A querela da crítica francesa dos anos 60 e seus ecos no Brasil

Profa. Dra. Laura Brandini (UEL)

Resumo: A década de 60 foi a mais pródiga em matéria de crítica literária na França do
século XX. Entre 1964 e 1966 Raymond Picard, eminente professor de literatura da Sorbonne
e prestigiado estudioso da obra de Racine, e Roland Barthes, então escritor que se firmava no
cenário crítico-literário francês, protagonizaram a mais acalorada disputa intelectual da época.
Por um lado, Barthes propunha uma nova função para a crítica literária, calcada na concepção
do texto visto como uma linguagem produtora de sentidos, livre do jugo do autor e
dependente do leitor para se realizar. Por outro, Picard defendia a até então vigente crítica
lansonista, que buscava na biografia do autor e no contexto de escrita da obra suas razões de
ser: a literatura, então, era compreendida como o produto de uma época e de uma intenção,
cabendo ao crítico esclarecê-la aos demais leitores. A “querela da crítica francesa” que opôs
não somente os dois intelectuais, mas dois grupos e, sobretudo, duas concepções literárias,
atravessou o Atlântico e ecoou no Brasil, cujo sistema literário estava em ebulição desde a
década anterior, em função de questões internas, porém também referentes a divergências na
concepção da obra literária. A recepção à querela francesa e suas consequências no cenário
crítico brasileiro, precisamente paulista, é o objeto desta comunicação, que tem por objetivo
evidenciar de que maneira as reflexões e indagações francesas contribuíram para redesenhar a
cartografia crítica brasileira.
Palavras-chave: crítica; Roland Barthes; estudos de recepção; literatura comparada
Abstract: The 60s was the most lavish in the field of literary criticism in France of the
twentieth century. Between 1964 and 1966 Raymond Picard, an eminent professor of
literature at the Sorbonne and renowned scholar of the works of Racine, and Roland Barthes,
writer who, in that moment, was establishing himself in the French literary-critical scenario,
staged the most heated intellectual dispute. On the one hand, Barthes proposed a new role for
literary criticism, based on the conception of the text as a language which produces meanings,
free from the domination of the author and dependent on the reader to exist. On the other,
Picard defended the until that moment prevailing lansonist criticism, that sought in the
biography of the author and in the context of the work of writing its reasons for being:
literature, then, was understood as the product of an era and of an intention, and it was a
critical design to clarify it to other readers. The “quarrel of French criticism” that opposed not
only the two intellectuals, but two groups, and especially two literary conceptions, crossed the
Atlantic and echoed in Brazil, whose literary system was in turmoil since the previous decade,
due to internal issues but also related to differences in the conception of the literary work. The
reception to the French quarrel and its consequences in the Brazilian critical scenario,
precisely in São Paulo, is the object of this paper, which aims to show how the reflections and
French inquiries contributed to redraw the Brazilian critical cartography.
Keywords: criticism; Roland Barthes; reception studies; comparative literature

embora possam ser responsabilizadas pela criação de um tipo convencional e que já começa a existir em nossa literatura: a do scholar. formada nos bancos da academia nas mais novas correntes críticas europeias. que buscava desvelar na obra literária seu mistério. Também começam a se fazer mais presentes nos jornais os críticos universitários que.) a crítica literária possui um “status” reconhecidamente importante dentre as atividades culturais e não se resume apenas à catalogação do reviewer ou ao puro jogo de espelhos do anotador de emoções à margem de versos suspirosos (!) É à crítica literária entendida como força de investigação que não pode prescindir de amarras especulativas que o crítico empresta o melhor de si mesmo (BARBOSA. meio pedante. além de corrigirem em parte a desorientação intelectual inautêntica e divisionista em que antes nos debatíamos. 1). objetiva. admite. As faculdades são centros onde arde a chama lúcida da inteligência arraigada e fiel e a crítica direta ou indiretamente já se tem beneficiado dessa mentalidade renovada (LINHARES. em 1965: – V. A década de 60 trouxe novos ares para tais debates. defendem seu ponto de vista.. como João Alexandre Barbosa. alargaram os horizontes. Pelo menos. diletante. subjetiva. antigo soldado da crítica tradicional. . com o fim de restabelecer a grande união inicial. não é? – Especializada ou não em determinado gênero. Chega a ser surpreendente a mudança do discurso sobre a universidade e a crítica em um espaço tão curto de tempo. para o qual (. muitas vezes de cunho formalista ou próxima dos preceitos do new criticism estadunidense. Esse sentimento é partilhado por críticos que combateram dos dois lados da querela dos anos 50 e pode ser situado aproximadamente na metade da década. a despeito de suas deficiências. que me permitiram observar referências às questões relacionadas às críticas universitária e tradicional e ao new criticism. naturalmente. A crítica mesmo mudou muito entre nós e há quem atribua papel preponderante às faculdades de letras que. como era hábito seu. e a então jovem crítica universitária. feitas de tal maneira que indicavam uma visão que já as entendia como parte do passado. Paulo. 1966. mas necessário à disciplinação da inteligência e até para dirigi-la rumo à terra e ao povo. 4).. comprovados por pesquisas no jornal O Estado de S. 1965.Debates críticos sempre fizeram parte das histórias das literaturas. as faculdades constituem o primeiro esforço corretivo que tivemos nesse sentido. autossuficiente. p. em artigo sob a forma de diálogo. quer chegar à especialização da crítica. o crítico de hoje não se confunde com o de ontem. Temístocles Linhares. Os jornais brasileiros dos anos 1950 testemunharam o grande embate travado entre a crítica tradicional. p.

– à exegese das obras literárias. ainda importante pólo irradiador de modas literárias. Também não define a “crítica aplicada”.A pesquisa situada no âmago da crítica. não obstante. Martins inicia suas reflexões com um olhar panorâmico sobre o passado recente: A década de 50 foi. marxistas. essa é a parte de herança útil que nos transmitiram as febris e um pouco desordenadas discussões dos anos anteriores (Ibidem). de que se encontram ainda os últimos ecos nos livros dos Srs. dominam. 6). o autor conclui: Vê-se bem que. que não prescinde de sua “força de investigação”. a margem necessária para o desaparecimento das sobrevivências. em todos os casos. em cada um desses períodos convencionais. abre as portas para a introdução de novas teorias na prática da exegese literária. compara dois críticos. “A Nova Guarda”. psicanalíticas. Fábio Lucas e Fausto Cunha. a época dos grandes debates teóricos. Martins não explica o que entende por “universalização estética”. Talvez seja uma consequência do apaziguamento dos ânimos e da aceitação generalizada do rigor metodológico e do objetivismo da crítica universitária. os fundamentos teorizantes. para a caracterização dos novos rumos) anuncia-se por uma tentativa simultânea de universalização estética. nos primeiros anos e. apontando a nova tendência da crítica que aportará no Brasil no ano seguinte (1966) e que colocará Barthes no centro das atenções. Comparando os quatro críticos mencionados. p. nesse momento. se já não ocupam o primeiro e único ponto de incidência luminosa. de crítica aplicada (MARTINS. sintetiza passado e presente como ninguém. evidenciando seu conhecimento de práticas correntes na França. . a década de 60 (reservando-se. etc. mas a expressão faz pensar na aplicação de teorias – linguísticas. a seu ver mais identificados com propósitos e ideais da década anterior. 1965. sociológicas. como apregoa Barbosa. na crítica brasileira. Fábio Lucas e Fausto Cunha. o que. Para tanto. em um artigo de título inspirador. também. Wilson Martins. mostrando o esgotamento das polêmicas entre novos e tradicionais. Léo Gilson Ribeiro e Assis Brasil. com outros dois críticos adeptos das novas concepções literárias. logo em seguida. Nesse texto. já caracteriza a nouvelle critique francesa e é alvo de ataques na França. os subentendidos das tomadas de posição. Martins faz um balanço geral dos debates literários dos anos 50. mas.

já em seu nome. buscando enterrar de uma vez por todas o impressionismo crítico2. eram objeto dos ataques da crítica tradicional. 2). ouso afirmar que a década de 60. na década de 60. muito contribuíram para a consolidação dessa vitória os congressos de literatura realizados pelo país. . Nessa época. criando seus próprios espaços de ação. marxista. constituindo uma encarniçada querela. campus de Assis (de 24 a 30 de julho). propunha uma solução aglutinadora dos saberes científicos em prol da leitura das obras literárias. o olhar dos críticos brasileiros foi se desviando gradativamente do new criticism estadunidense para se fixar na nouvelle critique francesa. para uma discussão em âmbito local de uma problemática estrangeira. não permitiam ambiguidades: crítica e história não se misturavam. e em 1962. teve início somente no mês de agosto. da Escola do Recife (final dos anos 1860 até 1914). A crítica universitária foi consolidada pelos congressos que se seguiram. em 1961. Com uma só tacada. na Universidade Federal de Pernambuco1. e graças à organização dos intelectuais dentro das novas universidades. na Universidade Estadual Paulista. esses eventos. defendendo o cientificismo metodológico. com a vitória dos professores universitários. realizado no Recife. como ferramenta analítica. Tobias Barreto. mas poderiam caminhar juntas. Tanto que as citações de críticos de língua inglesa foram cedendo 1 Nem um pouco fortuita a escolha do Recife como sede desse primeiro evento: sofrendo forte resistência da crítica tradicional.. O que sinaliza. dentre os mais eminentes.Em outras palavras. Sílvio Romero e Araripe Júnior. a integração gradual desta aos arcabouços teóricos dos intelectuais brasileiros. conforme circunstâncias e objetivos determinados (. p. nos anos 50. na crítica literária brasileira. de um aparato teórico até então incompatível com a atividade crítica. A crítica universitária.)” (1964. na Universidade Federal de João Pessoa. Como consequência da rotação no eixo das discussões literárias. preparou o terreno para a aceitação do emprego. sociológica e outras. Organizados por professores universitários em seu próprio território. Ou seja. com o I Congresso de Crítica e História Literária.. Aliás. muito rapidamente. o Congresso de Assis parece haver admitido tacitamente a ideia de que todos eles são legítimos e fecundos. redigido com base nos Anais do Segundo Congresso Brasileiro de Crítica e História Literária. as críticas de fundamentação psicanalítica. nesse congresso os universitários abrigaram-se sob a égide dos primeiros críticos brasileiros. a querela brasileira. na Paraíba (de 4 a 8 de dezembro). Wilson Martins faz um balanço do evento que pode ser estendido aos outros dois congressos: “Longe de propor a supremacia de qualquer método crítico particular. ela colocava um ponto final nas discussões que opunham subjetivismo e objetivismo e atualizava os debates literários inserindo na ordem do dia a contribuição de novos ramos do saber para o estudo do texto: na França da década de 60. no Brasil passou-se de uma discussão própria ao contexto local. chamadas de nouvelle critique. 2 Em artigo dedicado à crítica sociológica. que romperam com os padrões filosóficos espiritualistas e positivistas que até então subsidiavam as reflexões sobre o Direito e a Literatura.

Na França do século XX. as imbricações entre os dois sistemas críticos. Robbe-Grillet e. a querela opôs a velha tradição crítica. Sollers. uma visão pouco usual da obra do poeta clássico. Annus mirabilis 3 do pensamento crítico. a “nova crítica” no Brasil dos anos 60. em O Estado. nos anos 60. de Barthes.college-de-france. No mesmo navio. 1966 marca também o lançamento de Crítica e verdade. Esse novo interesse pela França permitiu que. Bachelard.espaço a outros nomes cada vez mais familiares aos intelectuais brasileiros: Butor. e por Barthes. Lévi-Strauss. Seus ecos atravessaram o oceano Atlântico e chegaram até o Brasil. catapultado ao sucesso pela querela com Raymond Picard. O pretexto oficial para a querela. Encontrei também em O Estado de S. à chamada nouvelle critique. a mais importante e fecunda discussão sobre a natureza e a função tanto da crítica. chegaram ao Brasil a nouvelle critique. Protagonizada pelo então célebre professor da Sorbonne e especialista da obra de Racine. e celebra o fato daquele ano não ter sido ainda pior do que foi. palavra final de Barthes na querela da crítica francesa. Paulo. filológica e historiográfica. Lacan. a sociologia e a linguística. Barthes. nesta comunicação. deu-se. sob o signo da desconfiança. “nova crítica” fosse entendida como sinônimo de nouvelle critique. suscitando reações por parte de intelectuais brasileiros que ainda tinham na França seu esteio cultural. Mauron. todos publicados entre julho e agosto de 1966. como Antoine Compagnon a ele se referiu em seu seminário de 2011.fr/site/antoine-compagnon/ (consultado em 13/12/2013). adepta da imanência e da pluralidade de sentidos do texto literário. três textos que repercutiram a querela da crítica francesa. Althusser. Raymond Picard. apontado por Picard. tais como a psicanálise. o escritor continua a ser citado em O Estado de S. Duras. nos anos 60. interferindo nas discussões brasileiras da época sobre literatura. o nouveau roman e Barthes. Depois da incompreensão suscitada em 1953 por O Grau zero da escritura. que emprega conceitos da psicanálise em uma leitura estruturalista. Esse livro reúne três ensaios escritos à luz de uma 3 A expressão dá título a um poema de John Dryden sobre 1699. ano do grande incêndio de Londres. nessa mesma década de 60. por ser o líder da nova crítica francesa. mais discretamente. portanto. no Collège de France4. Paulo textos que repercutiram as questões levantadas pela querela francesa. dentre outras. e apresento. bem como das novas correntes de saber que então se desenvolviam e que eram aplicadas à leitura. quanto da própria obra literária: a querela da crítica francesa protagonizada por Raymond Picard e Roland Barthes. o estruturalismo e sua pluralidade de concepções e de práticas. o francês e o brasileiro. Blanchot. foi Sobre Racine (1963). Selecionei. . 4 As conferências de Antoine Compagnon e de seus convidados podem ser vistas na íntegra no site do Collège de France: http://www.

no já mencionado Crítica e verdade. a partir da Sorbonne. nossa resposta nunca será mais do que efêmera. Pois. ou psicológica. mais do que o ineditismo de suas concepções – que. o escritor francês já reconhece o abismo que separa a prática da crítica exercida pelos velhos professores e as novas propostas trazidas. 1930) –. nas palavras de Barthes. em seus ensaios. então. passava a ser uma questão de leitura. Afirmemos.. presente nas humanidades à época. que continham dois textos de altíssimo potencial explosivo: “As duas críticas” e “O que é crítica?”. sobre as obras literárias. o que causou celeuma foi a contestação implícita do poder da crítica tradicional. de forma soberana. ela deixava de ser propriedade exclusiva de uma elite – formada pelos . todas as linguagens que nosso século nos sugere. O que talvez não lhe fosse evidente – dado seu constrangimento e espanto diante dos ataques ferozes que recebeu – eram as proporções das reações engendradas por seus textos. E defende a atividade crítica não mais como uma decifração que oferece ao leitor a verdade da obra. dentre outros. e é por isso que ela pode ser inteira (. em 1930 (THIBAUDET. ou poética de Racine. ou de sua validade. nossa). ao mesmo tempo histórico e pessoal. ou psicanalítica. precisamente depois da publicação dos Ensaios críticos de Barthes. já esfarelava o poder dos professores tradicionais deslocando-o para o domínio da pluralidade de opiniões: a crítica. cada um em nome de sua própria história e de sua própria liberdade. pela voga estrutural. 2002a. e não mais de descoberta absoluta da verdade. ambos sendo o produto de uma escritura. Consequentemente. sem hesitação. ou crítica universitária.. sobretudo. que também é composta de história e subjetividade. ou velha crítica. E é porque Racine honrou perfeitamente o princípio alusivo da obra literária que ele nos engaja a desempenhar plenamente nosso papel assertivo. experimentemos em Racine. duas maneiras de se exercer a crítica – a tradicional. 55. Não por acaso. tinham como precursores Victor Hugo e sua “crítica artista”. Barthes defenderá a equivalência entre o texto crítico e o texto literário. Nesses textos. no século XIX. que até aquele momento pontificava. três anos mais tarde. Mas os ataques de Raymond Picard e seus epígonos se iniciaram antes de 1966. em virtude de seu próprio silêncio. e a nova crítica –. no termo de Barthes.) (BARTHES. Esse conceito libertário de crítica. mas como uma obra ela mesma. e Albert Thibaudet e a “crítica dos mestres”. vai de par com a noção barthesiana de escritura. trad. a verdade histórica. p. pois.concepção que confere ao crítico liberdade para praticar a linguagem que bem entender na análise de um texto. O fato de Barthes. Ou. verdadeira dentro de sua coerência interna. na realidade. distinguir duas críticas.

151). o Texto. do que uma disputa entre saberes. O poder exercido por uns poucos foi distribuído a todos os Leitores. com “A Morte do autor”. . o Autor também se foi. p. grafado com letra maiúscula. um violento panfleto contra a nova crítica. os estudos literários contra as ciências sociais (1984. A abordagem de Bourdieu é reiterada por François Dosse em sua Histoire du structuralisme (1991. de 1968 (BARTHES. escritores de vanguarda – todos os autores ligados ao nouveau roman francês. a leitura de Xavier não distingue o new criticism da nouvelle critique. o resenhista se posiciona 5 Em “Les espaces de la controverse. declarando a morte do crítico enquanto porta-voz privilegiado do texto literário e. e alguns periódicos como os tradicionais Le Monde e Le Figaro. mas eminentemente francesa. como a École Pratique des Hautes Études. De início. Tanto nas entrelinhas da querela dos anos 60 havia uma disputa de poder. e nas trincheiras de Barthes e da nova crítica. A partir dos anos 60. A contestação e quebra do paradigma até então vigente tirou o poder do crítico literário e o realocou no texto: antes. que teve acesso ao espólio de Picard. Após situar brevemente seu leitor na querela francesa. Por conta desses fortes solavancos na teoria e crítica literárias.críticos tradicionais. com seu corpo de colaboradores e jovens autores 5. p. Minha posição é a de que houve mais uma reação por parte de Picard e da crítica tradicional à contestação do poder do crítico praticada por Barthes em Sobre Racine e teorizada nos artigos dos Ensaios críticos. adepta do estruturalismo. reduzindo-a à introdução da nova escola crítica na França e aos ataques de Picard. Em julho de 1966. em certa medida. Roland Barthes contre Raymond Picard: un prelude à Mai 68” (2007). e a editora Seuil. passou a ser produtor de sentidos. 2002c). o crítico era o responsável por encontrar o sentido do texto. os quais traziam o frescor das novas correntes teóricas aos estudos literários. esta herdeira do movimento estadunidense e do formalismo. Esta resume o acontecimento a uma retomada da Querela dos Antigos e dos Modernos do século XVII fundada na oposição entre a Sorbonne e a École Pratique. foram precisamente os ecos da polêmica Barthes-Picard que chegaram aos ouvidos dos intelectuais brasileiros. que em torno de seus personagens principais criaram-se dois grupos antagônicos: alinhados com Picard os professores da Sorbonne e de outras grandes universidades parisienses. como coloca Bourdieu. revê a famosa polêmica em detalhes e aponta as insuficiências da célebre abordagem de Pierre Bourdieu. de quebra. por exemplo –. intelectuais ligados a instituições de ensino superior menos tradicionais. Christophe Prochasson. aglutinadora dos diferentes campos de estudos das Humanidades e. de Picard. que exerciam o métier segundo as mesmas concepções desde o final do século XIX – para pertencer também a grupos de intelectuais lotados em outros centros universitários que não a Sorbonne. dirigido principalmente a Barthes. 276). Lívio Xavier consagra uma resenha a Nouvelle critique ou nouvelle imposture [Nova crítica ou nova impostura] (1965).

reduz a análise de Barthes dos personagens racinianos” (Ibidem). por assim dizer.claramente ao lado deste. Concebem a obra literária como uma coleção de sinais cujo sentido se deve procurar além da literatura. na pessoa de Barthes. fazendo dele apenas mais um em meio aos demais objetos eleitos pelas novas ciências que ora floresciam. um dos exemplos mais significativos do esforço para elaborar uma nova crítica” (1966. Xavier primeiramente aponta o interesse das obras de Barthes. ou ainda em um outro universo metafísico. mas em todo o caso não-literária. os exemplos recolhidos pelo crítico na análise raciniana de Barthes são. a linguagem por este empregada para tratar dos textos racinianos: “A crítica à nova crítica parece particularmente bem fundada quando o Sr. 2). metafísica. irremediáveis” (Ibidem). com o qual a resenha é concluída: Esses críticos manifestam uma total indiferença pela obra literária. almejasse a objetividade em sua leitura crítica. Em seguida. Da condenação de Picard e Xavier ao emprego de uma linguagem não-literária na crítica depreende-se a defesa de uma suposta pureza da obra literária que deve ser preservada também na leitura que dela se faz. de maneira vã. Aos olhos do resenhista brasileiro. Não se pode deixar de concordar com as restrições do Sr. parece que a nouvelle critique francesa desvirtua o verdadeiro sentido do objeto literário. ou na psicanálise. Seguindo a mesma organização de Nova crítica ou nova impostura. biográfica. o jargão de Barthes tem outros efeitos: emprestar prestígio científico a verdadeiros absurdos. Picard ao que se está tornando a “nova crítica” nas mãos dos seus adeptos franceses (Ibidem). como se Barthes. Picard. nestes dez últimos anos. ou outra que tal. p. disfarçar lugares comuns e dissimular a indecisão de pensamento. observa o Sr. em suma. A exigência de uma conclusão irrefutável como condição para a sustentação dos textos barthesianos sobre Racine norteia os ataques de Picard e é aceita por Xavier: “Mas. ou num pseudomarxismo. Vão explicá-la. Irremediável é também o julgamento feito por Xavier a toda a nouvelle critique. Na verdade. demonstrando o quão vagos e subjetivos tais adjetivos podem ser. afirmando sobre o escritor: “é mesmo. ou pretendem-no. . por uma estrutura diversa: psíquica. como Picard o faz. “engordando a vítima por medidos elogios”. Raymond Picard investe contra o jogo de palavras ao qual. na esteira de Picard. Exemplifica essa afirmação com as caracterizações de “solar” e “sombrio” que o escritor francês confere a personagens de Racine. o autor menciona o principal ponto de ataque de Picard à nova crítica. pelo que é ela.

de Joseph Guglielmi. e “Picard. leitores do século atual. devemos apreender unicamente a significação literal da obra de Racine (.)” (Ibidem). Conclui com uma ironia sobre o conceito de crítica. em suma. também publicou a resenha de Álvaro Lorencini sobre Pourquoi la nouvelle critique: . Barthes et la critique en question” [“Picard. Guglielmi é um defensor estrênuo da ‘nova crítica’. Sinal de hesitação ou simplesmente mudança de humor? O fato é que os embates entre a nouvelle critique e a crítica universitária tradicional atravessavam o Atlântico e aportavam na imprensa brasileira sob a forma de resenhas de obras dos mais eminentes personagens da querela. antiga querela”]. Lívio Xavier expõe sua preferência na querela da crítica francesa de maneira mais sutil do que na resenha escrita um mês antes. A parte dedicada ao segundo artigo – este. dedicada a dois artigos publicados na revista Cahiers du Sud: “Nouvelle critique. pelo menos de Barthes (. Como o resenhista brasileiro reconhece. de Françoise van Rossum Guyon. Guglielmi dizendo que toda crítica é criação e reciprocamente toda criação encerra uma parte de crítica. Ou o adjetivo “estrênuo”: “O Sr. O julgamento de Xavier se mantém em resenha de agosto do mesmo ano. 1966b.)”. O primeiro artigo agrada mais a Xavier por seu tom ponderado e pelos elogios a Picard. No mesmo dia em que o Suplemento Literário publicou o artigo de Xavier sobre os textos da revista Cahiers du Sud. sem deixar de conceder pontos a Barthes e aos novos críticos franceses.Sem conhecer o ponto de vista de Barthes.. O autor emprega termos hiperbólicos com o objetivo de esvaziar os conteúdos das frases que eles introduzem. acredita que a finalidade da crítica “é redescobrir o espírito criador através do estilo e mediante análise precisa e pormenorizada da relação entre as palavras e as imagens. o que acaba por associá-lo à crítica universitária brasileira dos anos 50 e não parece predispor o humor do resenhista a seu favor. talvez devida à relativização do papel julgador desta para a nouvelle critique: “Termina o Sr. Guyon.. francamente em defesa de Barthes e hostil a Picard – denuncia as precauções de Xavier em relação ao escritor e à nouvelle critique.. O que não deixa de ser consolador para os críticos” (Ibidem).. 6). Nesse texto. a originalidade de uma experiência” (XAVIER. Barthes e a crítica em questão”]. Guglielmi pela recomendação que faz Picard de que nós. evidenciando sua discordância. ancienne querelle” [“Nova crítica. Xavier emite uma opinião com base em Nova crítica ou nova impostura e alguma informação de segunda mão sobre o escritor francês. em resumo. como por exemplo o verbo “escandalizar-se”: “Escandaliza-se o Sr. p. a autora não está tão distante de Picard e da concepção tradicional de crítica.

nossa). razão pela qual todo grande crítico cria uma linguagem particular. Segundo S. . resenha essa que não foi escrita em O Estado de S. à pergunta: “psicanálise como?”. num vai-e-vem que ele próprio prevê que alguns acharão complicado (LORENCINI. Recomenda. sua concepção de crítica: À obra do escritor. obra que mereceria uma resenha como contraponto ao texto sobre Nova crítica ou nova impostura. Richard. é esse o caso de Sartre.critique et objectivité [Por que a nova crítica: crítica e objetividade] (1966). por uma reação aberta. é que a linguagem possa falar da linguagem (BARTHES. Menciona até mesmo Crítica e verdade. D. um método imanente. trad. 1966. mas de uma imanência que seja ao mesmo tempo fechamento e abertura. problematizando de início as reações violentas à reivindicação de que a crítica literária possa ser composta por pura linguagem: O que é notável. 2). O resenhista conclui com uma ideia-chave da obra de Doubrovsky. Nesse livro. que é também uma forma de escritura.) (Ibidem). aos procedimentos concretos para a realização da atividade crítica. ressaltando seu caráter combativo contrário à “velha crítica”. 2002b. em ser didático. p. Paulo. nessa operação [o questionamento periódico da literatura e de conceitos a ela associados]. ele confessa que não há resposta que caiba numa fórmula. Lorencini – então futuro tradutor de O Grau zero da escritura. Starobinski e do próprio Barthes (. em todo caso. Crítica e verdade. Apesar de muito menos explícito do que Xavier. concernentes.. defendida por Barthes pelo menos desde Sobre Racine (1963) e que foi central na querela francesa. Não deixa de apontar questões sem respostas na obra.. uma certa fala entorno do livro: o que não é tolerado. de Serge Doubrovsky. p. não é tanto que ela oponha o antigo e o novo. Poulet. 761. Barthes responde aos ataques de Picard e seus correligionários em duas partes: a primeira passa em revista os pontos colocados em questão pelos críticos tradicionais. como alude ao grupo de Picard. Lorencini marca sua posição favorável à nouvelle critique selecionando trechos da obra de Doubrovsky que evidenciam os principais pontos defendidos por seus adeptos. é que ela tache de proibido. as coisas não se apresentam simples assim e. sobretudo. como no exemplo abaixo: Apesar do esforço do A. o crítico deve responder por outra obra. de Barthes – relata brevemente as principais ideias de Doubrovsky.

. Barthes argumenta que. trad. O que diferencia. 782. enquanto prática que lida com conceitos de literatura e formas de expressão. p. “A clareza” e “A assimbolia”. em nome das quais é vetado o emprego de símbolos quando se escreve sobre literatura. as noções que o sustentam. Barthes já explicita a direção de sua argumentação. Essas regras constituem o “verossímil crítico” e abarcam as noções de objetividade. Identificando a origem das hostilidades na doxa crítica. a sustenta. cujos pontos de vista. A compreensão da crítica. antes reveladores da “verdade” da obra. um novo Texto dentre tantos possíveis. passam a ser apenas uma leitura dentre tantas outras. ou seja. gosto e clareza. demonstrando que a atividade crítica. da literatura. a Sorbonne em primeiro lugar. em um lugar de onde emana o poder e não propriamente em seus conceitos ou argumentos. como um ato de plena escritura” (Ibid. ela está aí: não na unidade de seus métodos.) Se a crítica nova tem alguma realidade. Barthes reivindica o direito a uma visão diferente do texto crítico e. Os ecos da querela da crítica francesa em O Estado param por aí. esse conjunto de pontos de vista sobre a literatura das posições da nouvelle critique é simplesmente seu lugar de enunciação: Picard e seus epígonos lançavam suas farpas contra Barthes e os novos críticos do alto de uma posição há muito consolidada e endossada pela autoridade das grandes universidades parisienses. “O gosto”. o direito à liberdade plena ao escrever sobre literatura. fica claro que os debates na França trouxeram ao Brasil a polêmica entre as duas críticas: de um lado. estabelecidas por um grupo de intelectuais – os críticos tradicionais. desrespeita a hierarquia existente entre obra literária e texto crítico. consequentemente. A objetividade”. portanto. nossa). Classifica os questionamentos do grupo de Picard sob as rubricas “O verossímil crítico”... enquanto uma leitura do texto literário que resulta em um novo Texto. bem como suas definições. mas na solidão do ato crítico. Ataca a censura às vozes destoantes do padrão e defende a liberdade plena de uso da linguagem – ferramenta partilhada pelo escritor e pelo crítico: “(. assim como o “verossímil crítico” é constituído por escolhas feitas por um grupo. Ao mesmo tempo. é regida por um conjunto de regras implícitas. destrona o crítico. crítica . diz-se comodamente.Colocando os ataques à nouvelle critique sob o signo da intolerância. que reivindicará. Embora falte o ponto de vista de Barthes numa possível resenha de Crítica e verdade. menos ainda no esnobismo que. também são frutos de decisões passíveis de questionamento. colocando-os no mesmo nível. acima de tudo.

1945-1966. “A Nova Guarda”. 2002b. Paulo. Paris : Éditions de Minuit. “La Mort de l’auteur”. Raymond Picard e a Sorbonne. como Lívo Xavier. de outro. 20 de agosto de 1966. Serge. François. 1991. MARTINS.“Tríplice desafio”. Pourquoi la nouvelle critique. 1984. 1966. 1. v. então em mutação. Suplemento Literário. “Resenha de Pourquoi la nouvelle critique: critique et objectivité”. de um lado os críticos tradicionais. Paulo. _____. LINHARES. “Ainda a crítica dos críticos”. p. de outro. In Œuvres complètes. como Álvaro Lorencini. O Estado de S. 4. os jovens críticos universitários. In Œuvres complètes. Suplemento Literário. reflexões sobre questões que se mostraram fundamentais para o sistema crítico brasileiro. Edição de Éric Marty. Paris : Seuil. “A crítica sociológica I”. Paulo. p. BOURDIEU. Pierre. p. com o desenvolvimento dos departamentos de literatura nas principais universidades do país. Roland Barthes e os novos críticos. Suplemento Literário. Paris : Seuil. Suplemento Literário. Paris La : Découverte. que defende a autonomia do texto literário. Homo Academicus.histórica que concebe a obra literária como o produto de um determinado momento. Temístocles. . v. 2002c. _____. De um lado.2. Paris : Mercure de France. LORENCINI. a nova crítica. Sur Racine. 15 de maio de 1965. Roland. 2. 2. Histoire du structuralisme I. DOSSE. Edição de Éric Marty. Álvaro. 3. BARTHES. Paulo. de outro. a literatura compreendida como linguagem viva. Le champ du signe. O Estado de S. Paulo. sobretudo. No Brasil. Referências bibliográficas BARBOSA. O Estado de S. Paris : Seuil. 4 de janeiro de 1964. discussões. Wilson. Critique et vérité. 2002a. p. 2. O Estado de S. Critique et objectivité. O Estado de S. João Alexandre. Edição de Éric Marty. De um lado. 25 de junho de 1966. In Œuvres complètes. _____. Entre eles. discordâncias e. v. DOUBROVSKY. 13 de novembro de 1965. e que se consolidou na década seguinte. p. de outro. 6. debates. Suplemento Literário. a literatura vista como o resultado do trabalho de um autor.

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