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A imortalidade da alma e a unidade do composto humano (alma e corpo) em Tomás de Aquino Luciano Gomes dos Santos

O objetivo do presente artigo visa apresentar o pensamento tomasiano acerca da imortalidade da alma e a unidade substancial do composto humano (corpo e alma). Tomás de Aquino, de forma metódica e inteligente, resolve essa questão na Suma Teológica1 em sua Primeira Parte, na questão 75 (art. I ao art. VII). Tomás de Aquino defende que o homem possui um corpo que é material, extenso e composto de partes diferenciadas (corpo e alma). Esse corpo não é simples agregado acidental das partes que o compõem. Ele possui uma unidade substancial. A alma e o corpo não são dois seres distintos. Para Tomás, a alma e o corpo são princípios distintos do mesmo ser. Não há dum lado a alma, do outro um corpo com existência separada da alma. A alma é princípio de unidade do corpo humano. Ela é a única forma substancial do homem. A alma une diretamente à matéria do corpo, e rege toda a sua atividade. Essa teoria da alma como forma substancial do corpo é de Aristóteles. S. Tomás retoma-a, desenvolve-a e completa-a; e condensa-a nesta expressão lapidar: “o primeiro princípio da vida é a alma”2. Na linguagem de Sto. Tomás, como na de Aristóteles, a palavra “alma” não vale apenas para a alma humana. Designa, em primeiro lugar, “o princípio primeiro da vida nos viventes que nos cercam”3, e dos quais fazemos parte. Não se poderá dizer nenhuma “alma” (de nenhum “princípio vital”) que é uma realidade corporal, mas somente que é “o ato do corpo enquanto vivente”4. No art. II da questão 75, não basta afirmar que a alma humana é incorpórea ou imaterial, é preciso acrescentar que é subsistente. O que significa que ela é em si mesma e por si mesma um “sujeito” que existe. Uma “alma” que fosse apenas o ato do corpo vivente não subsistiria em si mesma; seria o vivente do qual ela é o ato que subsistiria. O mesmo ocorre com a alma dos animais. Por que não se pode dizer o mesmo da alma humana? É que ela é por si mesma, e somente ela, o próprio princípio da operação intelectual, esta se revelando inteiramente incorpórea, imaterial. Uma alma que tem sua operação própria tem necessariamente, de próprio, também, sua existência. Assim, portanto, não apenas a alma humana é “espiritual”, é também um “espírito”. Ora, esse “espírito”, esse “princípio pensante” é ao mesmo tempo e como um todo uma “alma”, ou seja, o princípio e o ato de um conjunto material vivo5.
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AQUINO, Tomás de. Suma Teológica. Vol. 2, Parte I – Questões 44-119. SP:Loyola, 2002. pp. 355-371. Ibid., p. 356. 3 Ibid. 4 Ibid. p. 357. 5 Ibid., p. 358.

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Para Sto. Tomás, o homem pode conhecer, pelo intelecto, a natureza de todos os corpos, porém “para conhecer objetos, não se deve possuir nada em si de sua natureza”. Deve-se pensar que o espírito não é de nenhuma natureza determinada, que é pura intencionalidade? Sem dúvida, não é o que tem em mente Sto. Tomás, mas ele se limita a mostrar que o pensamento humano não é de natureza corporal. Seria preciso acrescentar a seu raciocínio, tomado de empréstimo a Aristóteles, que, à diferença do corpo, o espírito pode tomar uma distância em relação ao que ele é, “ser o que ele não é”6. O princípio da operação do intelecto é a alma humana. Sto. Tomás explicitou que é um princípio incorpóreo e subsistente. Para ele, “substância”, não é somente o que subsiste (o ser, enquanto subsistente), é também o que subsiste em certa natureza. Somente então se é alguma coisa. O que falta à alma para ser por si só uma substância é realizar em si mesma, e em si somente, a totalidade da “espécie”, da “natureza humana”. Contudo, ao propiciar ao todo subsistente, do qual é a parte formal (o ato), ser uma substância completa, um “alguma coisa”, um “alguém”, permanece ela como o primeiro sujeito da existência que ela lhe comunica, e o próprio e único princípio da operação intelectual7. Na visão tomasiana, o intelecto necessita do corpo não como um órgão pelo qual essa operação é exercida, mas em razão do objeto, pois as representações imaginárias estão para o intelecto como a cor para a vista. Nesse caso, o intelecto não deixa de ser subsistente. Assim, para caracterizar a necessidade que tem o pensamento humano do órgão corporal, do qual, contudo, não procede a título algum, Sto. Tomás, sempre sustentará que o pensamento encontra seu objeto na imagem que, ela sim, é o ato mais elevado, mais apurado de um órgão corporal (os sentidos, o cérebro). A comparação da alma humana com a dos animais que Sto. Tomás realiza no art. III, irá nos conduzir a afirmar que toda atividade psíquica diversa do pensamento (e da vontade) procede do órgão corporal, ou, antes, do composto, e não apenas da alma. A alma que não pensa não poderia ser subsistente. Entretanto, a alma que pensa não poderia fazê-lo sem utilizar uma atividade psíquica, logo, atividade do composto que ela anima8. Conforme Sto. Tomás no art. IV, mesmo sendo ela mesma subsistente, a alma só têm sua natureza completa, é um homem, uma pessoa, um “eu”, mediante sua união com o corpo. Assim, o homem não é só alma, mas é algo composto de alma e corpo9. No art. V pode-se dizer que Sto. Tomás responde também aos teólogos, pois eles pensavam que todo espírito criado (mesmo os anjos) seria forçosamente composto de matéria e de forma. Não obstante, para eles, a matéria da qual se tratava era justamente a potencialidade, de onde resultava passividade, mudança, multiplicidade. Sto. Tomás responderá que o único Ato puro (Deus) escapa à potencialidade, à finitude, à mudança, mas também que nem toda potencialidade

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Ibid., p. 359. Ibid. 8 Ibid., p. 361. 9 Ibid., p. 362.

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é matéria. Estritamente falando, merece esse nome apenas a potencialidade pura10. A alma intelectiva e toda substância intelectual, que conhece as formas de maneira absoluta não são compostas de forma e matéria. Pois se o pensamento tivesse em si qualquer coisa de material, se não fosse “absoluto”, ou seja, livre de toda matéria particular, não conheceria nada de “absoluto”, universal, nada que pudesse ser separado de sua realização material, mas somente o particular, o individual. É o caso dos11 sentidos. Logo, a alma humana é composta apenas da forma. Sto. Tomás afirma que a alma humana é o próprio sujeito do ser, a destruição do composto que ela forma com a matéria, em outros termos, a morte, sem dúvida retira o ser ao composto, mas não a ela. Que o ser possa ser retirado diretamente à forma, isto se deve ao fato de que “o ser convém por si à forma que é ato”. Dito de outro modo, a forma poderia desaparecer unicamente por aniquilação, hipótese nem sequer concebida. Sto. Tomás apresentou em outro lugar (II Contra Gentiles, 79), de maneira mais direta, a incompatibilidade entre o pensamento e a corruptibilidade: ”O que é orientado ao eterno deve ser capaz de uma duração perpétua”. Pela eternidade da verdade inteligível pode-se provar, portanto, a perpetuidade da alma humana. Para Sto. Tomás, toda substância intelectual é incorruptível. Não se trata de psicologia, mas de metafísica, nem imediatamente de necessidade a suprir, mas de tendência reveladora de uma natureza. Todo ser deseja naturalmente existir. Contudo, só deseja existir sempre aquele que percebe a existência independente do tempo. Como o “sempre” não é percebido pelo não-pensante, não pode ser desejado. No entanto, o que é tendência mais universal e mais fundamental do ser como tal torna-se, no ser pensante, desejo natural de existir sempre. Sto. Tomás não pensou, evidentemente, em um instinto de morte, igualmente natural, e que lutaria contra o instinto de viver sempre. Visto que precisa estar unida à matéria para pensar, a alma humana se situa no último grau na hierarquia das naturezas espirituais. Todavia, isto só é verdade na ordem das “naturezas”. A alma humana não é menos elevável que o anjo à participação da natureza divina. Nesse estado supremo e “sobrenatural” de perfeição, a união à matéria corporal glorificada, longe de ser um obstáculo a sua vida espiritual deiforme, permite sua expansão na carne. Não deixa de ser verdade, contudo, que é da própria essência da alma humana informar um corpo, ou pelo menos tender em todo o seu ser a fazê-lo. Substância, sim, mas inteiramente relativa a uma matéria a fazer subsistir. Portanto, Sto. Tomás de forma brilhante provou simultaneamente a imortalidade da alma e a unidade do composto humano. Ele fez uso criativo da filosofia aristotélica e conseguiu desenvolver uma original visão unitária de homem. Nos séculos anteriores, a prioridade concedida à imortalidade de alma dificultou grandemente a solução correta do problema da unidade básica do ser humano. Pensava-se, com efeito, que a defesa clara e direta da unidade substancial do homem colocaria em perigo a afirmação da alma como um princípio autônomo e, sobretudo, como realidade espiritual imortal. Santo Tomás conseguiu
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Ibid., p. 364. Ibid., p. 368.

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defender, de maneira convincente, tanto a unidade substancial do homem quanto a imortalidade da alma, articulando-as convenientemente. A unidade substancial ficará bem fundamentada uma vez que o corpo e alma não são considerados como substâncias completas; só o homem é substância completa; alma e corpo não são duas partes do único homem, mas dois princípios, na ordem metafísica, que integram, como “única forma” (alma) e como “matéria-prima”, a realidade única do homem. Sustentando que a alma espiritual é forma (única) do corpo, santo Tomás quer afirmar que a realidade toda do homem, incluída, claro, a corporeidade, é expressão do seu espírito. A unidade substancial que é o homem não leva à negação da imortalidade da alma, uma vez que para santo Tomás a alma é uma forma toda especial, a saber, uma forma substancial subsistente.

O autor é Mestre em Teologia e licenciado em Filosofia. Rua Padre Rolim, 684 Apto 601 – B. Sta. Efigênia 30130-090 – Belo Horizonte-MG e-mail: luguago@ig.com.br QUESTÕES PARA AJUDAR A LEITURA INDIVIDUAL OU O DEBATE EM COMUNIDADE 1 – Como Tomás de Aquino define a alma humana? 2 – Qual a relação entre o corpo e alma para Tomás de Aquino? 3 – Por que a alma humana é imortal?

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