Agrupamento de Escolas do Cerco

2009/10 07/08

TESTE DE AVALIAÇÃO DE LITERATURA PORTUGUESA (90 minutos) 10º ano
GRUPO I

CRÓNICA DE D. JOÃO I PRÓLOGO

Grande licença1 deu a afeição a muitos que tiveram cárrego2 d'ordenar histórias, mormente dos senhores em cuja mercê e terra viviam e u foram nados seus antigos avós, sendo-lhe muito favoráveis no recontamento de seus feitos; e tal favoreza3 como esta nace de mundanal afeiçom, a qual nom é salvo conformidade4 dalguma cousa ao entendimento do homem. Assi que a terra em que os homens per longo costume e tempo foram criados gera uma tal conformidade antre o seu entendimento e ela que, avendo de julgar alguma sua cousa, assim em louvor como per contrário, nunca per eles é direitamente recontada; porque, louvando-a, dizem sempre mais daquelo que é; e, se doutro modo, nom escrevem suas perdas tam minguadamente como acontecerom. Outra cousa geera ainda esta conformidade e natural inclinação, segundo sentença dalguns, dizendo que o pregoeiro da vida, que é a fame, recebendo refeiçom pera o corpo, o sangue e espritos gerados de taes viandas5 tem üa tal semelhança antre si que causa esta conformidade. Alguüs outros teveron que esto decia na semente, no tempo da geraçom; a qual despõe per tal guisa aquelo que dela é gerado, que lhe fica esta conformidade tam bem acerca da terra como de seus dívidos. E assi parece que o sentiu Túlio, quando veio a dizer: «Nós não somos nados a nós mesmos, porque üa parte de nós tem a terra e outra os parentes.» E porém o juizo do homem, acena de tal terra ou pessoas, recontando seus feitos, sempre çopega6. Esta mundanal afeiçom fez a alguüs estoriadores7 que os feitos de Castela com os de Portugal escreverom, posto que homeës de boa autoridade fossem, desviar da dereita estrada e correr per semideiros escusos8, por as mínguas das terras de que eram em certos passos claramente nom serem vistas; e especialmente no grande desvairo que o mui virtuoso Rei da boa memoria Dom Joam, cujo regimento e reinado se segue, ouve com o nobre e poderoso Rei Dom Joam de Castela, poendo parte de seus bons feitos fora do louvor que mereciam, e acrescentando em algumas outros da guisa que nom acontecerom, atrevendo-se a publicar isto em vida de taes que lhe forom companheiros, bem sabedores de todo o contrário. Nós certamente levando outro modo, posta a de parte toda a afeiçom que por azo9 das ditas razões aver podiamos, nosso desejo foi em esta obra escrever verdade, sem outra mistura, leixando nos boõs acontecimentos todo fingido louvor, e nuamente mostrar ao povo quaisquer contrairas cousas, da guisa que aconteceram. E se o Senhor Deus a nós outorgasse o que a alguüs escrevendo nom negou, convém a saber, em suas obras clara certidão da verdade, sem dúvida não somente mentir do que sabemos mas ainda errando, falso não queriamos dizer; como assim seja que outra cousa não é errar salvo cuidar que é verdade aquilo que é falso. E nós, engando per ignorancia de velhas
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ousadia encargo 3 parcialidade 4 harmonia 5 alimento 6 falta 7 Pêro Lópes Ayala 8 atalhos 9 Por causa

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escrituras e desvairados autores, bem podiamos ditando errar; porque, escrevendo homem do que não é certo, ou contará mais curto do que foi, ou falará mais largo do que deve; mas mentira em este volume é muito afastada da nossa vontade. Oh, com quanto cuidado e diligência vimos grandes volumes de livros de desvairadas linguagens e terras e isso mesmo públicas escrituras de muitos cartórios e outros lugares, nas quais, depois de longas vigílias e grandes trabalhos mais certidão aver non podemos da conteúdo em esta obra. E sendo achado em alguns livros o contrário do que ela fala, cuidai que nom sabedormente mas errando muito, disserom tais cousas. Se outros per ventura em esta crónica buscam fremosura e novidade de palavras, e não a certidão das estorias, desprazer-lhe-á de nosso razoado10, muito ligeiro a eles d'ouvir e não sem gram trabalho a nós de ordenar. Mas nós, não curando de seu juizo, leixados os compostos e afeitados razoamentos, que muito deleitom aqueles que ouvem, ante poemos a simprez verdade que a afremosentada falsidade. Nem entendaes que certificamos cousa, salvo de muitos aprovada e per escrituras vestidas de fé; doutra guisa, ante nos calariamos que escrever cousas falsas. Que lugar nos ficaria para a fremosura e afeitamento das palavras, pois todo nosso cuidado em isto dispenso não abasta para ordenar a nua verdade? Porém, apegando-nos a ela firme, os claros feitos, dignos de grande lembrança, do mui famoso Rei Dom Joan, sendo Mestre, de que guisa matou o conde Joam Fernández, e como o poboo de Lisboa o tomou primeiro por seu regedor e defensor, e depois outros alguüs do reino, e d'i em deante como reinou e em que tempo, breve e sãamente contados, poemos em praça na seguinte ordem. Crónica de D. João I, Primeira Parte, Prólogo

1 – Fernão Lopes teve necessidade de expor no início da primeira parte da Crónica de El-Rei D. João I a sua concepção sobre o papel do historiador. Que erros aponta aos historiadores anteriores? 2 – Tais erros deveram-se, segundo ele, a três factores. Indica-os. 3 – Para que não lhe aconteça o mesmo, que processo se propõe utilizar? 4 – Refere o que diz sobre Pêro Lopes de Ayala, autor da crónica de El-Rei D. João de Castela. 5 – Ao mesmo tempo que nos pretende dar um exemplo de parcialidade, não estará também a ser vítima do seu grande patriotismo? Justifica. 6 – Comenta a frase «antepoemos a simples verdade, que a afrementosada falsidade.» 7 – Fernão Lopes não exclui a possibilidade de se enganar. Apesar disso , exige inteira credibilidade ao que escreve. Como justificas a aparente contradição? 8 – Embora afirmando que não se deverá procurar na sua crónica a «fremosura e novidade da palavra», o facto é que já no prólogo se registam recursos de grande expressividade. Indica três e mostra de que forma contribuem para a intensificação de sentidos. 9 – Conclui sobre a actualidade do conceito de história que esteve na base da elaboração deste prólogo.
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discurso

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Grupo II Recorda o seguinte pregão retirado da Crónica de D.João I:

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Matam o Mestre! Matam o Mestre nos paços da Rainha! Acorrei ao mestre que matam! Acorramos ao Mestre, amigos, acorramos ao mestre, ca filho é de el-Rei D. Pedro. Analisa a sua estrutura e destaca os vários recursos nele investidos e os efeitos que se pretendem obter. Grupo III
«Enquanto os outros historiadores da Idade Média se apresentam como testemunhas particulares dos acontecimentos, ou como porta-vozes de testemunhas, Fernão Lopes aparece como um magistrado profissional e legalmente qualificado lavrando o instrumento dos acontecimentos, com a consciência plena da sua competência profissional e o tom dogmático também característico da função. Nesta posição se coloca logo no prefácio da Crónica de D. João l. » António José Saraiva

À luz das leituras feitas da obra de Fernão Lopes, comenta o excerto supracitado.

(extensão entre cem a cento e cinquenta palavras).

GRUPO IV (FACULTATIVO) (este grupo destina-se a todos os alunos que no primeiro teste obtiveram uma classificação inferior a dez)

Recorda as cantigas de amor. Num texto de cem a cento e cinquenta palavras mostra que o amor cortês é um jogo, um fingimento e uma inversão das relações normais, na época, homem / mulher.

Bom trabalho, A professora, Paula Cruz

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