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O DIA EM QUE A MORTE FEZ GREVE...

Era uma vez em uma terra distante um povo que vivia num país
pequeno e isolado, sem fronteiras com o mar e cercado por outros paises
vizinhos, onde seus habitantes eram prósperos e felizes. Apesar disso, nos
momentos mais difíceis, quando a Morte batia em suas portas, estes se
rebelavam e toda sorte de impropérios eram ditos àquela senhora, que
tinha por obrigação informar e cobrar a sua vida em terra, com a sua
partida em outro mundo espiritual.
Esta senhora, cansada de ser tripudiada, xingada e escarnecida por
todos os impropérios existentes no mundo, resolveu se vingar e dar um
susto em todo o povo deste pequeno país insular de mares não existentes.
E ela, a D. Malvada, a D. Morte, resolve fazer uma greve e suspender todas
as mortes e todos viveriam eternamente. Não era assim que todos
desejavam? A vida eterna?
Todos ficaram contentes, alegres e felizes. E o povo se vangloriava a
plenos pulmões – nunca mais teremos a morte batendo em nossa porta.
No início tudo era uma felicidade só. Ninguém morria. Todos
eternamente viviam. Um verdadeiro paraíso.
Entretanto... Os problemas começam a se apresentar. Ninguém
morria, mas ninguém continuava jovem, as pessoas envelheciam, mas não
morriam. Somente a raça humana. Os animais, e todos os demais seres
viventes, nasciam, viviam, envelheciam e morriam.
Os idosos doentes, precisando de cuidados, lotavam os hospitais,
eram tratados e não morriam. Os custos hospitalares começam a aumentar
de modo insuportável. Nos abrigos de idosos, as necessidades e custos
aumentavam a cada ano.
Os acidentados, os baleados, abatidos, mas não mortos, não morriam
e viviam, como que mortos-vivos, semelhantes àqueles monstros dos filmes
de ficção.
As famílias não estavam agüentando mais aquela situação. O governo
preocupado, como o que fazer com seus doentes, que não morriam. Custos
da aposentadoria chegando a níveis estratosféricos. Reclamações de todos
os lados. As companhias seguradoras não tinham mais clientes, ninguém
morria... As funerárias, do mesmo modo, também reclamavam. Todos os
empresários diziam: - E agora, o que vamos fazer ?!!! Ninguém mais morre?
Como vamos sobreviver?
E assim todos reclamavam, e viviam um vida surrealista. Uma coisa
louca, uma coisa de outro mundo, um castigo dos deuses.
Novas idéias foram surgindo. As seguradoras inventam a Morte
Virtual e continuaram a oferecer as suas apólices, que seriam pagas, e
eram, quando as pessoas completassem uma idade limite, por exemplo, 80
anos. Teriam uma morte virtual, uma morte só no papel.
As empresas funerárias começam a oferecer serviços para os animais
de estimação, que verdadeiramente morriam. Surgem caixões e urnas
mortuárias para todo tipo de animal. Velórios para animais e cemitérios
também. E assim, os contratos continuavam a serem vendidos, mas
somente para animais. Homens e mulheres não morriam, mas também com
o tempo, não viviam. As suas vidas, não eram vidas, eram vidas mortas,
vidas sem sentido espiritual e todos com isto sofriam e sofrem. Começam a
entender que a vida é um ciclo vital de chegada a este mundo, convivência
mútua e partida, e de algum modo todos começam a pensar em modificar
tal situação, ou então a lembrar-se de como eram felizes e não sabiam.
Como nos países vizinhos a morte ainda acontecia, todos queriam sair
do seu país, atravessar a fronteira e morrer. E os governos destes países
tinham que cercar e combater esta emigração indesejada. Não era uma
emigração para uma vida melhor. Era uma emigração para a Morte. O
objetivo era morrer, para quem já estava morto, mas que não vivia e por
isto a morte desejava.

E assim todos começam a reclamar da situação e a dizer: “Oh quão


bom era naqueles tempos, nascíamos, vivíamos e morríamos. E isto era
bom.”

E a D. Morte com dó e pena daquele povo, resolve revogar a sua


decisão e recomeça a entregar as suas cartas de aviso do fim da estrada
para cada ser vivente.

E todos viveram felizes para sempre... E nunca mais reclamaram...


Nem da morte...

José Carlos Ramires


Jcr/
02/09/2009

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