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A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA

AUTOR
• Guimarães Rosa – Cordisburgo (MG), 1908 – Rio de Janeiro (RJ), 1967.
• Era médico e diplomata.
• Falava nove idiomas.
CARACTERÍSTICAS DO AUTOR
• Sagarana é de 1946 e A Hora e Vez de Augusto Matraga é o último conto do
livro (são nove contos).
• Sagarana é palavra inventada por hibridismo: saga é de origem germânica e
significa ‘canto heróico, lenda’; rana vem da língua indígena e quer dizer
‘espécie de’. Portanto, o livro vai tratar de lendas, mitos, narrativas mágicas.
• A chave para o entendimento dos textos do autor é a redescoberta da linguagem
como elemento de comunicação e como elemento que instaura o real.
Explicando: se é a linguagem (a palavra) que cria a realidade, ao criar palavras,
ritmos, sintaxe e melodias novas o autor estará criando novas realidades.
• Explicando um pouco mais: um bruxo não transforma um sapo em príncipe se
não disser uma palavra mágica; Deus, ao criar o mundo, disse faça-se a luz.
Portanto, é a palavra que cria a realidade.
• O autor constrói seus contos usando a palavra como instrumento para criar
novas realidades. Por isso, é chamado de romancista instrumentalista.
• O Sertão em Guimarães Rosa não é apenas o norte de Minas. É o mundo. Separe
a palavra sertão: SER – TÃO. O SER é intensificado pelo vazio, pelo nada.
• Quando estamos sozinhos (em estado de sertão), as forças contraditórias que
existem em nós se manifestam: o bem e o mal, Deus e o diabo, o certo e o
errado, o desejo e a proibição.
• O SERTÃO é, portanto, um espaço mítico onde se projetam as dualidades
próprias do homem.
• Mitopoético. O autor reinventa a linguagem do sertanejo e transforma o regional
em universal (ou seja, a linguagem poética expressando o universo mítico). A
melopéia sertaneja (melodia da fala do homem do norte de Minas Gerais) é
adequada à expressão dessa solidão existencial que não é apenas do sertanejo,
mas do homem: ‘o sertão é o mundo’.
A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA
• Tema: a violência e o misticismo na luta entre o bem e o mal.
• Foco narrativo: terceira pessoa.
• Enredo: Augusto Esteves ou Nhô Augusto ou Augusto Matraga é valentão e
perverso. Os três nomes sugerem os vários ‘eus’ (identidades) que afloram no
vazio do sertão.
• É debochado e não se preocupa com a mulher (Dona Dionóra) nem com a filha
(Mimita). Sua fazenda começa a se arruinar.
• Dona Dionóra foge com Ovídio Moura levando a filha. Seus capangas põem-se
a serviço do seu pior inimigo, o Major Consilva.
• Antes de matar Dionóra e Ovídio, resolve falar com seus capangas e tomar
satisfações pela afronta. Ao chegar à fazenda do Major, é cercado pelos
capangas do vilão, alguns ex-subordinados de Matraga. Então é espancado,
marcado por ferro em brasa e, antes de sofrer o pior, atira-se de um barranco.

No momento em que Augusto havia chegado. opõe-se ao chefe do bando. é o momento em que Matraga acaba por sentir como se tivesse tirado um peso das costas. Nessa hora. Certo dia. Não percebe: já estava salvo. querendo assassiná-la. deixando seu isolamento e voltando para o mundo dos homens. recusa-se. percebemos a aproximação entre a figura de Matraga e a do próprio Cristo. A fúria do criminoso parecia não ter limite. Matraga é identificado pelos seus antigos conhecidos. • O Bem e o Mal se enfrentam alegoricamente nas personagens Matraga e Joãozinho Bem-Bem. do pecador que se faz santo. ação que fora considerada traição. E vem o período de chuvas. É um momento cruel para Augusto. Ambos morrem – Joãozinho primeiro. que. É nesse instante que Augusto Matraga intercede. Se compararmos Augusto Matraga com os santos católicos. mesmo convidado para juntar-se ao bando. • Nesse processo de santificação. vagueando pelos caminhos. • No final do conto. resiste bravamente à tentação de buscar vingança. Deus o havia abandonado? Merecia mesmo o Céu? Mas. a elevação. simbolizam o batismo.• • • • • • • • É encontrado por um casal de negros velhos (mãe Quitéria e Pai Serapião) que tratam de Nhô Augusto. Joãozinho resolve se vingar em cima da família deste. não por coincidência. pois já estava prestes a se derramar sobre o idoso. opondo-se ao pó de outras épocas. liquida diversos capangas. Recuperado. o castigo que se abate sobre ele. o pai do fugitivo tinha aparecido e pedido clemência pela vida de inocentes. começa vida nova numa antiga propriedade no povoado do Trombador para onde levou os pretos. Vence o Bem e Matraga se santifica. Recuperado. a sublimação. Passados seis anos. Um dos capangas do facínora o havia abandonado. como o bíblico Jó. Um Cristo rudimentar montado num jumento. vemos o longo calvário de Matraga em direção ao reino do céu: o homem em pecado. aparece Joãozinho Bem-Bem e seu bando. Bate-se em duelo com Joãozinho Bem-Bem. • A travessia da terra para o céu. Regenera-se e espera obter o céu. Matraga despede-se dos velhinhos e chega ao arraial do Rala-Coco onde reencontra Joãozinho Bem-Bem e seu bando prestes a executar uma vingança contra a família de um assassino que fugira. temos um dos assuntos mais constantes na obra do autor: a travessia. a dura e longa conquista do seu auto-aperfeiçoamento e o seu ato-limite cheio de grandeza interior. As águas. tem notícias da sua família: a esposa vive feliz com Ovídio e a filha foi enganada por um caixeiro viajante caindo na perdição. Matraga os hospeda e. . veremos essa aproximação. Leva uma vida de trabalho. COMENTÁRIO • Nesse conto. Matraga intervém em nome da justiça. penitência e reza.

Reflita sobre as seguintes afirmações: I. e faça penitência. nem em vinganças. Entregue para Deus. encarnada aqui num Augusto Matraga renascido. que ele não regateia a nenhum coração contrito! ...) Reze e trabalhe. com tanta ruindade que fiz.Você nunca trabalhou. e tendo nas costas tanto pecado mortal? .. a linguagem do autor promove uma autêntica fusão entre o que é abstrato e o que é concreto. d) apenas II e III são verdadeiras. porque a tristeza é aboio de chamar o demônio. e não tira o estribo do pé de arrependido nenhum.. para além do heroísmo e da violência. meu filho. como em todos de SAGARANA. de modo nenhum.Fé eu tenho. fé eu peço. desde que você esteja com a graça de Deus. III. b) apenas III é verdadeira. muito tempo. Sua vida foi entortada no verde. Padre. que o confessou e conversou com ele.Leia com atenção O seguinte fragmento de "A hora e vez de Augusto Matraga". que acabou depondo o doente num desvencido torpor.Eu acho boa essa idéia de se mudar para longe. dando-lhe conselhos que o faziam chorar. o padre. fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente. . Neste conto. que é o que vale. de João Guimarães Rosa: Então eles trouxeram. meu filho. não é? (.Tem. será que Deus vai ter pena de mim. É correto afirmar que a) apenas II é verdadeira. uma noite. que viverá o resto de sua vida no trabalho humilde e penitente. Você não deve pensar mais na mulher. muito à escondida. . o que lembra o clímax de dois outros contos do livro: "São Marcos" e "Corpo fechado". com um sermão comprido. tal como aqui ocorre na fala do padre.. e o Reino do Céu. Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua. num ato de fé e de bravura do protagonista contra um inimigo poderoso.Mas.. II.EXERCÍCIOS 1 . .. . João Guimarães Rosa centraliza neste a prática popular da fé cristã. neste conto. que às vezes custa muito a passar. Deus mede a espora pela rédea. e) I. Tal como ocorre nos demais contos de SAGARANA. E por ai a fora foi. A "hora e vez" de que fala o padre vai-se concretizar. c) apenas I e III são verdadeiras. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria. em que os valores religiosos se enraízam no cotidiano sertanejo.. mas não fique triste. ninguém tira de sua algibeira. II e III são verdadeiras. mas sempre passa.

. um e mais um. tal como atestam as frases "O Reino do Céu ninguém tira da sua algibeira" e "esta vida é um dia de capina com sol quente". d) A fala do padre é profética.Leia os trechos a seguir da obra de Guimarães Rosa. e) Da conversa com o padre. O Major Consilva tinha ajustado. c) A frase "Deus mede a espora pela rédea e não tira o estribo do pé de arrependido nenhum" revela a identificação da linguagem do padre com a dos sertanejos . a) Reconhecem-se três desilusões de Nhô Augusto: a fuga da esposa e da filha. pois é "um pedaço bom de alegria" o que Matraga viverá em seus instantes finais. que Nhô Augusto. Tinha poeira até na boca. apenas.. apesar de "entortada no verde". com nova desolação: os bate-paus não vinham. Matraga seguirá todos os conselhos do padre. tanto que foi se encostando de medo que ele entrou. em pé nos estribos. querendo a figura do velho.. as ferraduras tiniram e deram fogo no lajedo. cheio da "graça de Deus. é místico e age em nome de Deus.... identifique a afirmação INCORRETA. (. Mas o Major piscou. e feito! Chama os meus homens! Dali a pouco. e ainda pôde acrescentar: . dente em dente.Eu podia ter arresistido. certo de que. b) Socorrido por um casal de pretos.Considerando o excerto dado. ao invés de guerreiro..tal como nesta se inspirou o autor para criar o seu estilo inconfundível.. Só depois de meter na cintura o revólver.Frecha. e responda às questões: "E o camarada Quim sabia disso. trabalhando. o abandono dos bate-paus e o ataque de tocaia. trouxe a taca no ar.Fala tudo! Quim Recadeiro gaguejou suas palavras poucas. p'ra lhe contar. e encolheu a cabeça. . sua vida se acertaria e ele iria para o céu.) O cavalo de Nhô Augusto obedeceu para diante. c) Observa-se. A HORA E VEZ DE AUGUSTO MATRAGA. que ele não regateia a nenhum coração contrito". porém. nesses trechos. .. e escapando por milagre à morte. porque Nhô Augusto se erguia de um pulo e num átimo se vestia.Fez na regra. e os capangas pulavam de cada beirada. para seus capangas. rezando. penitenciando-se. meu patrão Nhô Augusto. a) o tema do arrependimento verdadeiro... e eram só pernas e braços. pagando bem. de que trata o padre. Tossiu. nem que fosse "a porrete". e pensei que o senhor podia não gostar. que eu tenho uma novidade meia ruim.Levanta e veste a roupa. assinale a alternativa correta. povo! Desmancha!" Levando em conta essa obra de Guimarães Rosa e os trechos anteriormente apresentados. Matraga retirará força e inspiração para seguir vivendo. b) Verifica-se que Nhô Augusto era "couro ainda por curtir" e sem demora atira no Major Consilva. com sangue só p'ra o dono. porque mais não era preciso.. .2 . 3 . é expresso de modo muito abstrato. mas era negócio de honra. Não queriam ficar mais com Nhô Augusto. até que chega o momento em que emprega sua força a serviço de Deus e em defesa dos mais fracos. foi que interpelou. E tremeu mais. tornava o Quim. os quatro. e o cavaleiro. .

as expressões em destaque: ‘. e – O homem se apresenta desiludido com a realidade e as perspectivas de vida. — tornando-se. brilharam. 6 . e – Em curto espaço de tempo. referindo-se à obra de Guimarães Rosa. .’ . e feito!’ ‘. porque Nhô Augusto se erguia e num átimo se vestia’. com resistência. de grandeza.Reze e trabalhe.. com morte.) Cada um tem a sua hora e a sua vez: você há de ter a sua. ‘. substitui as expressões em negrito. c – Em curto espaço de tempo. do ponto de vista do significado. além de uma condição normal no mundo-sertão. com ferimento. c – O elemento norteador do texto é a fantasia mística em que vive o homem. a – Num abrir e fechar de olhos.Segundo Antonio Candido. com sangue só p’ra o dono. de brio. Daí a violência produzir resultados diferentes dos que esperamos na dimensão documentária e sociológica. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria (. riscaram. mas sempre passa. b – Em parte. por exemplo. com ferimento. após ter sido abandonado pela mulher e por seus .. junto às mulheres. Eu podia ter arresistido. de brio. 4 – Leia atentamente o fragmento de ‘A hora e vez de Augusto Matraga’. o ato de violência que em A hora e vez de Augusto Matraga justifica tal afirmação é: a .d) Nota-se que a fala sertaneja de Quim Recadeiro revela a oralidade da prosa regional romântica. instrumento de redenção. Assinale a alternativa que melhor se identifique com o fragmento. agiu de acordo com o costume. com morte.Fez na regra. ao jogo de truque e às caçadas. faiscaram. ser jagunço. fez conforme o combinado. faiscaram. nos fragmentos abaixo. respectivamente. conforme os padrões do Naturalismo. as ferraduras tiniram e deram fogo no lajedo.. mas era negócio de honra..ser ferido e marcado a ferro. d – Em parte. b – A não-realização dos objetivos de vida desencadeia no ser humano uma crise utópica. 5 – Observe com atenção.. torna-se. b . de glória.seguir a personagem uma trajetória de vida desregrada. desobedeceu às normas. e) Reconhece-se um narrador em terceira pessoa que explora o universo das relações humanas. de pureza... fez conforme o combinado. uma opção de comportamento. de Guimarães Rosa. definindo um certo modo de ser naquele espaço.. acenderam. — Assim sendo. agiu de acordo com o costume.. d – A superação das dificuldades é condição fundamental para o aprendizado do ser humano.... que às vezes custa muito a passar. fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente. a – O texto nos mostra uma visão mecanicista e pessimista em relação à vida.’ Aponte a alternativa que..

paralelamente à estória narrada. c . na trilha da guerra sem perdão”. 7 . “Silivana”. b . “Timpim”. com Joãozinho-Bem-Bem. cuja intenção é a de acompanhar a linguagem regionalista e/ou de alargar a caracterização dessas referências no imaginário do leitor. corruptelas. o discurso direto e o indireto. do trabalho e do auxílio aos outros para redenção de seus pecados. um contador de casos que prende a atenção do leitor. porém.Sobre o conto “Duelo”.o autor. vale-se de apelidos. como se pode verificar nos nomes “Mosquito”.capangas. o autor emprega a linguagem da gente sertaneja.o autor é portador de um grande poder de fabulação. c . salva o marido Turíbio Todo da tocaia de Cassiano Gomes.integrar o bando de Joãozinho-Bem-Bem e vingar-se dos inimigos. Em “Duelo”. de cabra tonta”.reencontrar-se. excluído das armas por causa de más válvulas e maus orifícios cardíacos. como é o caso de Dona Silivana que. “Turíbio Todo”. d . se extenua em raids tão penosos. No discurso direto.cumprir penitência através da reza. Respostas 1–d 2–a 3–a 4–c 5–c 6–e 7-c . ao nomear lugares e personagens. ele insere o caso do homem que fez pacto com o diabo para vencer o inimigo. d . sobretudo pelo recurso da oralidade de que lança mão em suas narrativas. como nesse exemplo: “Não é à toa.o autor conserva em seu estilo boas doses de ironia. distorções.O autor mescla em sua narrativa a narração de 3ª pessoa. é correto afirmar que: a . e . principalmente do Major Consilva. de Guimarães Rosa. apesar de ter “grandes olhos bonitos. em suas andanças. conduzindo a narrativa para desfechos inesperados. arrependida da traição. que um cavalheiro. matá-lo e ser morto por ele.