Rezar os Salmos Hoje

Compilação e produção eletrônica: Luiz Edgar de Carvalho

Apresentação
No momento que estamos vivendo, muitos procuram angustiados os caminhos da oração e põem em questão toda e qualquer fórmula pré-estabelecida. Não há dúvida de que, neste terreno, já abusamos em demasia do formulismo, mas não se pode negar a aptidão da Palavra Sagrada para carregar a mente em sua subida a Deus. Para isto existe na Bíblia o Livro dos Salmos, ou, mais propriamente, o Livro de Orações, segundo o título hebraico. É o livro de orações por excelência. A finalidade deste Livrinho Eletrônico não é tornar conhecidas algumas oraçãos antigas. Os salmos são para nós orações perenes, válidas também hoje. Neles encontramos as mesmas alegrias e tristezas, angústias e apreensões, certezas e dúvidas. Todas as experiências mais profundas da história dos homens encontram neles forte ressonância. Ao rezar os salmos entramos no grande movimento acionado por Deus no coração dos homens, em busca da Paz. “A Paz é tudo que desejo!” (Sl 120). Os salmos não pretendem ser a expressão mais perfeita, nem ter o monopólio da oração. Constituem apenas um marco e uma fase no movimento secular da oração. Contêm um período da caminhada consciente do homem em direção a Deus e em busca da sua realização pessoal e coletiva. Como toda a caminhada, também os salmos são condicionados pelas limitações próprias de quem ainda não atingiu plenamente o fim, mas para ele tende. Os salmos brotam de uma vida conscientizada pela revelação da presença de Deus. É exatamente por isso que eles podem abrir novos horizontes, e levar a viver nossa própria vida em uma profundidade maior. Mais do que nos consolar ou tranquilizar, os salmos nos questionam, nos desinstalam, nos enviam à procura das respostas aos grandes apelos de Deus e dos homens. Não estão aqui todos os Salmos, mas, apenas uma seleção deles, que possam servir de inspiração e devoção. Sendo assim, esta seleção de salmos apresentada neste Livrinho, visa, pura e simplesmente, favorecer sua leitura, oração e reflexão, de maneira individual. Como sugestão, podem ser escolhidos aleatoriamente os salmos, na ordem que se preferir, para priorizar os três momentos diários mais importantes da oração: manhã, tarde e noite. Pela manhã, você tem um salmo para começar bem o seu dia. Ao longo do dia, um outro salmo para reforçar a sua jornada. À noite, antes de se deitar, mais um salmo para sua meditação. No uso diário dos salmos como feitio de oração, você vai se deparar com muitas coisas da vida: coisas para rir e para chorar. Você já ficou alguma vez maravilhado diante da beleza de uma criança? Já teve saudades? Já viu um pedreiro levantar uma parede? Ja teve medo de guerra? Já viu uma vez uma criancinha dormir no colo da mãe? Antes de você, alguém já viveu a vida e já viu e experimentou tudo isto e muito mais ainda. Para ele, estas coisas da vida funcionaram como um despertador e ele se lembrou de outra coisa. Lembrou-se de Alguém que é maior do que tudo isto e está na raiz de tudo: Deus. Assim, para ele, a vida com tudo que ela tem de belo e triste, a natureza com todas as suas belezas e ameaças, enfim, tudo que dá para rir e para chorar,

tornou-se transparente como vidro, revelando e lembrando o Deus amigo que apela e questiona, anima e critica, sustenta e encoraja. E, quase sem ele o saber, estas coisas da vida se lhe tornaram o material e o assunto para uma conversa ao pé do ouvido com este Deus amigo. Assim nasceram os salmos. Brotaram da vida com Deus. Na oração dos salmos você vai poder ver e sentir um série de fotografias de situações e acontecimentos, de belezas e amarguras, que você já conhece, pois são coisas da vida. Aquele outro, o autor dos salmos, representando todo um povo no seu caminhar pela existência, também as conheceu e para ele foram motivo de conversa com Deus. Talvez elas possam ajudar você a encontrar na sua vida o motivo e o material para uma conversa pessoal com o seu Deus. E, se este Livrinho Eletrônico, com esta seleção cuidadosa de salmos, ajudar você, durante algum tempo, a redescobrir o sentido profundo da oração, que é uma forma de encontro e diálogo com Deus e se contribuir no esforço diário da conversão – terá ele alcançado plenamente o seu objetivo. (LEC)

Chaves de Leitura
Este Livrinho com a seleção de Salmos pode exercer uma função importante em nossa vida como manual de oração, porque: • • • • conserva a memória, pois relembra os fatos importantes da história; educa-nos, pois traz os grandes apelos dos profetas e dos sábios; reforça a nossa fé, pois convida para o diálogo com Deus e um contato mais íntimo com Deus; anima a nossa caminhada, pois aprofunda o compromisso com a Aliança e com o Projeto de Deus;

Resumindo, eis aqui quatro chaves para sua leitura: 1. É o lado orante da caminhada do Povo de Deus, pois nele há história e profecia, Lei e sabedoria. Há um vaivém constante entre oração e vida. O povo, na oração, celebra a sua caminhada. 2. Sendo uma amostra da oração do Povo de Deus, oferece um modelo para a nossa oração. Há Salmos para todas as situações da vida humana que podem ocorrer a qualquer pessoa e ao povo em geral. 3. Serve como muleta. Na hora da secura e do abandono, podemos encontrar sempre um Salmo que expresse o nosso sentimento. Na hora de sua morte, foi num Salmo que Jesus encontrou a expressão de sua agonia. 4. Provoca a criatividade e leva o povo a fazer novos Salmos. É por isso que existem Salmos espalhados pela Bíblia inteira, tanto no Antigo como no Novo Testamento. E o rio dos Salmos continua sempre avolumando-se com os inúmeros Salmos novos que aparecem no meio do povo e das comunidades!

Lumensana Publicações Eletrônicas 2009

Salmo 1
Os dois caminhos do homem Feliz o homem que não segue o caminho dos ímpios, não envereda pelo caminho dos pecadores nem toma assento na reunião dos insolentes, mas na lei do Senhor se compraz e nela medita, dia e noite! É como a árvore plantada à beira das águas correntes: ela dá fruto a seu tempo, e sua folhagem não murcha; tudo que ele empreende prospera. Não são assim os ímpios: são como a palha que o vento arrebata. Por isso os ímpios não ficarão de pé no julgamento, nem os pecadores, na assembléia dos justos. Pois conhecer o Senhor é o caminhar dos justos, o caminhar dos ímpios, porém, é sem rumo. Comentário Sl 1. Salmo sapiencial, que apresenta a opção existencial entre dois destinos, nos quais se resume a história da humanidade. O valor autêntico da vida humana que, mesmo em ambiente ateu, reside na fidelidade a Deus, repercute na relação da pessoa para com a comunidade e para com Deus. O tema desta breve meditação exprime um princípio geral sobre um conflito que agita a história da humanidade e a vida íntima de cada pessoa- o conflito entre o bem e o mal-. Da escolha que se fará, depende o seu progresso e bem-estar.

Salmo 2
Por que se amotinam as nações, e os povos intentam vãos projetos? Insurgem-se os reis da terra, e os príncipes conspiram, unidos, contra o Senhor e contra seu Ungido: “Quebremos os grilhões, lancemos para longe as algemas!” Ri-se aquele que habita no céu, o Senhor zomba deles. Fala-lhes então com ira e os espanta com sua cólera: “Eu mesmo estabeleci o rei em Sião, no monte santo”. Vou proclamar o decreto do Senhor . Ele me disse: “Tu és meu filho, eu hoje te gerei. Pede-me! e eu te darei as nações por herança, os confins da terra em propriedade; hás de esmagá-las com cetro de ferro, despedaçando-as como vaso de oleiro”. E agora, ó reis, sede sensatos, ficai prevenidos, juízes da terra!

Servi ao Senhor com reverência, estremecei de temor, prestai-lhe homenagem com sinceridade, para não perecerdes no caminho, por sua indignação, porque num instante se acende sua ira. Felizes os que nele se refugiam! Comentário Sl 2. Salmo da realeza com perspectiva messiânica, que celebra a entronização de um rei da dinastia davídica, portadora da promessa divina, à qual está vinculada a aliança de Deus com o povo eleito. Por ter o Messias relação de filiação com Deus, seu reino, que transcende os limites do povo de Israel, terá que enfrentar oposição sistemática, revolta geral e luta implacável das forças do mal, até alcançar a vitória completa no juízo final.

Salmo 3
Oração de confiança nas perseguições Senhor , como se multiplicaram meus inimigos! Quantos se levantam contra mim! Quantos dizem a meu respeito: “Não há para ele salvação em Deus!” Mas tu, Senhor , és um escudo ao meu redor, és minha glória e manténs erguida minha cabeça. Se clamo, invocando o Senhor , ele me responde do monte santo. Posso deitar-me, dormir e despertar, pois é o Senhor quem me ampara. Não temo a numerosa turba que me cerca com hostilidade. Levanta-te, Senhor! Salva-me, ó Deus meu! Pois tu golpeias no rosto todos os inimigos e quebras os dentes dos ímpios. De ti, Senhor , vem a salvação e a bênção sobre teu povo. Comentário Sl 3. Salmo de lamentação individual, em que predomina a confiança: enquanto os inimigos, baseados na ausência de Deus, se animam a oprimir o indefeso, o salmista confia na presença do Deus salvador, que atua em favor do indefeso que o invoca.

Salmo 4
Exortação à confiança em Deus Responde ao meu clamor, Deus de justiça! tu, que no aperto me alargaste o espaço,

tem piedade de mim e escuta minha oração! Até quando, ó homens, para opróbrio de minha honra, preferireis a ilusão e recorrereis à mentira? . Sabei que o Senhor opera maravilhas em quem é fiel! O Senhor me escuta, quando o invoco. Quando vos indignardes, não pequeis, mas meditai durante o repouso e silenciai! Oferecei os sacrifícios prescritos e confiai no Senhor ! Muitos dizem: “Quem nos fará experimentar felicidade? pois a luz de tua face, Senhor , fugiu de nós”. Mas tu deste ao meu coração mais alegria do que outros têm na fartura de trigo e vinho. Em paz me deito e logo adormeço, porque só tu, Senhor , me fazes viver em segurança. Comentário Sl 4. Súplica, em que predomina a expressão de confiança. Em meio à dura aflição o salmista dirige sua oração vespertina a Deus, confiado em sua ajuda, já experimentada no passado. À base dessa convicção, admoesta os homens influentes a não se deixarem enredar nas intrigas palacianas, mas a reconsiderarem sua conduta e restaurarem sua confiança em Deus pela meditação particular. O ceticismo dos amigos derrotistas contrasta com a paz interior do salmista e sua confiança em Deus. Se sentirmos alguma felicidade, saibamos que ela é dom de Deus e que temos obrigação de comunicá-la aos outros.

Salmo 5
Oração da manhã Dá atenção, Senhor , às minhas palavras e ausculta meus suspiros! Escuta meu grito de socorro, ó meu Rei e meu Deus! Pois é a ti que suplico: Atende, Senhor , de manhã, à minha voz! De madrugada ponho-me à tua disposição e fico à espera. Porque tu, ó Deus, não toleras o mal, o ímpio não poderá acolher-se a ti, nem os arrogantes manter-se em tua presença. Detestas todos os malfeitores, destróis os mentirosos. Ao homem sanguinário e fraudulento o Senhor abomina. Mas eu, em vista de tua grande misericórdia, entrarei em tua casa, prostrar-me-ei no templo santo, em reverência para contigo. Guia-me, Senhor , em tua justiça! Por causa dos que me armam ciladas, aplana teus caminhos diante de mim!

Porque em sua boca não há sinceridade; seu interior é corrupção; sua garganta, um sepulcro aberto; sua língua, lisonja. Castiga-os, ó Deus, frustrando seus intentos! Desterra-os por seus muitos crimes, porque se rebelam contra ti. Alegrem-se os que em ti buscam refúgio, exultem para sempre! Protege-os, para que rejubilem em ti os que amam o teu nome! Tu, Senhor , abençoas o justo, e teu favor protege-o como um escudo. Comentário Sl 5. Súplica insistente, nos moldes da lamentação individual, dirigida a Deus durante a oração matinal. Este salmo reflete o estado de ânimo de alguém que, dominado pelo problema do mal que campeia livremente na sociedade, se refugia na presença de Deus pela celebração da liturgia, a fim de amoldar sua oração e sua vida às exigências da santidade divina e colaborar com Deus para o triunfo da justiça e do amor contra toda a forma de corrupção. A verdadeira tranquilidade consiste numa consciência que em nada nos acusa diante de Deus e dos outros.

Salmo 6
Oração de um penitente Senhor , não me repreendas com ira, não me corrijas com cólera! Tem piedade de mim, Senhor , porque desfaleço! Cura-me, Senhor , porque estremecem meus ossos! Todo o meu ser está abalado. E tu, Senhor , até quando? Volta, Senhor , liberta minha alma! Salva-me por tua misericórdia, porque entre os mortos não há quem se lembre de ti. Quem te louvará na mansão dos mortos? Estou esgotado de tanto gemer; todas as noites inundo de pranto minha cama, rego com lágrimas meu leito. Meus olhos se anuviam de pesar, desgastados por causa de tantos inimigos. Afastai-vos de mim, malfeitores, porque o Senhor ouviu a voz de meu pranto! O Senhor ouviu minha súplica, o Senhor acolherá minha oração. Que todos os inimigos fiquem confusos e apavorados e recuem, corridos de vergonha!

Comentário Sl 6. Este salmo penitencial é um canto de lamentação individual de um enfermo: prostrado no leito da dor, é insultado pelos ímpios, que o consideram abandonado por Deus. A presença do pecado na vida humana é causa de angústia e inquietação; o pecado envolve a existência em atmosfera de inferno, que é privação de Deus, de sua luz e de seu amor. A única cura eficaz dessa enfermidade espiritual é a conversão, que nos liberta dessa morte e suscita em nosso coração a aversão ao pecado. Na luta do dia-a-dia, não devemos ter medo que queixar-nos diante de Deus.

Salmo 8
Glória de Deus e grandeza do homem Senhor , nosso soberano, como é grandioso teu nome em toda a terra! O hino à tua majestade, acima dos céus, na boca das crianças e dos pequeninos, é a força que opões aos teus adversários, para dobrar inimigos e rebeldes. Quando contemplo o céu, obra de teus dedos, a lua e as estrelas que fixaste, o que é o homem, para que te lembres dele, o ser humano, para que com ele te ocupes? Tu o fizeste um pouco inferior a um ser divino, tu o coroaste de glória e esplendor; deste-lhe o domínio sobre as obras de tuas mãos, tudo lhe submeteste debaixo dos pés: as ovelhas e todos os bois e até os animais selvagens, as aves do céu e os peixes do mar, tudo que abre caminho pelo mar. Senhor, nosso soberano, como é grandioso teu nome em toda a terra! Comentário Sl 8. Hino de louvor à magnificência do Deus Criador e à dignidade do homem, da qual deriva o sentido e o valor de sua atividade. No silêncio da noite, o salmista contempla as maravilhas do céu estrelado, cujo esplendor enche de admiração almas inocentes, e de confusão homens agnósticos. Por ser imagem e semelhança de Deus, o homem se situa acima das outras criaturas do universo, e é chamado a participar do domínio de Deus sobre toda a criação. A visão clara das coisas à luz de Deus limpa o olhar para poermos apreciar a beleza das noites de luas e de toda a natureza.

Salmo 11
A confiança do justo No senhor encontrei refúgio.

Por que me dizeis: “Foge, como o pássaro, para a montanha! Eis que os ímpios já retesam o arco, ajustam a flecha à corda para disparar, na penumbra, contra os corações retos. Arruinado até às bases, o que poderá o justo fazer?” O Senhor , que está no templo santo, o Senhor , que tem seu trono no céu, está observando com seus olhos; suas pupilas examinam os filhos dos homens. O Senhor examina o justo e o ímpio: ao que ama a violência sua alma odeia, sobre os ímpios fará chover desgraças; fogo, enxofre e vento causticante: tal é a porção de sua taça. O Senhor, que é justo, ama a justiça, e os homens retos contemplarão a sua face. Comentário Sl 11. Canto de confiança, em forma de diálogo dramático entre homens pusilânimes, alarmados ante o perigo iminente, e o salmista, confiado na providência de Deus. O confronto entre um e outros reflete a imagem do homem de Deus: assediado e pressionado por mil perigos e contrariedades externas, ele vive interiormente na paz de Deus. A alma do justo é um templo sagrado, morada de Deus, onde se entra com recolhimento e oração, para obter proteção contra perigos externos. A fuga não é solução. É preciso continuar na luta.

Salmo 12
Imprecação contra os inimigos arrogantes Socorro, Senhor! pois acabaram-se os fiéis, desapareceu a lealdade dentre os filhos dos homens; dizem mentiras uns aos outros, falam com lábios lisonjeiros, mas com duplicidade de coração. Corta, Senhor , os lábios lisonjeiros, a língua que fala com arrogância! Eles dizem: “Prevaleceremos pela língua, valer-nos-á a eloqüência: quem nos dominará?” “Ante a opressão dos humildes e o lamento dos pobres, agora mesmo me erguerei – diz o Senhor – e porei a salvo a quem o desejar”. As palavras do Senhor são palavras puras como prata no crisol, depurada de toda a escória e sete vezes refinada. Tu, Senhor , as guardarás, e nos preservarás para sempre desta geração de ímpios, que circulam livremente, enquanto a depravação campeia entre os filhos dos homens.

Comentário Sl 12. Salmo de lamentação coletiva, seguida de um oráculo de intervenção divina e da declaração de confiança em Deus, protetor dos oprimidos, e na veracidade de sua palavra, que promete a salvação aos fiéis, vítimas das insídias de uma sociedade em franca decadência moral. A falsidade pode prevalecer muitas vezes. Mas ela não tem a última palavra.

Salmo 13
Lamentação do justo Até quando, Senhor , continuarás esquecido de mim? Até quando me ocultarás tua face? Até quando acalentarei preocupações na alma, pesar no coração, dia após dia? Até quando prevalecerá o inimigo contra mim? Atende e responde-me, Senhor meu Deus! Ilumina meus olhos, senão adormeço na morte. Que não diga meu inimigo: “Prevaleci sobre ele”, nem se alegrem os adversários com minha queda! Depositei minha confiança em teu amor: pela salvação rejubile em ti meu coração! Cantarei ao Senhor pelo bem que me fez. Comentário Sl 13. Lamentação individual, em momento de grande aflição, onde a ausência de Deus é causa de grande angústia na alma atribulada. Mas na oração de confiança se vislumbra um raio de esperança na ação salvífica de Deus. Quando Deus se cala e nos abandona, é necessário acordá-lo, mostrando que, na nossa derrota, ele também sai derrotado.

Salmo 14
Castigo da corrupção geral Diz o insensato em seu coração: “Não há Deus”. Corrompem-se, cometem abominações; não há quem faça o bem. Do céu, o Senhor observa os filhos dos homens para verificar se há algum sensato, se alguém busca a Deus. Todos igualmente se extraviam e se corrompem; não há quem faça o bem, nem um sequer. Acaso nenhum desses malfeitores toma consciência? Devorando seu pão, eles comem meu povo, sem defrontar-se com o Senhor . Eis que serão tomados de terror,

porque Deus está com a geração dos justos. Quereis confundir o intento do desvalido, quando o Senhor é seu refúgio? Queira Deus que de Sião venha a salvação de Israel! Quando o Senhor acabar com o cativeiro de seu povo, Jacó exultará, Israel se alegrará. Comentário Sl 14. Lamentação coletiva sobre a corrupção geral na sociedade. Em forma dramática o salmista expõe as conseqüências do ateísmo prático. Toda a negação de Deus volta-se contra o bem espiritual e temporal do homem; e quando tal negação se torna um fenômeno social, estão abalados até à base todo o progresso, toda a civilização e a própria convivência entre os homens, porque o homem está desorientado e não consegue reconhecer-se a si mesmo nem a sua dignidade e, por conseguinte, a dignidade e o valor transcendente de seus semelhantes. E mesmo que a maldade prevaleça na organização do mundo, a vitória final será do Bem.

Salmo 15
Na intimidade com Deus Quem, Senhor , poderá hospedar-se em tua tenda? Quem poderá habitar no monte santo? Aquele que procede com honradez e pratica a justiça; que, do fundo do coração, diz a verdade e não traz a calúnia na língua; que não causa dano ao próximo nem ultraja o vizinho; que olha com desprezo o infame e preza os que temem o Senhor ; que, prejudicado por seu juramento, não se retrata; que empresta dinheiro sem usura e não se deixa subornar contra o inocente. Quem assim procede, jamais será abalado. Comentário Sl 15. Canto de entrada no templo, em forma de diálogo e com objetivo catequético. As condições para a participação na liturgia e na comunhão com Deus são de índole estritamente moral, sem referência a prescrições rituais. O salmista enumera dez condições para a integridade da vida moral em sua manifestação por palavra e por obra. Viver a amizade com Deus implica o nosso relacionamento com o próximo.

Salmo 19
A glória de Deus, Criador e Legislador

Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento apregoa a obra de suas mãos. Um dia a outro dia transmite a mensagem, uma noite a outra noite a torna conhecida. Sem discurso e sem palavras, sem que se ouça sua voz, por toda a terra se difunde seu anúncio, e até os confins da terra a notícia. Ergueu-se ali uma tenda para o sol: ele sai da alcova como um esposo, exulta como um herói, percorrendo sua pista; ele sai de um extremo do céu e vai até o outro extremo; nada escapa ao seu calor. A lei do Senhor é perfeita, reconforta a alma. O estatuto do Senhor é seguro, instrui o ignorante. Os preceitos do Senhor são justos, alegram o coração. O mandamento do Senhor é transparente, ilumina os olhos. O temor do Senhor é puro, permanece para sempre. Os decretos do Senhor são acertados, são justos todos eles; são mais preciosos que o ouro, uma porção de ouro fino; mais saborosos que o mel que escorre do favo. São eles também que iluminam teu servo, e sua observância lhe dá grande proveito. Quem, entretanto, se adverte dos extravios? Absolve-me das faltas ocultas! Preserva também da soberba teu servo, para que não me domine! Então serei perfeito e isento de grave delito. Encontrem teu favor as palavras de minha boca e as palpitações do coração em tua presença, Senhor , minha rocha e meu redentor! Comentário Sl 19. Este salmo é constituído de duas composições poeticamente distintas, com uma idéia central que as unifica: a ordem da natureza, representada pelo sol, e a ordem da palavra de Deus, representada pela lei divina, unidas pelo mesmo objetivo de renderem louvor a Deus, Criador e Legislador. O hino ao Criador (27) mostra a harmonia do universo que, obedecendo a uma inteligência superior, manifesta, em linguagem paradoxal, uma silenciosa teofania. O raiar do sol num dia festivo é uma das coisas mais lindas da vida. Deus quer ser este sol na vida do homem. O poema didático (8-15) faz um panegírico da Lei, que é um reflexo da sabedoria e santidade divinas e o espelho em que deve refletir-se a alma israelita,

para reconhecer sua imperfeição e dependência de Deus. Como resposta ao silencioso discurso da natureza e à palavra de Deus na Lei, o homem dirige sua oração a Deus, único apoio e segura garantia para o homem, ansioso de viver em união com ele. Esta união está explicada e traçada na Lei de Deus, que não oprime, mas liberta.

Salmo 23
O bom pastor O Senhor é meu pastor: nada me falta. Em verdes pastagens me faz repousar, conduz-me até às fontes tranqüilas e reanima minha vida, guia-me pelas sendas da justiça por causa de seu nome. Ainda que eu ande por um vale tenebroso, não temo mal algum, porque tu estás comigo; teu bordão e teu cajado me confortam. Diante de mim preparas a mesa, bem à vista dos meus inimigos; tu me unges com óleo a cabeça, e minha taça transborda. Sim, prosperidade e graça me seguem, todos os dias de minha vida; habitarei na casa do Senhor , por longos dias. Comentário Sl 23. Salmo de confiança, que exprime a experiência pessoal de segurança e acolhimento do salmista em sua relação com Deus. As imagens do pastor, solícito pelo sustento e pela proteção do rebanho, e do anfitrião, generoso no acolhimento do hóspede, encontram sua aplicação no relacionamento de Deus com os homens e têm sua atualização na liturgia, que celebra a solicitude do Bom Pastor para com os fiéis e a participação na mesa do banquete sagrado. A intensa experiência converte-se em esperança e desejo para toda a vida. Quem caminha assim, não sente falta de nada, apesar dos vales e depressões da vida.

Salmo 24
Entrada do Senhor no templo Do Senhor é a terra e quanto ela contém, o orbe da terra e quantos nela habitam, pois foi ele quem a construiu sobre os mares e sobre os rios a consolidou. Quem pode subir ao monte do Senhor? Quem pode estar no lugar santo? Aquele que tem mãos inocentes e coração puro, que não se inclina para a mentira

nem jura com perfídia. Ele receberá a bênção do Senhor e a justiça de Deus, o salvador. Ele é da linhagem dos que o buscam, da linhagem de Jacó, que procura sua face. Pórticos, alteai vossos frontões! Alçai-vos, portais antigos, para que entre o rei da glória! Quem é esse rei da glória? O Senhor, herói poderoso, o Senhor , herói das batalhas. Pórticos, alteai vossos frontões! Alçai-vos, portais antigos, para que entre o rei da glória! Quem é esse rei da glória? O Senhor Todo-Poderoso, é ele o rei da glória. Comentário Sl 24. Hino de procissão, na solenidade da entronização da arca da aliança no templo. A profissão de fé em Deus, cuja soberania absoluta impõe a todos os homens o dever de reconhecê-lo, implica em atitudes concretas de integridade e de pureza moral, em consonância com a santidade divina. Tais disposições religiosas se impõem aos fiéis, para participarem da liturgia no templo, onde se evoca e atualiza a aliança de Deus com o povo eleito. E o caminho para a felicidade a ser encontrada em Deus é uma vida honesta e sincera.

Salmo 25
Pedido de perdão e salvação A ti, Senhor , elevo minha alma. Em ti, meu Deus, confio: que eu não fique decepcionado, nem triunfem sobre mim os inimigos! Na verdade, não ficam decepcionados os que em ti esperam, decepcionados ficarão os que traírem a fé por uma futilidade. Indica-me, Senhor , teus caminhos, revela-me tuas sendas! Dirige-me no caminho da verdade e me ensina, porque tu és o Deus, meu salvador, e em ti espero, todos os dias. Lembra-te, Senhor , que tua ternura e teus favores são eternos! Não recordes os pecados de minha juventude nem minhas faltas! Lembra-te de mim segundo tua misericórdia, por causa de tua bondade, Senhor! O Senhor é bom e justo; por isso mostra o caminho aos pecadores, encaminha os humildes segundo a justiça, ensina aos humildes o caminho. Todas as sendas do Senhor são amor e fidelidade

para os que guardam sua aliança e suas leis. Por causa de teu nome, Senhor , perdoa minha culpa, que é grave! Há alguém que tema o Senhor? Ele lhe mostrará o caminho a escolher. Sua alma descansará na prosperidade, e sua descendência possuirá a terra. O Senhor se faz íntimo dos que o temem e lhes dá a conhecer sua aliança. Meus olhos estão sempre fixos no Senhor, pois ele livra da rede os meus pés. Volta-te para mim e tem piedade, pois estou só e oprimido. Os infortúnios tomaram conta de meu coração: tira-me das angústias! Vê minha miséria e tribulação e perdoa-me todos os pecados! Vê quantos são meus inimigos e como me odeiam com ódio violento! Guarda minha alma e salva-me! Que eu não fique decepcionado por ter-me refugiado em ti! A honradez e a retidão me sejam de valia, pois em ti ponho minha esperança. Ó Deus, salva Israel de todas as tribulações! Comentário Sl 25. Salmo alfabético, constituído de sentenças, em forma de considerações morais, e de súplicas, unidas entre si pela seqüência alfabética. Os versos extraem da tradição sapiencial de Israel reflexões sobre a misericórdia divina, que se manifesta na relação de Deus com os fiéis do povo eleito. A parte final do salmo renova, com maior insistência do que na parte inicial, a súplica de perdão dos próprios pecados e de proteção divina em situação pessoal de grave perigo. Em tudo que fazemos, a grande preocupação deve ser descobrir o caminho por onde Deus quer nos guiar.

Salmo 27
Confiança do justo em perigo O Senhor é minha luz e minha salvação: a quem temerei? O Senhor é a fortaleza de minha vida: perante quem tremerei? Quando malfeitores me assaltam para devorar minha carne, são eles, meus adversários e inimigos, que tropeçam e caem. Se um exército acampar contra mim, meu coração não temerá; se uma batalha se travar contra mim,

mesmo assim estarei tranqüilo. Uma só coisa peço ao Senhor e só esta procuro: habitar na casa do Senhor , todos os dias de minha vida, para contemplar os encantos do Senhor e meditar em seu templo, pois ele me resguardará em seu abrigo, no dia da desgraça; ele me ocultará no recesso de sua tenda, e me erguerá sobre um rochedo. E então minha cabeça será exaltada sobre os inimigos que me cercam. Em sua tenda poderei oferecer sacrifícios de regozijo e cantar um salmo ao Senhor . Senhor , escuta o grito de meu apelo, tem piedade e responde-me! A ti fala meu coração, meus olhos te procuram; eu busco tua face, Senhor . Não me ocultes tua face nem rechaces com ira teu servo, tu que és meu amparo! Não me rejeites, não me abandones, Deus de minha salvação! Se meu pai e minha mãe me abandonarem, o Senhor me acolherá. Mostra-me, Senhor , o caminho e conduze-me pela vereda segura, por causa dos que se emboscaram contra mim! Não me entregues à sanha dos adversários, pois levantaram-se contra mim falsas testemunhas, e um boato de violência. Tenho certeza de experimentar a bondade do Senhor na terra dos vivos. Espera no Senhor! Sê forte e corajoso, e espera no Senhor! Comentário Sl 27. Salmo de vigília, composto de duas partes, que correspondem a dois estados de ânimo: a primeira é um canto de confiança (1-6), que reflete uma atmosfera de serenidade e de luz sobrenatural. O salmista, recolhido em meditação e oração no templo, experimenta a alegria da união com Deus e encontra a segurança, graças à proteção recebida, pela qual ele fará uma ação de graças na celebração da liturgia. A força que nos deve animar em todos os momentos é a nossa fé em Deus. A segunda parte (7-14) é uma súplica, formulada em termos de lamentação, dirigida ao Deus da salvação que, por sua bondade, intervirá em favor de todos os fiéis à aliança divina na Terra Prometida. A vida não termina no fim de um dia, mas continuará como busca constante da presença de Deus.

Salmo 32
Ação de graças de um penitente Feliz aquele cuja culpa foi perdoada, cujo pecado foi encoberto! Feliz o homem, a quem o Senhor não inculpa de delito e em cujo espírito não há falsidade! Enquanto eu me calava, consumiam-se meus ossos, torturando-me, todo o dia, porque, dia e noite, tua mão pesava sobre mim; minha seiva secava ao calor do verão. Manifestei-te meu pecado e não encobri meu delito. Eu disse: “Confessarei ao Senhor minhas ofensas”, e tu perdoaste a culpa de meu pecado. Por isso todos os fiéis te supliquem no tempo propício para o encontro! Mesmo se as águas caudalosas transbordarem, não os atingirão. Tu és meu refúgio, tu me livras do perigo e me circundas com cantos de libertação. “Eu te instruirei e te mostrarei o caminho a seguir, eu te aconselharei, tendo os olhos sobre ti. Não sejas irracional como o cavalo ou a mula – cujo brio se doma com freio e cabresto, do contrário não se aproximam de ti!” Muitos sofrimentos aguardam o ímpio, mas a misericórdia do Senhor envolve a quem nele confia. Alegrai-vos no Senhor e exultai, ó justos, e cantai de júbilo vós todos, de coração reto! Comentário Sl 32. Salmo penitencial, de cunho didático, que expressa a felicidade do pecador arrependido que obtém a amizade com Deus pela confissão de seus pecados. Este salmo, proclamando a misericórdia de Deus, que nos salva sem mérito algum de nossa parte, ensina que devemos recorrer à fonte da graça, humilhando-nos diante de Deus, na penitência e na confissão dos pecados. Somente Deus pode cancelar o pecado, mas o homem deve colaborar para obter tal remissão. A experiência do perdão torna-se fonte de paz e alegria para o penitente; para os pecadores, um apelo para a conversão, que oriente a vida segundo o ensinamento de Deus. Se Deus for realmente o nosso amigo, podemos procurar junto a ele a paz da consciência. A Lei de Deus exige obediência livre e não permite uma submissão servil, própria de animais.

Salmo 33
Hino à divina providência Justos, aclamai o Senhor!

Apraz o louvor que vem de homens honestos. Celebrai o Senhor com a cítara, entoai-lhe canções com a harpa de dez cordas! Cantai-lhe um cântico novo, tocai belas melodias! Porque é de retidão a palavra do Senhor , e de fidelidade toda a sua obra: ele ama a justiça e o direito; a terra está repleta da misericórdia do Senhor . Pela palavra do Senhor foram feitos os céus, e todos os seus exércitos pelo alento de sua boca. Ele ajunta, como em represa, as águas do mar, põe em reservatórios os oceanos. Tema ao Senhor a terra inteira, tremam diante dele todos os habitantes do mundo, pois ele falou, e assim aconteceu; ele mandou, e assim se fez. O Senhor desfaz os planos das nações e frustra os projetos dos povos. O plano do Senhor subsiste para sempre, e os projetos de seu coração, de geração em geração. Feliz a nação que tem o Senhor por Deus, o povo que ele escolheu por sua herança! Do céu, o Senhor alonga a vista e vê todos os filhos dos homens. Do lugar de sua morada ele observa todos os habitantes da terra, modela o coração de cada um, atento a todas as suas obras. O rei não vence por seu grande exército: o guerreiro não se salva por sua grande força, e para a vitória o cavalo é pura ilusão. Um grande exército não garante a fuga. Eis que o Senhor vela sobre aqueles que o temem, sobre aqueles que esperam na sua misericórdia, para livrar da morte suas vidas e reanimá-los em tempo de fome. Nós aguardamos o Senhor , que é nosso auxílio e escudo. Com ele se alegra nosso coração, porque confiamos em seu santo nome. Venha a nós, Senhor , tua misericórdia, pois em ti esperamos. Comentário Sl 33. Hino litúrgico ao Deus Criador, providente e salvador. Após convite introdutório para louvar a Deus, seguem os motivos do louvor, o tema da confiança e uma breve súplica final. Motivos de especial louvor a Deus: sua palavra, ação, justiça, misericórdia, sua onipotência criadora e sua providência, a eleição de Israel e sua proteção no perigo. Este hino de louvor a Deus, Senhor da criação e da história, contém revelações que tocam o coração do homem. Louvar a

Deus e saber porque o louva caracteriza o homem inteligente. É sinal de esperança.

Salmo 34
O Senhor, refúgio dos justos Bendirei ao Senhor em todo o tempo, seu louvor estará sempre em minha boca. Minha alma gloria-se no Senhor : escutem os humildes e se alegrem! Proclamai comigo a grandeza do Senhor , exaltemos juntos o seu nome! Busquei o Senhor , e ele me respondeu, livrou-me de todas as angústias. Os que nele fixaram o olhar ficaram radiantes, porque suas faces não tinham de que se envergonhar. Um infeliz gritou; o Senhor ouviu e o salvou de todos os perigos. O anjo do Senhor acampa ao redor dos que o temem, e os salva. Saboreai e vede como o Senhor é bom! Feliz o homem que nele se refugia! Temei o Senhor vós que lhe sois consagrados, porque nada falta àqueles que o temem. Até os leões sofrem privação e passam fome, mas os que buscam o Senhor não carecem de nada. Vinde, filhos, escutai-me e eu vos ensinarei o temor do Senhor . Há alguém que ame a vida e deseje ver dias felizes? Guarda do mal tua língua, e teus lábios, da maledicência! Evita o mal, faze o bem, busca a paz e vai ao seu encalço! O Senhor tem os olhos voltados para os justos, e o ouvido atento ao seu clamor; o Senhor tem o rosto voltado contra os malfeitores para extirpar da terra sua memória. Clamam aqueles, e o Senhor escuta e os livra de todas as angústias. O Senhor está perto dos corações atribulados e salva os espíritos abatidos. Muitas são as aflições dos justos, mas de todas elas o Senhor os liberta. Ele cuida de todos os seus ossos, sem que um deles se quebre. A maldade levará o ímpio à morte, e serão punidos os que odeiam o justo. O Senhor resgata a vida de seus servos; não serão punidos os que nele se refugiam. Comentário

Sl 34. Poema didático, que reúne, em seqüência alfabética, uma série de breves sentenças sobre a proteção divina. O salmista utiliza o canto individual de ação de graças, para formular a experiência espiritual de quem vive sob a proteção divina e se empenha na prática do bem. Quem encontrar na sua vida esta paz, sente a necessidade de comunicar algo da sua felicidade aos amigos.

Salmo 36
Malícia humana e bondade divina Oráculo que o pecado sugere ao ímpio: “Não há motivo para que eu tenha, no íntimo do coração, temor ante o olhar de Deus”. Por isso se exime a si mesmo de encontrar alguma culpa a detestar. As palavras de sua boca são maldade e mentira; ele deixou de ser sensato e de fazer o bem. No leito premedita o mal, obstina-se no mau caminho, não rechaça a maldade. Senhor , teu amor eleva-se até aos céus, e tua fidelidade até as nuvens. Tua justiça é como as mais altas montanhas, e teus indultos, um oceano imenso. Tu, Senhor , socorres animais e homens. Ó Deus, quão preciosa é tua misericórdia! Os filhos dos homens refugiam-se à sombra de tuas asas, saciam-se da abundância de tua casa, e lhes dás a beber da torrente de tuas delícias, porque contigo está a fonte da vida, e através de tua luz vemos a luz. Estende tua misericórdia àqueles que te conhecem, e tua justiça aos retos de coração! Não me pisoteie o pé do soberbo, nem me expulse a mão do ímpio! Já tombaram os malfeitores; abatidos, não se podem erguer. Comentário Sl 36. Salmo de meditação sobre o mistério do pecado, personificado como força interior que pronuncia seus oráculos contra Deus. Obstinado no mau caminho e entregue ao poder do mal, o ímpio é um rebelde contra Deus, é um traidor e criminoso contra o próximo. Opõe-se-lhe o mistério da graça e da justiça de Deus, que transcende qualquer limitação. Deus está presente no templo para repartir seus benefícios ao homem nos símbolos litúrgicos e na oração pessoal. A súplica final invoca a justiça e a misericórdia divinas, para que os fiéis, defendidos contra as insídias do poder do mal, cresçam no conhecimento do mistério da graça. A vida não permite que nos acomodemos, pois teremos de optar sempre entre o bem e o mal.

Salmo 41
Oração na doença Feliz quem cuida do desvalido! No dia da desgraça o Senhor o salvará. O Senhor o conservará em vida, para que seja feliz sobre a terra e não o entregará à sanha dos inimigos. O Senhor o confortará no leito de dor, quando estiver prostrado pela doença. Assim estarás recuperado. Eu disse: “Senhor , por piedade, cura-me! pois pequei contra ti”. Os inimigos falam mal de mim: “Quando morrerá e se extinguirá seu nome?” Se alguém me visita, fala com fingimento; acumula maledicências e, saindo, as propala. Todos os que me odeiam sussurram juntos contra mim, fazendo, em minha presença, prognósticos funestos: “Uma peste maligna o atingiu; uma vez acamado, não tornará a levantar-se”. Até o amigo, em quem eu confiava e com quem repartia o pão, levantou contra mim o calcanhar. Mas tu, Senhor , tem piedade de mim e ergue-me, e eu lhes darei o que merecem. Nisto conhecerei que te agrado: que inimigo algum cante vitória sobre mim e que me sustentas, em vista de minha integridade, mantendo-me para sempre em tua presença. Bendito o Senhor Deus de Israel, desde sempre e para sempre! Amém! Amém! Comentário Sl 41. Salmo de lamentação que expressa a situação do enfermo em grave perigo de vida. Na súplica pela cura, o doente reconhece seu próprio pecado e a justiça de Deus em puni-lo. A misericórdia divina é o conforto de quem a ele se entrega com confiança nos momentos mais tenebrosos da vida, quando, em meio ao sofrimento, o invadem a tristeza, a solidão e o desamparo. Quem reza, não precisa procurar palavras bonitas. Pode desabafar e falar como pensa. Deus quer sinceridade.

Salmo 42
A alma sedenta de Deus

Como a corça suspira pelas correntes de água, assim minha alma suspira por ti, meu Deus. Minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo: quando entrarei para ver a face de Deus? As lágrimas são meu pão, dia e noite, enquanto me repetem, todo o dia: “Onde está o teu Deus?” Recordo outros tempos – para desafogo de minha alma – quando andava entre as turbas, peregrinando ao templo de Deus, entre brados de alegria e de louvor da multidão em festa. Por que estás abatida, ó minha alma, e gemes dentro de mim? Espera em Deus! Ainda o aclamarei: “Salvação da minha face e meu Deus!” Minha alma está abatida dentro de mim; contudo me lembro de ti, nas terras do Jordão e do Hermon, no monte Misar. Um vagalhão por outro chama, ao fragor das ressacas. Todas as vagas e ondas passaram sobre mim. De dia o Senhor use de misericórdia! De noite cantarei uma prece a Deus, que é minha vida. Direi a Deus, meu rochedo: “Por que me esqueceste? Por que ando triste, pela opressão do inimigo?” Quando meus ossos se esfacelam, os adversários me insultam, perguntando-me, todo o dia: “Onde está o teu Deus?” Por que estás abatida, ó minha alma, e gemes dentro de mim? Espera em Deus! Ainda o aclamarei: “Salvação da minha face e meu Deus!” Comentário Sl 42. Salmo de lamentação individual, que forma uma unidade com o salmo seguinte. Desterrado, com a alma aflita e atormentada por causa das invectivas dos pagãos, o salmista recorda, com profunda nostalgia do santo templo, as horas felizes na presença de Deus, durante as celebrações litúrgicas. O refrão, qual raio de luz divina, reaviva a fé e o salmista reanimado exorta-se a ter confiança em

Deus. Saudades e tristezas devem ser motivo para uma busca mais intensa de Deus.

Salmo 43
Nostalgia da casa de Deus Faze-me justiça, ó Deus! Defende minha causa contra a gente infiel! Salva-me do homem traidor e criminoso, pois tu, ó Deus, és meu refúgio. Por que me rejeitaste? Por que ando triste, pela opressão do inimigo? Envia tua luz e tua verdade: que elas me guiem e me conduzam ao monte santo, até à tua morada! Vou aproximar-me do altar de Deus, do Deus de minha alegria e de meu júbilo; vou celebrar-te ao som da cítara, ó Deus, meu Deus. Por que estás abatida, ó minha alma, e gemes dentro de mim? Espera em Deus! Ainda o aclamarei: “Salvação da minha face e meu Deus!” Comentário Sl 43. Continuação do salmo precedente. Começa com um pedido genérico de libertação, seguido de ardente súplica para que Deus, na luz de sua verdade, reconduza o salmista do desterro à sua pátria, onde na liturgia do templo poderá agradecer a Deus por tê-lo trazido à sua presença. A verdade se encontra em Deus.

Salmo 44
Súplica do povo vencido Ó Deus, nossos ouvidos ouviram – nossos pais no-lo contaram – a obra que realizaste em seus dias, nos tempos de outrora. Com as próprias mãos expulsaste nações para estabelecê-los; para expandi-los destruíste povos. Não foi pela espada que eles conquistaram o país, nem foi seu braço que lhes deu a vitória, mas tua destra e teu braço e a luz de tua face, porque tu os amavas. Ó Deus, tu que és meu rei, ordena! e Jacó vencerá. Graças a ti, destroçamos os adversários,

em teu nome calcamos os agressores. Não pus no arco minha confiança, nem foi minha espada que me deu a vitória. Tu nos fizeste vencer os adversários e confundiste os que nos odeiam. Em Deus nos gloriamos todos os dias, e para sempre daremos graças a teu nome. Todavia tu nos rejeitaste e humilhaste e já não sais a campo com nossos exércitos. Tu nos fazes recuar diante do adversário e nossos inimigos nos despojam. Entregaste-nos como ovelhas à matança, dispersaste-nos entre as nações. Vendeste teu povo por preço vil e nada lucraste com sua venda. Tu nos expões aos ultrajes dos vizinhos, ao escárnio e à zombaria dos circunstantes. Fazes de nós o motejo dos pagãos, a ponto de os povos menearem a cabeça. Todo o dia, tenho diante de mim o vexame, e a vergonha cobre-me o rosto, sob os gritos de insulto e de injúria, em face do inimigo sedento de vingança. Aconteceu-nos tudo isso, sem que te houvéssemos esquecido ou violado tua aliança. Sem que nosso coração voltasse atrás, ou se desviassem de teu caminho nossos passos, esmagaste-nos na região dos chacais e nos envolveste em mortalha de trevas. Se tivéssemos esquecido o nome de nosso Deus, estendendo as mãos a um deus estranho, acaso Deus não o teria percebido, ele, que conhece os segredos do coração? Por tua causa somos trucidados, todo o dia; tratam-nos como ovelhas de matadouro. Desperta, Senhor! Por que dormes? Acorda! Não nos rejeites para sempre! Por que nos escondes tua face e esqueces nossa desgraça e opressão? Nossa garganta está afogada no pó, e o ventre grudado ao chão. Levanta-te e socorre-nos, redime-nos por tua misericórdia! Comentário Sl 44. Canto de lamentação coletiva, dividido em três partes: hino que celebra as gloriosas façanhas do Senhor em favor de seu povo (2-9); lamentação coletiva pela situação deprimente da nação, que atravessa uma crise em conseqüência de derrota militar (10-17); súplica, em forma de protesto pela derrota do povo, não obstante a fidelidade de Israel à aliança. Às vezes parece que Deus nos abandona. Tenhamos a coragem de cobrar dele o compromisso que assumiu conosco.

Salmo 46
Deus, refúgio e força Deus é nosso refúgio e fortaleza, socorro sempre pronto nos perigos. Por isso não tememos, ainda que a terra se abale e os montes se afundem no seio dos mares, as águas se agitem e espumem e, com fúria, sacudam os montes. Os braços de um rio alegram a cidade de Deus, as moradas santas do Altíssimo. Deus está no meio dela, e nada a pode abalar; Deus a socorre, ao romper da manhã. Os povos se amotinam, reinos se abalam; ele faz ouvir sua voz, e a terra estremece. O Senhor Todo-Poderoso está conosco, o Deus de Jacó é nosso baluarte. Vinde contemplar os feitos do Senhor , os portentos que ele opera sobre a terra! Faz cessar as guerras até os confins da terra, despedaça os arcos e quebra as lanças, queima os carros na fogueira. “Parai, e reconhecei que eu sou Deus, excelso sobre as nações, excelso sobre a terra!” O Senhor Todo-Poderoso está conosco, o Deus de Jacó é nosso baluarte. Comentário Sl 46. Este cântico de Sião celebra, com sentimentos de júbilo e confiança, a presença de Deus em meio ao seu povo. Destacando a fé inabalável em Deus e em sua solicitude pela nação, que ele salva do poder de inimigo implacável, conclui com o convite a reconhecer os grandes feitos do Senhor em favor de Israel. A oração deste salmo, robustecendo em nós a certeza da presença de Deus em nosso meio, quer evitar compromissos e alianças equívocas, que nos possam desviar do caminho da salvação. A segurança e a coragem de viver nascem da certeza de que Deus está conosco com o seu poder e fidelidade.

Salmo 49
O engano das riquezas Ouvi isto, povos todos! Prestai atenção, habitantes do mundo, humildes e grandes, ricos e pobres indistintamente! Minha boca propõe a sabedoria e as intuições que meu coração cismou. Darei atenção ao provérbio

e proporei meu enigma ao som da harpa. Por que temer nos dias de infortúnio, quando me cerca a malícia dos embusteiros e dos que, na confiança de sua fortuna, se gloriam das grandes riquezas? O homem não pode resgatar ninguém, nem pagar a Deus a própria redenção; tão alto preço tem o resgate de uma vida, que se deve desistir dele para sempre, a fim de que se possa viver perpetuamente sem jamais ver o fosso. Eis o que se vê: sábios morrem, perecem do mesmo modo como o insensato e o louco, deixando para outros os seus bens. Pensavam eles que suas casas fossem eternas, suas moradas, de geração em geração, eles, que tinham dado seu próprio nome à terra. O homem apegado à riqueza não subsiste por uma noite, é semelhante aos animais de abate. O destino dos que nela se fiam e se gabam de seu futuro é este: são arrebanhados para o abismo pela morte, seu pastor, e logo, ao amanhecer, sobre eles triunfam os justos. Sua aparência é desfigurada pelo abismo, longe de sua habitação cá em cima. Mas Deus me resgatará do abismo, sim, ele me arrebatará. Não te exasperes, se um homem, enriquecendo, aumenta a opulência de sua casa! ao morrer, nada levará consigo, e sua opulência não baixará com ele. Ainda que, em vida, ele se tenha vangloriado: “Eles te aplaudem pelo sucesso que tiveste”, reunir-se-á à geração dos ancestrais, que nunca mais verão a luz. O homem que, apegado à riqueza, não reflete é semelhante aos animais de abate. Comentário Sl 49. Salmo sapiencial, que medita sobre a sorte de ricos e pobres, opressores e oprimidos, à luz de seu destino, a morte. O salmo apresenta o fato da morte, à qual se encaminham todos os homens; questiona o sentido dos bens terrenos, da prosperidade e do bem-estar em relação ao fim último do homem; e expõe a doutrina da retribuição das ações humanas. A solução do enigma da condição humana se vislumbra no v. 16, no qual refulge a esperança de vida e recompensa futura para o justo, embora sem especificar-se o sentido de tal recompensa. A meditação desse salmo, quando acompanhada de atitudes concretas em relação a Deus e ao próximo, levará à experiência religiosa da salvação. O pensamento da morte nos preserva da presunção e nos dá maior consciência da relatividade do nosso esforço.

Salmo 50
O verdadeiro culto Fala o Senhor , o Deus dos deuses, convocando a terra desde o nascer do sol até o ocaso. Em Sião, excelsa em beleza, aparece Deus em seu esplendor; é nosso Deus que se aproxima, rompendo o silêncio: precede-o um fogo abrasador, rodeia-o violenta tempestade. Do alto ele convoca o céu e a terra para o julgamento de seu povo: Reuni, junto a mim, os fiéis que selaram aliança comigo com um sacrifício! Proclamem os céus a sua justiça, porque Deus em pessoa é juiz. Escuta, meu povo! Eu vou falar; vou testemunhar contra ti, Israel, eu, o Deus, teu Deus: não te reprovo por teus sacrifícios nem pelos holocaustos, que sempre estão diante de mim. Não tomarei o novilho de teu estábulo nem os bodes dos teus apriscos, pois são minhas todas as feras das selvas e os animais nos montes, aos milhares. Conheço todas as aves das montanhas, e os insetos do campo me são familiares. Se eu tivesse fome, não o diria a ti, pois meu é o mundo e quanto nele se encerra. Acaso hei de comer carne de touros e beber sangue de bodes? Como sacrifício, oferece a Deus a confissão e cumpre teus votos diante do Altíssimo! Então poderás invocar-me no dia do perigo; eu te livrarei, e tu me darás glória. Deus diz ao ímpio: “Por que recitas meus preceitos e tens na boca minha aliança tu, que detestas a correção e rejeitas minhas palavras? Se vês um ladrão, corres a acompanhá-lo e te associas aos adúlteros. Tua boca vomita o mal, e tua língua urde a mentira. Tomas assento e falas contra o irmão, difamas o filho de tua mãe. É isso que fizeste. E eu calarei? Pensas acaso que sou igual a ti? É uma acusação, que eu te lanço em rosto.

Atendei vós, que vos esqueceis de Deus, senão vos estraçalho, e ninguém vos livrará! Honra-me quem oferece, como sacrifício, a ação de graças, preparando o caminho, para que eu possa mostrar-lhe a salvação divina. Comenmtário Sl 50. Este salmo didático, em forma de discussão judicial entre Deus e seu povo, destina-se a uma ocasião litúrgica e contém uma violenta crítica contra o formalismo do culto judaico e a infração da lei divina. Deus não atua como juiz, no sentido humano, mas como parceiro que persuade seu povo a confrontar sua conduta com as exigências da aliança, tomando por norma o decálogo. O culto externo prestado a Deus só terá valor, quando acompanhado de sentimentos religiosos internos: de compunção e de fidelidade à lei divina em relação aos direitos de Deus e do próximo. Tal visão do culto, embora sem rechaçar os sacrifícios cruentos, nega-lhes o valor mágico para aplacar a Deus. O salmista recomenda a confissão das ingratidões pelos benefícios passados, como manifestação religiosa mais íntima e agradável ao Altíssimo. Somos tentados a esconder-nos atrás de ritos e práticas. Deus, porém, quer sinceridade em tudo que fazemos.

Salmo 51
Confissão do pecador penitente Tem piedade de mim, ó Deus, por tua bondade! Por tua grande compaixão, apaga meus delitos! Lava-me por completo da minha iniqüidade e purifica-me do meu pecado! Pois reconheço meus delitos e tenho sempre presente o meu pecado. Contra ti, só contra ti pequei, pratiquei o mal diante de teus olhos. Serás considerado justo na sentença, incontestável no julgamento. Eis que nasci em iniqüidade, em pecado minha mãe me concebeu. Eis a verdade! tu a queres no fundo do coração: ensina-me pois no íntimo a sabedoria! Purifica-me com o hissope, e ficarei limpo! Lava-me, e ficarei mais branco que a neve! Faze-me sentir gozo e alegria, e exultem os ossos que esmagaste! Desvia tua face de meus pecados e apaga todas as minhas faltas! Ó Deus, cria em mim um coração puro e suscita em meu peito um espírito resoluto! Não me rejeites de tua presença nem retires de mim teu santo espírito! Concede-me o gozo de tua salvação e um espírito generoso que me ampare! Ensinarei aos ímpios teus caminhos,

e para ti voltarão os pecadores. Livra-me da pena de sangue, ó Deus, meu Deus salvador, e minha língua aclamará tua justiça. Abre, Senhor, os meus lábios e minha boca proclamará teu louvor. Não queres que eu te ofereça um sacrifício, nem aceitarias um holocausto. Em vez de sacrifícios, ó Deus, um espírito contrito, sim, um coração contrito e humilhado tu, ó Deus, não rejeitas. Em tua benevolência, favorece a Sião e reconstrói os muros de Jerusalém! Então aceitarás os sacrifícios prescritos: holocaustos e oferendas completas, como também novilhos, imolados sobre teu altar. Comentário Sl 51. Salmo penitencial, em forma de canto de lamentação individual, estruturado em duas partes: reino do pecado (3-11) e reino da graça (12-19). Após breve invocação da misericórdia divina, segue-se a confissão formal do pecado, como ato pessoal de ofensa a Deus, não como mera violação de uma ordem abstrata. A consciência do pecado pessoal e da condição pecaminosa congênita da natureza humana é um dom da revelação divina, infundida no coração humano. A consciência da própria culpa e a confissão da ofensa pessoal evocam, pela purificação e reconciliação, a alegria espiritual. O reino da graça, que transforma o homem justificado em nova criação pelo tríplice espírito- resoluto, santo e generoso- motiva o penitente justificado a levar a reconciliação aos outros, como mediador entre Deus e os homens. Após a absolvição da pena capital, merecida pelo pecado, o homem reconciliado responde com hinos de ação de graças. Uma adição final (20-21), referente ao tempo do exílio, almeja a restauração do culto solene em Jerusalém, uma vez que o povo já está purificado. Os versos deste salmo, quais degraus de escada que leva ao alto, conduzem do lodaçal do pecado para uma atmosfera espiritual e divina, onde o pecador vive naquele mundo novo, que Deus cria em torno dele. Cônscio de sua fragilidade, o homem apela a Deus que, na sua sabedoria, dispõe de meios para superá-la. Errar é humano, mas o perdão é possível, perdão que nasce do reconhecimento da culpa diante de Deus.

Salmo 58
Invectivas contra juízes iníquos É verdade que ditais sentenças justas, ó potentados? Julgais segundo o direito, ó filhos dos homens? Não! Já no coração tramais a iniqüidade, com vossas mãos distribuís a violência sobre a terra. Os ímpios se extraviam desde o seio materno, os mentirosos se pervertem desde o nascimento. Trazem veneno semelhante ao da serpente; tapando os ouvidos, são surdos como a víbora, que não ouve a voz do encantador,

perito em fazer encantamentos. Ó Deus, quebra-lhes os dentes na boca! Senhor , despedaça essas mandíbulas de leão! Eles se diluam escorrendo como água, fiquem gastos como flechas já usadas! Como lesma a deslizar, assim se esparramem e, como um feto abortivo de mulher, não vejam o sol! Sejam como verdes espinheiros, consumidos ao calor do fogo, antes mesmo que o sintam vossas marmitas! Alegre-se o justo, ao ver a vingança, e banhe os pés no sangue do ímpio! E os homens dirão: “Sim, há recompensa para o justo; sim, existe um Deus que faz justiça na terra”. Comentário Sl 58. Salmo de denúncia, em estilo vigoroso e tom profético, contra juízes iníquos. Da descrição genérica, em termos de abuso de poder para fins injustos, passa à descrição específica de seus ardis sem escrúpulos morais ou religiosos e de suas obras perniciosas, conseqüência de perversão congênita, contagiosa e incurável. O homem de fé não pode ficar indiferente a tal perversidade; por isso pronuncia uma série de imprecações contra esses juízes. Seu castigo e aniquilamento, uma vindicação da justiça divina, libertará o justo oprimido. Não é o prazer da vingança, nem a complacência no sofrimento alheio que levam o salmista a pedir o castigo dos ímpios, mas o zelo pelo triunfo da justiça, como manifestação da existência de Deus, que pune o ímpio por suas maldades e recompensa o justo por suas boas obras. Deixemos a Deus o julgamento dos outros, mas convém pedir com insistência a vinda deste julgamento.

Salmo 63
O homem à procura de Deus Ó Deus, tu és meu Deus; a ti procuro, de ti tem sede minha alma; minha carne por ti anseia como a terra ressequida, sequiosa, sem água. Assim te contemplo no santuário, vendo teu poder e glória. Porque teu amor vale mais que a vida, meus lábios te louvarão. Sim, eu te bendirei durante a vida, ao teu nome erguerei as mãos. Como se deleita minha alma na grande fartura, assim, com o júbilo nos lábios, minha boca te louva. Se penso em ti, no leito, se, nas vigílias, medito em ti, é porque tu foste meu auxílio, e à sombra de tuas asas posso cantar de júbilo. Tenho a alma apegada a ti, e tua destra me ampara. Mas os que intentam tirar-me a vida

desçam às profundezas da terra! Sejam entregues ao fio da espada, ficando como presa dos chacais! O rei, porém, se alegrará em Deus; os que juram por ele, felicitar-se-ão, pois será fechada a boca dos mentirosos. Comentário Sl 63. Salmo de vigília, em forma de lamentação individual. Os sentimentos intensos, expressos em tom de intimidade, refletem a profundidade de uma alma religiosa que encontra sua única felicidade na comunicação afetiva com Deus no templo. A expectativa da participação na ação litúrgica do louvor divino e do banquete sagrado suscita nela intensa alegria pela intimidade com Deus, a ponto de esquecer os próprios inimigos, pessoais ou estatais. Transpomos com segurança a noie da crise e da insegurança, agarrados a Deus que alegra a nossa vida. Salmo 67 Súplica pela bênção divina Deus nos seja propício e nos abençõe, e faça resplandecer sobre nós a sua face! Que na terra se conheça teu caminho, e entre todos os pagãos a tua salvação! Celebrem-te os povos, ó Deus, celebrem-te todos os povos! Cantem de alegria as nações! Pois tu reges os povos com eqüidade, tu governas na terra as nações. Celebrem-te os povos, ó Deus, celebrem-te todos os povos! A terra deu seus frutos: Deus, nosso Deus, nos abençoou. Deus continue a abençoar-nos, para que o temam os confins da terra! Comentário Sl 67. Salmo para obter a bênção divina, comentando e ampliando a fórmula da bênção sacerdotal (Nm 6,24-27). A fecundidade terrestre é símbolo e penhor da bênção espiritual no tempo messiânico. O tema da ação de graças após a colheita é ampliado pela súplica para que, por essa bênção em favor de Israel, todas as nações reconheçam a glória de Deus e, convertendo-se, lhe rendam louvor. Se Deus abençoar nosso trabalho, nossos esforços hão de produzir frutos abundantes. Salmo 72 O reino messiânico

Ó Deus, concede ao rei teu direito, tua justiça a este filho de rei, para que ele governe teu povo com justiça, e segundo o direito teus humildes! Proporcionem as montanhas e colinas paz ao povo, mediante a justiça! Tome ele a defesa dos humildes do povo, salvando os filhos dos pobres e esmagando o opressor, para que sejas reverenciado, enquanto durar o sol e permanecer a lua, de geração em geração! Seja ele como o cair da chuva sobre a relva, ou da garoa que umedece a terra, para que, em seus dias, floresça o justo em plena paz, até não haver mais lua! Domine ele, de mar a mar, desde o rio até os confins da terra! Os habitantes do deserto se curvem diante dele, e os inimigos lambam o pó! Os reis de Társis e das ilhas lhe enviem presentes, os reis de Sabá e Seba lhe paguem tributo, todos os reis se prostrem diante dele, e o sirvam todas as nações! Ele libertará o pobre que pede auxílio, e o desvalido, privado de ajuda. Ele terá compaixão do miserável e do pobre e salvará a vida dos indigentes. Da opressão e da violência lhes resgatará a vida e o sangue, que é precioso a seus olhos. Que ele viva, e lhe tragam ouro de Sabá! Intercedam por ele, sem cessar, e o bendigam, todo dia! Haja, no país, trigo em abundância ondulando até os cumes dos montes, como a vegetação do Líbano; vicejem os cidadãos como a erva do campo! Que seu nome seja eterno, e sua fama se propague diante do sol, para que nele sejam abençoadas todas as nações que o bendizem! Bendito seja o Senhor Deus, o Deus de Israel, o único que opera maravilhas! Bendito seja para sempre seu nome glorioso! Que toda a terra seja repleta de sua glória! Amém! Amém! Comentário Sl 72. Salmo da realeza, augurando ao novo rei, no dia de sua entronização, justiça perfeita e paz imperturbável, êxito nas campanhas militares, especial solicitude pelos indefesos e muita prosperidade, da qual se beneficiarão todos os

povos da terra. A doxologia final, acrescentada ao salmo, transcende a descrição da realeza com a visão da majestade e do poder de Deus. Esse salmo celebra as maravilhas da graça que o Senhor, por meio de seu Espírito, realiza no homem. A esperança é a última que morre. Jamais podemos duvidar da vitória do bem e da paz sobre a guerra e desunião.

Salmo 73
O enigma da prosperidade dos ímpios Sem dúvida, Deus é bom para Israel, para os puros de coração. Todavia meus pés quase resvalaram, e eu quase dei um passo em falso, ao invejar os arrogantes e contemplar a prosperidade dos ímpios: Até à morte não provam sofrimentos, têm o corpo bem nutrido, não partilham das penas humanas nem são atormentados como os outros homens. Por isso seu colar é a soberba, e seu manto, a violência. Os olhos emergem-lhes das faces bem nutridas; e, no coração, ocupam-se com honrarias. Zombam e falam com malícia, oprimem, falando com arrogância. Abrem a boca contra o céu, e sua língua varre a terra. Por isso o povo fica tão perplexo, que tudo engole como água, e chega a dizer: “Acaso Deus sabe disso? O Altíssimo tem disso conhecimento?” Assim são os ímpios: sempre seguros, acumulam riquezas. Então para que conservei puro o coração e lavei as mãos em sinal de inocência? Para que me atormento, o dia todo, e me castigo, toda manhã? Continuando a falar assim, eu estaria renegando a linhagem de teus filhos. Então meditei para compreendê-lo; foi tarefa penosa a meus olhos, até que entrei no santuário de Deus e compreendi o destino deles. Na verdade, tu os colocas em terreno escorregadio e os precipitas na ruína. Como se viram arruinados num momento e acabaram consumidos pelo terror! São como um sonho após o despertar: tu, Senhor, ao acordar, desprezas sua figura. Quando meu coração se exasperou

e os rins se dilaceraram, eu era um desvairado sem entendimento, um irracional diante de ti. Mas eu sempre estou contigo, tu me seguras pela mão direita, tu me guias segundo teus desígnios, e no fim me arrebatarás para a glória. Se tu, a quem eu tenho no céu, estás comigo, nada mais desejo na terra. Embora a carne e o coração se extingam Deus é a rocha do meu coração, minha herança para sempre. Eis que perecerão os que de ti se afastam, tu exterminas a todos os que te renegam. Minha felicidade, ó Deus, é estar junto de ti e fazer de ti, Senhor Deus , meu refúgio, para narrar todos os teus grandes feitos. Comentário Sl 73. Salmo sapiencial, baseado na experiência pessoal, sobre o problema do bem-estar e da impunidade dos ímpios, em contraste com os infortúnios dos justos, e sobre a certeza da retribuição nesta vida e a fonte da verdadeira felicidade. Este salmo constitui o ponto culminante dos conhecimentos de Israel sobre a vida após a morte, por transcender a situação contingente do homem e superar a visão da recompensa terrena, ao fixar o olhar na união com Deus, que desde já constitui o único e sumo bem e será nosso quinhão para toda a eternidade. A realidade é diferente do ideal da fé e provoca crise, que deve ser superada pela busca constante de Deus.

Salmo 81
Aclamação do povo e advertência de Deus Aclamai a Deus, nossa força, soltai gritos de alegria ao Deus de Jacó! Entoai o canto, fazei ressoar o pandeiro, a cítara melodiosa e a harpa! Tocai a trombeta, assim em lua nova como em lua cheia, no dia de nossa festa! Porque é uma lei para Israel, um preceito do Deus de Jacó, um estatuto que ele impôs a José, quando pelejou contra a terra do Egito. Eu ouvi uma linguagem desconhecida: “Aliviei do fardo seus ombros, e suas mãos depuseram os cestos. Clamaste na aflição, e eu te livrei; respondi, oculto no trovão; provei-te nas águas de Meriba. Ouve, povo meu, quero advertir-te! Vê, Israel, se me escutas!

Não terás deus estranho, não adorarás deus estrangeiro. Eu sou o Senhor teu Deus, que te fiz sair da terra do Egito. Abre bem a boca e eu a encherei. Mas meu povo não escutou minha voz, Israel não me atendeu, e eu os abandonei ao seu coração obstinado: que sigam seus caprichos! Ah! Se meu povo me escutasse! Se Israel seguisse meus caminhos, eu prontamente humilharia seus inimigos, descarregaria a mão sobre os adversários; os que odeiam o Senhor lhe seriam submetidos, seu destino estaria fixado para sempre. Ele o alimentaria com a flor do trigo. Eu te saciaria com o mel do rochedo. Comentário Sl 81. Salmo litúrgico composto de um invitatório, em forma de hino, convidando o povo a celebrar piedosamente uma festa instituída por Deus (2-6b), e de um orá culo (6c-17), em que o profeta lembra em nome de Deus o fato fundamental da redenção, o êxodo e, sobretudo, a lei que prescreve a adoração do Deus único. À acusação de transgressões contra a lei divina segue o anúncio do castigo: abandonado por Deus, o povo fará a triste e amarga experiência de seus desvarios. Mas a misericórdia divina, sobrepondo-se à injustiça do povo, convida-o à conversão, para receber as bênçãos anexas ao fiel cumprimento da aliança. O grande perigo é colocar sua esperança num apoio fictício e trocar Deus pelos ídolos da vida moderna.

Salmo 82
Destino dos juízes iníquos Deus se levanta na assembléia divina, no meio dos deuses abre o julgamento: “Até quando dareis sentenças injustas, favorecendo os culpados? Pausa . Defendei o desvalido e o órfão, fazei justiça ao indefeso e ao necessitado! Livrai o miserável e o pobre, libertai-os da mão dos ímpios!” Eles não sabem nem percebem que andam nas trevas, e que todos os fundamentos da terra se abalam. Eu disse: “Todos vós sois deuses e filhos do Altíssimo. Todavia morrereis como qualquer homem, sucumbireis como qualquer potentado”. Levanta-te, ó Deus, governa a terra, porque a ti pertencem todas as nações!

Comentário Sl 82. Salmo profético de denúncia contra juízes iníquos, baseado num oráculo de condenação dos deuses pagãos. Em visão profética, o salmista contempla a assembléia dos deuses pagãos, que o Senhor vem destronar para impor seu reino de justiça, já que eles abalaram os próprios fundamentos do cosmo. O oráculo de condenação dos deuses é aplicado aos juízes iníquos, cujos desmandos no exercício de seu cargo abalam a própria base da coexistência humana: a ordem social e política. A invocação da justiça divina assume a forma de profundo desejo de salvação e redenção, que liberte das intrigas da maldade a alma humana: é a aspiração pela justiça prometida por Deus. Os que agora dominam os homens por meio da injustiça não merecem a nossa inveja. A justiça de Deus vencerá.

Salmo 84
Peregrinação e saudação ao templo Como são amáveis tuas moradas, Senhor Todo-poderoso! Minha alma se consome de ânsia pelos átrios do Senhor , meu coração e minha carne vibram de alegria pelo Deus vivo. Até o pássaro encontra um abrigo, e a andorinha um ninho, onde colocar os filhotes, perto de teus altares, Senhor Todo-poderoso, meu rei e meu Deus. Felizes os que vivem em tua casa, louvando-te sem cessar! Felizes os homens que em ti encontram sua força, que tomam a peito as peregrinações! Quando atravessam o vale de Bacá, convertem-no em oásis, como as primeiras chuvas, que o cobrem de bênçãos. Caminham com vigor sempre crescente, até aparecer o Deus dos deuses em Sião. Senhor Deus Todo-poderoso, escuta minha oração, presta-me ouvido, ó Deus de Jacó. Ó Deus, vê quem é nosso escudo: contempla a face de teu Ungido. Um dia em teus átrios vale mais que mil; prefiro ficar no umbral da casa de meu Deus a hospedar-me nas tendas dos ímpios, porque o Senhor Deus é sol e escudo, o Senhor concede favor e glória. Ele não priva da felicidade os que procedem retamente. Senhor Todo-poderoso, feliz o homem que em ti confia!

Comentário Sl 84. Cântico de Sião, entoado pelos peregrinos em ação de graças pela felicidade de poder entrar no santuário de Jerusalém e viver em intimidade espiritual com seu Deus. Este salmo testemunha a profunda espiritualidade atingida pelos fiéis do AT. Resplandece de todo esse salmo intensa luminosidade, que emana de Deus e se reflete na alma de quem reza, transformando-a com sua presença. Para quem encontrou Deus na vida, a vida como tal se torna alegre e linda pela convivência com o Senhor.

Salmo 85
Oração pela restauração de Israel Senhor , favoreceste a tua terra, acabaste com o cativeiro de Jacó. Perdoaste a culpa de teu povo, encobriste todos os seus pecados. Reprimiste toda a tua cólera, refreaste o ardor de tua ira. Volta-te para nós, ó Deus, salvador nosso! Suspende tua indignação contra nós! Acaso ficarás sempre irado contra nós, prolongando a cólera, de geração em geração? Não nos restituirás a vida, para que teu povo possa contigo alegrar-se? Mostra-nos tua misericórdia, Senhor , e dá-nos tua salvação! Estou atento ao que Deus fala; é de paz que o Senhor fala a seu povo e a seus fiéis, contanto que não voltem a praticar desatinos. Sim, a salvação está próxima dos que o temem, e a glória habitará em nossa terra. Amor e fidelidade se encontram, justiça e paz se abraçam. A fidelidade brotará da terra, quando do céu se inclinar a justiça. O Senhor dará a prosperidade, e nossa terra produzirá seu fruto, quando a justiça andar à sua frente, traçando, com seus passos, o caminho. Comentário Sl 85. Lamentação coletiva, que reflete a situação de desânimo dos repatriados e procura infundir-lhes novo ânimo, pedindo a Deus que complete a obra de libertação de Israel, sepultando seu passado pecaminoso e proporcionando-lhe um futuro mais esperançoso. Ao lamento do povo responde o oráculo divino, trazendo-lhe uma mensagem de fidelidade e justiça que enlaçam o céu e a terra em perfeita harmonia. Sobre a terra da humanidade, reconciliada com Deus, descerão as bênçãos divinas, como em inúmeras ocasiões de sua história. Justiça e

Paz devem ser o critério e o objetivo dos nossos esforços. Deus está comprometido conosco nesta luta.

Salmo 90
Brevidade da vida humana Senhor, tu foste nosso abrigo, de geração em geração. Antes que nascessem os montes e fossem engendrados a terra e o mundo, desde sempre e para sempre tu és Deus. Reduzes o homem ao pó, dizendo: “Retornai, filhos dos homens!” A teus olhos, mil anos são como o dia de ontem, que passou, e como a vigília noturna. Tu os arrebatas; são como um sonho matinal, transitórios como a erva: de manhã floresce e viceja, de tarde murcha e seca. Sim, nós somos consumidos por tua cólera, abalados por teu furor. Puseste nossas culpas diante de ti, nossos segredos à luz de tua face. Assim nossos dias dissipam-se diante de tua cólera, findamos os anos como um pensamento fugaz. Setenta anos é a duração de nossa vida; oitenta anos, se for vigorosa. Mas vangloriar-se disso é fadiga inútil, porque passam depressa, e nós levantamos vôo. Quem chega a compreender que tua ira seja tão veemente, e tua cólera tão terrível? Por isso ensina-nos a dispor de nossos dias, de modo a adquirirmos um coração sensato! Volta-te, Senhor! Até quando? Tem compaixão de teus servos! Sacie-nos, desde a manhã, tua misericórdia e exultaremos de alegria, todos os dias. Dá-nos alegria pelos dias em que nos humilhaste, pelos anos em que provamos a desgraça! Que tua obra se manifeste a teus servos, e a teus filhos o teu esplendor! Desça sobre nós a bondade do Senhor nosso Deus! Consolida para nós a obra de nossas mãos, sim, consolida a obra de nossas mãos! Comentário Sl 90. Este salmo de lamentação coletiva, em forma de meditação sobre a brevidade da existência humana e o sentido da vida, prima pela profundidade dos conceitos e pela força incisiva das imagens e expressões. O salmista exalta a

eternidade de Deus, que contrasta com a fugaz existência humana. A causa de tão mísera caducidade reside no pecado, que atrai sobre o homem a ira de Deus. Estas considerações suscitam a oração de súplica: a caducidade refugia-se no Infinito; caminhando para a morte, recorre à fonte da vida; oprimida pelo trabalho, invoca a bênção do alto. Esta súplica tem caráter comunitário pela invocação da benevolência de Deus, para que abençoe e confirme o trabalho cotidiano dos que procuram sair da difícil situação econômica, resultante da prostração nacional. A vida passa e passa rapidamente.

Salmo 91
Oráculo de proteção para um exilado no templo Ao que está sob a proteção do Altíssimo e se mantém à sombra do Poderoso, transmito a mensagem do Senhor , meu refúgio e fortaleza, meu Deus, em quem confio: Ele te livrará da rede do caçador e da epidemia funesta. Ele te cobrirá com suas plumas, e debaixo de suas asas te abrigarás; sua fidelidade é escudo e couraça. Não temerás o pavor da noite nem a flecha que voa de dia, nem a epidemia que ronda no escuro nem a peste que devasta ao meio-dia. Se tombarem mil a teu lado e dez mil à tua direita, tu não serás atingido. Basta abrires os olhos, e verás o castigo dos ímpios. Porque, dizendo: “Tu, Senhor , és meu refúgio”, fizeste do Altíssimo teu asilo. Não te atingirá mal algum, nem o flagelo chegará à tua tenda, pois ele ordenará aos seus anjos que te guardem em todos os teus caminhos. Eles te levarão nas mãos. para que teu pé não tropece na pedra. Caminharás sobre o leão e a víbora, pisotearás feras e dragões. “Já que ele se afeiçoou a mim, eu o livrarei; protegê-lo-ei, porque conhece meu nome. Se me invocar, responderei; estarei com ele no perigo, libertá-lo-ei e o glorificarei. Hei de saciá-lo com longos dias e manifestar-lhe minha salvação”. Comentário

Sl 91. Salmo de confiança, que pela palavra do sacerdote exorta um asilado no templo a confiar na proteção de Deus. No oráculo, Deus fala pessoalmente, para ressaltar que a divina providência, embora não preserve o justo de morrer de fome ou peste ou na guerra, nem o ponha ao abrigo das desgraças da vida, vela todavia, com solicitude paternal, por quem nela confia e o salvará.

Salmo 92
Louvor ao Senhor e Criador É bom dar graças ao Senhor e entoar um hino ao teu nome, ó Altíssimo, proclamar de manhã teu amor, e tua fidelidade durante a noite, com a lira de dez cordas e com a harpa, ao som da cítara, porque tuas ações, Senhor , são minha alegria, são meu júbilo as obras de tuas mãos. Como são magníficas tuas obras, Senhor , e insondáveis teus desígnios! O ignorante não os entende, o insensato não os compreende. Ainda que os ímpios brotem como erva e floresçam todos os malfeitores, eles são destinados ao extermínio eterno. Mas tu, Senhor , que és excelso, permaneces para sempre, enquanto teus inimigos, Senhor , enquanto teus inimigos hão de perecer e todos os malfeitores desaparecerão. Redobrou-se minha força, como a do búfalo, e fiquei impregnado de óleo refrescante; meus olhos avistaram os que me espreitavam e, quando os ímpios se levantaram contra mim, meus ouvidos o perceberam. O justo floresce como a palmeira, cresce como o cedro do Líbano. Quem está arraigado na casa do Senhor , floresce nos átrios de nosso Deus; ainda dará fruto na velhice, conservando toda a exuberância e frescor, para proclamar que o Senhor é justo e que não há falha em minha rocha. Comentário Sl 92. Hino de ação de graças, com temas sapienciais. São motivo de admiração e de louvor a grandeza das obras divinas e a profunda sabedoria pela qual o Senhor governa o mundo. Os homens insensatos, pelo contrário, não entendem tais coisas porque andam iludidos com a efêmera prosperidade dos ímpios, aos quais aguarda a ruína perpétua. Aos justos, porém, Deus dá saúde, força e vigor, alegria, vitória

sobre os inimigos, prosperidade e vida fecunda, para que por meio desses favores sejam exaltadas sua bondade e justiça. A vida na presença de Deus é perene juventude e ambiente propício para uma admirável fecundidade espiritual.

Salmo 95
Exortação ao louvor de Deus Vinde, cantemos ao Senhor , aclamemos a Rocha que nos salva! Entremos em sua presença com ação de graças, aclamemo-lo com hinos! O Senhor é o grande Deus, o grande rei acima de todos os deuses. Ele tem nas mãos as profundezas da terra; são seus os cumes dos montes. Dele é o mar – porque ele o fez – e a terra firme, que suas mãos modelaram. Entrai! Vamos inclinar-nos e prostrar-nos de joelhos diante do Senhor que nos fez! Porque ele é nosso Deus, e nós somos o povo que ele apascenta, o rebanho de sua propriedade. Hoje não deixeis de escutar sua voz: “Não endureçais o coração, como em Meriba, como no dia de Massa, no deserto, onde vossos pais me desafiaram e me puseram à prova, embora tivessem visto minhas obras! Durante quarenta anos aborreci-me com essa geração e disse: ‘É um povo de coração extraviado, que não conhece meus caminhos’. Por isso jurei com ira: ‘Jamais entrarão no meu repouso!’” Comentário Sl 95. Salmo litúrgico para o rito de entrada dos fiéis no templo. Compõe-se de duas partes: um hino que ressalta três motivos para louvar a Deus: seu domínio absoluto, sua transcendência criadora e sua aliança com o povo eleito (1-7); um oráculo divino sobre a incredulidade e indocilidade dos israelitas, visando a despertar na assembléia dos fiéis atitudes de fé e docilidade à voz de Deus. O homem deve escutar o que Deus lhe tem a dizer. Deus fala através da vida.

Salmo 97
Façanhas do Rei divino O Senhor é rei: exulte a terra, alegrem-se as numerosas ilhas! Nuvens e trevas o envolvem,

justiça e direito são a base de seu trono. Diante dele avança o fogo, devorando, ao seu redor, os adversários. Os relâmpagos clarearam o mundo, a terra viu e estremeceu. Os montes derreteram-se como cera diante do Senhor , diante do Senhor de toda a terra. Os céus proclamaram sua justiça, e todos os povos contemplaram sua glória. Envergonhados ficaram todos os idólatras e os fanáticos das divindades; prostraram-se diante dele todos os deuses. Sião ouviu e se alegrou, exultaram as filhas de Judá com tua sentença, Senhor . Tu, Senhor , o Altíssimo acima de toda a terra, entre todos os deuses és o mais excelso. Vós, que amais o Senhor , odiai o mal! Ele protege a vida de seus fiéis e os livra das mãos dos ímpios. A luz amanhece para o justo, e para os corações sinceros a alegria. Alegrai-vos, justos, no Senhor , louvai-o, lembrando sua santidade! Comentário Sl 97. Hino à realeza universal de Deus, descrita em termos de teofania escatológica, que fazem lembrar a aparição divina no monte Sinai e outras da história de Israel. Ao relatar as manifestações divinas do passado, o salmista insinua que a aparição final há de resumir e atualizar todas as precedentes, por constituir o ato culminante de toda a história sagrada: a entronização de Deus no universo. Diante dele ninguém poderá resistir. O universo inteiro, com suas forças misteriosas, está em suas mãos: Ele é mais forte que o universo. A luta do Rei divino nos últimos tempos será a síntese e o epílogo de todas as lutas travadas pela causa de Deus na história de Israel: o poder de Deus, que virá para julgar a força do mal neste mundo, subverterá todas as coisas. A coragem de viver vem da certeza de que o nosso Deus domina tudo e que a sua presença nos acompanha.

Salmo 101
O rei exemplar Quero cantar a misericórdia e a justiça, quero entoar um hino para ti, Senhor . Quero instruir-me no caminho da perfeição: Quando virás a mim? Quero proceder com coração íntegro no interior de minha casa. Não hei de propor-me um objetivo sórdido. Odeio ações criminosas:

que elas não me contagiem! Longe de mim o coração falso, não quero conhecer o mal. A quem difama os outros, às ocultas, vou reduzi-lo ao silêncio. Olhos altivos e coração ambicioso não suportarei. Só quero ver patrícios de confiança, sentados ao meu lado. Terá de andar no caminho da honestidade quem entrar a meu serviço. Não ficará na minha casa quem cometer fraudes. Quem profere mentiras não terá lugar em minha presença. Silenciarei, logo de manhã, todos os ímpios do país para extirpar da cidade do Senhor todos os malfeitores. Comentário Sl 101. Salmo da realeza, em forma de juramento prestado pelo rei na cerimônia de sua entronização. Os compromissos formulados neste salmo são fruto da meditação da lei divina e da sabedoria inspirada por Deus aos sábios de Israel e representam o ideal que deve inspirar a conduta moral de um bom chefe de governo. O rei era considerado o representante de Deus entre o povo de Israel: devia portanto refletir, de certo modo, a santidade de Deus diante de seus súditos e em nome de Deus administrar a justiça com integridade, sem respeito humano e sem violência, para não induzir os homens a blasfemar o nome de Deus. É necessário prever e planejar a vida e ter a coragem de assumir este compromisso de vida diante de Deus. Salmo 103 Hino à misericórdia do Senhor Bendize, ó minha alma, ao Senhor , e todo o meu coração, seu santo nome! Bendize, ó minha alma, ao Senhor , e não esqueças nenhum de seus benefícios! Ele perdoa todas as tuas culpas e cura todas as tuas enfermidades. Ele resgata do fosso tua vida e te coroa de misericórdia e compaixão. Ele nutre com fartura teu vigor e te rejuvenesce como a águia. O Senhor exerce a justiça e o direito em favor dos oprimidos. Ensinou seus caminhos a Moisés, e aos israelitas seus grandes feitos. O Senhor é compassivo e clemente,

lento para a cólera e rico em misericórdia. Não está sempre acusando nem guarda rancor para sempre. Não nos trata segundo nossos pecados nem nos paga segundo nossas culpas. Quanto se elevam os céus sobre a terra, tanto prevalece sua misericórdia pelos que o temem. Quanto dista do Oriente o Ocidente, tanto afasta ele de nós nossos delitos. Como um pai sente compaixão pelos filhos, assim o Senhor se compadece dos que o temem, porque ele conhece nossa natureza e se lembra de que somos pó. São como a erva os dias do homem, e ele floresce como as flores do campo: apenas bafeja o vento, já não existem, e seu lugar não mais se lembra delas. Mas a misericórdia do Senhor é, desde sempre e para sempre, para aqueles que o temem, e sua justiça para os filhos de seus filhos, para os que guardam sua aliança, atentos em executar seus preceitos. O Senhor estabeleceu seu trono nos céus, e com soberania governa o universo. Bendizei ao Senhor vós, os seus anjos, heróis poderosos, que cumpris as suas ordens, tão logo se faz ouvir a voz de sua palavra! Bendizei ao Senhor , todos os seus exércitos, e vós, seus ministros, que cumpris a sua vontade! Bendizei ao Senhor , todas as suas obras, em todo o lugar de seu império! Bendize, ó minha alma, ao Senhor! Comentário Sl 103. Hino de ação de graças à misericórdia divina, indulgente e compreensiva com o pecador. As exigências da misericórdia de Deus sobrepõem-se às de sua justiça, e por isso o coração arrependido sempre encontra o perdão da parte de Deus, que conhece a fragilidade da natureza humana. Não é um juiz implacável, mas um pai benévolo para com seus filhos. Este maravilhoso hino de gratidão tem um grandioso final, no qual são convidados a unir sua voz à do salmista os anjos, mensageiros de Deus misericordioso, e todas as criaturas, manifestação sensível da divina misericórdia. No fim de todas as situações da vida, sempre cabe uma palavra de agradecimento a Deus.

Salmo 115
Grandeza e bondade do verdadeiro Deus Não a nós, Senhor , não a nós,

mas ao teu nome dá glória por teu amor e tua fidelidade!

Por que hão de dizer as nações: “Onde está seu Deus?” Nosso Deus está no céu e pode fazer tudo quanto quer. Os ídolos são prata e ouro, obra de mãos humanas: têm boca e não falam, têm olhos e não vêem, têm ouvidos e não ouvem, têm nariz e não têm olfato, têm mãos e não apalpam, têm pés e não andam; não emitem sons com a garganta. Fiquem iguais a eles os que os fabricam e todos os que neles confiam! Confie Israel no Senhor , seu socorro e seu escudo! Confie a casa de Aarão no Senhor, seu socorro e seu escudo! Os que temem o Senhor confiem no Senhor, seu socorro e seu escudo! Lembrado de nós, o Senhor abençoe: abençoe a casa de Israel, abençoe a casa de Aarão, abençoe os que temem o Senhor , pequenos a grandes! Que o Senhor vos multiplique a vós e a vossos filhos! Sede benditos do Senhor , que fez o céu e a terra! Os céus são os céus do Senhor , mas a terra ele deu aos filhos dos homens. Não são os mortos que louvam o Senhor , nem os que descem ao silêncio; somos nós que bendizemos o Senhor , desde agora e para sempre. Aleluia! Comentário Sl 115. Salmo litúrgico de profissão de fé no verdadeiro Deus. É ressaltada a infinita distância entre o Deus de Israel, Criador do universo, e os ídolos pagãos, fabricados por mãos humanas. Diante do Deus vivo, torna-se manifesta a inanidade desses ídolos, que não passam de representações das forças da natureza ou das paixões humanas ou das potências demoníacas. Ao venerar esses falsos deuses, o homem, criado à imagem e semelhança de Deus, renega seu Senhor, origem e razão última de sua existência; degrada-se, tornando-se escravo daquilo que ele deveria dominar. Israel tem motivo ainda mais forte para condenar os ídolos pagãos, por ser consagrado a Deus, que lhe proibiu fabricar imagens de

qualquer espécie e o segregou dos outros povos para defendê-lo da contaminação da idolatria. Ao ato de fé segue um ato de confiança e Deus, por seus sacerdotes, responde com sua bênção, cuja eficácia se estende ao universo inteiro. A escolha entre Deus e os ídolos não se faz de uma vez para sempre, mas deve ser renovada cada dia.

Salmo 116
Ação de graças após perigo mortal Amo o Senhor , porque ele escuta minha voz suplicante. Porque me presta ouvido, em meus dias o invocarei. Envolviam-me os laços da morte e as angústias do abismo; experimentei tristeza e aflições. Invoquei o nome do Senhor : “Ah! Senhor , salva minha alma!” O Senhor é benigno e justo, nosso Deus é compassivo. O Senhor vela sobre a gente simples; eu era fraco, e ele me salvou. Volta, ó minha alma, à serenidade, porque o Senhor foi bom para contigo. Livraste da morte minha alma; das lágrimas, meus olhos; e meus pés, da queda. Caminharei na presença do Senhor , na região dos viventes. Eu permanecia confiante, mesmo quando dizia: “Sou muito infeliz”. Perplexo, eu dizia: “Todos os homens são mentirosos”. Como pagarei ao Senhor todo o bem que me fez? Elevarei o cálice da salvação e invocarei o nome do Senhor . Cumprirei meus votos diante do Senhor na presença de todo o povo. É dolorosa aos olhos do Senhor a morte de seus fiéis. Porque sou teu servo, Senhor – teu servo, filho de tua serva –, rompeste meus grilhões. Oferecer-te-ei um sacrifício de ação de graças, invocando o nome do Senhor . Cumprirei meus votos diante do Senhor na presença de todo o povo, nos átrios da casa do Senhor , em teu centro, Jerusalém.

Aleluia! Comentário Sl 116. Canto de ação de graças pela salvação, após iminente perigo de vida em grave enfermidade. A comovente expressão de ação de graças pela cura e a descrição da experiência pessoal de salvação denotam profunda intimidade e comunicação afetiva com Deus. A alma agradecida desdobra-se em generosidade, nos vários ritos de ação de graças: invocação e louvor de Deus, cumprimento dos votos, testemunho público diante da assembléia, libação e um sacrifício de ação de graças.

Salmo 117
Louvor e ação de graças Nações todas, louvai o Senhor , povos todos glorificai-o por seu amor tão grande para conosco, e pela fidelidade do Senhor , que é eterna! Aleluia! Comentário Sl 117. Brevíssimo hino de louvor a Deus. A perspectiva é nitidamente messiânica: o salmista, em nome da comunidade dos fiéis, convida todas as nações a se associarem ao louvor do Senhor, único Deus verdadeiro, por ter manifestado lealdade e fidelidade em sua aliança com o povo eleito. Para quem encontrou Deus na vida, a natureza inteira parece transformar-se num hino de louvor ao Criador.

Salmo 119
Elogio da lei divina Felizes os de conduta íntegra, que andam na lei do Senhor! Felizes os que observam suas leis e o procuram de todo o coração, que não cometem a iniqüidade, e que andam em seus caminhos! Tu promulgas teus preceitos, para que sejam guardados com diligência. Que se consolidem meus caminhos na observância de tuas prescrições! Eterna, Senhor , é tua palavra, estável nos céus. Tua fidelidade perdura de geração em geração: estabeleceste a terra, e ela permanece; por teu decreto permanecem até hoje todas as coisas, porque estão a teu serviço. Se tua lei não fosse minha delícia, eu teria perecido em minha aflição.

Jamais esquecerei teus preceitos, pois por eles me reanimaste. Sou teu: salva-me, porque tenho procurado teus preceitos. Os ímpios me aguardavam para perder-me, mas eu estava atento às tuas leis. Vi que toda a perfeição tem limite, mas teu mandamento é muito amplo. Tua palavra é uma lâmpada para meus passos, luz para meus caminhos. Fiz um juramento, que vou manter: observar teus justos decretos. Estou por demais humilhado: Senhor , reanima-me, segundo tua palavra! Aceita, Senhor , as oferendas de minha boca e ensina-me teus decretos! Tenho sempre nas mãos minha vida, mas não esqueço tua lei. Os ímpios me armaram uma cilada, mas não me desviei de teus preceitos. Tuas leis são minha herança eterna, são o gozo de meu coração. Inclinei o coração a cumprir tuas prescrições para sempre, até o fim. Senhor , chegue meu grito à tua presença, dá-me entendimento, segundo tua palavra! Chegue à tua presença minha súplica, livra-me, segundo tua promessa! Meus lábios proclamem o louvor, porque tu me ensinas tuas prescrições. Cante minha língua tua promessa, porque todos os teus mandamentos são justos! Venha tua mão em meu socorro, porque escolhi teus preceitos! Anseio por tua salvação, Senhor ; tua lei é minha delícia. Possa eu viver para louvar-te, sendo-me de valia teus decretos! Se eu me extraviar como ovelha desgarrada; vem em busca de teu servo, porque não me esqueci de teus mandamentos! Comentário Sl 119. Este longo salmo sapiencial tece intermináveis elogios à lei divina, revelada como norma de vida, no relacionamento do homem com Deus e com o próximo. O salmista quer expressar, em todas as circunstâncias da vida, desde o início até o fim, seu amor e acatamento à lei divina, porque nela encontra o bem supremo, luz, alegria e conforto nas perseguições e no sofrimento. Leis, mandamentos, preceitos, decretos, prescrições, sentenças, promessas e palavras. esses termos exprimem aquele aspecto da palavra de Deus que traz exigências concretas para a vivência da fé e se constitui em lei permanente para o povo eleito. De seu acatamento depende a eficácia da aliança divina, que se manifesta pelo cumprimento das promessas de Deus, feitas a Israel. No tempo

em que Israel perdeu sua soberania política, especialmente quando não havia acesso à liturgia no templo, a piedade dos israelitas, para entrar em contato com Deus, concentrava-se no estudo da Lei e aplicava-se à meditação. A Palavra e a Lei de Deus devem ser o critério que orienta no trabalho em direção à felicidade.

Salmo 120
Imprecação contra os maldizentes Em minha aflição clamei ao Senhor , e ele me respondeu. Senhor , livra minha alma dos lábios mentirosos e da língua traiçoeira! O que te aguarda, o que te está reservado, ó língua traiçoeira, senão agudas flechas de guerreiro, e achas de lenha em brasas? Infeliz de mim, como que desterrado em Mosoc, ou morando entre as tendas de Cedar! Por demais minha alma ficou morando entre aqueles que odeiam a paz: quando eu proponho a paz, eles são pela guerra. Comentário Sl 120. É o primeiro dos cânticos de peregrinação, recitados pelos peregrinos em viagem à Cidade Santa, por ocasião das grandes celebrações anuais da liturgia israelita. O salmista retrata, nos moldes de lamentação individual, a figura do justo perseguido por causa de sua fé religiosa, quer habite no meio do povo de Deus, povo infiel à aliança, quer se encontre longe da pátria, exposto ao ódio e à calúnia da população pagã. Nem todos pensam como nós. Têm idéias diferentes. Apesar disto, devemos continuar na construção da Paz verdadeira.

Salmo 121
O Senhor, guarda e protetor de seu povo Levanto os olhos para os montes: donde me virá socorro? O socorro me vem do Senhor , que fez o céu e a terra. Ele não permitirá que teu pé tropece; tua sentinela não dorme. Não! Não dorme nem repousa a sentinela de Israel. O Senhor é tua sentinela: como sombra protetora, o Senhor está à tua direita. De dia não te causará dano o sol, nem a lua, de noite. O Senhor te guardará de todo mal,

ele guardará tua vida. O Senhor te guardará, em tuas idas e vindas, agora e para sempre. Comentário Sl 121. Com este salmo de confiança os peregrinos se despedem da Cidade Santa, confirmados pelo oráculo de proteção divina. É importante saber que Deus vai lado a lado conosco atrafvés da vida.

Salmo 122
Saudação a Jerusalém, cidade santa Alegrei-me, quando me disseram: “Vamos à casa do Senhor! ” Pararam enfim nossos pés às tuas portas, Jerusalém. Jerusalém foi construída para ser uma cidade de muita afluência. Para ali acorrem as tribos, as tribos do Senhor , segundo a lei de Israel, para louvar o nome do Senhor . Ali estão estabelecidas a sede da justiça e a sede da casa de Davi. Desejai a paz a Jerusalém: “Estejam em segurança os que te amam! Haja paz dentro de teus baluartes e tranqüilidade em teus palácios!” Por causa de meus irmãos e companheiros, apraz-me dizer: “A paz esteja contigo! Por causa da casa do Senhor nosso Deus, invocarei sobre ti a felicidade”. Comentário Sl 122. Neste cântico de Sião, entoado pelos peregrinos no momento da chegada a Jerusalém, a saudação à Cidade Santa evoca sentimentos de alegria e admiração. Jerusalém é o símbolo do nosso futuro. Fixando nele os olhos, teremos um ideal na vida.

Salmo 123
Salmo de esperança Para ti levanto os olhos, para ti, que habitas nos céus. Como os olhos dos servos se fixam na mão de seus senhores, e como os olhos da serva, na mão de sua senhora,

assim também nossos olhos, no Senhor nosso Deus, até que se compadeça de nós. Piedade, Senhor , piedade, porque estamos saturados de desprezo! Nossa alma está saturada do sarcasmo dos abastados, do desprezo dos orgulhosos. Comentário Sl 123. Este salmo de lamentação coletiva reflete uma situação de prostração geral, ou de toda a nação, por causa da exploração de inimigos externos, ou da comunidade de fiéis, oprimidos pelos chefes prepotentes. A súplica é intensa, cheia de expectativa e confiança. Nós dependemos de Deus. É firmando nele os olhos que podemos caminhar com firmeza e enfrentar a vida.

Salmo 124
Ação de graças ao Deus libertador Se o Senhor não estivesse do nosso lado – que Israel o diga! – se o Senhor não estivesse do nosso lado, ao nos assaltarem os homens, eles nos teriam devorado vivos, quando sua cólera se desencadeou contra nós; as águas nos teriam arrastado, uma torrente nos teria submergido, ter-nos-iam submergido as águas impetuosas. Bendito seja o Senhor , que não nos entregou como presa aos seus dentes! Nossa alma escapou, como um pássaro do laço dos caçadores: ao romper-se o laço, escapamos. Nossa proteção está no nome do Senhor , que fez o céu e a terra. Comentário Sl 124. Canto de ação de graças do povo pela intervenção salvífica de Deus em circunstâncias de grave perigo para Israel como coletividade nacional. Por melhor que seja a nossa situação, somos sempre como gente que acaba de escapar de um grande desafio.

Salmo 125
Confiança em Deus em tempo de opressão Os que confiam no Senhor

são como o monte Sião, que, sem vacilar, permanece para sempre. Montes circundam Jerusalém; assim o Senhor circunda seu povo agora e para sempre. Não pesará o cetro do ímpio sobre a herança dos justos, para que não estendam também os justos suas mãos à iniqüidade. Sê bondoso, Senhor , com os bons, com os homens de coração reto! Mas os que se desviam por caminhos sinuosos, o Senhor os afugenta com os malfeitores! Paz para Israel! Comentário Sl 125. Canto de confiança com exortação profética à perseverança na fidelidade a Deus nos difíceis tempos de dominação estrangeira. Quem encontrar Deus na vida se torna inabalável e firme como as montanhas que não desmoronam.

Salmo 126
Oração pela restauração da nação Quando o Senhor reconduziu os cativos de Sião, parecíamos sonhar; nossa boca se enchia de riso, e nossa língua, de gritos de júbilo. Até entre os pagãos se dizia: “Grandes coisas fez por eles o Senhor ”. Grandes coisas fez por nós o Senhor : estamos exultantes. Traze de volta, Senhor , nossos cativos, como as torrentes do Negueb! Os que em lágrimas semeiam, em júbilo recolhem: ao sair, vai chorando quem leva as sementes a plantar; ao voltar, vem cantando quem traz os seus feixes. Comentário Sl 126. Canto, em ritmo de elegia, manifestando a confiança coletiva do povo repatriado, que exulta com o fim do exílio mas, ao mesmo tempo, sofre duras provações e anseia pela restauração política e econômica da nação, como nos tempos passados. A lembrança do passado, das coisas que Deus realizou, dá coragem para semear na dor a fim de colher o futuro.

Salmo 127

A bênção de Deus dá prosperidade Se o Senhor não construir a casa, inútil será o trabalho dos construtores; se o Senhor não guardar a cidade, inútil será a vigilância da sentinela. É inútil que vos levanteis cedo e retardeis o repouso, comendo o pão de fadigas, pois ele o dará igualmente ao amigo, durante o sono. Os filhos são a herança do Senhor , o fruto do ventre é recompensa. Como flechas na mão do guerreiro, assim são os filhos da juventude. Feliz o homem que delas tem provida a aljava! Não será derrotado, quando litigar com o adversário no tribunal. Comentário Sl 127. Salmo sapiencial, com duas sentenças de ensinamento moral dirigidas à família recém-constituída, para prevenir que a excessiva ansiedade pelo trabalho a faça prescindir da bênção divina: só Deus dá o êxito nos empreendimentos humanos; os filhos são um dom de Deus e valiosa ajuda na velhice dos pais. Para evitar qualquer neurose ou esgotamento nervoso, convém ter uma consciência viva da relatividade das coisas.

Salmo 128
O temor de Deus, felicidade do lar Feliz aquele que teme o Senhor e anda em seus caminhos: Comerás do fruto de tuas mãos, serás feliz e prosperarás. Tua esposa será videira fecunda no interior de tua casa; teus filhos, rebentos de oliveira ao redor de tua mesa. Eis como é abençoado o homem que teme o Senhor . O Senhor te abençoe de Sião, para que vejas a prosperidade de Jerusalém, todos os dias de tua vida, e vejas os filhos de teus filhos! Paz a Israel! Comentário Sl 128. Salmo sapiencial, que celebra a felicidade concedida aos homens de integridade e devoção a Deus. A felicidade que Deus nos promete, só poderá ser obtida como fruto do nosso próprio trabalho.

Salmo 130
Confiança no perdão divino Das profundezas clamo a ti, Senhor: Senhor, escuta minha voz, estejam atentos teus ouvidos à voz de minha súplica! Se levares em conta, Senhor , as iniqüidades, Senhor, quem poderá subsistir? Mas contigo está o perdão, pelo que és reverenciado. Espero pelo Senhor , espero com toda a minha alma e aguardo sua palavra. Minha alma espera pelo Senhor, mais que as sentinelas pela aurora, sim, mais que as sentinelas pela aurora. Espere Israel pelo Senhor , pois no Senhor há misericórdia, e junto dele copiosa redenção. Ele redimirá Israel de todas as suas iniqüidades. Comentário Sl 130. Lamentação individual, de conteúdo penitencial. Com sentimentos de profunda humildade, o penitente reconhece seus pecados e implora o perdão de Deus. Cada peregrinação significava também um caminho de purificação e libertação interior. Os peregrinos, levando consigo o fardo de suas culpas, iam ao encontro do Deus de misericórdia, para reconciliar-se espiritualmente com ele e com a comunidade de fé e reencontrar-se pessoalmente no espírito da aliança entre Deus e os homens. Quando, às vezes, sentimos o pedo da consciência, devemos procurar a palavra amiga que nos liberta.

Salmo 131
Confiança filial Senhor , meu coração não é pretensioso, nem meus olhos são altivos. Não aspiro a grandezas nem a proezas acima de meu alcance. Antes modero e tranqüilizo minha alma; como a criança saciada, no colo da mãe, assim tenho a alma dentro de mim, como criança saciada. Espere Israel pelo Senhor agora e sempre! Comentário Sl 131. Este cântico de confiança reflete o estado de ânimo de alguém que, certamente não sem conflitos internos, se entrega com humildade e sem reserva à

providência divina. A maturidade diante de Deus é fruto de uma longa luta do homem que soube encontar-se consigo mesmo.

Salmo 137
Cântico dos exilados na Babilônia Junto aos rios da Babilônia sentamo-nos a chorar, lembrados de Sião. Nos álamos, ali perto, suspendemos nossas harpas. Então nossos deportadores pediam cânticos; nossos verdugos, alegria: “Cantai para nós cânticos de Sião!” Como entoar um cântico do Senhor em terra estrangeira? Se me esquecer de ti, Jerusalém, que se paralise minha mão direita! Pegue-se minha língua ao paladar, se me esquecer de ti, se não puser Jerusalém no auge de minhas alegrias! Senhor , lembra aos filhos de Edom aquele dia de Jerusalém, em que diziam: “Arrasai-a, arrasai-a até os alicerces!” Filha da Babilônia, que serás devastada, ditoso quem te der a paga do mal que nos causaste! Ditoso quem agarrar teus filhinhos e os esmagar contra o rochedo! Comentário Sl 137. Lamentação coletiva dos exilados na Babilônia. Este salmo é obra-prima da lírica de todos os tempos: expressões profundas e pungentes da dor humana, pranto amargo de quem perdeu o que lhe era mais caro ao coração, indignação violenta contra os causadores de tanto sofrimento. É a expressão do drama de todo um povo, erradicado de sua terra, pisoteado em seus afetos mais íntimos, aviltado em sua honra por deportadores, que tripudiam sobre a desgraça deles, e insultado no que tem de mais sagrado: os sentimentos íntimos de sua alma, apegada a Sião. A lembrança da destruição de Jerusalém e da profanação do templo provoca invectivas e imprecações contra os devastadores de Israel, buscando vingança na mais terrível maldição. Saudades e ressentimentos podem causar insônias, mas podem igualmente ajudar a descobrir os vedadeiros valores da vida.

Salmo 138
Cântico de agradecimento

Graças te darei, de todo o coração; celebrar-te-ei perante os deuses. Prostrado ante o santo templo, darei graças a teu nome por teu amor e tua fidelidade, pois tuas promessas superam teu renome. Quando te invoquei, tu me respondeste, tornando-me afoito, com desejos audazes. Graças te dêem, Senhor , todos os reis da terra, quando ouvirem as promessas de tua boca! Celebrem eles as sendas do Senhor: “Grande é a glória do Senhor; o Senhor é excelso, mas vê os humildes e de longe reconhece o soberbo!” Quando caminho entre perigos, tu me conservas a vida; estendes a mão contra a fúria dos inimigos, e tua destra me salva. O Senhor irá até o fim em meu favor. Senhor , tua misericórdia é eterna: não abandones a obra de tuas mãos! Comentário Sl 138. Cântico de agradecimento, que o salmista entoa em nome do povo, libertado do exílio babilônico. A liturgia de ação de graças, no templo reconstruído, se reveste de singular solenidade pelo fato de o salmista relatar sua experiência pessoal de salvação na presença de Deus e dos líderes do povo, designados “deuses”. Como eles agora, pela libertação do povo israelita, têm ocasião de testemunhar o poder de Deus, assim todos os reis da terra, ao verem o cumprimento das antigas promessas, hão de reconhecê-lo como Deus único e salvador. É necessário renovar e assumir cada dia o compromisso da nossa fé diante de Deus.

Salmo 139
Louvor à onisciência divina Senhor, tu me sondas e me conheces: sabes quando me sento e quando me levanto, de longe vês meus pensamentos. Consignas minha caminhada e meu descanso e cuidas de todos os meus caminhos. Não chegou a palavra à minha língua, e tu, Senhor , já a conheces toda. Abranges meu passado e meu futuro, e sobre mim repousas tua mão. Tal conhecimento é para mim demasiado misterioso, tão sublime que não posso atiná-lo. Aonde irei para estar longe de teu espírito? Aonde fugirei para estar longe de tua face? Se eu escalar os céus, aí estás; se me deitar no abismo, também aí estás.

Se me apossar das asas da aurora e for morar nos confins do mar, também aí tua mão me conduz, tua destra me segura. Se eu disser: “Envolvam-me as trevas e, à minha volta, a luz se faça noite”, as trevas não são escuras para ti: a noite é clara como o dia, e as trevas como a luz. Tu plasmaste meus rins, teceste-me no seio de minha mãe. Graças te dou, porque fui feito tão grande maravilha. Prodigiosas são tuas obras; sim, eu bem o reconheço. Meus ossos não te eram encobertos, quando fui formado ocultamente e tecido nas profundezas da terra. Ainda embrião, teus olhos já me viam; foram registrados em teu livro todos os dias prefixados, antes que um só deles existisse. Quão insondáveis, ó Deus, são para mim teus desígnios, quão grande é sua soma! Pensava eu em contá-los, mas eram mais numerosos que a areia. Adverti, então, que todavia estou contigo. Quisera, meu Deus, que exterminasses os ímpios – “Assassinos, afastai-vos de mim!” –, porque eles te invocam para tramar intrigas, cometendo perjúrio, como inimigos teus. Porventura não devo odiar, Senhor , os que te odeiam, abominar os que se insurgem contra ti? Odeio-os com ódio implacável, e eles se tornaram meus próprios inimigos. Sonda-me, ó Deus, e conhecerás meu coração! Examina-me, e conhecerás meus pensamentos! Vê se estou no caminho da perdição e conduze-me pelo caminho perene! Comentário Sl 139. Meditação sobre a onisciência divina, em forma de reflexão teológica, amadurecida na vivência da fé, e desenvolvida com pensamentos profundos e intuições poéticas. Deus, que conhece os segredos do homem, está presente em toda a parte, e é inútil querer fugir de sua presença. Esse conhecimento íntimo procede da própria ação criadora de Deus: o homem que quer entender algo da misteriosa atividade criadora, encontra-se diante do mistério supremo: Deus. Outro mistério insondável, a sensibilidade religiosa do salmista o encontra no enigma da existência do mal e a aparente tolerância de Deus, suplicando por sua orientação no reto uso da liberdade, no espírito da aliança. Vivendo a vida, devemos ter os olhos abertos para a beleza e o mistério das coisas. Têm sempre uma mensagem.

Salmo 142
Oração de um perseguido Em alta voz clamo ao Senhor , em alta voz suplico ao Senhor . Derramo perante ele meu lamento, diante dele exponho minha angústia. Mesmo que me falte o alento, tu conheces meu caminho. Na senda que venho seguindo esconderam-me uma armadilha. Olha para a direita e vê como ninguém se importa comigo! Não há refúgio para mim; ninguém se interessa por minha vida. Eu clamo a ti, Senhor , e digo: “Tu és meu refúgio, meu quinhão na terra dos viventes” Atende aos meus brados, porque estou muito exausto! Livra-me dos perseguidores, porque são mais fortes que eu! Tira-me desta prisão, para que eu dê graças ao teu nome! Ao meu redor estarão os justos, quando me devolveres teu favor. Comentário Sl 142. Lamentação individual, solidária com todos os que, oprimidos pela solidão e abandonados a si mesmos nos momentos dolorosos da vida, se encontram em situação desesperadora, para que busquem em Deus conforto e libertação. Os justos, reconhecendo a intervenção salvífica de Deus, render-lhe-ão o tributo da gratidão. Pode acontecer que fiquemos completamente abandonados por todos. Deus jamais abandona.

Salmo 143
Súplica na aflição Escuta, Senhor , minha oração, presta ouvido à minha súplica, por tua fidelidade e justiça, responde-me! Não cites perante o tribunal teu servo, porque, diante de ti, nenhum ser vivo é justo! O inimigo persegue minha alma, calca por terra minha vida; relega-me às trevas, como os que há muito já morreram. Falta-me o alento, dentro de mim falha o coração.

Lembro-me dos dias de outrora, medito em todas as tuas ações, reflito sobre as obras de tuas mãos. Estendo para ti as mãos, de ti minha alma está sedenta como a terra seca. Apressa-te, Senhor , em responder-me, pois meu alento se extingue! Não me escondas tua face, senão serei igual aos que descem ao fosso. Faze-me sentir, pela manhã, tua misericórdia, pois confio em ti. Mostra-me o caminho que devo seguir, pois a ti me dirijo. Livra-me, Senhor , dos inimigos, pois em ti me refugio. Ensina-me a cumprir tua vontade, pois tu és meu Deus. Teu bom espírito me guie, por terra aplanada! Por teu nome, Senhor , conserva-me a vida! Por tua justiça, tira minha alma da angústia! Por tua lealdade, destrói meus inimigos e extermina todos os que me perseguem, porque sou teu servo! Comentário Sl 143. Salmo penitencial para a liturgia matinal, como vigília pela expectativa da pronta manifestação da salvação divina. Pronunciada a invocação, o penitente reconhece sua culpa e apela a Deus por seus atributos, manifestados na história de Israel: sua fidelidade e sua justiça defensora do oprimido. No extremo da aflição, a lembrança da ação de Deus na história reanima-lhe a confiança de que a liturgia matinal será o momento propício para Deus lhe manifestar sua lealdade, já demonstrada na aliança com o povo eleito. Considerar-se amigo de Deus, e tocar a vida para frente, com coragem.

Salmo 146
O Senhor, esperança dos infelizes Aleluia! Louva, minha alma, o Senhor! Louvarei o Senhor , enquanto eu viver, cantarei a meu Deus, enquanto eu existir. Não confieis nos príncipes, no filho do homem, que não pode salvar! Ao esvair-se seu alento, ele volta ao pó; no mesmo dia seus planos se apagam. Feliz a quem socorre o Deus de Jacó, quem espera no Senhor seu Deus, que fez o céu e a terra, o mar e tudo quanto ele contém,

que guarda fidelidade para sempre, que faz justiça aos oprimidos, que dá o pão aos famintos! O Senhor liberta os prisioneiros, o Senhor abre os olhos aos cegos, o Senhor soergue os combalidos, o Senhor ama os justos, o Senhor protege os forasteiros, ampara o órfão e a viúva, mas subverte o caminho dos ímpios. O Senhor reinará eternamente; teu Deus, ó Sião, de geração em geração. Aleluia! Comentário Sl 146. Hino de ação de graças, cuja idéia central é a confiança em Deus, de quem unicamente o homem obtém seguro auxílio. Ao recordar ao homem sua miséria e impotência, o hino assume o tom de exortação à confiança em Deus, que se revelou na história por sua providência salvadora. Deus mantém a sua palavra. Nós devemos ser o reflexo deste sol, promovendo os irmãos e imitando Deus.

Salmo 147
Hino ao Deus libertador e providente Aleluia! Cantar para nosso Deus é salutar: agrada o louvor condigno. O Senhor reconstrói Jerusalém, reúne os deportados de Israel; cura os corações atribulados e pensa-lhes as feridas. Ele conta o número das estrelas e chama cada uma pelo nome. Grande é nosso Senhor e muito poderoso; é infinita sua inteligência. O Senhor soergue os humildes, mas rebaixa os ímpios até o chão. Entoai ao Senhor ação de graças, cantai ao nosso Deus com a cítara! Ele cobre os céus de nuvens e prepara a chuva para a terra; faz brotar a erva sobre os montes, dá o alimento ao gado e aos filhotes do corvo que crocitam. Ele não se compraz no vigor do cavalo, nem dá valor às pernas do homem; o Senhor aprecia aqueles que o temem, os que confiam em sua misericórdia. Glorifica o Senhor , Jerusalém! Louva teu Deus, Sião!

pois ele reforçou as trancas de tuas portas e abençoou teus filhos em teu meio. Ele estabelece a paz em tuas fronteiras, sacia-te com a flor do trigo. Ele envia suas ordens à terra; veloz, corre sua palavra. Ele faz cair a neve como lã, espalha a geada como cinza; lança o granizo aos punhados: diante das geadas quem pode resistir! Ele envia sua palavra e as derrete; faz soprar o vento, e correm as águas. Ele proclamou a Jacó sua palavra, a Israel suas prescrições e decretos. A nenhuma outra nação tratou assim, dando-lhe a conhecer seus decretos. Aleluia! Comentário Sl 147. Hino de louvor a Deus pela restauração de Sião e pela demonstração de sua onipotência como Criador e Soberano do mundo; ação de graças pelas magníficas manifestações da Providência nas criaturas, pela paz e prosperidade da nação e pelo maior benefício concedido ao povo eleito: a revelação da lei divina. A ação de Deus na natureza suscita nos fiéis louvor e ação de graças, por estarem a serviço da humanidade redimida. Temos uma obrigação de louvar este Deus que devemos imitar se quisermos melhorar o mundo.

Salmo 148
Hino ao Senhor do universo Aleluia! Louvai o Senhor , do alto dos céus, louvai-o nas alturas! Louvai-o vós todos, seus anjos, louvai-os vós todos, seus exércitos! Louvai-o, sol e lua, louvai-o vós todas, estrelas brilhantes! Louvai-o, espaços celestes, e vós, águas que estais acima dos céus! Louvem eles o nome do Senhor , porque ele mandou, e foram criados! Ele os estabeleceu pelos séculos sem fim, ao promulgar sua lei, que não passará. Louvai o Senhor , da face da terra: dragões e todos os oceanos, fogo e granizo, neve e neblina; vento tempestuoso, dócil à sua palavra; montanhas e todas as colinas, árvores frutíferas e todos os cedros; feras e todos os animais domésticos,

répteis e pássaros a voar; reis da terra e todos os povos, príncipes e todos os chefes da terra; jovens e também moças, velhos e crianças! Louvem eles o nome do Senhor , o único nome sublime! Sua majestade, sobre a terra e o céu, suscita o vigor de seu povo, o louvor de todos os seus fiéis, dos israelitas, do povo que lhe é próximo. Aleluia! Comentário Sl 148. Hino de louvor ao Criador, em coro uníssono das esferas celeste e terrestre. O salmista associa ao júbilo do povo eleito toda a natureza, tanto o mundo orgânico e inorgânico, como o irracional, racional e espiritual angélico, para glorificar a Deus, que colocou Israel no centro do círculo de interesses do mundo e do cosmo. A alegria interior que assim nasce no homem, transforma o mundo num hino de louvor em que todos participam.

Salmo 150
Sinfonia universal Aleluia! Louvai a Deus em seu santuário, louvai-o no seu majestoso firmamento! Louvai-o por seus grandes feitos, louvai-o por sua imensa grandeza! Louvai-o ao som de trombeta, louvai-o com harpa e cítara! Louvai-o com pandeiro e dança, louvai-o com instrumentos de corda e flautas! Louvai-o com címbalos sonoros, louvai-o com címbalos vibrantes! Tudo que respira louve o Senhor! Aleluia! Comentários Sl 150. Este salmo articulado em doxologia apresenta, para o grande final de todo o Saltério, uma grandiosa sinfonia, executada pela orquestra do templo, com o acompanhamento de todas as criaturas nos acordes do Aleluia - louvai o Senhor !

FIM DE REZAR OS SALMOS HOJE

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