Dois Reclusos

Por Hare Marvin Eram dois caras bem estranhos, para dizer o mínimo. Para pessoas de “moral e bons costumes”, que não se contentam com o mínimo, eram um casal homossexual enrustido. E para todos os outros, eram dois ricaços boiolas, mesmo. Para começar, tinham idades bem diferentes: um perto de seus quarenta anos, o outro vinte, se muito. Ainda por cima, moravam sozinhos em uma casa que poderia abrigar uma família grande. O mais velho era um milionário, dono de várias indústrias. O mais novo havia sido adotado por ele, aparentemente, após a morte trágica dos pais. Algo como um aprendiz para um dia herdar seu império, pois o milionário parecia que não iria ter herdeiros naturais. Pois é, para piorar, o ricaço era um solteirão convicto. Dava lá suas escapadas, mas elas eram bem raras, e nunca se envolvia com ninguém. O seu protegido também era meio retraído, na dele. O tipo do cara que só tirava nota dez mas não conversava muito. É, um típico CDF. Numa situação de tanto, digamos, “interesse humano”, é natural que um dia uma repórter mais atirada perguntasse: — Afinal, contem aqui pra nós, vocês não são mesmo um casal? Hoje em dia isso é tão normal... Pronto. A partir daí, mesmo respondendo educadamente à repórter que não, não eram gays, apenas eram dois homens naturalmente reclusos e interessados nos negócios do milionário, os dois não tiveram mais paz. Começou de maneira sutil, claro, sugestões veladas em revistas de fofocas, caricaturas em jornais... mas foi crescendo de maneira a incomodar, invadindo mesmo a privacidade dos dois. Chegou a um ponto em que paparazzi começaram a ser vistos rondando a mansão onde os dois reclusos se escondiam do mundo, câmeras em punho à espera de um flagrante para alimentar seus tablóides. Foi aí que o ricaço resolveu que já era hora de mandar tudo à merda. Ele chamou a mesma repórter que havia lhe feito aquela primeira pergunta indiscreta para dar uma entrevista onde fazia a revelação definitiva: sim, ele e seu protegido eram na verdade um casal. Eram realmente reclusos, avessos à atenção pública, nisso não haviam mentido. Mas sim, eram um casal, pronto. Será que agora todo mundo poderia deixá-los em paz, se não fosse muito incômodo?

E o mundo, por incrível que pareça, deixou. Terminada a farsa, satisfeita a curiosidade, os dois não eram mais interessantes, pelo menos sob esse ponto de vista. Claro que eles continuariam sendo figuras fáceis nas notícias sobre negócios e numa ou outra rara coluna social, mas nada tão interessante a ponto de atrair atenção demais. Eram apenas dois reclusos sem graça, no final das contas.

Após conseguir o que queria do milionário, a repórter apressou-se em deixar a mansão, pois havia notado que seu anfitrião olhava de tempos em tempos para o relógio, como se estivesse com pressa de ver a entrevista encerrada. E era esse realmente o caso. Enquanto a repórter saía pelo portão principal, Bruce Wayne e Dick Grayson, já mascarados, apressavam-se pela Batcaverna em direção ao Batmóvel. Dick estava algo irritado: — Santa puta que pariu, Batman! Precisou tudo isso pra aquele povo sair do nosso pé?! E o pior vai ser ter que ficar mantendo essa imagem de boiola. Agora sim é que eu não como mais ninguém mesmo! — Deixe de ser resmungão, Robin! — respondeu Bruce sério, a voz grave ecoando pela enorme caverna. — Se isso o incomoda tanto, pode dizer para as garotas que você gosta mesmo é de mulher, e que está comigo só porque vai herdar tudo. Só tome cuidado para não atrair muita atenção, senão eles armam outro circo. Já imaginou se esses abutres descobrem quem nós somos? Agora vamos cuidar de coisas mais sérias, que o Coringa fugiu do Asilo Arkham de novo esta noite.

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