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Domingão do Austerão e Tosse da Vaca

Alceu A. Sperança*

Embora, segundo Disraeli, haja “mentiras, mentiras deslavadas e
estatísticas”, nove em cada dez economistas supõem que depois das
eleições virá um forte ajuste para “colocar” ou “recolocar” o Brasil
nos trilhos do desenvolvimentismo, esse palavrão. O décimo
tergiversa, porque trabalha para algum governo ou é cotado para
ministério e têm ordens para falar só depois do dia 6 ou 27.
Para Talleyrand, “uma arte importante dos políticos é encontrar
novos nomes para instituições que com seus nomes antigos se
tornaram odiosas para o público”. Como os historiadores vão
classificar no futuro tais ajustes? Poderia ser o “Carnaval do Cinto
Apertado” ou “Micareta Austera” se o pacotaço vier todo de uma
vez, como recomendaria Maquiavel, proclamado ainda no espírito
das festas por um ministro Rei Momo da Fazenda magro de fazer
dó, porque Delfim outra vez seria um acinte.
Para agradar aos espíritos que levam tudo na esportiva, o nome
poderia ser Campeonato Nacional de Cortes de Verbas, Goleada na
Crise ou Acelera o Crescimento, Senna. Os saudosistas vão preferir
“Austeridade, ame-a ou deixe-a”. Os fascistas: “Não gosta da
austeridade? Vai morar em Cuba!”
Tuiteiros do governo virão com a hashtag #VaiTerAusteridade e
seus contrários com #NãoVaiTer. Mercadores do templo: “Na nossa
mão a austeridade é mais barata”. Governistas viciados em cargos
públicos, sem vergonha de trocar os pés pelas mãos: “Não é
Austeridade, é Concessão”.

Um bom nome seria “Tosse da Vaca”, pois se a austeridade vier à
europeia, desta vez a vaca vai tossir. O limite entre a vaca pastando
normalmente e sua tossidela é justamente o Domingão do Austerão:
hoje. Quem sabe dia 26. Talvez amanhã ou no dia 27 os “preços
administrados” já comecem a ser reajustados e os marqueteiros
contratados para dourar a pílula dos ajustes dirão: “Nosso ajuste é
mais suave, barato, avançado e eficiente do que seria com os
derrotados”.
Collor dizia que Lula ia tomar a poupança das viúvas e gostou
tanto da ideia que a praticou logo de cara. J á Lula o copiou lesando
os aposentados. O eleitor come com farinha essas coisas, como nem
discute a proposição falsa de que a eleição é o “dia mais importante”
de sua vida ou que “voto consciente” é referendar os já previamente
escolhidos pelos magnatas nas pré-convenções partidárias.
O gás sulfídrico, tóxico e mortal em altas concentrações, e o grisu,
sem cheiro e sem cor, invisível e altamente inflamável, sempre
ameaçaram a saúde e a vida dos mineiros de carvão. Depois de
muitas explosões, mutilações e mortes, aprenderam com a natureza
que pássaros sensíveis às emanações alertavam para a presença do
perigo. Passaram então a levar consigo uma gaiola com aves ao abrir
novas galerias.


O pássaro antigrisu salvou muitas vidas, mas para nosso dissabor
não existem pássaros capazes de nos avisar que escolher candidatos
financiados por milionárias doações de campanha é se arriscar a uma
frustrante explosão, porque nunca antes na história deste País tanto
voto foi comprado.
Depois do fim dos comícios, o emprego temporário de exércitos
de cabos eleitorais para arrastões rua a rua fez de cada contratação o
equivalente à arrematação de uma família de votantes.
Comprar/vender votos deixou de ser imoral e indecente. Afinal,
vender mandatos aos doadores de campanha não é limpo, honesto e
digno de estadistas? Feliz Domingão do Austerão!
alceusperanca@ig.com.br
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* Escritor