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AMANTE LEILOADA – Annie

West
De amante a esposa!
Horas antes, Callie não passava de uma
sensual desconhecida. Agora, Damon
Savakis sabe exatamente quem ela é: a
sobrinha de seu inimigo. Quando o tio de
Callie perde todo o dinheiro da família,
ela vira um prêmio a ser leiloado. Como
parte do acordo, Damon a transformará
em sua amante, pois acredita que ela não
passa de uma aproveitadora. Mas ao
conhecê-la melhor, é surpreendido por
sua pureza, inocência e bravura.
Fascinado, Damon está disposto a
esquecer o passado e tornar Callie sua
esposa!

VESTIDO SECRETO – Ally Blake
Ela já tem o vestido…só falta o noivo.
Paige Danforth não estava nem um
pouco interessada em se casar. Para ela, o
“final feliz” não passava de conto de
fadas. Jurou que o mais perto que
chegaria de subir ao altar seria como
dama de honra. Ao acompanhar uma
amiga em uma liquidação na loja de
noivas, Paige encontra o vestido perfeito
e não pensa duas vezes antes de comprálo! Só há um problema: ela não tem
noivo! Gabe Hamilton estava muito longe
de ser o homem ideal. Ele queria Paige
em sua cama, e nada mais. Sem
promessas e sem compromisso.Mas será
que ele continuará ao lado de Paige
quando descobrir seus segredos… e o

vestido de noiva que ela esconde no
armário?

Querida leitora,
Em Amante leiloada, de Annie West,
Callie Manolis era apenas uma
recompensa para Damon Savakis. Um
troféu que ilustrava sua soberania sobre
a família que tanto o humilhara.
Entretanto, esta bela jovem conseguirá
amolecer seu coração, e esse poderoso
magnata descobrirá que ela é a mulher
com quem sempre sonhara…
Em Vestido secreto, de Ally Blake,
Paige Danforth é uma mulher
independente e focada no trabalho.
Mas tudo muda quando ela encontra o
vestido de noiva perfeito. Agora, Paige

está determinada a usá-lo. E, para isso,
precisa de um noivo a altura. Seu novo
vizinho, o delicioso Gabe Hamilton,
parece ser o candidato ideal. O único
problema é que ele não quer saber de
compromisso…
Boa leitura!
Equipe Editorial Harlequin Books

Annie West
Ally Blake
TEMPO DE PAIXÃO
Tradução
Cydne Losekann
Fátima Tomás da Silva

2015

SUMÁRIO
Amante leiloada
Vestido secreto

Annie West

AMANTE LEILOADA

Tradução
Cydne Losekann

CAPÍTULO 1

O CORAÇÃO de Callie pulsava em seu
ouvido, silenciando o ruído da
respiração arfante. As respirações de
ambos entrelaçadas.
Um tremor percorria o corpo dela.
Por trás das pálpebras fechadas, como
uma luz cintilante, os resquícios do
êxtase sentido há pouco. Um êxtase
jamais experimentado.
Quem imaginaria?

Respirou fundo e sentiu o aroma
picante dele. Puro suor masculino, de
almíscar e algo difícil de identificar, que
a fazia buscar refúgio no ombro nu.
Esfregou o nariz em sua pele,
provocando um ruído de aprovação no
peito que a abrigava. A mão grande
deslizou pelos quadris dela, acariciando
sua pele, puxando-a para cima de seu
corpo quente e macio.
Callie soltou um suspiro de
felicidade. Ele era forte e carinhoso.
Tudo que jamais encontrara num
homem e aprendera a não esperar de
ninguém.
Fora levada ao paraíso. Ele a
provocara e a enchera de prazer até que

experimentasse puro deleite.
Levada às alturas em seus braços,
sentira um prazer inigualável. Seria
eternamente grata pelo que ele
proporcionara hoje. Um prazer mútuo
que os uniu, ainda que brevemente. O
vínculo, mais que a satisfação física, era
um alento.
Havia muito tempo que se sentia
sozinha.
A partir do instante em que o
avistara remando o bote do elegante
iate, ombros reluzentes bronzeados à
mostra, sentiu algo diferente. Especial.
Ele era a própria masculinidade,
deixava-a sem ar.

Ela, Callie Manolis, que não desejava
um homem havia sete anos! Nem
cogitava voltar a sentir algo assim.
Passou dias tentando ignorar o
forasteiro que invadira seu retiro na
praia particular. Todas as manhãs,
quando deitava sob os pinheiros,
cansada de tanto nadar, tentava se
concentrar na leitura. Mas seu olhar
inevitavelmente voltava-se para ele, que
circulava pelo convés, pescava ou
nadava nas águas cristalinas.
Estava atenta a ele mesmo de olhos
fechados. E ele, a ela.
Precisava mesmo perguntar sobre o
trajeto para o vilarejo mais próximo? O
brilho de seus olhos sugeria que não.

Mas Callie fora afetada por aquela
centelha de admiração masculina. Não
a perturbava.
Ele correspondia às suas sensações ao
vê-lo.
Enfeitiçada por seus olhos negros,
Callie sentia-se à deriva no Egeu,
desligada da realidade. Alheia aos seus
projetos de vida, às mágoas do passado,
até ao seu pessimismo quanto aos
homens. O que era a confiança perto
daquela atração incontrolável? Era algo
extraordinário,
embora
surpreendentemente simples.
Os lábios dela precipitaram-se sobre
sua pele. Não resistiu à tentação de
beijá-lo, de sentir seu gostinho salgado.

Um ruído, entre um urro e uma
ronronada, vibrou na garganta dele,
correspondendo à sensação de triunfo
indolente que ela provocava.
Talvez essa paixão arrebatadora
tivesse a ver com a abstinência sexual.
Tinha 25 anos e ele era seu segundo
amante. Talvez fosse por isso...
Parou de pensar ao sentir a mão dele
percorrer sua perna. Com movimentos
circulares, sutis como folhas ao vento,
deslizou-a para tocar a parte interna da
coxa.
Suspirou, estupefata, voltando a
sentir um formigamento por dentro.
Fora atingida por um raio de desejo,
que a deixou completamente ligada.

Emanava calor da mão dele, perdida
no local onde o desejo pulsara pouco
antes. Arfou ao sentir o toque sutil mas
intencional. Sentiu, atônita, um brilho
de excitação propagar-se pelo corpo
como maré que sobe.
– Gosta disso? – Havia uma satisfação
indolente em sua voz grave. E uma
compreensão que evidenciava que ele
sabia exatamente o quanto seu toque
era desejado.
Entendia melhor suas reações do que
ela própria. Callie era novata, mas
mesmo alguém tão inexperiente sabia
reconhecer um mestre da sensualidade.
Apoiou-se sobre seu peito e ergueuse para olhá-lo nos olhos.

Um sorriso surgiu nos lábios sensuais
dele, e havia um convite naquele olhar
cintilante. O cabelo negro caía sobre a
sobrancelha numa bela desordem. O
olhar dela percorreu o maxilar
imponente e parou no pescoço. Na
mancha avermelhada.
Seria uma mordida de amor? Deixara
uma marca com os dentes? Não devia
ter sido tão selvagem.
– Não podemos – interrompeu. – De
novo, não.
Ele ergueu a sobrancelha e lançou
um sorriso lento e confiante,
despertando nela uma onda de prazer.
– Não teria tanta certeza, garotinha.

Mexeu os dedos curiosos e ela
tremeu.
Automaticamente agarrou o pulso
dele, na tentativa de afastar sua mão.
Precisava pensar. Mas não conseguiu
afastá-lo.
Seu
braço
musculoso
permanecia firme. Seu toque a levava à
loucura.
– Isso – sussurrou, com seu olhar
intenso fixo nela. – Me segure
enquanto toco você.
Callie arregalou os olhos. Seu coração
disparou. O calor escaldante entre suas
pernas contradizia sua resistência
instintiva e ela se contorcia.
Depois de tanto fazer amor, isso
deveria ser impossível. Contudo, sentir

aquela mão forte sob a sua era...
excitante. Assim como a intensidade
com que a ereção se fazia sentir em suas
coxas.
– Não – interrompeu, esbaforida.
Apertou os olhos, tentando manter o
controle sobre seu corpo. – Tenho que
ir. Tenho que...
– Shh, glikia mou – murmurou, num
tom sedutor, aveludado. Levou a mão
calejada ao rosto dela. Tocou a zona
erógena no canto da boca, que até
então ela desconhecia. – Relaxe e
aproveite. Sem pressa. Nada é mais
importante.
A mão dele deslizou até a sua nuca e
a trouxe bem para perto, até os lábios se

encontrarem. O beijo foi longo,
lânguido e sedutor. A resistência de
Callie se foi, como uma onda sobre a
areia. Derreteu-se toda quando abriu a
boca e ele a dominou com doçura.
Como algo tão desconhecido podia
parecer tão certo?
– Você pode ir embora mais tarde –
murmurou entre os lábios dela, de
maneira carinhosa. – Depois.
Depois. A palavra circulou a mente
confusa de Callie e se desmanchou
quando voltou a beijá-lo. Os resquícios
de autocontrole se dissolveram no calor
da paixão ardente.
Era tão fácil se entregar à sua
sedução sagaz. Esquecer toda sua

cautela e entregar-se ao incerto.
Esquecer o mundo real e suas duras
lições. Só um pouquinho.
LOUCURA.
Era isso o que tinha sido, concluiu
Callie, enquanto se olhava no espelho
do quarto. Nada mais explicava a
maneira como se deixara seduzir.
Não, não se deixara. Ela o encorajara,
louca pelo seu corpo imponente e
musculoso. Ansiosa pela promessa de
sensualidade presente em seu olhar.
Sedenta pelo tipo de amor que jamais
tivera
e
que
agora,
surpreendentemente,
experimentara
pela primeira vez.

Com um desconhecido.
Arregalou os olhos e sentiu um
calafrio ao pensar no que fizera. Ela,
apelidada pelos tabloides de Rainha do
Gelo, entregara-se à paixão de um
completo desconhecido! E não só uma
ou duas vezes. Foram três, numa
intensa sucessão.
Lembrou cada detalhe, chocada e
envergonhada.
Entregara-se! Fez uma careta ao
encarar seu reflexo. Nem sequer tivera
a dignidade de se constranger pelo fato
de ele andar com preservativos na praia.
Só sentira alívio.
Tinha porte de nadador: ombros
largos,
quadris
atléticos,
corpo

musculoso e o caminhar firme de
alguém seguro de si. O tipo de corpo
que vira nas praias da Austrália, seu
país, há muito tempo. Jamais imaginaria
algo assim num lugarejo desconhecido
no norte da Grécia.
Ela conhecia homens maravilhosos.
Deixavam-na
indiferente.
Nunca
haviam feito seu coração disparar.
Contrariara as fofocas durante seis
anos, permanecendo fiel ao marido,
muito mais velho.
Apesar de o marido encará-la apenas
como um objeto, como alvo de
exibicionismo e de ciúmes, jamais o
traiu. Alkis era impotente e Callie
abandonou a libido e os sentimentos

durante seu casamento infeliz e estéril.
Ademais, seu ciúme doentio e seus
chiliques mantinham-na longe de
outros homens. Afastava os mais
impertinentes com uma elegância fria
peculiar.
Nunca sentira desejos intensos ao
olhar para um homem. Até aquele
momento, há algumas horas, no refúgio
da propriedade do tio.
Fora um lapso de loucura devido à
preocupação com a saúde da tia e o
estresse da temporada na casa do tio.
Uma maneira de liberar a inevitável
tensão depois dos meses horríveis com
Alkis.

Devido a todos os anos em que se
comportara como uma “boa menina”,
como dizia a tia.
Callie
esboçou
um
sorriso
desanimado ao olhar-se no espelho.
Não parecia uma boa menina agora.
Obedeceu ao tio e pôs um vestido
bastante espalhafatoso para o jantar de
família. Prendeu o cabelo e usou um
pingente e um bracelete de diamante, o
que restara dos presentes de Alkis.
Mesmo toda a formalidade era
incapaz de esconder sua transformação.
Sua bochecha estava corada, os olhos
brilhavam intensamente e os lábios
estavam inchados, resultado de um

longo e intenso beijo. Uma aparência
que certamente a denunciava.
Devia se envergonhar.
Entretanto, ao encarar a estranha no
espelho, sentiu uma imensa vontade de
fugir. Esquecer aquele jantar pomposo
do tio e correr descalça até a praia para
encontrar o seu estranho.
O seu amante.
O homem cujo nome nem sequer
sabia.
Mas nunca iria conseguir. Callie fora
bem treinada. Resistiu implacavelmente
ao impulso de ignorar tudo que
aprendera e correr para o homem com
quem compartilhara seus desejos e seu
eu interior.

Tivera uma tarde de loucura. Mas
precisava esquecê-lo antes que todas as
suas defesas desmoronassem.
– QUERO QUE caprichem hoje, garotas –
disse o tio Aristides, quase em tom de
ameaça. Estava ao lado de Callie, com o
dedo em riste para a filha. – Sobretudo
você, Angela. Sua mãe está mal de
novo, você precisa ajudá-la. – Seu tom
era de reprovação, como se a doença de
tia Desma fosse premeditada.
Ao ver a carranca do tio e o olhar
desolado de Angela, Callie controlou-se
para não intervir. Sobraria para a prima
submissa.

– A noite vai ser perfeita, titio.
Conversei com os empregados. A
comida parece ótima e os melhores
champanhes já estão no gelo. O
convidado vai ficar impressionado.
Ele estava mais irritadiço que de
costume, descontando sua ira diante de
qualquer problema. A pobre Angela
estava uma pilha de nervos.
– Acho bom – irrompeu o tio. –
Temos um convidado importante. –
Reforçou a afirmação com um gesto. –
Muito importante.
Callie imaginou o pior. O que ele
planejara? Era mais que uma festa em
família para comemorar seus 25 anos.
Não é sempre que se usam diamantes e

vestido de gala, mesmo num ambiente
de formalidade opressora. Estava
escondendo algo.
Ele voltou a encarar Angela,
transformando a curiosidade de Callie
numa ansiedade lancinante. Sabia bem
como ele podia ser impiedoso e
imprevisível.
– Lembre-se do que eu disse, Angela
– berrou.
Angela empalideceu.
– Sim, papai. – Tinha 18 anos, mas
ele não confiava nela. Callie sabia da
dificuldade dela com os amigos do pai.
Callie adiantou-se:
– A noite vai ser um sucesso, titio.
Não se preocupe, vamos cuidar disso.

Se fosse necessário juntar toda sua
paciência para sorrir e ouvir as
reclamações de seus amigos sobre o
governo e as novas gerações, com
certeza o faria. Qualquer coisa para
evitar novos chiliques que intimidassem
Angela ainda mais.
Aristides Manolis olhou Callie de
cima a baixo, procurando algum
defeito. Mas seis anos casada com um
cara rico, metida na alta sociedade,
tornaram-na capaz de brilhar em
qualquer ambiente, de lidar com
qualquer situação.
Um jantar para quatro, mesmo com
os convidados mais exigentes e
problemáticos, não traria dificuldades.

– Você será a anfitriã – disse ele. –
Mas não quero que Angela fique
ofuscada como sempre.
Callie gesticulou positivamente junto
com Angela. Estava naquela casa há
apenas cinco dias e já se sentia
submissa, como nos velhos tempos.
Como era possível que há apenas
algumas horas estivesse nua nos braços
de um homem, suficientemente ousada
para fazer sexo com ele num bosque
escondido na praia?
Tão logo o tio deixou o cômodo,
Callie pegou na mão da prima. Estava
gelada.
– Vai dar tudo certo. Estou aqui com
você.

Os dedos trêmulos apertaram os dela
e pôde notar o desespero da prima. Em
seguida, Angela se afastou, cabeça
erguida, coluna ereta, postura elegante,
como se esperava de uma Manolis.
Era algo que as mulheres da família
aprendiam
cedo:
esconder
os
sentimentos. Aparentar tranquilidade e
disposição. Um enfeite, um atrativo
para o homem certo.
O homem certo. Callie conteve um
calafrio de horror. Felizmente já havia
passado. Nunca mais precisaria ser
propriedade de homem algum,
sobretudo de um maníaco possessivo. A
ideia de se tornar independente ainda a
intimidava.

O sexto sentido de Callie dizia-lhe
que havia algo errado. Não era uma
simples ansiedade às vésperas de uma
festa.
– O que houve, Angela? Qual é o
problema?
A prima desviou o olhar para a porta.
– A visita – sussurrou com
insegurança. – Papai está fazendo os
preparativos para nos casarmos.
– Preparativos para se casarem?
Callie foi tomada de horror e quase
ficou sem ar. O mundo rodou de
maneira caótica, obrigando-a se segurar
numa cadeira.
Os anos se passaram. Era como se
voltasse a ter 18. A idade de Angela.

Estava ali, parada à espera dele. O
homem com quem o tio dissera que
tinha que casar.
A menos que quisesse arruinar a
família.
– Callie?
A voz de Angela interrompeu suas
lembranças. Callie piscou, tentando
retomar a compostura e a visão
embaçada.
Outro casamento arranjado. Outro
desastre.
Callie pegou a mão de Angela. Sabia
o quanto a prima precisava dela agora.
Lembrava-se...
O ruído de homens se aproximando
interrompeu
seus
pensamentos

confusos. A voz firme do tio ecoava pela
sala de estar, mas a voz do convidado
era mais ressonante, embora mais baixa.
Era de uma familiaridade ilusória que
fazia seu corpo pulsar e causava-lhe
apertos no estômago.
Descartou aquela ideia absurda. A
novidade de Angela fizera com que
saísse de si. Como naquela tarde de
paixão com o cara mais sensual do
planeta.
Como queria estar com ele agora, e
não naquela sala de uma opulência
asfixiante, à espera de mais um conluio
desastroso do tio.
Respirou fundo. Angela precisava de
apoio. Não podia demonstrar fraqueza,

por mais chocada que estivesse.

Vamos
jantar
e
depois
conversamos. – Sorriu confiante para a
prima. – Não esqueça que ele não pode
obrigá-la a nada.
Angela parecia confusa, mas não
havia tempo para conversa. Os homens
estavam chegando.
Mais uma vez, o tom da voz do
convidado causou uma sensação
estranha em Callie. Remetia ao que
acontecera hoje no bosque, ao toque
intenso e sensual. Fez seu coração
acelerar.
Ignorando a sensação esquisita, deu
um passo à frente. Um único passo, pois
estancou.

O tio Aristides trazia um largo sorriso
enquanto olhava para o homem ao seu
lado e gesticulava em direção ao
cômodo.
– Bem, queridas, temos visita.
Gostaria de apresentar um importante
parceiro de negócios, Damon Savakis.
Assim que Callie viu o convidado, o
tempo se fragmentou, partiu-se em
cacos. Sentiu uma palpitação na
garganta e ficou sem ar. Seu coração
acelerou. Tentou controlar a respiração
por várias vezes seguidas.
Estava paralisada, em estado de
choque.
Elegante. Isso o descrevia bem. O
smoking ficava perfeito nele, com uma

graça que esbanjava autoconfiança. Mas
a perfeição da roupa não ofuscava o
homem.
Cheio de
energia
e
imponência, com a postura e o físico
perfeito de um atleta nato.
Seu rosto era de tirar o fôlego, com
traços de puro poder e sensualidade
masculinos. Com uma exceção: o nariz
era ligeiramente torto, como se estivesse
quebrado. Isso só destacava seu carisma
e sua masculinidade pura. Não era um
charme qualquer, era algo que saltava
aos olhos.
Apertou os olhos assim que a viu,
com um brilho que mal conseguia
esconder. Aquele olhar lancinante
causava-lhe sensações estranhas.

A boca de Callie secou. Mal percebeu
quando o tio foi apresentar Angela.
Muito tempo depois, deu um passo à
frente,
estendeu
a
mão
e
cumprimentou-o formalmente.
– Como está, Kyrie Savakis? É um
prazer conhecê-lo.
Aquecida pela mão calorosa dele,
conteve um arrepio quando uma
lembrança a percorreu – a de um
homem tocando-a de maneira bem
mais íntima algumas horas antes.
Tentou se afastar, mas a segurava
com firmeza e seu olhar era penetrante.
Callie foi tomada de pânico e sentiu
um grande nó na garganta. O preparo
de uma vida inteira a socorreu. Ignorou

o turbilhão de emoções que tomara
conta dela e manteve um sorriso vazio.
Os olhos de Damon Savakis eram
escuros. Mais para negros que
castanhos. Como uma noite sem lua. O
bastante para despertar o desejo de
uma mulher e aprisioná-la até
enlouquecer.
Callie sabia disso porque já os vira
antes. Já fora provocada por aquele
olhar atrevido e sensual.
Ele enfim falou. Sua voz percorreu a
pele dela em um tom íntimo que a
deixou toda arrepiada.
– Muito prazer, Callista.
Suas palavras foram previsíveis e
formais. Bem diferentes daquilo que

seu olhar profundo evidenciava.
Bem diferentes da sensualidade e
indolência do olhar que a seduzira fazia
poucas horas.

CAPÍTULO 2

CALLIE FICOU sem ar quando percebeu
que ele a encarava.
Era ele.
Havia um ruído em seu ouvido,
como um avião aterrissando. Ouvia a
conversa do tio ao longe. Mas aqui,
perto dele, nada havia além da chama
de seus olhos. Ele a afetava
imensamente, impedindo-a de pensar.

Tudo que sentia era um desejo
devorador.
Ele casaria com Angela?
Impossível. Devia ser um engano.
Mas o seu tio não costumava se
enganar.
Callie queria acariciar seu rosto bem
definido para ter certeza de que era
real. Sentir o forte cheiro masculino de
sua pele macia. Queria...
Não!
Seu estômago revolveu diante da
ideia de ter que explicar ao tio que já o
conhecia muito bem.
Aquela tarde fora uma exceção, algo
que acontece uma vez na vida. Uma
aberração para ficar no passado.

Mas agora estava diante do homem
que a fizera abrir mão de todas as suas
defesas contra o mundo, sobretudo os
homens. Aquilo que a mantinha a
salvo.
Enfim Callie fez a terrível descoberta
do poder que ele exercia sobre ela. Um
poder real e tangível. Permitira que ele
entrasse, deixando de lado todos os
cuidados, expondo sua privacidade e
ficando vulnerável. Tarde demais para
fechar a porta.
Naquela tarde, havia cometido a
insensatez de abrir uma caixa de
Pandora de sentimentos primitivos e
desejo carnal.
Sentimentos que

permaneceram velados durante sete
anos estavam de volta.
E agora essa ânsia, essa fraqueza, não
podia ser escondida.
Ânsia por um homem que estava ali
para cortejar sua prima.
O que Callie significara para ele?
Seu estômago dava cambalhotas de
tanto nervosismo.
Louca para romper a cumplicidade e
o desejo entre eles, virou-se e indicou
abruptamente os sofás. Sua mão parecia
firme. Só ela percebia o tremor sutil que
percorria seu corpo.
– Não quer sentar? – Sua voz estava
tranquila, quase sem alterações. Torcia
para que ninguém tivesse notado seu

controle frágil sobre as cordas vocais. A
tensão cravou as garras nos músculos
rígidos do pescoço e dos ombros.
– Você primeiro. – Inclinou a cabeça
e ergueu os braços por trás dela, como
se
a
empurrasse
para
as
espreguiçadeiras francesas.
A mão dele estava a alguns
centímetros do vestido de seda dela,
mas era possível sentir o calor, como
um fantasma se aproximando de suas
costas. Sua espinha gelou.
– Não, pode deixar. Não quer beber
nada? Um coquetel? Vinho, xerez? Ou
algo mais forte? Temos uzo, brandy...
Observou-a em silêncio, como se
soubesse que aquilo a desestabilizava.

Seu olhar já não estava cintilante.
Assumira um tom especulativo.
– Obrigado. Uísque.
Callie foi rapidamente para o bar.
– E você, titio?
– Brandy, claro. – Havia certa
irritação em sua voz, mas Callie mal
reparou. Estava muito ocupada
tentando controlar a tremedeira que
tentava se apossar das pernas.
Estava chocada e incrédula.
Conhecia o nome Damon Savakis.
Quem
não?
Ele
dirigia
uma
multinacional, comercializava desde
marinas a iates de luxo, de cruzeiros
marítimos exclusivos a viagens de navio
convencionais. Sua fortuna condizia

com sua perspicácia nos negócios, sua
capacidade de atacar na hora certa,
obtendo lucros ainda maiores. Os
especialistas dizem que ele é implacável,
que possui faro e uma sorte fora do
comum.
Ademais, ele era o principal rival da
empresa Manolis. Seu tio deveria
considerá-lo uma ameaça, não um
amigo. O que ele estava fazendo ali,
com seu lindo porém antigo iate?
Será que ele sabia quem ela era esse
tempo todo? Estivera na propriedade da
família. Mas, se soubesse, teria
mencionado sua relação com o tio.
E sua pretensão de casar com Angela.

A menos que quisesse esconder a
verdade. Callie prendeu a respiração.
Teria a seduzido apenas por diversão
enquanto planejava casar com Angela?
Teria rido da sua ingenuidade e
entrega? Divertindo-se vendo-a perder
a compostura?
Encheu-se de raiva diante de
recordações amargas.
Callie conhecia bem os homens
poderosos e suas patifarias. A maneira
como usavam as mulheres. Como
pudera ser tola a ponto de ignorar isso?
Sua primeira alegria depois de anos fora
uma farsa.
Tateou em busca dos copos.

– Deixe-me ajudá-la – murmurou
por trás dela. Estendeu o braço para
tomar o saca-rolhas da sua mão. –
Prefere vinho?
As palavras foram inócuas, mas a
respiração na nuca dela causou-lhe
arrepios. O corpo dele despertava uma
intimidade que deixava o cabelo da sua
nuca em pé.
Sentiu-se envergonhada. Era incapaz
de controlar suas reações.
Assentiu e deu um passo para o lado
enquanto ele abria o vinho. Estava
acuada no canto da sala, com ele
bloqueando sua vista e separando-a dos
demais. Estava envolvida pelo calor
dele. Sentiu um cheiro familiar que

despertou um calor em suas narinas:
algo másculo e provocante.
– Então nos encontramos de novo,
Callista. – sussurrou. Havia uma certa
presunção na voz dele.
Ergueu os olhos para encará-lo, mas
se arrependeu. Eles estavam em
chamas, com um aspecto infernal,
fazendo arder o seu rosto, sua garganta,
seu peito, dissecando-a de tal maneira
que sugeria que lembrava cada detalhe
da tarde.
– Sua versatilidade é notável. Que
papel você vai interpretar essa noite? –
Seu olhar e suas palavras eram de
reprovação, causando-lhe arrepios.

Callie hesitou diante do ataque
inesperado.
– Como?
Ele deu de ombros, mas a
intensidade de seu olhar contradizia a
indiferença do gesto. Encarava-a como
um falcão em busca da presa.
– De devassa a garota comportada da
alta sociedade numa única tarde. –
Contraiu os lábios, aparentando
repugnância. – Com esse jeito inocente,
ninguém diria que há apenas algumas
horas
estava
seduzindo
um
desconhecido. Você é assim, flexível?
Callie ficou sem palavras diante do
insulto. Não deixava de ser verdade,

mas... depois de tudo que passaram,
como podia agir assim? Por quê?
Não fora a única a se encher de
desejo naquela praia. Como se atrevia a
julgá-la?
– Tanto quanto você, Kyrie Savakis. –
Por pouco não se engasgou.
Seus olhares se entrelaçaram por um
longo tempo. Sentiu um calor nas
bochechas e tentou desviar o olhar dele,
mas pegou-se olhando para a sua mão,
que lhe entregava o cálice de vinho.
Tinha mãos de trabalhador. Dedos
longos, mas hábeis e imponentes. A
maneira como segurava o delicado
cálice deveria parecer incongruente.
Mas não parecia.

Ele deslizou o indicador pela haste,
para cima e para baixo. Deixou-a com
água na boca só de lembrar o jeito
como tocara seus mamilos. A maneira
como seu toque lançava dardos de
prazer, fazendo-a se contorcer de
desejo. A maneira como gemia na boca
dele, enquanto ele a acariciava e
descobria seus segredos mais íntimos.
Presenciar seu movimento lento e
deliberado, sentir o calor do seu toque
sobre a pele faziam com que se sentisse
vulnerável. Nua.
Não era possível que seu corpo a
traísse de tal maneira. Encheu-se de
desgosto.

Apressadamente, tomou a taça da
mão dele, cuidando para não encostar
em seus dedos. Deslizou um copo de
uísque pelo balcão até ele.
Ele era muito rápido. Segurou o copo
e os dedos dela de uma maneira que a
deixou paralisada.
– O que estão fazendo aí? –
resmungou o tio. – Callista, você não
pode monopolizar o convidado.
– Já vou – respondeu enquanto
tentava se desvencilhar de Damon
Savakis.
– Qual o problema, Callista? Não está
contente em me ver? – Sua voz era
sedutora como nas lembranças dela.

Como se a sua reprovação há alguns
instantes fosse delírio dela.
– Como amigo do meu tio, você é
bem-vindo – respondeu, tentando
desesperadamente conter as perguntas
e acusações. O que aquele cara queria
dela? Estava longe de ser o amante
excitante e fogoso que lhe contemplara
com momentos de intimidade e
carinho. Algo que ela jamais tivera.
Damon franziu um pouco o cenho.
Seus lábios estremeceram ligeiramente.
– Não foi muito convincente, glikia
mou – murmurou. – Esperava uma
recepção mais calorosa.
Algo em sua voz grave e encantadora
fez com que Callie sentisse uma onda

de calor. Estava espantada com sua
fraqueza. Como podia reagir assim
diante de um homem que não tinha
vergonha de seduzi-la enquanto estava
ali para cortejar Angela? Que a
repreendia por sua promiscuidade
enquanto a provocava com insinuações?
O dia fora traumático para seu
emocional. Estava desgastada. O prazer
carnal havia sido uma válvula para
sentimentos mais profundos, para uma
inesperada sensação de cura, ainda que
vaga.
Seu estômago se revirava tanto que
mal conseguia suportar. O que foi tão
importante para ela não passou de uma
brincadeira para ele.

Por fim, conseguiu desvencilhar seus
dedos e pegou o brandy do tio. Olhou
diretamente por sobre o ombro de
Damon, esforçando-se para não perder
o controle. Não faria um escândalo.
– Com licença, vou levar o copo do
meu tio. É hora de nos juntarmos aos
outros.
Ele não se mexeu. Seus olhos e seu
corpo a mantinham presa. Impedia a
saída dela. Ela desviou o olhar,
precisamente para a gravata borboleta
em sua camisa branca impecável.
– Pretende voltar a me visitar essa
noite, Callista? Para garantir que
realmente sou bem-vindo? – Seu tom
de voz ressoou por todo o corpo de

Callie. Ficou evidente que se tratava de
um convite sexual. A insinuação, a
provocação.
Ficou em pânico. Sentia-se exposta.
Fora deliberadamente enganada,
brincara
com
seus
desejos
e
necessidades mais profundos. Desejos
que nunca tivera até então. Agora ele
queria se aproveitar. Transformar seu
vislumbre do paraíso em algo sórdido.
– Callista?
Ela olhou-o nos olhos, mirando a
chama de desejo e diversão que lá se
encontrava.
Divertia-se com aquela situação?
Subitamente endireitou a coluna.
Inclinou a cabeça, indignada, enquanto

a mágoa corria em seu sangue. Já tivera
sua cota de armadilhas masculinas, de
ser um mero brinquedo, à mercê das
vontades deles.
– Quer a verdade? – murmurou. –
Você não é bem-vindo aqui, Kyrie
Savakis. A última coisa que quero é ter
que jantar na mesma mesa que alguém
como você.
Deu um passo à frente, aguardando a
reação dele.
Ele não teve alternativa; deu-lhe
licença.
Mas seu olhar de surpresa e raiva
denunciava que ele não gostou.
Difícil aceitar! Ele se divertira à custa
dela. Certamente curtira seduzir a

“intocável”.
Sentiu enjoo e calafrio. Acreditara
que aquele dia havia sido especial. Um
oásis de aconchego num mundo frio.
Imbecil. Não aprendera a não confiar
nos homens?
– Então você quer jogar, Callista?
Seu tom era de desafio. Ela ignorou.
– Eu não jogo, Kyrie Savakis.
Ele reagiu com um ligeiro olhar
analítico, com um queixo saliente de
insatisfação masculina.
Era como os outros: esperava que ela
satisfizesse seus desejos. Mas ninguém
mais mandava nela, era livre e
independente.

Ainda assim, seu coração palpitou ao
passar por ele. Imaginá-lo observando
suas costas nuas era como se uma
chama percorresse sua espinha.
Como sobreviveria a uma noite
inteira com ele?
Pressentia que, em vez de amenizar a
arrogância dele, Damon havia tomado
suas palavras como um desafio.
Ele não parecia disposto a ignorar
desafios.
– NÃO, OBRIGADO. – Damon balançou a
cabeça quando o criado ofereceu mais
vinho.
– Ora, Damon. – O anfitrião agitava
impacientemente o braço do outro lado

da mesa. – Não precisa dispensar
bebida. Você nem vai dirigir. Beba,
cara. – Ele gesticulou para o garçom,
que encheu sua taça de champanhe de
primeira. – Aqui só tem do bom e do
melhor.
– Não duvido. – Ele olhou para os
garçons uniformizados e depois para os
vistosos
talheres
dourados,
meticulosamente dispostos. Quem via o
luxo da casa de Aristides Manolis não
suspeitava de sua condição financeira
delicada. Da falência iminente.
Damon sabia. Era seu dinheiro que
poderia salvar Manolis e sua empresa.
Ou destruí-lo.

Esperara toda sua vida adulta pelo
dia em que teria Manolis nas mãos. O
desejo de adquirir sua preciosa empresa
para depois destruí-la o motivara
durante anos. Uma doce vingança pelo
que aquela família fizera com a sua.
Notou um reflexo e virou-se. Era o
colar de Callista. Uma joia fabulosa,
ouro branco, cravejada de diamantes.
Muito banal para o seu gosto. Muito
chamativa. Pura ostentação.
Ela lembrava-lhe outras mulheres
ricas e fúteis que conhecera. Só ligavam
para o valor das joias, e não para o
design.
Ao vê-la agora, com seu vestido de
alta costura e expressão vazia, mal podia

acreditar que era a mesma mulher que
o seduzira de maneira tão intensa.
Aquela mulher havia mostrado vigor e
sensualidade natural. Havia sinceridade
na sua entrega. Havia algo generoso e,
quase conseguia acreditar, especial nela.
Ele correspondera com uma vontade
que o espantou. Passou horas
esperando o dia seguinte. Quando,
prometera, descobriria mais sobre
aquela mulher que o intrigara mais que
qualquer outra.
Como fora tão ingênuo?
– Gostou das joias da minha
sobrinha? – Havia um tom de
exibicionismo na voz do anfitrião.
Gostava de se gabar de suas posses, ou

do que fingia possuir. Alguém que
contratava dois funcionários para servir
um jantar para quatro estava tentando
impressionar.
– Lindas, não?
Callista olhou para os lados; seu rosto
era uma bela e delicada máscara. Mas,
ao olhar para Damon, ele voltou a
sentir aquela atração, aquela vontade
incontrolável.
Ficou enfurecido. Deveria controlar
seus desejos intensos, agora que sabia
quem e o que ela era. Mais uma
Manolis mimada em busca de alguém
mais rústico.
Sua entrega sensual, suas reações na
praia haviam-no encantado. Mas, à

noite, quando o olhou com desdém,
percebeu que não passara de uma
aventura de socialite entediada.
Ou pior.
Lançou um olhar analítico do
anfitrião para Callista.
– O colar é impressionante –
murmurou.
Observou a cascata de diamantes no
pingente dela, a maneira como
preenchiam o vale entre os seios, visível
no vestido decotado.
Ela sabia valorizar seus atributos. Isso
o irritava. Ou talvez fosse a frieza
daqueles lindos olhos verdes que o
enfurecia. Não estava acostumado a ser
tratado com indiferença por mulheres,

sobretudo aquelas com que havia feito
amor com tanta intensidade. Tampouco
ouvir que não era digno de dividir a
mesa com elas.
Deixara-o
sedento
por mais.
Planejara ir atrás de sua sereia no dia
seguinte. Mas descobriu que sua musa
era apenas uma garota mimada,
envergonhada do que haviam passado.
Com vergonha dele.
Isso feria seu orgulho, expunha
feridas que julgava superadas. A chama
de sua raiva despertava lentamente
diante da indiferença de Callie, e o
pior: ele se importava.
Aquela frieza glacial atiçava-o de
maneira perversa. Não resistia a um

desafio. Não quando tentava diminuilo, como um segredinho sujo. Como se,
apesar de sua riqueza e poder, uma
Manolis de sangue azul não pudesse
expor sua pele delicada a um homem
de origem proletária.
– O gosto de Alkis sempre foi
impecável, não é, querida?
– Sem dúvidas ele sabia o que queria,
tio. – Sua voz era natural, como se
falasse do jantar, e não dos brilhantes
de milhares de euros no seu colo. Sua
riqueza e vida fácil faziam parte da
normalidade.
– Alkis? – indagou Damon.
– Meu marido. – Baixou os olhos
numa expressão que podia ser encarada

como constrangimento, não fossem os
inúmeros brilhantes chamativos em seu
pescoço, orelha e pulso.
O marido dela. Aquelas sílabas
ressoavam em seus ouvidos. Sentiu um
frio na barriga. Um ódio nas veias.
Devia ter adivinhado. Era uma
mulher casada da alta sociedade,
entediada, atrás de diversão. Fora
apenas uma escapada.
Ela o usou.
Várias memórias soltas vieram à
tona, da época em que precisava ganhar
dinheiro. Quando só possuía sua
determinação e seu faro para o
comércio. E a aparência. As ricaças se

amontoavam em volta dele, loucas para
viver uma aventura selvagem.
Até parece que abriria mão do
orgulho para entrar no joguinho de
alguma mulher.
– Seu marido não está aqui? –
Damon tentava controlar sua raiva e a
frustração consigo mesmo, por ter
cedido aos desejos sexuais sem
investigar quem ela era.
Olhos arregalados do outro lado da
mesa vieram ao encontro dos seus.
Eram da cor do mar, como a enseada
onde ancorara o iate. As sucessivas
ondas haviam abafado os gemidos de
êxtase de Callista em seus braços.

Por um instante, sentiu outra vez
aquela ilusão de harmonia. Não se
lembrava de ter sentido tanto prazer
com outra.
Isso que o deixava incrédulo. Além
de enojado por ter se deixado levar
pelas fantasias dela.
– Ele morreu faz alguns meses, Kyrie
Savakis. – A chama em seus olhos se
esfriou.
Tarde demais, Callista! Podia até se
fingir de dama do gelo agora, mas ele já
descobrira seu fogo sedutor.
Sua paixão não havia sido fruto do
luto pelo marido. Nada de fantasmas
do passado ou nostalgia. Apenas
luxúria.

Uma viúva alegre.
– Meus pêsames – disse, enquanto
ela inclinava ligeiramente a cabeça.
Estava totalmente indiferente. Nem
sinal de luto ou arrependimento.
Damon se perguntava que tipo de
mulher perderia o marido sem
demonstrar sentimentos. Sua intuição
dizia que, o que quer que houvesse por
trás daquela expressão indiferente, não
envolvia um coração partido.
– Alkis sabia escolher o melhor –
irrompeu Manolis. – Esses diamantes
são da melhor qualidade.
– Sério? – Damon inclinou-se, como
se quisesse olhar melhor. – São bem
atípicos. – Atípico era gastar tanto com

algo tão espalhafatoso. – Acho que
nunca vi algo parecido.
– Foram feitos sob encomenda.
Callista, mostre mais de perto. Sem
cerimônias, mocinha.
– Tio, aposto que ele nem tem
interesse...
– Pelo contrário – interrompeu
Damon. – Quero muito vê-los mais de
perto. – Se a família Manolis era baixa a
ponto de esbanjar uma fortuna que não
tinha, tiraria proveito de bom grado.
Observou uma troca de olhares
incompreensível entre Callista e sua
tímida prima. Em seguida, levantou-se
e foi até onde ele estava sentado.

Seu corpo exuberante brilhava,
causando um aperto na virilha dele. As
inúmeras pedrinhas prateadas de seu
vestido refletiam a luz do ambiente.
Cada passo acentuava as curvas
sensuais em sincronia com a luz. Seus
músculos ficaram tensos com o esforço
para permanecer sentado e não tocá-la.
Sem demonstrar o desejo que sentia por
ela.
Quando ela parou na sua frente,
sentiu um perfume caríssimo. Dera um
de despedida para sua última amante.
Levantou-se, incomodado: preferia o
aroma natural de sua pele, agora
mascarado por uma fragrância artificial.

Ainda assim, fazia-o lembrar que a
mulher que conhecera antes, por quem
se encantara, era uma farsa.
Callista ficou parada, seios arfantes
fazendo as pedrinhas brilhar. Preferia-a
sem aquilo. Apenas com sua pele
dourada, combinando com o cabelo
mel elegantemente preso.
Damon pegou um brinco. Os
brilhantes cintilaram. Os pelinhos de
seu braço ficaram arrepiados. Numa
noite tão quente, não podia ser de frio.
Damon sentiu-se estimulado diante da
tensão dela.
Era bom saber que não ficava tão
calma em sua presença quanto
aparentava.

– Impressionante – murmurou,
fingindo se aproximar para ver a joia e
quase encostando nela. Na verdade,
estava de olho no decote. As palmas de
sua mão chegavam a coçar só de
lembrar-se de quando tocou aqueles
seios.
– Não é? – A voz de Manolis tinha
um tom autocongratulatório. – Alkis
sabia investir seu dinheiro.
– Não tenho dúvidas. – Damon
encarou os olhos dela, perto o bastante
para ver de novo os traços dourados
que o hipnotizaram.
Quanto teria custado?
Só agora se lembrava da história.
Uma pena não ter recordado antes.

Suas investigações sobre a família
Manolis revelaram apenas a filha, mas
nada sobre uma sobrinha escandalosa.
Tratava-se da mulher que aos 19
anos fora alvo de muitos comentários
ao se casar com um ricaço grecoamericano com idade para ser seu pai.
Era uma jovem cheia de dinheiro, com
uma aparência condizente com seu
estilo de vida e seu sobrenome. A
esposa ideal.
Na época, Damon estava no Pacífico,
concluindo seus trabalhos em uma
marina de luxo. Quando retornou,
todos falavam dela. Agora entendia o
motivo. Callista era maravilhosa, uma

das mulheres mais bonitas que
conhecera.
Retorceu o lábio. Assim como seu
nome, Callista era de uma beleza ímpar.
Mas aquele belo corpo escondia uma
grande interesseira. Alguém sem
sentimentos, capaz de vender-se por
uma vida privilegiada.
Virou-se
deliberadamente,
chamando atenção das outras mulheres
presentes.
– Às vezes, um estilo natural é mais
atraente que joias exuberantes – disse,
baixando o tom da voz.
Ouviu um suspiro abafado ao seu
lado. Callista estava acostumada a

roubar a cena da prima tímida. Deve ter
entendido a indireta.
– Tem razão, Damon. Toda razão –
concordou Manolis, com uma voz
forçada, enquanto Callista voltava para
seu lugar do outro lado da mesa, com
uma expressão vazia. – Muitas vezes, a
verdadeira beleza é a mais sutil.
Sutileza definitivamente não era uma
característica dele. Sua vontade de
enfatizar as qualidades da filha era
evidente, como se vendesse um purosangue num leilão. O constrangimento
da jovem diante da insistência do pai
também era notável.
Damon estreitou os olhos enquanto
acompanhava a situação.

Aristides pensava que ele, Damon
Savakis, capaz de escolher a mulher que
quisesse, se interessaria por uma ratinha
tímida que nem sequer conseguia
encará-lo sem corar? Sob o olhar zeloso
do pai, atrapalhava-se mesmo com as
conversas mais banais. Manolis então
começou
a
tagarelar sobre
a
importância das relações da família, da
confiança necessária entre aqueles que
mantinham vínculos pessoais e
comerciais.
Damon torceu os lábios. Então era
isso. Manolis esperava que Damon se
interessante pela sua filha.
O sujeito estava maluco.

Ou mais desesperado do que ele
pensava. Será que sabia que Damon
planejava destruir sua empresa?
Damon voltou seu olhar para
Callista. Se o que aconteceu entre eles
significava algo para ela, não aprovaria
os planos do tio. No entanto,
permaneceu altiva e inabalável, talvez
um pouco dura. Sua mensagem era
evidente: tivera sua breve aventura, e
só.
Teria agido deliberadamente ao se
oferecer para ele? Uma ricaça em busca
de um encontro com um amante da
classe operária? Franziu os lábios em
desaprovação. Conhecia bem o tipo.

Ou Aristides Manolis teria planejado
as visitas dela à enseada?
A ideia passou por sua cabeça assim
que a encontrou ali, brilhando da
cabeça aos pés, como um embrulho de
Natal. A suspeita o fez atacá-la desde
que chegou, ao mesmo tempo que se
aproximava dela, incapaz de manter a
distância.
Será que Manolis descobrira a
chegada precoce de Damon para
aproveitar uma folga em segredo e se
recuperar de uma gripe? Teria usado a
sobrinha para amolecê-lo antes de
começar as negociações? Vindo dele,
esse tipo de artifício não surpreendia.

Nesse
caso,
não
funcionou.
Certamente não se importava de dormir
com um estranho, mas, com seu
orgulho aristocrático, detestaria ser vista
com um homem de origem proletária.
Damon estava tomado de ódio.
Teria lançado mão de suas
habilidades para ajudar o tio, assim
como oferecera seu corpo por um
marido rico?
Damon sentia um gosto amargo de
indignação.
Manolis estava desesperado. Logo,
logo Damon colocaria as mãos na
empresa da família. Era um alívio, já
que parte dele, apesar do grande

sucesso na vida, não esquecera o
passado.
Seria gratificante acabar com os
planos de Aristides e destruir seus
negócios.
Pensava em deixar as negociações nas
mãos dos advogados. Veio apenas por
curiosidade. Lembrava-se do respeito
com que seus pais falavam da família
Manolis, que empregara seu pai e avô.
A empresa que acabou os destruindo.
Os tempos mudaram e o poder
chegou ao fim. Agora Damon era o
poderoso, e o destino daquela família
dependia apenas da sua palavra.
O que viu hoje despertara ainda mais
desprezo pelos seus anfitriões.

Ainda assim... Viu Callista desviar
seu olhar frio do rosto dele para a
prima. Seus lábios esboçaram um meio
sorriso, causando-lhe falta de ar e um
aperto no estômago.
Quaisquer que tenham sido os
motivos, ela o havia usado, feito de
bobo.
Seu orgulho masculino exigia
explicações. Damon Sakaris estava
acostumado a ter controle da situação,
não a ser manipulado.
Mas seu corpo ainda desejava o dela,
um desejo primitivo e doloroso. Não
chegara ao fim. Não teria fim enquanto
ainda sentisse aquele desejo.

Naquele momento, decidiu aceitar o
convite de Manolis para permanecer,
mas não que
as negociações
dependessem da sua presença.
Estava interessado em assuntos bem
mais pessoais.

CAPÍTULO 3

– MINHA

HERANÇA,

congelada?
Impossível. – Com um esforço
tremendo, Callie controlou a voz
enquanto encarava o tio, sentado à
escrivaninha.

Herdo
quando
completar 25 anos. Hoje.
Ele não a olhou nos olhos.
Mau sinal. Geralmente, Aristides
Manolis se esquivava de perguntas
embaraçosas na base da agressividade.

O fato de não tentar dessa vez disparou
um alerta. Além do mais, passara a
semana inteira evitando uma conversa
em particular. Enfim a requisitara no
escritório após se despedirem de
Damon Savakis.
Ela estremeceu. Não queria pensar
nele.
Estava uma pilha de nervos após uma
noite de conversa artificial com o
homem que ora a tratava com
condescendência educada, ora a
devorava com o olhar. O homem em
quem chegara a confiar por algumas
poucas horas.
– No seu aniversário, era o planejado
– disse ele, brincando com um abridor

de cartas. – Mas as circunstâncias
mudaram.
Callie esperou, alerta. Mas ele não
prosseguiu.
– Planejado, não, tio. É a lei. –
Respirou fundo para se acalmar. –
Meus pais começaram a poupança
quando eu era bebê. Hoje, herdo a
propriedade.
Restara-lhe muito pouco dos pais.
Lembranças e um álbum velho.
Quando fora viver com os parentes
gregos, uma menina de 14 anos infeliz
do outro lado do mundo, o tio a
informara bruscamente sobre a venda
da casa dos pais, com todos os objetos.
Guardar móveis era um luxo

desnecessário. Melhor investir os lucros
na poupança.
Callie chegara só com uma mala e
sua mochila nova. Um presente da mãe
para as férias, que pretendiam passar
velejando.
Uma rajada de dor percorreu-a,
retesando-a. A lembrança da perda
ainda doía.
– Você vai ter sua herança, Callista.
Vai só demorar para organizar. Não
imaginava que você teria tanta pressa. –
Havia uma nota acusatória ali. – E o
dinheiro que Alkis deixou?
– Alkis deixou sua fortuna para os
filhos, como você bem sabe. Com
certeza isso foi tratado na negociação do

meu casamento. – Sua voz ficou
ligeiramente
amarga.
Pigarreou,
decidida a não se dispersar. – Com o
que sobrou, paguei as dívidas dele. Por
isso, quero acertar com você. Preciso do
dinheiro.
Tinha feito planos, mas precisaria de
dinheiro. Venderia o resto das joias
quando partisse para abrir um pequeno
negócio. Tomaria suas próprias decisões
e tocaria sua vida livremente.
Já aprendera a lição. O único jeito de
ser feliz era só depender de si. Sabia o
que queria e nada iria impedi-la de
atingir seu objetivo.
Pela primeira vez em anos, sentia-se
animada e cheia de energia, ansiosa

pelos desafios e a satisfação de construir
algo seu.
– Posso ligar para os advogados da
família e...
– Não! – O berro fez a bolsa dela
saltar. O tio desfez o nó da gravata e
mergulhou na cadeira. – Você sempre
foi teimosa. Por que não pode esperar?
Anos de experiência deixaram a
expressão de Callie impassível, embora
seu sangue fervesse. Teimosa! Ao longo
dos anos, permitira que os homens de
sua vida a conduzissem de inferno em
inferno. Fora até muito paciente.
Aquilo tinha que acabar.
– Estou importunando você, tio –
disse no seu tom mais controlado. –

Não se incomode. Eu mesma vou para
Atenas amanhã acertar a burocracia.
Havia ódio no olhar dele.
– Vai ser inútil. Não tem nada lá.
Callie empalideceu. O tio nunca
brincava, muito menos com dinheiro.
– Não me olhe assim – rosnou. –
Você vai ficar com ele. Assim que
fecharmos com Damon Savakis.
– O que isso tem a ver com minha
herança? – O frio de antes se acumulou
no peito.
– A empresa... não vai bem faz algum
tempo. Tivemos dificuldades, gastos
inesperados, uma recessão.
Engraçado, a recessão afetava só a
empresa
deles,
enquanto
as

concorrentes, como as empresas
Savakis, prosperavam. Aristides Manolis
nem imaginava que ela sabia disso.
Achava que as mulheres da família
eram cabeças-ocas, incapazes de
compreender os rudimentos do
mercado.
– E? – Callie desabou numa cadeira.
Seus joelhos pareciam gelatina.
– Quando fecharmos com Savakis,
essa... crise é passageira.
– Nada disso explica minha herança,
tio.
Aristides apertou o abridor com
violência. Desviou o olhar.
– A empresa ia tão mal que tive que
arrumar um jeito de sustentá-la. Uma

medida temporária.
Callie sentiu um nó na garganta.
Cerrou os olhos, ouvindo apenas seu
pulso desesperado.
Quantas vezes aquele homem iria
traí-la?
Por que fora ingênua e acreditara
que, pela primeira vez, tudo acabaria
bem?
Ganância e traição. Temas constantes
na sua vida adulta. Já devia estar
anestesiada. Entretanto, o choque e a
mágoa, a incredulidade, eram tão
avassaladores agora quanto haviam sido
a cada vez que fora vítima da falsidade
dele.

Cansada, abriu os olhos e observou o
rosto sardento do irmão do seu falecido
pai. O homem em quem deveria poder
confiar.
– Você roubou minha herança –
sussurrou.
– Callista Manolis! Respeito! Agora
que seu marido morreu, sou o chefe da
família.
– Sei quem você é. – Ela afastou o
pânico, a angústia, a dor dessa última
traição. – E o quê. – Ficou quieto, com
os olhos arregalados. – Pensei que você
estivesse um pouco acima de roubar da
própria família.
Ele bateu o punho na escrivaninha,
mas Callie nem piscou.

– Não roubei. Foi uma redistribuição
de fundos temporária. Você não
entende...
– Entendo. Você é um ladrão – disse,
encarando-o até ele afastar o olhar. –
Devia se portar com ética.
Callie combateu uma fúria crescente.
Estava tentada a entregá-lo, hoje
mesmo. A ver um dos homens que a
usaram ser punido.
Mas a lembrança da prima e da tia
querida desencorajou-a. A justiça lhes
faria mal e não traria sua herança de
volta.
– O dinheiro estará disponível logo,
logo. – A voz do tio era o mais próximo
de uma súplica que já ouvira dele. –

Com juros. Quando fechar esse
negócio.
– Você espera que Damon Savakis
salve sua pele? – Segurou uma risada
histérica. – Ele tem fama de vencedor,
não de ser compassivo com rivais. Não
tem nenhum interesse em ajudar você.
– Mas não vamos ser rivais. –
Aristides se inclinou, mãos espalmadas
sobre a madeira. – Se tudo correr bem,
ele vai ser mais que um sócio. Vai ser
da família.
AS VOZES na piscina fizeram Callie
estancar. Angela e Damon Savakis.
Nenhum homem podia desconcertá-la

tanto com seu riso trovejante. O tom
grave a deixava com um frio na barriga.
Na véspera, com o rosto colado ao
seu peitoral, sentiu uma risada
preguiçosa emergir de dentro dele
como uma carícia sonora. Em meio a
uma névoa de satisfação sensual,
sentiu-se viva.
Cerrou o punho ao sentir o pulsar do
desejo.
Tolice. Usara-a do jeito mais
calculista possível. Ela não desconfiou,
acreditando que também estivesse
dominado por uma atração fortíssima.
Suspeitava que, com Damon Savakis,
nada seria simples.

O comportamento dele estragou
aquele sonho tolo. Ele a achara
divertida. A confusão e o embaraço de
Callie deram tempero à noite. Muito
picante ter a amante e futura noiva
juntas.
Diziam
que
era
observador.
Impossível que não a tivesse
reconhecido na praia. Pesquisar sobre
os membros da família era básico.
Mas ele manteve a própria
identidade em segredo, divertindo-se à
sua custa. Seduzir a “Rainha de Gelo”
deve ter sido uma distração para um
apetite anestesiado por mulheres
ávidas. Vê-la corar era um bônus para
um homem que ama poder.

Um tipo detestável.
Ela endireitou os ombros.
– Bom dia, Angela. Kyrie Savakis. –
Concedeu um breve sorriso ao se
aproximar da mesa onde ela e a prima
faziam
tantas
refeições
juntas.
Impossível falar em particular agora.
Perderam essa oportunidade ontem,
quando Aristides a chamou. Depois,
Callie não a encontrou mais. Detestava
imaginá-la solitária e angustiada.
– Desculpe o atraso. Não sabia que
tínhamos visita.
– Kyrios Savakis vai passar uns dias
aqui – disse Angela baixinho,
provocando um calafrio de apreensão
em Callie.

Uns dias! Só piorava.
– Ele chegou antes do café. – Angela
parecia calma, uma perfeita anfitriã. Só
quem a conhecesse bem notaria o
desconforto, os dedos ocupados com a
toalha de mesa, o corpo tenso.
O coração de Callie parou de tanta
culpa. Não pensara na prima tímida
recebendo sozinha. Dormira tarde,
depois de passar a noite tentando
absorver as revelações do tio. Revivendo
o horror de descobrir a identidade e o
verdadeiro caráter de Damon.
– Seu tio foi muito gentil e me
convidou para provar um pouco mais
da sua hospitalidade – murmurou uma
voz grave vinda do outro lado da mesa.

Era imaginação sua ou ele enfatizara
as duas últimas palavras, como se
falasse de um serviço que ela poderia
oferecer pessoalmente?
Não seria tão grosso. Seria?
Lentamente, virou-se para ele,
ignorando o pulso acelerado.
Parecia satisfeito consigo mesmo, um
homem
saciado.
Callie
ficou
horrorizada com o rumo dos seus
pensamentos. Forçou um sorriso,
escondendo seu arrepio ao absorver a
presença dele.
Apesar da raiva, era apetitoso.
Para quem gostava de perigo.
Ele estava com uma camisa branca
um pouco aberta, jeans de grife e uma

expressão que proclamava que se sentia
completamente à vontade.
– Eu ia levar Kyrie ao bangalô –
explicou Angela.
O bangalô? Graças aos céus. Pelo
menos não ficariam na mesma casa.
– Damon, por favor. Kyrie Savakis faz
com que eu me sinta da geração do seu
pai. Não precisamos dessa formalidade.
Ah, mas precisamos, pensou Callie,
olhando Angela de esguelha.
Mesmo depois de uma noite
digerindo a tramoia do tio, horrorizouse ao ver a forma como a história se
repetia. Arrepiou-se toda. Vê-lo usar a
mesma maquinação pela segunda vez
era um pesadelo.

– Obrigada, Damon. Pode me
chamar de Angela.
– Angela. – Deu um sorrisinho e
virou-se para alfinetar Callie com seu
olhar sinistro e questionador.
– Tecnicamente, você é de outra
geração – disse Callie, antes que ele
abrisse a boca. – Você já é trintão, não?
Angela só tem 18 anos.
Ele franziu o cenho, depois abriu um
sorriso bem-humorado.
– Tenho 34, já que quer saber –
murmurou.
– Sério? Tão... er... novo? – Callie
franziu as sobrancelhas fingindo
surpresa. Ela já sabia. Vira na Internet
de noite. Era velho para Angela. Além

da diferença de idade, havia um abismo
intransponível de experiência e
expectativa. Sabia por experiência
própria.
– Velho o bastante para me
conhecer, Callie. – Ouvir seu nome dos
lábios dele provocou uma explosão de
sensações nela. – Posso chamá-la de
Callie? Ou prefere Callista?
Nenhum dos dois. Ambos eram
íntimos demais, especialmente naquele
tom aveludado capaz de seduzir uma
mulher em trinta segundos.
Ontem, só a voz dele e a promessa
naqueles olhos a fizeram ansiar pelo seu
toque.

– Eu... – Ia pedir que a chamasse
pelo nome, quando percebeu o olhar
nervoso de Angela. – Callie, claro.
Só era Callista para o tio, que
conseguia carregar as sílabas de
decepção e censura.
– Obrigado, Callie. – Seus olhos
tinham um brilho que ela não sabia
interpretar. A expressão dele a deixava
tensa. Ela levou um tempo para notar
que Angela estava falando com um
empregado.
– Com licença. – Levantou-se. –
Telefone.
Viu as bochechas de Angela corarem
e deduziu que devia ser Niko. Filho de
um médico local, apaixonado por ela

fazia anos. Estava montando um
negócio no turismo, esperando que
Aristides aprovasse o casamento.
Callie sabia muito bem que Aristides
nunca aceitaria que a filha casasse com
um rapaz da região, por mais direito e
apaixonado que fosse. Dinheiro e
posição social eram o que importava
para ele.
Seu olhar voltou-se para Damon
Savakis, que bebericava seu café. Sentiu
uma onda de agonia.
Com sua beleza e seu ar de poder
contido, Damon lembrava um paxá,
habituado a suntuosidade, luxúria e
obediência completa. Devoraria a pobre
Angela numa dentada e buscaria outra

fonte de diversão. Como a que
encontrara ontem, seduzindo Callie e
lançando indiretas a noite toda
enquanto ela sofria.
Um sacrifício chegava. Callie
desempenhara essa função no clã anos
atrás. Não podiam exigir outro.
Recusava-se a ver o tio destruir a vida
da filha como destruíra a sua.
Especialmente porque Angela podia ser
feliz com um homem honesto e
carinhoso. Sabia por experiência própria
que esse tipo era tão raro quanto uma
nevasca em Santorini.
– Sem pressa, Angela. Eu cuido da
visita.
– Promissor.

– Perdão? – Callie virou-se e
percebeu Damon examinando-a com
um sorriso que não se estendia aos
olhos.
– Gosto da ideia de você cuidar de
mim. Quais são os planos?
O calor dançava naquela expressão
calculista. O olhar dele foi arrastado
para a blusa amarrada e a barriga
exposta. A pele dela queimou como se
fosse acariciada pela palma ríspida dele.
Ainda ontem...
Callie empurrou a cadeira.
– Mostrar o bangalô – disse, sua voz
quase segura.
Quando ele a olhava daquele jeito,
não conseguia impedir que seu corpo

tomasse vida.
Arrependeu-se de ter vestido uma
calça leve e uma blusinha. Se soubesse
que ele estaria lá, teria escolhido uma
túnica longa. Mas o brilho nos olhos
dele mostrava que seria inútil. Ele se
lembrava dela nua.
E ela, dele.
Ele se levantou, sua silhueta atlética
surgindo da cadeira. Ela teve uma
recordação estonteante daquele corpo
na véspera, todo pele bronzeada e
músculos.
Respirou fundo e olhou para o outro
lado, tentando controlar os hormônios
famintos.

– Ah, Callie, só isso? – O dedo dele
tracejou o pescoço dela, que se afastou.
– Esperava algo um pouco mais...
íntimo.
– Você... você está abusando!
Ela ergueu o queixo, assumindo a
aparência
de
compostura
que
aperfeiçoara nos últimos anos. Ignorou
sem dó o desejo efervescente e
caminhou para a beirada da varanda,
de postura ereta e rosto sério. Foi
terrível descobrir como era difícil
manter a armadura. Só parou depois
que conseguiu controlar a voz.
– É por aqui.

DAMON OBSERVOU-A caminhar pelo
gramado. Os quadris balançavam
sedutores e seu olhar voraz fixou-se
neles, delineados pela calça branca
justa. Será que a vestira de propósito?
Não via marca de calcinha. Estava
usando fio-dental ou não tinha nada
por baixo?
Uma onda violenta de calor
percorreu o corpo dele. Não bastara
fazê-lo passar a noite em claro? Irritarase com a forma como o usara e depois
rejeitara, porém estava carente de outro
toque, outra prova do seu corpo
estonteante. Nem a frieza dela
extinguiu sua libido.

– Você vem? – Ela parou e se virou
um pouco, exibindo o perfil majestoso.
Parecia recém-saída de uma revista
feminina. Gente bonita e privilegiada
levando vidas bonitas e privilegiadas.
Embora também fosse privilegiado
agora, com mais dinheiro e poder do
que era necessário, ainda sentia um
abismo a separá-lo desse tipo de gente.
Um abismo que criara propositalmente,
resistindo ao apelo artificial da
“sociedade”.
Apreciava a sua fortuna, aproveitava
ao máximo o que oferecia a ele e à
família, mas jurara jamais sucumbir à
mesquinhez mundana. Viu tudo de que
precisava na infância, quando a mãe

limpava mansões das famílias mais ricas
do país. Na adolescência, trabalhou lá e
testemunhou em primeira mão a moral
das classes abastadas.
Damon se orgulhava das suas
origens, não sentia vergonha de ter
chegado aonde chegou graças ao
trabalho, e não a uma herança.
Aprendera que o mundo dos
“melhores” escondia uma camada de
ganância, egoísmo e vício. A última
coisa que queria era sentir atração por
uma mulher que personificava tudo
isso. Uma herdeira dos valores dos
Manolis.
O fato de que a desejava mesmo
assim o irritava muito.

– Já vou.
Foi até Callie e parou diante dela.
Estava perto o bastante para sentir o seu
calor. Curvou-se para inalar sua
fragrância.
Se ele pretendia desconcertá-la, teve
uma decepção. Ela virou-se e conduziuo com suas longas pernas, prendendo o
olhar dele. Levou um tempo para ele
perceber que, em vez do perfume da
noite anterior, o odor que sentia era a
fragrância intoxicante da véspera: sol e
mulher misteriosa.
A luxúria o tomou como uma rajada
de energia.
Sua suspeita se confirmou: tinham
questões mal resolvidas. Ela não

poderia descartá-lo quando enjoasse.
– Essa cor não é comum. – Ele a
seguiu, de olho no balanço do cabelo
mel. Confundira-a com uma turista da
primeira vez que a viu.
Ela deu de ombros.
– É pintado.
– Ah, mas, Callie, nós dois sabemos
que não. – O triângulo dourado de
pelos que encontrara ao tirar o biquíni
era genuíno. – Vi a prova, lembra? Bem
de perto.
Ele imprimiu um tom satisfeito à voz.
Por um instante, ficou parada,
estranhamente curvada. Depois se
voltou e o encarou. Não revelou o
menor embaraço. Os olhos eram

plácidos, a expressão, indiferente. Sem
dúvida era livre o bastante para
conseguir discutir detalhes íntimos com
o último amante.
Ela devia ter causado muitos
aborrecimentos ao marido. Será que ele
morrera tentando satisfazê-la? Ou fora
forçado a vê-la com homens mais
novos, que lhe ofereciam o que ele não
podia dar?
– E sei que seu cabelo é preto –
murmurou. – E? – As sobrancelhas dela
se ergueram numa expressão que
lembrava tédio.
– É raro encontrar gregas com cabelo
tão claro. – Ele se aproximou o

suficiente para ver traços dourados nos
seus olhos.
– Metade grega. Mamãe era
australiana. – As palavras vieram
cortadas, como se ele tivesse tocado em
assunto pessoal. Esperou-a continuar. –
Fora que algumas pessoas aqui no norte
são mais claras. Todos os Manolis são
assim. – O olhar dela fixou-se nos seus
cachos negros como que em reprovação.
– Sua prima é morena. Não tem
comparação.
Ela abriu a boca para contra-atacar,
mas se conteve. Encolheu os ombros e
virou as costas.
– Agora, se já matou a curiosidade...

– Ainda não – falou devagar. – Por
que a frieza? Depois de ontem, devo
merecer uma recepção melhorzinha.
Você é dessas que se excitam com um
encontro
secreto?
Gosta
da
possibilidade de ser pega in flagrante
delicto?
CALLIE FITOU o bangalô cem metros
adiante. Seria um milagre se
conseguisse chegar lá sem perder a
compostura.
Até parece, se excitar!
Entretanto, assustou-se com a
suspeita de que talvez fosse verdade.
Talvez aquele desejo avassalador

resultasse do anonimato e da ousadia
silenciosa.
Fechou os olhos, lembrando-se da
delícia de vê-lo caminhar em sua
direção mantendo contato visual, para
que ela sentisse a força viva da sua
personalidade. Sem hesitar, puxou-a
para os seus braços. Recebeu cada
carícia com um fervor que agora a
assustava.
Nada jamais parecera tão perfeito.
Abriu os olhos. Já pensara demais
nele. Não iria deixar que se distraísse
com ela enquanto jogava um jogo
desequilibrado com o tio. Enquanto ele
cogitava levar a sua prima num negócio
desumano.

Estava farta de ser fantoche de
homem.
– Não devo nada a você.
Prendeu-o com o olhar frio que
aperfeiçoara para disfarçar suas
emoções fervilhantes. Alkis não tinha
paciência com os sentimentos da
esposa. Esconder-se na máscara de
indiferença fora uma habilidade de
sobrevivência ganha a duras penas, mas
necessária.
– Depois de ontem, você está sendo
abertamente antipática comigo.
Damon se aproximou. Ela levantou a
cabeça para olhá-lo nos olhos. O calor
dele envolveu-a num convite. O cheiro
de sabonete, mar e macho saudável

atiçou-a a ponto de precisar se esforçar
para não estender os dedos necessitados
atrás de uma derradeira carícia.
Callie pôs as mãos no bolso com
medo de fazer uma loucura, como tocálo.
– Ontem acabou.
– Mas o que tivemos não precisava
acabar. – A voz baixa e sedutora
trespassou sua máscara frágil. Ele a fez
ansiar pelo tormento delicioso do seu
toque.
Isso a apavorou.
– Acabou – repetiu Callie, desejando
acreditar.
– E se não estiver pronto para
terminar? – O olhar dele era arrogante.

– Não há o que terminar. – As
palavras se atropelaram. Precisava
manter a calma. – Fizemos sexo. Nada
mais.
– Só sexo. – As sobrancelhas dele se
franziram e ela pensou ver fúria em
seus olhos. Então o instante passou e o
rosto dele ficou indecifrável. – É a sua
especialidade, Callie? Sexo selvagem
com estranhos que você esquece no dia
seguinte?
Ela arrepiou-se de constrangimento e
raiva. Porém, sabia que não podia
deixar transparecer. Baixou o olhar para
os ombros dele, o peitoral largo, os
braços e pernas poderosos, depois olhou
para cima aos poucos, como se estivesse

habituada a apreciar as minúcias de um
corpo masculino sensual.
– Olha quem fala – disse,
amaldiçoando em silêncio a boca seca,
que fez a voz sair muito rouca. – Você
conseguiu o que queria. Fim.
– Engano seu. Não acabou.
Um tremor a atravessou, fazendo
cada músculo se enrijecer de...
expectativa? Excitação?
Não! Não entraria naquele jogo de
sedução. Ontem fora um erro de
julgamento. Ela quebrou todos os seus
princípios por algumas horas de paixão.
Foi uma insanidade momentânea.
Devia ter adivinhado que nada era
tão puro e simples quanto parecera.

– Acredite, Kyrie Savakis, acabou.
Por que não seguir a vida? – Callie não
tinha dúvidas de que, à noite, ele já
teria achado outra mulher ansiosa para
virar um número. Ontem foi ela. Sentiu
um aperto.
– Porque consigo o que quero, glikia
mou. Você abriu meu apetite.
Deu um sorriso voraz que a fez sentir
um arrepio na espinha.
– Quero você, Callie. E vou ter.

CAPÍTULO 4

O QUE dera nele? Assim que proferiu
as palavras, Damon duvidou da sua
sanidade.
Ela não era o tipo de mulher que
queria na sua vida.
Nada do que sabia sobre ela era
positivo.
Menos a sua reação extática e
desinibida ao sexo. Nesse quesito, ela

era capaz de abalar até seu formidável
autocontrole.
A verdade nua e crua era que uma só
vez com Callie Manolis não bastava.
Apesar dos seus escrúpulos e fúria, ele a
desejava. Ainda mais.
Amaldiçoou sua fraqueza, mas não
podia resistir. Sua necessidade era mais
forte que a razão.
Ela arregalou os olhos e abriu a boca.
Ele se imaginou roubando-lhe um beijo
que levaria a outras atividades, mais
satisfatórias.
– Suas ameaças não me assustam. –
Mas a voz dela estava trêmula. Ela
estava assustada.

Ou excitada. Damon enrijeceu só de
pensar.
– Ameaça, não. Promessa.
– Você não tem poder sobre mim. –
Ela ergueu a cabeça e lançou um olhar
altivo, a rainha das amazonas. – Cuido
da minha vida. Homem nenhum
manda em mim.
Ela indicou o bangalô.
– Daqui você se encontra, Kyrie
Savakis. – Ela se virou e o deixou.
Caminhava tranquila, como se tivesse
apenas dispensado um criado.
Ninguém dispensava Damon Savakis.
Entretanto,
ele
aplaudiu
mentalmente sua coragem. Poucos o
peitavam.

Ela o fascinava. Ele queria destruir
aquela pose e aquecer o corpo dela com
o seu, até que o calor os consumisse.
Enfiou as mãos nos bolsos do jeans
para não forçá-la a se render com um
ataque apaixonado.
Seria fácil demais, grosseiro. Queria
ter o prazer de vê-la a seus pés.
Em um dia, Callista se tornara mais
que um desafio. Estava virando uma
obsessão. Apesar do seu desdém.
Apesar de quem era. Ou talvez por
causa disso.
A velha raiva despertou. Seu avô e
seu pai eram escravos dos Manolis,
estragando sua saúde por uma mixaria.
O avô teve uma morte precoce de tanto

trabalhar. Quando o pai morreu num
acidente nos estaleiros, a mãe recebeu
condolências, um representante da
empresa no funeral e nem sinal da
indenização.
Os
advogados
encontraram uma brecha para absolver
a empresa. Como se não fosse questão
de consciência e honra. Como se a
morte do seu pai fosse só mais um mero
registro.
Damon direcionara a raiva para sua
sede de sucesso, garantindo que a
família nunca mais ficasse tão
vulnerável como nos seus 15 anos, o
mais velho dos cinco órfãos.
Era de espantar que ele gostasse de
observar Aristides Manolis lamber seus

sapatos? Ou adorasse a ideia de ver
Callista Manolis, tão indiferente, de
joelhos?
A frieza dela selou o seu destino.
Damon queria fazê-la admitir seu
desejo. Iria aceitá-la novamente, só até
se satisfazer. Depois daria um fora nela,
que ficaria querendo mais – o que não
podia ter.
CALLIE SUBIU a colina contendo-se para
não correr. A consciência de que era
observada lhe deu coragem para não
fugir. Seus joelhos tremiam tanto que
andar era um esforço hercúleo.
Sentia o olhar possessivo dele como
um toque. Aquela mirada dominadora,

de olhos tão negros que pareciam um
abismo. Apesar da sua fúria, o corpo
traidor tinha vontade própria.
Ela se entregara com prazer, sem
perceber o perigo.
Não podia fugir até resolver a
herança. Sem ela, não realizaria seu
sonho.
Ele lhe dera forças nos anos cruéis do
casamento. Era-lhe muito querido para
desistir. Entretanto, só lhe restava torcer
para que o negócio do tio desse certo e,
milagrosamente, Damon recusasse o
casamento.
Parou de repente quando se deu
conta. Só o dinheiro de Damon poderia
salvar seus planos.

Sorte que ele nem imaginava. Era tão
inescrupuloso que poderia se aproveitar
dessa vulnerabilidade.
Um choro
interrompeu
seus
pensamentos. Seguindo-o, chegou a um
bosque isolado. Lá, para sua
perplexidade,
encontrou
Angela
encolhida num banco.
Callie
gelou,
arrebatada
por
lembranças.
Sete anos antes, fora para lá quando
o amor da sua vida a traiu. Pensou que
nada poderia ser pior que aquela dor e
decepção.
Ingenuidade sua. Aquilo foi só o
começo.

– Angela! O que aconteceu? –
Correu e abraçou os ombros trêmulos
da prima.
– O papai. Ele sabia que eu andava
conversando com Niko. Ficou furioso. –
Ela se encolheu e Callie puxou-a para
si.
– Ele proibiu você de ver Niko?
Angela assentiu.
– Continua. – O coração de Callie
estava pesado. Torcera para que não
chegassem àquele ponto. O tio deixara
escapar que Damon ainda não tinha
aceitado.
– Ele não escuta, não liga para nosso
amor. Diz que preciso salvar a família e
a empresa.

Callie apertou-a mais.
– Tentei argumentar com ele. – A
voz de Angela estava trêmula e Callie
ficou de coração apertado, sabendo
como era difícil para ela se opor ao pai.
– Eu disse que Damon não ia se
interessar por mim. Não sou elegante
como você. Ele ficou mais zangado
ainda. Disse que Damon queria ter
filhos com alguém obediente. De boa
família, para ter as relações certas.
Callie estremeceu diante dos
preconceitos do tio. Até parece que
Damon precisava casar para se garantir
na sociedade! Sua autoridade e sua
fortuna abriam todas as portas que ele
queria. O tio era um troglodita.

Mas numa coisa ele estava certo: os
homens ainda usavam sua fortuna para
possuir mulheres. O tio se aproveitara
da obsessão de Alkis por Callie para
encher os cofres na última má
administração. Fora suficientemente
ingênua para obedecer a ele, pelo bem
da família. Aos 18 anos, pensou que sua
vida estivesse acabada e não percebeu o
jugo que seria casar com um homem
tão cruel, controlador e inseguro
quanto Alkis.
– Papai disse que o homem escolhe
uma esposa para ter filhos e conforto.
Que Damon vai procurar outra...
outra...

– Shh. Está tudo bem. – Callie
enfureceu-se com a insensibilidade
dele, tratando-as como joguetes. Com o
homem impiedoso que entrou nas suas
tramoias diabólicas.
– Não está. Se eu não obedecer,
vamos perder tudo. A casa. Tudo. E
mamãe está muito mal, pior do que ele
imagina. Se precisar de tratamento...
Angela sentou, soltando-se de Callie.
Seu rosto molhado estava pálido e
decidido.
Callie deu um último abraço,
observando a prima com um mau
pressentimento. Os lábios tremiam, mas
havia resolução ali.
– Você não está sozinha. Vou ajudar.

– Mas o que você pode fazer? O que
alguma de nós pode?
Callie levantou-se e puxou-a pela
mão.
– Não desista. Vamos encontrar uma
solução.
Daria um jeito de salvar a prima a
qualquer preço.
Não permitiria que Angela sofresse o
que sofrera. Comeria o pão que o diabo
amassou para impedir.
Callie abriu um sorriso de
determinação.
Imploraria a Damon Savakis de
joelhos se fosse necessário.

– OBRIGADO, CALLIE. – Damon apanhou
a bebida, cobrindo os dedos dela de
propósito.
Ela deu um pulo e escorreu líquido
nas suas mãos.
Ela estava uma pilha de nervos,
percebeu ele, satisfeito. Sua pose de
intocável se esfacelara após dias
bancando a anfitriã. Poderiam ter
concluído o negócio em algumas horas,
mas Damon deixou que as discussões
com Manolis se arrastassem para ter
Callie ao seu dispor.
No início, pensou que ela fosse
correr.
Preparara-se
para
uma
perseguição. Entretanto, a caçada
tornou-se um cerco lento. A cada dia, a

chama nele crescia ao sentir as defesas
dela vacilarem.
Ela puxou a mão. Damon não a
soltou; levantou-se da cadeira com os
dedos ainda envolvendo os dela.
– Desculpe – murmurou ela,
desviando os olhos e depois voltando a
encará-lo. – Vou pegar um pano.
– Não precisa.
– Mas...
– Deixe comigo.
Ele levantou suas mãos entrelaçadas.
Havia um brilho dourado nos olhos
dela e, sob a blusa de gola alta, os seios
arfavam. Assim como a respiração dele.
Baixou a cabeça e lambeu o líquido
do polegar dela, o indicador, a carne

entre eles. Ela sentiu um arrepio. Por
pouco não largou o copo.
O gosto dela era doce, salgado e
feminino. A pele cheirava a verão. A
fome dele se tornou uma ânsia
desesperada. Percebeu seu erro tarde
demais. Tinha perdido o controle.
Estava tomado pelo desejo.
– Não. Por favor – sussurrou, tensa.
Subitamente, ele sentiu algo como
culpa – ou mesmo pena – e franziu o
cenho. O que aconteceu com a Callista
que conhecia – toda gelo e fogo? Ela
perdeu o autocontrole e ele vislumbrou
outra mulher.
Não era o que queria? Que se
rendesse e admitisse que o desejava?

Entretanto, ao ver seu perfil
desconfiado, as linhas de tensão perto
da boca e as olheiras, ficou em dúvida.
– Callie – murmurou, trazendo-a
para si.
– Callie, você pode me ajudar? Eu...
– disse Angela da varanda, e Damon
virou-se quando a caçula se aproximou.
Observou-os de olhos arregalados.
Atrasado, ele soltou Callista, que se
afastou na hora. – Desculpe, só queria
ver uma coisa.
– Oi, Angela. Não precisa se
desculpar. – Damon sorriu. Ele gostava
da garota, apesar da pompa do pai.
Lembrava sua irmã mais nova, tímida
com estranhos mas adorável.

Callie correu até Angela, afastando-a.
Conduziu a moça, braço erguido em
proteção.
Damon franziu o cenho. Já vira
aquele gesto. Custara a perceber, pois
não pensava direito na presença dela.
Agora juntava as peças. Lembrou-se
da frequência com que Callie aparecia
quando estava sozinho com Angela e
sentava entre os dois.
Por quê?
As duas conferenciavam sobre um
jantar. Talvez ciente do olhar dele,
Callie levantou a cabeça e seus olhos
brilharam. Pediu licença e empurrou
Angela para dentro.

Será que, com toda a sua arrogância,
Callie sentia ciúmes dele com a prima?
Ele virou e caminhou em volta da
piscina.
Ou estava certo no primeiro palpite?
Ela estava tentando proteger a prima? A
ideia o deixava perplexo.
Nunca faria mal a uma menina tão
doce. Devia ser virgem e muito
novinha. Ele não seduzia inocentes. A
vida era mais fácil com amantes que
entendiam que ele não queria
relacionamentos sérios.
Quando chegasse a hora de pensar
em casamento, ele...
Damon parou.

Era isso? Manolis queria que ele se
interessasse pela filha? Absurdo. Até
parece que precisava de ajuda para
escolher uma esposa! Até parece que
Angela seria adequada!
Então lembrou a expressão de Callie
ao levá-la para dentro. Acreditava
mesmo que ele tinha interesse em casar
com Angela?
De repente, tudo fez sentido.
Damon deu um sorriso de satisfação.
Ela era sua.
Conhecia o ponto fraco de Callie.
Bastaria pressionar um pouco.
– JUSTAMENTE QUEM eu queria ver. – A
voz de Damon era baixa e íntima. O

cabelo da nunca de Callie se arrepiou. –
Precisamos conversar.
Não importava se ele fazia pouco
caso dela. Ou se ameaçava a frágil
tranquilidade que construíra após a
morte de Alkis. Uma força mais forte
que a razão e o orgulho deixava-a nas
garras de Damon Savakis.
Quem diria que o desejo poderia ser
tão forte? Na sua inexperiência, parecia
muito mais – como se, no isolamento
da praia, houvesse se relacionado com o
único homem... certo.
Apertou os lábios. Sempre fora
ingênua. Devia ter parado de acreditar
em faz de conta havia muito tempo.

Virou-se devagar. Depois de uma
manhã no quarto da tia doente,
procurara a plataforma escondida no
jardim, na esperança de que a vista do
vilarejo e do mar a ajudasse a recuperar
a paz.
Ele vestia camisa branca e uma calça
preta de alfaiate, com uma jaqueta
sobre o ombro. Parecia sério, um
homem importante.
Ele passara horas com o tio. O que
decidiram?
– Parto logo, logo – disse,
aproximando-se.
Callie apertou a balaustrada com
mais força. Alívio, não decepção. Disse
a si mesma que queria que ele partisse.

– Espero que tenha aproveitado aqui.
– Virou-se, incapaz de encará-lo. Fitou
o porto distante.
– Sua família foi muito... acolhedora.
– A ênfase esquisita a alarmou.
Um barquinho cruzava rumo ao mar
aberto. Callie desejou estar nele,
navegando para longe de Damon. Seus
lábios se contorceram. A mera sugestão
de subir num barquinho deixava-a
agoniada. Não podia nem sonhar com a
fuga!
– Tão acolhedora que estou
pensando em estreitar relações.
Devia estar aliviada. Se o negócio
fosse favorável, talvez conseguisse a
herança. Entretanto, quando viu a

expressão satisfeita dele, algo lhe disse
que não seria tão simples.
– Com uma fusão?
Ele pendurou a jaqueta na
balaustrada e se apoiou. Parecia um
homem que tinha controle de tudo.
Ficou inquieta. O tio acolhera um
predador e acreditava tolamente que
sairia ganhando. Seu instinto lhe dizia
que ele subestimara muito Damon.
– Não necessariamente. – Ouvira um
tom de humor? – Queria algo mais
pessoal.
Os dedos de Callie se agarraram mais
à balaustrada.
– Sua prima é muito bonita. – A nota
de satisfação na voz a deixou

ressabiada.
Não estava falando sério! Ele não
precisava casar com uma Manolis para
se garantir na sociedade. Seria ridículo.
– Não entendi a relação – disse ela,
entre dentes.
– Não? Engraçado, achava você
esperta.
Ela lhe lançou um olhar rápido de
surpresa.
– Angela dará uma ótima esposa.
Tem tudo que o homem procura numa
companheira estável.
– Timidez, insegurança, obediência?
– Não conseguiu esconder o sarcasmo.
Sabia o que os homens queriam.
Alguém para acariciar seu ego e fazer

suas vontades. Não olhavam a mulher
além da superfície. Reconhecer suas
necessidades, então...
– Só uma mulher bonita para falar
tão mau de outra.
– Não foi o que quis dizer! Eu...
– Me surpreende que você não
conheça sua prima. Eu ia dizer que ela é
inteligente, carinhosa e generosa. E
bonita, do seu jeito discreto.
– É muito nova para você – despejou.
– Muito mesmo. – Confrontou-o. O
impacto do olhar dele a deixou sem ar.
Ele ergueu a sobrancelha.
– Você não está falando sério –
sibilou ela.

– Por quê? Chega uma idade em que
o homem quer ter uma mulher à sua
espera em casa.
– Você não deve ter dificuldade para
achar mulheres dispostas.
O sorriso preguiçoso dele a fez rilhar
os dentes.
– Verdade. Mas não falo de sexo sem
compromisso, e sim da mãe dos meus
filhos. O homem quer passar o
sobrenome, os genes, a fortuna adiante.
Callie estava acostumada com essa
visão desde que fora para a Grécia. Mas
aquela mentalidade de casar só por ser
hora de tomar jeito a enojava.
– Você quer uma égua.

– Mais que isso. – Ele parecia se
divertir. – Também precisa ser minha
anfitriã.
– Por que me contar?
– Você é inteligente. Conhece sua
prima. Sua opinião me interessa.
Ela observou-o de cenho franzido.
Havia uma pegadinha ali.
– Não daria certo. Não vai querer.
Ama outro.
Nenhum homem com um mínimo
de orgulho suportaria imaginar a
mulher caída por outro. O ciúme
doentio de Alkis não nascera da crença
de que ela procuraria a paixão que ele
não podia oferecer nos braços de um

amante? Ele transformou sua vida
conjugal num inferno, numa prisão.
Damon apenas sorriu, como um lobo
faminto.
– Dezoito anos. Claro que acha que
está apaixonada. Vai esquecê-lo.
Qualquer
marido
digno
iria
providenciar isso. – Ele se ergueu e
mudou de
posição. Callie
se
impressionou novamente com a
masculinidade do seu porte. Eis um
homem que poderia fazer a cabeça de
uma adolescente volúvel.
– Você não entendeu. – Callie virouse e começou a andar, inquieta. – É
amor de verdade.
– Na idade dela? Isso passa.

Callie abriu a boca para discutir, mas
desistiu. Aos 18 anos, estava caidinha
por Petro, um estudante de direito mais
velho. Achava que era uma grande
paixão, para a vida inteira.
Ela era o patinho feio que sempre se
sentiu deslocada na Grécia e na família
nova, e ainda não tinha superado a
morte dos pais. Passou quatro anos
tentando se adaptar num lugar onde
tudo lhe era estranho. Entrou raspando
na universidade e ficou agradecida
quando um estudante lindo a achou
atraente.
Como fora fácil seduzi-la, uma
virgem novinha desajeitada. Sonhava
com um final feliz nos braços dele. Até

que o tio interveio, Zeus descendo do
Olimpo. Ficou furioso por ter que pagar
tanto para se livrar de um aproveitador.
Petro deixou-a sem pestanejar.
Depois que conseguiu o dinheiro,
voltou para a ex.
E assim terminaram suas juras de
amor eterno.
Callie ficou de coração partido. Uma
presa fácil para a tramoia do tio com
Alkis.
– Callie?
Ela voltou a si. Percebeu que tinha
envolvido o próprio torso com os
braços. Soltou-o devagar e endireitouse, olhando para perto da clavícula dele.

– Angela merece casar com quem
ama.
– Então você acredita em amor
romântico?
Ela deu de ombros, tentando parecer
despreocupada. Sentia-se frágil. Como
se a máscara de controle pudesse se
esfacelar.
– Para alguns. Para Angela. – Não
para si. Já desistira desse conto.
Ele descartou seu argumento com
um gesto.
– Não vejo problema. Especialmente
com o apoio do seu tio. Podemos
convencê-la.
Callie gelou. Conhecia muito bem as
táticas do tio. A mistura de ameaças e

chantagem emocional.
Quando tinha a idade de Angela,
sucumbiu e aceitou casar com o homem
mais velho e educado que a cortejara
com tanto charme. Só muito tarde foi
descobrir seu verdadeiro temperamento
– cruel e instável.
A lembrança lhe deu forças.
– Não! Você não pode. – As palavras
se atropelaram e ela se aproximou dele
involuntariamente, de mão estendida.
– Não, Callie? Você não está em
posição de mandar em mim. – Damon
parecia enorme, olhos brilhando de
desafio.
Foi invadida por medo e baixou a
mão. Como iria vencê-lo? Que armas

tinha?
– Casamento é para sempre. –
Damon provavelmente veria um
casamento fracassado como um fracasso
pessoal. – Está preparado para se
dedicar a uma única mulher?
– Por quê? – O calor no seu olhar a
fez enrubescer. – Mudou de ideia sobre
nosso caso? – Ele se aproximou,
obrigando-a a recuar até encostar na
balaustrada.
– Não! Eu só...
– Você não quer ver a priminha se
dar bem. – Ele deu um sorriso de
desprezo que lhe cortou o coração.
Nunca superaria seu preconceito com
ela. – Você não gosta de ficar em

segundo plano. Aposto como Angela
passou anos à sua sombra.
– Não é verdade! – Callie nunca quis
ser o centro das atenções. Alkis gostava
de exibi-la e a lançou num meio em
que aprendeu a sobreviver a duras
penas, apesar do falatório. Angela era
como ela naquela idade: quieta e
vulnerável. – Angela não é uma rival,
ela...
O gesto insolente dele a calou.
– Não interessa. – Ele parou,
encarando-a. – Mas...
– Mas? – Apertou a balaustrada e se
empertigou. Mudara de ideia? A
esperança renasceu.

– Uma coisa pode me fazer mudar de
ideia – disse devagar, passando a mão
no queixo.
– O quê? – Deu um passinho à frente
e estancou, perto demais do seu
corpanzil. Sentiu o calor dele atravessála, lembrando-se de intimidades que
tentava esquecer.
Damon segurou o queixo dela. O
corpo de Callie reagiu com uma nota de
excitação que deixou cada nervo em
estado de alerta. Lentamente, deslizou
o polegar pela boca dela, percorrendo o
lábio inferior e separando-o do outro.
Ela lutou para manter os olhos
abertos no pico de desejo. Cerrou os

punhos e prendeu a respiração até ficar
zonza.
Tudo isso com uma carícia!
Ela devia fugir. Mas estava
estagnada, a vontade de resistir
soterrada por uma onda de recordação
dos prazeres.
– Venha me ver essa noite, Callie. Só
uma noite, e desisto do casamento. – A
sensualidade da voz a hipnotizou. Teve
dificuldade de entender o que dizia.
Os olhos dele ardiam quando ela o
encarou. Ele não traiu nenhuma
emoção. Só havia aquela sensualidade
devoradora que a atraía.
Estarrecida, sentiu sua resistência
vacilar, o corpo deslizar para junto dele,

impulsionado por um desejo irrefreável.
Então seu cérebro voltou a funcionar.
As palavras dele atravessaram seus
pensamentos nebulosos. Tirou o queixo
da mão dele e afastou-se com cuidado.
– E se eu recusar?
Ele parou de sorrir. Os olhos se
estreitaram de raiva.
– O que você acha?
– Que você é inacreditável, Damon
Savakis. – Callie envolveu-se com os
braços, como que para aliviar a dor
crescente. Por um segundo, tivera
esperanças de que Damon sentisse a
mágica que imaginou haver entre eles.
A realidade daquela proposta ultrajante
era muito cruel. – Esse jogo é nojento.

– Não é um jogo. É um acordo.
– Acha que pode me comprar?
Ele balançou a cabeça.
– Não banque a inocente. Não
combina. – Lançou um olhar
calcinante. – Esqueceu que já foi
comprada em casamento?
Aquela verdade horrorosa foi um
soco no estômago.
Era diferente, quis gritar. Pensei que a
minha vida estivesse acabada. Estava
magoada e vulnerável e achava que ia
salvar a família. Se soubesse o erro que
estava cometendo...
– Mas você quer que eu... me
entregue para o seu prazer.

Damon cruzou os braços. O
movimento acentuou os músculos e o
ar de segurança.
– Sem drama. Não pedi nada que
você já não tenha feito e gostado. – Ele
deu um sorriso que fez o sangue dela
ferver.
– Não é isso! – Estava tão indignada
que tinha vontade de socar aquele nariz
arrogante.
O que a deixava com mais raiva era
que ele tinha razão. Aproveitara cada
instante da sua intimidade.
– O que foi, então? Você não quer
que eu case com Angela. Pois posso
aceitar. Quero ficar com você, mas só
por uma noite. Só isso.

Nunca
a
considerara
uma
pretendente. Queria alguém pura e
ingênua para essa função.
Callie abriu um sorriso amargo. Pelo
menos escapara disto: outro pedido de
casamento de um ricaço arrogante.
– Qual é a graça?
– Só alívio por você não ter oferecido
nada permanente.
Ele arregalou os olhos e balançou a
cabeça.
– Pode deixar. Uma noite basta.
– Graças – sussurrou. Estava de
orgulho ferido. Mas, apesar da raiva,
sua carne se aqueceu quando o olhar
dele a percorreu, avaliador. Como se a
recordasse nua.

Era assim que escravos se sentiam
nos mercados antigos, inspecionados
pelos compradores. O brilho nos olhos
dele deixou Callie exposta. Entretanto,
parte dela celebrava o desejo dele.
– Você está blefando.
– Não perco tempo com blefe. – Fez
uma pausa, como que para testá-la. –
Será minha última noite aqui. É a data
limite. Seja minha amante e o negócio
vai passar sem casamento. Vai até ser
vantajoso para vocês.
Observou-a com os olhos brilhando.
– Estarei esperando.
– Vai esperar sentado.
Os lábios sensuais abriram um sorriso
que não afastou o temor dela.

– Nesse caso, vejo você dançar no
meu casamento.

CAPÍTULO 5

DAMON ATRAVESSOU a sala do bangalô
opulento, virou-se e fez o caminho
inverso.
Onze horas.
Ela não vinha.
Ele tivera tanta certeza! Achava que
se livraria da voragem que atrapalhava
seu trabalho e não o deixava dormir.
Passou a mão pelo cabelo, cada vez
mais frustrado.

Não estava habituado a perder. Não
lembrava quando fora a última vez que
se saíra mal em algo importante. E, por
algum motivo misterioso, aquilo era
importante.
Nenhuma mulher mexia com ele
como Callista Manolis.
Ela devia aproveitar a chance de ir
para a cama com ele, de olho nos
brinquedos caros que poderia dar.
Mas não era a dela. Já casara por
interesse uma vez. Sem dúvida visava
outra posição estável. Seus favores
custavam caro.
Menos quando buscava alguma
distraçãozinha com alguém que não
julgava importante, que poderia

descartar depois. Como aquela vez na
praia. Fora tão desinibida que ele
entregou-se a uma paixão que superava
qualquer relação recente.
Ele parou, frustrado. No jantar, usara
um vestido enlouquecedor, que
indicava tesouros femininos mal
escondidos. Tomou isso como um sinal
de capitulação.
Mas a megera brincava com ele.
Abriu a porta de vidro para respirar
ar fresco. Saiu para a varanda.
Estancou.
Ela estava lá.
Foi tomado de um alívio tão forte
que se segurou na porta. Surpreendeuse com a intensidade da sua reação.

O coração acelerou ao vê-la chegar,
segurando a barra do vestido.
Havia um fogo cintilante nos seios e
no pulso. Usava diamantes novamente.
Mas não foram as joias que prenderam
sua atenção. Toda vez que ela passava
perto da luz, o vestido ficava
translúcido, indicando sua forma
sedutora.
O vestido parecia da Grécia antiga.
Fitas douradas cruzavam a cintura,
delineando curvas sensuais. O decote
era tão profundo que não podia usar
sutiã. O farfalhar da seda sugeria, assim
esperava, a ausência de lingerie.
Damon se conteve para não estender
as mãos.

Deixe-a vir.
– Você resolveu aceitar. – Manteve a
voz firme, para não trair prazer. Mulher
nenhuma o encontraria vulnerável.
– A proposta foi tentadora. – As
palavras roucas deixavam-no mais
tenso. Porém, mesmo na escuridão, o
sorriso
de
escárnio
dela
era
inconfundível.
Ainda fingia contrariedade. Não
desistiria nunca?
Ela chegou à varanda e parou, queixo
levantado, expressão glacial. Entretanto,
a máscara de desdém não escondia
tudo. Os seios arfavam, fazendo os
diamantes do decote cintilar.

Não era a dama de gelo que fingia
ser. Logo se derreteria por ele.
– O que é isso? – Indicou o vestido. –
Seus trajes de virgem oferecida em
sacrifício?
Ela abriu um sorrisinho que não se
estendeu aos olhos.
– Não, você deixou claro que não
queria uma inocente. Deve ter sido por
isso que agradei – porque tenho tanta
experiência.
CALLIE PRENDEU a respiração, surpresa
com a sua audácia. Não sabia se devia
ficar horrorizada ou satisfeita por ainda
ter forças para trocar insultos com
Damon Savakis. Parte dela desprezava o

que ia fazer. O impulso de fugir a
manteve preparada para correr.
Aquele arranjo odioso causava-lhe
náuseas. Era tão inexperiente que podia
contar nos dedos quantas vezes dormira
com alguém.
Ela, um brinquedinho de bilionário
por uma noite!
Mas não tinha escolha. Não podia
abandonar a prima. Nenhuma mulher
merecia passar a vida presa num
casamento arranjado. Não quando todo
o poder ficava com um marido mais
velho, poderoso, que não via a esposa
como uma pessoa de verdade, com
sentimentos.
O pensamento a acalmou.

– Você está maravilhosa – murmurou
ele. – Você sabe se vestir para agradar
aos homens.
Callie encheu-se de rancor. Fora
Alkis quem escolhera aquela roupa,
bem como todos os seus vestidos de
gala. Ele selecionava trajes caros que
revelavam sua fortuna e o corpo dela.
Embora impotente, o marido gostava de
fazê-la se exibir, apesar dos seus
protestos – ou por causa deles. Sentia
um prazer perverso em obrigá-la a
desfilar seminua diante dos outros.
Como se o desejo irrealizável deles
compensasse sua incapacidade de
consumar o casamento.

Deleitava-se vendo-os despi-la com
os olhos – o que não o impedia de
descontar nela quando estavam
sozinhos.
Ela sabia se vestir para agradar aos
homens. Por isso, sentia-se suja com
aquele vestido.
– Imaginei que fosse gostar. – Ele só
se interessava pelo seu corpo,
igualzinho aos outros.
– Me conta – sussurrou numa voz
aveludada –, você tem alguma coisa por
baixo?
O sorriso de Callie congelou. Ela
sentiu um arrepio de trepidação.
O medo ameaçava denunciar sua
indiferença fingida. Pois não era como

antes, quando se uniram numa onda de
desejo mútuo. Havia um toque de
perigo na situação. Ele parecia tão...
voraz, como se quisesse engoli-la. Não
havia gentileza no rosto.
Ela sentiu pânico.
– Você preferiria se não tivesse? –
Discretamente, o pé deslizou para trás,
até que percebeu o que estava fazendo
e se obrigou a parar.
Estava decidida. Se não satisfizesse
Damon, seria um desastre. Era o jeito
de a família manter a casa e Angela
casar com Niko.
O porém era que Callie seria
destituída da sua dignidade, e

privacidade. Evitava pensar nisso a todo
custo.
Mas, depois de tudo por que passara,
sobreviveria. Uma noite. Uma longa
noite. Depois, liberdade.
– Gosto de imaginá-la nua sob o
brilho e a alta costura. – Ele deu de
ombros. – Mas não importa. Tenho
certeza de que conseguirá me satisfazer.
A garganta de Callie apertou-se de
horror. Por quanto tempo conseguiria
fingir indiferença? Já estava dividida
entre o desejo de se esconder e a
necessidade de fazê-lo demonstrar
aquela ternura que destruíra todas as
suas defesas.
Não! Não podia pensar assim.

Damon não era carinhoso. Ele estava
alerta, faminto. Sua postura era de
caçador.
– Não me convida para entrar? – Ele
passou tanto tempo quieto que os
nervos dela estavam à flor da pele.
– Claro. – Ele gesticulou para que
fosse na frente. – Bem-vinda.
Callie estremeceu diante do seu
sorriso predatório. Seus passos eram
relutantes, mas se forçou a prosseguir.
Se não fizesse aquilo, iria se
arrepender pelo resto da vida. Ela
salvaria Angela. Como desejava ter sido
salva.
Essa certeza lhe deu forças para
passar por ele de cabeça erguida.

Vacilou ao sentir o cheiro dele, cálido e
inebriante, e um arremedo de desejo
tomou vida. Mas a ansiedade o
extinguiu quando adentrou o cômodo
escuro.
Sentiu um movimento atrás de si e
deu mais alguns passos.
O barulho da porta se fechando
arrepiou seu cabelo. Para sua
imaginação febril, parecia o baque de
uma porta de cadeia. Lambeu os lábios
secos e depois arrependeu-se, pois
Damon parou ao lado dela, olhos fitos
na sua boca.
– Bebe alguma coisa?
– Não, obrigada. – Só prolongaria a
agonia da espera. Melhor acabar logo

com aquilo antes que saísse correndo.
Ele parou diante dela, sobrancelha
erguida.
– Não? Tão ávida, Callie. Gosto
disso. Muito. – Ele ergueu o queixo
dela para que encarasse seus olhos
ardentes. Aquele contato evocou
memórias de prazeres que quase
esquecera em sua irritação.
Talvez... talvez não fosse tão difícil
quanto pensara. Se ele a pegasse nos
braços e beijasse com a mesma paixão
da outra vez, poderia esquecer que
estava se vendendo. Que não tinha
escolha.
Mas, enquanto ela esperava a
próxima carícia, as mãos dele tombaram

e Damon recuou.
E agora? Por que ele parou?
– Você quer que facilite para você,
hein, Callie? – As palavras pairaram no
silêncio.
Quero, quase gritou, nervosa. Por
favor, só...
– Mas, por causa do seu gelo, acho
que você deve tomar a iniciativa.
A boca de Callie caiu, mas logo se
fechou, e um ímpeto de emoção deulhe forças.
– Você quer o seu naco de carne, é
isso? – disse, entre dentes.
Os lábios dele se contorceram.
– Digamos que sim, glikia mou. –
Sorriu, a boca bem delineada,

deixando-a com vontade de quebrar
algo. A cara dele, de preferência.
– Qual era sua ideia? – Ela já estava
com medo da resposta.
– Você agora é minha amante. Com
certeza vai pensar em algo. Que tal me
seduzir?
Seduzi-lo! Nem sabia por onde
começar. Não pensaram muito quando
fizeram amor. Fora tão natural, tão
apropriado, que ela não recordava uma
decisão consciente.
Hesitante, ergueu a mão, juntando
coragem para tocar o rosto dele. Mas
demorou demais. Ele se afastou e
mergulhou num sofá. Desenvolto,

apoiou os braços no encosto e estirou as
pernas.
– Pode ir – pediu, como se esperasse
uma performance!
Ele queria um strip? A fúria aqueceu
seu corpo gelado.
Seu esnobismo lembrava Alkis. O
ódio agarrou o peito dela e fechou-lhe a
garganta. Mas isso ajudou. Suas mãos
estavam firmes quando soltaram as
fivelas do cabelo.
O cabelo dela cascateou, escondendo
os ombros e seios.
– E os diamantes. – A expressão dele
era impenetrável, mas a voz saiu
trêmula. – Não quero que use
diamantes de outro comigo.

Essa exigência reforçou o desprezo
dela. Ele achava que podia controlá-la
porque possuía seu corpo. Ela atirou a
pulseira na mesa de centro. Depois, os
brincos. Callie levou as mãos ao fecho
do colar e encontrou o olhar de Damon
quando ele examinou seu rosto e seus
seios.
Um choque de sensações afastou sua
fúria. Um choque quase que de
excitação.
Despejou o colar sobre a mesa e
percebeu que estava arfando, como se
houvesse corrido. Tirou as sandálias e
seus pés afundaram no tapete.
Ele continuou calado, observando-a
com olhos ardentes.

Não podia desistir agora. Era
comprometida. Queixo erguido, coluna
reta, caminhou até ele. Ele se limitou a
inclinar a cabeça para observá-la
melhor.
Era mesmo um idiota manipulador.
Gostava daquele jogo de poder. Ela
notava, embora o rosto dele continuasse
impassível.
Essa conclusão lhe deu forças para
ajoelhar-se ao lado dele no sofá.
Alinhou a perna à coxa dele, tão sólida.
Sem pensar, pôs a mão no maxilar dele.
A pele era quente e lisa. Tão lisa que ele
parecia ter acabado de se barbear.
Estava tão certo de que ela viria?
Claro que tinha. Ele dava as cartas.

A raiva a impulsionou. Ela se
inclinou e beijou sua boca. Ele nem
reagiu. Os lábios dele eram quentes e
nada cooperativos. Tentou novamente,
com mais força, passando a língua pela
superfície. Ele não abriu a boca.
Callie segurou o rosto dele e o
acariciou devagar. Beijou o canto da
boca, até a orelha, roçando os dentes na
carne que provara na semana anterior.
Um
estremecimento
de
prazer
atravessou-a, arrepiando sua pele.
Aspirou o odor de Damon enquanto
passava o nariz pelo seu pescoço e
sentiu uma onda de tontura.
Ela se aproximou, pressionando o
corpo contra o seu calor. As mãos dela

escorregaram para a gola e abriram os
primeiros botões. Sentiu o cabelo
enrolado e a pele suada ao alisar o
peitoral dele.
Um dardo de puro desejo
atravessou-a, atingindo o meio das
coxas, trazendo lembranças de prazer
carnal.
Ela o beijou de novo, encorajando-o,
implorando em silêncio para que a
deixasse entrar. O desafio já não
importava. Ela sentia desejo diante do
toque, gosto, cheiro de Damon. Era
como se... voltasse para casa.
Apesar da sua ansiedade, da raiva, da
decepção, havia uma verdade naquilo,
na relação dos dois, mais poderosa que

a lógica e o orgulho. Essa percepção a
arrebatou, baixando suas defesas.
Seus dedos trêmulos desabotoaram o
resto da camisa, expondo o torso. Callie
suspirou de prazer quando seus seios,
cobertos apenas pela seda fina, roçaram
o peitoral dele. Ela ardia do poder bruto
da libido.
Ela lambeu seu pescoço e cobriu-o de
beijos. O gosto era tão bom quanto
lembrava.
Instintivamente, lambeu um mamilo
firme, depois o mordiscou. Ele
arrepiou-se, e as mãos desbravadoras
dela
acariciaram
os
contornos
poderosos do seu peito. O coração dele
batia mais rápido? Sentiu ao abraçá-lo.

Ele era tão grande, tão escultural,
que o pulso dela acelerou, consciente
do poder masculino reprimido.
Lembrou que ele usara aquele poder
maravilhosamente bem, para fazê-la
reviver em seus braços.
O fogo dançava nas veias dela,
deixando cada nervo sensível.
Callie ergueu-se, mordiscando seu
queixo, beijando-lhe a boca com uma
urgência que beirava o descontrole.
Alisou o cabelo grosso, segurando-o
enquanto
provocava,
seduzia
e
implorava para que ele reagisse. Era seu
maior desejo.
Deixou-se cair no peitoral, seios
roçando nele. Saiu faísca de puro desejo

do contato. O calor aumentou,
impulsionando-a.
Apressada, escorregou a mão até o
cinto; tentou desabotoá-lo.
A boca dele mexeu-se embaixo da
dela. Mas ele não devolveu o beijo.
– Finalmente – disse ele. Callie
agachou-se quando aquele tom
penetrou a névoa do seu cérebro. Era
prisioneira dos olhos dele.
– Pensei que tivesse esquecido que
quem você tem que satisfazer sou eu.
Não você. Vai ter que melhorar, senão
posso mudar de ideia. Talvez fosse
melhor casar com a sua priminha.
Foi uma ducha de água fria, que a
tirou do seu torpor.

Callie estremeceu ao perceber o que
houve. Em pouco tempo, esquecera por
que estava ali: a exigência grotesca, seu
papel subserviente, a degradação de se
entregar feito uma mercadoria. Era
inacreditável que tudo isso tivesse sido
apagado por uma força aterradora.
Sucumbira a uma ânsia primeva,
inexplicável: a ânsia por ele. Ela arrasava
com tudo, até com seu orgulho. Tudo o
que restava era uma compulsão tão
forte que pulsava no seu sangue.
Ela perdera completamente o
controle, enquanto ele...
Vergonha, mágoa e raiva formaram
um nó de tristeza no seu peito.

Como fora acontecer? Após anos de
infelicidade, de desesperos ocasionais,
apenas seu autocontrole a manteve
forte. Fora assim que sobrevivera.
Ele afastou as mãos dela e tirou o
cinto. Callie ouviu um barulho de zíper,
depois ele estendeu os braços no
encosto do sofá, a personificação da
impaciência insolente. Respirou fundo,
hipnotizada pelo seu olhar arrogante.
Na escuridão, sua expressão era
familiar. A boca dura, os olhos frios.
Lembrava Alkis quando a reprimia
pelos seus fracassos, por não o satisfazer
com algo, ou a acusava de infidelidade.
Escapara de um manipulador e caíra
nas garras de outro.

O desejo quente transformara-se
num terror gélido.
O que ela estava fazendo?
Inacreditável: desejara se entregar
àquele homem! E, nesse tempo todo,
ele só sentiu impaciência diante das
suas carícias inexperientes.
Algo revirou-se dentro dela. Se
fizesse aquilo, perderia o pouco que
restava do seu suado amor-próprio.
Tudo que salvara dos últimos seis anos.
Num ímpeto de energia, levantou-se,
trêmula.
– E então? – Ele ergueu a
sobrancelha. – Estou esperando.
Ela abriu a boca. Nada saiu. Lambeu
os lábios secos, ignorando a fagulha de

interesse no olhar dele. Damon estava
com as roupas abertas, os braços
esparramados. Era a imagem do
hedonista arrogante esperando seu
prazer.
A ideia quase a fez engasgar.
Callie deu um passo para trás, e mais
outro.
– Que foi? – O tédio desapareceu da
voz dele. O tom ficou mais severo.
Foi tomada pelo medo de não
conseguir dominar o desejo intenso.
Mesmo arrogante e impaciente, Damon
Savakis tinha um poder que a fazia
tremer
de
fraqueza.
Isso
a
envergonhava.

Virou-se e abriu a porta. Segurou o
vestido e correu, temendo que, a
qualquer instante, ele a puxasse.
O cascalho feria seus pés descalços, o
cabelo esvoaçava e um soluço se soltou.
Ela tropeçou, mas continuou correndo,
arquejante.
Acabara de se livrar da degradação
de um casamento sem amor com um
homem gélido. Não podia se entregar a
outro.
Era pedir demais.
DAMON ENCAROU incrédulo a figura
branca que subia a colina.
Levantou-se, xingando sua falta de
coordenação. Seria impossível alcançá-

la. Seu corpo estava num estado de
excitação tão potente que qualquer
movimento doía.
Respirar doía.
Tudo culpa da sua língua ácida. Da
sua necessidade de se impor.
Impor-se! A boca dele se contorceu,
desdenhoso.
Deixara-se influenciar por ela. Só a
resolução de fazê-la pagar por sua
condescendência, pela frustração que
ele sofrera, lhe dava forças para resistir
à sua boca e ao seu corpo.
Seu orgulho exigia que ele
permanecesse frio.
Apertara tanto o sofá no seu esforço
de não cooperar que os dedos estavam

dormentes. Devia ter estragado o
estofamento. Ela o deixara num estado
de imobilidade, músculos congelados
de surpresa.
Damon chegara ao ápice. Estava
prestes a mergulhar na sua boca,
quando ela mexeu no cinto e ele foi
tomado de alívio. Ainda bem que não
tocara mais embaixo, senão ele poderia
ter passado vergonha. Não se excitava
tanto desde a adolescência.
Isso lhe dera forças para encará-la e
mentir descaradamente sobre seus
sentimentos.
Nunca se rendera a mulher
nenhuma. A consciência de que ela

conseguira virar a mesa com beijos e
carícias no seu abdome o apavorava.
Ele explodiu tentando reverter o
desequilíbrio de forças. Deu no que
deu!
Chamando-se de idiota, fechou a
calça e manquejou até a porta. O
caminho estava vazio.
Pela primeira vez em séculos, Damon
errara a mão.
NO DIA seguinte, Callie só apareceu
tarde. Após uma noite em claro, passou
horas tentando disfarçar a palidez e as
olheiras.
Será que Damon foi para Atenas? Ou
mudou de ideia e anunciou seu

casamento com Angela?
Callie mordeu o lábio e parou no
meio da escada. Sentiu um aperto no
peito. Não salvara Angela. A culpa
queimava na sua barriga.
Apesar da
determinação,
do
autocontrole, deixara que Damon a
amedrontasse. O preço que pagaria
quase já não importava mais. Era
suficientemente vingativo para arrancar
cada centavo da família, e ela nunca
veria o dinheiro que o tio roubou.
Mas aquilo era só dinheiro. Daria
outro jeito de realizar seu sonho, nem
que
demorasse
anos.
Seria
independente e esqueceria a imagem de
Alkis chamando-a de inútil. Ele

diminuíra sua inteligência e quase
conseguira derrotá-la. Mas provaria que
estava errado. Provaria a si mesma o
seu valor.
Imaginar
Angela
presa
num
casamento que destruiria sua felicidade,
sua alma, deixava-a arrasada. Sem falar
na tia doente, que perderia a casa se o
acordo não vingasse.
A bomba viera pela manhã,
enquanto cuidava da tia Desma. Saiu o
resultado dos exames. A tia suportou
bem, mas o prognóstico era sério.
Precisava de repouso e tratamento. Não
podia ser arrancada de casa. Não daria
conta do humor explosivo do marido se
ele perdesse tudo.

Era um pesadelo.
Foi engolida pela culpa. Pudera
salvar todos, de aplacar o homem que
tinha seu futuro nas mãos.
E fracassara.
– Callista! – disse o tio, do vestíbulo.
– Finalmente. Corre aqui. – Ela espiou
pela balaustrada e viu-o voltar ao
escritório.
Relutante, desceu. Será que o
casamento de Angela já estava
acertado? Ou Callie arruinara o acordo?
Se Damon fosse tão temperamental
quanto imaginava, acabaria com a
fusão?
Não. Para Damon, negócios em
primeiro lugar. Não deixaria uma

mulher atrapalhar seu lucro.
Ela apareceu à porta; o tio virou-se.
O cenho dele estava franzido, mas o
sorriso exagerado encheu-a de repulsa.
Então Damon anunciara sua
intenção de casar. O estômago de Callie
revirou tanto que ela se segurou na
porta.
– Entre. Finalmente apareceu.
Estávamos te esperando.
– Me esperando? – Passou pela
soleira e estancou ao ver quem estava
com ele, reclinado numa cadeira.
Damon Savakis, em carne e osso, com
uma expressão impenetrável.
– Claro. – Aristides estava pouco à
vontade. – Já resolvemos a parte dos

negócios. Mas há questões pessoais
pendentes.
– Pessoais? – Com certeza era o
casamento. Callie olhou para os lados
procurando a prima. Só havia os dois.
Damon abriu um sorriso lento. Algo
quente e possessivo brilhou nos seus
olhos.
A porta se fechou atrás dela com um
clique que lembrava o estrondo de uma
porta de prisão.

CAPÍTULO 6

DAMON OBSERVOU a rigidez de Callie.
Parecia apreensiva.
Uma
grande
atuação,
quase
convencia.
Como se não soubesse que o tio
passou a última hora o interrogando
sobre suas intenções, tentando induzilo a “fazer o certo” com a mulher que
comprometera.

Damon sentiu nojo ao pensar
naquele golpe.
Arrependera-se genuinamente de
seu comportamento na véspera. Não
havia desculpa para aquilo, nem mesmo
a confusão que Callie provocara dentro
dele.
Depois de passar a vida protegendo
as mulheres da família, percebia que o
seu comportamento fora repugnante.
Não conseguiu dormir pensando na sua
arrogância, burrice, no seu ego. Fazer
aquilo...
Chegara cedo. Precisava vê-la.
Foi quando descobriu a armação.
Manolis e a sobrinha pegaram-no.
Novamente.

Manolis
bancara
o
anfitrião
decepcionado e responsável severo.
Vira Callie chegar em casa tarde.
Segundo ele, ela estava fora de si e sem
joias nem sapatos.
Prejudicar-se com seus próprios atos
era novidade para Damon.
Um resquício de
consciência
lembrava-o de que agira de forma
repreensível. As regras da sociedade,
suas obrigações enquanto hóspede, seu
senso de honra, tudo o condenava.
Mas Callie não era inocente. Manolis
revelara tudo: empurrara a filha para
Damon na esperança de garantir sua
segurança
financeira
com
um
casamento. E, como plano B, uma

pequena chantagem. A partir do
momento em que Callie fugiu aos
prantos, era tudo armado. Bancou a
vítima indefesa.
Damon enfureceu-se. Nunca fora tão
ingênuo. Devia ter tomado mais
cuidado ao tratar com uma raposa feito
Manolis.
Deixara o desejo atrapalhar seu juízo.
Nisso, aquela arapuca funcionou.
Seu orgulho pedia revanche.
Damon interrompeu a tagarelice de
Manolis sobre resolver a situação. Ele
resolveria. Do seu jeito.
– Vou falar com sua sobrinha em
particular.

Manolis tentou protestar, mas
Damon cortou-o.
– É tarde para segurar vela. – Damon
encarou os olhos penetrantes dela e se
perguntou se já fora inocente. Era uma
perfeita femme fatale. – Sua sobrinha é
uma viúva, não uma adolescente
ingênua.
CALLIE FECHOU a porta depois que o tio
saiu. Tentou se concentrar. Entre as
palavras dele e o olhar gélido de
Damon, sentiu-se tonta e encurralada.
– Que joguinho é esse? – Voltou-se
para Damon.
Ele ergueu a sobrancelha indolente e
ela cerrou os punhos. Queria

estraçalhar
aquela
cara
de
superioridade.
– Joguinho? Você está me acusando
de fazer joguinhos? – Ele nunca
parecera tão distante, mas Callie sabia o
que tinha ouvido.
– Que história é essa de casamento?
Não podia ser sério. Ela sentiu um
calafrio só de pensar.
Seu
estômago
revirou-se
de
nervosismo. Perdera toda a frieza.
Afastou-se da porta e caminhou de um
lado para outro, incapaz de conter suas
emoções.
– O que houve, Callie? Mudou de
ideia? Está se sentindo enganada por
não ter ajoelhado?

Não conseguia imaginar Damon de
joelhos. Mas a ideia de vê-lo a seus pés
a excitava e perturbava. Abruptamente,
foi até a janela.
– Quero saber o que você está
fazendo!
– Segundo seu tio, transformando
você numa mulher honesta em nome
da honra e do dever. – O rosto dele era
impassível, as palavras, duras.
– Mas você queria casar com Angela.
– Queria. – Manteve a expressão
inabalável.
Frustrada, cerrou os punhos.
– Você não queria casar comigo!
Você mesmo falou.

Cruzou as pernas, estudando-a
enquanto ela caminhava pelo cômodo.
Ficou quieto.
– Não sou...
– Virgem? – Ele sorriu e,
imediatamente, sentiu uma chama em
suas veias. – Não é mais obrigatório.
Além
disso,
sei
que
temos
compatibilidade sexual.
– Casamento não é só sexo! – Deu as
costas para ele.
– Ah, opinião de especialista. Foi isso
que fez seu casamento durar? Sexo?
Callie virou-se novamente, cabelo
cascateando pelos ombros.
– Meu casamento é assunto meu –
disparou, despertando recordações

amargas. Era como se ele conhecesse
todas as suas fraquezas. A cada desafio,
cada alfinetada, deixava-a vulnerável.
– Você nem gosta de mim –
sussurrou ela, observando o horizonte.
Sentiu-se sufocada.
Casamento! Com outro homem
controlador! Nem morta.
O barulho de palmas irônicas a fez se
voltar. Damon se endireitou e abriu um
sorriso escarnecedor.
– Parabéns. Se um dia você resolver
trabalhar, será uma grande atriz. O
nervosismo e a confusão estavam no
ponto.
– Como é? – Sentia-se caminhando
sobre areia movediça.

– Sua relutância está meio exagerada.
Sei que vocês tramaram isso para pegar
um homem rico capaz de recuperar a
fortuna da família. Mas me recuso a
cair nessa tramoia.
Callie franziu o cenho.
– Não tem tramoia nenhuma.
– Então, coincidentemente, ele estava
no lugar certo e na hora certa ontem?
Não me faça de bobo.
Ela balançou a cabeça.
– Não quero casar com você.
– Ótimo, porque nem passa pela
minha cabeça – disparou.
Entretanto, a expressão dele mudou.
– Mas quero você, Callie. – A voz
vibrava com paixão reprimida. A

voragem nos olhos dele provocou
fagulhas no seu corpo tenso. – E vou
ter. Com as minhas condições.
– Condições? – sussurrou.
– Na minha cama. Mas agora ficou
sério.
Impossível que ele a quisesse se a
julgava capaz disso.
– Não entendo.
– Depois daquele... inconveniente,
resolvi ter mais que uma noite. Você vai
ser minha amante, às minhas ordens,
pelo tempo que eu quiser.
O brilho nos olhos dele deu novo
sentido à expressão “às ordens”. Ela
ficou sem ar quando compreendeu suas
intenções.

– Mas meu tio...
– Que tem? Ele é suficientemente
antiquado para se incomodar com o
que vão pensar de você? Duro. Vocês
deviam ter pensado nisso antes de
tentarem me manipular.
– Eu não...
– Não gaste saliva. São as minhas
condições. – Ele pôs a mão no queixo. –
Aceite, ou encare as consequências.
O corpo dela se enrijeceu. A boca
secou.
– Que consequências?
Damon levantou-se e caminhou em
sua direção. Cada passo reforçava a
sensação de que estava sendo

perseguida. Prensada contra a janela,
não tinha para onde correr.
– Pensou que ia me fazer de idiota e
sair ilesa? Você não é tão ingênua.
Posso acabar com o seu tio assim. – O
estalo dos dedos a fez dar um pulo. –
Recuse, e ele vai à falência. Não devo
nada aos Manolis. Pelo contrário –
abriu um sorrisinho –, a dívida deles
comigo é antiga.
Callie arregalou os olhos. Ele era
intimidador. Não tinha dúvidas de que
falava a verdade.
– Ou posso tomar Angela e deixar
seu tio pelo menos com a aparência de
dignidade. – Damon aproximou-se
agressivamente, destruindo sua ilusão

de espaço pessoal. – Você perde de
qualquer jeito. Seu querido marido
deixou uma merreca, que já acabou.
Talvez ele tenha descoberto que você
não era a esposa ideal.
Callie sentiu um vazio no estômago
ao lembrar as acusações e ameaças de
Alkis, do pesadelo que era a vida que
levava, incapaz de satisfazer suas
exigências.
– Você contratou um detetive? – Só
podia, pois ele sabia que Alkis deixara o
dinheiro para os filhos de outro
casamento. Callie achava que já não
podia se humilhar mais, mas tomou
uma nova pancada. Sentiu-se violada
por alguém ter investigado sua vida.

O pesadelo não acabava nunca?
– Só um relatoriozinho dos seus bens
atuais – respondeu, como se invadir a
privacidade dela fosse banal.
– Bem – disse, reunindo suas últimas
forças. – Tudo bem, então.
A gargalhada espontânea dele ecoou
no cômodo.
– Vejo que nos entendemos. – Ele
pôs a mão na parede, ao lado da cabeça
dela, encurralando-a. Foi cercada pelo
calor dele, o hálito quente na sua testa.
– Acabou a brincadeira. Venha
comigo, hoje. Não tem alternativa.
Foi tomada pelo pânico ao ver suas
vias de fuga se fecharem. Conhecia

homens cruéis muito bem para duvidar
daquelas ameaças.
Ontem ela correu, incapaz de se
entregar. Mas a fuga era ilusão. Teria
que encarar até aquele calvário. Sentiu
um aperto.
Estremeceu ao imaginar Damon
exigindo total obediência, fazendo seu
corpo cantar como um instrumento
afinado apenas ao seu toque.
Alkis pelo menos não possuíra seu
corpo. Mas, com Damon, não haveria
escapatória nem privacidade. Seu
instinto dizia-lhe que não sobreviveria a
um relacionamento longo com ele. Era
forte demais, seu pendor físico por ele
era um cavalo de Troia nas suas

defesas. Que danos aquele desejo
destrutivo não causaria ao seu frágil
senso de independência e amorpróprio?
A única esperança era encurtar o
relacionamento.
Foi atravessada de resiliência e
aceitação cansada, fortalecendo-se.
O rosto dele estava perto quando ela
levantou a cabeça. Tão perto que seu
coração acelerou.
– Promete que vai poupar Angela?
– Prometo. – Uma centelha em seu
olhar denunciava prazer. Sem dúvida
estava fazendo planos para deleitar-se
com sua rendição. Callie reprimiu um
calafrio.

Desajeitada, enfim capitulou.
– Muito bem. Pode se vingar. Vou
com você.
– ACHEI QUE fôssemos pegar a barca. –
Damon notou certa ansiedade na voz
de Callie e lançou um olhar fulminante.
À sombra do bosque, a expressão
dela era uma máscara. O único sinal de
insegurança foi essa hesitação.
Mas nada diminuía a satisfação dele.
Desde que ela sucumbiu ao ultimato,
duas horas antes, estava tomado de
expectativa.
Pretendia aproveitar o caso ao
máximo.

– Tenho cara de quem viaja em
barcas lotadas?
Callie deu de ombros.
– É a barca ou um helicóptero.
– Tenho meu iate. Temos mais
privacidade no Circe.
Damon examinou-a devagar, do
cabelo louro às roupas – blusa branca e
calça amarela aninhando suas curvas e
sandália baixinha. Sua aparência era
autêntica e atraente, sem nada que
lembrasse planos mercenários. Parecia...
inocente.
Diante daquele absurdo, sorriu. Era
especialista em parecer o que os
homens queriam. Ontem provara: era
tudo, menos inocente.

Sabia provocar os homens. E a
consciência dele.
Não estava a par da sua conversa
com Aristides pela manhã, mas ouviu
os berros do tio. Manolis ficou
decepcionado pelo plano fracassado.
Mais tarde, ao ver a fúria nos olhos do
velho, Damon sentiu uma admiração
inesperada por Callie. Nenhuma
inocente conseguiria aguentar um
homem
daqueles.
Era
esperta,
determinada.
Uma
tremenda
manipuladora.
– Mas... – Ela se calou e mordeu o
lábio. Excitado, ele observou os
movimentos, ao mesmo tempo que
processava o sinal de nervosismo para

examinar
melhor
depois.

Chegaríamos
mais
rápido
de
helicóptero.
– Quem disse que quero voltar
rápido?
Mandei cancelar meus
compromissos.
Ele olhou-a de cima a baixo. Estavam
perto do ponto em que sabiam
exatamente o prazer que podiam
proporcionar ao outro. As lembranças
vieram à tona, prejudicando seu
autocontrole.
Mas ele a queria no luxo de sua
cama. Apesar da raiva, agora era desejo
que fazia seu sangue correr.
– Estou doido para fazer um passeio
lento – murmurou.

Ela não respondeu.
Podia jurar que ela estivera a ponto
de dizer algo. Ficou curioso. Não
conseguia imaginá-la dizendo algo sem
querer. Mesmo enfurecida, não
entregava nada. Menos quando
discutira acaloradamente sobre seu
casamento com Angela. Naquele
momento, tivera certeza de sua
sinceridade.
– Circe não serve para você? – Era
um iate clássico, uma raridade.
Gastara uma fortuna remodelando-o
para ficar a seu contento. Callie devia
preferir um cruzeiro luxuoso a linhas
graciosas e um trabalho artesanal

perfeito. Suas joias indicavam um gosto
extravagante, mas não apurado.
– É lindo. Só alguém de péssimo
gosto não acharia. – Callie olhou-o com
surpresa e escárnio. – É impressionante
que alguém tão obcecado por vingança
e controle seja capaz de reconhecer
qualidade. – Ela se virou e afastou-se
dele.
Damon inspecionou-a. Seu balanço
enquanto caminhava arrancou-lhe um
suspiro de admiração.
– Me admira que seu casamento
tenha durado tanto com essa sua
língua. Aposto que você não fazia
concessões ao seu marido.

Calou-se, intrigado, quando ela
parou e se virou devagar. As linhas do
seu rosto altivo estavam duras, e seu
corpo, estranhamente rígido. Será que
atingira uma ferida?
Sem ouvir nenhuma resposta
imediata, ele continuou, surpreso com a
própria curiosidade.
– Você deu um gelo nele também?
– Já disse: meu casamento não lhe
diz respeito. – Ajeitou a postura,
perfeitamente ereta. Tão perfeita que
era difícil de acreditar que era tão
traiçoeira.
– Por que você não toca no assunto?
Tem vergonha do jeito como o tratava?

Não me diga que morre de saudades.
Você não está de luto.
Ela andou na direção dele com fúria
nos olhos.
– Acho que você preferiria que eu
usasse preto e passasse o resto da vida
reclusa. – Desdenhosa, torceu os lábios.
– Deve ser chato perceber que uma
mulher pode seguir a vida sem um
homem.
– Então admite que não estava
apaixonada? – Sentiu triunfo e nojo ao
observar a expressão de desprezo dela.
– É por isso que você não usa o nome
de casada? Porque ele era insignificante
para você?

Damon sentiu um desejo louco de
marcar sua presença na psique dela, de
fazê-la crer que sua vida seria
incompleta sem ele.
A frieza do olhar dela aumentou
ainda mais. Os olhos eram lagos glaciais
capazes de absorver o calor de um
homem incauto.
– Você não faz questão de manter o
sobrenome do marido? Não sente nada
pelo homem com quem dormiu todos
esses anos?
Damon esperou ouvir desculpas, mas
continuou calada.
Ela era inacreditável.
– Então – murmurou –, você não o
amava. Normal, ele era muito mais

velho. Vinte e cinco anos? Mais?
– Trinta e cinco – disse, quase sem
abrir os lábios.
– Trinta e cinco anos. – Damon
assobiou. – Deve ter sido um desafio
conseguir fazer amor com um homem
tão mais velho. – A imagem de Callie,
nua e linda, deixando um velho fazer o
que fizera com ela revirou o seu
estômago. Sentiu um amargor. – Você
deitava e pensava no dinheiro que
podia gastar?
Um silêncio denso os cobriu. Ficou
parada. Nem piscou.
O que poderia abalá-la? Ele sabia
que, por trás daquela frieza, havia uma

mulher de carne e osso com uma paixão
física tão forte quanto a dele.
– Você não sabe nada sobre meu
casamento. Nem seus insultos são
originais. Já ouvi todos. – Ela não
parecia ligar. – Você não me conhece.
– Sei o necessário. Lembro com todos
os detalhes. Cada suspiro, cada gemido.
Você queria mais.
Damon se aproximou e ergueu a mão
como se para acariciá-la, mas parou a
centímetros dela. Um jato de
eletricidade cruzou os dois, atiçando-o.
Ele observou-a se inclinar um pouco,
como que atraída pelo seu toque. Ela
também sentiu o impulso do desejo,

mais forte que nunca. Ele sentiu um
calor de satisfação.
Logo teria o que desejava. Depois,
quando
ele
estivesse
satisfeito,
retomaria a vida normal, longe daquela
rede. O golpe já não importava muito.
Só a intensidade do desejo que sentia
por Callie importava.
Seus olhares se encontraram e ela
recuou, mergulhada em contrariedade
e confusão, o que em nada diminuiu
sua beleza. Ele baixou a mão.
– Você está imaginando coisas, Kyrie
Savakis...
– Damon, lembra?
Ela deu de ombros, um movimento
desajeitado que sugeria que tinha

consciência do que havia entre eles.
– Diferentemente do que acredita,
nem todas as mulheres aparecem no
seu caminho só para divertir você.
– Quer dizer que você tem outro
propósito? Além de fazer social,
compras e alguma caridade?
As irmãs e a mãe tirariam o couro
dele se ouvissem aquilo. Mas ele estava
muito ocupado vendo a reação dela ao
seu insulto proposital para ligar. Queria
fazê-la perder o controle.
Ela lançou um olhar cortante. A
confusão desaparecera, dando lugar à
indignação. Encarou-o por quase um
minuto, até que ele sentiu o sangue
acelerar de expectativa.

– Parabéns – disse, inclinando a
cabeça. – Sabe? – comentou, tão baixo
que ele precisou se curvar para ouvir. –
Você é tudo que esperava de um
playboy grego arrogante. Obrigada por
me prevenir.
Sem esperar resposta, ela se virou e
desceu o caminhozinho, provocando-o
com o seu balançar.
Damon sentiu um turbilhão de
emoções enquanto digeria aquelas
palavras. Mordeu os lábios para conter
uma gargalhada de admiração.
Que cobrinha. Achava mesmo que
poderia atingi-lo? Porém, era obrigado
a reconhecer que não recuava quando
desafiada. Olhara-o nos olhos e dissera

o que pensava. Será que sabia como
aquilo era sedutor?
A curiosidade de Damon aumentou
– e sua libido. Quanto mais convivia
com Callie, mais intrigado ficava. Podia
ser superficial e traiçoeira, mas sua
audácia e fibra atraíam-no.
Era mais que uma amante sensual.
Era uma charada que ele pretendia
resolver.

CAPÍTULO 7

O

moveu-se sob os pés de
Callie. Adaptou-se automaticamente ao
seu balanço suave. Era quase natural,
como andar de bicicleta.
Ainda assim, sentia um pânico
percorrendo a espinha. Lutava para
superar.
Damon a considerava fútil e
inescrupulosa. Não queria também ser
vista como covarde. Era totalmente
CONVÉS

capaz de dominar seu medo até
alcançarem a terra firme.
Em outra época, adoraria estar a
bordo de uma belezinha como Circe.
Passou a mão por uma superfície
carinhosamente polida. Parecia familiar.
Remetia a memórias de tardes de verão
há muito perdidas. A nostalgia brotou,
acompanhada de lembranças de tempos
mais simples. Quando amou e foi
amada. Quando o futuro era brilhante
e promissor. Antes de entrar em
contato com obsessões doentias e
manipulações.
– Enfim sozinhos.
Callie pulou e virou-se, notando que
Damon a observava. As lentes

espelhadas de seus óculos escondiam
sua expressão.
Os
empregados
do
tio
encaminhavam-se para a terra firme
depois de guardarem suas bagagens e
mantimentos.
– Queria estar com eles? – disse,
sarcástico.
E como! Em vez disso, tinha que lidar
com dois horrores: o medo de
embarcações pequenas e de se entregar
aos desejos insensíveis de um homem
dedicado a destruir todo seu orgulho e
sua autoestima.
Abriu um sorriso triste. Como dizem:
o que não mata nos deixa mais fortes.

– Que tal me mostrar o iate? –
Manter-se ocupada talvez ajudasse a
controlar minimamente o medo.
Ele ergueu a sobrancelha.
– Claro. Siga-me. – Conduziu-a até a
escada, tirando a camisa. Daquele jeito,
com o peito nu, estava como na
primeira vez que o vira. O sol valorizava
o tom dourado de sua pele.
Callie acompanhou-o de boca seca.
Seria ótimo se fosse o homem que
imaginara que fosse – bondoso,
provocante e gentil. Confiável.
– Você costuma navegar sozinho? –
Forçou uma pergunta, tentando manter
os pés no chão.

– Não. O Circe costuma estar lotado
de gente da família.
– Sua família? – Callie congelou. Ele
não podia ser casado!
Ele virou-se, mas, na escuridão da
escada, ela não pôde ver sua expressão.
– Sou o caçula de cinco irmãos, o
único ainda solteiro. Sempre tenho
companhia. Até fico cuidando para que
as crianças não caiam na água.
Seu bom humor inesperado provocou
um calor no corpo dela. Callie imaginou
Damon só de bermuda, carregando
uma criança morena. A imagem era
imensamente cativante. Talvez ele fosse
diferente com a família. Menos
calculista, mais confiável.

Não lhe dizia respeito. Callie se
recompôs e o acompanhou, de olhos
arregalados diante de tanto luxo.
– Impressionante. – Suspirou,
olhando a decoração e os equipamentos
de ponta à sua volta. Era o sonho de
qualquer decorador, harmonizando
charme tradicional e funcionalidade
moderna.
– Que bom que gostou. –
Curiosamente, não havia sarcasmo.
Tirou os óculos de sol e analisou-a
enquanto ela deleitava-se com o
ambiente ao seu redor. Adoraria
decorar um iate assim. Talvez um dia,
se o negócio de decoração desse certo...

– Só minha mãe reclama. Não tem
um forno suficientemente grande para
uma travessa tripla de moussaka.
– Sua mãe navega com você? – Não
combinava com a imagem que tinha
dele, de sujeito inabalável, arrogante,
ocupado demais seduzindo e fazendo
negócios.
Ele deu de ombros e sorriu. O
primeiro sorriso verdadeiro desde o dia
da praia. Uma chama ardeu dentro
dela.
– Está no sangue. Faço parte de uma
longa linhagem de pescadores.
– Então seu pai também deve gostar.
Suas
feições
enrijeceram,
evidenciando que era um assunto

delicado.
– Meu pai faleceu. – Deu a entender
que queria encerrar o assunto ali. –
Vamos ver o resto.
Sua breve trégua acabara. E com ela,
a tranquilidade de Callie. Seus ombros
foram tomados de tensão enquanto
seguia Damon.
HORAS DEPOIS, enquanto admirava o pôr
do sol no Egeu, Damon sentiu-se
confuso.
Callie frustrara suas expectativas.
Tirou as sandálias tão logo embarcou
no Circe, cautelosa com o convés de
madeira. Parecia absolutamente em
casa. Pegou-a alisando a madeira e o

bronze da embarcação, como se
também
apreciasse
aquele
surpreendente trabalho.
Ela antecipara-se às suas instruções.
Sabia navegar – de verdade. Nada de
meros cruzeiros.
Contudo, estava sem a sua
graciosidade habitual. Seus movimentos
eram rígidos e vacilantes. Sua
consciência se abalou, mas ele se
recompôs, suspeitando uma nova
armação.
Agora, ancorado numa ilhota,
Damon aproveitou para descansar. Não
a vira na última hora. Estava lá
embaixo, cozinhando.

Sentiu um calor no estômago ao
atravessar o convés.
A cabine estava escura. Ela não
acendera a luz. Lançou-se escada
abaixo e atravessou o salão em busca
dela.
Uma vibração intensa percorreu seu
corpo. A comida podia esperar.
Nem sinal dela na cozinha. Damon
parou, intrigado ao perceber a comida
no balcão. Não estava muito adiantada.
Será que insistiria para que fossem ao
porto para encarregar alguém de
cozinhar?
Foi conferir as demais cabines e
levou um susto.

Estava encolhida no chão, na
penumbra, encostada na parede,
joelhos contra o peito.
– Callie? – A voz dele saiu rouca,
tamanho o espanto.
Nem sequer o notou. Estava olhando
para ele, mas não o via. Parecia... em
estado de choque. Teve um mau
pressentimento ao notar que ela
balançava, como se fosse desmaiar.
Ficou ao lado dela, segurando sua
mão. Estava gelada.
– Callie, o que houve? – Ficou
alarmado, preocupado com aquele
olhar vazio.
Levou a mão até seu rosto. Suas
bochechas estavam muito frias e

molhadas pelas lágrimas.
Damon sentiu um aperto diante de
tamanha angústia. Não era fingimento.
UM CALOR tomou conta de Callie.
Seu corpo estava muito gelado.
Desde o instante em que Damon
declarara que viajariam de iate. O frio
espalhara-se feito gelo, tornando-se
irresistível. Os dedos congelaram diante
do medo e do trauma que invadiram
seu coração.
Tentou ser corajosa, obrigando-se a
embarcar e demonstrar tranquilidade.
Cada
movimento
testara
sua
determinação, enquanto seguia as

instruções de Damon e tentava
controlar o pânico.
Não pisava num iate desde os 14
anos. Desde...
Callie procurou o calor como um
homem faminto luta pela sobrevivência.
Se ao menos pudesse apagar suas
lembranças.
Percebeu vagamente que o frio
começara bem antes de ver o iate
pronto para conduzi-los pelo mar
traiçoeiro. Vinha de anos atrás. Quando
fora traída e usada por Petro. Durante
sua caricatura de casamento, quando
fora privada de interação humana.
Tremeu diante da dor que a
dominou. A dor da perda e da traição,

acumulada durante anos.
– Você está a salvo agora. Está tudo
bem. – As palavras tranquilas
penetraram a névoa de sua aflição.
A salvo. Era maravilhoso. O calor
aumentou, percorreu seu corpo.
Acolheu-o de bom grado.
Um movimento rítmico acalentou o
corpo dela. Seus músculos relaxaram e a
tensão insuportável deu lugar a uma
leve dor. Sentia-se pesada. Exausta.
Demorou a perceber que o ritmo
aconchegante vinha da mão que
acariciava suas costas. Que um ruído
ecoava perto de seu ouvido. O coração
batendo abafado.
Damon.

Com um esforço hercúleo, como um
mergulhador lutando para não se
afogar, Callie saiu do seu estupor.
Começou a retomar os sentidos.
Encontrava-se em seus braços,
tomada pelo calor que emanava dele. O
queixo apoiado na cabeça dela. Para seu
espanto, Callie percebeu que queria
ficar eternamente naquele conforto.
Ele cheirava a mar e sol, a um
autêntico macho.
Ela respirou fundo. Devia tê-la
encontrado encolhida onde desabara.
Precisava se recompor e superar aquela
angústia.
Nunca havia passado por isso, nem
nos piores dias. Sentia palpitações só de

pensar que ele poderia encontrá-la.
– Callie? – A mão parou. Após uma
pausa,
voltou
a
movimentá-la
suavemente.
Pensou em fingir que não escutara,
mas não podia bancar a covarde.
– Sim? – sussurrou, com uma voz
rouca.
Um arrepio percorreu o corpo
imponente dele, que expirou. Seria de
alívio ou irritação?
Certamente ele descera esperando
uma nova discussão. Ou talvez que se
entregasse a ele.
Foi tomada de medo. Não estava
pronta para aquilo.

– O que aconteceu? – Sua voz soou
surpreendentemente gentil.
Callie abriu os olhos com relutância.
Estavam
na
cabine
principal.
Reconheceu a cama embutida em que
estavam e as escotilhas.
Segurou a respiração e atirou-se nos
braços dele, entendendo o que aquilo
implicava.
Sua cama. Sua amante. Seu prazer.
Por isso viera atrás dela, para
consumar seu compromisso. Embora
estivesse determinada a cumprir o que
prometera, Callie sentia-se enojada com
a ideia de uma união sem sentimentos.
Ele passou o braço pelos ombros dela
e a trouxe para perto. Seu calor a

dominou, das coxas rígidas sob as
pernas dela até o peitoral imponente e
os ombros que a amparavam.
– Nada. – Sua fala estava arrastada, a
voz
soava
diferente.
Sentia-se
estranhamente distante, mesmo em
relação ao próprio corpo.
– É bem normal sentar no chão e dar
uma chorada, não?
Maldito sarcasmo! Não chorava havia
anos. Procurou uma resposta à altura,
mas ainda estava grogue.
– O que foi, Callie? O que houve? –
Levou a mão ao queixo dela, secando as
lágrimas que escorriam. Não era um
gesto
sensual.
Era
apenas...
reconfortante. Os olhos dela brilharam

e apoiou a cabeça. O bater do coração
dele a hipnotizava.
– Não vá dormir agora. – Sua mão
estava firme no queixo dela.
– Estou sem sono. – Mas sentia-se
estranhamente letárgica. – Não sei o
que há comigo. – A oscilação em sua
voz a assustou e ela tentou se levantar.
Ele a segurou firme, com uma
tranquilidade que a teria intimidado se
pudesse pensar direito.
– Você se machucou? – Fez uma
pausa, facilitando a assimilação das
palavras. – Não vi nenhum machucado.
Era mais fácil responder a esse tom
impessoal.
– Não. Eu só...

– Você só...? Vai ter que me explicar
– acrescentou em um tom mais
informal, diante da falta de resposta. –
Não saio daqui até ouvir a verdade.
Callie retorceu os lábios. Quem era
ele para falar em verdade? Preferia sua
versão distorcida das pessoas.
– Callie... – Reforçou o aviso
enquanto inclinava o queixo dela, que
se desvencilhou. O cabelo, agora solto,
escondia o rosto. Ela olhou em volta da
cabine, parando numa escotilha.
– Eu... não gosto de iates. – Havia
algo estranhamente engraçado naquela
explicação repentina. Bastava se
aproximar de uma embarcação para se
encher de medo.

– Não gosta? – Sua voz manteve-se
firme, mas dispensara o sarcasmo.
– Eu... evito. – Grande diferença.
Fazia onze anos que não pisava em algo
menor que uma imensa barca. O que
também colocava seus nervos à prova,
pois causava-lhe enjoo.
– Fica enjoada?
Ela balançou a cabeça.
– Não é enjoo.
Então é outra coisa. – Não desistiria
até arrancar toda a verdade. – Mas você
é uma marinheira, e das boas. – Callie
mostrou-se surpresa com o elogio. –
Você não aprendeu a manejar iates em
terra firme.
Ela ajeitou os ombros.

– Eu navegava quando era criança. –
Chegou a passar alguns verões mais em
alto-mar que em terra.
– E?
Respirou fundo, sabia que não
conseguiria escapar. Ele não permitiria
enrolações.
– Meus pais morreram quando o iate
afundou perto de Sydney. – A visão de
Callie embaçou, mas manteve a voz
relativamente firme. – Iam resgatar
outro barco. Os dois se perderam. –
Sentiu um caroço do tamanho da
acrópole na garganta e teve que fazer
uma pausa antes de prosseguir. – Não
houve sobreviventes.
– Quantos anos você tinha?

– Quatorze. – Fazia tanto tempo, mas
mesmo assim, agora, num iate
tranquilo, como o que o pai reformara,
a tristeza bateu como nunca.
Talvez se os corpos tivessem sido
recuperados, se tivesse conseguido se
despedir deles em vez de ser levada
para a Grécia pelo tio, que decidiu que
ir a um funeral só a deixaria mais
perturbada...
– Sinto muito. – Aquelas palavras
simples,
aparentemente
sinceras,
irromperam no silêncio. Callie virou-se
para olhá-lo nos olhos.
Temia que ele reagisse com
impaciência, talvez deboche, diante do
medo infantil que não conseguira

controlar. O tio não tinha paciência.
Pelo menos Alkis nunca descobrira,
pois sempre andava de avião. Preferia
nem imaginar o quanto ele se divertiria
com sua fraqueza.
Mas os olhos de Damon só
demonstraram arrependimento. Ela
piscou, assimilando sua empatia.
– Obrigada. – Callie desviou o olhar,
com a respiração inconstante e a
garganta seca. Sentia-se perturbada com
a ilusão de aconchego, com o vínculo
que surgia entre eles. O colapso nervoso
deve ter ativado algo em seu cérebro,
fazendo-a delirar.
– Você devia ter avisado.

Ela deu de ombros. Não havia
pensado nisso. Os homens, até onde
sabia, não deixavam que um simples
medo feminino atrapalhasse seus
planos.
Como poderia ter adivinhado que
reagiria assim?
Pensou que pudesse controlar o
medo. Mas o balançar do iate sob seus
pés fora a gota d’água após dias de
tensão. As exigências e os métodos de
Damon despertaram lembranças que
ela se esforçara muito para reprimir,
relacionadas a Alkis e seu arremedo de
casamento. A uma tristeza tão forte que
pensou que fosse morrer.

A intensidade da tristeza a
surpreendera.
– Por que não me contou?
Ela se virou. Parecia sincero, o que
não queria dizer nada. Ergueu a mão
trêmula e enxugou as lágrimas.
Callie odiava o fato de que ele a vira
tão vulnerável.
– Por que fornecer mais uma arma
para você usar contra mim?
DAMON FICOU sem ar ao notar
sinceridade em seus olhos. Ela falava
sério!
Sentiu uma pontada ao vê-la
voltando a si.

Pensava que ele seria tão baixo? Que
se aproveitaria do seu medo, da dor
pela morte dos pais? Uma coisa era usar
o desejo dela de afastar a prima, outra
era dar um golpe tão baixo.
Estava chocado.
Lembrou-se da perda do seu pai.
Lembrava perfeitamente como afetara a
mãe e as irmãs. A desolação e a dor.
Nenhum homem digno brincaria com
sentimentos assim.
Damon era implacável nos negócios,
mas era honesto. Era generoso com as
mulheres.
Seu orgulho ficou ferido.
De uma hora para a outra, deixara de
ser um jogo de gato e rato. A batalha de

Callie era outra. Uma briga feia, sem
limites.
Com que tipo de homem teria se
envolvido para achar que ele se
aproveitaria dos sentimentos dela?
O tio era um oportunista, mas ela o
desafiara ainda hoje.
Quem mais? O marido? Homens que
conhecera durante o casamento? Será
que seus amantes foram tão baixos?
Será que a usaram de outra forma, para
além de despertar seus desejos vorazes?
Só de pensar, ficou com raiva.
Sentiu uma pontada ao pensar no
ultimato. O poder de que lançara mão
para forçá-la a acompanhá-lo.

Jamais forçara uma mulher a fazer
sexo. A razão dizia que era uma virada
de mesa. Ela havia feito seu jogo e
agora era a vez dele. Estava provando
do seu próprio veneno.
Mas não conseguia evitar uma ponta
de culpa ao vê-la daquele jeito.
– Venha. – Sua voz soou mais ríspida
que pretendia enquanto tirava as
cobertas para abrigá-la na cama.
Ela, de olhos arregalados, encarou-o
antes de virar a cabeça. Pressionava-a
com intensidade e tristeza para junto de
si.
Ergueu as pernas dela para deitá-la.
Depois, tirou os sapatos e deitou-se ao
seu lado, cobrindo-a. Passou os braços

em volta dela e a trouxe para mais
perto, para que apoiasse a cabeça nele.
Precisava de carinho e conforto.
Sentiu algo diferente da libido.
Queria cuidar dela.
O mesmo que sentiria por qualquer
um naquela situação.
Callie permaneceu imóvel nos seus
braços.
Passado um tempo, mexeu-se. Seus
dedos acariciaram a garganta dele, que
suprimiu o desejo crescente.
Não era hora de sexo.
Então percebeu o que ela estava
fazendo. Desabotoara um botão da
camisa dele e passara para o seguinte.
Aquelas mãos representavam um

delicioso tormento em sua pele em
chamas.
– Pare! – Segurou a mão dela e
olhou-a melhor.
Estava pálida, olhos inchados de
choro. Até os lábios estavam pálidos.
Mas parara de chorar e sua boca
demonstrava determinação.
– O que está fazendo?
Ela olhou para a mão presa. Só agora
ele percebeu o tremor nos dedos dela.
Afagou-os com o polegar, sentindo sua
fragilidade.
– Cumprindo minha promessa. – Sua
voz era quase inaudível.
– Promessa? – Franziu o cenho,
ainda pensando na vulnerabilidade dela

e na inevitável reação de seu corpo à
carícia hesitante.
– Me entregar a você. Ser sua amante
– acrescentou, como se quisesse
enfatizar. – Você queria...
– Sei o que prometeu – resmungou,
contrariado. A lembrança do acordo,
agora, diante da vulnerabilidade dela,
fazia-o parecer de mau gosto.
Ela devia saber que ele não pedira
que se entregasse ali, naquele estado.
Olhou-o surpresa. Ele puxou-a para
perto, apoiando a cabeça dela no
ombro. Para não encarar aqueles olhos
feridos.
Sua
alma
ardia.
Sentia-se
completamente culpado.

– Tente dormir, Callie. Não é hora
disso.

CAPÍTULO 8

– QUE

linda. – Callie
contemplou o mar e o continente da
piscina de borda infinita. A paz daquela
ilhota a envolvia. Depois do colapso
nervoso da véspera, aquilo era um
bálsamo.
Se pudesse aproveitar sozinha...
Sentia um arrepio e percebeu que
estava sendo observada. Virou-se,
CASA

relutante. Ele estava sentado a apenas
um metro.
Os olhos dele fixaram-se nos seus e
ela voltou a sentir o vínculo ilusório da
primeira vez.
– Que bom que gostou. Achei que
não faria seu estilo.
Gesticulou em direção à mansão às
suas costas. Não era a construção
moderna que esperava, mas uma
adorável casa restaurada com uma
história própria. Possuía janelas grandes
e elegantes, persianas, telha de barro e
sacadas delicadas. No interior, como no
iate, Damon dosou graciosidade e
praticidade moderna.

O olhar de Callie acompanhou as
linhas da casa até uma construção
inacabada em estilo semelhante, com
acesso através de uma passarela
envidraçada, que fazia jus à estrutura
original.
Damon
estava
fazendo
uma
ampliação, utilizando a casa centenária
sobre seu porto particular como
elemento central.
Callie gostou da abordagem.
– Assim como pensou que eu não
gostaria do Circe?
– Falha minha.
Em anos de casada, nunca ouvira
Alkis reconhecer um erro. Fez uma
careta e engoliu o vinho. Desceu feito

néctar. Tudo na casa de Damon era do
bom e do melhor.
– Meu tio e eu temos gostos
diferentes. – Ele provavelmente pensava
que herdara a extravagância de
Aristides.
Assim como pensou que ela e o tio
tinham um plano inescrupuloso em
comum.
– Estou vendo. – Damon olhou-a,
admirado com a simplicidade e o estilo
de seu vestido creme e bronze. As cores
combinavam com ela, mas não havia
decote.
Ela ergueu o rosto.
– Decepcionado?

– Intrigado. – O calor em seus olhos
revelava um desejo familiar. E algo
mais: curiosidade.
Compreensível. Fora surpreendido
quando embarcaram. Ela sentia
calafrios só de lembrar. Ele conhecera
seu lado vulnerável. Contudo, para
surpresa dela, não tirara proveito.
Callie acordou de um sono pesado
pela manhã e descobriu que Damon
havia navegado a noite inteira até o
continente e agendado uma viagem de
helicóptero até a ilha.
Poupou-a do iate. Quando foi
agradecer, ele gesticulou como se aquilo
não fosse nada!

Ademais, rejeitara sua tentativa
infeliz de iniciar um momento íntimo.
Apenas a manteve em seus braços até
que adormecesse. A lembrança da
batida constante de seu coração
tranquilizando-a,
dos
braços
imponentes protegendo-a, do queixo
áspero se esfregando no cabelo dela
enquanto ele falava, tudo isso fazia um
ligeiro conforto brotar dentro dela.
Não a reprovara por sua fraqueza ou
pelo aborrecimento. Em vez disso,
colocou-a para dormir. Damon reagiu
com destreza e paciência, como se lidar
com a fobia de uma amante fosse
trivial.

Ele a confundia: de dissimulado
calculista, transformara-se em homem
atencioso num piscar de olhos. Jamais
imaginaria.
Quem era Damon Savakis, afinal?
– Sua família é daqui? – A
intensidade
de
seu
olhar
a
desestabilizava. Manter um diálogo
formal era melhor que o silêncio, já que
ele observava cada movimento seu.
Pelo menos por enquanto, ele se
limitaria a observar. De manhã, tivera
que
explicar,
vermelha
de
constrangimento, que sua menstruação
viera mais cedo. Damon nem se afetou,
decerto acostumado a conversar coisas
assim com as amantes.

Não precisava satisfazê-lo na cama.
Ainda.
– Não, somos do sul. Do Peloponeso.
– Então por que aqui? – Tentava
esquecer o nervosismo.
Ele deu de ombros, fazendo-a se
lembrar dele, de ombros nus, no Circe.
Sentiu um calor e desviou o olhar.
– Eu navegava por aqui e conhecia
bem a ilha. Fica perto de Atenas.
– Você viaja diariamente? – Ele a
deixara ali sozinha o dia inteiro, só com
os empregados. Provavelmente passou o
dia trabalhando, apesar dos planos de
tirar uma folga.
Claro, isso foi antes de descobrir que
sua nova amante não podia fazer sexo.

Por que ficar ali? Sua função no
mundo dele não podia ser mais óbvia.
Só servia para uma coisa.
– É só uma casa de férias. Minha
residência oficial é em Atenas. Mas
achei que gostaria da tranquilidade
daqui.
Damon acabara de frustrar suas
suposições, sem cerimônias. Fora até ali
para que ela se recuperasse?
Sentiu um calor no rosto. Um misto
de vergonha, gratidão e surpresa.
– Eu... obrigada. Muita gentileza...
– Além disso – voltou a falar,
interrompendo
o
agradecimento
constrangido dela –, queria conferir os

avanços na obra. – Apontou para a
parte nova.
Callie apertou os lábios. Ou ele não
queria que agradecesse, ou não
precisara mudar de planos. Damon
abalava todas as suas convicções.
– Gosto sempre de acompanhar
negócios importantes.
– Por isso visitou meu tio quando
assumiu a empresa? – despejou.
– Exatamente. – Firmou os lábios
enquanto contemplava o horizonte.
– Você cuida de todos os negócios? –
Ele era um bilionário. Alguns deviam
ficar por conta dos funcionários.
– Ah, mas aquele não foi um negócio
qualquer. – Lançou um sorriso cruel. –

Foi pessoal.
– Como? – Até onde sabia, Damon e
o tio haviam se conhecido naquela
semana.
Virou-se lentamente para encará-la.
Sua expressão causou-lhe calafrios.
– Ele não contou para você. – Era
uma afirmação, não uma pergunta;
como se falasse sozinho. – Meu pai e
meu avô trabalharam no estaleiro da
família Manolis.
Callie sentiu um frio na espinha de
ansiedade, como um toque de uma
mão gelada.
– Meu pai morreu num acidente de
trabalho aqui. – Sua fala era lenta, mas
era possível perceber ódio nos olhos.

– Sinto muito.
Deu de ombros mais uma vez.
– Na ocasião, seu tio dirigia a
empresa, e os advogados garantiram
que minha mãe não recebesse
indenizações. Mal pôde arcar com os
custos do funeral.
Callie quase engasgou diante de tal
insensibilidade. Vindo do tio, não a
surpreendia. Ele só queria se dar bem.
Não se preocupava com os empregados.
Sentiu uma pontada de remorso.
As atitudes de Aristides haviam
arruinado a empresa que seu pai
ajudara a expandir. Arruinara a família.
Não espantava que Damon esperasse o
pior dele. E dela.

– Comprar a Manolis foi um jeito de
se vingar?
Assentiu silenciosamente.
– Por quanto tempo planejou isso?
– Desde quando o advogado obrigou
minha mãe a desistir da indenização.
Seguiu-se um silêncio, como se
houvesse um fio os separando.
Tudo isso era por vingança? Até ir
atrás dela? Suas mãos começaram a
tremer e ela depositou o copo sobre a
mesa. Seus batimentos aumentaram
freneticamente.
Não havia melhor maneira de
humilhar a família que esfregando sua
paixão por ele na cara de todos. Não a

seduzira à toa naquela busca por
vingança.
A centelha de pena e gratidão
apagou-se ao saber daquelas ações
premeditadas.
– Você não me quer – sussurrou. –
Só quer vingança.
Seus
olhos
a
contemplaram
brilhando.
– Não. Já me vinguei. Mas não se
engane, também quero você.
OITO DIAS depois, Damon desceu do
helicóptero e foi até a mansão.
Como de costume, estava louco para
ver Callie.

Hoje fechara o negócio com o tio.
Diferentemente dos planos iniciais,
pagou um valor generoso aos Manolis.
O sorriso tímido de Angela e a
preocupação de Callie com a tia
pesaram em sua consciência. Em vez de
depená-los, pagou mais que o
necessário.
Franziu o cenho. Estava amolecendo.
Sua família já dizia que era muito
protetor, que levava muito a sério sua
responsabilidade com o bem-estar dela.
Chegara ao ponto de ajudar as
mulheres da família do inimigo!
Mas ficava tocado com a preocupação
de Callie com os parentes, com seu

bem-estar sempre que estava longe. Era
genuíno. Ele achava admirável.
Ademais, Angela e a mãe não
mereciam pagar pela conduta de
Manolis. Damon não passara anos
lutando para proteger a mãe e as irmãs
das garras dele?
Após anos planejando a vingança, a
realidade
apresentava
novas
perspectivas.
Estava feliz com sua decisão.
Até recuperaria as empresas Manolis,
incorporando-as à sua e tornando-as
lucrativas outra vez. Só um idiota
desperdiçaria tanto potencial.
Abriu uma porta lateral e subiu a
escada, fervendo de expectativa.

Não via Callie desde o amanhecer,
quando a abraçou e nada fez para saciar
sua fome voraz. Por mais de uma
semana
se
mantivera
distante,
insistindo apenas para que dormissem
na mesma cama. Não queria que ela
tivesse outro quarto.
Toda noite era uma tortura, mas não
desistia de dormir com ela. Mesmo que
dormisse tão pouco!
A reação dela no Circe foi
surpreendente. Nunca percebera seu
lado vulnerável.
Tampouco imaginava que se sentiria
culpado pelas táticas utilizadas para têla. Apesar da armação dela e do tio,

sabia que se rebaixara ao nível deles ao
chantageá-la.
Ainda assim, a tristeza pelos pais não
justificava seu estilo de vida desde que
se vendeu a um marido velho e rico.
Nem sua tentativa de forçar Damon a
casar.
Ela se mostrou bem mais complexa
que imaginara, com sua aparência de
mercenária escondendo medos e
inseguranças iguais aos de qualquer
um.
Contudo, ao chegar ao corredor do
andar de cima, percebeu que queria
mais. Não queria que Callie se
entregasse só porque exigira. Só porque

ele se aproveitara de sua preocupação
com Angela.
Queria que viesse até ele por vontade
própria.
Foi até a porta da suíte principal e
ouviu barulho de água corrente. Parou
bruscamente.
EXCITOU-SE AO imaginar cada detalhe de
Callie. O cabelo mel, espalhado sobre os
ombros e as costas. As coxas, o
abdômen e os seios reluzentes com a
água.
A
mão
ensaboando
vagarosamente a pele delicada.
Soltou um gemido de prazer.
Damon girou a maçaneta.

CAPÍTULO 9

CALLIE FECHOU o roupão e inclinou-se
para secar o cabelo.
Os últimos oito dias no luxo da
propriedade de Damon deram-lhe
muito tempo para pensar. Entretanto,
não adiantara muito.
Repudiava a maneira como ele a
obrigou a assumir aquele compromisso.
Por outro lado, vislumbrara um homem
melhor por trás da máscara. Um

homem que, apesar de tudo, ajudara
uma mulher que encarava como
inimiga.
Tudo que sua família fizera pesava
bastante na consciência dela. Era até
compreensível que Damon, após
negociar com seu tio, acreditasse que
tentara dar-lhe um golpe.
E sob todas essas ponderações, uma
correnteza de desejo. Intensa como
uma cachoeira, mais profunda que
imaginava. Era surpreendida por
Damon todas as noites, dormindo de
conchinha com ele. A cada manhã
acordavam mais próximos. As coxas
entre as dela, a mão sobre seu seio, a
boca no pescoço dela.

Assustada com sua entrega, fingia
dormir até ele acordar para tomar
banho e ir trabalhar.
Mas nada suprimia as lembranças de
quando o toque dele encantara seus
sentidos.
Quando ele enfim exigisse sexo,
resistiria ou aceitaria?
Sentia-se menos revoltada. Ou suas
forças teriam sido minadas pela notícia
recebida? Após uma longa conversa
com o advogado, descobriu que não
havia novidades sobre a herança. Seus
planos
teriam
que
esperar
indefinidamente. Não podia contar com
a palavra do tio.

Callie rangeu os dentes e esfregou a
cabeça com força.
Não! Não desistiria. Começaria de
novo. Assim que se livrasse de Damon,
procuraria um emprego e juntaria
dinheiro. Ela...
Callie cravou as unhas na cabeça,
como garras. Avistou pés masculinos
descalços.
O coração acelerou. Lembrou-se de
que estava sem nada por baixo. Sentiuse vulnerável e ficou toda arrepiada.
Sua adrenalina subiu. Ficou em
estado de alerta.
Ergueu lentamente a cabeça. Ele
usava calça escura, perfeitamente
encaixada em suas pernas longas e

firmes. Bolsos salientes onde suas mãos
repousavam. Cintura bem definida,
abdômen liso. Um peitoral forte sob a
camisa.
O coração de Callie quase explodiu
ao vê-lo com a camisa desabotoada,
sem gravata, um sorriso animado nos
lábios.
Conseguia sentir o calor dos olhos
dele, aumentando a temperatura de seu
corpo e deixando seu rosto em chamas.
Você é minha.
Era desnecessário falar. Sua expressão
dominadora dizia tudo.
A toalha caiu dos dedos trêmulos de
Callie, que se abaixou para apanhá-la.

Ele foi na direção dela, que hesitou,
segurando a toalha úmida qual uma
muralha.
– Você chegou cedo. – A voz refletia
seu nervosismo.
Falou para si mesma que seguiria em
frente, independentemente do quão
frio e exigente ele fosse. Não
conseguiria ferir seu orgulho ainda
mais. Pelo menos suas exigências
pretensiosas fariam com que mantivesse
o desprezo por ele.
Mas um abismo separava a teoria da
prática. Por mais que tentasse, era
incapaz de encontrar a tranquilidade
necessária para mantê-lo afastado.

Ou calar a voz inquieta dentro dela,
que clamava por suas carícias.
A presença de Damon, ameaça e
promessa, acelerava seus batimentos.
– Cheguei. – Baixou as pálpebras,
olhando-a de uma maneira sensual e
fazendo seu corpo pesar. – Queria vê-la.
Arregalou os olhos enquanto abria as
abotoaduras.
– Pensei em você a tarde toda.
Sua voz assumiu um tom másculo,
deixando todos os pelos dela
arrepiados. Seus mamilos endureceram.
Cruzou os braços como se pudesse
prevenir alguma reação.
– Eu... Também queria vê-lo –
deixou escapar enquanto acompanhava

seus dedos bronzeados abrindo a
camisa.
Ele ergueu a sobrancelha.
– Sério?
– Sério. As coisas que estavam na
casa do meu tio chegaram.
Ele acenou e tirou a camisa,
lançando-a no cesto.
Callie tentou se concentrar na seda
caindo, mas seu olhar voltou-se para
Damon. Seu peito estava nu:
bronzeado, musculoso, perfeito. Sentiu
um aperto no estômago. Viu os pelos
escuros em seu abdômen. Lembrou-se
de como se sentiu quando ele roçou em
seus mamilos, de
quando se
movimentaram como um só corpo.

– Tem bastante coisa – tentou falar,
desviando o olhar, rígida. – Ainda não
tenho uma residência fixa.
Não tinha uma residência nos EUA e
o tio havia se negado a guardar suas
coisas. Estava furioso por ela ter
estragado seus planos.
– Não tem problema.
Damon aproximou-se, com a mão no
cinto. Callie recuou até dar com a
parede.
– Está tudo no quarto no fim do
corredor. Pensei...
– Não tem problema. Deixe suas
coisas aqui o quanto quiser. Você pode
ficar naquele quarto. – Fez uma pausa.
– A não ser que queira dormir comigo.

A chama nos seus olhos confirmava
que ele não queria apenas dormir. Seu
olhar derrubou todas as defesas dela.
Callie pressentia que, se ele se
aproximasse agora, jamais conseguiria
erguer uma nova muralha. A
personalidade dele era muito forte.
– Quer tomar um banho? –
balbuciou ela. – Vou só pendurar a
toalha e o caminho está liberado.
Callie virou-se e deu uma topada no
toalheiro, censurando-se por sua falta
de coordenação. Já não tinha mais sua
famosa compostura, tampouco sua
determinação para não demonstrar
fraquezas.

O sangue fervia em seus ouvidos
enquanto lutava para pendurar a
toalha. Enfim conseguiu e apertou mais
a faixa do roupão.
Quando estava saindo, tentando
fazer Damon não pensar em sexo, um
ruído a paralisou.
Água.
Callie correu até o toalheiro,
completamente nervosa.
Damon inclinou-se para ajustar a
temperatura do chuveiro. Removera a
última peça de roupa. Estava
completamente nu. De tirar o fôlego.
Da posição em que estava, Callie viu
o movimento das costas, dos ombros e
dos bíceps musculosos enquanto ele

abria as torneiras. As coxas eram duras,
imponentes. As nádegas eram bem
redondinhas.
Permaneceu imóvel, incapaz de
desviar o olhar.
As curvas e as retas do corpo dele
formavam
uma
imagem
impressionante.
Esquecera-se
do
quanto
era
excitante. Mas seu corpo, não. Sentiu
aquele ardor entre as pernas, o coração
acelerar, e percebeu que precisava fugir.
Depressa.
Descobrira que não era Damon
Savakis que lhe causava medo, afinal.
Era sua própria fraqueza.

Ele causava sensações inimagináveis,
fazia com que sentisse...
– Callie.
Aquela voz a deteve diante da porta.
Era uma sedutora promessa de prazer
que deixava suas pernas bambas.
Bastou aquela palavra para abalar sua
determinação!
Ele estava nu, sem pudor. Damon
Savakis, completamente excitado, era
digno de admiração.
Os joelhos de Callie tremeram. Não
havia saída. O cheiro suave de almíscar
deixou seu nariz em chamas. Vinha
dele ou dela?
Seus olhos negros queimaram a boca,
a garganta, tudo que encaravam.

Ela baixou os olhos enquanto ele
procurava algo, um pacote. Sem deixar
de olhá-la, colocou a camisinha com
movimentos firmes e ligeiros.
Era surpreendentemente erótico vêlo tão orgulhoso e pronto para ela. Uma
onda de prazer tomou seu útero; sentiu
um formigamento por dentro.
Seu olhar a desejava. O calor
escaldante do corpo dela era prova de
que lhe pertencia. Deixara sua marca
nela, despertando desejos há muito
tempo escondidos. Agora esses desejos
voltavam-se para Damon.
Entrou em pânico. Seria acometida
por essa onda de desejo ardente sempre
que ele a encarasse?

Não era o olhar analítico que
incomodava. Era a provocação quente
que percebera em seus olhos na
primeira vez. Um convite ao prazer... e
algo ainda mais poderoso que a atraía,
deixando-a alheia ao resto.
– Callie. – Aquele sussurro percorreu
seu corpo. Ele tirou a faixa do roupão
dela, deixando-a cair.
Sentiu uma respiração no ouvido
enquanto ele observava o roupão se
soltar.
Ele ficou imóvel.
Callie começou a ficar impaciente.
Por que ele não continuava? Não a
tocava? Não sentia desejo?

Tentou se indignar por ter se
entregado a ele. Mas nada aconteceu.
Só um zunido de excitação diante da
ideia de trocar carícias com Damon. Era
como se fosse a primeira vez.
Mágico.
– Você quer?
Demorou um tempo até assimilar as
palavras.
– Callie, você me quer?
Estava perguntando? Não havia força.
Só a força do próprio desejo dela.
Damon lhe conferia o poder de dizer
não. A decisão era dela!
Callie engoliu um soluço, tomada de
sentimentos contraditórios.

Depois se arrependeria. Mas, naquele
instante, a verdade é que queria tanto
quanto ele. Era como se sempre tivesse
desejado aquilo, desejado ele.
– Callie!
Ele recuou, empalidecendo e
cerrando os punhos. Quase soltou um
berro quando o viu recuar.
Engoliu com dificuldade um nó de
emoções.
– Por favor – sussurrou. – Quero.
Aquilo bastou. Ele imediatamente se
aproximou dela, afastando o roupão
dos ombros e deixando-o cair.
Os olhos dele ferviam ao examiná-la
da cabeça aos pés. Automaticamente,

Callie pôs um braço sobre os seios e
outro entre as coxas.
Mas perdera a timidez. Não se sentia
a pessoa que fora nos últimos 25 anos.
Damon
a
transformara
completamente.
O joelho dele roçou na coxa dela ao
empurrá-la para o calor do chuveiro, as
mãos dele deslizando por sua cintura e
depois subindo até os ombros. Sentia-se
excitada ao ser tocada, uma explosão
que a deixava sem ar.
Era tão bom.
– Damon. – Mesmo sob a ducha, o
cabelo colado às orelhas, a palavra
pareceu uma súplica. Carente e
confusa. Agarrou os ombros dele para

se apoiar. Mais do que isso, com uma
ânsia por tocá-lo como nunca sentira
antes.
Desejava a força, o poder, sua
capacidade de satisfazer a fome que a
devorava por completo.
Agora era sem chantagens e
obrigações. Era simples como todo
desejo entre homem e mulher deveria
ser.
– Glikia mou. – Damon inspirou em
seu pescoço, precipitando ondas de
prazer pelo corpo e fazendo-a tremer.
– Quero você. – As palavras tinham
um tom de liberdade. Uma liberdade
jamais vivenciada.

Callie deslizou as mãos nos ombros
dele, no cabelo, agarrando sua cabeça e
aproximando-o dela.
Encheu-se de satisfação quando viu
sua boca em direção à dela. Seus lábios
realizavam um movimento sensual. A
língua dançava dentro da boca de
Callie, acariciando, provocando e
satisfazendo-a
com
movimentos
eróticos. Os dedos longos e fortes
seguravam o rosto dela com firmeza
enquanto o inclinava para obter uma
posição mais favorável.
Callie fechou os olhos. A escuridão
contrastava com o colorido do beijo,
indo da expectativa ao desejo. Do
desejo ao desespero. O peito de Damon

a pressionava enquanto esfregava-se
nele, num encontro escorregadio.
Damon soltou um urro profundo e
abraçou-a com firmeza. Um abraço
perfeito.
Sentia-o no corpo inteiro: da língua
sedutora à mão em suas nádegas,
erguendo-a para que sua barriga
delicada sentisse sua ereção, dura como
aço.
Foi percorrida de calor e derreteu-se.
Os dedos dele acariciaram seu cabelo
molhado enquanto o apertava mais
forte.
– Damon, por favor.
Precisava dele.

A água escorria pelos seios e a
barriga, fazendo-a abrir os olhos.
Damon ainda a segurava, mas recuou,
permitindo que a ducha a cobrisse.
Callie puxou-o para si, sem receio de
implorar.
Olhos vulcânicos a encaravam
enquanto respirava fundo, chocada.
Mal reconhecia aquele homem. Seu
rosto perdera toda a ternura. Os traços
fortes e as sobrancelhas negras
representavam uma imagem de desejo
selvagem, idêntico ao dela.
O coração de Callie abalou-se com a
mistura de dor e prazer que viu nele.
Automaticamente segurou o seu rosto

para confortá-lo com um beijo, mas ele
não respondeu com delicadeza.
Num instante ele estava olhando
para baixo, com cara de sofrimento. No
outro, estava de joelhos, com as mãos
na cintura dela enquanto chupava seu
seio esquerdo.
Seu gemido de prazer ecoava pelo
cubículo. Pensava que fosse desmaiar.
Acolheu-o, inclinando-se ao encontro
de seus lábios, sua língua, seus dentes.
Sentiu pontadas de prazer e tremeu,
grata por ter uma parede para se apoiar.
Ele voltou a avançar, dando
mordidinhas na barriga e na cintura. A
cabeça de Callie se recostou nos

azulejos enquanto era tomada de
fraqueza.
Percebeu suas intenções tarde
demais. Ele afastou as coxas dela, que
arregalou os olhos ao sentir o calor de
sua respiração entre as pernas.
– Não! – Levantou a cabeça e
encarou seu olhar penetrante.
Por um momento, seu cérebro parou,
assimilando a presença dele de joelhos,
como se suplicasse. Sentiu um calor no
peito e o coração acelerar como um
trovão.
– Não?
Balançou a cabeça, puxando seus
ombros. Era uma reação totalmente
instintiva.

– Eu não... – Sua voz perdeu-se em
meio ao olhar firme dele. Devia parecer
patética com sua inexperiência. – Eu
nunca...
O olhar dele manteve-se fixo ao dela
enquanto a água os envolvia, batendo
no azulejo. Tinha uma expressão
enigmática.
– Permita-me. – Esperou um pouco a
resposta, que ficou entalada na
garganta.
Mas era tarde. Damon inclinou-se e
acariciou-a no lugar mais íntimo
possível. Sensações tomaram conta dela:
mais intensas do que jamais sentira.
Os dedos de Callie retorceram-se
quando a língua dele percorreu um

caminho cheio de fervura e êxtase no
âmago. Estremeceu e se agarrou nele,
deslumbrada pela intensidade do que
sentia. De novo e de novo. Não
conseguia respirar, pensar. Só apoiar-se
no azulejo enquanto correntezas de
fogo
queimavam
seu
corpo,
despertando as mais incríveis sensações.
Nunca sonhara...
– Damon, por favor... – Seu lamento
foi sufocado pelo silêncio quando, como
um fluxo de lava, o prazer tornou-se
uma onda irrefreável.
Seus joelhos cederam com a explosão
de sensações que atingiu seu corpo.
Estremeceu e desabou, saciada,
tremendo com os resquícios de prazer.

Sua mente tornou-se um turbilhão
diante da nova experiência, do presente
que ele lhe dera.
Confusa, Callie acompanhou os
movimentos de Damon, que a segurou,
com seu corpo contra o dela. Entregouse ao abraço.
– Obrigada – sussurrou em seus
ombros, perpassada por uma nova
onda.
– O prazer foi meu. – Sua voz grave
reverberou no peito dela enquanto ele a
abraçava.
Mas ele não a deixou descansar. No
momento seguinte, chupou o mamilo e
descarregou-lhe
um
prazer
incomensurável, proporcional ao seu

clímax. Tremeu nos braços dele, como
se conduzida por uma corrente elétrica.
– Ainda não acabou – disse,
enquanto a erguia pela cintura.
Callie arregalou os olhos ao sentir os
azulejos em suas costas outra vez.
Olhou nos seus olhos febris, a testa e a
boca franzidas de concentração. Num
instante, estava deitada, e ele se
aproximou.
– Levante as pernas – ordenou
Damon, com uma voz rouca
irreconhecível.
Callie obedeceu e segurou os ombros
dele, apoiando as pernas em seus
quadris enquanto ele a baixava com
uma calma exagerada até se unirem.

Soltou um suspiro de tanto prazer.
Achava que estava satisfeita. Mas
nem aquela correnteza de êxtase
deixou-a tão satisfeita quanto agora –
com os dois unidos, formando uma
totalidade.
Callie envolveu-o mais. Era como se
fizesse parte dele. As emoções
afloravam, preenchendo o vazio outrora
ocupado por medo, resistência e
solidão. Queria retribuir o prazer que
ele proporcionara. Dar-lhe...
O choque abrupto do corpo dele
contra o seu repercutiu em seu cérebro.
Agarrou-se
instintivamente
nele,
curvando-se sobre ele para facilitar as
intensas investidas. As mãos dele

deslizaram para segurar os quadris e
cravou os dentes no pescoço dela, numa
mordida carinhosa que bombeou prazer
pelas veias de Callie.
Os olhos de Callie estavam se
fechando quando percebeu um
movimento no quarto. No espelho da
parede, viu Damon, másculo e
imponente,
com
suas
nádegas
retesando-se a cada investida. Seus
bíceps imensos ao segurá-la. Pernas
brancas envolviam sua pele morena,
dedos claros agarravam seus ombros
largos.
Juntos, pareciam... pareciam...
Uma intensa investida final causou
um incêndio em ambos.

Um grito triunfal tomou conta do
ambiente. Os batimentos de Damon
dispararam. Os músculos dela se
contraíram, encorajando-o.
Sensações irromperam enquanto
ambos eram levados por uma onda de
prazer.
Puxou-o para perto, os dois corações
palpitando sincronicamente, realizados,
constituindo uma totalidade. Callie
vivera momentos de puro deleite, mas
agora voltava a si e estava caindo sobre
ele.
Por fim, foi percebendo que o ruído
intenso, assim como a ducha,
enfraquecia. Mesmo assim agarrou-se a

ele, resistindo ao fim da magia que os
envolvera.
Mãos fortes e delicadas pousaram
sobre ela. Uma toalha quente e fofa
envolveu-a. Um sussurro ao pé do
ouvido trouxe-a de volta à realidade.
– Relaxe as pernas. – Uma forte
pressão fê-la relaxar o tornozelo e
escorregar. Ela sentiu um alívio nos
músculos, livres da pressão, e tremeu.
Seus pés tocaram o chão, mas não
conseguiu se firmar. Estava prestes a
escorregar quando poderosos braços a
ergueram, colada a um peito que ainda
rugia, como o dela.
– Desculpe – balbuciou. – Não
consigo...

– Tudo bem, Callie mou.
Abriu os olhos cansados e percebeu
que Damon a observava. Sua expressão
era-lhe estranha: de doçura e
perplexidade. Ademais, estava muito
cansada para entender.
Callie sorriu num raro momento de
paz. Virou-se para ele. Pousou a mão
em seu peito.
Era como se estivessem distantes do
mundo e das preocupações de Callie.

CAPÍTULO 10

CALLIE ACORDOU sozinha.
Era cedo, a julgar pela luz entrando
pela cortina. Alisou a cama. Estava
quente do corpo de Damon. A mistura
do aroma picante e da fragrância de
sexo trazia à tona recordações que a
deixavam sensibilizada.
Fora preenchida por emoções tão
intensas e caóticas que mal faziam
sentido. Da noite em que foram

amantes. Para seus sentidos exaustos,
“amantes” parecia apropriado. Era mais
que sexo.
Houve carinho, uma gentileza que
remetia à tarde na ilha, quando Damon
deixou o mundo mais alegre. Quando,
pela primeira vez, tudo pareceu fazer
sentido.
Estaria enganada outra vez?
Callie esforçou-se para abrir os olhos,
como se a luz matinal pudesse eliminar
as fantasias daquela noite incrível.
Sentia dores que jamais havia
sentido. Seu corpo estava exausto, os
membros pesavam. Ainda assim, sentiase enérgica como nunca. Queria pular

da cama e dançar, escalar uma
montanha e gritar de alegria.
Nos braços dele, sentira-se... querida.
Olhou para o travesseiro vazio e
levou um balde de água fria.
Não era difícil de entender. Ele
conseguira o que queria e agora estava
se preparando para o dia que tinha pela
frente. Outro dia do qual ela não faria
parte.
A diferença era que, agora, em vez
de se contentar com um abraço que os
deixasse insatisfeitos e excitados,
Damon aproveitara seu corpo ao
máximo. Várias vezes.
Não passava de uma fonte de prazer.
E, claro, um tempero para seu plano de

vingança.
Ela satisfazia seu ego.
Passara anos satisfazendo o do
marido.
Mas Damon era muito mais perigoso
que Alkis. Estava mais próximo de seus
sentimentos há muito esquecidos.
Arrancara sua máscara, o verniz de
indiferença sofisticada que escondia
uma mulher vulnerável.
A noite especial de ontem fora fruto
de suas fantasias proibidas. Aquilo não
podia ofuscar sua determinação para
manter-se distante e poupar-se da
tragédia que seria caso ele se
aproximasse.

Tinha que fazer como Damon – não
misturar
sexo
e
sentimentos.
Compartimentalizar sua vida. Ele jamais
teria devaneios românticos em relação a
ela.
Callie estava determinada. Seria
forte. Damon nunca perceberia o
quanto a afetara.
O quanto, por um breve período,
resgatara seus sonhos ingênuos de uma
vida feliz ao lado do homem perfeito.
Atencioso e paciente quando precisava.
Gentil, porém imponente e sedutor.
Correntes de encanto e êxtase que a
fizeram parar de pensar.
Dera-lhe controle. O direito de
escolher. A noite fora especial.

Mas não teve escolha. Fora enredada
pelo seu poder de sedução. Não pôde
fugir. E ele sabia.
O homem por quem se encantara era
mera fantasia. Não era Damon. Não
podia esquecer isso.
Callie seguiria seu caminho assim
que possível. Traçaria um futuro para si.
Apesar da falta de qualificação e
experiência, encontraria um emprego e
economizaria
dinheiro.
Independentemente do tempo que
levasse, juntaria o suficiente para
realizar seu sonho. Seria livre.
Daria tudo certo.
Por que, então, seus olhos ficavam
marejados ao alisar o travesseiro vazio?

Por que seus lábios tremiam a ponto de
ter que mordê-los para suprimir a dor
na garganta?
Era o que temia. Não a proximidade
física, embora tenha vivido momentos
de hesitação quando Damon a
conduziu por caminhos e experiências
completamente inéditos. Era como se
fosse sugada por uma força maior, que
ameaçava roubar-lhe a identidade.
A força que a ligava a Damon era
mais que chantagem. A carência se
tornara um grilhão, prendendo-a a um
homem que nunca corresponderia.
Callie resistiria. Não seria mais
vítima.

DAMON ASSOVIOU baixinho enquanto
secava o cabelo. Mesmo o banho frio,
indispensável para controlar a libido,
não suprimira seu humor radiante.
Finalmente Callie era sua. E estava
tão gostosa quanto da última vez.
Mais. Estava... mais.
Nunca se sentira tão saciado após
uma noite de amor.
Suas mãos paralisaram quando
pensou que Callie era diferente das
outras.
Ele ignorou esse pensamento. Era
simplesmente uma satisfação sexual
plena. Nunca fora tão bom. Callie era
mais do que imaginou.

Sentiu-se tentado a ficar na cama,
ignorando suas reuniões.
Damon
orgulhava-se
de
seu
autocontrole. Não chegara até ali
procrastinando. Não pretendia mudar
agora. Sobretudo porque, apesar de
toda a entrega dela, sabia que
permanecer seria submissão.
Nenhuma mulher mandaria nele.
Foi pendurar a toalha e parou
quando algo lhe ocorreu. Sentia mais
satisfação por finalmente ter Callie que
pela aquisição da empresa – que já lhe
parecera inalcançável.
Uma mulher, aquela, importava mais
que seu objetivo de anos.

Sentiu um arrepio na nuca e um frio
na barriga.
Impossível!
Vestiu-se rapidamente, controlando
os pensamentos subversivos que
tentavam atrapalhá-lo.
Sua ânsia por lucro diminuíra
bastante nos últimos anos. E agora fora
extinta por uma mulher.
Não! Não era homem de uma
mulher só. Não até chegar a hora de
constituir família.
Callie correspondeu às expectativas,
mas
de
maneira
diferente.
Surpreendente. Beirava a inocência.
Seria possível? Depois de anos
casada? Depois da abordagem da

primeira vez, sem qualquer inibição?
Não, era uma tática para seduzi-lo.
Sua aparente inexperiência só mostrou
o quanto era capaz de adequar-se às
fantasias masculinas – bancando a
ingênua para atiçá-lo.
Demorou-se nos botões da camisa,
lembrando a expressão dela ao
ajoelhar-se: hesitação e entusiasmo.
Interpretara uma virgem.
Sabia bem que ela era tudo, menos
isso.
Ajeitou a camisa e pegou um pente.
Sentiu um calor na virilha e o fervor no
peito se dissipou gradualmente.
Teria sido enganado de novo? Não
sabia que ele a queria exatamente como

era? A Callie verdadeira. Não uma
personagem
cuidadosamente
construída, como a que criou a mando
do tio.
Preferia
que
ela
evitasse
dissimulações. Era um cara direto. Só
queria sinceridade. Seria pedir demais?
– NÃO PRECISA fingir que está dormindo.
A voz de Damon estava bem
próxima. Callie preferia que ele a tivesse
deixado quieta antes de sair. Precisava
se recompor antes de encará-lo.
Talvez quisesse se gabar. Os homens
adoram.
Por um momento, pensou que com
ele seria diferente.

Abriu os olhos com relutância. Ele
estava ao lado da cama, vestido, com o
cabelo molhado. Era alto, moreno,
maravilhoso.
Sentiu um aperto no peito e um nó
na garganta. Queria percorrer o dedo
pelas linhas enviesadas do nariz dele,
sentir o calor daqueles lábios junto aos
seus e as mãos dele em seu corpo.
O que ele falou em seguida diminuiu
seu desejo.
– Toda manhã, quando vou
trabalhar, você finge estar dormindo.
Chega disso.
Callie sentiu-se constrangida, mas
não falou nada.

– Odeio ser ignorando, sobretudo na
minha própria cama. – Seus lábios
curvaram, esboçando um sorriso
satisfeito. – Principalmente depois de
ontem.
Subitamente, Damon virou um gato
perigoso e faminto. E Callie, uma
ratinha acuada, sentada na cama,
ocultada pelo lençol.
Devia ter se vestido antes.
Ele se aproximou da cama e olhou
para ela.
– Um beijo seria uma ótima maneira
de se despedir de mim.
Sua voz grave e seu olhar penetrante
diziam que queria mais.
Ele a desejava outra vez.

À luz do dia, ficava ainda mais
intimidada. A paixão dele a deixava
completamente vulnerável.
– Faz parte das atribuições da
amante? – A rebeldia era a sua única
arma.
Ele inclinou a cabeça para trás,
encolheu os ombros e deu muxoxo.
– Depois de tudo o que passamos, vai
negar um beijo? – A raiva ressaltou o
tom frio.
– Não. – O tom desafiador diminuiu.
Tentar resistir enquanto seu corpo
desejava Damon era uma batalha
perdida. Queria se perder nos braços
dele, deixar-se levar até o paraíso que
descobriram juntos.

Procurou o roupão, mas não havia
nada para se cobrir. Então se enrolou
no lençol, ficando de joelhos.
Sentiu a mão cálida de Damon no
rosto, sua respiração tentadora sobre os
lábios dela enquanto Callie se esticava
na direção dele.
Queria tanto quanto ele. Não
adiantava tentar esconder. Callie sentiu
uma palpitação de ansiedade.
– Melhor, bem melhor – murmurou
ele. – Mas sem se fingir de ingênua.
Com a outra mão, ele arrancou o
lençol. Horrorizada, puxou o lençol de
volta e ficou enrolada nele.
– Do que está falando?

Ele
assumiu
uma
expressão
incompreensível. Seus lábios estavam
rígidos.
– Não precisa se fazer de inocente,
fazer joguinhos para me atiçar.
O olhar dele brilhava, passando pela
barriga dela e descendo até lá, onde
começou um pulso de excitação.
– Não estou fazendo joguinhos –
retrucou, desnorteada. – Não sei do
que está falando.
De repente, Damon sentou-se na
cama e segurou o queixo dela.
– Até parece que nunca ficou nua na
frente de um homem.
– É errado sentir constrangimento
por ficar pelada? – Indignou-se.

– Não precisa fingir. Sei quem você é.
Seu corpo gelou, apesar da mão
quente de Damon sobre sua pele.
Aquilo parecia um insulto. Como se ele
estivesse fazendo um favor.
– Não entendi. – Ergueu o rosto.
Impaciente, ele ergueu a cabeça e
afastou a mão. Porém, seu olhar
deixou-a hipnotizada como um
passarinho diante de um predador.
– Ontem, você fingiu que nunca
tinha feito sexo oral, que era
inexperiente.
Apesar do ar de reprovação, Callie
percebeu uma centelha de desejo
quando ele lembrou o que fizeram no
banheiro e ali, naquela cama.

Ela corou de constrangimento.
Queria desviar o olhar, mas era
melhor não fugir.
– E era verdade. Algum problema?
O choque na expressão de Damon
seria patético, não fosse tão ofensivo.
O que pensava dela?
Então lembrou: mais uma socialite
sem valores que vivia fazendo compras
e tendo casos.
Toda a felicidade de fazer amor com
Damon durante a noite estava aos
pedaços.
Tudo bem, pensou, ignorando o
lamento silencioso de sua alma ferida.
Não passara de ilusão mesmo. Melhor

encarar a verdade agora do que nutrir
sonhos vãos.
– Já disse, não banque a inocente. –
Sua
mandíbula
projetou-se
violentamente. – Se eu quiser fazer
joguinhos na cama, aviso. Até lá, sem
mentiras.
– Não estou mentindo. – Sua voz
tremia com tanta indignação que
precisou controlá-la. – Não fiz o que
você queria? É suficiente.
Mais que suficiente. A alegria sentida
na cama estava maculada. Sentia-se
suja.
– Sua postura me ofende –
acrescentou, entre dentes. Já bastava têla julgado antes. Mas agora, depois do

seu momento íntimo, a dor de ser alvo
de desconfiança era lancinante.
Ela fizera bem em não esperar mais
que sexo.
O problema era que a experiência
fora avassaladora. Não conseguia
superar a ideia de que havia um vínculo
especial entre eles.
Damon provavelmente era “especial”
com todas, concluiu amargamente.
Ainda assim, sentia-se traída.
– Minha postura? – Ergueu-se tão
bruscamente que a deixou tonta. Era
intimidador, mas pelo menos já não
estava próximo a ponto de perturbá-la.
– Acho que você precisa repensar a sua.

– Tenho que consultar algum manual
de etiqueta para amantes? Devo ter
violado alguma norma. – Callie
recorreu ao sarcasmo, na esperança de
disfarçar a mágoa. – Não me diga que
não o satisfiz – falou em tom de
deboche, antes que ele pudesse replicar.
– Seria mentira. Você ficou bem
satisfeito. Várias vezes.
Mesmo que fosse uma amante
incompetente, a experiência dele
compensara. Ingênua, Callie pensou
que sua vontade havia agradado tanto
quanto da primeira vez. Enganara-se
completamente.
– O que quer dizer? – Ele cruzou os
braços. Mesmo usando camisa de seda

e calça sob medida, parecia perigoso,
como se a civilização fosse um verniz
sobre o homem primitivo. – Que seduzi
uma inocente naquela praia? Mesmo
depois de um casamento de seis anos? –
Sua expressão descrente deixou-a
arrepiada. – Não acredito em contos de
fada, Callista.
Seu tom, seu comportamento, a
imagem do tio chamando-a pelo nome
completo: era a gota d’água.
Depois de anos engolindo as mágoas
de um casamento desastroso, aquilo era
demais. Foi tomada de ódio puro,
esquecendo o resto.
Callie
virou-se
e
empilhou
travesseiros. Reclinou-se e fingiu

ignorar o olhar dele.
– Esqueça – resmungou em um tom
verdadeiramente desdenhoso. – Nunca
disse que era virgem. Já tiveram essa
honra.
Fez uma pausa, lembrando-se de que
sua ingenuidade nada significara para o
primeiro amante.
O primeiro homem a traí-la.
Foi acometida por emoções obscuras
e cruzou os braços, inclinando o queixo
numa
atitude
supostamente
indiferente.
– Mas não sou a vagabunda que você
pensa. Meu histórico sexual não é tão...
movimentado quanto imagina. Há
muito tempo não tenho um amante.

– Amante, marido, tanto faz. – O
tom ríspido de Damon evidenciou sua
irritação.
– Eu quis dizer que... – Fez uma
pausa e virou-se para encará-lo. Se
dependesse do desgosto dela, ele
explodiria. – …meu marido era
impotente. O casamento nunca foi
consumado.
Esperou que ele absorvesse a
revelação.
Surpreso, arregalou os olhos.
– E – prosseguiu, com um tom
cortante de quem teve o orgulho ferido
– sempre fui fiel. Ao contrário das
mulheres com quem você deve ter se
envolvido, nunca traí meu marido.

Um silêncio pairou, carregado do
sangue fervente dela, das dúvidas
silenciosas de Damon e do eco daquelas
palavras.
– É para acreditar? – Sua voz estava
no limite. Callie percebeu que
finalmente o abalara, mas não se
contentaria com tão pouco.
– Francamente, Damon, não dou a
mínima se não acredita. Fui chamada
de mentirosa, então resolvi esclarecer.
Ele que pensasse o que bem
entendesse. Ela não ligava.
Depois de anos sendo chamada de
interesseira, e de adúltera pelo marido,
despejar a verdade era libertador.

Tirou um peso dos ombros, como se
compartilhar aquilo pudesse diminuir a
dor de anos.
Talvez recomeçar seria mais fácil que
imaginara. Talvez devesse simplesmente
agarrar-se àquilo que desejava. Olhou
para a luz que entrava pelas cortinas.
Pensar assim lhe deu coragem.
– Já que não o satisfaço, Damon,
acho melhor rompermos o acordo. –
Lançou uma olhadela e viu-o de
sobrancelhas franzidas, estranhamente
rígido. Parecia ter levado o maior
choque de sua vida. – Ofereci o que
você queria – prosseguiu –, fiz minha
parte.

Recostou-se nos travesseiros. Quando
estivesse longe dali, longe das
armadilhas de desejo que a enredavam
sempre que Damon estava por perto,
iria recomeçar.
– Vou embora hoje mesmo.
SEU CABELO loiro e despenteado
emoldurava o rosto e cascateava nos
seios e ombros nus. Enrolada num
lençol, não fazia jus à autoridade que
adquirira.
Mas era de tirar o fôlego: muito
sensual, porém séria.
Tão imponente quanto uma princesa
guerreira outorgando um decreto.

A libido dele atingiu níveis absurdos.
Jamais vira uma mulher com uma
combinação tão deliciosa de mulher
decidida e amante sedutora.
Havia poder nela, um poder vital que
não estava lá antes. Mesmo nos seus
momentos mais arrogantes, mesmo
quando discutiam, ela não fora tão
hipnotizante.
Foi tomado de culpa. Será que falava
a verdade? Segundo seus instintos, sim.
Seduzira uma mulher que, embora
longe de ser ingênua, não tinha a
experiência sexual imaginada por ele.
Isso não anulava seu plano com o tio
ou o casamento por interesse. Porém, o
fato de nunca ter ido para a cama com

o marido talvez explicasse seu apetite
sexual.
Mas a coisa mudava de figura.
Teria
sido
muito
exigente?
Apressado? Ele se mostrou insaciável,
deu liberdade total a seus desejos
reprimidos.
Contudo, apesar das hesitações
ocasionais, ela correspondeu ao seu
desejo. Só de pensar nela na cama já
enlouquecia.
Era como se fossem feitos um para o
outro... algo que jamais ocorrera com
outras mulheres e tirava o peso de sua
consciência.
Não podia deixá-la escapar. Não
agora.

– Você não vai a lugar nenhum. –
Falou com uma voz repleta de desejo e
tensão.
Callie virou a cabeça, lançando um
olhar de sedução, de feiticeira. Deixarao
absolutamente
enfeitiçado.
Consumido por desejo, esquecendo-se
do resto.
Nem sinal de vulnerabilidade desta
vez. Nada da mulher ingênua e
angustiada a bordo do Circe que
despertara todos seus instintos de
proteção.
A lembrança dela à noite e a imagem
dela agora, cheia de orgulho e ousadia,
deixavam-no sem ar.
– Como é?

Damon esboçou um sorriso. Era
mesmo uma mulher de atitude.
Superior. Irresistível.
– Você fica aqui.
Até a expressão de surpresa em seus
lábios rosados mexia com ele. Então ela
pensava que iria embora depois de uma
noite?
Ou era muito ingênua ou estava
armando algo maquiavélico.
Ele pôs-se a andar pelo quarto,
pensativo.
– Você não tem escolha.
Virou-se e encontrou-a sentada,
tensa, nariz empinado e olhos em
chamas.

Sentiu um aperto no estômago e foi
tomado de sensações estranhas.
Não podia deixá-la partir.
– Não? – Pausou, esperando que ela
recuasse.
– Fiz minha parte! – Inclinou-se para
enfatizar seu argumento.
Ele olhou para o traço de colo que
surgiu quando ela baixou um pouco a
mão. Com muito esforço, voltou a
encará-la.
– Você devia ser minha amante pelo
tempo que eu quisesse. – Caminhou em
direção à cama, lutando contra a
gravata que apertava sua garganta. – E
ainda quero. Uma noite não é nada.

Discutiremos sua partida em alguns
meses.
Por que sentia tanto prazer em
provocá-la? Os olhos dela acenderam
uma chama que acabou com todos os
seus escrúpulos.
Nenhuma mulher jamais o afetara
daquele jeito.
Ela congelou, abriu a boca como se
lhe faltassem palavras.
– Lamento. Uma noite foi mais que
suficiente.
Seguiu-se um silêncio constrangedor
enquanto o encarava de maneira
desafiadora. Por fim, desviou o olhar
para a janela.
Não estava tão segura, então.

– Não quero você – disse ela, em alto
e bom som. Mentir assim não era fácil.
– Nunca quis. E seu ego não admite
dormir com uma mulher contra a
vontade dela. – Seu tom triunfal o
irritou mais.
– Mentirosa – sussurrou enquanto
tirava a gravata. Claro que queria.
Observou-o de olhos arregalados. –
Você não me convenceu. Não vai
embora.
– E por que não? – indagou com
frieza. – Está ameaçando ir atrás da
minha prima? Você adora ameaças,
hein?
Damon balançou a cabeça. Não
queria virar genro de Aristides Manolis.

– Não preciso de ameaças, princesa.
Angela não tem nada com isso. É entre
nós dois.
Esboçou um sorriso ao se aproximar.
Ela engoliu em seco, olhos fixos nele.
– Você me quer. Quer ficar aqui,
comigo. – Apontou para a cama
desarrumada. Com a outra mão, abriu
o primeiro botão da camisa. E o outro.
E mais outro.
Por um instante, Callie abriu a boca e
os olhos dela brilharam.
Damon tirou os sapatos e as meias.
Quando se endireitou, ela havia se
afastado, cobrindo o pescoço com o
lençol.

– O que está fazendo? – O tremor em
sua voz era evidente. Ela mantinha o ar
de superioridade diante das atitudes de
subalternos como Damon. Mas os olhos
a contradiziam.
Ah, Callie. Por que resistir? Por que
não admitir que, pelo menos agora, era
o homem capaz de fazer seu sangue
ferver? De oferecer tudo o que
desejava?
Foi tomado de prazer ao lembrar-se
de que fora o único nos últimos seis
meses. Aquilo mexeu com seu ego
masculino.
Como se tivesse se guardado para ele.
Loucura. Claro que não era verdade,
mas não diminuía sua excitação.

– Mostrando que você está
enganada.
Damon foi tirando a camisa e
percebeu que ela acompanhava o
movimento.
Cadê sua indiferença, princesa?
O cinto escorregou para o chão
quando ele subia na cama. Avançou
lentamente. Callie encolheu-se de olhos
arregalados.
Seus joelhos tocaram os pés, as
pernas, as coxas de Callie. Ela apenas
olhava, numa atitude de desdém
aristocrático. Mas agora já a conhecia
bem. Sabia que por trás daquela
fachada havia um coração tão sedento
quanto o dele.

Ficava imensamente excitado.
Callie era excitante.
Seu coração pulsava ao sentir o calor
de Callie sob ele. Respirou fundo,
sentindo a doce fragrância feminina e o
cheiro de sexo.
– Não vou mudar de ideia –
despejou, mas era mero fingimento.
Seus mamilos estavam durinhos como
frutos silvestres sob o lençol. O
movimento do peito de Callie
denunciava sua respiração acelerada.
– Você me quer, não é, Callie?
Ela balançou a cabeça, com os lábios
apertados.
Damon pensou em beijá-la até que
capitulasse. Mas não bastava. Queria

ouvi-la admitir que seu desejo era tão
forte quanto o dele.
Apoiado sobre ela, sem tocá-la,
baixou a cabeça e beijou-a exatamente
entre o pescoço e o ombro.
Damon deu-lhe uma mordidinha e
foi retribuído com uma tremida.
Observou a marca na pele e repetiu o
carinho. O ritmo da respiração dela
acelerou, perdeu o controle.
– Diga que me quer.
Callie tentou fugir. Ele a impediu,
segurando seus seios ardentes sob o
lençol.
Sentiu uma corrente de energia na
virilha. Perguntou-se se conseguiria

manter um ritmo lento e insinuante
apesar da libido.
Callie fizera dele um homem
irreconhecível.
Ela arquejava enquanto ele beijava
seus ombros e seu pescoço.
– Diga, Callie. Ou vá embora.
Acariciou os mamilos dela com
movimentos circulares.
Callie gemeu ao ser tocada num
ponto sensível.
O que deveria ser uma tortura erótica
para ela o afetava também.
– Eu...
– Diga. – Beijou novamente seu
pescoço.

– Eu... preciso de você, Damon. –
Sua voz estava deliciosamente rouca.
O coração dele falhou ao sentir
dedos delicados acariciando seus
ombros, deslizando até o peito, subindo
e descendo, descendo...
Sentiu-se aliviado.
Precipitou sua boca sobre a dela,
como um marinheiro desembarcando
no porto após uma longa e arriscada
viagem.
Em vez do triunfo pela rendição,
sentiu uma onda de calor e de carinho
inédita.
Por um instante, ficou intrigado. Mas
logo o amor de Callie o fez se esquecer
de tudo.

CAPÍTULO 11

– OBRIGADO

hospitalidade,
Damon. Foi uma reunião produtiva. E
foi um prazer conhecê-la, Callie. Espero
poder retribuir a gentileza.
Callie sorriu.
– O prazer foi meu, Paulo. – Vira
aquele senhor apertar a mão de
Damon, surpresa com o quanto
simpatizava com seus amigos e sócios.
PELA

No almoço de negócios no pitoresco
Porto de Mikrolimano, Damon
revelara-se um ótimo anfitrião e um
empresário perspicaz.
Empresários
ricos
e
suas
companheiras estiveram presentes.
Agora, a maioria deixava a marina
rumo às limusines que os aguardavam.
Ninguém tinha pressa; apreciavam a
companhia de Damon.
– O prazer é meu – respondeu
Damon, sorrindo. – Estamos loucos
para aceitar o convite.
Iriam para o Brasil? Callie olhou
espantada para Damon.
Ele lançou um olhar enigmático.

– Preciso encaixar uma ida à América
do Sul nos próximos meses.
Callie aceitou. Estavam juntos há
várias semanas. Ainda não se habituara
à intensidade do relacionamento.
Diferentemente do esperado, entregarse a Damon não foi complicado. O
prazer era mútuo. Nada de vencedores
ou perdedores. Apenas um desejo
intenso compartilhado.
Porém, estava assustada e encantada
com a mulher sensual que descobriu
em si. Mas uma paixão tão intensa
tendia a se extinguir. Damon não vivia
trocando de mulher por se cansar
delas?
Mas ele falou em meses.

Sobreviveria a meses com ele sem
sofrer danos? Ela já queria mais, queria
decifrar o homem que a seduzia na
cama, mas era um enigma fora dela.
– E Callie vai junto? Perfeito. – Callie
virou-se e viu Mariana, a bela esposa de
Paulo. – Vou poder mostrar os lugares
que mencionei.
Seu sorriso era sincero e Callie o
retribuiu. Ainda estava surpresa pela
forma calorosa como Mariana e as
outras
esposas
a
trataram.
Normalmente, mulheres bonitas com
maridos ricos são ciumentas.
– Vão às compras – resmungou
Paulo, teatral. – Ainda vou à falência.

Mariana deu-lhe um soquinho no
braço e beijou-lhe a bochecha.
Callie pegou-se com inveja daquele
casal mais velho. Sua experiência fizeraa desconfiar do casamento. Sobretudo
porque os amigos do ex-marido tinham
relacionamentos frustrados, baseados
em interesses.
Sempre desejara independência. Mas
ao olhar Mariana e Paulo...
– Você vai gostar, Callie. – A voz de
Damon interrompeu seus pensamentos.
– A casa do Paulo é luxuosíssima. E
vamos visitar meus resorts. Prazer
garantido.
Pensava que era isso que ela queria?
Ia retrucar, mas ficou sem palavras

quando a tocou. Passou o dedo numa
mecha de cabelo por trás da orelha e
deslizou por sua bochecha, chegando ao
queixo. Estava prestes a beijá-la.
Seus olhos passaram a brilhar
intensamente.
Ficou arrepiada ao lembrar-se dos
lábios dele nos seus. O furacão de fogo
quando suas línguas se encontravam e
perdiam o controle.
– Vamos, Paulo. Temos que ir.
Surpresa, Callie desviou o olhar de
Damon e virou-se. Corou diante do
sorriso compreensivo de Mariana e da
risada de Paulo.
– Muito bem. Temos negócios
pendentes, não? – Agitou as

sobrancelhas com tanta ênfase que
Callie precisou conter o riso.
Conduziu a esposa à porta da cabine
principal do navio.
– Aliás, Damon, você ainda tem
aquela cadela? – Os olhos de Paulo
reluziam.
– O que vou fazer com uma cadela?
Estou sempre viajando.
– Ela não morreu? – Mariana parecia
chateada.
– Claro que não. Depois de todos os
cuidados de Damon?
Callie olhou-os intrigada.
– Cadela?
– Uma filhotinha – respondeu
Damon, imediatamente. – Feriu-se

num acidente de carro.
– Pobrezinha. Estava sendo treinada
para cão-guia – acrescentou Mariana –,
mas foi atropelada. Estávamos atrás e
Damon parou para ajudar.
– Levamos horas para encontrar um
veterinário e nos acertar com os donos
– completou Paulo.
– Acertar?
– Queriam sacrificá-la – respondeu
Damon, rispidamente. – Porque teve
uma pata amputada. Acabei ficando
com ela.
– Comprou, não é? E pagou o
veterinário.
– Era o mais fácil. Dinheiro não falta.
– Damon parecia querer mudar de

assunto.
Mariana inclinou-se e deu-lhe um
beliscão maternal na bochecha.
– Você fez mais que isso. Levou a
coitadinha para casa. – Voltou-se para
Callie. – E passou a financiar uma
instituição de treinamento de cães
quando descobriu o tamanho da fila de
espera.
Fascinada, Callie observou Damon
corar.
– Mais um projeto para fazer justiça –
murmurou Paulo. – Você está sempre
querendo melhorar o mundo. – Olhou
para Callie. – É uma obsessão.
– Sempre exagerado, Paulo. Você
faria o mesmo.

– Mas e a cachorrinha?
Damon deu de ombros.
– Meu sobrinho gostou dela e acabou
adotando. – Esfregou o queixo, com
expressão pesarosa. – Mas insiste em
trazê-la para velejar. Cuidar de uma
criança e de um cachorro de três patas
dá trabalho.
Paulo irrompeu numa gargalhada e
bateu no ombro de Damon.
– Sabia que não se livraria dela.
Queria que você fosse generoso assim
nos negócios.
– Para você me extorquir? Vai
esperar sentado.
Despediram-se outra vez e Damon
conduziu os convidados até a terra

firme.
Ele era implacável quando desejava
alguma coisa. Mas tinha um lado
surpreendentemente
gentil.
Fora
compreensivo no Circe, providenciando
um helicóptero para levá-los de volta.
Que ricaço egocêntrico mimaria a
mulher que chantageou para levar para
a cama? Adotaria um cachorrinho?
Fundaria uma instituição de cães-guia?
Não o entendia. Era cruel, vivia em
função da vingança e do prazer sexual,
mas era mais complexo que isso.
Fazer caridade não o tornava um
santo. Alkis também o fazia,
aconselhado pelos contadores, pelo
abatimento fiscal. Não pela causa em si.

Viu Damon voltar e desejou
compreendê-lo, descobrir seu papel no
mundo dele.
– O que Paulo quis dizer com “fazer
justiça”?
Ele parou e depois andou pelo
quarto.
– Exagero. – Encarou o olhar
questionador de Callie e não
prosseguiu. Seu olhar era determinado,
fazendo-a sentir-se quente e vulnerável.
Ela falou abruptamente:
– Gostou do almoço? E da reunião?
Sabia que os homens se distraíam
com aquilo que mais os interessava –
lucro e prestígio. Se aquele almoço

servia de parâmetro, Damon tinha
motivos para sorrir.
Ele deu de ombros.
– A conversa foi proveitosa. Muito
melhor discutir aqui que num
escritório. O design deste navio foi uma
atração especial.
Indicou a ampla e luxuosa cabine.
Tudo ali era perfeito para um
bilionário: os equipamentos, o design, a
decoração.
Mas Callie lembrava-se de Damon
no Circe, com o cabelo bagunçado pela
brisa marítima, familiarizado com a
liberdade plena daquele iate velho e
imponente.

Parte dela desejava reviver aquilo.
Sentira, por um breve e inesquecível
instante, que Damon poderia ajudá-la a
superar o medo.
– E você? Gostou? – Pegou-a de
surpresa. Parecia realmente curioso.
– Foi divertido. Eles são legais. –
Nenhum compromisso social durante
seu casamento a divertira tanto.
Qual era a diferença? As pessoas? Os
amigos de Damon não eram pedantes
como os de Alkis. E a companhia? Com
Alkis, sentia-se limitada, julgada,
intimidada. Com Damon...
– Você fez sucesso – murmurou, com
uma expressão sedutora. – Os homens

ficaram impressionados, com inveja. –
Sorriu triunfante.
Callie cerrou os lábios e sentiu um
aperto bastante familiar no peito.
Então foi por isso que a convidou.
Devia ter imaginado.
Fora chamada para entreter as outras
mulheres enquanto os homens
tratavam de negócios e para atender os
convidados em geral. Sentira prazer em
lhe ser útil. Talvez a respeitasse, ainda
que pelas suas competências sociais.
Era ridículo se contentar com tão
pouco!
O brilho dos olhos dele tinha outra
versão. As coisas eram mais complexas.
Ela lembrou-se dos olhares de interesse

velado dos homens no almoço, de como
se esforçavam para chamar sua atenção.
Damon queria mostrar o quanto era
conquistador. Mostrar sua última
aquisição, sua amante.
Sentiu um gosto amargo de
frustração.
Devia saber. Para ele, era só um
objeto. Enquanto conversava com as
mulheres sobre móveis e decoração,
quase esquecera.
Damon não estava interessado em
sua inteligência ou personalidade. Só
ligava para o corpo dela.
– Acho que Rafael teria roubado você
de mim, se pudesse.

Damon ficou olhando, esperando a
reação dela. O que ele queria? Prazer?
Vivia num mundo onde ricaços
trocavam de amante a todo momento.
Onde as mulheres caçavam homens
ricos e poderosos.
Seu estômago revolveu. Sentira-se
livre quando Alkis faleceu, mas agora
estava à mercê de um homem
novamente.
– Você era a mais linda de todas.
Callie ergueu as sobrancelhas.
Não se iludia com sua aparência.
Tinha olhos bonitos, mas a boca e o
nariz eram muito grandes. Só não era
desengonçada porque tinha uma boa
postura. Boa parte de seus encantos era

artificial

roupas,
atitudes,
comportamento. O formato e a cor dos
olhos criavam uma beleza ilusória.
Por seis anos fora um troféu para
massagear o ego do marido e até para
atrair
clientes,
como
descobriu
posteriormente.
Fora explorada, exibida e tratada
como um manequim. Tinha péssimas
lembranças.
A última coisa que precisava era de
elogios à sua aparência.
Virou-se e foi até o aparador, com
sua taça de champanhe quase intocada.
Virou a taça na boca e engoliu. O
champanhe borbulhava, dos lábios até a
língua,
distraindo-a
das
suas

frustrações, embora não pudesse
esquecê-las.
Alguns meses de liberdade e voltara
a envolver-se com um ricaço.
– Comemorando? – A voz aveludada
de Damon acariciou seu pescoço.
Arrepiou-se ao perceber seu tom
convidativo. Estava tão perto que seu
calor e seu cheiro tomavam conta dela.
Os lábios dele voltaram a tocar sua
nuca. Uma, duas vezes. Até ela
derreter. Mesmo com raiva, arrepiou-se
com as carícias.
A taça caiu no chão.
– Não. Só estava com sede.
Virou-se ao sentir a mão de Damon
sobre seu braço.

Encontrou-se rendida por um olhar
cortante e misterioso.
– O que houve, Callie?
– Posso até ser sua amante, mas não
gosto de me sentir desvalorizada.
– Desvalorizada? – Apertou os olhos
e se aproximou, ocupando o espaço
dela com sua imponência, sua fúria, seu
cheiro.
– Alguém ofendeu você? Quem?
Callie
balançou
a
cabeça
negativamente, surpreendida com a
raiva dele. Parecia agradavelmente
perigoso.
– Ninguém. – Virou-se e encontrouse apoiada no aparador. – Falava de

você, que me trouxe aqui para me exibir
aos seus amigos.
Os olhos de Damon estavam em
chamas, mas suas palavras foram gentis.
– Você pensa que a convidei por isso?
– Pelo que mais? Até então, meu
lugar era na sua cama. Agora, você fica
aí, se gabando pela inveja dos amigos.
– Tudo isso por conta do meu
comentário? – Franziu o cenho.
Ela deu de ombros.
– Os homens são assim.
– Não no meu caso. – Foi um rugido
silencioso que deixou-a arrepiada. –
Não preciso da inveja alheia para me
sentir bem. – Inclinou a cabeça até que
ela pudesse sentir sua fúria. – Você está

me confundindo com outro. – Estava
evidentemente indignado. – Seu
marido, talvez?
Callie desviou o olhar. As lembranças
de Alkis e sua possessividade ainda
estavam bem vivas.
– Não falo sobre meu casamento. –
Sempre evitava tocar nesse assunto.
– Você me julga com base nele. Não
é?
Callie continuou olhando para o
porto, intimidada com a indignação
dele.
– Não lhe ocorreu que apenas
quisesse ficar com você ao meu lado?
Callie congelou.

– Por achar que os convidados
gostariam da sua presença, e eles
gostaram. E porque você gostaria deles.
Voltou-se para ele lentamente.
Ele parecia irritado. Impaciente.
Sincero.
– Você vê ofensa onde não há.
– Desculpe – murmurou, induzida
pelo sentimento de culpa dele. – Gostei
de hoje. Principalmente de conhecer o
Paulo e a Mariana, que têm um
relacionamento
muito
bonito.
Obrigada.
Ele inclinou a cabeça.
– Você parece surpresa.
Torceu os lábios de tristeza.
– Casamentos felizes são raros.

– Incluindo o seu?
Callie suspirou. Ele não desistiu.
– Sim. – Tentou desviar o assunto. –
É legal ver um casal tão dedicado.
– Meus pais eram assim. –
Surpreendeu-a com o comentário
pessoal. – E todas as minhas irmãs estão
bem casadas.
– Vocês parecem bem próximos. –
Talvez se tivesse um irmão ou uma
irmã, ainda teria alguém que a amasse.
Damon aproximou-se.
– Próximos até demais. Elas
reclamam que as superprotegia demais
antes de casarem.
– E agora investe suas energias
ajudando cachorros abandonados? –

Ou vingando-se da família que
arruinou a sua.
– Não todas as energias. – Falou com
voz aveludada, alisando o rosto de
Callie.
Callie fechou os olhos e aproximouse, levada pelo desejo existente entre
eles. Era sempre igual – algo
incontrolável.
Um
desejo
autossuficiente, cada dia maior.
– Tenho que ir. – Estava rouca. –
Tenho um compromisso. – Precisava se
convencer de que tinha um resquício de
autocontrole.
A mão dele congelou.
– Compromisso?

– Com meu advogado. Não quero
me atrasar.
– Pensei que fosse usar uma roupa
recatada. – Indicou o terninho bege, a
camisa turquesa e o salto alto dela. –
Mas eu gostei. – O comentário acelerou
seu coração. Baixou a mão até a lapela,
deslizando-a pelo tecido.
– Está com algum problema?
Ela deu de ombros, com parte de sua
atenção voltada para a mão dele.
Conversariam sobre a sua herança.
Seu tio não falou nada sobre ela e
quando
ligava
para
Angela
conversavam mais sobre tia Desma.
Sobre isso, pelo menos, havia boas

notícias: os médicos acreditavam que
responderia bem ao tratamento.
– Nada que eu não consiga resolver.
Analisou-a com um olhar penetrante.
Sentiu-se totalmente exposta.
– Quando é a reunião? – Seus olhos
sugeriam que tinha outros planos para
hoje à tarde.
– Em menos de uma hora.
Damon baixou a mão, acariciando
suavemente seu seio, deixando-a sem
ar. Ele se afastou.
– Certo. Vamos. Vou levá-la.
Espantou-se com a decisão. Esperava
que a seduzisse imediatamente.
Frustrou-se.

Estendeu o braço e esperou até que o
acompanhasse, relutante. Por um
momento,
desejou
lançar-se
loucamente sobre ele e esquecer seus
problemas, como fizeram no iate.
Foi então que percebeu, como um
soco no estômago: Damon Savakis era o
seu problema.
– CALLIE? – AINDA sentia-se empolgado
ao chegar em casa. – Callie? – Entrou
na suíte principal e parou, frustrado ao
encontrá-la vazia. Não encontrou-a na
banheira, à espera dele, conforme
fantasiou.
Desde
a
mudança
para
o
apartamento em Atenas, ocupara-se

mais com as suas coisas. Não chegava a
manter segredo, mas não comentava
muito; depois do que soubera sobre seu
casamento, ele preferiu não insistir. Ela
estava se soltando.
Ele sabia que a animação dela tinha a
ver com a disponibilidade da herança.
Sorriu. Era bom vê-la contente. Já era
linda, mas agora estava radiante e
irresistível.
Damon desceu até o salão. Talvez
estivesse na sala transformada em
escritório. Bateu na porta. Silêncio.
Hesitou. Jamais invadia a privacidade
dela.
Acabou girando a maçaneta. Já havia
acontecido de não escutá-lo por estar

com fontes de ouvido. Lembrou
daquela vez na sala de ginástica. Estava
com uma roupa apertada, esqueceu que
ele chegaria, e...
Abriu a porta e parou.
Tinha uma vaga lembrança da sala
com suas cores discretas.
A lembrança sumiu tão logo viu as
novas cores, vibrantes e convidativas.
Franziu o cenho, sentindo uma
atmosfera diferente.
Entrar na sala de Callie era como
adentrar outro mundo. Algo cheio de
vida.
Perto daquele ambiente, o estilo
monocromático de seu moderno

apartamento parecia completamente
monótono.
A cama ficava no canto, deixando
espaço para uma imensa mesa de
desenho. Sobre a colcha, uma pilha de
almofadas roxas, verdes e azuis,
deixando-o louco para fazer amor com
ela.
Havia mais almofadas num sofá
baixo. Sobre a mesa de vidro do café,
um arranjo de lírios cujo cheiro doce e
sensual remetia à pele de Callie
enquanto faziam amor.
Nas paredes, uma série de... ele não
sabia o nome. Cortinas? Bordados?
Artesanato em tecido e miçangas nas
cores
do
mar,
mostrando

magistralmente os diferentes aspectos
do oceano.
Aproximou-se, admirado com um
que retratava a praia cercada de
pinheiros e a água da cor dos olhos de
Callie. Parecia de verdade.
Notou um rabisco dourado no canto:
C. M.
Afastou-se, estarrecido. Callie pintara
aquilo? Observou todas as obras. Todas
traziam as mesmas iniciais.
Callie mencionara que sabia costurar.
Mas pensou que ela fizesse apenas
panos de prato, como a mãe.
Olhou ao seu redor, perplexo. Era
uma galeria.

Por que não comentara sobre seu
talento?
Tomado de curiosidade, foi até a
mesa e olhou os catálogos e cartões de
visita de artesões que trabalhavam com
vidro e madeira. Amostras de tecido. E
uma pasta bastante manuseada. Um
projeto.
Damon estava tão absorto que não
hesitou em sentar para olhar o
documento.
Meia-hora depois, recostou-se na
cadeira ao terminar de ler as últimas
páginas.
Sua amante era um enigma.
Possuía um talento incrível. Até ele,
um filisteu em matéria de decoração,

reconhecia seu dom para criar uma
atmosfera agradável com tecidos.
Seu projeto para uma loja de móveis
de luxo era meticuloso e bem pensado.
Cometera pequenos erros, mas era algo
profissional.
Onde aprendera sobre negócios?
Com o marido? Difícil. Mas aprendera
o necessário.
Era uma mulher admirável.
Orgulhou-se de sua determinação
em abrir um negócio. Lembrou-se de
quando começou nesse ramo.
Deu
uma
olhada
na
sala,
aconchegante e sensual. Como Callie.
Pegou uma caixa estofada em seda,
com um peixe voador de miçanga na

parte superior. Sabia que era obra de
Callie. Alisou suas pontas macias, a
decoração cintilante.
Ali, na sala dela, Damon sentiu o
calor, a alegria, a magia que fazia-o
admirar Callie mais do que qualquer
mulher.
Ela o fizera mudar sua visão sobre as
mulheres.
Como no Mikrolimano, quando ela
entreteve os convidados. Sabia que seria
uma anfitriã perfeita. Não hesitou em
chamá-la, embora nunca tenha
convidado uma amante antes.
Talvez quisesse testar a reação dela
diante de tantos homens interessados.
Foi gentil, mas sem exagero. Passou a

maior parte do tempo rindo com as
mulheres, parecia nem ligar para o
rebuliço que causou até o momento em
que brigaram, posteriormente.
Por pensar que ele fosse como seu
marido? Talvez toda sua relutância
tivesse relação com o casamento.
Enganara-se sobre Callie.
Forte, independente, inteligente e
surpreendentemente responsável.
Jamais rendera-se ao ego dele.
Sempre que podia, resistia a ele.
Recusava presentes. Mexia com sua
inteligência e com a libido.
Callie era tudo, menos uma
interesseira.

Ela mexeu com ele. Pela primeira
vez, tinha outros focos que não os
negócios.
Desejava mais. Mais de Callie.

CAPÍTULO 12

– VOCÊ NÃO

devia trabalhar o dia
inteiro, Damon! Diga que você vai para
Cefalônia.
A mulher puxou-o pela manga com
suas unhas douradas na direção de seus
peitos exageradamente grandes e
firmes, como uma bola de praia.
Exibiu seus lábios vermelhos e
infestou o ambiente com seu perfume
extravagante.

– Vai ser uma festa para convidados
seletos, Damonaki – ronronou,
aproximando-se
ainda
mais
e
ignorando a companheira dele, que
estava no outro lado do salão do teatro
lotado. – Meu marido só vem no fim de
semana, mas farei de tudo para animálo. A sós – provocou-o.
Apertou-o com mais força e percebeu
o brilho ganancioso nos olhos dela.
Sentiu asco.
Uma rápida olhada na multidão fez
com que engolisse o que tinha na ponta
da língua.
– Vou estar fora na próxima semana.
E minha companheira.

– Callista Manolis? – a loira de
farmácia mal conseguia disfarçar o
ciúme. – Ela não manda em você. –
Roçou o joelho na coxa dele, que
encheu-se de raiva. – Ou – inclinou a
cabeça, afrouxando os lábios numa
expressão que ele achou abominável –,
se você levá-la, podemos nos divertir.
Os três.
– Não poderemos. – Um tom
cortante interrompeu-o antes que
pudesse dar uma resposta qualquer.
Ofereceu o braço à recém-chegada.
– Callie – murmurou, satisfeito. Vêla elegante e sensual, com um vestido
preto e de ombros à mostra era como

beber água pura após ingerir algo
tóxico.
Damon e Callie deram-se os braços.
Era aconchegante e também um alívio.
Habituara-se ao senso de retidão que
sentia junto dela.
– Nós temos planos para esta semana
– disse Callie, encarando-a de cima.
– Você nem sabe de que semana
falávamos – respondeu a outra. Seus
músculos faciais enrijeceram ainda mais
ao encarar Callie.
Callie lançou um breve e elegante
sorriso para Damon, acelerando seu
coração. Mesmo agora, num evento de
gala, era afetado pelo encanto do olhar
dela.

– Damon sempre está com a agenda
cheia – replicou Callie. – Não é,
Damon?
Surpreendeu-se com as palavras
sensuais saídas dos lábios rosados de
Callie.
Só ouvira aquele tom de voz uma
vez: quando estavam sozinhos, com ele
enlouquecendo-a de prazer. Seu corpo
automaticamente enrijeceu.
– Se você diz, glikia mou.
Gostou de vê-la bancando a malvada.
Costuma manter-se reservada em
eventos assim. Como se não se sentisse
à vontade com os VIPs.
Aproximou-se dela e sentiu o aroma
fresco. Remetia a dias de sol e amor

ardente.
Estava enciumada? Por isso que
apareceu?
A ideia muito lhe agravada. Apesar
de tê-la consigo todas as noites e de seu
amor ser bem palpável, parte dela
permanecia distante.
Ele escolhia amantes que não
quisessem envolvimentos emocionais.
Mas com Callie pegou-se querendo algo
para além da satisfação carnal. Perceber
isso deixava-o inquieto, preferia não
pensar.
– Bem – resmungou a outra –, não
quero atrapalhar o casal feliz. – Seus
olhos brilhavam. – Mas se lembre,
Damonaki – aproximou-se novamente,

com a boca molhada –, você é sempre
bem-vindo. Minha hospitalidade é
marcante.
Virou-se e saiu andando em meio à
multidão. Sentiu o movimento da mão
de Callie, como se quisesse se soltar. Ele
manteve-se firme. Olhou-o com raiva.
– Que belas amigas você tem,
Damonaki. – Não escondia a irritação,
quase cuspindo ao pronunciar o nome
ridículo. Mas manteve-se inabalável,
como se aquela cena patética não a
atingisse.
– Com ciúmes, querida? – Ela
apertou os lábios, ele cedeu. – Não
precisava do resgate, mas agradeço.

Quero só ver quando for flagrada pelo
marido bebum.
– Ele não sabe?
Damon deu de ombros.
– Provavelmente. Mas, se for um
flagrante, terá que reagir, deixar de
fazer vistas grossas uma vez na vida.
Não era de se admirar que
desprezasse essas “pessoas de bem”.
– Pronta? – Olhá-la daquele jeito
deixava-o com vontade de arrancar seu
vestido. Tinham que ficar a sós.
– Não quer ficar?
Damon enrijeceu os lábios. Apesar
de toda a entrega de Callie na cama, no
chuveiro, no sofá e até, numa ocasião
memorável, na mesa de jantar,

começara com aquilo. Ela mantinha o
ar de indiferença.
Aquilo deixava-o impaciente, mesmo
quando era excitante.
Soltou sua mão e alisou a parte
interna do cotovelo, em que ela sentia
prazer. Ficou arrepiada e com os
mamilos duros ao ser acariciada.
– Vamos para casa.
CASA. A imensa cobertura de Damon
virou a casa dela. Mais do que a mansão
monótona de Alkis.
Esse era o diferencial. Callie notou
quando Damon conduziu-a até a
limusine, envolvendo-a com o braço.

A geleira que tinha dentro de si
começara a derreter.
Méritos de Damon. Podia até não
confiar nela, vê-la como fonte de sexo
casual, mas era o homem mais generoso
que conhecera. De uma maneira que,
para alguém acostumada a ser tratada
como enfeite, causa-lhe uma sensação
de conforto.
Sua queda por ele a assustava, mas
era inevitável. Sentia-se assim desde a
manhã em que a desafiara a deixá-lo.
Callie estava enredada pela paixão
deles. Sentia-se realizada.
Não sentia-se mais sozinha no
mundo.

Damon não era tão generoso quando
o marido era, comprando-a com
presentinhos. Callie evitara isso,
recusando o vestido de grife que ele
ofereceu.
Viveria com seus próprios meios.
A maravilhosa novidade sobre a
recuperação da herança alimentou sua
convicção de nunca mais depender do
sustento de homem algum. E mais:
provaria sua capacidade, que podia ser
mais do que um mero troféu masculino.
Trabalhava duro atrás de seus planos,
de
localidades
comerciais
e
fornecedores.
A novidade repentina do advogado a
surpreendera. Mal podia acreditar que

o tio devolvera o que havia roubado.
Teria sido pressionado?
Sua relação com o ricaço mais
desejado da Grécia era baseada em
sexo, não em lucro. Seu desejo
insaciável por ele ainda a chocava, mas
conseguia ver algo curiosamente digno
no acordo. Uma igualdade.
Ambos eram vítimas de uma atração
incontrolável.
Damon fora surpreendido ao
perceber que não fazia jus à fama de
interesseira. Seu primeiro presente, uma
lingerie de seda, típico presente para
uma amante, reacendera sua fúria por
ter sido obrigada a deitar com ele.

A discussão terminou com a lingerie
em pedaços e com um sorriso de prazer
de Damon, pois pela primeira vez
assumira uma posição de dominadora.
Olhou para ela, movendo-se sobre ele
enquanto o mundo girava como um
caleidoscópio, e ameaçava dar-lhe
lingeries diariamente.
Callie contorcia os lábios só de
lembrar.
Todo seu orgulho era incapaz de
fazê-la desistir dessa paixão. Afinal,
gostava de ficar com Damon. Fazia com
que se sentisse bem consigo mesma. Era
incrível que tudo começara como algo
forçado!

– Do que está rindo? – Damon
agarrou-a no banco traseiro da
limusine, abraçando-a, marcando sua
pele com dedos escaldantes.
O desejo acendeu. Uma força
tangível, dardos de calor em seus seios e
seu útero.
Pôs a mão sobre a coxa musculosa
dele e percebeu um tremor.
Nisso, eram iguais. Alargou o sorriso.
– Nada importante. Diga-me – virouse para encará-lo –, quem era aquela
mulher? Um antigo caso?
Era muito velha para Damon, tinha o
rosto cheio de plástica. Era vulgar. Não
combinava com ele.

– Está de sacanagem. – Retorceu a
boca. Levou a mão dela à sua boca,
lambendo-a, causando um terremoto.
A boca de Callie tremeu e o coração
disparou. Inclinou-se sobre ele, grata
pela película entre eles e o motorista.
– Não esperaria um gosto tão óbvio
de você.
Damon colocou a mão dela em seu
rosto. Lambeu a mão dela, fazendo seu
coração acelerar. Sentiu fios de tensão
dentro de si e fechou os olhos.
– E você conhece bem o meu gosto
para mulheres.
Callie abriu os olhos, ao encontro do
olhar enigmático dele. Não sabia dizer
se fora sarcástico ou não.

Percebeu tardiamente que dera
margem a uma resposta desagradável.
Não a acusara certa vez de tentar
seduzi-lo com obviedades?
Seu frágil mundinho caiu.
– Você me intriga – murmurou. –
Num primeiro momento, pensei que
você fosse da mesma laia dela.
Callie endureceu e afastou a mão,
mas a pegou de volta e segurou entre
suas mãos.
– Está sempre à espreita de carne
fresca, de um novo amante para seduzir
com suas vulgaridades.
Entorpecida, Callie balançou a
cabeça, esperando que acrescentasse
alguma coisa sobre o caráter dela. Devia

estar acostumada com deboches. Já não
tinha enfrentado tantos deles?
Mas depois do que viveram nas
últimas semanas, zombarias desse tipo
afetavam-na profundamente.
– Essas piranhas ricaças que vão atrás
do que querem a todo o custo me
enojam.
Damon não olhava para ela. Olhava
para as ruas de Atenas; lotadas, apesar
da hora. Percebeu que ele olhava para
outra coisa. Alisou as articulações dela.
Deixou-a curiosa.
– Ela nem disfarça – falou. As
olhadelas e insinuações que Damon
recebia de outras mulheres costumavam
ser evidentes.

Sua prepotência fazia sentido. Podia
escolher quem quisesse. E qualquer
olhadinha deixada Callie desconfiada.
Ele era dela.
Só dela.
Callie piscou, surpresa com a própria
possessividade.
– Disfarçar? – Sua bufada de
desgosto trouxe-a para a realidade. –
Por que disfarçar se você pode usar o
dinheiro para aliviar qualquer...
inconveniente?
– Damon? – Sua rispidez assustou-a.
Parecia furioso. – O que houve? –
Apertou os dedos dele até que olhasse
para ela.

– Nada – disse, por fim. – Ela me
lembra alguém, só isso.
Seu olhar penetrante a deixou
paralisada. Ergueu o queixo dela para
poder ver seu rosto. Tremeu diante de
tamanho escrutínio.
– O que foi? – sussurrou.
– Estamos chegando em casa. – Sua
voz sugeria uma insinuação sensual e
algo mais. – Depois conversamos.
Desde quando conversar estava entre
as suas prioridades?
PASSADOS VINTE minutos, Callie sentouse sozinha no terraço, à sombra, com
uma vista privilegiada. O aroma de

flores exóticas exalava pelo requintado
jardim da cobertura.
Segurava um copo de água com gás.
Estava no lounge a céu aberto, de pés
descalços e ainda com o vestido preto,
com a camisa macia e confortável.
Ela mesma desenhara. Ficou
imensamente
orgulhosa
quando
Damon elogiou-a.
Alkis quase enfartou diante da ideia
de a esposa usar um produto caseiro,
mesmo que fosse lindo. Não sabia
reconhecer seu talento, sempre achava
que tudo dela era de segunda categoria.
Como ocorrera com sua lojinha de
produtos caseiros! Considerava-lhe
incapaz, por ser mulher.

Em silêncio, Callie ergueu a taça para
brindar.
À sua nova aventura.
À nova Callie.
Ao fato de não ser mais encarada
como alguém de segunda categoria.
– Desculpe. – A voz de Damon
partiu de trás dela, causando-lhe
arrepios. – Era uma ligação urgente da
Califórnia, mas está tudo resolvido.
– Sem problemas – respondeu –,
aproveitem o momento solitário.
SEM ELE. O que isso significava?
Damon ficou intrigado: queria ficar
sozinha?

Entrou no campo de visão dela, o
coração pulsando diante do que viu. O
vestido era simples e sensual, com um
coque para valorizar o pescoço esbelto.
Sem joias: seus olhos brilhavam mais do
que esmeraldas e seu sorriso era mais
encantador do que pérolas.
Normalmente, teria zombado dela.
Sabia que nenhuma mulher, sobretudo
uma mimada de família rica, merecia
ser colocada num pedestal.
Mas o ceticismo de Damon ruiu.
Sabia que ela era mais do que isso.
Chegara a hora de desvendar seu
segredo.
– A que vamos brindar? – Ergueu a
taça de vinho.

Ela esboçou um sorriso enigmático
que despertou-lhe sensações selvagens.
Sexualmente, era dele.
Mas queria mais. Estava sedento por
ela de várias maneiras.
– Ao recomeço. – Brindou.
– Ao recomeço.
Sentou-se de costas para as luzes da
cidade. Contemplara aquela vista
inúmeras vezes. Agora, o foco era a
misteriosa mulher diante dele. Decidiu
manter-se afastado até obter respostas.
– Conte-me por que se casou.
Inclinou a cabeça e contorceu os
dedos.
– Não falo sobre isso. – Falou com
frieza.

– Eu sei. Mas preciso saber.
– Por que eu falaria? – Ergueu o
rosto.
– E por que não? – retrucou,
inclinando-se, os cotovelos sobre os
joelhos, segurando o copo com as duas
mãos. – Não está protegendo ninguém,
está?
– Não – respondeu, depois de
hesitar.
– Qual é o problema, então?
– É segredo.
Percebeu nela uma expressão de
superioridade,
denunciando
que
entravam em território perigoso. Algo
lhe dizia que o segredo de Callie tinha
relação com o casamento.

Não precisava compreendê-la para
dormirem juntos.
Não precisava entendê-la para
deleitar-se com a melhor transa de sua
vida.
Mas precisava saber.
Callie era mais do que sua mais
recente amante. Nem isso o fazia
desistir.
Ele não se relacionava a sério. Mas
com Callie era mais do que algo carnal.
Fazia semanas que aquilo o perturbava.
– Tem medo de me contar?
– Por que deveria ceder à sua
curiosidade? – Seus olhos brilhantes o
penetraram. Percebeu que ela estava na
defensiva. Como na casa do tio, quando

estava muito irritado para perceber que
não envolvia apenas orgulho, mas
também mágoas.
Desta vez, não reagiria. Mesmo que
se sentisse estimulado pela ideia de
aproveitar todo o ressentimento dela
para estimular sua paixão quente,
erótica e excitante.
Desde
quando
a
encontrara
encolhida e deprimida no iate, a
necessidade de saber a verdade
aumentou. Percebeu sua mágoa. Havia
muitas coisas envolvidas. Não demorou
muito para notar.
– Por que está com medo?
Conforme esperado, encarou-o com
firmeza.

– Não estou.
– Desabafar pode ajudá-la. Não
acumular mágoas, não deixá-las tomar
conta.
Seria esse o caso de Callie?
– Nós brindamos ao recomeço. É
preciso superar o passado antes de
recomeçar.

Poupe-me
desse
discurso
motivacional.
Mas ela apertou os olhos e contraiu a
boca, como se estivesse refletindo.
O
silêncio
se
prolongou,
interrompido apenas pelo barulho
distante do tráfego. Damon a
observava,
atento
a
qualquer
movimento em sua postura rígida.

– Vou contar – disse, afinal; parecia
mais rígida do que antes. – Com uma
condição.
Ergueu a sobrancelha:
– Diga.
– Que me responda uma pergunta.

Combinado

respondeu
imediatamente.
Reclinou-se, servindo vinho. Melhor
não pressioná-la. Mas estava ansioso.
– Casei pela minha família – disse
Callie, olhando para a cidade.
– Como assim?
– Foi uma proposta do meu tio. Alkis
era um conhecido dele. – Falou com
frieza.

– Casou-se porque sua família
considerava-o um bom partido?
Era incapaz de acreditar que
cogitassem um casamento com alguém
35 anos mais velho.
– Meu tio achava. – Interrompeu e
mordeu o lábio, demonstrando estresse.
Despejou o resto. – A empresa passava
por dificuldades. Estavam à beira da
falência. Titio Aristides disse que sem a
ajuda, a família perderia tudo. Mas
Alkis só ajudaria se me tivesse.
– Seu marido colocou você no
negócio? – Sentia uma angústia só de
pensar. – Aristides concordou?
A ideia de oferecer a mão dela em
casamento como parte de um contrato

deixou-o enfurecido. Ácido derretia sua
boca e apertava a taça com força.
Queria apertar o pescoço gordo de
Aristides.
– Concordou.
– Desgraçados. – Não havia dúvidas:
fora sincera. Podia ver pelos olhos
angustiados e pelos lábios contraídos.
Após semanas com ela, enfim a
verdade. Bem mais aceitável, agora que
a conhecia, do que vê-la como uma
aproveitadora.
Desconhecia uma mulher menos
interesseira.
– Como?
– Seu tio ameaçou você. – Era uma
afirmação. Conhecia Aristides Manolis

bem o bastante para imaginar como a
ameaçara para obter o que queria.
– É como ele costuma agir –
murmurou.

Meu
primeiro
relacionamento terminou mal e estava
muito fragilizada para resistir. Ficaria
com remorso se minha prima e minha
tia acabassem na sarjeta.
Damon ficou intrigado, até que
entendeu as implicações maiores
daquilo.
– Manolis tentou fazer isso outra vez.
– Largou o copo antes que o quebrasse,
tamanha a sua ira. – Tentou vender a
filha para facilitar nossas negociações!
Enfureceu-se diante da ideia de fazer
parte daquele complô, mesmo que sem

saber.
Para Damon, a ideia de uma
aproximação com Angela era apenas
um desejo de Manolis. Será que a prima
de Callie também fora pressionada a se
casar com um ricaço? Damon sentiu-se
sujo.
– Ele também quis obrigar a Angela?
– Claro.
Damon reclinou-se, lembrando a
insegurança de Angela. Pensava que era
apenas uma timidez normal, mas talvez
fosse medo de desagradar a ele. Ou
pior: medo de ter que casar com ele.
Desabou, tomado por uma onda de
fúria.
Como
não
percebera?
Aproveitara-se da preocupação de

Callie com a prima para levá-la para a
cama, sem perceber que as garotas
tinham motivos legítimos para levar o
tal casamento a sério. Não era a
primeira vez.
Ele investiu no que julgara serem
medos e inseguranças infundadas de
Callie.
Christos! A história se repetia diante
de Callie, vendo o tio arranjar para a
filha um casamento por interesse.
Damon virou-se. Sob a luz da lua,
Callie pareceu indiferente. Agora ele
sabia por que mantinha suas mágoas
em segredo. Sentiu um aperto no peito
e expeliu o ar pelas narinas.

Ele a machucara. Sem saber, mexera
com feridas profundas. Arrependia-se
das acusações feitas sobre o casamento
dela. E da maneira como ameaçou casar
com Angela se Callie não se entregasse
a ele.
– Desculpe. – Falou num tom tão
baixo que precisou repetir. – Desculpe,
Callie. Não imaginava. Estava ocupado
demais
procurando
culpados
e
pensando em vingança para enxergar o
óbvio.
– Você não sabia – disse, por fim,
encolhendo os ombros. Mas não
conseguia enganá-lo. Sua boca e a
tensão nos ombros a desmentiam.

– Magoei você. – Aproximou-se dela,
que o encarou. Pôde notar uma
centelha de algo mais do que mera
inflexibilidade. – Não levei a sério o
plano de Manolis para que me casasse
com Angela. Não percebi que ele
pressionava vocês.
Callie analisou-o, como se quisesse
verificar se estava sendo sincero.
– Você não merecia ser tratada como
a tratei. – Encheu-se de remorso.
Nunca tratara tão mal uma mulher.
– Não, não merecia. – Atirou-se para
trás, como se estivesse cansada de brigar
ou de tentar manter a compostura.
Sentou-se ao lado dela e segurou sua
mão vacilante.

– Também fui um arrogante, um
imbecil.
Seus lábios esboçaram um sorriso
cortante.
– Foi mesmo. Terrível.
Mas deixou-o segurar a mão dela
sem resistir.
– Tanto quanto Alkis? – A pergunta
era inevitável. Agora via seu
comportamento sob nova perspectiva.
Sua atitude indigna colocara-o no
mesmo
patamar
daquele
que
desprezava por tratar sua jovem esposa
como troféu.
Prendeu a respiração enquanto
esperava pela resposta. O que quer que
houvesse entre eles – sexo, prazer ou

mesmo uma relação pura feita de
momentos como agora –, Damon não
estava preparado para acabar.
Não queria desistir dela.
– Nada conseguiria ser tão ruim.
As palavras enfáticas tomaram seu
pensamento. Apertou forte a mão dele.
– Por que não?
Olhos brilhantes o encararam. À luz
da lua, pôde ver lágrimas escorrendo
entre seus cílios.
Voltou a sentir um aperto no peito e
também apertou a mão dela.
– Meu marido era um manipulador,
um obsessivo. Terrorismo psicológico
era sua especialidade. – Respirou
fundo. – Fico feliz que tenha morrido.

Antes
que
Damon
pudesse
responder, tornou a falar:
– Não quero falar sobre ele. Você me
deve uma resposta.
Fez uma pausa, olhou para suas mãos
unidas e olhou de esguelha, sugerindo
que era uma pergunta delicada.
– Diga-me: de quem você se lembrou
vendo aquela mulher hoje?

CAPÍTULO 13

DAMON HESITOU diante da mudança de
assunto repentina. Afrouxou a mão.
Não queria falar a respeito.
Era pessoal, não estava preparado.
Encarava-o, convicta.
Devia isso a ela. Desrespeitara o
passado problemático de Callie,
desencavando mágoas acumuladas.
Precisava saber o que a incomodava.

Agora sabia. Ao menos o bastante
para compreender seus traumas.
Seis anos com um homem por quem
só tinha desprezo. Mas assumira o papel
de boa sobrinha e esposa dedicada para
não afetar a tia e a prima.
Entreouvira ligações telefônicas o
bastante para concluir que conversavam
seguidamente sobre a saúde da tia.
Callie Manolis era o oposto do que
julgara. Determinada, íntegra.
Bem diferente daquela sobre quem
ela queria saber.
SILÊNCIO TOTAL. Damon afastou-se.
Pela primeira vez falara sobre o
casamento. Nem com a tia Desma

comentara
sobre
os
horrores
vivenciados.
Callie sentia-se confusa. Velhos
sentimentos desagradáveis emergiram.
Ironicamente, havia algo de positivo
naquilo.
Usara todas as forças para resistir a
Alkis tentando arruinar sua autoestima.
O pedido de desculpas de Damon era
como uma brisa varrendo as nuvens da
tormenta de mágoas acumuladas.
Era uma simples desculpa. Mas era a
primeira vez que um homem fazia isso.
Soava grandioso.
Será que estava certo sobre encarar o
passado para recomeçar?

Não podia ser tão simples. Mas
estava aliviada, como se tivesse curado
algumas de suas mágoas.
Sentia... segurança.
Damon não era o cafajeste que
imaginara. Chocou-se com a história
dela.
Percebera nele indícios de alguém
melhor do que o egocêntrico que
imaginara. Agora tinha certeza.
Sentia-se aliviada. Estava ligada a
Damon de uma maneira profunda,
inexplicável; para além do sexo. Tinha
uma nova perspectiva sobre seus
sentimentos. Encontrara um homem
digno de confiança.

Acariciou o cabelo dela, com uma
expressão grave, que tinha razão de ser.
Intuíra
corretamente.
Certas
mulheres marcaram fortemente a vida
dele.
Confiava mesmo em Callie?
Haveria alternativa?
Ela segurou a respiração enquanto
esperava uma resposta qualquer.
– Leta Xanthis – sussurrou.
– Leta...? – perguntou. O nome era
familiar.
– Sempre me esqueço de que você
não cresceu na Grécia. – replicou,
lacônico. – Era a esposa de um dos mais
poderosos barões da mídia europeus.
Sua beleza e glamour eram marcantes.

– Ela faleceu, não?
– De overdose. Foi bastante
comentado – falou como se estivesse
lendo uma manchete qualquer, não
sobre uma conhecida.
Contraiu os lábios e enrugou as
sobrancelhas. Passou a mão no cabelo.
– Era amiga da família?
Bufou:
– Nunca! – Recuou a cabeça,
desgostoso, e levantou-se. Enérgico,
caminhou pela borda do terraço. Ao
virar-se, o rosto dele estava na sombra,
a luz da lua e da cidade ao fundo. –
Não andávamos com gente assim.
Ficaria ofendida. – Respirou fundo. –
Quando meu pai morreu, minha mãe

nos sustentou fazendo faxinas nas
mansões do litoral.
Callie percebeu o ódio naquelas
palavras. Damon era orgulhoso. Ver a
mãe trabalhando para os outros assim o
feria.
– Que idade você tinha?
– Dezessete. Abandonei a escola e
trabalhei como marceneiro e jardineiro
nessas casas. Mas não ganhava o
bastante. Minha mãe teve que trabalhar
duro durante anos – falou, com
remorso. Decerto queria assumir o
papel do pai e sustentar a família.
– Leta Xanthis morava numa dessas
casas?

Ergueu a cabeça abruptamente, como
se interrompesse uma profunda
reflexão.
– O marido, que raramente aparecia.
Ela se divertia por lá. – A última palavra
saíra como uma cuspida, cheia de
veneno. Callie arrepiou-se.
– Ela conhecia sua mãe?
– A mulher que esfregava os
banheiros e limpava a sujeira pós-orgias
era invisível para ela. – Orgias? Devia
ser exagero. – Mas reparou no garoto
que cuidava das plantas e da piscina –
respondeu amargamente.
Callie
endireitou-se
enquanto
assimilava a resposta.

– Reparou em você? E você tinha 17?
– Devia ser bem mais velha.
– Não fique tão chocada. – O seu
tom irritava Callie. – Ela reparava em
qualquer coisa vestindo calças. Não era
a única. Descobri cedo a libido dessas
ricaças.
– Ela seduziu você? – gaguejou.
– Não. Foi pior. Tornei-me uma
aposta entre as suas amigas. As visitas
ocasionais tornaram-se mais frequentes,
até que se aborreceu e encontrou outra
vítima.
Agora entendia o desprezo de
Damon pelas socialites. Devia ser lindo
já na adolescência. Sua implicância com

ricaças taradas e exploradoras de
maridos era compreensível.
Inicialmente, pensou que fosse mais
uma delas.
Callie sentiu-se aliviada ao perceber
que não era responsável pelo
pessimismo dele, que era uma
desconfiança mais antiga.
Não sentira o mesmo quanto aos
joguinhos baixos dos amigos de Alkis?
Ao ver Damon virar-se para
percorrer o jardim, Callie levantou-se.
Estava tenso.
– Damon? – Foi até ele e hesitou ao
vê-lo parar, segurando com uma mão a
coluna da pérgola com flores

perfumadas. Recapitulou as últimas
palavras dele, temendo pela resposta.
– Quem foi a nova vítima?
Mesmo de longe, Callie percebeu um
espasmo no corpo dele. Certamente era
algo traumatizante.
Assim como as lembranças de seu
casamento com Alkis.
– Minha irmã. – As palavras saíram
como um disparo. Callie ficou
emudecida, horrorizada.
– Sophie me acompanhou numa
tarde para me ajudar. Era muito
solícita. – Pausou e logo prosseguiu. –
Um dos amantes de Leta ficou de olho
nela. Leta fazia todas as suas vontades.
Chamou Sophie e convidou-a para uma

festa à noite. Mas era segredo.
Infelizmente, minha irmã estava numa
fase de rebeldia e adorou o convite.
Tinha 16 anos, ainda era muito
ingênua.
Callie colocou a mão sobre seu
estômago revolto. Queria pedir que
Damon parasse, mas não conseguiu.
– Só notamos sua ausência mais
tarde. Uma das irmãs mais novas
percebeu.
– Você foi atrás dela?
Claro que fora. Tinha um instinto
protetor. Havia reparado quando ele
falara sobre a família – e na própria
pele, a bordo do iate.
– Quase não cheguei a tempo.

Callie aproximou-se para oferecer-lhe
conforto. Sua tensão era aparente,
deixou-a arrepiada.
– O que aconteceu?
– Foi dopada. Talvez tenha sido
álcool, sei lá. Estava fora de si, deitada,
com o vestido amarrotado e... – Callie
abraçou Damon com força pela cintura.
As batidas de seu coração no ouvido
dela e o ruído da respiração preenchiam
a noite. Estava sensibilizado. – Ele só
me viu quando quebrei sua cara. – Ela
segurava seus músculos trêmulos,
tentando acalmá-lo. Percebeu a
satisfação na voz dele. Não podia
condená-lo.

Ele suspirou fundo e seus músculos
relaxaram brevemente.
– Consegui escapar dos demais
convidados, furiosos porque estava
levando a garota mais bonita da festa.
Callie inclinou a cabeça e viu-o alisar
o nariz.
– Foi assim que quebrou o nariz?
Salvando sua irmã?
Ele olhou para baixo. Parecia furioso.
– Precisava tirá-la de lá. Alguns
hematomas e um nariz ensanguentado
não fariam diferença.
Callie arrepiou-se diante da ideia de
um Damon adolescente, sozinho, tendo
que enfrentar um bando de adultos
alcoolizados. Não deve ter sido fácil.

Tocou em sua mandíbula e sentiu a
aspereza da barba por fazer.
– O que foi?
Callie balançou a cabeça e baixou a
mão.
– Nada.
Ele falava com tanta naturalidade
sobre o ocorrido que nem sequer
percebeu a admiração que despertou
nela. Queria abraçá-lo.
Só uma mulher que nunca tivera
alguém para protegê-la podia ficar tão
tocada com aquela história.
– E foram punidos?
– Não. Minha mãe achou que um
processo traumatizaria Sophie. Fomos
expulsos e impedidos de voltar na casa.

Callie revoltou-se.
– Que absurdo! Como pode?
– Era a palavra deles contra a nossa.
Leta era rica e influente. Encontrei um
novo emprego, onde ganhei meu
dinheiro para combatê-los da única
maneira que lhes afetaria: com mais
poder e riqueza.
– E Sophie?
Callie apoiou a cabeça em seu peito.
Abraçou-a.
Sentiu um calor que nada tinha a ver
com sexo. Era um sentimento
compartilhado. A sinceridade de
Damon sobre seu passado significava
muito.

– Sophie está bem. É uma das
maiores advogadas de Atenas –
respondeu, orgulhoso.
– Ela mora aqui?
– Quase todos os meus familiares
moram.
Mas Callie nunca conhecera-os.
Por que ela, uma Manolis, não
merecia? Ou por ser algo passageiro?
Sentiu um aperto no estômago.
Parou de pensar assim que ele alisou
o cabelo dela, puxando sua cabeça para
trás para que pudesse olhar em seus
olhos profundos.
Havia algo entre eles. Algo intenso,
como a paixão cheia de sensualidade
experimentada inicialmente. Porém

mais forte. Seus passados, suas emoções
e a confiança tornavam aquilo mais
significativo.
Desnudou-a com o olhar. A nudez
da personalidade, não do corpo. Dela,
Callie Manolis, que passara a vida
adulta na defensiva, insegura, evitando
arriscar-se.
Ela viu um homem íntegro.
Impaciente, ansioso para fazer as coisas
do seu jeito. Mas sua honestidade e sua
dedicação faziam dele um homem
singular, comparável apenas ao pai dela.
Teria enfim encontrado um homem
decente? Alguém a quem poderia
realmente se dedicar?

Callie lutara para não abrir as defesas
diante das investidas dele. Mas desistiu
e optou por uma rendição semelhante à
vitória.
Encheu-se de entusiasmo. Ele baixou
a cabeça. Respirava no rosto dela,
brincando com seus lábios.
– Damon. – Era um chamado de
puro desejo. Entrelaçou as mãos na
cabeça dele e abaixou-a.
O mundo encheu-se de glória
quando suas bocas e suas almas se
uniram. Rendeu-a: seu braço encurvava
as costas dela como uma barra de ferro.
Callie aquiesceu, entregando-se nas
mãos dele enquanto a levava às alturas
com seu beijo entorpecente.

Callie
encontrava-se
extasiada.
Rendeu-se sem pudor. Pura entrega.
Paz.
Prazer.
Estava vivendo o que jamais sonhara.
Juntou toda a esperança e confiança
dentro de si e entregou o coração a
Damon.

CAPÍTULO 14

CALLIE PRENDEU o cabelo. Damon logo
chegaria, precisava se arrumar.
Sorriu diante do espelho. Ele
adoraria saber que o vestido vermelho
adaptava-se perfeitamente ao corpo.
Deleitava-se com as sensações
causadas por ele. Não sentia mais
repulsa pelo olhar de macho sedutor.
Não o de Damon.

Percorrera um longo caminho. De
vítima traumatizada, escondendo suas
mágoas e inseguranças, a alguém
disposta a confiar num homem, feliz
com sua presença.
Pronta para o futuro.
Um futuro com Damon? Seus
batimentos aceleraram. Até conhecê-lo,
desistira dos homens. Mas ele destruiu
as defesas dela.
Quantas mudanças desde então. Era
mais do que sexo. Havia respeito,
carinho e prazer mútuo.
Passados sete anos, Callie enfim
sentia-se feliz.
Ele correspondia aos sentimentos
dela, mas era algo sólido? Estava cada

vez mais interessado nos planos e
pensamentos dela, nas suas primeiras
aventuras no mundo dos negócios.
Sabia da importância daquela união?
Callie não ignorava que Damon
movimentava negócios multimilionários
enquanto ela comercializava artesanato.
Mas nas últimas semanas demonstrara
entusiasmo pelos projetos dela.
Desde seus 18 anos o mundo não
parecia tão promissor. Sentia-se
encorajada ao lado de Damon.
Ela, que com grande esforço levara os
estudos adiante, que teve que ouvir que
só tinha talento como decoradora ou
emergente. Após anos aguentando o

sarcasmo de Alkis, Callie sentia-se
totalmente livre.
Liberdade proporcional à alegria de
ter Damon em sua vida.
O telefone tocou. Foi correndo
atender. Provavelmente era Angela,
com novidades sobre seu casamento.
Só na semana passada o tio havia
concordado com o casamento entre
Angela e Niko. Angela podia ter se
casado sem autorização, mas as ameaças
de proibir visitar a tia após o casamento
desencorajaram-na.
– Angela?
Mas a voz era do advogado. Trazia
ótimas notícias.

– Tem certeza? Absoluta? – indagou
após ele explicar o motivo da ligação.
– Absoluta. A administradora do
shopping
novo
confirmou
pessoalmente. Disse que sua ousadia é
exatamente o que desejam naquele
novo espaço. Tanto que pretendem
oferecer-lhe desconto no aluguel nos
primeiros 18 meses.
Callie coçou a testa. Podia ser
inexperiente, mas sabia que shoppings
novos não ofereciam descontos para
negócios incertos. Curiosa sobre o novo
espaço mais cobiçado da cidade, mas
imaginando que seria muito caro,
perguntou sobre o aluguel.
– Que tipo de desconto, exatamente?

Sua cabeça girou. Procurou uma
cadeira e enterrou-se nela. Era
baratíssimo.
Callie respirou fundo e tentou
organizar os pensamentos.
– Houve algum engano. Por que
ofereceriam esse desconto?
Houve um longo silêncio do outro
lado da linha. Quando voltou a falar, o
advogado pareceu constrangido.
– Tem a ver com... seu atual
relacionamento.
– Meu relacionamento? – Só podia
ser Damon. – Não entendi.
– Você sabe que o prédio é das
empresas Savakis?
Não, não sabia.

– Você acha que a administradora e
o CEO estão negociando um... precinho
especial para a namorada dele? –
Parecia loucura.
Uma nova pausa antes de responder.
– Parece que a oferta foi uma
instrução do CEO.
Damon ordenou à administradora do
empreendimento mais cobiçado da
cidade para reduzir o aluguel? Balançou
a cabeça. Era solícito, mas também era
um homem de negócios. Por que se
arriscar?
– Tem certeza?
– Absoluta. – Tossiu e fez uma pausa.
– Kyrios Savakis já se envolveu nos seus
negócios antes. Pensei que soubesse.

– Que tipo de envolvimento?
– Na sua herança. Como sabe,
ocorreram irregularidades nos valores
administrados pelo seu tio.
– Sim, sei.
– Isso não é tudo. O valor da sua
herança foi complementado por
Savakis.
– Quê? – A cabeça de Callie girou. –
Damon bancou o dinheiro? Não foi o
meu tio? Mesmo?
– Sim. Ele queria compensar as
perdas. Tecnicamente, o dinheiro veio
da empresa da sua família, mas é mais
preciso dizer que veio de Savakis. Claro,
não informei sua situação, mas ele sabia
bem. Queria ajeitar as coisas.

Callie começou a tremer.
Ajeitar as coisas.
Era a especialidade dele, não?
Agradeceu ao advogado com uma
voz trêmula. Desligou.
Damon providenciara a herança dela.
Fizera o possível para ajudá-la a
estabelecer seus negócios numa
excelente localização.
Porque a amava?
Soltou uma gargalhada, incrédula.
Impossível. Preocupava-se com ela,
tinham momentos íntimos, mas nunca
mencionara algo além disso. Era ela
quem queria mais.
Ficara indignado ao descobrir sobre o
passado dela; culpado por tê-la forçado

a relacionar-se com ele. Talvez o
interesse em seu pequeno negócio fosse
uma maneira de se redimir, de provar
que era diferente de Alkis.
Teria sido remorso?
Arrumar as coisas.
Foi assim que se conheceram. Porque
ele queria vingança pelo que a família
dela fizera à dele.
Queria arrumar as coisas pela culpa
que sentia por forçá-la a ser sua
amante? Ficara perplexo ao saber da
verdade. Sabia que a magoara, como
Alkis e seu tio.
Lembrou-se do que Paulo disse sobre
Damon fazer justiça, seu senso de
responsabilidade.

Damon a encarava como alguém
carente de ajuda? Um problema a
resolver?
Sentiu um aperto no coração devido
à nova suspeita. O que estaria por trás
de toda aquela preocupação?
Sentia pena dela?
No espelho,
viu
seu
rosto
inteiramente branco. Os lábios, um
resquício de vermelho longe de parecer
atraente. Lembrava uma boca de
palhaço triste.
Removeu o batom com as costas da
mão. Espalhou-se como sangue pelo
rosto.
– CALLIE?

Ansioso, Damon acelerou o passo ao
atravessar a sala de estar. Estava elétrico
e surpreendentemente nervoso. Não
sentia-se assim desde que fechara o
primeiro negócio.
Hoje era outro dia importante. Ainda
mais, se a adrenalina em seu corpo
servisse de parâmetro.
Apalpou o pacotinho no bolso da
camisa, verificando se estava seguro.
Tudo combinado.
Cogitara um jantar a dois em seu
apartamento, mas decidiu que merecia
uma celebração mais tradicional. Sorriu,
pensando nas irmãs e parentes reunidos
na casa da mãe, ansiosos pela novidade.

O cheiro delicioso de comida caseira e
as gargalhadas ocupariam o ambiente.
Callie gostaria deles. E eles, dela.
Antes, brindariam a sós. A
governanta garantiu que tudo estaria
conforme combinado.
Entrou na sala de estar e parou. O
coração acelerou ao ver uma figura em
vermelho na janela, de costas.
Os
batimentos
foram
então
desacelerando. Sempre causava-lhe isso.
Callie. Sua mulher.
Sentiu uma chama de satisfação no
estômago. Estava agindo certo, não
tinha dúvidas. A decisão fora simples.
Queria ficar com ela.

Olhou a ambiente elegante à sua
volta e concluiu que não faria sentido
sem Callie. Ela fazia a diferença.
Balançou
a
cabeça.
Estava
apaixonado.
Muito apaixonado, mas nem ligava!
Damon correu até um balde de gelo
com um esplêndido champanhe
francês. Tirou a rolha da garrafa e
serviu-o nas taças.
Só então ela se virou.
Damon sorriu e ofereceu-lhe uma
taça.
– Aqui está, glikia mou.
Encarou-o com olhos brilhantes.
Percebeu a tensão dela, os dedos
trêmulos, ao pegar a taça. Sabia da

importância daquela noite. Até que
ponto?
Contemplou o longo vestido, um
vermelho rubi brilhando sob a
iluminação, soltando faíscas a cada
movimento.
Vestira-se para agradar a ele. Fazia
seu sangue ferver.
– Está linda. Pronta para comer. – A
onda de luxúria foi inevitável. Contevese. Teriam tempo mais tarde. Todo
tempo do mundo.
Olhou o rosto dela e parou. Callie
estava diferente. Estava sem batom.
Imaginara se beijariam? Damon
olhou sua boca rosada e suculenta.
Melhor assim.

Aproximou-se, ansioso.
– Callie mou – murmurou; a voz
surpreendentemente rouca.
Olhou para o vinho na taça. A
vibração da superfície denunciava seu
nervosismo.
Damon endireitou a postura,
olhando seus olhos verdes com um
sorriso tímido. Não estava acostumado
a perder o controle da situação.
– Precisamos conversar.
– Sim. – Inclinou ligeiramente a
cabeça, intimidando-o. Contrastava
bastante com o nervosismo ridículo
dele.
Não preparara discurso. Era um
homem convicto, um exímio orador.

Não imaginou que lhe faltariam
palavras. Mas era uma situação inédita
para ele.
– Sobre o futuro.
– Certo. – Contraiu os lábios.
Respirou fundo enquanto ele admirava
seus seios. Precisou conter-se para não
tocá-los. – Também queria conversar. –
Desviou o olhar. – Decidi ir embora.
Damon não acreditou no que ouviu.
Seu coração disparou.
– Não tem graça, Callie.
O perfil dela contrastando com as
luzes da cidade parecia uma figura
talhada em mármore.
– Falo sério – sussurrou.

Bebeu o champanhe da taça com
longos goles, quase compulsivamente.
Damon tentou colocar a taça numa
mesa próxima, mas, antes disso,
quebrou-a com a pressão de sua mão.
– Você não vai.
Nenhuma mulher o abandonara.
Muito menos Callie. Aquela que
escolheu como sua mulher. Para
sempre. Escolheu? Precisava dela.
Aproximou-se, mas parou ao vê-la
hesitar.
Sentiu um arrepio na espinha ao
notar o olhar vazio dela. Parecia...
despedaçada.
– Por quê? Vai contra os seus planos?
– Fazia meses que não ouvia aquele

tom de voz. Desde que passaram a se
entender.
– O que houve, Callie? Qual o
problema?
– Preciso seguir em frente. Não me
sinto à vontade aqui.
Sentir-se à vontade? Como assim?
Descobrira uma vida nova e ele não
conseguia viver sem ela.
– Não vou permitir. – falou,
instintivamente. Precisava dela.
– Pensei que as ameaças tinham
acabado. – Foi como um soco no
estômago dele.
– Callie! Não é ameaça. Não confia
em mim? – Esforçara-se tanto para
consertar seus erros e ganhar confiança.

Ainda sentia culpa, mas achou que
estava tudo superado.
Bebeu outro gole.
– Tanto quanto em qualquer
homem.
– Callie mou... – Aproximou-se,
colocando o braço sobre ela – …confie
em mim.
O corpo dela era pura tensão.
– Você é boa pessoa, Damon. Mas
não me sinto à vontade. Em lugar
nenhum. Prefiro viver sozinha.
– Não é verdade. – Arrancou a taça
da mão dela e a agarrou. – Estamos
bem juntos, Callie. Você sabe disso.
– Sexo. – Desviou do beijo dele.
Acabou beijando-a na orelha, dando-

lhe uma mordidinha no lóbulo. Callie
arrepiou-se.
– Viu sua reação? Você não quer
viver sozinha.
– Estou cansada de ser sua amante,
de nem sequer poder conhecer a sua
família. Sou a inimiga, lembra? Uma
Manolis.
– Não é verdade! Não pensam assim.
Eu queria vingança, não eles. –
Imaginou as irmãs reunidas para
recepcioná-la. – Nunca surgiu um
momento adequado... – Percebeu que
estava certa; havia-a escondido da
família. Primeiro desconfiava dela,
depois
acomodou-se.
Nunca
apresentava seus casinhos para a mãe.

Depois, ao ver-se apaixonado, sua
possessividade impediu-o. Até que
finalmente percebeu a importância
dela. Que era a mulher a ser
apresentada para a mãe.
Callie colocou as mãos no peito dele,
tentando afastá-lo. Ele só desistiu ao ver
as lágrimas escorrendo em seus olhos.
Baixou os braços.
– Não ligo – murmurou, visivelmente
blefando. Percebera a mágoa dela e
culpou-se pela estupidez. – O que
interessa é que não quero ficar até ter
certeza de que posso me sustentar.
Abraçou o próprio corpo, como se
sentisse frio.
– Sei me virar muito bem.

– Do que está falando? – perguntou,
confuso.
Balançou a cabeça. Sua raiva
crescente fazia os olhos brilharem:
– Não preciso de caridade, Damon.
Sei que tem boas intenções, mas não
quero alguém com pena de mim.
– Pena? Não é o que sinto por você. –
Estava prestes a dizer o que realmente
sentia, mas a expressão dela o fez
desistir.
Não estava pronta para ouvir. Se não
confiava nele, por que acreditaria?
CALLIE OLHOU a sobrancelha enrugada e
a expressão sombria dele. Não. Ele não

entendeu. Só queria ajudá-la. Não era
culpado por não amá-la.
Enfim acalmou-se. Callie estava
exausta.
– Sei que você interveio nos meus
negócios. – Pegou-o de surpresa. – Sei
que ajudou com minha herança.
– Era sua. E eu podia cobrir o valor
tranquilamente.
Fez o mesmo gesto que fizera para
Paulo quando falaram sobre caridade.
Ele tinha dinheiro e queria resolver o
problema. Era típico dele. Generosidade
e superproteção. Gostava de resolver as
coisas.
Mas ela não queria caridade. Estava
apaixonada por um homem que a

encarava como um problema a se
resolver. Sentiu falta de ar.
Detestava a filantropia de Damon.
Queria tê-lo como um igual.
– E o desconto no aluguel do
shopping?
Ficou sem graça. Obviamente não
esperava que ela descobrisse.
– O lugar é perfeito. Seria um pecado
não ajudá-la.
– Sei me virar. Você não percebe?
Se ao menos ele dissesse que agira
por amor... mas era querer demais.
Queria só ajudá-la depois de descobrir
as dificuldades pelas quais passara.
– Não quer minha ajuda?

Foi afastando-se dela. Ela balançou a
cabeça.
– Não é questão de ajuda.
– De controle, então? Você disse que
seu marido era obsessivo. O que
exatamente ele fazia?
Callie franziu o cenho.
– Não entendi. Isso não interessa.
– Não vai me dizer? – A sinceridade
e a gentileza de sua expressão fez com
que voltasse atrás. Mais uma vez queria
remediar o passado, enquanto ela
queria esquecer e construir um futuro.
Lamentava que o único futuro
imaginável fosse uma ilusão junto a
Damon.

SUSPIROU. DAMON demonstrou tensão
diante da expressão de dor dela.
– Alkis sempre impunha limites.
Lugares, gente que não podia visitar...
Tive que desistir de vários projetos.
Sempre havia uma desculpa: por ser
inapropriado, por precisar dos meus
cuidados, por termos uma viagem longa
a fazer.
– Você não precisava obedecer.
Balançou a cabeça:
– Ele ficaria sabendo, infernizaria
minha vida. Sempre me controlava.
Perguntava sobre minhas amizades,
sobre gente que conversava comigo...
Tinha relatórios sobre cada movimento
meu. Nada lhe escapava.

Damon queria que ele estivesse vivo
para destroçá-lo. O mal causado pela
obsessão de Alkis era impressionante.
Agora entendia o desejo de liberdade
de Callie.
E os danos causados por Damon?
Involuntariamente tocara num ponto
fraco dela. Nada que dissesse a
convenceria que não era como o infeliz
do seu marido. Quando quis ajudar,
achou que queria controlá-la.
Damon sentiu-se culpado por agir
por impulso. Deveria tê-la consultado
antes?
Sabia a resposta. Estremeceu.
– Você acha que sou como ele.

Pensou que confiava nele, que tinha
sentimentos recíprocos.
– Claro que não!
Mas sua expressão contradizia as
palavras.
Queria acariciá-la, fazer amor até que
tudo passasse. E era capaz. Sabia que
mesmo agora poderia seduzi-la e
superar sua resistência.
Mas o prazer duraria pouco. Cedo ou
tarde, as mágoas voltariam.
– Como posso provar que está
enganada?
Franziu o cenho, como se ele falasse
outra língua.
– Acredito em você, Damon. Só que
eu...

Não amo você?
Não quero que controle minha vida?
Não sei viver sem você?
Damon
nunca
esteve
tão
desesperado.
– Diga-me: o que posso fazer?
Faria de tudo. Mataria dragões,
enfrentaria todos os obstáculos.
Precisava provar que podia confiar sua
vida a ele.
Entortou a boca e balançou a cabeça.
– Você pode me deixar partir.

CAPÍTULO 15

– A NOVA leva que comentei chegou.
Lá naquela parede.
Callie sorriu para um de seus
melhores
clientes
e
afastou-se,
deixando a mulher e seu companheiro
olharem em paz.
Mais um dia chegava ao fim e ela
estava exausta. Não fisicamente. Ainda
sentia prazer ao trabalhar. Era um
cansaço emocional.

Não via Damon há cinco meses, três
semanas e seis dias.
Sentia-se mais e mais carente,
sedenta do homem que a fizera revelar
todos os seus segredos e encarar os
piores medos. Que a desafiara, mudara
sua vida. Que a apoiara e trouxera-lhe
tranquilidade e prazer.
O homem que rejeitou por ser
orgulhosa demais para aceitar algo que
não o amor dele. Porque a fez ver que
os sonhos podem virar realidade. E o
amor de Damon era o seu sonho.
Sentiu um aperto no coração.
Finalmente
conquistara
a
independência tão almejada. Era
maravilhoso,
recompensador,

desafiante. Provara sua capacidade.
Que era superior a Alkis e aos demais,
inclusive ela própria, mais do que
imaginado.
Mas independência não bastava.
Tinha que suportar uma vida sem
Damon.
Ainda sonhava com o que poderia ter
acontecido se a amasse.
Talvez se preocupasse minimamente
com ela, para fazer tudo o que fez. Mas
não queria ser alvo de pena. Sobretudo
quando ele partisse para a próxima obra
de caridade
Ou pior: se apaixonasse por outra.
Callie colocou o cabelo atrás da
orelha, piscando sem parar enquanto

desempacotava uma remessa de
lâmpadas.
Não, Damon não a amava. Tinham
somente uma afinidade sexual. Ela
despertava os instintos protetores dele.
Mas não a impediu de partir. Isso era o
pior, saber que estivera certa, que ele só
sentia pena.
Mas agora Damon seguira em frente.
Encontrou outra. Chovem mulheres
para homens como ele.
Mordeu o lábio numa tentativa de
não demonstrar nervosismo.
Callie evitava ao máximo saber das
novidades. Queria que fosse feliz, mas
não suportava a ideia de vê-lo com
outra.

Sua visão embaçou.
– São lindas. – Uma voz gentil fez
Callie virar-se, piscando várias vezes.
Uma mulher com uns 60 anos sorriu
para Callie. Apontava para o artesanato
de Callie na parede. Seus olhos
brilhavam.
Havia apenas duas de uma série de
paisagens marinhas. Quando sobrasse
tempo, faria mais. Fazer artesanato era
terapêutico, sobretudo nos dias negros
de casamento, quando precisava
exercitar sua criatividade.
– Que bom que gostou.
Na verdade, queria que elas
desaparecessem. Evocavam muitas
lembranças.

Começara-os quando ficou viúva:
retratos de tempestades com ondas
revoltas ou horizontes brumosos e
desertos. Concluiu-os com toda altivez
e felicidade quando morava com
Damon. Nestes, o mar estava calmo e
cristalino.
Vendo-os agora, tão vibrantes e
serenos, Callie sentia-se solitária, mais
do que nunca. Apesar do entusiasmo
inicial com os negócios, não sentia-se
completa.
– Minha filha disse que vocês os fez.
– Sua filha? – Callie esforçou-se para
manter o foco.
– Sim. – Apontou para a moça
elegante que olhava uma pequena

escultura de bronze que Callie recém
expusera.
– Comprou um faz algumas semanas.
Resolvi vê-los. – Abriu um sorriso. – E a
mulher maravilhosa que os fez.
Callie lembrava bem aquela obra.
Jamais imaginou que a venderia. A
cena lembrava-a de tudo que deixara
escapar, de sua felicidade efêmera. Mas
ficar com ela teria sido doloroso.
– Obrigada. – Callie queria sentir-se
mais entusiasmada com seus trabalhos
sem ter que se esforçar.
Mas o interesse da mulher era
verdadeiro. Callie esforçou-se para
manter o foco.

– Quer olhá-los melhor? – Foram
juntas até as obras.
– Sei costurar, mas não tão bem –
disse a filha. – O que você faz com
linhas e tecidos é incrível.
– Ora, obrigada. Que tipo de costura
você faz, Kyria...?
– Savakis. – Acompanhou a reação
de Callie, que ficou imóvel, de olhos
arregalados. – Mas me chame de Irini.
DAMON DEU um pulo.
– Está onde? – berrou no interfone.
– Na sala de espera, Kyrie Savakis.
Devo avisar na recepção para que ela
suba?
– Sim. Imediatamente.

Damon desligou o interfone,
sentindo a eletricidade perpassar seu
corpo. Os batimentos aceleraram ao
imaginar Callie ali, em seu escritório.
Sua cabeça zunia. Por que aqui,
agora? Seus pensamentos fervilhavam.
Decidiu conter-se.
Ajeitou-se na cadeira e apoiou o
queixo nos dedos.
Fazia seis meses que Callie o deixara.
Seis meses em meio a dúvidas,
inseguranças e desespero. Deixá-la
partir fora um teste e tanto, quase
morreu. Queria tê-la impedido.
Não teve opção que não a de ver a
mulher amada sair de sua vida. Saber

que a magoara e que nada podia fazer
para remediar deixava-o abalado.
Não conseguia mais aguentar.
Prometera a si mesmo, após seis meses
esperando, que hoje visitaria o
apartamento dela. Tivera tempo o
bastante para dar-lhe uma segunda
chance.
Por que ela estava ali?
Apertou
os
lábios.
Independentemente do que quisesse, o
importante era o que resultaria do
encontro.
Só havia um resultado possível.
Seguir a vida sem ela era impensável.
Levara os funcionários, amigos,
familiares e a si mesmo ao limite, mas

era impossível pensar em outra coisa.
Perdeu o ânimo para trabalhar, para
conviver e até para navegar.
Precisava dar um jeito. Agora.
– ENTRE.
Callie entrou e parou; o coração
acelerado.
Lembrava-se de seu bronzeado, da
virilidade, da beleza deslumbrante.
Talvez estivesse até melhor. Devorou-o
com os olhos.
Com as mangas arremangadas, com o
primeiro botão aberto e sem gravata,
parecia ter trabalhado bastante. O
cabelo estava desgrenhado, como se

tivesse passado a mão sobre ele – como
já fizera nos dela.
Imagens íntimas percorreram o
pensamento dela. Precisou suprimi-las.
– Olá, Callie. – Não conseguia
interpretar sua expressão, parecia vazia.
Diferentemente dela, que transparecia
seus sentimentos.
– Olá, Damon.
A porta bateu e ela saltou. Estava
tensa.
– Não vai sentar-se?
– Obrigada. – Sabia que ele notava
sua aparência. Viera correndo da loja
até ali, sem tempo para trocar de roupa.
Estava arrumada, mas nada glamorosa.

Callie enrijeceu a espinha e o
encarou. Ao aproximar-se, notou algo
que não havia notado da porta – os
traços de cansaço em sua boca, as
olheiras e o aspecto estranho da
mandíbula.
Seu coração saltou. Ele andava
trabalhando demais.
Mas
não
podia
demonstrar
preocupação. E o pior é que se
preocupava.
– Legal de sua parte aceitar me ver. –
Detestava aquela voz afetada, ter que
fingir formalidade e tranquilidade
quando na verdade seu estômago
revolvia de nervosismo.
Damon aproximou a cabeça.

Havia se sentado do outro lado da
ampla mesa só para constrangê-la?
Não importava. Orgulhar-se era
bobagem.
O que importava era retomar o
contato com ele.
Se ele permitisse.
Ficou esperançosa ao conhecer a mãe
dele. Uma pequena esperança de que
sentisse algo além de pena. O fato de
ter comentado com a mãe sobre ela
devia significar algo, não? Mas,
olhando-o agora, talvez estivesse
enganada.
Damon não a amava.
Estava
nervosa.
Faltaram-lhe
palavras.

– Quer beber algo?
– Não. Não, obrigada. – Umedeceu
os lábios com a língua enquanto se
recompunha.
– Vim me desculpar – disse,
encarando-o. – Deveria ter vindo antes,
mas demorou para eu... assimilar as
coisas. – Parou, mas emudeceu. –
Deveria ao menos ter agradecido a
generosidade de restituir o que meu tio
roubou.
Ele gesticulou.
– Esquece. Não foi nada.
Ela inclinou-se.
– Foi, sim. Foi muito importante.
Deu-me a chance de recomeçar. Provar

a mim mesma que sou capaz de algo
que valha a pena.
– Isso conta para você?
– Claro! – Damon deu um
sorrisinho. – Quero que saiba que
devolverei o dinheiro quando...
Damon pulou.
– Nem pensar! – Sua voz ecoou pela
sala. Pela primeira vez, Callie viu os
olhos dele em chamas. Preferia-o assim.
Muito melhor que a indiferença
demonstrada
inicialmente.
Seus
batimentos aceleravam ao imaginar
Damon irritado. – Você veio para quitar
uma dívida? – Apesar de tudo, o tom
da voz era calmo.

O estômago de Callie revirou.
Nutrira falsas expectativas de que seu
coração fosse amolecer com a ausência
dela, que Damon sentiria amor por ela,
não condescendência.
Callie ficou com o choro entalado na
garganta.
Acabou. Hora de seguir em frente.
Talvez no futuro se lembre do que
viveram juntos sem a sensação de
perda. Estava exausta. Sentia o já
familiar peso nos ombros.
– Isso é tudo?
Callie acenou, evitando encará-lo.
– Sim. Obrigada por me ver. Espero...
espero que fique bem.

Ela levantou-se e foi rapidamente em
direção à porta, com os olhos
marejados.
– Espere!
A voz de Damon fê-la desacelerar.
Mas foi o artesanato que viu na parede
que a paralisou. Seus olhos arregalaram.
– Volte, sente-se aqui, Callie.
Balançou a cabeça, entorpecida.
Piscou, mas ele continuava lá: uma
grande paisagem ornamentada em
frente a mesa de Damon.
Seus joelhos tremeram. Percebeu um
movimento, era Damon aproximandose. Mas não conseguia desviar o olhar
da imagem diante dela.

– Você tem o meu quadro. – Sua voz
mal saía.
– Tenho. – A voz dele era grave.
Desviou o olhar da parede e tentou
encará-lo.
Não um quadro qualquer. O favorito
dela. Tão importante que um dia
pensara em nunca se separar dele. A
praia deserta e cercada de pinheiros
onde se conheceram.
– Ter um pedacinho do paraíso no
ambiente de trabalho ajuda a manter a
sanidade. – Ergueu um dos cantos do
lábio, destacando as covinhas sensuais
em seu rosto.
– Não é o paraíso. – Estava rouca. –
É...

– Sei bem o que é. – Aproximou-se
até cobrir-lhe a visão. Callie sentiu o
cheiro apimentado que tanto lhe fazia
falta. Chegou a piscar.
– Por isso pedi que minha irmã
comprasse. – Seu olhar era provocativo.
Callie tentou conter o crescente
entusiasmo e o ceticismo dentro de si. –
Você se incomoda por não ficar
sabendo que ela comprara para mim? –
Callie balançou a cabeça, sentindo um
fluxo de energia no brusco brilho de
seus olhos – Tem mais: pedi que fosse
até a loja para saber como você estava.
Sentiu um calor ao saber que Damon
preocupou-se com ela. Compartilhou

um pouco do calor quando ele segurou
sua mão.
– Pediu para comprar outras coisas? –
Inclinou a cabeça, tentando interpretar
a expressão dele apesar do ritmo
acelerado de seu coração.
– Não. Isso foi ideia dela. Gostou
tanto que contou às amigas.
– Muitos dos meus clientes vêm de
referências. – Porém verdadeiras, não
planejadas por Damon.
– Não está chateada?
– Por que ficaria, se você se
preocupou comigo?
Ficou imóvel, de olhos arregalados.
– Isso não é tudo. – Soou tão sombrio
que o coração dela palpitou. – Queria

conversar com você. Mas você deixou
claro que não queria nada comigo.
– O que houve? – Não devia ser nada
terrível, mas sua expressão assustou-a.
Notou seu lábio franzido e seu tom
distante. Sentiu-se culpada. Machucarao.
– Conversei com seu tio. – Sua
expressão era de satisfação. – Eu o
convenci a expandir horizontes.
Ofereci-lhe uma oportunidade para
administrar uma de minhas empresas
no Caribe. Sua tia não quis viajar. Vai
ficar na Grécia, cuidando do casamento
da sua prima.
– Foi ideia sua? – Estava
impressionada. Callie falara com a tia

há alguns dias. Soou como uma nova
mulher, livre do titio Aristides. – Você
cometeu um erro gravíssimo, ele vai
acabar com seus negócios!
A gargalhada de Damon acabou
reconfortando-a.
– Não se preocupe. Ele não vai ter
tantas responsabilidades e será bem
monitorado. Talvez até saia mudado.
Por trás do deboche havia um tom de
seriedade.
– Você fez isso por mim? – Mal podia
acreditar.
– Pela Angela e pela sua tia também.
Você vai dizer que quero controlar sua
vida.
Ela balançou a cabeça.

– Acho maravilhoso.
– Sério? – Arqueou as sobrancelhas.
– Mesmo tendo me deixado por acharme controlador como seu marido?
– Não! – Callie colocou a mão sobre
o braço dele. Foi tomada por um
aconchegante fluxo de energia. O
coração disparou. – Você não é como
Alkis! – Ficava horrorizada por ele
cogitar isso. – Você é generoso e
carinhoso. – Segurou seu antebraço,
tentando convencê-lo. – Você é...
especial.
Encarou-a profundamente.
– Diga-me, Callie: por que foi
embora quando quis pedir você em
casamento?

Damon percebeu uma onda de
choque tomar conta dela. Viu-a
arregalar os olhos. De felicidade ou
tristeza?
Sentiu um frio na barriga. Estava
muito ansioso. Tivera seis meses para
dar-se conta que ele era especial. Teria
funcionado?
– Não, por favor. – Seus olhos
cansados expressaram aflição e Damon
sentiu um golpe em seu peito,
deixando-o sem ar. – Você não
precisa... – Olhou para outro lado,
devastada. Não tanto quanto ele ficaria
se o deixasse de novo. Quase morrera
da primeira vez, mesmo sabendo que
era necessário.

– Não preciso o que, Callie?
Ela piscou e ele tocou seu rosto,
sentindo as lágrimas escorrerem. Seus
pulmões contraíram diante da dor dela.
– Não chore, Callie mou. Por favor. –
Vê-la chorar abalava-o.
– Sei que tem pena de mim. Mas, por
favor, você não case comigo por pena! –
Soluçou e ele abraçou-a com força.
Fazia muito tempo que não a
abraçava. Sentia-se completo com ela
ali, no lugar dela.
– Do que está falando, glikia mou?
– Eu, eu... – Olhou-o em lágrimas e,
apesar de não entender, ele sentiu uma
centelha de desejo. – Eu me apaixonei
por você – disse rapidamente. – Você

deve ter notado. Mas não posso
suportar que fique comigo por pena.
– Acha que faria isso?
Ela balançou a cabeça. Os olhos
brilhavam intensamente.
– Tudo que fez por mim... Entendo
que não foi pessoal, foi altruísmo. Sua
necessidade de fazer justiça, mas...
– Maldito altruísmo! – Trouxe-a mais
para perto, abraçando-a para que nunca
mais o deixasse. Marcando seu corpo
no dela. – Por isso me deixou? Achou
que sentia pena de você?
Balançou a cabeça contra seu peito e
ele sentiu-se entusiasmado como
nunca.

– A proposta continua. Quero casar
com você. Tenho até uma aliança para
provar.
– Não, por favor. Não daria certo...
– Pare de argumentar e me ouça.
Olhou para ele, que sorriu. O rosto
de Damon parecia prestes a explodir,
sentia tanto alívio que a abraçou. A
leveza, as curvas femininas e o aroma
de mistério eram como alcançar o céu
após o purgatório dos últimos meses.
– Quero casar com a mulher que
amo. Sensual, linda, talentosa, com
personalidade, determinada. – Era
ótimo finalmente dizer aquilo.
– Amor!

– Sim, amor. – Tirou o peso dos
últimos seis meses.
– Você me ama? – Soou perplexa.
Damon agarrou-a pela cintura e
ergueu-a, afastando-se da mesa para
balançá-la. Sentia sua leveza, igual à do
coração. A gargalhada dela ecoava,
rouca e surpresa.
Quem imaginaria que ela finalmente
encontraria a felicidade? Colocou-a no
chão.
– Amo você, Callie. Seria seu marido,
se pudesse confiar em mim.
– Mesmo?
– Mesmo.
– Damon. – Parecia gaguejar e as
lágrimas rolavam. Mas ele estava

olhando seu sorriso radiante, sabendo
que chorava pela alegria que ambos
sentiam. – Confio em você. Te amo
muito. Nunca mais quero me afastar.
O mundo parou com aquelas
palavras.
O lado primitivo e possessivo de
Damon queria mais do que um beijo.
Aproveitar o sofá grande contra a
parede para possuir sua mulher.
Esperara muito, estava sedento.
Apertou-a e ergueu-a.
– O que está fazendo?
Senti-la em seus braços era tentador.
– Levando-a daqui antes que a gente
se perca – respondeu o Damon
civilizado, sabendo que as mulheres

adoram um romance. – Pegaremos a
aliança e comemoraremos com um
jantar a dois. Depois chamaremos a
minha família, já é hora de conhecê-los.
Caminhou pela porta.
– Conheci sua família. – Os olhos
dela brilharam, fazendo o coração dele
disparar.
Colocou as mãos delicadas contra seu
peito. Ele parou. As bochechas dela
estavam coradas e seus olhos
entorpecidos.
– Quero é você.
Damon sentiu-se completo ao
contemplá-la.
– Sempre soube que você fazia meu
tipo, glikia mou. Que vida teremos

juntos!

Ally Blake

VESTIDO SECRETO

Tradução
Fátima Tomás da Silva

CAPÍTULO 1

PAIGE

DANFORTH não acreditava em
finais felizes. Portanto, devia ser muito
boa amiga para estar congelando na
porta de um armazém de Melbourne,
naquela manhã fria e nublada de
inverno, esperando as portas se abrirem
para que a amiga, Mae, comprasse um
vestido de noiva.
Os cartazes cor-de-rosa pendurados
na parede de tijolos anunciavam uma

liquidação. Vestidos novos e usados
com até 90 por cento de desconto.
Paige se perguntava se alguma das
outras mulheres da fila, que àquela
altura já dobrava a esquina do
quarteirão, seria capaz de ver a
realidade deprimente por trás do
espetáculo publicitário. Provavelmente
não, a julgar pelo brilho maníaco dos
olhos delas. Todas acreditavam
cegamente em canções e poemas de
amor.
– A porta se mexeu – sussurrou Mae,
agarrando-lhe o braço com tanta força
que devia ter deixado uma marca.
Paige levantou o cabelo comprido,
deu mais uma volta no cachecol e bateu

com os pés no chão para reativar o fluxo
sanguíneo.
– Está vendo coisas.
– Não estou, se mexeu – insistiu Mae
–, como se alguém a estivesse abrindo.
A notícia se espalhou feito um
incêndio descontrolado pela fila e Paige
quase foi derrubada pelo avanço
repentino.
– Calma! – disse, soltando-se das
garras da amiga, enquanto fulminava
com o olhar a mulher grosseira que a
empurrava. – As portas vão se abrir na
hora marcada, e você encontrará o
vestido dos seus sonhos. Se não
conseguir achar um entre tantos, é
muito azarada ou muito ranzinza.

Mae
lançou-lhe
um
olhar
carrancudo.
– Só por isso, eu deveria dispensar
você do posto de dama de honra.
– Fala sério? – perguntou Paige
esperançosa.
Mae riu, mas logo começou a dar
pulinhos na calçada, como um pugilista
pouco antes de subir ao ringue. Tinha o
cabelo avermelhado preso em um rabo
de cavalo e a sua concentração era total,
como no dia em que o seu noivo a
havia pedido em casamento.
De repente, as portas de madeira se
abriram, liberando um perfume de
cânfora e lavanda. Então, apareceu uma
mulher de aspecto cansado, usando

jeans largo e uma camiseta do mesmo
tom rosado do cartaz.
– Preço fixo! – gritou. – Não
aceitamos trocas, nem devoluções!
Tamanhos únicos!
A longa fila de mulheres avançou
pela porta como se tivessem anunciado
que Hugh Jackman faria massagens
grátis nas cem primeiras que entrassem.
Paige foi arrastada para o interior e
agarrou-se nos ombros de Mae quando
a sua amiga parou ao ver a maré de
mulheres se abrindo diante delas como
as águas do mar Vermelho fizeram com
Moisés.
– Meu Deus... – murmurou Mae.

Até Paige ficou impressionada com o
que viu. Dezenas e dezenas de vestidos
para todos os gostos estendiam-se até
onde os olhos podiam alcançar.
Vestidos de marca e feitos sob medida.
Vestidos de segunda mão. Vestidos
com defeito. Todos com generosos
descontos para uma queima total de
estoque.
– Vamos! – gritou Mae, correndo
para o primeiro que chamou sua
atenção.
Paige refugiou-se num canto junto à
porta e agitou o telefone no ar.
– Se precisar de mim, estou aqui!
Mae balançou a mão sobre o mar de
cabeças e desapareceu.

O que aconteceu a seguir foi uma
autêntica aula de antropologia. Uma
mulher de terno impecável começou a
gritar como uma adolescente ao
encontrar o vestido dos seus sonhos.
Outra, de óculos, roupas discretas e
cabelo preso, emburrou ao descobrir
que o vestido de que gostava não era do
seu tamanho.
Tudo por uma simples peça que só
usariam uma única vez, numa
cerimônia na qual eram obrigadas a
fazer promessas de amor e fidelidade
eternos. Para Paige, no entanto, o amor
cego por outra pessoa só levava à
decepção e ao arrependimento. Era
muito melhor jurar amor e fidelidade a

si mesma. Não valia a pena procurar
outra pessoa só para poder vestir-se
como uma princesa uma vez na vida.
Os cheiros de verniz e perfume se
misturaram aos de cânfora e lavanda, e
Paige teve de respirar pela boca.
Apertou o celular na mão, desejando
que Mae ligasse.
Mae sua melhor amiga e cúmplice
desde a infância. Eram inseparáveis
desde que seus pais se divorciaram, na
mesma época, e elas se convenceram de
que os finais felizes não passavam de
um mito romântico para vender flores e
bolos de casamento. Mae tinha
esquecido tudo aquilo ao conhecer
Clint.

Paige engoliu em seco. Desejava o
melhor à sua amiga e queria que ela
fosse feliz com o marido, mas cada vez
que pensava naquela hipótese, sentia
uma pontada de medo no estômago.
Portanto, decidiu se concentrar em
outra coisa.
Como gerente da loja de móveis
Ménage à Moi, andava sempre à
procura de lugares que servissem de
cenário para os seus catálogos. E,
embora aquele armazém estivesse um
tanto decadente, as paredes de tijolos
rachados poderiam oferecer um toque
romântico, desde que não tivesse outra
alternativa.

Mas ela não tinha a mínima intenção
de utilizar aquele lugar. O próximo
catálogo seria feito no Brasil e não havia
outra hipótese. Talvez fosse um gasto
excessivo, mas algo lhe dizia que valeria
a pena. O seu projeto era tão
interessante que a sua chefe não
poderia recusar. E era a mudança que
necessitava na sua vida...
Balançou a cabeça. O Brasil era a
mudança de que a empresa necessitava,
não ela. Ela estava muito bem. Ou
estaria, assim que saísse daquele galpão
velho.
Expirou pela boca, fechou um olho e
imaginou as enormes janelas cobertas
por cortinas azuis de chiffon

emoldurando a coleção da próxima
temporada, com motivos brasileiros e
cores brilhantes, tendo ao fundo as
paredes apagadas. De tão sujos, os
vidros mal deixavam passar a luz do sol,
salvo um raio que entrava por um
círculo incongruentemente limpo. O pó
dançava na sua trajetória, e Paige
seguiu-o com o olhar até uma fila de
vestidos de noiva com saias tão
volumosas que seria impossível avançar
com elas pelo corredor de uma igreja.
Já desviava o olhar quando algo
chamou sua atenção. O leve balançar
do chiffon cor de champanhe. O brilho
das pérolas. O complexo bordado da
renda. Uma cauda tão diáfana que

desapareceu quando alguém passou
perto dos cabides e bloqueou o raio de
luz.
Paige pestanejou algumas vezes, mas
seu coração disparou ao constatar que o
vestido tinha desaparecido.
Sentiu náuseas, um nó na garganta, e
foi incapaz de pensar.
Então, o vulto voltou a se mexer, o
raio de luz retomou sua trajetória sem
obstáculos... e ali estava o vestido
novamente. Um segundo depois, Paige
correu na direção dele como se
possuída por uma força sobrenatural e
suas mãos o puxaram do cabide,
separando-o dos outros tão facilmente

quanto Arthur havia retirado Excalibur
da pedra.
Seu coração disparou como um
cavalo selvagem enquanto os olhos
percorriam as alças, o decote em V, o
busto de renda e o fio de pérolas que
contornava a cintura e desaparecia na
saia elegante,.
– Lindo – disse uma mulher atrás
dela. – Você só está admirando ou
pensa em levá-lo?
Lindo? Aquela palavra não fazia
justiça à perfeição que pendia das mãos
trêmulas de Paige.
Abanou a cabeça, sem se virar, e
pronunciou as palavras que nunca
imaginou que fosse dizer algum dia.

– Este vestido é meu!
– PAIGE!
Novamente junto à porta, Paige
levantou o olhar e viu Mae se
aproximando.
– Estou ligando para você há 20
minutos!
Paige levou a mão ao bolso onde
estava o celular. Não tinha ouvido nem
sentido nada.
Mae sacudiu vigorosamente a pesada
sacola bege que trazia em uma das
mãos.
– Consegui! Queria te mostrar, mas
não te achei porque uma morena
gorducha ficava olhando para o vestido

como uma hiena faminta. Tive de
prová-lo ali mesmo, no meio da loja. E
me senti uma deusa! – Então, reparou
na sacola que Paige tinha no colo. –
Você encontrou um vestido de dama de
honra?
Paige engoliu em seco e balançou
lentamente a cabeça. Incapaz de dizer a
verdade, apontou para o mar de renda
e seda branca e cor de marfim.
– Você o comprou para um dos seus
catálogos? Vai usar algum casamento
como inspiração?
Ali estava a desculpa perfeita. O
vestido era caro, muito caro.
Mae arqueou as sobrancelhas,
manteve-as assim por alguns segundos

e depois riu.
– Pensei que só eu fizesse essas
loucuras, mas agora você ganhou de
mim.
– O que você quer dizer com isso? –
perguntou
Paige
ao
recuperar
finalmente a voz.
Mae levou a mão aos quadris.
– Diz pra mim, quando foi a última
vez que você teve um encontro?
Paige abriu a boca para responder,
mas não emitiu palavra alguma.
Simplesmente porque não conseguia se
lembrar quando havia sido seu último
encontro. Semanas? Meses? Em vez de
se preocupar com a resposta, preferiu se
convencer de que, no fundo, não havia

uma razão lógica e sensata para aquele
impulso consumista.
– Você tem de arranjar um homem,
e depressa – Mae a segurou pelo braço.
– Mas primeiro temos de sair daqui...
antes que este cheiro de verniz e
desespero me deixe enjoada.
ENQUANTO ESPERAVA as portas do
elevador do Edifício Botany, em
Docklands,
se
fecharem,
Paige
contemplou distraidamente o chão
preto e branco, o papel de parede de
tom escuro e as molduras douradas das
portas, tudo tenuemente iluminado por
lustres de madrepérola.

Será que Mae tinha razão? A compra
impulsiva do vestido seria resultado de
uma longa abstinência, como um
reflexo invertido no espelho? Talvez.
Porque, embora não tivesse a mínima
intenção de se casar, gostava de
homens. Gostava do cheiro, dos
pensamentos e do calor que a invadia
ao se sentir atraída por eles. Gostava
dos homens que se vestiam bem, que a
convidavam para sair, que trabalhavam
tanto quanto ela e não queriam mais
nada além de uma boa companhia. Ou
seja, o tipo de homem que tornava
famoso o centro de Melbourne.
Onde tinham se metido todos eles?

Ou talvez a culpa fosse sua. Talvez
estivesse muito ocupada, envolvida de
corpo e alma no projeto do catálogo
brasileiro. Ou simplesmente cansada de
sair sempre com o mesmo tipo de
homem. A única certeza é que já não
aguentava mais ficar em casa assistindo
as reprises de
Gilmore
Girls,
exaustivamente exibidas na televisão.
Mudou a sacola de mão e pesou-a
nos dedos enquanto a porta do
elevador se fechava. Já estava
esperando há algum tempo e poderia
esperar ainda mais. O elevador tinha
personalidade própria: subia e descia de
forma completamente aleatória, sem
parar no andar desejado. De nada

tinham servido os chutes, nem avisar do
problema a Sam, o porteiro. Na
verdade, talvez Sam é quem devesse
levar os chutes...
Por outro lado, um elevador com
defeito era um preço mínimo a ser pago
para viver no seu pequeno paraíso do
oitavo andar. Tinha crescido numa casa
enorme, com cortinas de linho, que
cheirava a flores secas e tensão. Assim
que viu o espaçoso e esbelto
apartamento do Botany, sentiu como se
pudesse respirar de verdade pela
primeira vez na sua vida.
Fechou os olhos e pensou na
decoração
minimalista
do
seu
apartamento, na vista da cidade, nos

dois quartos... um para ela e o outro
que servia tanto de escritório quanto
para acolher Mae, quando a sua amiga
dormia lá depois de uma noite de
farra... algo que não acontecia desde
que Clint a pedira em casamento.
Balançou a cabeça, como se estivesse
espantando uma mosca. O elevador era
só um pequeno detalhe, a não ser nas
vezes em que chegava em casa
carregada com uma sacola tão pesada
quanto aquela.
Muito bem. Se a sua carência de
encontros a levara a cometer aquela
loucura, teria de fazer algo a esse
respeito. E depressa. Caso contrário,
qual seria o próximo passo? Comprar

um anel? Alugar um salão no Hotel
Langham? Contratar um avião que
desfilasse pelos céus de Melbourne com
uma faixa na qual ela se oferecia como
noiva?
– Prometo me atirar nos braços do
primeiro homem que sorrir para mim –
murmurou para si. – Pode me convidar
para jantar ou eu posso convidá-lo para
um café. Até mesmo para pegarmos
juntos uma garrafa d’água da máquina
do terceiro andar, não importa. Preciso
passar um tempo com um homem, e
depressa!
Uma eternidade depois, Paige
soluçou de alívio quando a porta
começou a se fechar, mas, antes que o

processo se
completasse,
dedos
compridos e bronzeados apareceram no
espaço, impedindo que se fechasse.
– Segure a porta – disse uma voz
profunda e masculina.
Oh, não!, pensou Paige. Se a porta se
abrisse, a longa espera recomeçaria.
– Não? – perguntou o homem,
espantado, e Paige encolheu-se de
vergonha ao perceber que devia ter
falado em voz alta. Os anos vivendo
sozinha tinham feito com que ela
adquirisse o hábito de falar consigo
mesma.
Sem o mínimo remorso, pressionou
repetidamente o botão para fechar a
porta.

Mas os dedos compridos e
bronzeados tinham outras ideias.
Seguraram a porta com uma
impressionante demonstração de força
bruta e, então, apareceu o dono deles.
Um homem alto e forte, tão corpulento
que encobria a vista do saguão. Tinha a
cabeça abaixada e o cenho franzido
enquanto olhava para o telefone que
segurava na outra mão.
A imagem fez com que Paige se
encolhesse ainda mais no pequeno
espaço. Os seus olhos percorreram
rapidamente o casaco de couro
castanho com gola de lã, o jeans justo
nas coxas poderosas, o vulto retangular

da carteira no bolso traseiro, as botas
cheias de riscos...
Toda a quietude inspirada pelos
lustres de madrepérola e pelas
molduras douradas se desfez com o
impacto súbito causado pela visão
daquele
desconhecido.
Um
redemoinho de calor formou-se em seu
estômago e subiu até o rosto. E, antes
que
conseguisse
recuperar
a
normalidade, uma voz interior lançou
uma súplica silenciosa àquele homem:
Sorria.
Tossiu, horrorizada pelos seus
pensamentos. Não era nele que estava
pensando quando decidiu que se
atiraria nos braços do primeiro homem

que lhe sorrisse. Não, ela queria algo
mais delicado e seguro do que aquele
espécime
cru
de
virilidade
e
testosterona, ombros largos e cabelo
preto alvoroçado. Não deixou de notar
também os olhos escuros, a barba
incipiente que cobria o queixo robusto e
os lábios perfeitos, que se curvaram
ligeiramente para cima enquanto ele
guardava o telefone no bolso interno do
casaco.
Ele notou que Paige o observava e,
nesse momento, ela sentiu o sangue
ferver.
– Obrigado por esperar – disse o
desconhecido, num tom irônico e
intenso.

– De nada – respondeu Paige.
Olhou-o nos olhos e viu como arqueava
quase
imperceptivelmente
as
sobrancelhas. A negativa dela, de
esperar que ele entrasse, não havia
passado despercebida.
Comprimiu os lábios e encolheu-se
contra a parede do elevador. O espaço
era minúsculo, como havia visto no
desenho original do edifício, e aquele
homem enchia-o com a sua presença.
Cada vez que respirava, Paige sentia um
arrepio. Quanto antes aquele homem
chegasse ao seu destino, melhor.
– Que andar? – perguntou ele.
– Oitavo – disse ela, com voz grave,
apontando o botão iluminado do

número oito.
O desconhecido passou uma das
mãos pela nuca e voltou a esboçar um
sorriso; Paige conteve a respiração
enquanto seus hormônios se agitavam e
seus joelhos tornavam-se gelatinosos.
– Foi um voo longo – disse ele. A sua
voz reverberou pelo chão do ambiente e
subiu pelas pernas de Paige. – Ainda
não aterrissei totalmente.
O que ele queria dizer? Mais um
centímetro dele e Paige iria se fundir
com a parede.
O desconhecido pressionou o botão
que fechava a porta e um formigueiro
percorreu a pele de Paige. Inspirou
profundamente, sorvendo a deliciosa

mistura de aromas: couro, madeira, ar
marinho, um suor que não era o seu...
Lá fora fazia um frio invernal, mas
Paige desenrolou o cachecol do pescoço
e pensou em sorvetes e bolas de neve
para rebater o súbito calor que a
invadiu. Embora os olhos daquele
homem a fizessem pensar que nem uma
nevasca seria suficiente para refrescá-la
naquele momento.
Ele resmungou quando o aparelho
permaneceu parado.
– Oh, não se preocupe… – disse
Paige. – É inútil apertar o botão. Este
elevador faz o que quer, sem a mínima
consideração por…

Naquele momento, a porta se fechou,
sentiu-se um leve solavanco e, por fim,
o maquinário iniciou o processo de
subida. Espantada, Paige olhou para o
visor dos andares, onde os números se
iluminavam em ordem sequencial na
medida em que a cabine se elevava
suavemente.
– O que você estava dizendo? –
perguntou o homem.
Paige o encarou e distinguiu um
brilho de humor no seu olhar, como se
ele fosse sorrir a qualquer momento.
– Parece que o elevador fica de
pirraça comigo – disse, com o tom mais
despreocupado que pôde. – Já pensou

em ser ascensorista? Eu mesma o
pagaria.
A expressão do homem abriu-se em
um meio sorriso simpático e quente.
Ou, melhor dizendo, ardente, como se
o brilho do seu olhar tivesse acendido
as suas feições duras.
– Obrigado, mas já tenho bastante
trabalho.
Ele havia se aproximado dela? Ou
apenas havia mudado de posição? De
qualquer forma, a cabine pareceu
encolher.
– Bom... deveria tentar.
O bonito lábio superior começou a
curvar-se e Paige olhou para o visor
sobre a porta.

– Mora no edifício? – perguntou ele.
Paige assentiu, mordendo o lábio
para que não lhe tremesse.
– Isso explica a... intimidade com o
elevador.
Paige respirou fundo e, mais uma
vez, encheu os pulmões com aquele
aroma fresco e varonil. Talvez não fosse
apenas a sua imaginação: o homem
deveria ser piloto de combate, lenhador
ou iatista. Não eram hipóteses assim tão
absurdas...
– Começou há pouco tempo – disse
ela, com uma voz cansada, como se
tivesse dado um pique de cem metros
em menos de dez segundos. – Antes, só
passava um pouco do andar, mas agora

falha sempre. E eu continuo a apertar o
botão, mesmo sabendo que não adianta
nada. Mas ainda tenho esperança de
que algum dia ele vai se comportar
como um elevador normal.
– A mulher e o elevador... – disse ele,
com um brilho de regozijo nos olhos. –
Parece um filme de ficção científica.
Paige soltou uma gargalhada que
ecoou pelas paredes do espaço
minúsculo. Olhou-o nos olhos e
encontrou um brilho tão intenso e
penetrante que por instantes esqueceu
onde estava.
Sua reação só podia ser explicada
pela longa abstinência em que se
encontrava.
Aquele
homem

simplesmente não era o seu tipo. Paige
gostava de homens bem-apresentados,
trajados com bom gosto e de modos tão
suaves que os tornassem discretos.
Homens aos quais ela podia convidar
para sair por três noites seguidas, desde
que eles aceitassem dividir todas as
despesas e não fizessem promessas que
não estariam interessados em cumprir.
Este, ao contrário, tinha feições duras
e bem-definidas, era enigmático, e tão
sensual que Paige tinha de se controlar
para não afundar o rosto no seu
pescoço.
Uma aventura com um homem assim
seria como trocar um passeio de pônei
por um galope em um garanhão na

Melbourne Cup, mas ela não estava
interessada em relação alguma. Apenas
queria um trampolim para saltar
novamente no mundo dos encontros.
Estendeu a mão.
– Paige Danforth. Do oitavo andar.
– Gabe Hamilton. Do décimo
segundo.
– O apartamento de cobertura? –
Aquele apartamento estava vazio desde
que ela se mudara para o edifício. –
Então, você é novo aqui?
– Não exatamente...
– Como assim? Eu não me lembro de
tê-lo visto antes.
– Nem poderia.

Paige piscou os olhos; parecia que
conversavam
sobre
o
mercado
imobiliário, sem segundas intenções por
trás.
– Não sabia que ele tinha sido
vendido.
– Não foi vendido: é meu. Apenas
estive fora e agora voltei – não disse por
quanto tempo, mas o brilho dos seus
olhos sugeriu que a temporada seria
longa.
O elevador parou no momento em
que Paige se enchia de coragem para
fazer algo tão imprudente quanto
necessário e a porta se abriu.
– Entendo – murmurou ela, olhando
para o papel de parede prateado do seu

andar. O que podia fazer além de sair?
Passou por Gabe e acidentalmente
roçou-lhe o pulso com a mão. Foi um
contato muito breve, mas sua pele
ardeu enquanto saía do elevador. Ela se
encheu de coragem e decidiu convidálo para um café, ou para lhe mostrar as
vistas de Melbourne. Ou para qualquer
outro eufemismo que acabasse de uma
vez por todas com a sua longa
abstinência.
Entretanto, ele conteve um bocejo
com a mão e Paige compreendeu que o
brilho dos olhos dele deveria ser uma
reação normal ao jet lag e não a uma
espécie de química extraordinária e
recíproca.

Se antes ela achou que tinha ficado
corada, naquele momento seu rosto
devia assemelhar-se a um carro de
bombeiros.
Por favor..., suplicou ao elevador
enquanto os dois se olhavam. Feche logo
essa porta, ao menos desta vez, por
favor...
Suas preces foram ouvidas e a
divisória cromada começou a deslizar.
Antes que a figura de Gabe ficasse
escurecida, contudo, ele segurou a
porta, interrompendo o mecanismo.
Aquele equipamento não era rival para
sua força.
– Adeus, Paige Danforth, do oitavo
andar – disse, antes de retirar a mão.

E sorriu no último instante antes de a
porta encobrir sua imagem. Um sorriso
letal, cheio de promessas, que cativou
Paige até seu último fio de cabelo.
Ela permaneceu alguns instantes no
corredor, respirando calmamente, com
a imagem daquele sorriso gravada na
retina, incapaz de se mexer.
O ruído metálico do elevador a
despertou do seu devaneio. Pestanejou
e viu o seu reflexo na porta cromada.
Ou, melhor dizendo, viu a grande
sacola branca que pendia da sua mão
direita... aquela mão direita que nunca
mais voltaria a sentir da mesma forma.
Havia se esquecido completamente da
sacola.

A sacola que trazia bordado em letras
cor-de-rosa: Saldão de vestidos de noiva.

CAPÍTULO 2

– BOLAS...

– RESMUNGOU Gabe,
sozinho no elevador, esfregando as
costas da mão onde ainda sentia o calor
daquele toque acidental.
Além das horas intermináveis na
Alfândega, do trajeto desde o
aeroporto, e do vento gelado que
soprava em Port Phillip Bay,
congelando seus ossos enquanto
esperava que o taxista lhe cobrasse a

corrida com o cartão de crédito, Gabe
esperava que não houvesse qualquer
outra razão que o segurasse em
Melbourne um minuto além do que o
estritamente necessário.
E o destino o tinha apresentado a
uma vizinha de olhos azuis, pernas
quilométricas e uma cabeleira loura
ondulada que teria enlouquecido
Alfred Hitchcock. Chegava mesmo a ter
os olhos da loura clássica tão cara ao
diretor, que advertiam a qualquer
homem: entre por sua conta e risco.
Mas ele não necessitava de nenhuma
advertência. Nate, seu sócio, o
incumbira de assinar um documento e,
tão logo o fizesse, entraria num táxi e

voltaria para o aeroporto. Nem aquela
química que tinha transformado o
pequeno elevador numa estufa móvel o
faria mudar de opinião.
Endireitou a mochila no ombro,
enfiou as mãos nos bolsos do casaco e
apoiou-se na parede, com os olhos
fechados. A lembrança de onde estava e
de por que tinha ido embora teimava
em escapar do fundo da sua mente.
Para se distrair, recomeçou a pensar na
loura. Na forma como mordia o lábio
inferior, na doce e deliciosa fragrância
que recendia de seu corpo e preenchia
o espaço diminuto e na maneira como o
olhara... primeiro com fastio, e depois,
como se quisesse comê-lo.

– Céus! – exclamou, ao mesmo
tempo que abria os olhos e se agarrava à
barra de segurança da cabine. O
equipamento havia trepidado ou era
ele? Seria o jet lag? Ou estaria com
vertigem?
Passou as mãos pelo rosto. Precisava
dormir e pensou na cama enorme que
havia despachado da África do Sul na
semana anterior. O acordo já estava
fechado e partiria assim que surgisse a
próxima oportunidade de investimento,
mas, de qualquer modo, imaginou-se
com o nariz enterrado no travesseiro,
dormindo por doze horas seguidas.
Para alguns, o lar era uma casa de
tijolos e cimento. Para outros, era a

família. Para Gabe, era onde estava o
trabalho. E onde pudesse investir com
sucesso, era para lá que enviava a sua
cama. E o seu travesseiro... tão
deformado que já quase não o servia. E
havia ainda o colchão, perfeitamente
adaptado ao seu corpo.
O elevador abriu-se para o
apartamento de cobertura justamente
quando começava a adormecer em pé.
Bocejou até ouvir os ouvidos estalarem
e procurou as chaves do apartamento
que nunca vira. Tinha-o comprado para
calar Nate, que insistia para que ele
arranjasse
uma
residência
em
Melbourne, já que ali ficava o escritório
da empresa.

Abriu a porta. Comparado com o
quarto de hotel simples que fora o seu
lar nos últimos meses, aquele
apartamento era gigantesco. Ocupava
todo o andar e tinha janelas enormes,
que tomavam o espaço inteiro de uma
parede, mas o mundo cinzento e
chuvoso que elas mostravam e a pintura
de cor sombria e triste transmitiam uma
sensação claustrofóbica.
– Bom, Gabe... – disse ao seu reflexo.
– ... você não está mais no Rio de
Janeiro.
Deixou a mochila e a pasta do laptop
no único móvel da sala, um sofá preto
em forma de L que dividia o ambiente
em dois, mas um grito lançado do meio

das almofadas o fez esquecer
imediatamente o jet lag e a vertigem.
Com o coração aos pulos, surpreendeu
um homem deitado ali.
– Nate... – murmurou ao reconhecêlo, curvando o corpo para recuperar o
fôlego. – Que susto você me deu!
O melhor amigo e sócio de Gabe
levantou-se, com o cabelo grudado nos
lados da cabeça.
– Queria me certificar de que
chegaria são e salvo.
– Pois cheguei, como vê – disse Gabe.
– Diga-me que encheu a geladeira.
– Não, me desculpe... mas trouxe
rosquinhas. Estão ali na cozinha.

Gabe avistou a caixa branca em cima
da mesa da cozinha enquanto andava
até a geladeira, vazia a não ser pelo
manual de instruções. Parou, sentindo
um calafrio na espinha. Deu meia-volta,
atravessou o apartamento, abriu a porta
dupla que dava para o quarto e...
Não havia cama.
Praguejou em voz baixa e esfregou o
pescoço tão rapidamente que sentiu os
dedos queimarem.
A mão de Nate pousou no seu ombro
um segundo antes de ouvir o amigo
gargalhar.
– O seu sofá é menos confortável do
que parece.

– Pois achei que isso não faria
diferença para você.
– Você me conhece, sabe que consigo
dormir em qualquer lugar. É uma das
vantagens de ter insônia crônica.
Gabe fechou lentamente as portas do
quarto, sem querer olhar para o espaço
onde deveria estar a sua cama.
– Você vai para um hotel? –
perguntou Nate.
– Só de pensar em sair com este frio,
meus dentes batem.
– Eu poderia ceder o meu sofá, mas o
meu decorador enlouqueceu e o
estofou de couro com botões por todo
lado.

– Obrigado, mas não quero me
arriscar a pegar nada.
Nate sorriu e se afastou.
– Bom, agora que você chegou, já
posso ir. A gente se encontra no
escritório na segunda-feira. Lembra do
endereço?
Gabe não se incomodou em
responder. Só ia a Melbourne uma vez
a cada dois ou três anos, mas sabia
muito bem de onde recebia o seu
salário.
Nate estalou os dedos a caminho da
porta.
– Já ia me esquecendo... na sextafeira à noite haverá uma festa para
celebrar nosso novo apartamento.

Para Gabe não fazia diferença: na
sexta-feira já estaria bem longe dali.
– Meio tarde, eu sei – disse Nate. –
Mas já está tudo preparado. Chamei
Alex, o velho grupo da universidade,
alguns clientes e também algumas
garotas que acabei de conhecer.
– Nate...
– Ei, considere-se um cara de sorte!
Estou tão contente por você ter vindo
que quase espalhei panfletos de um
avião.
Foi embora e Gabe ficou sozinho no
apartamento enorme, vazio e frio. A
neblina de Port Phillip Bay condensavase do outro lado das janelas como uma
nuvem de más lembranças, fazendo-o

descartar qualquer possibilidade de
continuar ali ao fim de uma semana.
Antes que congelasse, procurou o
controle do aquecedor e o pôs no
máximo.
Em um dos armários encontrou
colchas e lençóis; despiu-se e
improvisou uma cama no chão do
quarto, completando-a com um
travesseiro grande. Adormeceu assim
que fechou os olhos.
E começou a sonhar.
A mão feminina suave e fresca
acariciava seu cabelo enquanto um
conversível vermelho rugia pelas curvas
de uma escarpa do sul da França.
Pararam em um ponto panorâmico e a

dona da mão, uma linda mulher loura,
sentou-se no seu colo, envolvendo-o na
sua doce fragrância um segundo antes
de depositar-lhe um suave beijo no
rosto.
Morra de inveja, Hitchcock!
NAQUELA NOITE, no Brasserie, um dos
concorridos restaurantes que se
localizavam na orla, Mae contou a Clint
do ataque consumista de Paige, levando
o noivo a se engasgar com a comida.
Um empregado teve de lhe aplicar a
Manobra de Heimlich para desobstruir
suas vias respiratórias. No fim, todo o
restaurante aplaudiu, enquanto Paige,

envergonhada, cobria o rosto com as
mãos.
– O que aconteceu com você nas
últimas 24 horas? – quis saber Clint, já
recuperado. – O taxista a pediu em
casamento?
Paige fulminou-o com o olhar; Clint
sorriu e levantou as mãos em gesto de
rendição, antes de se entreter com o
celular.
Ela não se incomodou em confirmar
que continuava tão resistente a
qualquer compromisso quanto antes,
mas também omitiu os detalhes do
elevador e do novo vizinho, capaz de
fazer uma mulher perder a cabeça sem

que ela precisasse de umas doses a
mais.
Pôs as mãos na barriga, onde ainda
podia sentir o murmúrio da sua voz
profunda e varonil.
Como no restante do dia, ficou
pensando na sacola branca com letras
cor-de-rosa pendurada numa cadeira
da sala de jantar. O fato de Gabe
Hamilton tê-la cortejado enquanto ela
carregava um vestido de noiva indicava
a total falta de escrúpulos dele. Mais
uma razão para que não se
envolvessem. Para Paige, a fidelidade
era sagrada. Trabalhava para a mesma
empresa desde a universidade. Tinha a
sua melhor amiga desde a época do

colégio. Seria capaz de dirigir por meia
hora para ir a seu restaurante tailandês
favorito. Lembrava de como sua mãe
havia sofrido por causa das constantes
traições do seu pai...
– Parece que temos um novo pirata
na cidade – disse Mae, devolvendo-a ao
presente.
Clint levantou brevemente o olhar,
mas o que viu não o interessou nem um
pouco. Rolou seu corpo para mais perto
de Mae e continuou a mexer no
telefone.
Paige virou o pescoço para olhar por
cima do ombro. Sentiu o coração
disparar ao ver seu vizinho no meio do
salão, aquecendo as mãos sobre a

lareira. O cabelo preto encrespava-se
ligeiramente por cima da gola do
casaco.
– Olhe aquilo... – disse Mae. – Ali de
pé com as pernas separadas, como na
proa de um barco no mar revolto... ou
como se precisasse de espaço para o seu
pacote...
– Mae!
A amiga encolheu os ombros.
– Não olhe para mim. Olhe para ele.
Paige não queria olhar. Resistiu com
todas as suas forças, mas, por mais que
buscasse esquecê-lo na mente, o resto
do seu corpo a incentivava que agisse
no sentido contrário. Sem conseguir
mais se conter, virou-se para ele a

tempo de vê-lo puxar o celular do bolso
do casaco. O movimento revelou uma
ampla porção do peito coberto por uma
camiseta desbotada e Paige não soube o
que a fez salivar mais: se o brilho fugaz
do abdômen bronzeado e exposto ou os
rápidos toques do seu polegar sobre o
visor do telefone.
Então, ele se virou e percorreu o
salão com o olhar.
– Abaixem-se! – exclamou Paige,
afundando-se na cadeira até quase
desaparecer debaixo da mesa. O casal
de noivos, no entanto, limitou-se a
olhá-la, atarantado e de boca aberta.
– O que você está fazendo? –
perguntou Mae.

Paige endireitou-se, bem lentamente.
– Eu o conheço – admitiu, desejando
ter olhos na nuca.
– Sério? E quem é?
– Gabe Hamilton. Mudou-se para o
meu edifício. Nós nos conhecemos no
elevador esta manhã.
– E? – incitou-a Mae, saltando na
cadeira.
– E nada. Não comece com suas
ideias. Tentei impedir que entrasse, mas
ele forçou a porta e tive de fazer uma
viagem muito constrangedora.
Mae não deixava de sorrir.
– Sim, ele é muito bonito e cheira
como se tivesse passado o dia
construindo uma cabana no bosque. E...

bom, talvez tenhamos flertado um
pouco – levantou a mão para atalhar o
comentário de Mae. – Mas o melhor de
tudo é que nos encontramos depois que
você me deixou em casa... enquanto eu
carregava a sacola com o vestido de
noiva.
– Mas você não disse a ele que...?
– Dizer o quê? Olha, estranho, está
vendo este vestido de noiva? Não ligue
para ele, não quer dizer nada. Eu sou
livre e, se quiser, serei toda sua.
– Parece-me uma boa explicação –
interveio Clint.
Mae deu-lhe um tapinha leve no
peito. Ele sorriu e continuou a fingir
que não estava escutando.

– A culpa é toda sua e das suas
teorias sobre a falta de homens –
acusou Paige. – Você fez com que
flertar com qualquer um se tornasse um
desafio, uma missão quase impossível.
– Então, se fosse o porteiro, você o
teria atacado ali, no elevador? –
murmurou Mae, balançando a cabeça
como se Paige estivesse louca.
Paige sentiu o chão tremer sob a
cadeira. A amiga deveria tê-la
compreendido. Ou, pelo menos, a
amiga que sempre conhecera. Aquela
nova Mae, comprometida e feliz, estava
cega pelo romantismo.
Paige reprimiu o impulso de lhe
incutir um pouco de bom senso,

agarrou o copo e bebeu um longo gole
do coquetel.
– Aquele homem deve pertencer a
outro mundo – disse Mae. – Um
mundo onde engenheiras nucleares
bancam as modelos no tempo livre. Ou
então é homossexual.
– Isso ele não é – declarou Paige,
recordando como ele havia lhe
acariciado o rosto com o olhar e se
aproximado
dela,
centímetro
a
centímetro, enquanto subiam. O jet lag
não podia ser a única explicação. – Seja
como for, não importa. Um homem que
tenta seduzir uma mulher que carrega
um vestido de noiva deveria ser
castrado!

– Diga isso a ele, então – preveniu
Mae. – Porque ele está vindo para cá...
Gabe estava prestes a ir embora
quando seus olhos a avistaram.
Primeiro, viu a amiga, uma mulher
ruiva que parecia não ter qualquer
sutileza ao olhar para desconhecidos.
Logo depois, reconheceu o cabelo louro
e ondulado da sua vizinha, que estava
de costas para ele. Se ela tivesse sorrido
ou cumprimentado, ele teria retribuído
simplesmente e ido embora, mas não
gostou de se sentir ignorado pela
mulher que ele tinha decidido ignorar.
Aquilo
estimulou
seu
orgulho
masculino e o incentivou a dirigir-se até
ela.

– Ora, ora, se não é a menina do
oitavo andar... – disse, pousando uma
das mãos nas costas da cadeira.
Paige virou-se, com as sobrancelhas
arqueadas e um sorriso tímido, mas,
assim que os seus olhos se encontraram,
Gabe sentiu um nó no peito e um afeto
repentino pelo chão duro que lhe serviu
de cama.
Maldito Hitchcock!, pensou, ao
recordar aquelas madeixas louras
acariciando levemente seu peito no
banco do conversível. Foi apenas um
sonho, é verdade, mas sua libido não
percebia a diferença.
– Quando me despedi, não imaginei
que fôssemos nos ver de novo tão

depressa.
– Se moramos no mesmo edifício,
será comum nos encontrarmos.
– Que sorte a nossa... – disse ele, com
um sorriso repleto de significados.
A insinuação não lhe passara
despercebida, a julgar pelas chamas dos
seus olhos, mas era evidente que se
continha.
Tudo nela, desde as unhas pintadas
de cor-de-rosa até a ponta dos fios de
cabelo, indicava se tratar de uma fonte
de problemas e complicações. E, no
entanto, Gabe não conseguia deixar de
sorrir.
Talvez fosse pelo desafio, pelo sonho,
ou pelo tempo que preferia usar para

agir em vez de pensar. O caso era que,
olhando para aqueles cintilantes olhos
azuis, soube que queria conhecer
melhor aquela mulher.
A ruiva pigarreou e desviou a
atenção de ambos.
– Gabe Hamilton, apresento a minha
amiga Mae – disse Paige. – E o seu
noivo, Clint.
Mae esticou o braço sobre a mesa
para lhe apertar entusiasticamente a
mão.
– Ouvi dizer que você acabou de
chegar do exterior.
A mesa vibrou sensivelmente e Mae
fez uma careta de dor, como se tivesse
recebido um chute na perna.

Então sua vizinha esteve falando dele
para os amigos... talvez fosse mais fácil
do que ele pensara.
Puxou uma cadeira da mesa ao lado
e sentou-se junto a Paige, que fingia
estar concentrada apenas no seu prato.
– Sim, do Brasil – respondeu, vendo
como Paige ficava rígida na cadeira.
– É mesmo? – perguntou Mae. –
Ouviu, Paige? Gabe esteve no Brasil.
Paige fulminou a sua amiga com o
olhar.
– Obrigada, Mae. Eu ouvi.
Mae apoiou o queixo na mão.
– E voltou em definitivo?

Não

respondeu
ele.
Naturalmente, não revelaria que, se

pudesse escolher, preferia mergulhar
num rio cheio de piranhas a ficar na
cidade. – Só vim por alguns dias para
tratar de negócios.
– Que pena... – disse Mae, enquanto
Paige permanecia em silêncio, olhando
para o outro lado. – Paige tem muito
interesse pelo Brasil.
– Ah, é?
Olhou fixamente para Paige e sorriu.
Ela esbugalhou os olhos e respirou
agitadamente, no mesmo ritmo que ele.
A libido de Gabe elevou-se como um
foguete. Agarrou-se à cadeira de Paige
e o seu polegar ficou a poucos
milímetros das costas dela. Ela respirou
fundo e engoliu em seco, enquanto se

arqueava
ligeiramente,
e
Gabe
praguejou em voz baixa.

Sim

confirmou
Mae,
alegremente, alheia à tensão sexual que
aumentava entre os seus companheiros
de mesa. – Ela passou os últimos meses
tentando convencer a chefe a mandá-la
para lá, para fazer o catálogo de verão.
– Que coincidência! – perguntou
Gabe, olhando para Mae num esforço
para manter a compostura. – E que tipo
de trabalho ela faz?
– Sou gerente de uma loja de móveis
– interveio Paige. – A coleção de verão
é baseada em motivos brasileiros. E
você, o que estava fazendo no Brasil?

Aquela pergunta foi o balde de água
fria que Gabe tanto estava necessitando
para aplacar a fúria que já lhe
espicaçava por baixo da calça. Tinha
aprendido da pior maneira que, quanto
menos soubessem sobre o seu trabalho,
melhor.
– Atualmente, estava tratando de
negócios com café – explicou. – Gosta
de café?
– Café? – Ela pestanejou, espantada
pela mudança de assunto, e virou-se na
cadeira até ficar de frente para ele, ao
mesmo tempo em que mordia o lábio
inferior, deixando-o úmido e inchado.
Mais uma vez, Gabe sentiu a atração

que os tinha dominado no elevador. –
Depende de quem o faça.
Gabe sentiu o chão mover-se sob os
seus pés, da mesma forma que no
elevador, e agarrou-se às costas da
cadeira como se a sua vida dependesse
disso.
Vertigens,
pensou.
Definitivamente, vertigens. Hitchcock
deleitava-se com os castigos mais cruéis
que impunha às suas inquietas e
impressionáveis louras.
E se ele quisesse ir embora, que
mensagem iria passar?
– Por que café? – quis saber Mae.
– Perdão?
– O motivo que te levou ao Brasil...
tem interesse em plantar café? Colhê-lo,

vendê-lo ou abrir uma cafeteria por lá?
Gabe pensou antes de responder. O
negócio já estava fechado e não ia
permitir que nada, nem ninguém, o
comprometesse.
– Invisto numa companhia chamada
Bean There.
Tarde demais. Paige havia percebido
sua hesitação e, por algum motivo,
afastou seus joelhos de perto dele
debaixo da mesa. Aquela mulher
passava muito rapidamente do fogo
mais ardente ao frio mais intenso.
Gabe pensou em se retirar, mas, no
fundo, era um tubarão e, tão logo
fincava os dentes em sua presa, não a
soltava mais. Por isso era o melhor no

que fazia e nunca havia feito um
negócio que não tenha conseguido
fechar. Paige ainda não sabia, mas,
quanto mais tentasse se proteger dele,
mais ficaria exposta.
– Que entusiasmante! – exclamou
Mae. – Informação privilegiada do
nosso pirata executivo particular!
Gabe encolheu-se e mordeu a língua.
– Na verdade, é uma informação
muito comum, que qualquer pessoa
pode obter. Assim, pode espalhar a
notícia à vontade, se quiser. Quanto
mais dinheiro ganharem, maiores serão
os meus lucros.
Estava na hora de sair e reorganizar
suas ideias. Afastou-se da mesa

decidido.
– Fica! – suplicou Mae.
– Obrigado, mas não posso. Tenho
de recuperar algumas horas muito
necessárias de sono.
Olhou
para
Paige,
tentando
supreender nela alguma reação pela sua
partida. Ela, porém, continuava sentada
normalmente, com as mãos uma por
cima
da
outra,
demonstrando
indiferença.
Mas seu olhar a traiu. Primeiro fixouse na braguilha de Gabe, subindo
lentamente pelo tronco, parando no
peito, no pescoço e na boca, antes de
finalmente encontrar o dele.

– Na sexta-feira vou dar uma festa
em casa – disse Gabe, sem conseguir
conter-se. – Todos vocês são bemvindos.
– Nós iremos – prometeu Mae.
Gabe apertou a mão dela e a de
Clint, deixando Paige para o fim.
– Paige – murmurou, estendendo-lhe
a mão. O seu sonho equivocara-se
naquele detalhe, pois a mão dela era
tão quente quanto se tivesse saído do
forno. E os olhos... o contato físico
parecia ter libertado todas as emoções
que ela estava tentando conter, seu
desejo tão evidente que sentiu chamas
queimarem no peito e entre as pernas.

Paige recolheu a mão e franziu o
cenho, como se não soubesse muito
bem o que tinha acabado de acontecer.
Mas ele sabia. E queria mais...
– Na sexta-feira – repetiu e esperou
até que ela assentisse com a cabeça. Só
então se despediu de todos e saiu do
restaurante com o corpo rígido e a visão
nublada.
Voltou ao seu apartamento. Ao chão
duro do quarto. E, daquela vez, ficou
um bom tempo mirando o teto, incapaz
de cochilar. Pensava em como Paige
reagiria se ele batesse em sua porta
vestindo uma cueca boxer e, sorrindo
com a caixa de rosquinhas na mão,
pedisse para ficar lá com ela.

Mas não poderia descobrir. Precisava
ficar calmo e manter a cabeça no lugar.
Ainda mais que, se tivesse lido a
mensagem escondida nos olhos de
Paige, talvez precisasse de outro tipo de
proteção além de sua peça íntima...

CAPÍTULO 3

MAIS

TARDE ,

quando a porta do
elevador se fechou, vários minutos
depois de ter apertado o botão do
oitavo andar, Paige apoiou-se na parede
e tentou relaxar enquanto aguardava a
subida.
Fechou os olhos e voltou a ver Gabe
Hamilton afastando-se dela a passos
largos. Mais uma vez, a lembrança da
sua imagem provocou nela um forte

formigamento por todo o corpo. Como
uma corrente elétrica, só que de
intensidade muito maior.
Não deveria ser assim, mas, cada vez
que pensava na falta de escrúpulos de
Gabe Hamilton para seduzir uma
mulher que supostamente estava noiva,
não sentia a mínima repulsa. Pelo
contrário. O seu sorriso e o seu olhar
deixavam claras as suas intenções.
Tinha consciência do seu enorme poder
de atração e não hesitava em utilizá-lo
para conseguir o que queria. E, pelo que
estava parecendo, era ela que ele
queria...
Cruzou os tornozelos e mordeu o
polegar. Ela não era uma mulher que

corresse atrás dos homens. Claro que se
sentia atraída por eles, mas conhecia os
estragos emocionais que um homem lhe
causava. Ela podia não acreditar em
finais felizes, mas sabia também não
estava disposta a buscar um final infeliz.
No entanto, há muito tempo não
tinha qualquer final, nem feliz, nem
infeliz. O motivo de sua amarga solidão
a espetava no fundo da sua mente.
Afastou-se da parede, sacudiu as mãos
e ficou arqueando e endireitando o
corpo no pequeno espaço do elevador.
A triste realidade era que os bons
rapazes que havia conhecido, no final,
se mostraram todos canalhas. Então,
preferia
saber
com
bastante

antecedência com quem estava se
envolvendo. Dessa maneira, conseguiria
resguardar seus sentimentos e evitar
sofrer uma decepção. E, ao menos por
uma vez, poderia se entregar sem
qualquer receio à sedução e aos
prazeres carnais...
Fechou os olhos com força e parou.
Apesar das evidências, Gabe Hamilton
não parecia ser um canalha. Era um
homem arrebatadoramente sensual e
atraente, com as ideias muito claras, um
pouco intimidante e, conforme ele
mesmo tinha admitido, ficaria pouco
tempo na cidade. Aquele detalhe final
servia como grande estímulo, já que ela
não procurava uma relação séria. Só um

pouco de diversão, alguns encontros
sem compromisso, uns tantos beijos ou,
quem sabe, algo além...
Respirou fundo.
Não precisava decidir nada naquela
noite. Usaria todo o tempo livre para
pensar, desde que não se encontrassem
novamente ali, no elevador.
Paige jogou o cabelo sobre o ombro
enquanto reprimia um bocejo e conferia
no visor para qual andar o equipamento
a havia levado. Tremeu ao ver que
estava no décimo segundo. Na
cobertura. No apartamento dele...
Apertou os dedos na alça da bolsa,
contendo a excitação que sentia por se

saber tão próxima de Gabe Hamilton.
Torceu para que o elevador descesse.
Mas o aparelho se manteve fiel a si
mesmo e permaneceu imóvel no
mesmo lugar. Paige saltou e ocupou o
espaçoso saguão, parada diante da porta
preta dupla e reluzente que se abria
para o único apartamento daquele
andar. Uma delas se mexeu e a
maçaneta girou, levando Paige a se
encolher no fundo do elevador, mas
não havia onde se esconder. O ar
abandonou os seus pulmões quando
Gabe apareceu.
Ao vê-la, parou e comprimiu os
dentes. A percepção de Paige devia
estar extremamente apurada para

reparar naquele pequeno movimento
muscular, tendo em conta o que Gabe
estava vestindo... ou, melhor dizendo, o
que não estava.
Usava uma calça cinzenta de pijama,
abotoada na frente, e mais nada. Para
Paige, aquele impacto visual teve o
efeito de eletrochoques múltiplos em
sua cabeça. Observou aquele espécime
masculino único e seminu: os grandes
pés descalços; o cabelo deliciosamente
alvoroçado; os braços tão fortes que
poderiam levantar um carro; o peito
esculpido e com uma linha de pelos
escuros que descia pela cintura e se
escondia provocantemente dentro da
calça...

– Paige? – Ele a chamou.
– Olá!
– Ouvi o elevador.
– Aqui está ele – adotou a atitude
mais serena que pôde e exibiu a porta
aberta como se fosse a apresentadora de
algum programa, tentando ignorar
como o calor subia pela sua face.
Um vislumbre de sorriso apareceu
nos olhos escuros de Gabe e nos seus
lábios carnudos.
– Você quer alguma coisa?
– Se eu quero...? Não, não, claro que
não – soltou uma gargalhada histérica.
– Ia para casa, mas o elevador voltou a
fazer das suas e...

– E trouxe você até aqui – cruzou os
braços sobre o peito, enfatizando a sua
musculatura poderosa.
Paige olhou para o teto e tentou
conter a saliva que inundava a sua boca.
– Já é tarde e você deve ter muita
coisa para fazer... desfazer a mala,
recuperar as horas de sono...
Ele balançou lentamente a cabeça.
– Só trouxe uma mochila e, por
alguma razão, não estou cansado agora.
– Ah, mas vai ficar daqui a algum
tempo.
Ele apoiou-se no batente da porta.
– Pode entrar, se quiser.
O coração dela disparou em um
galope repentino.

– Entrar?
– Posso contar a você tudo o que sei
do Brasil.
Paige pestanejou, tentando encontrar
palavras para...
– E tenho rosquinhas.
Aquele detalhe a fez rir.
– Que original... é a primeira vez que
me oferecem rosquinhas à noite. Um
café, sim, claro, ou um último copo
antes de ir para a cama, mas...
– Paige.
Ela engoliu em seco e cravou o olhar
em seu peito.
– Não estou arrumada demais para
comer rosquinhas?
– Só há um modo de saber.

Gabe afastou-se de porta e abriu
passagem para ela, convidando-a a
entrar apenas com aquele gesto.
O seu corpo se dispôs a sair do
elevador, a atravessar a porta e a atirarse nos braços daquele macho seminu,
mas ela se conteve. Não podia. De jeito
nenhum, não podia. Tinham se
conhecido naquela manhã e ela não
sabia nada dele além do nome, do
endereço e da profissão.
A
campainha
do
elevador
prenunciou o gradual fechamento da
porta. Rapidamente, Paige saltou para o
saguão escuro e silencioso, ouvindo a
sua respiração agitada e o sacolejo da
cabine que descia sem ninguém.

Comeria um donut. Conheceria seu
vizinho um pouco mais. Talvez até
dessem um beijo de boa-noite... se
aquele tipo de coisa fosse necessária
para que voltasse a ter encontros, então
saberia muito bem lidar com a situação.
Obrigou as suas pernas trêmulas a se
mexerem e conteve a respiração
enquanto passava por Gabe, mas era
impossível ignorar a embriagadora
fragrância varonil que emanava dele.
O apartamento estava ainda mais
escuro e silencioso do que o saguão. Ele
foi até a cozinha e ela, em sentido
oposto, aproximou-se das janelas que
enchiam uma parede e por onde
entravam os poucos raios de lua que as

nuvens deixavam passar. Gabe não
havia mentido ao dizer que não tinha
mala para desfazer. De fato, não havia
nada lá.
Além da frouxa luz do luar, a outra
única fonte de iluminação era a tela de
um laptop pousado na bancada da
cozinha, já que as lâmpadas ainda não
estavam instaladas no teto. Não havia
quadros adornando as paredes, nem
sequer uma televisão. Só um sofá em
forma de L onde cabiam até 20 pessoas.
Estava de frente para as janelas, como
se o interior do apartamento não tivesse
qualquer importância.
E talvez para ele não tivesse. Paige
sabia por experiência própria que,

quando um homem se recusava a dar
um estilo pessoal a uma casa, é porque
não se sentia ligado à ela ou não
pretendia criar qualquer traço de
identificação. Se o lar e o coração
habitavam no mesmo lugar, então os de
Gabe Hamilton estavam muito longe
dali. Talvez nem sequer estivessem na
cidade.
– Sua decoração é um tanto
minimalista, não? – perguntou ela, em
tom irônico, enquanto ele abria uma
caixa branca da qual surgiram as
rosquinhas.
Ele olhou ao redor, como se
descobrindo o apartamento vazio pela
primeira vez.

– Não tenho tempo para comprar
móveis, se é a isso que está se referindo.
– Não precisa comprar muitos, só o
básico. Uma mesa, algumas cadeiras e
almofadas.
– Aposto o meu braço esquerdo que
nenhum homem se lamenta por não ter
almofadas.
– Mas elas são como a guarnição de
um prato. Pode-se dispensá-la, mas ela
serve para tornar a comida mais
apetitosa.
Ele não disse nada e limitou-se a
olhá-la na penumbra.
– Sou eu ou está muito calor aqui? –
perguntou ela. Tirou o casaco e o

cachecol, pendurando-os sobre as costas
do sofá.
– O aquecedor está no máximo.
Ainda estou me adaptando a esse clima
daqui.
O olhar de Paige encontrou as
rosquinhas que ele empilhava em um
prato. O cheiro do açúcar a incentivou
que se aproximasse.
– Diminui o aquecedor e põe um
casaco – sugeriu ela. – Vai ser melhor.
– Para quem?
Para ela, obviamente. Não estava ali
nem há dois minutos e já suava em
bicas.
Ele reparou no seu top de seda bege
e baixou o olhar para os seus braços

nus. Paige reprimiu o impulso de cobrir
os seios quando sentiu os mamilos
enrijecerem.
– Não – disse ele, voltando a olhá-la
nos olhos. – Eu gosto de calor.
Esqueceu as rosquinhas e contornou
a mesa, sem desviar os olhos dela. Paige
retrocedeu e chocou-se com o sofá.
– Prefere que eu diminua? –
perguntou ele, com voz grave e
profunda.
Não, pensou ela, mas, ao ver como
curvava os lábios, soube que tinha dito
aquilo em voz alta.
Tinha de parar com aquela mania de
falar sozinha em casa...

Ele se aproximou, respirando fundo.
E Paige soube então que não haveria
rosquinhas naquela noite.
Com um último passo, Gabe cobriu a
distância que os separava, agarrou-a
pelo cabelo e colou sua boca à de Paige.
E toda a tensão acumulada explodiu no
ventre dela, espalhando por todo o seu
corpo uma onda de calor que nada
tinha a ver com o ambiente abafado em
que se encontrava.
Ela acompanhou o movimento e
também o agarrou pelo cabelo. Rodeoulhe a perna com a sua e arqueou-se,
querendo se fundir a ele. Sentiu que ele
sorria enquanto a beijava, um sorriso de

triunfo e conquista, e, sem pensar,
mordeu-lhe o lábio inferior.
Ele ficou imóvel, apenas observando
e calculando o próximo passo dela. O
seu calor corporal abrasava-lhe a pele e
fazia as veias pulsarem no mesmo ritmo
que o coração acelerado dela. A espera
tornou-se insuportável e ela se esfregou,
muito suavemente, contra a sua ereção.
Deslizou as mãos pela sua nuca e
lambeu-lhe o lábio, saboreando o ponto
que acabava de morder.
Ela necessitava tanto daquilo!
Libertação e prazer. Sem promessas,
nem compromissos.
Gabe
continuou
a
beijá-la
apaixonadamente, enchendo-a de

sensações, cada uma mais intensa e
ardente do que a anterior, fazendo com
que ela esquecesse o sabor da sua
própria boca.
Descobriu um ponto erógeno no
lóbulo da orelha direita dela e o sugou
com avidez, para em seguida percorrer
seu pescoço com a língua até chegar no
sutiã. Todo seu corpo vibrava e ela era
incapaz de pensar.
Soltou um gemido de frustração
quando ele interrompeu o beijo, mas,
logo a seguir, Gabe deslizou um braço
sob as pernas dela e a levantou como se
fosse uma pluma. Ela o enlaçou pelos
ombros enquanto ria.

Mas, quando os seus olhos se
encontraram, a gargalhada silenciou e
uma corrente de prazer atravessou seu
corpo de cima a baixo.
Com o pé, ele abriu a porta do
quarto.
E,
então,
parou,
tão
bruscamente que quase a fez cair.
– Essa não... – lamentou, soltando
uma enxurrada de palavrões.
– O que foi?
Ele a pôs no chão e a virou pelos
ombros, para que ela visse o interior do
quarto.
Era enorme, metade do seu
apartamento. Tinha bonitas cornijas e
outros elementos decorativos no teto.
Paige
levou
alguns
segundos

imaginando ver uma grande cama
coberta por uma rica e volumosa colcha
dourada de fios longos, ladeada por
uma mesinha de cabeceira encimada
por um abajur decorado com uma peça
de tricô e um criado-mudo, uma
escrivaninha diante da janela, cortinas
escuras que se arrastavam no chão...
mas não havia nada disso. Nem sequer
havia uma cama.
Um grito preencheu o cômodo vazio
quando ela divisou as mantas
amontoadas no chão.
Praguejou entredentes, mas a
gargalhada que veio por trás dela
confirmou que tinha voltado a pensar
em voz alta.

Ele a abraçou e ela se derreteu contra
a rigidez que apontava em suas
nádegas. Gabe afastou-lhe o cabelo e
mordiscou-lhe suavemente o ombro, e,
se ela não tivesse as coxas fortemente
apertadas, teria explodido em um
orgasmo ali mesmo.
Paige se virou e pôs as mãos no peito
másculo de Gabe. O seu corpo cobria
todo o campo de visão dela. Seu rosto
estava ensombreado, a pele ardente de
desejo e de seu corpo emanava um
aroma intenso de pura testosterona.
Paige recuou instintivamente e chocouse contra a porta.
– Gabe...

Ele descansou a mão no batente da
porta.
Paige
respirou
fundo,
lentamente, até ficar sem forças. Não
conseguia sequer sentir os pés. Só os
batimentos do coração de Gabe nas
palmas das mãos e a forma como
reverberavam até seus joelhos.
Um nó no peito a impedia de
respirar. Não sabia quanto tempo
poderia resistir, mas sabia que, se fosse
embora naquele momento, seria melhor
comprar um gato e esquecer os homens
para sempre.
As suas mãos reagiram diante da
perspectiva desanimadora e exploraram
os abdominais de Gabe, os quadris
musculosos e as nádegas duras. Ele

emitiu um gemido gutural e voltou a
beijá-la na boca, agora sem qualquer
delicadeza. Os lábios e a língua
arrasaram qualquer resquício de
resistência que ela ainda pudesse
oferecer. Puxou uma alça do top e
expôs o sutiã. Empalmou um seio por
cima do tecido e friccionou o mamilo
com o polegar, fazendo-a estremecer.
Na sequência, deslizou a mão por sua
barriga, acariciou-lhe o umbigo e, antes
que ela se desse conta, Gabe já
desabotoava seu jeans. Ela o agarrou
pelos quadris, enquanto ele invadia a
calcinha dela com mãos ansiosas.
Um prazer selvagem bloqueou
qualquer outra sensação. Paige perdeu

o controle de seu corpo. Todos os seus
músculos se contraíram, o sangue
bloqueou seus ouvidos e ela abafou um
grito contra o ombro de Gabe quando o
orgasmo a estremeceu da cabeça aos
pés.
Estava banhada de suor e um gosto
salgado pincelava seus lábios. Abriu os
olhos no exato instante em que Gabe
desenroscava as alças do sutiã e do top,
deixando-a novamente composta.
Não, não, não! O que estava
acontecendo? Mal tinham começado...
Enfiou os polegares na cintura da
calça de Gabe, mas ele não esboçou
reação e perguntou, com expressão
angustiante.

– Você tem camisinha? – Ela sentiu o
chão abrir sob os seus pés.
Nem se lembrava qual tinha sido a
última vez em que tivera uma
preocupação
daquele
tipo.
Naturalmente tomava a pílula, mas
acabava de conhecer aquele homem.
Paige assumiu uma expressão
decepcionada,
respondendo
sem
palavras à pergunta de Gabe. Ele apoiou
a testa na lateral da porta e respirou
fundo sobre o seu ombro, provocandolhe um arrepio.
– Há uma farmácia a três quarteirões
– disse ela.
– Se eu sair assim, serei preso.

– Bom, há uma mulher no sexto
andar...
Gabe separou-se dela e a olhou
intensamente.
– O que tem ela?
– Parece ser o tipo de mulher que
sempre tem essas coisas em casa.
Gabe riu.
– O que você acha que ela vai pensar
se eu a perturbar à uma hora da
manhã, excitado assim, pedindo uma
caixa de camisinhas?
Uma caixa!? Santo Deus!
– Tem razão – admitiu ela, lambendo
os lábios. – Embora você vá ficar pouco
tempo por aqui.

Ele pensou por um instante, puxou-a
pela mão e saíram do quarto.
– Gabe?
Ele a calou com um olhar e recolheu
o casaco e o cachecol de Paige do sofá.
Depois, a deixou no saguão do
elevador, enquanto a ajudava a
recuperar um aspecto minimamente
decente.
– Para o caso de o elevador parar
outra vez no andar errado – disse ele. O
brilho dos seus olhos indicava não ter
acreditado naquela desculpa nem por
um segundo. – Eu não gostaria que
outro vizinho ficasse com uma
impressão errada.
– Mas...

A porta se abriu, ele comprimiu os
dentes e Paige pensou que receberia
outro beijo; afastou os lábios e esperou
com a respiração contida. Gabe, porém,
a pôs dentro do elevador com um
pequeno empurrão.
– Sai daqui... antes que a gente perca
o controle de tudo.
Comparado com o apartamento, a
cabine estava gelada. Paige cruzou os
braços para conservar o calor, o
formigueiro que lhe percorria a pele e a
sensação maravilhosa que lhe palpitava
entre as pernas.
O que podia dizer? Lamento?
Obrigada? Adeus? Acabou não dizendo
nada e limitaram-se a trocar olhares

enquanto o elevador separava suas
imagens. Paige deixou-se cair contra a
parede. As suas pernas bambeavam.
Esfregou os olhos e balançou a cabeça.
O que tinha acontecido? Simples: havia
posto um ponto final em seu período
monástico. E de que forma! Enquanto o
elevador descia segundo sua vontade,
parando meia dúzia de vezes no andar
errado, ela reviveu mentalmente cada
segundo daquela experiência incrível.
Quando finalmente parou no andar
certo, Paige soltou um longo suspiro de
alívio. Se tivesse sorte dali para diante, a
sua vida voltaria à normalidade.

CAPÍTULO 4

POR

que tentasse, Paige não
conseguia alcançar o telefone. Acordou
sobressaltada, o coração pulsando
freneticamente e as pernas enredadas
nos lençóis. Uma olhadela no relógio da
mesa de cabeceira confirmou que
passava das dez, mas lembrou que era
domingo e relaxou. O toque persistente
do telefone, contudo, indicava que não
estava sonhando.
MAIS

Conseguiu alcançá-lo e voltou a se
deitar, de costas e com a mão sobre os
olhos, protegendo-os da luz que entrava
pela janela.
– Sim? – disse com voz pastosa,
imaginando que era sua mãe.
– Dormiu bem?
O choque vocal a silenciou por breves
segundos, período durante o qual
engoliu em seco algumas vezes antes de
perguntar:
– Gabe?
– Precisava ter certeza de que você
tinha chegado bem em casa.
A cabeça girou velozmente. Não se
lembrava de ter dado seu número,
como ele tinha conseguido? Teve a

ousadia de procurar na lista telefônica?
Provavelmente... como se atrevia?
Fique calma! Isso não significa nada.
Ele só está sendo gentil e cavalheiro.
Foi isso que tentou pensar, embora a
atitude dele na noite passada,
empurrando-a para dentro do elevador,
não tinha sido muito própria de um
cavalheiro...
– Paige?
– Não precisava, só moro quatro
andares abaixo.
– Eu sei – o calor da sua voz fez com
que Paige deslizasse mais sob os lençóis.
– Mas, pelo que me disse, o elevador é
imprevisível...
– Ainda acha que eu inventei isso?

– Calma, não estou ironizando.
Realmente aquele elevador parece estar
possuído por algum espírito, faz o que
bem entende...
Paige o imaginou sorrindo do outro
lado da linha. Sentia o seu fôlego
quente no pescoço e as suas mãos
ardentes na pele. Como pode ter
pensado que uma só noite com Gabe
Hamilton era suficiente? Teria sido,
certamente, se um deles tivesse
preservativo.
Claro, e na noite seguinte ela ficaria
uivando para a lua.
O caso era que ele a havia desejado,
e ela, muito mais. Não queria apenas
sair e se divertir; queria ele. Estava

faminta por Gabe Hamilton. Percebeu
que havia saltado de cabeça antes de
medir a temperatura da água com o pé,
mas agora já era tarde para se
recriminar por isso. Estava enterrada até
o pescoço, portanto... por que não
aproveitar?
– Onde você está? – perguntou a
Gabe, imaginando que talvez ele
estivesse do outro lado da porta.
– Por quê?
– Por nada em especial.
– Mentirosa... – Aquele homem não
só tinha uma voz capaz de fazer
estremecer uma freira, mas também
sabia muito bem a forma de usá-la. –

Estou na alfândega do aeroporto,
esperando que liberem minha cama.
– Não conseguiu dormir?
– Não muito. E você?
– Eu dormi muito bem.
A gargalhada de Gabe reverberou
pelo telefone e por todo o seu corpo, e
Paige mordeu o lábio para evitar dizer
qualquer coisa que a comprometesse.
– Fico feliz em saber. Bom, preciso ir,
tenho de resolver uns detalhes antes de
pegar minha cama. Tchau e tenha um
bom-dia, oitavo andar.
De forma inconsciente, Paige
pressionou o celular contra a orelha
antes de abaixar o braço. Ficou olhando
para o teto, observando os reflexos dos

cristais que pendiam do espelho da
penteadeira.
Gabe tinha se preocupado em saber
se tinha chegado bem em casa. Era um
detalhe encantador, próprio de um
homem decente, mas não foi só. Não
tinha sugerido encontrar-se com ela
novamente.
Enterrou o rosto no travesseiro.
Desejou que Gabe estivesse ali, à sua
porta, com um pacote de preservativos
no bolso da calça. Assim, poderia fazer
o que quisesse com ela e ficariam quites
um com o outro.
Não precisava se levantar para ir a
lugar algum, então fechou os olhos e
deixou-se perder naquela fantasia.

Imaginou que abria a porta do seu
apartamento e encontrava Gabe ali, no
alpendre. Estaria com uma calça preta
de couro, uma camisa branca
desabotoada até a cintura e um tapaolho, feito um pirata. Um homem tão
grande e robusto que ocuparia todo o
espaço da sua pequena cozinha...
Interrompeu
a
brincadeira
imaginativa e levantou-se de um salto
ao se lembrar da sacola com o vestido
de noiva que ainda pendia da cadeira
da sala de jantar.
Esfregou os olhos e respirou fundo
antes de se contemplar no espelho.
Estava com a maquiagem borrada e o
cabelo alvoraçado. Um gosto de pão

velho vinha-lhe à boca. Pensou que
teria convidado Gabe para entrar, ainda
que estivesse com aquele aspecto
pavoroso e um vestido de noiva dentro
de uma sacola, à vista de qualquer um
na cozinha. Aliás, pensando melhor,
não o teria convidado. Teria arrastado
ele à força...
Estaria ficando louca?
Achou melhor subir e descer pelas
escadas até o final da semana.
FOI IMPOSSÍVEL para Gabe não comparar
o elevador do Edifício Botany com
aquele ali, da Bone Venture Capital,
que o conduzia até o décimo quinto
andar, onde ficava o escritório da

empresa. Muito espaçoso, luminoso,
luxuoso, rápido e obediente à vontade
do usuário; porém, tinha uma
desvantagem considerável: não o
brindava com a bela imagem de uma
loura de pernas bem compridas.
Gabe gostava de mulheres. Chegava
mesmo a adorar algumas delas. Tinha
sido criado por uma mulher forte, a sua
avó, já que seus pais morreram apenas
uma semana antes do seu décimo
aniversário. Porém, como seu trabalho
sempre o levava de um lado para o
outro, limitava-se a relações esporádicas
e a aventuras passageiras. Na única vez
em que manteve uma relação séria, o
rompimento foi tão traumático que

havia jurado nunca mais se envolver
daquela maneira, para não tornar a
sofrer.
Mudou de posição, mas a sensação
de desconforto persistiu. Preferia não
pensar naquela amarga experiência. Era
um buraco no seu passado que poderia
sugá-lo para o fundo, caso se
aproximasse demais. Estar novamente
em Melbourne, no escritório da Bona
Venture, funcionava como um lembrete
involuntário e inevitável, mas iria se
esforçar ao máximo para que a memória
não o atormentasse.
Mas é claro que, se Paige Danforth
quisesse consolá-lo de alguma forma,
com seus braços quentes e sua boca

sedutora, ajudaria ainda mais a
sedimentar aquela mancha em seu
passado. Estava esfregando as marcas
de dentes que ela deixara em seu
ombro quando o elevador parou.
Conteve a respiração e expeliu o ar
quando a porta se abriu, apresentando
a vista de um luxuoso saguão revestido
de madeira escura e paredes vermelhas,
pontuado pela luz do sol que entrava
em cascatas, apesar de não haver ali
uma única janela.
Olhou novamente para o número do
andar, certificando-se que nem todos os
elevadores
da
cidade
estavam
enlouquecidos. Acima do algarismo,
com o dobro de seu tamanho,

identificou um nome formado por
grandes e elegantes letras brancas: Bona
Venture Capital.
Aquela era a sua empresa, mas
parecia bem diferente desde que
estivera ali pela última vez. Há quanto
tempo estivera em Melbourne? Dois
anos? Três? Lembrava que Nate ainda
decidia que cor usar nas paredes. Gabe
permitiu que Nate gastasse o que
quisesse nas obras para não ter de ouvir
mais explicações sobre a diferença entre
o branco gelo e o branco pérola.

Caramba…

murmurou,
espantado.
Segurou firmemente a pasta do
laptop e atravessou lentamente o

saguão, desviando-se dos homens e
mulheres de terno que saíam e
entravam nos corredores laterais. Era
incrível que já tivesse passado quase dez
anos desde que tinham criado aquela
empresa com o fundo fiduciário de
Nate, as economias que Gabe havia
acumulado desde que tinha começado
a trabalhar aos 12 anos e o plano de
negócios que tinham esboçado em
guardanapos do seu pub favorito,
enquanto os seus colegas de
universidade preferiam beber cerveja e
uísque depois das aulas.
Tudo parecia ter acontecido no dia
anterior. Na manhã seguinte, enquanto
a cidade cinzenta se banhava no mágico

resplendor dourado do amanhecer, ele
cortava as ruas para pôr o negócio em
marcha. Gabe sentia que a sua vida
finalmente começava a mudar. Como se
tivesse o mundo aos seus pés. Como se
tivesse a sorte ao alcance dos dedos...
Três anos depois, quase perdeu tudo.
Dedicou os últimos sete anos da sua
vida a tentar compensar os seus erros.
Pela primeira vez desde aquele
tempo, se permitiu pensar que tudo
tinha ficado para trás.
– Olá! – Nate o cumprimentou,
aparecendo de repente ao seu lado.
Devia ter notado a sua perplexidade,
pois desatou um riso tão alto que atraiu

todos os olhares próximos. – O que
achou? Ficou bonito, né?
– Branco pérola? – perguntou Gabe,
assinalando o nome da empresa com o
polegar.
– Só branco – replicou Nate.
– Quem diria...
– Quer ver seu escritório?
– Sim, sim – respondeu, embora
alimentasse a dúvida sobre se mereceria
mais do que um buraco na parede,
considerando que passava pouquíssimo
tempo naquele escritório.
O entusiasmo de Nate, porém, o
contagiou e ele o seguiu com
impaciência até que pararam diante de
várias portas. Nate abriu-as com um

floreado e revelou um escritório tão
grande que poderia sediar um torneio
de sinuca. Uma enorme escrivaninha
de vidro. Um mar de carpete escuro,
tão grosso que seria possível nadar
nele... e mais nada.
Gabe tentou disfarçar a sua decepção
pela falta de... alguma coisa. Era como o
seu apartamento. Básico. Insípido.
Sem... guarnição.
Nate deu-lhe uma palmada nas
costas.
– Fique à vontade. Se quiser, pode
ficar andando em círculos, como Julie
Andrews no alto da colina.
Saiu e deixou Gabe a sós no meio da
sala imensa e vazia.

Nervoso e incomodado, tirou o gorro
e passou os dedos pelo cabelo.
Necessitava de um bom corte. Ao ouvir
o rangido da manga de couro, pensou
que devia ser a única pessoa ali que não
usava terno.
– Era por isso que não queria voltar –
disse às paredes pintadas de cinza claro.
Pelo visto, uma só mão de tinta não
bastava para cobrir o passado. Ainda
podia sentir a pressão.
Aquela pressão que só não se fazia
sentir quando estava com Paige.
Quando a via corar e morder o lábio.
Quando sentia o sabor da sua pele e se
perdia no desejo que toldava os seus
grandes olhos azuis...

Era como ia ser. Quando não
estivesse ocupado com o trabalho,
aproveitaria o prazer da companhia
daquela loura de pernas quilométricas
disposta a tudo para lhe agradar. E,
quando terminasse seus compromissos
ali em Melbourne, partiria para sempre.
Seu sonho erótico virou fumaça ao
ver Nate com os braços abarrotados de
pastas, as quais depositou na mesa de
vidro.
– Não preciso dizer que tudo isto é
absolutamente confidencial...
Gabe olhou para ele em silêncio.
Logo Nate dizendo aquilo?
– Bom – continuou o amigo, que teve
a decência de parecer envergonhado. –

Preciso que você leia tudo isto e dê sua
opinião. O que acha de levarmos a
Bona Venture para a Bolsa, hein?
PAIGE CAMINHAVA pela orla. Os seus
saltos repicavam ritmicamente nos
paralelepípedos, a saia se ajustava às
coxas com o sopro macio do vento e o
cachecol de lã ondulava. Adorava o
inverno. Há apenas dois dias tinha
renascido sexualmente e ainda sentia as
camadas de roupa como uma carícia na
pele.
Seu estômago manifestou-se sentindo
o cheiro de comida que se desvelava
pelas portas abertas dos restaurantes e

decidiu ir ao Brasserie comer um bife
com fritas.
Tinha sido um bom dia. A
funcionária que servia o chá da manhã
tinha levado suas tortinhas favoritas, de
mirtilo e chocolate branco. A primeira
peça da coleção de verão da Ménage à
Moi tinha chegado e era uma
maravilha.
Há muito tempo não apreciava tanto
o seu trabalho. A frustração dos últimos
meses se espalhava para o plano
profissional e contaminava a motivação
para tocar o projeto do Brasil. Uma
crescente insatisfação parecia estenderse por todos os aspectos da sua vida, o
que não fazia sentido. A sua vida era

exatamente como sempre havia
programado.
Tinha
um
bom
apartamento, um bom emprego, uma
vida social satisfatória... o que mais
podia querer?
Balançou a cabeça. O que importava
era que as coisas estavam melhorando,
a julgar pela quantidade de homens
que tinham sorrido para ela naquele
dia. Foram tantos olhares em sua
direção que era como desfilar por uma
passarela. Sentia-se desejada. Retribuiu
os sorrisos, contente por tudo voltar à
normalidade.
O celular tocou e, por um instante,
imaginou que tivesse recebido uma
mensagem erótica de Gabe. A chamada

do dia anterior a havia afetado tanto
que chegou a limpar toda a cozinha,
incluindo o forno.
Mas não podia ser uma mensagem
de Gabe, já que ele não tinha o seu
número de celular, só o do aparelho
fixo que constava na lista telefônica.
Nem sequer sabia qual era o seu
apartamento, apenas o andar. O
suficiente para procurá-la, se quisesse, o
que não havia feito em quase 48 horas.
Por quê? A menos que a chamada do
dia anterior tivesse sido realmente para
que ele se certificasse de que tinha
chegado em casa sã e salva...
Balançou a cabeça. Não estavam
saindo juntos. Nem sequer eram

amantes no sentido estrito da palavra,
pelo menos, ainda não. Ela havia se
limitado a aceitar a situação tal qual se
apresentava e continuaria a fazê-lo até
que a paixão se apagasse ou ele fosse
embora.
No entanto, quando olhou para o
celular, sentiu o coração apertado. Mas,
ao constatar que era uma mensagem da
sua mãe, foi tomada de uma profunda
desilusão.
Sinto a sua falta, querida, dizia a
mensagem. Paige fez uma careta.
Conhecia bem aquele tom. Era o que
sua mãe empregava quando se
compadecia de si mesma e se
perguntava, mesmo depois de tantos

anos, se havia feito o correto ao
divorciar-se do pai de Paige.
Eu também, escreveu em resposta.
Quer que eu vá jantar com você?
Você está ocupada. Certamente, tem
outros planos.
Paige mordeu o lábio e pensou no
bife que jantaria sozinha, mas o dia
tinha sido realmente bom. E, para que
terminasse assim, era melhor não se
afastar do caminho traçado.
Vamos deixar para o fim de semana.
Estou fazendo compras.
Está bem. Eu te adoro, querida.
Paige guardou o celular na bolsa e
suspirou. Adorava a sua mãe. Foram
sempre muito unidas. Não havia outro

remédio. Quando o seu pai estava em
casa, parecia impaciente para voltar a
viajar. E, quando estava jogando
críquete no exterior, ficava fora por
vários meses. Passava quase todo o
tempo com outras mulheres, enquanto
a sua mãe fingia não perceber.
Paige nunca permitira que alguém se
aproveitasse dela daquele modo. Nunca
deixara que alguém significasse mais
para ela do que os seus sonhos e
objetivos de vida. Nunca fizera
nenhuma estupidez por amor. Nem por
todas as tortas de mirtilo e chocolate
branco do planeta.
Não tinha sentido voltar a se
deprimir. A sua vida era perfeita;

finalmente tinha tudo sob controle.
E sabia como demonstrá-lo.
GABE ESTICOU as pernas no seu
incômodo sofá, ainda com o casaco e as
botas, e fechou os olhos sob a luz da lua
que incidia nele.
Tinha lido tantos relatórios e
estimativas sobre a possível entrada da
empresa na Bolsa que não restava a
mínima dúvida da ótima situação
financeira do negócio. Nem nas suas
previsões mais otimistas Nate e ele
tinham imaginado um panorama tão
favorável. Deveria sentir-se aliviado,
satisfeito e orgulhoso, mas, em vez

disso, estava tão inquieto que mal
conseguia ficar sentado.
Pegou as chaves para sair. Precisava
escapar daquela sala fria e vazia onde os
seus pensamentos pareciam ecoar pelas
paredes despidas. E o melhor destino
possível seria a casa da única mulher
que conseguia fazê-lo esquecer as suas
insônias e preocupações.
Parou à porta ao dar-se conta de que
não sabia o número do seu
apartamento, mas, que raios, bateria em
todas as portas até encontrar o
endereço certo!
Chegou ao saguão justamente
quando o elevador abria as portas. E ali
estava ela, como se os seus pensamentos

a tivessem conjurado, com as bochechas
rosadas e a cabeleira loura bempenteada.
Gabe abriu a boca para fazer uma
brincadeira sobre o elevador, mas
sentiu um nó na garganta ao ver como
Paige respirava agitada e passava a
língua pelo lábio inferior.
E, se ainda achava que o elevador a
levara ali por acaso, todas as dúvidas se
dissiparam quando Paige levantou a
mão direita, exibindo um farto arsenal
de preservativos.
Um gemido elevou-se do seu peito,
acompanhando o desejo de a pôr no
ombro e levá-la para a sua caverna, mas
ela parecia ter outras ideias. Saiu do

elevador, segurou os preservativos entre
os dentes e soltou o prendedor de
cabelo,
deixando
as
madeixas
cascatearem livremente sobre os
ombros. A seguir, tirou as botas de salto
alto, o que lhe reduziu a estatura em
vários
centímetros.
Lentamente
desenrolou o cachecol, abandonando-o
no chão. Depois, enquanto o olhava sob
as sobrancelhas compridas e sentia a
respiração acelerada, desabotoou o
botão superior do casaco de lã. Gabe
teve de fazer um esforço sobre-humano
para permanecer quieto, sabendo que
nunca se perdoaria caso interrompesse
aquele espetáculo.

Os preservativos continuavam entre
os seus dentes enquanto ela
desabotoava o casaco com estudada
lentidão, até revelar a sua pele clara e
um sutiã de renda cor-de-rosa que não
servia para disfarçar os mamilos.
Avançou para ele, deixando o casaco
escorregar suavemente pelos ombros e
pelos braços; antes de cair, ela o deteve
com um dedo e o atirou por cima da
sua cabeça. O aroma da sua pele
ardente e nua foi a perdição de Gabe.
Não se conteve mais: ele a levantou, e a
pôs no ombro. Em resposta, as
gargalhadas de Paige encheram o
apartamento cavernoso.

Teve de empregar toda a força de
vontade para pousá-la delicadamente
no chão. Ela tirou os preservativos da
boca e os guardou no bolso traseiro da
calça de couro que ele ainda usava. As
mãos dela permaneceram um instante
sobre as nádegas, antes de subirem pelo
tronco para abrirem o casaco dele, que
foi prontamente atirado no chão. Ficou
na ponta dos pés e deslizou as mãos por
baixo da camiseta de Gabe com uma
determinação enlouquecedora.
E, então, beijou-o na boca com uma
paixão voraz; ele a rodeou com os
braços para voltar a levantá-la e
pressioná-la contra o corpo. Só
conseguia pensar na urgência de tê-la

na horizontal. É verdade que não tinha
uma cama, porém, também era um fato
que a sua imaginação era mais rica do
que a pobre decoração do seu
apartamento.
Iluminou-a sob uma réstia de luz
próximo à cozinha. Queria vê-la bem e
sentir todas as suas reações. Aventurouse por baixo da saia e descobriu
horrorizado que ali estava o pior
pesadelo de um homem excitado: a
meia-calça. Era cor-de-rosa, da mesma
cor que a pele de Paige quando se
ruborizava. Essa não... ela queria matálo de ansiedade?
Provavelmente sim, a julgar pela
forma como se esfregava contra ele

enquanto puxava a saia para baixo.
Felizmente, também puxou a meiacalça pelas suas pernas. Ajoelhou-se
diante dela para adorar aquelas coxas
pálidas e o diminuto triângulo da tanga.
Acariciou-lhe os calcanhares esbeltos e
os tornozelos delicados, e deleitou-se
com um ponto sensível atrás do joelho
ao vê-la tremendo.
Ela agarrou-se ao seu cabelo e ele a
beijou na união das coxas, marcando-a
como sua, antes de começar a subir com
os lábios pelo bonito corpo. A curva da
barriga, a suave depressão do umbigo, a
protuberância do quadril, a sombra dos
seios e novamente a boca, ávida e

refrescante. As portas do seu paraíso
particular.
Gabe sentou Paige na bancada da
cozinha, fazendo-a gritar e contorcer-se
quando o seu traseiro quente
encontrou-se com o granito frio. Ele a
beijou e transformou o grito num
gemido, enquanto ela o enlaçava com
as pernas para aproximá-lo com um
desejo premente.
Pôs o preservativo em breves e
rápidos segundos e apenas afastou a
calcinha delicada para o lado, com a
ereção armada para invadi-la com a
expressão física de seu desejo. O
gemido que ela soltou ao recebê-lo foi
como uma melodia angelical. O calor e

os músculos dela envolviam-no,
acompanhando o ritmo daquele prazer
intenso.
Paige
lançava
chamas
azuis
hipnóticas e sedutoras com seu olhar,
acertando
Gabe
sem encontrar
resistência. Ele precisou usar todas as
suas forças para se conter. Susteve a
respiração quando ela abriu a boca e lhe
cravou os dedos nas costas, ao mesmo
tempo em que o orgasmo a fazia
estremecer por inteiro. Agitou-se,
contorceu-se, e desfez-se em gemidos
sobre a superfície de granito. E, depois
de um breve instante de máxima
tensão, Gabe sentiu o mundo à sua

volta se desfazer, incendiado por
dardejantes chispas de calor líquido.
Recobrou um mínimo de consciência
e percebeu os tremores de Paige; o frio
convertia em gelo o suor que saía do
corpo dela. Levantou-a da bancada e a
envolveu em um forte e terno abraço,
aquecendo ambos com o calor daquele
momento.
Abriu a boca para dizer algo,
qualquer coisa, mas ela o sossegou com
um beijo suave e sensual. Em seguida,
acariciou-lhe a face e afastou-se para
compor a saia. Voltou ao saguão,
colheu a roupa deixada ali, vestiu-se e
lançou a ele um último olhar antes de
desaparecer no elevador. Gabe a

observou, seminu, enquanto a imagem
dela se desvanecia.
– Santo Deus... – murmurou ele,
passando as mãos pela cara. Tinha sido
incrível. Selvagem. E não precisaram
trocar uma única palavra.
NO DIA seguinte, Paige continuava
aturdida enquanto esperava o elevador
no saguão. O que tinha na cabeça
quando resolveu
subir até
o
apartamento de Gabe, despir-se,
entregar-se a ele na bancada da cozinha
e, em seguida, ir embora tão
silenciosamente quanto tinha chegado?
Nunca tinha feito nada parecido e a
verdade era que... estava encantada.

Depois de tantos anos de prudência e
cautela, aquele breve descontrole soou
como uma agradável transgressão. E
também um alívio. O mundo parecia
mais brilhante, mais luminoso e mais
colorido. E ela se sentia melhor do que
nunca, pois aquela sensação coroava
um dia que já tinha sido fantástico no
trabalho.
Talvez devesse permitir que houvesse
uma aventura sexual de vez em
quando. Atrair um desconhecido, por
exemplo, no aeroporto e soltar-se, sem
se preocupar com as consequências.
Ria quando a porta do elevador se
abriu e toda a sua confiança recémadquirida caiu por terra quando viu

Gabe lá dentro, quieto no fundo. Os
seus olhos se encontraram, arderam e
Paige sentiu que ficava vermelha como
um tomate.
Pensou então que devia um orgasmo
a ele e entrou no elevador com aquela
intenção de retribuir.
– Boa tarde, menina Danforth –
cumprimentou-a uma voz de mulher.
Paige deu um salto e virou a cabeça,
vendo a sra. Addable, do nono andar,
acariciando Randy, o seu gato persa
cuja pelagem era da mesma cor
cinzenta que o cabelo da dona.
– Olá, sra. Addable – murmurou,
enquanto entrava atrás dela e se
postava junto a Gabe, cujo olhar se

mantinha fixo para frente, apesar de o
calor de seu corpo murmurar um
convite irresistível. – Como está Randy?
– Oh, ele anda tão bem-comportado
que decidi não levá-lo mais a lugar
algum na casinha. E ele precisa ir
quatro vezes por dia ao jardim atrás do
estacionamento. – Os olhos da sra.
Addable encontraram Gabe e a sua
expressão suavizou-se. – Você é Gabe
Hamilton...
– O próprio – afirmou ele.
Paige teve de engolir em seco para
que o som delicioso daquela voz não a
fizesse estremecer.
– Gloria Addable, do 9B. No outro
dia, ouvi Sam falando com o senhor

Klempt sobre a sua chegada.
– É um prazer conhecê-la, Gloria.
– Igualmente, Gabe.
Chamava ele de Gabe, não senhor
Hamilton. Morava há dois anos no
edifício e tratava todo mundo daquela
forma íntima, menos o gato.
– Sam disse que você estava tendo
problemas com a cama – continuou a
sra. Addable, com o olhar fixo no visor
numérico, enquanto acariciava o dorso
de Randy.
– Sim, mas já consegui resolver.
Paige também manteve o olhar em
frente, sem se atrever a procurar o dele,
embora fosse impossível ignorar a
tensão entre ambos.

– Tenho um colchão sobrando –
ofereceu a sra. Addable. – É pequeno,
mas...
Começou a desfiar a história do
colchão e Paige sentiu que Gabe se
aproximava dela o suficiente a ponto de
roçá-la com a manga do casaco.
– Minha cama chegou hoje pela
manhã.
Paige não conteve a surpresa e
esqueceu por completo a discrição.
– Mesmo?
O sussurro da sra. Addable morreu
antes de chegar aos seus ouvidos. Gabe
tinha a perigosa capacidade de fazer
tudo ficar em segundo plano.

– Parece que o elevador de serviço é
mais confiável – acrescentou ele em voz
baixa.
– Fico feliz – disse Paige. – Por você,
claro – acrescentou, tímida.
Gabe esboçou um sorriso.
– Eu também fico feliz... por mim.
O elevador parou e, nos breves
segundos antes de a porta abrir, Gabe
aproveitou para encostar um dedo na
mão de Paige. Foi um contato sutil e
muito breve, mas bastou para acender
todo o corpo dela.
A porta se abriu para o quarto andar,
onde não havia ninguém à espera.
A sra. Addable suspirou.

– Calma, Randy. Estamos quase
chegando.
O passeio involuntário durou mais
dez minutos, tempo em que Paige
alternou-se entre ficar na ponta dos pés
e morder o lábio para controlar seu
impulso de gemer pelas carícias que o
polegar de Gabe fazia em sua mão.
E, pela primeira vez desde que
morava ali, alegrou-se que o elevador
fosse imprevisível.

CAPÍTULO 5

PAIGE

de esperar mais de 15
minutos para que o maldito elevador
parasse no seu andar na noite de sextafeira. Tempo suficiente para pensar
repetidas vezes em mudar de vestido,
de penteado ou simplesmente de ideia.
Estava tão nervosa que até o vento
mais leve a alterava. Porque, depois de
vários dias de sexo selvagem na secreta
TEVE

intimidade do apartamento de Gabe,
finalmente enfrentaria o mundo real.
A porta do elevador já se fechava
quando saltou para dentro dele,
apertando-se entre um grupo de jovens
que nunca tinha visto. E por que
deveria conhecê-los? Gabe e ela não
tinham partilhado nada fora do quarto.
O que lhe parecia perfeito. Era
melhor que as coisas se mantivessem
naquele nível, sem compromissos, nem
expectativas.
Mas lamentava não ter falado da
festa com Gabe. Poderia ter uma ideia
do que a esperava. Será que iam se
tratar como ilustres desconhecidos?
Como vizinhos amistosos? Ou se

manteriam afastados durante toda a
noite?
Era por isso que Paige gostava de
deixar tudo claro desde o princípio.
Naquele momento, os nervos a
consumiam e ela estava com uma
desagradável sensação de que havia
alguma coisa errada. A música alta
serviu de microscópio para sua
inquietação. Ao sair do elevador, foi
recebida pelo murmúrio das conversas e
a voz de Billy Idol cantando “Hot in the
city”. Paige respirou fundo, alisou o
vestido novo, passou uma das mãos
pelo cabelo e entrou de cabeça erguida
no apartamento da cobertura.

Ali estavam vários moradores do
edifício, entre eles a sra. Addable,
algumas colegas da universidade e uns
poucos rapazes com quem tinha saído.
Sentiu uma pontada de decepção, mas
soube contê-la. Não era, nem queria
ser, especial para Gabe.
Estava quase convencida disso
quando viu o grande tapete cinza e
vermelho que cobria o chão da sala,
uma enorme jarra com ramos de
salgueiro e imensas cadeiras e mesas. O
coração disparou ao perceber que Gabe
tinha decorado o apartamento com
artigos da coleção da Ménage à Moi.
Sentiu um formigueiro na nuca,
como se todos a observassem. Deu

meia-volta e sobrevoou a vista sobre os
convidados, até reconhecer um par de
olhos escuros muito familiares. Gabe
estava do outro lado da sala, de costas
para as grandes janelas, recortado
contra um céu pincelado de estrelas e
uma lua quase cheia. Perigosamente
atraente e com os olhos fixos nela. Os
olhos de um homem viciado em
rosquinhas, que já tinha visto mais
filmes de Doris Day do que ela e que
sabia onde ela trabalhava, apesar de
Paige ter a certeza de nunca ter contado
esse detalhe desde que haviam se
conhecido.
Estava contente por ele ser discreto.
Também admirava como sempre dava

um jeito de tocá-la de alguma forma,
quando se encontravam. Porém, o que
sentia naquele momento não podia ser
apenas uma atração passageira.
Segurou firmemente a bolsinha e o
casaquinho.
– Paige! – A voz aguda de Mae quase
lhe furou os tímpanos.
Somente então ela percebeu as luzes,
os sons e o ambiente da festa, como se
acabasse de sair de um túnel. A imagem
de Gabe sumiu em meio aos
convidados e ela se virou para a amiga,
que se aproximava dela com Clint a
tiracolo.
– Que bela festa, hein? E já viu o
apartamento? Todo decorado com a sua

coleção.
Paige abriu a boca para lhe dizer que
a decoração era coisa de Gabe, mas
lembrou-se que Mae estava ali pela
primeira vez. Sabia de sua aventura com
o novo vizinho, mas mal se tinham visto
durante a última semana e ela estivera
muito ocupada no trabalho. Além disso,
tudo tinha sido tão intenso que não
queria que a bolha rebentasse. Contaria
tudo a Mae assim que tivessem um
momento a sós.
O que seria difícil, pois nunca se
separava de Clint...
– Onde está o seu pirata? –
perguntou Mae. – Ele a devorou com os
olhos aquele dia, e não parece o tipo de

homem que precise de uma lanterna e
de um mapa para encontrar o tesouro...
se é que me entende...
Paige semicerrou os olhos. Gabe
Hamilton não teve qualquer problema
para encontrar o seu tesouro. E parecia
já ter se apossado dele completamente,
a julgar pelo formigueiro que ela sentia
entre as pernas cada vez que pensava
nele.
– Copos! – exclamou Mae, e Clint a
olhou como se lembrasse o motivo pelo
qual queria se casar com ela. Os dois
foram para o bar de mãos dadas.
E Paige ficou ali, fingindo que o seu
corpo não gritava pelo anfitrião, onde
quer que ele estivesse.

GABE PUXOU a gola do pulôver pela
centésima vez desde que uma horda de
desconhecidos havia tomado seu
apartamento.
Durante a semana, ele só havia
conhecido menos da metade dos
convidados ali presentes, enquanto
passeava de elevador. O resto foi Nate
quem o apresentou, num esforço para
que se sentisse em casa, mas a única
pessoa que realmente importava
naquele ambiente era uma loura muito
familiar... Gabe sentiu o momento
exato em que Paige havia chegado. O ar
se tornou mais fresco e seus hormônios
se agitaram um segundo antes de vê-la
surgir entre os convidados, usando um

vestido branco que deixava a perna
mais à vista do que era recomendável
para sua sanidade.
Quando voltou a vê-la, estava
conversando com um rapaz. E, quando
o desconhecido lhe pôs a mão no braço,
um fluxo selvagem e primário se
formou em seu estômago.
– São as pernas – disse uma voz,
interrompendo os seus pensamentos.
Virou-se e viu um grupo de homens
de smoking olhando na direção de
Paige.
– Como?
– Parecem saídas de um filme noir
dos anos 40 – disse outro deles. –
Imagino a cena: eu entrando num

escritório enfumaçado, com o sol se
filtrando entre as persianas, e dando de
cara com aquelas pernas cruzadas na
minha mesa...
– Hamilton, não é? – perguntou o
terceiro. – Somos amigos de Nate.
– Sim – eram muitos os amigos de
Nate que ele não conhecia. Havia
assuntos mais urgentes. – Conhecem
Paige?
Os três homens o olharam e Gabe
soube o que pensavam. Pobre coitado,
acha que tem alguma chance com ela...
Gabe se controlou para não revelar o
que haviam feito, ambos, naquela
cozinha ali adiante. Ergueu o copo e
bebeu um gole de uísque.

– Saí com ela uma vez – disse o
primeiro – antes de conhecer minha
mulher.
– Boa jogada – disse o segundo,
rindo.
– Bela criatura – comentou o
terceiro.
Gabe olhou para Paige. Viu-a a sorrir
enquanto cumprimentava alguém do
outro lado da sala, uma expressão
tranquila e comedida, mas Gabe sabia
que era apenas uma fachada. Havia
algo que o instigava, como se tentasse
juntar os fragmentos de um sonho sem
sentido. Talvez fosse uma sensação de
familiaridade. Talvez reconhecesse nela
as suas próprias reservas.

Ou talvez fosse um déjà vu.
Foi assaltado pela lembrança de
outra loura. Uma loura que conhecera
tempo atrás, na primeira festa da Bona
Venture. O seu sorriso era frio e
artificial... menos quando os seus
olhares se encontravam.
– Não – disse em voz alta, fazendo
com que várias cabeças se virassem para
ele. Franziu os lábios e bebeu o resto do
uísque antes de largar o copo em uma
bandeja.
Impossível comparar as situações.
Antes, era um jovem altivo e temerário,
dominado pela libido. Agora, muito
tempo havia se passado, e ele estava
mais maduro e prudente. Apesar disso,

sua mente o torturava. O que estava
vivenciando com Paige era... intenso. E
havia surgido de forma inesperada.
Ninguém poderia recriminá-lo por
ceder à tentação. Aquela mulher o
mantinha excitado dia e noite.
Beliscou a ponta do nariz, mas as
lembranças continuaram a atormentálo. Havia conhecido Lydia justamente
quando a Bona Venture começava a
decolar. O negócio, que alguns anos
antes era apenas um sonho, tinha
crescido de forma exponencial depois
da morte de sua avó. Numa
comparação que gostava de fazer, era
como se tivesse ido dormir com uma

roupa em farrapos e despertado usando
um vistoso pijama de seda.
Lydia fora o seu colete salva-vidas
durante a tempestade e nunca
imaginou que fosse movida apenas por
interesses financeiros. No final, porém,
o seu erro custou tudo o que ele e Nate
haviam conseguido com tanto esforço.
O mundo girou e parou no mesmo
lugar. Outra vez estava prestes a tomar
uma decisão fundamental para a saúde
de
seus
negócios,
enquanto,
repetidamente, complicava sua vida
com uma loura.
– Está se divertindo? – perguntou
Nate, aparecendo a seu lado.

Gabe enfiou as mãos nos bolsos da
calça, sentindo uma nuvem escura
pousar sobre seus ombros.
– Tanto que mal consigo me conter.
Nate soprou com sarcasmo.
– Esta semana, vou a Sidney me
reunir com uma empresa de
desenvolvimento de software. Pensei
em enviar Rick, mas acho que ele não
entenda tanto de... Gabe?
– Sim? – Um brilho branco
despontou em meio à multidão e atraiu
seu olhar. – O que foi agora?
– Estou falando de um cliente em
potencial para a Bona Venture. Pensei
que você fosse salivar de entusiasmo

com a chance de se envolver num novo
contrato...
Normalmente, seria assim, mas Gabe
encontrava-se bastante confuso. E,
embora o rosto de Nate fosse a viva
imagem da inocência, tudo o que havia
dito e feito naquela noite indicava
segundas intenções.
– A menos que você tenha outros
planos... – continuou Nate. – Mais
peças de decoração, talvez? Está...
muito bonito o que fez no apartamento.
– Vindo de você, é um verdadeiro
elogio – respondeu Gabe. – Quando vai
para Sidney?
– Amanhã de manhã. Você é bemvindo, caso queira me acompanhar.

Gabe captou o brilho de uma
cabeleira loura entre os convidados.
– Talvez vá dentro de um ou dois
dias.
Nate
olhou
para
ele
com
incredulidade.
– Está escondendo alguma coisa de
mim? Todos os nossos funcionários
estão de sobreaviso, caso eu não dê
mais sinal de vida e... ah, entendo... –
tirou um canapé de uma bandeja e o
levou à boca. – Quem é a loura?
Gabe respirou fundo. Era um alívio
saber que Nate não pertencia ao clube
dos adoradores das pernas de Paige.
– A que loura você está se referindo?

Nate virou o rosto de Gabe na
direção de uma certa mulher.
– A aquela, de quem não tirou os
olhos a noite toda.
Gabe protestou.
– Para começar, é uma vizinha do
edifício e... – E o quê? Por acaso, não
era a razão pela qual estava tão
distraído no trabalho? – Quase
esmagou meus dedos com a porta do
elevador da primeira vez que nos vimos.
– É mesmo? Bom, então, não tem
problema se eu tentar alguma coisa com
ela...
Gabe tentou puxá-lo pelo cabelo, mas
Nate escapou, rindo.

– Há muito tempo que não via você
tão interessado em uma mulher, loura,
morena ou que cor de cabelo tenha.
Fico muito feliz em saber disso, parece
que finalmente está voltando à boa
forma... bom, vou dizer ao pobre Rick
para estar pronto amanhã de manhã.
Afastou-se, deixando Gabe calado e
pensativo, incomodado pela referência
velada feita a Lydia. Gabe tinha saído
com outras mulheres depois e também
não se achava tão afetado assim. Era
verdade que tinha vendido os segredos
da empresa à concorrência, o que
provocou
uma
investigação
da
Comissão de Segurança Australiana por
uso ilícito de informações privilegiadas.

As
consequências
tinham
sido
devastadoras e Gabe precisou quase dar
a volta ao mundo para salvar o negócio,
mas tudo isso eram águas passadas.
Agora, estava bem mais precavido
quanto à sua vida profissional e, no
terreno afetivo, considerava estar
vivendo um momento fantástico. Ou,
pelo menos, assim seria, tão logo
expulsasse todas aquelas pessoas do seu
apartamento.
Todas, menos uma.
PAIGE SENTIU a presença de Gabe um
segundo antes de ouvir a sua voz grave
e varonil.

– Menina Danforth... fico feliz que
tenha vindo!
Bebeu um gole rápido de champanhe
e deu meia-volta.
– Claro que vim, imagine se eu ia
perder esta festa?
Se de pijama Gabe Hamilton já era a
fantasia de qualquer mulher, vestido
com aquele casaco risca de giz, o
pulôver de caxemira azul-marinho e a
calça social preta, mostrava-se mais
atraente e perigoso do que nunca.
Inclinou-se para beijá-la no rosto e
Paige teve uma ideia bastante clara de
quais deveriam ser os sintomas da falta
de oxigênio no cérebro.

– Para você – disse, mostrando a ele
a caixinha que tinha levado. – Um
presente para a sua nova casa – Gabe
aceitou o embrulho com o cenho
franzido e ela sentiu-se ridícula pelo
que estava fazendo. – Pensando bem,
talvez não combine com a sua nova
decoração... – tentou pegar de volta,
mas ele já o afastara de seu alcance.
– Vejo que percebeu...
– É o meu trabalho. E posso dizer
que ficou ótima.
Ele meneou a cabeça em um
agradecimento, antes de agitar a
caixinha levemente junto à orelha.
– Desde que não seja uma almofada
para o sofá, certamente será perfeito.

Ela encolheu os ombros, sentindo-se
cada vez mais ridícula pelo presente.
Era uma ninharia mas traduzia o
enorme impacto que Gabe exercia nela.
Logo lhe ocorreu que ele havia
decorado o apartamento pensando
nela, e ficou indecisa quanto à validade
daquele presente.
Gabe abriu a caixa e a surpresa
apareceu no seu rosto ao ver o flamingo
cor-de-rosa.
– Para o seu telefone – explicou ela.
Sabendo que ele guardava o celular no
bolso do casaco, puxou-o de lá, com
insuspeita intimidade, e o pôs na pata
dobrada do flamingo. Com um aceno
de cabeça, convidou Gabe a segui-la e

pousou o suporte com o celular na
bancada da cozinha.
– Assim, não vai enchê-lo com as
migalhas das rosquinhas.
Gabe pestanejou com espanto ao ver
aquela cafonice cor-de-rosa destoando
de sua cozinha elegante e escura. Então,
olhou para Paige e ela se sentiu como
Lois Lane diante da visão de raios-X do
Super-Homem.
– É uma besteirinha... – murmurou,
diminuindo o constrangimento.
– Adorei – replicou ele, uma das
mãos sobre o coração. – Obrigado.
– De nada – quis explodir de alegria.
Um convidado desastrado esbarrou
nela, sem querer, e Paige se

desequilibrou, tombando para a frente.
Gabe a segurou com seus braços fortes e
a abrasou com o seu calor corporal se
irradiando por cima do vestido fino.
Mais uma vez, perguntou-se como
pudera estar tanto tempo sem um
homem.
A resposta era simples: porque
nenhum deles a fizera sentir o mesmo
que Gabe.
– Vamos sair daqui – murmurou ele.
– Mas a festa mal começou – objetou
ela, rindo.
– Tem certeza? Para mim, parece que
já dura uma eternidade.
Paige olhou por cima do ombro de
Gabe.

– Não precisa...?
– Não.
Viu seu olhar refletido no dele,
injetado de desejo. Se não a estivesse
amparando, teria derretido a seus pés.
– Mas você tem de ficar, Gabe... –
insistiu, pondo-lhe as mãos no peito.
Ele balançou lentamente a cabeça.
– Tenho de ficar é com você.
Meu Deus! Paige umedeceu os lábios
e tentou explicar por que ele não devia
se ausentar da festa, mas as palavras
não vieram. Só conseguiu morder o
lábio para parar os tremores, enquanto
ele a observava atentamente. A forte
pulsação que sentia sob as mãos minou
sua resistência.

– Está bem. Vamos.
Gabe a segurou pela mão e abriu
caminho em meio aos convidados.
– Gabe! – Uma voz o chamou.
Paige ficou surpresa ao ver que ele
parou tão bruscamente que ela se
chocou contra suas costas. Ele a
amparou com um braço e virou-se para
um homem atraente que Paige nunca
tinha visto.
– O que foi agora? – perguntou,
irritado.
O
homem
sorriu
pacientemente e olhou para Paige.
Gabe suspirou. – Nate Mackenzie, esta
é Paige Danforth.
Nate sorriu e estendeu a mão.

– A moça do elevador amaldiçoado...
é um prazer conhecê-la.
Paige riu espantada e se virou para
Gabe, que fulminava Nate com o olhar.
Havia falado dela ao seu amigo,
enquanto ela não dissera uma palavra a
Mae.
– Queria pedir uma coisinha antes de
você ir embora – disse Nate. – Por
favor, vá cumprimentar aqueles homens
de terno cinza ali, perto da janela.
– Outra hora – resmungou Gabe.
Paige sentiu que a atenção de Nate
estava nela, embora continuasse a olhar
para Gabe com olhos enganosamente
risonhos.

– Não há outra hora. É importante
para os negócios. Tem de ser já.
Gabe apertou Paige com força, mas,
em vez de saírem porta afora,
desculpou-se pelo imprevisto e se
afastou.
– Lamento – disse Nate a Paige, e
parecia sincero. – Negócios são
negócios, você sabe.
– Tudo bem – respondeu ela, embora
não entendesse nada. Não sabia que
tipo de negócios Gabe tocava, apenas
que viajava bastante e estava sempre
com o telefone na mão.
– Somos sócios na Bona Venture –
disse Nate. – E, ao que parece, ele não
te falou de mim.

– Não, sinto muito – na verdade,
nem sobre o trabalho dela haviam
conversado.
– Se ele não fosse tão especial...
– O quê?
Nate esfregou a nuca e olhou para
Gabe e os homens de terno cinza.
– Gabe. É único no que faz.
Consegue farejar um investimento a
quilômetros de distância, e é capaz de
fechar qualquer negociação. Não há
ninguém como ele, o que pode ser uma
autêntica dor de cabeça em certas
ocasiões.
Alternou o seu olhar ardiloso entre
Gabe e Paige, e esboçou um sorriso de
autossuficiência. E Paige sentiu um

arrepio, ainda que não soubesse o que
estava se passando pela cabeça de Nate.
– Se você tiver alguma influência
sobre ele... – começou a dizer, mas ela o
interrompeu com um gesto manual.
– Oh, não, não tenho nenhuma
influência sobre ele. Juro. Somos...
amigos, mais nada.
Pela expressão de Nate, ficou claro
que ele não acreditava naquilo. Lógico.
Nem ela mesma acreditava.
– Sinceras desculpas... mas estou
desesperado.
– Por quê?
– Preciso que Gabe fique.
Paige sentiu uma cratera se abrir sob
os seus pés.

– Gabe pensa em ficar?
– Responda você.
Paige engoliu em seco. Não tinham
conversado sobre a viagem dele, já que
não eram um casal. Entre eles só
havia... sexo. No fundo, ela desejava
que Gabe fosse embora. Sabia que
aquela relação tinha prazo de validade,
e esse era o único motivo pelo qual
estava...se divertindo?...passando tempo
com ele. Gabe olhou para ela do outro
lado da sala, e Paige sentiu a ligação
que havia entre eles, apesar da distância
que os separava. Gabe meneou a
cabeça, como que informando que não
demoraria muito. Ou talvez a estivesse
advertindo para não se apaixonar?

Paige estava certa em erguer um
muro
que
a
protegesse
das
consequências emocionais daquela
aventura. O único problema era que...
ele não tinha servido para nada.

CAPÍTULO 6

OS SONS da festa acompanharam Paige
enquanto ela pressionava o botão do
elevador com mãos trêmulas. Não sabia
porque estava tão nervosa: se pelo que
aconteceria dali em diante, se pela
conversa que tivera com Nate.
Provavelmente pelas duas coisas .
– Quando vai voltar para o Brasil?
– Não vou voltar – respondeu ele, e
Paige ficou atônita. – O negócio está

fechado, mas irei embora assim que
termine por aqui. Vou para onde estiver
o trabalho, e em 90 por cento das vezes
ele está a milhares de quilômetros de
distância.
Paige soltou um suspiro de alívio tão
forte
que
fechou
os
olhos,
envergonhada.
– Resposta errada? – perguntou ele,
com tom jocoso.
– Seria muito ruim se eu dissesse que
é a resposta certa?
– Um pouco – admitiu ele, com um
sorriso tímido, e a apertou entre os
braços para acariciar suas costas –, mas
eu gosto de mulheres más...

O elevador chegou e Gabe levantou
Paige pelas nádegas, depositando-a
suavemente no interior do aparelho.
Antes que a porta cerrasse, já havia
colado os lábios ao pescoço dela e
procurava com os dedos o decote do
vestido.
Aquilo era só o que importava,
pensou Paige.
O fôlego de Gabe a deixou sem ar.
– Preciso admitir que estou
impaciente para saber como é a
verdadeira guarnição...
– O quê?
– Finalmente vou conhecer sua casa.
Paige sentiu a ficha cair. O vestido de
noiva! Continuava pendurado na

cadeira da cozinha! Não tinha se
preocupado em guardá-lo, como se
escondê-lo no fundo do armário fosse a
prova definitiva de propriedade.
Rapidamente, tirou um sapato e, com
o dedão do pé, pressionou o botão de
emergência. O elevador parou com uma
sacudidela tão forte que Paige se
agarrou ao casaco de Gabe como se
fosse um salva-vidas.
No silêncio repentino que se seguiu,
os batimentos frenéticos do seu coração
se confundiram com a respiração
ofegante de ambos.
Não sabia como ia explicar o vestido
a Gabe, mas, quando o viu sorrindo e
arqueando as sobrancelhas, sentiu um

imenso alívio. Como uma injeção de
calor num dia excessivamente frio.
Com um gemido selvagem, ele a
imprensou contra a parede da cabine e
começaram a se percorrer, mútua e
desesperadamente, com as mãos. Ele
abaixou a saia dela, que retribuiu,
fezendo o mesmo com a calça dele. Um
segundo depois, já a penetrava,
fazendo-a gritar de prazer. Paige
mordia levemente as mãos, tentando
conter a enxurrada de sensações
intensas e plenas que ocupavam cada
poro de seu corpo.
Os dois tinham sido feitos para
aquela loucura. Independente do que
acontecesse e do tempo que durasse.

O desejo fazia vibrar todo seu
organismo, como uma tormenta
poderosa que descarregava sua força
torrencial por sobre os músculos
contraídos. O prazer aumentou, até que
não conseguiu controlá-lo e, com um
grito que atravessou as paredes de
metal do elevador, abandonou-se em
uma onda incontrolável de sensações
difusas, seguida poucos segundos
depois pela explosão libertadora de
Gabe.
A tensão foi diminuindo lentamente
e Paige apoiou a testa no peito de Gabe,
deixando que a sua respiração rítmica e
profunda a acalmasse.

Quando finalmente ergueu a cabeça,
encontrou-o com os olhos fechados e os
lábios entreabertos. As luzes do
elevador projetavam sombras sob as
linhas desfiguradas de seu rosto e
realçavam as rugas em volta dos olhos,
a barba incipiente e a protuberância do
pomo-de-adão.
Era tão forte e másculo que Paige
sentia um aperto no peito só de olhar
para ele.
Ele abriu os olhos, dedicou-lhe um
pequeno sorriso e escondeu-lhe uma
madeixa atrás da orelha. Paige engoliu
em seco ao admitir a verdade: ainda
não estava pronta para se afastar dele.
Pelo que sentia quando estavam juntos

e a sós. O trabalho, a família, Mae...
nada mais importava. Ele sossegava o
seu espírito e fazia com que tudo fosse
fácil, permitindo que ela simplesmente
vivesse o momento.
Acariciou o rosto de Gabe. Passou o
polegar pelo seu lábio inferior e alisoulhe uma sobrancelha. Os olhos dele não
diziam nada, mas dilatou as narinas
quando ela o tocou.
O sentimento que invadia Paige era
tão forte que a impedia de respirar.
Apoiou-se firmemente contra a parede
com as mãos fechadas e se afastou,
abrindo espaço para que se vestissem.
– Foi uma verdadeira revelação,
menina Danforth...

– Por acaso, você pensou que eu era
uma boa menina?
Coincidiram os seus olhares por tanto
tempo que a atmosfera dentro da
cabine se tornou quase palpável.
– Não – respondeu ele, enquanto
pressionava o botão de emergência.
Paige soltou uma gargalhada alegre e
despreocupada, embora no fundo
soubesse que aquela sensação era muito
perigosa.
Gabe comprimia insistentemente o
botão, mas o elevador não se movia.
Desistiu e levou a mão ao bolso do
casaco para puxar o celular, mas o
aparelho não estava lá.

– O flamingo... – disseram ao mesmo
tempo, e Paige riu.
– Não tem graça. Há cem pessoas na
festa.
– E basta que uma delas saia mais
cedo para descobrir que o elevador não
funciona – Paige levou um dedo aos
lábios. – Embora a gente saiba como ele
se comporta nos momentos mais
inoportunos.
A expressão séria de Gabe denotava
sua falta de ânimo para brincadeiras.
Paige abriu a caixa onde estava o
telefone de emergência. Estava mudo.
Na próxima reunião de condomínio,
Sam levaria uma reprimenda daquelas!

Gabe passou uma das mãos pelo
cabelo e olhou em torno, antes de se
fixar nas portas.
Paige considerou uma hipótese
inquietante...
– Gabe, você tem claustrofobia?
Ele puxou a gola do pulôver.
– Não, só que tampouco me agrada
ficar preso num cubículo durante muito
tempo – baixou a voz enquanto
esmurrava o painel de botões, sem
obter sucesso.
Paige não conseguiu conter o riso.
– Que ótimo! O elevador empaca
com outras pessoas também, parece que
não resistiu ao seu charme.

Gabe olhou para ela com os olhos
semicerrados. Afinal de contas, ela é
quem havia apertado o botão...
Fez-se um silêncio espesso na cabine,
cortado apenas por breves rangidos
ocasionais do maquinário. Só lhes
restava esperar.
– E agora? – perguntou ela, cruzando
os braços.
– QUE TIPO de nome é Gabe?
Gabe sentia dores nas pernas, já que
passara os últimos dez minutos de
cócoras, tentando fazer o telefone
funcionar. Infelizmente, a intimidade
que tinha para com os negócios não

encontrava paralelo na engenharia
elétrica.
– É só Gabe? Ou é um diminutivo de
Gabriel? – insistiu Paige.
– Isso aí.
– Que bonitinho... – disse ela, que
parecia menos preocupada que ele pela
falta de oxigênio. – Como o anjo.
Gabe sentiu os joelhos estalaram ao
se levantar. Virou-se para Paige e viu
que ela estava descalça, com um pé
sobre o outro, o cabelo desalinhado e o
casaco aberto. E, apesar do ambiente
asfixiante, seu corpo voltou a reagir.
Conteve rapidamente a excitação.
Precisava conservar o ar.

– Imagino que esteja se divertindo
bastante vendo meus esforços para nos
tirar daqui.
– Muito. É agradável ver mais
alguém reclamando do elevador, para
variar.
– Não acho que agradável seja a
palavra certa – murmurou ele,
fechando os olhos. Não tinha
claustrofobia, mas de tanto visitar
arranha-céus pelo mundo acabara
desenvolvendo certa antipatia, quase
aversão, por elevadores.
– Voltando ao seu nome...
– É um nome de família! – exclamou
ele, esfregando a nuca rígida.
– Da parte da mãe ou do pai?

– Não está com calor?
Paige olhou para ele, surpreendida,
aninhou-se no casaco de Gabe e
balançou a cabeça.
– Quando o ar-condicionado
desligou? – perguntou ele.
– Não sei, mas podemos passar várias
horas aqui sem problemas. Li uma vez
que um tipo ficou preso num elevador
de Bruxelas durante uma semana.
Sobreviveu com as migalhas e restos de
comida que encontrava no carpete.
Parece que Hugh Jackman ia fazer um
filme sobre isso... comparados com ele,
acho que estamos muito bem.
– Com Hugh Jackman ou com o tipo
de Bruxelas? – perguntou Gabe,

tentando afastar a a possibilidade de
ficar fechado num elevador durante
vários dias. – Não precisa responder.
Melhor ainda, fique quieta.
Ela não disfarçou um sorriso. Gabe
não tinha percebido tratar-se de uma
sádica, que estava visivelmente se
divertindo em demasia com o seu malestar. Para deixar claro, apoiou um pé
na parede e pôs o joelho em evidência.
A saia subiu por sua coxa e ela respirou
fundo antes de dizer:
– Nate parece um bom sujeito. Tem
um cabelo bonito... e covinhas
encantadoras!
Gabe trincou os dentes.
– Está de brincadeira comigo?

Ela agitou os longos cílios.
– Desculpe, estou confusa. Você quer
que eu pare de fazer perguntas ou que
cale a boca? – Ele arqueou as
sobrancelhas, gesto que ela imitou
enquanto balançava o o joelho. – Nate
é solteiro?
– Do meu pai.
– Como?
– O meu nome vem da família do
meu pai – olhou para o alto, calculando
quanto tempo demoraria para deslocar
o teto, sair por ali e subir por um cabo...
– O nome dele era Gabriel?
– Frank.
– Seu pai não se chamava Gabriel? –
insistiu Paige. – Tem certeza? E como se

chamava o seu melhor amigo na
faculdade?
E, fosse pela aparente tentativa de
Paige de matar ambos sufocados
naquele ambiente, fosse pela imagem
de dissimulada sensualidade que ela
oferecia daquele jeito, descalça e
protegida com seu casaco, Gabe fez
uma confissão que até então guardara
apenas para si próprio.
– O nome da minha avó paterna era
Gabriella.
Não havia nada demais naquela
confissão, porém, Gabe surpreendeu-se
ao sentir uma estranha paz de espírito.
Paige sossegou o joelho e encobriu o
lábio inferior com os dentes, certamente

para conter um sorriso, mas Gabe não
se importava. O brilho dos seus dentes
brancos fazia com que o sangue lhe
fervesse de excitação. Que se danasse
tudo! Se morresse ali, morreria feliz.
– Foi a sua avó quem te viciou com
os filmes da Doris Day?
– Sim, entre outras coisas. O nome
Gabriel é usado na minha família há
várias gerações. A minha avó não teve
irmãos, portanto...
– ...portanto, não é um nome
feminino.
– Não – olhou-a nos olhos e afastou
uma madeixa de seu rosto, jogando-a
sobre um ombro.

– Parece uma confissão bastante
íntima.
– Acha mesmo?
– Claro. Muito mais do que a origem
do meu nome – riu, mas foi um som
amargo e triste. Gabe sentiu-se
impelido a perguntar, apesar de não
gostar de saber sobre a vida pessoal de
ninguém:
– Então?
Ela demorou alguns segundos para
responder.
– O meu pai era jogador de críquete
e passava quase o ano todo competindo
no exterior. Era tanto tempo fora que
minha mãe nem acreditou quando viu
que ele estava presente no meu

nascimento. E acabou dando a ele o
direito de escolher o meu nome,
qualquer um que quisesse – o seu olhar
tornou-se frio e apagado. – Quer saber
por que ele escolheu Paige?
– Sim.
– Porque, quando minha mãe o
avisou do meu nascimento, ele estava
na cama com uma funcionária do
hotel...chamada Paige.
Gabe estremeceu com a confissão e
conteve um impulso de lhe acariciar a
testa franzida.
– Acho que minha mãe tinha
esperança de que ele voltasse para nós.
– E funcionou?
Paige esboçou outro sorriso amargo.

– Não muito. O meu pai a enganava
sempre que podia, até que um dia
minha mãe se cansou e pediu o
divórcio. Ele ainda teve o descaramento
de se surpreender. E, embora ela tenha
levado até o último centavo dele, ficou
destroçada – encolheu os ombros e
mordeu a língua. – Enfim... são águas
passadas.
Águas passadas, repetiu mentalmente
Gabe. Na sua opinião, varrer o passado
para debaixo do tapete era uma grande
bobagem. Logo se formaria um calombo
no qual se poderia tropeçar outra vez.
– Você costuma ver o seu pai?
– Nunca, mas a minha mãe sim,
somos muito unidas. É uma boa

mulher, muito mais indulgente do que
eu alguma vez vou poder ser. E a sua?
Gabe já esperava pela pergunta, mas
estava tão concentrado em Paige que
sentiu um choque de surpresa.
– Os meus pais morreram quando eu
era jovem. Fui criado pela minha avó.
– A avó Gabriella... – disse ela,
assentindo lentamente.
– Era uma mulher extraordinária.
Forte e teimosa. Ainda bem, porque, de
outro modo, não teria conseguido me
controlar. Eu era um menino selvagem
e nervoso, e ela conseguiu me educar
com mão firme. Tudo o que sou devo a
ela.
– Mora em Melbourne?

– Não, faleceu há alguns anos.
Justamente quando a minha carreira
profissional começava a decolar. Fiquei
muito triste por ela não poder ver meu
sucesso – suspirou e sentiu-se
novamente aliviado.
Paige também suspirou, como se
experimentasse igualmente uma leveza
de espírito há muito desejada.
– Paige... – Não soube mais o que
dizer e balançou a cabeça para disfarçar
a ausência de palavras. Logo ele, o Rei
Midas dos negócios.
Podia ter cometido muitos erros em
seu passado, mas notou que ao menos
daquela vez havia feito a coisa certa,
surgindo na vida de Paige de forma

bastante oportuna. Aquela mulher, que
parecia ter sentido um imenso alívio
quando soube que ele iria embora logo
e que a sua aventura tinha prazo para
terminar. A ideia o desanimou a
princípio, mas não demorou a se
recuperar. Por mais que Paige fosse
sensual e passional, havia um limite
para o que ele podia oferecer. Sentir
algo
por
alguém
podia
ser
extremamente prejudicial. E deveria se
lembrar daquilo quando saísse daquele
cubículo impregnado do aroma
irresistível da sua pele suave e feminina.
Avançou um passo e segurou os
braços dela. O calor aqueceu-lhe a pele
por cima do casaco, a sua deliciosa

fragrância o envolveu e os seus grandes
olhos azuis o olharam sem pestanejar
enquanto respirava fundo. Apoiou uma
das mãos na parede, por cima de sua
cabeça, e ela entreabriu os lábios numa
súplica silenciosa por um beijo.
E, justamente quando Gabe se
deixava guiar puramente por seus
instintos mais selvagens, as luzes da
cabine piscaram e o elevador se moveu.
A porta se abriu, mas Paige não
ousou, nem quis, desviar o olhar para o
papel prateado do saguão. Não cederia,
nem por todo o café do Brasil.
Não agora, quando Gabe parecia a
estar atravessando com um olhar tão
afiado que chegava até seu coração.

– Devíamos sair daqui antes que esta
coisa mude de ideia – sugeriu. – O
problema é que você é bem grandinho
para que eu o carregue no colo.
– Que engraçadinha... – respondeu
ele, mas avançou rapidamente e
segurou a porta para que ela saísse.
A luz tênue do saguão magoou a
vista de Paige, como se estivesse saindo
de uma gruta depois de um ano, e não
de um elevador iluminado após uma
hora. Como se estivesse acordando de
um sonho. Tirou o casaco de Gabe e o
devolveu a ele, que prontamente o
pendurou no braço.
– É melhor voltar para ver se
continua tudo certo na festa. Espero

que Nate não tenha convidado todo
mundo para dormir lá.
– Não sou tão corajoso assim.
– O que está dizendo? Eu vou subir
pelas escadas, e você?
Ela abraçou-se, sentindo falta do
casaco de Gabe e de seu corpo quente.
Deu um passo atrás e balançou a
cabeça.
– Acho que já esgotei toda minha
sorte esta noite.
Ele esboçou um sorriso, e a seguir sua
expressão ficou séria. Ela inspirou
profundamente e, antes que se
despedisse, ele avançou, cobrindo a
distância que os separava em três passos
largos. Paige o encarou.

– Vamos nos ver de novo? –
perguntou ele, temendo a resposta.
Paige sentiu um nó na garganta. Sem
contar o convite para a festa, era a
primeira vez que um deles sugeria
qualquer coisa.
– Provavelmente, considerando os
últimos dias... – disse ela, numa vã
tentativa de se mostrar maliciosa.
– Bom, eu queria... convidá-la para
jantar.
– Jantar? – repetiu Paige, aniquilada.
– Como um encontro?
Gabe assentiu seriamente.
Um encontro? Um encontro! A
experiência sugeria recusar: Gabe era
um nômade e ela havia percebido a

impaciência no seu olhar ao vê-lo. Se
ainda não tinha aprendido a manter-se
afastada de homens como ele, devia ser
totalmente louca.
Por outro lado, não podia se esquecer
que Nate estava tentando fazer com
que Gabe fincasse raízes na cidade...
– Paige? – pressionou-a.
Dividida entre a razão e a emoção,
Paige optou pela alternativa que seu
corpo lhe apresentou.
– Está bem.

CAPÍTULO 7

PAIGE ACABAVA de se sentar com Mae e
Clint no pub Oh La La em Church
Street quando recebeu a chamada que
esperara o dia todo, embora tentasse
convencer-se do contrário.
Levantou-se do banco pedindo
desculpas e saiu para a noite fria de
Melbourne. Enfiou a mão livre debaixo
do braço e bateu com força os pés no

chão, num tímido esforço de conservar
o calor.
– Olá, Gabe! – exclamou, com mais
entusiasmo do que pretendia. Apesar
de ter o número de Gabe gravado,
deveria ter fingido mais um pouco de
indiferença.
A gargalhada de Gabe recordou-lhe
que não precisava se preocupar com o
frio. Cada vez que ouvia a sua voz, era
invadida por uma onda de calor.
– O que se passa? – perguntou-lhe e
mordeu o lábio. Como se não soubesse!
– Eu lembro que a convidei para
jantar.
– Sim – respondeu, com um pouco
mais de serenidade. Não revelaria que

passou quase todo o sábado sonhando
acordada, imaginando onde a levaria
ou que roupa usaria.
Um ônibus barulhento passou na rua
e a comunicação flutuou. Paige apertou
o telefone contra a orelha direita e
tapou a esquerda com a outra mão.
– Desculpe, não ouvi a última parte.
– Disse que teremos de adiá-lo.
Paige ficou quieta e rígida no meio
da calçada.
– Estou em Sidney a trabalho.
Cheguei de avião hoje de manhã e não
sei quando voltarei.
Estava em Sidney? A milhares de
quilômetros, e nem sequer havia

contado a ela que ia embora? A menos
que... tivesse mudado de ideia.
– Paige? Está me ouvindo?
– Sim, estou – respondeu, esfregando
uma dor nas costelas. – Tudo bem. Eu
entendo. Eu também tenho muito que
fazer esta semana. A gente se vê...
– Paige – ele a interrompeu, com a
sua voz profunda e irresistivelmente
sensual.
– Sim? – fechou os olhos e passou a
mão pela testa. Ao abri-los, viu um
casal que passava de braço dado.
– Voltarei dentro de alguns dias e
sairemos uma noite... eu prometo.
Faltou dizer antes que eu vá embora
para sempre, mas a mensagem estava

clara e caiu sobre a cabeça de Paige
como um enorme piano suspenso por
uma corda. A dor nas costelas tornouse mais intensa.
– Eu ligo quando souber mais alguma
coisa – disse Gabe.
– Tudo bem. Como queira.
Gabe deu outra risada, o som saindo
do telefone e atingindo Paige no
estômago.
– Eu te ligo – prometeu-lhe.
– Tudo bem – repetiu ela.
– Boa noite, Paige – despediu-se e
desligou.
Paige virou-se para voltar ao bar, mas
as suas botas pareciam coladas no chão

e permaneceu alguns minutos diante da
luz rosada que saía pelas janelas.
Achava mesmo que Gabe tivesse ido
a Sidney para evitá-la? Pelo amor de
Deus! Não estavam comprometidos,
não eram um casal. Ele apenas adiou
um encontro, só isso. E, no entanto, seu
coração pulsava descontrolado. Não, ela
não era assim. Não ficava obcecada por
um homem que não podia ter.
Ela não era a sua mãe...
Não. Alguns dias de separação
serviriam para ela recordar que a sua
vida já era plenamente satisfatória antes
de Gabe Hamilton entrar naquele
elevador.

GABE FICOU fora por mais de uma
semana.
Paige estava encantada com tudo o
que tinha conseguido fazer durante a
sua ausência. Entregou seu formulário
de imposto de renda, rearrumou sua
sala, avançou diversos níveis no Angry
Birds, encontrou-se com Mae e Clint
outras
duas
vezes,
finalmente
confessando à amiga sua aventura com
Gabe, e aperfeiçoou até o último
detalhe o projeto para lançar o catálogo
de verão no Brasil.
Definitivamente, o tempo que
passaram separados foi ótimo, mas
contava as horas para a segunda-feira,
quando Gabe deveria regressar. Vestiu

o conjunto de lingerie preta que
comprara especialmente para a ocasião,
abriu o armário para escolher uma
roupa e, em vez de tirar o uniforme de
trabalho, puxou a sacola branca que
estava no fundo. Sem conseguir se
conter, abriu-a e tirou o vestido secreto.
Assim que sentiu nas mãos o peso
das pérolas, do chiffon e da renda, algo
se agitou dentro dela, incentivando-a a
vestir a peça. Ela deslizou, fresca e
suave, pela sua pele nua e a saia caiu
delicadamente até seus pés descalços.
Os dedos tremiam enquanto fechava o
zíper nas costas.
Com os olhos fechados e os joelhos
trêmulos, virou-se para o espelho da

porta
do
armário.
Desejava
desesperadamente que o vestido
estivesse grande, que a cor a fizesse
parecer que tinha icterícia ou que se
cobrira de rolos de papel higiênico,
como a boneca que a sua mãe tinha no
banheiro.
– É só um vestido – disse a si mesma,
mas, quando abriu os olhos, eles
estavam cheios de lágrimas.
Mae teria experimentado a mesma
emoção ao vestir o dela? Sentiu-se
bonita, especial, mágica, romântica e
cheia de esperança? Não sabia, nunca
perguntou. Era sempre Mae que falava
do casamento, que ia vê-la com revistas
de noivas, que se reunia com os

músicos e os fornecedores, e que
transbordava entusiasmo e motivação,
enquanto Paige fingia um mínimo de
interesse. Mae tinha encontrado o que
durante anos as duas tinham se
convencido de que não existia: um
homem em quem confiar e a quem
amar.
Contemplou o seu reflexo como se
estivesse vivenciando uma experiência
astral. Uma lágrima rolou pelo rosto, e,
então, teve uma revelação tão clara que
precisou conter um grito.
De repente, sabia quando tudo havia
mudado. Quando o seu trabalho tinha
deixado de satisfazê-la, os homens
deixaram de fazer parte de suas

cogitações emocionais e, acima de tudo,
quando havia perdido o rígido controle
sobre a sua vida.
Naquela vez em que Mae lhe contara
que Clint a tinha pedido em casamento
e exibira, orgulhosa, o anel no dedo.
Naquele momento, a certeza e o
consolo de que Paige não era a única a
não acreditar no amor e em finais
felizes tinham cedido como um castelo
de cartas.
Cobriu os olhos para conter as
lágrimas que se precipitavam.
O que se passava com ela? A sua
melhor amiga estava apaixonada e ia se
casar. E daí? Seu mundo ia acabar por
causa disso? Sempre imaginou que o

ardor que lhe abrasava o estômago cada
vez que via Mae e Clint juntos era por
medo de que a sua amiga sofresse, mas
estava se enganando. Era inveja. A
absoluta certeza de nunca ter sentido
uma fração mínima do amor que eles
partilhavam e que a fez encerrar-se em
si mesma e esquecer os homens, porque
estava destinada a continuar sozinha
pelo resto da vida.
Chorou desconsoladamente até a
respiração se tornar entrecortada. Sentia
os pulmões esmagados. Precisava tirar
aquele maldito vestido para conseguir
respirar novamente. Puxou as alças, que
não saíram do ponto onde a marcavam
nos ombros. Puxou o decote, mas não

cedeu. Levou os dedos ao zíper e...
ficou petrificada, com um pé apoiado
indecorosamente na poltrona e os
braços atrás das costas.
O zíper tinha emperrado.
Tinha de sair em dez minutos se
quisesse chegar a tempo no trabalho
para a apresentação final do seu
projeto.
Respirou fundo para manter a calma
e puxou o zíper com força.
Nada.
O que podia fazer?
Mae e Clint moravam relativamente
perto, mas era horário de pico e
demorariam uma eternidade para
chegar. A vizinha tinha se internado

para fazer uma operação. E, se batesse à
porta da sra. Addable, todo o edifício
saberia da sua situação antes que
pudesse pôr um pé na rua.
Poderia tentar se vestir por cima do
vestido. Usaria sua camisola de lã
verde, seu casaco castanho, as suas
botas cinzas com franjas e vários
acessórios. Imaginou a cena na sala de
reuniões: Callie recebendo os cuidados
constantes das secretárias, Geoff
embolsando os biscoitos da bandeja e
Susie, a sua assistente, esbugalhando os
olhos ao vê-la a entrar com um vestido
de noiva.
Rendeu-se e caiu de costas na cama.

GABE ESPERAVA pelo elevador no saguão.
Tinha sido uma semana infernal. Os
outros dois executivos que apareceram
tentando chegar a um acordo com a
empresa de software eram os
adversários mais difíceis que Gabe
enfrentara em toda a sua carreira, mas,
como sempre, a sorte estava do seu
lado.
E, no entanto, sentia um estranho
alívio por estar de volta. O frio não lhe
chegava aos ossos como antes. O
barulho do trânsito não o incomodava
nem um pouco. E o horizonte não lhe
parecia tão escuro e lúgubre. De fato,
com o sol da manhã flutuando sobre os
arranha-céus, a Estação Ferroviária de

Finders Street e as águas reluzentes do
rio, a cidade parecia bonita e
acolhedora.
Talvez tivesse sentido falta da sua
cama. Ou da pessoa com quem poderia
tê-la dividido... uma loura voluptuosa
de olhos azuis e lábios carnudos que...
O som do elevador afastou os seus
pensamentos. Quem quer que estivesse
lá dentro não tinha como perceber a
forma que uma semana sem Paige o
tinha afetado, mas o elevador
simplesmente não se abriu e voltou a
subir.
Ali estava algo de que não tinha
sentido a menor falta.

Viu que o elevador parava no oitavo
andar. O andar de Paige. Olhou para o
relógio. Talvez ainda não tivesse saído
para
o
trabalho.
Poderia
ir
cumprimentá-la e fazer planos para
jantarem naquela noite. Gostaria de
fazer muito mais... mas tinha de ir ao
escritório informar Nate sobre as
negociações e continuar a preparar a
entrada da empresa na Bolsa. O seu
lugar era entre tubarões, acionistas e
relatórios financeiros.
Embora, por outro lado... os negócios
podiam esperar. Alternou novamente o
olhar entre o relógio e o elevador, como
se bastasse combinar aqueles gestos
para que ele descesse.

Que se dane!
Optou pela escada e subiu os degraus
de dois em dois, impulsionado por uma
descarga de adrenalina. O coração batia
com mais força à medida que se
aproximava do oitavo andar. Correu
para a porta de Paige e, antes de pensar
duas vezes no que fazia, começou a
esmurrá-la como se fosse um homem
das cavernas.
Se conseguisse cumprimentar Paige
antes de lhe cobrir a boca com beijos
deveria ganhar uma medalha.
Ouviu o som de pés descalços se
arrastando pelo chão de madeira,
confirmando que ela estava em casa e
avivando o calor entre as suas pernas.

– Paige!
– chamou-a com
impaciência. – Sou eu.
Silêncio. Teria imaginado os passos?
Alguns segundos depois, a maçaneta
girou e a porta abriu-se lentamente.
Só tinha passado uma semana sem
vê-la, mas o coração disparou com a
imagem do seu bonito rosto. Sentiu
como se tivesse se jogado do alto de um
prédio e houvesse uma dúzia de
bombeiros lá em baixo com uma cama
elástica.
Paige pestanejou ao vê-lo. Tinha o
rímel borrado, o cabelo despenteado e
estava corada. O seu aspecto era tão
desalinhado e provocante que Gabe
teve de fazer um esforço enorme para

não a jogar sobre o ombro e a levar para
a cama antes mesmo de a
cumprimentar.
Então, baixou o olhar e...
Que diabos era aquilo?

CAPÍTULO 8

– NÃO ACHA que

é um pouco cedo
para ficar tão elegante?
– O que você está vendo? –
perguntou ela, engolindo em seco
dolorosamente.
– Vejo que você está usando um
vestido de noiva...é seu?
Ela esperou alguns segundos e
assentiu. Parecia um cachorrinho que
tinha levado um pontapé. O homem

que lhe servia de amante voltava depois
de uma semana fora e a encontrava
vestida de noiva, mas ela é quem
parecia estar chocada com a situação.
A mistura de desejo selvagem,
espanto e horror impedia-o de pensar
com clareza.
– Você está vestida assim...? – Porque
se casou?, vai se casar hoje?, tudo isso é
saudade e desejo de ficar comigo?
Será que de nada haviam adiantado
suas barreiras, e novamente uma
mulher loura o havia ludibriado? Devia
ter prestado mais atenção às
advertências de Hitchcock... daria um
minuto a Paige para se explicar. Dois,

no máximo. E, se as respostas não o
convencessem plenamente, iria embora.
– O zíper emperrou! – exclamou ela,
levantando o cabelo para confirmar o
que dizia. Ele viu uma tira de renda
bege com pérolas incrustadas e...
Gabe desviou o olhar para o teto.
– Não me refiro a isso, mas a... por
quê você tem um...?
– Oh, não se faça de inocente. Você
sabia que eu tinha um vestido.
Gabe balançou a cabeça, mas
continuava completamente aturdido.
– Como eu poderia saber?
– Você viu que eu estava com ele da
primeira vez.

– Do que está falando? Paige, eu
nunca vi esse vestido antes!
– No dia em que nos conhecemos! –
replicou ela, cruzando os braços. – No
elevador. Estava na sacola.
Gabe abriu a boca para dizer que era
impossível, ele jamais teria tentado
seduzir uma mulher comprometida,
mas não podia acreditar que fosse o
caso de Paige, de modo que voltou a
fechar prudentemente a boca. Ela não
parecia estar disposta a ter uma
discussão, mas sim à beira de uma crise
nervosa.
Não era exatamente o reencontro
que ele imaginara, mas não podia ir
embora e deixá-la daquele jeito.

Tirou o gorro, o cachecol e o casaco,
jogou tudo em cima da mesa da
cozinha. Afastou-a delicadamente com
um ligeiro tremor nas mãos, cuidando
para não tocar no tecido, entrou no
apartamento e fechou a porta com o pé.
– Paige, sinceramente, não me
lembro de ter visto este vestido naquele
dia.
– Você disse ao Nate que quase
esmaguei seus dedos com a porta do
elevador e não lembra que eu carregava
uma sacola enorme com as palavras
Saldão de vestidos de noiva escritas em
cor-de-rosa?
– Sim, lembro muito bem – os
grandes olhos azuis. O cabelo louro e

despenteado. As pernas intermináveis.
As faíscas. O desejo que o fazia
esquecer o jet lag. – Lembro de você.
Paige pestanejou com espanto e
soltou um suspiro prolongado. Gabe
não conseguiu impedir que os seus
olhos percorressem aquele vestido que
se cingia à cintura e descia pelas curvas
apetitosas. Imaginou que se um homem
com um smoking alugado visse aquela
mulher usando um vestido daqueles,
caminhando em sua direção pelo
corredor de uma igreja, poderia ser
considerado um campeão. Mas ele
nunca seria esse homem.
Gostava de Paige. Era uma mulher
inteligente e divertida, e selvagem na

cama, mas, se aquele vestido era uma
espécie de sinal, enganara-se no
homem.
Ele não era dos que se casavam. Nem
sequer dos que tinham uma relação
estável. As suas prioridades tornavam
impossível qualquer compromisso. Se a
memória não o traía, as suas ambições
sempre tinham sido trabalhar e fazer
com que a sua avó ficasse orgulhosa. E,
depois de cometer o seu único e
monumental erro, prometera a si
mesmo que jamais iria repeti-lo.
Beliscou a ponta do nariz. Não iria a
lado nenhum, nem para a sua casa,
nem para o trabalho, nem jantar, nem
sequer para a cama de Paige, até que

esclarecesse definitivamente aquele
detalhe.
Acomodou as mãos nos bolsos do
jeans enquanto dava um passo atrás.
– Sente-se – ordenou, assinalando
com o queixo a mesa da cozinha.
Ela obedeceu e ele também se
sentou, bem longe para não a tocar.
– Pode me explicar o está
acontecendo?
– Quer mesmo saber?
– Mais do que imagina.
– Muito bem – acedeu ela. – Fui com
Mae comprar o seu vestido de noiva. Vi
este por acaso e senti que tinha de ser
meu, mas não tenho a menor intenção
de me casar. Não sou dessas mulheres

que se desesperam por um marido. Pelo
contrário. Pode ficar sossegado.
– Ok – disse ele, embora estivesse
muito longe de se sentir sossegado.
Paige baixou o olhar e uma madeixa
caiu-lhe sobre o rosto.
– Mas a verdade é que o noivado de
Mae me afetou mais do que pensava.
Sempre fomos inseparáveis... mas agora
parece que a perdi. Desde que
anunciou o seu casamento, não voltei a
ser eu mesma. É como se tivesse
perdido o interesse por tudo: por Mae,
pelo trabalho, pelos homens... – olhouo nos olhos. – Você é o primeiro
homem com quem estou desde então –
a ênfase com que pronunciou a palavra

estou fez com que Gabe se agitasse na
cadeira, o que quase levou Paige a
sorrir. – Não comprei este vestido por
estar com inveja dela, de jeito nenhum.
Mae diz que eu antecipei um desejo
inconsciente, e a compra foi uma forma
involuntária de expressá-lo. No fundo,
eu queria você e, logo depois, eis que
você entra no elevador.
– Você me queria?
Ela encolheu ligeiramente os ombros.
– Bom, não você, especificamente.
Queria um homem. Só um homem.
A garganta de Gabe secou, mas logo
começou a salivar e teve de se agarrar à
cadeira para não se atirar a Paige e dar

a ela o que Mae achava que ela estava
querendo.
Paige recostou-se na cadeira, olhou-o
nos olhos e Gabe viu seriedade neles. Se
outro homem tivesse entrado no
elevador naquele dia, seria ele quem
estaria sentado ali, ardendo de desejo
por aqueles olhos azuis.
Nem pensar! Não seria a mesma
coisa. O que havia entre eles era uma
química intensa. Uma atração que só se
dava uma vez em um milhão e pela
qual valia a pena ultrapassar os limites.
Ou então, não estaria sentado diante de
uma mulher vestida de noiva.
Inclinou o corpo, sem que os olhares
se desviassem.

– E agora que você encontrou um
homem... como está?
Paige arqueou as sobrancelhas e
passou uma das mãos pelas curvas
cobertas de renda.
– O que acha?
– Você o veste todo dia?
– Claro que não! Esta é a primeira
vez que o visto. Não tinha a mínima
intenção de que me encontrasse assim.
É um pesadelo, e nem sei o que está
fazendo aqui quando deveria estar em
qualquer outro lugar!
Era verdade. Iria ajudá-la a tirar o
vestido e depois iria embora. Para casa.
Para o escritório. Para longe dela, de
forma a organizar os pensamentos.

Levantou-se e fez um gesto com o
dedo.
– Chegue aqui.
– O quê?
– Disse que o zíper estava
emperrado.
– Sim. E, por mais que o puxe, não
cede.
– Deixe-me tentar.
Paige levantou-se e deu meia-volta.
Gabe engoliu em seco ao pensar que ia
tirar o vestido de noiva de uma mulher
bonita. Concentrou-se na sua tarefa e
encontrou um clipe, que desmontou e
enganchou na ponta do zíper. A sua
tensão aliviou um pouco. Pelo menos,
já podia ter a certeza de que tinha

tentado tirar o vestido, mas e quanto ao
resto?
Todo mundo tem um ponto fraco; o
de Paige parecia ser uma combinação
de renda e pérolas.
– Posso me mexer? – perguntou ela.
Expôs a nuca e o aroma do seu xampu
inebriou Gabe pela primeira vez em
muitos dias.
Agarrou o zíper e os seus dedos
roçaram-lhe a pele. Sentiu como
tensionava os músculos das costas pelo
ligeiro contato.
– Quer tirar isso ou não? – perguntou
ele com voz áspera, enquanto o sangue
se concentrava entre as suas pernas.
– Sim.

– Então, fica quieta.
Ela enrijeceu e durante alguns
segundos só se ouviu o farfalhar do
cetim sobre a sua pele enquanto o zíper
se recusava a ceder. Apesar do vestido,
a luxúria que invadia Gabe aumentava.
Como era possível que a desejasse
tanto? Se um dos dois esquecesse quais
eram os limites da relação, entrariam
em uma zona perigosa.
– Cuidado! – exclamou ela, quando o
tecido se esticou, fazendo um ruído
cortante. O zíper finalmente cedeu e
Paige apertou o vestido contra o peito,
mas não antes de Gabe conseguir ver
um sutiã preto de renda e uma tanga da
mesma cor.

Ela se virou e seus olhos se
encontraram. Paige mordeu o lábio e
Gabe soube que ela não ia a lugar
nenhum.
Um segundo depois, Paige, esquecida
do vestido, estava nos braços de Gabe,
agarrando-o com todas as suas forças
enquanto ele a beijava na boca e no
pescoço e mordiscava o lóbulo de sua
orelha. Deitou-a na mesa, forrada com
o casaco e o cachecol. Tinha a pele
rosada, o coração frenético, os lábios
úmidos e inchados, e os olhos
dardejantes de desejo. Paige o puxou
pelo cinto, posicionando-o entre as
pernas e rodeando-o com as coxas
enquanto
lhe
desabotoava

impacientemente a calça jeans. Ele
gemeu e afundou o rosto nos seus seios
para se saciar com sua fragrância
feminina. Agarrou-lhe um seio e ela
arqueou-se na mesa. O suor formava
um fio de prata que Gabe seguiu com a
boca até o umbigo. Mordeu-lhe o
quadril e ela agarrou-lhe o cabelo
quando percorreu com o polegar a tira
de renda preta. Com grande
autocontrole, separou-lhe as coxas e
beijou-a no triângulo da tanga. Ela
tapou os olhos com um braço e separou
mais as pernas; ele afastou a peça
minúscula
para
saboreá-la
sem
obstáculos. Ela contorceu-se de prazer e
suplicou que não parasse. Gabe a

obedeceu e a conduziu a um orgasmo
tão intenso que quase os fez explodir.
Perdeu
segundos
preciosos
procurando um preservativo na carteira
e outros tantos para colocá-lo. Só então
se introduziu no seu calor aveludado.
Os músculos internos dela o enlaçaram
e aprisionaram como se aquele fosse um
encontro inédito. Paige agarrou-se à
mesa com uma das mãos e ao quadril
dele com a outra, e respirou de forma
entrecortada. O prazer envolveu Gabe e
o arrastou para o orgasmo enquanto
fechava os olhos com força e gritava o
nome de Paige.
Aos poucos, foi recuperando a
consciência e sentiu como se aquele ato

rápido e selvagem tivesse libertado algo
em seu interior. Cruzou seu olhar com
o de Paige e a expressão saciada que
encontrou nela voltou a excitá-lo. Ela
sorriu e esticou os braços sobre a
cabeça.
Porém, os olhos de Paige traziam
também
uma
advertência.
Um
vislumbre de esperança, de uma tênue
ilusão. Um sinal de que estava se
envolvendo muito mais do que ele
naquela aventura.
– Santo Deus! Que horas são? –
gritou ela de repente, e levantou-se com
um salto, correndo para o cômodo que
imaginava ser o seu quarto.

Dois minutos depois, reapareceu
usando uma calça preta justa, camiseta
e botas da mesma cor e um casaco
cinza. Prendia uma borboleta com os
dentes enquanto arrumava o cabelo.
– Preciso ir. Hoje tenho uma reunião
muito importante. É a minha última
oportunidade para convencer Callie a
fazer o catálogo no Brasil.
Gabe a segurou pela mão quando ela
passava correndo ao lado dele. Paige
olhou para ele com o cenho franzido.
Como diria a ela de um modo delicado?
– Quando criança, nunca brinquei de
casamentos, nem me vesti de noivo... só
para você saber.
Ela inclinou a cabeça e sorriu.

– Obrigada por me contar. Acho que,
para quem já viu todos os filmes de
Doris Day, brincar de casamento seria
um pouco demais, concorda?
Gabe conteve um palavrão. Que
mulher admirável havia encontrado.
Ou era ela que o tinha encontrado? De
qualquer forma... voltou a praguejar em
silêncio.
– Vejo você à noite? – perguntou ela.
Ele assentiu e seus lábios se
encontraram. Um beijo modesto,
pensou Gabe, que não se satisfez com o
toque simples: deslizou uma das mãos
pelo cabelo dela, injetando mais paixão
ao momento, até sentir o sangue
novamente quente em suas veias.

Quando ela se afastou, soprou uma
mecha rebelde que lhe caía no rosto.
– Fique à vontade, e não esqueça de
trancar a porta quando sair – despediuse com um sorriso e desceu.
Gabe olhou ao redor. Era a primeira
vez que estava na casa de Paige. Móveis
claros. Montes de livros, quase todos de
receitas. Nenhum quadro nas paredes,
só fotografias ampliadas e emolduradas
das suas viagens, na companhia de Mae
e de uma mulher loura e atraente que
devia ser a sua mãe.
O resto era elegante, quente e
acolhedor, menos carregado do que ele
imaginara ao saber que ela era
decoradora e tinha especial predileção

por almofadas. Era apenas um lar, não
um parque de exposições. Era ela. Era
sua essência. E Gabe teve a impressão
de que, se Paige convidasse alguém
para ir até lá, estaria estendendo o
convite para para entrar na sua vida...
Um
pensamento
estranho
e
desagradável lhe ocorreu, porém. Paige
nunca o tinha convidado para ir ali: ele
é quem tinha esmurrado a porta para
entrar, como alguém que estivesse
fugindo apavorado de alguma ameaça e
buscasse abrigo na primeira morada que
visse. Até então, achava ser ele quem
marcava o ritmo daquela relação, mas
agora percebia: ela teve o controle
desde o começo, impondo suas

condições e fazendo da sua maneira.
Ele permitiu e aceitou a regra do jogo
porque assim era mais fácil. E excitante.
Recolheu suas roupas e deixou o
apartamento. Enquanto esperava pelo
elevador, disse a si mesmo que não
deveria se importar quando e onde se
vissem, pois era apenas uma aventura
passageira.
Mas o ácido que sentiu corroer o
estômago era a prova de que sim, ele se
importava.
E muito.

CAPÍTULO 9

GABE SENTOU-SE

à mesa reluzente do
seu amplo e austero escritório na Bona
Venture, mas estava irritado demais
para se concentrar na papelada. A cor
das paredes o desagradava, mas nunca
mais iria consultar um site de decoração
novamente. Já bastava o que havia feito
para a festa...
Permaneceu sentado, mal-humorado
e pensativo. Se o apartamento de Paige

refletia a sua verdadeira personalidade,
que imagem passava com aquele
escritório neutro e o apartamento, que
Nate pensara serem tão fascinantes?
Esfregou as têmporas com os
polegares. Nunca teve a intenção de
parecer
fascinante.
Sempre
se
preocupou em causar uma boa
impressão. De todas as maneiras
possíveis, e em qualquer época. Não
havia nada pior do que perder os pais
ainda na infância para compreender
que cada segundo podia ser o último.
E por isso levava uma vida errante e
despreocupada, cujo único item fixo
que carregava consigo era a sua cama.

No entanto, pensou que já havia
alcançado um sucesso considerável que
lhe dava o direito de querer mudar
certas coisas.
Nate entrou no escritório seguido da
sua assistente, que segurava uma
bandeja com café e rosquinhas.
– Diga que já está tudo pronto –
exigiu-lhe Gabe.
– Mentiria se o dissesse – replicou
Nate. A assistente deixou a bandeja e
saiu da sala.
– Li todos os papéis e ouvi uma dúzia
de peritos. Não sei mais o que posso
fazer. Devo contratar um macaco de
circo ou me reunir com os líderes da
ONU para convencê-lo?

Nate acomodou-se na poltrona de
couro diante da mesa.
– Parece que o tempo que passou
fora não serviu para nada... continua
ressentido.
Gabe fulminou-o com o olhar, mas
surpreendeu-se ao ver a expressão no
rosto de Nate. Parecia cansado,
envelhecido, como se os anos e o
trabalho estivessem cobrando o preço. E
Gabe sentia-se parcialmente culpado
disso.
– Estou há oito meses trabalhando
nesta operação – disse Nate, esfregando
os olhos. – Só peço a você um pouco de
tempo para atualizá-lo do negócio.

– Não fiquei de braços cruzados esse
tempo todo.
Nate revirou os olhos.
– Sei que não, mas não posso fazer
isto sozinho. Bom, na realidade, posso,
mas não quero. Quando fundamos esta
empresa,
todos
pensavam
que
estávamos loucos, mas nós sabíamos o
que estávamos fazendo. E foi muito
empolgante, inclusive nos anos difíceis.
Veja o que conseguimos. Olhe para
Alex. Ele não seria esse prodígio que é
hoje se não fosse por nós. Olhe o site de
Harry. E os gêmeos McDumbass...
Gabe sentiu um aperto no peito.
Nate estava certo. Fora uma experiência
muito positiva em todos os aspectos.

Desde o princípio, deixaram-se levar
pelo instinto e o resultado não poderia
ter sido melhor, salvo daquela única
vez...
Apoiou as mãos na mesa.
– Tínhamos combinado que eu me
ocuparia das pesquisas de mercado, e
você, das relações sociais.
– Cara – disse Nate, com um sorriso
irônico – , deixei que você se sacrificasse
pelo bem da empresa porque, com o
seu exagerado sentido de justiça, se
tivesse pedido que ficasse, não teria
durado nem um minuto.
Era verdade. A voz de sua avó ecoou
na sua cabeça: Trabalhe muito e me
deixe orgulhosa. Toda a sua vida fora

regida por aquelas palavras. E sentia
como se continuasse pagando pelo
único erro que cometera na sua
carreira.
Frustrado, jogou no chão os papéis
que tinha empilhado na mesa. Nenhum
dos dois se animou a recolhê-los.
– A escolha é muito simples – disse
Nate. – As ações da Bona Venture vão
para a Bolsa ou não. Vendemos a
empresa e seremos mais ricos do que
jamais imaginamos, ou ficamos com ela.
– Cara ou coroa? – sugeriu Gabe.
Nate comprimiu os dentes.
– Se é assim que quer decidir, que
seja. Eu já estou cansado disso tudo. E

você, quando foi a última vez que se
divertiu com isso?
– Você está certo – admitiu Gabe,
sentindo um nó doloroso no estômago.
Queria ir embora dali e nunca mais
voltar, e sabia que podia fazê-lo.
Mas algo o retinha. Ou era o seu
sentido de justiça e de moralidade, ou
era outra coisa, mais difícil de definir.
– Vamos descansar – propôs Nate. –
Mais tarde falamos nisso. Não há
pressa.
– Não há pressa? Mas você me
pressiona o tempo todo para que tome
uma decisão!
Nate encolheu os ombros a caminho
da porta e Gabe compreendeu tudo de

repente.
– Você pensou que, me mantendo
aqui por tempo suficiente, eu começaria
a perceber tudo o que tinha deixado
para trás... e ficaria definitivamente?
Nate se virou e dedicou-lhe um
sorriso triste.
– Sim. Está na hora de você voltar
para casa. Porque ou remamos juntos
nesse barco ou eu me atiro no mar.
Voltar para casa. Gabe considerou
tudo o que aquele ato significava. O voo
noturno. Ter de dormir no chão do seu
apartamento. As lembranças, boas e
más, que iriam acompanhá-lo para
sempre. O frio invernal que não deixava

de sentir, salvo quando estava com
Paige...
Paige.
Ela era a âncora que o mantinha a
salvo no meio da tormenta. O tempo
que passou com ela foi o antídoto para
ainda não ter explodido. Ou o motivo
para não entrar num avião no meio da
noite e partir para sempre. Ou a razão
para que as verdadeiras intenções de
Nate passassem despercebidas.
– E então, amigo? – A voz de Nate
interrompeu as suas divagações. –
Ficamos com a empresa e a dirigimos
juntos? Ou ficamos mais ricos do que o
Rei Midas e a esquecemos? – abriu a
porta e saiu enquanto dizia: – Venha.

Podemos resolver isso entre uma dose e
outra.
PAIGE OLHAVA pela janela do Rockpool
Bar and Grill. As luzes da cidade
cintilavam sobre o seu reflexo no vidro.
Não lembrava de estar tão relaxada
num primeiro encontro. Parece que
admitir seus sentimentos em relação ao
noivado de Mae havia tirado um peso
sobre seus ombros.
Gabe se comportou como um
autêntico cavalheiro pela manhã. Fosse
outro homem que a visse envergando
aquele vestido, teria corrido até sumir
na poeira da distância. Ele não só se
dispôs a ajudá-la, mas também ouviu e

entendeu suas explicações. Era um
homem de verdade, generoso, forte e
maduro. Tão seguro de si e do que
queria que jamais a teria convidado
para sair se realmente não desejasse
encontrá-la.
Ela não conseguia se sentir normal
em sua presença, por mais que tentasse
passar uma imagem de neutralidade.
Sentia-se um nível além, feminina e
desejada, amada, especial. Ao vê-lo
mais cedo, com aquele jeans que
ressaltava sua virilidade, as botas
reluzentes e poderosas e o casaco justo
sobre a camisa cinza que modelava seus
músculos, experimentou uma sensação
há muito abandonada. Uma segurança

plena e quase tangível. Tinha que
admitir que era uma grande mudança
para alguém que tinha passado a vida à
espera do inevitável.
Aspirou o delicioso aroma da carne
grelhada enquanto passeava o olhar
pelas mesas pretas e pelos quadros com
imagens rurais. Gabe estava perto dali,
falando ao celular. Guardou o aparelho
no bolso e a procurou com olhos
inquietos. Ao divisá-la, sentiu o coração
a galope, como acontecia sempre que se
encontrava com aquele par de pérolas
azuis.
– Desculpe – disse ele, sentando-se. –
Assunto do trabalho...

Ela deu de ombros. Alegrava-se por
estar ali com um homem que admirava
e respeitava. Tinha sentido falta de sua
companhia, de sua conversa e de todo o
resto enquanto ele estava fora, mas
havia sobrevivido.
– Já escolheu a sobremesa? –
perguntou ele, enquanto folheava o
menu.
– Mas...e a comida?
– A comida é secundária. A regra é
só pedir os pratos que te permitam
comer a sobremesa escolhida.
– Não entendo como consegue
manter a forma comendo tanto assim.
Ele a olhou com um sorriso.
– Deus me adora.

– Certamente – corroborou, e
conteve um gemido quando a olhou
por mais um segundo, antes de voltar às
sobremesas e sorrir de orelha a orelha.
– Aqui está... rosquinhas. Creme de
limão com baunilha, maçã e sorvete.
Escolhida a sobremesa, passou à
seleção de carnes e Paige descansou o
rosto nas mãos para contemplá-lo. A
camisa cinza cingia-se aos seus ombros
largos.
As
lâmpadas
douradas
projetavam brilhos no seu cabelo escuro
e sombras sob as suas maçãs do rosto,
mas as sombras sob os olhos não se
deviam à iluminação... era evidente que
tivera um dia cansativo no trabalho;
apesar disso, ele estava ali.

Gabe ergueu a vista do menu,
surpreendeu-a a olhá-lo e arqueou as
sobrancelhas.
– Como vai o trabalho? – Ela
perguntou, desviando o olhar para o
vinho. – Como vão os planos secretos
que tinha para a empresa?
Ele comprimiu os dentes e voltou os
olhos para o menu com o cenho
franzido.
– Tudo ótimo.
– Já terminou o que veio fazer aqui?
Gabe fechou o menu e agarrou seu
copo, sem olhar para Paige.
– Ainda não.
Paige sentiu uma ligeira vertigem e
esfregou o braço nu.

– No que está trabalhando
exatamente?
– Não posso falar sobre isso.
– Por quê? Você é um espião ou coisa
parecida?
Os lábios de Gabe curvaram-se num
sorriso.
– Não, mas o meu trabalho pode ser
muito... delicado.
Paige o encarou à procura de um
brilho no olhar, de uma faísca, de algo
que lhe dissesse que estava de
brincadeira, mas só o que viu foi um
muro praticamente intransponível.
– Lida com investimentos, não é? –
Ele demorou tanto a assentir que ela
pensou que não ia responder. – Há

muito tempo não vou a um encontro,
mas, se a memória não me falha, as
pessoas costumam falar dos seus
trabalhos. Portanto, vou começar...
depois do catálogo brasileiro de verão,
iremos a Paris para o catálogo de
outono. É a sua vez.
Sabia que ela o estava pressionando,
mas sua confissão a respeito de Mae
fora algo extremamente pessoal. Nada
mais justo que ele retribuísse a
confiança; no entanto, não conseguia
agir de outra forma. Estava sendo
insensível e egoísta.
Paige estava prestes a se levantar e
sair antes de fazer alguma cena, como
desabar em um choro histérico.

– Meu trabalho é muito complicado,
Paige. Não é como decorar salas com
trapinhos e almofadas. Há muito
dinheiro em jogo. E também o futuro
de centenas de pessoas.
Decorar salas com trapinhos e
almofadas. Paige segurou os dedos para
não lhe atirar o vinho na cara.
– Tudo bem, mas isso não explica o
seu silêncio sobre o assunto.
– Partilhar informação privilegiada
pode ter consequências muito graves.
Tenho de ser extremamente precavido
com quem falo sobre os meus negócios.
Era uma explicação tão absurda que
Paige desatou em um riso nervoso, mas
logo se lembrou de algo.

– Mae! É por causa da piada que ela
fez naquela noite sobre os seus
investimentos?
– Ela não me parece ser uma pessoa
muito discreta – replicou ele.
O queixo de Paige caiu. Não podia
acreditar. Gabe estava agindo como um
imbecil e ela... sentia-se uma estúpida.
– Aprecie a sobremesa! – exclamou,
erguendo-se. Puxou uma nota de 20
dólares da carteira e a largou na mesa. –
Ligue
quando
tiver terminado.
Manterei quente o seu lado da cama –
acrescentou, e saiu do restaurante, cega
de raiva, dor e humilhação.
Gabe permaneceu sentado à mesa,
bebendo o que restava do vinho,

embora sentisse um gosto pesado de
chumbo. Jantariam juntos e, depois,
comeriam rosquinhas de sobremesa.
Não devia acabar assim... então, viu os
dois cartões do guarda-volumes em
cima da mesa, o que significava que
Paige tinha ido embora sem o casaco. O
seu ataque podia custar-lhe muito caro
se não se protegesse do frio naquela
noite gelada.
– Droga... – resmungou. Deixou 200
dólares, chamou o garçom, mostrou os
cartões e ofereceu-lhe uma polpuda
gorjeta se trouxesse os casacos naquele
instante.
Não podia negar que estava furioso
pela forma como Paige tinha ido

embora. Apenas lhe disse a verdade,
mas errou ao não acalmá-la quando
percebeu que estava zangada. Ela não
desconfiava, mas ele realmente queria
contar o que ela queria saber, queria
ouvir sua opinião. Depois de conversar
com Nate, ansiava por ver o projeto por
outra perspectiva, pelos olhos azuis
dela.
Não era a primeira vez que se via
naquela situação, desesperado por se
abrir com alguém. Tinha perdido a avó
antes de conhecer Lydia e entregara-se
a ela buscando encontrar consolo e
compreensão. Agora, via o mesmo filme
dramático se repetindo num velho
cinema decadente: prestes a perder a

sua empresa, jogar fora o trabalho da
sua vida, e apoiado outra vez numa
mulher. Numa loura atraente e sensual
que tornava tudo muito mais
complicado.
Saiu do restaurante levando os
casacos, atravessou rapidamente o
complexo do Crown Casino e respirou
aliviado ao vê-la no átrio de mármore,
indo para a rua. Era impossível que
passasse despercebida com aquele
vestido vermelho que deixava um
ombro nu e grande parte da perna
exposta em uma fenda lateral.
Alcançou-a no ponto de táxi e
rapidamente jogou o casaco sobre seus
ombros. Ela não se alterou, como se

soubesse que ia segui-la. Um carro
parou diante deles e Gabe abriu a porta.
Paige entrou e sentou-se no banco de
trás.
– Para onde? – perguntou o taxista.
– Dirija – ordenou Gabe. O motorista
não replicou. Ligou o taxímetro e foi
engolido pelo trânsito, assobiando
baixinho.
Paige apertou o cinto e olhou pela
janela. O brilho da lua se refletia nos
seus cabelos e os postes de luz
desenhavam formas e cores nas curvas
do seu vestido vermelho. A peça tinha
subido até o meio da coxa, fazendo
Gabe salivar com a visão de suas pernas,

mas ela as mantinha cruzadas e
afastadas dele.
– Paige, olhe para mim.
Ela balançou a cabeça e endireitou-se
ainda mais no banco. Gabe recordou a
sua expressão de dor quando saiu do
restaurante e teve de se conter para não
bater no banco do motorista. Fechou os
olhos e rezou, implorando ajuda divina.
Há muito tempo que não pedia ajuda a
ninguém. Estava habituado a fazer tudo
à sua maneira, mas aceitaria todos os
auxílios celestiais que pudesse receber
para convencer Paige a ouvi-lo.
Mas a única ajuda que recebeu foi de
sua consciência, aconselhando-o a
reconhecer seu erro.

– Comportei-me como um imbecil no
restaurante – engoliu em seco e virouse para ela. – Um completo imbecil,
egoísta e insensível.
O silêncio estendeu-se entre eles, até
que Paige se virou para ele.
– Sim.
Bom, pelo menos lhe dirigiu a
palavra. O que mais queria dela? Não
sabia, mas a ideia de perdê-la
justamente quando as coisas ficavam
tão difíceis na Bona Venture abria um
túnel em seu peito.
Ela expirou lentamente e falou com a
serenidade que Gabe tanto necessitava
naquele momento.

– Você não tem ideia dos segredos
que guardei minha vida toda.
Gabe estendeu o braço sobre as
costas da banco.
– Por exemplo...?
Ela olhou para o taxista, que cantava
“O sole mio” a plenos pulmões. Curvou
os seus lábios vermelhos num sorriso e
franziu o cenho.
– Os mais importantes já não são
segredo. Coisas dos meus pais. O meu
pai estava sempre com outras. A minha
mãe sabia, eu sabia e fingíamos que não
se passava nada para vivermos
tranquilamente, mas a situação era
angustiante, insuportável, e foi muito

melhor para todos quando a verdade
veio à tona.
Gabe observou-a atentamente. Os
seus pais tinham morrido quando ele
era muito pequeno para saber o que
significava uma relação de amor e
confiança. A sua avó tentara incutir-lhe
valores mínimos de moralidade,
certamente, com a esperança que ele
descobrisse o resto sozinho, mas não
tinha aprendido nada.
– Não importa – disse Paige. – Não
precisa me contar nada da sua vida se
isso o incomoda tanto – mas a
expressão da sua bonita boca dizia
justamente o contrário.

Deixá-lo entrar no táxi com ela fora a
sua maneira de lhe oferecer uma
segunda chance. E ele não ia
desperdiçá-la. Era difícil falar do
passado, mas se tivesse de escolher
entre falar ou se despedir...
– Quando disse que partilhar
informação
privilegiada
tinha
consequências graves, falava por
experiência própria. Numa ocasião, falei
demais, o que quase me custou tudo o
que tinha. Você vai entender porque
preciso ter cuidado com certas coisas.
– O que aconteceu?
Os seus grandes olhos azuis atraíamno como o canto de uma sereia,
vencendo toda a resistência.

– Uma mulher... loura – Paige
enrolou uma madeixa dourada num
dedo. – Não – apressou-se a
acrescentar, respondendo à sua
pergunta silenciosa –, não era como
você.
– Uma namorada? Esposa? Amante?
– Digamos que era uma amizade
colorida.
– Então, parece que era um pouco
como eu, sim – observou ela, com um
sorriso tímido.
– Não era, a menos que você se
apresente como membro de uma
empresa em que pretendia investir e, ao
mesmo tempo, esteja servindo de espiã
para a concorrência.

– Oh...
– O meu rival revelou o nosso caso à
Comissão de Segurança Australiana, o
que gerou uma investigação – olhou
pela janela. Tinha começado a chover.
As luzes da cidade refletiam-se no
asfalto e o som dos pneus sobre a
superfície molhada exercia um efeito
estranhamente relaxante. – No fim,
tudo foi esclarecido, mas um erro
desses dificilmente se consegue apagar
ou esquecer.
– Por que ela fez isso?
– Por dinheiro e para me fazer
parecer incompetente ou um criminoso.
Um ano depois, mandou uma carta em
que explicava tudo. O marido a tinha

deixado, levando seus filhos e todas as
suas economias. Ela preciava de
dinheiro para encontrá-lo.
– Estava desesperada – disse Paige.
Gabe percebeu que estavam sentados
mais perto um do outro. Reparou na
sombra que seu corpo projetava nas
suas coxas e sentiu uma ligeira angústia.
– Essas coisas não acontecem na sua
empresa de decoração?
Ela se mexeu lentamente e ele
agarrou a ponta do banco, contendo a
vontade de deslizar a mão pela sua
coxa.
– Uma vez, pensamos que as imagens
de um catálogo tinham sido roubadas,
mas descobrimos que a estagiária tinha

baixado uma versão pirata de Angry
Birds...cheia de vírus. Infectou nossos
arquivos, quase perdemos tudo.
– Não é a mesma coisa – murmurou
ele.
O taxista parou de cantar e apenas a
respiração rítmica de Paige desafiou o
silêncio que se seguiu.
– Estávamos no topo quando aquilo
aconteceu – disse Gabe – e, da noite
para o dia, nos vimos à beira da
falência. Nate teve de viver à base de
sanduíches e eu, das migalhas que
caíam. Até que resolvi me afastar,
investir pelo mundo, e, assim, dar uma
oportunidade à Bona Venture. É por
isso que viajo tanto.

– Há quanto tempo foi isso?
– Sete anos.
– Mais ou menos quando morreu a
sua avó Gabriella – disse ela. Não era
uma pergunta.
– Sim.
– Quantos anos você tinha? Vinte e
poucos? Era muito jovem para enfrentar
um problema assim – guardou silêncio,
pensativa. – Bona Venture Capital? Os
patrocinadores do campeonato de
tênis? E das corridas da Melbourne
Cup?
Gabe assentiu.
– Pois parece que vocês tiveram sorte
– disse ela. – Perderam o sapatinho de
cristal, mas o encontraram novamente –

sorriu-lhe, e os seus olhos brilharam
com aquele tom azul peculiar que só
adquiriam quando olhavam para ele.
Gabe sentiu uma pontada no peito e
fez outra confissão antes que mudasse
de ideia.
– Vamos cotar a empresa na Bolsa.
Foi por isso que eu voltei.
Achou que sentiria um gosto de fel
na boca, mas não foi assim. Ao
contrário, experimentou uma sensação
de liberdade, cujos ventos espalhavam
um tranquilizador cheiro de hortelã e
acalmavam seu coração torturado.
– Foi o que eu disse. Vocês tiveram
sucesso, afinal – disse ela, alegremente,
sem se dar conta do que estava

dizendo. – Bom, você me confiou um
segredo, e acho que devo guardá-lo,
não? Nem mesmo Mae pode saber uma
vírgula do que conversamos...certo?
– Paige, sobre isso, eu queria dizer...
– Oh, não se preocupe. Ela é a maior
linguaruda da Austrália, e falo por
conhecê-la bem. Obrigada pela sua
confiança!
Paige o beijou com carinho e
cotidiana naturalidade. Os seus lábios
eram quentes e doces, e o roçar da sua
língua fez com que todo o corpo lhe
ardesse.
Os olhares se cruzaram e ela sorriu.
Afrouxou o cinto e deslizou pelo banco
para se apoiar no seu ombro. Ele a

abraçou e deixou-se envolver pela doce
fragrância enquanto dava ao taxista o
endereço
de
Docklands,
quase
ordenando que pisasse no acelerador.
O trajeto decorreu em silêncio. Gabe
via como iam passando os edifícios
conhecidos. Sempre pensara que
Melbourne ficava mais bonita sob
chuva, quando a água dava brilho às
construções escuras. Naquela noite, a
cidade reluzia para ele como uma joia.
E, pela primeira vez em muito tempo,
sem o peso dos segredos sobre os seus
ombros, conseguiu pensar no futuro
com entusiasmo.
Gabe acompanhou Paige até à porta
do seu apartamento e esperou, com as

mãos nos bolsos, enquanto ela a abria.
Não queria estragar a paz que sentiam
depois da noite agitada.
Paige virou-se para ele, com a porta
entreaberta, e pôs uma das mãos em
seu peito.
– Mais uma pergunta...
– Diga.
– A mulher de quem falou... era
loura natural?
Gabe riu.
– Lydia? – Pela primeira vez,
conseguia pronunciar aquele nome sem
que lhe revolvesse o estômago. – Não,
não era.
– Este é o xis da questão – disse ela. –
Da próxima vez, deixe para se envolver

apenas com louras naturais.
– Vou pensar nisso.
Permaneceram em silêncio alguns
instantes, mirando-se um no olhar do
outro. Gabe esqueceu o tempo, perdido
naqueles olhos azuis e na sensação que
lhe deixara a mão no peito.
Finalmente, ela convidou.
– Quer entrar?
Depois de tudo o que passaram
naquela noite, Gabe pensou se não seria
melhor limitar-se a um beijo de
despedida e ir para a cama, para que
ambos pudessem assimilar as confissões
que tinham partilhado.
Mas, um segundo depois, atravessou
a porta e a engoliu furiosamente num

beijo molhado e quente, afundando a
mão nos seu cabelo louro e colando-se
a ela.
Finalmente, Paige o tinha convidado
para sua casa.

CAPÍTULO 10

NA MANHÃ seguinte, Gabe irrompeu no
escritório de Nate pontualmente às oito
horas.
– Não vendemos!
Nate interrompeu a série de
exercícios de alongamento que fazia
sobre o tapete, perto da janela.
– Desculpe – disse Gabe, desviando o
olhar. – Voltarei quando tiver
terminado o seu...hum...

Nate secou o suor da testa com a
mão.
– É ioga. Muito boa para combater o
estresse. Deveria experimentar.
Gabe sentou-se num sofá amarelo e
olhou ao redor.
– Não existe outra forma?
– Que tal me dizer o motivo desta
visita inesperada?
– Não ponha a empresa na Bolsa.
Não vamos vendê-la.
Nate apoiou-se na quina da mesa e
olhou fixamente para Gabe.
– Por quê?
– Virei a noite relendo os contratos –
mais ou menos. Parte da noite havia
passado na cama de Paige.

Só a deixou porque o dever o
chamava. Depois de lhe dar um beijo
de boa-noite, subiu a seu apartamento
e, movido a café, se manteve acordado
analisando a papelada.
– Queria entender muito bem nossa
situação. Gastamos nossa vida para
chegarmos até aqui, como podemos
simplesmente nos desfazer de tudo?
– Muito bem – aceitou Nate.
Contornou a mesa e tirou o fone do
gancho para pedir à sua secretária que o
avisasse da chegada de John. – Então...
você fica?
– Sim.
Nate sorriu de orelha a orelha e não
houve mais nada a discutir. Eram dois

amigos, dois sócios que decidiam juntos
o futuro de suas vidas. Na estante do
fundo, havia um bar escondido, de
onde Nate puxou uma garrafa e dois
copos. Uma camuflagem engenhosa,
como teria Rock Hudson em algum
filme seu com Doris Day. A avó de
Gabe teria adorado a ideia.
Gabe aceitou a cerveja importada,
apesar de serem oito da manhã, e os
dois homens brindaram. As bolhas
desceram por sua garganta, enchendo-o
de uma frescura estimulante.
– Teria sido mais dramático se tivesse
esperado pela reunião com a Comissão
de Segurança – comentou Nate. – Está
marcada para as nove. Leu algum dos

relatórios internos que te enviei nas
últimas semanas?
– Pensei que, se houvesse alguma
coisa importante, você me avisaria.
Nate esfregou a nuca.
– Pode me dizer novamente por que
eu queria que você voltasse?
– Porque sou o melhor no que faço.
Nate arqueou as sobrancelhas,
fingindo uma expressão incrédula, e os
dois continuaram a brincar e a insultarse mutuamente enquanto bebiam uma
cerveja atrás da outra. Quando o
advogado da Bona Venture lhes
telefonou meia hora mais tarde, Gabe
riu como não fazia há muito tempo ao
ouvir as reações do pobre sujeito. E se

perguntou porque adiara tanto aquela
volta para casa.
PAIGE ATRAVESSOU a porta de vidro da
Ménage à Moi e, com a mão, protegeu
os olhos do reflexo incômodo que vinha
do lustre colorido do teto. O grosso
carpete bege absorvia o ruído dos seus
saltos a caminho do seu escritório.
Estava uma lástima. Fazer amor com
Gabe durante grande parte da noite era
apenas metade do problema, pois não
conseguiu dormir depois que ele se foi.
O encontro agitado, o trajeto de táxi e a
paixão noturna fizeram-na sentir uma
necessidade urgente de guardar todas
as emoções, medos e esperanças num

cofre, trancá-lo e jogar a chave fora. Se
não controlasse os seus sentimentos,
eles acabariam por controlá-la.
Que droga, droga, droga!
Susie, a sua secretária, deu um salto
na mesa e Paige notou que falara em
voz alta. Quando, afinal, abandonaria
aquele vício?
– Bom dia, chefe. Deixaram uma
encomenda na sua mesa – disse e
levantou-se para abrir a porta do
escritório. – Veja.
Como poderia não ver a jarra com o
gigantesco ramo de flores que
repousava na sua mesa? Pegou o cartão
com dedos trêmulos e leu.
Eu te devo uma. Nate Mackenzie.

O sócio de Gabe? Por que lhe
agradecia?
Então se lembrou. Na única vez em
que tinham conversado, ele havia
pedido um favor: que usasse a sua
influência sobre Gabe para convencê-lo
a ficar na cidade.
Uma perigosa faísca de esperança
iluminou seu coração por um segundo.
– Obrigada, Susie.
A secretaria saiu do escritório e
fechou a porta. Era óbvio que queria
perguntar-lhe sobre as flores, mas sabia
que a chefe não ia contar nada.
Paige fechou as persianas brancas de
maneira que entrasse o mínimo de luz
possível, tirou o casaco e o cachecol, e

sentou-se diante do computador, mas a
cesta de flores no centro da mesa
impedia sua concentração.
Gabe ia ficar? Não tinha dito nada na
noite anterior. E tinha lhe contado
tantas coisas... não, não podia albergar
esperanças, como também não podia
desprezá-las. De qualquer maneira,
tinha chegado o momento de se
controlar e se proteger, como fizera
toda a sua vida.
O mais sensato seria pôr fim àquela
loucura sem demora. Talvez ela não
tivesse a força de vontade necessária,
mas uma hora tudo chegaria ao fim.
Mais cedo ou mais tarde. De forma

rápida
ou
lenta.
Terrivelmente
doloroso, como sempre.
QUANDO GABE chegou em casa naquela
tarde, sentia-se flutuar. Nate e ele
tinham passado quase todo o dia no
escritório, rindo, recordando os velhos
tempos e encomendando comida
chinesa, enquanto o resto dos
funcionários enlouquecia tentando
solucionar a confusão. Uma das coisas
boas de ser o chefe era que podia pagar
outras pessoas para que fizessem o
trabalho sujo.
E o melhor foi quando entrou em
casa e encontrou Paige sentada na
bancada da cozinha, brincando com o

flamingo. Tinha as pernas cruzadas e o
sol do crepúsculo projetava reflexos
dourados, rosados e alaranjados sobre o
seu corpo... nu.
– Boa tarde – cumprimentou ela,
com um sorriso. Levou um morango de
uma taça próxima aos lábios e o
lambeu. – Quer um?
Gabe ficou petrificado, incapaz de
reagir diante da maior fantasia erótica
que um homem podia ter, mas ela não
era uma fantasia. Era real... e estava à
espera dele.
Tinha de lhe dizer que não ia vender
a empresa e que não se mudaria mais.
Paige sempre deixou claro que só queria
uma aventura passageira. Ele também.

No entanto, como permaneceria na
cidade, o caso deles ganhava uma nova
dimensão. De um modo ou de outro.
Ela precisava saber de sua decisão,
mas, ao recebê-lo daquela forma, nua
na cozinha, só dificultava as coisas para
Gabe, fazendo-o ferver de desejo.
Sempre se deixara guiar pelo seu
instinto e voltaria a fazer o mesmo para
saber quando era o momento certo.
Deixou cair a pasta do laptop no chão
e dirigiu-se para ela. O último
pensamento coerente que atravessou a
sua cabeça foi que teria de falar com
Sam sobre a segurança do edifício.

PAIGE RECUPEROU
lentamente
a
consciência. Estava tão anestesiada
pelos efeitos do prazer que mal
conseguia abrir os olhos, mas, quando
sentiu o aroma de Gabe, recordou onde
estava. Na cama dele, coberta por um
edredom escuro e aninhada contra o
homem grande e forte que tinha ao seu
lado.
A cena de sedução que tinha
planejado ficou esquecida assim que
cruzou seu olhar com o de Gabe e teve
a certeza de que desejava que ele
ficasse. E, quando lhe afastou
suavemente o cabelo do rosto, esqueceu
tudo, salvo como a fazia se sentir.

Segura, adorada e tão ardente quanto o
sol.
Seu programado autocontrole tinha
falhado. Era como se a tivessem virado
do avesso, despedaçado e consertado,
só que da forma errada.
Não, errada não. Diferente.
Virou-se nos braços de Gabe e
afastou-lhe uma madeixa para o
admirar enquanto dormia. As suas
sobrancelhas compridas repousavam
tranquilamente
sobre
o
rosto
bronzeado. As narinas alargavam-se a
cada inspiração. Uma barba incipiente
ensombrecia-lhe o queixo.
Um suspiro fugiu de seus lábios,
fazendo-a recordar o inevitável. Tinha

passado muito tempo se convencendo
de que a intensidade daquela aventura
se devia à situação, a seu desespero por
estar com um homem e ao pouco
tempo que Gabe ia passar na cidade.
Mas não era assim. Pôs a mão sobre o
coração dele e fez um rápido inventário
das sensações que brotavam dentro
dela. A pontada no peito, o calor no
ventre, a impossibilidade de encher os
pulmões de ar... eram como gotas de
água vertidas num lago, formando
pequenas ondas desde o seu centro até
se chocarem suavemente contra a sua
pele.
Gabe se mexeu e a oscilação do seu
peito fez com que a mão de Paige

deslizasse sobre a sua pele como se
estivesse a cavalgar a crista de uma
onda.
Aquele homem, aquele calor, aquela
sensação... só havia uma palavra para
englobar e definir tudo. Uma palavra
que ela evitou, temeu e ridicularizou
durante toda sua vida.
Amor.
Eu te amo, Gabe, sussurrou em
silêncio antes de voltar a adormecer.
PAIGE ROÍA as unhas, ou o que restava
delas, enquanto via Mae provar umas
botas brancas nos saldos de Bridge
Road, mas estava concentrada apenas

nos pensamentos que formavam
redemoinhos na sua cabeça.
O
que
surgiu
como
uma
desconfiança na noite anterior tinha
ganhado asas e agora levantava voo.
Estava perdidamente apaixonada por
Gabe. Com ele, fazia, confessava e
sentia coisas que nunca tinha
imaginado. Nunca estivera com um
homem que a motivasse tanto a se
arriscar. Queria estar com ele e ter uma
relação normal. Queria que ficasse.
Quase tinha se convencido de que
não era ingênua. Gabe a desejava e
confiava nela, tinha certeza disso. Ele
teve razões de sobra para se afastar e,
no entanto, continuava ali, desejando-a

cada vez mais. E não seria aquela a
prova de que o que ela queria era
possível e não a fantasia a que sua mãe
se agarrara até o fim do casamento?
– Quando vai resolver a situação com
o seu pirata? – perguntou Mae.
– Não tenho certeza...
Mae deu uma dentada na barra de
chocolate que tirou da bolsa.
– Mas ele vai embora mesmo, não é?
– Sinceramente, não sei.
– Não perguntou a ele?
– Não.
Não perguntou porque esperava que
ele puxasse o assunto? Ou porque
duvidava das razões de Gabe para ainda
não ter dito nada? Porque temia que

uma simples pergunta mudasse tudo?
Ou não faria diferença alguma?
– Bom... – disse Mae. – Penso que
deveria perguntar a ele e dizer o que
você está sentindo, Paige. Você pode se
arrepender se ficar se escondendo.
Mae tinha razão. Não podia
continuar
escondendo
os
seus
sentimentos. Tinha de se declarar a
Gabe.
Não que fosse lamentar se não o
fizesse, mas ele era um bom homem
que sempre tinha tentado fazer o que
achava certo. Precisava saber a pessoa
maravilhosa que era. Falaria com ele,
porque, se omitisse aquele sentimento,
seria como mentir.

E porque, se alguma vez teve a
chance de viver a sua vida, e não a que
lhe impunham os erros alheios, era
agora.

CAPÍTULO 11

NA QUARTA-FEIRA à noite, Gabe e Nate
foram apreciar um bom uísque escocês
em um bar próximo.
Gabe estava exausto depois de ter
passado os últimos dois dias
trabalhando nos novos projetos com
Nate, mas feliz, como se tivesse 25 anos
de novo e o mundo estivesse aos seus
pés. Com a diferença de que naquela

época não tinha de viajar o tempo todo
para manter a sensação de êxito.
Fechou os olhos e deixou-se envolver
pelo ambiente da sua cidade natal.
Havia e sempre haveria fantasmas... os
seus pais, a sua avó, o seu erro, mas,
pensando bem, Melbourne era um bom
lugar para se viver. A gastronomia, os
bares, os eventos esportivos... até o
clima era sedutor, desde que se
habituasse ao frio.
E havia Paige...
Abriu os olhos, mas, apesar da
multidão e do ambiente carregado,
ainda podia sentir a carícia do seu dedo
na testa, o calor da sua pele, o seu

fôlego no ombro ao sussurrar as
palavras: Eu te amo, Gabe.
Fingia dormir quando colheu aquela
confissão. Já tinham se passado dois
dias e continuava com um nó no
estômago. Mas, à medida que o uísque
lhe aquecia o sangue e as gargalhadas e
as celebrações dos funcionários da Bona
Venture afastavam os anos de culpa e
de arrependimento, menos conseguia
ignorar a evidência.
Paige estava apaixonada por ele.
Por um instante fugaz, deixou que a
ideia entranhasse na sua mente. Não
dava para esconder que ela era a
principal causa que o fazia querer ficar
em Melbourne. Foi difícil no começo.

Paige era teimosa como uma mula e,
em certas ocasiões, um tanto
importuna, mas o tinha fascinado com
o seu espírito apaixonado e vivaz. Sim,
há algum tempo já sabia que Paige
Danforth era uma dádiva.
Mas nunca imaginou que fosse mais
do que uma aventura excitante. Menos
ainda para ela.
E, no entanto...
Podia ver a verdade nos seus olhos e
senti-la nas suas carícias e na forma
incondicional como se entregava a ele
quando faziam amor. Tinha passado
tanto
tempo
sem experimentar
sensações tão profundas que não
percebeu que uma mulher, aquela

mulher bonita e sedutora, o amava. E a
verdade o enchia de...
– Ah, e o negócio com a empresa de
software afundou – disse Nate,
interrompendo suas divagações.
– O quê?
Nate fez sinal ao garçom para que
servisse outra rodada.
– Não se lembra? Há dias, você foi a
Sidney para...
– Sim, sim – interrompeu-o Gabe,
ignorando o copo que o garçom
pousava na mesa. – O que aconteceu?
– Nada, simplesmente escolheram
outra opção. Não tem importância.
Não tem importância? Impossível!
Um calafrio percorreu-lhe a pele

enquanto se virava para o espelho do
bar. Ele nunca perdia um contrato.
Jamais. A palavra fracasso não figurava
no seu vocabulário. A única vez em que
suas aptidões tinham falhado foi
quando se permitiu distrair com a vida
real...
Paige. Passava metade do tempo
pensando em Paige e a outra metade
tentando não pensar. Como resultado,
tinha perdido um negócio importante.
Porque pensou que era uma brincadeira
de criança. E porque passava o dia com
uma ereção permanente.
Resmungou entredentes e esfregou
os olhos com as mãos.

Desde aquele primeiro encontro no
elevador, quando quase teve os dedos
esmagados, soube que ela era uma
fonte de problemas. Mesmo assim,
mergulhou de cabeça na relação,
incapaz de resistir aos seus encantos.
Da primeira vez que se deixara
enganar por uma loura bonita, ainda
havia uma desculpa, mas agora não.
Não aprendeu nada no tempo que
tinha passado fora. E a sua imprudência
podia custar muito caro.
Precisava dar um basta em tudo
aquilo. Já tinha cumprido sua missão
em Melbourne e era novamente hora
de partir.

A decisão o tranquilizou. Tudo ia se
encaixar novamente. O seu instinto era
a única coisa que podia marcar-lhe a
moralidade e o caminho correto.
A sua mão encontrou o copo e o gelo
tilintou suavemente contra o vidro. Ao
levá-lo à boca, viu o seu reflexo no
espelho entre as garrafas alinhadas atrás
do balcão. Reconheceu o queixo do seu
pai, o cabelo da sua mãe e os olhos da
sua avó.
Então, soube que estava se
enganando.
Moralidade? Caminho correto? Que
diabos...! A verdade era que tinha
procurado desesperadamente uma
desculpa para fugir assim que Paige lhe

sussurrara aquelas três palavras na
cama. Porque aquelas palavras tinham
chegado ao fundo do seu coração e
reaberto uma caixa que julgava estar
enterrada para sempre.
Ele não procurava nem queria amor
na sua vida. O amor só significava dor e
perda.
Mal pensava nos seus pais, mas a sua
fugaz lembrança deixava uma amarga
sensação de vazio. A memória da sua
avó, pelo contrário, era muito mais
profunda e dolorosa. Era a responsável
por ele hoje carregar os valores que
acreditava fundamentais para levar uma
vida digna e decente. E, quando ela
morreu, Gabe perdeu o rumo.

A culpa estava naquela maldita
cidade, pensou. Os fantasmas que ali
habitavam nunca o deixariam em paz.
Por isso havia demorado tanto tempo a
voltar. E daquela vez não repetiria o
erro.
Virou-se de costas para o espelho,
incapaz de continuar encarando seu
olhar.
Não importavam os motivos, a
decisão estava tomada.
E era o melhor que podia fazer.
ERA O melhor. Repetiu aquele mantra
mil vezes desde que saíra do bar e bateu
à porta de Paige. Mas quase esqueceu
tudo quando ela apareceu no batente,

descalça, com o cabelo preso em uma
trança juvenil, uma camiseta cor-derosa justa, jeans gastos de cintura baixa,
tão pequena, doce e vulnerável sem o
seu terninho habitual e os saltos altos,
emoldurada pela música suave que
ouvia naquele momento.
– Olá... entre – apressou-o, com voz
ofegante. Ficou na ponta dos pés para
abraçá-lo e apertar-se contra ele, e Gabe
deixou escapar um longo suspiro.
Sem perceber o que fazia, abraçou-a
pela cintura e apertou-a com força,
perdendo-se no seu calor, na sua
fragrância e no seu sabor, até que o
sangue lhe ferveu nas veias.

Lembrou-se do mantra e o repetiu
mais uma vez.
– Parece cansado – disse ela,
enquanto se afastava e lambia os dedos
entrando na cozinha. Um aroma
delicioso impregnava o apartamento.
Quando olhou para ele por cima do
ombro, com o dedo entre os dentes e
um brilho risonho nos olhos, sentiu-se
tão preenchida de amor por Gabe que
temeu explodir.
– Está acontecendo alguma coisa? –
Ela perguntou, virando-se para ele com
o cenho franzido.
– Vou embora – respondeu de
repente, como se arrancasse um

esparadrapo da pele. Rápido e doloroso,
mas melhor para ambos.
Paige manteve o dedo na boca por
alguns segundos. Lentamente, pegou
um pano e escondeu nele suas mãos.
– Para onde agora?
Não tinha resposta. Mais cedo, viu
em seu e-mail algumas possibilidades
interessantes em Paris, Bruxelas e Salt
Lake City, mas não tinha reservado
nenhum voo.
Paige reparou então na mochila que
Gabe deixara no alpendre... a mesma
de quando havia chegado ao edifício
semanas antes.
– Vai embora?

Ele assentiu e comprimiu os dentes
ao ver Paige lutando contra a certeza
inevitável que ambos tinham ignorado.
– Mas eu pensava que... quer dizer,
não vai...? – balançou a cabeça. – E
quando volta?
– Não sei. Depende do trabalho.
Paige arregalou os olhos, incrédula.
– Você não é o chefe? Pensei que a
sua posição favorecesse sua definição de
horários.
– Não é assim que trabalho. Nunca
foi.
Paige pôs as mãos na cintura, sem
largar o pano.
– Então, talvez possa me responder
uma coisa. Por quanto tempo esteve

fora da última vez em que fugiu?
– Bastante – respondeu; não negou
que estava fugindo, mas só percebeu
isso alguns segundos depois.
– Semanas? Meses? Anos?
– Por aí.
Ela assentiu, com seus traços
simétricos
gradativamente
se
desfigurando em uma mistura de dor,
raiva e resignação. Deixou o pano na
bancada.
– E quando voltar vai querer retomar
de onde paramos?
Gabe cerrou os dentes contra o brilho
de esperança que se acendeu nos seus
olhos azuis e que contradizia o tom
sarcástico da sua voz. Nunca tinha

imaginado que fosse tão difícil fazer o
que achava certo, mas podia e devia
fazê-lo. Paige merecia ser feliz com
alguém que pudesse ser feliz com ela.
Como não disse nada, o brilho de
esperança apagou-se nos olhos de
Paige.
– Oh... – disse ela. – Não sei como
pude imaginar ouvir um sim. Estive tão
perto de ser aquela mulher que se
contenta com as migalhas que o homem
deixa cair que... – conteve a última
palavra e Gabe sentiu um alívio tão
grande que desprezou a si mesmo.
Ela levantou a cabeça e olhou
fixamente para ele.
– Eu nunca serei essa mulher.

Todo o calor e a doçura se
evaporaram e uma máscara de gelo
cobriu-lhe o rosto. Era o mesmo
disfarce que vestia para os outros
homens e que tirara para ele. Aquele
distanciamento deveria reafirmar a sua
decisão, mas, no fundo, queria que
Paige reagisse e se lançasse em fúria
contra ele.
Mas, se assumia um tom frio e
indiferente, ele não ficaria atrás.
– Muito bem.
Uma faísca trespassou o muro de
gelo azul e Gabe firmou os pés no chão.
– Se para você tudo se reduz a uma
simples despedida, por que veio, então?
Para dizer na minha cara?

Gabe não pensou em nenhuma
resposta que tivesse sentido, e apelou
para o óbvio.
– Desde o começo você sabia que
tudo era apenas uma aventura.
– E agora você faz questão de me
lembrar disso? Foi você quem me
chamou para sair. E pensar que o seu
amigo me mandou flores por achar que
eu era a responsável por... – balançou a
cabeça e caiu de joelhos, esgotada e
humilhada.
Gabe avançou um passo. O seu
aroma o envolveu, sobrepondo-se ao da
comida.
– Paige, você é uma mulher
extraordinária...

– Cale-se. E não se aproxime.
A angústia que se refletia no seu
rosto o estava matando, mas a decisão
estava tomada. Não se tratava do que
queria fazer, mas sim do que devia
fazer.
Estendeu um braço e escondeu-lhe
uma madeixa atrás da orelha.
– Foi... – incrível, maravilhoso, algo
único na vida – fantástico.
Ela engoliu em seco e pestanejou
algumas vezes, como se não pudesse
acreditar. Como se acordasse de um
pesadelo.
Gabe devia ter se aproximado
porque, de repente, a apertou contra
ele, pressionando suas costas e

mantendo a cabeça dela contra seu
peito. Ele apoiou o queixo no seu
cabelo, fechou os olhos e disse a si
mesmo que talvez pudesse recomeçar a
sua vida do zero.
Afastou-se com um esforço sobrehumano.
– Adeus, Paige.
Ela se abraçou num gesto triste e
mordeu o lábio, contendo uma
indesejada despedida.
Gabe mal conseguia sentir os pés ao
sair do apartamento. Pendurou a
mochila no ombro e chamou o
elevador.
A
porta
se
abriu
imediatamente e ele entrou. Não pôde
olhar para trás, porque a cabine se

fechou e começou a descer antes que
ele tivesse tempo de apertar qualquer
botão.

CAPÍTULO 12

GABE RECOSTOU-SE na cadeira de ferro
forjado na varanda de um café e
passeou o olhar pela Praça São Marcos.
Hordas de turistas se maravilhavam
com a arquitetura veneziana. Jovens
nativos de cabelo preto abordavam as
mulheres estrangeiras entre o esvoaçar
e o arrulhar dos pombos.
Voltou os olhos para os e-mails que
tinha
recebido
dos
diferentes

departamentos da Bona Venture. Nate
não parecia surpreso com a sua partida,
mas o fez jurar que voltaria antes de um
mês e que usaria os vastos recursos da
empresa em vez de tentar fazer tudo
por sua conta.
Gabe estava convencido de que
fecharia o negócio, mas, para ser
honesto, não se importava.
Independente de qualquer decisão, a
vida seguiria o seu curso.
O que o tinha mantido acordado
noite após noite era a impossibilidade
de imaginar que tipo de vida seria.
Antes de sair da caixa de entrada,
verificou a lista de mensagens, caso lhe
tivesse escapado alguma. Todas lidas.

Também não havia nenhuma chamada
perdida. Pelo menos, não a que
esperava receber.
Quando chegou a Veneza, resolveu
flanar pelas ruelas para se adaptar ao
fuso horário e parou diante de uma loja
ao ver alguns flamingos expostos na
vitrine. Pensou em tirar uma foto com o
celular e enviá-la a Paige como oferta
de paz. Lamentava que o caso entre eles
não tivesse terminado de forma menos
traumática, mas, no fundo, queria saber
se ela pensava nele, nem que fosse só
por um instante, ou se o via como um
canalha. Porque ele não deixava de
pensar nela.

Desistiu
da
foto
e
seguiu
caminhando.
Não sentia que havia feito o certo
quando terminou com ela. O que sentia
era... solidão.
Fechou o laptop e o guardou na
pasta. Pôs os óculos de sol e voltou a
perder-se pelos becos de Veneza, mas
era impossível sumir na cidade, porque
todos os caminhos levavam à água.
Em Veneza, ao contrário de em
Melbourne, os fantasmas do passado
não
o
assombravam,
mas
a
tranquilidade que se respirava nos seus
canais tornava impossível ignorar as
vozes da sua cabeça. Convencera-se de
que deixara Paige para não sofrer a sua

perda no futuro, mas o resultado era o
mesmo. E, sob o céu radiante de Itália,
compreendeu finalmente que durante
toda a sua vida tinha evitado o amor e a
felicidade só porque não acreditava
merecê-los.
O único sentimento que conhecia era
a culpa. Qualquer outro lhe era
estranho, até ouvir a confissão de Paige.
Parou numa ponte onde um grupo
de turistas observava um gondoleiro
com o seu chapéu de palha, remando
tranquilamente pelo canal enquanto
cantava “O sole mio”.
Lembrou-se do trajeto de táxi na
noite do seu único encontro com Paige.
Naquele momento, tinha lutado por

ela, recusando-se a perdê-la. E,
contemplando o brilho da água,
começou a compreender o porquê.
Naquela noite, já estava apaixonado por
ela e, por mais que tentasse agarrar-se
aos seus ideais de sempre, o seu instinto
incitara-o a ir atrás dela.
Afastou-se da ponte e continuou o
passeio
Não demorou a aproximar-se
novamente da água, mas o fedor do
canal o espantou. Entrou em outro
beco, escuro, estreito, frio e úmido.
Caminhou e caminhou, até que
começou a suar e sentir o peso daquela
pasta. O sol apareceu entre os edifícios

que se inclinavam precariamente de
cada lado.
Parou e ergueu o rosto para os raios
de luz e de calor. Na cadência de seu
movimento respiratório, expirava os
restos de culpa e de tristeza e aspirava
entusiasmo e esperança. Ao lado de
Paige. Com o seu aroma, o seu sorriso,
os seus olhos, o seu entusiamso e a sua
obstinação. E com aquela única noite
em que lhe confessara o seu amor num
doce sussurro.
Algo o cegou, um raio de sol ou um
reflexo na água, e ao pestanejar sentiu
que o chão se mexia sob os seus pés.
Estendeu os braços para manter o
equilíbrio.

Inspirou
profundamente
e
compreendeu que aquele cambalear
não era pelo fato de a cidade estar
suspensa. Era uma vertigem, provocada
por Paige. Ela fazia com que seu
coração disparasse, o sangue fervesse e
a cabeça girasse loucamente.
E, embora fosse difícil reconhecer e
aceitar, aquela energia, aquela euforia,
aquele júbilo que o faziam se sentir vivo
eram a paixão e a segurança que
buscara por toda a sua vida.
PAIGE CONFERIU pela última vez os
detalhes da viagem ao Brasil.
Tinha tudo pronto. O hotel, a
permissão para usar a praia, os

fornecedores, o fotógrafo... verificou se
estava com o passaporte e deixou um
bilhete colado na porta, para informar a
Sam que estaria fora. Passou a volta na
chave e a guardou num envelope, que
deixaria no escaninho da sra. Addable,
para que ela pudesse regar suas plantas.
Chamou o elevador e tentou conter a
sua impaciência enquanto olhava para o
visor numérico, mas estava ansiosa para
entrar no avião. Endireitou-se quando a
porta se abriu e...
Seu coração quase parou.
No centro da cabine, de jeans preto,
botas e casaco de couro, tão alto e
imponente quanto no primeiro dia,
estava...

– Gabe?
– Bom dia, Paige.
A sua voz, profunda e varonil,
percorreu-lhe as costas e a petrificou,
enchendo-a de uma dor tão grande que
mal conseguia suportá-la.
Gabe a tinha abandonado sem olhar
para trás. Uma voz interior gritava que
se protegesse, mas era incapaz de ouvila diante daqueles olhos escuros e
penetrantes, daqueles ombros largos e
robustos
e
daquela
fragrância
embriagadora.
Estava farta de esperar sempre o pior.
E, se existisse a mínima hipótese de ter
uma relação séria, como a de Mae e
Clint, precisava estar preparada para

aceitá-la e abrir-se a ela. Mesmo que
isso significasse uma nova desilusão. O
risco valia a pena. Gabe valia a pena.
– Tinha a esperança de te encontrar
aqui, antes de ir trabalhar – disse ele,
com toda a naturalidade do mundo.
Trabalhar? Pelo visto, não havia
reparado na sua roupa de viagem: boné,
camiseta, casaco e calças azuis.
Não, não havia reparado porque não
desviava o olhar dos seus olhos, como
naquele primeiro dia, quando ela
carregava um vestido de noiva.
– O que está fazendo aqui? –
perguntou-lhe, tentando reprimir a
esperança. – Não devia estar em
Veneza?

Ele arqueou as sobrancelhas e ela
percebeu a gafe: sim, sabia do seu
paradeiro.
– Sim, estava, mas voltei. Tenho um
pessoal muito competente que pode
cuidar de tudo e me informar do
andamento das ações.
– Que sorte... – pousou a mala ao
sentir que tinha os dedos rígidos. – Não
vou para o trabalho. Ia para o Brasil.
Gabe desviou o olhar dos lagos azuis
dela e mediu-a de cima a baixo.
– Para o Brasil? Por causa do
catálogo? Então, você conseguiu!
Parabéns! Ah, vai adorar o país. A que
horas é o seu voo? – parou na entrada

do elevador e fez um X com os braços e
as pernas, impedindo sua passagem.
– Disse que ia.
Ele voltou a olhá-la nos olhos e o
brilho de esperança que ardeu neles
quase fez com que seu coração saltasse
do peito.
– Não vai mais?
– Não. Eu também tenho um pessoal
que pode ir no meu lugar.
Gabe respirou fundo e cruzou os
braços.
– Portanto, ambos delegamos as
nossas tarefas para termos tempo livre...
– E com o que vamos ocupar esse
tempo?

– Acho que tenho algumas ideias –
sugeriu Gabe, liberando o elevador. –
Venha.
Não precisou repetir a ordem. Paige
deixou a bagagem no chão e entrou na
cabine. Olhou para Gabe, cuja
envergadura tapava a luz e diminuía o
espaço. E cheirava a ar fresco, a algodão
limpo, a sabonete e a virilidade
inebriante. Teve de apertar os punhos
para não lhe acariciar a face e a testa.
Parecia cansado.
– Foi um voo muito longo?
– Uma semana muito longa –
respondeu ele. – A mais longa da
minha vida.

Paige umedeceu os lábios. Precisava
ouvir o que ele tinha a dizer. E ao olhar
para o seu rosto atraente, curtido e
desejado, encontrou a coragem para
perguntar.
– Por que você voltou?
Ele demorou alguns segundos para
responder; a Paige, pareceu uma
eternidade.
– Tenho uma coisa para você.
Inclinou-se para um lado e Paige viu
o embrulho de papel-jornal no chão do
elevador. Gabe o entregou a ela. Com o
coração apertado, rasgou as manchetes
e descobriu o presente. Gabe não
entendia nada de finezas, mas o detalhe
chegou à alma de Paige.

Um olho preto apareceu entre o
papel, seguido de uma cabeça rosada.
Um bico. Dois bicos. O jornal caiu aos
seus pés e Paige ficou com dois
flamingos nas mãos. Eram muito
antigos e estavam cheios de riscos, mas
os seus pescoços curvavam-se em forma
de coração com os bicos colados.
Gabe podia não entender de
decoração, de presentes sofisticados ou
mesmo de arte. Mas entendia dela.
Tanto que Paige sentiu um nó na
garganta e ficou sem fala.
– Sabe muito bem porque voltei,
Paige.
Pegou os flamingos, deixou-os no
chão e acariciou-lhe o pescoço, os

ombros e o decote, antes de lhe rodear
a cintura com as mãos. Paige teve de se
agarrar às lapelas do seu casaco para
não cair aos seus pés.
– Gosto de pensar que sim –
confessou – mas não me importaria se
me contasse.
Os seus olhos cintilaram com humor
e paixão.
– Voltei... – colou a testa à sua –
porque você me ama.
Paige conteve uma gargalhada
misturada com um soluço.
– O quê? – levou a mão à garganta,
mas Gabe a agarrou e beijou.
– Você me ama – repetiu, virandolhe a mão para beijar o pulso. – Foi o

que me disse. Quando estávamos na
cama.
– Eu não disse em voz alta!
– Pensa que não... e, desde então,
não deixei de sentir o seu fôlego na
minha face.
Paige levou a outra mão ao rosto.
Gabe sabia que o amava. E, não
obstante, tinha voltado e estava lhe
beijando a ponta dos dedos...
– Você sabia e mesmo assim...?
Gabe apoiou a sua mão sobre o
coração e agarrou-lhe o rosto para a
olhar nos olhos.
– Sabia e achava impossível acreditar.
Até que descobri que o impossível era
não acreditar.

Para que lhe fosse ainda mais difícil
compreender o que estava acontecendo,
começou a dar-lhe beijos na testa, nas
pálpebras e no canto dos lábios,
enquanto as suas mãos desciam até as
nádegas dela.
– Desde que te conheci, não parei de
tentar me convencer de que tudo estava
acontecendo depressa demais para ser
real... de que você era muito boa para
ser real. Precisava de mais tempo para
ter certeza.
A antiga Paige teria estado de acordo
com tudo aquilo, mas a nova e
melhorada Paige se sentia flutuar numa
nuvem. Colou-se a ele e inclinou a
cabeça, oferecendo-lhe o pescoço.

– E agora?
– Precisei de 20 mil quilômetros e
um regresso a um insípido estilo de vida
para pareceber, Paige Danforth, que
nada é rápido demais – levantou a
cabeça e olhou para ela com os olhos
carregados de desejo. – Estou
apaixonado por você, Paige. Quero dar
a você o meu amor e receber o seu.
Era tudo o que Paige queria ouvir.
Acariciou-lhe a face com a mão,
sentindo a aspereza da sua barba de
uma semana, e afundou os dedos no
seu cabelo preto, puxando-o para ela.
Beijou-o com pureza e intensidade,
abandonando-se aos sentimentos que
tanto se esforçara para evitar.

E que nunca mais evitaria.
– Amo você mais do que imagina –
sussurrou ao tomar fôlego.
– Ótimo, porque quero comprar um
smoking e acho que você é a pessoa
certa para me ajudar a escolhê-lo.
– Um smoking? Nunca te vi usando
um.
– Talvez me faltasse o estímulo
apropriado.
– E qual seria?
– Acho que o meu casaco de couro
não combina com o seu vestido. Aquele
branco, cheio de miçangas...
– São pérolas – corrigiu Paige, o
coração galopando velozmente por um

vasto prado verde. – Pérolas
verdadeiras de água doce.
– Como queira, mas preciso de um
smoking que combine com o vestido,
não é?
Paige mentalizou a cena, mas a
imagem de Gabe barbeado, com um
fraque cinza, faixa, chapéu e colete com
botões perolados era tão ridícula que
ela riu.
– A ideia de se casar comigo parecelhe divertida, menina Danforth?
Parou de rir assim que Gabe apoiou
um joelho no chão e lhe levantou a
camiseta para beijá-la na barriga.
– Quer casar comigo? – perguntou
ela. As pernas não a sustentaram mais e

ela sentou-se no joelho de Gabe.
– Acha que viajei tanto com dois
flamingos só por capricho? Você é
minha, Paige. E quero ver que caras vão
fazer seus fãs quando estiver a caminho
do altar.
Paige não tinha ideia do que Gabe
estava falando. Fãs?
– Eu te conheço, Gabe. E sei que não
veria mais ninguém além de mim.
– Tem razão. E então? O que me diz?
– Digo que sim, mas com uma
condição – acrescentou rapidamente. –
Não quero que use um smoking por
mim. Quero você tal qual você é.
– Tudo bem – tirou-lhe o boné e a
beijou como se a sua vida dependesse

disso.
O elevador se fechou, mas Paige não
se importava de esperar que voltasse a
abrir. Tinha esperado por Gabe toda a
sua vida e podia esperar mais alguns
minutos.
Aquele homem alto, forte e varonil
que pensara nela ao ver os flamingos. O
perigoso pirata que estava disposto a
comprar um smoking por ela. O
viajante que por fim tinha voltado para
casa.
O homem que só tinha olhos para
ela.

EPÍLOGO

SAM, O síndico, se reclinou na cadeira
balançando a cabeça para a imagem da
loura de pernas longas e atraentes e do
grandalhão do último andar que se
contemplavam como adolescentes
apaixonados na tela do monitor de
segurança. Os dois nem perceberam
que ele já tinha enviado o elevador para
cobertura e de volta para a portaria
duas vezes.

Ela, a loura, era osso duro de roer.
Simplesmente não podia deixar de lado
a pouca diversão que ele tinha com o
elevador. Mesmo assim, pensara com
relutância, admirava a audácia dela. Os
outros
moradores
tinham
se
acostumado a suas tolices, mas ela
nunca desistiu de tentar colocar tudo
nos eixos. E já que ele estava com
disposição para admitir coisas do tipo,
também achava o novo morador um
rapaz decente. Olhou para a caixa de
charutos que este lhe dera em
agradecimento por ajudá-lo a encontrar
sua cama.
Talvez começasse a pegar leve com
eles. Talvez.

No momento em que o rapaz ergueu
a mão e segurou o queixo da loura,
passando o polegar sobre a bochecha
dela, a boca de Sam se contorceu no
que parecia ser o início de um sorriso
afetuoso.
Quando as silhuetas em preto e
branco na tela se inclinaram uma para a
outra, nitidamente rumo ao beijo, ele
sussurrou:
– Outra vez –, e desligou o monitor
de segurança.
Claro que gostava de se distrair, um
homem tinha que ocupar suas horas do
dia de alguma maneira, mas o casal
poderia manter para si o momento
“felizes para sempre”.

Com um gemido, se esforçou para
ficar de pé e seguiu em direção ao
elevador de serviço. Estava mesmo na
hora de trocar a essência de flor de
laranjeira do difusor da portaria.

NOITES QUENTES
Nicola Marsh
A guru do estilo, Abby Weiss, destacase no mundo da moda com o seu
impressionante trabalho para Finesse, a
revista feminina líder na Austrália. As
ilhas Whitsunday foram o fabuloso
palco onde Weiss demonstrou o seu
talento. A artista, graças a esta
publicação emblemática, conseguiu o
cargo de directora de moda na Finesse.

Não percam de vista esta brilhante
promessa da indústria da moda.
Abby
conseguia
imaginar
as
manchetes dos jornais.
Não pensava em outra coisa desde o
telefonema de Mark Pyman, director da
Finesse, a anunciar que tinha
conseguido a lucrativa encomenda para
o número de Verão da revista; também
não o tinha esquecido durante a viagem
até à chegada ao exclusivo hotel na Ilha
Zafiro.
O que tinha visto daquele local até ao
momento despertava a sua imaginação,
e sabia que com alguma criatividade e
muito trabalho, aquele editorial sobre

moda seria a sua melhor performance
para atingir o ansiado cargo de diretora
da revista.
Aquela era sua a oportunidade para
triunfar.
Dirigiu-se ao bar junto à piscina do
hotel com um orgulho renovado,
ficando encantada com a abundância
de plantas tropicais e orquídeas
exóticas, e emocionou-se ainda mais
quando encontrou vários cenários para
as fotos.
A Ilha Zafiro era o local ideal para
exibir o trabalho dos estilistas mais
destacados da Austrália. Como seria de
esperar, Mark tinha contratado várias

modelos, o que lhe facilitaria muito o
trabalho.
Quando trabalhava com profissionais
e via os resultados, ficava sempre
orgulhosa por fazer parte da impiedosa
indústria da moda. Ainda não tinha
visto o fotógrafo, mas sabia que Mark só
contratava os melhores.
Ao
pensar
em
fotógrafos,
questionou-se sobre em que parte o
mundo Judd estaria se escondendo.
Não tinham se falado nos últimos três
meses, algo estranho devido à sua
íntima amizade. Tão íntima como podia
ser por telefone e internet...
Tampouco tinha recebido um dos
seus postais de uma só linha. Sorriu ao

pensar no que diria se soubesse que ela
andava fazeendo um mural com todos
eles, e que tinha enfeitado a parede do
escritório. Certamente diria algo
engenhoso com a intenção de diminuir
seu entusiasmo, ao mais puro estilo
Judd Calloway.
Algumas coisas nunca mudam,
pensou. Também não as aceitaria se
mudassem.
Felizmente, tinha ultrapassado o
pequeno erro da noite do baile de
formatura e tinham conseguido manter
uma grande amizade.
Nada como a negação para aguentar
os últimos 8 anos a tê-lo como melhor
amigo e confidente.

– É impressionante o que o oceano
pode trazer para terra hoje em dia.
Abby deu um salto e virou-se.
– Não pode ser!
Estendeu a mão e bateu no peito de
Judd. Sim, era mesmo ele. Bem real,
começando por todos aqueles músculos
duros como pedras.
– O que é que está fazendo aqui?
Viu-o esboçar o habitual sorriso,
exaltando os reflexos dourados em seus
olhos castanhos. Abby sorriu de volta,
instintivamente, apesar de não tê-lo
visto desde aquela fatídica noite depois
do baile de formatura.
– Isso é maneira de cumprimentar o
teu fotógrafo?

– Vai fazer este editorial? Mas é de
moda, não de vida selvagem.
Judd sentou-se num banco alto e
disse para que ela sentasse ao seu lado.
– Não estou assim tão certo disso. Vi
como alguns de seus amigos se
divertem e não são assim tão diferentes.
– Não são meus amigos, só trabalho
com eles.
– E sai para se divertir com eles –
respondeu Judd, prendendo uma
madeixa de cabelo de Abby atrás da
orelha. – Não tem muito bom gosto,
receio.
Consciente de que era uma batalha
perdida, Abby corou enquanto o calor

subia pelo pescoço até parar perto de
onde ele a havia tocado.
Tinha muito tempo que ele não a
tocava. Os seus tórridos sonhos nas
noites de Sidney, onde ele a tinha
acariciado como ela sempre desejara,
não contavam.
– Não tenho, porque continuo em
contacto contigo...
Ele riu e aquele som familiar
reconfortou-a como os doces que
tinham partilhado quando crianças.
E leia também em Noites de Sedução
edição 242 de Harlequin Jessica, Um

homem enigmático, de Catherine
George.

240 – CORAÇÕES DE
PEDRA
Não incomodar – Anna
Cleary
Mirandi Summers mal podia acreditar
que o bad boy Joe Sinclair se tornara
um CEO renomado. Mas, ao
trabalharem juntos, Mirandi logo
descobrirá que o lado malicioso de Joe
está apenas escondido por debaixo do
terno e da gravata.

Apenas negócios – Anne Oliver
Abby Seymour foi enganada! Sem
dinheiro e sem lugar para morar, ela
aceita a ajuda do empresário Zak
Forrester. Eles irão dividir um teto… e
uma cama.

242 – NOITES DE
SEDUÇÃO
Noites quentes – Nicola
Marsh
Para Abby Weiss, trabalhar com o seu
melhor amigo, Judd Calloway, no
ensaio fotográfico que mudaria sua vida
era maravilhoso. O que poderia ser
melhor?
Passar
uma
noite
incandescente ao lado dele!
Um homem enigmático – Catherine
George

Eleonor Markham está em uma missão
impossível: conseguir uma entrevista
com o Alexei Drakos. Ele odeia a mídia,
mas esta linda mulher desperta nele um
desejo há muito adormecido. Então,
Alexei a faz uma proposta: concederia
uma exclusiva, em troca de noites de
intenso prazer…
243 – LUZ DO AMOR
Início da vida – Kim
Lawrence
Roman Petrelli acreditava que não
poder ter herdeiros… até descobrir que
Isabel tivera um filho seu. E não
perderá a chance de fazer parte da vida

da criança! Mas, para isso, terá de
reconquistar a confiança, e o coração de
Isabel.
Segredos revelados – Susanna Carr
Isabella Williams passara meses
escondida,
mas
Antonio
Rossi
finalmente a encontrara. Ainda que
estivesse preparada para enfrentar a ira
deste homem poderoso, tremia ao
pensar como ele reagiria ao descobrir o
segredo que ela carrega…

CIP-BRASIL. CATALOGAÇÃO NA FONTE
SINDICATO NACIONAL DOS EDITORES DE
LIVROS, RJ

W537t
West, Annie
Tempo de paixão [recurso eletrônico]
/ Annie West, Ally Blake; tradução Cydne
Losekann, Fátima Tomás da Silva. - 1. ed. - Rio
de Janeiro: Harlequin, 2015.
recurso digital
Tradução de: The Savakis merger + The
secret wedding dress
Formato: ePub
Requisitos do sistema: Adobe Digital
Editions
Modo de acesso: World Wide Web
ISBN 978-85-398-1736-8 (recurso
eletrônico)

1. Romance australiano. 2. Livros
eletrônicos. I. Blake, Ally. II. Losekann,
Cydne. III. Silva, Fátima Tomás. IV.
Título.
14-18327

CDD: 828.99343
CDU: 821.111(94)-3

PUBLICADO MEDIANTE ACORDO COM
HARLEQUIN BOOKS S.A.
Todos os direitos reservados. Proibidos a
reprodução, o armazenamento ou a
transmissão, no todo ou em parte.
Todos os personagens desta obra são fictícios.
Qualquer semelhança com pessoas vivas ou
mortas é mera coincidência.
Título original: THE SAVAKIS MERGER
Copyright © 2009 by Annie West

Originalmente publicado em 2009 por Mills &
Boon Modern Romance
Título original: THE SECRET WEDDING
DRESS
Copyright © 2013 by Ally Blake
Originalmente publicado em 2013 por Mills &
Boon Modern Romance
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Isabelle Paiva
Produção do arquivo ePub: Ranna Studio
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Capa
Texto de capa
Querida leitora
Rosto
Sumário
AMANTE LEILOADA
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10

Capítulo 11
Capítulo 12
Capítulo 13
Capítulo 14
Capítulo 15
VESTIDO SECRETO
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Capítulo 5
Capítulo 6
Capítulo 7
Capítulo 8
Capítulo 9
Capítulo 10
Capítulo 11

Capítulo 12
Epílogo
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