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“...um pretexto para
percorrer Portugal com
um livro nas mãos”
José Saramago
NA ROTA PORTUGUESA DO
Reprodução em faiança de Castelo Rodrigo
a partir do desenho quinhentista de Duarte d’Armas
Caminho de
SALOMÃO
BELÉM | CONSTÂNCIA | CASTELO NOVO | BELMONTE
SORTELHA | CIDADELHE | CASTELO RODRIGO
O Caminho de Salomão nasceu para que
o 18 de junho não fosse dia de morte.
Obrigado, Saramago.
Pilar del Río
In O Caminho de Salomão - Rota portuguesa - www.ocaminhodesalomão.com
Amigos, percorram O Caminho de Salomão, sintam o cheiro de uma pedra e o
deslumbramento de uma imagem. Oiçam cantos nas maneiras de falar e nos cos-
tumes antigos de receber. Contemplem das ameias centenárias oliveiras que já aí
estavam quando conquistados e conquistadores disputavam entre si o paraíso.
In O Caminho de Salomão
- Rota portuguesa - www.ocaminhodesalomão.com
Introdução
Em busca do caminho..............................................................................................................
E
m 2009, José Saramago quis marcar,
com Pilar del Río, novos apeadeiros
entre os dois pontos da viagem portu-
guesa que escrevera, um ano antes,
para o elefante Salomão.
Partindo a 17 de junho da cerca de Be-
lém - Jerónimos (Lisboa), passaram por
Constância, Castelo Novo (Fundão), Bel-
monte, Sortelha (Sabugal), Cidadelhe
(Pinhel), até Castelo Rodrigo (Figueira de
Castelo Rodrigo), vila do Interior que já
tinha visto no livro A Viagem do Elefante
ocupar lugar de destaque, que agora
recebia pela primeira vez um Nobel da
Literatura e lembraria, precisamente um
ano depois, também o seu desapareci-
mento.
“Então vamos lá a esta viagem a Por-
tugal”, disse Saramago ao iniciar a via-
gem com os amigos de Salomão, e
que para o Nobel seria “também uma
viagem interior, pela literatura e pela
memória.”, talvez pressentindo ser a sua
última, por Portugal, e a partir da qual se
gerou definitivamente um novo itinerário.
Nascido o Caminho de Salomão, e ago-
ra se este pequeno roteiro servir apenas
como azimute para uma viagem, se os
seus leitores encontrarem nele razões
para redescobrirem outras épocas, res-
petivos patrimónios arquitetónicos, situ-
arem-se nos reinados ou nas vivências
das suas Ordens Religiosas, nos tempos
das Invasões Francesas, nas memórias
locais, nos mitos, lendas e tradições,
conhecerem criadores artísticos menos
notados, outros escritores e descobrido-
res esquecidos, ou os seculares saberes
das gastronomias locais, perguntarem
pelas Aldeias Históricas de Portugal, ou
perderem-se pelos caminhos portugue-
ses para Santiago de Compostela, en-
tão ele cumprirá a sua função.
É também um convite às águas doces
de um país atravessado pelos rios Tejo,
Zêzere e Côa, mas no sentido inverso ao
normal caminho das águas, dos tem-
pos e dos homens, que desde sempre
rumaram do Interior para o Litoral em
busca da promessa do desconhecido,
por um caminho que teima em pedir
regressos e que, como nunca, merece
ser retomado.
O percurso indica-se nestas páginas,
mas o verdadeiro caminho é seu.

Daniel Saraiva Gil
Nota de Autor - A numeração no decorrer do texto propõe um conhecimento mais detalhado de algum
do património histórico do Caminho, em legendas anexas que são, na sua maioria, excertos de
conteúdos oficiais do IGESPAR - Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e Arqueológico..
5
Em busca do caminho..............................................................................................................
p8 Lisboa BELÉM
p18 CONSTÂNCIA
p28 Fundão CASTELO NOVO
p38 BELMONTE
p48 Sabugal SORTELHA
p58 Pinhel CIDADELHE
p68 Figueira de CASTELO RODRIGO

“A felicidade, fique o leitor sabendo, tem muitos rostos. Viajar é, prova-
velmente, um deles. Entregue as suas flores a quem saiba cuidar delas, e
comece. Ou recomece. Nenhuma viagem é definitiva.”
José Saramago
In Apresentação, Viagem a Portugal - 1ª edição 1981.
Peça na Casa-Museu Vasco de Lima Couto em Constância
Cerca de Belém
Jerónimos Lisboa
P
ara redescobrir hoje o percurso do
elefante, feito presente pela realeza
portuguesa ao arquiduque Maximiiano
de Áustria, precisamente 461 anos de-
pois da efeméride que o levaria de Lis-
boa a Viena, e para desvendar o não
menos real caminho que José Sarama-
go preconizou para o Salomão, somos
obrigados a recuar no tempo e à aldeia
do Restelo, à praia de Belém, a uma
época ímpar na história portuguesa que
levou à construção de um mosteiro no
lugar de uma ermida em Santa Maria
de Belém.
É do mesmo ano de 1551 a conclusão
de toda a parte religiosa de um novo
Mosteiro, hoje conhecido por Jerónimos
(1)
, conclusão que permitiria ao então rei
D. João III trasladar os ossos do seu pai,
D. Manuel I, bem como os de outros
seus ancestrais, num acontecimento
que marcaria o inicio do seu reinado,
e o lugar de Belém definitivamente na
história de Lisboa e de toda a nação
portuguesa.
Como todos os mosteiros, os Jerónimos
tinham a sua cerca que demarcava a
propriedade dos monges da Ordem
de São Jerónimo, que incluía um gran-
de pomar, hortas e uma pedreira, pro-
priedade onde existiam três capelas
(2)
.
Belém era, então e só, isso mesmo, jun-
tamente com uma torre projetada para
ser a versão em pedra da Grande Nau
de combate, a Torre de Belém
(3)
, que
se ergueu sobre um afloramento de ba-
salto em pleno leito do rio Tejo.
Durante a chamada Época dos Desco-
brimentos, nos séculos XV e XVI a cida-
de de Lisboa transformou-se num gran-
de centro cosmopolita e num ponto de
encontro para gentes das mais diversas
culturas. A praia de Belém era na altura
um ponto de partida para aqueles que
velejavam em direção às novas terras
de África e do Oriente.
Fonte no Jardim da Praça do Império
7
Vulgarmente conhecido pelos Jerónimos, o Mosteiro teve origem numa ermida da invocação de Santa Maria de Belém,
erguida na então designada barra ou surgidouro do Restelo, por iniciativa do infante D. Henrique, confirmada e instituída em
paróquia pelo Papa Pio II em 1459, e no ano seguinte doada pelo infante à Ordem de Cristo. É apenas em 1496 que o papa
Alexandre VI autoriza Dom Manuel I – recentemente subido ao trono - a fundação canónica do Mosteiro de Santa Maria de
Belém, no lugar da referida ermida, consumando a vontade deste rei em afastar a Ordem de Cristo do local, e consequen-
temente, de lhe retirar o controlo das navegações e comércio substituindo-a por uma Ordem contemplativa, em carta de
doação de 1498, aos monges da Ordem de São Jerónimo. Classificado como Monumento Nacional. Inscrito na Lista do
Património Mundial da UNESCO, desde 1983.
(1) Mosteiro de Santa Maria de Belém (Jerónimos) - Monumento Nacional (MN) - UNESCO
(2) Capela de São Jerónimo e Capela de Santo Cristo - MN
A Capela de São Jerónimo Construída em 1514, dentro dos terrenos da cerca dos Monges Jerónimos do Mosteiro de Santa
Maria de Belém, ligada ao nome do arquiteto do Mosteiro dos Jerónimos, Diogo de Boitaca, sob cuja inspiração se parece ter
norteado o projeto, de formas sóbrias e raro equilíbrio de volumes. Já a Capela de Santo Cristo, também construída no século
XVI e dentro dos limites da cerca do Mosteiro dos Jerónimos, está sensivelmente no centro da mesma, fazendo parte de um
trio de ermidas especialmente vocacionadas para o retiro e meditação dos monges, de que apenas restam esta e a Capela
de São Jerónimo, tendo sido a terceira que era dedicada a Santa Maria Madalena arruinada no século XVIII.
fonte IGESPAR - Instituto de Gestão do Património Arquitetónico e Arqueológico
Torre de Belém
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(3) Torre de São Vicente de Belém (Torre de Belém) - MN – UNESCO
Projetada para ser a versão em pedra da Grande Nau de combate, erguendo-se sobre um afloramento de basalto em pleno
leito do rio Tejo, vive hoje bem junto à ‘praia’. Dedicada a São Vicente, o santo padroeiro de Lisboa, a Torre foi erguida entre
1514 e 1520. Da decoração faziam parte todos os símbolos manuelinos, esferas armilares, cruzes da Ordem Militar de Cristo, e
motivos naturalistas testemunhando o contacto com os povos ultramarinos de África e Ásia, no caso um rinoceronte, a primeira
escultura do género que apareceu na Europa. A Torre que também serviu de prisão política serve atualmente como base para
atividades de caráter cultural, e é Património Mundial, classificada pela UNESCO, desde 1983.
fonte IGESPAR
Belém é hoje o mais importante local da
chamada arquitetura manuelina, a que
se junta uma imensa variedade de mu-
seus, centros e espaços culturais, jardins
e fontes, com uma enorme afluência de
turistas e que pedem mais que um dia
de visita.
Que Portugal viu o elefante Salomão?
Que caminhos percorreu, que rios teve que cruzar,
em que águas se banhou, que aldeias o acolheram,
que pedras, desde então, nos esperam?
José Saramago
In Diário da Viagem I - www.ocaminhodesalomao.com
O estribeiro-mor, emissário do seu destino, cavalga em direcção a valla-
dolid, já refeito do mau resultado da tentativa feita para dormir em cima
da montada, e o rei de portugal, com a sua reduzida comitiva de secre-
tário e pajens, está a chegar à praia de belém, à vista do mosteiro dos
jeronimitas e do cercado de salomão. Dando tempo ao tempo, todas as
coisas do universo acabarão por se encaixar umas nas outras. Aí está o
elefante.
MUSEUS
• Marinha • Arqueologia • Etnologia
• Coches • Arte Popular • Electricidade
• Presidência da República
(Encerram à segunda-feira)
OUTROS MONUMENTOS
• Palácio de Belém • Pç. Afonso Albu-
querque • Padrão dos Descobrimentos
• Forte do Bom Sucesso • Chafariz da
Princesa • Jardim Tropical • Monumen-
to 1ª Travessia Aérea • Palácio da Ajuda
OUTROS INTERESSES
• Centro Cultural de Belém • Bertrand
Book Shop • Centro Português de
Serigrafia • Projeto Travessa da Ermida
A VIAGEM DO ELEFANTE
Turistas em frente ao Mosteiro dos Jerónimos
Enquanto Salomão se banha e se pre-
para para a viagem que aqui se reco-
meça, a estrela da manhã guia-nos
para um despertador pastel quente, ali
mesmo, na antiga confeitaria de Belém.
FÁBRICA DOS PASTÉIS DE BELÉM
Na decoração desta famosa pastela-
ria lisboeta sobressaem os seus azulejos
que são ainda os primitivos, diz Francis-
co, e ao nosso repto somador, que ain-
da os não contou.
Francisco Muchagata é presentemente
o mais antigo trabalhador desta fábri-
ca segredo, com “44 anos de casa”, e
aquele que naturalmente pensa na re-
forma, apesar do largo dos seus 59 anos
“ainda não darem para isso”, diz recor-
dando a muita “rapaziada nova que em
tempos vinha para aqui estudar, com os
seus livros e cadernos”, hoje computa-
dores e tabletes.
As diversas salas desta fábrica tradicio-
nal, mas pronta-a-comer, e que labuta
desde 1837, foram ganhando lugar à
parte do fabrico, e albergam hoje mais
de 500 lugares, para um total de 170
trabalhadores, lembra quem é mais co-
nhecido por Sr. Chico.
A média de pastéis fabricados e vendi-
dos por dia, vai revelando o Sr. Chico,
anda “na volta de 15 mil unidades” até
um ‘gadget´ deste nosso século inter-
romper a conversa e uma voz feminina
avisar o Sr. Francisco que a mesa 82
quer um...
Na “Oficina do Segredo” são “apenas
três” os pasteleiros que o sabem e cujo
“patrão seleciona” com precisão.
Entretanto, ficou desde logo nos afaze-
res desta empreitada de nos propormos
ao Caminho o desafio de descobrir nos
azulejos desta casa motivos desse bicho
por quase todos nessa época quinhen-
tista desconhecido. •
Azulejos na Fábrica dos Pastéis de Belém
11
O viajante vem para a rua, é um viajante perdido. Aonde irá? Que lugares irá
visitar? Que outros deixará de lado, por sua deliberação ou impossibilidade
de ver tudo e falar de tudo? E que é ver tudo? Tão legítimo seria atravessar
o jardim e ir ver os barcos no rio como entrar no Mosteiro do Jerónimos. Ou
então, nada disto, ficar apenas sentado no banco ou sobre a relva, a gozar o
esplêndido e luminoso Sol. Diz-se que barco parado não faz viagem.
Pois não, mas prepara-se para ela.
José Saramago
In Viagem a Portugal - 1ª edição 1981.

E na senda de sinais de proboscídeos
fomos mais longe, porque em frente ao
atual Palácio de Belém, no antigo areal
onde ancorava o Real Cais de Belém,
hoje Praça Afonso de Albuquerque,
está assente uma estátua em memória
daquele que foi vice-rei da Índia, e que
tem na base quatro baixos-relevos, alu-
sivos à vida de Afonso de Albuquerque,
ladeados, cada um, por duas cabeças
de elefante.
Mas há mais alusões à espécie de que
procuramos referências, já que no Mu-
seu de Arte Popular descobrimos uma
fonte ‘perdida’, esculpida em pedra,
cuja pia se sustenta igualmente por
três cabeças de elefante, pertencente
a uma Galeria de Arte Moderna cons-
truída para a Exposição do Mundo Por-
tuguês em 1940. Esta fonte, dizem-nos
dois técnicos de restauro de uma parte
da fachada do Museu de Arte Popular
presentemente em recuperação, que
será trasladada brevemente pela Câ-
mara Municipal de Lisboa.
PARA LEVAR AS CRIANÇAS
• Fábrica das Artes CCB (Ao fim-de-se-
mana programação dirigida a crianças
e às suas famílias) • Parque infantil no
Jardim da Praça do Império com um
extenso relvado • Seções no Planetário
do Museu da Marinha
Praça Afonso de Albuquerque e Palácio de Belém
13
Aos dez dias desta conversação, ainda o sol mal apontava no horizonte,
salomão saía do cercado onde durante dois anos mal vivera. A carava-
na era a que havia sido anunciada, o cornaca, que presidia, lá no alto,
sentado nos ombros do animal, os dois homens para o ajudarem no que
viesse a ser preciso, os outros que deveriam assegurar o abastecimen-
to, o carro de bois com a dorna da água, que os acidentes do caminho
constantemente faziam ir e vir de um lado a outro, e um gigantesco car-
regamento de fardos de forragem variada, o pelotão de cavalaria que
responderia pela segurança da viagem e a chegada de todos a bom
porto, e, por fim, algo de que o rei não se tinha lembrado, um carro da
intendência das forças armadas puxado por duas mulas.

Edição Portuguesa ilustrada por Pedro Proença
Existe uma outra ermida neste local em-
blemático de Lisboa, e para o caminho
que de projetos alternativos multicul-
turais quer beber até à fronteira em Fi-
gueira de Castelo Rodrigo, já que numa
pequena travessa entre o Palácio da Re-
pública e a Fábrica dos Pastéis nasceu,
há poucos anos, o projeto da Travessa
da Ermida, uma tríade de Oficina de
Joalharia, Enoteca e espaço de expo-
sições de arte contemporânea numa
capela do século XVIII.
Neste local, travessa, projeto, os aman-
tes das letras e das frases compostas em
livros podem ainda conhecer um ponto
de chamada para a ‘corrente de leitu-
ra’, um conceito relativamente recente
e que consiste na troca de livros e na
liberdade de os deixar ou levar até um
próximo ponto de “cross booking”. •
O Caminho de Salomão vai atrás desses
pontos, e com o pretexto para descobrir
Portugal com diversos livros nas mãos,
reformulando palavras de Saramago,
que nos dão uma vez mais o azimute,
no encalce quinhentista e manuelino.
Com o Tejo à direita, passamos pelo
Museu de Arte Antiga que tem pintura
portuguesa do século XVI e propomos
ainda a visita a Praça do Comércio ou
Terreiro do Paço, zona que foi desde
1511 o Palácio Real durante mais de
dois séculos, e depois destruída pelo ter-
ramoto de 1755.
Perto daquela que foi sempre uma das
maiores praças da Europa e a entrada
nobre de Lisboa, através do Cais das
Colunas, fica a Casa dos Bicos
(4)
ou
de Brás de Albuquerque construída em
1523, atual sede da Fundação José Sa-
ramago.
A VIAGEM DO ELEFANTE
TRAVESSA DA ERMIDA
13
A Casa dos Bicos é um dos raros exemplares da arquitetura renascentista que subsistiu da Lisboa manuelina. Foi mandada edifi-
car por Brás de Albuquerque, cortesão de reconhecida e esmerada cultura humanista, devendo-se também ao seu patrocínio
a construção da magnífica Quinta da Bacalhôa. Em 1521 Brás de Albuquerque integrou a comitiva real que conduziu a Infanta
D. Beatriz, filha de D. Manuel, a Itália para o seu casamento com o duque Carlos III de Sabóia; aí, o conselheiro do Venturoso
terá contactado com os modelos eruditos da arquitetura renascentista italiana. Ao voltar a Portugal, cerca de 1523, mandou
erguer nos terrenos fronteiros à Ribeira Velha e à Alfândega, que haviam pertencido ao vice-rei Afonso de Albuquerque, seu pai,
um edifício inspirado nos palácios dei diamanti italianos, com loja, sobreloja e dois andares nobres, havendo alguns autores
que atribuem a obra ao arquiteto régio Francisco de Arruda. A estrutura original ficou bastante danificada devido ao terramoto
de 1755 e ao incêndio que se lhe seguiu. A fachada principal, que ficava virada à atual Rua Afonso de Albuquerque, caiu, e os
dois andares cimeiros de todo o edifício ruíram. Em 1772 o edifício foi parcialmente reconstruído, mas a estrutura quinhentista
ficou irremediavelmente alterada. Ao longo do século XIX a casa sofreu as mais variadas vicissitudes, chegando a ser utilizada
como armazém de bacalhau por largas dezenas de anos. Cerca de 1960 a Câmara de Lisboa adquiriu a Casa dos Bicos,
contratando em 1968 o arquiteto Raul Lino para executar um projeto de adaptação do espaço a museu. No entanto, a obra foi
adiada, e somente em 1981 foi desenhado o plano de recuperação da Casa dos Bicos, pela mão do arquiteto Santa Rita. O
espaço foi então adaptado às novas funções museológicas, sendo acrescentados ao edifício os dois andares que perdera com
o terramoto. A fachada foi reconstruída segundo imagens antigas de Lisboa que mostram a estrutura original da casa de Brás de
Albuquerque. De planta retangular, o edifício distingue-se pela sua invulgar fachada, em que o aparelho de pontas de diamante
de gosto renascentista - que originou a designação popular de Casa dos Bicos - se conjuga com as janelas contemporâneas
inspiradas na linguagem decorativa manuelina, cuja distribuição irregular imprime ritmo à fachada. No piso térreo foram abertas
portas de moldura regular com diferentes dimensões. A disposição original do espaço interior foi profundamente alterada para
poder albergar os núcleos de museologia. Entre 1986 e 2002 o edifício albergou a extinta Comissão Nacional para as Come-
morações dos Descobrimentos Portugueses. Atualmente, é a sede da Fundação José Saramago.
fonte IGESPAR
(4) Casa dos Bicos ou Casa de Brás de Albuquerque - MN - Fundação José Saramago
Oliveira centenária de Saramago junto à Casa dos Bicos
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ALOJAMENTO
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Rua de Belém 40 - Belém
A Comenda
CCB, Praça do Império - Belém
Podíamos levar os bois até ao rio, deve haver por aí um caminho, Ele não
beberia, a água, a esta altura do rio, ainda é salgada, Como sabe, per-
guntou o auxiliar, Salomão banhou-se uma quantidade de vezes, a última
aqui perto, e nunca mergulhou a tromba para beber, Se a água do mar
chega até onde estamos, isso mostra o pouco que andámos, É certo,
mas, a partir de hoje, podes ter a certeza de que iremos mais depressa,
palavra de cornaca.
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Vinhos e Petiscos
Trav. do Almargem, 46 - Sé
Pois, Café
Rua São João da Praça, 93 - Sé (Cross Booking)
INTERNET
Câmara Municipal de Lisboa
www.cm-lisboa.pt
Turismo de Lisboa
www.visitlisboa.com
Quando o rio entumesce, e um mar de água se espreguiça por
quilómetros e quilómetros de terras baixas e porosas, Portugal,
sempre sequioso e árido, sente que aquela nesga de pátria
é um mundo à parte dentro das suas entranhas...
Miguel Torga
in Portugal - O Ribatejo
A VIAGEM DO ELEFANTE
EN6 | EN10 | EN1 | EN3 |EN365 | EN3
A caminho do Ribatejo, Tejo acima, de Constância...
Punhete
Constância
H
oje é Constância, vila poema, mas
esta terra ribeirinha de origem remo-
ta, refúgio de poetas e reis, já foi “Punhe-
te”, nome derivado de Pugna-Tagi (luta
do Tejo) quando se lhe junta o Zêzere.
Os de Constância chamam rio ao Zêze-
re, já que o Tejo é apenas isso mesmo
e ainda tem uma barca de passagem:
Ó Sérgio, chama uma senhora da outra
margem.
A Câmara Municipal de Constância tem
a funcionar um pequeno barco de pas-
sagem gratuita, que facilita a desloca-
ção de alguns dos cerca de 300 traba-
lhadores que laboram ainda na grande
fábrica de celulose da Caima.
Perto desse pequeno cais e de onde
ainda saem alguns barcos para pescar
a Lampreia ou o Sável, entre os meses
de janeiro e abril, situa-se a Casa-Me-
mória de Camões
(5)
.
Seguindo o normal percurso do rio, de-
paramo-nos, mais à frente, com uma
agradável esplanada para o Tejo e jun-
to dela o Jardim-Horto Camoniano e
Monumento a Camões
(6)
, onde foram
plantadas todas as 52 espécies referidas
na obra de Camões.
Percorrendo o jardim, encontramo-nos
com as traseiras de uma casa onde fun-
cionaram, até ao século XIV, os Paços
do Concelho.
Da janela do seu quarto, o viajante vê o Tejo, reconhece o largo fluxo que,
mais aqui, mais além, o acompanha desde a infância e teme não saber dizer
dele e das terras que de perto banha o bem que lhes quer.
José Saramago
In Viagem a Portugal - 1ª edição 1981.
Constância no encontro dos rios Tejo e Zêzere
17
Uma muito antiga tradição de Constância, passada de geração em geração, afirma que Camões aqui terá vivido durante
algum tempo, em cumprimento de uma pena a que fora condenado, apontando umas ruínas à beira do Tejo como tendo
sido a casa que acolheu o épico. Essa tradição ganhou expressão nacional graças ao empenho do Dr. Adriano Burguete,
médico constanciense que, nos meados do século passado, se esforçou por demonstrar a veracidade da tradição popular,
e ao trabalho e persistência de Manuela de Azevedo, jornalista, que, de então para cá, tem dedicado a maior parte da sua
vida a esta causa. As ruínas da casa quinhentista foram classificadas como imóvel de interesse público em 1983. Sobre elas,
depois de consolidadas, foi erguida a Casa-Memória de Camões, segundo projeto da Faculdade de Arquitetura de Lisboa. As
obras, iniciadas em 1991, arrastaram-se por vários anos devido à dificuldade sentida pela Associação da Casa de Camões
para reunir os financiamentos necessários. Para além de preservar, valorizar e divulgar a relação de Camões com Constância,
a casa acolherá um Centro Internacional de Estudos Camonianos.
(6) Jardim-horto Camoniano e Monumento a Camões
O Jardim-horto, desenhado pelo arqo Gonçalo Ribeiro Teles, foi inaugurado pelo Presidente da República Dr. Mário Soares em
1990. Reúne toda a flora referida por Camões na sua obra, num total de 52 espécies. No seu interior o visitante pode apreciar
ainda o Jardim de Macau, o Planetário de Ptolomeu no Auditório ao ar livre e um painel de azulejos que apresenta as partes
do mundo que Camões percorreu, de Lisboa a Macau, passando por África e pela Índia. A enorme esfera armilar, a maior de
Portugal, assinala os 500 anos dos Descobrimentos Portugueses, que o épico imortalizou em Os Lusíadas, e o carácter univer-
salista da nossa cultura. É, sem dúvida, um dos mais vivos e singulares monumentos erguidos no mundo a um poeta.

fonte IGESPAR
(5) Casa dos Arcos (Casa de Camões) - Imóvel de Interesse Público (IIP)
Escrevo estas palavras num fim de tarde cor de madrugada com espu-
mas no céu, tendo diante dos olhos uma nesga do Tejo, onde há barcos
vagarosos que vão de margem a margem levando pessoas e recados.
José Saramago
In Viagem a Portugal - 1ª edição 1981.
17
Barcaça de transporte no Tejo em Constância
(5) (6)
Monumento a Camões
Queijinhos do Céu de Constância
19
(7) Pelourinho de Constância - IIP
Até ao início do século XIX, Punhete (atual Constância) dispôs de um antigo pelourinho, colocado num outro local não muito
distante deste, mais próximo do Tejo. Desse primitivo pelourinho nada ficou, nem se sabe como seria, a não ser que foi com-
pletamente arruinado pelas invasões francesas. O atual pelourinho foi fabricado de novo, em 1821, graças a uma subvenção
de 200 mil réis do rei D. João VI. O facto de ter sido colocado antes da demolição das ruínas da matriz explica a sua posição
excêntrica em relação à praça do nosso tempo. É constituído por uma coluna de fuste simples, encimada por um capitel jó-
nico coroado por uma esfera armilar em ferro forjado e tem a sua base assente num pedestal atualmente com dois degraus,
circundado por oito frades que aí foram colocados já no início do século XX. Símbolo da autonomia e da justiça municipais,
o pelourinho de Constância é uma peça de grande significado simbólico e especial interesse artístico.
Constância é uma vila salpicada de
casas brancas. Partindo da Praça Ale-
xandre Herculano, onde se encontra
um belo exemplar de Pelourinho
(7)
, ali
bem perto, numa das ruas estreitas, está
a Igreja da Misericórdia
(8)
.
..., aquela aldeia banhada pelo maravilhoso luar de agosto que modela-
va todos os relevos, amaciava as próprias sombras que havia criado, e
ao mesmo tempo fazia resplandecer as zonas que iluminava.
POSTO DE TURISMO
Avenida das Forças Armadas
Tel.: 249 730 052
MUSEUS
• Museu dos Rios e das Artes Marítimas
• Casa-Museu Vasco de Lima Couto
• Casa-Memória de Camões
MONUMENTOS
• Igreja de Nossa Senhora dos Mártires
• Capela de Sant’Ana e Cruzeiro
• Torre do Relógio • Igr. da Misericórdia
• Pelourinho • Capela de Santo António
• Igreja de Nossa S.ra da Assunção
• Mosteiro de Nossa Senhora da Boa
Esperança e Capela de S. João Baptista
• Igreja Paroq. de S.ta Maria da Coutada
OUTROS INTERESSES
• Jardim-Horto Camoniano e Monu-
mento a Camões • Biblioteca Municipal
Alexandre O’Neill • Parque Ambiental e
Açude de Santa Margarida da Coutada
• Quinta de Santa Bárbara
A VIAGEM DO ELEFANTE
(8) Igreja da Misericórdia de Constância - IIP
A Irmandade da Misericórdia de Punhete foi fundada em 1560, mas a sua Igreja só foi construída no século seguinte, sendo
a data de 1696, que está inscrita no portal, provavelmente a da conclusão das obras. Templo Maneirista de dimensões mo-
destas, este imóvel de interesse público encanta pela harmonia das suas formas, em especial pelo equilíbrio simétrico das
aberturas da fachada, seis no total. O interior, para além das imagens e das telas, maravilha pelos azulejos seiscentistas, com
destaque para a forma como envolvem o púlpito, de uma beleza muito singular.
fonte IGESPAR
É ainda na mesma praça com edifícios
de traça antiga de belas fachadas, que
podemos comprar os genuínos Queiji-
nhos do Céu, um doce conventual lo-
cal e que rivaliza com os seus melhores
congéneres, feito em Constância, entre
outros, pela Dona Lurdes, ou em Montal-
vo pelas Freiras Clarissas.
Pelourinho na Praça Alexandre Herculano
CASA-MUSEU VASCO DE LIMA COUTO
A vila poema também o é por Vasco de
Lima Couto que foi poeta, ator, encena-
dor, declamador e radialista português.
José Ramoa Ferreira, o ‘Zé Brasileiro,
português de Braga’ dos versos de Vas-
co de Lima Couto, amigo do poeta, foi
o mentor deste museu monográfico e
a razão para Constância ligar a si tam-
bém o nome de Alexandre O’Niell, im-
portante vulto do movimento surrealista
português.
José Ferreira, atualmente presidente dos
Bombeiros Voluntários de Constância,
onde pode mais facilmente ser encon-
trado, conta-nos como estes seus dois
amigos “vinham de Lisboa passar gran-
des temporadas” a sua casa, e das ter-
túlias que traziam ainda mais gente da
cultura, como o pintor Artur Bual, ou os
escultores Dorita Castel-Branco e Rui de
Brito, entre outros.
Alexandre O’Niell acabou por comprar
casa e ficar a viver em Constância, a
quem ofereceu a sua biblioteca priva-
da, hoje na Biblioteca Municipal com o
seu nome.
Este espaço repleto de memória detém
ainda o espólio, doado pelo próprio,
poeta Manuel de Oliveira Mengo, com
diversas cartas que lhe dirigiram conhe-
cidos escritores e poetas, e possui um
“álbum de família inédito” do realizador
Manuel de Oliveira, primo de Mengo,
que compreende a vida do realizador
centenário “de bebé a atleta”, lembra
o não menos realizado “Zé Brasileiro”. •
José Ferreira no quarto de Vasco de Lima Couto
21
No alto da colina que é Constância,
uma referência na paisagem urbana da
vila mas também da arte religiosa é a
Igreja de Nossa Senhora dos Mártires
(9)
, onde se destaca o teto que cobre a
nave que foi pintado por José Malhoa
entre 1897 e 1899, representando a As-
sunção de Nossa Senhora junto aos rios
de Constância.
Em Constância há um restaurante
que se chama Remédio d’Alma,
uma praça, umas ruas de dimen-
são humana, gente amiga e um
Camões de Lagoa Henriques que
vê o cair da tarde mas também o
mundo que nasce a cada manhã.
José Saramago
In Diário da Viagem
www.ocaminhodesalomao.com
PARA LEVAR AS CRIANÇAS
• Centro Ciência Viva de Constância
- Parque de Astronomia • Parque
Ambiental de Santa Margarida
• Parque Desportivo • Posto Municipal
de Informação Juvenil
(9) ) Igreja de Nossa Senhora dos Mártires (Igreja Matriz de Constância)
Foi sendo construída, ao longo de vários séculos, a partir de uma pequena capela inicial
em honra de Nossa Senhora dos Mártires. O essencial da sua construção é do tempo de
D. João V, com destaque para a torre sineira, o relógio de sol, as seis estátuas do interior,
o sacrário e o púlpito. Da 2ª metade do século XVIII é o altar de Nossa Senhora da Boa Viagem, construído por iniciativa dos
marítimos da vila, bem como a imagem que continua todos os anos a sair, pela Páscoa, para a procissão e a Bênção dos
Barcos e das Viaturas nos rios Zêzere e Tejo. Merecem ainda destaque, para além de valiosos quadros, retábulos e imagens,
o órgão, adquirido em 1827 e recuperado em 2002, e a magnífica alegoria de Malhoa, pintada no teto no final do século
XIX. Serve de Matriz desde 1822, por estar muito degradada, a antiga paroquial de São Julião, que acabaria por ser demoli-
da, dando origem à atual Praça onde se encontra o pelourinho. Foi classificada como imóvel de interesse público em 1954.
fonte IGESPAR
Rua de Luís Vás de Camões em Constância
Baralho de Cartas de inícios do século XVII
23
(10) Quinta e Capela de Santa Bárbara
JJá no século XVI aqui existia uma quinta, chamada Quinta do Paio por pertencer a D. Francisco de Melo Sampaio, neto da
castelã de Punhete e amigo de Camões que lhe dedicou uma trova do célebre Banquete das Trovas. Dos tempos de Ca-
mões, cuja passagem pela quinta é muito provável, subsistem ainda algumas construções, com destaque para as adegas,
agora adaptadas a restaurante com a designação Refeitório Quinhentista. Pertenceu, no século XVII, a D. Fernando Mascare-
nhas Lencastre, capitão de Goa, Governador da Índia e depois de Pernambuco que, por testamento de 1714, doou a quinta,
já então chamada de Santa Bárbara, aos Jesuítas. Daí até à expulsão da ordem de Portugal, em 1759, a quinta conheceu
a sua época de maior esplendor. Foram os Jesuítas que mandaram restaurar e beneficiar a capela, através de um contrato
estabelecido com o escultor italiano João António de Pádua, em 1739. Nela merecem destaque o magnífico retábulo e o
silhar de azulejos que conta a história de Santa Bárbara.
fonte CM Constância
Imaginar, primeiro, é ver. Imaginar é conhecer, portanto agir.
Alexandre O’Niell in Ao rosto vulgar dos dias
Edição Italiana
Tempo ainda para visitar a Quinta de
Santa Bárbara
(10)
, que é hoje um espa-
ço turístico de alojamento, um restauran-
te a laborar num refeitório quinhentista, e
um conjunto de salas com abóbadas e
pedras e decoração antiga que nos re-
montam para uma atmosfera inesque-
cível.
Em conversa com o atual proprietário
da Quinta, Manuel Faria, uma curiosida-
de soltou-se, “quando há 25 anos apro-
ximadamente, no restauro do edifício
principal, o eletricista encontrou, num
buraco, um pano de seda com um ba-
ralho de cartas”.
O baralho de cartas foi entretanto in-
vestigado por especialistas, que o apon-
taram como sendo de inícios do século
XVII, e logo considerado o mais antigo
conhecido em Portugal.
23
Artesã Palmira Governo
25
No caminho das Beiras, Tejo acima, até à fonte da Gardunha, Castelo Novo...
EN3 | EN2 | EN118 | IP2 | EN3 | EN18
ALOJAMENTO
Casa João Chagas - R
Rua João Chagas - Constância
Tel.: 249 739 403
Quinta de Sta. Bárbara - CC
Estrada da Q. Sta. Bárbara - Constância
Tel.: 249 739 214
Parque de Camp. Rural de Constância
Tel.: 249 739 546
(aberto de maio a setembro)
ARTESANATO E SABORES
Bonecas de Cana
Donas Palmira e Maria
Queijinhos do Céu
No Café da Praça e na Pastelaria Belisa
RESTAURANTES
Churrasqueira Manu
Rua do Pincho, 12
D. José Pinhão
Rua Luis de Camões, 5
Os Arcos
Rua do Moinho de Vento - Lote 1
Os Lusíadas
Estrada Nacional nº 3, 4
Refeitório Quinhentista
Estrada da Q. Sta. Bárbara
Remédio d’ Alma
Largo 5 de Outubro, 4
Ti Coimbra
Estrada Nacional nº 3, 4
Trinca Fortes
Avenida das Forças Armadas, 1
Pizaria Camões
Estrada da Pereira, 4 (Malpique)
PETISCOS
Esplanada Pezinhos no Rio - Rua do Tejo
INTERNET
Câmara Municipal de Constância
www.cm-constancia.pt
www.turismolisboavaledotejo.pT
‘MONAS’ BONECAS DE PERNAS DE CANA
São o ex-líbris artesanal de Constância,
para além da cestaria que se faz com
vergas de carvalho negral, e das minia-
turas de barcos do Tejo.
Palmira Governo, diz-nos que trabalha
nestas bonecas de pano e cana à per-
to de 20 anos, sobre uma “origem tão
antiga que não se sabe quando come-
çou”, e que tem passado de “geração
em geração”.
“Enquanto os marítimos iam para o Tejo,
as mulheres que ficavam em casa iam
fazendo estas bonequinhas para depois
serem vendidas nas feiras anuais”, conta
quem já não tem conta dos conjuntos
de 8 horas nas ganhas a construir estas
bonequinhas.
Antigamente, as mulheres não tinham
os tecidos coloridos que se podem en-
contrar hoje facilmente, e então tingiam
os pedaços de pano à base de bagas
naturais, lembra esta artesã.
A boneca começa pois com uma cana,
depois o nastro, “onde se faz a cabeça,
se põe o cabelo de ovelha, se bordam
os olhos e a boca... Os trajes são os que
se usavam há 90 anos”.
“As bonecas eram para brincar mas o
que mais aborrecia as crianças era o
não poderem ser despidas ou vestidas”,
recorda Governo fazendo compara-
ções às bonecas industriais atuais.
É raro sair uma igual ou repetida, elas,
as noivas, damas ou criadas, mas “só
senhoras... porque Constância é a ter-
ra das meninas” , sustenta também ela
com um sorriso de menina.
Qualquer mulher em Constância é sem-
pre tratada por menina, nota ainda, pois
“pode morrer com 80 ou 90 anos mas é
sempre a menina... “
. •
Castelo velho
Castelo Novo Fundão
D
o velho se fez novo, dizem, e pode
bem ser verdade pela manutenção
física a que obrigam as ruas de Castelo
Novo, hoje uma Aldeia Histórica no sopé
beirão da serra da Gardunha.
Mas as origens da ocupação humana
em Castelo Novo não são unânimes.
Conta-se que depois da chegada dos
romanos os seus habitantes terão fugi-
do para o ponto mais alto da Serra e
aí construído uma fortificação primiti-
va, ficando conhecida pelos popula-
res como “Castelo Velho” ou “Castelo
dos Mouros”, depois abandonado na
sequência de uma praga de formigas
daninhas.
Só em 1202, no reinado de D. Sancho
I, aparecem registos do primeiro foral
atribuído por D. Pedro Guterres “Petrus
Cuterri” à aldeia de Alpreada, nome da
ribeira que passa nestas paragens, e já
no testamento deste nobre, seis anos
mais tarde, a referência a Castelo Novo
(11)
então doado aos Templários.
Alguns historiadores creem, no entanto,
ter sido D. Dinis - O Lavrador - a erguer
o novo castelo em 1290, outros ainda
que foi D. Gualdim, mestre dos Tem-
plários, mas é ao tempo de D. Manuel
I, que em 1510 trás nova vida à aldeia
elevando-a a concelho, que nos quere-
mos dirigir.
Castelo Novo é uma das mais comovedoras lembranças do viajante.
Talvez um dia volte, talvez não volte nunca, talvez até evite voltar,
apenas porque há experiências que não se repetem.
José Saramago
In Viagem a Portugal - 1ª edição 1981.
27
Castelo Novo aparece na documentação medieval a partir de inícios do século XIII. Ao que tudo indica, em 1202, reinando D.
Sancho I, D. Pedro Guterres terá atribuído foral à aldeia de Alpreada. Seis anos mais tarde, no testamento deste nobre, a loca-
lidade já é referenciada como Castelo Novo. Por estes dados, admite-se que o arranque do projeto de arquitetura militar que
deu origem ao castelo atual se tenha situado naquela primeira década do século XIII. Em 1223, no foral de Lardosa, o castelo
já é mencionado (NEVES, 1975, pp.22-23), o que sugere estar este, se não terminado, pelo menos em adiantado estado de
construção. A configuração geral da estrutura, como hoje se conhece, não pertence a essa primeira época, em que se terá
erguido um castelo de tipo românico, com torre de menagem isolada no centro do pátio. No reinado de D. Dinis o monumento
foi intervencionado, atualizando-se a estrutura à tipologia gótica. O que resta apresenta características vincadamente góticas:
a cerca é de perfil oval, típico das vilas novas criadas por D. Afonso III e D. Dinis; a torre de menagem (atual torre sineira) associa-
-se à linha de muralha, o que favorece uma interpretação também a caminho do século XIV, em que as torres defendiam
ativamente os panos da cerca. Esta era protegida por outras torres, de que ainda se conservam ruínas de uma delas, associada
a um pano de muralha coroado por ameias e adarve. O conjunto comunicava com o exterior através de duas portas, sendo
a principal também gótica, de perfil harmónico, com corpo central de dois andares (portal e varandim de matacães) ladeado
por duas torres. Não consta que Castelo Novo tenha desempenhado um efetivo papel militar, uma vez que, no reinado de D.
Manuel, o seu castelo já se encontrava em ruínas. A localidade desenvolveu-se à sombra do castelo e o seu traçado urbanís-
tico apresenta ainda uma configuração geral medieval, de ruas estreitas e sinuosas, serpenteando a colina. Fora de portas, a
principal praça revela os símbolos de D. Manuel, em particular o pelourinho, de fuste torso e remate piramidal, assente sobre
plataforma de seis degraus octogonais...
fonte IGESPAR
(11) Aldeia de Castelo Novo
O Certo é que o sol, como uma imensa vassoura luminosa, rompeu de
repente o nevoeiro e empurrou-o para longe. A paisagem fez-se visível
no que sempre havia sido, pedras, árvores, barrancos, montanhas.
A VIAGEM DO ELEFANTE
27
Serra da Gardunha
Com boas ideias, e às vezes também com as más, passa-se o mesmo
que se passa com os átomos de demócrito ou com as cerejas da cesta,
vêm enganchadas umas nas outras.
A VIAGEM DO ELEFANTE
29
(13) Pelourinho - IIP
...O pelourinho data das primeiras décadas do século XVI
e articula-se com o foral novo passado à localidade por D.
Manuel, em 1510, monarca que ordenou também a inclu-
são das suas armas na fachada principal da casa da Câ-
mara. Implanta-se sobre alta plataforma formada por seis
degraus octogonais, a maioria apresentando já assinalável
desgaste. Desprovido de base, o fuste assenta diretamente
sobre o último degrau e é de perfil circular composto por
duas secções: a metade inferior não tem qualquer decora-
ção; a superior apresenta composição espiralada pontuada
por elementos vegetalistas....
fonte IGESPAR
D. Manuel I empreende os novos Paços
do Concelho
(12)
e o Pelourinho
(13)
, um
dos mais interessantes da região. Tem
esculpida a Cruz de Cristo a lembrar que
fora aqui criada por D. Dinis uma co-
menda dessa ordem, a favor de D. Frei
Gil Martins, que foi seu primeiro mestre,
e quem determinou uma importante
plantação de castanheiros na região.
A VIAGEM DO ELEFANTE
O terreiro adjacente à Casa da Câma-
ra, onde posteriormente foi erguido um
majestoso chafariz joanino, serve hoje de
brincadeira às poucas crianças locais,
também de água aos lagartos, pois que
aqui se situa a fonte de engarrafamento
das afamadas águas do Alardo.
(12) Antiga Casa da Câmara /Paços do Concelho
Miúdos brincam às escondidas junto aos Paços do Concelho
Imóvel construído antes do século XVI, inserido nas tipologias românicas. Exemplar de edifício com funções políticas e admi-
nistrativas. Localiza-se entre a Praça dos Paços do Concelho e a Rua da Torre de Menagem. É possível que a construção deste
edifício remonte a 1290 por ação de D. Dinis, que o terá mandado construir, assim como ao castelo e ao chafariz fundeiro (d’El
Rei). Possui planta longitudinal, de dois andares, o primeiro aberto originalmente por arcadas de arcos abatidos (posteriormen-
te subvertidas pelo adossamento de um chafariz barroco) e o segundo integrando vãos retangulares e quadrangulares dando
para uma varanda nobre. Esta diferenciação tem conteúdo funcional, desempenhando as dependências do piso inferior as
funções de cadeia e, as do segundo andar, as de salão camarário. Depois da extinção do concelho, o edifício passou a ser
uma escola. Esta praça é fechada pelo Solar dos Gamboas, uma importante casa barroca, com fachada monumental e
desenvolvimento planimétrico em “U”. No século XVIII Castelo Novo conheceu um período de crescimento, que coincidiu com
a instalação de algumas famílias nobres na localidade. Anexa à fachada principal da Câmara, construiu-se o chafariz de
D. João V, com os seus dois andares e vocabulário estilístico que contrasta com a aparente rudeza dos paços do concelho.

fontes várias
Queremos seguir pela rua da Torre de
Menagem até à Capela de S.to Antó-
nio (século XVI), e depois na direção da
Lagareta ou Lagariça
(13)
, um rudimen-
tar lagar de pedra, de origem romana,
onde se transformavam a uva em vinho,
até alcançarmos outro edifício qui-
nhentista. A Casa da Comenda, tam-
bém apelidada do Alardo, foi residência
de comendadores e freires-capitães. É
também por aqui que seguimos pela
Calçada dos Templários, pela Rua do
Castelo Velho, que dá acesso à fonte do
Alardo.
A ÁGUA DO ALARDO
Nos primeiros anos do século XX era uti-
lizada para fins terapêuticos, e foi a sua
ação sobre vários doentes de diabetes
e hepáticos que procuravam esta água
que levou à sua análise por Lepierre em
1918 e 1921, concluindo-se de natureza
Hipossalina, cloretada silicatada, sulfa-
tada, hipotermal, o que permitiu a sua
exploração a partir de 1922.
Em 1945 é dada como abandonada.
“Mal se compreende, com efeito, como
foi possível decair aos poucos, o prestí-
gio da linfa do Alardo, de tamanha pre-
dileção das mesas dos alfacinhas”
(Dias, 1951).
Sobreviveu a um grande descrédito, nos
anos 90, quando era ainda uma das três
águas mais vendidas em Portugal, e se
descobriu contaminada por uma micro-
alga, apesar de não resistir novamente
à insolvência já em 2010, ano em que
ainda tinha 31 labutadores, muitos deles
habitantes de Castelo Novo. Presente-
mente voltou a reabrir. •
...a velhinha já não está, mas
outras pessoas amáveis aparece-
ram em Castelo Novo e voltei a
sair com o mesmo espírito de há
trinta anos. Se o elefante Salomão
por aqui passou, as pessoas que
compunham a comitiva terão
sentido o mesmo. Acolhimentos
como estes não se improvisam.
José Saramago
In Diário da Viagem
www.ocaminhodesalomao.com
(13) Lagareta ou Lagariça - IM
A lagareta de Castelo Novo é um monumento único na localidade, cujo carácter utilitário inviabiliza qualquer aproximação,
tanto em relação à época de construção, como à função original. Implanta-se em pleno centro histórico, contextualizando-
-se com o casario envolvente e no topo de um afloramento rochoso relativamente saliente... À semelhança do que se passa
com outros monumentos da localidade, também este aguarda por um projeto de preservação e valorização, processo
fundamental para a estabilização do conjunto, especialmente tendo em conta a sua vulnerabilidade como “obra aberta” e
exposta aos mais variados agentes erosivos...
fonte IGESPAR
31
PARA LEVAR AS CRIANÇAS
• Moagem - Cidade do Engenho
e das Artes (Fundão)
• Palácio do Picadeiro (Alpedrinha)
• Chocalhos - Festival dos Caminhos da
Transumância, setembro - (Alpedrinha)
• Teatro de Alpedrinha
• Festa da Cereja, junho - (Fundão)
PINTOR FILHO DA TERRA
Daqui partiu aos 17 anos o pintor Barata
Moura, filho da terra mas também da
República, do alto dos seus 100 anos,
falecido em 2011. Deixou mais de cin-
co mil telas, entre elas muitas das paisa-
gens físicas e humanas onde não falta o
granito da serra que o fez pintor, apolo-
gista da pintura simples e sem recurso às
correntes estéticas vigentes.
CENTRO DO VISITANTE
Largo do Adro
Tel.: 275 561 501
MUSEUS
• Núcleo Museológico de Castelo Novo
• Miradouro Virtual
• Palácio do Picadeiro (Alpedrinha)
MONUMENTOS
• Castelo e Torre de Menagem
• Pelourinho • Antiga Casa da Câmara
• Chafariz de D. João V • Casa Família
Falcão • Chafariz d’El Rei • Capela de
Santo António • Lagariça • Casa do
Comendador • Penedo da Forca •
Capela de Santa Ana
OUTROS INTERESSES
• Associação Sociocultural de Castelo
Novo • Casa da Lagariça - Artesanato
Cantemporâneo • Gourmet Regional
• Moagem - Cidade do Engenho
e das Artes (Fundão)
• Museu Arqueológico Municipal
José Monteiro (Fundão)
Agora os nomes que martelam o
sono, turvos ou roídos de poeira:
Póvoa, Castelo Novo, Alpedrinha,
Orca, Atalaia, nomes porosos da
sede, onde a semente do homem é
triste mesmo quando brilha.
Eugénio de Andrade, In Poesia, Terra de Minha Mãe
“Não sigo modas / As modas passam /
Pinto como sinto / Não procuro fanta-
sias / Sou como sou /...”
Barata Moura
Pintor das paisagens e rostos da Beira,
Barata Moura passou para a tela das
memórias futuras os pelourinhos e edi-
fícios emblemáticos das Aldeias e Vilas
da região. •
Pelourinho de Alpedrinha - pintura Barata Moura
A região é famosa pelas suas cerejas, e
farta na época da Páscoa, mas “não sei
mesmo se não teremos de voltar a fa-
zer sopa de leitugas e esparregado de
saramagos”, como contam as pessoas
mais velhas a propósito da carestia que
se viveu no tempo da guerra.
Os lagartos aconselham o Cabrito As-
sado no Forno de Lenha ou refogado
com migas de Batata, e a boca doce
com Papas de Carolo, feitas com grão
de milho.
Existe nesta aldeia um único restau-
rante, o Lagarto, é a terra dos lagartos
ensinam-nos. “Antigamente havia muitos
lagartos, levantava-se uma pedra e...”
conta José Manuel, tesoureiro da Asso-
ciação Sociocultural de Castelo Novo.
A freguesia de Castelo Novo conta hoje
com 300 ou 350 ‘lagartos’ alcunha dos
castelo-novenses, lembra, e que são
praticamente todos daquele clube.
A Associação tem 14 anos e teima de
vida. Fazem-se bailes, festas de carna-
val e fim de ano, fados e eventos com o
Teatro Clube de Alpedrinha. Jogam-se
as cartas da juventude “que ainda vai
havendo” e que pode namorar da boni-
ta janela Manuelina do edifício.
José Manuel fala-nos do pintor Barata
Moura, orgulho cultural originário, en-
quanto no pequeno bar da associação
se discute a situação dos trabalhadores
da fábrica do Alardo, e da Cimpor, que
“é quem vai mantendo a estação de
comboios local da linha da beira baixa”.
Bar da Associação Sociocultural de Castelo Novo
33
Alpedrinha foi chamada de “Sintra da
Beira”, pela Marquesa de Alorna, e teve
o seu “período de esplendor”, segundo
Jaime Cortesão, durante os séculos XV
e XVI. São desta época as cinco casas
manuelinas ainda existentes no cen-
tro histórico
(14)
da vila. Este período de
prosperidade deveu-se a um dos seus
naturais, D. Jorge da Costa (figura nos
Painéis de S. Vicente) também conhe-
cido por Cardeal de Alpedrinha ou por
Cardeal de Portugal, para quem teve
uma importante influência no Tratado
de Tordesilhas.
O história de Alpedrinha não se fica por
aqui, segue em frente com o Museu de
Arte Sacra na Igreja Matriz, o da Liga
dos Amigos de Alpedrinha, uma espé-
cie de pequeno repertório etnográfico
da vila e da região.
Ficou célebre esta vila pelo fabrico de
móveis antigos, pelas cadeiras com
O povoado de Alpedrinha foi constituído durante a época de ocupação romana, designado então como Petratinia. Dessa
época, a vila conserva ainda a estrada romana, que atravessa todo o seu perímetro longitudinalmente. Durante a Idade
Média, a povoação era administrada por donatários, e em 1266 Diogo Lopes e Urraca Afonso doaram as terras de Alpedrinha
à Ordem do Templo. Nesse mesmo ano terá sido iniciada a edificação da primitiva matriz de Alpedrinha, a Capela do Espírito
Santo, cujas obras foram terminadas no ano de 1301. Durante as duas centúrias seguintes a povoação foi conhecendo um
crescimento progressivo, e na segunda metade do século XV inicia-se, segundo Jaime Cortesão, o “período de esplendor
da vila”, que se prolongaria até ao século XVII (CORTESÃO, Jaime, 1965, p. 10). Datam destas época as casas manuelinas
edificadas no centro da vila, de que subsistem cinco edifícios. São exemplares de arquitetura rural cujos vãos de janelas são
decorados com motivos em relevo de gosto manuelino. No conjunto destaca-se uma casa com janela de balcão ornamen-
tada com elementos renascentistas. Este período áureo da vila beirã deveu-se sem dúvida à atividade mecenática de D.
Jorge da Costa, o conhecido Cardeal Alpedrinha, bem como da sua família. Exemplos disso são a fundação da Misericórdia
local e a edificação da Capela de Santa Catarina. A irmandade da Misericórdia de Alpedrinha foi uma das primeiras a ser
instituída no país, depois da fundação da Misericórdia de Lisboa, o que se explica pelo papel preponderante que teve D.
Jorge da Costa na constituição desta última. O templo da irmandade terá sido construído nessa mesma época, mas o que
atualmente subsiste no centro da vila é uma obra da segunda metade do século XVIII.
fonte IGESPAR
(14) Centro Histórico de Alpedrinha
Não faltam povoações escondidas,
mas esta Alpedrinha é secreta.
José Saramago
In Viagem a Portugal - 1ª edição 1981.
VILA DE ALPEDRINHA assento e espaldar de sola lavrada, da
oficina de José Pinto. Os seus discípulos
prosseguem hoje esse trabalho de fabri-
co de móveis antigos, com as técnicas
de embutidos, torneados, ou lacados.
Estes trabalhos podem ser vistos no Mu-
seu do Mobiliário da Santa Casa da Mi-
sericórdia de Alpedrinha.
Junto a um chafariz monumental de D.
João V, no Palácio do Picadeiro, um
solar de gosto barroco do século XVIII,
podemos participar numa agradável
experiência sensorial, inovadora e de
descoberta do território. •
33
Pequena mostra de mobiliário de Alpedrinha
no Palácio do Picadeiro
Chafariz de D. João V e Palácio do Picadeiro
em Alpedrinha
35
No encalce do Zêzere, do Monte da Esperança, dos Cabrais, de Belmonte...
EN18 | A23 | EN18 | EN18-3 | EN345
ALOJAMENTO
Casa Petrus Guterri - TH
Rua Gama Lobo - Castelo Novo
Telef./Fax.: 275 567 274
Quinta do Ouriço - TH
Casa Grande - Rua da Bica - C. Novo
Tel.: 275 567 236
Casa de Castelo Novo - AL
Rua Nª Sra. das Graças, 7 - C. Novo
Telef./Fax.: 275 561 373
ARTESANATO E SABORES
Casa da Lagariça
Largo Petrus Guterri, 3 - Castelo Novo
Tel.: 962 697 493
RESTAURANTES
Restaurante O Lagarto
Largo D. Manuel I - C. Novo
Café e Snack- Bar Grand Café
Rua da Gardunha - C. Novo
ASSOCIATIVISMO
Café da Ass. Sociocultural de Cast. Novo
R. Prof. Gonçalves Coucho, 1 - C. Novo
INTERNET
Câmara Municipal do Fundão
www.cm-fundao.pt
Turismo do Centro
www.turismodocentro.pt
Edição holandesa
A Capela de Santa Catarina, ou Capela do Leão,
foi mandada construir em 1501, quando se ins-
-tituiu a irmandade da Misericórdia de Alpedrinha.
Belo Monte
Belmonte
A
s origens do topónimo Belmonte ge-
ram discórdias entre os historiadores.
Se é de Belo Monte ou Monte de Guer-
ra, do latim ‘Belli Monte’, o que é certo
é que o registo mais antigo reconhece
o local como Montes Crestados, pelos
dois castros ali existentes ou da muita
cresta das colmeias que existem por
aqueles lados.
Também se sabe que no século XVI,
por determinação de D. Jorge Cabral,
sobrinho de Pedro Álvares de Cabral e
Vice-rei da Índia, se construiu ou recons-
truiu um convento em honra de Nossa
Senhora da Esperança e como a Serra
dos Montes Crestados se passou a cha-
mar da Esperança.
Vindos de Castela, da Galiza, de Porta-
legre ou da Guarda, os Cabrais na his-
tória de Portugal começaram a vigorar
nos castelos da linha de fronteira pela
mão dos reis que lhes confiaram gran-
des terras e cargos nos séculos XIV e XV.
Belmonte deve-lhes, juntamente com os
judeus vindos de Marrocos e outros ex-
pulsos de Espanha, o seu crescimento e
importância.
Na época quinhentista o concelho de
Belmonte foi marcado pela ida de Ca-
brais, e muitos outros ‘de Belmonte’ para
os Descobrimentos. D. Jorge Cabral, foi
Governador da Índia entre 1549 e 1550,
altura em que o nosso ‘Salomão’ terá
embarcado para Portugal.
Não deve ter tido má vida Pedro Álvares:
a julgar pelo que resta, o solar era magnífico.
O mesmo qualificativo merece a janela manuelina geminada nas
muralhas que viram a poente.
José Saramago
In Viagem a Portugal - 1ª edição 1981.
37
(15) Capelas de Santo António e do Calvário
A capela de Santo António com características de arquitetura maneirista apresenta-se de frente para a porta do Castelo de
Belmonte e foi mandada edificar nos séculos XV/XVI pela mãe de Pedro Álvares Cabral, D. Isabel Gouveia. Trata-se de uma
capela de arquitetura vernácula com planta longitudinal simples que apresenta na fachada principal, porta de verga reto
ladeada pelos brasões dos Cabrais (à esquerda) e dos Queirós e Gouveia (à direita). A Capela do Calvário com características
de arquitetura barroca será já supostamente de uma construção do século XIX.
... ainda que seja certo que no nosso portugal não vão faltar rios nem
ribeiras onde salomão possa beber e chafurdar, o pior é essa maldita
castela, seca e resseca como um osso exposto ao sol,...
A VIAGEM DO ELEFANTE
(16) Igreja de Santiago e Panteão dos Cabrais - MN
A igreja de Santiago é um importante testemunho do Românico tardio na Beira Interior e pode considerar-se um dos monu-
mentos-chave daquele estilo na região. A sua construção deve remontar aos meados do século XIII, embora as origens da
paróquia de Belmonte, que a igreja servia, sejam anteriores, estando documentada desde 1186. Exteriormente, a igreja revela
as reformas por que passou na época moderna, em particular a empreendida na primeira metade do século XVII, quando D.
Francisco Cabral remodelou o panteão familiar anexo. Com efeito, quer a fachada principal da igreja, quer a da capela dos
Cabrais apresentam estrutura semelhante, de corpo único integrando portal axial de lintel reto entre molduras de cantaria, a
que se sobrepõe janelão retangular, terminando a empena em perfil triangular. Os poucos elementos dissemelhantes (como
o frontão semicircular do portal da capela, ou o nicho da frontaria da igreja) não disfarçam um mesmo ar de família, ditado
pela presumível contemporaneidade do projeto construtivo. Conservam-se todavia, alguns modilhões do projecto original,
que comprovam a sua edificação na transição estilística entre o Românico e o Gótico.
fonte IGESPAR
37
(17) (16) (16)
(15)
Cruz de madeira de Pau Santo do Brasil
(Réplica da que foi mandada levantar por Cabral na 1ª missa celebrada no Brasil),
oferecida nos anos 50 pelo presidente brasileiro Kubichek de Oliveira.
39
Erigido sobre um antigo castro, o Castelo
de Belmonte
(17)
foi residência solarenga
dos Cabrais, alcaides a partir do século
XIV, altura em que o seu sistema de de-
fesa foi substituído por janelas panorâ-
micas, exemplo a janela manuelina de
arte invulgar, atribuída a João Fernan-
des Cabral (século XV-XVI).
É dali que podemos alcançar a cape-
la quinhentista de Santo António
(15)
e a
Igreja de Santiago
(16)
, onde se encontra
um livro feito de pedra sobre a história
da família Cabral e o seu panteão, e
não devemos perder a partida do com-
boio urbano de Belmonte que nos abre
ainda mais o apetite sobre o seu patri-
mónio.
As horas passaram, uma pálida claridade a oriente começou a desenhar a
curva da porta por onde o sol haveria de entrar, ao mesmo tempo que no
lado oposto a lua se deixaria cair suavemente nos braços de outra noite.

POSTO DE TURISMO
Castelo de Belmonte
Praça da República - Tel.: 275 911 488
MUSEUS
• Ecomuseu do Zêzere
• Museu Judaico
• Museu do Azeite
• Museu dos Descobrimentos
•Centro Interpretativo “Caminhos da Fé”
• Espaço Museológico do Castelo
MONUMENTOS
• Castelo • Pelourinho • Igreja Matriz
• Solar dos Cabrais • Tulha • Capelas de
S.to António e do Calvário • Igreja de
São Tiago - Panteão dos Cabrais
• Estátua de Pedro Álvares Cabral
• Sinagoga • Janela Manuelina Casa
da Câmara - Caria • Casa da Roda dos
Exposto - Caria • Torre Centum Cellas -
Colmeal da Torre
OUTROS INTERESSES
• Biblioteca Municipal • Bairro dos Ju-
deus • Piscinas do Concelho
• Praia Fluvial • Convento - Pousada da
Nª Sra. da Esperança
A VIAGEM DO ELEFANTE
(18) Largo Afonso Costa - onde José (Zeca) Afonso viveu
Quando voltou para o continente em 1938, depois de passar a infância em Moçambique, José Afonso foi para casa do tio
Filomeno, então presidente da Câmara, em Belmonte. Em Belmonte, aprendeu de seu tio cantigas populares antigas da Beira,
e ouvia o tio cantar líricas de óperas, “foi ele que me incutiu o gosto pela música” disse um dia, apesar de, nunca esconder,
ter sido o ano “mais desgraçado” da sua vida. Pró-franquista e pró-hitleriano, o tio de José Afonso levou-o a envergar a farda
da Mocidade Portuguesa.
fonte IGESPAR
Construído num inselberg, no extremo Norte da Cova da Beira, o Castelo de Belmonte é uma imponente construção em
granito mandada edificar por D. Sancho I entre os finais do século XII e os inícios do século XIII, em pleno processo de consoli-
dação da fronteira oriental do reino. As informações acerca da sua maior antiguidade (em particular a que relacionava uma
primeira fase de povoamento com um oppidum romano), foram rejeitadas pelas recentes escavações arqueológicas, que
não identificaram qualquer vestígio dessa época (MARQUES, 2001,pp. 485 e 494, nota 4). O castelo românico implantou-se,
muito provavelmente, sobre um primitivo povoado pré-românico, periférico e de escassa relevância política, mas que poderá
ter sido dotado de muralha, como parece provar-se pelos vestígios de um alicerce e pela referência duocentista a um muro
pré-existente (IDEM, pp.487-488)...
(17) Castelo de Belmonte – MN
Largo Afonso Costa onde viveu o cantautor
Bairro dos judeus com a Sinagoga ao fundo
41
(18) Judeus em Belmonte
O documento mais antigo que conhecemos é uma lápide com uma inscrição em hebraico, datada de 1297 (segundo
leitura de Samuel Schwarz), e que pertencia à Sinagoga. Portanto, antes da expulsão dos judeus de Espanha, em 1492, vivia
em Belmonte uma comunidade organizada. É plausível que o número de elementos tenha aumentado com a decisão dos
Reis Católicos. Em Dezembro de 1496, D. Manuel I publica o Édito de Expulsão dos Judeus; em 1497, o monarca obriga ao
batismo forçado, à conversão os que permaneceram, voluntária ou involuntariamente, em Portugal. Serão os cristãos-novos,
os marranos. Para Elias Lipiner, trata-se de uma designação “(...) dada aos judeus que foram tornados cristãos à força, mas
continuavam a seguir ocultamente os ritos da lei velha”’4. O vocábulo teria raiz hebraica ou aramaica: mar-anús, ou seja,
batizado à força. Afeiçoado à fonologia das línguas ibéricas tornar-se-ia marrano. Foi, porém, a conotação pejorativa, regis-
tada por Frei Francisco de Torrejoncillo, que fez escola. Marrano “(...) que en Hespanhol quer dizer, porcos, e assim por infâmia
lhe davam este nome com grande propriedade: porque entre os marranos, ou marroens, quando grunhia e se queixa algum
deles, todos os mais acodem a seu grunhido, como assim são os judeus.” 5. Era este o significado que ainda sobrevivia em
Belmonte, associado ao foetur judaicus e a outros estereótipos. Mantinham-se superando, afinal, o tempo marcado pela
Inquisição.
fonte Maria A. Garcia, in Comunidades Marranas nas Beiras.
“Com Samuel Schwarz soubemos que,
desde a Inquisição, as candeias de
Sabat nunca se apagaram, que o jejum
de 24 horas de Yom Kippur se cumpria
rigorosamente, que o Purim da Santa
Rainha Ester não fora esquecido, que a
Pessah era vivida com “pão asmo’’ ou
“dismos’’,
com “ervas amargosas’’, ...”
Maria A. Garcia in
Comunidades Marranas nas Beiras.
Também se faz noite em Belmonte, e é
com o seu ritual secreto que queremos
caminhar pelo Bairro dos Judeus de
Belmonte
(18)
. Algumas das suas casas
ainda mantêm as características: duas
portas de entrada, uma para o negócio
e outra para a habitação. Em 1996 foi
ali construída a nova Sinagoga, local do
culto judaico, sendo das poucas a fun-
cionar com Rabino em Portugal.
Da vasta oferta cultural e museológica
de Belmonte, há uma que é única no
país e que atesta a importância da
comunidade judaica em Belmonte, o
Museu Judaico, instalado num antigo
colégio da Rua da Portela. Foram “Os
últimos Judeus Secretos”, até Samuel
Schwarz, aparecer em Belmonte e con-
seguir a confiança de alguns deles, dan-
do a conhecer em 1925, a vida singular
e resistente dos judeus de Belmonte e o
Criptojudaísmo em Portugal.
No final do século XV, apesar de algu-
ma tolerância religiosa, D. Manuel I in-
troduzia a imprensa em Portugal - trazi-
da pelos judeus - com as Ordenações
Manuelinas (primeiro corpo legislativo
impresso no país), limitando as antigas
liberdades do povo e naturalmente dos
judeus. D. João III instala a Inquisição
com a criação do Tribunal da Santa Sé,
em 1536. Essa nova realidade muda e
obriga a comunidade judaica a adotar
uma vida dupla: na rua eram cristãos e
em casa eram judeus, originando o crip-
tojudaísmo.
Vinhos, queijos, enchidos, sumos, azeite,
pão, compotas e outros produtos feitos
de acordo com as normas kosher ven-
dem-se em Belmonte e no seu Mercado
Judaico, todos os anos, em setembro. •
JUDEUS EM BELMONTE
CONVENTO NOSSA SENHORA
DA ESPERANÇA
Erigido onde outrora existia uma peque-
na capela dos Cabrais, e onde se diz ter
Pedro Álvares Cabral depositado a ima-
gem devota da Nossa Senhora da Espe-
rança após regressar do Brasil, ao Con-
vento, lugar de peregrinos e viandantes,
provavelmente construído nos finais do
século XVI, está intimamente ligado a
Jorge Cabral, sobrinho do descobridor.
D. Jorge Cabral que foi 15.º governador
da Índia, e consta ter sido o primeiro a
levar a esposa para tais paragens, re-
gressou ao Reino em 1551 - ano da Via-
gem do Elefante -. A devoção do povo
de Belmonte ao casal entretanto cres-
cera, bem como a romagem à dita ca-
pela na serra da Esperança. Em 1563,
D. Jorge Cabral, acabaria por ofertar a
Capela à Ordem Terceira de São Fran-
cisco prometendo-lhes a construção
de um Convento.
Já no ano de 2000, o Convento foi alvo
de restauração, passando a pertencer
às Pousadas de Portugal. Dali se avista o
cume da serra da Estrela, a cidade da
Covilhã, e o percurso do Zêzere quan-
do as suas margens trocam de nome
para Cova da Beira. •
Sala de estar na Pousada Convento de Belmonte
Praia Fluvial no Zêzere em Belmonte
43
O itinerário segue depois em direção a
norte via Colmeal da Torre para uma
paragem obrigatória na Torre Centum
Cellas
(19)
. Desde sempre considerada
um dos mais enigmáticos monumentos
portugueses, pela sua estranheza, di-
mensão e por ser um edifício inédito na
Península Ibérica, gostaríamos que tives-
se sido uma albergaria para os peregri-
nos de Santiago ou, simplesmente, uma
colmeia de pedra gigante na história de
um livro para crianças.
BELMONTE E A PIETÁ
“é a beleza em estado puro e para
voltar a ver coisa como isto é pre-
ciso vir cá ver isto”
RUÍNAS DE CENTUM CELLAS
“literalmente um enigma”

José Saramago
In A Viagem, o Elefante e o Escritor
Expresso - Revista Única - 01/08/2009
PARA LEVAR AS CRIANÇAS
• Museu dos Descobrimentos -
“À Descoberta do Novo Mundo”
• Comboio urbano que visita Belmonte
• Café Hot Space com espaço
para crianças
(19) Torre de Centum-Cellas - MN
As ruínas da Torre de Centum Cellas, também conhecida por “Torre de São Cornélio”, situam-se numa área particularmente
fértil e próxima da confluência da Ribeira de Gaia com o Rio Zêzere, cujos aluviões metalíferos sabemos terem sido explorados
desde épocas bastante recuadas. O monumento, em si, apresenta-se como um dos mais emblemáticos, mas ao mesmo
tempo dos mais enigmáticos de todos quantos existem na Beira Interior e se atribuem à presença romana no nosso território.
Na verdade, foram elaboradas ao longo do tempo as mais diversas teorias respeitantes à sua real funcionalidade primitiva.
Assim, desde templo, a prisão, passando por um praetorium (núcleo de um acampamento romano), a um mansio (estação
de muda), mutatio (albergaria para descanso dos viajantes), uilla romana, para além de muitas outras, tudo parece ter sido
contemplado e proposto. Todavia, as escavações realizadas pelo IPPAR, entre 1993 e 1998, demonstraram que o edifício
da Torre não se encontrava isolado, antes, sim, inserido num conjunto estrutural mais amplo e complexo, que incluía diversos
compartimentos, de entre os quais sobressaiam salas, corredores, escadarias, caves e pátios...
fonte IGESPAR
43
Museu dos Descobrimentos
Jorge Lourenço Matos talha um santo
45
A caminho do Vale do Côa, do Sabugal, do anel mágico, de Sortelha...
EN345-1 | EN18-3
ALOJAMENTO
Hotel Belsol Quinta do Rio - Belmonte
Tel.: 275 912 206/315 (Fax)
Pousada Convento de Belmonte
Serra da Esperança - Belmonte
Tel.: 275 910 300/310 (Fax)
Casa do Castelo Largo de Santiago
Tel.: 275 181 675
Passado de Pedra - CC
R. Prof. Gracinda Galiano, 1 - Caria
Tel./Fax.: 275 911 220
Casa da Chandeirinha
Serra da Esperança Ap. 26- Belmonte
Tel.: 913 177 514 Fax.: 275 912 060
ARTESANATO E SABORES
Pastelaria Shalom
R. Pedro Álvares de Cabral - Belmonte
Cooperativa Belofícios
Rua 1º de Maio, 14 - Belmonte
Mazal Tov
Rua 1.º de Maio – Belmonte
RESTAURANTES
Conv. de Belmonte Gourmet
Serra da Esperança - Belmonte
Casa do Castelo
Largo de Santiago (junto ao castelo)
Beirão EN 18 - Ginjal
Belsol Quinta do Rio - Belmonte
Brasão Largo Afonso Costa, 15
A Grelha Bairro Sta. Maria, 184 - Belmonte
Quinta da Bica EN 18 - Berlmonte
As Ferreirinhas R. da Fonte Grande, 8
Martinho Chão de Eugénio (Sítio do Vale)
A Bebiana Bairro Santo António, 2 - Caria
INTERNET
Câmara Municipal de Belmonte
www.cm-belmonte.pt
O SANTEIRO DE BELMONTE
Anda nisto da arte sacra desde 1994
mais a sério, pois já de tenra infância
Jorge Lourenço Matos, hoje com 43
anos, aguçava o canivete nos primeiros
esboços de artesanato enquanto pasta-
va as ovelhas de seus pais. Autodidata,
tomou-lhe o gosto e dedica hoje prati-
camente todo o seu tempo à arte que
escolheu, e que chega a levar 15 dias
seguidos, se for uma imagem de 80 cm,
a recuperar a alma ao criador.
Jorge Matos conta-nos que esta arte
“oriunda do norte de Portugal”, de onde
saíam as obras para todas as igrejas do
país, já “teve a sua época dourada”,
quando “havia muitos ateliers de enta-
lhadores e escultores”, enquanto recor-
da que estamos em crise. Não existem
mais de 3 ou 4 santeiros no país inteiro,
lembra um deles, sobre esta arte em de-
cadência que, ainda assim, lhe permite
ter encomendas e vender para todo o
Mundo, do Brasil a Oriente.
A madeira que usa para as suas peças é
a de freixo, porque “se quer compacta,
resistente, mais elástica, com veio certo,
para poder talhar os pormenores”, reve-
la o Santeiro enquanto maneja os palhe-
tos de vários tamanhos e as goivas que
crava ajudadas pelo maço. •
Edição brasileira
45
Sorte Pequena
Sortelha Sabugal
A
tradição rural fala em ‘Sorticula’, de
pequena parcela de terreno, antes
sorteados entre os habitantes daquele
lugar, outras, que a origem do topóni-
mo advém do castelhano ‘Sortija’, que
designa anel, destinado ao molde de
peças ou utilizado num jogo antigo de
cavaleiros. Segundo Viterbo ‘Sortel’ é um
anel de pedrarias, talvez relacionado
com o anel das feiticeiras, já que abun-
dam em Sortelha as lendas que as refe-
rem. Um anel de rubis está presente no
seu atual brasão, mas teve antes meia-
lua nas suas armas, por ter fundação de
Mouros. Tudo isto cabe em Sortelha.
Sortelha foi edificada sobre o ‘Monte
Santo’ como lhe chamou D. Sancho I
no foral de 1208, e povoada com gen-
te que até chegou a vir das terras gale-
gas e minhotas. Sabe-se que em 1220
o castelo
(20)
estava já construído para a
primeira linha de defesa fronteiriça de
Castela, até à assinatura do Tratado de
Alcanices em 1297 por D. Dinis, onde
perderia influência para o de Sabugal.
Mas é o rei venturoso, D. Manuel I, que
lhe devolve importância com a restaura-
ção do castelo, um novo foral e pelou-
rinho
(21)
, avivando-lhe o comércio com
a fixação de famílias nobres, para, em
1527, o seu sucessor, D. João III, ali for-
mar um Condado, a favor de D. Luís da
Silveira, célebre poeta do reino, incluído
no Cancioneiro de Garcia de Resende.
O que dá carácter medieval a este aglomerado é a enormidade das muralhas
que o rodeiam, a espessura delas, e também a dureza da calçada, as ruas
íngremes, e, empoleirada sobre pedras gigantescas, a cidadela, último refúgio
de sitiados, derradeira e talvez inútil esperança. Se alguém venceu as ciclópicas
muralhas de fora, não há-de ter sido rendido por este castelinho que parece de
brincar.
José Saramago
In Viagem a Portugal - 1ª edição 1981.
(20)
47
O mais tardio dos castelos românicos da Beira Interior (BARROCA, 2000, p.222), ergue-se sobre um maciço granítico impressio-
nante, ligeiramente desviado em relação à vila, e mantém, ainda, grande parte da sua estrutura inicial. São muito reduzidas as
informações acerca do passado deste sítio. Alguns autores apontam uma origem proto-histórica para o local, posteriormente
objeto de romanização, mas, até ao momento, esta é apenas mais uma de tantas hipóteses. O que seguramente sabemos,
e podemos datar, pertence já à transição para a Baixa Idade Média, concretamente ao reinado do nosso segundo monarca:
D. Sancho I. A ele se deve a fundação desta vila entre 1210 e 1212 (plausivelmente sobre um anterior nível de povoamento
que futuras escavações poderão revelar), momento fundacional que se inscreve numa segunda vaga de povoamento que
percorreu todo o interior beirão nestes inícios do século XIII... As muralhas da vila devem ter sido levantadas findas as obras na
alcáçova. É provável que datem já do século XIV (GOMES, 1996, p.99), na sequência de reformas promovidas por D. Dinis, ou,
já mais tarde, por D. Fernando, no contexto das guerras contra Castela. O facto de a vila ter sido agraciada com novo foral,
(D. Sancho II) e de ter carta de feira a partir de D. Dinis, prova a importância da localidade no contexto regional, não obstante
as tentativas da vila do Sabugal em minimizar a sua existência enquanto polo populacional e económico de certa relevância.
A cerca medieval define uma planta oval irregular, rasgada por duas portas principais, a maior delas protegida por poderosas
torres, à semelhança do que acontece em outras muralhas góticas do país...
(20) Castelo de Sortelha - MN
Esse é o grande equívoco do céu, como a ele nada é impossível, imagina
que os homens, feitos, segundo se diz, à imagem e semelhança do seu
poderoso inquilino, gozam do mesmo privilégio.
A VIAGEM DO ELEFANTE
47
(21)
(21) Pelourinho de Sortelha - IIP
Aldeia medieval, por excelência, ainda que possuindo, no seu termo, vestígios arqueológicos que remontam, pelo menos, ao
período romano, Sortelha dispõe de inúmeros testemunhos da sua atividade durante a Idade Média (sepulturas antropomórfi-
cas e igreja Matriz), com destaque para o castelo, cuja construção tem sido atribuída à iniciativa de D. Sancho I (1154-1212),
reedificado ao tempo de D. Sancho II (1209-1248) para reforço defensivo da linha de fronteira, ao mesmo tempo que con-
cedia foral a Sortelha de modo a incentivar o seu povoamento, até que, com a assinatura do Tratado de Alcanizes, em 1297,
o seu sistema defensivo perdeu a importância que detinha até então, ainda que beneficiando de ulteriores melhoramentos,
nomeadamente por mão de D. Dinis (1261-1325), D. Fernando I (1315-1383) e, por fim, de D. Manuel I (1469-1521), que lhe
outorgou novo foral, em 1510. É justamente a esta última etapa que remonta o “Pelourinho de Sortelha”, erguido no sopé do
castelo. De traçado manuelino, o pelourinho apresenta-se composto de soco formado por seis degraus de planta octogonal,
com fuste da mesma configuração - embora desprovido de base - e capitel canelado com as armas nacionais sobrepujadas
por pináculos e coruchéu a sustentar a esfera armilar com um espigão em ferro nele afixado....
fonte IGESPAR
Cabeça da Velha
Para a rota de castela só existe uma alternativa, a nossa própria,
ao longo da fronteira, em direcção a norte, até castelo rodrigo.

A VIAGEM DO ELEFANTE
Porta Nova - Sortelha
49
A VIAGEM DO ELEFANTE
A aldeia de Sortelha é uma verdadeira
almedina, embora a localidade tenha
avançado para aquilo que o povo cha-
ma de arrabalde, “extramuros”, é lá que
encontramos uma pequena mercearia
e uma padaria.
No entrar e sair de portas, a Falsa es-
preita uma velhinha com a cabeça no
lugar há séculos, já a Nova, aquilo que
foi provavelmente um hospício, e que
funcionou como Hospital da Misericór-
dia a partir, pelo menos, do século XVI.
Mais adiante, ainda fora das muralhas,
encontram-se as ruínas do que foi uma
Igreja da Misericórdia do século XIV,
apelidada de Santa Rita.
Sortelha à noite
(22)) Igreja de Nossa Senhora das Neves (Igreja Matriz)
Acredita-se que o edifício primitivo foi construído no século XIV,
funcionando na altura como torre de vigia. Foi depois remo-
delada, em 1573, sofrendo mais reconstruções nos séculos
seguintes. É constituída por uma planta longitudinal composta,
com uma nave única e uma capela-mor quadrangular, com
cobertura em falsa abóbada de berço de madeira na nave e
em alfarge na capela-mor. Apesar de ter origem medieval, a
igreja denota uma grande influência renascentista. Foi Vigaria
do padroado real e Comenda da Ordem de Cristo.

fonte IGESPAR
A almedina que é Sortelha também
tem uma Rua Direita, que liga as duas
portas principais, com casas senhoriais,
quinhentistas, como a do governador,
ocupada em tempos por quem ad-
ministrava a Câmara de Sortelha, ou a
residência paroquial, destinada à habi-
tação dos sacerdotes, marcada com
a Cruz de Malta, símbolo do guerreiro
cristão.
A rua também alberga a Igreja Matriz
(22)
,
dedicada à Senhora das Neves, perten-
cente à Comenda da Ordem de Cristo,
que conserva uma arquitetura de estilo
renascentista, resultado dos restauros de
1573.
O Largo do Pelourinho, um dos mais
interessantes erigidos sob a tutela do rei
venturoso é logo ali, bem como a anti-
ga Casa da Câmara e cadeia, símbolo
do poder administrativo outorgado pelo
rei D. Manuel I, onde se pode observar
o brasão real com o escudo e a esfera
armilar manuelina.
Existe uma casa de construção tipica-
mente beirã, do século XVI, hoje transfor-
mada em Turismo de Habitação, inspira-
da numa história tradicional de Sortelha:
“O Vento que Soa”.
Casa beirã com janela ao estilo manuelino
51
PARA LEVAR AS CRIANÇAS
• Radical Lince - Animação Turística
• Festas de Sortelha (2ª Semana
de agosto) • Piscinas Municipais do
Sabugal • Reserva Natural da Serra da
Malcata • Rota dos 5 Castelos
ESTÓRIA DO VENTO QUE SOA
A história contada diz que um pai, à bei-
ra da morte, disse ao filho as seguintes
palavras: «Se tiveres um segredo, que
não queiras ver espalhado pelo vento
que soa, não o contes a ninguém. Nem
a tua mulher, nem ao teu maior amigo.
Guarda-o, porque um verdadeiro segre-
do guarda-se no coração».
Sem perceber muito bem as palavras
do pai, o rapaz resolveu lançar um boa-
to. O jovem soube que um nobre senhor
perdera o seu falcão e oferecia uma
recompensa a quem o encontrasse e
devolvesse. Tinha encontrado o seu bo-
ato. O rapaz convidou um amigo para
jantar e diz ter encontrado o falcão mas
que o animal estava fraco e acabara
por morrer.
O amigo sem querer trair a confiança
do amigo, mas aflito pela informação
que possuía, dirigiu-se a um canavial e
disse, convencido que ninguém o ou-
via: «Foi o Zé do Feijão que matou o fal-
cão». Pouco depois, um pastor arranca
a cana para fazer uma flauta, mas em
vez de saírem notas musicais, o que se
ouviu foi: «Foi o Zé do Feijão que matou
o falcão». O pastor contou e assim, pelo
vento que soa, se espalhou um boato.
in Café Portugal
ESTÓRIA DO BEIJO ETERNO
Conta-se que no início da Reconquista,
quando cristãos e mouros avançavam
e recuavam ao sabor da sorte das ar-
mas... No castelo vivia o alcaide, ho-
mem forte e valoroso, a sua mulher, que
todos diziam possuir poderes mágicos, e
uma filha, donzela casta e formosa.
Um cerco terá durado tanto tempo que
a pobre rapariga farta de não poder
sair do castelo... começou a reparar no
garboso príncipe árabe que comanda-
va aquele exército... Por sinais e gestos
foram-se comunicando, às escondidas
de todos... Aos poucos o amor foi cres-
cendo e cada vez era maior a vontade
de ambos, de se encontrarem...
POSTO DE TURISMO
Largo do Corro
Visitas Guiadas Tel.: 271 750 080
MUSEUS
Museu e Auditório Municipal do Sabugal
Largo de S. Tiago - Sabugal.
MONUMENTOS
• Castelo e Torre de Menagem
• Pelourinho • Igreja Matriz
• Antiga Casa da Câmara e Cadeia
• Casa do Vento que Soa • Cofre
• Casa do Juiz • Porta Nova • Hospital
da Misericórdia • Igreja da Misericórdia
• Cabeça da Velha • Casa do Gover-
nador • Residencial Paroquial • Casa
dos Falcões • Casa das Almas
OUTROS INTERESSES
• Centro Hípico do Soito
• Piscinas Municipais do Sabugal
• Reserva Natural da Serra da Malcata
• Nascente do Côa - Foios
• Termas do Cró
• Capeias Arraianas (meses de verão)
De repente as nuvens descobriram a
lua e a mãe estupefacta viu a menina
nos braços do príncipe árabe, beijando-
-o. Num terrível acesso de raiva, a mãe
desencadeou um tal poder que de ime-
diato os dois amantes desapareceram.
Quando o sol se levantou, descobriu-se
com espanto que no local onde eles se
tinham encontrado, estavam agora dois
barrocos como que se beijando eterna-
mente.
in «Aldeias Históricas»,
Cai a noite em Sortelha e se não houver
hóspedes nas casas de turismo de habi-
tação, a vila como que se suspende e
permanece sem vivalma até ao ama-
nhecer.
Ti Felismina é um dos últimos três habi-
tantes do anel de pedra que é Sortelha,
enquanto lá fora, no arrabalde, ainda
vivem duas centenas de pessoas. Não
tem medo de estar sozinha, mas conta-
-nos o seu trato com Ana Maria - pro-
prietária de um café local. “Cada vez
que abalo ou sinto carros dou à janela,
e ela igual”, isto para saberem ambas
que estão bem.
Felismina ainda é viva porque vai ao
bracejo, que não é nenhuma prática
aquática local, mas de subir montes
em busca dele. O Bracejo é uma erva
verde, com que se fazem os cestos de
Sortelha. Demora duas ou três horas a
fazer uma peça, “conforme a vonta-
de”, dos seus oitenta e oito anos. Come-
çou a ceifar, cavar e sachar no campo,
aos 12, “mais do que os homens, como
uma cabra”.
Ti Felismina finaliza um cesto de bracejo
Queyxa-sse Luys Teyxeira,
tem já mil concrusões postas,
que lhe tiraram das costas
estas peles de toupeyra.
Nam sabe per que maneira
lhe fizeram tal engano;
diz c’ou ele foy Çiguano,
ou muy fina feyticeira.

In Cancioneiro Geral, “As Martas de D. Jerônimo”
D. Luís da Silveira
Sortelha
“é como entrar na Idade Média”
José Saramago
In A Viagem, o Elefante e o Escritor
Expresso - Revista Única - 01/08/2009
Ti Felismina finaliza um cesto de bracejo
53
As origens do Castelo de Sabugal encontram-se no reino de Leão, quando Alfonso IX detinha as terras de Riba-Côa. Nos
séculos XII e XIII, a vila era a principal localidade desta vasta região, na medida em que controlava a ponte que permitia a
passagem do rio Côa (GOMES, 1996, p.103). Apesar desta circunstância de inegável importância, os primeiros dados segu-
ros surgem apenas nos inícios do século XIII, quando o monarca leonês fundou a vila, por volta de 1224. Nos setenta anos
seguintes, um primitivo reduto defensivo foi edificado a expensas do reino de Castela e Leão, fortificação que haveria de ser
conquistada por D. Dinis em 1296, na sequência da ofensiva militar do nosso rei sobre as terras de Riba-Côa. É a partir da
transferência de soberania da vila que aparece o castelo gótico de Sabugal. A localidade mantinha a anterior importância,
agora acrescida pelas cláusulas do Tratado de Alcanices, que lhe impunham um estatuto de primeira fortaleza raiana. Neste
contexto, D. Dinis ergueu um castelo exemplar, moderno, arquitetónica e espacialmente racionalizado. As obras principiaram
pelo desimpedimento do núcleo central da vila, dentro das antigas muralhas leonesas, onde se erguiam algumas casas. De-
finido o perímetro, a opção foi por uma fortaleza de “planta geométrica quase perfeita, delimitando um pátio sub-retangular
com torreões quadrangulares nos ângulos” (BARROCA, 2000, p.224). A radicalidade e modernidade deste projeto está bem
espelhada na majestosa torre de menagem. Ao contrário dos castelos românicos, onde esta torre aparecia isolada dentro
do recinto interior, a torre de menagem do castelo de Sabugal adossa-se a uma das muralhas e tem por objetivo a defesa
ativa da porta principal...de D. Sancho I” (IDEM, p.224), cuja imponência se assumiu como uma das principais imagens da
vila ao longo da sua história....
fonte IGESPAR
(23) Castelo do Sabugal - MN
CIDADE DO SABUGAL
Nos séculos XII e XIII, eram estas terras le-
onesas delimitadas a ocidente pelo do
rio Côa, barreira natural às invasões mi-
litares, frequentemente preparadas pela
política expansionista do reino leonês.
Afinal, só cerca de 150 anos depois do
reconhecimento de Afonso Henriques
como rei, em 1143, é que as Terras de
Riba-Côa se tornaram portuguesas.
Alguns autores admitem, no entanto,
que a vila do Sabugal era já no reina-
do de D. Sancho II considerada como
muito importante, chegando mesmo a
ser ponto de preferência real. É no en-
tanto, com D. Dinis, a partir de 1297,
que a sua importância se afirma, com a
construção de um moderno castelo, ou
de um Palácio de Justiça, uma cadeia
modelar, naqueles que foram os seus
melhoramentos grandiosos.
As riquezas minerais existentes nos arre-
dores do Sabugal são conhecidas. Há
cerca de quarenta anos ainda ali fun-
cionavam as termas das Águas Radium
e, nos anos 30, já o casal Curie manda-
va o seu colaborador Denys Cochin bus-
car o urânio das minas de Quarta-Feira
para as suas experiências científicas que
levaram à descoberta do rádio e do
polónio, que lhes valeram a conquista
do Nobel da Química em 1911.
A região é terra de pesca da truta e de
caça, do queijo da serra da Malcata,
do mel, etc. Constam na gastronomia
sabugalense os mais variados pratos,
sendo os mais conhecidos o Caldo ver-
de, a Canja de Cornos, o Cabrito na
brasa, Coelho bravo, o Javali, os Enchi-
dos e a Truta do Rio Côa. Na doçaria, o
Arroz Doce, o Bolo Saloio e os Santoros,
são alguns exemplos.•
Pelourinho, muralha e torres eólicas em Sortelha
55
No encalse do Côa, de Pinhel, do ‘Calcanhar do Mundo’, de Cidadelhe...
ALOJAMENTO
Casa da Lagariça e da Calçada
Calçada de Santo Antão, 11 - Sortelha
Tel.: 271 388 116
Casa da Cerca e do Páteo
L.go de Nª Sra. da Conceição - Sortelha
Casa da Villa - TH
Rua Direita - Sortelha
Tel.: 271 388 113
Casas do Campanário I e II - TH
Rua Mesquita, 7 - Sortelha
Telef.: 271 388 198
ARTESANATO E SABORES
Loja de Artesanato - L.go do Pelourinho
O Campanário - Rua Direita
RESTAURAÇÃO
D. Sancho
Largo do Corro
O Celta
Rua Dr. Pereira Neves,10
Palmeiras
Rua Dr. Pereira Neves,10
Casa do Quartel
CAFÉS E BARES
Boas Vindas - Bar
Campanário - Bar/Esplanada
INTERNET
Câmara Municipal do Sabugal
www.cm-sabugal.pt
Edição inglesa

O Festival “ó forcão rapazes”, é o culmi-
nar das Capeias Arraianas, touradas tradi-
cionais da região do Sabugal e únicas em
Portugal, onde nove equipas que represen-
tam outras tantas aldeias raianas se jun-
tam a fazer a lide com recurso ao ‘forcão’.
O ‘forcão’ é uma estrutura de madeira de
carvalho, em forma de triângulo, no inte-
rior da qual se colocam cerca de trinta ho-
mens e rapazes com o objetivo de “cansar”
o touro, que depois é lidado frente a frente
por rapazes corajosos.
CAPEIAS ARRAIANAS
EN18-3 | EN324 | EM607
55
No festival “ó forcão rapazes” na Aldeia do Soito
Calcanhar do Mundo
Cidadelhe Pinhel
M
uito pouco se sabe sobre a origem
desta povoação, no extremo nor-
te do concelho de Pinhel e apelidada
de “Calcanhar do Mundo”. Existe, no
entanto, nas imediações da atual al-
deia, debruçado sobre o vale inóspito e
esmagador do rio Côa, um castro que
teve muralha e que foi habitado desde
a idade do Bronze.
Segundo crónicas antigas, estampadas
depois por Alexandre Herculano, a cha-
mada Batalha de Pinhel ou a Batalha
de Ervas Tenras, que opôs várias fações
da fidalguia da região, ocorreu por volta
de 1199, sendo já Pinhel o centro de um
vasto sistema de fortificações, defendi-
da por uma coroa de pequenos cas-
telos e castros antigos, entre os quais o
castro de Cidadelhe.
Sabemos que foi sede de concelho per-
tencente ao Bispado de Lamego, teve
tribunal, cadeia, farmácia e escola,
provavelmente até 1535, ano em que
é criada a Comarca de Pinhel com o
desmembramento da grande Comar-
ca da Beira, após as conclusões de um
estudo mandado fazer por D. João III -
Cadastro da População do Reino - edi-
tado em 1527, que permitiu o estabele-
cimento de novas comarcas.
É portanto bem antiga a sua ocupação
mas também o seu nome, que para os
seus mais antigos populares advém de
‘Cidadaque´ ou meia cidade. Cidade-
lhe é o mesmo que cidadelha, cidade
pequena ou pouco importante, ainda
assim bem mais importante do que um
simples lugar ou aldeia.
…, então o viajante encontra Cidadelhe, lá em cima, entre o rio Côa e a ribeira
de Massueime, é o cabo do mundo, será o cabo da vida.
Se não houver quem se lembre.
José Saramago
In Viagem a Portugal - 1ª edição 1981.
Arribas do Côa
57
Dedicada a Santo Amaro, a igreja matriz de Cidadelhe que hoje conhecemos é uma reconstrução setecentista de uma igreja
de época anterior sobre a qual subsistem raras informações. Sabe-se que no início do século XVIII, o templo se encontrava
anexo à vizinha igreja de Azevo, situação que se manteve pelo menos nos anos seguintes (COSTA, 1706, p. 271). Mas a matriz
de Cidadelhe é anterior, e a data de 1646 que se encontra na sineira de apoio ao templo contribui para fazer recuar a sua
construção, pelo menos, à primeira metade do século XVII. Na verdade, a sua arquitetura chã está mais próxima desta crono-
logia seiscentista. ... Apenas a data de 1715 no entablamento do portal indica tratar-se de uma reconstrução, cujo alcance,
todavia, permanece por esclarecer. No interior é mais evidente esta remodelação de época barroca, com uma campanha
de talha dourada bem presente nos retábulos colaterais e cuja talha se prolonga enquadrando toda a superfície do arco
triunfal. O retábulo-mor, do mesmo período, ocupa a totalidade da parede fundeira da capela-mor, apresentando uma
ampla tribuna com trono escalonado. Todo este conjunto de talha foi, certamente, objeto de intervenções posteriores que lhe
conferiram a policromia que hoje apresenta. O teto da nave, em caixotões, exibe um vasto conjunto de pintura de temática
hagiográfica, com molduras pintadas em tons de branco e vermelho....
fonte IGESPAR
(25) Igreja Matriz de Cidadelhe ou de Santo Amaro
Uma parede que proteja da nortada, um telhado que defenda da chuva
e do sereno, e pouco mais é preciso para viver no maior conforto do
mundo. Ou nas delícias do paraíso
A VIAGEM DO ELEFANTE
(24) O Cidadão de Cidadelhe
Figura esculpida na pedra do arco do campanário, espécie de patrono laico da velha freguesia. De rosto triangular, membros
longos, sobre uma esfera, assim é o misterioso Cidadão de traços alienígenas talhado em baixo relevo num bloco de granito
oriundo provavelmente do Castro de Cidadelhe. Assemelha-se com um São Sebastião mas são poucas ou nenhuns os estu-
dos conhecidos sobre esta figura.
57
Cidadão de Cidadelhe
Cidadã Albertina Pacheco
59
Nas Estatísticas de 1880, por motivo da
extinção da Comarca de Pinhel, Cida-
delhe contava com 370 habitantes e 98
fogos, mas é a partir de 1940 que a al-
deia começa a perder população, de-
caindo dos 335 para os 124 em 1980.
Hoje vivem em Cidadelhe apenas 30
pessoas, na maioria idosas, conta Rui
Marques, atual presidente da Junta de
Freguesia.
Rui Marques arrisca a dizer que “se não
acontecer um ‘milagre’ a aldeia vai
morrer em breve e até os cães vão
Em dois minutos juntou-se meia
dúzia de crianças, e o viajante
descobre, surpreendido, que todas
são lindas, uma humanidade
pequena de rosto redondo, que é
maravilha ver.
José Saramago
In Viagem a Portugal - 1ª edição 1981.
Edificada em 1652, a Capela de São Sebastião, implantada junto
à entrada da povoação de Cidadelhe, é um pequeno templo de
planta longitudinal, precedido por alpendre fechado com cober-
tura de madeira. O portal principal, de moldura reta, é encimado
por uma composição de pintura mural que representa o Calvário
, tendo como fundo Jerusalém. No interior, destaca-se a cobertura
do espaço, cujo teto é composto por 20 caixotões pintados com
imagens da Vida da Virgem e da Vida de Cristo. Na parede fun-
deira, sobre o altar, foi montado o retábulo, composto por cinco
painéis policromos, dois dos quais representando santos francisca-
nos. Este conjunto é rematado, a toda a volta, por friso em talha
policroma e dourada.
fonte IGESPAR

(26) Capela de São Sebastião
abalar, que são mais que as pessoas”.
O milagre de que fala é afinal um pro-
jeto bem terreno e pode salvar o local
do desaparecimento humano e animal.
59
Rio Côa
A Junta de Freguesia “já adquiriu um nú-
cleo de casas para a recuperação da
zona antiga da aldeia”. A ideia, quase
projeto, é “criar uma aldeia hotel, pri-
meiro com 6 a 8 casas e os serviços
complementares como um restaurante,
uma casa de convívio, lojas, etc. São
500 mil euros para iniciar, que ainda não
tiveram cabimento em nenhum projeto
comunitário, diz-nos Rui Marques.
No entanto, têm sido recuperadas já al-
gumas casas particulares por pessoas
de fora, “sem ligações à aldeia, porque
gostaram simplesmente dela”, daquele
lugar, fronteira do rio Côa, profundo e in-
transponível. •
O único café da aldeia é propriedade
da Junta de Freguesia, fruto da carolice
dos seus componentes, que lhe abrem
as portas para servir não mais de 30
cafés ao fim de semana. É lá que fica-
mos a saber dos afazeres da terra, dos
4 rebanhos ainda existentes, terão sido
30, e outros tantos fazedores de um po-
pular queijo de cabra, do azeite que já
não se faz nos lagares antigos nos potes
cravados no granito, esmagado depois
em mós de pedra, tocadas por animais.
Que já não se vai ao rio pôr o linho de
molho, que era semeado em fevereiro
e março, depois maçado e tascado
com a espadela num cortiço, apurando
o linho fino para as toalhas e lençóis e
da estopa fazer sacos e colchões. Tam-
bém aqui se tratavam as infeções com
as papas de linhaça num preparado de
água e vinagre.
As cavacas de Pinhel
São ocas, açucaradas,
Por dentro sabem a mel
E são sempre perfumadas
In Quadro de Revista “Cavacas de Pinhel”
Da gastronomia local, assinalam-nos as
Migas de Serrabulho, com um toque
especial de Cidadelhe. Fatia-se o pão
para uma travessa de barro, enquanto
se coze o sangue de porco. Aproveita-
-se a água da cozedura para amolecer
o pão na travessa. O sangue depois
de cozido é ralado e espalhado sobre
o pão mole, tudo depois coberto com
um estrugido de azeite e alho. Serve-se
com grelos à pobre. Do porco faziam-
-se os tradicionais enchidos, o chouriço,
o salpicão e o bucho. Reza a história
que semanalmente os residentes de Ci-
dadelhe faziam cerca de 35 km por dia
para levarem o porco ou outro gado à
feira semanal de Marialva.
IDEIA DE SOBREVIVÊNCIA
Antigas habitações em Cidadelhe
61
PARA LEVAR AS CRIANÇAS
Parques Infantis na Cidade
Mercado semanal – todas as 2ª feiras
Feira das Tradições e Atividades Econó-
micas, no fim-de-semana de Carnaval
POSTO DE TURISMO
PINHEL - Rua de Santa Maria
Tel.: 271 410 404
MUSEUS
PINHEL
• Museu Municipal • Praça Sacadura
Cabral • Casa Museu Helena e António
Seixas • Rua da República, 20
MONUMENTOS
Igreja Matriz de Cidadelhe • O Cidadão
• Capela de São Sebastião
• Núcleo de Arte Rupestre da Faia
PINHEL
Castelos de Pinhel • Pelourinho • Igreja
de Santa Maria do Castelo • Casas Ju-
daicas na rua de S.ta Maria • Igreja da
Misericórdia • C.to de São Luís • Igreja
da Misericórdia • Igreja de Santa Maria
do Castelo • Porta de Santiago • Con-
vento dos Frades • Casa dos Metellos
OUTROS INTERESSES
Tecedeiras na Freguesia do Safurdão
• Biblioteca Municipal • Parque Arqueo-
lógico do Vale do Côa • Museu do Côa
• Reserva da Faia Brava
O pálio (sabia-o já o viajante e teve confirmação pela boca do seu companheiro)
é a glória de Cidadelhe. Ir a Cidadelhe e não ver o pálio, seria o mesmo
que ir a Roma e não ver o papa. O viajante já foi a Roma, não viu o papa
e não se importou com isso. Mas está a importar-se muito em Cidadelhe.
Porém, o que não tem remédio, remediado foi. Coração ao alto.
José Saramago
In Viagem a Portugal - 1ª edição 1981.
Existe um Centro Difusor em Cidadelhe,
um espaço pensado para a fruição do
património de arte e arqueologia, já
que a partir daqui se abre a porta sul do
Parque Arqueológico do Vale do Côa
e se encontram as gravuras e pinturas
rupestres - Património Mundial da Huma-
nidade.
Cidadelhe é, pois, um sítio de patrimó-
nios, uma terra feita de pedra e cheia
de muitos mistérios, o primeiro dos quais
é o seu “pálio” valioso datado de 1707,
de veludo carmesim todo bordado a
ouro, prata e seda, ornamento de pro-
cissões e glória de Cidadelhe. Trata-se
de um belo tesouro, um baldaquino pro-
cessional guardado e defendido secre-
tamente algures numa casa da aldeia.
Outro mistério é o ‘Cidadão’
(24)
de Ci-
dadelhe, figura esculpida na pedra do
arco do campanário, que foi em tem-
MISTÉRIOS DE CIDADELHE
pos alvo de roubo e cobiça entre o povo
de baixo e o povo de cima. A figura do
cidadão ora era levada para cima ora
para baixo até ficar no seu atual poiso
junto à igreja matriz
(25)
e com uma inscri-
ção que data do ano de 1646. •
O Pálio em procissão - foto Carlos Gil
Dedicada a Santo Amaro, a igreja ma-
triz
(25)
de Cidadelhe, de arquitetura chã,
mais próxima da época seiscentista,
deslumbra pelo seu teto, em caixotões,
exibindo um vasto conjunto de pintura
com a história dos santos da igreja ca-
tólica, pinturas que, para alguns, são da
época quinhentista.
Percorrendo o núcleo antigo, são as pa-
dieiras insculpidas ou com baixos-relevos
decorativos: de notar uma ave pousada
sobre uma cabeça de anjo alada, en-
tre dois animais de quatro patas, e outra
com uma árvore cobrindo dois castelos,
quiçá a torre de menagem e a torre da
cadeia de Pinhel, e de volta ao povo de
cima, junto ao cruzeiro, vale a pena vi-
sitar a Capela de São Sebastião
(25)
, os
seus caixotões e a figura do seu santo,
curioso nas proporções.
São ainda lugares de interesse, rumo ao
“Castelo dos Mouros” ou castro de Ci-
dadelhe, o Poio do Gato, por um raro
bosque mediterrâneo, que se precipita
no vale do rio Côa, num itinerário de
silêncio, hoje assinalado como Grande
Rota do Vale do Côa, talvez até ao nú-
cleo de Arte Rupestre da Faia.
Teto em Caixotões na Igreja Matriz
63

No local onde se ergue o Castelo de Pinhel existia, desde a época pré-romana, um recinto fortificado. Com D. Afonso Hen-
riques esta área assumiu um papel de destaque na reconquista cristã, papel reconhecido e sublinhado por D. Sancho I, em
1189, com a atribuição de carta de foral a Pinhel, à qual se seguiu a construção do castelo. A estruturação deste complexo
fortificado tem ainda continuidade durante o reinado de D. Afonso II, sendo o conjunto reconstruído e alargado no reinado
de D. Dinis. De facto, entre o último quartel do século XII e o primeiro quartel do século XIII, seis torres de planta quadrada são
construídas (e posteriormente consolidadas aquando da confirmação de foral em 1510, por D. Manuel), às quais correspon-
dem seis entradas rematadas com arcos a pleno centro e quebrado...
fonte IGESPAR
(27) Castelos de Pinhel - MN
As origens da cidade de Pinhel remon-
tam ao período calcolítico. Situada num
planalto entre a ribeira de Massueime e
o rio Côa, assumiu um papel importante
na época medieval, e no contexto da
definição da nacionalidade foi o fulcro
de um sistema fortificado mais abran-
gente, que incluía os castelos de Tran-
coso, Marialva e Castelo Mendo.
Pensa-se que já D. Afonso Henriques a
mandou povoar e restaurar a sua fortifi-
cação
(27)
. Desde muito cedo que Pinhel
teve foral, em 1191, vendo depois con-
firmadas as suas regalias pelos forais de
1209, 1217, 1282, atribuídos respetiva-
mente por D. Sancho I, D. Afonso II e D.
Dinis, que procurou consolidar as frontei-
ras com o reino vizinho, na reedificação
dos castelos de Riba-Côa, devendo-se
a este monarca a construção da mura-
lha, aberta em seis portas: Vila, Santiago,
São João, Marrocos, Alvacar e Marialva,
tornando-se uma poderosa cidadela. D.
João I também lhe concede foral em
1385.
CIDADE DE PINHEL
Janela Manuelina numa Torre do Castelo de Pinhel
Igreja da Misericórdia de Pinhel
65
A Caminho de além Côa, pela Ponte da União, Terras de Aguiar, Castelo Rodrigo...
EM607 | EN221
ALOJAMENTO
Falcão - Residencial
Av. Carneiro de Gusmão, 25 - PINHEL
Tel.: 271 413 969
Skylab - Residencial
Rua Silva Gouveia, 28/30 - PINHEL
Tel.: 271 412 494
Encostas do Côa - TR
QUINTA NOVA
Tel.: 271 411 132
Quinta de Pêro Martins - CC
Trav. do Castelo, 10 - Q.ta de Pêro Martins
Telef.: 271 313 133
ARTESANATO E SABORES
Casa de Artesanato - Freguesia do Safurdão
RESTAURAÇÃO
PINHEL
A Tasca
Rua São Lázaro, 7
Skylab
Rua Silva Gouveia, 28/30
O Petisco
Quinta da Cheínha
Falcão
Avenida Carneiro de Gusmão, 25
INTERNET
Câmara Municipal de Pinhel
www.cm-pinhel.pt
Edição Estados Unidos da América
D. Manuel I concede-lhe o Foral Novo
em 1510, reforma o Pelourinho, símbolo
das liberdades e deveres dos munícipes,
e incute o seu estilo arquitetónico na en-
tão vila, de que é exemplo uma bela
janela na torre de menagem.
A partir do século XVI surgiram na cida-
de edifícios, civis e religiosos, que denun-
ciam uma época áurea desta povoa-
ção, de que a Igreja da Misericórdia,
ou a Casa Grande, que foi mais tarde
residência dos Condes de Pinhel, e o So-
lar dos Corte Reais são alguns exemplos.
No reinado de D. José I, em 1770, a vila
de Pinhel é elevada à categoria de Ci-
dade Episcopal, já que pertenceu sem-
pre ao Bispado de Viseu, para em 1882
a perder e passar a pertencer à diocese
da Guarda. •
Pinhel é terra de produção de vinho,
de azeite e dos tradicionais enchidos
e queijos da Beira Interior. Pinhel teve
Convento de Freiras Clarissas, por mais
de 200 anos, e foram elas as criadoras
da melhor doçaria local. Ainda hoje so-
brevivem as Cavacas de Pinhel, que há
quem saiba serem melhores do que as
das Caldas.
65
Terra de Aguiar
Castelo Rodrigo Figueira de
O
nome de Castelo Rodrigo estará li-
gado ao mesmo Rodrigo Gonzáles
Girón, que em 1100 remodelou a anti-
ga cidade romana de Cidade Rodri-
go, ainda que persista a dúvida da sua
ligação ao nome de um conde Rodrigo
Martim, o senhor da Terra de Aguiar, re-
ferenciado numa escritura de 1129.
O local foi supostamente fundado pelos
Túrdulos, um povo pré-romano que ha-
bitou a Península Ibérica cinco séculos
antes de Cristo. Terá tido castro romano,
já que por aqui passava uma importan-
te estrada romana, que ligava comer-
cialmente Salamanca ao alto distrito de
Bragança. Já na época visigótica terá
pertencido à diocese de Caliabria, se-
diada junto ao Douro, hoje território da
freguesia de Almendra, concelho de
Vila Nova de Foz Côa. Teve ocupação
árabe, que deixou vestígios, como o
arco de ferradura da Cisterna da vila,
foi intensamente disputada pelos re-
conquistadores cristãos e repovoada a
partir do século XII por D. Fernando II de
Leão e D. Afonso Henriques, de Portugal,
e onde tiveram papel importante a Or-
dem de São Julião do Pereiro, criada
aqui nessa altura.
Castelo Rodrigo foi o primeiro dos con-
celhos de Riba-Côa, fundado ainda
pelo rei Fernando II de Leão, e definiti-
vamente povoado e fortificado com
uma “cidadela
(28)
com castelo e recin-
to torneado” em 1209, já pelo seu filho
Afonso IX, também responsável pelo
primeiro foral de Riba-Côa concedido
a Castelo Rodrigo nesse mesmo ano. O
mesmo Afonso IX forma a Irmandade
de Riba-Côa, para minimizar os confli-
tos regionais entre a nobreza e o clero.
A Irmandade foi mais tarde adotada
por D. Dinis, quando Riba-Côa se tornou
portuguesa, sendo assim a primeira as-
sociação de municípios portugueses ou
a organização mais antiga de Portugal.
Parece que uma praga caiu sobre a vila. Ali está o brasão, com as armas reais
invertidas, por castigo, diz-se, de ter o povo tomado partido por D. Beatriz de
Castela contra D. João I. E nem terem deitado fogo os descendentes ao Palácio
de Cristóvão de Moura, em 1640, como prova de patriotismo, pôde emendar
o erro antigo: invertidas estavam as armas reais, invertidas ficaram.
José Saramago
In Viagem a Portugal - 1ª edição 1981.
67
São duas as fases medievais essenciais da história deste castelo: a construção leonesa, de finais do século XII ou inícios do século
XIII, e a reforma patrocinada por D. Dinis, na primeira metade do século XIV. As lendárias notícias acerca da fundação do castelo por
volta de 500 a. C., pelos Túrdulos, e a posterior instalação de um oppidum romano, permanecem, ainda, no domínio da lenda e os
vestígios romanos achados (IPPAR, 2002, p.1) não permitem uma clara caracterização do local antes da Idade Média, duvidando-se
da sua proveniência (PERESTRELO, 2003). Historicamente, sabemos que Afonso IX, de Leão (1188-1230), promoveu a construção de
um castelo, que integrava a linha defensiva do Côa, juntamente com Castelo Melhor, Alfaiates, Castelo Bom e Almeida. Dessa for-
taleza românica, conservam-se alguns vestígios importantes e de grande interesse para a evolução da arquitetura militar na região.
Mário Barroca, que valorizou recentemente estes elementos, referiu a constante opção por torres circulares, por oposição aos con-
temporâneos e vizinhos castelos portugueses, que recorreram sistematicamente às torres quadrangulares. Paralelamente, edificou-
-se a mais setentrional das torres albarrãs atualmente em território nacional, hoje já inexistente, mas ainda desenhada por Duarte
d’Armas nos inícios do século XVI (BARROCA, 2000, p.223). O castelo deveria estar concluído, ou em fase adiantada de obras, por
1209, altura em que o monarca leonês passou a célebre carta de foro à localidade. Menos de um século passado, Castelo Rodrigo
viu-se no epicentro de uma das mais importantes querelas territoriais do Portugal medieval. Em 1296, D. Dinis conquistou a localidade
e confirmou os foros passados por Afonso IX. Um ano depois, a fortaleza passou definitivamente para a coroa portuguesa, pelo Trata-
do de Alcanices. A reforma dionisina foi semelhante a tantas outras patrocinadas por este monarca, mas adquire maior relevância
por se situar nas terras de Riba-Côa, região onde as campanhas arquitetónicas militares de D. Dinis denotam a “clara vontade do
monarca de afirmar o seu senhorio sobre castelos recém-incorporados no território nacional” (IDEM, p.223). Uma das materializações
mais inequívocas dessa “vontade” foi a construção de um cenográfico e imponente sistema de entrada principal, composto por
arco quebrado axial, encimado por balcão de matacães (de que restam apenas os suportes inferiores) e ladeado por duas robustas
torres quadrangulares, onde se inscreveram dois brasões reais. Esta tipologia de entrada pode considerar-se tipicamente dionisina e
encontra-se, ainda, em alguns castelos reformados por este monarca, com exemplos marcantes em Pinhel ou Trancoso...
fonte IGESPAR
(28) Castelo de Castelo Rodrigo - MN
…, Temos de chegar a castelo rodrigo
antes dos espanhóis, devemos consegui-lo,
eles não estão prevenidos, nós, sim,…
A VIAGEM DO ELEFANTE
67
Estátua do Cristo-Rei no alto da Serra da Marofa
Igreja Matriz de Castelo Rodrigo
Quando, de cabeça levantada,
voltemos para casa, poderemos ter a certeza
de que este dia será recordado para todo o
sempre, de cada um de nós se há-de dizer
enquanto houver portugal,
Ele esteve em figueira de castelo rodrigo.
A VIAGEM DO ELEFANTE
Pelourinho de Castelo Rodrigo
69
Com o Tratado de Alcanices, em 1297,
Castelo Rodrigo passa definitivamente
para o domínio português. D. Dinis con-
firma-lhe os foros, e reforma também ele
a fortificação, com uma nova torre de
menagem, cerca amuralhada e torre-
ões.
No reinado de D. Fernando fala-se já da
tradição da sua feira, a par da de Pinhel.
Após a morte do rei Formoso, com a
qual se viria a instalar uma crise política,
Castelo Rodrigo toma o lado do rei de
Castela, ao ponto de Álvaro Gil Cabral,
seu alcaide, recusar receber o Mestre
de Avis, ao passar pela zona. Subindo
ao trono, o mestre, D. João I, acabaria
por punir a vila, encerrando a sua feira e
mandando inverter o seu brasão.
D. Manuel I concedeu, em 1508, um
Foral Novo ao concelho, tornando o mu-
nicípio mais dependente do poder real,
e no ano seguinte encarrega Duarte
d’Armas de percorrer a zona fronteiriça
e desenhar as plantas e as vistas de to-
das as fortalezas, o que nos permitiu sa-
ber, até hoje, como seria a fortificação
plenamente edificada. É desta época o
seu belo pelourinho manuelino
(29)
.
Ainda no tempo do rei venturoso, em
1520, uma nota curiosa merece ser
conhecida, pois atesta a importância
comercial de Castelo Rodrigo, que ti-
nha o monopólio do fabrico e venda
de sabão em quase toda a Riba-Côa, o
direito de exclusividade nomeadamen-
te nos concelhos de Alfaiates, Almeida,
Castelo Bom, Castelo Rodrigo, Pinhel,
Trancoso, Sabugal e Vale Maior.
Sabemos que em 1527, no reinado de
D. João III, com o seu Cadastro do Rei-
(29) Pelourinho de Castelo Rodrigo - MN
... D. Manuel mandou reedificar o castelo dionisino em 1500, e concedeu foral novo à vila em 1508, datando deste período a
construção do atual pelourinho, que constitui um testemunho artístico ainda mais interessante quando cotejado com as várias
janelas do período manuelino que ornam a vizinha Rua da Cadeia. Levanta-se junto à Igreja Matriz da povoação, sendo com-
posto por um soco de quatro degraus octogonais, muito rústicos, sobre o qual se ergue o conjunto da coluna e remate. A colu-
na é de fuste octogonal com base quadrangular talhada no mesmo bloco, e chanfrada nos ângulos superiores, talhe que se
repete no topo. Sobre a coluna está diretamente colocado o remate, em gaiola, separado do fuste por uma única moldura
saliente, oitavada e torsa. A gaiola, de planta oitavada, é composta por oito colunelos torsos sobre pequenas mísulas, rema-
tados por anéis triplos e pináculos torsos. É coroada por chapéu cónico liso e de topo truncado, encaixado entre os pináculos
dos colunelos. Na região, são de destacar os pelourinhos de Vilar Maior e Almendra, entre outros, pela semelhança tipológica.
fonte IGESPAR
69
Festa do Ramo em Castelo Rodrigo
Brasão mandado inverter por D. João I
(30) ) Igreja e Convento de Santa Maria de Aguiar – MN
Construído quando o território de Riba-Côa se encontrava na posse do reino leonês, para alguns autores (HERCULANO), ou
já sob a ordem portuguesa, para outros (AZEVEDO, 1962), o Mosteiro de Santa Maria de Aguiar data de meados do século
XII, altura em que uma primitiva comunidade de monges beneditinos (ou de eremitas) aqui se instalou (CARVALHEIRA, 2002,
p.18). Na década de 70 desse século, a comunidade abraçou a Ordem de Cister e deu-se então início à construção que
hoje vemos... Do claustro, construído quase um século depois da igreja, resta a Sala do Capítulo, espaço quadrangular que
denuncia já uma clara tendência para o naturalismo decorativo, característico da escultura arquitetónica do século XIV.

fonte IGESPAR
no, que foi o primeiro censo da popula-
ção elaborado em Portugal, a vila era a
mais populosa de Riba-Côa, com 2097
moradores, altura em que a alcaidaria
de Castelo Rodrigo pertencia à casa do
Infante D. Fernando. A alcaidaria mudou
depois para a casa do Infante D. Duar-
te, e com sua morte em 1540, passou
a pertencer ao próprio rei Piedoso. Por
alturas da viagem do nosso elefante Sa-
lomão, em 1551, Castelo Rodrigo tinha
como alcaide-mor D. Vasco da Silveira.
O convento cisterciense de Santa Ma-
ria de Aguiar
(30)
sofria já, nesta altura,
de uma certa decadência introduzida
com a prática de papas, reis e prínci-
pes de nomearem abades e fidalgos
para todos os mosteiros. Em Portugal,
foram introduzidos no século XV como
abades comendatários pelo Cardeal Al-
pedrinha, primeiro-ministro de D. Afonso
V. Em Santa Maria de Aguiar, o mais cé-
lebre de todos terá sido D. João Ferrão,
acusado de desvirtuar os sacramentos,
escravizar os frades e, pior do que isso,
assassinar e violar.
Outro facto curioso diz-nos que, na pri-
meira metade do século XVI, viveu em
Castelo Rodrigo Alonso Sanches Coe-
lho, seu natural, segundo o historiador
Júlio António Borges, e que foi pintor
protegido de D. João III, que o enviou
para Flandres a fim de completar a
sua formação. Mais tarde, já em 1554,
deslocou-se para Madrid, e a qualidade
do seu trabalho chamou a atenção de
Filipe II, que o nomeou também pintor
das cortes e seu retratista de eleição. •
Foram alcaides de Castelo Rodrigo, en-
tre os mais famosos, João de Gouveia,
avô de Pedro Álvares Cabral, o Infante
D. Fernando, filho de D. Manuel I, e Cris-
tóvão de Moura, duas vezes vice-rei de
Portugal, no tempo dos Filipes, feito por
eles Conde e Marquês de Castelo Rodri-
go, cujo panteão se encontra soterrado
nos jardins do Palácio de S. Bento, em
Lisboa.
UM PINTOR IBÉRICO
D. Sebastião pintado por Alonso Sanches Coelho
71
PARA LEVAR AS CRIANÇAS
• Piscinas Municipais Cobertas (F. C. R)
• Casa da Cultura-Luduteca-Internet
(F.C.R) • Parque Infantil e Minigolf (F.C.R)
POSTO DE TURISMO
Palácio Cristóvão de Moura
Visitas Guiadas Tel.: 271 311 365
MUSEUS
• Museu Rural e Etnográfico de Esca-
lhão • Casa da Freguesia de Escalhão
MONUMENTOS
CASTELO RODRIGO
• Palácio de Cristovão de Moura •
Igreja Matriz de Rocamador • Cisterna
Medieval • Pelourinho • Torre do Relógio
• Casa da Cadeia • Porta Nascente •
Porta da Traição • Porta do Sol • Cru-
zeiro da Independência • Casa estilo
árabe • Casa estilo manuelino • Igreja
e C.to de Santa Maria de Aguiar
FIGUEIRA DE CASTELO RODRIGO
• Passos do Concelho
• Igreja Matriz de São Francisco
OUTROS INTERESSES
• Parque de Lazer de Castelo Rodrigo
• Miradouro da Serra da Marofa
• Parque Natural do Douro Internacional
• Reserva da Faia Brava
• Barca d’Alva, no Douro Superior
• Amendoeiras em Flor (Primavera)
“Até se diz por cá que Escarigo só por um grão de trigo não foi Lisboa.” Sorriu
o viajante e despediu-se, pensando na importância de um grão de trigo, tão
pequena diferença no peso, tão insignificante na contagem,
e afinal por causa dele é Escarigo Escarigo.
José Saramago
In Viagem a Portugal - 1ª edição 1981.
É apenas de finais do século XVI, prin-
cípios do século XVII, a edificação do
palácio de Cristóvão de Moura, primei-
ro incendiado pelo povo após a res-
tauração da independência, e depois
dinamitado pelas forças espanholas,
terminada a Guerra Dos Sete Anos já em
1763.
Castelo Rodrigo foi, durante a Idade
Média, zona de passagem na Rota da
Estrada Real entre Madrid e Lisboa e,
há pelo menos mil anos, itinerário dos
peregrinos que demandam a Santiago
de Compostela, vindos além Pirenéus,
como atesta a devoção a N. Sra. de
Rocamador, orago da sua Igreja Ma-
triz, onde existe uma imagem equestre
de Santiago Mata-Mouros, bem como
pela via que entra em Portugal por Esca-
rigo, repousa na sua Albergaria, segue
pelo cruzeiro de Almofala e passa pelo
Mosteiro de Santa Maria de Aguiar, já
aos pés de Castelo Rodrigo.
Antiga Albergaria de Escarigo
“..., não somos completamente um caso perdido,
nós, os seres humanos. Está nas nossas mãos
que sejamos um caso encontrado,
e que se possa encontrar todos os dias.”
Palavras de José Saramago no Salão Nobre da
Câmara Municipal de Figueira de Castelo Rodrigo
Lena Quadrado dá cor a um presépio
73
LENA QUADRADO
Uma peça demora-lhe um dia, pago ao
preço de uma jorna, já que Lena Qua-
drado faz questão de acreditar no “pre-
ço justo das coisas” e que as pessoas,
ao apaixonarem-se por uma peça sua,
a possam levar.
Sempre gostou de desenhar e foi à pro-
cura de materiais. Começou pelos pre-
sépios, depois pelas profissões do meio
rural, que recorda, também os jogos da
sua meninice. Naquele dia, encontrá-
mo-la a trabalhar num presépio dispos-
to em ambiente “mais familiar, ou mais
contemporâneo”, é a aposta presente.
Ultimamente alguns turistas “chegam
com o livro da Viagem do Elefante na
mão”, lembra, e perguntam-lhe pelos
locais da aldeia onde Salomão terá
passado ou pernoitado. As personagens
da história do Salomão começam a
despertar da arte das suas mãos, num
projeto que, por agora, ainda está em
segredo! •
Edição turca
73 73
A
r
q
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F
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J
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S
a
r
a
m
a
g
o
Cisterna de Castelo Rodrigo - Rua da Cisterna
Pelas ruas de Castelo Rodrigo encontra-
mos, num cantinho, dos avós, novamen-
te sinais dos proboscídeos. Saramago e
Salomão deixaram entretanto algo, e
são já referência na aldeia e nas ideias
de quem ali tenta contornar a situação
geográfica e a desertificação.
Da esplanada deste Cantinho dos Avós,
avistamos caminhos já calcorreados de
um imenso horizonte, mais vasto se su-
birmos ao alto da serra da Marofa. O
Cantinho cultiva a memória e o gosto
pela arte e pela leitura - aqui reencon-
trámos os livros que se deixam e que
se levam, e uma artesã destes tempos,
como nunca, tempos de se aliarem a
outros tempos.
A 18 de junho de 2009, precisamente
um ano antes da sua morte, Sarama-
LIBER QUARTOS - Qui queser fazer fillo o filla. XX.
Tod omne que queser fazer filho ou filla ou fillos ou fillas, façaos exida de missa
matinal en diomingo, ou sabado alas uesperas en colla
In A Linguagem dos Foros de Castelo Rodrigo (1209), Luis. F. Lindley Cintra, 1959
ALOJAMENTO
Casa da Cisterna - CC
Rua da Cisterna - Castelo Rodrigo
Tel.: 271 313 515
Casa do Baldo - AL
Rua da Tapada, 16
Tel.: 271 105 634
Hospedaria do Convento - TH
Convento de Santa Maria de Aguiar
Telef.: 271 311 819
ARTESANATO E SABORES
CASTELO RODRIGO
Cantinho dos Avós - Artesanato e Café
Rua da Sinagoga, 1
Loja da Torre - Artesanato
Rua do Relógio, 14
Sabores do Castelo
Produtos regionais e Salão de Chá
Rua do Relógio, 15
Casa do Souto - Velharias - EN134
RESTAURANTES
FIGUEIRA DE CASTELO RODRIGO
A Cerca
Bairro da Cerca
Falcão de Mendonça
Av. Álvaro Castelões, 20
Arco Íris
Av. Sá Carneiro, 12
Transmontano
Av. 25 de abril, 6
ESCALHÂO
O Lagar do Douro Superior
Rua do Lagar, 1
PETISCOS
Taverna da Matilde
Av. Sá Carneiro, 12
INTERNET
C. M. de Fig.ª de Castelo Rodrigo
www.cm-fcr.pt
go pernoitou na antiga hospedaria dos
monges da Ordem de Cister, junto ao
Convento de Santa Maria de Aguiar,
terminando assim a sua rota portuguesa
por territórios de Salomão e o diário on-
-line que foi escrevendo sobre essa via-
gem, dizendo:
“Em Castelo Rodrigo, as ruas estão lim-
pas e transitáveis, foram recuperadas as
fachadas e os interiores, e, sobretudo,
desapareceu a tristeza de um fim que
parecia anunciado. Há que contar com
as aldeias históricas, elas estão vivas. Eis
a lição desta viagem”.
Saramago seguiu depois o caminho de
Valladolid porque o de Salomão não ter-
mina aqui, apenas a parte portuguesa
até à fronteira em Escarigo...
75
O seu núcleo Histórico também merece
ser percorrido, a partir da Igreja Matriz de
São Vicente. De estilo barroco, o seu in-
terior merece uma visita pelo altar-mor
setecentista e pelo coro, formado por
26 pedras talhadas em forma de “S”. A
pedra que as une tem o formato de um
“coração”, resultando num dos arcos
abatidos que dizem ser de engenharia
única em Portugal.
Numa coleção de azulejos, quase
centenária, existente no edifício dos
Paços do Concelho, estão a memória
da famosa Batalha de Castelo Rodrigo
«Salgadela» e a vivência rural destas
gentes de Riba-Côa. Já no século XX,
uma pensão marcou o imaginário dos
viajantes e dos figueirenses. O edifício
Riba Côa, onde estão hoje instalados os
serviços técnicos da Câmara Municipal
foi, simultaneamente, pensão, correios,
posto da Guarda Nacional Republicana
e da Guarda Fiscal, e cadeia. De real-
çar ainda o Chafariz dos Pretos que em
tempos deu de beber e ‘casar’ à vila de
Figueira.
A região foi, desde sempre, uma terra
de pastorícia. A condição das suas gen-
tes, afastada dos grandes centros urba-
nos e comerciais, obrigou a uma tra-
dição gastronómica bem própria, não
fugindo à regra, das estações do ano e
seus afazeres agrícolas.
O porco e os seus enchidos, o borrego,
a caça, são manjares obrigatórios ao
longo do ano. Algum peixe do rio, os
tradicionais bacalhau e polvo, ambos
alagados com o azeite da região. O
vinho, ora da Beira Interior ou do Douro
Superior, as compotas, o queijo de ca-
bra ou ovelha, os confeções doceiras à
base de amêndoa, os bolos de azeite,
compõem o ramalhete gustativo do via-
jante que se quer viajado.
VILA DE FIGUEIRA DE CASTELO RODRIGO
Castelo Rodrigo e Figueira de Castelo Rodrigo
Nos finais do século XIX, a freguesia de S. Vicente de Figueira, viria a tornar-se a atual sede de concelho, originando o nome
Figueira de Castelo Rodrigo, até então pertença da velha praça-forte.

A cegonha e o seu ninho no cimo da torre sineira
da Igreja Matriz é um dos ex-líbris da vila.
Para a fronteira em Escarigo, a Ciudad Rodrigo, por Salamanca, rumo a Valladolid...
EM607 | EM604...
75
Mapas do
CAMINHO
77
BELÉM LISBOA
CONSTÂNCIA
CONSTÂNCIA
C
A
S
T
E
L
O

N
O
V
O
L
I
S
B
O
A
BELÉM
COSNTÂNCIA
77
CASA DOS BICOS
F. J. SARAMAGO
Almourol
Parque de
Astronomia
Parque
Ambiental
CASTELO NOVO FUNDÃO
BELMONTE
BELMONTE
CASTELO NOVO
FUNDÂO
ALPEDRINHA
CONSTÂNCIA
F
U
N
D
Ã
O
S
O
R
T
E
L
H
A
BELMONTE
Quinta do
Convento
79
SORTELHA SABUGAL
CIDADELHE PINHEL
PINHEL
SABUGAL
SABUGAL
SORTELHA
BELMONTE
FUNDÃO
CIDADELHE
FIGUEIRA DE
CASTELO RODRIGO
CASTELO RODRIGO
V
A
L
L
A
D
O
L
I
D
79
PINHEL
Vila de Touro
Aldeia Velha
Alfaiates
Sacaparte
Vilar Maior
Castelo Mendo
Termas
do Cró
Pousafoles
do Bispo
Rendo
Rendo
Cerdeira
do Côa
Quadrazais
Fonte Santa
Freixeda
do Torrão
FIGUEIRA DE CASTELO RODRIGO
CIDADELHE
FIGUEIRA DE CASTELO RODRIGO
CASTELO RODRIGO
MUSEU DO COA
ESCARIGO
PINHEL
V
A
L
L
A
D
O
L
I
D
Vale de Afonsinho
Freixeda do Torrão
Santa Maria
de Aguiar
Almofala
PACOTE DE
SÍMBOLOS
USADOS
NAS SEDES
DE CONCELHO
SIMBOLOGIA UTILIZADA NOS MAPAS
ALDEIA
HISTÓRICA
CASTELO, TORRE
OU FORTIFICAÇÃO
CONVENTO OU
MOSTEIRO
PALÁCIO
OU SOLAR
PELOURINHO
OU CRUZEIRO
ARTE
SACRA
PATRIMÓNIO
MUNDIAL
PONTE DE
INTERESSE
PONTE EM RUÍNA
DE INTERESSE
PONTO DE
INFORMAÇÃO
MIRADOURO
BARRAGEM OU
ALBUFEIRA
PARQUE
NATURAL
ATIVIDADES
DESPORTIVAS
TURISMO DE
NATUREZA
MUSEU OU CENTRO
INTERPRETATIVO
CASA DE CAMPO
TURISMO ESPAÇO RURAL
CAMPING CAMPING PARA
CARAVANAS
ARTESANATO
LOCAL
DOÇARIA
REGIONAL
PRODUTOS
REGIONAIS
MOBILIÁRIO
TRADICIONAL
TRABALHOS
EM TALHA
ESTÂNCIA
TERMAL
ESTAÇÃO DE
COMBOIOS
HOSPITAL
CENTRAL
PERCURSOS
PEDESTRES
CAFÉ OU
SNACK-BAR
RESTAURANTE
BOMBA DE
COMBUSTÍVEL
URGÊNCIA OU
SERVIÇO HOSPITALAR
IGREJA OU
SANTUÁRIO
SUPERMERCADO CAIXA
MULTIBANCO
ALOJAMENTO
HOTELEIRO
PISCINA
EXTERIOR
PISCINA
CLIMATIZADA
BIBLIOTECA
PARQUE DE
ASTRONOMIA
ADEGA OU
COOPERATIVA
ESTAÇÃO
ARQUEOLÓGICA
81
Posfácio
Percorrendo uma rota de cultura
e de sensações
I
nscrever territórios singelos quanto au-
tênticos numa nova rota de cultura,
que esbata fossos ancestrais entre litoral
e interior, não será nada fácil. Mas eis
que temos a preciosa ajuda do nosso
Nobel da Literatura, que ousou cami-
nhar todo este percurso, a quem a sua
criatividade e visão peculiares deram
nova vida.
Uma vida que existe verdadeiramente e
cujo pulsar pode ser sentido por cada
cidadão, de roteiro e livro – a viagem do
elefante - numa das mãos, e máquina
de fotografar na outra, caminhando li-
vremente por entre sabores, paisagens,
ruralidades, saberes…
A cultura pode e deve ser uma bandei-
ra de desenvolvimento destas paragens
mais desprotegidas de oportunidades.
A cultura, bem alicerçada na nossa
hospitalidade, na nossa qualidade cres-
cente na restauração e hotelaria, pode
e deve afirmar-se como um novo vetor,
até agora inexplorado, mas certamente
com um bom filão de descobertas para
crescer connosco. E temos bons motivos
para puxar pela cultura e esta por nós!
José Saramago, é o nosso Nobel da Lite-
ratura. Não sabemos se e quando volta-
remos a ter um outro laureado com tão
significativa responsabilidade. E, sendo
um bom amigo das Aldeias Históricas,
um compreendedor nato das nossas as-
pirações enquanto povo, um incentiva-
dor das lutas pela diminuição dos fossos
e assimetrias que negam oportunidades
aos desfavorecidos e aos mais interiori-
zados do país, acabou escrevendo um
livro que nos diz muito: A Viagem do Ele-
fante.
Com efeito, foi no seguimento des-
te livro, que ficciona a história de uma
viagem, que tem já tradução em pelo
menos 17 países, tornando-o universal,
que convidámos Saramago e os seus
amigos a virem até nós, percorrendo os
trilhos de Salomão, o elefante, e é esse
registo que agora se dá à estampa,
com este Roteiro, que mais não é do
que tornar presente esse grande cami-
nheiro da literatura, esse vulto ímpar da
nossa cultura, que agora nos vai ajudar
a sinalizar um caminho novo, uma Rota
que traga gente até nós, motivada pela
cultura.
Vir de Lisboa a Castelo Rodrigo e seguir
para Valhadolid a caminho da Áustria,
como o elefante Salomão, ou fazendo
o percurso inverso, é uma grande Rota;
plena de sabores, de história, de vivên-
cias, de alma, de saudade, de nostalgia
e de afetos.
Belém, Constância, Castelo Novo, Bel-
monte, Sortelha, Cidadelhe e Castelo
Rodrigo, oferecem o que de melhor este
país tem: paisagem, rios (Tejo, Zêzere,
Côa e Douro), serras (Gardunha, Estrela,
Malcata e Marofa), gentes da cidade e
do campo, ruralidade, vivências, auten-
ticidade e experimentalismo, ambientes
diferentes, sabores que perduram na
memória e saberes que devemos con-
servar.
É tão grande o rosário de oportunidades
que a Rota abre, quão grande é a no-
toriedade que Saramago deu à língua
de Camões.
Venham daí!
António Edmundo Freire Ribeiro
Presidente da Direção da Territórios do Côa - ADR
Autoria, textos, fotografia
e conceção gráfica
Daniel Saraiva Gil
Com os agradecimentos
a António Edmundo Ribeiro
que me desafiou para o Caminho,
a Pilar del Rio que o abraçou
com a Fundação José Saramago,
a este Nobel dos autores,
à Associação Territórios do Côa,
e às sete câmaras municipais
na Rota Portuguesa do
elefante Salomão.
Caminho de SALOMÃO
NA ROTA PORTUGUESA
SEMPRE CHEGAMOS AO SÍTIO
AONDE NOS ESPERAM.
O LIVRO DOS ITINERÁRIOS
A VIAGEM DO ELEFANTE
Comentário no Livro de Visitas da Hospedaria do
Convento de Santa Maria de Aguiar
de 18 de junho de 2009
Aldeia Histórica de Castelo Rodrigo