Presos Ao Desejo

A Tempestuous Temptation

Cathy Williams

Acusada de ser uma golpista. É assim que Aggie é vista pelo bilionário Luiz Montes.
Revoltada e humilhada, a situação se torna ainda pior quando ela não tem escolha a não
ser ficar junto do arrogante brasileiro devido ao mau tempo. Forçados a buscar abrigo
enquanto enfrentam a tempestade de neve, Luiz não se esforça nem um pouco para ser
simpático com Aggie. Sim, ele é insuportavelmente convencido. Sim, ele também é tão
irresistível quanto pensa ser. Agora, Aggie está furiosa consigo mesma, pois percebe que
não é tão imune ao charme letal de Luiz quanto achava...
Digitalização: Simone R
Revisão e Formatação: Deda Dantas

Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams

Querida leitora,
O coração de Aggie lhe pregou uma peça! Por que ele insiste em bater mais forte
pelo arrogante, antipático e convencido Luiz Montes? Não importa se ele é um bilionário
sofisticado, belo e irresistível! Ela não pode se apaixonar por Luiz, afinal, ele não hesitou
em julgá-la, erroneamente, como uma golpista! Aggie quer distância dele, mas, para isso,
precisa enfrentar uma tempestade de neve!
Boa leitura!
Equipe Editorial Harlequin Books

Tradução Maria Vianna
HARLEQUIN
2014
PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM HARLEQUIN BOOKS S.A
Todos os direitos reservados. Proibidos a reprodução, o armazenamento ou a
transmissão, no todo ou em parte.
Todos os personagens desta obra são fictícios.
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou mortas é mera coincidência.
Título original: A TEMPESTUOUS TEMPTATION
Copyright © 2012 by Cathy Williams
Originalmente publicado em 2012 por Mills & Boon Modern Romance
Projeto gráfico de capa:
Nucleo i designers associados
Arte-final de capa:
Isabelle Paiva
Editoração eletrônica:
EDITORIARTE
Impressão:
RR DONNELLEY
www.rrdonnelley.com.br
Distribuição para bancas de jornais e revistas de todo o Brasil:
FC Comercial Distribuidora S.A.
Editora HR Ltda.
Rua Argentina, 171,4° andar
São Cristóvão, Rio de Janeiro, RJ — 20921-380
Contato:
virginia.rivera@harlequinbooks.com.br

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams

Capítulo 1
Dentro do luxuoso automóvel, Luiz Carlos Montes deu uma olhada no papel,
confirmou o endereço e examinou a vizinhança. Não era o que esperava. Fora um erro ir
de carro. Naquele tipo de bairro, qualquer coisa de valor poderia ser roubada ou
vandalizada apenas por diversão.
A luz da rua, a casinha com varanda travava uma batalha perdida para parecer
atraente no meio de outras menos cuidadas. A direita do jardim minúsculo havia um
quadrado cimentado com várias latas de lixo. À esquerda, um quadrado semelhante, onde
um carro enferrujado se apoiava em cima de blocos de concreto. Mais além se via uma
série de lojas: um delivery de comida chinesa, uma agência de correio, uma loja de
bebidas e um jornaleiro que parecia ser o ponto de encontro do tipo de jovens que Luiz
suspeitava serem capazes de depenar seu carro assim que ele se afastasse.
Felizmente, ele não precisava se preocupar com os rapazes. Com l,92m, um corpo
musculoso, graças a rigorosos exercícios e à pratica de esportes, quando lhe sobrava
tempo, seria perfeitamente capaz de amedrontar um grupo de adolescentes indolentes.
Com a previsão de neve e precisando responder a vários e-mails antes que todos se
recolhessem para desfrutar as festas de Natal, aquela seria a última coisa que Luiz
gostaria de fazer em uma sexta-feira de dezembro. Mas obrigações familiares eram
obrigações familiares, e não lhe restava escolha. E, depois de ter visto o buraco que era
aquele lugar, ele precisava admitir que a sua missão, apesar de inconveniente, era
necessária.
Luiz suspirou e saiu do carro. A noite estava fria até mesmo para Londres. A geada
que caíra durante as noites da semana anterior não derretera e cobria o carro enferrujado
do jardim ao lado da casa e as tampas das latas de lixo, do outro. Luiz sentiu o cheiro de
comida chinesa e torceu o nariz. Aquele era o tipo de bairro que ele não frequentava. Nem
precisava. Quanto mais rápido resolvesse o problema e saísse dali, melhor. Com isso em
mente, pressionou a campainha até ouvir o som de passos que corriam para a porta.
Quando se preparava para começar a jantar, Aggie ouviu a campainha e pensou em
ignorá-la, principalmente por desconfiar que seria o sr. Cholmsey, o proprietário, que
reclamara a respeito do atraso do aluguel.
— Mas eu sempre pago em dia! - protestara ela, quando ele telefonara no dia
anterior. — O aluguel só está atrasado dois dias. Não tenho culpa que os correios estejam
em greve!
Mas, pelo visto, tinha. Ele lhe fizera o “favor” de aceitar o pagamento em cheques
enquanto os outros locatários pagavam via débito em conta... Veja no que dera... Não era
admissível... Havia gente brigando por aquela casa... Poderia alugá-la a qualquer
momento para alguém mais confiável... Se ele não recebesse o cheque no dia seguinte,
exigiria o pagamento em dinheiro.
Na verdade, ela nunca conhecera o sr. Cholmsey pessoalmente. Há 18 meses
alugara a casa através de uma imobiliária, e tudo correra bem, até que ele resolvera
eliminar intermediários e administrar suas propriedades. A partir de então, Alfred
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Cholmsey se transformara numa constante dor de cabeça: ignorava seus pedidos para
que fizesse consertos no imóvel e insistia em mencionar que os aluguéis em Londres
eram pouco rentáveis.
Se ignorasse a campainha insistente, Aggie tinha certeza de que ele encontraria um
jeito de romper o contrato e despejá-la. Sabendo disso, ela abriu a porta apenas alguns
centímetros e deu uma olhada para fora.
— Sinto muito, sr. Cholmsey... — Ela começou a falar, resolvida a se defender antes
que o homem a agredisse verbalmente. — O cheque já deveria ter chegado. Vou sustá-lo
e prometo que amanhã pagarei em dinheiro. — Ele insistia em ficar fora da sua linha de
visão, mas ela não pretendia abrir mais a porta. Naquela vizinhança, era preciso ter
cuidado.
— Do que você está falando, e quem é o sr. Cholmsey? Abra a porta, Agatha!
O som da voz peculiar e desagradável era tão inesperado que ela quase desmaiou.
O que Luiz Montes fazia ali? Na sua porta? Invadindo sua privacidade? Já não fora
suficiente que ela e seu irmão tivessem sido questionados por ele durante os últimos oito
meses? Verbalmente cutucados e inquiridos a guisa de hospitalidade, com a desculpa de
precisar “conhecer o namorado da minha sobrinha e sua família”, encarando perguntas
invasivas que tentavam contornar e sendo tratados com o tipo de desconfiança reservado
a criminosos em liberdade condicional?
— O que está fazendo aqui?
— Abra a porta! Eu não vou conversar com você do lado de fora! — Luiz imaginava
a cara que ela estaria fazendo. Convivera com ela, o irmão e sua sobrinha o suficiente
para saber que Agatha censurava tudo o que ele defendia e rebatia tudo o que ele dizia.
Era defensiva e argumentativa, duas coisas que ele não apreciava encontrar nas
mulheres. Como em outras ocasiões, Luiz pensou que jamais seria forçado a conviver
com ela, se sua irmã, que morava no Brasil, não o tivesse encarregado de vigiar a
sobrinha e o namorado. A família Montes possuía uma fortuna incalculável. Luisa insistira
que investigar o namorado de sua filha era uma simples precaução, que ele achava inútil,
considerando que o namoro acabaria no devido tempo. Mas, conhecendo Luisa como
conhecia, Luiz escolhera o caminho mais fácil e concordara em observar Mark Collins e a
irmã, que parecia fazer parte do pacote.
— Então, quem é o sr. Cholmsey? -Foi a primeira pergunta que ele fez quando
entrou na casa.
Aggie cruzou os braços e fitou-o com ressentimento, enquanto Luiz examinava o
ambiente com o tipo de superioridade que ela sempre lhe atribuía. Sim, ele era bonito,
alto, majestoso e sexy. Mas, desde que o conhecera, ficara irritada com a sua arrogância,
com o desprezo que ele não escondera ter por ela e por Mark e com a insinuação sutil de
que os estaria vigiando e de que eles deveriam se comportar.
— O sr. Cholmsey é o proprietário. Como você conseguiu o meu endereço? Por que
está aqui?
— Eu não sabia que você morava de aluguel. Que idiotice minha ter tido a
impressão de que vocês moravam numa casa própria. De onde será que eu tirei essa
ideia? — Ele se mantinha frio e não tirava os olhos de Aggie. — Também tinha a
impressão de que vocês moravam num lugar um pouco menos desagradável. Este foi
mais um erro de julgamento.
Por mais longe que Agatha Collins estivesse do tipo de mulheres que Luiz preferia
— morenas altas com longas pernas, de natureza mais suave e compreensiva -, ele não
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podia negar que ela era muito bela. Com, no máximo, 1,65m, cabelo louro encaracolado,
pele macia como seda, olhos cor de água-marinha emoldurados por pestanas escuras,
parecia ter sido feita pelo Criador com capricho, para se destacar na multidão.
Aggie corou e se arrependeu de ter concordado com seu irmão e com Maria, que
haviam argumentado que seria melhor minimizar a precária situação financeira em que
viviam, evitando dar informações supérfluas sobre a verdade a Luiz Montes.
— A minha mãe insistiu que tio Luiz conhecesse Mark — explicara Maria
constrangida. — E, para ele, tudo é preto ou branco. É melhor que ele pense que vocês...
estão bem. Não exatamente ricos, mas também não totalmente falidos.
— Você ainda não me disse o que veio fazer aqui. — Aggie saiu pela tangente.
— Onde está o seu irmão?
— Ele e Maria não estão aqui. Quando você vai deixar de nos espionar?
— Eu estou começando a achar que a minha vigilância está rendendo lucros
-murmurou Luiz. — Quem me disse que vocês moravam em Richmond? — Ele se
encostou na parede e olhou-a com aqueles olhos profundos que costumavam enervá-la
instantaneamente.
— Eu não disse que morávamos em Richmond — disse Aggie evasivamente,
sentindo-se culpada. — Provavelmente o que eu disse é que costumamos andar muito de
bicicleta por lá. No parque. Não tenho culpa se você entendeu errado.
— Eu nunca entendo algo errado. — O interesse casual que ele vira como
desnecessário começava a se transformar em desconfiança. Ela e o irmão haviam
mantido segredo a respeito da sua situação financeira e, provavelmente, convencido sua
sobrinha a fazer o mesmo. Para ele, isso só podia apontar em uma direção. — Quando eu
descobri o seu endereço precisei checar duas vezes porque ele não coincidia com o que
haviam me falado. — Ele começou a tirar o casaco, e Aggie começou a ficar alarmada.
Até o momento, eles só tinham se encontrado nos melhores restaurantes de
Londres, na região mais elegante da cidade. Alertados por Maria de que aquele fora o
meio que seu tio escolhera para avaliá-los, ela e Mark haviam se mantido reservados a
respeito de detalhes pessoais e se esmerado na conversa superficial.
Aggie estremecera ao pensar que seriam analisados e, mais ainda, ao desconfiar
que os dois seriam considerados inadequados. Mas os analisar em restaurantes era uma
coisa. Procurá-los ali era um passo que ia muito longe. Agora ele tirara o casaco,
indicando que não iria desaparecer tão cedo quanto ela esperava. Ele a constrangia e,
naquele espaço limitado, ela se sentia ainda mais desconfortável.
— Talvez você possa me oferecer alguma bebida — sugeriu ele com indiferença. —
Enquanto eu espero pela volta do seu irmão, podemos verificar que outras pequenas
mentiras serão desmascaradas.
— Por que é tão importante que você fale com Mark? — perguntou Aggie
preocupada. — Isso não podia esperar? Você poderia ter convidado os dois para jantar e
questionado as intenções de Mark.
— Infelizmente, as coisas se precipitaram Mas falaremos sobre isso mais tarde. —
Ele passou por ela e entrou na sala, cuja decoração não tinha melhor gosto que o hall.
Apesar dos velhos cartazes de filmes pendurados, as paredes tinham um tom desbotado
e deprimente. A mobília era uma mistura de coisas antigas ou usadas e novas. Num
canto, uma velha televisão encaixada num console de pinho barato.

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— O que quer dizer com se precipitaram? — perguntou Aggie enquanto ele sentava
em uma das cadeiras e olhava para ela demoradamente.
— Creio que você sabe que eu tenho observado cuidadosamente o seu irmão.
— Maria disse que a mãe dela é superprotetora — balbuciou Aggie, resignando-se
com o fato de que Luiz não iria embora tão cedo.
Ela sentou diante dele. Como sempre, sentia-se desajeitada e mal vestida. Nas
ocasiões em que fora levada a restaurantes extravagantes que, não fosse ele, jamais iria
conhecer, ela vestira as melhores roupas que encontrara em seu armário, mas ainda se
sentira deselegante e insegura. Agora, vestindo uma calça larga de moletom e um blusão
esportivo que pertencia a Mark e que era vários números acima do seu tamanho, ela se
sentia como uma trouxa de roupa. E isso fazia com que se ressentisse ainda mais com
Luiz.
— Vale a pena ser cuidadoso — disse ele, dando de ombros. — Quando a minha
irmã me pediu para ficar de olho no seu irmão, eu tentei convencê-la do contrário.
— Tentou?
— Claro. Maria é apenas uma menina. Meninas costumam ter relacionamentos que
acabam rapidamente. Faz parte da vida. Eu estava convencido de que esse namoro não
seria diferente, mas acabei concordando em observá-lo.
— Com isso você quer dizer que resolveu nos questionar a respeito de todos os
aspectos das nossas vidas e apontar os nossos erros — falou ela com amargura.
— Parabéns. Vocês revelaram ser um time unido. Descobri que não sabia nada de
pessoal sobre nenhum de vocês dois, e estou percebendo que as parcas informações que
me forneceram não passavam de mentiras. A começar pelo lugar onde moram Se eu
tivesse contratado um detetive para investigar, teria economizado tempo e energia.
— Maria achou que...
— Faça-me um favor: deixe a minha sobrinha fora disso. Vocês vivem num buraco
alugado por um proprietário inescrupuloso. Mal conseguem pagar o aluguel. Diga-me:
algum de vocês trabalha, ou os empregos também foram inventados?
— Eu não gostei de você ter invadido a minha casa.
— A casa do sr. Cholmsey... Se é que se pode chamar isso de casa.
— Exato! Eu ainda não gosto de você ter entrado aqui para me insultar.
— Que pena.
— De fato. Peço-lhe que saia!
Luiz começou a rir.
— Você realmente pensa que eu vim até aqui para ir embora assim que as
perguntas começassem a incomodá-la?
— Não vejo motivo para você ficar. Mark e Maria não estão aqui.
— Eu vim porque, como eu disse, as coisas se precipitaram Aparentemente, eles
estão falando em casamento. Isso não vai acontecer.
— Falando em casamento? — repetiu Aggie incrédula. — Ninguém está falando em
casamento.
— Pelo visto, ninguém que o seu irmão tenha lhe apresentado. Talvez o seu time
não seja tão unido como você gostaria que fosse.
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— Você... Você é o ser humano mais desprezível que eu já conheci!
— Você deixou isso evidente todas as vezes que nos encontramos — retrucou Luiz
friamente. — Você tem direito a ter opiniões.
— Então você veio até aqui para... O quê? Mandar o meu irmão se afastar? Ou
Maria? Eles são jovens, mas não são menores de idade.
— Maria faz parte de uma das famílias mais ricas da América Latina.
— Como? — Aggie olhou para ele confusa. Sabia que Maria não era uma estudante
faminta e sem dinheiro, que precisava trabalhar nos fins de semana para ajudar a pagar a
faculdade. Mas que ela pertencia a uma das famílias mais ricas da América Latina? Não
admira que não quisesse que soubessem que ela e Mark eram pessoas normais e que
batalhavam diariamente para sobreviver! — Você está brincando, não está?
— Quando se trata de dinheiro, eu não brinco. — Luiz apoiou os cotovelos nos
joelhos e fitou-a seriamente. — Eu não planejava ser severo. Mas estou começando a
fazer as contas e não gosto dos resultados que estão surgindo.
Aggie tentou sustentar o seu olhar, mas não conseguiu. Por que, toda vez que
estava diante daquele homem, a sua calma habitual parecia se dissolver? Ela ficava
tensa, na defensiva, constrangida. Com isso, mal conseguia raciocinar.
— Eu não sei do que você está falando — murmurou ela com a garganta seca e o
coração acelerado.
— Pessoas ricas sempre se transformam em alvo — resmungou Luiz, separando as
sílabas para que ela entendesse a mensagem — A minha sobrinha é extremamente rica e
será mais ainda quando fizer 21 anos. E agora o namorico cujo entusiasmo eu esperava
que desaparecesse em dois meses parece que se transformou num projeto de
casamento.
— Eu ainda não acredito nisso. Você entendeu errado.
— Pode acreditar! O que eu vejo é uma dupla de caça-dotes que mentiu e tentou me
enganar.
Aggie empalideceu e olhou para ele, envergonhada. As pequenas mentiras tinham
assumido proporções assustadoras. Sua cabeça ainda estava lenta, mas ela compreendia
por que ele chegara àquela conclusão. Pessoas honestas não mentiam
— Diga, o seu irmão realmente é músico? Porque eu pesquisei na internet e, parece
estranho, mas não o encontrei.
— Claro que ele é músico! Ele... faz parte de uma banda.
— Talvez a banda ainda não tenha feito sucesso... É por isso que ele não aparece
na internet.
— Tudo bem! Eu admito. Podemos ter...
— Alterado a verdade? Torcido? Modificado a ponto de se tornar irreconhecível?
— Maria disse que com você é tudo preto ou branco. — Aggie ergueu o queixo e
encarou o seu olhar severo. Como sempre acontecia, ela se espantava que aquela beleza
física pecaminosa ocultasse tamanha frieza, impiedade, indiferença.
— Eu, preto ou branco? — Luiz se ofendeu com a suposição. — Nunca ouvi algo tão
absurdo!
— Ela disse que, quando você forma uma opinião, não muda de ideia. Que você
nunca olha as coisas de outra perspectiva ou se deixa levar em outra direção.
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— Isso se chama firmeza de caráter!
— Bem, foi por isso que nós evitamos ser cem por cento honestos. Não que
tenhamos mentido... Nós só não revelamos tanto como deveríamos.
— Como, por exemplo, que vocês moram num buraco alugado, que o seu irmão
canta em pubs de vez em quando, que você é professora... Ou esse foi mais um exagero
criativo?
— Claro que eu sou professora. Do ensino primário. Se quiser, você pode investigar!
— Isso não importa mais. O fato é que eu não posso permitir o casamento da minha
sobrinha como seu irmão.
— O que você pretende fazer exatamente? — Aggie estava seriamente preocupada.
Uma coisa era desaprovar as escolhas de alguém Outra era forçá-lo a engolir o que lhe
enfiavam na garganta. Luiz, a mãe de Maria, todos os membros da família super-rica
poderiam protestar, explodir e passar sermões ameaçadores, mas, no fim, Maria não se
deixaria influenciar e tomaria sua própria decisão.
Prudentemente, ela resolveu não expressar sua opinião. Apesar de Luiz afirmar que
não era do tipo “preto ou branco”, ela tinha evidências suficientes para estar convencida
de que ele era. Ele também não tinha noção de como as outras pessoas viviam Aggie
duvidava de que, até que ela e Mark tivessem aparecido, ele tivesse tido contato com
pessoas que não fossem exatamente iguais a ele.
— Olhe — falou ela em tom conciliador. — Eu posso entender que você tenha
algumas reservas em relação ao meu irmão...
— Pode? — perguntou ele com sarcasmo. Naquele momento, ele se censurava por
não ter olhado aqueles dois mais de perto. Costumava ser mais perspicaz a respeito da
motivação das outras pessoas. Precisava ser. Como eles haviam conseguido enganá-lo?
Mark parecia ingênuo, encantador e franco. Era o tipo de rapaz que se dava bem
com todo o mundo: alto, forte, musculoso, cabelo louro como o de Agatha, presos num
rabo de cavalo, mas, quando abria a boca, sua voz soava tímida e gentil.
E Agatha... Tão bonita que se entendia por que todos olhavam para ela. Além disso,
ela se mostrara direta e assertiva. Fora isso que o enganara? A combinação de duas
personalidades bem diferentes? Os dois teriam combinado fazer contraste para que ele
abrisse a guarda? Ou ele simplesmente achara que o namoro da sobrinha não acabaria
em nada e não o levara a sério? Sabendo que Luisa sempre fora superprotetora, ele
atribuíra o seu pedido a este fato? De qualquer maneira, ele fora apanhado numa teia de
mentiras, e isso queria dizer que, por algum motivo, tinha sido tolo e precisaria conviver
com este fato atravessado na sua garganta.
— Eu sei o que deve parecer. Nós não fomos totalmente francos com você, mas é
preciso que você acredite que não há nada a temer.
— Primeiro, o medo é um sentimento que não conheço. Segundo, eu não preciso
acreditar em nada que você me diz... O que me leva à sua questão.
— Minha questão?
— Você está preocupada com o que eu pretendo fazer.
Aggie se arrepiou, mas tentou manter a calma.
— Então você pretende afastar o meu irmão — disse ela, suspirando.

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— Ah, eu pretendo fazer melhor que isso. — Ele notou que ela empalidecia e
concluiu que ela era uma boa atriz. -Aparentemente vocês precisam de dinheiro, porque o
proprietário não sai do seu pé por causa do aluguel atrasado.
— Eu paguei! — protestou Aggie veementemente. — Não tenho culpa se os correios
estão em greve!
— E seja lá o que você ganhe como professora... — continuou Luiz, ignorando a
interrupção. — Obviamente não dá para o gasto. Admita: se você não consegue pagar o
aluguel desse buraco, é evidente que não lhe sobra um tostão. Portanto, a oferta que
pretendo fazer para tirar o seu irmão de cena e da vida da minha sobrinha deverá deixá-la
feliz. Arrisco-me a dizer que alegrará o seu Natal.
— Eu não sei do que você está falando.
Aqueles imensos olhos azuis, Luiz pensou acidamente, tinham feito com que ele
saísse dos trilhos.
— Eu vou dar a você e ao seu irmão dinheiro suficiente para sair deste lugar. Se
quiserem, poderão comprar uma casa e viver folgadamente. Desconfio que é isso que...
— Você pretende nos pagar? Para desaparecermos?
— Diga o seu preço. O seu irmão pode dizer o dele. Ninguém pode me acusar de
não ser generoso. Quanto à questão do seu irmão... Quando ele vai chegar? -Ele olhou
para o relógio e depois para o rosto vermelho de raiva de Aggie. Ela estava sentada na
beira da cadeira, com as costas muito retas, agarrando-se ao assento com tanta força que
seus dedos estavam brancos. Era o retrato da indignação.
— Não acredito no que ouvi.
— Você vai se acostumar facilmente com a ideia.
— Não pode comprar as pessoas!
— Não? Quer apostar? — O olhar dele era frio e implacável como a geada lá fora.
— Com certeza, o seu irmão deseja incrementar a sua carreira, se é que ele tem
interesse em ter uma. Talvez ele só queira gastar o dinheiro nos pequenos luxos da vida.
Ele deve ter investigado a situação financeira da minha sobrinha, e vocês dois resolveram
que ela seria o passaporte para um estilo de vida mais lucrativo. Agora parece que ele
pretende se casar com ela e, com isso, enfiar o pé na porta, por assim dizer, mas isso
jamais vai acontecer. Você diz que eu não posso comprar as pessoas? Acho que vai
descobrir que eu posso.
Aggie olhou para ele boquiaberta. Parecia estar diante de alguém que viera de outro
planeta. Era assim que os ricos se comportavam, como se pudessem possuir tudo e a
todos? Como se as pessoas fossem peças de xadrez que eram movimentadas e
descartadas sem nenhum escrúpulo? Por que estava surpresa, se sempre soubera que
ele era implacável, frio e determinado?
— Mark e Maria se amam! Você deve ter percebido.
— Tenho certeza de que Maria imagina estar apaixonada. Ela é muito jovem e não
sabe que o amor é uma ilusão. Poderíamos discutir isso a noite inteira, mas eu preciso
saber quando Mark vai chegar. Quero resolver essa situação o mais rápido possível.
— Ele não vai chegar.
— O que disse?

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— Quer dizer... — Aggie desanimou porque sabia que aquele homem frio e sem
coração não iria amolecer diante do que ela diria. — Ele e Maria resolveram passar
alguns dias fora. Foi algo de improviso, uma pequena folga antes do Natal.
— Não acredito no que estou ouvindo.
— Eles viajaram ontem de manhã. -Ela se assustou quando ele levantou
inesperadamente e começou a andar pela sala com um ar ameaçador.
— Viajaram para onde? — Era mais uma ordem que uma pergunta. — E não ouse
usar a sua aparência para me desviar do assunto.
— Minha aparência? — Aggie percebeu que corava. Enquanto ela se sentava à
mesa nos vários restaurantes e se sentia desajeitada e sem cor, ele a estivera
observando, analisando a sua aparência? A ideia deixou-a estranhamente abalada.
— Para onde eles foram? — Ele parou diante dela. Os olhos de Aggie foram subindo
pelo seu magnífico corpo coberto por roupas que pareciam muito caras para o ambiente e
pousaram nos lindos traços do seu rosto. Nunca conhecera ninguém que transmitisse
tamanho poder e causasse tanto temor e que se aproveitasse disso do jeito que ele fazia.
— Eu não sou obrigada a lhe dar esta informação — teimou ela, tentando não se
encolher.
— Se eu fosse você, não brincaria comigo, Agatha.
— Ou o quê?
— Ou eu vou fazer com que o seu irmão nunca mais consiga um emprego. E quanto
ao dinheiro? Estaria fora de questão.
— Você não pode fazer isso. Não pode arruinar a carreira musical de Mark.
— Ah, não? Experimente.
Aggie hesitou. Ele falava com tanta certeza que ela não duvidava.
— Está certo. Eles foram para uma pousada em Lake District. Queriam um ambiente
romântico, coberto de neve, e aquele lugar tem um grande significado sentimental para
nós. — Ela pegou a bolsa que estava ao seu lado e dela tirou um aviso de confirmação de
reservas. -Ele me deu isso, para o caso de eu precisar entrar em contato. Aqui tem todos
os detalhes.
— Lake District. Eles foram para Lake District! — Ele passou a mão na cabeça,
pegou o papel e imaginou se poderia ser pior. Lake District não ficava muito perto nem
muito longe. Luiz pensou na perspectiva de passar horas atrás do volante, numa estrada
em más condições, mas, se Maria e Mark pensavam em se casar escondido, não haveria
melhor hora nem lugar.
— Você fala como se eles tivessem ido para a lua. Se quiser telefonar para Maria,
precisa ligar para o hotel e pedir que passem a ligação, porque eu acho que lá não tem
sinal de celular. Maria vai confirmar que ela e Mark não pretendem se casar. — Aggie
imaginou como seu irmão reagiria quando Luiz sacudisse um maço de notas na sua cara
e lhe dissesse para sumir. Mark gostava dele e costumava defendê-lo toda vez que ela
dizia que Luiz a enervava.
O problema não é seu. Aggie dominou o instinto de proteger seu irmão. Ela e Mark
tinham se unido muito desde crianças, depois que a mãe morrera. Na ausência de um pai
e de parentes, eles tinham sido colocados aos cuidados do Serviço Social. Com quatro
anos a menos que ela, Mark fora uma criança frágil, debilitada por constantes ataques de
asma. Como uma galinha choca, ela aprendera a cuidar dele, a defendê-lo, e passara a
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colocar as necessidades de Mark em primeiro lugar. Ela se tomara forte, de maneira que
lhe dera liberdade para ser uma criança gentil e sonhadora, que, ao contrário do que
insinuava o cabelo comprido, o brinco e a tatuagem no ombro, se tornara um adulto gentil
e sonhador.
— Agora que você já sabe onde eles estão, pode ir embora.
Luiz notou que ela abaixara a cabeça, e pensou na situação. Sobrinha
desaparecida. Namorado desaparecido. Uma viagem longa para localizá-los.
— Eu não sei como não previ isso - disse ele. — Viajar por alguns dias seria a
oportunidade perfeita para o seu irmão completar o jogo. Talvez a minha presença o tenha
feito ver que, para se casar com a minha sobrinha, o tempo não estaria do seu lado.
Talvez ele tenha percebido que o namoro deveria ser abreviado e o acontecimento
principal deveria ser adiantado: um casamento na neve. Muito romântico.
— Essa é a coisa mais absurda que eu j á ouvi!
— Seria estranho se você não dissesse isso. Mas não vai acontecer. Só preciso
garantir que chegaremos ao refugio romântico de surpresa, antes que eles tenham tempo
de fazer algo do qual se arrependam.
— Nós?
Ele ergueu as sobrancelhas e olhou para ela.
— Você não pensa que eu a deixaria aqui para que você pudesse avisar ao seu
irmão que eu estou a caminho, pensa?
— Você é louco! Eu não vou a lugar nenhum com você, Luiz Montes!
— Não é uma boa hora, e eu teria melhores coisas a fazer numa noite de sextafeira, mas não vejo outra saída. Creio que chegaremos lá amanhã, na hora do almoço. É
melhor você preparar a mala para um fim de semana. E depressa. Eu preciso passar em
casa para pegar a minha bagagem.
— Você não está ouvindo o que eu digo!
— Correção: eu estou, mas prefiro ignorar, porque não fará diferença.
— Eu me recuso a concordar com isso!
— Existem duas opções. Nós vamos até lá, eu converso com o seu irmão e lhe faço
a minha proposta financeira. De início, algumas lágrimas, mas, no fim, todos ficarão
felizes. O plano B é eu mandar que meus homens o tragam de volta para Londres, onde
ele vai descobrir que a vida fica difícil quando todas as possibilidades de trabalho estão
bloqueadas. Basta que eu comunique à indústria musical que ele não deve ser tocado
nem com uma vara. Você ficaria surpresa com a extensão dos meus contatos. Creio que,
como irmã leal e devotada, você acharia o plano B muito difícil de engolir.
-Você é... Você é...
— Sim, sim, sim. Eu sei o que você pensa de mim. Eu lhe dou dez minutos para
estar na porta. Se não estiver, eu vou buscá-la. Veja pelo lado bom, Agatha. Eu não estou
lhe pedindo para faltar ao trabalho. Na segunda de manhã, você estará de volta, sã e
salva, com uma polpuda conta bancária. E nunca mais precisaremos nos ver!

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams

Capítulo 2
— Não acredito que você tenha me chantageado. — Foi a primeira coisa que ela
disse ao encontrá-lo na porta.
— Chantageado? Eu prefiro dizer persuadido. — Luiz desencostou da parede e
pensou no trabalho que deixaria de fazer e em como a mulher com quem deveria sair na
noite seguinte ficaria aborrecida. Não que isso o incomodasse. Chamar aquilo de namoro
seria exagero. Saíra com Chloe Berr quatro vezes, e na quinta insinuara sutilmente que
não estava dando certo. Ela não aceitara. O sexto encontro seria para repetir o que lhe
dissera no anterior.
Aggie fungou com desprezo. Tentara encontrar uma saída, mas não conseguira. Luiz
saíra à caça, e ela sabia que as suas ameaças não seriam vazias. Concordara em
acompanhá-lo pelo bem de seu irmão, mas estava estourando de raiva.
Lá fora, o clima estava inóspito, gelado. Ela o seguiu até o carro que contrastava
com a vizinhança, e bufou.
— Você vai me dizer que este é um brinquedo para alguém que tem mais dinheiro
que juízo — disse ele, sentando-se ao volante e esperando que ela colocasse o cinto de
segurança. — Estou certo?
— Você deve ter lido a minha mente - respondeu Aggie acidamente.
— Não. Eu só sou esperto por me lembrar das conversas que já tivemos. -Ele deu a
partida.
— Você não pode se lembrar de tudo o que eu disse — resmungou Aggie.
— De tudo. Como eu teria certeza de que você nunca mencionou que alugava esse
buraco? — Ele olhou-a de lado. - Acho que o seu irmão não contribui muito com as
despesas. — Isso o fez pensar em quem estaria pagando a escapada romântica. Se
Aggie mal podia pagar o aluguel, Mark deveria ganhar muito menos cantando em pubs.
Luiz endureceu o queixo ao ter certeza de que Maria já se tomara a galinha dos ovos de
ouro.
— Ele não pode — admitiu Aggie com relutância. — Mas eu não me importo.
— Muito generoso da sua parte. A maioria ficaria ressentida por precisar tomar conta
do irmão caçula que já tem capacidade de se cuidar. — Os dois tinham sido sucintos nos
detalhes a respeito do trabalho de Mark, e ele não investigara a fundo. Ficara contente
por sua sobrinha não estar namorando um potencial assassino, um drogado, um
criminoso em fuga. — Então ele trabalha num bar e de vez em quando toca numa banda.
Diga a verdade, Agatha. Não adianta mais manter segredo.
— Sim, ele trabalha num bar e toca de vez em quando. Na verdade, ele tem talento
para compor. Você vai achar que é invenção, porque desconfia de tudo o que eu digo.
— Por bons motivos.
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Mas ele é um compositor incrível. Há noites em que eu estou lendo, corrigindo
lições de casa ou preparando aulas, e ele senta no sofá e toca violão, trabalhando na sua
última música, até achar que está boa.
— E você nunca me disse isso por que...?
— Tenho certeza de que Mark lhe disse que gosta de compor.
— Ele me disse que era músico. Talvez tenha mencionado que conhece pessoas do
ramo de entretenimento. A impressão que eu tive foi de que ele era músico e tinha uma
carreira estável. Não me lembro de tê-la ouvido dizer o contrário.
O rapaz era encantador, mas falido, e o seu estado de penúria não era uma
inconveniência passageira. Ele não tinha dinheiro porque vivia no mundo sonhador dos
violões, lidando com pautas musicais. Pensando bem, Luiz podia entender por que Maria
se apaixonara por ele. Ela vivia num meio extremamente rico. Conhecia rapazes que
andavam com muito dinheiro. Muitos trabalhavam ou viriam a trabalhar nas empresas das
respectivas famílias. Um músico carregando um notebook, com um violão pendurado no
ombro, misturando coquetéis num bar, à noite? Sob todos os aspectos, ele fora um
acidente à espera de acontecer na vida da sobrinha. Não admirava que todos tivessem
escondido a verdade! Maria era esperta o suficiente para saber que bastaria um indício da
realidade para deixá-lo alarmado.
— Eu me orgulho do meu irmão — disse Aggie secamente. — É importante que
cada um encontre o seu caminho. Isso é algo para o qual você não deve ter tempo.
— Eu tenho tempo até demais, contanto que não prejudique a minha família.
O trânsito estava terrível, mas, com o tempo, eles se livraram e percorreram uma
série de ruas secundárias, até chegarem a um quarteirão formado por elegantes casas
vitorianas construídas com tijolos vermelhos, em cujo centro havia uma praça particular e
cercada. Eles haviam se encontrado várias vezes, mas ela e Mark nunca tinham sido
convidados para irem à casa de Luiz.
A casa era uma amostra de riqueza em grande escala. Maria sempre declarara que
sua família estava em boa situação, justificando as bolsas caras que costumava comprar,
mas nunca dera uma indicação de que estar em boa situação queria dizer ser
extremamente rica. Apesar dos restaurantes sempre luxuosos, Aggie nunca imaginara o
estilo de vida que Luiz levava. Ela nunca tivera contato com dinheiro. Costumava ler a
respeito do estilo de vida dos ricos e famosos nas revistas, mas nunca pensara nisso.
Ela percebeu que entre ela e Mark e Luiz existia um abismo tão profundo que, só de
pensar em transpô-lo, sentia dor de cabeça. Mais uma vez, foi forçada a reconhecer que a
mãe de Maria tivera razão ao pedir que Luiz analisasse a situação. Mais uma vez, ela se
lembrou de como haviam escamoteado a verdade e compreendeu por que Luiz reagira
daquele jeito. Ele estava enganado a respeito dos dois, mas também estava preso às
próprias circunstâncias e deveria ter se tomado desconfiado desde cedo.
— Você vai sair? — perguntou Luiz, inclinando-se para olhar para ela. — Ou vai
passar a noite sentada aí, de boca aberta?
— Eu não estava com a boca aberta! - Aggie desceu do carro, fechou a porta e o
seguiu, maravilhando-se com a casa de quatro andares, piso de mármore, belos quadros
nas paredes e com a grade curva da escada.
Luiz entrou em uma sala, e depois de alguns segundos de hesitação, ela entrou
atrás dele. Ele tirou o casaco, dirigiu-se diretamente à secretária eletrônica e ligou-a
enquanto afrouxava a gravata. Ela aproveitou a oportunidade para olhar em volta:

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
proporção igualmente grande á da entrada, o mesmo mármore no piso e tapetes macios
para delimitar os ambientes. Estofados de couro e cortinas de veludo do chão ao teto.
Aggie ouvia distraidamente as mensagens que ele escutava, percebendo que era
uma série de telefonemas de negócios, até que ela ouviu a voz sussurrante de uma
mulher que o lembrava de que iria se encontrar com ele no dia seguinte e que mal
conseguia esperar.
Ela ficou alerta. Luiz a acusara de ser reservada em relação à sua vida e à de seu
irmão, mas ela também sabia pouco sobre ele. Sabia que não era casado, porque Maria
dissera que toda a família esperava que ele arranjasse alguém e se casasse. Mas Luiz
deveria ter uma namorada. Ninguém tão cobiçado como Luiz Montes ficaria sozinho. Ela
olhou para ele disfarçadamente e imaginou como seria a dona daquela voz sussurrante e
sexy.
— Eu vou tomar um banho rápido. Estarei de volta em dez minutos, e então
sairemos. Fique à vontade. Pode olhar por aí.
— Eu estou bem aqui, obrigada. — Ela sentou na ponta de um sofá e cruzou as
mãos sobre o colo.
— Como queira.
Mas, assim que ele saiu, ela começou a explorar a casa como se fosse uma criança
numa loja de brinquedos, tocando alguns objetos de arte que ele espalhara ao acaso:
uma escultura de bronze, um par de vasos de alguma dinastia chinesa... Parou diante de
uma pintura abstrata e tentou decifrar a assinatura.
— Está gostando do que vê? -perguntou Luiz atrás dela, assustando-a.
— Eu nunca estive num lugar como esse — disse Aggie na defensiva, sentindo a
boca seca. Ele vestira um jeans preto e um suéter de lã listrado de cinza e preto, por
baixo do qual se via o colarinho de uma camisa de flanela. Sempre o vira vestido
formalmente, mas com aquela roupa ele estava sexy e lindo de morrer.
— Isso é uma casa, não um museu. Vamos? — Ele apagou a luz, tirou o celular do
bolso e mandou que o motorista trouxesse o 4X4.
— A minha casa é uma casa — disse Aggie, esquecendo a raiva enquanto
esperavam pelo carro.
— Errado. A sua casa é um antro. O proprietário deveria ser preso por cobrar por um
lugar como aquele. Você pode não ter reparado, mas eu vi sinais de umidade: reboco
descolando das paredes, manchas no teto... Logo você vai ter uma goteira.
O 4X4 preto chegou, e o motorista cedeu seu lugar a Luiz.
— Eu não posso fazer nada - resmungou Aggie, entrando no carro. -De qualquer
maneira, você vive num mundo diferente do meu... Do nosso. É quase impossível
encontrar um aluguel barato em Londres.
— Existe uma diferença entre barato e perigoso. Pense o que poderia fazer com
dinheiro no banco... — Ele manobrou e saiu. — Uma boa casa num bairro decente. Um
pequeno jardim nos fundos. Você gosta de jardinagem, não gosta? Acho que foi algo que
mencionou. Mas isso é discutível, porque podia estar querendo causar boa impressão.
— Eu não estava mentindo! Gosto de jardinagem.
— Os jardins de Londres geralmente são pequenos. Mas você ficaria surpresa com
o quanto se consegue pela quantia certa.
— Eu jamais aceitaria um tostão de você, Luiz Montes!
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Vamos ver.
Ela ficou irritada pelo tom com que ele falou.
— Eu não estou interessada em dinheiro! — Aggie olhou para o seu perfil
aristocrático e teve a sensação de estar tonta.
— Pode me chamar de cético, mas ainda não conheci ninguém que não se
interessasse por dinheiro. Podem dizer que o dinheiro não traz felicidade, que as coisas
boas da vida são de graça, mas todos gostam do que o dinheiro proporciona. Os
argumentos voam pela janela, quando meios mais caros de obter felicidade entram na
equação. Diga, com sinceridade, se você não gostou daquelas refeições.
— Sim, gostei, mas eu não sentiria falta delas.
— E o seu irmão? Ele tem o seu desprendimento?
— Se quer saber, nenhum de nós dois é materialista. Você o conhece. Ele dá a
impressão de ser do tipo que ficaria com Maria pensando no que poderia tirar dela? Você
não gostou dele nem um pouco?
— Gostei, mas o problema não é esse.
— O problema é que Maria pode namorar alguém de classe diferente desde que não
haja perigo de se tomar algo sério, porque a única pessoa aceitável seria alguém do
mesmo nível social.
— Você diz isso como se fosse errado.
— Eu não quero falar sobre isso. Não chegaremos a lugar nenhum. — Ela se calou
e observou o tráfego vagaroso, as luzes das lojas, as pessoas que corriam para pegar o
metrô ou o ônibus. Naquele passo, não sairiam de Londres antes da meia-noite. — Posso
lhe perguntar uma coisa?
— Diga.
— Por que não tentou acabar com o namoro desde o início? Por que se deu o
trabalho de nos levar para jantar tantas vezes?
— Eu não tinha direito de interferir naquele momento. A minha função era observar
os dois e conhecer o seu irmão e, por necessidade, você, já que vocês parecem ser
siameses. — Luiz não acrescentou que aproveitara a oportunidade para conhecer melhor
a sobrinha, que apreciara a companhia de todos, que gostara de conversar com Mark e
Maria sobre música e cinema e. acima de tudo, que se divertira com a maneira como
Aggie discutia com ele, fazendo com que ele se esforçasse para lhe arrancar um sorriso.
— Nós não somos siameses! Somos muito ligados porque... — Por causa da
infância passada no orfanato, mas isso era algo que ela não iria lhe dizer.
— Por que vocês perderam seus pais?
— Exato. — Fora o que ela comentara de passagem, no dia em que tinham se
conhecido. Uma verdade incompleta que, mais tarde, seria motivo de desconfiança.
— Além disso, eu pensei que a minha irmã estava exagerando. Maria não tem pai, e
Luisa costuma se preocupar sem motivo.
— Não o imagino recebendo ordens da sua irmã.
— Você não diria isso se conhecesse Luisa ou alguma das minhas cinco irmãs. —
Ele riu. Aggie percebeu que, pela primeira vez, ele ria com bom humor.
— Como elas são?

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Todas mais velhas e mandonas. -Ele olhou-a de soslaio. — É mais fácil concordar
do que discutir com elas. Em uma família com cinco mulheres, o meu pai e eu calamos a
boca.
Aquele traço de humanidade incomodou Aggie. Mas ela se recordou de que ele já
mostrara outros que a haviam feito se esquecer de como ele era desagradável, quando,
por exemplo, contava algo que a levasse a sufocar uma gargalhada. Ele podia ser odioso,
injusto e severo, representar coisas que ela não apreciava, mas era impossível negar que
Luiz também era muito inteligente e, quando lhe convinha, divertido. E isso era algo de
que ela não queria se lembrar.
— Eu não pude deixar de ouvir as mensagens que você recebeu — falou ela
polidamente.
— Do que você está falando?
— Dos telefonemas de negócios. A não ser que não trabalhe nos fins de semana,
você está sacrificando o seu tempo para resolver a situação.
— Se está pensando em usar isso para tentar me fazer desistir, esqueça.
— Não era a minha intenção. Eu só estava sendo educada.
— Nesse caso, saiba que não há nada que não possa esperar até eu voltar para
Londres na segunda-feira. Se acontecer algo de urgente, eu resolvo pelo celular.
— E quanto ao outro recado? Percebi que você vai faltar a um encontro com
alguém.
— Eu repito. Não há nada que não possa esperar.
— Do contrário, eu me sentiria culpada.
— Não se meta na minha vida, Aggie.
— Por que não? Você se meteu na minha.
— O caso é diferente, não acha? Eu não fui apanhado tentando enganar ninguém. A
minha vida não está em foco.
— Você é impossível! Tão... limitado! Sabia que foi Maria quem foi atrás de Mark?
— Ah, me poupe.
— Foi — insistiu Aggie. — Mark estava tocando em um pub onde ela estava com
amigos. Depois da apresentação, ela foi procurá-lo, deu-lhe o número do celular e disse
que esperava que ele lhe telefonasse.
— Acho difícil de acreditar, mas vamos supor que seja verdade. Uma coisa não tem
nada a ver com outra. Não importa quem foi atrás de quem, o resultado é o mesmo. Uma
herdeira é um alvo lucrativo para alguém como o seu irmão. — Luiz ligou o rádio e
procurou notícias sobre o trânsito.
Londres estava engarrafada. A previsão do tempo anunciara uma nevasca que ainda
não começara, mas as pessoas corriam de volta para casa. Aggie fechou os olhos. Estava
com fome e cansada. Tentar convencer Luiz era como bater com a cabeça na parede.
Ela despertou de repente, com o som irritado da voz dele. Não sabia quanto tempo
nem como conseguira dormir no meio daquela confusão. Pelo som da voz dele, Luiz não
estava gostando nada da conversa que estava tendo. Aggie bocejou e se ajeitou no
assento, percebendo que a voz que gritava através do celular era a mesma voz rouca que
ouvira na secretária eletrônica. Podia ouvir cada palavra que a mulher dizia. Se abrisse a
janela, o carro que vinha atrás também poderia ouvir.
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Não é hora para termos esta conversa. — falou Luiz irritado.
— Não ouse desligar na minha cara! Vou continuar telefonando! Eu mereço mais
que isso!
— É por isso que você deveria agradecer eu estar rompendo o nosso
relacionamento, Chloe. Você merece alguém muito melhor que eu.
Aggie se exasperou. Aquele era o truque mais velho do mundo, o recurso que os
homens usavam para sair de uma relação com a consciência sossegada. Assumir a culpa
por tudo, convencer a namorada infeliz de que o rompimento seria em seu benefício e
desaparecer como se tivesse feito uma boa ação.
Ela ficou escutando, enquanto Luiz se conformava em ter uma conversa que não
queria e explicava os vários motivos pelos quais o relacionamento não dava certo.Aggie
sempre o vira calmo, seguro, controlando tudo à sua volta. As pessoas pulavam ao ouvir a
sua voz de comando, sustentada por sua influência e por seu poder. Mas ele estava
diferente quando desligou depois de ouvir palavras venenosas do outro lado da linha.
— E então? — perguntou ele irritado. -Você deve ter uma opinião sobre a conversa
que acaba de ouvir.
Quando ela perguntara sobre a vida dele, não era isso que estava esperando. Ele
esmiuçara a vida dela e de Mark, e merecera uma retaliação, mas aquela conversa fora
extremamente pessoal.
— Você rompeu com alguém. Sinto muito — ela disse calmamente. — Eu sei como
é difícil romper um relacionamento. Principalmente quando se investiu nele. Eu não quero
falar nisso. Esse problema é pessoal.
— Gostei.
— Do quê?
— Das suas palavras de pena. Creia, não há nada que pudesse melhorar o meu
humor com tanta eficiência quanto isso.
— Do que você está falando? — Aggie ficou confusa ao vê-lo sorrir alegremente.
— Eu não estou com o coração partido — garantiu ele. — Se você ouviu bem, fui eu
que provoquei o rompimento.
— Sim, mas isso não quer dizer que não tenha doído — argumentou ela.
— Você está falando por experiência própria?
— Para dizer a verdade, estou.
— Acredito — retrucou Luiz. — Por que você deu o fora nele? Ele não era homem o
bastante para enfrentar a sua natureza obstinada e combativa?
— Eu não sou nada disso! — Aggie corou e olhou para ele.
— Nesse ponto, discordamos.
— Eu só sou combativa com você, Luiz Montes! Talvez porque você tenha me
acusado de ser mentirosa e oportunista, de ter tramado com o meu irmão para nos
aproveitarmos da sua sobrinha!
— Pare com isso. Desde que nos conhecemos, você não fez nada além de discutir
comigo. Fez comentários a respeito dos restaurantes, do valor do dinheiro, das pessoas
que acham que podem mandar no mundo com um talão e cheques... Fez de tudo para
que eu soubesse que você despreza a riqueza. Como eu iria saber que você fazia isso

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
para esconder o que realmente pretendiam fazer? Mas, por agora, deixemos esta questão
de lado. Por que você despachou o pobre homem?
— Se você quer saber... — Aggie resolvera responder, pois cansara de discutir e
queria que ele soubesse que Stu jamais a considerara combativa. -Ele se tomou muito
ciumento e possessivo, e eu não gosto disso.
— Incrível. Creio que temos algo em comum.
— O quê?
— Chloe passou de complacente a exigente em tempo recorde. — Eles finalmente
saíram de Londres, e Luiz percebeu que, se não quisessem viajar a noite inteira,
precisariam parar no meio do caminho. Além disso, começava a nevar.
— Essas qualidades nunca são boas. - Ele olhou para ela e novamente se admirou
com a sua aparência superfeminina. Os homens deveriam ser atraídos pela sua beleza,
para depois descobrir que havia uma gata selvagem por baixo daquele rosto angelical.
Fosse qual fosse o plano que ela e o irmão haviam montado, Aggie deveria ter sido o
cérebro da dupla. Droga, ele quase apreciava a sua inteligência e a sua esperteza e,
apesar de não ser muito de conversar com mulheres quando havia outras maneiras de
passar o tempo com elas, ele reconhecia que ela era do tipo com quem um homem podia
conversar. Aos 33 anos, ele nunca encontrara uma mulher que lhe despertasse
curiosidade. Entrara e saíra de relacionamentos com mulheres socialmente aceitáveis,
socialites ricas e com bom pedigree: num mundo de cobiça e avareza, fazia sentido evitar
mulheres que pudessem ser encaixadas na categoria de oportunistas. E ele nunca se
questionara.
— O que você quer dizer com isso? Que assim que uma mulher deseja um
compromisso, você recua? Esse foi o problema com a sua namorada?
— Eu nunca faço promessas que não posso cumprir — avisou ele friamente. - Eu
sou sempre honesto com as mulheres. Não desejo nada de longo prazo. Infelizmente,
Chloe achou que as regras poderiam ser mudadas no meio do jogo. Eu deveria ter
percebido os sinais - disse ele como se falasse consigo mesmo. — Toda vez que uma
mulher começa a falar em passar a noite juntos, o alarme deveria tocar.
— E não tocou? — Aggie pensou que querer passar a noite não lhe parecia absurdo
nem implicava numa proposta de casamento.
— Ela era muito bonita — Luiz disse com uma risada.
— Era por isso que você saía com ela? Por ela ser bonita?
— Eu acredito seriamente no poder da atração sexual.
— Isso é muito superficial.
Luiz voltou a rir e olhou para ela.
— Você não gosta de sexo?
Aggie corou e começou a sentir o coração bater como um tambor.
— Não é da sua conta!
— Algumas mulheres não gostam - Luiz forçou os limites. Pela primeira vez, ela
estava sozinha com ele. Claro que aproveitaria para descobrir tudo o que pudesse a
respeito dela e do irmão, para estar preparado quando chegasse a Lake District.
Enquanto isso, como não havia mais nada a fazer naquele momento, podia tentar
enxergá-la além das aparências e descobrir suas fraquezas. — Você é uma delas?

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Eu só acho que o sexo não é a coisa mais importante numa relação!
— Você diz isso porque não deve ter feito sexo de qualidade.
— Essa é a coisa mais ridícula que eu já ouvi! — Mas Aggie estava corada e
respirava com dificuldade.
— Espero que você não esteja embaraçada...
— Eu não estou embaraçada. Só acho essa conversa inadequada.
— Por que...?
— Porque eu não queria estar aqui. Porque você está me levando para vê-lo acusar
o meu irmão de ser um oportunista e depois lhe oferecer dinheiro para desaparecer.
Porque você acha que pode nos comprar.
— Esquecendo isso... — Ele ligou o limpador de para-brisa porque começara a
nevar. — Estamos aqui e não podemos manter as hostilidades indefinidamente. Eu odeio
dizer isso, mas parece que a nossa viagem vai demorar um pouco mais do que o previsto.
— O que quer dizer?
— Olhe para fora. O trânsito não flui, e a neve começou a cair. Posso dirigir por uma
hora ou mais, mas provavelmente precisaremos parar e passar a noite em algum lugar.
Fique atenta. Precisamos encontrar um lugar para pernoitar.

Capítulo 3
No fim, como pareciam ter chegado a uma área meio deserta, ela precisou procurar
um lugar pelo celular.
— É por isso que eu não gosto de sair de Londres — resmungou Luiz. — Espaços
amplos e abertos, vazios, sem um hotel decente.
— É por isso que as pessoas gostam de sair de Londres.
— Cada um tem suas preferências. O que encontrou? — Eles haviam deixado o
tráfego para trás. Agora ele enfrentava o perigo das estradas congeladas e da neve, que
prejudicava a visibilidade. Luiz olhou para ela, mas só viu o cabelo que lhe encobria o
rosto.
— Você vai ficar decepcionado. Não há hotéis de luxo. Só encontrei uma pousada a
oito quilômetros daqui, mas parece bem cotada.
— Endereço. — Ele acionou o GPS e ficou feliz ao pensar que teria um descanso.
— Leia o que dizem a respeito do lugar.
— Creio que ninguém lhe disse, mas você trata as pessoas como se fossem seus
empregados. Espera que elas façam o que você manda, sem o questionar.

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Admito. Mas, como você não se inclui nessa categoria, o seu argumento não
vale. Eu só pedi informações a respeito da pousada. Você vai me dizer, mas só depois de
me mostrar que se ressente com a pergunta pelo simples fato de ter sido feita por mim. A
desvantagem de acusar alguém de ser preto no branco é que você tem que ter certeza de
que não pertence à mesma categoria.
Aggie corou e fez uma careta.
— Cinco quartos, sendo duas suítes, sala de estar. O preço inclui café da manhã
completo. Também tem um belo jardim, mas, considerando o tempo, isso não é relevante.
E eu sou a pessoa menos preconceituosa que conheço. Tenho a mente extremamente
aberta!
— Cinco quartos. Duas suítes. Não há nada menos simples nessa área?
— Nós estamos no campo — disse Aggie, irritada por ele não ter ligado para o que
ela dissera. — Não há hotéis 5 estrelas, se foi isso o que você quis dizer.
— Sabe... — murmurou Luiz, esforçando-se para enxergar através do para-brisa,
porque o limpador não dava conta da neve pesada. — Eu entendo a sua hostilidade
contra mim, mas tenho dificuldade em entender a sua hostilidade contra qualquer sinal de
riqueza. Quando nos conhecemos, você fez questão de demonstrar que achava que os
restaurantes caros eram um desperdício de dinheiro enquanto o resto do mundo passava
fome... Droga, eu não quero falar sobre isso. Já é difícil me concentrar em não sair da
estrada sem me meter numa discussão inútil. Você vai ter que procurar alguma indicação.
Claro, ele não se interessava por ela pessoalmente. Só queria proteger sua família e
seu dinheiro. Deveria ignorar o que ele dizia, mas ele conseguia fazer com que ela se
sentisse hipócrita.
— Desculpe se não me ofereço para dirigir — murmurou ela. — Mas eu não trouxe a
minha carteira de motorista.
— Eu não lhe pediria para dirigir nem se você estivesse com ela.
— Porque as mulheres precisam de proteção? — perguntou ela, sorrindo.
— Porque eu teria um ataque de nervos.
Aggie conteve uma risada. Apesar de ela saber que deveria estar na defensiva, ele
tinha o dom de fazê-la rir.
— Isso é machismo.
— Você já deveria me conhecer. Eu não sou bom copiloto.
— Provavelmente, porque acha que tem sempre que estar no controle - retorquiu
Aggie. — E suponho que sempre esteja, não é?
— Gosto de estar. — Ele diminuiu a velocidade. Apesar de ser um veículo 4X4, a
estrada estava perigosa. — Você vai perder seu tempo me analisando agora?
— Eu não sonharia em fazer isso! - Mas ela o estava analisando, cheia de
curiosidade para saber o que o afetava. Claro que não se importava, mas aquele era um
jogo alimentado pelo fato de estarem isolados. Ela imaginou se a sua necessidade de
controle não era algo herdado. Luiz era o único filho de um milionário latino. Teria sido
educado para se ver como patriarca da sua geração? Aggie percebeu que não era a
primeira vez que se pegava pensando nele, e isso a aborrecia. — De qualquer maneira,
chegamos.
Eles tinham entrado num povoado, e ela via algumas lojas e algumas casas que
pareciam ter saído de um livro de fotografias sobre o perfeito povoado inglês. A pousada
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
era uma casinha semigeminada que passaria facilmente despercebida, não fosse pela
tabuleta pendurada do lado de fora. Era tarde e as ruas estavam desertas. Até as luzes da
pousada estavam apagadas, a não ser por dois lampiões que iluminavam a porta e um
pedaço do jardim. Resignado, Luiz estacionou o carro.
— É lindo — disse Aggie, contemplando as pedras amareladas e as janelas,
imaginando a variedade de cores de flores que deveria haver no verão e o zumbido das
abelhas.
— O quê? — Luiz imaginou se estariam olhando para a mesma casa.
— Claro que eu preferiria não estar aqui com você — enfatizou Aggie. — Mas é
lindo, especialmente com a neve cobrindo o jardim e o telhado. Nossa, como a neve está
funda! Isso é algo de que sinto falta morando no sul: da neve.
Dizendo isso, ela saiu do carro, abriu os braços e ergueu a cabeça para deixar que
os flocos caíssem no seu rosto. Luiz, que pretendia tirar a bagagem do carro, parou e
olhou para ela. Parada, com os braços abertos, ela parecia uma menina frágil e inocente.
Uma criança excitada ao ver a neve.
Não adiantava pensar na sua aparência, ele disse a si mesmo, pegando as malas.
Ela era bonita, e ele sabia disso desde o momento em que a vira. O mundo estava cheio
de mulheres lindas, e, especialmente no seu, elas eram lindas e estavam dispostas a se
jogar em cima dele.
Aggie caminhou na direção da casa com os pés afundando na neve. Ouviu-o bater a
porta do carro, voltou-se e o viu parado, segurando uma mala em cada mão: de um lado,
uma mala luxuosa e cara, do outro, a mala barata e gasta que a acompanhava desde os
14 anos, quando, pela primeira vez, dormira na casa de uma amiga.
Ele não condizia com o lugar. Não podia ver a cara dele, mas imaginava que
estivesse se sentindo desorientado, privado do seu precioso conforto, do seu mundo
luxuoso. Uma pousada com apenas cinco quartos, e apenas duas eram suítes! Um conto
de horror para um homem como Luiz! Sem mencionar que ele precisaria continuar sendo
educado com a irmã de um oportunista que planejava depenar sua sobrinha. Ele era o
personagem principal do próprio pesadelo. E, enquanto via Luiz parado ali, ela se abaixou
instintivamente, pegou um punhado de neve e começou a moldar uma bola.
Toda a sua raiva e a sua frustração em relação a ele e ao fato de ela própria não
conseguir se manter indiferente foram colocadas na sua jogada. Aggie conteve a
respiração enquanto a bola subia, fazia um arco e descia com precisão na direção de
Luiz, atingindo-o em cheio no peito.
Ela não sabia quem estava mais surpreso. Ela, por ter jogado a bola, ou ele, por ter
sido atingido, pela primeira vez na vida, por uma bola de neve. Antes que ele pudesse
reagir, ela correu para a porta, pensando que ele bem merecera. Luiz era insultante,
ofensivo e desdenhoso. Acusara-a e a seu irmão das piores coisas, da pior maneira
possível, e se recusara a admitir que poderia estar enganado. Além disso, apesar de ela
não ter feito nada de errado, ele tivera a audácia de fazer com que ela se questionasse!
Apesar disso, ela estava com medo de olhar para ele e ver a sua reação.
— Bela jogada!
Ela o ouviu exclamar, virou-se e sentiu o impacto gelado. Ele a acertara no mesmo
lugar onde ela o acertara. Aggie abriu a boca, surpresa, enquanto ele se aproximava.
— Boa pontaria. No alvo. — Luiz sorriu, e seu rosto se transformou, perdendo a
dureza e se tornando tão atraente que ela quase perdeu o equilíbrio. A respiração ficou
presa em sua garganta, e ela ficou olhando para ele, confusa.
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— Eu digo o mesmo. Onde aprendeu a jogar bolas de neve?
— No internato. Capitão do time de críquete. Eu era o lançador mais rápido. — Ele
apertou a campainha. — Você achou que eu seria mimado a ponto de não poder me
vingar?
— Achei. — Ela estava admirada. Mimado? Sim, evidente que ele era. Mas seria
difícil achar um homem menos mimado que ele. Como isso podia fazer sentido?
— Onde aprendeu a jogar desse jeito? Você me acertou a 30 m, através da neve,
com pouca visibilidade - perguntou ele.
Aggie piscou, tentando se conter, mas acabou dizendo:
— Nós crescemos num lugar onde nevava no inverno. Fazíamos bonecos,
montávamos batalhas de bolas de neve. Sempre havia muitas crianças, porque
morávamos num lar adotivo.
A declaração foi seguida de silêncio. Ela não pretendera dizer aquilo. Saíra sem
querer, mas Aggie foi poupada de uma reação desdenhosa pela porta que se abria e por
uma senhora, que os recebia amistosamente e os fazia entrar, como se estivesse à sua
espera, apesar de já serem quase 22h.
Claro que havia um quarto para eles! Os negócios não iam bem no inverno. Só um
quarto ocupado por um antigo hóspede que trabalhava na vizinhança durante os dias
úteis. Que provavelmente não voltaria para casa naquele fim de semana. Não com aquela
nevasca. Eles já tinham visto algo assim?
A conversa rápida mantinha a cabeça de Aggie temporariamente calma.
Infelizmente, uma das suítes estava ocupada pelo antigo hóspede. A senhora olhava para
os dois, esperando que um deles reivindicasse a suíte restante. Aggie sorriu
candidamente para Luiz, até que ele se visse forçado a concordar que ela compartilhasse
o banheiro com ele.
Enquanto a senhora lhes mostrava orgulhosamente a sala de estar e explicava que
tinham “uma infinidade de canais porque tinham acabado de instalar TV a cabo”, a sala de
jantar, onde poderiam tomar “o melhor café da manhã do povoado” e, se quisessem,
jantar, apesar de àquela hora, precisarem se contentar com sanduíches. Aggie sentia que
Luiz estava fervendo.
Ela se instalou no quarto amplo e encantador, e concordou quando Luiz lhe disse
que se encontraria com ela dentro de dez minutos, na sala de estar, porque os dois
precisavam comer alguma coisa. Mas só teve tempo de lavar o rosto e descer. Luiz a
esperava. Ela ouviu a sua voz e a sua risada, enquanto ele conversava com a senhora.
Aproximou-se e percebeu que ele explicava que os dois estavam indo visitar parentes,
mas que a neve os fizera parar. Sim, teria sido mais sensato utilizarem o transporte
público, mas os ferroviários estavam em greve. Entretanto, não fora uma bênção terem
descoberto aquele lugar encantador? Talvez ela pudesse lhes servir uma garrafa de vinho
e sanduíches. O que ela tivesse à mão estaria bem, desde que fosse frio.
— Então... — disse Luiz, assim que eles ficaram sozinhos na sala. — A verdade está
começando a aparecer. Vocês pretendiam me contar a sua história ou escondê-la até que
não fizesse diferença?
— Eu não pensei que fosse relevante.
— Ah, por favor, Aggie...
— Eu não me envergonho de... — Ela passou a mão na cabeça. O ambiente era
aconchegante e aquecido por uma lareira. Luiz tirara o agasalho e enrolara as mangas da
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
camisa, e ela não conseguia desviar os olhos do seu braço. Sentia vontade de tocar o seu
corpo musculoso, mas não sabia de onde vinha esse impulso. Teria estado ali desde o
início?
Assim que lhes serviram o vinho, ela pensou que precisava tomar um gole para
enfrentar aquela conversa.
— Não se envergonha de esconder a verdade? — perguntou Luiz.
— Eu não considerei isso como esconder. Não costumo falar do assunto.
— Por que não?
— O que você acha? — Aggie percebeu que o vinho da sua taça desaparecera, mas
não impediu que a enchessem novamente.
Luiz pensou que não podia esquecer que aquele não era um encontro. Não estava
conversando gentilmente como prelúdio para o sexo. Omissões como aquela eram
importantes. Mas aqueles enormes olhos azuis olhando para ele com um misto de
insegurança e de censura mexiam com ele.
— Então me diga.
— As pessoas são preconceituosas - murmurou Aggie na defensiva. — Assim que
você diz que cresceu num orfanato, elas se afastam Você não iria entender. Sempre levou
o tipo de vida com que pessoas como nós apenas sonharam Uma vida de luxo, cercado
pela família. É um mundo diferente.
— Eu não careço de imaginação - contestou Luiz.
— Isso é apenas mais uma coisa que você pode usar contra nós... Mais um prego
no caixão.
Sim, era! Mas ele estava curioso para conhecer o passado sombrio que ela
escondera. Luiz mal percebeu que colocavam um prato com sanduíches diante deles,
uma salada e mais uma garrafa de vinho.
— Você foi para um internato. Eu fui para a escola pública local, onde as pessoas
debochavam por eu morar numa espécie de orfanato. Os eventos esportivos eram um
inferno. As famílias das outras crianças estavam lá, torcendo, gritando. Eu corria e me
esforçava, fingindo que alguém torcia por mim. Algumas vezes, Gordon e Betsy, que
cuidavam de nós, tentavam comparecer, mas era difícil. Eu conseguia superar tudo isso,
mas Mark sempre foi mais sensível.
— É por isso que vocês se tomaram tão próximos. Você disse que os seus pais
tinham morrido.
— Morreram. — Apesar de não costumar beber, ela bebeu mais um pouco de vinho,
sabendo que teria uma forte dor de cabeça no dia seguinte. - Mais ou menos.
— Mais ou menos? Não brinque comigo, Aggie. Como alguém pode estar mais ou
menos morto?
Despojada das meias-verdades que contara a ele, ela se resignou a lhe dizer toda a
verdade. Ele faria o que quisesse com a informação, ela pensou sem se importar. Podia
tentar comprá-los, balançar a cabeça com desgosto por estar na companhia de pessoas
tão diferentes dele. Nunca deveria ter deixado que Maria e Mark a convencessem a pintar
um quadro que não fosse acurado.
Em parte, ela fora levada pelo instinto de proteger Mark, de fazer o que seria melhor
para ele. Deixara-se levar pelo fato de ser a primeira vez que ele estava apaixonado, por
Maria ter lhes dito o quanto a sua família a protegia, e por... Também não podia negar que
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
Luiz a enfurecera desde o início. Não fora difícil contornar a verdade, encaixar algumas
peças. Ele se mostrara tão arrogante, que merecera!
— Nós nunca conhecemos nosso pai - admitiu ela a contragosto. — Ele foi embora
depois que eu nasci, mas aparecia de vez em quando. Quando mamãe ficou grávida de
Mark, ele desapareceu de vez.
— Desapareceu...
— Aposto que você não tem noção do que eu estou falando, Luiz.
— É difícil de acreditar que um pai possa abandonar sua família — admitiu ele.
— Você tem sorte — disse Aggie bruscamente. Ele olhou para ela com um olhar
surpreso.
— A minha vida foi planejada. Nem tudo foi ideal. Continue.
Aggie sentiu vontade de pedir que ele explicasse o que queria dizer com “planejada”.
De fora, ela só via perfeição: uma família unida, grande, livre de problemas financeiros,
em que todos faziam o que queriam, sabendo que, se fracassassem, teriam uma rede de
proteção.
— O que há mais para dizer? Eu tinha 9 anos quando a minha mãe morreu. -Ela
desviou os olhos e fitou o fogo. Não costumava comentar seu passado com ninguém, mas
não se importava mais com o que ele soubesse sobre ela. Ele não mudaria de ideia sobre
o tipo de pessoa que achava que ela era, mas isso não significava que ela precisasse
aceitar suas acusações sem discutir.
— Como ela morreu?
— Que lhe importa? Ela morreu em um acidente, quando voltava do supermercado
onde trabalhava. Foi atropelada por um motorista embriagado. Nós não tínhamos
parentes, ninguém que ficasse conosco. Fomos colocados num lar adotivo, num lugar
maravilhoso, administrado por um casal fantástico que cuidava de nós. Considerando as
circunstâncias, não poderíamos ter tido infância mais feliz. Portanto, por favor, não tenha
pena de nenhum de nós dois.
Os sanduíches estavam deliciosos, mas ela perdera o apetite.
— Sinto muito por sua mãe.
— Sente? — Ela se envergonhou do ressentimento em sua voz. — Obrigada. Faz
muito tempo. — Ela deu uma risada debochada. — Acho que toda essa informação é
inútil, porque você já resolveu quem nós somos. Além disso, não seria um bom assunto
para iniciar uma conversa. Especialmente porque eu já sabia que você só nos convidava
para sair para analisar o meu irmão.
Luiz não costumava se importar com o que os outros pensavam dele. Era isso que o
tornava tão objetivo ao lidar com situações difíceis. Mas agora sentia uma estranha
pontada de vergonha ao reconhecer o seu comportamento imperdoável, questionando-os
diretamente a cada encontro. Não escondera o motivo do interesse repentino em sua
sobrinha. Não se mostrara hostil, mas Aggie era esperta o bastante para saber o que o
que ele queria. Poderia culpá-la por não ter contado a sua história triste?
Paradoxalmente, ele admirava a maneira com que ela forjara o seu caminho. Isso
mostrava uma firmeza de caráter que ele raramente via no sexo oposto. Luiz sorriu ao
pensar nas mulheres com quem saía. Chloe era bonita, mas sem graça e sem ambição.
Era apenas uma boneca que nascera em berço de ouro, trabalhava em meio período e
esperava que algum homem rico a livrasse de ter que fingir trabalhar.

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Onde ficava o orfanato?
— Lake District — respondeu Aggie. estremecendo.
— Por isso você disse que eles tinham ido para um lugar que tinha um significado
especial.
— Você se lembra de tudo o que lhe dizem? — Ela lhe lançou um olhar irritado, e ele
lhe ofereceu aquele incrível sorriso, que mexia com ela.
— É uma benção e uma maldição. Você cora com facilidade. Sabia disso?
— Provavelmente porque me sinto desajeitada quando estou com você. - Ela
percebeu que corava ainda mais.
— Não sei por quê. — Luiz afastou a cadeira da mesa e esticou as pernas.
Percebeu que tinham acabado com duas garrafas de vinho. — Estamos tendo uma
conversa bastante civilizada. Por que vocês resolveram se mudar para Londres?
— E você?
— Porque assumi um império. A matriz de Londres precisava ser expandida. Eu era
a escolha mais óbvia. Estudei aqui. Compreendo a maneira como as pessoas pensam.
— Mas você queria se estabelecer aqui? É muito longe do Brasil.
— Para mim, tudo bem.
Ele ficou olhando para ela, enquanto tiravam a mesa e traziam café. Considerando a
hora, a senhora estava sendo muito gentil e dispensava as desculpas de Aggie por terem
chegado tão tarde. Nenhum dos dois quis tomar o café. Aggie mal se aguentava de pé.
Estava tonta com tanto vinho no estômago vazio.
— Eu vou sair um pouco para tomar ar fresco — disse ela.
— Com esse tempo?
— Estou acostumada. Cresci na neve. - Ela se levantou e respirou fundo para se
equilibrar.
— Não importa se cresceu no Himalaia. Você não vai sair porque bebeu demais e
pode desmaiar.
Aggie olhou para ele e se agarrou na mesa. Sua cabeça girava, e ela sabia que
deveria ir para a cama, mas não deixaria que ele comandasse seus movimentos.
— Não me diga o que fazer, Luiz Montes!
Ele deu de ombros.
— E você pretende sair sem casaco porque está acostumada com a neve?
— Claro que não!
— Que alívio! — Ele levantou e colocou as mãos no bolso. — Leve uma chave para
poder entrar. Já demos muito trabalho à nossa gentil hospedeira por uma noite, sem
precisar tirá-la da cama porque você resolveu passear na neve. -Ele viu que a sra. Bixby
se aproximava, expressando preocupação, e balançou a cabeça. — Agatha é
perfeitamente capaz de se cuidar, mas ela precisa levar uma chave para poder entrar.
— Acho que você espera que eu lhe agradeça — disse Aggie, tentando enfiar os
braços nas mangas do casaco. Como não se segurava mais na mesa, a tontura fora
acrescida de náusea. E, apesar de falar com cuidado, sua fala estava enrolada.

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Agradecer o quê? — Ele a acompanhou até a porta de entrada. -Você não vestiu
o casaco direito. — Ele apontou os botões trocados e esperou enquanto ela tentava
abotoá-los corretamente.
— Pare de olhar para mim!
— Só quero ter certeza de que você está agasalhada. Quer levar o meu cachecol?
Posso subir e trazê-lo para você.
— Eu estou perfeitamente bem — Ela ergueu a cabeça para olhar para ele e sentiu
uma ânsia de vômito. Correu para fora de casa, enquanto Luiz se voltava para a sra.
Bixby e sorria.
— Eu vou ficar na janela da sala de jantar, observando o que ela faz. Não se
preocupe. Se ela não voltar dentro de cinco minutos, eu vou buscá-la.
— Aceita um café?
— Forte e puro, por favor. — Ele puxou a cadeira para perto da janela, se sentou e
viu Aggie parada na neve, respirando fundo, antes de começar a circular pelo jardim Luiz
não acreditava que ela fosse deixar a área iluminada e se aventurar a passear pela
cidade. A verdade é que ela bebera demais. Quando levantara da mesa depois de comer
alguns sanduíches, estava esverdeada. Mas isso era algo que ela jamais admitiria.
Apesar de não apreciar mulheres que bebiam, ele não podia culpá-la. Os dois não
haviam percebido o quanto tinham bebido. Ela iria despertar com dor de cabeça, o que
seria um aborrecimento porque ele queria partir ao nascer do sol. Mas era a vida. Ele se
empertigou ao ver que ela se cansara de rodar pelo jardim e caminhava na direção do
portão. Sem esperar pelo café, ele se encaminhou para a porta, parando no caminho para
dizer à sra. Bixby que ela não precisava esperá-los. Aggie desaparecera de vista, e Luiz
soltou uma praga. Sem casaco, sentia-se congelar, e começou a correr quando a viu
cambaleando pela rua, antes de se apoiar num poste e cobrir a cabeça com o braço.
— Maldita mulher — resmungou ele, aumentado a velocidade o quanto podia.
Chegou a tempo de erguê-la em seus braços, quando ela começava a deslizar pelo poste.
Aggie gritou.
— Você quer acordar a cidade inteira? — Ele começou a caminhar rapidamente de
volta ao hotel, mas, na neve, a rapidez era relativa.
— Ponha-me no chão! — Ela bateu no peito dele, furiosa, mas logo desistiu porque
a agitação lhe causava mais náusea.
— Essa é a coisa mais tola que você já disse.
— Eu disse para me colocar no chão!
— Se eu colocasse, você não conseguiria andar. Não pense que não percebi que
você se agarrava no poste para não cair.
— Eu não preciso que você me salve!
— E eu não preciso estar aqui fora congelando, fazendo o papel de cavaleiro de
contos de fadas! Cale a boca!
Aggie ficou tão chocada com aquela ordem arrogante que se calou. Jamais iria
admitir, mas era bom ser carregada daquele jeito porque suas pernas estavam bambas.
Realmente tivera vontade de deslizar até o chão, porque elas pareciam não a sustentar.
Ela percebeu que ele empurrava a porta com o pé, o que queria dizer que ela ficara
encostada. Sentindo-se humilhada ao pensar que a sra. Bixby a veria naquele estado,
Aggie escondeu o rosto no peito de Luiz.
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Não se preocupe — disse ele secamente. — A nossa anfitriã não está aqui. Eu
disse a ela que fosse se deitar e que eu a traria de volta.
Aggie deu uma olhada no hall e pediu que ele a colocasse no chão.
— Você está bêbada e precisa ir para a cama. Foi o que eu lhe disse antes de você
resolver mostrar a sua teimosia, ignorando o meu conselho.
— Eu não estou bêbada. Nunca fico bêbada. — Ela se alarmou porque começara a
ter soluços. — Eu sou perfeitamente capaz de subir a escada.
— Tudo bem — Ele a soltou rapidamente, e ela se agarrou ao seu agasalho e
respirou fundo. — Ainda acha que consegue subir sozinha?
— Eu odeio você! — resmungou Aggie, enquanto ele a levantava do chão
novamente.
— Você tem a tendência de ser repetitiva — murmurou Luiz, sabendo que ela olhava
para ele. — Estou surpreso e ofendido por você me odiar por tê-la impedido de cair de
cara na neve e adormecer. Como professora, você deve saber que essa é coisa mais
perigosa que poderia acontecer. Desmaiar na neve, sob a influência de álcool. Se
descobrissem isso, você seria riscada da lista de professoras responsáveis. Ver a
professora nesse estado não seria um bom exemplo para as crianças.
— Cale a boca — resmungou Aggie.
— Agora vejamos. Esqueci qual é o seu quarto. Ah, já me lembrei... A suíte da
esquerda. Felizmente, porque você vai precisar do banheiro.
— Ah, cale-se — gemeu Aggie. — E ande depressa. Acho que vou vomitar.

Capítulo 4
Sentindo-se envergonhada e terrivelmente nauseada, ela correu para o banheiro
bem a tempo, e vomitou. Não se dera o trabalho de fechar a porta e não protestou quando
percebeu que Luiz vinha atrás dela.
— Desculpe — sussurrou ela, ouvindo-o dar a descarga e percebendo que ele
segurava um tubo de pasta de dente. Enquanto estivera ocupada, ele remexera na sua
frasqueira e pegara o que ela iria precisar.
Aggie escovou os dentes, mas não teve forças para mandá-lo embora. Também não
conseguia encará-lo. Deitou-se na cama e fechou os olhos. Ele fechou as cortinas,
apagou a luz e começou a lhe tirar as botas.
Luiz nunca fizera algo de semelhante. Nunca vira uma mulher tão nauseada depois
de ter bebido em excesso. Se alguém dissesse a ele que um dia estaria cuidando de uma
mulher em tal estado, ele teria dado uma gargalhada. Não gostava de mulheres
descontroladas. Uma Chloe descontrolada, gritando histericamente no telefone,
soluçando e xingando o deixava indiferente. Ele olhou para Aggie, que cobrira o rosto com
o braço. Enquanto ia até o banheiro, umedecia uma toalha, voltava e colocava-a sobre a
testa dela, ele se perguntava por que ela não lhe causava repulsa.
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Acho que deveria lhe agradecer - sussurrou ela, sem abrir os olhos.
— Você poderia tentar — concordou Luiz.
— Como sabia onde me encontrar?
— Eu estava na janela, observando você. Não iria deixá-la ficar lá fora por mais de
cinco minutos.
— Porque, claro, você sabe tudo.
— Ninguém acha que é uma boa ideia perambular pela neve, no escuro, depois de
ter bebido demais — falou Luiz secamente.
— Suponho que você não vai acreditar se eu disser que é a primeira vez que faço
isso, certo?
— Acredito em você.
Aggie abaixou o braço e olhou para ele. Seus olhos doíam, assim como todo o resto,
e ela ficou aliviada por estarem na obscuridade, apenas à luz do abajur.
— Acredita?
— A culpa foi minha. Eu deveria ter recusado a segunda garrafa de vinho. Para ser
sincero, mal percebi quando a trouxeram Essas coisas acontecem.
— Mas acho que nunca acontecem com você. — Ela sorriu ligeiramente. -Aposto
que você não bebe demais, não fica trôpego e não precisa ser levado para a cama, como
um bebê.
Luiz riu.
— Não, não me lembro da última vez que isso aconteceu.
— E aposto que você não conhece nenhuma mulher que faça isso.
Ele pensou em dizer que nenhuma delas ousaria, mas iria parecer um monstro.
— Não — disse ele simplesmente. - Vou buscar alguns analgésicos. Você vai
precisar.
Aggie bocejou e olhou para ele com os olhos vidrados, lembrando-se da sensação
de ser carregada no seu colo. Ele a erguera como se fosse uma pena, e ela sentira a
firmeza do seu peito contra o rosto. Ele cheirava a sabonete, a homem, a madeira.
— Obrigada. Mais uma vez, desculpe.
— Pare de se desculpar — falou ele bruscamente. Seria tão controlador a ponto de
as mulheres se adaptarem para lhe agradar? Seria possível que elas evitassem beber e
repetir a sobremesa para que ele não as considerasse gulosas e descontroladas? Ele
rompera com Chloe sem lhe dar explicações, alegando que ela estaria melhor sem ele. E
era verdade. Mas ele sabia que, diante de suas exigências, mostrara-se impaciente,
indiferente e irritado. Sempre considerara normal que as mulheres se adaptassem para
lhe agradar, assim como considerava normal que, por mais que elas tentassem, um dia
chegaria a hora em que ele iria embora.
Aggie se irritou por ele não gostar que ela se desculpasse. O que Luiz pensaria
dela? A opinião que ele formara já fora baixa o suficiente e deveria ter descido ainda mais,
isso sem contar que ele a considerava uma mercenária. O quanto ainda poderia descer
no seu conceito? De repente, ela se sentiu cansada demais para pensar. Ergueu o corpo
e pegou o copo de água que ele lhe ofereceu ao voltar, engoliu dois comprimidos e o
ouviu dizer que ela estaria bem na manhã seguinte, ou mais ou menos...

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Obrigada — balbuciou ela. — Por favor, me acorde.
— Claro. — Luiz fez uma careta ao perceber que, durante aquele tempo, estivera se
questionando.
Aggie caiu no sono com aquela imagem gravada na cabeça. Era incompreensível
que alguém que lhe era indiferente mexesse com ela daquele jeito. Mas de manhã tudo
voltaria ao normal, e ela voltaria a não gostar dele. Ele deixaria de ser tridimensional, e
ela perderia a curiosidade a seu respeito.
Quando ela recobrou a consciência, sua cabeça latejava, sua boca tinha um gosto
estranho, e Luiz estava sentado em uma poltrona, ao lado da sua cama, totalmente
vestido. Ela levou alguns segundos para entender, mas depois se ergueu e o cutucou.
— O que está fazendo aqui?
Tarde demais, ela percebeu que, apesar de estar enrolada no cobertor, estava sem
as calças e o blusão, e ficou embaraçada.
— Eu não podia deixá-la nas condições em que estava. — Ele passou as mãos nos
olhos e, depois, no cabelo.
— Eu não estava em.. Sim, eu... Passei mal, mas depois dormi.
— Você vomitou outra vez. Isso sem falar na sede incontrolável e nos pedidos
insistentes para tomar mais comprimidos.
— Ah, meu Deus.
— Infelizmente, Deus não estava disponível, e eu precisei procurar um suco de
laranja na cozinha, porque você alegava que mais água iria lhe causar náuseas. Eu
também precisei suportar uma crise sonolenta de mau humor, quando me recusei a lhe
dar o dobro da dose de analgésicos.
Aggie olhou para ele, horrorizada.
— Então você disse que estava fervendo — continuou ele.
— Não disse.
— Arrancou o cobertor e começou a se despir.
Aggie gemeu e cobriu o rosto com as mãos.
— Como eu sou um cavalheiro, impedi que ficasse nua. Fiz com que continuasse
vestindo o básico, e você voltou a dormir.
Ele viu que ela se agarrava ao cobertor e imaginou o inferno pelo qual ela estaria
passando, mas era orgulhosa demais para demonstrar. Nunca conhecera ninguém como
ela. Quase esquecera o motivo pelo qual estavam juntos. Aggie tinha o dom de competir
com ele em matéria de firmeza, não apenas agora que estavam juntos. Já acontecera
antes. Ele fazia uma observação, ela se ofendia, fincava o pé e começava a discutir, até
que esquecessem a presença de outras pessoas.
— Bem, obrigada pela gentileza. Agora eu gostaria de me trocar. — Ela indicou a
penteadeira, e ele levantou. -Você conseguiu dormir um pouco?
— Quase nada.
— Você deve estar exausto.
— Eu não preciso de muito tempo de sono.
— Talvez você devesse dormir um pouco, antes de pegarmos a estrada. - Ela rezava
para que um buraco se abrisse e a engolisse.
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Não faz sentido.
— O que quer dizer com isso? Seria loucura você dirigir sem dormir, e eu não posso
me oferecer para dirigir em seu lugar.
— Sabemos disso. Não faz sentido porque já passa das 14h30, está escurecendo, e
a neve está mais pesada. — Ele abriu a cortina, revelando o céu cor de chumbo, de onde
a neve caía incansavelmente. — Seria loucura tentar ir a algum lugar com esse tempo. Já
reservei os quartos para mais uma noite. Talvez seja preciso ficarmos aqui até mais do
que isso.
— Impossível! — Aggie sentou-se na cama. -Pensei que voltaria ao trabalho na
segunda-feira! Não posso simplesmente sumir. Esta é a época mais movimentada do ano
letivo!
— Que pena. Você está presa. Não pretendo tentar voltar a Londres. Se você se
preocupa em perder algumas aulas e com como vai ser a representação de Natal,
imagine eu. Nunca pensei que iria atravessar metade do país dirigindo na neve, para
salvar a minha sobrinha de fazer algo estúpido.
— Está dizendo que o seu trabalho é mais importante que o meu? — Ela se sentia
melhor ao discutir do que quando o imaginava tentando evitar que ela se despisse,
cuidando dela, fazendo-se de bonzinho. — É típico! Por que os ricos sempre acham que o
que eles fazem é mais importante que o que os outros fazem? — Ela o viu parar na porta,
impassível, e pensou que corria o perigo de enxergar através das diferenças e ver o
homem que havia por baixo. Se listasse tudo o que lhe desagrava em Luiz, poderia
manter distância e preencher o espaço entre os dois com hostilidade e ressentimento.
Mas isso seria cair na armadilha de formar opiniões pretas ou brancas, assim como ele
fazia.
Aggie empalideceu. Ele a teria enfeitiçado desde o início? Provocando suas risadas,
prendendo-a com histórias interessantes sobre suas viagens, discutindo política e
problemas mundiais, enquanto Mark e Maria namoravam? Ela começara a ver além da
figura superficial que queria que ele fosse?
E ainda ficara presa com Luiz, dentro do carro e ali, naquela pousada. Um homem
arrogante, pomposo, limitado, teria lhe ajudado, como ele fizera na noite passada, sem
debochar do seu comportamento inadequado? Teria velado seu sono, sabendo que não
iria dormir? Aggie precisou se lembrar de que Luiz lhe oferecera dinheiro em troca da
sobrinha. Que tentaria comprar seu irmão. Que ele não se importava com ninguém, que
sacrificava tudo quando tinha um objetivo. Luiz era charmoso quando lhe convinha, mas,
no fundo, era implacável, sem coração, sem sentimentos. Ela se acalmou quando essa
ideia lhe veio à cabeça.
— Então? — insistiu ela com ironia.
Luiz ergueu as sobrancelhas severamente.
— Você está procurando uma briga. É por se sentir envergonhada da noite
passada? Se for, não é preciso. Essas coisas acontecem
— Como você disse, isso nunca aconteceu com você! — Aggie pensou que tudo
seria mais fácil, se ele não estivesse tão bonito. — Você nunca caiu de bêbado. Aposto
que nenhuma das suas namoradas já fez o mesmo.
— Tem razão. Nem eu, nem elas.
— Porque nenhuma delas tinha motivos para beber?

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Talvez tivessem — Ele deu de ombros. — Mas nunca na minha presença. A
propósito, eu não acho que o meu trabalho seja mais ou menos importante que o seu.
Tenho um grande negócio para fechar no início da próxima semana. Uma aquisição.
Existem muitos empregos que dependem desse contrato. Por isso, um atraso seria tão
inconveniente para mim como para você.
— Ah. — Aggie corou.
— Se você quiser entrar em contato com a escola e pedir um dia ou dois de folga,
acho que não seria o fim do mundo. Vou tomar um banho e descer. A sra. Bixby pode
preparar algo para você comer.
Ele saiu e fechou a porta. Só de pensar em comer, Aggie sentia o estômago roncar,
mas tomou um banho, lavou a cabeça e usou o secador que encontrara em uma gaveta
para ajeitar o cabelo. Precisava pensar. Não havia dúvida de que a neve os prenderia ali
mais uma noite. Passaria mais tempo do que esperava com Luiz Montes. Teria que tomar
cuidado para não se deixar levar pelo seu charme. Era incrível como a sensatez e a lógica
não conseguiam fazer com que ela se concentrasse.
Aggie abriu a parca bagagem, pegou um jeans e um suéter e, por baixo, vestiu uma
camiseta com mangas compridas, um colete... Quando se olhou no espelho, pensou que
parecia um espantalho. O cabelo recém-lavado e encaracolado caía sobre suas costas.
Estava sem maquiagem. Suas roupas eram uma mistura de tons de azul e de cinza. O
único calçado que trouxera fora a bota que estivera usando quando saíra, porque
esperava que a viagem fosse mais curta. Deveria ter trazido mais coisas.
Quando ela entrou na sala de estar, Luiz desligou o celular e olhou para ela. Com
tantas camadas de roupa, poderiam pensar que ela não tivesse forma, mas não era
verdade. Ele sabia disso desde que a conhecera. Ela costumava usar vestidos com os
quais parecia não se sentir à vontade, mas que, mesmo assim, pareciam ter sido feitos
para escondê-la.
Só na noite anterior, ele percebera que ela, apesar de esguia, era curvilínea.
Surpreso, ele percebeu que, só de se lembrar, sentia um arrepio de excitação. Ele se
virou abruptamente e pediu à sra. Bixby que trouxesse um bule de chá.
— Não para mim — disse Aggie. - Resolvi ir até a cidade, tomar um pouco de ar
fresco.
— Ar fresco. Você parece ter mania de ar fresco. Não foi por isso que saiu ontem à
noite?
Ela não podia se zangar com ele, porque ele falara num tom de brincadeira.
— Desta vez eu não estou tonta. Gosto da neve. Gostaria que nevasse mais em
Londres.
— A cidade iria parar.... Se você pretende sair, acho que eu vou com você.
Aggie tentou controlar o pânico. Precisava clarear a cabeça. Por mais que dissesse
a si mesma que deveria odiá-lo, havia um lado dela que insistia em ir em outra direção,
lembrando-a de como ele era sexy, inteligente, de como fora atencioso na noite anterior.
Como poderia pensar sem ter um pouco de paz e de privacidade?
— Eu pretendia ir sozinha — falou ela delicadamente. — Isso lhe daria tempo para
trabalhar. Você está sempre trabalhando. Poderia adiantar o negócio importante que tem
para fechar.
— É sábado. Além disso, seria bom esticar as pernas. Acredite, as cadeiras não são
o lugar mais adequado para se dormir.
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Você não vai deixar que eu me esqueça disso tão cedo, não é?
— Se estivesse no meu lugar, você deixaria? — Ele a viu corar. — Não. Foi o que
pensei. Pelo menos você é honesta o bastante para não negar. — Ele se levantou. Aggie
colocou as mãos nos bolsos, tentando encontrar um jeito de se livrar dele.
E, no entanto, não estava satisfeita por ele ir com ela? Para o bem ou para o mal, e
ela não conseguia resolver qual dos dois, seus sentidos se aguçavam quando ele estava
por perto. Seu coração batia mais forte, sua pele se arrepiava, seu pulso acelerava. Todos
os seus sentidos pareciam despertar. Aquela seria a maneira da natureza mantê-la alerta
diante do inimigo?
— Você precisa comer alguma coisa - disse ele, assim que saíram O frio intenso
feria o rosto. A neve caía e se juntava aos montes já altos nas calçadas, fazendo com que
caminhar se tornasse difícil. O casacão de Aggie não fora feito para aquele frio, e ela
tremia, enquanto ele, usando o casaco acolchoado, deveria estar se sentindo muito
confortável.
— Pare de me dizer o que fazer.
— E pare de ser tão teimosa. — Ele viu que ela puxara a boina de lã e cobrira as
orelhas. Estava com frio. Ele podia ver pelo jeito como ela se encolhia e fechava as mãos
dentro dos bolsos. -Você está com frio.
— O dia está frio. Eu gosto. Lá dentro estava abafado.
— O seu casaco não é apropriado. Você precisa de algo mais quente.
— Você está fazendo de novo. — Ela olhou para ele e, quando seus olhares se
encontraram, conteve a respiração. - Comportando-se como se tivesse respostas para
tudo. — Ela ficou desanimada ao perceber que, apesar de estar falando uma coisa, seu
corpo reagia de maneira oposta. — Eu poderia ter comprado outro casaco, mas, em
Londres, nunca senti necessidade.
— Você pode comprar um aqui.
— É uma época do ano difícil - murmurou Aggie. — O Natal sempre é. Nós trocamos
presentes na escola... E ainda tem a árvore de Natal, a comida... Tudo se soma. Você não
entenderia.
— Tente me explicar.
Aggie hesitou. Não costumava se abrir com ninguém, e não via sentido em fazer
confidências a Luiz Montes, o homem que a colocara numa situação difícil, que era
impiedoso, que não sentiria um pingo de simpatia. Mas ela se lembrou de que ele cuidara
dela na noite anterior, sem manifestar impaciência ou irritação.
— Quando você cresce num orfanato, como eu cresci, não tem dinheiro. Nunca. E
não lhe dão coisas novas. Não com frequência. No Natal e nos aniversários, Betsy e
Gordon faziam o possível para que ganhássemos algo novo, mas quase sempre
precisávamos nos conformar com o que tínhamos. A maioria das minhas roupas já tinha
sido usada por alguém Os brinquedos eram compartilhados. Você adquire o hábito de ter
muito cuidado com qualquer quantia que ganhe ou receba pelo seu trabalho. Eu ainda
tenho esse hábito. Mark e eu. Você pode achar bobagem, mas eu tenho esse casaco
desde os 17 anos. De vez em quando, me ocorre que eu deveria substituí-lo.
Luiz pensou nas mulheres que conhecera ao longo dos anos. Nunca hesitara em
gastar dinheiro com elas. Nenhum daqueles relacionamentos iria durar, mas todas elas
haviam recebido alguma coisa: joias, casacos, uma vez, um carro. A lembrança o
repugnava.
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Deve ter sido duro ser uma adolescente e não poder andar na última moda.
— A gente se acostuma. — Aggie deu de ombros. — A vida poderia ter sido pior.
Veja, uma cafeteria. Você tem razão. Eu deveria ter comido algo. Estou faminta. —
Parecia estranho ter aquela conversa com ele.
— Você está mudando de assunto - resmungou ele, enquanto se misturavam às
pessoas que circulavam — Esse foi um hábito que você também adquiriu no orfanato?
— Eu não quero ser interrogada por você. — Eles entraram no pequeno café, que
estava aquecido e cheio de gente, e encontraram lugares ao fundo. Quando Aggie tirou as
luvas, seus dedos estavam vermelhos de frio. Ela precisou ficar de casaco até se sentir
aquecida. Duas garçonetes arregalaram os olhos ao ver Luiz e correram para atendê-los.
— Eu seria capaz de comer tudo o que tem no cardápio. — Aggie suspirou,
escolhendo uma baguete com frango e uma caneca de café. — E nisso que dá beber
demais. Não sei como me desculpar.
— E eu não sei como lhe dizer como é chato ouvir suas desculpas — respondeu
Luiz, irritado, olhando em volta. -Pensei que as mulheres só gostassem de falar sobre si
mesmas.
Aggie olhou-o com ressentimento, enquanto era servida. Deveria ficar constrangida
ao devorar uma enorme baguete, enquanto ele olhava, mas ela não se importava.
— Aposto que isso lhe dá nos nervos - disse ela entre duas mordidas no pão. Ele fez
a gentileza de corar.
— Costumo sair com mulheres cuja conversa não requer atenção.
— Então por que sai com elas? Ah, eu tinha esquecido. Por causa da aparência. —
Ela lambeu a maionese que sujara o seu dedo, sem perceber que ele se remexia na
cadeira, fascinado com aquele gesto inconscientemente sensual.
— Por que você sai com mulheres que o deixam entediado? Não quer encontrar
alguém e se casar? Casaria com alguém que o aborrecesse?
Luiz fez uma careta.
— Eu sou um homem ocupado. Não tenho tempo para complicar a minha vida com
um relacionamento.
— Um relacionamento não precisa complicar a vida. Aliás, pensei que iria facilitá-la e
tomá-la mais alegre. Esta baguete está deliciosa. Obrigada por tê-la comprado para mim.
Creio que deveríamos calcular a minha parte nesse... Nesse...
— Por quê? Se não fosse por mim, você não estaria aqui. — Ele bateu os dedos
sobre a mesa. O cabelo dela caía sobre o rosto. Ela o prendia atrás da orelha e lambia as
migalhas de pão que haviam ficado no canto de sua boca, como se fosse um gato.
— E verdade. — Aggie acabou de comer, recostou na cadeira e pegou a caneca de
café. — Então... — Ela lhe lançou um olhar provocador. — Creio que os seus pais querem
que você se case. Pelo menos, foi isso que...
— O quê?
— Não é da minha conta.
— Diga o que pretendia dizer, Aggie. Eu já vi você meio despida, você já me mandou
buscar suco de laranja. Acho que já superamos a fase de gentilezas.

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Maria disse que todos estão à espera de que você se case. — Ela ergueu o
queixo desafiadoramente. Se ele podia se meter na sua vida, por que não se meteria na
dele?
— Isso é um absurdo!
— Não precisamos falar sobre isso.
— Não há o que falar! — Mas não era por isso que ele preferia morar em Londres, e
não no Brasil, onde sua mãe o atormentava e questionava sua vida pessoal? Ele amava
sua mãe, mas, depois de três tentativas de juntá-lo com filhas de famílias amigas, ele
precisara puxá-la de lado e lhe dizer que ela estava perdendo seu tempo. — Graças a
três das minhas irmãs, os meus pais têm netos, e isso é suficiente, porque eu não
pretendo me casar tão cedo. — Ele esperou que ela dissesse algo, mas Aggie não disse
nada. — Na minha família, o peso de administrar os negócios, de expandir, de levá-los
para fora do Brasil, recaiu sobre os meus ombros. Isso não me deixa muito tempo para
ficar pensando nas necessidades de uma mulher. A não ser as físicas. — Ele completou
comum sorriso maldoso.
Aggie não sorriu de volta. Não lhe parecia um bom negócio. Sim, ter poder, status,
influência e dinheiro era muito bom, mas de que adiantaria, se você não pudesse
aproveitar tudo isso com alguém de quem gostasse? De repente, ela via um homem cuja
vida fora programada. Ele herdara um império e não tivera escolha a não ser assumir sua
responsabilidade. Ela não podia dizer que ele não gostasse, mas imaginava que estar
preso naquela situação em que as esperanças e os sonhos de todos se apoiavam sobre
seus ombros deveria ser muito solitário e isolado.
— Poupe-me deste seu olhar de pena - debochou Luiz, pedindo a conta.
— O que vai acontecer quando você se casar? — perguntou ela, genuinamente
perplexa, apesar de saber que ele não queria continuar com aquela conversa. Pela cara
dele, Luiz se arrependia de ter falado mais do que deveria.
— Eu não tenho ideia do que você está falando.
— Você vai entregar a administração da sua empresa para outra pessoa?
— Por que eu faria isso? É uma empresa familiar. Não permitiríamos que alguém de
fora a controlasse.
— Nesse caso, você nunca terá tempo para ser um marido. Quer dizer, se continuar
a trabalhar como trabalha agora.
— Você fala demais. — A conta chegou. Ele pagou e deixou uma boa gorjeta, sem
desviar os olhos do rosto de Aggie.
Enquanto isso, ela começava a sentir a cabeça latejar e ficava tonta. Luiz olhava
para os seus lábios, parecendo analisar a delicada beleza dos seus traços. No dia em que
tinham se conhecido, ele a medira de alto a baixo, mas nunca olhara para ela daquele
jeito. Havia algo de sensual na maneira como ele a fitava. Ou seria a sua imaginação?
Seria apenas uma maneira de ele evitar a conversa?
Aggie sentiu os seios endurecerem, seus pensamentos se tornaram confusos. Além
das razões mais óbvias, ele não fazia o seu tipo. Gostava de homens despojados,
informais e criativos. Nunca se interessara por homens que só vestiam ternos caros e
viviam para o trabalho. Então por que seu corpo reagia como se ela fosse uma
adolescente desinibida que estivesse no primeiro encontro com o rapaz dos seus sonhos?
Pior: era a primeira vez que ela reagia desse jeito. Ou, até aquele momento, teria
ingenuamente ignorado os sinais do próprio corpo, ao olhar para um homem e desejá-lo?

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Tem razão, eu falo. — Ela estava com a respiração ofegante e as pupilas
dilatadas.
Luiz registrou subconscientemente as reações de Aggie. Ele era sensível e, se não
se envolvia emocionalmente com as mulheres, compensava isso com a sua capacidade
para percebê-las e saber o efeito que lhes causava. Em geral, era um jogo de cartas
marcadas, e as mulheres que acabavam na sua cama entendiam perfeitamente as regras.
Ele jogava limpo. Nunca prometia nada, mas era um amante generoso e impetuoso.
Então, pensou ele, o que era aquilo? O que estava acontecendo? Aggie se
levantara, sacudira as migalhas da roupa, vestira o casaco, e agora puxava a boina de lã
para baixo e colocava as luvas. Evitava olhar para ele.
Como um predador subitamente em alerta, Luiz sentiu que algo dentro dele se
mexia. Eles saíram, e ele caminhou ao lado dela. Como sempre fazia quando estava
nervosa, Aggie começou a falar e elogiou entusiasticamente as luzes de Natal. Parou em
frente a uma loja para apreciar a vitrine. Seu coração batia tão forte que ela sentia
dificuldade de acompanhar seus próprios pensamentos. Como tinham acabado tendo
uma conversa tão pessoal? Quando deixara de mantê-lo à distância? Como esquecera
tudo o que odiava nele? Seria o poder da luxuria? A luxúria conseguiria virar o mundo de
cabeça para baixo, fazendo com que a pessoa esquecesse sua própria sensatez? Só de
admitir que estava atraída por ele, sentia-se estonteada.
Quando Luiz lhe disse que seria melhor voltarem porque ela estava pálida, Aggie
concordou imediatamente. De repente, aquela viagem parecia ter ficado mais perigosa.
Não era mais o caso de evitar um constante tiroteio. Era o caso de tentar mantê-lo.

Capítulo 5
Na manhã de segunda-feira, depois de Aggie passar duas tardes evitando assuntos
pessoais e percebendo que o seu corpo traía as suas boas intenções, a neve começava a
diminuir, mas não o bastante para que eles continuassem a viagem.
A primeira coisa que ela fez foi telefonar para a escola. Para sua sorte, a secretária
eletrônica informou que a escola estaria fechada até que o tempo melhorasse. Ela sabia
que, ainda que parasse de nevar, a temperatura abaixo de zero iria manter as ruas e as
estradas congeladas, assim como os parquinhos. Isso costumava acontecer uma ou duas
vezes por ano, e demorava alguns dias. Aggie olhou para o precário suprimento de
roupas que restava na sua bagagem e deu adeus à possibilidade de guardar dinheiro
para o Ano-Novo.
— Preciso voltar à cidade — disse ela a Luiz quando o encontrou na sala de
refeições, onde a sra. Bixby conversava com o hóspede permanente, que voltara na noite
anterior e que se queixava de não conseguir vender nada.
— Mais ar fresco?
— Preciso comprar algumas coisas.
— Talvez um novo casaco?
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Talvez um suéter, um jeans. Eu não pensei que ficaríamos presos na neve na
metade do caminho.
— Nem eu. Também preciso comprar algumas coisas.
— E você vai faltar à reunião. Disse que precisava fechar um negócio.
— Eu telefonei para o meu pessoal em Londres. Eles cobrirão a minha ausência.
Não é o ideal, mas eu preciso me conformar. Esta noite eu vou falar com eles e lhes dar a
minha opinião. Você ligou para a escola?
— Está fechada. — Ela sentou-se e tomou o café que havia sido servido.
Conversaram um pouco com a sra. Bixby, que se alegrou diante da perspectiva de que
eles ficassem mais tempo do que o esperado.
— Eu tentei ligar para o hotel onde o seu irmão e Maria estão hospedados, mas as
linhas não estão funcionando.
— De que adianta continuar? Eles iam ficar lá apenas alguns dias. Nós podemos
chegar lá e descobrir que eles pegaram o trem de volta para Londres.
— É possível.
— Isso é tudo o que você tem a dizer? — exclamou ela. — Nenhum de nós dois
pode faltar ao trabalho por causa de uma possibilidade! — A ideia de voltar para a sua
casa fria, desconfortável, livre de Luiz, era como vislumbrar um porto em meio à
tempestade. Aggie não entendia por que se sentia daquele jeito. Quanto mais rápido
saísse daquela situação, melhor. — Você disse que tem reuniões importantes. Pense nas
vidas que dependem de você fechar o tal negócio!
— Ora, Aggie, eu não sabia que você estava tão preocupada.
— Não seja sarcástico, Luiz. Você é maníaco por trabalho. Ficar aqui deve estar lhe
deixando louco. Para voltarmos a Londres, levaríamos o mesmo tempo que vamos
precisar para chegar a Lake District.
— Menos — informou ele.
— Melhor ainda!
— Além disso, estaríamos nos afastando do mau tempo — sugeriu ele.
— Exatamente!
— Isso não quer dizer que eu tenha intenção de voltar a Londres sem fazer o que
me propus. Quando eu começo algo, vou até o fim.
— Mesmo que não faça sentido? -perguntou ela.
— Essa conversa é inútil — falou Luiz friamente. — Por que esse repentino
desespero para abandonar o navio?
— Pensei que levaria apenas uma ou duas noites. Tenho coisas a fazer em Londres.
— Diga o quê. A escola está fechada.
— Ensinar é mais que dar aula. E preciso preparar as lições, corrigir os deveres de
casa.
— E você não trouxe o seu computador.
— Claro que não. — Ela já sabia que ele não iria desistir. — Eu tenho um
computador antigo. Não posso carregá-lo comigo. Nem pensei que fosse precisar.
— Eu lhe compro um laptop — disse ele sem pensar.
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Como disse?
— Todos precisam de um laptop. — Ele passou a mão na cabeça e corou. — Estou
surpreso por você não ter um. A escola não ajudaria a pagar?
— Eu tenho um computador que é da escola, mas não saio com ele. Não é meu. —
Ela estava admirada com a oferta, mas, no fundo, começava a ficar furiosa. — A quantia
que você gastaria com esse ato de generosidade, seria descontada quando você pagasse
para que o meu irmão e eu desaparecêssemos? Você está fazendo as contas
mentalmente?
— Não seja ridícula — rosnou Luiz. Ele não tocara na comida que a sra. Bixby
servira antes de se retirar discretamente.
— Obrigada, mas eu recuso a sua oferta generosa. — Aggie pensou no quanto suas
vidas eram diferentes. O seu corpo podia traí-la, fazer com que ela esquecesse a
situação, mas aquela era a realidade. Eles não estavam fazendo um passeio romântico, e
ele não era o homem dos seus sonhos. Estava ali porque ele a chantageara. Luiz era frio,
objetivo, tinha a visão limitada pelo passado de privilégios e achava que podia comprar as
pessoas. E podia, por que não? Seus contatos com a raça humana se baseavam em
transações financeiras. Escolhia mulheres por serem belas e o distraírem por algum
tempo. O que mais havia na vida dele? Acharia que não existia nada que ele não pudesse
comprar?
— Orgulhosa demais, Aggie?
— Não sei do que está falando.
— Você se ofendeu por eu ter me oferecido para comprar algo de que você precisa.
Você está aqui por minha causa. Pode perder o emprego por minha causa. Precisa
comprar roupas por minha causa.
— Está dizendo que cometeu um erro ao me trazer com você?
— Nada disso. — Luiz olhou para ela e franziu as sobrancelhas. Cada vez ficava
mais difícil acreditar que ela fosse uma mercenária. Que oportunista recusaria um guardaroupa de graça? Um laptop?
— Você tinha que vir comigo — disse ele sem convicção. — É possível que você
não estivesse envolvida na tentativa de juntar o seu irmão com a minha sobrinha.
— Então você cometeu um erro me arrastando até aqui.
— Eu ainda pretendo afastar o seu irmão de Maria.
— Mesmo sabendo que ele não tinha segundas intenções ao se envolver com ela?
O silêncio de Luiz disse tudo. Claro que ele não deixaria Mark casar com Maria. A
família não deixaria. Os ricos eram ricos porque protegiam o seu dinheiro. Casavam-se
com outros ricos. Era assim que o mundo que ele conhecia funcionava.
Era revoltante. Então por que não conseguia olhar para ele com indiferença e
desprezo? Por que se sentia tremendamente atraída por ele? Era surpreendente e
irritante ao mesmo tempo. Ela nunca se sentira assim. Era como se emoções que ela não
conhecesse tivessem saído de uma caixa, e ela não soubesse como lidar com elas.
— Você realmente pertence a um mundo diferente — observou ela. — É muito triste
que você não confie em ninguém
— É mais que isso — disse Luiz, irritado. — Há 20 anos, a mãe de Maria se
apaixonou por um norte-americano. O pai de Maria. O casamento foi rápido. A minha irmã

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
saiu da cerimônia e foi direto para a maternidade. Os meus pais estavam preocupados,
mas acharam melhor não dizer nada.
— Por que eles estavam preocupados? Por ele ser americano?
— Por ele ser um andarilho. Luisa o conheceu durante as férias, no México. Ele
trabalhava como salva-vidas em uma praia. Ela era jovem, e ele a enfeitiçou. Assim que
eles se casaram, as exigências começaram. Acontece que Brad James tinha gostos muito
caros. O dinheiro e os carros não bastavam. Ele queria um jato particular, dinheiro para
investir em negócios destinados ao fracasso. Maria não sabe disso. Só sabe que ele
morreu num acidente, durante uma aula de ultraleve. Luisa nunca esqueceu os erros que
cometeu.
— Sinto muito. Deve ter sido difícil crescer sem pai. — Aggie mordeu a torrada que,
naquele momento, parecia ter sabor de papelão. — Mas o meu irmão e eu não queremos
nada de vocês.
— Você não quer nada de ninguém, estou certo?
Aggie corou e desviou os olhos.
— Está.
— Mas eu insisto em lhe comprar algumas roupas. Aceite a oferta com o mesmo
espírito com que foi feita. Se isso a desgosta tanto, quando voltar a Londres você poderá
doá-las.
— Está bem — A sua recusa anterior agora lhe parecia vazia e tola. Ele estava
sendo prático. Ela não tinha culpa se precisava de roupas. Ele podia comprá-las. Por que
não aceitar a oferta? Fazia sentido. Ele não podia saber que ela não costumava aceitar
nada de ninguém, principalmente caridade. Ela aceitaria, e graciosamente. Seria melhor
que recusar a sua generosidade e culpá-lo.
Com a proximidade do Natal, a cidade estava movimentada. Não havia lojas de
departamentos, apenas uma série de pequenas butiques.
— Eu nunca fiz compras num lugar como este — disse Aggie, enquanto Luiz abria a
porta de uma loja para ela. - Parece caro. Deve haver um lugar mais barato.
Ele recuou e se apoiou na parede. Haviam feito o trajeto até a cidade em silêncio.
Luiz ficara irritado. As mulheres adoravam fazer compras. E daí se ela aceitara a sua
proposta sob coação? O fato é que ela estaria suprida de roupas e deveria estar feliz.
Mas, se estava, escondia muito bem.
— E eu nunca me hospedei em uma pousada. Você gosta de me lembrar de tudo o
que eu não conheço por causa da minha origem. Bem, fico feliz por conhecer. Apesar de
você ter feito comentários ácidos a respeito de eu não conhecer hotéis como aquele em
que estamos porque estou acostumado com cinco estrelas, você já me ouviu fazer
alguma reclamação?
— Não — admitiu ela, corando. Tudo o que ele dissera era verdade.
— Creio que estamos lidando com dois tipos de regras. Você pode me rotular, desde
que tenha certeza de que não está sendo rotulada.
— Eu não consigo evitar — gemeu Aggie envergonhada.
— Sugiro que você tente. Nós vamos entrar nesta loja, você vai experimentar o que
quiser e vai me deixar comprar o que escolheu. Nem que seja a maldita loja inteira, se lhe
der na telha!
Aggie riu.
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Você é maluco.
Luiz sorriu para ela. Ela quase não sorria. Não quando estava com ele. Mas, quando
sorria, o seu rosto se iluminava.
— Isso é um elogio? — perguntou ele amavelmente, e Aggie sentiu o chão sacudir
sob seus pés.
— Eu não estou preparada para responder — disse ela secamente, mas ainda
sorria.
— Vamos.
Era o tipo de butique em que as vendedoras eram treinadas para meter medo. Aggie
tinha certeza de que, se tivesse entrado ali sozinha, vestida como estava, com as botas
velhas, seria seguida e vigiada, mas, como estava com Luiz, a experiência estava sendo
diferente. A vendedora que arregalara os olhos ao vê-lo e fora recebê-los na porta foi
dispensada, e eles foram atendidos pessoalmente pela dona da loja, que os fez sentar
num sofá. As roupas eram trazidas até eles e quase imediatamente descartadas com um
gesto de Luiz.
— Eu pensei que iria escolher minhas próprias roupas — sussurrou Aggie, sentindose culpada por estar tão excitada com a experiência.
— Eu sei o que ficará bem em você.
— Eu deveria comprar um jeans... - Ela mordeu o lábio ao ver o preço de um jeans
que fora colocado em cima de uma cadeira. — Você não sabe o que fica bom em mim
— A julgar pelos cinza e preto que você costuma usar, eu sei que há chance de
melhorar.
Aggie se virou para ele, corada, pronta para protestar. E não soube o que
aconteceu. Ou melhor, soube exatamente o momento em que aconteceu. Os olhares dos
dois se encontraram. O dele, escuro e divertido. O dela, azul e flamejante. Sentados lado
a lado no sofá, ela sentiu o seu hálito e quase engasgou. Sabia que ele iria beijá-la antes
mesmo de sentir o toque de seus lábios sobre a boca. Era como se estivesse esperando
isso há muito tempo. Como se estivesse esperando desde o dia em que o conhecera. Foi
um beijo rápido, mas, quando ele se afastou, ela percebeu que ainda estava apoiada
nele, com os olhos meio fechados e a boca entreaberta.
— É falta de educação começar uma briga dentro de uma loja — murmurou Luiz,
despertando-a do seu transe.
— Você me beijou para me fazer calar a boca?
— É um jeito de acabar com uma briga instantaneamente.
Aggie tentou ficar zangada, mas não conseguiu. Seus lábios ainda ardiam, e o seu
corpo estava em fogo. O beijo de alguns segundos fora quente como um ferro de marcar.
Enquanto ela tentava esconder o quanto fora abalada, ele olhava para outro lado e
observava a dona da loja, que voltava com mais uma pilha de roupas.
— Jeans... Estes três. Aqueles agasalhos e esse vestido... Esse não. Aquele último.
— Luiz se voltou para Aggie, que comprimia os lábios. - Parece que você comeu um
limão.
— Eu apreciaria se você mantivesse as suas mãos longe de mim! — resmungou ela
furiosa. Luiz sorriu, sem se deixar perturbar.

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Eu não tinha percebido que as minhas mãos tinham entrado em contato com o
seu corpo — falou ele amavelmente. — Se fosse o caso, você certamente saberia. Seja
uma boa menina e experimente estes. Ah, e eu quero ver como você fica neles.
Aggie nada tinha de exibicionista, mas não podia negar que estava excitada ao
desfilar diante dele com as roupas que experimentava. Quando chegou a vez do vestido,
ela parou na frente dele e olhou-o com ar de dúvida.
— Um vestido?
— Vá por mim.
— Eu não gosto de azul-claro. — Nem costumava usar vestidos de seda com
decotes acentuados, colados a cada curva do seu corpo. — Experimentar esse vestido no
inverno é loucura — reclamou ela, equilibrando-se nos saltos altos que a vendedora lhe
entregara. — Lá fora está nevando...
Luiz perdera a fala mais uma vez. Estivera esparramado no sofá, com as mãos no
colo. Mas, de repente, se sentava muito reto e corria os olhos pelo seu corpo
incrivelmente sexy. O azul do vestido realçava o tom de água-marinha de seus olhos, e o
tecido sedoso deixava muito pouco para a imaginação, mostrando o inesperado volume
dos seus seios, a proporção de suas pernas, a firmeza da sua barriga. Ele sentiu vontade
de mandar que ela removesse o sutiã para poder ver o vestido sem as duas alças
brancas em seus ombros.
— Vamos levar tudo. — Ele ficou feliz por poder pegar o casaco que deixara nas
costas do sofá e esconder a súbita ereção. Não conseguia tirar os olhos dela, mas sabia
que, quanto mais olhasse, maior seria o seu tormento. — É melhor nós irmos embora. Eu
não quero ficar na cidade por muito tempo. - Enquanto Aggie voltava ao provador, ele
olhou fascinado para o balanço dos seus quadris. — Também vamos levar os sapatos —
disse ele à dona da loja, que estava feliz por ter um cliente que comprara metade do seu
estoque, incluindo um vestido que sobrara do último verão.
— Obrigada — agradeceu Aggie quando saíram, cada um carregando quatro
sacolas. Ela comprara um casacão e o vestira. Por mais que detestasse admitir, fora
ótimo. Não se entristecera ao dar adeus ao velho casaco, que deixara na loja para ser
descartado.
— Foi uma experiência tão cansativa quanto você achava? — perguntou ele,
pensando no volume arredondado dos seus seios e nas suas curvas sob o vestido.
— Foi incrível — admitiu Aggie. — Mas nós demoramos demais. Você quer voltar, e
eu ainda preciso comprar algumas coisas. Poderíamos nos separar, e você iria comprar o
que precisa.
— Não vai querer que eu desfile para você? — perguntou ele, ficando satisfeito ao
ver que ela corava. Não esperara enfrentar uma tensão sexual tão forte. Não sabia de
onde tinha vindo nem quando aparecera, mas não fazia sentido porque ela não era o seu
tipo de mulher, nem ele era o seu tipo de homem. Ela era briguenta e explosiva, e ele não
começara aquela viagem achando que ela fosse uma mercenária? Mas havia algo
estranhamente erótico na atração que ele sentia por ela, algo extremamente excitante na
maneira como ela olhava para ele por sob as pestanas. Só de pensar, ele ficava excitado.
O problema era: o que ele iria fazer? Aonde isso o levaria? Luiz despertou do seu
excepcional momento de distração, para ouvi-la dizer que gostaria que ele fizesse um
desvio e parasse em algum lugar.
— Seven o quê?

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Gostaria que você parasse em Sevenoaks. Eu não vou lá há um ano e meio, e
seria apenas um pequeno desvio.
— O que é Sevenoaks?
— Você não ouviu nada do que eu falei? — Ela achava que, depois da pequena
distração na loja, ele voltara a se preocupar com o trabalho.
— Entrou por um ouvido e saiu pelo outro — disse ele, admirando-se por ter ficado
tão perdido em pensamentos que não ouvira nada do que ela dissera.
— Sevenoaks é a casa onde nós crescemos — repetiu Aggie. - Poderíamos parar
lá? Significaria muito para mim. Eu sei que você está com pressa de chegar ao hotel onde
Mark está, mas algumas horas não fariam muita diferença, não é?
— Podemos parar.
— Ótimo. Obrigada. — De repente, ela percebeu que não iria se importar se
passasse o resto do tempo com Luiz na cidade e diminuiu o passo para se afastar do
encanto que ele parecia espalhar à sua volta. — Eu estou indo... Mais tarde nos
encontraremos no hotel.
— O que você vai comprar? - perguntou Luiz. — Pensei que já tínhamos comprado
o necessário. Se você precisa de outras coisas, há uma loja de lingerie aqui perto...
Aggie reagiu como se tivesse levado uma ferroada. Imaginou-se desfilando diante
dele de calcinha e sutiã.
— Posso comprar minha roupa de baixo. Obrigada. E não. Eu não estava pensando
nisso.
— Então no quê?
— Está ficando mais frio e eu gostaria de voltar logo ao hotel... — Ela recuou,
olhando para ele como se estivesse presa ao olhar hipnótico de algum predador.
— Está bem, eu a encontro lá em... -Ele consultou o relógio. — Dentro de algumas
horas. Eu preciso trabalhar. Vamos marcar às 18h30, na sala de refeições. Se nós
pretendemos fazer uma parada, devemos sair amanhã bem cedo, a não ser que neve
mais durante a noite. Precisamos dormir cedo.
— Claro — respondeu Aggie educadamente. Pelo tom com que ele falou, ela
percebeu que, por mais que fizessem uma trégua, Luiz não iria desistir da sua missão.
Pareceu-lhe inapropriado ter se excitado ao desfilar para ele há alguns minutos. Ela
alardeara o seu desprezo pelo dinheiro, a sua falta de cobiça, mas acabara desfilando
para ele, exibindo-se em roupas muito caras. De repente, Aggie pensou que, de certa
maneira, tinha sido comprada. E ainda gostara da experiência. — Quero que você saiba...
- falou ela em tom gélido. — Assim que voltarmos a Londres, eu vou lhe devolver tudo o
que você comprou.
— Não diga besteira! — retrucou Luiz com impaciência. — Pensei que tínhamos
resolvido isso e que você tinha reconhecido que não é um pecado mortal deixar que eu
lhe compre algumas roupas que se tornaram indispensáveis, já que a viagem foi
prolongada.
— Um vestido de verão não é algo indispensável.
— Saia do seu casulo, Aggie. E daí que o vestido não é essencial? Tente ser fútil de
vez em quando. — Ele não conseguia evitar e olhava para os seus lábios. Mesmo quando
ela o enfurecia, conseguia excitá-lo.
— Você me acha tola!
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Acho que é ridículo discutir um assunto sobre o qual já conversamos, parados na
neve. A última coisa que precisamos é pegar uma gripe.
Diante do desprezo por seus escrúpulos e percebendo que seu orgulho fora
colocado no lugar sem nenhuma gentileza, Aggie se virou e se afastou, sem olhar para
trás. Ele estava se divertindo com o seu comportamento contraditório. Num minuto, ela
aceitava a sua generosidade, e no outro, ela se rebelava. Não fazia sentido. Quando
estava perto dele, ela era o oposto da pessoa determinada e racional que costumava ser.
Aborrecida consigo mesma, Aggie fez o que queria fazer na cidade, incluindo a
compra de algumas roupas de baixo. Assim que voltou ao hotel, subiu para o quarto,
levando uma caneca de chá. Tentou entrar em contato com o irmão, mas nem o celular
nem o telefone do hotel davam sinal. A essa altura, deveria estar apavorada com a cena
que iria se desenrolar. Deveria estar deprimida ao pensar que Luiz seria implacável e
precisava se preparar para o que viria a seguir. O seu instinto de proteger o irmão já
deveria ter despertado.
Em vez disso, ela se sentou perto da janela e começou a pensar em Luiz, em seus
lábios roçando os dela. O beijo eletrizara todo o seu corpo. Aggie percebeu que, apesar
de ser errado, ansiava por se encontrar com ele. Para combater sua ansiedade, ela tomou
um banho demorado, se vestiu calmamente e entrou na sala de refeições com meia hora
de atraso.
Parou na porta e se acalmou. Luiz estava vestindo as roupas que deveria ter
comprado: jeans e suéter pretos. Estava sentado diante do laptop e fitava a tela,
preocupado. O modelo do magnata que controlava o seu império a distância. Um homem
que podia ter a mulher que quisesse. Por que ela se agitava toda vez que o via? Ele a
beijara para que ela calasse a boca, e ela agia como se ele a tivesse levantado do chão e
levado para a cama. Ele ergueu os olhos e pegou-a olhando para ele. Fechou o
computador e, em alguns segundos, registrou o novo jeans, mais apertado que o velho, e
a camiseta colorida de mangas compridas que ela vestira.
— Espero não ter interrompido o seu trabalho — disse ela, sentando-se na frente
dele e olhando desconfiada para o balde de gelo e a garrafa de vinho ao lado da mesa.
Não era hora para beber.
— Está feito. Você ficará feliz ao saber que o negócio está praticamente fechado.
Empregos salvos. Empregados satisfeitos. Alguns deles terão aumento de salário. O que
você comprou depois que nos separamos? — Ele lhe serviu uma taça de vinho, e Aggie
ficou brincando com a haste do copo.
— Alguns brinquedos para levar para o lar adotivo. As crianças não costumam
receber muitos presentes. Vou embrulhá-los, e eles ficarão muito alegres. Claro que eu
não podia gastar muito, mas encontrei uma loja onde não havia nada que custasse acima
de 5 libras.
Luiz viu a sua expressão radiante. Era isso que faltava nas mulheres com quem ele
saía. Todas lindas. Algumas tinham sido capas de revistas. Mas, comparados com o rosto
expressivo de Aggie, os rostos delas lhe pareciam vazios e sem vida. Como manequins.
Era de admirar que ele se cansasse delas tão rapidamente?
— Nada acima de 5 libras — murmurou ele, admirado pela preocupação com que
ela dizia aquilo.
Depois de tanto ter tentado desvendar o misterioso motivo pelo qual ela o atraía, ele
concluía que era porque ela oferecia muito mais que um lindo rosto e um corpo sexy.
Nunca se preocupara por se cansar facilmente das mulheres, porque não as queria por
perto. Chloe, com quem não podia dizer que tinha tido um relacionamento longo, fora a
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
que mais durara. Isso queria dizer que o seu paladar refinado precisava de uma mudança
de cenário. Aggie podia não corresponder ao que ele procurava, mas representava uma
mudança em todos os sentidos.
— Por que você está me olhando desse j eito? — perguntou ela desconfiada.
— Eu estava pensando nos meus natais exagerados. Começo a perceber por que
você acha que eu vivo numa torre de marfim.
Ela riu.
— Vinda de você, essa confissão é admirável.
— Talvez seja a desvantagem de nascer rico. — Aquilo era algo que ele nunca
admitira.
— Para ser absolutamente sincera... - Aggie se inclinou na direção dele com uma
expressão de aprovação. O seu sistema de defesa se desmanchara ao ver que ele
conseguia admitir suas falhas. - Eu sempre achei que querer ter dinheiro era uma perda
de tempo. É evidente que ele não é o mais importante, mas eu realmente me diverti
naquela butique.
— Do que você gostou mais?
— Eu nunca sentei numa cadeira e esperei que me trouxessem roupas para
escolher. Isso sempre acontece com você?
— Eu não tenho tempo para isso - declarou Luiz secamente. — Eu tenho um alfaiate
para fazer os meus ternos. Tenho contas em lojas. Se eu precisar de alguma coisa, só
preciso pedir. Os vendedores conhecem o meu gosto. Você gostou de desfilar para mim?
— Bem... Hã... — Ela corou. — Isso também foi algo que eu fiz pela primeira vez.
Creio que você queria ver o que estaria pagando... Isso não soou bem. Não foi isso o que
eu quis dizer.
— Eu sei o que você quis dizer. — Ele bebeu um gole de vinho e olhou para ela por
cima do copo. — Eu pagaria apenas para vê-la desfilar com aquelas roupas - murmurou
ele. — Mas, se eu sugerisse isso, você ficaria ofendida. Pena que havia mais gente
olhando. Do contrário, eu teria insistido para você provar o vestido sem o sutiã.
— Você não está falando sério - murmurou Aggie.
— Claro que estou — falou ele indignado. — Eu não sei o que aconteceu, mas me
sinto extremamente atraído por você. Só estou lhe dizendo isso porque sei que você
sente o mesmo.
— Eu não!
— Vamos testar isso agora mesmo, Aggie.
Desta vez, não houve gentileza no beijo. A intenção não era distraí-la, e sim provar
uma suposição. Ela se sentiu indefesa contra o impacto que a atingia. Não havia lógica na
maneira como ela reagia, levada por um impulso cego. Com um gemido de rendição, ela
se deixou levar e mergulhou em sensações que jamais sentira.
— Está provado — disse Luiz ao se afastar, ainda com mão no rosto dela. - Só nos
resta saber o que vamos fazer a respeito disso.

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams

Capítulo 6
Aggie não conseguiu dormir. As palavras de Luiz soavam repetidamente em sua
cabeça. Durante o jantar, ele não mencionara mais o assunto, mas a tensão que existia
entre os dois vibrava e enchia o ar de pensamentos não manifestados. Ela teria sido tão
transparente? Quando ele percebera que ela estava atraída por ele? Fizera de tudo para
esconder a verdade, mas ele a expressara com a maior naturalidade. Luiz era um homem
extremamente sensual, e não teria problemas para ver o sexo como uma consequência
natural da atração que sentiam. Não ficaria angustiado e não acharia que estava abrindo
mão de seus princípios. Para ele, um relacionamento sexual entre os dois seria um
problema separado dos motivos daquela viagem, porque ele não costumava misturar as
coisas.
Um pouco depois da uma hora da manhã, ela desistiu de tentar dormir. Vestiu um
roupão, calçou os chinelos e saiu do quarto. A desvantagem de hotéis como aquele era
não ter serviço de quarto para servir um leite quente em casos de insônia, mas a sra.
Bixbe dissera que eles tinham liberdade de usar a cozinha sempre que precisassem Aggie
pensou que uma xícara de chocolate quente seria melhor e a faria pensar em outra coisa
que não fosse Luiz, no que ele dissera, em quando ele começara a olhar para ela. Mas
isso não importava, ela pensou, voltando para o quarto e levando a caneca de chocolate
quente. O importante é que, independentemente do resultado, eles terminassem aquela
viagem o mais rápido possível e ela voltasse à sua vida normal. A vantagem é que Luiz
deixara de suspeitar que ela estava atrás de algum lucro e talvez tivesse concluído o
mesmo a respeito de seu irmão. Ele ainda achava que tinha o dever de intervir num
relacionamento considerado inaceitável, mas não haveria acusações de oportunismo.
Quando Aggie pensou na sua vida normal, antes de toda aquela confusão, voltou a
pensar em Luiz. A imagem do seu rosto sexy impedia que ela pensasse nas crianças da
escola e no que estariam preparando para o Natal. O que ela não esperava era encontrar
o objeto de seus pensamentos no topo da escada, na obscuridade do patamar, com uma
toalha enrolada na cintura e outra pendurada no pescoço. Ela parou e soltou uma
exclamação inarticulada, enquanto ele se aproximava.
— O que faz aqui? — perguntou ela enquanto ele tirava a caneca de chocolate da
sua mão.
— Eu poderia perguntar o mesmo.
— Eu... Estava com sede.
Luiz não respondeu. Voltou-se e caminhou na direção da porta do quarto dela. Aggie
o seguiu, sentindo as pernas bambas. A visão de suas costas bronzeadas, dos ombros
largos, lembrava-a de que era inútil negar a atração sexual que ele mencionara algumas
horas antes e que ela passara parte da noite tentando apagar.
Ele estava calmo. Enquanto ela sentia os nervos em frangalhos, ele estava frio e se
afastava gentilmente para que ela passasse pela porta do quarto. Ela entrou e parou,
antes que ele entrasse também.
— Boa noite. — Suas faces estavam em fogo, e ela não conseguia olhá-lo nos
olhos, mas sabia que ele deveria estar sorrindo ironicamente.
— Você não conseguiu dormir. Não sei se o chocolate vai lhe ajudar. Creio que isso
é uma antiga lenda... — Apesar de não entrar no quarto, Luiz ignorara o seu boa-noite.
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
Seria coincidência ter se encontrado com ela na escada? Ou teria sido destino? As leis da
atração... Não era assim que chamavam? Deveriam estar funcionando, porque ele
estivera pensando nela e resolvera esfriar seus pensamentos com um banho, acabara
encontrando-a praticamente do lado de fora da porta do seu quarto. Nunca pensara que
teria que agradecer o fato de o hotel só ter duas suítes. — Eu também não consegui
dormir - confessou ele, olhando para ela. Mesmo àquela hora, ela ainda era bonita. Sem
maquiagem, cabelo desgrenhado. Pronta para ser agarrada e carregada para a cama. Ele
ficou excitado, teve uma ereção e sua respiração acelerou.
Aggie pigarreou e disse algo como “que pena!”, enquanto Luiz lhe entregava a
caneca.
— Você quer saber por quê?
— Não estou interessada.
— Não está? — Não importa o que ela dissesse, Luiz teve uma resposta na sua
hesitação, antes que ela negasse com a cabeça.
Não se enganara. Ela o desejava tanto como ele a desejava. Ele deu um sorriso de
satisfação e brincou com a ideia de acabar com a conversa e simplesmente... beijá-la.
Enfiar as mãos em seu cabelo louro, puxá-la e lhe mostrar o quanto estava excitado.
Beijá-la até que ela implorasse para ele não parar.
Luiz percebeu que ela estava assustada e se deu conta de que nenhuma mulher o
atraíra tanto como ela. Passara horas com o computador ao seu lado, na cama, olhando
para o teto, pensando nela. Dissera o que tinha a dizer e deixara o assunto morrer, na
expectativa de que, depois de ter plantado a semente, esta florescesse.
— Eu quero você — falou ele roucamente. — Não posso ser mais claro. Se quiser
me tocar, você pode sentir a evidência.
O coração de Aggie batia tão forte que ela não conseguia raciocinar.
— E você sempre consegue o que quer?
— Você é quem diz. Consigo?
Aggie respirou fundo e se arriscou a fitar os olhos que a deixavam estonteada.
— Não.
Por alguns segundos, Luiz pensou ter ouvido errado. Ela o recusava? Nenhuma
mulher lhe dizia não. Por que o faria? Sem nenhuma vaidade quando se tratava do sexo
oposto, ele sabia exatamente o que tinha a oferecer.
— Não — repetiu Luiz. Ela concordou com a cabeça. — O que quer dizer?
-perguntou ele, genuinamente confuso.
— Quero dizer que você entendeu errado — disse Aggie.
— Posso perceber o que você está sentindo — falou ele bruscamente. - Existe algo
entre nós, uma química. Nós não pedimos isso, mas aconteceu.
— Isso não faz diferença — falou ela com firmeza. — Estamos em lados diferentes
da cerca, Luiz.
— Quantas vezes preciso repetir que admito que você é inocente da acusação que
eu lhe fiz?
— Isso é importante, mas existem outras coisas. Você faz parte de uma dinastia.
Pode achar que é divertido passar para o outro lado da linha, mas eu não sou um
brinquedo que você pega e, quando se cansa, descarta.
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Eu nunca sugeri que você fosse. -Ele pensou que, se ela fosse um brinquedo,
gostaria muito de brincar com ela.
— Posso não ser rica, posso ter crescido num orfanato, mas isso não quer dizer que
eu não tenha princípios.
— Se eu sugeri isso, peço desculpas.
— E também não significa que eu seja fraca! — Aggie ignorou a desculpa porque
sabia que, tendo controlado o seu ímpeto, precisava aproveitar.
— Aonde você pretende chegar? — Luiz tinha a estranha impressão de ter perdido o
controle.
— Eu não vou ceder ao fato de que, sim, você é um homem bastante atraente e de
que estamos dividindo o mesmo espaço.
— Não acredito no que estou ouvindo.
— Não tenho culpa se você leva uma vida na qual sempre consegue tudo o que
quer com um estalar de dedos.
Luiz fitou os olhos cor de água-marinha capazes de deixar um homem de joelhos,
sem compreender. Sim, talvez ele levasse uma vida maravilhosa e sempre conseguisse o
que queria, mas aquilo era loucura! A tensão entre os dois era tangível, eletrizante. O que
havia de errado em que dois adultos conscientes fizessem o que claramente desejavam
fazer, ainda que ela não admitisse que queria?
— Portanto... — Aggie foi até a porta e se agarrou à maçaneta, porque suas pernas
tremiam — Se não se importa, eu estou cansada e gostaria de voltar para a cama —
disse ela sem olhar para ele. Mas abaixar os olhos também não adiantava, porque via o
seu peito, seus músculos definidos.
Luiz percebeu que ela o mandava embora e disse a si mesmo que deveria esquecêla. Nunca fora rejeitado, mas aceitaria o fato de estar sendo educadamente rejeitado
agora. Nunca fora atrás de uma mulher, e deveria ter mantido o antigo padrão.
— Claro — falou ele friamente, segurando as pontas da toalha que estava sobre
seus ombros.
— Eu... Vejo você amanhã. A que horas você quer sair? — Desta vez ela o encarou.
— Você ainda vai fazer aquele desvio até... Você sabe. Eu vou compreender se você
quiser chegar ao nosso destino o mais rápido possível. - Mas ela gostaria de ver Gordon,
Betsy e as crianças. Quase não tinha oportunidade de visitá-los.
— E você ainda discute os meus princípios?
— Do que está falando? — Foi a vez de ela ficar confusa e de se encolher diante do
tom indignado da voz dele.
— Você acabou de dizer que eu não consigo controlar os meus instintos básicos...
Mas eu devo questionar a escolha que você faz de homens, porque parece que você me
incluiu na categoria que dá sua palavra e a retira quando ela deixa de lhe ser conveniente!
Ela corou e ficou boquiaberta.
— Eu não disse...
— Claro que disse! Eu disse que iria levá-la para ver seus amigos e pretendo manter
a minha promessa. Posso ser várias coisas, mas sou honrado.
Com isso, ele foi embora. Aggie se apoiou na porta como uma marionete cujas
cordas tivessem sido cortadas. Ficou ali por alguns minutos, respirando pesadamente,
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
tentando não pensar no que tinha acontecido. Mas era impossível. Ele tentara seduzi-la,
Aggie pensou, tentando resumir a situação a termos que pudesse entender. Já fora
cantada por outros homens, mas costumava rejeitá-los sem pensar duas vezes.
Mas aquele homem.. Ele mexia com ela. Excitava-a. Fazia com que ela se tomasse
consciente da sua sexualidade e tivesse vontade de explorá-la. Apesar das desvantagens,
das diferenças que havia entre eles. Mas fora melhor rejeitá-lo. Ela apreciava que ele
tivesse sido direto e sincero. Ir para a cama porque se sentiam atraídos? Aggie sabia que
muitas mulheres teriam se agarrado àquela oportunidade. Ele não era apenas bonito, mas
tinha algo de naturalmente persuasivo e sexy. Por um lado, a sua arrogância a deixava
fria; por outro, fascinava-a.
Ela caiu na cama e fechou os olhos. Felizmente fora forte o bastante para se
controlar. Deveria estar orgulhosa. Com as luzes apagadas, a caneca de chocolate
esquecida e com uma falta de sono ainda maior do que a que sentira antes, Aggie se pôs
a pensar nas mulheres que deveriam ter cedido. Luiz sempre conseguia o que queria. O
que queria? Por que estaria atraído por uma mulher como ela? Aggie era bonita, mas ele
conseguiria ter mulheres muito mais bonitas que ela, que não iriam aborrecê-lo com
perguntas e discussões nem se recusariam a ceder.
Aggie foi forçada a concluir que havia verdade no ditado que dizia que uma
mudança é tão boa quanto um descanso. Ela era diferente, e ele presumira que
simplesmente poderia colhê-la como se colhe um fruto maduro de uma árvore, prová-la,
jogá-la de lado e voltar a procurar frutos que lhe fossem familiares. O pior era pensar nos
seus próprios motivos, porque Aggie costumava levar os relacionamentos a sério. Por que
estava atraída por Luiz? Existiria uma parte dela, ainda desconhecida, que fosse
puramente física? Uma parte escondida, livre de restrições, de princípios, de sensatez
que ela não sabia existir?
Como os dois iriam se comportar agora, que aquele ingrediente fora colocado na
mistura? Ele ficaria frio e distante porque ela o rejeitara? Depois de ter visto sinais do seu
charme, da sua inteligência, do seu senso de humor, como suportaria lidar com a
indiferença de Luiz?
Na manhã seguinte, ela descobriu que não precisava ter se preocupado tanto.
Quando ela desceu para o café da manhã, encontrou-o conversando com a sra. Bixby.
Ele olhou para ela com um olhar impenetrável, mas a recebeu sem mostrar nenhum
rancor ou hostilidade, incluindo-a na conversa que girava em tomo do que poderiam ver
durante o caminho e dos vários parentes que a sra. Bixby parecia ter espalhados em toda
a região.
Luiz percebeu que Aggie evitava olhar para ele e se concentrava no que a sra. Bixby
estava dizendo, mas conseguiu se controlar diante da sua indiferença. Quando saíra do
quarto dela, sentira-se ultrajado com a sua rejeição, mas contivera a raiva e a frustração
porque ainda era um homem que possuía autocontrole. Ele conseguiria esquecê-la
recorrendo à ideia filosófica de que algumas vezes se ganha, outras, se perde. Se jamais
tinha perdido, estava na hora de descobrir como era. Com uma mulher que era uma
visitante temporária e insignificante no grande quadro da sua vida.
A nevasca diminuíra. Aggie ligou para a escola, explicou-se vagamente e desculpouse por sua ausência, mas se sentiu culpada quando lhe disseram que, se estava
resolvendo problemas de família, não precisava se preocupar, porque o período letivo
estava terminando. Os problemas que enfrentava eram pessoais, mas ela dera a
impressão de que fossem mais extensos. Ela olhou disfarçadamente para Luiz e imaginou
o que ele estaria pensando. Quando a sra. Bixby foi embora, ele lhe perguntou
gentilmente se estava pronta para partir.
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Deveríamos aproveitar a melhora do tempo — disse ele, levantando-se. - Isso
não vai durar. Se você for pegar as malas, eu encerro a conta e nos encontramos na
recepção.
Então era isso, Aggie pensou. Deveria estar contente. Satisfeita por ele se comportar
normalmente. Pelo clima não ter mudado entre os dois. Quase como se nada tivesse
acontecido. Poderia ter sido um sonho, porque o rosto dele nada demonstrava, e o tom da
sua voz não sugeria o contrário.
A sra. Bixby os abraçou efusivamente e se despediu. Aggie se remexeu no banco do
carro, esperando que ele dissesse algo a respeito de terem atravessado os limites. Mas
nada. Luiz lhe pediu o endereço do lar adotivo e pediu que ela programasse o GPS, o que
ela fez com dedos trêmulos.
Levaria algumas horas. O tempo iria piorar a medida que se aproximassem do norte.
Tinham tido sorte por encontrar um lugar tão agradável para ficar durante dois dias, mas
não poderiam se arriscar a parar outra vez. Luiz falava amavelmente, e Aggie ficou
apavorada ao descobrir que isso a irritava. Só percebia a chama eletrizante que existia
entre os dois porque ela se apagara. Quando a conversa morreu, ele ligou o rádio, e os
dois ficaram calados. Ela se concentrou em seus pensamentos e se assustou quando ele
desligou o rádio e parou o carro.
— Parece que chegamos.
Pela primeira vez desde que tinham começado a viagem, ela o brindou com um
sorriso tão alegre e espontâneo que ele perdeu o fôlego e imaginou se fora um sorriso de
alívio. Alívio por não precisar estar com ele. Quer estivesse atraída por ele ou não, Aggie
deixara claro que a antipatia que sentia por ele ultrapassava qualquer atração física.
— Faz muito tempo que eu não venho aqui. — Ela respirou fundo. — Quero ficar
algum tempo sentada no carro, respirando esse ar.
Luiz pensou que qualquer pessoa acharia que ela fosse uma filha pródiga que
voltava ao seu palácio, mas o que ele via era uma velha casa de pedras, com um jardim
bem cuidado de cada lado da entrada e brinquedos espalhados sobre a grama. Ao fundo,
um grupo de árvores desfolhadas.
— O mesmo ônibus! — disse ela emocionada, olhando para o velho ônibus
estacionado ao lado. — Betsy sempre se queixa dele, mas acho que ela adora a sua
imprevisibilidade.
— Não é o que eu imaginei — disse Luiz.
— O que você imaginou?
— Parece uma casa muito pequena para um bando de crianças e de adolescentes.
— Sempre são apenas dez crianças, e a casa é maior na parte de trás. Você vai ver.
Tem um jardim de inverno enorme, onde Betsy e Gordon podem descansar durante a
tarde, enquanto os mais velhos estão fazendo suas lições de casa. Eles sempre foram
muito exigentes quanto a isso. — Ela se virou e tocou o braço dele. — Se não quiser,
você não precisa entrar. O vilarejo fica perto, e você pode ir tomar um café ou algo assim.
Você tem o número do meu celular. Quando se cansar, ligue para mim, e eu vou até lá.
— Você não está com vergonha de mim, está? — perguntou ele em tom irritado.
— Claro que não! Eu só estava pensando em você. Eu sei que você não está
acostumado com esse tipo de... ambiente.
— Deixe de me resumir a um estereótipo! — falou ele, trincando os dentes. Ela se
encolheu, como se tivesse levado uma bofetada.
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
Luiz não reclamara na pousada. Pelo contrário, parecera ter ficado impressionado
com tudo e fora encantador com a sra. Bixby. Aggie de repente se envergonhou por tê-lo
rotulado, porque sabia que, fossem quais fossem as suas origens e educação, ele não
merecia ser classificado daquela maneira. Se ela fizera isso, fora por causa de suas
próprias limitações.
— Desculpe — falou ela depressa. Ele concordou com um aceno de cabeça.
— Fique o tempo que quiser — disse ele. — Eu levo a sacola de presentes para
dentro. Não se apresse. Vou ficar observando de fora. Passei tantas horas dirigindo que
dispenso mais um percurso para ir tomar um café.
Luiz lhe deu meia hora para se reencontrar com os pais adotivos enquanto pensava
no caminho que ainda tinham a percorrer, em Aggie, no que ela deveria estar sentindo ao
se reunir com a sua família substituta. Ela ainda não deixara de vê-lo como alguém
unidimensional, e ele não podia culpá-la. Ele entrara na sua vida como um touro numa
loja de cristais, esclarecera seus objetivos, expressara suas opiniões e oferecera uma
solução financeira. Ou seja, correspondera a todas as expectativas que ela deveria ter em
relação às pessoas que possuíam dinheiro e poder. Ele nunca se preocupara com a
maneira como tratava as pessoas. Sempre confiara em suas habilidades, no seu poder e
na sua influência. Como filho único de uma família cuja fortuna era incomensurável,
aceitara o peso da responsabilidade e assumira os negócios, adicionando-lhes a sua
própria fortuna. Além disso, havia as vantagens que vinham com o dinheiro, inclusive, ele
admitiu com relutância, uma atitude que podia ser interpretada como arrogante e abusiva.
Luiz pensou que isso nunca lhe ocorrera, mas ele sempre estivera rodeado de
pessoas que o respeitavam ou temiam e que nunca iriam dizer nada que pudesse ser
interpretado como crítica. Agatha Collins não fazia parte desse grupo. Ela não se calava
quando se tratava de defender os próprios pontos de vista e de apontar seus defeitos,
apesar de se desculpar rapidamente quando considerava que tinha sido injusta. Era uma
pessoa que dizia o que pensava, sem temer as consequências. Pensando nisso, ele saiu
do carro e pegou a sacola de presentes que ela comprara. Deu uma olhada e viu que ela
os embrulhara num lindo papel de Natal.
A porta abriu antes que ele tocasse a campainha, e Luiz ficou desorientado com
tantas sensações despertadas. Barulho, caos, crianças, risadas, cheiro de comida,
desenhos coloridos pendurados nas paredes, casacos também Sapatos e galochas
enfileiradas ao lado da porta. Um menino que chegava quase à altura da sua cintura, com
enormes olhos castanhos, rosto esperto e com a boca suja de chocolate, olhou para ele,
disse o seu nome e anunciou que sabia quem ele era, porque Aggie dissera que deveria
ser ele. Por isso, Betsy permitira que ele abrisse a porta, o que costumava ser proibido.
Isso tudo foi dito sem nenhuma pausa, enquanto se fazia silêncio e crianças de idades
variadas se aproximavam para observá-lo com curiosidade.
Luiz nunca se sentira tão analisado ou desprovido de palavras. Ser o foco da
atenção de uma dezena de crianças que nem sequer piscavam lhe tirara a fala. Ele
pigarreou e ficou aliviado quando Aggie saiu de uma sala, acompanhada por uma senhora
de cerca de 70 anos, alta, com uma expressão calorosa, que ele podia ver que era
adorada pelas crianças.
— Você parece perturbado — sussurrou Aggie, depois das apresentações, enquanto
Betsy se desculpava pela confusão e a atribuía ao fato de ser Natal, e o convidava para
comer alguma coisa.
— Perturbado? Eu nunca fico perturbado. — Ele ergueu as sobrancelhas. — Talvez
seja melhor dizer impressionado.

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
Aggie riu alegremente.
— É saudável ficar impressionado de vez em quando.
— Obrigado. Vou me lembrar disso. - Ele mal conseguia desviar os olhos do rosto
dela. — Lugar movimentado.
— Sempre. Betsy vai querer que você veja tudo. Ela tem orgulho do que fez na
casa.
Eles passaram por vários quartos e se dirigiram ao fundo da casa, onde ele viu um
enorme jardim de inverno que dava para um grande quintal, que terminava num pequeno
bosque. No verão, aquele lugar deveria ser um paraíso para as crianças.
— Nós não vamos demorar — prometeu Aggie. — Vamos abrir os presentes. Como
eu estou aqui, a festa foi adiantada. Espero que não se importe.
— Por que me importaria? — perguntou Luiz, percebendo que, por mais que tivesse
resolvido esquecê-la, não conseguia controlar o que ela provocava na sua libido. Também
era frustrante a maneira como ele se entregava ao ciúme. Todos ali pareciam ter o poder
de fazê-la sorrir. O tipo de sorriso que ela lhe oferecera em raras ocasiões.
Ele não entendia e não gostava daquele fluxo de emoções confusas que o
acometiam. Costumava estar no controle da sua vida e de tudo o que acontecia. Agatha
Collins estava totalmente fora do seu controle. Se fosse outra mulher, teria ficado
orgulhosa com o seu interesse e não hesitaria em ir para a cama com ele. Aos seus olhos,
a sua proposta tinha sido infalível e muito simples. Não bastava ter sido rejeitado. Ter sido
derrubado já fora ruim, mas ter sido derrubado e se levantar para descobrir que estava se
preparando para travar outra batalha contra as defesas de Aggie era quase inadmissível.
— Pensei que você ficaria aborrecido — admitiu Aggie, corando. — E também...
Pensei que estaria zangado comigo.
— Por que estaria? — perguntou ele friamente.
— Porque eu o rejeitei e sei que você deve... deve... Acho que feri o seu ego.
— Você me quer. Eu quero você. Eu propus que nós fizéssemos algo a respeito, e
você resolveu que não queria. O meu ego não foi atingido.
— Eu não consigo ver o sexo como algo desligado dos sentimentos. — Aggie se
envergonhava por, depois de ter mostrado tanta força de vontade, estar recuando e dando
explicações. — Você entra e sai de relacionamentos, e...
— E você não é um brinquedo a ser descartado quando deixa de ser novidade. Você
deixou isso bem claro.
— Esse é o único motivo pelo qual eu fico constrangida ao lhe pedir esse favor.
— Então não fique. Divirta-se. O final da nossa jornada está chegando.

Capítulo 7
50

Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams

— Nunca chegaremos a Sharrow Bay esta noite.
Eles estavam na estrada há quase uma hora. Luiz olhou para ela.
— Não se o clima piorar.
— Não vejo por que nos arriscarmos. Mark e Maria não vão a lugar nenhum Não
com esse tempo. Desculpe por termos demorado mais do que eu esperava em
Sevenoaks. — Aggie não sabia como romper a barreira atrás da qual Luiz se isolara. Ele
sorrira e conversara com todos, sem demonstrar nenhuma tensão, mas a mantinha a
distância. — Espero que você não tenha achado muito agitado.
Ela tentava iniciar uma conversa que ameaçava acabar como as outras que
começara: batendo no muro do desinteresse de Luiz. O seu orgulho, a sua dignidade e o
seu senso de correção moral por ter recusado a proposta de fazer sexo casual haviam se
desintegrado, fazendo com que ela percebesse que cometera um erro. Por que não
aceitara? Desde quando o sexo implicava em compromisso? Não haveria ternura,
palavras doces, mas a atração sexual que ele exercia sobre ela compensaria tudo. Por
que não podia ser gulosa ao menos por uma vez e aproveitar o que a vida lhe oferecia,
sem pensar nas consequências e sem se perguntar se estava fazendo o que era certo?
Ela tivera três relacionamentos que pensara que iriam dar certo. Todos com homens livres
de convencionalismos, agradáveis e criativos, ao contrário de Luiz. Dançavam,
participavam de passeatas e agiam por impulso. Nunca faziam planos. E o que
acontecera? Ela se cansara de comportamentos que acabaram lhe parecendo infantis e
irresponsáveis. A falta de objetivos que a atraíra de início, tornara-se odiosa.
Chegara um momento em que pular na garupa de uma moto e ir na direção do vento
lhe parecera perda de tempo. Luiz era exatamente o oposto. Tinha um incrível
autocontrole. Duvidava que ele já tivesse feito algo espontâneo. Provavelmente não.
Apesar disso ou talvez justamente por isso, o seu desejo por ele fosse livre das
costumeiras considerações. Por que não percebera isso antes? Ela o classificara como o
tipo de pessoa que tinha relacionamentos puramente sexuais, como se os únicos
relacionamentos válidos fossem aqueles em que se passava o tempo remexendo o
íntimo, um do outro.
— As crianças adoraram você – insistiu Aggie. — Gordon e Betsy também. Essa
visita deve ter sido reveladora para você. Creio que o seu ambiente não podia ter sido
mais diferente.
Como se encaixasse as peças de um quebra-cabeça, Luiz percebia o cenário que
fizera com que Aggie fosse quem era. Para ele era frustrante e estranho sentir vontade
ultrapassar a superfície de uma mulher e conhecê-la mais a fundo. Ela era desconfiada,
orgulhosa, defensiva e independente. Tivera que ser.
— Há um hotel mais à frente, para o caso de você concordar que precisamos parar.
Perto da próxima cidade. — A cada minuto de silêncio, Aggie sentia que a chance de
atravessar a barreira em torno de Luiz se tornava mais distante.
— Um hotel? Como você sabe? - Depois de sair do ambiente de sua infância, ela
deixara a alegria e a despreocupação para trás. Estava tensa. Por ele, se arriscaria na
neve e continuaria a dirigir. Sua missão precisava ser acabada, mas a determinação com
que a iniciara se fora, deixando lugar à resignação de cumprir uma tarefa desagradável.
O coração de Aggie acelerou. Como sabia? Pesquisara no computador de Betsy.
Porque ao vê-lo num canto da sala, olhando a distribuição dos presentes de Natal, ela
percebera que ele podia ser arrogante e implacável, mas também podia ser generoso e
compreensivo. Poderia ter se recusado a fazer aquele desvio, mas aceitara e se
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
dispusera a passar por aquela experiência. Fora atencioso com Gordon e Betsy, interagira
com as crianças. Ela se orgulhara dele e o desejara tanto que chegara a doer.
— Eu vi uma placa ali atrás. — Ela cruzou os dedos pela mentira.
— Eu não vi nenhum sinal.
— Era pequeno. Você não viu porque está concentrado na direção.
— Você não prefere continuar? Chegar ao nosso destino? Se continuarmos por mais
uma hora, talvez cheguemos lá.
— Se não se importa, eu prefiro que não. — De repente ocorreu a Aggie que a
proposta que ele fizera não valia mais. Luiz não costumava ir atrás das mulheres, e ela o
rejeitara. Aggie arriscaria seu orgulho para se jogar em cima dele, quando tudo o que ele
queria era acabar com aquela viagem e voltar à sua vida? — Eu estou com dor de
cabeça. Deve ter sido a emoção de ver Gordon, Betsy e as crianças. Gordon não está
bem. Betsy me disse quando saímos. Ele tem problemas no coração. Não sei o que ela
vai fazer se algo acontecer com ele.
— Certo. Onde eu entro?
— Tem certeza? Você já cedeu demais.
— Aggie conteve a respiração. Se ele relutasse, ela desistiria do seu plano e
aceitaria que perdera a chance, que fora melhor, e pararia de imaginar.
— A entrada?
— Eu lhe mostro.
Ele não perguntou como ela sabia o endereço do hotel, incluindo o CEP. Depois de
15 minutos, eles viram uma placa, e Aggie respirou aliviada quando chegaram à entrada
de uma pequena, mas elegante, casa de campo. Havia poucos carros no estacionamento.
Quem iria viajar para o norte com aquele tempo? Apenas alguns lunáticos.
Enquanto se registravam, ela começou a ficar nervosa.
— Já que a sugestão foi minha... - disse ela enquanto se dirigiam aos quartos. — Eu
insisto em pagar.
— Você tem dinheiro para isso? -perguntou Luiz. — Não adianta oferecer algo que
não pode cumprir.
— Posso não ser rica, mas não sou totalmente falida! — retrucou Aggie
agressivamente. Não era a melhor maneira de atraí-lo para a cama. — Eu estou fazendo
tudo errado — ela murmurou, falando consigo mesma.
— Fazendo o que errado? — Ele parou no meio da escada e olhou para ela.
— Você não é como os homens com quem eu costumo sair.
— Eu não creio que o meio da escada de um hotel seja o lugar para ter uma
conversa a respeito dos homens com quem você dormiu. — Ele continuou a subir a
escada.
— Eu não gosto que você fale assim comigo! — Ela foi atrás dele e puxou-o pela
manga do suéter, até que ele olhasse para ela com impaciência.
— Aggie, por que não descansamos e nos encontramos na hora do jantar? Essa
jornada está se tomando interminável. Estou longe do trabalho há muito tempo. Tenho
outras coisas para pensar. Eu não estou disposto a me envolver numa conversa exaltada
com você.

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
Luiz não sabia como lidar com a obsessão que sentia por ela. Estaria ficando louco?
Ela afetava o seu autocontrole. Nunca lhe ocorrera que ela iria rejeitá-lo. Fora por isso
que, ao vê-la com Gordon, Betsy e as crianças, só conseguira pensar em levá-la para a
cama? Seria tão arrogante a ponto de achar que nenhuma mulher lhe diria não? O
turbilhão de emoções desconhecidas o deixara nervoso e de mau humor. Gostaria de tirála da cabeça, como fazia com todas as inconveniências que surgiam na sua vida. Ser
implacável sempre lhe fora útil, assim como saber que não deveria se desviar por causa
de coisas que estavam além do seu controle. Aggie o desviara do seu caminho, mas ele
não queria se envolver numa conversa que não levaria a nada.
— Eu não estou exaltada! — Aggie tomou fôlego. Se desistisse agora, nunca faria o
que deveria fazer. Nunca pensaria em ir para a cama com Luiz se não fosse a atração
sexual que abafava totalmente seus princípios. Sabia que seria loucura dormir com um
homem cuja atitude em relação às mulheres ela considerava irritante e amoral. Mas não
dormir com ele faria com que se arrependesse para sempre. E, se pretendia dormir com
ele, precisava controlar a situação. Não apagaria uma vida inteira de independência por
tomar uma decisão apressada. — Só quero conversar com você. Esclarecer as coisas.
— Não há nada a esclarecer, Aggie. Eu fiz o que você me pediu e estou feliz por
você ter gostado de ver seus amigos. Mas está na hora de ir em frente.
— Creio que cometi um erro.
— Do que está falando?
— Podemos conversar lá em cima? No seu quarto? Ou podemos descer e ir para a
sala de estar. Ali é sossegado.
— Se não se importa por eu trocar de roupa enquanto você fala, vamos para o meu
quarto.
Assim que entraram no quarto, Luiz tirou o suéter, jogou sobre uma cadeira e
começou a procurar roupas dentro da mala.
— Eu não queria fazer essa viagem com você. — Aggie começou a dizer em voz
trêmula. Ele parou e se voltou para ela.
— Eu não estou disposto a ouvir mais 20 minutos de recriminações. - Enquanto
falava, ele olhou para seu cabelo, para o contorno do seu corpo, acentuado pelo novo
jeans e um suéter cor de vinho, e rangeu os dentes ao perceber que novamente perdera o
controle do próprio corpo. — Também não estou a fim de ouvi-la insistir em pagar a conta.
— Eu não ia fazer isso. — Ela se apoiou na porta fechada.
— Então o que você queria me dizer?
— Que nunca conheci ninguém como você.
— Acho que você já me disso isso, e não no bom sentido. A não ser que tenha algo
a acrescentar, sugiro que você vá se refrescar.
— O que eu estou dizendo é que nunca pensei que ficaria atraída por alguém como
você.
— Eu não costumo ter esse tipo de conversa, Aggie. Analisar um relacionamento
acabado já é ruim; analisar um relacionamento que não existiu é perda de tempo. Eu vou
tomar banho. — Ele desabotoou a camisa.
Aggie sentiu uma súbita onda de excitação e o impulso de tocá-lo. Nunca se
arriscara. Desde criança se sentira responsável por Mark e aprendera que o caminho para
o sucesso não era correr riscos. Era o trabalho árduo. Arriscar-se era para pessoas que
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
tinham rede de segurança, e ela nunca tivera. Durante seus relacionamentos, ela sempre
seguira o que a sua cabeça lhe dizia. Nunca tinha percebido que talvez devesse ter
parado para analisar o que a razão lhe mandava fazer. Talvez por isso, seus
relacionamentos tivessem dado errado.
Luiz era muito diferente de todas as pessoas que ela já conhecera, entrara na sua
vida em circunstâncias duvidosas e a jogara num redemoinho. Ela se vira num novo
território, onde nada fazia sentido, e reagira atacando-o. Antes que ele se aborrecesse
com a conversa, Aggie respirou fundo.
— Sinto muito ter rejeitado a proposta que você me fez.
Luiz ficou perplexo.
— Eu não estou entendendo — disse ele devagar. Aggie desencostou da porta e
caminhou na sua direção. A cada passo que ela dava, seguia o ritmo do seu corpo, que
suava de nervosismo.
— Sempre pensei que nunca faria amor com um homem, a não ser que gostasse
dele realmente.
— E os namorados que você teve?
— Eu gostava realmente deles. De início. E, por favor, não fale como se eu dormisse
com todo mundo. Sempre dei muita importância à compatibilidade.
— Todos cometem erros. — Não ocorreu a Luiz que poderia rejeitá-la. A força da sua
atração era muito forte, e ele não entendia, mas era algo que precisava ser saciado. —
Obviamente a compatibilidade não funcionou para você — comentou ele com satisfação.
— Não, não funcionou — admitiu Aggie, olhando para ele e estremecendo. Ele era
muito bonito. Era de admirar que a sua força de vontade tivesse se dissolvido? Nunca
pensaria em ter um relacionamento com ele. Nunca se encaixaria na categoria de
mulheres por quem ele poderia se sentir atraído. Talvez ele a desejasse justamente por
ser diferente, mas isso não importava, e ela não iria iniciar uma discussão.
— O que aconteceu? — Luiz se jogou na cama e cruzou as mãos atrás da cabeça.
A camisa se abriu, revelando o seu peito musculoso. Ele assumira a pose de um
conquistador à espera da sua concubina, e isso a excitava.
— Eles eram aventureiros. De início eu até que gostei. Mas acho que não sou
assim.
— Não, você não é. — Ele deu um sorriso de arrepiar. — Você vai ficar parada aí ou
vai se juntar a mim? — Ele indicou o espaço ao lado dele, e Aggie teve a sensação de
que o seu coração despencara até o chão.
Ela se aproximou e riu quando ele se ergueu e a puxou. Sua risada soou como um
sinal de que abaixara suas defesas, que deixara o ressentimento de lado em benefício de
algo maior.
— O que quer dizer com isso? — Ela caiu ao lado dele e sentiu o calor do seu corpo
desencadeando uma série de sensações que a faziam perder o fôlego.
— Você não se interessa por dinheiro, mas uma aventureira teria aceitado o que eu
oferecia: um computador e um novo guarda-roupa, que seriam classificados como
presentes a serem apreciados. Você rejeitou o computador e se atormentou por causa
das roupas. Só aceitou porque não tinha mais o que usar, mas eu precisei convencê-la a
ser sensata. E você ainda me disse que vai pagar por tudo quando voltar a Londres. Você
me acusa de ser controlador, mas comete o mesmo pecado.
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Nós não somos parecidos. — Os dois estavam deitados lado a lado,
completamente vestidos, se olhando. Havia algo de muito erótico nessa experiência
porque, por baixo das roupas, a excitação fervia.
— O dinheiro nos separa — falou Luiz secamente. — Mas somos semelhantes em
muitos aspectos. Você não acha que essa conversa seria melhor se nos despíssemos?
Aggie gemeu, e ele sorriu satisfeito. Levantou e estendeu a mão para ela.
— Eu vou encher a banheira. Por que não vai pegar algumas roupas no seu quarto?
— Seria estranho — confessou Aggie. - Nunca passei por uma situação de tamanha
intimidade.
— Mas esta é uma situação com que nenhum de nós contava. Para mim, também é
a primeira vez.
— Como assim?
— Não deixo de me espantar com a excitação que você me provoca.
— Porque sou diferente das mulheres que você conhece?
— Porque você é diferente das mulheres que eu conheço — concordou Luiz.
Aggie deveria se sentir ofendida. Mas a quem estaria enganando? Ele também não
era como os homens que ela conhecia. A atração mútua modificara seus parâmetros.
Talvez por isso fosse tão perigosamente excitante.
— Você é muito mais independente, e isso me atrai — declarou ele, acariciando-a.
— Você não é escrava da moda e gosta de discutir.
Ela admitiu que as três características deveriam ser uma mudança para ele, mas
que logo o cansariam. Como ela também não pretendia algo a longo prazo, isso não seria
um problema, mas, no fundo, estava desapontada.
— Você gosta de mulheres submissas - falou ela, sorrindo.
— Até agora tinha dado certo.
— E eu gosto de homens criativos, não movidos pelo dinheiro.
— Mas, misteriosamente, os seus mendigos foram derrotados.
— Eles não eram mendigos. — Aggie riu. — Só não ligavam para dinheiro.
— Mas a entediaram
— Eu não deveria ter lhe contado isso. Se eles me cansaram não foi por serem
indiferentes ao dinheiro, mas por serem aborrecidos. — Ela levantou da cama. - Acho que
vou tomar banho no meu banheiro.
— Mudou de ideia? — perguntou ele friamente.
— Não. Eu não faço joguinhos como este.
— Ótimo. — Ele relaxou. Ser rejeitado outra vez seria impensável, inaceitável.
— Que joguinhos você faz? Acho que posso ajudá-la...
A insinuação causou um arrepio em Aggie, que perdurou até que ela voltasse ao
quarto dele, alguns minutos depois. Não mentira ao dizer que nunca fizera sexo daquele
jeito, sem nenhum romantismo, sem expectativas, reduzido ao mais elementar contato
físico.

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
A banheira estava cheia, e a água cheirava a jasmim O vapor dentro do banheiro
não diminui o impacto de ver Luiz usando apenas uma toalha enrolada na cintura. Lá fora,
a neve ainda caía. Quando ela fora até seu próprio quarto, olhara pela janela e percebera
que Maria e Mark e o objetivo da viagem não poderiam estar mais longe da sua cabeça.
Ela mal se recordava da sua vida cotidiana, da escola, dos colegas, das crianças se
preparando para a peça de Natal.
Luiz teria razão? Ela sempre se vira como uma aventureira, mas aquela seria a
primeira vez que faria algo impulsivo. Considerara-o um maníaco controlador, sequioso de
poder, e se via como o oposto. Talvez a única diferença entre os dois fosse o fato de ele
ser rico e ter sido educado em meio a privilégios, enquanto ela tivera que superar seu
passado e se empenhar para encontrar oportunidades.
— O que eu queria... — disse Luiz. fazendo com que ela voltasse à realidade. — Era
realizar a fantasia que tive quando você desfilou para mim naquela loja. Só que, em vez
de me mostrar como ficava com as roupas, iria me mostrar como fica sem elas. — Ele
saiu do banheiro e se jogou em cima da cama.
Aggie pensou que não deveria achar aquilo certo, mas achava. Nunca acreditara ser
possível que os dois esquecessem suas diferenças e entrassem em sintonia. Não no seu
caso. Mas, antes de começar a ter dúvidas, ela raciocinou que todos mereciam um
descanso, e aquele seria o dela. Em um ou dois dias, aquele momento seria apenas a
lembrança da única vez em que ela se desviara do caminho que traçara para si.
Fascinada e chocada, ela o viu arrancar a toalha da cintura, revelando a sua ereção.
— É tão fácil fazê-la corar — murmurou Luiz, esperando enquanto ela se despia.
Primeiro, timidamente. Depois, com maior segurança ao perceber que ele a fitava com um
olhar de admiração.
— Venha aqui — disse ele, antes que ela tirasse a roupa de baixo. — Não consigo
mais esperar.
Aggie suspirou e jogou a cabeça para trás quando ele colocou as mãos sobre seus
seios, por cima do sutiã de renda. Os dois se beijaram avidamente, só parando para
tomar fôlego e se beijar novamente. Ela gemeu quando ele lhe acariciou os mamilos
sensíveis por debaixo da renda. Estava se derretendo. Soltou o cabelo dele, ao qual se
agarrara, e tirou as calcinhas úmidas, prova do seu estado de excitação.
Enlouquecido de desejo, Luiz mal conseguiu suportar quando ela se afastou para
tirar o sutiã, revelando seus mamilos claramente definidos, empinados, uma tentação. Ele
percebeu que estivera sonhando com aquele momento desde o dia em que a conhecera.
Não se permitira vê-la de maneira sexual, não quando estava imaginando um jeito de
afastá-la e ao seu irmão da sobrinha e da fortuna da família. Mas o isolamento forçado
apagara o seu autocontrole e permitira que as sementes da atração se enraizassem e
florescessem
— Você tem um rosto de anjo — disse ele, puxando-a para cima dele. — E um corpo
de sereia.
— Duvido. Dizem que as sereias são voluptuosas.
— Você é linda... — As mãos dele quase faziam o contorno da cintura de Aggie. Ele
a puxou um pouco para poder cobrir um de seus seios delicados com a boca e sugá-lo.
Adorava a maneira como ela inclinava o corpo, oferecendo-se para ele, a maneira como
ela cerrava os punhos para tentar manter o controle. Luiz deslizou a mão pelo interior de
suas coxas e tocou-a com o dedo. Ela estremeceu, enquanto ele mergulhava o dedo
dentro do seu corpo e começava a massageá-la. Estimulada em dois pontos, Aggie não
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
conseguiu mais aguentar. Saiu de cima dele e se enroscou em cima da cama, com a
respiração ofegante.
— Foi demais? — perguntou ele. Ela deu um gemido fraco.
— Não é justo. Agora é sua vez de se sentir descontrolado.
— Por que você acha que eu ainda não me sinto assim?
Era visível que não se sentia, que ele não tinha ideia do que fosse perder totalmente
o controle. Fizera a bobagem de confundir isso com estar muito excitado. Por um longo
momento torturante, ela mostrou a ele o que era perder o controle, acariciando-o com as
mãos, com a boca, até que ele tivesse a sensação de ter morrido e chegado ao céu.
Os corpos dos dois pareciam ter se juntado e formado um só. Ela o tocava, e ele a
tocava, começando pelos seios, descendo pela barriga e chegando à sua parte mais
íntima. Quando ele tocou-a com a língua, Aggie gemeu de prazer, fechou os olhos e
ergueu os quadris para recebê-la dentro do seu corpo. Ele movimentou a língua até que
ela implorasse para ele parar.
Por fim, ele colocou um preservativo e a possuiu. Chutou o cobertor da cama, e ela
se abriu para ele como uma flor, movimentando-se de acordo com o seu ritmo. Aggie
nunca se sentira tão ligada e em sintonia com outro ser humano. O seu corpo estava
coberto por uma fina camada de suor. O dele também. Os dois atingiram o clímax e
pareceram levantar voo. E depois se separaram lentamente. Ela se virou para ele com um
olhar satisfeito.
— Isso foi...
— Incrível? Indescritível? — Ele nunca sentira isso antes. O sexo podia fazer isso
com um homem? Dar-lhe a sensação de que podia voar? Tinham acabado de fazer amor,
e ele mal podia esperar para possuí-la novamente. Isso faria sentido? Fizera amor com
várias mulheres, mas nunca sentira um apetite tão insaciável, nunca sentira vontade de
acender a luz só para ver...
— Eu quero fazer de novo, mas antes...
— Ele sentia necessidade de esclarecer alguns fatos, de se assegurar que aquela
falta de controle era uma situação temporária. — Você sabe que isso não vai dar em
nada, não sabe? — Ele afastou o cabelo que cobria o rosto dela. Podia ser a hora e o
lugar errados, mas ele precisava dizer, esclarecer. — Eu não quero que você pense...
— Eu não penso nada. — Aggie sorriu bravamente, enquanto juntava mentalmente
alguns pontos. Aquele homem que ela odiava, por quem ela estava intensamente atraída,
conseguia fazê-la rir, apesar de ela o achar arrogante, e ocupara o seu coração e a sua
cabeça. Era por isso que ela estava ali com ele, na cama. Ela não se tornara uma mulher
sem moral, que achava certo ir para a cama por pura atração sexual. Não. Essa fora uma
justificativa que ela inventara para não enfrentar uma verdade inaceitável. — Eu não vou
fazer exigências. Nós não fomos feitos um para o outro e nunca vamos combinar. Mas
nos sentimos atraídos. Isso é tudo. Portanto, por que não apenas aproveitar? Nós dois
sabemos que amanhã isso vai acabar.

Capítulo 8
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams

Aggie passou a noite em seu quarto. Ainda embriagada de amor, ela saíra do quarto
de Luiz na ponta dos pés, pouco depois da uma da manhã. Era importante lembrar que
aquele não era um relacionamento normal, que tinha limites que ela não ultrapassaria. O
celular deu um sinal e acordou-a. Ela descobriu que recebera várias mensagens do irmão,
pedindo-lhe que telefonasse para ele. Entrou em pânico, sentou na cama e ligou para
Mark, envergonhada e culpada por ter ficado tão concentrada em si mesma e mal ter se
lembrado dele durante as últimas horas.
Ele atendeu quase que imediatamente, e durante a conversa, ela mal disse duas
frases. Mark falou o tempo todo e, ao fim de dez minutos, quando ele desligou, ela estava
pasma. Tudo iria mudar. Por alguns minutos, Aggie se ressentiu por Mark destruir a bolha
que ela formara à sua volta. Olhou para o relógio. Luiz tentara puxá-la de volta para a
cama de madrugada, mas ela resistira. Considerando que ele sempre obtinha o que
queria, sem pensar nas consequências, iria tê-la quando e pelo tempo que quisesse, mas,
assim que se cansasse, iria embora. Como não conseguiria fazer o mesmo, ela resolvera
colocar alguma distância entre os dois e voltara para o seu quarto.
Os dois haviam combinado se encontrar às 9h, para tomar o café da manhã.
Passava um pouco das 8h. Ela ficou contente por poder tomar um banho e pensar no que
o irmão lhe dissera. Quando Aggie desceu, Luiz estava à sua espera, sentado diante de
um bule de café, consultando um cardápio.
Ele soltou o cardápio ao vê-la parada na porta. Vestia um jeans desbotado e um
suéter azul e prendera o cabelo num rabo de cavalo. Parecia uma adolescente. Ele sentiu
uma onda de excitação. Não se fartara dela na noite passada.
— Você deveria ter ficado comigo - disse ele assim que ela se aproximou. -Teria sido
um despertador incrível.
Aggie se sentou do outro lado da mesa e se serviu de café. Estava pensando em
Mark, mas sentia necessidade de esclarecer outro assunto.
— Você disse que queria trabalhar um pouco antes do café. Eu não queria perturbálo.
— Eu sou muito versátil. Você ficaria surpresa no quanto eu consigo trabalhar com
alguém entre as minhas pernas...
— Shh. — Ela ficou corada, e Luiz riu do seu pudor. — E assim que você costuma
acordar? — Ela olhou para ele por cima da xícara. Mantivera a voz baixa, mas, por
dentro, sentia os ciúmes correrem pelas veias.
— Eu estou acostumado a acordar com o alarme do despertador. — Ele não
costumava admitir que as mulheres dormissem na sua cama.
— Está me dizendo que nunca passou uma noite inteira com uma mulher? E quanto
às férias?
— Eu não passo férias com mulheres. - Ele viu que ela ficava surpresa. — Não é tão
incomum assim. Eu sou um homem ocupado. Não tenho tempo para atender a exigências
de mulheres durante as férias.
— E como você relaxa?

58

Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Passo minhas férias no Brasil. — Ele deu de ombros. — Costumo ir durante as
festas de final de ano, com alguns amigos. Às vezes, num final de semana. Gosto de
esquiar. Mas isso não tem acontecido nos últimos anos.
— Você passa as festas com seus amigos?
— Como acabamos falando nesse assunto? — Ele passou os dedos no cabelo, um
gesto que ela aprendera ser de frustração.
Se aquele relacionamento girava em torno de sexo, e ele deixara isso claro, Aggie
sabia que não deveria abordar conversas mais pessoais porque ele não gostaria. Aquela
deveria ser a maneira com que ele evitava se comprometer, mantendo as mulheres a uma
distância segura. Quando não se tem uma conversa mais íntima com alguém, é provável
que ninguém se aproxime de você. Mas a curiosidade que ela sentia a levava a entrar em
águas perigosas.
— Não há nada de errado em conversarmos. — Ela olhou para o cardápio e
resmungou algo sobre ovos com torrada.
— Os homens não precisam de atenções extravagantes — falou Luiz bruscamente.
— Somos exímios esquiadores. Fazemos manobras difíceis, descansamos à tarde. Ótimo
exercício. Ninguém se queixa por não ter distrações.
— Não imagino alguém tendo coragem de se queixar com você.
Ele relaxou.
— Você ficaria surpresa, apesar de as queixas femininas serem insignificantes
quando comparadas com o seu talento notável para discutir comigo. Não que eu não
goste. Você tem uma natureza extremamente exaltada.
— Além disso, se vocês resolverem se divertir, as camareiras do hotel devem ser
muito atraentes...
Luiz riu.
— Quando eu vou esquiar, esquio. A última coisa que eu iria querer seria ter algum
tipo de envolvimento durante o breve tempo que eu tiro para descansar.
— E esse breve tempo tem diminuído?
— O meu pai não está bem. — Luiz se ouviu dizer. Ele não se lembrava de ter dito
aquilo a ninguém. Só ele e sua mãe sabiam o verdadeiro estado de saúde de seu pai.
Como ele, seu pai não suportava dramas e sabia como as filhas iriam reagir. Ele também
era a imagem do vasto império da família. Muitos clientes antigos reagiriam mal ao saber
que Alfredo Montes não estava bem. Durante muito tempo, Luiz se concentrara em seus
próprios negócios, mas, nos últimos anos, fora obrigado a desempenhar um papel mais
ativo nas empresas da família, lentamente adquirindo segurança para o dia em que seu
pai se aposentasse definitivamente.
— Sinto muito — disse Aggie, colocando a mão em cima da dele. — O que há de
errado com ele?
— Esqueça o que eu disse.
— Por quê? É terminal?
Luiz hesitou.
— Há alguns anos ele teve um derrame e nunca se recuperou totalmente. Ele ainda
tem movimentos, mas não como antes, e tem dificuldades de memória e de concentração.

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
Ele está semiaposentado. Além de mim e da minha mãe, ninguém sabe que ele tem
problemas de saúde.
— Então... Você tem supervisionado os negócios para que ele possa descansar?
— Não é nenhum sacrifício. — Ele chamou uma garçonete, acabando com a
conversa, enquanto Aggie encaixava mais uma peça da imagem que estava formando
dele.
Luiz Montes era um maníaco por trabalho que se encontrara numa situação em que
não poderia ficar parado. Não tinha tempo para descansar e, muito menos, para se
envolver num relacionamento. Mas, mesmo com aquele estilo de vida agitado, ele
encontrara tempo para fazer aquela tortuosa viagem em nome de sua irmã. Isso mostrava
lealdade familiar e uma generosidade que ela nunca lhe atribuíra.
— Há algo que você precisa saber - disse Aggie. — Mark finalmente entrou em
contato comigo hoje de manhã. Na verdade, ontem à noite, mas eu tinha deixado o meu
celular no quarto e só hoje descobri que ele me mandou várias mensagens, pedindo que
eu telefonasse para ele. Eles não estão em Lake District. Estão em Las Vegas.
— Então eles realmente se casaram, os dois tolos. — Luiz não sentiu a raiva que
esperava sentir. Ainda estava avaliando o lapso de julgamento incomum que cometera ao
confiar nela. Nunca sentira necessidade de fazer confidências a alguém. Sempre vira
essa tendência como uma fraqueza. Mas, ainda que parecesse estranho, sentia-se
aliviado por ter compartilhado o seu segredo com Aggie. E isso era o bastante para
passar por cima de qualquer raiva que pudesse sentir por sua sobrinha, ainda uma
criança, ter se casado.
— Eu não disse isso. — Aggie riu, e ele ergueu as sobrancelhas.
— Poderia explicar a piada? Eu não estou vendo nenhuma graça.
— Bem, para começar, eles não se casaram.
— Como disse?
— A sua irmã não tinha motivos para se preocupar. Tudo bem, Maria pode ter
confessado que estava apaixonada pelo meu irmão e ter revelado o seu sonho. E foi só
isso. Eles nunca fizeram planos para fugir e se casar escondido.
— Então nós passamos os últimos dias numa viagem inútil? O que eles estão
fazendo em Las Vegas? — Há menos de uma semana, ele teria feito um comentário
sarcástico a respeito de quem estaria pagando aquela aventura. Mas, há menos de uma
semana, ele não estivera isolado no meio do nada com aquela mulher. Naquele momento,
ele não podia se importar menos com quem estava pagando a conta ou com quem estava
se aproveitando de quem. Ele se apanhava pensando no lar adotivo, na atmosfera de
alegria, a despeito da mobília velha e da falta de luxos. Pensava na casa miserável de
Aggie. As duas coisas eram provas de que existiam pessoas que não se apossavam do
que estivesse ao seu alcance.
— Mark está nas nuvens. — Ela apoiou o queixo na palma da mão e olhou para ele
com os olhos brilhando. — Quando eles estavam saindo de Londres, ele recebeu um
telefonema. Pensou em me ligar, mas sabia que eu só esperava vê-lo dentro de alguns
dias, e não queria contar nada por medo de não dar certo. Através do amigo de um
amigo, o agente de uma gravadora ouviu um dos seus demos e pediu que os dois fossem
encontrá-lo. Ele conseguiu um contrato de gravação!
— Estou surpreso!

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Então... — Aggie recuou para que um prato com ovos e torradas fosse colocado
diante dela. — Não precisamos ir mais além.
— Não, não precisamos.
— Aposto que você vai ficar aliviado por poder voltar ao trabalho, apesar de eu
tentar convencê-lo de que, mesmo você não tendo escolha, trabalhar tanto não é
saudável.
— Provavelmente você tem razão.
— Você precisa desfrutar de momentos de lazer tanto quanto de trabalho. Desculpe.
O que foi que você disse?
— Quando voltarmos para Londres. - Ele não pretendia ter nenhum tipo
relacionamento com ela, mas, depois da noite anterior, ainda não se sentia capaz
dispensá-la. — Uma pequena redução da carga de trabalho não faria mal. Estamos
período de Natal. As pessoas estão festejando. O mundo dos negócios não está
frenesi habitual.

de
de
no
no

— Então você vai tirar férias? — Aggie sentiu um baque no coração. — Vai para o
Brasil?
— Eu não posso sair do país agora.
— Pensei que você tinha dito que tiraria férias.
— Não quer dizer que eu vá desaparecer. Há alguns negócios que preciso resolver,
reuniões que não posso cancelar. — Ele empurrou o prato, recostou na cadeira e olhou
para ela. -Precisamos conversar sobre nós... Sobre isso.
— Eu sei. Não foi a atitude mais inteligente do mundo. Nenhum de nós dois
esperava que... que...
— Que não conseguiríamos manter nossas mãos longe um do outro?
Para ele era fácil falar puramente em termos de sexo, Aggie pensou. Ela só
conseguia pensar em termos de se apaixonar. Quantas mulheres teriam cometido o
mesmo erro? A última namorada que ele tivera cometera o mesmo pecado?
— As circunstâncias eram peculiares - disse Aggie, tentando parecer indiferente ao
que acontecera. — Todos sabem que as pessoas podem se comportar de maneira
incomum quando estão em uma situação inusitada. Nada disso teria acontecido se nós
não tivéssemos ficado... presos pela neve.
— Não teria? — repetiu ele, olhando seriamente para ela.
— O que você quer dizer?
— Acho que sou honesto o bastante para não subestimar a atração que senti por
você. Eu a notei no primeiro momento em que nos vimos, e não apenas como uma
possível mercenária. Eu me senti sexualmente atraído por você desde o início. Talvez eu
não tivesse feito nada a respeito, mas não posso apostar.
— Eu não reparei em você!
— Mentirosa.
— Não reparei — insistiu Aggie exasperada. — Só pensei que você era o tio
arrogante de Maria, que tinha aparecido para nos despachar. Eu nem gostei de você!
— Quem está falando em gostar ou não? Isso é bem diferente de atração sexual. O
que me leva de volta ao ponto inicial. Vamos voltar para Londres assim que acabarmos de

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
tomar café. Quando chegarmos lá, quero saber quais são os seus planos. Porque eu
ainda não estou pronto para desistir disso. Eu diria que estou apenas começando.
Ainda. Isso não dizia tudo? Mas, pelo menos, ele não estava tentando esconder a
dimensão do seu interesse por ela, não estava fingindo que eles eram mais do que dois
navios que se cruzavam durante a noite, lançavam âncora por algum tempo e depois
continuavam suas jornadas.
Aggie se lembrou do seu último namorado, que gostava de planejar com
antecedência onde passariam as férias dali a cinco anos. Ela pensou que estava
apaixonada por ele, mas tudo passara rapidamente, e Aggie percebera que o que
realmente amava era a sensação de continuidade que ele lhe proporcionava. Luiz não
estava lhe oferecendo continuidade. Na verdade, não prometia nada além de algumas
semanas ou meses.
— Você está querendo colocar mais uma marca na cabeceira da sua cama?
-perguntou ela alegremente. Ele olhou-a com severidade.
— Eu não sou esse tipo de homem. Se você não acha que fui honesto com você,
posso repetir o que eu disse. Eu não estou procurando um compromisso, mas também
não costumo procurar uma mulher só porque quero preencher o meu caderninho preto.
Se realmente é isso que você pensa, nós não estamos na mesma onda, e tudo o que
aconteceu na noite passada será apenas uma lembrança.
— Eu não deveria ter dito isso, Luiz, mas você não pode me culpar, não é? Quer
dizer, alguma vez você teve um relacionamento que achasse que iria dar em alguma
coisa?
— Eu nunca procurei. Por outro lado, eu não uso as mulheres. Por que estamos
discutindo, Aggie? Nenhum de nós dois vê futuro nisso. Pensei que tínhamos concordado.
— Ele franziu os olhos. - Concordamos, não foi? Ou você de repente resolveu que está
querendo um relacionamento a longo prazo? Porque eu repito que isso não vai acontecer.
— Eu sei — retrucou Aggie. — Acredite, eu também não estou à procura de algo
permanente.
— Então qual é o problema? Por que esse drama? — Ele ficou pensativo por um
momento. — Eu não perguntei, mas suponho que, quando dormiu comigo, você não tinha
outra pessoa na sua vida.
Aggie olhou para ele, confusa, e quando entendeu, ficou furiosa.
— Que coisa horrível de se dizer. - Ela sentiu os olhos marejarem de lágrimas e
olhou para o prato.
Luiz sacudiu a cabeça, envergonhado, mas sentiu vontade de lhe dizer que não
seria a primeira vez que dormia com uma mulher envolvida com outro homem. Algumas
gostavam de garantir suas apostas. Depois que ele se envolvia, dispensavam os outros.
Por isso, ele desenvolvera uma desconfiança em relação ao sexo oposto.
Mas não podia incluir Aggie na mesma categoria de outras mulheres. Ela era
especial. Com o rosto corado, Aggie jogou o guardanapo sobre a mesa e levantou.
— Se vamos embora, preciso subir e fazer minha mala.
— Aggie... — Ele se levantou e foi atrás dela e alcançou-a na escada. Pegou-a pelo
braço e puxou-a.
— Não tem importância — disse ela.
— Tem sim. Peço desculpas pelo que eu falei.
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Você desconfia de todo o mundo! Em que tipo de mundo você vive, Luiz? Acha
que todos são interesseiros, oportunistas, que as mulheres querem se aproveitar de você.
— Isso está entranhado em mim. Não estou dizendo que seja algo bom. — Mas era
algo que ele nunca questionara. Ela estava confusa, zangada. — Quando voltarmos para
Londres, eu quero continuar a ver você.
— E você já esclareceu as regras que isso implica! — Aggie suspirou e sacudiu a
cabeça. Aquilo não era nada bom para ela, mas, por outro lado, ela não conseguia pensar
em deixá-lo sem olhar para trás. Só de estar perto dele, sentia o coração bater mais forte
e se derretia.
— Eu só estou tentando ser o mais honesto possível.
— Não precisa se preocupar que eu vá fazer algo estúpido! — afirmou ela.
Se ele soubesse o quanto já fora estúpida, sairia correndo. Mas como dera o
primeiro passo para dormir com ele sem pensar nas consequências, continuaria a dormir
com ele, aproveitando o que pudesse, como se fosse um viciado que temesse que lhe
tirassem a droga. Ela não se orgulhava de si mesma, mas era honesta. Luiz ficou aliviado
e só percebeu que estivera contendo a respiração quando soltou o ar.
— O trajeto de volta será mais fácil - disse ele, acariciando o braço dela.
— Você ainda vai falar com Mark, quando eles voltarem a Londres? Afastá-lo de
Maria?
Ele percebeu que não pensara no assunto.
— Eles não vão se casar. A crise acabou. — Ele riu, com relutância. - Certo. Eu
estava pensando em outras coisas. Não pensei em qual seria o próximo capítulo dessa
saga. Pensando bem, creio que Luisa poderia ter a conversa do tipo mãe e filha que ela
acha tão necessária. Eu estou me retirando de campo.
— Fico feliz.
Ela sorriu, e tudo o que Luiz conseguia pensar é que fora o responsável por colocar
aquele sorriso no seu rosto. No passado, ele nunca fora capaz de ver além do fato de que
qualquer relacionamento em que as pessoas tivessem níveis desproporcionais estaria
destinado ao fracasso. No passado, a desigualdade financeira seria suficiente para que
ele continuasse a sua missão e fizesse de tudo para impedir que o irmão de Aggie
exercesse alguma influência sobre sua sobrinha. Mas tudo mudara repentinamente.
— Então vou fazer as minhas malas e encontro com você aqui, dentro de mais ou
menos meia hora?
Ele concordou, e ela não perguntou o que iria acontecer a seguir. Claro, ela voltaria
para casa, e depois? Seriam namorados ou essa era uma noção romântica demais para
ele? Ele a levaria para jantar, como fazia com outras mulheres. Aggie tinha certeza de que
ele era generoso quando se tratava do lado material de seus relacionamentos. O que lhe
faltava em investimento emocional, ele compensava com dinheiro. Afinal, ele se oferecera
para lhe comprar um laptop, só porque ela não tinha um E isso antes de eles terem se
tomado amantes.
Mas, se ele tinha regras, ela também tinha. Não deixaria que ele lhe comprasse
nada, não queria jantares suntuosos nem camarotes na ópera ou no teatro. Se ele queria
colocar todas as cartas na mesa, ela também colocaria as suas.
Como que complementando o desejo que eles tinham de voltar rapidamente para
Londres, a neve se reduzira a alguns flocos leves. O ambiente estava carregado com a
tensão do que os esperava. Aggie estava ciente de cada movimento das mãos dele em
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
tomo do volante. Dava olhadelas para o seu perfil e se admirava com a sensual perfeição
do seu rosto. Quando ela fechava os olhos, imaginava estar sozinha com ele num quarto,
submetendo-se a suas carícias.
Conversar parecia ser parte de uma dança elaborada entre os dois. Ele planejava
visitar a família no Brasil durante o Natal. Ela fez perguntas sobre o lugar onde ele
crescera, descobrindo que tinha uma curiosidade insaciável a respeito da sua vida.
Depois de ter lhe contado sobre seu pai, ele falou sobre o derrame e como tinha se
sentido. Descreveu seu país vividamente. Aggie sentiu que havia milhares de coisas que
queria saber a respeito dele. Mark e Maria não voltariam nos próximos dias. Ao se
aproximarem de Londres, Luiz disse, como se esperasse que ela fosse concordar:
— Acho que você não deveria continuar morando naquele buraco.
Aggie riu, divertida.
— Eu não estou brincando. Você não pode continuar morando ali.
— Onde você queria que eu morasse, Luiz?
— Kensington tem alguns lugares decentes. Eu poderia lhe arrumar um
— Obrigada, mas acho que já lhe disse como os aluguéis em Londres são caros.
— Você não entendeu. Quando falei em arrumar um lugar, estava me referindo a
comprar.
Aggie ficou boquiaberta, perplexa.
— Então? — insistiu Luiz.
— Você não pode comprar uma casa para uma mulher com quem está dormindo,
Luiz.
— Por que não?
— Porque não é correto.
— Quero que você more num bairro decente. Tenho dinheiro para transformar esse
sonho em realidade. O que poderia ser mais correto?
— Apenas para facilitar o meu argumento, o que aconteceria com essa casa
decente quando nós terminássemos?
Luiz não gostou do que ouvia e fez uma careta. Sabia que fora ele quem
estabelecera a regra, mas precisava sublinhar e acrescentar três pontos de exclamação
depois da frase?
— Você ficaria com ela, naturalmente. Eu nunca dou presentes para uma mulher e
os peço de volta quando o relacionamento acaba.
— Você fez o que queria durante muito tempo. — Não era surpresa. Ele crescera
com muito dinheiro e sempre presenteara suas namoradas. — Eu não vou aceitar uma
casa de você. Nem um apartamento. Estou feliz onde estou.
— Não está — contradisse Luiz. -Ninguém seria feliz naquela espelunca. O máximo
que alguém acharia é que tinha um teto acima da cabeça.
— Eu não quero nada de você. — Mas, depois dos grandes espaços abertos do
norte, a casa de Londres lhe parecia claustrofóbica.
Não era o que Luiz queria ouvir, por que queria dar coisas a ela. Queria ver um
sorriso no seu rosto e saber que fora ele que o provocara.

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Na verdade — Aggie concluiu -, acho que deveríamos aproveitar o que temos. Eu
não quero que você me dê presentes e me leve a lugares caros.
— Eu não como comida feita em casa, na frente da televisão.
— E eu não gosto de jantares suntuosos. De vez em quando é bom sair para jantar,
mas não sair também é. - Aggie sabia que estava caminhando sobre a lâmina. Qualquer
indício de domesticidade o faria correr, mas, o quanto ela deveria sacrificar em nome do
amor e do desejo?
— Eu não gosto de tudo isso. Não gosto de joias e não tenho gostos caros.
— Por que você é tão difícil?
— Eu não sabia que era.
— Do ponto de vista prático, a sua casa vai estar atravancada com o seu irmão e a
minha sobrinha aparecendo a cada três minutos. Eu não quero que nós quatro fiquemos
afundados num sofá velho, vendo televisão, enquanto roubam o meu carro.
Aggie deu uma gargalhada.
— Este é um péssimo argumento para fazer o que você quer.
— Você não pode me culpar por tentar.
Mas ele desejou ter tentado com mais empenho quando finalmente chegaram à
casa dela. A neve virara lama e cobria a região com uma camada cinzenta.
Aggie olhou para Luiz e sorriu ao vê-lo analisar a casa com desgosto. Ele fora tão
mimado, tão habituado a conseguir o que queria. É verdade que não se queixara nem
uma vez dos desconfortos que deveria ter suportado durante a viagem, mas para Luiz
deveria ser um suplício não poder se livrar daquele. Principalmente, porque ele tinha
razão. O sr. Cholmsey não podia oferecer nada menos atraente para alugar. Ela se
perguntou como esquecera o estado lamentável em que o imóvel estava.
— Você poderia, pelo menos, ir para o meu apartamento — disse Luiz, encostandose na parede do hall, enquanto ela soltava a mala no chão. - Aproveite um pouco, Aggie.
— A voz dele estava aveludada e tentadora como chocolate. — Não há nada de errado
em querer relaxar num lugar onde o aquecimento central não estoura a cada dois
minutos, como um escapamento de carro.
Aggie ficou indecisa. Ele se inclinou e, quase sem se afastar da parede, sem a tocar
em nenhum outro lugar, deu-lhe um beijo delicado.
— Isso não é justo — protestou ela.
— Quero vê-la dentro da minha banheira. Uma banheira enorme, limpa, que pode
facilmente comportar nós dois. E depois quero vê-la deitada na minha cama king-size, em
lençóis limpos. E se você quiser, podemos ligar a televisão do meu quarto. Tem o
tamanho de uma tela de cinema. Mas, antes disso, quero fazer amor com você com todo
o conforto. Quando estivermos exaustos, quero pedir ao Savoy que nos mande uma
refeição. Não precisa se arrumar toda para sair. Seremos apenas nós dois. Eles fazem
uma deliciosa musse de chocolate. Gostaria de adoçá-la com você...
— Você venceu. — Aggie suspirou de puro prazer. Puxou-o, e logo os dois estavam
agarrados e tropeçando a caminho do quarto.
Apesar de Luiz afirmar que queria possuí-la em sua casa, ela era tão deliciosa que
ele não conseguia resistir.

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
Ela já estava sem a blusa quando chegaram ao topo da escada. Quando chegaram
à porta do quarto, ela deixara o sutiã no corrimão da escada. Enquanto caíam na cama de
solteiro, ela tirava o jeans.
— Eu estou querendo fazer isso desde que entramos no carro — murmurou Luiz.
— Fiquei tentado a alugar um quarto no primeiro hotel pelo qual passássemos, só
para fazer isso. Eu não sei o que você tem, mas, quando eu estou perto de você, me
transformo num homem das cavernas.
Aggie resolveu que gostava disso. Deitou-se e ficou olhando, enquanto ele tirava a
roupa. Seria apenas sexo frenético, dois corpos se enrolando. Não haveria tempo para
preliminares, informou ele. Só queria estar dentro do seu corpo. Luiz dizia coisas que a
deixavam louca. E ele a enlouquecia naquele momento, dizendo como ela fazia com que
ele se sentisse quando faziam sexo. Qualquer descrição a excitava ainda mais, e quando
ele entrou no seu corpo, ela precisou se conter, porque já atingira o limite.
Ele se movimentava ritmicamente, levando-a cada vez mais longe, até que ela
gritou, teve um orgasmo, cravou as unhas em seu ombro, arqueou o corpo e trincou os
dentes. Era a mulher mais bonita que ele já vira. Luiz se sentiu explodir dentro dela, e
então, já era tarde demais. Não conseguira conter o poderoso orgasmo, e caiu do lado
dela, com um gemido.
— Eu não usei preservativo. — Podia estar retomando das alturas, mas sua voz
soava áspera, cheia de raiva pelo próprio esquecimento. Ele olhou para ela e depois se
sentou na cama e colocou as mãos na cabeça, desesperado.
— Tudo bem — falou Aggie depressa. Se ainda não entendera a mensagem, agora
ela estava clara. Ele não queria se casar, e a simples ideia de uma gravidez o deixava
apavorado. — Eu estou num período seguro.
Luiz respirou com alivio e deitou ao lado dela.
— Nunca cometi esse erro na minha vida. Não sei o que aconteceu. — Mas sabia.
Perdera o controle. O homem que ele costumava ser jamais perdia o controle.
Aggie olhou para ele e viu o desgosto que ele sentia por ter sido tolo e humano o
suficiente para cometer um deslize. Por mais que mexesse com ele, Luiz Montes não
estava disposto a nada mais que uma aventura casual. Ela podia amá-lo, mas não teria
mais que isso.

Capítulo 9
— O que há de errado? — Luiz olhou-a por cima da mesa do pequeno restaurante
onde se sujeitara a comer uma pizza medíocre e a beber vinho de má qualidade.
— Nada.
Mas Aggie não conseguia encará-lo. Ele olhava para ela de um jeito que parecia ver
até o fundo da sua alma, como se pudesse desenterrar coisas que ela queria esconder.

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
O mês anterior fora a melhor época da sua vida. Ela completara a última semana do
ano letivo na escola. A neve acabara, deixando os restos de dois bonecos de neve que as
crianças tinham feito. Luiz fora à escola duas vezes. Na primeira, ele aparecera e deixara
as professoras e as crianças alvoroçadas. Aggie se sentira envergonhada. Deveriam estar
imaginando como ela conseguira atrair alguém como Luiz. Ela se perguntava o mesmo.
Ele fora passar o Natal no Brasil. Aggie resolvera que seria o momento ideal para
tentar se fortalecer e construir defesas contra ele, mas, assim que voltara a vê-lo, voltara
a cair no poço do qual pretendia sair. Ela se sentia numa montanha-russa. Quando ele
estava perto, ela se sentia energizada e excitada, mas, no fundo, sabia que o trilho iria
acabar e, quando isso acontecesse, ficaria tonta, trêmula e desorientada.
— E esse lugar! — Luiz jogou o guardanapo em cima do resto da pizza. - Por que
você é orgulhosa demais para me deixar levá-la a restaurantes onda a comida é decente?
Aggie ficou surpresa ao ver o desprezo no seu rosto. Ele parecia totalmente
deslocado naquele lugar, rodeado por famílias com filhos barulhentos e adolescentes.
Mas ela não quisera ir a um lugar onde tivessem maior intimidade. Quisera um lugar
barulhento e impessoal.
— Você tem me levado a restaurantes caros — disse ela. — Posso fazer uma lista
deles.
Ele fez um gesto de indiferença. Havia algo de errado, e ele não estava gostando.
Acostumara-se com sua vivacidade, sua implicância, com a maneira como ela fazia com
que ele quisesse acabar o dia se encontrando com ela. Ela se tomara desanimada, triste,
e ele não conseguia atingi-la.
— Vamos pedir a conta e sair daqui. - Ele fez sinal para o garçom. — Posso pensar
em melhores coisas a fazer do que ficar aqui com o frio congelando a comida no prato e
aumentando o nosso mau humor.
— Não!
— Como? — Ele a viu corar, morder o lábio e desviar os olhos. A ideia de que ela
não queria ir para a sua casa apavorou-o.
— Ainda é cedo — falou Aggie enquanto tentava encontrar um jeito de dizer a ele o
que deveria. — Além disso, é sábado. Todos estão se divertindo.
— Vamos nos divertir em outro lugar. — Ele deu um sorriso malicioso. — Não é
preciso fazer amor apenas no quarto. Uma mudança de cenário também me agradaria.
— Uma mudança de cenário? - perguntou ela desanimada. Perdera-se no seu
sorriso sexy, persuasivo. Ele fora direto do escritório para sua casa, ainda vestindo um
terno. Tirara a gravata, colocara-a no bolso do paletó e os jogara sobre uma cadeira.
Enrolara as mangas da camisa. Parecia exatamente o empresário milionário que
realmente era, e ela se perguntava como ele poderia ter ficado atraído por ela. Mas, às
vezes, eles pareciam ser dois lados da mesma moeda. Ela gostava de se recordar dessas
ocasiões. O desejo de que ele se relacionasse com ela além de sexualmente podia ser
apenas um sonho. Mas sonhar não fazia mal, fazia?
— Eu estou perdendo você novamente. — Ele passou a mão na cabeça com
impaciência. — Vamos sair daqui. Já tive bastante desse boteco familiar e barulhento.
Existem mais coisas para se fazerem num sábado.
Lá fora estava frio, mas não tanto quanto antes do Natal. Aggie sabia que deveria ter
ficado no ambiente quente, barulhento e tumultuado do restaurante, mas reconhecia que
queria ir embora tanto quanto ele. No passado, teria ficado satisfeita por comer na
pizzaria local, mas agora percebia que mal podia chamar aquilo de restaurante. Era um
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
lugar onde se podiam levar as crianças para comer alguma coisa e fazer tanta bagunça
quanto quisessem
— Podemos voltar para a minha casa - disse ela enquanto Luiz passava um braço
pelo seu ombro e chamava um táxi.
Ele a abraçava com toda a naturalidade. Era outra coisa que ela guardara na sua
gaveta de esperanças. Se ele se sentia tão relaxado junto dela, certamente existiria algo
além de sexo, certo? Mas ele nunca dissera o que poderia ser esse algo. Nunca falava do
futuro, e ela sabia que era por não querer que ela tivesse esperanças. Desde o inicio, ele
avisara que não procurava algo permanente. Ele não a amava. Ela fazia parte da sua vida
temporariamente, e ele gostava disso. Ela nunca demonstrara que, para ela, era diferente.
— Onde está o seu irmão?
— Deve estar em casa, com Maria. Ei não sei. Na segunda-feira ele viaja para os
Estados Unidos. Acho que ele pretendia fazer um jantar especial para os dois.
— Você está sugerindo voltar àquele buraco onde disputaremos espaço com os
dois, interrompendo o que deveria ser a última noite que eles passariam juntos? A não
ser, claro, que nós fiquemos no seu quarto, onde dividiremos a sua cama estreita e
faremos amor o mais silenciosamente possível.
Luiz odiava a casa dela, mas desistira de convencê-la a se mudar para um lugar
maior, mais confortável, pago por ele. Ela batera o pé e recusara, mas o resultado é que
passavam muito pouco tempo ali. E quanto mais Aggie via a casa através dos olhos dele,
mais insatisfeita ficava.
— Não precisa ser intransigente! Por que você sempre precisa fazer tudo do seu
jeito?
— Se eu faço isso, então por que passamos uma hora e meia num lugar onde a
comida é intragável e que é barulhento a ponto de dar enxaqueca? O que está
acontecendo, Aggie? Eu não vim encontrá-la para enfrentar o seu mau humor.
— Nem sempre eu posso ser alegre e radiante, Luiz!
Pelo canto do olho, ela viu um táxi parar. Os dois entraram, e ela ouviu Luiz dar o
endereço dele. O último lugar onde ela queria ficar com ele era no seu apartamento.
— Agora... — Ele estendeu o braço nas costas do assento. — Fale comigo. Diga o
que está acontecendo. — Ele olhou para a sua boca e desejou beijá-la e fazê-la sorrir
novamente. Não costumava insistir para que as mulheres falassem Era um homem de
ação. Quando elas queriam falar, ele preferia enterrar a conversa debaixo dos lençóis.
Mas Aggie era diferente. Se ele sugerisse fazer isso, ela provavelmente responderia com
toda a sua energia combativa.
— Precisamos conversar — admitiu ela calmamente, e sentiu que ele ficava tenso.
— Sou todo ouvidos.
— Não aqui. Apesar de eu ter preferido ter essa conversa no restaurante, podemos
esperar até chegar à sua casa.
— Você teria preferido conversar num lugar onde não nos ouviríamos?
— O que eu tenho a dizer... Estarmos rodeados de pessoas iria facilitar.
Luiz estava com uma sensação desagradável na boca do estômago. Não conseguia
esquecer que ela já o rejeitara uma vez. Pelo visto, iria rejeitá-lo de novo, mas ele não
deixaria que isso acontecesse. O seu orgulho se manifestou com a força de uma
britadeira.
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Estou entendendo que a conversa tem a ver conosco, é isso?
Aggie concordou, desanimada. Ensaiara várias vezes o que tinha a dizer, mas ainda
não sabia por onde começar.
— O que há para conversar? - perguntou ele, sorrindo. — Já discutimos esse
assunto. Eu não estou querendo compromissos, e você disse que também não está.
Estamos em sintonia.
— Às vezes as coisas mudam
— Está dizendo que está insatisfeita com o que temos? Que, depois de algumas
semanas, você quer mais? — Ele se recusava a deixar que lhe cortassem as asas. Ela
teria a intenção de lhe dar um ultimato? Que ele prometesse mais, se quisesse continuar
a vê-la e a dormir com ela? A ideia o revoltava. Outras mulheres já lhe haviam dado
alguns sinais, apresentando-o a amigos que tinham filhos, emocionando-se ao ganhar
joias, mas nenhuma delas o forçara a fazer uma escolha. Aparentemente, era isso que
Aggie pretendia fazer.
O tom com que ele falara atingiu Aggie como uma bofetada. Ele realmente achava
que ela era idiota o bastante para não entender as regras que ele estabelecera?
— E se eu quisesse? — Ela estava curiosa para saber aonde aquela conversa iria
levá-los, mas já previa o seu final doloroso.
— Eu iria perguntar se você não está imaginando que ter um marido rico é mais
lucrativo que simplesmente o namorar.
Aggie ficou horrorizada e magoada.
— Como pode dizer isso?
Luiz franziu as sobrancelhas e olhou para outro lado. Ele merecia uma reprimenda.
Não acreditava que a tivesse acusado de ter um objetivo financeiro. Ela provara ser a
mulher menos interesseira do mundo. Mas a ideia de ela deixá-lo lhe provocara algo que
ele não conseguia definir.
— Desculpe. Foi um golpe baixo.
— Mas você realmente acredita nisso? — Aggie era levada a crer que o homem que
tanto amava a colocava num nível tão inferior que achava que ela fosse capaz de levá-lo
a se comprometer.
— Não. Não acredito.
Ela respirou aliviada, porque jamais seria capaz de conviver com aquela ideia.
— Então por que você disse?
— Olhe, eu não sei do que se trata. Mas não estou interessado em jogar. Não
deixarei que me pressionem Nem você nem ninguém
— Porque você não precisa de ninguém? O grande Luiz Montes não precisa de
nada nem de ninguém!
— O que há de errado com isso? — Ele estava perplexo. Por que ela estava
tentando começar uma briga? Por que de repente resolvera que queria mais do que eles
tinham? Os dois estavam tão bem. Mais que bem. Ele se controlou para não explodir.
— Eu não quero brigar com você - disse Aggie, olhando para o motorista, que
parecia desinteressado. Provavelmente ele ouvia aquele tipo de conversa o tempo todo.

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— Eu também não — falou Luiz depressa. — Por que não fazemos de conta que
nada aconteceu? — Havia um jeito de acabar com a discussão. Ele a puxou contra o
peito e enfiou a mão em seu cabelo.
Aggie tentou afastá-lo, mas suas mãos não obedeciam. Enquanto ele enfiava a
língua em sua boca, ela sentia o corpo despertar. Seus mamilos endureceram dentro do
sutiã, ansiando por serem tocados. Sua pele se arrepiou, e a umidade entre suas pernas
era um alerta doloroso de como ele mexia com ela. Não era de se admirar que
precisassem conversar. Não era de se admirar que, naquele momento, ela não quisesse
fazer amor.
— Assim não é melhor? — murmurou ele com satisfação. — Eu iria em frente, mas
não quero assustar o motorista do táxi.
Como que para desmentir a afirmativa, ele lhe tocou o seio e o massageou até fazêla sentir vontade de gritar. Desde que tinham começado a se encontrar, o guarda-roupa
de Aggie mudara, e agora era constituído por roupas mais alegres, mais justas.
— Você está usando sutiã — falou ele no ouvido dela. — Sabe que eu odeio isso.
— Você não pode ter tudo o que quer, Luiz.
— Mas é o que nós dois queremos, não é? Gosto de poder tocá-la sem precisar me
livrar de um sutiã, e você gosta do mesmo. Mas, talvez, ter que abrir caminho através de
camadas de roupas seja um pouco de tempero...
— Pare com isso, Luiz!
— Diga que não gosta do que eu estou fazendo. — Ele enfiara a mão sob a sua
blusa e puxara o seu sutiã.
Aquele era o jeito de abafar uma discussão, ele pensou. Talvez ele tivesse se
enganado. Talvez ela não quisesse estender os limites. Talvez ela quisesse algo mais
prosaico. Ele não sabia e não iria se arriscar a retomar o assunto.
Luiz suspirou e soltou-a ao mesmo tempo em que o táxi diminuía a velocidade para
estacionar diante de sua casa. Ele puxou a blusa de Aggie para o lugar.
— Que bom que chegamos — disse ele com malícia. — Ir em frente no assento
traseiro de um táxi seria levar as coisas longe demais. Acho que quando formos fazer algo
em público, precisamos pensar cuidadosamente onde devemos começar...
A casa que ela tanto admirava passara a deixá-la menos impressionada. Ainda
apreciava as obras de arte, mas o ambiente nada tinha de pessoal, mostrando que o
dinheiro podia comprar algumas coisas como beleza, mas não aconchego. Sair com Luiz
fizera com que ela ficasse menos intimidada com o que o dinheiro podia pagar e muito
menos aborrecida com as pessoas que o possuíam
— Então... — Luiz tirou o casaco e o paletó assim que entraram — Vamos terminar o
que começamos? Não precisamos subir. Se você for para a cozinha e sentar num
banquinho, vou lhe mostrar o que posso fazer com a comida. Garanto que serei muito
mais criativo com os ingredientes do que o cozinheiro do restaurante aonde fomos hoje.
— Luiz... — Ela tremia ao colocar a mão no seu peito. Desta vez, não cederia.
— Santo Deus, mulher! Não me diga que quer começar a discutir outra vez. -Ele
enfiou as mãos por debaixo do casaco de Aggie, segurou-a pelas nádegas e puxou-a
contra a sua ereção. - Se você quer conversar, vamos fazer isso na cama.
— Não é uma boa ideia.
— Quem disse que eu quero boas ideias?
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Eu gostaria de tomar um café.
Ele gemeu de frustração e desistiu. Deu um soco na parede, cobriu a cabeça com o
braço e olhou para ela com resignação.
— Certo. Você venceu. Mas acredite, conversar nunca é uma boa ideia.
Aggie pensou que era verdade. Do ponto de vista dele, não seria algo que ele
gostaria de ouvir. Ela se espantava que em poucas horas a vida pudesse mudar
drasticamente. Estivera consultando o calendário escolar para planejar as aulas quando
algo lhe ocorrera de repente. Consultara o calendário normal, indo e voltando nas datas. A
última data em que menstruara... Nunca prestara muita atenção, porque o seu ciclo
sempre fora regular. Uma hora mais tarde, com as mãos tremendo, ela comprara um teste
caseiro de gravidez. Já pensara em mil motivos pelos quais não deveria estar
preocupada. Luiz era maníaco por proteção. A não ser por um único deslize, ele sempre
fora cuidadoso.
Depois de alguns minutos, ela descobrira como um pequeno deslize mudava a vida
de uma pessoa. Estava grávida de um homem que não a amava, que a avisara para não
se envolver e que nunca expressara o desejo de ter filhos. Considerando tudo isso, ela
pensara em não lhe contar. Poderia simplesmente desaparecer. Não seria difícil. Odiava
sua casa, e seu irmão logo deixaria Londres para viver uma nova fase da sua vida. Ela
podia se desfazer de tudo e ir para o norte. Luiz não iria atrás dela e jamais saberia que
tinha um filho. A ideia não durara muito tempo. Maria iria dizer a ele, e ele a encontraria.
Além disso, como poderia privar um homem de seu próprio filho? Ainda que fosse um filho
indesejado?
— O que eu vou lhe dizer vai chocá-lo — disse Aggie assim que eles se sentaram na
sala, a uma distância razoável um do outro.
Pela primeira vez na vida, Luiz sentia medo. Um medo que lhe paralisava as cordas
vocais e o fazia suar.
— Você não está doente, está?
Aggie ficou surpresa.
— Não, não estou — declarou ela firmemente. Ele ficara pálido, e ela sabia por quê.
Deveria estar pensando na doença do pai, cujos detalhes ele lhe contara durante o tempo
que haviam passado juntos.
— Então o que é?
— Não há maneira fácil de lhe dizer. Portanto, eu vou ser direta. Estou grávida.
Luiz ficou paralisado. Por alguns segundos, ele imaginou ter ouvido errado, mas
como não era dado à imaginação e o rosto dela estava sério, ele percebeu que não fora
uma piada.
— Não pode ser — falou ele por fim.
Aggie desviou os olhos. Toda vez que pensara em ficar grávida, fora num cenário
cor-de-rosa, que envolvesse um homem que a amava. Nunca se imaginara dizendo aquilo
a um homem que reagiria como se ela tivesse lhe jogado uma bomba.
— Receio que possa, e eu estou.
— Eu fui cuidadoso!
— Houve aquela vez... — Contra sua vontade, porque ela não esperava que ele
gritasse de alegria, Aggie começou a sentir a raiva crescer.

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— Você disse que não havia perigo.
— Sinto muito. Eu me enganei.
Luiz foi até a janela e ficou olhando para fora. Com certeza, pensava que a sua vida
estava arruinada. Era o retrato de um homem arrasado por más notícias.
— Você ia me dizer isso numa pizzaria? — Ele se aproximou e segurou nos braços
da cadeira onde ela estava sentada. Aggie se encolheu.
— Eu não queria... isso! — exclamou ela.
— Isso o quê?
— Eu sabia como você iria reagir, e pensei que você seria mais... civilizado se eu lhe
contasse em público.
— O que achou que eu iria fazer?
— Nós precisamos conversar como adultos. Não iremos a lugar nenhum com você
me ameaçando desse jeito!
— Droga, como isso aconteceu? — Ele desabou sobre o sofá.
Aggie pensou que tudo o que tinham tido desmoronara sob o peso da sua gravidez.
Isso só mostrava a fragilidade daquele relacionamento, que não fora feito para durar, para
suportar obstáculos. Apesar de uma gravidez não poder ser chamada de obstáculo...
— Que pergunta idiota. — Ele esfregou os olhos e se inclinou na direção de Aggie.
— Claro que eu sei como aconteceu. Você tem razão. Precisamos conversar. Diabos, o
que há para falar? Precisamos nos casar. Haveria outra saída?
— Casar? Não é isso o que eu quero! - protestou Aggie, contendo a raiva. Ele
estava fazendo o que, na sua visão distorcida, era a coisa mais decente. - Você realmente
acha que eu lhe contei porque quero me casar com você?
— Que diferença faz? A minha família ficaria desapontada ao saber que eu tive um
filho fora do casamento.
Que bela proposta de casamento, Aggie pensou nervosamente.
— Você está grávida. E melhor nos casarmos do que enfrentar a indignação da
minha família tradicional.
— Eu não penso assim.
— O que está querendo dizer?
— Que não posso aceitar a sua generosa proposta.
— Não seja louca. Claro que pode!
— Eu não pretendo me casar com alguém só porque vou ter um filho. A gravidez não
é motivo suficiente para se casar, Luiz. — Ela podia ver que ele estava chocado por ter
sido rejeitado. - Sinto muito se os seus pais acham inaceitável que você tenha um filho
fora do casamento, mas não me casarei com você só para evitar que eles fiquem
decepcionados.
— Esse não seria o único motivo!
— Quais seriam os outros? — Aggie tinha um fio de esperança de que ele dissesse
as palavras que ela tanto queria ouvir: que ele a amava. E ela não se importaria se ele se
estendesse mais um pouco e dissesse que não conseguiria viver sem ela.

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
— E melhor que uma criança conviva com os dois pais. Eu sou rico. Não vou deixar
que um filho meu passe necessidades. Já são duas razões, e há outras! — Por que ela
estava sendo tão teimosa? Acabara de destruir o seu mundo, e ele reagira
admiravelmente! Ela não via isso?
— Uma criança pode conviver com os dois pais sem que eles estejam casados —
argumentou Aggie. — Não pretendo privá-lo da oportunidade de vê-lo, ou a ela, sempre
que quiser. Compreendo que você queira apoiá-lo financeiramente. Eu nunca pensaria em
impedi-lo de fazer isso.
Havia mais uma coisa que precisava ser discutida. Eles continuariam a se
encontrar? Em parte, ela ansiava por continuar com o relacionamento e poder contar com
a força e o apoio de Luiz. Por outro lado, ela percebia que seria tolice agirem como se
nada tivesse acontecido, como se a sua barriga, que ficaria cada vez mais visível, não
fosse mostrar que a vida dos dois mudara para sempre. Ela não se casaria com ele. Não
iria arruinar sua vida por causa de um gesto originado do senso que ele tinha de dever.
Quando a fria realidade se impusesse, ele perceberia que estava preso a ela para sempre
e acabaria por odiá-la. Procuraria consolo nos braços de outras mulheres e, um dia,
poderia encontrar alguém a quem realmente amasse.
— Há mais uma coisa — falou Aggie calmamente. — Eu não acho apropriado que
continuemos a nos encontrar.
— O quê? — explodiu Luiz. O seu corpo tremia de raiva.
— Pare de gritar!
— Então não me dê motivo para gritar!
Os dois se olharam em silêncio. O coração de Aggie batia forte.
— O que existe entre nós nunca irá muito longe. Você deixou isso bem claro.
— Ei, antes que você faça um discurso, responda-me uma coisa. Nós não nos
divertimos quando estamos juntos? - Para Luiz, ele parecia ter começado a tarde com
mar calmo e céu azul, e terminava com um furacão que estivera à sua espera no
horizonte. Não havia apenas um bebê a caminho. Além disso, ela informava que não
queria ter mais nada com ele. Luiz entrou em pânico e chegou a se sentir mal.
— O problema não é esse!
— Então qual é? Você não está fazendo sentido, Aggie! Eu lhe propus fazer o que
era certo, e você agiu como se eu a tivesse insultado. Você diz que um filho não é motivo
suficiente para nos casarmos. Eu não entendo! Um filho é um bom motivo para se casar
e, além disso, nós nos damos bem! Mas isso não é o bastante para você! Agora você fala
em acabar com o nosso relacionamento!
— No momento, somos amigos, e eu gostaria de manter a nossa amizade para o
bem do nosso filho, Luiz.
— Droga, nós somos mais que amigos!
— Somos amigos com benefícios.
— Não acredito no que estou ouvindo! — Ele fez um gesto de frustração e
impaciência. O seu rosto estava contorcido de raiva, os seus olhos chispavam,
censurando-a.
Com aquele tipo de clima, discutir com ele era como nadar contra a corrente. Aggie
queria abraçá-lo e deixar que ele resolvesse o que iria acontecer. Mas sabia que seria um
erro. Se os dois continuassem se encontrando e atingissem o ponto em que
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
inevitavelmente ele se cansaria, o relacionamento dos dois se tornaria amargo e
desagradável. Por que ele não via as coisas a longo prazo? Para um homem que previa
tendências no quadro geral dos negócios, ele parecia não ser capaz de fazer o mesmo na
sua vida pessoal. Vivia para o presente e não estava pronto para deixá-la. A única solução
que ele via era colocar um anel no seu dedo, apaziguar a família e alardear o próprio
senso de responsabilidade. Ele não pensava no futuro.
No fundo, Aggie sabia que se não o amasse, teria aceitado a sua proposta de
casamento. Não teria investido seus sentimentos num relacionamento sem esperança.
Poderia ver o casamento como um arranjo que fazia sentido e ficar grata por ele estar ao
seu lado. Não era de admirar que ele olhasse para ela como se ela estivesse ficando
louca.
— Eu não quero continuar e esperar que a atração física se esgote e você comece a
procurar em outro lugar. Não quero ficar tão decepcionada com você a ponto de me
ressentir com a sua presença na minha vida. Não seria um bom ambiente para uma
criança.
— Quem disse que a atração física iria se esgotar?
— É o que sempre acontece com você! Não é? A não ser... A não ser que eu seja
diferente. A não ser que o que você sente por mim seja diferente.
Luiz se sentiu encurralado e recaiu no antigo hábito de não responder a perguntas
que fossem tendenciosas. — Você vai ter um filho meu. Claro que você é diferente.
— Eu estou ficando cansada, Luiz. - Ela se perguntou por que continuava a esperar
por palavras que não seriam ditas. — Você acaba de ter um choque. Acho que
precisamos de um tempo para pensar. Quando voltarmos a nos encontrar, poderemos
conversar sobre medidas práticas.
— Medidas práticas? — Ele não estava conseguindo controlar o que acontecia.
— Você esteve insistindo para que eu me mudasse. — Aggie sorriu secamente. —
Acho que este seria um item da lista. - Ela levantou para pegar o casaco, mas ele a
deteve com um gesto.
— Eu não quero que você volte para aquele lugar esta noite. Ou nunca mais. É
revoltante. Agora você precisa pensar no meu filho.
— A palavra é conversar, Luiz. Não quer dizer que você vá me dizer o que quer que
eu faça e que eu vá obedecer.
Aggie vestiu o casaco. Luiz tinha a sensação de que ela estava escapando por entre
seus dedos. — Você está cometendo um erro - disse ele, barrando a saída de Aggie.
— Acho que todos os erros já foram cometidos — falou ela tristemente.

Capítulo 10
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams

Luiz olhou para a pilha de relatórios em cima da mesa e girou a cadeira na direção
da janela, de onde se viam as ruas agitadas de Londres lá embaixo. Era um belo dia de
primavera, mas isso não melhorava o seu nível de concentração nem o seu humor. E o
seu humor precisava ser melhorado com urgência, desde que Aggie tinha comunicado
sua gravidez, há mais de dois meses.
Na primeira semana, ele se convencera de que ela recuperaria a sensatez e
aceitaria a sua proposta de casamento. Atacara o assunto de todos os ângulos, exigira
mais motivos para ela recusar. Fora como bater com a cabeça na parede. Em meio à
crescente frustração, ele percebera que, quanto mais batia na mesma tecla, mais ela
recuava. Ele desistira de discutir e tinham conversado a respeito das medidas práticas
que ela mencionara. Pelo menos quanto a isso, ela ouvira o que ele tinha a dizer e
concordara com quase tudo. O seu orgulho não a impedira de aceitar a generosa ajuda
financeira que ele lhe oferecera, apesar de ela ter se recusado a deixar que ele lhe
comprasse a casa com que tanto sonhava.
— Quando eu me mudar para a casa dos meus sonhos — teimara ela não quero
saber que ela fez parte de um pacote que eu recebi por estar grávida.
Mas, há duas semanas, ela se mudara do buraco onde morava e fora para um
pequeno apartamento, em um bairro agradável de Londres, perto da escola onde
trabalhava. O trabalho que ela insistia em manter, alegando que pretendia se sustentar
sozinha, apesar de ele ter protestado.
— Eu estou feliz por aceitar ajuda em relação ao bebê — dissera ela com firmeza.
— Mas não precisa me incluir no mesmo pacote.
— Você é mãe do meu filho. Claro que quero ter certeza de que você tenha o
dinheiro de que precisa.
— Eu não quero depender de você, Luiz. Pretendo trabalhar até ter o bebê e voltar a
trabalhar assim que ele tiver idade para ir para uma creche. O horário da escola é o ideal,
e ainda há os feriados e as férias. É um trabalho ótimo para quem tem uma família.
Luiz odiava pensar nisso, assim como odiava o fato de ela tê-lo excluído da sua
vida. Eles se comunicavam calmamente, mas ela o afastara, e isso o aborrecia, deixandoo de mau humor e incapaz de se concentrar no trabalho.
E agora outra coisa assombrava sua cabeça. Algo em que ele pensara na semana
anterior, quando, de passagem, Aggie mencionara que iria à festa anual de primavera dos
professores. De alguma maneira, ele ignorara o fato de que ela deveria ter uma vida
social. Pensando nisso, ele perguntara a ela como eram os professores da sua escola e
descobrira que não eram apenas mulheres nem pessoas de meia-idade. Eles
desfrutavam de uma vida social agitada. A comunidade de professores era unida e
compreendia várias escolas.
— Você está grávida. Festas são zonas proibidas.
— Não se preocupe. Eu não vou beber. — Ela rira. E fora aí que um pensamento
preocupante ocorrera a Luiz.
Aggie recusara sua proposta de casamento e passara a tratar o relacionamento dos
dois como algo formal. Teria sido porque ela não queria se sentir presa? Deixara-o de
lado porque, independentemente do bebê, ela queria ter certeza de que poderia retomar
sua vida social? Uma vida social que envolveria outro homem, um homem do tipo pelo
qual ela costumava se sentir atraída? Ele não passara de uma extravagância na vida de
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
Aggie. Ela estaria disposta a procurar um daqueles homens criativos, que não se ligavam
ao dinheiro ou ao trabalho?
Luiz pensou nos relatórios sobre a mesa e sorriu com sarcasmo. Se ela soubesse...
Ninguém poderia acusá-lo de se concentrar apenas no trabalho, de ser dirigido pela
ambição. A bomba que explodira em sua vida fizera com que ele descobrisse o valor de
delegar tarefas! Se sua mãe o visse agora, ficaria contente ao constatar que o trabalho
não era mais o centro do seu universo.
O telefone interrompeu seus devaneios. Luiz atendeu, ouviu, fez algumas anotações
e se levantou. Pela primeira vez em semanas, sentia que finalmente estava fazendo algo.
Por fim, fosse para o bem ou para o mal, estaria tentando parar o trem desgovernado em
que a sua vida se transformara. Ao longo daquelas semanas, sua secretária se
acostumara com o seu humor imprevisível. Quando ele passou por ela e disse que iria
sair e não sabia se iria voltar, ela concordou sem questionar, já pensando em quem
poderia substituí-lo.
A caminho do andar térreo, Luiz telefonou para o motorista. Aggie deveria estar na
escola. Ele imaginou a cara que ela faria ao vê-lo aparecer, porque isso o distraía de
imagens bem mais tumultuadas que lhe vinham à cabeça, como, por exemplo, de Aggie
voltando a levar uma vida de solteira, depois de ter o filho; de Aggie se envolvendo com
outro homem; de outro homem educando seu filho, enquanto ele ficava relegado ao
segundo plano, a ser um pai ocasional.
Como nunca tivera uma imaginação fértil, Luiz descobriu que estava pagando por
uma vida inteira de falta de imaginação. Agora sua imaginação parecia um monstro que
se libertara de um longo confinamento e estava recuperando o tempo perdido. Ele não
podia deixar que aquilo continuasse.
Enquanto o carro abria caminho em meio ao tráfego pesado, Luiz teve a terrível
sensação de que entrava em pânico. Passara toda a sua vida adulta sabendo para onde
iria e como chegar lá. Mas, ultimamente, os sinais tinham sido retirados da estrada, que
deixara de ser reta e se enchera de atalhos em todas as direções. Ele não sabia onde iria
parar. Só sabia que pessoa queria encontrar ao chegar a seu destino.
— Não daria para ir mais depressa? - perguntou ele ao motorista, e praguejou
silenciosamente quando o homem o olhou pelo retrovisor e disse que ainda não tinham
inventado um carro que voasse.
Eles chegaram à escola quando o sinal tocava para o recreio e Aggie se
encaminhava para a sala dos professores. Apesar de ter sido poupada dos enjoos
matinais, ela se sentia sempre muito cansada. Era uma batalha se manter distante de
Luiz. Toda vez que ouvia aquela voz grave e severa ao telefone, perguntando como ela
estava, insistindo que ela lhe contasse o que fizera durante o dia, contando o que ele
fizera, ela só queria poder apagar o que dissera a respeito de não o querer na sua vida.
Ele telefonava constantemente. Sempre a visitava. Tratava-a como se fosse uma delicada
peça de porcelana. Quando ela lhe pedira para não agir dessa maneira, ele dera de
ombros e afirmara que, quando se tratava disso, era um dinossauro.
Aggie achara que, depois do discurso que ela fizera, Luiz perceberia que não ficaria
preso a ela pelos motivos errados. Pensara que logo ele iria lhe agradecer por tê-lo
deixado livre e que começaria a aproveitar sua liberdade. Um senso de responsabilidade
superdesenvolvido não duraria muito tempo. Ele não a amava. Para ele, seria fácil cortar
os laços assim que lhe dessem permissão para fazê-lo. Mas ele não estava deixando que
ela o esquecesse ou seguisse em frente.

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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
Ela se mudara do buraco, como ele continuava a dizer, e estava contente no lugar
que ele encontrara para ela. Ainda estava trabalhando e insistia em continuar no emprego
depois que o bebê nascesse, mas havia horas em que sentia vontade de estar longe de
Londres, com o seu barulho, a sua poluição e o seu tráfego. E, além disso, era assolada
por preocupações a respeito do que iria acontecer no futuro.
Não conseguia acreditar que um dia veria Luiz sem se deixar abalar. Depois de ter
se convencido de que estava fazendo a coisa certa ao se recusar a se casar com ele,
sentia-se angustiada com a ideia de que tinha tomado a decisão errada. Aggie olhou
desanimada para os sanduíches que trouxera. Quando estava prestes a morder um deles,
lá estava ele. Em meio ao caos de crianças correndo pelos corredores e dos professores
tentando contê-las, Luiz repentinamente aparecia na sua frente e se apoiava no batente
da porta da sala.
— Eu sei que você não gosta que eu venha aqui — disse ele, caminhando na
direção de Aggie e se perguntando se ela não deveria estar comendo mais que um
simples sanduíche como almoço, mas nada disse.
— Você sempre causa essa sensação - falou Aggie sinceramente. — O que você
quer? Eu tenho muito trabalho para fazer durante o almoço. Não posso perder tempo.
Como sempre, ela precisou controlar o impulso de tocá-lo. Era difícil. Toda vez que o
via, o seu cérebro enviava sinais para seus dedos, deixando-os impacientes com
lembranças prazerosas. Ele estava tão bem! Bem demais. Luiz não se dera o trabalho de
cortar o cabelo que crescera e o deixara ainda mais sexy. Quando ele se sentou na
beirada da mesa, os olhos dela foram atraídos pelas calças que cobriam suas coxas
musculosas.
Luiz viu que ela desviava os olhos, parecendo ansiosa para que ele fosse embora,
aborrecida por ele ter aparecido no seu local de trabalho. Pena. Ele não podia continuar
como estava. Estava ficando louco. Havia coisas que precisava dizer a ela e, quanto mais
ela se afastasse, mais suas palavras pareceriam redundantes. Liberados das salas de
aula pelo sinal do recreio, alguns professores entravam na sala. Luiz não conseguiu evitar
olhar para eles, tentando identificar algum que pudesse se tomar seu rival. Até agora, ele
havia visto três que pareciam ter cerca de 30 anos, mas nenhum deles deveria ser capaz
de atraí-la, certo? No passado, ele tivera a certeza arrogante do seu poder de sedução
sobre Aggie. Infelizmente, agora se sentia muito menos seguro e se irritava com a
possibilidade de que algum daqueles magricelas de cabelo vermelho pudesse substituí-lo.
— Você parece cansada — disse ele bruscamente.
— Você veio até aqui para me vigiar? Gostaria que parasse de me proteger como se
fosse uma galinha choca, Luiz. Posso me cuidar sozinha.
— Eu não vim aqui para vigiá-la.
— Então por que está aqui? — Ela ficou surpresa ao vê-lo hesitar.
— Gostaria de levá-la a um lugar... Eu... Há coisas que preciso lhe dizer.
Instintivamente, Aggie percebeu que ele não iria falar a respeito de dinheiro, do bebê
ou da sua saúde, assuntos amplamente analisados durante as suas constantes visitas,
enquanto ele a distraía com histórias curiosas a respeito do que estava fazendo e de
pessoas que conhecia. Ela se perguntou o que poderia ser tão importante para que ele
interrompesse o seu trabalho e estivesse tão hesitante.
De repente, ela deu asas à imaginação. Não havia dúvida de que ele a esquecera.
Fazia semanas que parara totalmente de falar em casamento. Visitava-a constantemente
e telefonava sempre, mas apenas por causa do bebê. Luiz era do tipo tudo ou nada.
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
Depois de contemplar a ideia da paternidade, ele a absorvera e abraçara com um
entusiasmo que era típico da sua personalidade. Ele não tinha meias-medidas.
Como ela estava grávida do seu filho, fora envolvida na sua onda de exaltação, mas
já percebera que ele não a via mais com o mesmo desejo de antes. Falava com ela e a
via constantemente porque ela se tornara uma amiga. Ela não lhe despertava mais
nenhuma paixão. Aggie sabia que deveria estar satisfeita, porque fora exatamente o que
ela previra no início e porque era necessário que o relacionamento dos dois sobrevivesse
a longo prazo. A amizade, e não desejo, seria a chave para formar o elo que precisariam
manter como pais.
Mas, enquanto Luiz aceitara este fato, ela ainda sentia dificuldades e não sabia que
assunto seria tão importante para lhe dizer a ponto de levá-lo até a escola. Teria ele
conhecido outra pessoa? Isso explicaria a sua insegurança. Luiz não costumava ser
hesitante. Aggie sentiu medo e empalideceu. Uma conversa que não podia esperar. Ele
pretendia preveni-la, antes que ela soubesse através de alguma fofoca. Seu irmão Mark
certamente iria saber e lhe passaria a informação.
— A respeito de dinheiro? — perguntou ela, agarrando-se à esperança de que ele
confirmasse.
— Não tem nada a ver com dinheiro ou com medidas práticas, Aggie. O meu carro
está lá fora.
Aggie concordou e recolheu o seu material, a bolsa, o casaco. Saiu atrás dele,
sentindo o corpo anestesiado.
— Aonde estamos indo? Preciso estar de volta às 13h30.
— Pode ser que você precise telefonar e dizer que chegará mais tarde.
— Por quê? O que você pode ter para me dizer, que não possa ser dito perto da
escola? Há um café na próxima rua. Vamos até lá e acabamos com essa conversa.
— Receio que não seja tão fácil.
Ela percebeu que ele hesitava novamente e ficou gelada até os ossos.
— Eu sou mais forte do que você pensa. Posso suportar qualquer coisa que você
tenha a me dizer. Não precisa me levar a nenhum restaurante chique para contar as
novidades.
— Nós não vamos a um restaurante. Conheço você o suficiente para não a levar a
nenhum lugar elegante, a não ser que você tenha uma hora para se arrumar.
— Não tenho culpa se fico nervosa nos lugares aonde você costuma me levar. Eu
não me sinto à vontade no meio de celebridades!
— É disso que eu gosto em você - murmurou Luiz. Isso e mais uma dezena de
pequenas idiossincrasias que deveriam ter lhe mostrado o significado do que sentia por
Aggie. Ele sempre se considerara inteligente, mas, com ela, ele se comportara como um
idiota.
— É mesmo? — Ela corou vergonhosamente como elogio.
— Eu quero lhe mostrar uma coisa.
O tráfego estava livre, e eles rapidamente saíram de Londres e pegaram a
autoestrada. Por um instante, Aggie se recordou da última vez que haviam saído da
cidade. No carro dele. Mas daquela vez estava nevando muito e não tinha havido nenhum
sinal de que eles estavam indo numa direção que mudaria suas vidas. Se naquela época
ela tivesse uma bola de cristal, teria desistido de dormir com ele? Evidentemente, a
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Paixão 396 – Presos ao Desejo – Cathy Williams
resposta seria não. Fosse qual fosse o resultado e ainda que o benefício tivesse durado
pouco, ela continuava a pensar da mesma maneira que pensara naquela ocasião.
— Então? — perguntou ela ansiosa.
— Você vai ter que esperar para ver.
— Aonde estamos indo?
— Berkshire. Não é longe. Logo estaremos lá.
Aggie ficou calada, mas não parava de imaginar o que ele teria a lhe mostrar fora de
Londres. Não pensara que houvesse algo que o interessasse fora da cidade, embora,
para ser sincera, a voz dele se emocionasse cada vez que ele falava nos lugares que
tinham visto juntos durante a viagem anterior. Ela ainda estava tentando entender o que
acontecia quando ele estacionou o carro diante de um imenso campo vazio e abriu a
porta do carro para ela.
— O que estamos fazendo aqui? — Ela olhou para ele, surpresa. Ele esperou que
ela saísse do carro, fez com que ela contornasse o limite gramado e guiou-a através de
uma série de caminhos tortuosos, até chegarem diante de um terreno aberto que parecia
não ter limites. Considerando que estavam muito perto de Londres, era incrível.
— Você gostou? — Ele olhou para ela.
— É um lote, Luiz. E sossegado.
— Você não gosta que eu compre coisas para você — falou ele. — Você não sabe
como é difícil resistir, mas isso fez com que eu percebesse que existiam outras maneiras
de expressar... o que eu sinto por você. Droga, Aggie. Eu não sei se estou dizendo isso do
jeito que deveria ser. Eu não sou bom nesse tipo de coisa, de falar sobre sentimentos.
Aggie olhou para o seu rosto perfeito, contraído pela dúvida e estranhamente
vulnerável.
— O que você está tentando dizer?
— Algo que eu deveria ter dito há muito tempo. — Ele se remexeu, sentindo-se
desajeitado. — Mas eu quase não percebi, até que você me afastou. Eu estou quase
ficando louco, Aggie. Pensando em você. Querendo você. Imaginando como vou
conseguir viver sem você. Eu não sei se já é tarde demais, mas não posso viver sem
você. Preciso de você.
Atingida de todos os lados por ondas de esperança, Aggie só conseguia olhar para
ele. Estava achando difícil ligar os pontos. A prudência lhe dizia para não se apressar a
tirar conclusões, mas o que ela via nos olhos dele deixava-a radiante.
Luiz fitou os seus olhos azuis e deles tirou força.
— Eu não sei o que você sente por mim — falou ele em voz rouca. — Eu a atraía,
mas isso não era suficiente. Quando se tratava de mulheres, a minha única moeda de
troca era o sexo. Como eu iria saber que o que eu sinto por você ia muito além de
desejo?
— Quando você diz muito além...
— Eu não sei quando me apaixonei por você, mas me apaixonei e, sendo tolo como
sou, demorei muito tempo para perceber. Espero que não tenha sido tempo demais. Olhe,
Aggie... — Ele passou a mão na cabeça e a sacudiu, como se quisesse colocar seus
pensamentos no lugar. — Eu estou fazendo a maior aposta da minha vida e espero não
ter arruinado as minhas chances com você. Eu a amo e... quero me casar com você. Nós

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já fomos felizes e nos divertimos. Pode ser que você não me ame, mas juro que eu tenho
amor suficiente para nós dois, e, um dia, você também irá...
— Shh. — Ela colocou o dedo sobre os lábios dele. — Não diga mais nada. — Os
olhos dela se encheram de lágrimas. - Eu recusei a sua proposta de casamento porque
não podia pensar na ideia de que o homem que eu amava... que amo
desesperadamente.... tivesse me pedido em casamento por achar que era a coisa mais
certa a se fazer. Eu não conseguia aceitar a ideia de você se tornar um marido ressentido
e relutante. Isso seria como arrancar um pedaço do meu coração a cada dia que
passássemos juntos. Foi por isso que eu recusei. — Ela abaixou o dedo e se colocou na
ponta dos pés para beijá-lo.
— Você cai se casar comigo?
Aggie deu um enorme sorriso e o abraçou pelo pescoço.
— Tem sido uma agonia falar com você, ver você — confessou ela. — Eu estava me
perguntando se não teria cometido um tremendo erro.
— É bom saber que eu não fui o único que sofreu.
— Então você me trouxe até aqui para me dizer que me ama?
— Não, para lhe mostrar este terreno, esperando que ele servisse como um forte
argumento para tê-la de volta.
— O que quer dizer?
— Como eu disse... — Ele estendeu o braço sobre o ombro dela e fez com que ela
se virasse para olhar o terreno. — Eu sei que não gosta que eu compre coisas para você,
então eu comprei isso para nós. Para nós dois.
— Você comprou este lugar?
— Trinta acres de terra com permissão para construir. Existem algumas regras a
respeito do que podemos fazer, mas nós podemos planejar tudo juntos. Esta seria a
minha última tentativa de lhe provar que eu não era mais o homem arrogante que você
não suportava, de mostrar que eu podia ser flexível e de dizer que eu valia a aposta.
— Meu querido! — Aggie se voltou para ele. — Eu o amo muito.
Havia mais coisas que ela sentia vontade de lhe dizer, mas estava tão feliz, tão
repleta de alegria, que mal conseguia falar.

Fim

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