo asvezes deleiloeiro, eumjovem que"todos sabiam
que seria o autor do maior lance". O par recém-unido saiu caminhando, "o
homemcomumardebravata, eamulher comonariz noar", enquanto oex-mari-
do "parecia triste, e os vizinhos [dele] não demonstravam nem pena, nem
aprovação" .". Nas Midlands enoNorte, dizia-se queocorriamvendasentretra-
balhadores deescavações, alguns mineiros decarvão, barqueiros, alguns traba-
lhadores. Publicidade era tudo o que o ritual então parecia exigir. A imprensa
noticiou(1882) queumamulher foravendidapelomarido por umcopodecerve-
janumatavernaemAlfreton numsábado ànoite. "Diante deumasalarepletade
homens, elepropôs vendê-Iapor umcopo decerveja, ecomo aoferta foi aceita
por umjovem, elaprontamente concordou, tirou aaliança, edaquele momento
emdianteconsiderou-se propriedade docomprador." I 15
Osfolcloristas eosjornalistas nasdécadas de1870e1880indicamqueper-
sistiaosenso delegitimidade daprática. NoStandard, umeditorial afirmavaem
1881queaindaocorriam vendas nosPotteries, emcertos distritos mineradores,
eemSheffield entreosaceiros. A cordaerararamente usada. "O vendedor", es-
creviaoeditorialista, "a'cabeça degado' eocomprador, todosacreditamfirme-
mente que estão participando de um ato de divórcio e de novo casamento
perfeitamente legal."116 No mesmo dia, o ministro doInterior, Sir WilliamHar-
court, foi questionado sobre aquestão naCâmara dos Comuns por umna-
cionalista irlandês membro do Parlamento. A sua resposta foi seca: "Todo
mundo sabequeessaprática nãoexiste. ['Oh"] B em, seosexcelentíssimos ca-
valheiros daIrlanda achamque o caso édiferente comreferência àquele país,
nada tenho adizer [...]". Mas, naopinião do ministro do Interior, aprática era
"desconhecida" naInglaterra. li?
As vendas de esposas serviram para inspirar eloqüentes exercícios de
moralismo. No século XIX, os franceses eoutros vizinhos continentais usaram
as vendas para atacar os ingleses comindignação ou zombaria. Também os
norte-americanos (escreveu afeminista CarolineDalI) "estão ansiosos por com-
preender essaafronta. Serápossível queumgoverno queproíbe avendadeum
negro nãopossaproibir avendadeumaesposa saxônica?".'" Atéacomunidade
anglo-indiana ou "eurasiana", despeitada pelo declínio de seu status racial,
traziaotemaàbailaacusadoramente.' '9Asclasses educadas daInglaterra - co-
mo vimos emmuitos exemplos - acusavam por suavez os trabalhadores po-
bres brutalizados.
Como aescassa evidência não "parecia" apontar exatamente nessa di-
reção, comecei aminha pesquisa e, no seu devido tempo, passei adivulgar os
rascunhos destecapítulo empalestras eventuais. No fimdadécada de 1970, eu
já lamentava aminhaescolha, eteriaparado deapresentar otemaemconferên-
cias, mesmo quenãotivesseaatenção desviada paraoutras questões. Poisalgu-
mas feministas decidiram que aminha palestra era umaleitura masculina das
evidências, eque era ofensivo corrigir visões da "história das mulheres". As
feministas norte-americanas da tradição deCaroline Dali foramas que mani-
festaram mais fortemente essa crítica. Numa universidade que possui alguma
reputação (Yale), quando saí dasaladeconferências, umaprofessora gritouque
aminhapalestra fora"umtruquesujo". Emoutraocasião, umapesquisadora por
quemtenhogranderespeito meacusoudesuprimir ofatodequeaesposa, quan-
do vendida, estava sendo roubada deseudoteedos direitos apensos. Mas evi-
dências nessesentido ainda nãomechegaramàsmãos. 12"
Em suma, espalhou-se o rumor de que eu estava apresentando uma
palestra antifeminista, e recepções eram preparadas. Embora as platéias
britânicas fossem mais bem-humoradas, eu mecansei do tomhostil das per-
guntas - como seeuestivesse tentando impingir uma fraude aopúblico - e
tambémfiquei umpouco magoado, pois tinhasuposto estar do lado dos direi-
tos das mulheres (uma suposição que minhas questionadoras desejavam an-
siosamente contradizer). Por isso deixei a palestra de lado. Esse tipo de
charivari intelectual édeseesperar depois demuitas gerações dehistória com
inflexão masculina. Émerecido, umpreço pequeno apagar pelo rápido avanço
nas leituras edefinições femininas.
O meu erro foi despertar certas expectativas, edepois desapontá-Ias. O
meutítulo, "A vendadeesposas", levaraopúblico aesperar umapesquisa eru-
dita sobre mais umexemplo da miserável opressão das mulheres. Mas o meu
material nãoseajustava (enãoseajusta) exatamente aesseestereótipo. Naver-
dade, aITÚnhaintenção era decodificar o comportamento (e até as relações in-
terpessoais) que tinha sido estereotipado pelos moralistas da classe média
(principalmente masculinos). A questão da opressão feminina era um tema su-
bordinado.
Talvez demasiada subordinado. Talvez não tenha sido suficientemente re-
conhecido neste capítulo. Não se pode estar sempre reiterando a organização
elementar da sociedade e suas relações de gênero, assim como não se pode es-
tar sempre analisando os elementos do discurso, pois isso impede que se ouça o
sentido dafrase. Se apenas vemos patriarcado nas relações entre os homens eas
mulheres, podemos estar perdendo outros dados importantes - eimportantes
tanto para as mulheres como para os homens. A venda da esposa certamente nos
fala de dominação masculina, mas isso é algo que já conhecemos. O que não
podíamos saber, sem apesq uisa, éopequeno espaço para afirmação pessoal que
aprática podia proporcionar àesposa.
AdITÚtamos, sem nenhuma reserva, que a venda de esposas ocorria numa
sociedade emque alei, aIgreja, aeconoITÚaeocostume atribuíam àmulher uma
posição inferior ou (formalmente) impotente. Se quisermos, podemos dar aesse
fato o nome de patriarcado, embora um homem não tivesse de ser chefe de
farrulia para estar numa posição privilegiada emrelação àmaioria das mulheres
(de sua própria classe). Os homens de todas as classes usavam um vocabulário
de autoridade epropriedade com respeito às esposas efilhos, eaIgreja ealei en-
corajavam essa atitude. A venda das esposas, portanto, aparece como umexem-
plo extremo do caso geral. A esposa é vendida como um bem, e o ritual, que a
transformava numa égua ou numa vaca, era degradante e tinha a intenção de
degradar. Ela ficava exposta, no que dizia respeito à sua natureza sexual, aos
olhos eàs brincadeiras rudes de uma multidão desconhecida. Embora fosse ven-
dida com oseu próprio consentimento, era uma experiência profundamente hu-
milhante, que às vezes provocava raiva'" nas outras mulheres, e às vezes
invocava asua simpatia: "Não faz mal, Sal, coragem, levante acabeça, não de-
sanime nunca!" (p. 350).
Mesmo se redefinimos avenda das esposas como divórcio consentido, era
atroca de uma mulher entre dois homens, '" enão adeumhomem entre duas mu-
lheres. (Há na verdade registros de vendas de maridos, mas eles podem ser con-
tados nos dedos de uma das mãos.)'" Não se põe emdúvida ofato deque oritual
ocorria no âmbito das formas evocabulário de uma sociedade emque as relações
de gênero eram estruturadas em modos de doITÚnação/subordinação.
Mas havia algo em funcionamento no interior da forma que às vezes con-
tradizia asua intenção. As vendas não precisavam favorecer o marido. Nem de-
vemos supor que as normas desses trabalhadores fossem idênticas àquelas
prescritas pela Igreja epela lei - o que provoca erros graves de interpretação.
Nessas comunidades trabalhadoras "prato-industriais", asrelações entreosse-
xos estavam passando por mudanças. Ainda não éapropriado usar umvoca-
bulário de "direitos"; talvez "valor" ou "respeito" sejam os termos de que
precisemos. O valor dasmulheres nesseslaresdemuitotrabalho erasubstancial,
assimcomo eraasuaresponsabilidade, criando umaáreadecorrespondente au-
toridade eindependência. Quando considerarmos arough music, vou sugerir
queainsegurança masculina emfacedessacrescente independência talvez ex-
pliquealguns dos"desfiles" [skimmingtons] noOestetradicional, comasuaob-
sessão pelos cornos eo seu medo das mulheres "emposição superior". E as
mulheres robustas quevimos àfrente dos motins dafomedificilmente seadap-
tamaopapel devítimas abjetas - umpapel quelhesfoi atribuído háalguns anos
pelaortodoxia decertas feministas acadêmicas.
Ler ahistória das mulheres como umahistória devítimas absolutas, como
sequalquer co~a antes de 1970fosse pré-história feminina, pode dar uma boa
polêmica. Mas nãoéelogio para asmulheres. Fui alertado sobre esseerro logo
no início deminha carreira, quando, como professor deadultos, falava numa
escola diurna daAssociação Educacional dos Trabalhadores numa cidade-
mercado naregião norte deLincolnshire, emedeixava arrebatar por umaelo-
qüência condescendente sobre aopressão das mulheres. U ma aldeã idosa e
autodidata, comumrosto perspicaz marcado pelo tempo, ficoutensa epor fim
explodiu: "Nós mulheres conhecíamos os nossos direitos, sabe. Sabíamos o
quenoseradevido". E compreendi comembaraço queelaeoutros membros da
platéia tinhamescutado aminha ênfase inexperiente sobre ocaráter devítima
das mulheres como uminsulto. Elas me instruíram que as trabalhadoras ha-
viamcriado seus próprios espaços culturais, possuíam meios defazer valer as
suas normas, ecuidavam parareceber oquelhes era"devido". Talvez nãofos-
sem os "direitos" de hoje em dia, mas elas não eram sujeitos passivos da
história.
Muitos anos mais tarde, estava numa conferência emalgumlugar naNo-
vaInglaterra quando umconferencista começou adenunciar comgrande vi-
vacidade, emuitos aplausos, os pecados do autor deA formação da classe
operária inglesa "masculina entre aspas", indicando as minhas omissões.
Eramcomentários justos, mas meu amigo, ofalecido Herbert Gutman, achou
queeuprecisava dealgumapoio esussurrou nomeuouvido: "Sabe, essagente
está fazendo o mesmo erro de alguns historiadores dos negros. Eles sempre
queriammostrar ossujeitos como vítimas. Negavam-Ihes atividade própria"."4
Como o sussurro deHerb foi mais umresmungo, oseucomentário perturbou
cinco ouseis fileiras nafrente eatrás denós. Não faz mal, eletinha razão.
A vendadaesposa erauma ação possível (ainda que extrema) napolítica
davida pessoal dos trabalhadores do século XVII!. Sim, asregras dessa política
serviam àdominação masculina, embora as mulheres na comunidade fossem as
guardiãs particulares das instituições da família. Mas de vez em quando as mu-
lheres pareciam ter o dom de alterar os lances em proveito próprio. Não vejo
razão para que essa conclusão seja considerada "antifeminista".
Há certamente vítimas entre as esposas vendidas, '25 mas é muito mais fre-
qüente que os relatos sugiram asua independência e vitalidade sexual. As mu-
lheres são descritas como "belas", "viçosas", "de boa aparência", "uma garota
bonita do campo", ou como alguém que estava "gostando muito do divertimen-
toeda brincadeira". 12. Sally, nabalada de "Samuel Lett" de B ilston, nos dáo tipo
popular da esposa que poderia ser vendida:
Ela é que manda na casa
É o que todo mundo diz;
Mas Leu não devia deixá-I a
Fazer tado o que quer.
Ela pragueja como um soldado
E briga como um galo,
Ejá deu no seu velho camarada
Muitos golpes violentos. VIII'"
E podemos identificar pelo menos uma esposa vendida (no mercaoo de Here-
ford bem no início do século XIX) que corresponde aesse tipo:
Ela eraamulher que carregava o pão ensangüentado nos motins do pão. Vi tudo.
Eu avi à frente das mulheres, incitando-as aseapoderarem dacarga degrãos. O
velho dr. Symonds lhedisse para tirar aligadaperna direita, amarrá-Ia nocavalo
dianteiro, edeixar aparelha avançar. Foi oquefizeram [...]. Elescompuseram uma
belacanção sobre todo ogrupo, quecomeçava assim-
Você não ouviu falar de nossas mulheres de Herefordshire?
De como elas saíam correndo e deixavam a roca defiar-
De como saíam correndo sem chapéu, nem plumas
Para lutar por pão, lutavam sob qualquer tempo-
Oh, as nossas bravas mulheres de Herefordshire!'X '"
Não temos meios de saber se ela foi vendida antes ou depois desse con-
fronto. '29 Mas ela não parece alguém que seria vendida contra asua vontade.
(VIII) Herwearsmen'sbreechesl Soali lhefolkssay:l B utLeushouldnaletherl Haveali her
ownway.ll Herswearslíkealrooperl Andfightslikeacock,l Andhasglnheroldfellerl Manya
hardknock.
(IX) Haveyounol heardof ourHerefordshirewomen?1 Howthey[anandlefl theirspinning
-I Howtheyranwithouthator featherl Tofightforbread, 'twasthroughali weather"':"lOh.our
braveHerefordshirewomen'
Outraesposa, vendida nomercado deWenlock por dois xelins eseispence
nadécadade 1830, tinhaposição bemdefinidasobreaquestão. Quando chegou
à"praça domercado, omarido ficoutímido etentou sair dahistória, masMattie
fez comque mantivesse avenda. Deu umpiparote nacara do bomhomem, e
disse: 'Deixa, seupatife,' Eu vouser vendida. Quero umamudança'" .130
oseguinterelatoétiradodaobradeFrederick W.Hackwood, Staffordshire
customs, superstitions and folklore [Costumes, superstições e folclore de
Staffordshire] (Lichfield, 1924), pp. 71-3. Ele o apresenta como "um relato
descritivo de uma venda de esposa emWednesbury, há mais de umséculo,
redigido epublicado por umespectador", mas não fornece outros detalhes so-
breafonte.
Colocando-se diantedeumatavernahumilde, oapregoadordacidadetoca
osino paraatrair aatenção, edepois dáanotícia comfrases lentas, deliberadas,
deque"umamulher - eseubebê- serão postos- àvenda- napraçadomer-
cado- hojeàtarde- pelo marido - Moses Maggs".
A notícia foi recebida comgrandes gargalhadas, seguidas por gritos de
"hurra", poisoherói nomeado eraumdospersonagens mais notórios dacidade,
comumente conhecido como Rough Moey. Eraumsujeito forte, corpulento, de
uns 45anos. O rosto apresentava outrora profundos buracos devaríola, mas as
marcas dadoença foramliteralmente apagadas por sulcos azuis-escuros, ore-
sultado deuma explosão no poço damina. Eleperdera umdos olhos, eolugar
deumaperna forasuprido por umtoco demadeira. Nemsuas feições, nemsua
figuraeramatraentes.
Os lojistas vieram atéaporta das lojas para comentar anotícia do apre-
goador, easmulheres comasmãos nacintura sereuniam naruaemgrupos de
duas ou três para mexericar sobre o assunto. Outros vagabundos interessados
levaramadiscussão paraobar maispróximo. O apregoadorseafastoupararepe-
tiranotíciaemoutro lugar, seguido por umamultidãodem~lequesesfarrapados.
Pouco antes dahora marcada, formou-se umamultidão napraça do mer-
cado, na frente da White Lion, uma taverna bemfreqüentada, onde quatro
sujeitos altos, armados comporretes, abriram espaço e impediam que os es-
pectadores curiosos esmagassem um homem, uma mulher e um bebê - os
heróis do dia.
A mulher era mais jovem que o homem, provavelmente 23 anos, e tinha
uma aparência tão bela quanto lhe permitia a sua situação na vida, casada ou
"alugada" para um homem como o seu companheiro. Nos braços, ela tinha um
bebê de uns doze meses, que não se perturbava com abalbúrdia ao redor. A mu-
lher estava evidentemente com suas melhores roupas, o rosto bem lavado, o ca-
belo preso atrás da cabeça e atado por um pedaço de fita azul, cujas pontas
flutuavam como bandeirolas graciosas, sem dúvida em honra da ocasião.
Embora uma corda comum de cânhamo pendesse frouxamente ao redor do
pescoço daesposa, eo marido esenhor segurasse na mão aponta dessa corda, a
mulher - ajulgar pela sua aparência - não estava achando asituação penosa
ou desagradável. E aos gritos deapoio como "Não faz mal, Sal, coragem, levante
acabeça, não desanime nunca''', ela respondia com umriso alegre ecom alguns
comentários que asseguravam aos ouvintes que ela ficaria feliz de se ver livre do
velho patife, eque era bem-feito por ter se casado com um velho vagabundo.
Depois que se fez alguma ordem, mandou-se buscar acerveja. Quatro su-
jeitos fortes trouxeram duas tinas para fora e as viraram de cabeça pará baixo.
Numa delas montaram amulhere o bebê, enaoutra o marido tomou oseu lugar.
Enquanto os participantes bebiam a cerveja, convocou-se um rabequista para
animar oespetáculo com uma ou duas melodias alegres.
Durante ointerlúdio, as informações que o inspetor de registros colheu en-
tre amultidão trouxeram àtona os seguintes fatos. Que Rough Moey dera auma
forte moça da mina, que tinha mais ou menos ametade da sua idade, um vestido
novo e outros artigos de vestuário, junto com uma festa de duas semanas, para
que ela se casasse com ele. Que depois de algum tempo ela transferira o seu afe-
to para umjovem mineiro de bela aparência; o que naturalmente provocou o
ciúme do marido, que começou abater namulher. Em vez de curá-Ia, isso só des-
pertou pensamentos de retaliação; e, como Moey em geral chegava em casa de
noite num estado de irremediável embriaguez, ela gentilmente desatava aperna
de pau do bêbado adormecido e batia no marido até ficar satisfeita. Por fim,
cansado dessa situação, o marido contrariado resolvera acabar com oproblema
pela única maneira que conhecia, aderealizar atransferência "legal" de uma es-
posa indesejada, vendendo-a ao seu admirador no mercado aberto.
A música cessara, aatenção da multidão estava concentrada nos principais
atores da cena. Com acorda na mão esquerda, o homem levantou bem alto com
aoutra mão uma grande caneca cheia decerveja, ecom uma piscadela maliciosa
do único olho, disse com uma voz rouca eforte: "Senhoras esenhores, umbrinde
àsua saúde!". E tomando umgole bem demorado, terminou com um longo sus-
piro de satisfação: "Ah-h-h I",enquanto virava acaneca para mostrar que estava
vazia. Alguns deseus amigos (ou"camaradas", como eleoschamava) respon-
deram com "Obrigado, Moey", enquanto algumas das mulheres gritavam:
"Ótimo, meuvelho!".
Perto damulher estava umjovem robusto, evidentemente ofuturo com-
prador, quelheserviacerveja. Elaestavamantendo umaconversaanimada com
asmulheres aoredor; mas, apesar dessaatitudededesafio, todosviramqueseus
olhos então seencheram delágrimas, eos seios começaram aarfar como seo
coração estivesse batendo furiosamente sobatensão daemoção reprimida. Sua
voz vacilou, eentregando rapidamente acriança nas mãos dojovem, elasesen-
tousobre atina, enterrou orosto nas mãos echorou amargamente. ND mesmo
instante, todos osrisos cessaram, oclamor foi abafado, eumar deindignação se
espalhou pelos semblantes detodas asmulheres. Atéalguns dos homens pare-
ciamincapazes dereprimir umasensação deafronta, aqueofuturo comprador
deuvoz, imprecando comvoz furiosa: "Vamos, camarada, acabecomessapa-
lhaçada ecomece avenda!".
Assimovelho Rough Moey começou no seguinte estilo: "Senhoras ese-
nhores", disseele, "todos nós sabemos emquepéestáasituação. Nãohánadaa
fazer, por issonãoadianta ser bárbaro". Depois, fortalecendo-se comoutro gole
episcando medonhamente o olho quelhe restava, continuou: "Senhoras ese-
nhores, peço permissão paralhes apresentar umajovemmuito bela, eumboni-
tobebê, quepertence amimouaalgumoutro". Nesseponto, todosriram, obom
humor crescia novamente entreosespectadores.
"Elaéumaboacriatura", continuou oleiloeiro amador, "etrabalha muito
bem, comalgumas chicotadas. Sabecozinhar umacabeça deovelhacomo um
cristão, efazer uma sopa tão boa quanto Lord Dartmouth. Consegue carregar
150pedaços decarvão daminapor umas boas três milhas; sabevender bem, e
comer oqueganhou emmenos detrêsminutos."
Essechiste provocou novos risos, eoorador foi recompensado commais
cerveja. Assim reanimado, Moey prosseguiu: "Agora, meus camaradas,
cheguemmaisperto, efaçamseuslances comanimação. Estátudocertodeacor-
docomalei. Euafizpassar pelos portões dopedágio, epaguei aohomemotri-
buto por ela. Eu a trouxe puxada pela corda, e mandei que a venda fosse
anunciada; assimestátudodireito deacordo comalei, enãohánadaapagar. Va-
mosver osseus lances, esemederemumbompreçopela mulher, obebêentra
degraça nabarganha. Agora, cavalheiros, quem vai fazer u~ lance? Quemdá
mais, quemdámais, quemdámais? Não posso ficar esperando - como diz o
leiloeiro, nãoposso perder tempo sócomestelote!".
O orador parou defalar, eaplausos recompensaram osseusesforços. U ma
voz dentreamultidão gritou "dezoito pence".
"Dezoito pence", repetiu Moey, "só dezoito pence por umajovem fortee
bemdesenvolvida! Ora, vocêteriadepagar aopároco seteouseis parasecasar,
eulheofereço umaesposajá pronta nassuasmãos-e vocêfazumlancedeape-
nasdezoito pence
l
"
"Eu lhedou meia coroa, velho bruto", foi aproposta dojovem que todos
sabiamqueseriaocomprador.
"Voulhedizer umacoisa, J ack", disseMoey, "se vocêinteirar três galões
debebida, elaésua, nãovoupedir nadapelo bebê, eacordavaleumaquarta. Va-
mos, digaseisxelins!"
Depois deregatear umpouco, ojovemconcordou empagar três galões de
cerveja, queseestipulou fossem logo servidos, para que aesposa recém-com-
prada, oprópriojovem, ealguns "camaradas" escolhidos, semesquecer oamá-
vel rabequista, participassem dobrinderatificador.
Assimconcluída abarganha, acorda foi colocada namão dojovem, ea
moçarecebeu oscumprimentos denumerosas matronas encardidas. Elalimpou
osolhos esorriu alegremente; onovo marido lhepespegou umbeijo bemesta-
ladonabochecha redonda àguisa deratificação, equando onovocasal seafas-
tou, amultidão sedesfez elentamente sedispersou. A tragicomédia davidarude
doB lack Country estavafinda.