Quarta-feira, 30 de abril de 2014 | Correio do Vouga | 23

opinião

Livres para sonhar

JOANA PORTELA
Mãe e Revisora de Texto

Tem páginas este dia
como um livro inacabado
com um perfume de infância
num capítulo ilustrado.
Moram nele as histórias,
os poemas e as lendas
que fazem de cada livro
a melhor das nossas prendas
e que não deixam esquecer
esse tempo tão feliz
em que cada um de nós
era feiticeiro e aprendiz,
coleccionando heróis
com o prazer da aventura
que começa e se renova
na magia da leitura.
José Jorge Letria,
O Livro dos Dias

Abril é metáfora de liberdade!
Que fértil coincidência que Abril
seja, também, o mês dos livros,
essas asas de papel que nos fazem livres para sonhar. O mês
abre as suas páginas festejando,
primaveril, o Dia Internacional
do Livro Infantil, no dia 2. Algumas folhas depois, que entretanto despontaram nas árvores e nos
nossos dedos, celebra-se, a 23, o
Dia Mundial do Livro, prenúncio
de outros voos e Primaveras…
… que não deixam esquecer
esse tempo tão feliz / em que
cada um de nós / era feiticeiro e
aprendiz. A minha filha mais nova tem uma brincadeira que me
delicio a espreitar. Dispõe todos
os seus bebés e zoo-bonecos na
cama; senta-se numa cadeirinha
à sua frente; poisa um livro no

regaço; canta, com gestos rituais,
o prelúdio “está na hora da história”; e depois, com o livro bem
aberto, assente sobre o coração
e voltado para os seus bebés,
conta-lhes uma história a partir
das ilustrações, que eles seguem,
deleitados, a cada voltear de página. Aos 4 anos, muito antes
de saber juntar as letras, ela já
aprendeu um dos cuidados básicos e fundamentais da maternidade: o gesto de ler!
É um gesto que só precisa de
10 minutos, mas que faz TODA a
diferença na vida de uma criança. De facto, pesquisas recentes mostram que o impacto da
leitura nos bebés é de tal modo
profundo que deve ser encarado
como um cuidado tão fundamental quanto a alimentação, pelo
que nunca é cedo demais para
começar a ler. “Quando trazemos
uma criança ao mundo, estamos
a assumir a responsabilidade de
a alimentar, de a manter limpa e
segura. (…) Agora temos a prova
científica de que há outro tópico
a acrescentar a essa lista, que é
ler-lhes desde pequenos”, refere
a investigadora Anne Fernald.
Afinal, a hora do conto é tão vital
quanto a hora do banho!
Leituras embaladas pela voz
dos pais são um tesouro escondido – e precioso – para os pequenos piratas. Estudos sobre
os hábitos de leitura na infância
concluem que a ausência de envolvimento parental pode reduzir em 74% as competências de
leitura das crianças e jovens. E
uma notícia recente vem alertar:
“Investigadores
identificaram
ligação entre pobreza e baixos
índices de leitura”. Lembram-se
do discurso da pequena Malala?
Os livros são a melhor arma para
nos libertar da pobreza. Para ser
livre, no fundo! (Curiosamente,
em latim, a palavra liber tanto
significa livro como livre.) Tinha
razão, Flaubert: “Leia para viver!” E não é isto que faz a princesa Xerazade, que salva a sua
vida (e resgata o coração do rei)

contando histórias durante Mil e
Uma Noites?
E nós, quantas noites e dias já
ganhámos, lendo para filhos ou
alunos? O pedagogo Daniel Pennac, num sério e bem-humorado
ensaio sobre a motivação para a
leitura, que se lê Como um romance (ASA), demonstra como
ler uma história às crianças antes
de adormecer é uma dádiva tão
gratuita quanto determinante
para o seu futuro sucesso escolar; e como a leitura regular em
voz alta, oferecida por pais ou
professores às crianças – e até
mesmo aos adolescentes –, tem
um efeito exponencial sobre o
emergente prazer de ler. “O culto do livro resulta da tradição
oral”, dessa inicial rotina diária
de ouvir alguém ler para nós, que
um dia se transforma em desejo
de ler por si e mais tarde se converte em vontade de dar a ler aos
outros. Ou vontade de escrever
e ilustrar, como aqueles ternos
Versos para os Pais Lerem aos
Filhos em Noites de Luar (Ambar), obra da dupla Letria, pai e
filho povoando o sono dos nossos
meninos.
“O melhor que nós lemos,

Ilustração de Gémeo Luís

devemo-lo frequentemente a um
ser que nos é querido (...) porque o que é intrínseco tanto ao
sentimento como ao desejo de
ler consiste em preferir. Amar é
doarmos as nossas preferências
àqueles que preferimos. E estas
partilhas povoam a invisível cidadela da nossa liberdade. Somos habitados por livros e amigos.” (Daniel Pennac)
Estas palavras fazem de ca-

Pesquisas recentes
mostram que o impacto
da leitura nos bebés é
de tal modo profundo
que deve ser encarado
como um cuidado tão
fundamental quanto a
alimentação, pelo que
nunca é cedo demais
para começar a ler.
Afinal, a hora do conto
é tão vital quanto a hora
do banho!

da livro / a melhor das nossas
prendas. E, nos dias de hoje, é
tão fácil descobrir bons livros
para sonhar e para manter sempre ao alcance das crianças. Em
Portugal, nos últimos anos, a literatura infantil deu passos de
gigante: magníficos livros, excelentes escritores, premiadíssimos
ilustradores; editoras criativas,
projectos e recursos editoriais
fantásticos, livrarias infantis encantadas, onde apetece habitar,
namorar os livros e ser feliz para
sempre… Porque, afinal, “num
livro esconde-se todo o mundo”.
E há aí imensos mundos por
descobrir nas nossas editoras, em
sítios como o PLANETA TANGERINA, a galáxia KALANDRAKA
ou o universo OQO. Como Nils
Holgersson, podemos fazer uma
maravilhosa viagem nas asas do
PATO LÓGICO, levando a tiracolo BAGS OF BOOKS, de ouvidos
abertos às histórias que saltam
da BOCA (Júnior). Se fizermos
TRINTA POR UMA LINHA,
haverá decerto um BRUAÁ nos
livros, com as letras em GATAFUNHO, e então buscaremos um
ORFEU MINI para nos encantar
com a sua lira e a sua arte.
Para festejar este dia, as pistas de leitura que aqui deixo são
alguns livros sobre livros: Se eu
fosse um livro (Pato Lógico) ou O
incrível rapaz que comia livros
(Orfeu Mini). Estes dois títulos
estão disponíveis para escutar no
blogue “Letra Pequena”. Mais há
outros: Afonso e o livro (Livro do
Dia) ou Ler doce ler (Terramar).
Para os que já só sabem folhear
no tablet, recomendo a versão
em papel É um livro! (Presença).
E, para desentorpecer os dedos,
a imaginação e todos os sentidos, uma aventura literária muito interactiva: Este livro está a
chamar te, não ouves? (Planeta
Tangerina).
Um livro chama-me. Adeus…
vou ler. Mas passo a palavra ao
ilustrador João Vaz de Carvalho:
“A felicidade é reler os livros de
infância.”