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A música na Reforma

A música cristã antes dae admoestai-
“... ensinai-vos Reforma
-vos uns aos outros, com
salmos, hinos e cânticos
Primórdios – séculos I a X (antigüidade tardia)
espirituais”
A igreja cristã sempre foi, desde o início, uma igreja que canta. Salmos e outros textos
poéticos do Antigo Testamento serviam como cânticos e orações nos cultos e reuniões
devocionais domésticas. O Novo Testamento também forneceu cânticos de louvor e
hinos a Cristo (Colossenses, 3,16) Esta poesia grega teve seguimento na música
religiosa dos pais da igreja e nas liturgias das igrejas ortodoxas orientais.

CÂNTICOS: “A minh'alma engrandece ao Senhor...”
- Cântico de Maria (Magnificat) – Lucas 1: 46-55
- Cântico de Zacarias (Benedictus) – Lucas 1: 68-79 “Bendito seja o Senhor, Deus de Israel...”
- Cântico de Simeão (Nunc dimittis) – Lucas 2: 29 – 32
“Agora, Senhor, despedes em paz o teu servo...”
HINOS A CRISTO:
CRISTO
- Filipenses 2: 6-11 “... e toda a língua confesse que Jesus Cristo é o Senhor...”
- Colossenses 1: 15-20
- I Timóteo 3: 16
“...o qual é imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação...”
- Apocalipse 5: 12 (etc.)

“...aquele que se manifestou em carne, foi justificado em espírito...”

“Digno é o cordeiro, que foi morto, de receber o poder e riqueza e sabedoria...”
Primórdios – Séculos I a X

O hino latino ocidental remonta a Ambrósio, bispo de Milão (339-397). Sua
forma era em estrofes de quatro linhas cada, seu conteúdo, uma confissão em
louvor ao Deus triúno, cantado nos dias festivos do ano eclesiástico e nos
tempos de orações.
A reforma litúrgica efetuada pelo Papa Gregório I (540-604) promoveu cânticos
de variadas formas, em muitos casos, cânticos a uma voz que se tornaram
verdadeiras obras de arte (coral gregoriano): foram postos em música os
textos regularmente usados nos cultos (ordinarium), bem como textos bíblicos
e versos responsivos aos salmos (antífonas). Sacerdotes, solistas e um grupo
coral (schola) passaram a executar os cânticos, e não mais a congregação.

HINOS:
Compositores: Ambrosius, GregórioI, Prudentius, Clemente
Exemplo: “Veni redemptor gentium” de Sto. Ambrósio (de onde deriva o hino de Lutero “Nun
komm, der Heiden Heiland”)
Sto. Ambrósio ORDINARIUM:
Kyrie, Gloria, Sanctus, Agnus Dei, Gloria Patri, Pai nosso, Te Deum, Aleluia e responsórios.
Idade Média – séculos XI a XV
Um pouco antes da virada do 1º milênio, surgiram novos modelos de cânticos latinos, entre eles, o
Tropus (um complemento de texto a um coral gregoriano já existente) e a Seqüência (acréscimo de
texto na última sílaba do Aleluia). A Seqüência evoluiu para uma forma de estrofes em 3 linhas. Em
seguida, surgiram as narrativas do evangelho em alemão culto medieval e as primeiras traduções
para o alemão dos hinos latinos, logo seguidas pelos Leisen, estrofes únicas em alemão assim
chamadas por sempre terminarem com a palavra Kyrieleis, derivada de Kyrie eleison (expressão
grega que significa: “Senhor, tem piedade de nós”). Os Leisen eram cantados por peregrinos, pelo
povo, nas procissões, nos cultos e em autos da Páscoa e do Natal. Tem início a polifonia.

Hinos:
Compositor: Hrabanus Maurus, (780-856), Kempten: EG 3
EG 92, 453, 470
Antífonas:
EG 19, 125, 156, 421, 518
Kyrie com tropus:
EG 178.4
Seqüência:
EG 149
Leisen:
EG 22, 23, 75, 99, 124, 214, 498

Hrabanus Maurus
Idade Média – séculos XI a XV
No meio e no fim da Idade Média, surgiram hinos impregnados de sentimento e emoção: os hinos
sacros da Paixão e da Santa Ceia, verdadeiras declarações de fervor espiritual e de misticismo.
Traduções da liturgia latina e absorções da música e poesia secular para fins religiosos
(Kontrafakturen); canções provenientes do folclore popular (Cantiones).

Hinos:
Arnulf von Löwen, Hus, Johann von Jenstein, Tomás de Aquino
.

Hinos latinos:
EG 29, 75, 77, 100, 105, 119, 183, 192

Hinos latinos-alemães:
EG 69, 100, 105, 120, 125, 138, 183, 518

Kontrafakturen:
S. Francisco de Assis
EG 19, 98, 78, 158, 243, 289, 521

Flagelamento de Cristo, da „Paixão de Karlsruhe“
Reforma – Século XVI
O movimento religioso da Reforma deflagrou também um ímpeto musical (na Alemanha). “Canto e Palavra”
(Singen und Sagen) foram postos na ordem-do-dia, a serviço da divulgação do evangelho da graça de
Deus em Jesus Cristo concedida aos perdidos. Não só na pregação, mas também na canção, a Palavra
bíblica deveria se tornar viva no meio do povo. Outro fator importante na rápida disseminação da nova
música foi a invenção da imprensa.

Lutero considerava direito de todos a participação no culto e, para atender a essa necessidade, ele
concebeu a idéia do coral na língua do país e fatura acessível, a fim de que todos, sem exceção,
pudessem compreendê-lo e cantá-lo.

O “coral luterano”, como canto congregacional, teve o seu uso generalizado
na segunda metade do século XVI. O preparo dos corais foi cuidadosamente
planejado por Lutero, que convocou a Wittenbeg poetas e músicos amigos,
como Johann Walther, Konrad Rupff e Ludwig Senfl para a tarefa,
esclarecendo-lhes quanto à imperiosa necessidade de que fôsse empregada
linguagem pura e expressiva, porém simples e acessível ao povo, para que
sua participação nos cultos se fizesse de forma consciente e convicta.

Os corais alcançaram sucesso e larga divulgação, integrando-se na vida
religiosa, tanto nas comunidades quanto nos ambientes domésticos, não
apenas naquela época mas ainda nos séculos seguintes.

Seria interessante assinalar que esta expansão se verificou não apenas nas
regiões protestantes; as partes católicas do país também adotaram os corais,
usando-os na medida que seus textos podiam servir-lhes ou substituindo os
textos. .
Origem dos textos
A influência dos corais ultrapassou fronteiras. O coral exerceu influência sobre o Saltério francês, entusiasmou
estrangeiros e foi levado a regiões distantes na voz de alemães que os levavam em suas mentes e corações,
como precioso patrimônio espiritual, capaz de confortá-los em suas dificuldades, como aconteceu com Hans
Staden durante seu cativeiro entre os índios tupinambás no Brasil.

Origem dos textos e melodias: Além de suas próprias produções
e das de seus colaboradores, Lutero recorreu, para os textos dos corais, a
diversas fontes: a hinódia oficial latina, por meio de traduções e
adaptações; paráfrases e metrificações de salmos e outros textos
bíblicos, e hinos populares anteriores à Reforma.

Dos hinos oficiais latinos derivam, entre outros, os corais: Christum wir
sollen loben schon (A solus ortus cardine); Der du bist drei in Ewigkeit (O
lux beata trinitas); Erhalt uns, Herr, bei deinem Wort (Sit laus, honor et
gloria); Herr Gott, dich loben wir (Te Deum laudamus); Jesus Christus
unser Heiland (Jesus Christus nostra salus); Komm Gott, Schöpfer,
Heiliger Geist (Veni Creator Spiritus); Komm, Heiliger Geist, Herre Gott
(Veni Sancte Spiritus); Nun komm, der Heiden Heiland (Veni redemptor
gentium); Verleih' uns Frieden gnädiglich (Da pacem, domine) ;
Hans Staden (1525-1579)

Wir glauben all an einen Gott (Credo in Deum patrem omnipotentem), cujas versões em alemão foram feitas
pelo próprio reformador. Allein Gott in der Höh' sei Ehr' (Gloria in excelsis), traduzido por Nikolaus Decius
(1485-1546); e Christus, der uns selig macht (Patris sapientia, veritas divina), traduzido por Michael Weisse
(1488-1534).
Origem dos textos (cont.)
São paráfrases de salmos os seguintes corais de Lutero: Ach, Gott, vom Himmel sieh darein (Salmo 12);
Es spricht der Unweisen Mund wohl (Salmo 14); Ein' feste Burg ist unser Gott (inspirado no Salmo 46);
Es wolle Gott uns gnädig sein (Salmo 67); Wär' Gott nicht mit uns diese Zeit (Salmo 124); Wohl dem, der
in Gottesfurcht steht (Salmo 128); Aus tiefer Not schrei ich zu Dir (Salmo 130). Merece, ainda, destaque o
coral ainda hoje muito cantado Du meine Seele, singe (Salmo 146), de Paul Gerhardt (1607-1676).

Entre as paráfrases de outros trechos bíblicos, destacamos os seguintes
corais: Mit Fried' und Freud' ich fahr' dahin (cântico de Simeão), de Lutero,
e Mein' Seel', o Herr, muss loben dich (magnificat) de Erasmus Alber (1500
- 1553)

Dentre os cânticos populares medievais, penetraram no conjuntos dos corais
luteranos: Gelobet seist du, Jesu Christ; Christ ist erstanden; Nun bitten wi
den Heiligen Geist; Mitten wi im Leben sind, e muitos outros.

Este largo aproveitamento de textos foi o prelúdio de uma vasta produção
original que se estendeu da 2ª metade do séc. XVI até o fim do séc. XVII,
abrangendo o período em que a Alemanha foi afligida pela Guerra dos 30 Anos
(1618-1648). As circunstâncias não favoreciam a eclosão de movimentos
literários e os poetas, angustiados pela situação, voltaram-se para o gênero
religioso, que lhes serviu ao mesmo tempo de refúgio e de fonte inspiradora.
Desse período merecem destaque dois poetas: Johann Franck (1618-1677) e Paul Gerhardt
Paul Gerhardt (1607-1676), este último, o maior hinólogo do século XVII, cuja obra marca o período clássico
da poesia espiritual alemã. Johann Sebastian Bach soube apreciá-la com justo valor, utilizando-a em suas
cantatas e paixões.
Origem das melodias
Tal como os textos, as melodias dos corais,
igualmente, tiveram diversas procedências.
Até o século 17, um bom número delas não
era produção original, mas adaptação de
cantos já existentes, popularizados pelo uso
há séculos e um pouco modificados para
ajustarem-se à métrica das novas poesias.
As fontes das melodias das primeiras
coleções de corais foram o canto
gregoriano e as canções populares; os
cânticos espirituais da idade média e, em
menor proporção, composições originais.
Mesmo assim, segundo Johannes Zahn,
aprox. 200 novas melodias apareceram nos
hinários publicados entre 1524 e 1545.

Alguns hinos latinos traduzidos para o alemão conservaram suas antigas melodias, como por exemplo “Veni
redemptor gentium (Nun komm, der Heiden Heiland), atribuído a Sto Ambrósio e remontando ao séc. IV, e
“Veni Creator Spiritus” (Komm, Gott, Schöpfer, Heiliger Geist), geralmente atribuído a Carlos Magno (742-
814), entre muitos outros.
Muitas canções tradicionais alemãs da época também foram aproveitadas. O próprio Lutero, baseando-se no
canto muito em voga Aus fremden Landen komm ich her, compôs o coral de Natal Vom Himmel hoch da
komm ich her. A canção popular Innsbruck, ich muss dich lassen, deu origem ao coral O Welt, ich muss
dich lassen. Uma canção de amor, composta por Hans Leo Hassler (1564-1612) em 1601: Mein G'müth ist
mir verwirret, foi aproveitada para o coral fúnebre Herzlich tut mich verlangen em 1613 e, posteriormente,
ligada ao coral da paixão O Haupt voll Blut und Wunden de Paul Gerhardt, numa tradução livre do poema
“Salve caput cruentatum”, de São Bernardo de Claraval.
Origem das melodias (cont.)
Canções populares estrangeiras, particularmente francesas, e árias de danças também forneceram melodias aos
corais. A canção de amor Il me suffit de tous mês maux, publicada em Paris em 1529, cedeu sua melodia ao coral
Was mein Gott will, das g'scheh allzeit. A melodia do coral In dir ist Freude proveio de uma das danças de
Giovanni Gastoldi, publicadas em 1591. Johann Sebastian Bach, po sua vez, no séc. XVIII, adaptou a melodia de
uma “corrente”, dança de origem francesa, ao coral Liebster Immanuel, Herzog der Frommen, que ele preparou
para o hinário de Schemelli e, posteriormente, usou como tema na cantata 123.

Algumas canções populares francesas penetraram no coral alemão através do Saltério Huguenote, que delas fez
largo uso. Clemente Marot e Teodoro de Beza haviam metrificado os 150 Salmos em francês que Luis Bourgeois,

Claudino Lejeune e Claude Goudimel puseram em música, a pedido de
Calvino, valendo-se com freqüência de melodias populares. Este Saltério,
cuja edição definitiva data de 1562, posteriormente harmonizado a várias
vozes por Goudimel, foi introduzido na Alemanha por Ambrosius
Lobwasser, que o traduziu para o alemão e o divulgou.

Os cânticos espirituais medievais também ofereceram subsídios aos
corais. O belo cântico Es ist ein Ros' entsprungen sofreu modificações
nas mãos de Michael Praetorius, que o harmonizou em 1609. o cântico
de peregrinos In Gottes Namen fahren wir teve sua melodia vinculada ao
coral dos mandamentos de Lutero, Dies sind die heiligen zehn Gebote.

Por fim, assinalamos que, no início da Reforma, poucos foram os
compositores de melodias originais de corais. Além de Lutero, que, entre
outros, escreveu letra e melodia do célebre coral Ein' feste burg ist
unser Gott, podem ser citados os compositores Johann Walther (1496-
1570), Ludwig Senfl (1492-1555), Martin Agricola (1486-1556), Philipp
Nicolai (1556-1608), Hans Leo Hassler (1564-1612) e Bartholomeus
Gesius (1555-1613).
Bibliografia
Braga, Henriqueta Rosa Fernandes, Do Coral e Sua Projeção na História da Música, Kosmos Editora,
Rio de Janeiro, 1958.

In: Evangelisches Gesangbuch, Ausgabe für die Ev. Kirche von Kurhessen-Waldeck, Liedgeschichte
im Überblick, Verlag Ev. Medienverband Kassel, 5. Auflage, 1998.

In: Wikipedia, Alte Musik

Trabalho preparado para palestra sobre a “Música da Reforma”, por ocasião do Dia da
Igreja, celebrado pelo Sínodo Sudeste em 25 de junho de 2006 no Rio de Janeiro.

Eugênio Gall
Organista e Regente de Coro
Paróquia Martin Luther