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Assessoria jurídica popular universitária e direitos humanos

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Monografia de especialização em "Direitos Humanos" na ESMPU/UFRGS - 2006-2008.
Asesoría jurídica popular universitária y derechos humanos
Popular legal adviced university and human' rights
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Aquele que fala pensa. O pensar sobre a própria condição pode elevar o homem à
reflexão de que casos extremos de necessidade o levarão obrigatoriamente, à ação. Não se
pode se surpreender que dia-a-dia se repitam atos violentos daqueles que nada têm. Haverá
algo mais violento do que a fome?24

O caminho da ação pode ser acompanhado por aqueles
que têm compromisso político, como estudantes que podem analisar a sociedade a partir do
olhar daqueles que nela convivem, na experiência de encontrar o sentido de sua luta.

Contribuição importante de Paulo Freire refere-se ao conceito de conscientização. O
autor destaca o “medo de liberdade”, sentimento presente para muitos participantes das

22

Apud ALFONSIN, Jacques. O acesso à terra como conteúdo de direitos humanos fundamentais à
alimentação e à moradia. Porto Alegre: Safe, 2003,
p. 32, 51.

23

Apud ALFONSIN, Idem, p. 29, 64.

24

Essa pergunta é repetida incansavelmente por Jacques Alfonsin em suas falas.

26

práticas pedagógicas freirianas, ou o “perigo da conscientização”, “perigo da consciência
crítica”. Ressalta que é a consciência crítica que possibilita a inserção no processo histórico,
como sujeito na busca de sua afirmação, ao contrário de um fanatismo que remete ao
desmoronamento de tudo. O conceito hegeliano está presente ao afirmar-se que o portador do
medo de liberdade não tem consciência de que o sustenta; além disso, lhe faz ver o que não
existe, acreditando estar em segurança arriscar sua “liberdade”. O “medo de liberdade”,
portanto, não é algo declarado pelo portador, por vezes inconsciente, cuja manifestação é
camuflada num jogo artificioso de palavras. Aqui está uma das principais preocupações do
autor, assim como uma das causas de seu projeto pedagógico de libertação do homem.25

Segundo Paulo Freire, o caso brasileiro envolve uma inexperiência democrática. Nossa
formação histórico-cultural é ausente de condições necessárias para a criação de um
comportamento participante, para a feitura da sociedade com as próprias mãos, o que
caracteriza a essência da própria democracia. Para Toqueville, “teria sido a experiência de
autogoverno, de que sempre, realmente, nos distanciamos e quase nunca experimentamos, que
nos teria propiciado um melhor exercício da democracia”. Não tivemos por circunstâncias,
desde a colonização, baseada na exploração econômica, as condições necessárias ao
desenvolvimento de uma mentalidade permeável, flexível, característica do clima cultural
democrático, no homem brasileiro.26

Em relação à cultura democrática, trazendo a discussão da década de 1970 para a de
1980 no Brasil, Luciano Fedozzi afirma que nosso país "exige uma sociedade democrática, o
que supõe, por sua vez, a formação de indivíduos democráticos e autônomos (EUs) e não
somente a construção de instituições democráticas, ou o estabelecimento de procedimentos
democráticos nas decisões políticas (eleitorais ou não)".27

A conseqüência direta da formação de indivíduos democráticos e autônomos é a
consciência de cidadania crítica, alicerce das instituições democráticas. Para o autor, essa é
francamente aberta à transformação social, pois a "cidadania crítica é um requisito para o
processo de auto-instituição da sociedade, no qual essa se reconhece em seu próprio produto,
nas leis, nas instituições que devem reger a sua vida e sabe que, assim como as produziu, pode

25

FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 45. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005, p. 23-24.

26

Idem. Educação como prática da liberdade (1965). Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. p. 74

27

FEDOZZI, Luciano. O eu e os outros: a construção da consciência social no orçamento participativo de Porto
Alegre. 2002. Tese (Doutorado em Sociologia – Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre,
2002, p. 143.

27

modificá-las e corrigí-las". Ainda, "essa forma de consciência permite que os indivíduos, se
necessário, ajam contra a ordem racional-legal ou contra as normas morais da sociedade, caso
essa impeça a existência de valores maiores, como o bem-estar da maioria, a vida e a
dignidade humanas".28

Ao falar sobre democracia, traz-se um interessante conceito de Norberto Bobbio: "[...]
o único modo de se chegar a um acordo quando se fala de democracia [...] é o de considerá-la
caracterizada por um conjunto de regras (primárias ou fundamentais) que estabelecem quem
está autorizado a tomar as decisões coletivas e com quais procedimentos". Complementa
dizendo que, "no que diz respeito aos sujeitos chamados a tomar (ou a colaborar para a
tomada de) decisões coletivas, um regime democrático caracteriza-se por atribuir este poder
[...] a um número muito elevado de membros do grupo".29

Como lembra o autor, nos séculos XIX e XX, nos discuros apologéticos sobre a
democracia, ou nas “promessas não cumpridas” pela democracia representativa, jamais esteve
ausente o argumento de que o único modo de fazer com que "um súdito se transforme em
cidadão é o de lhe atribuir aqueles direitos que os escritores de direito público do século
passado tinham chamado de activae civitatis (cidadania ativa), com isso, a educação para a
democracia surgiria no próprio exercício da prática democrática". E hoje, "nas democracias
mais consolidadas, assistimos impotentes ao fenômeno da apatia política, que frequentemente
chega a envolver cerca da metade dos que têm direito ao voto".30

Aqui se destaca que as “promessas não cumpridas” pela democracia representativa
podem ser interpretadas no contexto brasileiro como, por exemplo, todos os direitos sociais
que são sistematicamente violados na realidade sociopolítica.

Carole Pateman parte da mesma premissa, assinando que a característica mais notável
na maior parte dos cidadãos, na maioria dos países ocidentais, "principalmente os de grupo de
condição sócio-econômica baixa, é uma falta de interesse generalizada em política e por
atividades políticas". Ainda: "Constatou-se que existem atitudes não-democráticas ou
autoritárias amplamente difundidas também entre os grupos de condição sócio-econômica
baixa".31

Ocorre que a avaliação da autora sobre as sociedades ocidentais passa pelo
questionamento de uma análise tomando por base as especificidades da América Latina.

28

Ibidem, p. 164.

29

BOBBIO, Norberto. O futuro da democracia. Tradução de Marco Aurélio Nogueira. 8. ed. São Paulo: Paz e

Terra, 2000, p. 30-31.

30

Ibidem, p. 45.

28

Nesse ponto, sobre insatisfações com o modo de análise são, para Evelina Dagnino, de
maneira geral, principalmente a "tendência a tratar a sociedade civil como um ator unificado,
sem reconhecer sua heterogeneidade intrínseca", quando se deveria identificar os distintos
projetos em disputa em torno do processo de construção democrática.32

A heterogeneidade configura-se pela diferenciação dos "atores sociais (entre eles,
atores conservadores), que desenvolvem formatos institucionais diversos (sindicatos,
associações, redes, coalizões, mesas, fóruns) e uma grande pluralidade de projetos políticos,
alguns dos quais podem ser, inclusive, não-civis ou pouco democratizantes". Ainda, "a
heterogeneidade da sociedade civil é uma expressão da pluralidade política, social e cultural
que acompanha o desenvolvimento histórico da América Latina". Essa mesma
heterogeneidade se apresenta na análise dos Estados.33

Os projetos políticos na disputa da construção da democracia na América Latina são
"os projetos democratizantes que se constituíram no período da resistência contra os regimes
autoritários e continuaram na busca do avanço democrático e, de outro lado, os projetos
neoliberais que se instalaram, com diferentes ritmos e cronologias, a partir do final dos anos
de 1980". Apesar de esses apontarem em direções opostas, utilizariam um discurso comum, o
de requerer uma sociedade ativa e propositiva, baseada nas referências da construção da
cidadania, na participação e na própria idéia de sociedade civil.34

Assim, trabalha-se com o fundamento participacionista, de reivindicação de direitos.
Por isso, faz-se necessário abordar a teoria da democracia participativa, paradigma da teoria
política liberal que vem ocupando espaço privilegiado nas políticas públicas brasileiras (por
exemplo: o orçamento participativo, conselhos gestores, debates do Plano Diretor, etc.).

A noção de teoria participativa da democracia encontra fundamento teórico em
Rousseau, John Stuart Mill e G. D. H. Cole, os quais destacam a função educativa da
participação: "Para que os indivíduos em um grande Estado sejam capazes de participar
efetivamente do governo da 'grande sociedade', as qualidades necessárias subjacentes a essa

31

PATEMAN, Carole. Participação e teoria democrática. Tradução de Luiz Paulo Rouanet. Rio de Janeiro: Paz

e Terra, 1992, p. 11.

32

DAGNINO, Evelina. Para uma outra leitura da disputa pela construção democrática na América Latina. In:
__________ (Org.). A disputa pela construção democrática na América Latina. São Paulo: Paz e Terra;
Campinas, SP: Unicamp, 2006, p. 15.

33

Ibidem, p. 27.

34

Ibidem, p. 17.

29

participação devem ser fomentadas e desenvolvidas a nível local". Para Mill, especialmente,
essa particação em nível local poderia ocorrer, inclusive, no local de trabalho.35

O argumento da proximidade favorece o protagonismo e a capacidade de reivindicação
e resolução de problemas do beneficiário, que reenvia-os a algum interlocutor pressuposto.
Ainda, este acusa as distorções causadas por arcabouços institucionais de intermediação,
incapazes de transmitir com fidelidade a voz e os anseios da população, opondo-se a um
compromisso genuíno e uma prática dirigida a fazer com que as pessoas atuem e falem por si
próprias ou sejam representadas nos seus interesses autênticos.36

Para Carole Pateman, "a teoria da democracia participativa é construída em torno da
afirmação central de que os indivíduos e suas instituições não podem ser considerados
isoladamente". Ainda, "a principal função da participação na teoria da democracia
participativa é [...] educativa, [...] tanto no aspecto psicológico quanto no de aquisição de
prática de habilidades e procedimentos democráticos". E "a justificativa para um sistema
democrático em uma teoria da democracia participativa reside primordialmente nos resultados
humanos que decorrem do processo participativo". A função educativa é, inclusive, vista
como uma das hipóteses que sustentam a teoria da democracia participativa.37

Na questão específica da assessoria jurídica popular universitária, Ivan Furmann define
que “essa ação pedagógica não pretende negar o caráter atuante do discurso jurídico,
entretanto tende a despertar o seu caráter pedagógico na construção das condições subjetivas
da revolução”, e mais, “o jurídico, em si, não tem potencial revolucionário, entretanto [...] a
luta pela implementação de direitos constitui ação pedagógica fundamental para a consquista
da hegemonia”. Reconhece que “a assessoria Jurídica (Ajup) somente se mostra viável a partir
do desenvolvimento de um novo Direito, ultrapassando os limites da dogmática tradicional”.
Para alcançar a autonomia “é preciso resgatar a identidade popular e em especial a sua cultura.
A Ajup desenvolve atividades de fomento e reafirmação histórica popular através da
cultura”.38

35

PATEMAN, Carole. Participação e teoria democrática. Tradução de Luiz Paulo Rouanet. Rio de Janeiro: Paz

e Terra, 1992, p. 46-50.

36

LAVALLE, Adrián Gurza. Representação política e organizações civis: novas instâncias de mediação e os
desafios da legitimidade. RBCS, v. 21, n. 60, p. 52-57, fev. 2006.

37

PATEMAN, Idem, p. 60-63.

38

FURMANN, Ivan. Assessoria jurídica universitária popular: da utopia estudantil à ação política. Monografia
– Curso de Graduação em Direito, Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2003, p. 52-88.

30

Para Furmann, o objetivo da assessoria como projeto de extensão é potencializar a luta
pelos direitos fundamentais, possibilitando a reflexão sobre a forma eficiente para alcançá-los
e que “a escolha dos objetivos é uma escolha política, assim como é a escolha da 'forma'. É
preciso escolher qual política, qual educação e qual Direito”.39

Assim, pode-se concluir que a participação é fundamental no processo de educação
política democrática. Toma-se o cuidado de definir que se fala de uma democracia no sentido
radical do termo, na qual a participação cidadã exerça influência direta e preponderante na
tomada de decisões públicas. Por outro lado, se o incremento da participação cidadã na nossa
“jovem” democracia só é possível com um trabalho educativo em grandes proporções, no
sentido do conhecimento sobre o direito e o Estado, está aí um desafio a ser encampado pela
assessoria jurídica popular, em rede com os inúmeros grupos e movimentos sociais que a isso
se dedicam.

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