INTRODUÇÃO

SALMOS
Autoria
A descoberta dos chamados Rolos do Mar Morto, nas cavernas do monte Qunram, é considerada
a maior descoberta arqueológica do século XX, e deu origem a uma série de pesquisas e relatórios
científicos que colaboram, até hoje, para melhor compreensão dos manuscritos bíblicos, além de
atestar a autenticidade de muitas cópias historicamente mais recentes.
A primeira coletânea pré-exílica de salmos foi organizada na época de Davi, quando a liturgia do
culto a Javé (Yahweh o nome santo e impronunciável de Deus, em hebraico ¨`¨` transliterado muitas
vezes em Jeová, Iavé ou Adonai – o Eterno – é em geral traduzido por Senhor) começava a tomar
forma.
Os primeiros salmos a serem agrupados, e que mais tarde dariam origem ao Saltério, foram deno-
minados “Orações de Davi, filho de Jessé” (72.20). Outros foram compostos durante o exílio. Contu-
do, foi durante o reinado do seu filho Salomão (um dos reis considerados “davídicos”) e o exercício
do serviço litúrgico e religioso no primeiro templo, que os salmos, definitivamente, passaram a fazer
parte da tradição judaica. Assim, o livro dos salmos é a compilação de várias coletâneas da fina obra
literária bíblico-canônica-judaica (poemas, hinos e cânticos espirituais) e representa a etapa final de
um processo que demandou séculos de vívida história. Foram os mestres e servos pós-exílicos do
templo, entretanto, que completaram e concluíram a coletânea final de 150 salmos (número com o
qual concordam a Septuaginta e o Texto Hebraico, ainda que cheguem a essa cifra de modo dife-
rente), ao final do séc. III a.C.
As expressões “Salmos” e “Saltério” provêm da Septuaginta (a primeira e mais notável tradução
grega do AT, elaborada por um grupo de eruditos de Alexandria, por volta do ano 285 a.C.) e, a princí-
pio, referiam-se aos instrumentos de cordas usados nas liturgias da época (harpa, lira, alaúde etc...).
Mais tarde, passaram a designar não apenas os instrumentos mas, igualmente, os cânticos que
acompanhavam os cultos. Os títulos hebraicos originais tehilim (louvores) e tephillot (orações) deram
origem ao termo que usamos hoje: Salmos. É costume, nas sinagogas em todo o mundo, recitar uma
oração anterior e em preparação reverente à leitura devocional dos salmos, cujo primeiro parágrafo
aqui transliteramos: lehi ratson milefanêcha Adonai Elohênu velohê avotênu, habocher bedavid avdo
uvezar’o acharav, vehabocher beshirot vetishbachot, shetefen berachamim el keriat mizmorê tehilim
sheecrá keilu amaram David hamélech alav hasshalom beatsmo, zechuto toguen alênu. “Ó Eterno,
nosso Deus e Deus de nossos pais, que com amor acolheste Teu servo David e seus descendentes,
e que Te deleitas com cânticos e louvores, possam ser de Teu agrado os Salmos que vou pronunciar.
Considera-os como se pelo próprio rei David – de abençoada memória – tivessem sido recitados.”
De acordo com os títulos (parte integrante do texto bíblico que, na Bíblia King James e, posterior-
mente, em outras traduções, aparece como subtítulo ou junto ao primeiro versículo), Davi foi autor ou
fonte de inspiração de 73 salmos. O próprio Senhor Jesus Cristo afirmou categoricamente a validade
do título do Salmo 110 e a autoria de Davi (Mc 12.36).
Devido à fraseologia hebraica empregada nos manuscritos, que significa, de modo geral, “perten-
cente a”, surge uma dificuldade na precisão das autorias, pois essa expressão pode ser igualmente
interpretada no sentido de “concernente a”, “para uso de”, ou ainda “dedicado a”. Portanto, o nome
pode referir-se ao título de uma coleção de salmos que havia sido reunida em torno de determinada
personagem (como “de Asafe” ou “dos coraítas”, por exemplo). Contudo, especialmente depois
dos estudos sobre os Rolos do Mar Morto, não há dúvida entre os mais renomados biblistas, de
que houve um Saltério composto por esse notável compositor, músico e cantor; coletânea que pode
ter incluído hinos e escritos a respeito de alguns dos reis “davídicos” posteriores, ou ainda salmos
escritos “à moda de Davi”. O nome “Davi” também é usado no Saltério, em sua forma original, como
substantivo coletivo, a fim de representar os reis de sua dinastia. Nos livros hebraicos de orações,
a memória de Davi é tradicionalmente reverenciada como “o doce cantor de Israel”, cujos Salmos
manifestam sua exaltação, esperanças, tristeza e alegria, temor e angústias, perseverança e amor a
Am Israel, o Povo de Israel, sempre invocando a ajuda do Eterno (Adonai) e, mesmo nos momentos
mais difíceis, manifestando sua confiança absoluta no socorro dEle!”
Sendo assim, Asafe foi autor de 12 salmos, os filhos de Corá compuseram 11, Salomão foi autor de
dois, e Moisés e Etã foram autores de um salmo cada. Cerca de 50 salmos não têm autor definido,
embora a Septuaginta apresente Ageu e Zacarias como autores de cinco salmos.
Os mais recentes relatórios baseados nos Papiros ou Rolos do Mar Morto e, portanto, em averigua-
ções e estudos apurados em relação aos mais antigos manuscritos do AT, atestam que a maioria dos
salmos foi escrita por volta do ano 1000 a.C. e que não há um único salmo canônico que tenha sua
composição datada depois do ano 300 a.C.
Propósitos
Qualquer tentativa de estudo, sistematização ou esboço do Livro dos Salmos deve ser geral e
considerar dois aspectos fundamentais da sua constituição: o Saltério é oração, devoção e poesia,
do começo ao fim. E a teologia que perpassa os Salmos deve ser analisada em sua essência con-
fessional e doxológica; jamais de forma abstrata ou, de outro extremo, como um mero catecismo de
doutrinas. Alguns pregadores, na tentativa de sistematizar a teologia inerente ao Saltério, transforma-
ram obras de arte canônica, teológica e de louvor a Deus, em pílulas pragmáticas de doutrina e, não
raro, propagaram muitas heresias. Portanto, cada salmo deve ser analisado e compreendido à luz
da coletânea e, evidentemente, do todo das Escrituras, pois que uma verdade bíblica isolada deve
corresponder e harmonizar-se à Verdade geral das Escrituras Sagradas.
Portanto, a essência teológica dos Salmos, o centro gravitacional da História e de toda a criação,
seja a filosofia, a ética, a moral e a fé, ou ainda os mistérios da terra e dos céus, resume-se em Deus
(Yahweh – Javé ou Iavé – o Senhor). É muito sintomático que o mais respeitado e imponente rei dos
judeus tenha-se curvado, humildemente, diante do Rei dos reis, o Senhor dos senhores, clamando
por sua misericórdia e reconhecendo a soberania, a justiça e o amor leal de Deus.
O Saltério é dividido em cinco livros, cada um dos quais encerrado com uma doxologia. Portanto,
no estudo dos salmos, mais significativo que algum diagrama geral é a classificação deles, de acor-
do com os assuntos tratados.
Cerca de metade dos salmos é de Davi ou de algum dos seus descendentes (davídicos) e, conforme
seus títulos, vêm quase todos do período áureo de Israel, isto é, de aproximadamente 1.000 a.C. E, sem
dúvida, alguns deles foram compostos mais tarde, até mesmo no tempo do cativeiro, como o salmo
137, por exemplo. A grande virtude dos cânticos espirituais, hinos e, portanto, dos salmos, é atingir –
simultaneamente – espírito, razão e coração, provando que conhecimento intelectual não é o bastante:
o âmago do espírito humano deve também ser tocado pelo poder da Graça remidora de Deus.
É importante frisar, especialmente para os leitores ocidentais, de língua portuguesa, que a poesia
milenar hebraica não consiste em rima, nem obedece a um sistema métrico semelhante ao nosso,
mas consiste principalmente em repetição de pensamento (idéias) numa cláusula paralela. Como
neste exemplo: “Não nos trata segundo os nossos pecados nem nos retribui de acordo com as
nossas culpas” (Sl 103.10). A simples observação a essa regra do paralelismo hebraico pode nos
ajudar a interpretar palavras obscuras e, algumas vezes, certos enigmas bíblicos, ao lermos com
atenção o paralelo mais claro. Ou seja, uma frase ajuda na compreensão da outra e do sentido geral
da mensagem, pela associação ou esclarecimento da idéia central que está sendo comunicada.
Outro recurso lingüístico observado com freqüência nos poemas hebraicos é a dramatização, assim
como as figuras de linguagem (símiles e metáforas, em profusão). Davi escrevia como quem sentia
o coração dos seus leitores e ouvintes. Quando interpretamos os salmos messiânicos, é importante
ficarmos alertas para o fato de que, nesse caso, Davi também escreveu na primeira pessoa, ainda
que exiba, com vívidos detalhes, as experiências do Mestre e Messias (Sl 22).
Cerca de metade dos salmos pode ser classificada como “orações de fé em tempos de crise”.
Quantas pessoas atravessaram guerras, longos períodos de graves enfermidades, calamidades, de-
pressões profundas, falências, desilusões, traições, amarguras terríveis, dor e medo, orando, com
fé e persistência lendo os salmos bíblicos. Alguns desses salmos passaram para a História como
ícones universais de devoção, piedade e confiança em Deus. É comum ver a Bíblia aberta em um
desses salmos, como um símbolo de reverência e convite à leitura (Sl 23; 91 e 121). Aproximada-
mente outros 40 salmos foram consagrados especialmente ao tema da adoração e louvor (Sl 100 e
103, por exemplo), os quais deveriam ter uma participação em nossas leituras e meditações diárias.
Considerando que uma classificação detalhada dos salmos é uma tarefa extremamente difícil e,
de certa forma, sempre imprecisa, o Comitê de Tradução da Bíblia King James deixa aqui apenas
uma sugestão didática de reunião dos salmos, para estudo: Salmos do Homem Sábio (Sl 1; 15; 101;
112 e 113); Salmos Reais (Sl 2; 21; 45; 72; 110 e 132); Orações Pessoais (Sl 3,7,8); Louvor Salvífico
(Sl 30,34); Louvores Comunitários (Sl 12; 44; 79); Louvor Pela Salvação da Comunidade (Sl 66; 75);
Expressão de Fé (Sl 11; 15; 52); Hinos à Majestade de Deus (Sl 8; 19; 29; 65); Hinos à Soberania de
Deus (Sl 47; 93 – 99); Cânticos de Sião (Sl 46; 48; 76; 84; 122; 126; 129 e 137); Cânticos de Pere-
grinação (Sl 120 – 134); Cânticos Litúrgicos (Sl 15; 24; 68); Cânticos Didáticos (Sl 1; 34; 37; 73; 112;
119; 128; 133); Salmos Penitenciais (tradicionalmente assim chamados, e que incluem partes dos
salmos 38; 130 e 143, além dos conhecidos Sl 51 e 32); Salmos Vindicativos (Sl 69; 101; 137 e certas
porções dos salmos 35; 55 e 58); Salmos Históricos (Sl 78; 81; 105 e 106); Salmos de Revelação
(19; 119); Salmos Messiânicos (Sl 2; 8; 16; 22; 40; 41; 45; 68; 69; 89; 102; 109; 110; 118); Salmos
Messiânicos Proféticos (2; 45; 110). É importante notar as revelações feitas, por meio dos salmos,
em relação ao Messias (Cristo, em grego). No Sl 45.6, o Cristo aparece como Deus; no salmo 110,
Ele é o Rei-Sacerdote e Senhor de Davi; no salmo 2, Ele é o Filho de Deus, digno de todo louvor e
adoração. Outros salmos anunciam: os sofrimentos do Messias (Sl 22), seu sacrifício vicário (Sl 40),
e sua ressurreição miraculosa (Sl 16.10, 11). O salmo 89 nos apresenta o Cristo como Aquele que
completará o pacto davídico (Aliança), em cumprimento às esperanças garantidas pelo Senhor a
Israel e a todo o povo de Deus.
Data da primeira publicação
Ao questionarmos a data da publicação dos salmos, uma primeira pergunta se faz necessária: de
qual salmo especificamente estamos falando? Porquanto o Saltério é composto de salmos que vão
desde a época pré-exílica, passando por todo o tempo de cativeiro, até o pós-exílio. Como já vimos,
o processo de descobrimento, seleção e formação da coletânea canônica dos salmos levou vários
séculos, e foi concluído somente no final do século III a.C. Os salmos eram reverenciados e usados
como “Livro de Orações” – o que significava, também, ensino, louvor e adoração – nos cultos re-
alizados no templo de Zorobabel e Herodes, portanto, na reconstrução do templo de Salomão, ou
no chamado “segundo templo”, bem como para uso litúrgico em todas as sinagogas (Lc 20.42; At
1.20). No primeiro século da era cristã, já era conhecido como o “Livro dos Salmos”, o que significa
também todo o cânon do Antigo Testamento Hebraico ou “Escritos” (Lc 4.24-44).
Como já vimos, muitas coletâneas antecederam a formação final dos Salmos, e as primeiras cole-
ções surgiram pelas mãos de Davi, na época dos primeiros cultos no templo construído por determi-
nação de seu filho com Bate-Seba, o terceiro rei de Israel, Salomão (971 – 931 a.C.).
Considerando que metade de todo o Saltério é de autoria de Davi (ou davídicos), e que quase to-
dos foram originados no período áureo de Israel e alguns até mais tarde, podemos datar as primeiras
publicações dos Salmos por volta do ano 1000 a.C.
Esboço Geral dos Salmos
LIVRO I
Como vencer os momentos de crise, angústia e depressão (Sl 1 – 41)
Louvando e adorando ao Senhor Deus Yahweh (8; 24; 29; 33)
Exaltando a majestade e o amor leal do Senhor (2; 21)
Reverenciando a justiça misericordiosa e severa de Deus (1; 15)
Confessando e abandonando o pecado (32)
Crendo, absolutamente, na revelação do Senhor (19)
LIVRO II
Como orar com fé, em meio às adversidades da vida (Sl 42 – 72)
Louvando e adorando ao Senhor – Adonai (47; 48; 50; 65 – 68)
Exaltando a majestade e o amor leal do Senhor (45; 72)
Confessando e abandonando o pecado (51)
Entregando nossos adversários à justiça divina (58 e 59)
LIVRO III
Como manter a fé em Deus diante das aflições nacionais (Sl 73 – 89)
Louvando e adorando a Deus Todo-Poderoso (75; 76)
Observando o mover de Deus na História (78; 81)
Analisando o amor leal de Deus por Sião e pelo Templo (84; 87)
Suplicando a repreensão de Deus contra os ímpios (82)
LIVRO IV
Como descobrir a força que Deus dá para vencer as crises (90 – 106)
Cultivando uma fé inabalável diante dos obstáculos (90; 91; 94)
Observando o mover de Deus na História (105; 106)
Reconhecendo a justiça amorosa e certeira do Senhor (101)
LIVRO V
Como manter plena confiança em Deus diante das provações (107 – 150)
Crendo e exaltando a majestade soberana do Senhor (110; 132)
Esperando pelo socorro do Altíssimo nas aflições nacionais (129; 137)
Agarrando-se com toda a fé ao amor e à justiça de Deus (112; 116)
Agarrando-se com todo amor e confiança à Palavra de Deus (119)
Analisando o amor leal de Deus por Jerusalém (112)
Encontrando consolo, paz e forças no Espírito de Deus (120 – 134)
Dando sempre graças a Deus – Halel (113 – 118; 136 e 146 – 150).
Julgamento,

nem os pecadores na con-
gregação dos justos.
4
6
Pois conhecer

o SENHOR é o caminho
dos justos; o caminho dos ímpios, po-
rém, conduz à destruição.
5
O triunfo do reino do Messias
2
Por que os gentios se amotinam
1

e os
povos intrigam em vão?
2
Os reis da terra preparam seus ardis e,
unidos, os governantes conspiram con-
tra o SENHOR e contra o seu Cristo,
2
pro-
clamando:
3
“Façamos em pedaços os seus laços, sacu-
damos para longe de nós seus vínculos!”
3
4
Do seu trono celeste, o SENHOR põe-se a
rir e a ridicularizá-los.
5
E no seu devido tempo os repreenderá
com ira, e em seu furor os confundirá de
pavor,
4
declarando:
SALMOS
1
Abençoado com felicidade: ou, como no original hebraico `¨2N “Quão verdadeiramente feliz”. A chave da felicidade é a
obediência à Palavra de Deus (A Tôrâ, Lei em hebraico, no AT). Os Salmos 1 e 2 são o prefácio do Saltério (conjunto de poemas
e hinos hebraicos de adoração a Deus). Como guardiães da Sabedoria apontam para os únicos dois caminhos possíveis ao ser
humano: a “roda dos zombadores” ou a “congregação dos justos” (v.5).
2
Ímpios: pessoas sem piedade, cruéis, desumanas, sem o devido respeito a Deus e à sua Palavra, incrédulas, auto-suficientes,
arrogantes, que não enxergam seus erros e não se arrependem. O termo hebraico C`NCl chataim significa a perversidade franca,
impiedosa e permanente.
3
Senhor: em hebraico YHWH (o nome sagrado e impronunciável de Deus, mais tarde transliterado para Yahweh ou Javé), é o
mais significativo nome de Deus no AT. Tem um sentido duplo: o Ser auto-existente, pois a palavra no original é relacionada ao
verbo “ser” (Êx 3.14), e o Redentor de Israel (Êx 6.6). Esse nome ocorre 6.823 vezes no AT, especialmente associado à santidade
de Deus (Lv 11.44-45), a seu ódio contra o pecado (Gn 6.3-7) e a sua misericordiosa provisão de redenção (Is 53.1-10).
A tradição judaica e cristã considera este Salmo como messiânico, da mesma forma que o Sl 110. Suas perspectivas são
messiânicas e escatológicas.
Na expressão original “conhecer o Senhor” ou, literalmente, “conhecendo o Senhor”, o particípio hebraico yôdêa está no estado
construto, que rege o objeto direto. Portanto, “Senhor” é objeto do verbo “conhecer” e não, sujeito. Na frase, está subentendido
o sujeito de totalidade.
4
Os pagãos e perversos não suportarão a ira de Deus no dia do Juízo Final (76.7; 130.3; Ed 9.15; Ml 3.2; Mt 25.31-46; Ap 6.17).
A expressão original “comunidade” refere-se à “assembléia” dos crentes em Deus (justos); os adoradores que se reúnem no
santuário para o culto e serviço espiritual dedicado ao Senhor (15.1,2; 22.25; 26.12; 35.18; 40.9,10; 111.1; 149.1).
5
O resultado final de uma vida dedicada à impiedade, sob a influência do maligno, é a punição eterna (Ap 20.11-15).
Capítulo 2
1
Amotinam: revoltam-se ou se enfurecem como na LXX (Septuaginta, tradução para o grego pré-cristão de todo o AT, realizada
por um grupo de 70 eruditos de Alexandria em 285 a.C.).
2
Cristo: ou Cristos, em grego, transliterado da forma aramaica Mashíah, que deu origem às palavras Messias e Cristo, ambas
significando o Ungido de Deus – Jesus.
3
A humanidade insana fugindo dos “laços” e “vínculos” do amor de Deus. Uma profecia do Calvário, onde os reis e governan-
tes estão representados por Herodes e Pilatos, e os povos, pela população de Israel, todos unidos contra Jesus Cristo, o Ungido
do Senhor (At 4.25-28 e 1Co 2.8).
4
O motivo do riso de Deus é a arrogância daqueles que se acham sábios e, não, o sofrimento humano. Deus tem prazer em
confundir (apavorar) os falsos sábios (1Co 1.20; Cl 2.15; Ap 11.18; 18.20).
PRIMEIRO LIVRO
Salmos de 1 a 41
Os dois únicos caminhos
1
Abençoado com felicidade
1

é o ho-
mem que não segue o conselho dos
ímpios,
2
não se deixa influenciar pela
conduta dos pecadores, nem se assenta na
reunião dos zombadores.
2
Ao contrário: sua plena satisfação está
na lei do SENHOR,
3

e na sua lei medita, dia
e noite!
3
Ele é como a árvore plantada à margem
de águas correntes: dá fruto no tempo
apropriado e suas folhas não murcham;
tudo quanto realiza prospera!
4
Não é o que ocorre com os ímpios! Ao
contrário: são como a palha que o vento
carrega.
5
Por isso os ímpios não sobreviverão ao
7 SALMOS 2, 3
6
“Fui Eu que consagrei o meu Rei sobre
Sião, meu monte sagrado!”
5

7
Proclamarei
6
o decreto do SENHOR. Ele
me disse: “Tu és meu Filho; Eu hoje te
gerei.
8
Pede, e Eu te darei as nações como he-
rança, os confins da terra como tua pro-
priedade.
9
Tu as regerás com cetro de ferro,
7

como
um vaso de oleiro as espatifarás”.
10
Por isso, ó reis, sede prudentes; aceitai
a correção, magistrados da terra!
11
Servi ao SENHOR com temor, e vivei
nele com alegria e tremor.
12
Rendei ao Filho
8
adoração sincera,
para que não se ire e vos sobrevenha re-
pentina destruição, pois a sua ira se acen-
de depressa. Verdadeiramente felizes são
todos os que nele depositam sua plena
confiança.
9
O socorro vem do Senhor
Um salmo de Davi quando teve de fugir de
Absalão, seu filho
3
SENHOR, como se avoluma o número
dos meus opressores, numerosos os
que se rebelam contra mim!
1
2
São muitos os que dizem a meu respei-
to: “Deus jamais o socorrerá!”
(Pausa)
2
3
Mas tu, SENHOR, és o escudo que me
protege, minha glória e o que me ergue
a cabeça.
4
Em alta voz eu clamo ao SENHOR, e do
seu monte sagrado ele me responde.
(Pausa)
5
Eu me deito e logo adormeço. Desperto
de novo, pois é o SENHOR que me sustém.
6
Não temo os milhares de inimigos que
me cercam por todos os lados.
7
Ergue-te a meu favor, SENHOR! Salva-me,
5
O primeiro “monte sagrado de Deus” foi o Sinai (Êx 3.1; 18.5), onde Moisés recebeu de Deus a Lei ( Êx 24.12-18; Dt 33.2; cf.
1 Rs 19.8). Quando Davi edificou o Templo sobre a colina de Sião (2 Sm 5.9), ela tornou-se o único monte (residência) de Deus,
para onde as pessoas “subiam” a fim de ouvi-lo e adorá-lo. Sião deu seu nome a toda a cidade de Jerusalém, cidade do Rei
messiânico, em que se reunirão todos os povos e nações (Sl 48.1; Is 2.1-3; 11.9; 24.23; 56.7; Jl 3.6; Zc 14.16-19, cf. Hb 12.22;
Ap 14.1; 21.2).
6
Depois dos rebeldes (v.3) e de Yahweh (v.6), o Messias (Cristo) toma a palavra. O decreto desenvolve a promessa de adoção
dada ao herdeiro de Davi em 2Sm 7.14. Estas palavras eram pronunciadas como oráculos pelo rei, no rito de coroação, para
marcar o momento em que o novo soberano formalmente assumia sua herança e títulos (Dt 17.18; 1Sm 10.25; 2Rs 11.12). A
conexão entre esta proclamação e a ressurreição, em At 13.33 (cf. Rm 1.4), é duplamente significativa. Na ocasião do batismo
de Cristo e na sua transfiguração, o Pai O proclamou Filho e Servo, usando palavras extraídas deste versículo e de Isaías 42.1
(Mt 3.17; 17.5; 2Pe 1.17).

7
O livro de Apocalipse cita estas palavras três vezes; uma vez, a respeito do cristão vitorioso (2.27) e duas vezes, a
respeito do seu Senhor (12.5; 19.15). A LXX usa o verbo “reger” (literalmente, em hebraico, pastorear) em vez de “que-
brar”, utilizado em algumas versões. Isso permite percebermos o largo alcance da promessa. Contemplando, inicialmente,
uma disciplina de ferro e, em seguida, a derrota final dos incorrigíveis (cf. Jr 19.10-11). O cetro (ou vara) de ferro tinha as
funções de um cajado para o pastoreio e uma arma contra os assaltantes (Lv 27.32; Ez 20.37). Veio, assim, a ser símbolo
de governo.
8
Filho: em aramaico, ¨2 Bar, e em hebraico pode ser entendido também como “puro” ou “pureza, sinceridade”. Os versículos
11 e 12 permitem traduções alternadas.
9
A tradução da Bíblia King James Atualizada contou com a cooperação de um grupo com cerca de 60 eruditos de vários
países e denominações cristãs, que tiveram acesso aos mais antigos e melhores manuscritos, especialmente após as últimas
publicações dos estudos sobre os Rolos do Mar Morto. Essa é a razão pela qual alguns textos bíblicos, especialmente em língua
portuguesa, diferenciam-se da maioria das versões tradicionais, mesmo das novas edições da King James em inglês.
Capítulo 3
1
Este salmo (dirigido ao chefe dos cantores para ser musicado) faz parte dos salmos históricos de Davi (3, 7, 18, 30, 34, 51, 52,
54, 56, 57, 59, 60, 63, 142). Davi teve de fugir da revolta de seu próprio filho, Absalão (2Sm 15.13), e estava rodeado de inimigos
e sofrimento (2 Sm 15.26; 18.33).

2
Os salmos (em hebraico, meez-mohr ou mizmôr) são poemas acompanhados de música e eram usados no louvor
e adoração a Deus. Por isso, os salmos apresentam alguns termos técnicos, como “Pausa” (77C Selal ou Selah, palavra
derivada da raiz hebraica slh e que corresponde ao verbo aramaico “curvar”), um sinal de reverência ainda maior e uma
notação musical para indicar interlúdio, mudança de acompanhamento musical ou uma indicação, para o regente do coro,
sobre a entoação de uma frase do respectivo versículo, em voz cantada para servir de antífona (recitação) responsória dos
fiéis. Outro termo comum é “Ao mestre de canto”, em salmos que faziam parte de uma coleção de poemas reservados para
ocasiões especiais.
8 SALMOS 3–5
Deus meu! Quebra o queixo de todos os
meus inimigos, e arrebenta os dentes dos
ímpios.
3
8
Do SENHOR vem a salvação! E sobre aque-
les que são teus, a tua bênção!
(Pausa)
A segurança do fel a Deus
Ao mest re de música, com inst rumentos de
corda. Um salmo de Davi.
4
Quando te invoco, responde-me, ó
Deus, minha justiça! Na angústia tu
me aliviaste:
1
tem misericórdia de mim e
ouve as minhas súplicas!
2
2
Ó filhos dos homens, até quando difa-
mareis minha honra? Até quando estareis
amando ilusões e procurando a falsidade?
(Pausa)
3
Sabei que o SENHOR faz maravilhas para
o seu fiel; o SENHOR me ouve quando eu
o invoco.
4
Estremecei de ira,
3
mas não pequeis;

re-
fleti em vosso leito e acalmai-vos.
(Pausa)
5
Oferecei sacrifícios
4
justos como Deus
requer e depositai toda a vossa confiança
no SENHOR.
6
Numerosos são os que dizem: “Quem nos
fará ver a felicidade?” Faze, ó SENHOR, res-
plandecer sobre nós a luz da tua face!
5
7
Colocaste em meu coração mais alegria
do que a daqueles que têm fartura nas
épocas de trigo e vinho.
8
Em paz me deito e logo adormeço, por-
que só tu, ó SENHOR, me fazes viver segu-
ro e sem medo.
6
Oração da manhã
Ao mest re de música: para flautas.
Um salmo de Davi.
5
Dá ouvidos, ó SENHOR, às minhas pa-
lavras, considera os meus pensamen-
tos íntimos.
1
2
Concede tua atenção ao meu clamor
2
3
Davi, arrependido e perdoado, buscou com fé o livramento de Yahweh, que o abençoou com sua graça, misericórdia e poder.
Deus tinha a reputação histórica de desferir poderosos golpes nos maxilares dos homens arrogantes e rebeldes.
Capítulo 4
1
Literalmente: “Tu, que no aperto me abriste espaço”.
2
Salmo de confiança e gratidão para com Deus, do qual unicamente vem a felicidade. Também conhecido como oração da
tarde com origem no passado (Gn 48.15-16).
3
Estremecei de ira, como, literalmente, em hebraico, ou “irai-vos”, como em algumas versões. Os sentimentos de insatisfa-
ção e cólera jamais devem dar ocasião a qualquer tipo de violência ou agressividade. O conselho aqui é, literalmente: “durma,
meditando no caso, antes de agir”. Paulo vai além e nos exorta a acabar com o sentimento de revolta e indignação antes do
pôr-do-sol (Ef 4.26).
4
O sangue de um animal inocente e sem mácula (defeito) era o ritual (símbolo) requerido para a expiação dos pecados de um
coração quebrantado e sinceramente arrependido. Deus não aceita sacrifícios, ofertas e rituais hipócritas como os oferecidos por
Absalão (2 Sm 15.1-14). Sacrifícios justos ou de justiça são aqueles oferecidos de acordo com a Lei (Ml 1.6-14) e, acima de tudo,
com verdadeiro amor ao Senhor (Mc 12.33). Em Cristo, toda a necessidade de sangue como holocausto cessou; e a fé genuína
no Filho de Deus e o amor cristão passaram a ser os sacrifícios exigidos pelo Senhor para a plena redenção (Sl 51.17; Pv 15.8;
Os 6.6; Rm 12.1; Ef 5.2; Hb 10.5; 1 Pe 2.5).
5
Face, ou fisionomia. Expressões freqüentes no Saltério (Salmos), que indicam a bondade de Deus e dos reis quando permi-
tiam que seus súditos os olhassem no rosto. É a face que demonstra os pensamentos e sentimentos e designa a personalidade.
Embora o homem não possa ver a face de Deus (Êx 33.20; 34.29-35), é possível ter um vislumbre da sua glória por meio da
comunhão com seu Espírito, o que faz dissipar todo temor e aflição.
6
Uma tradução do aramaico e siríaco: “Em felicidade me deito e logo pego no sono, pois vós, ó Senhor, me fazeis permanecer
em segurança, na solidão”. A palavra hebraica ¨¨27 – lebadad indica que só o Senhor nos pode proporcionar toda a segurança
de que precisamos para descansar confiantes e em paz. (Dt 12.10; 33.28). O temor gera preocupação que nos tira o sono, mas
o que confia no Senhor pode descansar em paz e sem receio (Pv 1.33).
Capítulo 5
1
Este é um salmo em que Davi pede a Deus que responda a sua oração da manhã. Seu lamento íntimo é contra a propaganda
fraudulenta dos inimigos que o rodeiam. Descreve o ódio divino ao pecado e pede que o Senhor o guie na justiça. A expressão
mais literal, “pensamentos íntimos”, pode também ser traduzida como “meditação”, como aparece na antiga KJ (1611). Outras
versões usam a palavra “gemido”.
2
Davi não gritou como se o fizesse aos ouvidos de quem não ouve; mas toda a sua tristeza e o ímpeto de sua angústia in-
terior jorravam num choro abafado e sofrido. O verbo hagah, do qual deriva o substantivo hagig (discurso), significa tanto falar
distintamente como sussurrar ou murmurar. Uma antiga versão hebraica traduziu “ao meu clamor por socorro” assim: “aos meus
lamentos como o de pombo” (Is 38.14).
9 SALMOS 5, 6
por socorro, meu Rei e meu Deus, pois é
a ti que eu suplico.
3
Pela manhã, ó SENHOR, ouves a minha
voz; logo cedo te apresento o meu sacri-
fício
3
e aguardo com esperança.
4
4
Porque tu, ó Deus, não tens prazer na in-
justiça, e contigo não pode habitar o mal.
5
Os arrogantes não são aceitos na tua
presença; odeias todos os que agem com
maldade.
6
Destróis os mentirosos; os que têm sede
de sangue e os fraudulentos são abomi-
náveis ao SENHOR .
7
Quanto a mim, graças à tua grande
misericórdia,
5
poderei ent rar em tua
casa; e me prost rarei em direção ao teu
sagrado templo, com reverência e ado-
ração.
8
Conduze-me, ó SENHOR, na tua justiça,
por causa dos que me espreitam.
6
Aplaina
à minha frente o teu caminho!
9
Na boca deles não há palavra sincera,
suas mentes t ramam continuamente o
mal. Suas gargantas são como um tú-
mulo aber to, e com suas línguas sedu-
zem e enganam.
7
10
Condena-os
8
ó Deus! Caiam eles em
suas próprias tramas. Expulsa-os por
causa dos seus muitos pecados, porque
se rebelaram contra ti.
11
Mas alegrem-se todos os que em ti
colocam a sua fé; cantem de felicida-
de para sempre! Estende sobre eles a
tua proteção. Rejubilem-se em ti os que
amam o teu Nome!
12
Em verdade, SENHOR, tu abençoas o
justo e, como escudo, o cercas
9
da tua be-
nevolência.
Súplicas durante a provação
Para o mest re de música.
Com instrumentos de cordas. Em oitava.
Um salmo de Davi.
6
SENHOR, não me castigues na tua ira
nem me corrijas no teu furor!
1

2
Tem piedade de mim, ó SENHOR, pois
estou perdendo as forças. Cura-me, SE-
NHOR! Pois estremecem meus ossos.
3
O hebraico não tem substantivo aqui, só o verbo anterior “preparar”, que pode ser usado para apresentar algo em uma festa
ou cerimônia (23.5). É um termo sacerdotal para preparar o fogo do altar e dispor os pedaços do holocausto (Lv 1.6-7). Uma
alusão ao sacrifício diário, à porta do tabernáculo de Deus, local marcado por Deus para falar com seu ungido (Êx 29.42). Davi
ora nesse sentido, expressando sua certeza de perdão (expiação) e fé na resposta do Senhor.
4
Deus marcou um encontro com Davi na tenda da congregação (templo; no NT, nosso corpo) e certamente viria. Não apenas
para ouvir, mas também para falar ao coração amargurado e temeroso de Davi. A expressão “aguardando com esperança” nos
remete aos profetas que ficavam esperando (vigiando) os primeiros sinais do cumprimento da Palavra do Senhor (Is 21.6,8;
Mq 7.7; Hc 2.1). A palavra hebraica ¨£V, tsapah (esperança), tem o sentido de depositar diante de Deus as aflições e esperar a
resposta libertadora do Senhor.
5
Davi reconhece que, se Deus fosse julgar simplesmente seu caráter e não sua causa, seria arruinado. A palavra hebraica
hesed, traduzida por “misericórdia” tem o sentido de “amor leal e interminável” (Os 2.19-20).
6
Os que me espreitam , segundo a derivação do original hebraico, traz a idéia de vigilância em relação aos adversários que não
perderão uma oportunidade para destruir os que estão no Caminho do Senhor (Lc 11.53-54). Davi não é apenas um adorador,
mas um peregrino fiel que, a cada passo, encontra resistência. Sua oração por um “caminho plano” não busca conforto, mas,
sim, o progresso legítimo e o livramento dos ardis de seus inimigos.
7
“Os que têm sede de sangue e os fraudulentos” usam todos os recursos da comunicação para efetivar suas maldades. Os
métodos são os da Serpente no Éden e de seus filhotes: o Sedutor e o Difamador. A expressão “túmulo aberto” indica o sofrimen-
to a que todos estamos expostos, pelo fato de vivermos em um mundo hostil à realidade espiritual (Rm 3).
8
O termo hebraico asam significa “cortar” ou “destruir”, sendo uma palavra única para expressar o oposto de “justificar” (34.21-
22) neste grande julgamento em que toda a humanidade está envolvida: desmascaramento dos ímpios, colapso dos maus e
expulsão (ou rejeição) dos que se insurgem contra Deus e seu Reino (2 Sm 15.31).
9
As expressões hebraicas katsinah “como um escudo” e ratson “favor ou benevolência” são combinadas para assegurar ao
fiel (justo ou justificado) o cerco protetor de Deus. A expressão “o cercas” ocorre uma única outra vez em 1Sm 23.26-29, para
descrever a força hostil que rodeava Davi até que o Senhor providenciou o livramento (pedra de escape), evidenciando que é
Deus quem, de fato, ampara seus filhos. O escudo da época tinha uma grande saliência que se erguia de seu centro, encimada
por uma adaga, o que o fazia uma eficiente arma de defesa e ataque.
Capítulo 6
1
Este é o primeiro dos “Salmos Penitenciais de Davi” (6, 32, 38, 51, 102, 130 e 143). É um salmo de alguém profundamente
perturbado. As orações e as lágrimas derramadas diante de Deus não foram em vão, pois, ao final do saltério, há louvor pela
resposta do Senhor. Este salmo traz palavras para aqueles que não encontram ânimo sequer para orar.
10 SALMOS 6, 7
3
E a minha alma está ext remamente
apavorada.
2
Até quando, SENHOR! Até
quando?
3

4
Volta-te, SENHOR, e liber ta minha
alma;
4
salva-me por teu amor miseri-
cordioso!
5
Porque entre os mortos
5
não há adora-
ção a ti; no túmulo, quem poderá te ren-
der louvores?
6
Estou esgotado de tanto gemer, todas as
noites eu choro na cama, banhando meu
leito com lágrimas.
7
Meus olhos derretem-se de tristeza pela
insolência
6
dos meus opressores.
8
Afastai-vos de mim, malfeitores todos;
porque o SENHOR escutou a voz do meu
pranto!
9
O SENHOR ouviu a minha súplica; o SE-
NHOR respondeu a minha oração!
10
Serão humilhados e aterrorizados
7
to-
dos os meus inimigos; cobertos de vergo-
nha se retirarão depressa!
Deus defende o justo
Canto de confissão de Davi. Entoado ao
SENHOR, acerca de Kush, o benjamita.
7
SENHOR, meu Deus, eu me abrigo em
ti! Salva-me de todos os meus perse-
guidores. Liberta-me!
1
2
Que não me agarrem, como leões e,
levando-me para longe, me estraçalhem,
sem haver quem me livre.
3
SENHOR, meu Deus, se procedi como me
culpam, se em minhas mãos há injustiça
e iniqüidade,
4
se paguei com o mal ao amigo que me fez o
bem, se de tudo despojei meus adversários,
2

5
que o inimigo me persiga até alcançar,
que me pisoteie vivo sobre a terra e ar-
raste a minha honra
3
no pó!
(Pausa)
6
Levanta-te, SENHOR, na tua indignação!
Ergue-te contra o excesso de fúria dos
meus opressores. Desperta-te, meu Deus!
Estabelece o teu juízo designado!
4
2
As palavras no original hebraico¨NC ¨7¨¨. nibhalah meod apontam para as emoções altamente perturbadas do ser em geral
(alma e corpo) e são muito semelhantes àquelas pronunciadas por Jesus Cristo em sua agonia (Mt 26.38).
3
Os salmos nos ensinam que todas as demoras de Deus são para amadurecimento do tempo apropriado (37) ou da pessoa (119.67).
4
Liberta minha alma é a forma mais literal de se traduzir a expressão hebraica no original. O termo hebraico nefesh (Gn 2.7)
designa a respiração vital dos seres viventes e que se retira por ocasião da morte. A expressão “minha alma” equivale freqüente-
mente ao pronome reflexivo “eu próprio, mim mesmo, minha face, minha vida, minha glória”. Esses diferentes sentidos de “alma”
permanecerão vivos no NT como “psiqué”, do grego, psiché (Mt 2.20; 10.28; 16.25-26; 2Co 4.16; 15.44).
5
Entre os mortos, lugar dos mortos, além, sepulcro ou túmulo, são algumas das traduções do termo hebraico Sheol, que indica o
estado dos seres sem vida e a tragédia da morte como aquilo que silencia a adoração do ser humano, na terra, a seu Criador (Is 38.18-
19). Os gritos do salmista proclamam que o tempo de vida é curto demais, tudo passa muito depressa, e a morte é inexorável e certa
(Jo 9.4; Hb 9.27). Davi sabe que o Senhor tem acesso ao Sheol, e que haverá ressurreição (139.8; Pv 15.11; Is 26.19; Dn 12.1-3), mas
pede a Deus que o poupe para que ele recorde (louve e adore), ainda nesta vida, os grandes feitos do Senhor (Is 63.7).
6
A KJ traduz: “envelhecem por causa dos meus inimigos”, mas a palavra hebraica ‘ategah significa “insolência”; e ‘atgah “en-
velheceu” é conjetura. Os opressores não são apenas os inimigos e adversários, mas também os remorsos e tormentos mentais
(31; 35; 38; 69 e os amigos de Jó).
7
A mesma expressão usada no original já comentada (nibhalah meod) para descrever a extrema perturbação no ser de Davi
(vv. 2,3) agora é aplicada aos inimigos do Senhor em sua derrocada e expulsão.
Capítulo 7
1
A justiça será a salvação, pois as duas coincidem quando Deus julga a causa do oprimido. Deus é o juiz de toda a terra e a
maldade derrota a si mesma. Este é o primeiro dos salmos imprecatórios, que pedem juízo ou maldição contra os inimigos de
Deus. O termo hebraico Shiggaion, traduzido neste salmo por “canto”, significa uma canção arrebatadora, que ajudava a expres-
sar a confissão dos pecados de Davi, seu arrependimento e sua fidelidade ao Senhor. Quanto ao nome Kush (Cuxe, Cuch ou
ainda Cush), o benjamita, que aparece no título, não é mencionado em nenhum outro texto bíblico. Sabemos que em Benjamim,
a tribo de Saul, havia alguns inimigos mortais de Davi (2Sm 16.5-14).
2
Pior que a perseguição é a calúnia (Jó 31). Davi revela algo do seu código de honra (conduta, caráter) com Deus e que fazia
parte da tradição judaica dos fiéis (Êx 23.4-5; Lv 19.17-18; 1Sm 24.10-11; Pv 25.21).
3
A palavra hebraica ¨`¨2 kebod significa literalmente “minha glória”, mas também se refere aos órgãos onde os antigos semi-
tas acreditavam localizar-se os sentimentos e emoções (fígado, ventre, rins, entranhas). Um termo que, como no caso, também
pode designar a alma, quando usado em paralelo com os elementos vitais do ser humano. Davi estava disposto a ter seu nome
(reputação) enxovalhado, mesmo após a morte (pó ou túmulo), caso seus inimigos provassem sua culpa diante de Deus.
4
Em paralelo aos apelos de Davi por vindicação pessoal, há uma revelação maior sobre a justiça universal de Deus. A justiça
e o juízo não são uma preocupação, mas sim uma convicção (At 17.31). A expressão hebraica ¨¨`V urah, “desperta-te”, tem o
sentido mais amplo de construir ou estabelecer o direito.
11 SALMOS 7, 8
7
Reúna-se ao teu redor a assembléia dos
povos. Das alturas reina sobre todas as
nações da terra.
5
8
O SENHOR é quem julga os povos. Julga-
me, SENHOR, conforme a minha justiça, se-
gundo a inocência que há em mim!
9
Deus justo, que sondas as mentes e
entranhas,
6
dá fim à maldade dos ímpios,
e ao justo dá segurança e paz.
10
Deus é o escudo que me cobre, o salva-
dor dos corações retos.
11
Deus é o justo juiz! Deus que demons-
tra, a cada dia, seu extremo zelo.
12
Caso o homem não se converta, Deus
afiará sua espada; pois já armou seu arco
e o aponta,
13
preparou para si armas de morte e
produziu suas flechas flamejantes.
14
Todo aquele que gera maldade conce-
be o sofrimento e dá à luz a desilusão.
7

15
Quem cava um buraco como armadi-
lha cai em fossa profunda, que ele mes-
mo fez.
8
16
Assim, sua maldade se voltará contra
ele e sobre a própria cabeça cairá sua vio-
lência.
17
Eu, porém, darei graças ao SENHOR por
sua justiça, salmodiarei e cantarei louvo-
res ao Nome do SENHOR, o Altíssimo!
9
A glória do Criador
Para o mest re de música.
Conforme a melodia Os lagares.
1

Hino de louvor de Davi
8
SENHOR, nosso soberano Deus,
2
como
é majestoso o teu Nome por toda a
terra! Tu cuja glória é cantada acima dos
céus!
3
2
Pela boca
4
das crianças e dos recém-
nascidos instruíste os sábios e poderosos,
silenciando os inimigos e maldosos, por-
que são adversários teus.
3
Quando admiro os teus céus, obra
dos teus dedos, a lua e as estrelas que ali
estabeleceste,
5
5
Calvino, em seu comentário, lembra que Davi sugere que Deus se manteve quieto e, por algum tempo guardou silêncio, para, no
momento certo, erguer-se tão alto que não só uma ou duas, mas todas as nações da terra pudessem contemplar sua glória.
6
Deus tem o poder de sondar e pôr à prova os pensamentos mais racionais e os sentimentos mais apaixonados e complexos
da nossa alma. Literalmente: “pões à prova o coração e os rins”.
7
Deus é o sujeito das ações narradas no v.13, ao passo que o v.14 descreve as atitudes do ímpio, cuja fertilidade para o mal é
comparada ao processo da gestação e parto. O raciocínio é o mesmo usado por Jesus Cristo a respeito da árvore má e do tesouro
mau (Lc 6.43-45). Metáfora semelhante é usada por Paulo ao explicar sobre o ciclo da tentação: cobiça–pecado–morte (Tg 1.15).
8
O mal sempre se voltará contra quem o pratica, mesmo que leve tempo. O efeito que uma atitude maldosa tem sobre a pessoa
que a acalenta e destina é mais desastroso para ela própria do que qualquer sofrimento que possa causar a outras pessoas (1Jo
2.11). Calvino e Lutero concordaram em que “aprofundar a cova” significava, no original, construir um tipo de armadilha para
caçar leões e outros animais selvagens, muito comum no oriente, e que consistia na escavação de um grande buraco que era
superficialmente coberto com ramos e pequenos galhos de árvore.
9
O verbo hebraico zamar (em grego: psallein) traz o sentido de salmodiar, tocando instrumentos musicais e cantando os feitos
de Deus. O título “Altíssimo” (em hebraico: Élyôn ) aparece raras vezes fora dos Salmos. Surge, pela primeira vez, na história de
Melquisedeque e Abrão (Gn 14.18). As religiões cananitas davam um título semelhante ao deus Baal, mas tanto Abrão como Davi
explícita e claramente, reivindicaram esse título, para o Senhor.
Capítulo 8
1
Este salmo é um dos mais belos exemplos de como um hino de louvor a Deus deve ser composto: celebra a glória e a graça
de Deus, enquanto descreve a natureza e os feitos do Senhor, bem como o mundo em relacionamento com Ele. Davi expressa
sua admiração diante da majestade do Senhor, que usa os fracos para destronar os poderosos. A palavra lagares (em hebraico,
l`l. gittith) é derivada de Gate e indica uma melodia associada a essa cidade.
2
A primeira palavra é o nome incomunicável de Deus; a palavra seguinte, em hebraico, `.`.¨N Adonenu, nosso Soberano ou
Senhor, é derivada da raiz .¨ dan, que significa governar, julgar, suportar.
3
O uso do verbo hebraico ¨.! tenah (colocar ou pôr) faz que possamos ler literalmente: “Puseste a tua glória acima dos céus”
(Is 6.3).
4
Contra os poderosos, pretensos sábios, vingadores, adversários e inimigos, Deus apresenta o simples louvor que brota “da
boca” (em hebraico `£C mephi) dos mais fracos deste mundo. Entretanto, conforme a Entrada Triunfal haveria de demonstrar (Mt
21.15-16), a livre confissão de amor e fé é uma resposta devastadora ao acusador.
5
Entre todas as criaturas da terra, somente o ser humano é capaz de olhar com admiração (refletir ao contemplar algo). Deus
ensina que, ao olhar os céus, não devemos pensar num Criador ordeiro, mas distante e, sim, no Deus que cuida de cada detalhe
e visita os seus como o mais amoroso dos pais (Is 40.26-31). O universo criado por Deus não é destituído de significado, frio e
vazio, mas um lar aconchegante para sua grande família (Is 45.18; 51.16).
12 SALMOS 8, 9
4
pergunto: Que é o homem
6
para que
com ele te importes? E o filho de Adão
para que venhas visitá-lo?
5
Tu o fizeste um pouco menor do que os
anjos
7

e o coroaste de glória e de honra.
6
Tu o fizeste dominar sobre as obras das
tuas mãos; tudo sujeitaste debaixo dos
seus pés:
7
todos os rebanhos e manadas e os ani-
mais selvagens também,
8
as aves do céu, os peixes do oceano e tudo
o que percorre as correntes marítimas.
9
SENHOR, nosso soberano Deus, como é
majestoso o teu nome por toda a terra!
Graças a Deus: Justo Juiz!
Do mest re de música. Para oboé e harpa.
Um salmo de Davi.
1
N Alef
9
SENHOR, quero render-te graças de
todo o meu coração, e proclamar to-
das as tuas maravilhas.
2
Em ti quero alegrar-me e exultar; tocar
e cantar louvores ao teu nome, ó Altís-
simo.
3
Meus inimigos, retrocedendo, tropeça-
ram em tua presença e pereceram.
2 Bet
4
Pois defendeste o meu direito e a minha
demanda: sentaste em teu trono como
justo juiz.
2
. Guimel
5
Corrigiste as nações, destruíste os ím-
pios; por toda a eternidade apagaste o
nome deles.
3
6
O adversário foi totalmente derrotado
para sempre; arrasaste as suas cidades e
já não há quem delas se lembre.
7
O SENHOR reina para sempre; para o jul-
gamento firmou o seu trono.
¨ He
8
Ele julga o mundo com justiça, governa
os povos com retidão.
` Vav
9
O SENHOR é abrigo seguro para os opri-
midos, uma fortaleza nos tempos de an-
gústia.
10
Em ti confiam todos os que conhecem
o teu nome, porque tu, SENHOR, jamais
abandonas aqueles que Te buscam.
* Zayin
11
Tocai, cantai e louvai ao SENHOR, que
reina em Sião; proclamem entre as na-
ções as suas façanhas:
12
Ele busca os assassinos
4
, lembra-se do
sangue derramado e os vinga, não se es-
6
Segundo a tradição judaica, a palavra 2`.N enosh (homem) expressa a fragilidade humana em razão de seu doloroso estado
resultante do pecado. A segunda expressão, traduzida como “homem”, é C¨N ]2 ben Adam, literalmente, “o filho de Adão”. Como
o designativo Adão significa “homem”, formado de Adamah (pó e terra), “o filho do homem” é uma referência à descendência
humana, terrena, caída e apóstata. Uma forma de conscientizar o homem sobre sua origem e fim (Gn 2.7; 3.19). Entretanto, a
forma ben Adam é superior à simples enosh e, usada pelos monarcas, indica o homem em sua melhor condição humana (quando
demonstra características divinas como bondade, lealdade, amor e justiça). Nesse caso, a frase “o filho de Adão” poderia ser,
literalmente, “o melhor dos homens” ou “o maior príncipe do mundo”, segundo defende Calvino.
7
Em hebraico C`¨7N Elohim (Deus ou divindade), nome algumas vezes aplicado aos seres celestiais. Os melhores e mais
antigos textos judaicos, bem como a Septuaginta e as sucessivas revisões da KJ, traduzem Elohim, nesta frase, como “anjos”.
Capítulo 9
1
Davi louva ao Senhor, o justo Juiz, por destruir os ímpios. O termo “exultar”, em hebraico, ¨37VN E-eltsah, significa literalmen-
te “saltar de alegria”. Em algumas versões aparece Muth-Labben (nome de uma melodia de significado desconhecido). A partir
deste salmo, serão observadas algumas diferenças entre as versões da Bíblia quanto à numeração dos salmos, sendo que a
Septuaginta e a Vulgata (seguidas mais de perto pela Igreja Católica Romana) contam os Salmos 9 e 10 como um poema único,
enquanto as igrejas evangélicas herdaram a forma de contagem hebraica. Entretanto, neste caso, a ausência de título para o Sl 10
e a presença de um acróstico fragmentário que se inicia no Sl 9 e termina no Sl 10 justificam o entendimento de ser uma peça po-
ética que se complementa, pois falam da dupla realidade de um mundo caído: o triunfo certo e futuro de Deus e o sucesso atual e
passageiro dos ímpios. O Sl 9 tem a maioria das primeiras 11 letras do alfabeto hebraico (com 22 letras ao todo), como iniciais de
versículos alternados; o Sl 10, no entanto, depois de começar com a 12
ª
letra, abandona o esquema alfabético até os versículos
12-18, onde aparecem as quatro últimas letras. Isso ocorre devido ao mau estado do Textus Receptus e de outros originais.
2
O AT considera o julgamento divino como já realizado, sendo que o “Dia do Senhor” o trará à luz. Esse tema escatológico é
freqüente nos salmos.
3
Embora a maioria das versões traduza alguns verbos hebraicos no tempo passado como presente, na realidade esses verbos
são “perfeitos proféticos”, formando uma característica vital para o correto entendimento do AT, pois descrevem acontecimentos
futuros como se já tivessem acontecido, tão certo é o cumprimento deles e tão clara a visão.
4
Literalmente, no original: “Ele busca o sangue derramado e exige contas”.
13 SALMOS 9, 10
quece jamais do clamor do necessitado.
l Het
13
Miser icórdia, SENHOR! Vê minha afli-
ção! O sofr imento causado pelos que
me odeiam. Salva-me das por t as da
mor te,
14
para que, junto às portas da cidade
5
de
Sião, possa eu cantar louvores a ti e ali
exulte em teu livramento.
15
Os povos caíram na cova que com as-
túcia abriram; no laço que ocultaram,
seus pés se prenderam.
C Tet
16
O SENHOR é conhecido pela justiça que
exerce; os ímpios caem em suas próprias
tramas.
Interlúdio
6
(Pausa)
` Yud
17
Voltem os ímpios para o inferno,
7
to-
dos os povos que se esquecem de Deus!
2 Kaf
18
Mas os necessitados jamais serão esque-
cidos, nem será frustrada a esperança dos
pobres e humildes.
19
Ergue-te, SENHOR! Não permitas que
um simples mortal vença! Julgados se-
jam todos os povos na tua presença.
20
Coloca em seus corações o terror,
8
ó
SENHOR! Para que saibam as nações da
terra, que não são mais do que seres hu-
manos.
(Pausa)
Deus ouve a oração do afito e vence o mal
10
Por que, SENHOR, permaneces
afastado e te ocultas no tempo da
aflição?
7 Lamed
2
Com arrogância os ímpios perseguem
o indefeso; que fiquem emaranhados em
suas próprias tramas!
3
O infiel se gaba de sua própria ambição,
o avarento menospreza
1
e insulta a Deus.
4
O ímpio é soberbo, não quer saber des-
se assunto. “Deus não existe!” é tudo o
que de fato pensa.
5
Seus negócios têm contínuo sucesso;
2

muito além da sua compreensão está a
tua Lei, por isso ele faz pouco caso dos
seus adversários,
6
pensando consigo mesmo: “Eu sou ina-
balável! Desgraça alguma me atingirá,
nem a mim nem aos meus descendentes”.
£ Pê
7
Sua boca está sempre cheia de fraudes,
maldições e ameaças; violência e todo
tipo de maldade estão em sua língua.
8
Põe-se de emboscada próximo aos vi-
5
Cidade ou filha, em hebraico. Davi descobre que o melhor antídoto contra o sofrimento está no louvor ao Senhor. Assim, as
portas da morte não poderão impedi-lo de atravessar as portas de Sião.
6
Interlúdio ou Higaiom, no original hebraico. Momento solene, apropriado para a meditação, recitação de textos bíblicos em
voz baixa, com ou sem acompanhamento de instrumentos suaves (arpejo).
7
Os perversos (ímpios e infiéis) voltarão para o inferno. Eles não apenas “partirão” ou “serão lançados”, como traduzido
em algumas versões, mas retornarão ao seu estado natural de morte e de atos de morte (maldade). A palavra hebraica ¨7`N2
Sheol ou Sheolah, traduzida aqui como “inferno”, também pode ser entendida como “sepultura”, “volta ao pó” e “profundezas
da morte”.
8
É notório como Deus tem permitido o terror entre as nações como mais uma chance para que o homem observe o produto
de seu egoísmo e ambição. É necessário que o homem se humilhe e reconheça sua pequenez e a necessidade da direção
divina. Mas a humanidade, em sua arrogância, tem se rebelado ainda mais contra Deus e, por isso, passará por mais aflições e
sofrimentos, entristecendo sobremaneira o coração do Criador.
Capítulo 10
1
No original hebraico, esta palavra tem o sentido mais apropriado de “ignorar “ e “desprezar”. Não crer na participação pessoal
de Deus em nossas vidas, relacionamentos e negócios é uma forma de blasfêmia, termo empregado semelhantemente em 1Rs
21.10; Jó 1.5. Em algumas versões essa expressão foi traduzida por “maldiz ou amaldiçoa” interpretando o eufemismo usado
para o termo literal: “abençoar” em seu sentido amplo: “despedir-se de”.

2
Deus, nesse intervalo de tempo, coloca-se distante, permitindo que o tirano ganancioso prospere muito bem às custas dos
pobres. A palavra hebraica `7`l` significa “sucesso”. É uma missão dos Salmos tocar no âmago desse problema, conservando
viva a sua dor, em contraste com nossa passividade, familiaridade e, às vezes, triste cumplicidade com um mundo corrupto. É
importante lembrar que Deus é favorável ao progresso, sucesso e a todo o bem-estar humano. Mas esses desejos só serão
legítimos e honestos quando realizados na companhia de Deus, evitando assim a exploração do homem pelo homem. Mas o
soberbo e avarento estão presos às coisas da terra (pó e terra têm muita afinidade) e ocupados demais no chão para dar atenção
à grandiosidade do que paira sobre eles.
14 SALMOS 10, 11
larejos
3
e às escondidas massacra o ino-
cente.
V Ayin
9
Fica à espreita como leão escondido;
coloca-se de tocaia para apanhar o ne-
cessitado; agarra o pobre e o arrasta em
sua rede.
10
Ele espreita, se agacha, se encurva, e o
infeliz cai em seu poder.
4
11
Imagina consigo mesmo: “Deus se es-
queceu; escondeu seu rosto e nunca dará
atenção a isto”.
¨ Qof
12
Levanta-te, SENHOR! Ergue a tua mão,
ó Deus! Não te esqueças dos desampara-
dos.
¨ Resh
13
Por que o ímpio despreza a Deus, di-
zendo em seu íntimo: “Tu não me pedi-
rás contas”?
14
Mas tu vês o sofrimento e a dor; e to-
mas esses sentimentos em tuas mãos. O
sofredor se entrega a ti, pois tu és o pro-
tetor do órfão.
2 Shin
15
Quebras o braço do ímpio e do mal-
doso, pedes contas de sua crueldade, até
que dela nada mais seja visto.
16
O SENHOR reina todos os dias e eter-
namente; da sua terra desapareceram os
outros povos.
! Tav
17
Tu, SENHOR, ouves a oração dos neces-
sitados; tu lhes fortalecerás o coração e
atenderás ao seu clamor.
18
Defende o que não tem pai e o oprimi-
do, a fim de que o homem, que é pó, já
não provoque o terror.
5

Refúgio em Deus
Para o mest re de música. Um salmo de Davi.
11
No SENHOR eu me refugio. Como
podeis dizer-me: “Foge como um
pássaro para os montes?
2
Vê! Os ímpios preparam os seus arcos,
ajustam com precisão as flechas nas cor-
das, para atirar ocultamente contra os
retos de coração.
3
Se os fundamentos estão destruídos,
que pode o justo fazer?”
4
Mas o SENHOR está no seu templo sa-
grado, o SENHOR tem seu trono nos céus.
Seus olhos observam tudo; vê atenta-
mente os filhos de Adão.
5
O SENHOR prova o justo, mas o ímpio e
aqueles que amam a injustiça são odia-
dos por Ele.
6
Sobre os ímpios Deus fará chover bra-
sas ardentes e enxofre incandescente;
vento causticante é o que terão.
7
Porquanto justo é o SENHOR, e ama a
justiça; os íntegros verão a sua face!
1

3
Algumas versões traduzem, neste versículo, a palavra hebraica haçirîm como “juncos”, como em Is 35.7, mas aqui a palavra
correta é C`¨3l haçerîm, que significa “vilarejos”, “povoados” ou “recinto”. Jerônimo traduziu a expressão hebraica 2¨NC como
um particípio: “Põe-se de espreita perto das fazendas”. O sentido no original é o de uma raposa que durante a noite se coloca de
tocaia junto ao curral e espera por uma presa.
4
Este versículo mostra as artimanhas que o tirano usa para enganar e devorar suas vítimas, consideradas como pobres,
desamparadas e infelizes em suas mãos. A expressão hebraica qerê, literalmente, “se rebaixa” e, em grego, ketib “rebaixado”,
ilustram o quanto de falsidade e demagogia é usado pelos poderosos para iludir os incautos.
5
Algumas revisões usam a expressão “defendes o órfão” ou “fazes justiça ao órfão”; a expressão no original usa a metáfora
da orfandade, para trazer à luz o desejo de Deus de ser reconhecido, como Pai, pela humanidade. Assim, o homem deixaria
sua condição de simples “criatura de pó e terra” e herdaria as características divinas do seu Pai e Criador. Entretanto, por mais
distante que seja o dia da justiça, a promessa do Pai não é adiada: Ele fortalecerá os corações (v. 17). Os arrogantes e perversos
serão lembrados em sua humana insignificância e não mais causarão terror aos pobres e mais fracos. Esse é o sentido do verbo
hebraico ``¨N arots. A graça do Senhor é a nossa força (2Co 12.8-10).
Capítulo 11

1
A expressão hebraica “contemplar a face de Deus” é freqüentemente usada nos Salmos, no sentido de estar em pé ante sua
presença, como servos diante de um Senhor misericordioso e amável, que autoriza seu servo a assumir essa postura. (16.8-11;
17.15; 23.6; Is 38.11). Evidentemente, não há qualquer contradição em relação à impossibilidade de o ser humano ver a face de
Deus (Êx 33.20). Este salmo termina como começou: com o Senhor, cuja natureza é justa, apresentado como a resposta para o
medo e a frustração (v. 3). A primeira frase do salmo revelou onde está a segurança daquele que crê; a última linha mostra onde
deve estar seu coração. Os salmistas podiam ver a Deus com os olhos da alma (ser), e aguardavam o dia da ressurreição, quando
poderiam, então, olhar para a face do Senhor sem que fossem destruídos.
15 SALMOS 12–14
O mundo falso
Para o mest re de música, em oitava.
Um salmo de Davi.
12
Socorro, SENHOR! Já não há quem
seja leal; já não é possível confiar
em ninguém entre os seres humanos.
2
Cada qual mente ao seu companheiro;
seus lábios bajuladores falam com se-
gundas intenções.
3
Que o SENHOR golpeie todas as bocas
fraudulentas e a língua arrogante
4
dos que proclamam: “Venceremos pelo
poder do nosso falar; nossos lábios são
como lâminas cortantes! Quem poderá
mandar em nós?”
5
“Por causa da opressão do necessitado
e do clamor do pobre, agora me levan-
tarei”, diz o SENHOR.“Eu os protegerei e
salvarei a quem por isso anseia.”
1
6
As palavras do SENHOR são verdadeiras,
são puras como a prata purificada num
forno, sete vezes refinada.
7
SENHOR, tu nos guardarás seguros, e desse
tipo de gente nos livrarás para sempre.
8
Os ímpios vagueiam sober bos por toda
par te, quando a corrupção é exaltada na
sociedade.
2
Oração de livramento
Para o mest re de música. Um salmo de Davi.
13
Até quando me esquecerás, SE-
NHOR? Para sempre? Até quando
encobrirás de mim tua face?
2
Até quando sofrerei com preocupações e
tristeza no coração, dia após dia?
1
Até quan-
do prevalecerá o inimigo contra mim?
3
Olha para mim e responde, SENHOR,
meu Deus. Renova o brilho da vida nos
meus olhos, caso contrário me entregarei
ao sono da morte;
4
e o meu inimigo virá a dizer: “Eu ven-
ci”; e os meus adversários festejarão o
meu fracasso.
5
Contudo, eu confio em teu amor; o
meu coração se enche de alegria e satis-
fação em tua salvação.
6
Desejo cantar ao SENHOR por todo o
bem que me tem feito.
2
O tolo não crê em Deus
Para o mest re de música. Um salmo de Davi.
1
14
Diz o tolo em seu coração: “Deus
não existe”. Todas as suas atitudes
são corruptas e abomináveis: não há um
que faça o bem.
2
Dos céus o SENHOR se inclina sobre a
humanidade, para ver se há alguém que
tenha juízo e sabedoria, alguém que bus-
que a Deus de coração.
3
Todos se desviaram, igualmente se cor-
romperam; não há ninguém que faça o
bem, não há um sequer.
2
4
Será que os maldosos nunca aprendem?
Eles devoram o meu povo, como se co-
1
No original hebraico, “anseia” é, literalmente, “ofega”. Deus virá em socorro de todo aquele que de todo o coração o busca.
2
Quando as pessoas de um povo (sociedade) começam a valorizar positivamente as atitudes ardilosas e desonestas de ho-
mens maldosos (Jz 9.4), a corrupção se instala como estilo de vida daquela geração e todos passam a viver se enganando, numa
neurose coletiva, em busca de vantagens pessoais. No original, a expressão “vagueiam” sugere um modo, bem público e sem
receio da lei, de perambular pela cidade, com más intenções.
Capítulo 13
1
A palavra hebraica yomam tem o sentido de uma dor que volta dia após dia. Davi, ao repetir quatro vezes “até quando”,
demonstra toda a sua aflição no que diz respeito a seu relacionamento com Deus, com os inimigos e consigo mesmo. No AT “en-
cobrir a tua face” ou “ocultar o rosto” significava a recusa da ajuda prática de Deus. As expressões “olha para mim”, “lembra-te”
ou “desperta-te” não têm a ver com estados de consciência de Deus, mas, sim, são prelúdios à intervenção poderosa do Senhor
na vida de seus filhos (Êx 2.24-25).
2
Por maior que seja uma pressão emocional, tentação ou dor, a escolha de confiar em Deus é do fiel, não do inimigo. A aliança
de amor com Deus deve prevalecer em qualquer aflição. Assim o salmista lembra o pacto de amor de Deus, reafirma sua confiança
nesse amor e passa a concentrar sua atenção, não na qualidade da sua fé, mas no objeto dela – o Senhor – e em seu resultado final:
a vitória. Davi crê de tal forma na providência divina, que a frase em que aparece “todo o bem que me tem feito” tem, no original
hebraico, o sentido de agradecer a Deus por haver concedido muito mais do que o salmista desejava. Davi tem certeza de que ainda
cantará esse louvor a Deus, olhando para trás e contemplando o dia de dores, quando o Senhor ouviu sua oração e o salvou.
Capítulo 14
1
Este salmo é muito semelhante ao 53, no qual o profeta revela um detalhe a mais sobre como Deus protege os justos (53.5);
literalmente: “Pois Deus espalhará os ossos daqueles que se acampam contra ti, tu os confundirás; porque Deus os rejeitou”.
2
O espírito de impiedade se revela de duas maneiras: pelo desrespeito público às leis de Deus (1-3) e pela exploração do Seu
16 SALMOS 14–16
messem pão, e não clamam pelo SENHOR?
5
Agora todos estão tomados de terror, por-
que Deus está presente a favor dos justos.
6
Vós, malfeitores, tentais frustrar a es-
perança dos humildes, mas o refúgio do
pobre é o SENHOR.
7
Que a salvação de Israel venha de Sião!
Quando o SENHOR restaurar o seu povo,
3
Jacó exultará e Israel celebrará com grande
alegria!
O homem de Deus
Um salmo de Davi.
15
SENHOR, quem poderá hospedar-
se em teu tabernáculo?
1
Quem há
de morar no teu santo monte?
2
2
Aquele que é íntegro em sua conduta
e pratica a justiça, que de coração fala a
verdade
3
e não usa a língua com maledicência,
que nenhum mal faz a seu semelhante
nem lança calúnias e afrontas contra seu
companheiro.
4
A seus olhos, o ímpio é desprezível; mas
dedica honra aos que temem o SENHOR.
Mantém a palavra empenhada
3
e, mesmo
saindo prejudicado, não volta atrás;
5
não empresta seu dinheiro com usura,
4
nem aceita suborno contra o inocente.
Quem assim conduz sua vida caminhará
seguro e em paz.
A fdelidade de Deus
Um canto silencioso de Davi.
16
Defende-me, ó Deus, pois eu me
abrigo em ti.
2
Ao SENHOR declaro: “Tu és o meu Se-
nhor; não tenho bem maior além de ti”.
1
3
Quanto aos fiéis que há na terra, eles é
que são os notáveis nos quais tenho todo
o meu prazer.
4
Muitos serão os sofrimentos dos que
deixam o SENHOR e buscam outros deuses;
eu não tomarei parte nos seus sacrifícios
de sangue, e os meus lábios sequer men-
cionarão seus nomes.
povo (4-6). A palavra hebraica para “tolo” ou “insensato” é nābāl 72. (1Sm 25.25) que, neste salmo, significa um tipo de perversi-
dade violenta, injusta e sem piedade. No NT, Paulo demonstra os malefícios de não se crer em Deus (Rm 1.18-32).
Como na ocasião que precedeu o Dilúvio, Deus observa a raça humana e não vê ninguém que “tenha juízo e sabedoria” em
suas atitudes, tampouco encontra “um que faça o bem”. O sentido original do v.3 indica uma degeneração moral entre os seres
humanos, mais literalmente, um apodrecimento das virtudes divinas que fazem de uma pessoa um ser humano (Rm 3.10-12).
3
A KJ (1611) traz: “Quando o Senhor fizer voltar os cativos do seu povo”. Estudos sobre os melhores e mais antigos originais
reforçam a fidelidade da tradução usada aqui. O apóstolo Paulo nos ensina a orar com a expectativa de redimidos por Deus para
a grande celebração que se aproxima (Rm 8.19-25). No início do Sl 126 há outro exemplo desse antegozo.
Capítulo 15
1
Há duas idéias na palavra tabernáculo: uma, de adoração formal e sacrifício (Êx 29.42), e a outra, demonstrando a generosi-
dade e a hospitalidade de Deus, que aguarda a chegada do peregrino (adorador e hóspede ansioso) a seu lar. Algumas versões
apresentam as palavras “santuário” ou “tenda”, à imagem do antigo santuário do deserto (Êx 23.19).
2
Davi descreve o caráter de uma pessoa qualificada para viver (literalmente: tabernacular) com Deus. As perguntas paralelas e
sinônimas do v.1 são respondidas nos versículos seguintes por uma descrição de onze pontos vitais que distinguem uma pessoa
justa, correta, em ação, palavra, atitude e finanças. Essas qualidades não são naturais no homem (que é pó); são virtudes divinas,
concedidas por Deus.
3
O homem e a mulher de Deus devem orar e refletir no Senhor antes de empenhar sua palavra, sabendo que uma pessoa de
Deus não deve agir como aqueles que, não tendo o Espírito de Deus, tratam levianamente seus compromissos e, muitas vezes,
usam a palavra firmada apenas para enganar e tirar alguma vantagem do seu próximo. Entretanto, ao perceber o erro cometido
em determinado contrato ou palavra afiançada, o fiel a Deus pode corretamente implorar sua desobrigação (Pv 6.1-5), desde que
aceita pela outra parte. No caso de recusa da desobrigação e de impossibilidade de uma renegociação, a palavra dada deverá
ser cumprida (2Co 1.15-23).
4
A Palavra de Deus não desaprova o ato de se receberem juros e correção monetária por dinheiro emprestado (Dt 23.20; Mt
25.27). O que Deus condena é a exploração financeira (usura) do aflito e necessitado, no sentido de tirar proveito das desgraças
do próximo e obter lucro abusivo (Lv 25.35-38; Dt 23.19). O AT proíbe a venda de alimentos, com lucro, para os necessitados. No
contexto da família, o membro em situação difícil deveria ser sustentado por seus parentes até se reerguer financeiramente. Fora
da família, a Lei permitia o ganho de juros moderados, ao mesmo tempo que proibia a extorsão e encorajava a generosidade (Êx
23.9; Lv 19.33-34). Davi vai além neste salmo, e não faz diferença entre um irmão e um desconhecido necessitado.
Capítulo 16
1
Neste cântico de confiança, que deveria ser entoado de forma silenciosa para não provocar a ira dos pagãos que dominavam
Jerusalém na época, Davi declara que assim como confiou no Senhor como sua suficiente porção nesta vida (vv.1-8), da mesma
maneira confiará em Deus para preservá-lo na morte (vv.9-11).
17 SALMOS 16, 17
5
SENHOR, tu és a minha parte na herança
e o meu cálice; és tu que garantes o meu
futuro.
6
As divisas das terras caíram para mim
em lugares agradáveis; tenho uma mara-
vilhosa herança!
2
7
Darei louvores ao SENHOR, que me acon-
selha; na calada da noite o meu coração
me ensina!
8
Tenho sempre o SENHOR diante de mim.
Com Ele à minha direita, não serei aba-
lado.
9
Essa é a razão da alegria que trago no
coração e, no íntimo, exulto de prazer; e
assim meu corpo repousará em paz, por-
que tu não me abandonarás nas profun-
dezas da morte,
10
nem permitirás que o teu santo sofra
decomposição.
3
11
Tu me fizeste conhecer o caminho da
vida, a plena felicidade da tua presença e
o eterno prazer de estar na tua destra.
4
Oração do oprimido
Uma oração de Davi.
17
Ouve, ó SENHOR, meu justo lamen-
to; dá atenção ao meu clamor.
Responde a minha oração, que não pro-
cede de lábios mentirosos.
1
2
Que minha sentença favorável venha da
tua face; vejam os teus olhos onde está a
justiça!
3
Podes sondar-me o coração, examinar-
me a consciência durante a noite, provar-
me com fogo, e iniqüidade alguma encon-
tras em mim; pois minha boca não é falsa
diante de ti,
4
como costuma agir a humanidade. Eu
observei a palavra dos teus lábios e evitei
o caminho dos maldosos.
5
Meus passos seguem firmes nas tuas ve-
redas; meus pés não escorregam.
6
Eu clamo a ti, ó Deus meu, pois tu me
respondes; inclinas para mim os teus ou-
vidos e ouves a minha oração.
7
Demonstra as maravilhas
2
do teu amor
leal, Tu, que com a tua destra salvas os
que em Ti buscam refúgio e defesa con-
tra seus agressores.
8
Protege-me como a pupila dos teus
olhos,
3
abriga-me à sombra das tuas asas
protetoras,
9
longe dos ímpios que me oprimem, dos
inimigos mortais que me rodeiam.
10
Eles enchem seus corações de insen-
sibilidade, e suas bocas transbordam de
arrogância.
11
Seguem-me os passos, e já me cercam;
2
Davi expressa que Deus é sua maior e melhor herança e que jamais pensaria em seguir outros deuses, ou em compartilhar
louvores que não fossem dirigidos ao Senhor. Davi lembra que o fato de ter sido deserdado é uma honra e uma indicação de que
ele só depende do Senhor, pois Deus também não dera a seus sacerdotes qualquer porção de terra, assegurando-lhes somente:
“Eu sou a tua porção e a tua herança” (Nm 18.20). A tribo mais favorecida na partilha das fronteiras (divisas) não possuiu herança
mais rica do que a que coube a Davi (Js 19.51; Fl 1.21; 3.8).
3
Davi faz uma alusão messiânica que será mais tarde, no NT, enfatizada pelos apóstolos Pedro e Paulo (At 2.29ss.; 13.34-37).
4
Andar nos caminhos do Senhor é viver em plenitude (25.10; Pv 4.18). A presença de Deus ou “a face do Senhor” são expres-
sões que no original que indicam felicidade total e eterna. Um tipo de gozo que o sistema mundial, sob o qual vivemos, não pode
proporcionar. A palavra hebraica para “alegria” ou “felicidade” (literalmente: alegrias) refere-se a delícias e satisfação (plenitude,
derivada da mesma raiz que “satisfação” em 17.15). O Senhor concede as alegrias da sua face (o significado de presença) e
da sua mão direita (destra). O refugiado do v.1 se vê, agora, herdeiro, e sua herança é maior do que jamais poderia imaginar. A
expressão correta, no final do versículo, é “na tua destra” e não “à sua direita”, pois o sentido, diferente do v.8, é mostrar que da
mão direita (destra) de Deus procedem todas as bênçãos e dádivas (Gn 48.14ss.; Pv 3.16).
Capítulo 17
1
Davi não está afirmando que é um homem sem falhas ou pecados. Está defendendo sua integridade de fé, assim como Deus
defendeu a honestidade espiritual de Jó (Jó 1.8; 42.8). Nem Jó muito menos Davi eram isentos de pecados, mas foram homens
sinceros diante de Deus, que amaram o Senhor de todo o coração e preferiram o Senhor a todos os demais bens da terra. Davi
filtra seus sentimentos e conclui que sua religiosidade não é fingida (1Jo 3.18-21) e por isso apela a Deus para que pronuncie a
sentença favorável.
2
A mesma expressão usada por Deus na repreensão à falta de fé de Sara (Gn 18.14). O fiel não pode esquecer que nada
é impossível (literalmente: maravilhoso) para Deus. O termo “amor leal”, como já foi visto, refere-se à bondade interminável do
Senhor; à fidelidade de Deus a uma aliança feita com um homem que, confiando sua vida nas mãos do Senhor, crê que essa
aliança jamais será quebrada por Ele, mesmo considerando a infidelidade do homem (Os 2.19-20).
3
Pupila ou “a menina dos olhos” é figura de linguagem que, ao lado de outras expressões como “asas protetoras”, demonstra
de forma clara e eloqüente, o quanto Deus é sensível às nossas necessidades, e com que carinho nos protege. Os olhos são
18 SALMOS 17, 18
seus olhos estão fitos em mim, prontos
para derrubar-me.
12
São como um leão ávido pela presa
escolhida, como feras sanguinárias sali-
vando pela vítima, na tocaia.
13
Levanta-te, SENHOR! Confronta-os! Arrasa-
os! Com tua espada, livra-me dos ímpios.
14
Com tua mão, SENHOR, livra-me das pes-
soas mundanas, dos homens maldosos des-
ta terra, cuja recompensa está nesta vida.
Enche-lhes o ventre de tudo o que lhes re-
servaste; fartem-se disso os seus filhos, e o
que sobrar fique para suas crianças de colo.
15
Eu, contudo, graças à tua justiça, verei a
tua face; quando despertar, terei a plena sa-
tisfação de ver tua semelhança em mim.
4
Deus soberano salvador
(2Sm 22.1-51)
Para o mest re de música. Um salmo de Davi,
ser vo do SENHOR. Ele cantou as palavras deste
hino de louvor ao SENHOR, quando este o livrou
das mãos de todos os seus inimigos e das garras
de Saul. Assim se expressou Davi:
1
18
Eu te amo
2
com todo o meu ser, ó
SENHOR, minha força.
2
O SENHOR é o meu penhasco
3
e minha
fortaleza, quem me liberta é o meu Deus.
Nele me abrigo; meu rochedo, meu escu-
do e o poder que me salva, minha torre
forte e meu refúgio.
3
O SENHOR seja louvado! Pois clamei a
Deus por livramento e estou salvo dos
meus inimigos.
4
As cordas da morte me enredaram; as
torrentes da destruição me aterrorizaram.
5
Os laços do inferno me envolveram,
4
e
as ciladas da morte me atingiram.
6
No meu desespero clamei ao SENHOR;
gritei por socorro ao meu Deus. Do seu
os órgãos mais sensíveis do corpo humano. A presença de qualquer cisco nos olhos é imediatamente comunicada ao cérebro
que ordena sua pronta remoção. Assim também, qualquer situação que venha a causar preocupação ao servo de Deus é digna
da atenção especial do Senhor, que nos cobre com suas poderosas asas, como a águia protege seus filhotes (Rt 2.12; Sl 36.7;
57.1; 63.7; 91.4).
4
No versículo anterior, Davi diz para Deus que não quer ter nada a ver com os perversos, que só buscam prazeres da carne,
ostentação, vaidade, orgulho e os bens materiais deste mundo (sistema econômico, político, social e religioso). Davi chega ao
ponto de pedir a Deus que dê aos mundanos abundância do que eles mais amam; assim eles naufragarão em sua própria lama.
O fiel de coração, porém, tem prazer no Senhor e nas coisas celestiais. Sabe que suas necessidades materiais serão supridas
diretamente pelo Pai e se alegra com aquele grande dia em que verá o Senhor face a face. Davi sabia que só os semelhantes
podem se comunicar mutuamente (Tt 1.15 com Mt 5.8). Temos a promessa de que o veremos como Ele é e de que seremos
semelhantes a Ele! (1Jo 3.2; 2Co 3.18). Conhecer a face de Deus foi um privilégio de Moisés (Nm 12.6-8; Dt 34.10). Moisés não
viu a face de Deus como num sonho, mas acordado. Assim, os fiéis verão a Deus na ressurreição e desfrutarão desse prazer por
toda a eternidade (Is 26.19; Dn 12.2). A hora do despertar, a aurora, é o momento privilegiado da generosidade divina e simboliza
a salvação (Is 8.20; 9.1; 33.2; Lm 3.22-23; Sf 3.5; Jo 1.4-5; 8.12).
Capítulo 18
1
É importante lembrar que estas notas, impressas em letras menores, logo abaixo do título da maioria dos Salmos, fazem parte do
texto canônico da Bíblia Hebraica (diferentemente das notas marginais acrescentadas pelos massoretas e que não constam na KJ), e
se incluem na numeração dos versículos desta. Quase a metade dos Salmos tem a anotação: ledáwîd (de Davi) e 55 salmos trazem a
expressão: lam-e-natssêah (Ao mestre de música). Em muitos salmos, os versículos no texto hebraico têm sua numeração desencontra-
da em relação aos publicados em nossas Bíblias, devido ao fato de o versículo número 1 ser atribuído a essas notas (como em algumas
edições católicas). O Novo Testamento reafirma a autenticidade bíblica e canônica desses títulos (Mc 12.35-37; At 2.29-34; 13.35-37).
Neste hino de louvor a Deus, por grande vitória alcançada, Davi relata o que o Senhor fez por ele (vv.1-3), relembra o livramento
de Deus (vv.4-19), apresenta o fundamento para o livramento (vv.20-30), relembra uma vez mais a vitória (vv.31-48) e se compro-
mete a viver continuamente louvando a Deus (vv.49-50). Esse cântico também é encontrado em 2Sm 22, tendo sido escrito após
a morte de Saul e o estabelecimento do reino davídico. Como afirmava Calvino, muitas verdades neste salmo aplicam-se melhor
a Jesus Cristo (o Messias) do que a Davi (Rm 15.9).
2
A palavra no original em hebraico racham, Cl¨ é rara, muito emotiva e expressiva. Significa amar com as mais profundas e
veementes afeições do coração, com a comoção de todas as entranhas (como era na época, a típica forma oriental de se referir
aos sentimentos). Uma tradução literal e antiga: “Eu te amarei com todos os anelos do afeto, ó Jehovah”.
3
A palavra hebraica sela 37C, usada aqui, significa aqueles precipícios íngremes que oferecem refúgio a homens e animais;
onde as abelhas fazem colméias e de onde o mel era coletado em grande abundância (Dt 32.13). Esse é um termo diferente
daquele traduzido nos versículos seguintes por “rocha”, significando “penhasco” ou “rochedo” (1Sm 23.25-28; 24.22), apesar de
essas palavras serem menos comunicativas do que “rocha” para o leitor ocidental nos dias de hoje.
4
Embora Davi fosse rei e, como tal, pudesse falar em nome de seu povo, todo o salmo está no singular para expressar a
emoção da experiência pessoal. Davi foi abençoado porque Deus teve “amor leal a mim”, ou como em algumas traduções “se
19 SALMOS 18
templo Ele ouviu a minha voz; minhas
súplicas chegaram à sua presença e seus
ouvidos me deram atenção.
7
Então, toda a terra estremeceu e agitou-
se
5
e os fundamentos dos montes se abala-
ram; tremeram por causa da ira de Deus.
8
Das suas narinas subiu fumaça; da sua
boca saíram brasas vivas e fogo devorador.
9
Ele rompeu os céus e desceu; nuvens
escuras estavam sob seus pés.
10
Montou um querubim e voou,
6
desli-
zando sobre as asas do vento.
11
Fez das trevas um manto no qual se
ocultou; das nuvens escuras, carregadas
de água, o abrigo que o envolvia.
12
Com o fulgor da sua presença, as nu-
vens se desfizeram em granizo e raios,
13
quando dos céus trovejou o SENHOR e
fez ressoar a voz do Altíssimo.
14
Atirou suas flechas e afugentou meus
inimigos, com os seus raios os arrasou.
15
O fundo do mar apareceu e os alicer-
ces da terra foram expostos por causa da
tua severa repreensão, ó SENHOR, com o
sopro forte das tuas narinas.
16
Das alturas estendeu a mão e me agarrou;
7

arrancou-me das águas profundas.
17
Livrou-me do meu adversário pode-
roso, de todos os meus inimigos, muito
mais fortes do que eu.
18
Eles me atacaram no dia da minha in-
felicidade, mas o SENHOR foi o meu abri-
go e protetor.
19
Ele me concedeu plena libertação;
livrou-me por causa do seu amor leal a
mim.
20
O SENHOR me tratou conforme o meu
justo coração; conforme a honestidade
das minhas mãos, recompensou-me.
21
Pois tenho andado nos caminhos do
SENHOR; não tenho agido como ímpio,
afastando-me do meu Deus.
22
Todos os seus mandamentos estão
presentes em meu ser; não me desviei
dos seus decretos e preceitos.
23
Tenho sido irrepreensível para com ele
e não me permiti praticar qualquer mal.
24
O SENHOR me recompensou segundo
a minha justiça, conforme a pureza que
seus olhos viram em minhas mãos.
25
Ao fiel e bondoso te revelas fiel e
bondoso,
8
ao irrepreensível te revelas ir-
repreensível,
26
ao puro te revelas puro, mas com o
perverso reages à altura.
27
Salvas os pobres
9
e os que são humil-
agradou” dele (v.19), e não só porque, como monarca, representava seu povo. Vemos Deus movendo o mundo, usando armas
devastadoras contra a morte e as hostes do inferno, por amor a um insignificante ser humano. (Belial, como aparece em algumas
versões, é a palavra registrada no original, mas de difícil tradução, estando ligada sempre à descrição de coisas malignas ou des-
trutivas. Forma sinônimo com as palavras morte e Sheol, sendo ainda um dos nomes de Satanás, em 2Co 6.15). O salmo ensina
que grande é o valor do indivíduo para o Senhor, bem como a dívida da pessoa humana para com seu Deus.
5
Davi utiliza esplendorosamente as metáforas para revelar a teofania (manifestação de Deus) que relembra o grande livramento
do mar Vermelho, por meio do fogo, da nuvem e da separação das águas (v.15), assim como os fenômenos ocorridos no monte Si-
nai, que “tremia violentamente” e “estava coberto de fumaça”, pois Deus “havia descido sobre ele em chamas de fogo” (Êx 19.18).
6
Os versículos anteriores revelaram a ira contra os poderes do mal. A “fumaça”(Is 6.4) dramatiza a reação da santidade do
Senhor diante do pecado, e “narinas”, em hebraico, têm a ver com o “órgão da ira”. O “fogo devorador” (Dt 4.24) representa o
zelo de Deus, e a lista continua enquanto a tempestade se aproxima, escurecendo a terra para o julgamento divino (Ez 10.2). Em
Ez 1.4-14, o temporal com raios e trovões terríveis forma o cenário para o surgimento de seres sobrenaturais que prenunciam a
presença santa e justa do Senhor Deus. Esses “seres viventes” (querubins, conforme Ez 9.3) surgem em contextos que enfatizam
a santidade inviolável de Deus: guardam a árvore da vida (Gn 3.24), o Santo dos Santos (Êx 26.31,33), o propiciatório (Êx 25.18-
22), e carregam o carro-trono sobre o qual Deus cavalgava para exercer julgamento (Ez 1.15-25; 10.1-8).
7
Deus não apenas socorre, busca e segura seus filhos, mas literalmente os “agarra”, não permitindo que nem o mundo nem o
diabo os arranque de Suas amorosas “garras” (Jo 10.28; Rm 8.35). Este salmo é rico em alusões ao êxodo, assim como ocorre
em Jz 5.4-5 e Hc 3.
8
A palavra hebraica hasîd, benignidade, ou “bondoso”, relaciona-se à expressão hesêd “amor fiel” ou “amor leal”, amor em
que se comprometem, fielmente, parceiros de uma aliança e que passou a ser, nos Salmos, um termo que representa os servos
de Deus como “piedosos” e “santos”(50.5).
9
Davi pede a intervenção de Deus em favor dos desprotegidos e necessitados. Eles são as vítimas sociais que freqüentemente
aparecem nos Salmos. A palavra hebraica anî tem o sentido de pobreza material. Neste versículo, Davi refere-se à situação de
desamparo social do povo antes de falar da virtude daqueles que reconhecem sua condição humana (pó e terra) dependente
de Deus (o Espírito da vida).
20 SALMOS 18, 19
des, mas humilhas os soberbos e altivos.
28
Tu, SENHOR, conservas brilhando a mi-
nha luz; o meu Deus transforma em luz
as minhas trevas.
29
Com a tua ajuda posso atacar uma
tropa; com o meu Deus posso transpor
muralhas.
30
Este é o Deus cujo caminho é perfeito;
a palavra do SENHOR é comprovadamente
verdadeira. Deus é um escudo para todos
aqueles que nele buscam abrigo.
31
Pois quem é Deus além do SENHOR?
10
E
quem é a Rocha a não ser o nosso Deus?
32
O SENHOR é o Deus que me reveste de
poder e faz o meu caminho perfeito.
33
Torna os meus pés ágeis como os da
corça, sustenta-me firme nas alturas.
34
Exercita minhas mãos para a batalha e
fortalece meus braços para vergar o arco
de bronze.
35
Tu me dás o teu escudo da salvação;
tua mão direita me garante a vitória; des-
ces ao meu encontro para dignificar-me.
36
Aplainaste o meu caminho, para que,
andando livre, meus tornozelos não se
torçam.
37
Persegui os meus inimigos e os alcan-
cei; e não regressei enquanto não foram
destruídos.
38
Arrasei-os, e não conseguiram reer-
guer-se; morreram debaixo dos meus
pés.
39
Deste-me poder para a batalha; sub-
jugaste os que me traíram e se voltaram
contra mim.
40
Colocaste os meus inimigos em fuga e
exterminei os que me odiavam.
41
Gritaram por salvação, mas não houve
quem os livrasse; clamaram até pelo SE-
NHOR, mas Ele não lhes respondeu.
42
Eu os reduzi a pó, poeira que o ven-
to carrega. Pisei-os como quem pisa na
lama das estradas.
43
Tu me livraste de um povo rebelado;
fizeste-me o grande chefe das nações; um
povo que não conheci coloca-se ao meu
serviço.
44
Assim que me ouvem, me obedecem;
são estrangeiros que se curvam a mim.
45
Todos perderam a coragem; enfraque-
cidos e apavorados saem dos seus redu-
tos.
46
O SENHOR vive! Bendita a Rocha da
minha vida! Exaltado seja Deus, o meu
Salvador!
47
Este é o Deus que pelo meu bem exe-
cutou vingança,
11
e que faz as nações me
servirem.
48
Tu me salvaste dos meus inimigos;
sim, fizeste-me vencer os meus adversá-
rios, e dos meus agressores violentos me
livraste.
49
Por isso, eu te bendirei entre todas as
nações, ó SENHOR; cantarei louvores ao
teu santo Nome.
50
Deus dá grandes vitórias ao seu rei; e
age por seu Ungido com amor fiel,
12
por
Davi e por toda a sua descendência, para
sempre.
Deus do universo e da alma
Para o mest re de música. Um salmo de Davi.
19
Os céus revelam a glória de Deus,
o firmamento proclama a obra de
suas mãos.
2
Um dia discursa
1
sobre isso a outro dia,
10
Davi se inspira no Cântico de Moisés (Dt 32.4, 31) para exaltar ao Deus Único e Todo-Poderoso: a Rocha (no original he-
braico: sûr).
11
Não é permitido ao fiel se vingar, mas, sim, entregar essa difícil e delicada tarefa a Deus, que o fará com justiça e amor
corretivo pelo ser humano (Dt 32.35; Rm 12.19, 13.4).
12
O apóstolo Paulo cita o v.49 deste salmo como a primeira de uma série de profecias que demonstram que Jesus Cristo veio
para os gentios e não somente para os judeus (Rm 15.8-12). Embora Davi exalte a fama de Javé como conhecida em todo o
mundo, a compreensão integral de suas palavras retrata o Ungido do Senhor, como o próprio Cristo (Messias), louvando a Deus
entre seus irmãos, adoradores gentios. Embora todo rei davídico pudesse apropriar-se destas verdades, este salmo pertencia es-
pecialmente a Davi, de quem era o próprio testemunho, e a Jesus Cristo, seu “descendente” (no original, um substantivo singular
e coletivo ao mesmo tempo) por excelência, assim como era o descendente supremo de Abraão (Gl 3.16).
Capítulo 19
1
Davi usa alguns dos temas preferidos pelos assírio-babilônicos (os astros, os ciclos do sol e da lua) para exaltar o Senhor,
o Criador. Os antigos tinham o costume de “beijar as mãos” em reverência ao sol, à lua e às hostes celestiais (Jó 31.26-27; 2Rs
21 SALMOS 19
e uma noite compartilha conhecimento
com outra noite.
3
Não há termos, não há palavras, ne-
nhuma voz que deles se ouça;
4
entretanto, sua linguagem é transmitida
por toda a terra, e sua mensagem, até aos
confins do mundo. Nos céus, Ele armou
uma tenda para o sol
2
5
que é como um noivo que sai de seu
aposento, como feliz herói, a caminhar
em sua jornada.
6
Parte de uma extremidade dos céus e
percorre o seu caminho até o outro ex-
tremo; nada escapa ao seu fulgor.
7
A lei do SENHOR é perfeita, e revigora
todo o ser. As palavras que vêm do SE-
NHOR são dignas de confiança, e transfor-
mam os mais humildes em sábios.
3
8
Os preceitos do SENHOR são justos, e
proporcionam alegria ao coração. Os
mandamentos do SENHOR são cristalinos
e iluminam o entendimento.
9
O temor do SENHOR é puro, e perma-
nece eternamente. As ordenanças
4
do SE-
NHOR são verdadeiras e todas igualmente
justas.
10
São mais desejáveis do que o ouro,
mais do que muito ouro refinado; são
mais doces do que o mel, do que as gotas
do favo.
11
Por suas ordenanças teu servo é escla-
recido; e existe grande recompensa em a
elas obedecer.
12
Quem pode perceber os próprios er-
ros? Purifica-me dos que ainda não me
são claros.
5
13
Da mesma forma livra o teu servo do
orgulho, para que ele nunca me domine;
então experimentarei a integridade, e se-
rei inocente de grande transgressão.
14
Que as palavras da minha boca e o me-
ditar do meu coração sejam aceitáveis
6
na
tua presença, SENHOR, minha Rocha e meu
vingador!
23.5); os modernos tentam compreender personalidade e futuro por meio da astrologia. Mas somente o cristão pode compre-
ender a amplitude da alegria filial que sente, ao olhar para o firmamento e para os astros como criação do seu Pai (Rm 1.18-23;
Rm 1.20). O termo “discursa” sugere, no original, o borbulhar irreprimível de uma fonte. Os capítulos 37 e 38 de Jó desenvolvem
esse tema com lirismo e verdade.
2
Ao falar do movimento do sol, Davi usa expressões igualmente encontradas na mitologia babilônica. Contudo, Davi faz
questão de frisar que, embora magnífico, poderoso e exultante, o sol é obediente ao Senhor, pois Deus posicionou-o no espaço
e indicou a trajetória que deveria cumprir todos os dias (do ponto de vista do poeta e observador); o céu inteiro é apenas uma
“tenda” e trilho para que ele caminhe. E tudo isso é somente “a borda das suas obras” (Jó 26.14).
3
Davi usa o nome revelado de Deus, Javé (o Senhor) sete vezes; antes disso, empregou o nome específico de Deus (em
hebraico, El) apenas uma vez, e no v.1. O famoso filósofo Kant afirmou: “Duas constatações povoam a mente de admiração e
reverência sempre novas e crescentes: os céus estrelados por sobre nós, e o padrão ético e moral escrito em nosso íntimo”.
4
A expressão hebraica mispâtîm significa as decisões judiciais ou ordenanças que o Senhor registrou sobre as várias situ-
ações humanas. A Lei (em hebraico Tôrâ ou Torah) é a vontade revelada de Deus, enquanto edût tem a ver com o aspecto da
verdade atestada pelo próprio Deus (1Jo 5.9) e também com a declaração pactual do Senhor (Êx 25.16; Dt 9.9). “Preceitos” e
“mandamentos” revelam a maneira precisa e fiel com que Deus se dirige à humanidade, enquanto temor e reverência deve ser a
resposta humana à Palavra de Deus.
5
Foi a lei mosaica que estabeleceu certas distinções entre pecados; porém, foram elas também que enfatizaram que nenhum
pecado (tipo, qualidade ou dimensão) seria tolerado diante de Deus. O ser humano tem grande dificuldade para discernir e reco-
nhecer seus erros e pecados; ou porque imagina que ser humano é tentar acertar mediante a prática de muitos erros, ou porque
acha que, tendo chegado a determinada posição de maturidade ética e espiritual, seus erros são irrelevantes, comparados à mo-
ral de nossa sociedade. Porém, a Palavra de Deus revela o coração humano (Lv 18.5) e, por isso, não devemos confiar apenas em
nossas consciências, no que diz respeito à percepção de erros cometidos. Somos culpados diante de Deus não por uma falta ou
duas, mas por incontáveis pecados, os quais nos privam da plena bênção divina. O termo hebraico shegioth, aqui traduzido por
“erros”, além de significar faltas menores, também pode ser compreendido como a astúcia de Satanás em lidar com o egoísmo e
a vaidade humana, a ponto de neutralizar a capacidade de autocrítica das pessoas. Por esse motivo a grande maioria dos homens
não consegue ver “um por cento dos seus erros”, segundo afirmou Calvino. Davi usa o verbo hebraico nakan, oriundo de uma
palavra que significa “ser inocente”, ou seja, Davi reconhece a incapacidade humana de ser justo a ponto de enumerar todas as
suas faltas e confessá-las a Deus, mas suplica que o Senhor lhe revele os pecados cometidos e o “purifique” (torne-o inocente),
especialmente do pecado do orgulho, o qual é a porta de entrada para uma série de calamidades na vida humana.
6
Davi aprendeu que é impossível evitar o pecado, mas sabe que sacrificar a mente e o coração ao Senhor (Os 14.1-2; Rm
12.1-5) é agradável a Ele e a melhor maneira de se afastar da prática do pecado. Deus é visto por Davi não como juiz, pois se o
considerasse simplesmente assim, Davi seria destruído por causa dos seus pecados; mas ele considera o Senhor como “Rocha”
(refúgio, abrigo). E mais que isso, Davi exalta a Deus usando a palavra hebraica go’el, o vingador do sangue (Nm 35.19), redentor
22 SALMOS 20, 21
O dia da angústia
Para o mest re de música. Um salmo de Davi.
20
Que o SENHOR te responda no dia
da angústia, que o Nome do Deus
de Jacó te proteja!
1
2
Do santuário te envie ajuda e de Sião
te sustenha.
3
Que recorde tuas ofertas de manjares e
aprecie o teu holocausto!
2
(Pausa)
4
Que te dê o que teu coração deseja e
realize todos os teus planos!
5
Saudaremos a t ua vit ór ia com br a-
dos de alegr ia e ergueremos as nossas
bandeir as em Nome do nosso Deus.
Que o SENHOR atenda a todos os teus
pedidos!
6
Agora sei que o SENHOR dará vitória ao
seu Ungido;
3
dos seus santos céus lhe res-
ponde com o poder salvador da sua mão
direita.
7
Alguns confiam em carros e outros em
cavalos,
4
mas nós confiamos no Nome
do SENHOR, o nosso Deus.
8
Eles vacilam e caem, nós, porém, nos
levantamos e ficamos de pé.
9
SENHOR, concede vitória ao rei; e respon-
de-nos no dia em que a ti clamamos!
O dia da vitória
Para o mest re de música. Um salmo de Davi.
21
O rei se alegra na tua força, ó SE-
NHOR! Como é grande a sua felici-
dade pelas vitórias que lhe proporcionas.
2
Tu lhe concedeste o desejo do seu co-
ração e não lhe rejeitaste as súplicas dos
seus lábios.
(Pausa)
3
Tu o recebeste dando-lhe ricas bênçãos,
e em sua cabeça puseste uma coroa de
ouro refinado.
4
Ele te pediu vida, e tu a concedeste, vida
longa e dias felizes sem fim.
1
5
Pelas vitórias que lhe deste, grande é a
sua glória; de esplendor e majestade o
cobriste.
6
Sim! Tu o constituis como grande bên-
ção perene e o enches de alegria com a
tua presença.
7
Sim! O rei confia no SENHOR: por causa
da lealdade do Altíssimo,
2
ele jamais será
abalado.
e campeão (Lv 25.25, 47-49; Jó 19.25; Jr 50.34; Is 41.14; 43.14; 44.6, 24; 49.7; 59.20). Javé que vinga, salva e tira da morte (das
mãos de Satanás) seus fiéis em todos os povos, tribos e nações (v.4).
Capítulo 20
1
Em Israel não se atribuía ao nome divino nenhuma potência mágica, como era costume de algumas religiões pagãs. Havia o
pacto de Deus com Jacó e sua descendência. Com a bênção sacerdotal de Nm 6.24-27, o Senhor permitiu que seu Nome fosse
colocado sobre os filhos de Israel, para distingui-los com a sua marca de possessão. A essa idéia foi acrescentada a de agirem
em prol de Deus (v.5), é o que fica expresso na declaração de Asa: “Em ti confiamos, e no teu Nome viemos contra a multidão”
(2Cr 14.11). Toda essa carga espiritual e cultural é transportada para o NT (Jo 14.14; 17.6; At 3.6; Ap 3.12).
2
As palavras “santuário” e “Sião” são as mesmas originalmente usadas para a expressão “santidade”, onde a arca de Deus
(mas ainda não seu Templo) significava sua presença (2Sm 6.17). Davi não coloca sua fé na arca, como nos dias de Eli, nem nos
holocaustos (sacrifícios de animais que eram totalmente queimados em louvor a Deus), como nos dias dos profetas, mas sim no
Nome e na Pessoa de Deus.
3
É importante voltar a frisar que a palavra hebraica, aqui traduzida por “Ungido”, significa “Messias” ou “Cristo” (Mt 1.17; Sl
2.2; Êx 29.7; 1Sm 9.16; 16.13) e que também se aplicava a Davi, rei legítimo e sagrado, de quem Deus testificara, pela unção
externa, ser ele o seu escolhido (ungido) para reinar sobre o povo do Senhor. E toda a nação foi testemunha ocular dos mara-
vilhosos feitos de Deus por meio de Davi. Todavia, o Ungido do Senhor, em quem toda a raça humana se personifica é também
chamado de “o fôlego da nossa vida”, “a sombra protetora” (Lm 4.20), “a lâmpada de Israel” (2Sm 21.17) - títulos que prenunciam
o Messias, o Cristo, o Filho de Deus. A própria palavra traduzida por “vitória” (vv.6 e 9), traduz palavras afins, derivadas da raiz
“salvar” (o nome de Jesus).
4
Devemos ter em mente que “carros e cavalos” eram as forças militares mais poderosas da antigüidade, mas que, para Israel,
traziam à memória as intervenções milagrosas de Deus junto ao mar Vermelho e no rio Quisom (Êx 14; Jz 4).
Capítulo 21
1
A expressão hebraica traduzida aqui, e em vários salmos, por “vitórias” é derivada da raiz “salvar” (o nome de Jesus) e quando
usada em contextos de batalha, acrescenta um significado positivo (triunfal) a “salvação”. Algumas versões usam simplesmente
a expressão “salvação”, com isso perdem o aspecto vitorioso da expressão.
2
A lealdade de Deus é comunicada no original pela expressão hebraica hesed (Os 2.19), que significa o amor fiel e inextinguível
de Deus por seus filhos. A expressão Elyon traduzida aqui por “Altíssimo” é um dos nomes de Deus em hebraico e expressa o
poder e a soberania do Senhor Deus.
23 SALMOS 21, 22
8
Tua mão alcançará todos os teus inimi-
gos; tua destra atingirá todos os que te
odeiam.
9
No grande dia em que te manifestares
farás deles uma fornalha ardente. O SE-
NHOR os engolirá em sua ira, o fogo os
devorará.
10
Extirparás da terra sua geração, com
sua descendência, na humanidade.
11
Embora tramem o mal contra ti e elabo-
rem ciladas terríveis, nada conseguirão;
12
pois tu os colocarás em fuga quando
mirar contra eles o teu arco.
13
Exalta-te, SENHOR, na tua força! Nós
cantaremos e tocaremos em teu louvor.
O salmo da cruz
Para o mest re de música. Conforme a melodia
A Força da Manhã. Um salmo de Davi.
22
Meu Deus! Meu Deus! Por que
me desamparaste?
1
Por que estás
tão distante de salvar-me, tão longe dos
meus gritos de aflição?
2
Deus meu! Eu clamo de dia, mas não
respondes; durante a noite, e não recebo
descanso!
3
Tu, contudo, és o Santo, és Rei, és o lou-
vor de Israel.
2
4
Nossos antepassados confiaram em ti,
tiveram fé em ti, e os livraste.
5
Clamaram a ti e foram libertos; em ti
creram, e não se desapontaram.
6
Quanto a mim, sou verme, e não mais
um homem, motivo de zombaria do
povo, humilhado e desprezado pela hu-
manidade.
7
Ridicularizam-me todos os que me
vêem; balançando a cabeça e gesticu-
lando, lançam insultos cont ra mim, di-
zendo:
8
“Volte-se para o SENHOR! Que Ele o li-
vre! Salve-o, se é que lhe quer bem!”
3
9
Apesar de tudo, foste tu quem me ti-
raste do ventre e preservaste-me junto ao
seio de minha mãe.
10
Desde o meu nascimento fui consa-
grado a ti; desde o ventre de minha mãe
tu és o meu Deus.
11
Não fiques longe de mim, pois a tri-
bulação está perto e não há quem me
ajude.
4
12
Muitos bois selvagens me rodeiam;
como touros, os poderosos de Basã
5
me
cercam.
13
Rugem como leões ferozes e escanca-
ram a boca contra mim.
14
Eu me derramo como água, e meus os-
sos todos se desconjuntam; meu coração,
como a cera, se derrete dentro de mim.
15
Meu vigor secou-se como caco de barro,
e a minha língua gruda no céu da boca; tu
me colocas no pó, à beira da morte.
1
A expressão “A Força da Manhã”, no subtítulo, vem do hebraico: ayeleth hashachar. Este é um típico salmo profético-messi-
ânico e um dos mais citados no NT. Jesus Cristo citou esta primeira frase enquanto estava na cruz (Mt 27.46) em aramaico: Eloí,
Eloí, Lemá sabactâni. Em alguns textos, o nome de Deus, Eloí, foi vertido para o hebraico Eli. Quando Jesus tomou sobre si o
pecado de toda a humanidade, sentiu a mais terrível das dores: o afastamento (abandono) do Pai (2Co 5.21), pois Cristo fez-se
maldição em nosso lugar (Gl 3.13).
2
Davi sente a retirada protetora, familiar, da doce comunhão de Deus, enquanto o inimigo se aproxima envolvendo a atmosfera
ao seu redor com toda a sorte de sentimentos angustiantes e aterradores. Contudo, Davi cessa de debater-se em suas próprias
mágoas, remorsos e tristezas, para não se afundar ainda mais numa diabólica melancolia, e busca auxílio na rocha da santidade
de Deus: canto de louvor dos adoradores do Senhor. Em algumas versões da KJ aparece: “entronizado entre os louvores de
Israel” (v.3). O sentido da expressão no original quer revelar o significado interior das instituições visíveis, ou seja, o palácio ou o
trono de Deus não está no Templo, monte ou nação, mas no coração do Seu povo, daqueles que o adoram sinceramente em fé e
prática (Is 66.1-2). Nosso louvor deve ser um trono para Deus e não uma plataforma para a vaidade humana.
3
O argumento filosófico daqueles que não conhecem a Deus é, de fato, sempre equivocado e utilitarista: “se Deus existe, por que
há tanto sofrimento?”, “por que as guerras e a fome?”, “por que os crimes e a violência?”, “por que a tragédia?”. Tais frases revelam
uma humanidade em busca de um “deus de conveniência” para serviços gerais de proteção, conforto e bem-estar. Evidentemente,
devemos combater o mal e buscar a justiça, a começar por nosso próprio coração. É importante salientar que os gestos e as pala-
vras dos vv.7 e 8 foram reproduzidos no Calvário (Mt 27.39,43) mais de mil anos depois de este salmo ter sido escrito.
4
A verdadeira confiança é mãe da segurança. Confiar em Deus é sentir-se seguro, mesmo em meio às mais severas tribula-
ções. Deus é o Senhor do universo, dono de todo ouro e prata e rico em amor por aqueles que nele aprenderam a confiar, seus
adoradores. Sem fé (confiança) no Senhor, qualquer lugar, por mais confortável que pareça ser, será um tormento (Jr 12.5b).
5
Região do norte da Transjordânia, famosa por suas criações de bovinos bem nutridos em suas colinas de pastos verdejantes
(Am 4.1). Basã ou Bashan, em grego, significa “animais gordos”.
24 SALMOS 22, 23
16
Uma multidão de cães me cercou, um
bando de malfeitores me envolveu!
6
Tras-
passaram
7
minhas mãos e meus pés.
17
Posso contar meus ossos um a um, mas
as pessoas me encaram com desprezo.
18
Dividiram as minhas roupas entre si e
lançaram sortes pelas minhas vestes.
19
Tu, porém, ó SENHOR, não fiques lon-
ge! Força minha, vem depressa em meu
auxílio.
20
Salva minha vida da espada, livra o
meu ser do ataque dos cães.
21
Salva-me da boca dos leões e dos chifres
dos búfalos raivosos. Sim, tu me respondes.
22
Vou anunciar teu nome aos meus
irmãos;
8
cantar-te-ei louvores no meio da
congregação:
23
“Vós que temeis ao SENHOR, louvai-o!”
Glorificai-o, todos vós, descendentes de
Jacó; reverenciai-o, descendência toda de
Israel!
24
Pois não desprezou nem desdenhou
o sofrimento do aflito; não ocultou sua
face do angustiado, mas ouviu seu cla-
mor por ajuda.
25
De ti vem o meu louvor na grande
congregação; cumprirei os meus votos
9

na presença dos que o temem.
26
Os pobres se alimentarão até ficarem
satisfeitos; louvarão ao SENHOR aqueles
que o buscam: “Que vossa vida seja lon-
ga e próspera!”
27
Todos os confins da terra se lembra-
rão e se conver terão ao SENHOR, e todas
as famílias das nações se prost rarão
diante dele.
28
Pois ao SENHOR pertence o reino: Deus
governa as nações!
29
Todos os ricos e poderosos da ter-
ra se fartarão e o adorarão; haverão de
ajoelhar-se diante de Deus todos os que
descem ao pó, até aquele que não pode
preservar a própria vida.
30
Sua descendência a ele servirá; e anun-
ciará o SENHOR às gerações futuras.
31
E, a um povo que ainda não nasceu,
testemunhará seus grandes feitos de
justiça, pois Deus tudo fez com poder
e glória.
10
O bom Pastor
Um salmo de Davi.
23
O Senhor é o meu pastor; nada
me falta.
1

6
Este é o drama humano: os fortes contra os fracos, muitos contra um só, os maus contra os bons. A turba é retratada como
bestial (touros, bois, búfalos, leões, cachorros) e refere-se à turba humana, quando age com sutileza e falsidade, ou com a
brutalidade do Calvário. O contexto sugere alguns dos motivos pelos quais as pessoas são levadas a tramar o mal contra seus
semelhantes: a inveja (v. 8), a compulsão de agir motivada por um grupo (vv.12,16

; cf. Êx.23.2), a ganância (v. 18), o gosto per-
vertido (v. 17), ódio e desejos destrutivos influenciados pelo Diabo (Jo 8.44).
7
A Bíblia hebraica cria uma polêmica ao traduzir a palavra caäru (traspassaram) por caäri (como um leão). O Comitê Inter-
nacional de Tradução da KJ para a língua portuguesa entende que no processo de transcrição dos originais a letra yod (י) foi
substituída pela letra vav (ו) por serem muito semelhantes. Esse pequeno descuido fez que muitos judeus não aceitassem o fato
de este salmo ser uma perfeita profecia da crucificação de Jesus Cristo. Entretanto, as traduções Septuaginta (compilada dois
séculos antes da crucificação), Vulgata, Siríaca, Arábica e Etiópica rejeitam as vogais massoréticas, acrescentadas às consoantes
hebraicas muito tempo depois de Cristo, e apresentam redação semelhante à KJ. Todos os autores dos Evangelhos também
citaram e aplicaram este salmo à crucificação de Jesus.
8
O autor de Hebreus faz referência a este versículo como sendo uma expressão do Messias de que “não se envergonha de
(nos) chamar irmãos” (Hb 2.11,12) e que, portanto, fica entre nós e não somente nas alturas. Em sua festa de ações de graças,
os pobres (humildes) são bem-vindos para se alimentar até ficarem plenamente satisfeitos (v. 26).
9
Davi se refere ao banquete da alegria, na chamada festa votiva. A lei mosaica encorajava aqueles que haviam prometido
algum serviço a Deus, no caso de serem atendidos nas suas orações e súplicas, a cumprirem seu voto com um sacrifício, a ser
seguido por uma festa que poderia durar até dois dias (Lv 7.16). A felicidade do contemplado nunca deveria ser reservada apenas
para si e seus familiares, mas, sim, compartilhada com seus amigos, servos, e especialmente com os levitas e necessitados (po-
bres). Todos comeriam, testemunhariam os feitos de Deus e cantariam salmos diante do Senhor (Dt 12.17-19).
10
Davi tem a visão da pregação da cruz às gerações de mil anos à sua frente. Vê também a grande festa do Senhor, quando
os ricos e poderosos se banquetearão com os pobres e humildes, pois todos serão um em Deus (Is 25.6). O salmo que começou
com um grito de aflição e desespero se encerra com um brado de glória a Deus que “tudo fez”. Uma declaração semelhante ao
clamor do Senhor: “Está consumado!” (Jo 19.30).
Capítulo 23
1
Este é considerado o mais belo e conhecido cântico de confiança de Davi em Deus. Neste salmo não se manifestam queixas
de aflição ou súplicas por livramento. É uma expressão poética e profética de gratidão ao Senhor (Yahweh). Um salmo de plena
25 SALMOS 23
2
Em verdes prados me faz descansar, e
para águas tranqüilas me guia em paz.
2
3
Restaura-me o vigor e conduz-me nos ca-
minhos da justiça por amor do seu Nome.
3
4
Ainda que eu ande pelo vale da sombra
da morte, não temerei mal algum, pois
tu estás comigo;
4
a tua vara e o teu cajado
me protegem.
5
Tu prepararás um banquete para mim
na presença dos meus inimigos; me hon-
rarás, ungindo minha cabeça com óleo e
fazendo transbordar o meu cálice.
5
6
A felicidade e a misericórdia certamen-
te me acompanharão todos os dias da
minha vida; e habitarei na Casa do Se-
nhor por dias sem fim.
6
confiança e visão messiânica, ao mesmo tempo. Davi usa a metáfora preferida dos reis, e a mais compreensível e íntima, para
retratar o Senhor como o supremo Pastor que provê todas as necessidades de suas ovelhas (seu povo, seus filhos) e as protege
e defende. As figuras de linguagem até então usadas (rei, libertador, rocha, escudo) eram apropriadas, porém não transmitiam a
idéia de proximidade pessoal, companheirismo constante e amizade fraterna que a palavra “pastor” revela (Gn 48.15; Is 40.10;
49.10; Jr 17.16; 31.9-10; Ez 34; Sl 80.1; 95.7).
2
Os “verdes prados” eram remansos ou campinas de relvas com pequenas lagoas (em hebraico: l`N., neoth) onde as ovelhas
podiam encontrar refrigério, segurança, paz e repouso (a mesma expressão, em hebraico: 72¨, rabats, usada ao descrever a Arca
da Aliança na busca por um lugar de descanso para Israel - Nm 10.33). Deus se coloca como Pastor para mostrar ao mundo que
não trata seu rebanho como um mercenário (Jo 10). Assim como um pai que compreende sua condição altruísta de homem de
família, o Senhor igualmente decidiu viver em família (em rebanho) para cuidar dos seus, por meio de uma relação permanente
de amor e ensino.
3
Em algumas versões aparece a tradução “refrigera-me a alma” no início deste versículo. Entretanto, essa expressão hebraica,
nos melhores e mais confiáveis originais disponíveis, traz o sentido literal de “conversão de todo o ser” ou “renascimento do fiel”.
Pode retratar, ainda, a ovelha desgarrada que é trazida de volta (Is 49.5; 60.1; Os 14.1-2; Jl 2.12 e Hb 2). Por outro lado, “restaura
o vigor” é muito mais do que simples refrigério. Significa a possibilidade de um novo começo de vida (físico ou psicológico Is
58.12; Pv 25.13; Lm 1.11,16,19).
Deus, por zelo (amor) ao seu Nome, nos converterá e transformará em pessoas cujos caminhos serão os do Senhor; e
nossos testemunhos demonstrarão ao mundo o poder e a misericórdia de Yahweh – o único e soberano Senhor do universo
(Ez 36.22-32).
4
Os “verdes prados” e “o vale da sombra da morte” são ambos “caminhos” do Senhor. Esse fato coloca em Deus
a responsabilidade última sobre tudo o que acontece em nossas vidas. Nossos inimigos podem tramar, o Diabo pode
tentar, nós podemos fraquejar, mas só Deus dirige as nossas vidas e permite, ou não, cada um de todos os eventos que
ocorrem conosco, com um propósito soberano, instrutivo e benéfico. Além disso, a presença do Senhor nos livra do pior
dos monstros: o medo. A palavra hebraica salmâwet, cujo significado literal é “sombra da morte”, que ocorre cerca de
20 vezes no AT, tem igualmente o sentido de “escuridão” e de fases críticas na vida, quando não conseguimos enxergar
a saída (Jó 38.17; Jr 2.6; Mt 4.16; Lc 1.79). Nosso Senhor é Deus e também Pastor e companheiro. Sempre que neces-
sário, ele caminha ao nosso lado e não só à nossa frente. O Senhor nos acompanha armado de “vara” (uma espécie de
cassetete carregado à cintura) e de “cajado” (para ajudar a caminhar e para conduzir o rebanho), que eram também arma
e instrumento de controle, pois a disciplina gera confiança e segurança (1Sm 17.35). Em última análise, só o Senhor
pode nos guiar através da morte; todos os demais guias, parentes e amigos recuam ou permanecem, e o viajante tem de
prosseguir sozinho.
5
A metáfora usada ganha tons mais íntimos, deixa de tratar os homens como ovelhas e revela o grande banquete do triunfo
eterno, onde o próprio Senhor é o Anfitrião. No Oriente antigo, um homem que fosse perseguido por seus inimigos precisava
entrar, ou ao menos tocar, na tenda do monarca em quem buscasse refúgio, para estar seguro. Seus inimigos eram obrigados
a deter-se e olhar de fora para dentro, sem nada poder fazer contra o perseguido, agora hóspede, e, portanto, protegido por
seu hospedeiro. Como era costume dos anfitriões mais hospitaleiros, a cabeça do hóspede era ungida (untada, umedecida
com substância oleosa e perfumada) e farta refeição era oferecida (41.9; Gn 31.54; Ob 7). O Anfitrião divino ultrapassa todas as
expectativas de hospitalidade. A refeição assume proporções de banquete, quando ungüentos de alto valor e perfumes suaves
são derramados sobre a cabeça do hóspede ilustre (45.7; 104.15; Êx 24.8-12; 2Sm 12.20; Sl 16.5; Ec 9.8; Dn 10.3; Lc 7.46; 1Jo
2.20). Todas as necessidades são supridas e todos os inimigos afastados, pois o Anfitrião é mais que um hospedeiro; é amigo
do hóspede. O quadro retrata tranqüilidade, segurança e fé em meio às aflições da vida. Um equivalente veterotestamentário
de Rm 8.31-39 ou 2Co 12.9-10.
6
A profecia é muito melhor que a perspectiva de uma grande festa. No mundo do AT, comer e beber na casa de alguém criava
um vínculo de compromisso, amizade e lealdade mútuas. Foi assim em Êx 24.8-12, onde os anciãos de Israel viram a Deus, e
comeram e beberam. O mesmo ocorreu na Última Ceia, quando Jesus anunciou ser aquele o cálice de uma nova Aliança em
seu sangue (1Co 11.25). Somos muito mais que simples convidados para uma festa, ou hóspedes por alguns dias. Deus deseja
conviver conosco por todo o sempre, literalmente “para a duração dos dias” (Mt 22.32). Nesse compromisso, a felicidade e as
misericórdias (amor leal) de Deus acompanham (literalmente: perseguem) os fiéis, assim como Seus juízos perseguem os ímpios
(83.15), hoje e sempre.
26 SALMOS 24, 25
O Rei da Glória e o seu Reino
Um salmo de Davi.
24
Do SENHOR é a terra e tudo o que
nela existe, o mundo e os seus ha-
bitantes.
1
2
Ele próprio fundou-a sobre os mares e
firmou-a sobre os rios.
2

3
Quem pode subir ao monte do SENHOR?
Quem pode ficar de pé no seu santo lu-
gar?
4
Aquele que tem as mãos limpas e o co-
ração puro, e não se entrega à mentira,
nem age com falsidade.
5
Este receberá do SENHOR a bênção, e
Deus, o seu Salvador, lhe fará justiça.
6
Estes são aqueles que o buscam, que
procuram a tua face como Jacó, ó Deus.
3
(Pausa)
7
Levantai, ó portas, os vossos frontões;
abram-se, ó antigos portais, para que en-
tre o Rei da Glória!
8
Quem é o Rei da Glória? É o Eterno, o
poderoso e valente. Deus forte, o bravo
das guerras.
9
Levantai, ó portas, os vossos frontões;
abram-se, ó antigos portais, para que en-
tre o Rei da Glória!
10
Quem é o Rei da Glória? É o SENHOR
dos Exércitos: Ele é o Rei da Glória!
4

Acróstico de súplicas
1
Um salmo de Davi.
25
A ti, SENHOR, elevo o meu ser.
N Alef
2
Em ti tenho confiado, ó meu Deus.
Não permitas que eu seja humilhado,
nem que meus inimigos escarneçam de
mim!
2 Bet
3
Nenhum dos que acreditam em ti será
decepcionado; envergonhados ficarão
aqueles que, sem motivo, agem como
t raidores.
2
. Guimel
1
Este é um salmo cantado tradicionalmente no Dia da Ascensão, o qual já inspirou grandes obras sacras. Este salmo foi ento-
ado para escoltar a arca, em cânticos, com harpas e alaúdes, de Quiriate-Jearim até o monte Sião (1Cr 13.8), o que, igualmente,
é comemorado nos salmos 68 e 132. Assim como Davi e a arca transformaram a fortaleza dos jebusitas em monte e cidade de
Deus, o Vencedor chegará para possuir a cidade que conquistou. Os salmos cantados naquela ocasião (96 e partes de 105 e 106)
têm a finalidade de exaltar a vinda final e permanente do Senhor (1Cr 16).
2
Esta expressão, no original, é clara e enfática ao dizer que tudo pertence ao Senhor. Ele é o Criador, Fundador, Estabelecedor
e Sustentador do universo; da terra em todos os seus aspectos: frutífera (1.a), habitada (1.b) e sólida (2). A expressão “tudo o
que nela existe” é a mesma palavra traduzida por “plenitude” em outras passagens. As riquezas e fertilidade da terra pertencem
prioritariamente ao Senhor, para santificação e posterior bênção à humanidade (Is 6.3). Os salmos reivindicam o mundo habitado
(1.b), para Deus como Criador (2), Rei e Juiz (9.7-8). O NT revela uma perspectiva ainda mais abrangente (Jo 3.16-17). O Senhor
criou a terra “sobre os mares” (literalmente: “acima dos mares”) como em 8.1, mas a figura poética retrata a terra sólida surgindo
das águas, com alusão a Gn 1.9-10, conforme 2Pe 3.5. No AT as profundezas dos mares relembram a falta de forma da terra (Gn
1.2), a ameaça iminente (46.5) e a falta de paz (Is 57.20). Entretanto, os mares, rios (literalmente: “correntes de águas abaixo”) e
toda a terra seca pertencem ao Senhor e a seu povo (46.2-4; 74.13; 96.10,11).
3
Os limpos de coração estarão em pé diante do trono, louvando ao Senhor (Ap 7.9). “Subir ao monte do Senhor” expressa o
desejo sincero de conhecer a Deus para verdadeiramente adorá-lo em todos os lugares (Gn 13.14; 19.27-28; Is 2.2-3; Mc 9.2). A
bênção do Senhor era compreendida no AT como o sorriso de aprovação de Deus ao caráter do fiel. Essa pessoa tem aceitação,
recebe ajuda divina para viver em retidão, é abençoada na saúde, família e negócios. A maioria dos manuscritos do Texto Masso-
rético registra a expressão: “a tua face, Jacó”. Ocorrendo a haplografia da consoante “2” hebraica, a frase fica mais compreensí-
vel: “a tua face como Jacó”, numa referência à bênção e ao encontro de Deus com Jacó, em Peniel (Gn 32.29-30).
4
Os versículos de 7 a 10 falam profeticamente da ascensão de Cristo, o Senhor, depois de sua vitória sobre o pecado e a morte,
e também de seu Reino vindouro, quando sua soberania será reconhecida sobre toda a terra. “Portas” e “Portais” relembram o
regresso da arca a Jerusalém (Êx 15.1-18; Sl 46; 48; 76; 87; 132.8, 14; 68.7,8; Jz 5.4,5; Hc 3.3-7; Is 14.31; Mt 21.1-11) e a entrada
à Nova Jerusalém pelas doze portas (Ap 21.12). A palavra hebraica םישאר, rashim, traduzida por “frontões” (cabeças), aparece
em algumas traduções derivadas da Septuaginta, como “príncipes”; mas, o pronome “vossos”, anexado a ela, demonstra que o
sentido mais apropriado e literal é este: que os portões ergam suas cabeças ao Rei da Glória, o Vencedor.
Capítulo 25
1
Neste salmo, Davi suplica ao Senhor proteção, orientação e perdão (vv.1-7), descreve alguns dos atributos de Deus (vv.8-14),
e ora por livramento (vv.15-22). Com pequenas exceções, cada verso deste acróstico (composição poética, muito usada pelos
escritores hebraicos, na qual o conjunto das letras iniciais dos versos forma, verticalmente, palavras ou frases) começa com letras
sucessivas do alfabeto hebraico.
2
Os “inimigos”, sempre presentes nos salmos davídicos, se opõem a Davi ideologicamente, e não apenas pessoalmente. A
27 SALMOS 25
4
Faze-me conhecer, ó SENHOR, os teus ca-
minhos, ensina-me a trilhar tua vereda.
¨ Dalet
5
Orienta-me a seguir a tua verdade e
ensina-me a mantê-la, pois tu és o Deus
da minha salvação e a minha esperança
está em ti todos os dias.
3
¨ He
6
Lembra-te, meu Deus, da tua misericór-
dia e recorda-te da tua graça, que existem
desde sempre.
* Zayin
7
Não relembres os pecados e desobedi-
ências da minha juventude, lembra-te de
mim, conforme teu infinito amor.
l Het
8
Misericordioso e justo é o SENHOR e, por
isso, aos pecadores reensina seu caminho.
C Tet
9
Dirige os humildes na justiça e os ins-
trui no seu caminho.
4
` Yud

10
Todos os caminhos do SENHOR são
amor e fidelidade para os que obedecem
aos preceitos da sua aliança.
2 Kaf
11
Pela honra de teu nome, ó SENHOR,
perdoa minha grande iniqüidade.
7 Lamed
12
Quem é aquele que teme ao SENHOR?
Ele lhe ensinará o melhor caminho a se-
guir.
C Mem
13
Sua alma viverá em plena felicidade e
seus descendentes herdarão a terra.
5
. Nun
14
A intimidade do SENHOR é para os que
o temem, aos quais Ele revelará os se-
vitória deles o desmoralizaria, mas principalmente tudo quanto representava: sua convicção de que a humanidade deveria viver
pela ajuda e comunhão de Deus, e não simplesmente por sua natural astúcia. Os versos 20 e 21 ajudam a esclarecer esse tema,
definindo a sinceridade e a retidão como sendo a defesa de Davi e de todo o que crê, virtudes essas consideradas ingênuas por seus
inimigos. Davi ainda confessa que, sem o amor misericordioso de Deus, sua defesa não resistiria às armas mundanas da traição (ci-
lada, armadilha, cf. 15) e do ódio (cf.19, o mesmo de Caim – Gn 4.1-9). Logo, não foram os inimigos que conseguiram ditar as regras
da batalha, mas, sim, o Deus de Davi. Todos aqueles que cantam ou recitam este salmo (poema) proclamam a mesma fé de Davi.
3
Em primeiro lugar, o servo de Deus pede a instrução geral de Deus (v.4: “teus caminhos”, “tua vereda”), após o que suas
faculdades de discernimento serão aperfeiçoadas (Hb 5.14). Esta oração altruísta (não interesseira, nem egoísta) tem algumas
características: 1) Persistência: ao ficar pacientemente alerta pelo “primeiro sinal das mãos do Senhor” nos vv.5, 15 e no Salmo
123.2. Era costume o servo ficar atento às mãos do seu senhor para lhe obedecer prontamente a seus sinais de comando. 2) Peni-
tência: palavra muito usada pela igreja Católica, cujo sentido é reconhecer-se como “pecador” (palavra que, no original hebraico,
identifica aqueles que erram o alvo – v.8), e não como um aluno capaz, aplicado e merecedor. 3) Obediência: a atitude dócil que
se compreende pelas palavras “humilde” e “paciente” (derivadas da expressão hebraica ‘ānāw v.9 e 18.27). 4) Reverência: o
Senhor honra com sua intimidade, graça e misericórdia aqueles que o respeitam (temem – vv.12,14) em amor como Deus – Único
e Soberano – sobre todo o Universo. A palavra hebraica sôd significa: amizade, intimidade, concílio, conselho, como em Jr. 23.18;
Am 3.7. Essa busca de orientação divina é muito diferente das consultas pagãs quanto a destino e futuro (Is 47.13).
4
Davi sabe que não é o tempo que cura uma mente culpada, mas a graça de Deus. Por isso, seu apelo à lembrança da Aliança
não é leviano nem uma forma de escapar ao castigo divino. Davi fala a verdade e pede que o Senhor olhe para a sinceridade do seu
coração. Deus “reensina” os pecadores e “dirige” os humildes, não apenas por sua bondade e misericórdia, mas porque Ele mesmo
é “misericordioso e justo” e deseja reproduzir seu caráter em seus filhos humanos. O salmista revela a manifestação da graça divina,
a qual o Senhor concede àqueles que, sendo subjugados por seu poder e trazidos debaixo de seu jugo, suportam espontaneamente
e se submetem a seu governo. Mas essa docilidade ou mansidão jamais será encontrada no ser humano, até que o coração, que
é naturalmente arrogante, egoísta e presunçoso, seja humilhado e vencido pelo Espírito Santo. Ao empregar, no original, a palavra
hebraica םידנע, anavim, que significa: o pobre, infeliz ou aflito, cujo sentido metafórico refere-se àquele que se tornou manso, doce,
paciente e humilde, Davi nos revela as aflições que servem para restringir e subjugar tanto a obstinação da carne quanto a graça da
própria humildade. É Deus quem nos humilha e Ele mesmo é quem nos toma pelas mãos e nos guia por toda a vida.
5
A tradição dos sábios de Israel ensinava que o temor do Senhor produz uma bênção espiritual (a salvação e proteção de
Deus) e uma bênção material (família, terra e os bens), bênçãos cuja duração seria perene, uma vez que a descendência dos
servos de Deus herdaria suas posses na terra e seu testemunho de vida com Deus. Os servos gozariam da companhia do Senhor
na terra e ao longo da eternidade. No NT, o apóstolo Paulo também defende a idéia da plena bênção de Deus (1Tm 4.8), embora
entendendo que nem sempre Deus trata com os servos segundo seus desejos mais imediatos. Quando Deus retrai sua bênção de
seu próprio povo, é porque deseja despertá-los para o senso de sua condição e levá-los a descobrir o quanto se acham afastados
do perfeito amor e temor do Senhor. Entretanto, em comparação com a sociedade mundana em que vivemos e em relação às
pessoas que desprezam a Palavra de Deus, todos os servos são grandemente abençoados e se sentem felizes, visto que, mesmo
em meio a dificuldades financeiras ou nas aflições, sofrimento e dor, jamais perdem a certeza da presença pessoal de Deus e
podem usufruir das consolações e da paz que somente o Espírito Santo pode proporcionar ao salvo.
28 SALMOS 25, 26
gredos da sua aliança.
6
C Samek
15
Os meus olhos estão sempre voltados
para o SENHOR, pois somente Ele livrará
meus pés da cilada.
V Ayin
16
Volta-te para mim e tem misericórdia de
mim, pois me sinto só e em muita aflição.
7
£ Pê
17
As angústias do meu coração se multi-
plicaram; liberta-me da minha desolação.
3 Tsade
18
Olha para minha agonia e sofrimento,
e perdoa todos os meus pecados.
19
Considera como se multiplicam meus
inimigos e com que crueldade me odeiam.
¨ Resh
20
Protege e salva minha vida! Que eu
não seja envergonhado, pois em ti me
abrigo!
2 Shin
21
Que a sinceridade e a retidão me pre-
servem, pois em ti deposito toda a minha
confiança.
! Tav
22
Ó Deus, liberta Israel de todas as suas
atribulações!
8

Pedido de justiça e livramento
Um salmo de Davi.
26
Ó SENHOR, sê meu juiz! Pois com
integridade
1
tenho caminhado
pela vida afora e não vacilei em minha
confiança no SENHOR.
2
Examina-me, SENHOR, e submete-me a
provas
2
; sonda meus sentimentos e mi-
nha mente.
3
Diante dos meus olhos contemplo o
teu fiel amor, e continuamente sigo a tua
verdade.
4
Não me associo com pessoas falsas
3
,
nem caminho com os hipócritas.
5
Detesto a reunião dos malfeitores, e não
me assento com os ímpios.
6
Lavo minhas mãos em sinal de inocên-
cia e, assim, poderei andar ao redor do
teu altar, ó SENHOR.
4

7
Ergo minha voz para cantar hinos de
gratidão e proclamar todas as tuas ma-
ravilhas.
6
Davi tinha profetizado que o Senhor seria o mestre dos piedosos e humildes. Os segredos mais íntimos de Deus estão
reservados para os servos fiéis. A Aliança de Deus é seu segredo, mistério e conselho. Ao chamar a Lei de segredo, o Senhor
demonstra que sua doutrina vai muito além da letra e só poderá ser compreendida por quem verdadeiramente amar a Deus –
Único e Soberano - de todo o coração, alma, entendimento e força; e ao próximo como a si mesmo (Dt 6.5; Mc 12.29-31). Para
os perversos, ímpios, arrogantes, e para todos que se aproximam das Escrituras sem verdadeira humildade e temor do Senhor,
o conselho de Deus é como “um livro lacrado” (Is 29.11). As Sagradas Escrituras (os segredos de Deus) foram entregues pelo
Senhor para instrução do seu povo e não apenas para os eruditos. A prerrogativa básica para compreender a Palavra de Deus
não é erudição, mas santidade e amor ao Senhor.
7
A expressão hebraica usada nos originais, ריחי, yachid, significa um estado de solidão e desolação. Ou seja, Davi não sentia
falta da companhia de pessoas, sentia falta da presença de Deus. Por isso, sentia-se destruído (desolado); no sentido hebraico:
empobrecido, infeliz.
8
Para Davi, “confiar” é “esperar em Deus”, o que significa “aceitar o tempo e a sabedoria do Senhor”. A fé de Davi está expressa
desde o v.2 e declarada nos vv.5, 8-10 e 14-15. Essa “fé esperançosa” marcava a diferença entre as atitudes de Davi e de Saul diante de
Deus (1Sm 26.10-11; 13.8-14), assim como entre Isaías e o povo de Israel (Is 30.15-18). A palavra originalmente empregada e traduzida
neste salmo, como “confiança” tem a ver com “confiança e zelo” mais do que simples e estática resignação. Ao final do salmo, essa “es-
perança” ainda não foi concretizada, mas Davi continua firme e corajosamente “crendo e esperando”. É por isso que este salmo torna-se
ainda mais relevante para aqueles que aceitam com alegria o encorajamento tranqüilo, certo e seguro, do Senhor, em Is 30.18 e 64.4.
Capítulo 26
1
No original hebraico, o sentido de “integridade” não se refere a isenção absoluta de pecados, erros ou defeitos, mas, sim, à
sinceridade de propósito e a uma certeza de devoção exclusiva e integral ao Senhor (1Rs 9.4).
2
A palavra hebraica ףרצ, tsaraph, significa “pôr à prova”, como o refinador testa seu ouro, dissolvendo-o e fundindo-o. Nesse
sentido ela é usada também no Sl 66.10. Davi sabe que Deus observa o íntimo de cada ser humano e busca os verdadeiros ado-
radores. Por isso pede que o Senhor o veja por dentro e considere seu amor e lealdade. Deus não se comove com cerimônias,
rituais, ladainhas e palavras lisonjeiras. Deus vê “nossos rins e entranhas”, como aparece em algumas traduções mais literais.
Para os antigos hebreus, as entranhas controlavam as decisões, e os rins, os sentimentos mais íntimos e secretos.
3
Como no Sl 1, Davi sabe que as más companhias podem corromper boas pessoas. Por isso se afasta de todos que agem com
falsidade e astúcia fraudulenta. A expressão hebraica םימ־לענ, naälamim, significa: “encerrados e encobertos pela dissimulação” ou
“aqueles que se camuflam com a falsidade, para praticar o mal”.
4
A lavagem das mãos em solene demonstração de inocência (pureza), em ocasiões especiais, era ordenada pelo ritual mo-
29 SALMOS 26, 27
8
Eu amo, ó SENHOR, a casa em que habitas
e o lugar onde tua glória permanece.
5
9
Não ceifes minha alma com a dos
ímpios, nem minha vida com a dos
assassinos;
6

10
suas mãos executam planos perversos,
e a prática do suborno lhes é peculiar.
7
11
Mas eu vivo em integridade; livra-me e
tem misericórdia de mim.
12
Os meus pés estão firmes na verdade;
e, perante a grande assembléia, bendirei
o SENHOR.
8
Minha luz e salvação
Um salmo da Davi.
27
O SENHOR é a minha luz e a mi-
nha salvação: a quem temerei? O
SENHOR garante a minha existência; o que
eu haveria de recear?
1
2
Quando os perversos, meus inimigos,
avançarem contra mim para dilacerar-
me, eles é que tropeçarão e cairão por
terra.
2
3
Ainda que um exército me cerque, meu
ser não se entregará ao temor; ainda que
uma guerra estoure contra mim, mante-
rei minha fé inabalável.
4
Um anseio manifestei ao SENHOR, e sua
realização buscarei: que eu possa viver
na casa do SENHOR todos os dias da mi-
nha vida, para contemplar a glória do
SENHOR e buscar sua orientação no seu
templo.
5
Pois no dia da adversidade Ele me pro-
saico, e era comum entre os judeus (Dt 21.6,7). Era usual entre eles antes da oração; e os sacerdotes, em particular, não podiam
realizar qualquer ofício sacro no santuário enquanto não derramassem água limpa do lavatório, lavando suas mãos (Êx 40.30-33).
O termo hebraico original ןויקנ, nikkayon, significa ao mesmo tempo “o ato de limpar algo” e o estado moral de pureza e inocência.
Davi faz uma alusão à prática dos sacerdotes que, quando ofereciam sacrifícios, andavam ao redor do altar; sua intenção era
demonstrar que, como primeiramente lavavam suas mãos e, então, exerciam seu sacro ofício no altar, os sacerdotes sentiam pro-
funda necessidade de pureza pessoal, para poderem se envolver-se no serviço divino. Com esse gesto, Davi igualmente lembra a
Festa dos Tabernáculos, na qual o povo, ao sétimo dia, circundava o altar sete vezes, levando ramos de palmeiras em suas mãos
e cantando hosanas, em memória à queda de Jericó. Cerca de 1000 anos mais tarde, Pilatos repetiria o gesto de “lavar as mãos”,
proclamando-se “inocente do sangue deste justo”. Procurava eximir-se de culpa, diante do povo judeu que clamava pela crucifi-
cação de Jesus Cristo (Mt 27.24), o Cordeiro de Deus sacrificado por nossos pecados e para nossa Salvação (Hb 10.1-14).
5
Davi entra no santuário, como sincero adorador, em busca da comunhão e proteção do Senhor. Os profanos e dissimulados
(falsos), até quando freqüentam assembléias sacras, cometem pecado, pois não vão em busca de perdão e reconciliação com
Deus, mas por interesse pessoal ou conveniência social e política. Algumas traduções mais literais trazem: “a habitação de tua
casa”, o que é um hebraísmo, uma maneira bem hebraica de se referir ao “lugar da tua habitação”. Essa expressão também era
o título dado ao tabernáculo (1Sm 2.29,32) e, posteriormente, ao templo de Salomão (2Cr 36.15). No deserto, a glória de Deus
permanecia visivelmente sobre o tabernáculo (Êx 40.34ss.); no judaísmo essa expressão que significa “habitação” (shekînah),
veio a ser o termo para definir fatos dessa natureza. Mas é em Jo 1.14 que temos a declaração integral da realidade prenunciada
na nuvem e no fogo. A expressão “habitou” ou, mais precisamente, “tabernaculou” nos remete ao Tabernáculo de Deus, que hoje,
somos nós, o Corpo de Cristo, onde o Espírito Santo habita. É impressionante que João tenha escolhido a palavra grega skēnē
(tenda), tão semelhante ao termo hebraico shekînah (habitação), na formação dos verbos usados.
6
A imagem visualizada por Davi é a de um grande ajuntamento (em hebraico: ףסא asaph) de tudo o que deve ser destruído,
uma alusão a Abraão, em Gn 18.25, e à parábola do joio, em Mt 13.30. A expressão no original “homens de sangue” (vv.4,5),
aparece em algumas versões como “homens sanguinários”, o que em nossos dias corresponde àqueles por meio dos quais
vidas inocentes são aniquiladas.
7
O termo hebraico המז, zimmah, significa a habilidade em tramar o mal e planos ardilosos. Davi se reporta a Dt 16.19 e admo-
esta especialmente os notáveis da sociedade que, muitas vezes, são os que mais se dão a subornar e a serem subornados. Davi
lamenta que a justiça estivesse exposta à venda e de que tão facilmente pessoas vendessem sua honra e o temor a Deus.
8
A profissão de fé de um homem piedoso: 1) integridade e devoção (v.1). Davi está determinado a persistir no caminho do Senhor;
2) humildade (v.11), ao reconhecer que não poderia ser aceito sem o perdão e o acolhimento divino; 3) confiante certeza (v.12), pois
ninguém implora (v.11b), nem confia (v.1b), em vão. E, assim, o salmo que começou defensivo e apreensivo quanto aos inimigos,
termina com louvor e a alegria de juntar a voz aos companheiros de fé na grande assembléia dos salvos (justificados).
Capítulo 27
1
Nas mãos de Yahweh – O Senhor – estão o nosso passado, presente e futuro. Aquele que o ama, obedecerá à sua Palavra,
terá certeza da sua proteção, e poderá repetir, com coragem, a proclamação do apóstolo Paulo: “...Se Deus é por nós, quem
será contra nós?” (Rm 8.31).
“Luz” é a metáfora que simboliza tudo o que deriva da verdade e do amor, as mais belas virtudes, o poder e a alegria da vitali-
dade. (43.3; Is 5.20; 97.11; 36.9). O poder das forças do mal não é ignorado, mas está subjugado pela “luz de Yahweh” (Javé em
hebraico). Mesmo que nossa vida na terra se extinga, é o Senhor quem garante vida perene à alma fiel.
2
Algumas versões usam os verbos no pretérito, como se Davi estivesse se referindo ao passado. No entanto, essa ênfase é
30 SALMOS 27
tegerá, e estarei abrigado no recôndito
do seu tabernáculo. Acima dos altos ro-
chedos serei colocado em segurança.
6
Então triunfarei sobre os adversários
que me rodeiam. Em seu tabernáculo
oferecerei sacrifícios de triunfo e grati-
dão; cantarei e louvarei ao SENHOR.
3

7
Ouve a voz do meu clamor, ó SENHOR;
tem piedade de mim e responde às mi-
nhas súplicas.
8
Meu coração compreendeu o teu man-
damento: “Buscai a minha face”, e por
tua presença meu ser anela.
4

9
Não ocultes de mim a tua face, não me
afastes de ti em ira;
5
tu tens sido o meu
Advogado. Não me negues tua ajuda, nem
teu amparo, ó Deus, meu Salvador!
6
10
Ainda que meu pai e minha mãe me
abandonem, o SENHOR me acolherá.
7
11
Ensina-me o teu caminho, SENHOR;
guia-me pela vereda dos justos e protege-
me dos que me perseguem.
8
12
Não me ent regues ao apetite dos
meus adversários, pois são caluniado-
res e se levantam cont ra mim, bufando
crueldade.
13
Eles me fariam desesperar, não fora
minha fé perseverante de que viverei
para ver a bondade do SENHOR.
14
Confia, pois no SENHOR! Assim, forta-
lecerás teu coração, por depositares so-
mente no SENHOR toda a tua esperança.
9

desnecessária, pois o próprio contexto, nos melhores originais, é claro e forte o suficiente. O termo hebraico ברק karab é usado
aqui com o propósito de descrever uma alcatéia de lobos preparando-se e salivando para atacar e devorar a carne de sua presa.
Mas Davi é iluminado pelo Senhor para registrar que os filhos de Deus jamais serão “devorados” pelo inimigo. Ao contrário, a
ênfase “eles é que” reforça a idéia de que Deus nos livrará dos inimigos enquanto os veremos tropeçando em suas próprias
maldades e caindo pelo caminho. O Senhor, além de ser a Luz que nos conduz, é também a fortaleza, o refúgio que rechaça e
aniquila os perseguidores. (Êx 14.19-24; 1Sm 23.26-27; 2Rs 6.15).
3
Davi usa algumas variações da palavra “casa”, como templo (que é a palavra padrão para descrever a residência divina ou
real, cf. 45.15,16), mas isso não significa que o Templo de Salomão já existisse. Essa palavra, bem como “tabernáculo”, emprega-
se por suas associações religiosas e, não, pelos materiais de construção, pois não se podem interpretar as duas palavras literal-
mente. Assim como a expressão “recôndito”, que no original é “caverna do leão” (10.9; 76.2; Am 1.2; 3.8), tabernáculo fala do tipo
de proteção acolhedora com a qual um hóspede era agraciado por um monarca. Davi recorda-se do seu refúgio nas montanhas
e sabe que o Senhor o abençoará com paz ainda maior. Por isso, o oferecimento de ações de graça (2Sm 6.14-17; Sl 18.1-3,
26.6-8). Em latim Sacrificia jubili e, em francês, nas palavras de Calvino, Sacrifice de triomphe. Literalmente em hebraico: “Sacri-
fícios de aclamação e retumbância jubilosa”. Atos que se reportam à Lei - que apontava para as trombetas soando no momento
dos sacrifícios (Nm 10.10), cujo som principal era mais alto, jubiloso e triunfante - chamavam-se precisamente העורת trughnah ou
truah, que no original hebraico quer dizer “triunfo” (Nm 10.5-7).
4
Segundo os melhores e mais antigos originais hebraicos, a expressão “Buscai a minha face” remete a Am 5.4ss. e significava
“ir consultar a Yahweh” em seu santuário (2 Sm 21.1). Esse termo assumiu um sentido mais geral: “procurar conhecê-lo, viver em
sua santa presença” e servir ao Senhor com sinceridade e fidelidade, apesar das nossas falhas (Dt 4.29; Sl 40.17; 69.7; 105.3).
5
Uma das primeiras características de uma pessoa afastada de Deus é seu estado contínuo e sistemático de ira. A expressão
hebraica original הטנ natah traduz um abandono da presença do Senhor, abandono que lança o rebelde num estado de íntima e
constante murmuração, frustração, agonia, desespero e contrariedade irrompendo em manifestações de desprazer e ira. Davi
suplica pela constante companhia do Senhor, a fim de não perder a lucidez e a sabedoria divina para agir na segurança da
verdade, em busca da paz.
6
O sentido do termo hebraico ףל leka é ambíguo, uma vez que a letra ל, lamed, é freqüentemente usada como preposição “de”
ou “concernente a”. Mas o fato é que Davi está imerso em profunda reflexão sobre a Palavra do Senhor e em verdadeira oração,
que é o diálogo franco e aberto com Deus. A situação triunfante (v.6) está no futuro, na esperança certa de Davi quanto ao socorro
do Senhor. Entretanto, no presente, a realidade parece mostrar um afastamento de Deus. Mas Davi evoca sua confiança no “amor
ajudador” do Senhor, que sempre tomou a iniciativa de “estar ao lado” (em grego, paraklêtos; ou advocatus, em latim) dos seus
filhos, para socorrê-los (Zc 13.9; Jo 14.16).
7
Davi usa uma linguagem forte e hipotética para demonstrar ao Senhor toda a sua confiança no amor leal e misericordioso de
Deus para com seu povo. Não há qualquer evidência de que Davi tivesse sido desprezado por seus pais. Davi expressa que o
amor de Deus vai muito além dos sentimentos humanos e começa onde o amor humano se esgota. Deus não se esquece do seu
povo, assim como uma mãe que amamenta não se esquece do seu bebê (Is 49.15).
8
Davi não se tornou apenas um adorador que busca a presença de Deus (v.8), mas também um seguidor (discípulo) e
peregrino que se compromete a seguir o Caminho, ao longo do qual encontra obstáculos e resistências dos inimigos. Em sua
oração, não pede conforto (o caminho dos justos), mas progresso certo (protege-me dos que me perseguem). Os inimigos estão
representados pelos “que me perseguem” ou “os que me espreitam”, termos que no original hebraico trazem a mesma idéia de
vigilância em relação aos adversários que nos observam com o objetivo de encontrar um motivo para nos destruir (Lc 11.54).
9
O Comitê de Tradução da Bíblia King James optou por uma tradução mais próxima dos originais hebraicos, hoje disponíveis
para estudo dos exegetas. Portanto, os versos 13 e 14 diferem da própria tradução da King James de 1611 que, nesse caso,
31 SALMOS 28
A resposta vem do Senhor
Um salmo de Davi.
28
A t i, ó SENHOR, eu suplico, Ro-
cha minha, não deixes de ouvir
o meu clamor. Pois, se per maneceres
em silêncio, serei como os que volt am
ao pó.
1
2
Ouve a voz das minhas súplicas, quando
clamo a ti por livramento, quando ergo
minhas mãos em direção ao Santo dos
Santos.
2

3
Não me juntes aos ímpios e maldo-
sos, no castigo que a eles está reservado,
pois falam como amigos com seus com-
panheiros, mas, na realidade, abrigam
crueldade no coração.
3

4
Retribui-lhes segundo seus feitos, con-
forme suas más obras; responde-lhes na
medida de suas ações e dá-lhes o que me-
recem.
5
Porque não desejam reconhecer os
feitos do SENHOR nem as obras de suas
mãos, Ele os destruirá e jamais permitirá
que se reergam.
4
6
Bendito seja o SENHOR, pois atendeu às
minhas petições.
7
O SENHOR é a minha força e o meu es-
cudo. Nele confiou meu coração e do
SENHOR recebeu favor. Todo o meu ser
muito se alegrou, e com meu cântico eu
o louvarei.
5

8
O SENHOR é a força do seu povo; Ele é a
fortaleza salvadora do seu ungido.
6
9
Salva o teu povo e abençoa a tua he-
rança! Apascenta-os como seu pastor e
conduze-os para sempre.
7

assemelha-se à tradução francesa de Calvino, baseada na Septuaginta (tradução grega do AT) na qual a expressão grega άνδρζου
“Sê varonil” ou, como na Vulgata - tradução em latim do AT, Viriliter age “Age como homem”, foi traduzida, em algumas versões
da Bíblia, por “Seja forte”, “Coragem!” ou ainda “Tenha bom ânimo”.
Capítulo 28
1
Davi estaria passando por alguma doença grave. Seu medo não era da morte em si, mas de morrer em meio à zombaria dos
inimigos e à vergonha injusta. Davi precisava da companhia perdoadora e restauradora do Senhor. A expressão “voltam ao pó”
tem a ver com o Seol (Sl 6.5), mas ao mesmo tempo sugere o isolamento das masmorras destinadas aos piores pecadores (Is
14.15-19; Ez 32.27-30). O silêncio de Deus é o pior dos castigos. E a pessoa que anda sobre a terra sem poder conversar com
Deus é como um zumbi (morto-vivo).
2
As mãos erguidas expressam diversos aspectos da oração: aqui o gesto tem a ver com a súplica de um livramento. O Salmo 63.4
expressa o anseio de buscar a Deus; Êx 17.9ss. refere-se à intercessão que roga o poder divino sobre outras pessoas. O apóstolo Paulo,
em 1Tm 2.8, dá instruções para que se levantem mãos “santas” e “em harmonia”. O termo hebraico ריבד debir significa a sala interior do
tabernáculo ou do templo, podendo ser também o “lugar santíssimo”, onde se encontrava a arca do concerto. É sugestivo que esse ter-
mo seja derivado de דבד dabar que significa o ato de se expressar por meio de palavras. Ou seja, Deus criou o homem para dialogar com
ele. O ser humano não pode viver sem ouvir o Senhor. Ao mesmo tempo Deus deseja falar com o homem e revelar seus maravilhosos
segredos. O ser humano é convidado a abrir seu coração no Santo dos Santos (lugar santíssimo) e ouvir o coração de Deus. Davi via
no santuário o emblema do pacto de Deus e a graça prometida, exatamente como hoje os cristãos invocam o Senhor Jesus Cristo – que
desceu dos céus para que pudéssemos ser elevados ao Pai – sempre que desejam orar e abrir seus corações a Deus (Jo 14).
3
O verbo hebraico ךשמ, mashak, é melhor traduzido, a partir de seu contexto original, por “apreender” ou “apoderar-se de”,
como os soldados se apoderaram de Cristo para crucificá-lo (Jo 19.16). O sentido da palavra “junte” é o de “arrastar juntamente”.
Davi rogava que não fosse confundido e tomado com a multidão dos ímpios pela fúria avassaladora do juízo, pois seu coração era
sincero em seu amor pelo Senhor. A Septuaginta traduz essa expressão para o grego: Mὴ συνελκυση̣ς την ψυχην μου, “não ajuntes
minha alma com”, e acrescenta: Κίαν μὴ συναπολέλη̣ς με, “e não me destruas juntamente com”. Davi expressa a indignação de
todos os fiéis quanto à injustiça que ainda reina na terra e quanto à convicção de que um dia de juízo torna-se uma necessidade
moral, pelo que devemos “clamar dia e noite”, pois a ira do Senhor já foi despertada (Lc 18.7).
4
Esta expressão também pode ser traduzida de forma mais literal: “que Ele os destrua, e não os edifique”. Essa era uma figura
de linguagem comum entre os hebreus, segundo podemos ver em Malaquias de Edom (literalmente): “eles edificarão, Eu, porém,
demolirei” (Ml 1.4).
5
É comum na literatura hebraica sagrada os profetas alterarem os tempos verbais com o objetivo de enfatizar o cumprimento
das promessas do Senhor. Este versículo obedece aos tempos verbais do hebraico original. Uma demonstração da certeza da
resposta divina (Sl 12.5,6).
6
Davi relembra sua condição de ungido; o escolhido do Senhor. Esse termo é, no original, a base da palavra Messias (con-
ceito que só seria melhor elaborado no NT – Ef.1.3-13) e, por paralelismo (estilo poético dos salmos), se refere ao povo ungido
(escolhido) de Deus.
7
Davi tinha plena consciência de sua missão, desde quando fora ungido por Deus pelas mãos de Samuel. Em diversas ocasiões
as Escrituras atribuem a Davi o título de pastor, mas ele mesmo atribui tal ofício ao Senhor, salvo no caso em que ele é ministro (ser-
vo) de Deus. Foi Calvino quem observou que “A humanidade é pisoteada pelos pés dos reis (governantes), uma vez que a maioria
rejeita e desdenha carregar a cruz de Cristo”. (Veu que la plus grand part rejette et desdaigne de porter le joug de Christ).
32 SALMOS 29
Louvai a majestade de Deus
Um salmo de Davi.
29
Tributai ao SENHOR, vós, filhos dos
poderosos, rendei ao SENHOR gló-
ria e força.
1
2
Tributai ao SENHOR a glória devida ao
seu Nome. Adorai ao SENHOR, por causa
do esplendor da sua santidade.
2

3
A voz do SENHOR ressoa sobre o bramido
das águas. O Deus glorioso troveja, o SE-
NHOR está sobre a vastidão dos mares.
4
A voz do SENHOR expressa força; a voz
do SENHOR é majestosa.
5
A voz do SENHOR quebra os cedros; o
SENHOR despedaçou os cedros do Líba-
no.
3
6
O SENHOR faz o Líbano saltar como be-
zerro; e o monte Hermom, como cria de
búfalo.
4
7
A voz do SENHOR corta os céus com
raios flamejantes.
8
A voz do SENHOR faz tremer o deserto; o
SENHOR faz tremer o deserto de Cades.
9
A voz do SENHOR faz tremer as corças e
desnuda os carvalhos nas florestas.
5
E no
seu templo todos bradam: “Glória!”
10
Acima do Dilúvio estabeleceu o Eterno
seu trono. O SENHOR reinará para sem-
pre.
11
O SENHOR concederá força ao seu povo;
o SENHOR abençoará o seu povo com
paz.
6

1
A palavra hebraica םילא ‘ēlîm é plural de ‘ēl, sinônimo de ‘ễlōhîm, Deus. Em certas expressões compostas, ‘ēl significa “poder”
(Gn 31.29; Dt 28.32). A Septuaginta traduziu essa expressão para o grego, primeiramente no caso vocativo   “vós, filhos de
Deus”. As traduções Vulgata, Arábica e Etiópica a seguem literalmente. Jerônimo dá o mesmo sentido em latim Afferte Domino filios
arietum. As paráfrases caldaicas é que traduziram “A assembléia dos anjos, filhos de Deus”, significando anjos de Deus. Entretanto,
neste texto de Davi, não se trata de “anjos” (como ocorre no Sl 8.5,6), mas, sim, de “os poderosos da terra”. Assim, a melhor tradu-
ção para essa expressão é: “vós, filhos dos poderosos”. Davi não está convidando os seres celestiais para adorarem a Deus, pois
isso eles já fazem diuturnamente. Davi, sim, está sendo dirigido por Deus para conclamar os reis e governantes da terra, do mais
nobre ao mais vil, a se humilharem e se renderem em louvor e adoração ao Rei dos Reis e Senhor dos Senhores: Yahweh.

2
A soberba, o orgulho e a arrogância são os grandes obstáculos humanos à verdadeira e plena adoração a Deus – o Criador.
Davi exorta nobres e plebeus a terem a mesma atitude dos anjos, em sua devoção ao Senhor. As palavras “glória” e “santo” são
exatamente as mesmas usadas pelos serafins em Is 6.3 para expressar louvores a Deus: nesta passagem, “santo” se refere ao
que Deus é, e “glória” tem a ver com tudo quanto procede do Senhor. Sua glória como Criador – o Eterno – enche toda a terra,
como cantam os serafins, enquanto a “glória do seu nome” é a revelação explícita de quem Ele é, que é oferecida a seus servos
por meio de suas palavras e grandes feitos. A expressão hebraica תררהב “na beleza da sua santidade” (derivada da expressão ררה
“honrar ou magnificar”) é a forma mais literal e tecnicamente correta de dar eloqüência à santidade de Deus.
3
Davi nos apresenta a mais dramática imagem do poder e da majestade de Yahweh – nosso Deus, Soberano e Juiz. O Nome
do Senhor (Yahweh – Javé – Jehovah, em hebraico) é mencionado dezenove vezes, reverenciado em glória e poder sobre todos
os elementos da terra: a natureza e a humanidade. As repetições relembram o estilo de alguns poemas hebraicos da antigüidade,
como o Cântico do Mar (Êx 15), os oráculos de Balaão (Nm 23 e 24) e o Cântico de Débora (Jz 5). Este poema profético de Davi
revela uma terrível tempestade que se levanta do oeste sobre o mar Mediterrâneo, passa por sobre toda a Canaã, desde o Líbano
e o Monte Hermom (Siriom), no extremo norte, a Cades (Cadesh), no extremo sul. Aí Israel permanecera por algum tempo com
Moisés, enquanto peregrinava pelo deserto. Num clímax sereno, os trovões vão desaparecendo e o Senhor surge entronizado,
em julgamento sobre seu mundo, mas também – e principalmente – para ser uma bênção entre aqueles que o amam: seus filhos,
seu povo. Os vv.5 e 6, quando comparados a Is 2.12-17, nos profetizam o Dia do Senhor, quando os “cedros do Líbano” (reis e
poderosos pagãos), bem como todos os arrogantes, ímpios e maldosos e todas as artes e edificações nas quais o ser humano
coloca seu orgulho e louvor, serão aniquilados pelo poder da glória do Senhor. Embora esse quadro sugira o terrível dia do juízo
final, neste salmo o tom dominante é o júbilo do crente, expresso no v.9: “todos bradam: Glória!”
4
Literalmente, em hebraico: “O Eterno os faz saltar como bezerros, os próprios montes do Líbano e Siriom, como filhotes”. Os
sidônios chamavam o monte Hermom de Siriom; os amorreus o chamavam de Senir (Dt 3.9).
5
Algumas versões trazem: “faz as corsas darem à luz”. Entretanto, o termo hebraico original ליחי yachil, às vezes traduzido
como “abortar”, neste caso significa “tremer”. Por outro lado, em aramaico, a expressão tem o sentido de “sacudir os animais da
floresta”. A expressão hebraica transliterada “os carvalhos” difere da expressão “faz darem cria as corças”. Entretanto, as majesto-
sas árvores (como o cedro e o carvalho), simbolizam a arrogância dos inimigos de Deus e do seu povo, e que serão humilhados a
ponto de reconhecer a glória do Senhor (Is 2.13; 10.18,33; 32.19; Jr 21.14; 46.23; Ez 21.2; Zc 11.2). Por isso, a expressão “todos
bradam” foi transliterada do original hebraico como “tudo grita”, enfatizando que “tudo” pertence a Deus. Portanto, Deus requer
um brado de “Glória!”, não apenas ao santuário material, mas principalmente dos “templos vivos” (1Co 3.16-17; 6.19).
6
A palavra hebraica traduzida por “Dilúvio” só aparece nos originais de Gn 6 a 11. Davi escolheu a expressão mais significativa
para mostrar ao mundo de sua época e a todas as gerações futuras: 1) Que o poder e a majestade do Senhor são sobre todas
as potestades: 2) O universo e tudo o que há pertencem ao Senhor. 3) Os ímpios, arrogantes e toda a glória humana serão ani-
quilados. 4) Assim como Deus primeiro julgou o mundo por meio do Dilúvio, mediante o fogo virá o juízo final (2Pe 3.3-10). 5) Os
33 SALMOS 30
A restauração vem do Senhor
Salmo e cântico de Davi para a dedicação da
Casa ao Senhor.
1
30
Eu te exalto, ó SENHOR, pois que
me reergueste e não permitiste
que meus inimigos
2
escarnecessem de
mim.
2
SENHOR meu Deus, a ti clamei por livra-
mento e tu me curaste.
3
3
Ó SENHOR, tiraste-me
4
do fosso da mor-
te; pouco antes de descer à cova, devol-
veste-me a vida.
4
Cantai louvores ao Senhor, vós que sois
seus servos,
5
e dai graças ao seu santo
nome.
5
Pois sua fúr ia dur a um só inst ante,
mas sua miser icórdia prolonga-se at r a-
vés da vida. O pr anto pode dur ar uma
noite, mas a alegr ia nasce ao romper do
dia.
6
6
Em meio a prosperidade, afirmei: Ja-
mais serei abalado!
7

7
Foste tu, ó SENHOR, que por tua mercê,
estabeleceste a minha força como uma
montanha; contudo, ao encobrires a tua
face, fiquei aterrorizado.
salvos e fiéis devem bradar: Glória! Pois seremos abençoados com a paz do Senhor para sempre. Veremos o “arco da aliança do
Senhor” nos céus, como os salvos do Dilúvio testemunharam a graça de Deus, cujo sinal se perpetua até nossos dias. O salmo
que começou em Gloria in excelsis termina com in terra pax.
Capítulo 30
1
A expressão original em aramaico aqui traduzida por “Casa” é a mesma utilizada para “templo” ou “palácio” (2Sm 5.11; 6.9-14; 1
Rs 8.63). A tradição judaica aponta para a celebração – ainda hoje vigente – de Hanuká, comemoração da dedicação do altar do tem-
plo: ריבר debir “sala interior do templo” ou “lugar santíssimo”. Davi consagra seu palácio real ao Senhor e ensina o povo a consagrar
suas vidas (seus templos) e suas casas ao Senhor. Pois sem ações de graças não existe qualquer uso puro e lícito dos bens que Deus
nos permite possuir por um tempo. Por isso, ao oferecerem as primícias a Deus, reconheciam que estavam oferecendo ao Senhor o
excedente do ano inteiro (essa é a idéia básica do dízimo, melhor compreendida no NT). De igual forma, ao consagrar a Deus suas
habitações, declaravam-se arrendatários de Deus, confessando-se estrangeiros, e que Deus era quem os hospedava e lhes concedia
a moradia. A cerimônia passou a ser levada tão a sério pelo povo de Deus, que uma família só declarava sua residência “consagrada”,
quando se sentia segura para afirmar que aquela “casa” podia ser considerada como um “santuário de Deus”, pois nela reinava
genuína piedade e imaculado culto a Deus – Yahweh. Embora o rigor dessas leis não prevaleça no NT, o apóstolo Paulo nos exorta a
que todas as coisas, as quais Deus nos concede a graça de conquistar, sejam ainda “santificadas pela palavra de Deus e pela oração”
(1Tm 4.4-5). Davi estava exultante pela dupla bênção recebida: havia recebido a restauração da própria vida e a restauração do reino.
Em algumas traduções da Bíblia, bem como no AT em hebraico, este subtítulo é considerado como o primeiro versículo do salmo.
2
Estando debilitado física e psicologicamente, Davi rogava a Deus que seus inimigos não vissem, em sua ruína, motivo para
zombar do poder e do cuidado que o Senhor dispensa aos que nele esperam. De modo semelhante, Ezequias, mais tarde,
buscaria no Senhor forças para que suas esperanças prevalecessem sobre seus inimigos (2Rs 19.3). No NT, o apóstolo Paulo
expressa sua preocupação positiva (At 20.24), e vê o cumprimento da graça do Senhor (2Tm 4.7). Mais importante do que co-
meçar bem é terminar bem.
3
O termo hebraico original אפר rapha significa “curar”, mas seu sentido é ainda mais amplo, podendo ser compreendido
também como “restaurar” ou “recompor”. Algumas vezes é aplicado à “reforma” de uma casa e em outros casos refere-se a um
“livramento” importante. Deus respondeu às orações de Davi e o abençoou com cura física, emocional, e o livrou de todos os seus
inimigos. Por isso Davi conclama todos os fiéis – de todas as épocas – a se unirem num brado de louvor ao Senhor.
4
Davi esteve muito doente, à beira da morte. Ao mesmo tempo foi perseguido cruelmente por seus inimigos que, como lobos,
procuravam destruí-lo e festejar sua derrota com seu próprio sangue. Esta expressão é a mesma usada em Êx 2.10, quando a
filha do faraó dá o nome de Moisés ao filho adotivo, dizendo: “Porque eu o tirei das águas”. Nos originais, em hebraico, oינתילד
“içar de um poço”. Literalmente seria: “Tu me tens içado para fora de um calabouço”. Davi se viu próximo do Sheol (sepulcro,
profundezas, pó ou lugar dos mortos) Ez 32.18-32; Jó 3.13-19; 10.22; Ec 2.16; Is 5.14; 14.13; 26.19; 38.18-19; Dn 12.1-3; Jn 2.2;
Hc 2.5; Mt 16.18; Jo 9.4; Hb 9.27.
5
O termo hebraico םיריסח chasidin significa “mansidão”, mas com freqüência descreve os fiéis e sua adoção celestial, a qual
deve motivá-los à prática do bem em favor do próximo (Mt. 5.45).
6
O termo hebraico transliterado em “indignação” deve ser compreendido ao lado da expressão “pequeno intervalo de tempo”,
demonstrando a cólera ou ira momentânea do Senhor com sua repreensão e correção, severa e amorosa, e nunca desassociada
de sua eterna misericórdia e proteção para com os seus. O NT tornará mais claro esse conceito de “tristeza que produz alegria”
(2Co 4.17; Jo 16.20-22), bem como a correlação entre os problemas agudos, graves, mas passageiros, e o “eterno peso de
glória” (2Co 4.17).
Literalmente: “Ao entardecer, o choro pode chegar para passar uma noite...”.
7
A expressão hebraica הולש shiluah tem a ver com um tipo de segurança que é fruto da fé nas circunstâncias favoráveis, as
quais podem nos induzir a crer que somos auto-suficientes, esquecendo-nos de nossa dependência constante de Deus. É saudá-
vel desenvolver uma elevada auto-estima e autoconfiança. Entretanto, quando essas virtudes se tornam em arrogância e soberba,
a queda está próxima (Pv 1.32-33; Jr 22.21).
34 SALMOS 30, 31
8
A ti, ó meu Deus
8
, clamei. Ao SENHOR
supliquei misericórdia:
9
Que proveito haverá em meu sangue,
se me fizeres descer à sepultura? Acaso
louvar-te-á o pó? Poderá ele proclamar a
tua fidelidade?
9

10
Ouve, SENHOR, e tem misericórdia de
mim; SENHOR, sê tu o meu socorro.
11
Converteste o meu pranto em dança;
substituíste meu traje de luto por roupas
de alegria.
10
12
Para que todo o meu ser cante louvores
a ti e não se cale. Ó SENHOR, Deus meu,
ações de graças te dedicarei por todo o
sempre.
11
Fortaleza na angústia
Um Salmo de Davi. Ao mest re de música.
31
Em ti busquei refúgio, ó SENHOR;
não permitas que eu jamais seja
frustrado. Por tua justiça, abriga-me.
1
2
Inclina para mim teu ouvido e apressa-
te em resgatar-me. Sê minha Rocha ina-
balável, a fortaleza da minha salvação.
3
Tu és meu rochedo e a minha fortaleza;
pela honra do teu Nome, conduze-me e
guia-me.
4
Livra-me da cilada que me armaram,
pois tu és o meu refúgio.
5
Nas tuas mãos entrego o meu espírito; tu
me resgataste, SENHOR, o Deus verdadeiro.
2
8
O termo usado no hebraico original é הוהי Yahweh,Yehovah ou Jehovah. Modernamente os textos judaicos traduzem como
Adonai (Javé) ou Eterno. Calvino traduziu por Dominus.
9
O sangue contém a vida (Gn 9.6; Lv 1.5; Sl 72.14; 106.38), portanto, Davi se refere à possibilidade da sua morte. Alguns
tradutores acham a expressão “proveito” um tanto comercial, mas qualquer sinônimo não poderá fugir ao sentido original de
“prejuízo”. Davi está refletindo sobre seu grave pecado de desobediência direta às ordens de Deus e à Lei, ao promover, em
Israel, um censo com finalidade militar e por vaidade pessoal (Êx 30.12-15; Nm 1.2-4, 47-49; 2Sm 24; 1Cr 21). Deus se enfurece
com a falta de obediência (que em última análise é traição) de Davi a Ele e à Lei, da qual deveria ser fiel guardião e promotor, e
permite que uma epidemia mate cerca de setenta mil israelenses; sendo Davi, como ungido do Senhor, o responsável direto por
essa desolação entre seu povo.
10
Davi cometera muitos erros e pecados, mas não nutria qualquer insensibilidade estóica (impassibilidade diante da dor e
dos infortúnios), como ocorria com os reis pagãos. Ao ver seu povo perecendo por sua causa, Davi prostrou-se e suplicou a
misericórdia e o perdão do Único que poderia socorrê-lo: Yahweh – o Senhor. Davi cobriu-se de cilício (em hebraico: קש sak),
uma pequena túnica feita de crina, lã áspera ou farpas de madeira, que por penitência os antigos usavam sobre a pele, sem
qualquer proteção. Era um sinal público de arrependimento e martírio por um pecado cometido. A tristeza leva o fiel ao arre-
pendimento e à sabedoria (2Co 7.10). Deus se compadeceu de Davi e reconheceu a sinceridade do seu arrependimento; pois
o Senhor não olha as lágrimas, mas vê o coração, e perdoou a Davi. O perdão liberta e promove alegria interior. Davi agora
podia ir ao templo, trocar a roupa de luto e tristeza por vestes de regozijo, fazer novos votos de fidelidade a Deus e oferecer
sacrifícios de louvor e gratidão ao Senhor com cânticos e danças espirituais, conforme a tradição judaica da época (2Sm 6.16;
Sl 26.6-7; 118.27-28).
11
O termo hebraico original רובכ kebod significa “glória” e pode também ser usado no sentido abstrato de “plenitude do ser”,
o que no pensamento grego seria “alma” e para nós “coração”: o centro dos sentimentos, num sentido figurado. Os antigos
hebreus criam que o ser humano recebia a “Imago Dei” (Imagem de Deus) dentro de si, e que essa “glória” ia se intensificando e
dominando a natureza humana à medida que a pessoa se consagrasse em devoção a Deus. Davi vencera uma batalha, mas não
a guerra. Outros embates e fraquezas viriam, mas uma certeza permaneceu: a vitória será sempre daquele que, em obediência,
crer no Senhor (Rm 8.28-37).
Capítulo 31
1
Diversos homens de Deus fizeram uso deste salmo: Jeremias escreve suas confissões olhando para o v.13; Jonas faz uso do
v.6, e Jesus faz uso da primeira parte do v.5, suas últimas palavras, ao padecer na cruz do Calvário, cerca de mil anos mais tarde.
O próprio Davi, em sua velhice, começa uma de suas últimas orações, o salmo 71, retomando o conteúdo dos primeiros versos
deste salmo 31. Em algumas cópias gregas, surge a expressão “Liberta-me” que aqui foi traduzida por “abriga-me”, por estar mais
de acordo com os mais antigos e fiéis originais em hebraico. Davi buscou proteção no Senhor e a resposta de Deus é prova de sua
existência e de seu cuidado pessoal para com aqueles que nele crêem. O silêncio de Deus acarretaria a zombaria dos inimigos sobre
seu nome e a destruição de seu servo. Davi não pede porque é inocente ou mereça, mas, sim, porque é redimido (v.5).
2
Depois de presenciar a morte de milhares de pessoas do seu povo, Davi chega ao mais profundo entendimento sobre o que
é viver: é entregar sua força vital (o espírito) nas mãos do Senhor. Davi louva a Deus por seu resgate. A palavra hebraica original
transliterada em pāđâh raras vezes é empregada com respeito a expiação; o sentido mais comum e correto é o de libertação ou
resgate das aflições. O livramento aqui é tão certo como se já tivesse ocorrido (o verbo hebraico está no tempo perfeito, o que
corresponde ao pretérito perfeito em português), ou que os livramentos do passado motivam Davi a esse ato de completa entrega
do seu ser a Yahweh (em hebraico, הוהי) – Deus Único e Verdadeiro (Lv 6.4; 1Rs 14.27; Jr 36.20; Lc 23.46). Davi condena a idolatria
e aponta para o Único capaz de nos livrar das ciladas do inimigo e da morte eterna. Cerca de mil anos mais tarde, Jesus Cristo
repete a expressão de entrega de Davi, diante do seu povo. Agora não eram milhares de pessoas morrendo por causa do pecado
35 SALMOS 31
6
Repudio os que se mantêm em crenças
vãs e enganosas. Eu, porém, confiarei só
no SENHOR!
3
7
Exultarei com grande alegria por tua
misericórdia, pois viste a minha aflição e
compreendeste a angústia da minha alma.
8
Não me entregaste nas mãos do inimi-
go, mas aplainaste um caminho para que
meus pés passassem seguros.
4

9
Tem misericórdia de mim, ó SENHOR!
Pois o desespero tomou conta da minha
alma e do meu corpo; os meus olhos se
consomem em prantos.
10
A minha vida tem transcorrido em
aflição, em lamentos, meus anos; devi-
do à culpa, minhas forças se esgotaram e
meus ossos se enfraqueceram.
5

11
Por causa da quantidade de inimigos
que me cercam, tornei-me um escândalo;
para meus vizinhos, objeto de desonra; e
terror, para os meus amigos. Os que me
vêem na rua fogem para longe da minha
presença.
12
Sou esquecido por eles como se esti-
vesse morto; sou considerado como um
vaso quebrado.
13
Ouço muitos murmurando sobre mim;
o pavor me cerca por todos os lados,
6
pois
sei que conspiram contra mim, tramando
como tirar-me a vida.
14
Mas em ti confiei, ó SENHOR, e procla-
mei: “Tu és o meu Deus!”
15
Os meus dias estão em tuas mãos;
livra-me dos meus inimigos e daqueles
que me perseguem.
7
16
Faze resplandecer sobre mim a tua
face;
8
salva-me por tua benevolência.
17
Não seja eu decepcionado, pois com fé
te invoquei; humilhados e sem esperança
deixa os ímpios; que calados, fiquem no
túmulo.
9
18
Sejam emudecidos os seus lábios men-
de um ungido do Senhor, mas sim o Ungido de Deus que entregava seu fôlego de vida humana, seu espírito, em sacrifício ao Pai,
para a salvação de milhões e milhões de cristãos, pelos séculos dos séculos. Por isso, Estêvão o invoca para que seja seu refúgio,
ao clamar: “Senhor Jesus, recebe o meu espírito” (At 7.59).
3
Davi tinha uma convicção inegociável: ele amava ao Senhor de todo o seu coração, e só no Senhor confiava como sendo o
Único e verdadeiro Deus – Criador do universo e da raça humana. Assim como creram Abel, Noé, Abraão, Isaque, Jacó, Moisés e
todos os demais profetas e homens de Deus (Hb 11). A expressão hebraica לבה hebel não se refere apenas a adoração a ídolos,
mas também inclui em seu amplo significado, as crenças em teorias fúteis, ilusórias e inverossímeis. Por isso, todos quantos
se deixam influenciar por cultos a ídolos, superstições, benzeduras, astrologia ou amuletos, assim como os animistas, deístas,
heréticos ou agnósticos precisam ouvir a voz de Deus, arrepender-se de seus pecados, e entregar-se ao Senhor (Cl 2.8). Algumas
versões trazem “tu detestas” ou “aborreces”, mas o termo no original hebraico indica que Davi é quem se expressa; “eu rejeito”
ou “eu detesto” podendo ser estas outras traduções plausíveis.
4
O verbo hebraico original, aqui traduzido por “entregaste” era, normalmente, usado para indicar a condenação de alguém à
prisão, contrastando com a liberdade declarada no v.8, o que dá à poesia hebraica beleza e significado ainda maiores. Deus usa
seu poder para amorosamente escutar o íntimo (alma) de cada um de nós, e nos responde segundo sua misericórdia infinita e
seu plano maravilhoso para cada indivíduo, por quem ele anseia ser chamado de Abba (papai ou pai querido, em aramaico Êx
3.6; Mc 14.36; Rm 8.15; Gl 4.6).
5
A expressão hebraica ןוע on tem um significado amplo e curioso para a cultura ocidental: tanto pode significar “pecado” como
castigo – especialmente na forma de culpa – que advém do erro cometido e persegue renitentemente o culpado, aterrorizando
sua mente, chegando a provocar depressões profundas e diversas reações psicossomáticas (cefaléias, dores musculares, diabe-
tes, alergias, bronquites, úlceras e até cânceres). Além disso, a forma hebraica usada aqui (עןו) significa a “aflição” do remorso que
a iniqüidade (extrema injustiça) sempre produz (Gn 4.13; 1Sm 28.10; 2Rs 7.9; Is 53.6-11). Ocorre que não era Deus quem estava
condenando Davi, mas, sim, ele mesmo (a consciência), os homens (inimigos), e o diabo (o Inimigo), nossos maiores acusado-
res. Ao tirar os olhos do perdão de Deus, veremos um exército pronto a nos fuzilar. Jeremias conhecia esse assédio perverso (Jr
6.25; 20.3-10; 46.5; 49.29; Lm 2.22), a que chamou de “terror de todos os lados”.
6
A expressão hebraica “Magor- Missabib” (Terror-por-todos-os-lados) foi o mesmo nome que Jeremias deu a Pasur, o sacerdote
que havia mandado açoitar o profeta, significando que “ele seria terrível para si e para todos os seus amigos” (Jr 20.1-4).
7
Em meio aos rumores de morte e às ciladas dos inimigos, Davi recorre à sua mais poderosa arma: sua fé absoluta em Yahweh
– Nosso Único e Poderoso Deus. E afirma sua convicção no livramento do Senhor conjugando, no original hebraico, o futuro,
como se passado fora. Além disso, Davi enfatiza a soberania de Deus e sua intimidade e dependência do Senhor para viver cada
dia, antes de expressar suas petições.
8
Davi recorre à Palavra de Deus, como todos nós deveríamos proceder – especialmente em meio às tribulações da vida – e
suplica a bênção do Senhor (Nm 6.25), que se tornou marca e tradição do povo de Deus. Essa expressão hebraica traz, em seu
sentido original, a idéia de: “Senhor, mostra tua misericórdia e generosidade para com teu servo”.
9
Davi suplica que o Senhor demonstre, uma vez mais, que a fé daqueles que confiam em Deus não é vã; ao contrário dos
36 SALMOS 31, 32
tirosos, pois com arrogância e desprezo
desonram os justos.
19
Imensa é a misericórdia que destinas
àqueles que te temem e que, à vista de
todos, dispensas aos que em ti buscam
refúgio.
20
No recôndito da tua presença os abri-
gas das intrigas dos soberbos; na tua ha-
bitação, os proteges das línguas maledi-
centes.
21
Bendito seja o SENHOR que me fez
conhecer sua miser icórdia e lealdade
quando eu est ava em uma cidade cer-
cada.
10
22
Em meu desespero, pensei: Fui excluí-
do da tua presença! Contudo, tu ouviste
as minhas súplicas quando clamei por
teu socorro.
11
23
Amai o SENHOR, vós todos os seus fiéis.
O SENHOR defende os leais, mas aos arro-
gantes retribui com largueza.
12
24
Sede fortes e corajosos; Ele fortalecerá
o vosso ser, vós todos os que confiam e
esperam no SENHOR!
13
O perdão que restaura
Um salmo didático de Davi.
1

32
Bem-aventurado aquele que tem
suas transgressões perdoadas e
seus pecados apagados!
2
Como é feliz aquele a quem o SENHOR
não considera iníquo e em cuja alma não
há hipocrisia!
2
3
Enquanto mantive meus pecados in-
confessos, meu ossos se definhavam e
minha alma se agitava em angústia.
3

caluniadores e ímpios, cuja astúcia e crueldade os conduzirá para o silêncio do Sheol (expressão hebraica para morte, túmulo,
sepulcro ou volta ao pó) e à completa falta de esperança. Os incrédulos e faladores serão obrigados a se calar diante da justiça
e do poder do Senhor – nosso salvador.
10
Davi exalta a proteção que o Senhor concede a seus fiéis, realizando seus feitos em público (“diante dos filhos dos homens”,
como traduziu Calvino). Por isso, com esse eulogium (louvor, em latim), o salmista proclama o poder da divina providência,
porquanto ela é suficiente para eliminar todos os males e promover o livramento e a justiça; enquanto brilha sobre os piedosos,
concedendo alívio, consolo e vitória, ela cega, cala e debilita as mãos dos perversos. A expressão hebraica םיסביר rikasim indica
que as pessoas perversas e malévolas são antes de tudo “soberbas”, pensam sobre si mesmas muito além do que convém e, por
isso, se julgam merecedoras do serviço e louvor dos mais humildes (v.20). Aos fiéis, entretanto, o Senhor os guarda, protegidos,
em seu recôndito; “seu mais oculto” ou “à sombra da tua presença”, como em alguns textos hebraicos.
11
A expressão hebraica זפח chaphaz, traduzida em algumas versões por “pressa” ou “espanto”, realmente tem um significado
mais amplo, refletindo o estado de ansiedade, pânico e desespero que conturbava o equilíbrio psicológico de Davi naquele
momento, assim como já havia ocorrido outras vezes (116.11). O termo hebraico ןבא aken deve ser entendido aqui como palavra
adversativa, “todavia” ou “não obstante”, a fim de mostrar que apesar dos maus pensamentos e sentimentos de deserção, com
os quais todos nós somos tentados, a graça e a imensurável bondade do Senhor trouxeram Davi à sensatez da fé, venceram a
incredulidade, e moveram sua alma a conclamar seu povo para confiar em Deus e adorá-Lo.
12
A expressão hebraica original רתי־לע al-yether aparece em algumas versões com o sentido de “dar ao ímpio o que ele me-
rece”. Entretanto, a expressão tem um sentido mais complexo e abrangente, mostrando que a justiça de Deus é extremamente
severa para com o incrédulo, podendo estender-se a seus filhos e netos.
13
Esta é uma tradução mais significativa do ponto de vista do conteúdo dos melhores originais hebraicos. Estamos diante
de uma garantia de ajuda e companheirismo de Deus, se tivermos a ousadia (coragem) de aceitar o convite do Senhor, em vez
de uma dupla exortação, como aparece em algumas versões. De qualquer forma, não se trata de uma promessa de pôr fim aos
problemas, mas de conceder capacidade para vencê-los (Lc 22.42,43).
Capítulo 32
1
Este salmo é uma seqüência do Salmo 51, e são chamados de “salmos penitenciais”. Neles Davi confessa seus pecados
cometidos a partir do momento em que se permitiu tentar e seduzir pelos encantos físicos de Bate-Seba. A expressão hebraica
7`22C maskil, traduzida aqui como “didático”, significa um poema contemplativo e pedagógico, em que as duas partes (vv.1-7 e
8-11) de ritmo diferente se respondem. Tendo experimentado, no corpo e na alma, quão severa é a correção (o peso da mão divi-
na) do Senhor contra aqueles que fazem o que não é justo diante de Deus, proclama seu aprendizado: estar em íntima comunhão
com Deus é a verdadeira felicidade. Davi descreve a bênção do perdão do Senhor, que restaura plenamente o fiel, e que se seguiu
à disciplina e à confissão (vv.1-5); depois anima outros a buscarem o livramento divino em vez de teimosamente se recusarem a
segui-lo (vv.6-10), exortando-os, finalmente, a se alegrarem no Senhor (v.11).
2
No NT, o apóstolo Paulo fará uso deste texto para mostrar que a justiça em nós criada, não vem de nós mesmos, mas é uma
dádiva de Deus, concedida aos fiéis (Rm 4.6-8). Somente pela fé no Senhor, é possível apropriar-se da justificação e, portanto,
sentir-se plenamente restaurado (Gn 15.6). A expressão “alma” ou “espírito” traduz o sentido hebraico antigo de “entranhas” ou
“íntimo dos sentimentos e decisões humanas”.
3
O reconhecimento do erro, com a devida e sincera confissão ao Senhor, e o forte propósito de se afastar dele, incluindo,
quando possível, restituição do prejuízo causado, fazem parte de um processo terapêutico que conduz o pecador a libertação
37 SALMOS 32, 33
4
Pois dia e noite a tua mão pesava sobre
mim e minhas forças se desvaneceram
como a seiva em tempo de seca.
4
Pausa
5
Confessei-te o meu pecado, reconhe-
cendo minha iniqüidade, e não encobri as
minhas culpas. Então declarei: Confessa-
rei minhas transgressões para o SENHOR, e
tu perdoaste a culpa dos meus pecados.
Pausa
6
Dessa maneira, todos os que têm fé
orem a ti, enquanto podes ser encontra-
do; quando as muitas águas se levanta-
rem, elas não os alcançarão.
5

7
Tu és o meu abrigo seguro; tu me livras
das aflições e com cânticos de salvação
me envolves.
6
Pausa
8
Diz o SENHOR: Instruir-te-ei e te guiarei
no caminho a seguir; os meus olhos esta-
rão sobre ti para aconselhar-te.
9
Não sejais como o cavalo ou a mula,
que não possuem compreensão, mas
precisam ser controlados com o uso de
freios e rédeas, caso contrário não pode-
riam obedecer.
10
Muitos são os sofrimentos do ímpio,
mas a bondade do SENHOR protegerá
quem nele confia.
11
Alegrai-vos no SENHOR, ó justos, e can-
tai bem alto, vós todos que sois retos de
coração!
7
Louvai o Criador do Universo
33
Ó justos, exultai no SENHOR! O de-
sejo dos retos é louvar a Deus.
1

2
Celebrai ao SENHOR com harpa, ofere-
cei-lhe música com lira de dez cordas.
e felicidade plenas. O verbo hebraico שרח, na conjugação hiphil, significa: ponderar, considerar, estar em profunda meditação
e preocupação. No texto, seu sentido não é o de “cobrir” ou “calar”, como aparece em algumas versões, mas, sim, o de “não
confessar” ou “não declarar” ao Senhor – com genuíno arrependimento – os erros (pecados) cometidos. Em 1Co 11.30, o após-
tolo Paulo esclarece sobre o auto-exame das consciências diante de Deus, antes de se participar da comunhão dos fiéis. Muitas
doenças são fruto de consciências pesadas e em falta diante do Senhor, cuja cura estaria na confissão a Deus e na comunhão
com os irmãos de fé.
4
As expressões hebraicas transliteradas em lesaday “um feixe de palha ou um campo” e leshaddi “minha seiva” formam um
jogo de palavras poéticas de difícil decifração. Tanto que Jerônimo traduziu por: “revolvi-me em minha miséria enquanto se
inflamava a ceifa”.
O texto siríaco apresenta uma boa tradução: “minha dor se revolveu em meu peito até aniquilar-me”. Em aramaico: “minha
seiva se alterava com o ardor da seca”.
5
Davi se refere ao tempo da Graça, ou seja, hoje. Haverá um tempo em que a Graça do Senhor será recolhida da terra e, nesse
dia, não haverá mais possibilidade de se falar com Deus por meio da oração com a certeza de que ele está pronto para ouvir com
misericórdia e perdão (Is 55.6-7). Na versão Septuaginta (o AT em grego), a tradução é: “No tempo de achar favor”; na Arábica,
“Numa época de se ouvir”; e na Siríaca, “Num tempo aceitável”. A expressão “as muitas águas” tem a ver com a lembrança do
grande juízo do dilúvio e se refere a todos os perigos e sofrimentos dos quais parece não haver qualquer possibilidade de escape.
Entretanto, para aquele que coloca toda a sua confiança (fé) no Senhor – Yahweh, permanece a profecia de Joel: “E ocorrerá que
todo aquele que clamar o nome do Senhor será salvo” (Jl 2.32).
6
Os salmos de Davi são recitados até hoje nas casas judaicas e nas sinagogas em todo o mundo. Alguns judeus costumam ler
todo o livro uma vez por semana, outros completam a leitura e recitação em um mês. Este versículo é assim transliterado: Ata séter
li mitsar titserêni, ranê falet tessovevêni sêla. Como já foi explicado, o termo sêla ou selá foi traduzido como Pausa.
7
Davi confessou seus pecados ao Senhor e, tendo sido perdoado pelas misericórdias de Deus (1Jo 1.9), agora retoma sua
posição de rei e profeta ungido. Nos melhores textos hebraicos, aparece a tradicional intervenção do Senhor, quando fala por
meio do profeta: “Diz o Senhor:”(v.8), para todos nós, pois no texto original as instruções do Senhor estão no plural (v.9). Somos
exortados a cultivar uma alma (espírito) capaz de aprender e adquirir sabedoria. Se o perdão é bom, a comunhão é melhor. Se
já sentimos o “peso da mão” do Senhor, é melhor valorizarmos seu toque mais suave e seus conselhos. Somos convidados a
uma cooperação inteligente e amiga com Deus (Jo 15.15). Por mais que se adestre um cavalo, jamais se poderá ensiná-lo a
refletir sobre um conselho dado. Por isso, as expressões hebraicas עשר (atitude indomável e impensada) e חטב (atitude dócil e
reflexiva) são usadas em bela oposição poética para ilustrar o contraste dos irracionais em relação aos sábios. Cavalos e mulas
só aprendem a obedecer em função de pressões e condicionamentos físicos (Jr 8.6). Mas todos aqueles que amam o Senhor
com sinceridade podem bradar de alegria, expressando na adoração os cantos de livramento, já antecipados pelo salmista, em
meio à aflição (v.7).
Capítulo 33
1
Não há indicação de autoria neste salmo. Entretanto, a convocação inicial retoma a nota com a qual terminou o salmo anterior:
“exultai”, é da mesma raiz que “cânticos de salvação” e “cantai bem alto” (32.7,11). O termo hebraico הוא avah significa “querer”
ou “desejar”. Embora algumas versões o tenham traduzido por “ficar bem”, o sentido mais fiel da expressão original é mostrar que
os fiéis sentem naturalmente um forte desejo de louvar a Deus por meio de poemas, hinos e cânticos; notadamente em voz alta
38 SALMOS 33
3
Entoai-lhe um cântico novo, tocai com
arte e júbilo na ovação.
2

4
Porque a Palavra do SENHOR é verdadei-
ra; Ele é fiel em tudo o que realiza.
5
Ele ama a justiça e o direito; a terra está
repleta da bondade do SENHOR.
3

6
Os céus foram criados mediante a pala-
vra do SENHOR, e todos os corpos celestes,
pelo sopro de sua boca.
4
7
Ele recolhe as águas do mar num vaso, e
dos abismos faz reservatórios.
5

8
Toda a terra tema o SENHOR; tremam dian-
te dele todos os habitantes do mundo.
9
Pois ele falou, e tudo se fez; Ele ordenou,
e tudo surgiu.
10
O SENHOR desfaz os planos das nações
e frustra os intentos dos povos.
6

11
Mas os planos do SENHOR permanecem
para sempre, os projetos do seu coração
por todas as gerações.
12
Feliz a nação cujo Deus é o SENHOR, o
povo que Ele escolheu para lhe pertencer!
13
O SENHOR olha dos céus e observa toda
a humanidade;
14
do seu trono Ele contempla todos os
habitantes da terra;
15
Ele que forma o coração de todos, que
conhece tudo o que fazem.
16
Não há um monarca que se salve com
a força dos seus exércitos; nem o guerrei-
ro mais poderoso pode se livrar.
17
O cavalo é ilusão de livramento, e todo
o seu vigor não ajuda a escapar.
18
Eis que os olhos do SENHOR estão sobre
os que o temem, sobre os que firmam
toda a esperança em suas misericórdias,
e com muita alegria espiritual. Os anjos são mestres nesse mister. Enquanto, no verso 3 o verbo “entoai” reflete com propriedade
os gritos de aclamação ao Rei (Nm 23.21), pede, também, três qualidades raramente encontradas juntas em músicas religiosas:
originalidade, perícia e santo fervor.
2
Quanto mais os fiéis são dedicados a fazer a vontade de Deus, mais belo e eloqüente é o louvor que produzem. A expressão
hebraica ביטיה heytib é uma convocação a que se cante com força e harmonia; alto e afinado. Esse termo tem origem nos gritos de
guerra do passado (Êx 32.17; Js 6.5; Jz 7.20-21; 1Sm 17.20,52; Jr 4.19; 49.2; Os 5.8; Am 1.14). Era uma saudação a Yahweh – o
Senhor, como Rei e Comandante da guerra (Nm 23.21; Sf 1.14; cf. 1Sm 10.24), e à arca sagrada, seu baluarte (1Sm 4.5; 2Sm
6.15). Depois do Exílio esse “grito ritual” (ovação ou aclamação) toma um sentido cultural e litúrgico; ele exalta Yahweh, Rei de
Israel e dos gentios (Sl 47.2,6; 89.16; 95.1; 98.4,6), o Salvador (Is 44.23) e o Juiz (Jl 2.1), bem como seu Messias (Zc 9.9). Esse
brado de louvor é lançado nos dias de festa (Ed 3.11, cf. Jó 38.7), nos sacrifícios de ação de graças (Sl 27.6; 100.1; Jó 33.26) e
nas liturgias (Sl 95.1,2; 100.1 cf. Nm 10.5).
3
Os versículos 4 e 5 são o coração deste salmo: Deus é fidedigno em todas as suas palavras e obras, caracterizadas por
retidão, justiça e graça. O sofrimento e a injustiça que ainda cobrem a terra não provêm de Deus, são frutos de desobediência,
ignorância, arrogância e avareza humanas, insufladas pelos ideais destrutivos e perversos de Satanás. Olhemos, por exemplo,
a figura do deus grego Zeus, deus que odiava e guerreava com outros deuses e com a humanidade. Milhões de pessoas, ainda
hoje, crêem em deuses semelhantes, e o resultado dessa fé descabida é dor e ódio.
4
O salmista invoca o ato da criação (Gn 1) para exaltar o poder e o propósito de Deus para com a humanidade. Deus ordenou,
e as coisas vieram a existir do nada. Deus fez tudo o que existe mediante sua “palavra” e “sopro”, ou seja, seu “hálito”, cujo vo-
cábulo original hebraico é o mesmo para “espírito” (Jó 26.13). O sopro de Deus é o “verbo”, a “palavra”, o “logos eterno”: Jesus
Cristo – a expressão criadora exalada por Deus – o Pai (Jo 1.1-5). A palavra de Deus é sempre criadora e produtiva, jamais volta
vazia (Is 55.11). Por isso, devemos viver e pregar a Palavra. O salmista confirma a veracidade e originalidade do primeiro capítulo
de Gênesis, refuta qualquer teoria sobre a geração espontânea e casual do universo, e afirma – na seqüência – que todas as
pessoas da terra poderiam estar gozando de excelente condição de vida, se apenas, cressem, com sinceramente, no verdadeiro
Deus e Pai – Yahweh (Is 1.1-20).
5
A bondade de Deus para com a humanidade se revela na maneira amorosa e especial com que o Senhor colocou nosso pla-
neta em sua órbita elíptica e precisa, ao redor do Sol. Mais próximos não suportaríamos o calor, mais distantes a terra seria apenas
uma grande esfera congelada no espaço. O zelo de Deus para com sua criação levou-o a fazer da terra um grande jardim para os
seres humanos. A expressão hebraica transliterada em nō’đ significa odre – normalmente usado para conter o vinho – botija ou
vaso. As traduções antigas, lendo o Texto Massorético, traduziram equivocadamente a expressão nē’ď, que significa “montão”.
As versões antigas entendiam que as consoantes hebraicas significavam “odre”. Os textos hebraicos hoje usados nas sinagogas
trazem a expressão “vaso”, no sentido de “lugar” ou “recipiente” onde o Senhor, delicadamente, represou as águas dos mares e
oceanos para desenvolver nosso ecossistema planetário.
6
O salmista compara a glória obediente da natureza à rebeldia injusta do homem. Os planos do Senhor serão todos imple-
mentados e sua vontade permanecerá eternamente (Is. 40). Todos os projetos humanos e as próprias ciladas do diabo redundam
em nada e apenas servem para cumprir a Palavra de Deus (Is 44.25ss; 45.4-5) onde, aos escolhidos de Deus, são reveladas as
implicações da salvação (v.12; Is 41.8-13; 42.1). A tradução grega, Septuaginta, acrescenta uma frase que não está no original
hebraico nem nas versões Caldaicas e Siríaca, a saber: Καὶ άθετει βουλὰς άρχο ντων , ou seja, “e frustra os conselhos dos príncipes”.
A Vulgata, Arábica e Etiópica, copiando a Septuaginta, cometem o mesmo equívoco e apresentam também esse acréscimo.
39 SALMOS 33, 34
19
para livrá-los da morte e garantir-lhes
a vida, mesmo em épocas de fome.
20
Todo o nosso ser esper a no SENHOR;
Ele é o nosso amparo e a nossa prote-
ção!
21
No SENHOR se alegrará nosso coração,
já que em seu santo Nome colocamos
toda a nossa fé.
22
Derrama sobre nós tua bondade, ó SE-
NHOR, em proporção às esperanças que só
em ti depositamos.
7
Graças pelo livramento
Um salmo de Davi, quando se fingiu de louco
diante de Abimeleque, que o expulsou. E, assim
pôde escapar.
1
34
Bendirei o SENHOR em toda cir-
cunstância, seu louvor estará sem-
pre em meus lábios.
2
N Alef
2
Eu me gloriarei no SENHOR; que todos
os humildes e oprimidos ouçam e se ale-
grem.
3
2 Bet
3
Proclamem a majestade do SENHOR co-
migo, e todos a uma voz, exaltemos o
seu Nome.
. Guimel
4
Busquei o SENHOR e ele me respondeu,
e dos meus temores todos me livrou.
¨ Dalet
5
Contemplai-o e sereis iluminados de
felicidade; vossos rostos jamais experi-
mentarão a decepção.
4
¨ He
6
Clamou este pobre homem, e o SENHOR
o atendeu; e o libertou de todas as suas
tribulações.
* Zayin
7
O Anjo do SENHOR acampa-se ao redor
7
O julgamento e a salvação ficaram evidentes, pois o poderoso domínio de Deus não é tirano. Baseia-se no perfeito conheci-
mento (vv.13-15), controle (vv.16-17) e amor (vv.18-19). A palavra hebraica para “todos”, no v.15, é “juntos”, o que assevera não sua
uniformidade, mas, sim, o discernimento que Deus tem de todos os seres humanos, como indivíduos. Os versos 18 e 19 são uma
afirmação de que o fiel, com Deus, é maioria, contrariando o antigo adágio secular, nascido no coração amargurado de Voltaire: “Di-
zem que Deus sempre favorece os grandes exércitos”. Mesmo em nosso mundo corrupto e violento, não é a força que tem a última
palavra. Quando ela prevalece, é por algum propósito divino, não por seu próprio poder (Is 10.15; Jr 27.5-6). Mas o olhar amoroso e
justo de Deus estará para sempre sobre seus fiéis, para protegê-los e os livrar de todo mal. Finalmente, a esperança está no “Nome
de Deus”, ou seja, em seu caráter revelado (Êx 34.5-7). Essa “esperança certa” não se concentra na dádiva – mesmo considerando
que há lugar para isso (Rm 8.18-25) – mas no Doador. Essa esperança (fé), jamais nos decepcionará (Rm 5.5).
Capítulo 34
1
Como já foi comentado, todos os textos iniciais dos Salmos, aqui apresentados em forma de subtítulos, fazem parte do texto
sagrado original em hebraico e compõem o primeiro versículo: Ledavid, beshanoto et tamo lifne Avimélech, vaigareshêhu vaielach.
Este é um salmo de gratidão pelo livramento milagroso de Davi das mãos de Aquis, cujo título monárquico era Abimeleque, rei
de Gate, e que significa “pai e rei”. O subtítulo indica a ocasião como sendo a de 1Sm 21.10ss, e que colocara em risco a vida
de Davi. É um acróstico, cujos versículos (menos o último) começam com as letras sucessivas do alfabeto hebraico (que aqui
aparecem antes do início dos versículos), excetuando-se waw ou vav. Passados mais de mil anos, o apóstolo Pedro faz menção
deste salmo em suas orientações à Igreja do Senhor (1Pe 2 e 3).
2
Davi tem mais uma experiência do poder e da atenção pessoal que Deus concede aos seus servos. O original hebraico nos
transmite a idéia de um contínuo louvor a Deus, independentemente das circunstâncias. Quando, enfim formos colocados em
terreno seguro e em melhores condições, poderemos comemorar o amor de Deus e testemunhar ao mundo, o valor de colo-
carmos toda a nossa esperança no Senhor e a Ele sermos fiéis. O NT é ainda mais explícito: “Em tudo dai graças” (1Ts 5.18;
conforme Rm 8.28,37).
3
Em sua humilhação, Davi louva ao Senhor e conclama todos os fiéis que passam por situações humilhantes e que estão se
sentindo oprimidos a erguerem louvores ao Senhor em todo o tempo, ou seja, sob qualquer condição. Assim como Paulo, que
também passou pela vergonha de ter de fugir do governador nomeado pelo rei Aretas, mas que se “orgulhou” nas fraquezas e
perseguições por causa do Senhor (2Co 11.30-33).
A expressão hebraica םיונע anavim descreve um tipo de pessoa que, ao passar por situações humilhantes ou aflitivas, não se
revolta, mas humildemente busca, com fé, uma solução divina.
4
O verbo hebraico ורהנ naharu é derivado da raiz רוא or e significa “iluminados”, como em Is 60.5, onde descreve o rosto
radiante da mãe que revê seus filhos, considerados perdidos para sempre. O mesmo termo se refere ao rosto de Moisés, em Êx
34.29, quando descia do monte, após falar com Deus. O NT também usa um termo semelhante, ao descrever o rosto do cristão
contemplando a glória de Jesus Cristo (2Co 3.18). Calvino faz a seguinte observação: “Iluminados são aqueles que anteriormente
se definhavam em trevas, ergueram seus olhos para Deus, como se a luz lhes surgisse repentinamente; os que se sentiram
oprimidos e submersos na humilhação, novamente revestirão seus rostos de jovial alegria”. A palavra “decepção” também pode
ser entendida como “vexame” ou “vergonha”.
40 SALMOS 34
dos que o temem, e os liberta.
5
l Het
8
Provai e vede como o SENHOR é bom.
Como é feliz o homem que nele se abriga!
C Tet
9
Temei ao SENHOR, vós os seus santos,
pois nada falta aos que o temem.
` Yud
10
Os leões podem sofrer de fome, mas
para os que buscam o SENHOR nada lhes
faltará.
6
2 Kaf
11
Filhos vinde e escutai-me; eu vos ensi-
narei o temor do SENHOR.
7 Lamed
12
Quem de vós quer ter prazer na vida, e
deseja longos dias para viver em felicidade?
C Mem
13
Guarda tua língua do mal e teus lábios
de falarem falsamente.
. Nun
14
Aparta-te do mal, e pratica o bem; bus-
ca a paz e empenha-te por conquistá-la.
7

C Samek
15
Os olhos do SENHOR contemplam os
justos, e seus ouvidos estão atentos ao
seu clamor por socorro.
V Ayin
16
A face do SENHOR está contra os que
praticam o mal, para da terra apagar
qualquer lembrança deles.
£ Pê
17
Suplicam os justos, e o SENHOR os ouve e
os liberta de todas as suas aflições.
8
3 Tsade
18
Perto está o SENHOR dos que têm o co-
ração quebrantado, e salva os de espírito
abatido.
¨ Qof
19
O justo enfrenta muitas adversidades,
5
A expressão hebraica traduzida por “O Anjo do Senhor” e extraída do versículo em hebraico, aqui transliterado em Chone
mal’ach Adonai saviv lireav vaichaletsem, surge em várias partes das Sagradas Escrituras. Em muitos casos, esse termo se refere
ao próprio Deus vindo à Terra (Gn 12.7; Gn 16.7; Gn 18.22-33;). Outras vezes, refere-se também a Deus, mas na pessoa de Jesus
Cristo: o Príncipe do Exército do Senhor, como em Js 5.14; 6.2. A essas aparições de Deus e seu Filho se dá o nome de teofania.
Mas o termo “O Anjo do Senhor” também pode ser usado para identificar “um anjo” ou “legiões de anjos” que o Senhor destaca
para missões específicas e para nos acompanhar e zelar por nossas vidas. Esses “anjos” também são chamados de “principados
e potestades” e, por ordem do Senhor, estão sempre ao nosso redor (acampados e vigilantes), cuidando da preservação da
nossa vida e, às vezes, em luta contra as potestades do mal, evitando que o diabo possa cumprir em nós seu alvo destrutivo
(2Rs 6.8-20). São “espíritos ministradores” criados por Deus para servirem “aos que hão de herdar a salvação” (Hb 1.14). Dessa
forma, jamais estamos sós. Temos o Pai e o Filho, unidos ao Espírito Santo, que reside na alma dos cristãos. E dispomos de
uma multidão de anjos ministradores observando-nos diuturnamente. Não é comum vê-los ou ouvi-los, por causa dos planos de
Deus (que espera de nós, primeiramente, fé em sua Palavra – Jo 20.29; Hb 6.5; 1Pe 1.3-12), e devido à diferença de dimensões
nas quais vivemos, mas ao deixarmos essa vida nos encontraremos com eles para o início do eterno regozijo com Nosso Senhor
(Lc 16.22; At 23.9). Uma vez que “o Anjo do Senhor” deixa de aparecer depois da Encarnação, infere-se freqüentemente que “o
Anjo do Senhor”, na maioria das vezes em que o termo aparece no A.T, refere-se à Segunda Pessoa da Trindade: Jesus Cristo, A
Palavra (logos, em grego), o Verbo Eterno.
6
Se o discípulo de Eliseu viu e creu, muito melhor é crer em Deus primeiro e reservar os louvores para o momento da concre-
tização da esperança (Jo 20.29). Hb 6.5 e 1Pe 2.3 insistem em que o primeiro passo para ver é acreditar, pela fé. A defesa e as
provisões eram as necessidades de Davi nesse momento, registradas em 1 Samuel 21, que é o cenário deste salmo. O rei usa
algumas expressões (falta/faltará), relembrando as verdades do salmo 23. O Senhor permite a fome, mas supre as necessidades
(Dt 6.24; 8.3; Rm 8.28,37).
7
Este é um trecho escrito na antiga linguagem da sabedoria hebraica, como em Provérbios, como se um velho, sábio e amoro-
so pai estivesse ensinando seu amado filho a caminhar pela vida, com sucesso. A fórmula não mudou desde a criação do univer-
so e não mudará: o temor do Senhor é o princípio da sabedoria. O bem que se ensina (v.12) vai de mãos dadas com o bem que
se pratica (v.14). Davi, numa primeira fase da vida, andava de acordo com esses princípios e os recomendava a todos, como faz
aqui (1Sm 24.7; 26.9,23). Pedro lê Davi e cita trechos deste salmo em suas mensagens à Igreja de Cristo (1Pe 2.1,22; 3.10-12).
8
Deus acompanha pessoalmente cada ser humano em sua trajetória sobre a terra. Essa companhia é tão pessoal que as
Escrituras revelam (v.15) que os olhos de Deus vêem o que nos é oculto, de modo que possa suprir nossas necessidades antes
de pensarmos em lhe pedir, mas seus ouvidos estão abertos para nós, o que significa que ele leva a sério nossas palavras e
orações e pode conversar conosco. A expressão hebraica םיקידצ tsaddikim foi omitida de algumas versões, mas significa o clamor
dos justos. Entretanto, a triste situação das pessoas que deixam o mal lhes dominar o coração e as intenções colocam-se igual-
mente de forma pessoal, no sentido de o rosto de Deus se virar contra elas (v.16). Nós não sabemos o que se passa no íntimo
da alma humana, e muito menos quem são os escolhidos do Senhor, por isso a ninguém devemos julgar (essa não é a nossa
função). Devemos proclamar a Palavra de Salvação, pois mesmo a mais cruel das pessoas ainda tem uma chance de salvação
e reabilitação em Deus (v.18).
41 SALMOS 34, 35
mas de todas elas o SENHOR o liberta. ¨
Resh
20
O SENHOR preserva-lhe todo o ser, ne-
nhum osso sequer é quebrado.
9
2 Shin
21
Os ímpios serão destruídos por sua
própria maldade, e os que odeiam os jus-
tos serão condenados.
10
! Tav
22
O SENHOR resgata a vida dos seus ser-
vos; todos os que nele buscarem refúgio
serão absolvidos.
11

O Senhor é o vingador
Um salmo de Davi
35
Advoga minha causa, ó SENHOR,
contra os que me acusam; comba-
te contra os que me perseguem.
1
2
Veste a armadura e toma o escudo; le-
vanta-te e vem em meu socorro!
2
3
Empunha a lança e o machado de guer-
ra contra os meus perseguidores; dize à
minha alma: Eu Sou a tua salvação.
4
Sejam humilhados e cobertos de vexa-
me os que buscam tirar-me a vida; retro-
cedam envergonhados e sejam aniquila-
dos os que tramam a minha ruína.
5
Sejam como a palha que o vento carrega,
quando o Anjo do SENHOR os espalhar.
6
Tornem-se-lhes os caminhos tenebro-
sos e escorregadios, quando o Anjo do
SENHOR os perseguir.
3
7
Pois sem motivo prepararam uma ar-
madilha oculta para me apanhar; e sem
causa abriram uma cova para me tragar.
8
Que de súbito venha sobre os inimigos
9
Deus tem um cuidado todo especial para com seus filhos. Por isso, as metáforas usadas apontam para os detalhes desse
amor leal (Lc 12.7). Entretanto, este trecho da Escritura vai mais além e se revela uma profecia acerca do Messias, que se cumpre
em Jo 19.36, tendo como pano de fundo a história da libertação de Israel e a marca do sangue do cordeiro nos umbrais das
portas (Êx 12.46).
10
O termo hebraico הער raäh pode ser traduzido por “maldade”, “malícia” ou “miséria”. Entretanto, o contexto do versículo
demonstra que a impiedade (com a qual os cruéis abastecem suas motivações) recairá sobre suas próprias cabeças. Tendo ensi-
nado não haver maior defesa e segurança que uma vida justa, piedosa e irrepreensível, Deus declara perversos (mesmo quando
ninguém ou coisa alguma parece se opor a eles) de repente as coisas se voltarão contra eles e os aniquilarão. Os ímpios são a
causa e o instrumento da própria destruição.
11
O termo “absolvidos” vem da expressão “não serão condenados” que advém do mesmo verbo hebraico que se traduz
“declara-os culpados” ou “condena-os!” (5.10 cf. Hb 11). É uma palavra que se associava fortemente a culpa e a sua devida
punição ou expiação (perdão e salvação) (Os 5.15; 10.2). Assim, Davi leva a interpretação para “nenhuma condenação” ou
plena absolvição daqueles que verdadeiramente se refugiam no Senhor (Rm 8.1, 33-34). Desse modo, o cristão pode cantar com
grande alegria este salmo, adicionando gratidão e louvores, por conhecer o custo inimaginável da salvação no verso 22a e o
alcance ilimitado do amor em 22b.
Capítulo 35
1
Este é um salmo da coleção dos denominados “imprecatórios” (Sl 7,35,55,58,59,69,79, 109,137 e 139). São salmos que
invocam juízo ou maldição sobre os inimigos do salmista. Entretanto, os propósitos dessas imprecações são: demonstrar o justo
e reto juízo de Deus contra os ímpios (58.11); demonstrar a autoridade de Deus sobre os ímpios (59.13); levar o ímpio a buscar
o Senhor (83.16); motivar os justos a louvarem a Deus (7.17). Por isso, encorajados por seu zelo para com Deus e sua repulsa
para com o pecado, os salmistas clamam a Deus para que puna o perverso e os vingue com sua justiça e sabedoria. A libertação
celebrada no Salmo 34 agora é vista como nem sempre imediata ou indolor, mas sujeita, de acordo com a vontade de Deus, a
atrasos (do nosso ponto de vista) e a momentos agonizantes. Davi, no entanto, jamais duvida em seu coração de que seu dia virá.
Cada pedido de socorro já prevê o momento da vitória e do livramento: todas as três grandes divisões deste salmo terminam com
esperança (35.1-10: discorre sobre as tramas; 35.11-18: revela o cerco dos cruéis e 35.19-28: a exultação maligna é aniquilada
pelo Senhor). Segundo recentes estudos, este salmo é da mesma época em que Davi estava sendo perseguido por Saul, sendo,
de certa forma, um desenvolvimento de 1Sm 24.15. A imprecação não é exatamente contra Saul (pois Davi mesmo havia poupado
a vida de Saul), mas contra aqueles que fomentavam a inveja doentia que Saul sentia por Davi.
2
A palavra hebraica traduzida por escudo é ןגמ maguen. Os recentes estudos sobre os chamados Rolos do Mar Morto, en-
contrados nas imediações do monte Qunram, revelaram que a expressão transliterada por Hachazec maguen vetsiná, vecúma
beezrati refere-se ao uso de uma proteção para o corpo e um escudo mais leve, no centro do qual se ergue uma forte saliência
encimada por uma adaga; arma de defesa e ataque usada especialmente pela cavalaria. Algumas versões traduziram essa
expressão por “pavês” ou “broquel”.
3
Este salmo é uma espécie de continuação do Salmo 34; justamente por isso foram colocados lado a lado pelo Cânon. O
contraste entre 34.5,7 e este verso demonstra claramente as bênçãos de buscar a face do Senhor e a maldição que está sobre os
ímpios e aqueles cujo coração não ama a Deus e seus princípios. As expressões “vexame, envergonhados, aniquilados, espalhar
e caminhos tenebrosos” têm a ver com a essência do castigo eterno (Dn 12.2), enquanto “o Anjo do Senhor” é a nossa salvação
e a condenação de todos aqueles que insistem em não render seus corações ao Senhor Deus, Yahweh (Êx 23.20-22).
42 SALMOS 35
a destruição: sejam enredados pela pró-
pria cilada que me armaram, caiam na
cova que escavaram para me matar e lá
se arruínem de vez.
4
9
Então, todo o meu ser transbordará de
gratidão ao SENHOR e se regozijará na sua
salvação.
10
Proclamarei ao mundo, de corpo e
alma: Quem poderá se assemelhar a ti, ó
SENHOR?
Tu livras os humilhados e fracos, do
opressor, e os necessitados e pobres, dos
exploradores.
5
11
Falsas testemunhas se levantam e me
interrogam sobre atos que não cometi.
12
Retribuem-me o bem com o mal, e
essa decepção enluta a minha alma.
6
13
Da minha parte, entretanto, quando
estiveram doentes, usei vestes de lamento;
humilhei-me com jejum e derramei sobre
meu próprio peito muitas orações.
7
14
Andei vagueando e lamentando como
por um amigo ou irmão; prostrei-me en-
lutado, como quem chora por sua mãe.
15
Contudo, assim que tropecei, eles se
alegraram e contra mim se ajuntaram;
reuniram-se às ocultas para me atacar e
agrediram-me sem cessar.
16
Como ímpios zombando do meu refú-
gio rangem os dentes contra mim.
17
Ó SENHOR! Até quando tolerarás essa
injustiça? Livra-me a alma das tramas
dos impiedosos; minha vida, dos que me
atacam como leões.
18
Render-te-ei graças perante a grande
assembléia; louvar-te-ei diante das mul-
tidões.
8
19
Que sobre mim não se rejubilem aque-
les que traíram minha amizade, nem
permitas que esses inimigos gratuitos
troquem olhares de escárnio.
9
20
Não é de paz que se ocupam; ao con-
trário, planejam falsas acusações contra
os que vivem em paz na terra.
4
A expressão hebraica aqui traduzida por “sem motivo” e “sem causa”, e que também aparece no v.19 toca no próprio nervo da
dor de Davi, o que fica ainda mais claro nos versos centrais (v.11-18). O termo האוש shoah aqui traduzido por “destruição”, não tem
o sentido de “confusão”, como aparece em algumas versões. O salmista se revela extremamente sensível à mágoa da injustiça; é
o Evangelho que faz da injustiça uma situação a ser redimida, uma oportunidade para se amar como Cristo, e seguir seus passos
(1Pe 2.18-22). Quanto à “justiça poética” reivindicada no v.8, o Evangelho a aceita como tragédia que pode ser evitada dentro do
alcance miraculoso das orações e súplicas, e não como um fim desejado (Mt 5.44; 23.37-39).
5
A expressão “Quem poderá se assemelhar a ti, ó Senhor?” evoca o cântico de Moisés (cf. Êx 15.11), como lembrança de uma
crise ainda maior que a de Davi, e do seu resultado maravilhoso. O mesmo ocorre com o apóstolo Paulo em 2Co 1.8-10, que ao
chegar à beira do desespero, lembrou-se da gloriosa ressurreição dos mortos, e isso lhe foi grande motivo de alento e esperança.
Algumas versões trazem “meus ossos” ou “meu ser”, mas como já vimos, são formas de se referir ao indivíduo completo – ma-
terial e imaterial (corpo e alma).
6
Estas “testemunhas” não eram amigos próximos, mas pessoas a quem Davi havia tratado com respeito e solidariedade (Rm
12.15). Sua surpresa e profunda decepção é reconhecer essas pessoas entre seus algozes (em hebraico: סמחירע “testemunhas
injustas e violentas”). Outros salmos expressarão ainda mais dramaticamente os sentimentos de desolação (luto) da alma, ao se
deparar com a traição de pessoas íntimas e queridas (41.9; 55.12-14). Segundo a cultura da época, a dor que Davi sente é como
se o Bom Samaritano caísse em poder de assaltantes e, ao receber uma bofetada, identificasse o agressor como aquele a quem
salvara a vida tempos atrás (Lc 10.25-37).
7
O sentido geral deste desabafo de Davi revela que ele sofreu e intercedeu a Deus por seus supostos “amigos” (agora falsos
acusadores), não apenas nas ocasiões de doença, mas também em outras adversidades. No antigo Oriente, os judeus que ama-
vam a Deus, quando oravam em profunda dor, recolhiam-se para derramar suas lágrimas a sós com Deus, e reclinavam o rosto
sobre o peito em sinal de humilhação diante do Senhor.
8
Davi se refere aos louvores próprios da “festa votiva” (22.22-26) – uma cerimônia definida pela Lei e que regulava os atos de
gratidão daqueles que se comprometiam a prestar algum serviço especial a Deus, no caso de serem atendidos em suas petições
e suplicas. Deveriam cumprir seus votos com um sacrifício, a ser seguido por uma festa que poderia durar até dois dias (Lv 7.16).
Além disso, sua felicidade não poderia ser reservada a eles e a seus filhos; pelo contrário, deveriam convidar seus servos e os
pobres e necessitados, e especialmente os levitas, a comerem com eles diante do Senhor (Dt 12.17-19). Deveriam, ainda, relatar
pormenorizadamente à congregação aquilo que Deus fizera por eles (40.9-10; 116.14), convocando-a, finalmente, a participar na
proclamação de um salmo como este (cf. 34.3 e o testemunho que se segue).
9
O ódio gratuito, ou seja, sem motivo algum é a característica própria do diabo e do mal. Jesus via neste versículo (e em
69.4) não apenas um triste acontecimento na vida de Davi, mas uma profecia do que estava reservado para si (Jo 15.25). Era a
Palavra sendo cumprida cabalmente na vida de Jesus Cristo – o Messias, e de forma fragmentada em Davi e em nossas vidas (Jo
15.18ss.) A expressão hebraica ץרק karats aqui significa “piscar os olhos em sinal de zombaria em relação a uma terceira pessoa”
e, assim como em 22.8, denota também a atitude de menear a cabeça e espichar os lábios para frente, em sinal de desprezo.
43 SALMOS 35, 36
21
Com a boca escancarada riem de mim
e me acusam: “Agora o apanhamos! Vi-
mos tudo com nossos próprios olhos!”
22
Tu, SENHOR, os vistes; não ignores seus
atos! Não te afastes de mim, ó SENHOR.
10
23
Desperta! Levanta! Faze-me justiça!
Defende a minha causa, meu Deus e meu
Senhor!
24
SENHOR, meu Deus, tu és justo; restitui
o meu direito para que eles não se divir-
tam à minha custa.
25
Não permitas que pensem: “É isso!
Exatamente como queríamos!” Nem que
digam: “Acabamos com ele!”
26
Sejam humilhados e frustrados todos
os que se alegram com a minha desgraça!
Sejam cobertos de vexame e desonra os
que se levantaram contra mim.
27
Cantem de júbilo e se alegrem os que
desejam ver a prova da minha inocência,
e repitam continuamente: “Glorificado
seja o SENHOR, que tem prazer na felici-
dade do seu servo!”
28
E a minha língua proclamará a tua jus-
tiça e o teu louvor o dia inteiro!
11
Deus vence todo o mal
Ao mest re de música. Um salmo de Davi, ser vo
do SENHOR.
1
36
Há em meu íntimo uma Palavra
do SENHOR sobre a maldade do
ímpio: Aos seus olhos não faz sentido te-
mer a Deus.
2
2
O ímpio é tão arrogante que não per-
cebe e muito menos rejeita seu pecado.

3
Suas palavras são maldosas, ardilosas e
traiçoeiras. Abandonou o bom senso, a
justiça e a prática do bem.
4
Antes de dormir, sua mente trama
ações cruéis; nada há de bom no cami-
nho que escolheu, apega-se ao mal cada
vez mais.
3

5
Mas a tua benignidade, ó SENHOR, chega
até os céus; a tua fidelidade, até as nu-
vens.
6
A tua justiça é firme como as altas
montanhas; e teus juízos, insondáveis
como o fundo dos oceanos.
4
Tu, ó SE-
NHOR, preservas a raça humana e todos
os animais.
7
Quão precioso é teu amor, ó Deus! À
10
Davi usa um contraste perfeito para mostrar que o falso testemunho dos inimigos (“Vimos tudo...) será desmentido pela
verdade, total e abrangente, que está em Deus (“Tu, Senhor, os viste...), que tudo e a todos vê e julga (Êx 3.7; cf. 2Rs 19.14ss;
At 4.29).
11
Como no início deste salmo, o louvor está aguardando o momento certo para irromper. Davi demonstra ao Senhor que, ao
contrário dos inimigos, usará sua voz (língua) para proclamar a justiça de Deus na terra e cantar louvores ao Senhor, pois a verda-
de e a justiça sempre vencerão. É o que afirma o texto original transliterado: Ulshoni teguê tsidkêcha, col haiom tehilatêcha.
Capítulo 36
1
Este é um salmo de grandes contrastes. Num relance, descreve a maldade presente no coração de todos os seres humanos
em sua forma mais cruel; por outro lado, revela todo o esplendor e alcance da multiforme bondade divina. O termo “servo do
Senhor” utilizado para descrever Davi foi escolhido e atribuído pelo próprio Senhor, como rei e ungido de Deus (2Sm 3.18; 7.5,8).
Esta forma se acha apenas aqui e no título do Salmo 18, no qual é comentada.
2
Embora haja outras versões, esta tradução mais se aproxima dos melhores e mais recentes originais disponíveis. A expressão
“Palavra do Senhor” significa “oráculo”, ou seja, a comunicação expressa de Deus ao seu servo (Gn 22.16; 2Sm 23.1-2). Enquanto
o fiel faz do Senhor seu alvo maior, o ímpio nem sequer leva em conta o respeito e o temor do Senhor, que todos os seres hu-
manos devem nutrir em seus corações. Esse é o sintoma culminante do pecado, como revelado em Rm 3.9-20, passagem que
descreve a triste condição de toda a raça humana (salvo aqueles agraciados com a salvação de Deus).
3
O salmo revela a espiral descendente do pecado, as atitudes do pecador para consigo mesmo, contra Deus, e agora em re-
lação a seus relacionamentos interpessoais. Sua mente não se cansa de maquinar o mal (Mq 2.1). O pecador segue (para baixo)
em sua trajetória, por ter espontaneamente abandonado o bem, e progressivamente se encantado com o mal (v.3b), e não como
quem nunca teve oportunidade (Rm 1.28-32).
4
Davi volta-se rapidamente para o Senhor e nos revela “hesed”, expressão hebraica, transliterada, que significa, “o amor leal e
a misericórdia pactual” do Senhor para com todos aqueles que nele crêem de todo o coração. As dimensões do amor e da justiça
de Deus são incomensuráveis: inexauríveis (céus e nuvens), inexpugnáveis (montanhas) e insondáveis (fundo dos oceanos). En-
tretanto, apesar dessa imensidão, o Senhor nos acolhe com hospitalidade e carinho paternos. A inconstância do caráter corrupto
do ser humano forma os tristes contrastes com as qualidades altaneiras do amor de Deus, conforme sua bondade e lealdade
(v.5) que formam sua aliança perpétua. Os padrões pós-modernos de nossa sociedade, onde tudo é relativo, são um pântano,
comparados com as indestrutíveis “Montanhas de Deus”; assim como descreveu Calvino em seu comentário ao texto hebraico
“Montagnes de Dieu”, pois os hebreus costumavam descrever coisas eminentes, adicionando-lhes o nome de Deus; como “rio
de Deus” (65.9), “monte de Deus” (68.15), “cedros de Deus” (80.10), “árvores de Deus” (104.16). As corretas decisões (juízos) de
Deus são incompreendidas por nossa mente limitada, e nossa sabedoria obscurecida pelo pecado.
44 SALMOS 36, 37
sombra das tuas asas os filhos de Adão
encontram refúgio.
5
8
Eles se banquetearão na plenitude da
tua casa; tu lhes saciarás a sede com as
águas puras do teu rio do Éden.
6

9
Pois em ti está a fonte da vida; graças à
tua luz somos iluminados.
10
Estende a tua benignidade aos que se
consagram a ti, a tua justiça aos que são
puros de coração.
11
Não permitas que o soberbo pise sobre
mim, nem que a mão do ímpio me faça
retroceder.
12
Eis que tombaram todos os que prati-
caram o mal; foram lançados ao chão e
jamais se levantarão!
7

A passageira alegria dos ímpios
Ao mest re de música. Um salmo de Davi, ser vo
do SENHOR.
N Alef
37
Não te indignes por causa das
más pessoas; nem tenhas inveja
daqueles que praticam a injustiça.
1
2
Pois eles em pouco tempo secarão como
o capim, e como a relva verde logo mur-
charão.
2
2 Bet
3
Confia no SENHOR e pratica o bem; as-
sim habitarás em paz na terra e te nutri-
rás com a fé.
3
4
Deleita-te no SENHOR, e Ele satisfará os
desejos do teu coração.
5
Da imensidão do cosmo e das dimensões do amor e da justiça de Deus, Davi é levado a observar o cuidado detalhado do
Criador com a humanidade e com todas as criaturas do planeta, assunto que se elabora em sua totalidade no Sl 104, e que será
retomado por Jesus Cristo, em Mt 6.25-34, para mostrar o alto valor que cada ser humano tem para Deus. No v.7, a figura de
linguagem “À sombra de tuas asas...” é uma evocação de Dt 32.11, igualmente usada por Boaz em relação a Rute (Rt 2.12), e por
Jesus Cristo (Mt 23.37), para mostrar um aspecto da salvação que embora exija humildade, oferece total segurança. A expressão
hebraica םרא ןכ Ben Adam, filho de Adão ou filho do homem, já vista no Sl 8.3, refere-se aqui aos “filhos dos homens”, uma vez
que שונא enosh significa “homem frágil”, e miserável em seu estado de pecado, que é formado do pó da terra, “Adamah”. Por isso
é que se chamam “Adão ou filhos de Adão”, isto é, “terrenos”, todos criados a partir do pó da terra para onde voltarão (Gn 2.7;
3.19). Curiosamente, a expressão hebraica םדא, Ben Adam, filho do homem, pertence à linguagem dos príncipes e, às vezes, se
refere ao “maior dos príncipes” como ao “maior dos homens”.
6
As experiências de Davi como refugiado iluminam este quadro sobre a participação nas riquezas de uma rica e grande casa:
a festa tantalizante de Nabal (1Sm 25) e a fartura em presentes oferecidos por Barzilai e seus amigos (2 Sm 17.27-29). As palavras
no original hebraico – ךינרע לחנ nachal adanecha, “o rio de teu Éden”, fazem alusão ao próprio jardim do ןרע, Éden, que significa
“jardim das delícias ou dos prazeres”. As referências ao grande banquete, e ao saciar da sede com águas puras são uma promes-
sa de plena satisfação e refrigério às almas cansadas e necessitadas dos peregrinos do Senhor, após longa jornada em meio a
escassez e provações. O homem tem uma sede dentro de si que só poderá ser saciada no jardim do Senhor (Jo 4.11-15).
7
A conclusão deste salmo comemora a vitória reivindicada pela fé; o texto no original está escrito no presente, como se a
súplica vislumbrada já estivesse acontecendo, de forma clara e concreta. Isso nos ajuda a entender o que é fé (Hb 11.1). Ou seja,
colocarmos plena confiança naquilo que esperamos e estarmos certos daquilo que ainda não pode ser visto. Davi estava disposto
a lutar contra o mal que o tentava; a louvar o Senhor em meio às provações; a suplicar com fé, pelo pleno livramento, a ponto de já
se sentir vitorioso, com os inimigos derrotados; usufruindo a graça completa e revigorante proporcionada por Deus no Éden.
Capítulo 37
1
Este é um salmo sapiencial de Davi , cujo arcabouço é um acróstico formado por letras do alfabeto hebraico introduzindo cada
par de versículos. Tertuliano o chamou de “O espelho da Providência”, sendo a melhor exposição da terceira Bem-aventurança
(Mt 5.5), na qual Jesus o citou (v.11). É, portanto, um salmo de sabedoria sobre a retribuição temporal dos justos e dos ímpios (Ec
8.11-14). Grandes hinos e muitos livros já foram escritos sobre este trecho das Escrituras.
2
O verbo hebraico רחת־לא al-tithechar significa literalmente “não te esquentes”, e nos encoraja a não perdermos a paciência ou
nos irritarmos com o aparente progresso das pessoas desonestas, que usam de todo tipo de engano e crueldade para conquistar
o sucesso que almejam. Nutrir raiva pelo sucesso do ímpio é dar chance ao coração para – ouvindo o Diabo – começar a con-
siderar que talvez Deus não esteja mais tão atento a certas injustiças neste mundo. O passo seguinte é desenvolver certa inveja
pela maneira como os infiéis conquistam o que querem; em seguida vem o distanciamento da obediência à Palavra de Deus e a
apostasia que pode transformar um servo de Deus num esquizofrênico espiritual, viciado no pecado, com saudade da santidade
e aterrorizado com a iminência do juízo (Pv 23.17-18; 24.1-2,19; Is 40.8; 1Jo 2.17).
3
A confiança (fé) no Senhor é nossa garantia de posse da terra (vitória ou sucesso total). Entretanto, estamos a caminho dessa
plenitude e, como peregrinos, seremos tentados e provados durante a viagem. Somos lembrados de que a estratégia de Deus
para vencer o “mal” é atacar com o “bem”; até porque a ira humana é incapaz de produzir a justiça divina (Tg 1.20 cf. Rm 12.21).
Jesus aprofunda esse princípio de sabedoria em Lc 6.27, cf. Pv 25.21. Para os contemporâneos de Davi e para o povo judeu de
todos os tempos e lugares, o texto fala da Terra Santa e da maneira sábia como os judeus deveriam tomar posse da terra e nela
viver em paz, alimentando-se da fé em Deus (25.13; Dt 16.20). O verbo hebraico הער re-eh deve ser tomado no sentido passivo
“sê nutrido ou alimentado”. A expressão הנומא, emunah, não apenas significa “veracidade” ou “fé”, mas também “prosseguimento
seguro por longo tempo”. Este verso fica assim transliterado: Betach badonai vaasse tov, shechan érets ur’e emuna.
45 SALMOS 37
5
Entrega o teu caminho ao SENHOR, con-
fia nele, e o mais Ele fará.
4
. Guimel
6
Ele exibirá a tua justiça como a luz, e o
teu direito como o sol ao meio-dia.
¨ Dalet
7
Aquieta-te diante do SENHOR e aguarda
por Ele com paciência; não te irrites por
causa da pessoa que prospera, nem com
aqueles que tramam perversidades.
5

¨ He
8
Deixa a ira e abandona o furor; não te
impacientes. Não te inflames, pois assim
causarás mal a ti mesmo.
6
9
Pois os malfeitores serão exterminados,
mas os que depositam sua esperança no
SENHOR herdarão a terra.
` Vav
10
Mais algum tempo apenas, e já não
existirá o ímpio; tu o procurarás em seu
lugar, porém não mais o encontrarás.
11
Os humildes herdarão a terra e se de-
leitarão na plenitude da paz.
7
* Zayin
12
O ímpio conspira contra o justo e ran-
ge contra ele os dentes.
13
O SENHOR, porém, dele se ri porque vê
chegando seu dia.
l Het
14
Os ímpios empunham a espada e re-
tesam o arco, para abater o humilde e o
pobre, e trucidar os que seguem o cami-
nho reto.
15
Mas a espada lhes atravessará o cora-
ção e seus arcos serão quebrados.
16
Mais vale o pouco do justo que a opu-
lência de muitos ímpios,
C Tet
17
pois aos ímpios serão quebr ados os
br aços, ao passo que o SENHOR sustent a
os justos.
` Yud
18
O SENHOR zela pela vida das pessoas ín-
tegras, e sua herança permanecerá para
sempre.
8
19
Não ficarão decepcionados no tempo da
desgraça, nos dias de fome serão saciados.
2 Kaf
20
Sim, os ímpios perecerão, os inimigos
do SENHOR: desaparecerão como o es-
plendor dos prados, como fumaça desa-
parecerão.
7Lamed
21
O ímpio pede emprestado e não de-
volve; o justo se compadece e dá com ge-
nerosidade.
4
Calvino, em seu comentário ao texto em hebraico, observa que o verbo ללג, galal, literalmente significa “passar, rolar ou
transferir” (Js 5.9), e que, neste verso, a expressão “Entrega”, tem o sentido de “transferir para o Senhor” nossos anseios, pre-
ocupações, frustrações e todo tipo de carga emocional, física e psicológica, a fim de que ele nos supra todas as necessidades
(55.22; Pv 16.3). A expressão foi tomada da observação do camelo em sua atitude auxiliadora, ao deitar sobre as patas para que
a carga lhe seja transferida e acumulada sobre o dorso.
5
O termo hebraico aqui traduzido por “Aquieta-te” é םור, dom, que tem o sentido de um silêncio altamente esperançoso quanto
à iminente intervenção de Deus (Is 30.15). Algumas versões trazem impropriamente a expressão “Descansa”, proveniente da
palavra hebraica ħŭl, semelhante graficamente a yāħal, mas com um sentido diferente. Esta palavra é traduzida para o grego pela
Septuaginta como ύποταγηθι que significa “estar sujeito”, o que não é uma tradução completa do termo, mas expressa bem o
sentido de um silêncio submisso à vontade de Deus, não emburrado ou murmurante. Não devemos alimentar inveja pelo sucesso
do próximo, muito menos por aquele que usa de desonestidade para alcançar seus intentos (Sl 125.3). Este verso fica assim
transliterado: Dom ladonai vehitcholel lo, al titchar bematsliach darco, beish osse mezimot.
6
A inveja é como um “câncer espiritual” que pode consumir a paz e a felicidade de um servo de Deus. A cura consiste em extir-
par as primeiras manchas de ciúme e inveja que surgirem em nossas almas; depois, evitar todo tipo de ira, furor e cólera, e jamais
desejar sucesso a qualquer custo (Sl 73.3). A melhor e maior das vitórias é aquela que vem das mãos do Senhor, em função da
nossa fé sincera e do trabalho perseverante e pacífico. A expressão hebraica que significa “não se deixe enfurecer” é traduzida –
como alerta – em diversos sinônimos ao longo do salmo: “não te indignes” (v.1), “não te irrites” (v.7), “não te impacientes” (v.8).
Esta é a transliteração hebraica deste versículo: Héref meaf vaazov chema, al titchar ach leharêa.
7
Algumas versões iniciam este versículo com a expressão “os mansos”; todavia essa palavra, especialmente na sociedade
ocidental atual, não comunica a idéia do termo hebraico original de “fé paciente e perseverante”, característica daqueles que
aprenderam a esperar pela ação de Deus, enquanto perseveram na fé e na prática do bem. Somente os “humildes” são “ensiná-
veis”, ou seja, podem aprender a ouvir e obedecer às orientações de Deus, crendo que esse é o caminho da felicidade perpétua.
O contexto indica que “a terra” se refere à Terra Prometida ou à área dada ao povo de Deus (Dt 34.1-4). Contudo, Nosso Senhor
Jesus Cristo, em Mt 5.5, amplia as dimensões dessa bênção: a herança recebida pelos “humildes” não será apenas de um terri-
tório ou região, mas o reino inteiro (Ap 21).
8
O verbo hebraico yãdha, traduzido aqui por “zelar”, tem o sentido de “conhecer profundamente”, “contribuir para o sucesso”.
46 SALMOS 37, 38
22
Sim, possuirão a terra os que Ele aben-
çoar, mas os que Ele amaldiçoar serão
excluídos.
23
O SENHOR firma os passos de todo
aquele cuja conduta lhe agrada!
C Mem
24
Se cair, não ficará por terra, porque o
SENHOR o segura pela mão.
. Nun
25
Fui jovem e já estou velho, e nunca vi
um justo abandonado nem seus descen-
dentes mendigando o pão.
26
Em todo o tempo exerce grande com-
paixão e empresta com boa vontade, seus
filhos serão abençoados!
27
Desvia-te do mal e faze o bem, e sem-
pre terás onde morar.
C Samek
28
Pois o SENHOR ama quem pratica a jus-
tiça, e não abandona os seus fiéis. Estes
serão resguardados para todo o sempre,
mas a descendência dos ímpios será ex-
terminada.
V Ayin
29
Os justos herdarão a terra e para sem-
pre nela habitarão.
9
30
A boca do justo proclama a sabedoria,
e sua língua anuncia o direito.
£ Pê
31
A Lei de Deus está no seu coração, e
seus passos não vacilam.
32
O ímpio espreita o justo, e procura
maneira de matá-lo;
3 Tsade
33
mas o SENHOR não o abandona às suas
mãos, nem permite que o condenem, se
for julgado.
¨ Qof
34
Espera no SENHOR!
10
E, confiante, se-
gue sua soberana vontade. Ele te exaltará
dando-te a terra, por herança, e verás os
ímpios serem destruídos.
¨ Resh
35
Vi uma pessoa ímpia, prepotente e cruel
a expandir-se como a árvore frondosa.
36
Tornei a passar, e já não estava; procu-
rei-a, e não foi encontrada.
2 Shin
37
Medita no homem íntegro, considera a
pessoa justa! Há uma prosperidade para
todo aquele que busca a paz;
38
mas os impenitentes serão extermina-
dos todos juntos; não haverá qualquer
sucesso futuro para os ímpios.
! Tav
39
A salvação dos justos vem do SENHOR,
Ele é a sua fortaleza na hora da adversi-
dade!
40
O SENHOR os ajuda e os liberta. Ele os
livra dos ímpios e os salva, porque nele
se refugiam.
Oração do pecador arrependido
Salmo de Davi para a oferenda memorial.
38
SENHOR, não me repreendas em tua
ira, nem me corrijas com cólera!
2
Porquanto as tuas flechas cravaram-se em
mim, e a tua mão se abateu sobre mim.
1
3
Por causa da tua ira, não há parte ilesa
em meu corpo; não há saúde nos meus
ossos, em conseqüência do meu pecado.
4
As minhas culpas me afogam; como
fardo pesado, tornaram-se insuportáveis
para mim.
9
A expressão hebraica yãrash, tem sentido muito mais amplo do que simplesmente “herdar” um bem de um parente que mor-
rera. Essa palavra revela a “partilha de bem prometido”, “um dom ou talento”. A herança eterna nos céus é um “dom oferecido
gratuitamente”: a vida eterna em Jesus Cristo (Rm 6.23).
10
A expressão hebraica aqui traduzida por “Espera no Senhor!” refere-se à atitude de “prosseguir trabalhando na plena con-
fiança da providência divina”. Possuir uma terra na qual pudessem viver em paz e liberdade era a concretização da promessa de
Deus a Abraão. Os israelitas sonharam com essa terra durante séculos de cativeiro no Egito ou vagueando pelo deserto do Sinai.
Assim como receberam Canaã de maneira extraordinária e maravilhosa, de igual forma foram incentivados a crer num milagre
ainda maior: receber gratuitamente a vida eterna nos céus, a “herança celestial” a qual a expressão “possuir a terra” passou a
significar (Hb 4.1).
Capítulo 38
1
O pecado sempre produz uma reação negativa das leis naturais (conseqüências) e um profundo desagrado de Deus, que
as Escrituras chamam de “ira” ou “indignação” (3,4). Na tradição da Igreja, este é um dos sete salmos davídicos penitenciais (os
demais são: 6; 32; 51; 102; 130 e 143). Davi, ao reconhecer seus erros e pecados, usa de uma vívida metáfora (flechas cravadas)
para suplicar ao Senhor que amenize sua repreensão, ou seja, a correção e a disciplina divina (2.5; 32.3-5; 39.3-11; Jó 6.4; 34.6;
Lm 3.12; Ez 5.16).
47
2
Muitas vezes, quando mais precisamos de ajuda, compreensão e companheirismo, vemos não apenas nossos inimigos
ansiosos por nossa total falência e ruína, mas também até mesmo nossos antigos e bons amigos se afastarem ou se oporem a
nós. Nesses momentos de crise, o melhor é ficar calado e entregar toda a situação nas mãos de Deus. Não dar vazão à raiva, ódio
e decepção, nem alimentar desejos de vingança, pois o Senhor é o justo Vingador. O comportamento de Davi nesta passagem
tem muito a nos ensinar (11-15).
3
Davi não tenta justificar ou mitigar a gravidade dos seus pecados; ele faz uma profunda e honesta reflexão sobre seus atos e
conclui que errou; portanto, precisa mudar de rumo (converter-se – 2Co 7.10).
4
Este versículo foi traduzido a partir do texto Qunram (4QPsa), por ser mais antigo e fiel aos originais, não se optando aqui
pelos tradicionais textos “Receptus” ou “Majoritário”.
Capítulo 39
1
Jedutum é o Etã de 1Cr 6.44; 15.19, e representava a família de Merai, da mesma forma que Asafe, a família de Gérson e
Hemã, a família de Coate, sendo esses três filhos de Levi, os chefes das famílias. Jedutum era, portanto, um dos três mestres
de corais de Davi (1Cr 16.41,42; 25.1,6; 2Cr 5.12), conhecido como “o vidente de Davi” (2Cr 35.15; 1Cr 6.16-44; Sl 62; 77 e 89).
Este preâmbulo ao salmo, que em hebraico faz parte integrante do texto canônico, pode ser assim transliterado: Lamnastsêach
lidutun mizmor ledavid.
2
No Sl 38, Davi nos fala do silêncio diante do inimigo; aqui, fala do silêncio perante o Senhor. Duas orações em tempos de
enfermidade (compare os Salmos 40; 49 e 90). As duas reconhecem os erros e transgressões (pecados), ambas expressam
profunda fé em Deus (em hebraico antigo: “confiança”). Os sofrimentos decorrentes dos erros cometidos ensinaram a Davi que a
língua é uma das maiores ferramentas do pecado (Tg 3.1-12). A expressão hebraica original C`C¨C, machsom, tem o sentido de
“mordaça”, e não de freio como aparece em algumas versões (Dt 25.4).
3
Davi havia decidido manter-se absolutamente calado, pois sentia-se indigno de falar e não queria parecer rebelde diante dos
ímpios que o rodeavam (Sl 73). Entretanto, a angústia reprimida só causa mais frustração e revolta; o bem represado só contribui
para o mal (Jr 20.8-9).
5
Minhas feridas cheiram mal e supuram,
devido à minha insensatez.
6
Ando encurvado e todo abatido; o dia
inteiro perambulo e pranteio.
7
Estou sendo consumido pela febre; e
sinto todo o meu corpo enfermo.
8
Estou esgotado e, ao extremo, alque-
brado; minha alma geme de angústia.
9
SENHOR, diante de ti estão todos os meus
anseios; nem mesmo o meu suspiro te é
oculto.
10
Meu coração palpita e as forças se afas-
tam do meu corpo; até a luz dos meus
olhos me abandonou.
11
Meus companheiros e amigos me evi-
tam por causa da doença que me aflige; e
os meus vizinhos se mantêm à distância.
2
12
Armam laços os que desejam atentar
contra minha vida, os que me querem
mal proclamam a minha ruína; dedicam
o dia todo a planejar calúnias.
13
Eu, todavia, como um surdo, não ouço;
como mudo, não abro a boca.
14
Fiz-me como um homem que não per-
cebe o que ocorre à sua volta e sua língua
não sabe replicar.
15
Em ti, SENHOR, espero: Tu me respon-
derás, ó SENHOR meu Deus!
16
Pois eu declarei: “Ouve-me, ó SENHOR,
para que tais pessoas não se divirtam
por causa do meu sofrimento, tampou-
co triunfem sobre mim, quando meu pé
escorregar!”
17
Porquanto, estou a ponto de tropeçar,
e a minha dor me acompanha sempre.
18
Sim, confesso a minha culpa, estou
aflito em razão do meu pecado.
3
19
Sem motivo algum acumulei numero-
sos inimigos, e muitos injustamente me
odeiam.
4
20
Os que me pagam o bem com o mal ca-
luniam-me, porquanto sigo o que é bom!
21
SENHOR, não me abandones! Meu Deus,
não fiques tão distante!
22
Vem depressa em meu socorro, ó SE-
NHOR, meu Salvador!
A frágil e fugaz vida humana
Salmo davídico ao regente do coro, para ser
cantado no estilo de Jedutum.
1

39
Eu declarei: Vigiarei os meus atos
e não pecarei em palavras; atarei
uma mordaça em minha boca enquanto
os ímpios estiverem próximos a mim.
2

2
Emudeci, desisti de expressar o bem, e
minha angústia se agravou.
3
Meu coração ardia-me dentro do peito
e, enquanto eu meditava, minha alma se
rompeu em chamas. Então, soltei a lín-
gua e bradei:
3

SALMOS 38, 39
48
4
Davi percebe quão frágil é (37.20; 78.39) e o quanto a vida é breve; o tempo é inexorável, e apenas viajamos nele. É preciso
sabedoria divina para aproveitar o tempo e construir o que é perene. Por isso, devemos focalizar nossa atenção no Pai da eterni-
dade e orar como o Sl 90.12. A nossa vida não passa de um sopro (v.11; 144.4; Jó 14.2; Ec 6.12).
5
Davi reconhece que o Senhor corrige e repreende seus filhos amados que a ele desobedecem. No entanto, a disciplina do Pai
dura pouco tempo, e logo podemos recuperar nossas forças e nos alegrarmos com Deus (Hb 12.6-11; Jó 7.17-19; 9.27; 10.21-22;
14.6). Este versículo pode ser assim transliterado do original hebraico: Hasha mimeni veavlíga, betérem elech veenêni.
Capítulo 40
1
Davi oferece ao Senhor ações de graças e louvores pelos livramentos que recebera em várias situações aflitivas no passado.
Seu testemunho e louvor levaram muitas pessoas a temer (amar com fé e reverência) a Deus (7.17; 9.1; 18.49; 22.22-31; 30.1;
34.8-14). Um salmo em que as lembranças das misericórdias e intervenções do Senhor no passado motivam o crente a confiar
totalmente no socorro de Deus em todas as horas (observe os Salmos 4 e 9).
2
Deus é benevolente para com todos aqueles que nele confiam. Bem-aventurado é aquele que aceita o convite da graça divina
e recebe o Senhor como Pai. É incomparável a felicidade conquistada pelo crente que obedece à Palavra do Senhor, pois ela é
eterna e não se desvanece ao longo dos embates diários desta vida (1.1; 31.23; 32.1-2; 146.5; Jr 17.7).
3
Os planos de Deus para seu povo são de acordo com seu propósito soberano e predeterminado (Is 25.1; 46.10-11).
4
Este versículo pode ser assim transliterado, a partir do manuscrito original hebraico: Zévach uminchá lo chafáts’ta, oznáyim
caríta li, olá vachataá lo shaálita. Para o Senhor, o mais importante é a obediência à Lei geral e moral de Deus (1Sm 15.22; Is
4
SENHOR, dá-me a conhecer o término
da minha vida e a quantidade dos meus
dias, a fim de que eu compreenda quão
frágil sou!
5
Eis que fizeste meus dias da largura de
palmos, e a duração da minha vida é qua-
se nada diante de ti; todo ser humano, seja
quem for, não passa de um breve sopro.
(Pausa)
6
Como uma sombra fugaz passa o ser
humano pela vida, e fútil é sua luta fa-
tigante; acumula riquezas, todavia não
sabe quem, de fato, delas usufruirá.
4
7
E agora, SENHOR, que haverei de espe-
rar? Toda a minha confiança está depo-
sitada em ti.
8
Livra-me de todos os meus pecados,
não me exponhas às zombarias dos in-
sensatos.
9
Emudeci, minha boca não abri para re-
clamar de nada, pois tu fizeste tudo.
10
Afasta de mim o teu flagelo; porquan-
to fui vencido pelo açoite poderoso da
tua mão.
11
Como advertência, afliges a humani-
dade por causa da sua iniqüidade; cor-
róis, como a traça, o que o ser humano
mais valoriza; quão vazia é a vida da pes-
soa que não confia em ti!
(Pausa)
12
Ouve, SENHOR, minha oração, e aten-
de a minha súplica; não ignores minhas
lágrimas, porquanto, perante ti, sou um
estrangeiro, como foram todos os meus
antepassados.
13
Desvia de mim o teu olhar de censura,
para que eu possa encontrar alívio, antes
que me vá deste mundo, e termine mi-
nha existência!
5
Ação de graças e súplicas
Ao mest re de música. Um salmo de Davi.
40
Depositei toda a minha esperança
no SENHOR, e Ele se inclinou para
mim e ouviu meu clamor:
2
tirou-me do fosso fatal, do charco la-
macento, assentou meus pés sobre uma
rocha e orientou meus passos.
1
3
Em minha boca colocou uma nova
canção, um cântico de louvor ao meu
Deus. Que muitos possam compreender
o que me aconteceu e venham a adquirir
confiança e temor no SENHOR.
4
Extremamente feliz é aquele que no SE-
NHOR deposita sua plena confiança e que
não segue os arrogantes, nem aqueles
que cultuam a mentira.
2

5
Ó SENHOR, quantas maravilhas tens rea-
lizado, bem como teus desígnios! Quisera
eu poder proclamá-los e pregá-los todos,
mas são por demais numerosos.
3

6
Fizeste-me compreender que nem ofe-
rendas e sacrifícios desejaste; não reque-
reste de mim holocaustos para remir
meus pecados.
4

7
Então declarei: Eis aqui estou! No per-
gaminho está escrito a meu respeito.
8
Tenho imensa alegria em fazer a tua
vontade, ó meu Deus; a tua Lei está no
íntimo do meu ser.
SALMOS 39, 40
49
1.10-17; Am 5.21-24; Mq 6.6-8), que se traduzem nos dez mandamentos da sua aliança (Êx 20.3-17; Dt 5.7-21). Deus fez Davi
entender seus propósitos a partir da graça de lhe “abrir a compreensão e o desejo de ouvir a Deus” (Pv 28.9; Is 48.8; 50.4,5). O
exemplo supremo desse amor e obediência ao Pai reside na pessoa de Jesus Cristo, o Messias (Hb 10.5-9). Devemos ser justos e
verdadeiros, antes de exigir que as outras pessoas o sejam. Os salmos de Davi sempre reconhecem a justiça, o amor, a lealdade,
a graça e a verdade do Senhor.
5
Todas as pessoas que tiveram um encontro autêntico e profundo com o Senhor, e que experimentam a ação poderosa do
Espírito de Deus reinando em suas almas e corpos, não conseguem deixar de testemunhar ao mundo o amor e a paz que agora
sentem da parte de Deus, mesmo em meio às circunstâncias mais difíceis da vida. Por isso, a evangelização na Igreja não é
apenas um programa, muito menos uma técnica, mas a expressão natural, real e viva da ação misericordiosa e transformadora
do Senhor, na vida dos crentes (1.5; 9.1; 38.13-16; 39.1; 68.11; 96.2; 1Rs 1.42; Is 40.9; 41.27; 52.7; 61.1).
Capítulo 41
1
Esta oração de louvor encerra o Livro I dos Salmos, que começa e termina com um salmo de bem-aventurança. Felizes são as
pessoas que estão sempre dispostas a ser uma bênção na vida dos enfermos, dos pobres e daqueles que passam por crises de
todo tipo. O exercício da compaixão, tão bem exemplificado na vida de Cristo, recebe a promessa do contínuo suprimento divino
e de bênçãos específicas: libertação, proteção e terna assistência do Pai, nas horas mais difíceis. Há uma correspondência entre
a maneira como tratamos as pessoas ao nosso redor e o modo como o Senhor age conosco (Mt 18.23-35).
2
Davi lamenta a atitude fria e desleal de uma pessoa muito especial, em quem havia depositado sua confiança; que partilhava
a intimidade de sua mesa; portanto, amigo honrado e confidente do rei (31.11,12). Alguém com quem selara um pacto de fideli-
dade (23.5). Cristo aplica essa passagem à sua própria experiência humana, ao cumprir o papel majestoso do seu antepassado,
como rei ungido por Deus sobre Israel. Assim, o Messias, o grande Filho de Davi, também sofreu a imensa dor da traição de um
grande amigo (Jo 13.18).
9
Às multidões anunciei os teus atos de
justiça, pois meus lábios não se puderam
conter, como tu mesmo sabes, ó Eterno.
10
Não oculto em minhas entranhas a
tua justiça; falo da tua fidelidade e da tua
salvação. Não escondo da grande assem-
bléia a tua lealdade e a tua verdade.
5
11
SENHOR, não mantenhas longe de mim
a tua misericórdia: sempre me guardem
o teu amor e a tua verdade!
12
Pois incontáveis males me cercaram,
minhas muitas culpas se apoderaram do
meu ser e me turvaram completamente a
visão; desgraças mais numerosas que os
cabelos da minha cabeça e, por isso, meu
coração perdeu o ânimo.
13
Agrada-te, SENHOR, em libertar-me;
apressa-te, SENHOR, em socorrer-me!
14
Sejam humilhados e frustrados todos
os que conspiram contra a minha vida;
retrocedam humilhados os que desejam
a minha ruína.
15
Fiquem aturdidos com sua própria
vergonha os que zombam de mim.
16
Entretanto, regozijem-se e alegrem-se
em ti todos os que te buscam. Proclamem
sempre aqueles que amam a tua salvação:
“Grande é o Senhor!”
17
Quanto a mim, sou um pobre e neces-
sitado, o Senhor, contudo, pensa em mim.
Tu és meu amparo e meu Libertador: não
tardes mais, ó Eterno, Deus meu!
Sofrimentos e bênçãos do crente
Para o regente do coro. Um salmo de Davi.
41
Bem-aventurado aquele que dá
atenção ao desvalido! No dia do
seu infortúnio, o SENHOR o livrará.
1
2
O SENHOR o protegerá e preservará sua
vida; Ele o fará feliz na terra, e não o en-
tregará à sanha dos seus inimigos.
3
Na enfermidade, o SENHOR lhe dará ple-
no amparo, e da doença o restaurará.
4
Eu roguei: Concede-me a tua graça, ó
Eterno, e cura minha alma, mesmo ten-
do eu pecado contra ti.
5
Meus inimigos só me desejam o mal
e murmuram: “Quando ele morrerá? E
quando seu nome desaparecerá da face
da terra?”
6
Sempre que alguém vem visitar-me
com falsidade, enche o coração de men-
tiras, e depois as semeia por onde passa.
7
Todos os que me odeiam se juntam para
resmungar contra mim, conjeturando
sobre o mal que poderá me ocorrer:
8
“Ah, ele está com aquela doença malig-
na! Está acamado, e jamais se levantará”.
9
Até o meu melhor amigo, em quem eu
confiava, e que partilhava do meu pão,
também me traiu!
2
10
Ainda assim, tu, ó SENHOR, tem miseri-
córdia de mim; levanta-me, para que eu
lhes dê a resposta merecida.
11
Sei que me queres bem, porquanto o
SALMOS 40, 41
50
3
Este versículo pode ser assim transliterado dos originais hebraicos: Vaani betumi tamáchta bi, vatatsivêni lefanêcha leolam.
Quanto às expressões idiomáticas “permanecer na minha presença para sempre”, “a quem sirvo”, veja: 101.7; 1Sm 16.21,22;
1Rs 10.8; 17.1; 2Sm 7.15,16).
4
Este versículo em hebraico, transliterado: Baruch Adonai Elohe Yisrael mehaolam vead haolam, amen veamen. Essa é a doxo-
logia com que os crentes (a comunidade dos adoradores do Senhor) devem corresponder ao conteúdo das Sagradas Escrituras
e, portanto, aos ensinos que foram transmitidos por este primeiro Livro dos Salmos (72.18-19; 89.52; 106.48; 150).
Capítulo 42
1
Este salmo dá início ao Livro II do Saltério e forma uma unidade poética, e uma só grande oração com o Sl 43; ainda que
desde a Septuaginta (a mais antiga tradução grega do AT) apareçam separados e em seqüência, especialmente devido às suas
finalidades litúrgicas. Quem narra este salmo é um dos destacados descendentes de Corá, responsáveis pela liturgia no templo
(v.4, de acordo com Sl 32), membros do coro levítico nomeados por Davi para servirem como adoradores no templo. Os coraítas
(filhos de Levi) representavam a família levítica de Coate, cujo líder, nos dias de Davi, era Hemã (Sl 88); assim como Asafe dirigia
o coral dos gersonitas, e Jedutum (Etã) regia o coral dos meraritas (1Cr 6.31-47; Sl 39). Este é o primeiro dos sete salmos dos
“Filhos de Corá” (Sl 42-49; 84,85; 87,88 no Livro III).
2
Assim como a corça ou o cervo anseiam pelas águas frescas e tranqüilas, especialmente quando acossados pelos caçadores,
também a alma daquele que crê almeja a intensa comunhão com o Pai. O autor deste salmo desempenhava liderança espiritual
e litúrgica sobre o povo no templo, mas fora levado cativo pelos arameus numa de suas invasões de Judá, como a de Hazael
(2Rs 12.17-18; Js 21.4-19). As circunstâncias impedem que o salmista se reúna com seu povo, no templo, para adorar ao Senhor
(Êx 19.17; 29.42-43; 30.6,36; Dt 5.26; Sl 43.1,2). Assim como observou Jesus, todo o nosso ser clama pela presença do Espírito
de Deus (Jo 4.13-14; 7.37-39).
3
Esta passagem lembra o rei Davi em seu momento de glória, quando caminhou com seu povo amado em direção ao templo
de Jerusalém, conduzindo a arca do Senhor (2Sm 6.12-19). Em nossas orações é sempre bom recordarmos o que o Senhor já
fez por nós.
4
Todas as calamidades e tempestades da vida foram despejadas sobre o salmista e seu povo, mas em meio às adversidades
puderam observar, ainda melhor, o poder amoroso do Senhor para com seus filhos. Este texto hebraico pode ser transliterado
desta forma: Tehom el tehom core lecol tsinorêcha, col mishbarêcha vegalêcha alai aváru. Uma alusão literária às cachoeiras por
intermédio das quais os reservatórios de Deus derramam suas águas nos rios que deságuam nos mares (o abismo embaixo);
retratando, ao lado da figura das ondas e vagalhões, a correção e a provação divina (36.8; 69.1,2; 88.7; Jn 2.3-5; Sl 43.2; 44.77).
meu inimigo não cantará vitória sobre
mim.
12
São e salvo me sustentarás e em tua
presença me manterás eternamente!
3
13
Louvado seja o Eterno, Deus de Israel,
para todo o sempre! Assim seja!
4

SEGUNDO LIVRO
Salmos de 42 a 72
Ao regente do coro. Um poema dos filhos de Corá.
1
O crente tem sede de Deus
42
Como a corça suspira pelas águas
correntes, assim, por ti, ó Deus,
anseia a minha alma.
2
2
A minha alma tem sede de Deus, do
Deus vivo; quando poderei entrar para
apresentar-me a Deus?
3
Minhas lágrimas têm sido o meu ali-
mento de dia e de noite, porquanto me
questionam o tempo todo: “Onde está o
teu Deus?”
4
Recordo-me dessas ocasiões, e dentro de
mim se me derrama a alma em profun-
do pranto, de como caminhava eu junto
à multidão, conduzindo-os em procissão
rumo à Casa de Deus, com cantos de jú-
bilo e louvor entre a multidão que feste-
java.
3

5
Por que estás assim tão abatida, ó mi-
nha alma? Por que te angustias dentro de
mim? Deposita toda a tua esperança em
Deus! Pois ainda o louvarei por seu livra-
mento; Ele é o meu Salvador.
6
Ó meu Deus, esmorecida está a minha
alma; por isso em ti fixo o meu pensa-
mento desde a terra do Jordão, das altu-
ras do Hermom, desde o monte Mizar.
7
Do abismo as águas chamam as tor-
rentes no t roar de suas cataratas, e to-
dos os vagalhões se precipitaram sobre
mim.
4
8
Contudo, dur ante o dia o SENHOR me
concede a sua miser icórdia, e à noite
comigo está sua canção de louvor. É a
minha or ação ao Deus da minha vida.
9
Declaro a Deus, minha Rocha: Por que
te esqueceste de mim? Por que razão ca-
minhar lamentando e sem direção, sob a
opressão dos meus inimigos?
10
Como uma espada, que perfura meu
corpo e atinge os ossos, é a aflição pro-
SALMOS 41, 42
51
duzida pela zombaria dos meus adversá-
rios, questionando-me sem parar: “Onde
está o teu Deus?”
11
Por que estás assim tão triste, ó minha
alma? Por que martirizas o meu ser? Põe
a tua esperança em Deus! Porquanto ain-
da o louvarei por tua presença salvadora,
ó meu Deus!
5
Súplicas ao Senhor nas afições
43
Faze-me justiça, ó Deus! Defende
a minha causa contra gente infiel!
Livra-me do homem fraudulento e cri-
minoso!
2
Pois tu, ó Deus, és minha fortaleza. Por
que me rejeitaste? Por que devo sair va-
gueando e pranteando, oprimido pelo
inimigo?
1
3
Envia tua luz e tua verdade: que elas me
guiem e me conduzam ao teu monte san-
to e à tua morada!
2
4
Então chegarei ao altar de Deus, ao Deus
da minha alegria jubilosa; vou louvar-te
com a cítara, ó Deus, meu Deus.
5
Por que estás abatida, ó minha alma?
Por que te afliges sobremaneira dentro
de mim? Deposita toda a tua confiança
em Deus! Pois ainda o louvarei; Ele é a
minha salvação e o meu Deus!
3
O Deus do passado está presente
Para o regente do coro. Um salmo didático dos
filhos de Corá.
44
Ó Deus, ouvimos com nossos
próprios ouvidos nossos antepas-
sados nos contaram os grandes feitos que
realizaste na época deles, nos dias do pas-
sado distante.
1

2
Como, com tua própria mão, expulsas-
te nações inteiras para que nossos pais
pudessem ser estabelecidos na terra, e
abateste povos para que se pudessem ex-
pandir e prosperar.
3
Não foi por meio de espadas ou da sua
força que herdaram a terra, mas tão so-
mente por intermédio da tua destra, teu
braço e a luz do teu semblante, com os
quais os agraciaste.
4
Tu és o meu Rei, ó Eterno. És tu que
ordenas as vitórias de Jacó!
5
Graças a ti destroçamos nossos adver-
sários, pelo teu Nome pisoteamos os que
nos atacam.
2
6
Minha confiança não está depositada
em meu arco, e sei perfeitamente que não
serei salvo por meio da minha espada.
7
Mas tu nos concedes vitória sobre
nossos inimigos e humilhas os que nos
odeiam.
5
O salmista pede ao Senhor uma compreensão quanto a estas adversidades, mas descobre que não tinha motivo para se quei-
xar, porquanto o Espírito do Senhor caminhava com ele, controlando todas as circunstâncias de modo que lhe produzissem um
coração verdadeiramente sábio e grato e contribuíssem para seu bem eterno (Rm 8.28). É interessante notar que neste segundo
Livro do Saltério, o nome hebraico original, usado para se referir a Deus, é Elohim (divindade única, criadora e suprema) enquanto
no primeiro Livro foi priorizado o uso do nome Yahweh (Iavé ou Jeová), o Deus verdadeiro, o Senhor.
Capítulo 43
1
Uma súplica que evoca a imagem forense do Sl 17 e ecoa 42.9.
2
A “Luz” e a “Verdade” são personificadas como mensageiras de Deus para conduzirem o coração humano à salvação (27.1),
aos cuidados paternais do Senhor (26.3; 30.9; 40.10) e, portanto, de volta à Casa do Eterno (2.6; 7.17).
3
A expressão hebraica literal yëšû‘ôt “salvação para mim” está no plural devido à relação genitiva com pānāy “para mim”; pěnê
como pronome oblíquo, em lugar do pronome possessivo, “minha salvação”, usa-se para evitar ambigüidade, pois quer dizer
“minha própria”, isto é, “minha auto-salvação”.
Capítulo 44
1
Este é um brado nacional por livramento. Israel fora praticamente destruído por um de seus muitos inimigos. Tudo indica que
esta é a narrativa de uma difícil provação passada pelo reino de Judá, nação que não rompeu sua aliança com o Senhor, senão
posteriormente na história. A oração segue a teologia veterotestamentária, na qual obediência e fidelidade a Deus correspon-
dem a imediata e proporcional soma de bênçãos e prosperidade na terra. O salmista expressa seu louvor a Deus pelas muitas
e grandes vitórias do passado (vv.1-8); a aflição da presente derrota e suas conseqüências (vv.9-16); a declaração de lealdade,
inocência – mérito – (vv.17-22), e concluindo, a súplica pelo socorro divino (vv.23-26). O poder salvador de Deus, do passado, é
invocado, no presente, por seu povo – com base na fé que tem em seu amor leal e permanente.
2
O Deus da história (Sl 30) é também o nosso Salvador pessoal em quem confiamos em todas as horas (Fp 4.13; 2Co 2.14;
10.4). Nossa força e inteligência nada podem contra todas as adversidades da vida, mas em Cristo, o Messias, somos mais que
vencedores (vv. 6-8; Rm 8.31-39).
SALMOS 42–44
52
8
A ti louvamos o dia todo; a teu Nome
agradecemos continuamente.
(Pausa)
9
Agora, entretanto, nos rejeitaste e en-
vergonhaste e já não marchas com os
nossos exércitos.
10
Fizeste-nos retroceder ante o inimigo
e permitiste que fôssemos saqueados por
nossos adversários.
11
Nos entregaste como um rebanho a
ser devorado, e entre muitos povos nos
dispersaste.
12
Por quase nada vendeste o teu povo;
nem mesmo valorizaste o preço.
13
Tu nos converteste em motivo de ver-
gonha dos nossos vizinhos, objeto de
zombaria e menosprezo dos que nos ro-
deiam.
3
14
Fizeste de nós um provérbio entre to-
das as nações; os povos meneiam a cabe-
ça quando nos avistam.
4

15
Padeço humilhação dia após dia, e o
meu rosto está coberto de vergonha
16
ante as injúrias e os insultos que me
dirige o inimigo vingativo.
17
Tudo isso sobreveio a nós, sem que nos
tivéssemos esquecido de ti, nem houvés-
semos traído a tua aliança.
18
Nossos corações não retrocederam na
fé em ti, tampouco nossos pés se desvia-
ram da tua vereda.
19
Contudo, tu nos esmagaste e fizeste de
nós um covil de chacais, e com densas
trevas nos cobriste.
5
20
Se, porventura, houvéssemos esqueci-
do o Nome do nosso Deus e tivéssemos
estendido nossas mãos a qualquer outro
deus,
21
não o teria Deus percebido tal afronta?
Pois Ele é quem conhece todos os segre-
dos do coração!
22
Entretanto, por amor de ti somos
entregues à morte todos os dias; fomos
considerados como ovelhas para o ma-
tadouro.
6
23
Acorda, ó Senhor! Por que pareces
dormir? Desperta-te! Não nos abando-
nes para sempre.
24
Por que nos ocultas a tua face e ignoras
a nossa desgraça e opressão?
25
Prostrada até o pó está a nossa alma;
desfalecido sobre o chão jaz nosso corpo.
26
Levanta-te! Vem em nossa ajuda e nos
resgata por tua imensa benignidade!
O casamento profético do Ungido
Ao regente do coro, de acordo com a melodia
Os Lírios. Dos filhos de Corá. Poema didático.
Uma canção mat rimonial.
1
45
Com o coração transbordando de
boas palavras, recito os meus ver-
sos em honra ao rei; seja a minha língua
como a pena de um sábio escritor.
2
És dos seres humanos o mais notável;
3
Israel reconhece que Deus é quem opera bênçãos e provações, de acordo com seu propósito soberano e sua misericórdia
infinita (veja o uso acentuado do verbo na 2ª pessoa (Deus) e (vv.10-14) e de pronomes de 2ª pessoa (vv.2-13). Nem sempre os
sofrimentos são derivados do pecado ou das falhas morais do sofredor (vv.17-18). O livro de Jó nos revela claramente que nem
toda aflição tem como causa o pecado, mas o ser humano revela seu caráter ao passar por dor, frustração e humilhação. O reino
israelita do norte foi literalmente espalhado pelo mundo conhecido da época (721 a.C.), e o reino do sul, no ano 587 a.C. Esse
episódio, relatado por Davi (entre 1011 e 971 a.C.), serve de palavra profética para nós e para Israel, que já passou por vários
momentos terríveis de dispersão de suas terras.
4
Foi esta a profecia que Moisés entregou a Israel como advertência, caso o povo de Deus viesse a desobedecer à Lei do Se-
nhor (Dt 28.37). O povo alegava não ter abandonado a Deus (vv.17-22), mas somente o Senhor, que sonda os corações de cada
indivíduo conhece a verdade e sabe como melhor nos corrigir (v.21).
5
O termo “chacal” referia-se aos nômades do deserto, que viviam de assaltar as caravanas de mercadores. Tudo indica que
houve uma grande batalha no deserto de Edom (2Cr 20), no reinado de Josafá (870-840 a.C.).
6
Se o ser humano precisa passar por sofrimentos, então que seja a favor da causa do Senhor e da maneira como Deus nos
ensina. Pois, nenhuma alegria vale a pena sem a aprovação do Espírito de Deus (1Pe 4.12-19). Jesus, o Messias, é nosso maior
exemplo, porquanto preferiu sofrer com o Pai a obter toda a glória e alegria contrariando a vontade de Deus (Is 53.7; Hb 5.8). O
sofrimento e a tristeza, quando encarados com sabedoria, levam o crente a orar mais e melhor.
Capítulo 45
1
Este salmo segue o padrão dos cânticos de louvor entoados nas cerimônias de casamento dos reis de Israel. Como a noiva
retratada aqui é uma princesa estrangeira (vv.10-12), este casamento reflete a imagem de um rei cujo poder é também reconhe-
cido em outras terras (v.9), e caracterizado por vitórias internacionais (vv.3-5; Sl 2; 110). Como filho régio de Davi, é uma prefigu-
ração de Cristo, o Messias, especialmente após o Exílio (vv.6,7; Hb 1.8,9). O cabeçalho indica que esta obra poética e musical
SALMOS 44, 45
53
derramou-se graça em teus lábios, visto
que o Altíssimo te abençoou para sem-
pre.
2
3
Mantém a espada à cintura, ó herói!
Cobre-te de esplendor e majestade.
4
Em tua majestade, cavalga vitoriosa-
mente pela verdade, pela misericórdia e
pela justiça; que a tua mão direita realize
feitos portentosos.
5
Tuas flechas afiadas e certeiras atingem
o coração dos inimigos do Rei; e sob teus
pés caem as nações.
6
O teu trono, ó Deus, permanece incólu-
me por toda a eternidade; cetro de justiça
é o cetro do teu reino.
7
Amas a justiça e abominas a impiedade
e, por isso, o Eterno, teu Deus, escolheu-
te dentre todos os teus companheiros e
ungiu-te com o óleo de júbilo.
3

8
Todas as tuas vestes exalam aroma de
mirra, aloés e cássia; nos palácios ador-
nados de marfim ressoam os instrumen-
tos de corda que te alegram.
9
As filhas dos reis te visitam, prestando
honras, e à tua direita se posta a noiva
real ornamentada com jóias em ouro
puro de Ofir.
10
Escuta, ó filha, considera e inclina os
teus ouvidos em atenção; esquece o teu
povo e a casa paterna.
11
E assim encantará tua beleza o Rei, e
sendo Ele teu senhor, inclina-te em reve-
rência perante Ele.
12
A ti, filha de Tiro, os poderosos corte-
jarão com seus presentes.
4

13
Mais que em suas vestimentas reco-
bertas de ouro, está, em seu interior, a
dimensão de sua honra.
14
Com trajes bordados com ouro é con-
duzida perante o Rei; as virgens de seu
séqüito a acompanharão.
15
E, com regozijo e grande emoção, en-
trarão no palácio do Rei.
16
Os teus filhos sucederão no trono dos
teus pais; por toda a terra os tornarás
príncipes.
17
Por todas as gerações lembrarei o teu
nome e eternamente hão de te louvar to-
das as nações!
5
Deus é a nossa segurança e paz
Para o mest re de música. Dos filhos de Corá.
Um cântico para vozes de soprano.
1
46
Deus é nosso refúgio e a nossa
fortaleza, auxílio sempre presente
na adversidade.
foi composta e apresentada por um membro do coro levítico do templo (que abrigava a sala do trono terrestre do Rei celestial de
Israel). O título da melodia é uma forma abreviada de “O Lírio da Aliança” citado nos cabeçalhos dos salmos 60 e 80.
2
O Noivo é apresentado com santo entusiasmo; e sua descrição, como o mais notável e varonil dos homens, aplica-se à pes-
soa de Cristo, o Messias e Rei (1Sm 9.2; 16.18; Pv 22.11; Ec 10.12; Is 50.4; Lc 4.22). O verso 16 revela que o Rei será perpetuado
nos seus filhos para sempre (v.6).
3
Cristo, o Messias e Rei, reina como Deus, com autoridade e sabedoria sem igual entre os seres humanos, pois, mesmo con-
siderando que Jesus Cristo viveu na terra como um homem, tendo homens por “companheiros”, mesmo os mais nobres da terra,
está muito acima deles, como verdadeiro e eterno Rei. Regressará à terra brevemente, com poder e glória, e todos reconhecerão
sua majestade e terão de adorá-lo (vv.3-5). Jesus ama a justiça e rejeita toda espécie de iniqüidade, e, portanto, julgará todos os
ímpios e maldosos. Cristo, o Noivo, é a grande revelação deste salmo (Mt 25.1-13; Hb 1.8).
4
Este versículo, no original hebraico, pode assim ser transliterado: Uvat tsor beminchá panáyich iechalú ashirê am. A expressão
literal “filha de Tiro” é uma personificação da “cidade de Tiro” e dos seus habitantes (2Rs 19.21). O rei de Tiro foi o primeiro go-
vernante estrangeiro a reconhecer a dinastia de Davi (2Sm 5.11). Salomão manteve grande amizade e bons negócios com esse
rico e grande centro comercial à beira do Mediterrâneo que, como diz a profecia, buscou em Israel os favores da bela esposa do
Rei (1Rs 5; 9.10-28; Ez 26.1 – 28.19).
5
A beleza do caráter dos crentes deve levar aqueles que ainda não crêem a adorar a Cristo, o Messias e Rei (vv. 12,13). Todos
quantos pertencem ao Noivo Celestial gozam de privilégios especiais. Portanto, a noiva de Cristo (a Igreja) dá mais valor e aten-
ção ao Noivo que aos laços tradicionais e culturais de parentesco, pois herda uma nova e eterna geração que implica na mais
sincera, íntima e dedicada comunhão com Cristo e com os irmãos na fé.
Capítulo 46
1
Este salmo celebra a segurança de Jerusalém (e do povo de Deus) como a cidade de Deus. Serviu de inspiração para
a composição do grandioso hino de exaltação ao Senhor, chamado Castelo Forte, escrito por Martinho Lutero (1483-1546).
Depois de excomungado e desterrado pelo Imperador da Alemanha, Carlos V, Lutero foi amparado por seu amigo Frederico da
Saxônia, refugiando-se no castelo de Wartburg, onde compôs diversos escritos e dedicou-se à tradução da Bíblia. O cabeçalho
em hebraico original pode ser transliterado dessa forma: Lamenatsêach livnê Côrah al alamot shir. Considerando que a palavra
SALMOS 45, 46
54
2
Portanto, nada temeremos, ainda que a
terra trema e os montes afundem no co-
ração do mar,
2
3
ainda que se encrespem as águas e se
lancem com fúria contra os rochedos.
(Pausa)
4
Há um rio cujos canais alegram a cida-
de de Deus, o Santo Lugar onde habita o
Altíssimo.
5
Nela habita o Eterno e, por isso, não
poderá ser atingida! Ao romper da auro-
ra Ele virá em seu socorro.
3
6
Nações se agitam, reinos se abalam; Ele
ergue a voz, e a terra se derrete.
7
O SENHOR dos Exércitos está conosco; o
Deus de Jacó é a nossa torre segura!
(Pausa)
8
Vinde e contemplai as obras do Eterno,
seus feitos estarrecedores por toda a terra.
9
Ele dá fim às guerras até os confins da ter-
ra; quebra o arco e despedaça a lança; com
chamas destrói os carros de combate.
10
“Cessai as batalhas! Sabei que Eu Sou
Deus! Serei exaltado entre todas as na-
ções, serei louvado na terra!”
4
11
O SENHOR dos Exércitos está conosco; o
Deus de Jacó é a nossa fortaleza segura.
(Pausa)
Deus, o Rei de toda a Terra
Ao mestre do canto. Um salmo dos filhos de Corá.
1
47
Povos todos, batei palmas, aclamai
a Deus com vozes de alegria!
2
Pois o SENHOR, o Altíssimo, inspira reve-
rência: é o grande Rei sobre a terra.
3
Ele submeteu os povos ao nosso poder
e as nações colocou sob nossos pés.
2
4
Ele escolhe para nós a nossa herança,
para orgulho de Jacó, seu bem-amado.
3
(Pausa)
5
Deus subiu entre os brados de adora-
ção, ao som da trompa, Ele, o SENHOR.
6
Cantai louvores a Deus, cantai! Cantai
louvores ao nosso Rei, cantai!
4
7
Porque Deus é o Rei de toda a terra,
cantai louvores com harmonia e arte!
hebraica alamot significa também “donzelas”, o subtítulo pode indicar um cortejo de “donzelas tocando pandeiros cerimoniais” e
acompanhando os cantores na entrada litúrgica do templo (68.25; Sl 6; 30 e 42).
2
Cada uma das três partes do salmo reforça nossa confiança na presença e no cuidado constante de Deus para com todos
aqueles que nele crêem (vv. 1, 7 e 11; Rm 8.31-39).
3
Não há um rio em Jerusalém, mas haverá na Cidade Eterna (Ap 21.9 – 22.5). O rio mencionado no Sl 36.8 é uma metáfora em
relação ao contínuo derramar de bênçãos divinas que sustentam e fortalecem os crentes e transformam a cidade de Deus num
jardim tão lindo e aprazível quanto o Éden (Gn 2.10; Is 33.21; 51.3; Ez 31.4-9; Sl 48). A Salvação realizada por Deus (vv.1-3) é uma
das grandes provas daquilo que o Senhor é para nós: um antegozo do santuário eterno de Deus.
4
A voz de Deus irrompe no meio dos conflitos mundiais. Este versículo, no original hebraico, pode ser transliterado do seguinte
modo: Harpu ud’ú ki anochi Elohim, arum bagoyim arum baárets. Nesta frase, o Senhor ordena, literalmente, que toda a terra “fique
em silêncio”, assim como em 1Sm 15.16. Os atos poderosos de Deus a favor do seu povo farão que toda a terra se renda, em lou-
vores, a seus pés. Esse tema é enfatizado em todo o livro dos Salmos (22.27; 47.9; 57.5,11; 64.9; 65.8; 66.1-7; 67.2-5; 86.9; 98.2,3;
102.15), bem como em outras passagens do AT (Êx 7.5; 14.4,18; Lv 26.45; Nm 14.15-19; 1Sm 17.46; 1Rs 8.41-43; 2Rs 19.19; Ez
20.41; 28.25; 36.23; Hc 2.14). Assim como o poder de Deus se manifestou maravilhoso na encarnação, nascimento, vida, obra e
ressurreição de Cristo, também se manifestará no iminente e glorioso retorno de Jesus Cristo, o Messias e Rei.
Capítulo 47
1
Este salmo data da época da monarquia israelita e foi composto para uso na liturgia do templo, nos momentos das grandes
celebrações como a Festa dos Tabernáculos (Lv 23.34), ocasião em que Salomão dedicou o templo (1Rs 8.2), em grande cortejo
(v.5; Sl 24 e 68). Posteriormente, este mesmo salmo foi usado nas sinagogas, nas comemorações litúrgicas de Rosh Hashanah
(o Ano Novo judaico, normalmente comemorado, no Ocidente, durante o mês de setembro). A Igreja primitiva, de forma muito
apropriada, passou a louvar o Senhor com este salmo nas celebrações da ascensão de Cristo.
2
O Senhor de toda a terra determinou o destino do seu povo eleito (Sl 146.5-7). Este salmo está intimamente vinculado aos
46 e 48, e têm, os três, o objetivo de fixar didaticamente, na mente do leitor, a verdade máxima de que Deus é o Grande Rei que
chamará para si súditos de todas as nações e formará seu povo, com o qual viverá por toda a eternidade em paz e felicidade.
Portanto, somente Deus merece os louvores de todos os seres que vivem na terra (105.6; 135.4; Êx 9.29; 15.1-18; 19.5,6; Dt 7.6;
14.2; Is 41.8). O título “grande rei” foi empregado, impropriamente, por muitos governantes imperiais da Assíria (2Rs 18.19), pois
“Temível”, “Justo”, “Magnífico” e “Altíssimo” são títulos e atributos que só encontram perfeito significado na pessoa do Senhor
(2Sm 5.17-25; 8.1-14; 10; Gn 14.19; Sl 45.4; 68.35; 89.7; 99.3; 119.9).
3
A herança do povo de Deus é a Terra Prometida, tanto na figura terrena de Canaã, quanto em nossa morada eterna (Gn 12.7;
17.8; Êx 3.8; Dt 1.8; Jr 3.18; Sl 14.7).
4
O centro deste salmo retrata a ascensão litúrgica do Senhor ao templo, representada, na época, pela entrada da arca em
SALMOS 46, 47
55
8
Deus reina sobre as nações, Deus está
assentado em seu santo trono.
9
Os príncipes dos povos reuniram-se
como povo do Deus de Abraão. Pois a
Deus pertencem os soberanos da terra:
Ele é soberanamente maravilhoso!
5

A cidade de Deus o louva
Um cântico; salmo dos coraítas.
48
Grande é o SENHOR e digno de
todo louvor, na cidade de nosso
Deus.
1

2
Seu santo monte, belo e altaneiro, é
a alegria de toda a terra. O monte Sião
tem, do lado nor te, a cidade do grande
Rei.
2
3
Em seus palácios, Deus se faz conhecer
como alto refúgio.
4
Por esse motivo, eis que os reis soma-
ram suas forças e juntos avançaram con-
tra a cidade.
5
Contudo, quando a contemplaram, fi-
caram pasmos e fugiram aterrorizados.
6
Ali mesmo o pavor os dominou; con-
torceram-se como a mulher no momen-
to do parto.
7
Foste como o vento oriental, quando
destruiu os navios de Társis.
8
Como já temos ouvido, agora também
temos visto na cidade de nosso Deus:
Deus a preserva inabalável para sempre.
3
(Pausa)
9
No meio do teu templo, ó Deus, medi-
tamos em teu amor misericordioso.
10
Como o teu Nome, ó Deus, assim o teu
louvor se estende até os confins da terra;
a tua destra está repleta de justiça.
11
Rejubile-se o monte Sião, exultem as
cidades de Judá, por causa de todos os
teus santos julgamentos.
12
Desfilai em torno de Sião, contai-lhe
as torres,
13
apreciai suas fortificações, contemplai
seus palácios para anunciar à geração
vindoura:
4
14
“Este é Deus, o nosso Deus para todo
o sempre; Ele é quem nos guiará mesmo
além desta vida”.
5

cortejo para o templo – com o toque solene do Shofar – trombetas ou trompas feitas com o chifre do carneiro (98.6; Êx 19.16-19;
Js 6.4). A arca simbolizava o trono de Deus. O templo era a representação terrestre do perfeito e eterno palácio celestial (Sl 24 e
68). O verso 5 pode ser transliterado a partir do original hebraico desta forma: Alá Elohim bitruá, Adonai becol shofar.
5
Deus está assentado soberanamente no Santíssimo Lugar do templo celestial e controla o governo de todo o Universo (Jr
17.12). Essa verdade é enfatizada no último livro da Bíblia (Ap 4.9,10; 5.1,7-13; 6.16; 7.10-15; 19.4). No final dos tempos, todas
as nações da terra reconhecerão que o Deus de Israel é o Único Grande Rei da Terra (Sl 3.3; Is 2.2; 56.7), e assim se cumprirão
todas as promessas reveladas a Abraão e aos profetas (Gn 12.2,3; 17.4-6; 22.17,18).
Capítulo 48
1
Sião representa a inexpugnável e eterna cidade de Deus (vv.12,13). Nenhum de seus lados é frágil e suscetível a ataques
(vv.2,7,10,13). Os salmos 46 e 47 oferecem uma bela introdução à descrição da cidade do Grande Rei, e eram cantados pelo coral
levítico em nome de todos os adoradores reunidos no templo.
2
Embora não seja o cume mais elevado da cordilheira a que pertence, sua relevância vem da presença de Deus, o que o torna
o monte mais importante (alto) do mundo (68.15,16; Is 2.2). A rainha de Sabá expressou com propriedade a admiração que as
nações de todo o mundo têm pela cidade de Deus (1Rs 10.1-13).
3
O salmo traz à memória do povo de Deus a destruição das tropas inimigas que se confederaram contra Israel nos dias de
Josafá (2Cr 20), bem como a terrível debandada dos assírios que haviam cercado os muros de Jerusalém, nos dias de Ezequiel
(v.4-7; 2Rs 19.35,36). Atos de Deus que confirmaram o que os israelitas já haviam aprendido, lendo os Livros Sagrados de Moisés
(em hebraico, a Torá), relatando a misericórdia, a justiça e o poder de Deus que se revelam ao mundo, especialmente por meio
da história do seu povo (8; 44.1; 78.3).
4
O salmista leva o povo a meditar sobre a maravilhosa obra salvífica do Senhor, ao longo da história (2Cr 32.21-23). Portanto, o
templo é um lugar reservado para o povo ter calma, segurança, paz e instrução bíblica, a fim de ter inspiração para refletir sobre a
amplitude e a profundidade da misericórdia e do poder de Deus. Durante os cercos militares, os habitantes de Jerusalém se viam
limitados em suas liberdades de ir e vir (infelizmente, como ainda hoje acontece em alguns momentos). Contudo, agora o coro
canta e louva a Deus com entusiasmo, pela liberdade de se andar em paz pela amada cidade que quase perderam (vv.12-13).
A bondade de Deus para conosco não apenas deve ser celebrada (v.1), como também proclamada. Se desejamos que nossos
filhos reverenciem a Deus e o conheçam como Pai, devemos alimentar um estilo de vida pessoal que demonstre o quanto o
Senhor é precioso, de fato, para nós (v.13). É curioso notar que a expressão original e literal “a geração de trás”, aqui trazida por
“a geração vindoura”, é uma expressão idiomática hebraica, e uma referência sutil ao ponto cardeal “oeste”.
5
O salmista encerra este poema com uma bela confissão de fé, cujo texto original em hebraico pode ser assim transliterado:
Ki ze Elohim Elohênu olam vad, hu ienahaguênu al mut. (Sl 23).
SALMOS 47, 48
56
O engano das riquezas
Para o mest re de música. Salmo dos coraítas.
49
Ouvi isto, povos todos! Pres-
tai ouvidos, habitantes todos do
mundo,
1

2
gente simples, gente ilustre, ricos e po-
bres, todos juntos!
3
Minha boca proclamará sabedoria e a
meditação do meu íntimo trará entendi-
mento.
2
4
Inclinarei os meus ouvidos a um provér-
bio; com harpa exporei o meu enigma:
3
5
Por que temer, nos dias de infortúnio,
quando me cerca a iniqüidade de meus
agressores,
6
daqueles que confiam em sua fortuna
e se vangloriam da abundância de suas
riquezas?
4
7
Ninguém é capaz de redimir seu pró-
prio irmão, ou pagar a Deus o valor de
sua vida,
8
porquanto o resgate de uma vida não
tem preço. Não há pagamento que o li-
vre,
9
para que viva para sempre e não sofra a
natural decomposição dos corpos.
5

10
Pois todos podem ver que os sábios
morrem também, assim como perecem o
tolo e o insensato e, para outros, deixam
todos os seus bens.
11
Pensam os ímpios que eternas seriam
suas casas, e por gerações sucessivas per-
sistiriam suas moradas; até deram seus
próprios nomes às suas terras.
12
O ser humano, ainda que muito im-
portante, não pode viver para sempre; é
como os animais que perecem.
13
Este é o final dos que confiam em si
mesmos, e dos seus seguidores, que apro-
vam o que eles pregam.
6
(Pausa)
14
Como ovelhas estão destinados à se-
pultura, e os justos terão domínio sobre
eles; sua beleza e sua força se consumirão
e somente a profundeza do Sheol será sua
morada!
7
15
Mas Deus redimirá a minha vida da
sepultura e me levará para si.
16
Não te indignes, quando uma pessoa
se enriquece, quando aumenta a glória
de sua casa;
17
pois, ao morrer, nada levará consigo,
nem descerá com ela seu esplendor.
18
Ainda que, em vida, essa pessoa se pa-
rabenize, cogitando: “Todos te louvam,
porque prosperas!”,
1
Os princípios de vida ensinados neste salmo seguem a mesma linha doutrinária que vem sendo exposta desde o salmo 46.
Aqui se faz um alerta aos tolos ricos. Pessoas que depositam sua fé e confiança no poder econômico e intelectual que amealha-
ram (Sl 52). O autor levítico sabe o que é viver sem os privilégios das riquezas e já observou a arrogância e a soberba que domina
aqueles que se acham poderosos nesta terra. Sob o temor do Senhor, o salmista oferece, a todos nós, a sua sabedoria e previne
o estulto quanto a seu inexorável fim: a morte (v.14). Os justos, entretanto, alcançaram misericórdia, e, por meio do favor divino,
viverão eternamente. E essa segunda metade interminável da vida, lhes será indescritivelmente mais feliz (Mt 13.43).
2
A linguagem usada aqui pelo levita do Senhor é mais profética que sapiencial (de sabedoria, como nos provérbios). É um
aviso claro e objetivo, de Deus, quanto ao comportamento humano sob o olhar criterioso do Senhor (1Rs 22.28; Is 34.1; Mq 1.2;
Sl 34.11; Pv 1.8; 2.1; Mt 12.34).
3
A palavra de profecia e sabedoria que sai da boca do salmista deve ser ouvida e compreendida primeiro por ele mesmo, pois toda
a verdadeira sabedoria vem de Deus (Jó 28). A harpa indica o senso de inspiração que o autor possuía (1Sm 10.5,6; 2Rs 3.15).
4
A questão aqui é: por que o justo haveria de temer o tolo rico e suas maldades? As duas respostas que se seguem asseguram
que o justo deve temer apenas o Senhor, mais nada nem ninguém (vv.7-8; 13-20).
5
A primeira resposta afirma que as riquezas não podem comprar o livramento da mais terrível das desgraças: a morte; nem
mesmo um “parente influente e redentor” conseguiria tal proeza (Êx 21.30; Lv 25.47-49). Somente a pessoa do Senhor tem poder
para redimir uma vida da decomposição física e da destruição eterna (v.15; Ef 2.8,9; Gl 3.13-14; 4.3-5; 1Pe 1.18-21).
6
A segunda resposta revela que o justo não deve temer o rico e arrogante, pois, enquanto o futuro do rico sem Deus é de mi-
séria eterna (seus próprios túmulos, ricos e decorados, serão ironicamente suas casas eternas, Ec 12.5. O futuro dos que amam a
Deus e vivem em humildade de coração está reluzindo cada vez mais com a perspectiva da vida eterna no Reino.
7
O salmista emprega uma linguagem figurada da mitologia cananéia que define o deus Mot (morte), como um “devorador de
ovelhas”. Como diz um velho adágio cananeu: “Não te achegues demasiado ao deus Mot, caso contrário ele te devorará como
a um dos seus cordeiros”. O monstro da morte é o próprio guia e pastor dos arrogantes e presunçosos, aqueles para os quais o
Senhor não merece toda a atenção, muito menos os demais seres humanos (69.15; 141.7; Pv 1.12; 27.20; 30.15,16; Is 5.14; Jn
2.2; Hb 2.5). Contudo, os tolos ricos, ao morrerem, não levarão absolutamente nada consigo (Lc 12.19). Este versículo pode ser
transliterado do original Massorético desta maneira: Catson lisheol shátu, mavet yir’em, veyirdu vam iesharim labóker, vetsuram
levalot Sheol mizevul sêla.
SALMOS 49
57
19
irá também para a geração de seus
pais, que nunca mais verão a luz.
20
O homem que, na opulência, não refle-
te, assemelha-se ao gado que se abate.
8
A essência da adoração a Deus
Salmo da família de Asafe.
50
O Todo-Poderoso, nosso Deus, se
pronunciou, convocando toda a
terra, desde o nascer do sol até o poente.
2
Desde Sião, excelsa em beleza, Deus res-
plandece.
1
3
É nosso Deus que se aproxima, rompendo
o silêncio: precede-o um fogo devorador, e
ao seu redor uma terrível tempestade.
4
Ele convoca os céus, lá do alto, e a terra,
para o julgamento de seu povo:
2
5
Congregai, junto a mim, meus fiéis
que selaram aliança comigo através de
sacrifício!
3
6
Os céus proclamam a sua justiça, por-
que é o próprio Deus quem julga.
(Pausa)
7
“Escuta, meu povo! Eu vou falar: vou
testemunhar contra ti, Israel. Eu Sou
Deus, teu Deus:
8
não te repreendo pela falta de sacrifí-
cios nem pelos holocaustos, pois trazes
as tuas oferendas dia após dia.
4

9
Contudo, não tenho necessidade de ne-
nhum novilho dos teus estábulos, nem
de bodes dos teus apriscos,
10
pois todos os animais da floresta são
meus, como o são as cabeças de gado, aos
milhares, nas colinas.
11
Conheço todas as aves das montanhas,
e os répteis do campo me pertencem.
12
Se Eu tivesse fome, não o diria a ti, pois
a mim pertence o mundo e tudo o que
ele contém.
13
Por acaso comerei carne de touros e
beberei sangue de bodes?
14
Como sacrifício, oferece a Deus a tua
ação de graças e cumpre os teus votos
para com o Altíssimo;
15
invoca-me no dia do perigo! Eu te li-
vrarei, e tu me darás glória”.
16
Entretanto, ao ímpio Deus afirma: De
que te serve repetires sem fim os meus
preceitos e teres nos lábios a minha
aliança?
5
17
Tu, que detestas as minhas disciplinas
e dás as costas às minhas palavras!
18
Ao encontrar um ladrão, a ele te asso-
cias como amigo, e com adúlteros te mis-
turas alegremente.
19
Soltas facilmente a tua boca para o mal,
e tua língua é hábil para tramar mentiras.
8
Independentemente da tradição cultural, classe social e econômica, ou da capacidade intelectual de uma pessoa, sem uma
profunda conversão interior a Jesus Cristo, o Messias, em que se reverencie o Filho de Deus como Salvador pessoal, ninguém
encontrará a verdadeira, plena e eterna salvação; só lhe restará a separação definitiva de Deus, ou seja, a morte (1Jo 5.11-12).
Capítulo 50
1
Podemos observar que na transliteração do manuscrito original Massorético, aparecem, juntos, três nomes de Deus: “El
Elohim Adonai diber vayicrá árets, mimizrach shémesh ad mevoô. Mitsión michlal iofi Elohim hofía”. Outros quatro nomes de Deus
são registrados nos versículos 6,14,21 e 22. Neste salmo magnífico, a cena que contemplamos é uma teofania – o aparecimento
de Deus no meio do fogo e da tempestade, para conclamar o mundo todo para o grande tribunal do Senhor. Os nomes hebraicos
΄ēl - ´ēlõhim e jehõvã (Javé) significam Deus como “poderoso gerador de tudo o que há”; Deus, como “plural de majestade”, a
partir do que se compreende a Trindade revelada no NT; assim como o “Deus da Aliança”, que se apresenta pessoalmente ao seu
povo. Foi exatamente esse aspecto da divindade que Jesus Cristo veio revelar à humanidade.
2
Todo o universo é convocado para testemunhar o julgamento que o próprio Deus realizará contra seu povo, cujas respon-
sabilidades e faltas serão avaliadas em função dos muitos privilégios que o Senhor concedeu a seu povo durante a história da
humanidade (Am 3.2).
3
Os sacrifícios de animais faziam parte do ritual de sangue, no templo, que selava a Aliança, e continuavam a fazer parte
inseparável da expressão de fidelidade ao Senhor, dos crentes israelenses no AT (Êx 24.4-8).
4
Israel não deixara de cumprir seus rituais de sacrifício e celebrações formais (v.8), mas no seu íntimo não havia sincero e
verdadeiro espírito de gratidão e adoração a Deus, e essas são as qualidades que o Senhor mais procura nos seres humanos.
Cumprir rituais com o objetivo de apaziguar uma divindade irada era um conceito pagão que havia danosamente migrado para os
arraiais de Israel (40.6). Os legalistas são os primeiros a serem julgados: recebem crédito pelo que fazem (v.8), mas são repreen-
didos pelo espírito com que o fazem (vv.9-13) e, em seguida, são orientados a agir corretamente (vv.14-15). Portanto, a fé sincera
é o culto mais apreciável que se pode oferecer a Deus.
5
Um segundo grupo de faltosos a ser julgado refere-se aos ímpios (sem piedade ou fé), aqueles que desprezam a Lei de Deus,
mas não temem citá-la de forma hipócrita sempre a seu próprio favor (vv.16-21).
SALMOS 49, 50
58
20
Assentas-te à vontade para falar contra
teu irmão, e és rápido para caluniar o fi-
lho de tua própria mãe!
21
Ficaria Deus calado diante de tudo
quanto tens feito? Pensavas que Eu era
semelhante a ti? Eis, no entanto, que ago-
ra Eu te acusarei veementemente, sem
omitir falta alguma!
6

22
Considerai, pois, nisso vós, que esque-
ceis a Deus, senão vos faço em pedaços e
ninguém vos poderá libertar.
7
23
Quem me oferece sua sincera gratidão
como sacrifício, honra-me, e Eu revelarei
a salvação de Deus ao que anda nos meus
caminhos!
8

Contrição e confssão de Davi
Ao regente do coro. Salmo de Davi, quando o
profeta Natã o confrontou, depois de haver ele
cometido adultério com Bate-Seba.
51
Tem piedade de mim, ó Deus,
segundo a tua misericórdia; con-
forme a tua grande clemência, apaga mi-
nhas transgressões!
1
2
Lava-me de toda a minha culpa e puri-
fica-me do meu pecado.
3
Pois no meu íntimo reconheço as mi-
nhas transgressões, e trago sempre pre-
sente o horror do meu pecado.
4
Pequei contra ti, contra ti somente, e
pratiquei o mal que tanto reprovas. Por-
tanto, justa é a tua sentença, e incontes-
tável, ao julgar-me condenado.
2
5
Reconheço que sou pecador desde o
meu nascimento. Sim, desde que me
concebeu minha mãe.
3

6
Sei que tu queres estabelecer a verdade
no meu interior; e no meu coração mi-
nistras a tua sabedoria.
7
Portanto, purifica-me com hissopo e
ficarei limpo; lava-me, e mais branco do
que a neve serei.
4
8
Faze-me voltar a ouvir júbilo e alegria, e
os ossos que esmagaste exultarão.
9
Esconde o rosto do meu pecado e apaga
todas as minhas iniqüidades.
10
Ó Deus meu! Cria em mim um cora-
ção puro, e renova dentro de mim um
espírito inabalável.
11
Não me afastes da tua presença, nem
tires de mim teu Santo Espírito!
12
Restitui-me a alegria da tua salvação e
sustenta-me com um espírito disposto a
obedecer.
5
6
O silêncio misericordioso e paciente de Deus é interpretado de forma errônea e perversa pelos ímpios, com o objetivo de
construírem doutrinas que apóiem suas intenções e atos malévolos (Ec 8.11; Is 42.14; 57.11). O Senhor é o Criador e não pode
ser confundido com qualquer das suas criaturas (Êx 3.14).
7
Todos os povos do mundo devem considerar atentamente o dia do juízo final e o julgamento pessoal de cada ser humano
de todos os tempos. A palavra hebraica, aqui traduzida por “Deus” é relativamente rara nos originais dos Salmos, aparecendo
mais vezes no livro de Jó.
8
As Escrituras Sagradas, de forma geral, chamam constantemente atenção para a importância que há no falar das pessoas,
como uma indicação precisa do seu verdadeiro caráter e coração (Tg 3.1-12).
Capítulo 51
1
Este salmo é a oração humilde e sincera de um pecador consciente dos seus pecados, profundamente arrependido e dis-
posto a confiar plenamente na graça de Deus, para mudar de vida. Davi nos revela, por meio do seu próprio exemplo de vida,
a maneira correta de reagirmos à correção e disciplina que vêm da parte do Senhor contra um indivíduo ou mesmo sobre toda
uma nação (v.16 com Sl 50). Na tradição da Igreja, esta oração pertence aos chamados “sete salmos penitenciais” (veja Sl 3; 4;
6 e 25). Observe a profusão de semi-sinônimos de amor e salvação atribuídos à ação divina: piedade, misericórdia, clemência,
apagar, lavar, purificar (Lc 18.13). Quanto à tríade: transgressões, iniqüidade e pecado veja Sl 32.5.
2
Davi não tenta camuflar seu pecado, tampouco reduzir a hediondez de seus erros. Também não atribui suas faltas a causas ine-
vitáveis, ciladas da vida, outras pessoas, ou más influências. Estabelece o correto contraste entre o “tu” e o “eu” para revelar o Deus
santo e justo que observa atento o ser humano pecador. Essas conclusões levam Davi a pedir por misericórdia e não por justiça, ba-
seando sua oração no amor perdoador e purificador do Senhor (Sl 32.2). Fazer o mal é, acima de tudo, uma afronta à santidade e ao
amor de Deus. Davi evidencia profunda tristeza por ter pecado contra Deus, um sentimento de sincera frustração e arrependimento
por ter ferido o coração do Pai, não um simples desgosto e vergonha por causa das inevitáveis conseqüências do pecado.
3
Nós, humanos, somos naturalmente movidos por sentimentos pecaminosos (vontades contrárias à santidade de Deus) por
causa da nossa “natureza caída”, uma tendência inata, conhecida teologicamente como “pecado original”, e que só pode ser
controlada mediante a plenitude do Espírito Santo na vida daquele que experimenta o “novo nascimento” (Gn 3; Jo 1.12,13; 1Jo
1.9,10; Ef 2.3; Rm 3.23; 5.12).
4
O hissopo era um pequeno arbusto usado na tradicional cerimônia de purificação: com os seus ramos se espargia pelo altar de
Deus, o sangue do sacrifício e a água abençoada, como símbolo dos elementos purificadores (Êx 12.22; Lv 14.1-7; 1Rs 4.33).
5
Davi conclui que seu maior desejo na vida é reconquistar a santidade por meio da purificação que vem do Senhor. Só assim
SALMOS 50, 51
59
13
Então ensinarei os teus caminhos aos
transgressores, para que os pecadores se
voltem também para ti.
14
Salva-me do pecado de sangue derra-
mado, ó Eterno, Deus da minha salvação,
para que minha língua seja livre para
cantar exaltando a tua justiça.
6
15
Ó Senhor, dá palavras corretas aos
meus lábios, para que a minha boca pos-
sa proclamar o teu louvor.
16
Não te deleitas em sacrifícios nem te
comprazes em oferendas, pois se assim
fosse, eu os ofereceria.
17
O verdadeiro e aceitável sacrifício ao
Eterno é o coração contrito; um coração
quebrantado e arrependido jamais será
desprezado por Deus!
18
Que te regozijes em abençoar a Sião e
edificar as muralhas de Jerusalém.
19
Então te agradarás dos sacrifícios sin-
ceros, das ofertas queimadas e dos holo-
caustos; e novilhos serão oferecidos so-
bre o teu altar.
7

O ímpio será aniquilado por Deus
Ao regente do coro. Um poema didático de Davi,
quando Doegue, edomita, fez saber a Saul que
Davi entrara na casa de Abimeleque.
52
Por que, ó prepotente, te vanglo-
rias na maldade, para ultraje de
Deus, todo dia?
1
2
Engendras crimes; tua língua é lâmina
afiada, é forjadora de intrigas.
3
Ao bem, preferes o mal; à palavra da
justiça, a mentira.
(Pausa)
4
Todas as palavras perniciosas te agra-
dam, ó língua pérfida!
2

5
O próprio Deus te destruirá para sem-
pre; agarrando-te, te arrancará da tenda,
para erradicar-te da terra dos vivos.
(Pausa)
6
Ao vê-lo, os justos, tomados de temor,
dele escarnecerão:
7
“Eis o homem que não tomava a Deus
por seu refúgio! Porquanto, depositava
sua fé em suas muitas riquezas e, assim,
tornou-se poderoso por seus crimes”.
3

8
Eu, porém, qual oliveira verdejante na
casa de Deus, confio no amor divino
para todo o sempre!
9
Eu sempre te louvarei pelo que fizeste;
na presença dos teus fiéis proclamarei o
teu Nome, porque Tu és bom!
4
ele alcançará a verdadeira alegria, e isso não depende de melhor educação ou situação socioeconômica, mas sobretudo de um
“novo coração” (1Pe 1.3,23).
6
Só depois de passar pelo processo de purificação interior, mediante o perdão e o concerto de Deus, é que estamos habili-
tados a voltar a testemunhar de forma efetiva e agradável ao Senhor. Os rituais externos não são capazes de produzir o perdão
divino; Deus aguarda um verdadeiro e íntimo arrependimento, para com seu Espírito, vir socorrer e perdoar o penitente (2Sm
12.13). Este versículo pode ser transliterado do original hebraico desta forma: Hatsilêni midamim, Elohim Elohê teshuati, teranen
leshoni tsidcatêcha.
7
Somente após o restabelecimento da íntima comunhão com Deus, mediante sincero arrependimento, perdão e propósito
santo de vida, é que a Cidade Santa e o culto no Templo passam a ter pleno valor para Deus, podendo então ser espiritualmente
restaurados e reedificados. No Sl 32, um cântico composto na época dessa restauração interior de Davi pode observar a expres-
são de alegria e louvor do coração do servo refeito, diante do seu Senhor amado.
Capítulo 52
1
Os crentes sinceros não devem sentir-se intimidados por nada e por ninguém. Os incrédulos são, quase sempre, arrogantes,
e agem sob influência do maligno. Davi nos ensina a ficar firmes na presença de Deus e, do alto dessa torre de refúgio, com uma
visão privilegiada da história e do gênero humano, lançar para baixo a denúncia profética (Is 22.15-19; 1Sm 17.45-47). Este poe-
ma, ainda que não seja exatamente um salmo de sapiência, tem muito a ver com o Sl 49. O retrato do inimigo soberbo contrasta
com a humildade do servo de Deus, no Sl 51.
2
As Escrituras Sagradas advertem para o fato de que o uso que fazemos das palavras é determinado por tudo quanto habita
no mais íntimo da nossa alma. O coração, portanto, é a fonte; e a linguagem é o rio caudaloso que parte das nossas entranhas
(Tg 3.11; Pv 4.23; Mc 7.21).
3
O inimigo arrogante terá o mesmo fim dos tolos ricos do Sl 49. Quando os justos observarem o juízo de Deus aniquilando
para sempre o perverso, temerão cair em semelhante castigo; mas acabarão se alegrando ao contemplar a vitória da causa de
Deus, da qual são participantes e herdeiros (Sl 2.4). Quem confia apenas em si mesmo está rejeitando a misericórdia e o amor
solidário de Deus.
4
O poema termina com uma nota solene de louvor; as ações de graça se referem ao passado: todos os grandes feitos de
Deus são rememorados. E a esperança projeta, para os crentes, um futuro com infinitas bênçãos que fluem da maravilhosa Fonte
Eterna, que é Deus.
SALMOS 51, 52
60
A oração do pecador regenerado
Ao mest re de música. De acordo com a me-
lodia solene de mahalat. Um poema sacro
de Davi.
1
53
Imagina o tolo em seu íntimo:
“Deus não existe!” Corrompem-
se e praticam iniqüidade; já não há quem
faça o bem.
2
Do céu, observa Deus os filhos dos seres
humanos, a fim de ver se há quem enten-
da, se há quem busque a Deus.
3
Todos se extraviaram, semelhantemente
se corromperam; não existe alguém que
pratique o bem, não existe nem mesmo
uma só pessoa.
2
4
Será que esses malfeitores não aprendem
nunca? Eles devoram o meu povo como
quem come pão e não respeitam a Deus?
5
Contudo, serão atingidos por um pa-
vor horrível, porém, não existirá, de fato,
motivo algum para temer! Porquanto, o
Eterno espalhará os ossos dos que te si-
tiaram, ó Jerusalém. Ele os humilhará e
os tornará objeto de desprezo!
3
6
Ah, se de Sião viesse a salvação para Isra-
el. Quando Deus restaurar a sorte do seu
povo, Jacó exultará e Israel se rejubilará!
Apelo por socorro divino
Ao regente do coro: com inst rumentos de corda.
Um poema de Davi, quando os zifeus vieram
revelar a Saul: “Davi de fato está se escondendo
ent re nós!”
54
Ó Deus, salva-me por teu Nome, e
faze-me justiça por teu poder!
2
Ouve esta minha oração, ó Deus meu;
dá atenção às palavras da minha boca.
3
Porquanto, contra mim se levantam os
arrogantes, e os violentos procuram ma-
tar-me; homens que desprezam a Deus.
1
(Pausa)
4
Verdadeiramente, Deus é o meu socor-
ro; é o Senhor que me sustém.
2

5
Ele retribuirá o mal praticado pelos
meus opressores; por tua lealdade os ex-
terminarás!
6
Com grande júbilo te oferecerei sacrifí-
cios; cantarei em louvor ao teu Nome, ó
SENHOR, e proclamarei que Tu és bom!
7
Pois Ele me livrou de todas as minhas
aflições; e os meus olhos contemplaram
a derrota dos meus inimigos!
3
Súplica do perseguido
Ao regente do coro: com inst rumentos de corda.
Um poema sacro de Davi.
55
Ó Deus, presta ouvido à minha ora-
ção e não ignores a minha súplica!
2
Atende-me e responde-me! Sinto-me
perplexo em minha queixa,
1

3
conturbado com a gritaria dos meus
inimigos e a opressão dos ímpios,
1
A expressão original hebraica mahalat, cujo significado está ligado ao “padecimento sob as zombarias dos ímpios” (Sl 88;
102), traz o sentido de solenidade litúrgica, à melodia. Este salmo é considerado como uma segunda edição do Sl 14.
2
O Espírito de Deus revela a Davi que, embora a sociedade humana faça distinção entre pessoas e pessoas, não existe um
só ser humano absolutamente justo e bondoso: todos nós somos pecadores e carecemos da graça misericordiosa e salvadora
do Senhor (Rm 1 a 3).
3
Se o amor e o perdão divinos, por meio da pessoa de Jesus Cristo, são rejeitados (Jo 14.6); então, infelizmente, nenhuma
alternativa existe, senão as duras conseqüências naturais do pecado, da humilhação e do afastamento eterno de Deus. Davi ora
para que Israel seja salva do destino dos ímpios (v.6). Este versículo pode ser transliterado a partir dos originais hebraicos desta
forma: Sham pachadu fáchad lo haia fachad, ki Elohim pizar atsmot chonach, hevishôta ki Elohim meassam.
4
Este versículo pode ser assim transliterado: Mi yiten mitsión ieshuót Yisrael, beshuv Elohim shevut amo, iaguel Iaacov
yismach Yisrael.
Capítulo 54
1
Típica oração do Saltério, na qual Davi pede a expressa intervenção de Deus contra seus inimigos que planejam assassiná-lo (Sl 3; 4
e 13). O título no original hebraico se refere ao evento ocorrido em 1Sm 23.19. Davi suplica que o Senhor julgue sua causa (Sl 17).
2
A confissão de plena confiança no Senhor é o ponto central deste poema de Davi (Sl 42.8).
3
A oração de fé é aquela em que o servo de Deus reconhece a soberania de Deus e tem absoluta certeza de que o Senhor fará
o melhor; nem sempre o que desejamos de imediato, mas sempre o que nos conduzirá a um bem maior e à felicidade eterna.
Portanto, em vez da dúvida, devemos alimentar a fé, por meio da expressão de louvor e sincera gratidão pela resposta do Pai
(Sl 3.8; 5.11; 7.17).
Capítulo 55
1
Davi busca forças e socorro em Deus para vencer uma poderosa conspiração que foi armada contra ele, em Jerusalém, sob
SALMOS 53–55
61
porque descarregam sobre mim suas
maldades e me atacam com fúria.
4
Em meu peito agita-se o coração, terro-
res mortais caíram sobre mim.
5
Temor e tremor me invadiram, e cobre-
me o pavor.
6
Então, eu declarei: “Quem me dera ter
asas de pomba para voar e encontrar um
abrigo!”
7
Sim, eu fugiria para longe, para ficar no
deserto.
8
Procuraria, às pressas, um refúgio segu-
ro contra a tormenta e as tempestades.
9
Ó Senhor, destrói os ímpios; confunde
a língua deles, pois vejo violência e brigas
na cidade.
2
10
Dia e noite, fazem ronda sobre mura-
lhas. Lá dentro, maldade e crimes.
11
A destruição impera dentro da cidade;
a opressão e as fraudes jamais abando-
nam suas ruas.
12
Não é apenas um simples inimigo que
me insulta – eu o suportaria – não é um
adversário que se levanta contra minha
pessoa – eu dele me defenderia –
13
mas és tu, meu companheiro, meu
confidente e amigo mais chegado.
14
Justamente tu, com quem eu partilha-
va da mais agradável e íntima comunhão,
enquanto caminhávamos com a multi-
dão festiva em direção à Casa de Deus!
3

15
Portanto, que a morte apanhe meus
inimigos de surpresa! Que todos eles
desçam vivos à sepultura, pois entre eles
o mal achou morada.
16
Eu, porém, clamo a Deus e o SENHOR
me salvará!
17
De tarde, de manhã e ao meio-dia, lamen-
to angustiado, e Ele ouve a minha súplica.
18
Ele me resgata ileso da batalha, sendo
muitos os que estão contra mim.
4
19
Deus, que reina desde sempre, me ou-
virá e os humilhará!
(Pausa)
Pois os ímpios jamais mudam seu modo
de agir e não têm o temor de Deus.
20
Quem estendeu as mãos contra os seus
aliados, profanou sua própria aliança.
21
Sua fala é mais macia que a manteiga,
contudo a guerra habita em seu íntimo;
suas palavras são mais suaves que o azei-
te puro, todavia são afiadas e perigosas
como o punhal.
22
Entrega tuas preocupações ao SENHOR!
Ele te sustentará; jamais permitirá que o
justo venha a cair.
5
23
No entanto, tu, ó Deus, farás descer ao
abismo da destruição todos aqueles as-
sassinos e traidores, os quais não conse-
guirão viver nem a metade dos dias que
lhes estavam reservados. Eu, porém, de-
posito toda a minha confiança em ti!
Confança em Deus na angústia
Ao regente do coro: segundo a melodia “Uma
Pomba em Car valhos Longínquos”. Hino de
Davi, quando os filisteus estavam para prendê-
lo em Gate.
56
Tem piedade de mim, ó Deus! Por-
quanto há pessoas que me afligem.
Eles me atacam e me oprimem sem trégua.
2
Esses caluniadores me agridem sem pa-
rar; muitos se insurgem arrogantemente
contra mim.
a liderança de um de seus amigos íntimos. Uma situação muito semelhante à traição de Absalão contra o rei (2Sm 15 a 17). Davi
aprende que não há lugar mais protegido e afastado das garras do mal que os braços do Senhor (vv.6,8,22; Jr 9.2-6).
2
Davi pede a Deus que produza confusão entre seus inimigos, assim como ocorreu em Babel (Gn 11.5-9; 2Sm 17.1-14).
3
Ofensas, tramas e violências de um inimigo são atitudes esperadas; no entanto, como suportar a traição de um amigo em
quem se confia (v.20; Sl 41.9)?
4
Davi clama, dia e noite, ao Senhor, por livramento e reparação (Dn 6.10). E que Deus abrevie os dias dos seus inimigos na
terra para que diminuam suas chances de arrependimento e perdão (v.23; Nm 16.29-33; Pv 1.12; Is 5.14). Davi confia totalmente
no resgate que vem do Senhor (Is 50.2; Jr 31.11).
5
É Deus quem julga e castiga os ímpios e malfeitores, aqueles que desprezam o verdadeiro ensino da Palavra, vivem pecando
e jamais aprendem a praticar o bem (Sl 14; 53 e 36.1). A expressão original hebraica traduzida por “aliado” significa literalmente:
“aqueles que estão em paz com o salmista”. Diante de todas as pessoas reunidas no Templo, Davi expressa sua total confiança
no auxílio do Senhor, por isso pode descansar de suas angústias e frustrações mais perturbadoras (vv.16-23; 1Pe 5.7). Este último
versículo, no original hebraico, pode ser assim transliterado: Veata Elohim toridem liveer sháchat, anshê damim umirmá lo iechetsú
iemehém, vaani evtach bach.
SALMOS 55, 56
62
3
Todavia, quando o medo me atacar,
confiarei em ti!
1
4
Em Deus, cuja Palavra eu louvo, em
Deus, eu deposito toda a minha confian-
ça, e nada temerei. O que poderá fazer-
me o simples mortal?
5
Todo dia, escarnecem de minhas pala-
vras; seus pensamentos são todos contra
mim, para o mal.
6
Eles iniciam as hostilidades, espiam-me,
vigiando meus passos. Porque atentaram
contra a minha vida,
7
deixa-os escapar para a desgraça, der-
ruba essa gente, ó Deus, em tua ira!
8
Tu mesmo anotaste o meu lamento;
recolhe em teu odre as minhas lágrimas!
Ora, acaso não registras tudo em teu
Livro?
2
9
Meus inimigos baterão em retirada
no dia em que eu clamar por socorro. E
assim ficará claro que Deus está a meu
favor!
10
Em Deus, cuja Palavra eu exalto – no
SENHOR, cuja Palavra eu proclamo –
11
neste Deus, deposito toda a minha fé,
e nada temerei: o que poderá fazer-me o
ser humano?
12
Assumo, ó Deus, os votos que te fiz; a Ti
apresentarei as minhas ofertas de gratidão.
13
Porquanto me livraste da morte e os
meus pés de tropeçarem, a fim de que eu
caminhe diante de Deus, na luz que ilu-
mina os vivos!
3
O perfeito refúgio está em Deus
Ao mest re de canto. De acordo com a melodia
“Não Dest ruas”. Um hino de Davi, quando
fugiu de Saul e abr igou- se numa caver na.
57
Tem misericórdia de mim, ó Deus,
tem piedade de mim! Pois em ti a
minha alma encontra refúgio. Eu me re-
fugiarei à sombra das tuas asas, até que
passe o perigo que me persegue.
1

2
Clamo a Deus, o Altíssimo, ao Deus que
sempre me dispensou sua proteção.
2
3
Dos céus Ele me enviará o seu livra-
mento e a salvação, me protegerá com
seu amor misericordioso e fará fracassar
todos os intentos daqueles que me perse-
guem impiedosamente.
(Pausa)
4
A minha alma está cercada por leões
ferozes, tenho de repousar ent re ho-
mens per versos, que por dentes têm
lanças e flechas e, por língua, uma es-
pada afiada!
3
5
Ó Deus, eleva-te sobre os céus e sobre
toda a terra, com tua glória!
4
6
Estenderam uma rede para os meus
passos: isso abateu minha alma. Diante
1
O medo é sempre paralisante. Mas Davi confia no Senhor e em sua Palavra, e essa fé lhe dá forças e a liberdade de agir e
ver as maravilhas de Deus (1Sm 21.10-15; Sl 3; 4; 9; 34). A principal arma dos inimigos é a calúnia (Sl 5.9), e a arrogância lhes
dá a falsa impressão de poder, desconsiderando o Deus de Davi (Sl 10.11). Davi afasta o medo e a insegurança por meio da fé
na Palavra de Deus (vv.3,4).
2
Esta é uma forma figurada de expressar a onisciência e a atenção de Deus para conosco: que sonda nossos corações e
conhece todas as nossas intenções, conflitos e vontades. Deus é pelo crente, a cruz de Cristo é a maior prova, as Sagradas
Escrituras a maior revelação, e o Espírito Santo, a grande e definitiva confirmação (Rm 8.31-39).
3
Davi demonstra sua fé ao escrever como se sua oração já tivesse sido plenamente atendida pelo Senhor. Reconhece que
agora deve cumprir os votos que fez a Deus, quando estava passando por graves aflições (Sl 66.14; 7.17). O Espírito de Deus é a
grande luz que ilumina o caminho daqueles que recebem a bem-aventurança da verdadeira vida (Sl 36.9).
Capítulo 57
1
Davi suplica a proteção de Deus diante da perseguição implacável de seus inimigos (1Sm 24.1-3; Sl 142). Neste salmo Davi
usa a linguagem figurada dos elementos assustadores de uma noite no deserto e a esperança que nasce com o amanhecer.
Estabelece ainda muitas ligações com o Sl 56 e vários outros (Sl 30.5; 46.5; 59.6-16; 63.1-6; 90.14; 108.1-5).
2
Este versículo pode ser transliterado do original hebraico desta forma: Ecra lelohim elion, lael gomer alai.
3
Os salmistas freqüentemente usavam a metáfora de animais selvagens e predadores, para identificar seus inimigos humanos
mas impiedosos. O caráter dessas pessoas é sempre o mesmo: procuram caluniar e defraudar violentamente seu próximo, en-
gendrando ciladas e provocando todo o mal possível, a fim de alcançarem seus objetivos escusos; agem da mesma forma que
Satanás, seu mestre (1Pe 5.8).
4
A glória de Deus se revela sempre que resgata os justos e castiga os ímpios. Um maravilhoso exemplo dessa manifestação da
glória do Senhor ocorreu na formação da nação de Israel (Êx 12 e 20) cuja história percorre toda a Bíblia, passando pela glória da
nossa Salvação em Cristo, e culminando no estabelecimento definitivo do Reino de Deus e da Nova Jerusalém (Ap 21.1,2).
SALMOS 56, 57
63
de mim cavaram um fosso: porém, eles
mesmos nele caíram.
5
(Pausa)
7
Meu coração está disposto, ó Deus, meu
coração está livre do medo: quero cantar
e entoar louvores.
8
Desperta, ó minha alma! Harpa e salté-
rio, despertai! Quero despertar a aurora.
6
9
Graças te darei, Senhor, entre as nações
te cantarei louvores,
10
pois teu amor se eleva até os céus e tua
fidelidade, até as nuvens.
12
Ó Deus, eleva-te sobre os céus e sobre
toda a terra, com tua glória!
Deus destruirá todos os ímpios
Para o mest re de música. Também confor me
a melodia “Não Dest ruas”. Um michtam de
Davi.
1
58
Acaso fazeis verdadeiramente jus-
tiça, ó poderosos da terra? Aca-
so julgais com eqüidade todos os seres
humanos?
2
2
Não! Vossas mentes tramam continua-
mente iniqüidades e, com vossas próprias
mãos distribuís injustiça pelo mundo.
3
Desde o nascimento se rebelaram os
ímpios e se desviaram do Caminho certo
todos aqueles que vivem mentindo;
3

4
seu veneno se assemelha ao de uma ter-
rível serpente; tapam os ouvidos como
uma víbora que se faz de surda
5
para não dar atenção à música dos en-
cantadores, nem à voz daqueles que têm
a habilidade de dominá-las.
4
6
Ó Eterno, arrebenta os dentes desses
leões selvagens e arranca, ó SENHOR, as
presas dessas feras!
7
Que desapareçam como água que es-
corre! Quando empunharem o arco, que
suas flechas embotem e caiam ao chão
antes de serem disparadas.
8
Que andem como a lesma que se ar-
rasta até derreter; que sejam como feto
abortado, não vejam eles o sol!
9
Os ímpios serão varridos do mundo
pela fúria de Deus, antes que seus espi-
nhos peçonhentos se enrijeçam!
10
O justo se alegrará, ao contemplar o
castigo com o qual o Eterno os punirá,
ao ver sob seus pés escorrer o sangue dos
perversos.
11
Compreenderão e proclamarão, então,
os homens: “Verdadeiramente há recom-
pensa para o justo; sim, Deus existe! Ele
faz justiça sobre toda a terra!”
5
5
Esta é uma das máximas bíblicas: todos quantos armarem ciladas e maldades contra seus semelhantes, mais cedo ou mais
tarde, serão apanhados em suas próprias redes.
6
Davi, pela fé, celebra o livramento que vem do Senhor (Is 51.9,17; 52.1). A expressão original hebraica, kābôd, significa
“alma”, quando usada em paralelo com os elementos vitais do ser humano. Todo crente que consegue sintonizar-se com a von-
tade de Deus terá motivos para cantar louvores a Deus, sejam quais forem as circunstâncias pelas quais estiver passando, pois o
Senhor cuida com carinho de todos, especialmente de seus filhos amados (Jo 1.12).
Capítulo 58
1
A expressão hebraica original michtam significa “um poema epigráfico”, ou hino elaborado a partir de “um poema de Davi”
(Sl 4; 9; 16; 57; 59; 75).
2
O poder judiciário era o principal recurso oferecido pelas sociedades do antigo Oriente Médio para proteção dos inocentes e
pobres contra o ataque dos inescrupulosos, geralmente ricos, influentes e poderosos; no original hebraico, esta expressão – po-
derosos da terra – tem o sentido de “deuses”, como que representantes (juízes) terrestres do tribunal celestial de Deus (Êx 21.6;
22.8,9; Dt 1.17; 2Cr 19.6). A sociedade israelita sofria com a corrupção dos altos representantes do poder judiciário desde os dias
do profeta Samuel, passando pela época de Davi, até o final da era monárquica (1Sm 8.3; 2Sm 15.1-4; Is 1.23; 5.23; 10.1,2; Ez
22.6,12; Am 5.7-13; Mq 3.1-11; 7.2).
3
Davi não faz esta afirmação em relação a todas as pessoas, mas especificamente contra os ímpios, aqueles cujo compor-
tamento maldoso e corrupto não é esporádico ou premido por necessidade extrema; ainda que, também, seja um grave erro
passível de punição, mas por causa de uma natureza pecaminosa, caída e depravada (Sl 10; 51.5; Jo 8.44).
4
O que sai da boca dos ímpios é tão malicioso, cruel e mortal como o veneno das serpentes mais peçonhentas. Não há argu-
mentos ou pessoa que os possa demover de seus intentos maléficos e destruidores (Sl 140.3; Mt 23.33; Tg 3.8). O texto original
hebraico dos vv.5 e 6 pode ser assim transliterado: Chamat lamo kidmut chamat nachash, kemo féten chéresh iatem ozno. Asher
lo yishmá lecol melachashim, chover chavarim mechucam.
5
O tempo passa muito depressa e, em breve, o Senhor julgará os “deuses” (os juízes e os poderosos da terra). Todo o mundo
verá o triunfo majestoso do direito sob o governo justo de Deus. O sentimento de indignação e frustração diante do atual estado
de injustiça mundial será plenamente saciado: o ímpio pecador receberá seu merecido pagamento (a morte eterna), e a grande
recompensa da glória eterna será plenamente outorgada aos crentes fiéis (Rm 6.23).
SALMOS 57, 58
64
Oração do perseguido
Ao regente do coro, de acordo com a melodia
“Não Destruas”. Poema de Davi, quando Saul
mandou que lhe sitiassem a casa para o matar.
1
59
Ó Deus, livra-me dos meus inimigos,
protege-me dos meus agressores!
2
Livra-me dos malfeitores, salva-me dos
homens sanguinários!
3
Ei-los em emboscadas para tirar a mi-
nha vida! Poderosos me espreitam, sem
transgressão alguma da minha parte, ó
SENHOR.
4
Mesmo que não pesem sobre mim ini-
qüidades, eles se apressam em preparar-
se para agredir-me. Observa o que acon-
tece e intervém em meu auxílio!
5
Ó Eterno, Senhor dos Exércitos, Deus
de Israel, vem e julga o procedimento de
todas as nações; não tenhas misericórdia
desses traidores perversos!
(Pausa)
6
Eles voltam ao cair da tarde; rosnando
como cães, rodam a cidade.
7
Vê como de suas bocas provêm ame-
aças mortais; palavras cortantes como
espadas estão em seus lábios, e bramem:
“Há alguém que nos ouça?”
2
8
Contudo, tu, ó Eterno, deles te ris, zom-
bas da arrogância de todas as nações!
9
Ó minha Fortaleza, em ti espero! Tu, ó
Deus, és o meu supremo refúgio.
3
10
Meu Deus misericordioso, cer tamen-
te, virá em meu resgate; Ele me propor-
cionará a alegria de t riunfar sobre os
meus inimigos!
11
Todavia, não os mates, ó Senhor, nosso
escudo, para que meu povo não esqueça
como nos salvaste. Em teu poder faze-os
vaguearem humilhados.
12
Por causa de suas palavras mentirosas
e seus lábios pecadores, sejam vitimados
por sua própria arrogância, e pelas mal-
dições e calúnias que propagaram.
13
Destrói-os em tua ira santa, dá-lhes fim
para que não mais possam existir, e para que
até os confins da terra se possa saber que o
Eterno é quem reina sobre o povo de Jacó!
(Pausa)
14
Eles retornam ao pôr-do-sol, rosnan-
do e rondando a cidade.
15
Em busca de comida perambulam e, se
não ficam satisfeitos, uivam pela noite.
16
No entanto, eu cantarei louvores à tua
fidelidade, porquanto tu és o meu alto
refúgio, abrigo seguro, especialmente nas
épocas de crise.
17
Ó minha Fortaleza, hinos cantarei em
teu louvor, pois tu és, ó Deus, a minha
suprema proteção, ó Deus cujo amor
tem me abençoado!
4
Uma oração em tempos de guerra
Para o mest re de música. Conforme a melodia
“Os Lírios da Aliança”. Poema de Davi, para
inst rução. A história de Davi, quando lutou
cont ra os arameus da Mesopotâmia e, depois,
da Síria. E quando Joabe, regressando, derrotou
de Edom, doze mil guerreiros no vale do Sal.
1
1
Esta oração, em forma de poema hebraico, foi escrita originalmente por Davi como está explícito no cabeçalho do Salmo.
Com o passar do tempo, seus régios filhos revisaram o texto deste hino de súplicas e louvor a Deus, aplicando-o às crises e,
especialmente, aos graves sítios militares pelos quais Jerusalém passou, enfrentando ataques de muitas nações, ao longo da
história (v.1). Como, por exemplo, na época do rei Ezequias, quando foi sitiada pelos assírios (2Rs 18.19). O próprio Neemias teria
adaptado e orado algumas vezes este salmo com o povo de Israel, quando da reconstrução dos muros de Jerusalém (Ne 4).
2
Davi usa a metáfora da “noite” como símbolo do perigo iminente e da “aurora” como prenúncio do livramento e da salvação
(vv. 6,14,16; Sl 57). O inimigo cria muitos ardis, mas sua arma mais importante é a “língua”, o poder das calúnias, difamações e
maldições. O salmista suplica a Deus que julgue os que fazem injustiça (Sl 58.11). O ataque contra Davi era, naquelas circunstân-
cias, uma poderosa investida contra a nação de Israel, tramada, inclusive, por gente que se dizia amiga de Israel; literalmente em
hebraico: traidores (1Sm 1.3; 19.11; Sl 5.10; 7.6).
3
Este trecho, no original hebraico, pode ser assim transliterado: Uszo elêcha eshmora, ki Elohim misgabi. O salmista usa a
expressão “esperar” como alguém que tendo padecido a noite toda, aguarda com ansiedade e esperança pelo amanhecer de
um novo dia e a chegada do livramento e da salvação (Sl 130.6).
4
Somente o crente que aprendeu a depositar toda a sua confiança em Deus consegue descansar e cantar hinos de gratidão
ao Senhor, em meio às mais difíceis crises e aflições. O apóstolo Paulo foi um desses crentes que aprendeu a atravessar noites e
noites de provações, certo de que com a aurora viria a salvação do Pai amoroso (At 16.23-26; Cl 3.15-17).
Capítulo 60
1
Este salmo foi originalmente composto e orado pelo próprio rei Davi (v.9), suplicando o perdão de Deus e a restauração de
SALMOS 59
65
60
Ó Eterno, ao nos abandonares, Tu
nos alquebraste; Tu derramaste tua
ira contra nós; agora, pois, restaura-nos!
2

2
Reintegra nossas forças; fizeste estre-
mecer a terra e a fendeste; restaura esta
brecha antes que desmorone.
3
Severidade demonstraste a teu povo;
um vinho que nos tornou cambaleantes
nos deste a beber.
4
Concede aos que te reverenciam um estan-
darte a ser seguido, em nome da verdade.
3
(Pausa)
5
Salva-nos com tua mão direita e res-
ponde às nossas súplicas, para que sejam
libertos aqueles a quem amas.
4
6
Do seu santuário Deus falou: “No meu
triunfo dividirei Siquém e repartirei o
vale de Sucote.
5
7
Gileade a mim pertence, assim como
Manassés; Efraim é meu capacete, Judá é
o meu cetro.
6
8
Moabe é a vasilha sobre a qual lavo
minhas mãos, em Edom lanço a minha
sandália; sobre a Filístia proclamo o meu
brado de vitória!”
7
9
Quem me conduzirá à cidade fortifica-
da? Pudesse eu chegar agora até Edom!
10
Contudo, Tu nos rejeitaste, ó Eterno, e
não marchas com nosso exército.
11
Dá-nos a tua ajuda contra o inimigo,
porquanto inútil é o auxílio dos homens!
12
Só com Deus conquistaremos a vitória,
pois é Ele quem destrói todos os nossos
adversários!
Oração pela restauração do rei
Ao regente do coro: com inst rumentos de corda.
Um poema de Davi.
61
Ouve, ó Eterno, a minha súplica e
atenta à minha prece.
2
Quando fraqueja meu coração, mesmo
dos confins da terra clamo a Ti, com o
coração abatido; coloca-me a salvo sobre
a rocha mais elevada e inexpugnável!
1

sua santa comunhão com a nação de Israel, derrotada e afligida que fora pelos exércitos de uma nação gentia como Edom, que
soube tirar proveito da concentração do exército israelita no Norte e destruiu as fracas guarnições que vigiavam as fronteiras do
sul de Judá (2Sm 8; 10; 1Cr 18; 2Cr 20). O lamento de Davi liga este poema ao Sl 44 e reaparece no Sl 108.6-13, um dos muitos
hinos que visavam transmitir confiança em Deus, em tempos de ameaças e guerras (Dt 31.19-21; 2Sm 1.18).
2
Uma característica marcante da teologia do AT é entender qualquer derrota ou insucesso como demonstração da ira de Deus
contra algum pecado cometido. Davi está expressando a dor do seu povo e o sentimento geral de que Deus os havia punido com
severa derrota e a morte de muitos soldados. Entretanto, não há indicação real alguma de que Deus – em algum momento – tenha
quebrado seu vínculo de Aliança com Israel. As punições do Senhor são todas disciplinadoras e em benefício do seu povo, como
um Pai que sofre ao ter de ser severo na educação de seu filho (Dt 8.5; Jó 5.17; Pv 13.24; 1Co 11.32; Hb 12.10).
3
Este “estandarte” era uma bandeira usada como sinal para demarcar os locais onde as tropas deviam concentrar-se para
a batalha. Assim também, tais bandeiras eram usadas para guiar os exércitos durante as investidas contra os inimigos (Is 5.26;
11.10,12; 13.2; 18.3; 30.17; 49.22; 62.10; Jr 4.21; 50.2; 51.12,27). Este versículo pode ser transliterado do original hebraico desta
forma: Natáta lireêcha nes lehitnosses, mipenê cóshet (Sêla).
4
A expressão “a quem amas” traduzida a partir dos melhores e mais antigos originais em hebraico, corresponde a uma palavra
de “carinho particular e especial”. Este versículo pode ser assim transliterado: Lemáan iechaletsun iedidêcha, hoshía ieminechá
vaanêni. Essa mesma expressão especial para identificar o amor indestrutível e sacrificial que Deus tem para com os seus aparece
em Sl 127.2; 2Sm 12.25 e Jr 11.15.
5
Palavra de poder e consolo que vem do Senhor Deus para seus filhos, relembrando os tempos da conquista de Canaã, e
preservada na história no “Livro das Guerras do Senhor” (Nm 21.14). O Senhor é o nosso Rei Triunfante (Êx 15.3-18). Ele dividiu,
entre seu povo, o território conquistado nas batalhas. Sucote e Siquém são lugares que exemplificam as terras conquistadas a
oeste e leste do Jordão (Gn 33.17,18; 1Rs 12.25).
6
De Judá havia chegado o regente que o Senhor pessoalmente escolhera para reinar sobre seu povo na terra (1Sm 16.1-13;
2Sm 7). Uma simbologia poderosa sobre a vinda de Jesus Cristo, o definitivo e perpétuo Rei e Leão da Tribo de Judá (Ap 5.5).
7
Aqui estão representados os inimigos de Deus, que espreitavam os israelitas nas fronteiras leste, sul e oeste (Êx 13.17 com
15.14,15 e Nm 20.14-21). A metáfora usada em relação a Moabe tem a ver com o fato de esse adversário viver ao longo da praia
leste do mar Morto (Gn 18.4). O ato de se atirarem as sandálias num local era tradicionalmente reconhecido como um gesto pú-
blico de reivindicação do direito de posse daquela terra (Rt 4.7). Este versículo pode ser transliterado do original hebraico desta
forma: Moav sir rach’tsi, al Edom ashlich naali, alai peléshet hit’roái.
Capítulo 61
1
Davi compôs esta súplica poética a Deus, na época em que fugia de Absalão (2Sm 17.21-29). O tema deste salmo, como de
alguns que se interligam, é a expressão de plena confiança no amor e na ação poderosa do Senhor, em favor dos seus, mesmo
em meio às mais terríveis perseguições e crises da vida. Na frase “mesmo dos confins da terra”, a idéia de exílio tem um duplo
sentido: refere-se tanto ao afastamento forçado da terra natal, quanto à iminência da morte. O salmista encontrava-se à beira do
SALMOS 60, 61
66
3
Pois Tu tens sido o meu refúgio, uma
fortaleza diante do meu inimigo.
4
Possa eu morar sempre sob tua tenda e
abrigar-me à sombra das tuas asas.
(Pausa)
5
Ouviste, ó Eterno, os votos que te fiz;
assegura a herança de todos aqueles que
te reverenciam e temem o teu Nome.
2
6
Acrescenta dias aos dias de existência
do rei e que se estendam, por gerações,
seus anos de vida.
3

7
Que lhe seja outorgado o direito de se
assentar em seu trono, na presença de
Deus; envia o teu temor e a tua lealdade
para protegê-lo!
8
Assim, com salmos, hinos e canções,
para sempre exaltarei o teu Nome, cum-
prindo os meus votos cada dia.
Exortação à confança em Deus
Ao mest re de canto. Ao estilo da melodia de Je-
dutum. Um salmo de Davi.
62
Só em Deus está o descanso, ó
minha alma: dele vem a minha
salvação.
1
2
Só Ele é minha rocha e salvação, meu ba-
luarte. Ele jamais me deixará desesperar!
3
Até quando atacareis, todos juntos e
traiçoeiramente, um só homem, para
abatê-lo, como se fora uma parede desa-
prumada, uma cerca a desabar?
4
O maior objetivo deles é derrubá-lo de
sua posição elevada; eles se deliciam com
mentiras. Bendizem-no com suas bocas,
enquanto o amaldiçoam em seus cora-
ções.
2
(Pausa)
5
Contudo, somente no Eterno espera a
minha alma, em silêncio, pois Ele é que
me traz a esperança!
6
Ele é minha Rocha, minha Salvação,
minha torre inexpugnável. Por isso não
desesperarei jamais!
7
A minha salvação e a minha honra de-
pendem somente de Deus; Ele é a rocha
da minha fortaleza, a segurança do meu
abrigo!
3
8
Confia sempre em Deus, ó povo meu!
Perante sua presença derrama todo o co-
ração; Ele é o nosso refúgio seguro.
(Pausa)
9
Vãs são as palavras dos homens, men-
tirosas são as afirmações dos poderosos;
colocadas todas juntas numa balança
nada pesam!
10
Não depositeis na opressão, vossa con-
fiança; nem no estelionato, a esperança;
ainda que prosperem, não lhes deis aten-
ção.
11
Uma vez declarou Deus e duas lições
ouvi: o poder pertence a Deus,
4
12
e a bondade é tua, ó Eterno, pois Tu
mundo do além (Sl 63.9). O lugar seguro e confortável almejado pelo salmista que padece é o ambiente e a presença soberana
do próprio Deus, nossa “rocha perpétua de refúgio” (Sl 18.2; 31.2; 62.2-7; 71.3; 94.22).
2
Davi recorre ao Senhor, pois Deus nunca lhe faltara: o salmista jamais ficou sem resposta, consolo e abrigo divino. Ainda
que seja diante da morte, o Senhor é nosso maior refúgio e segurança (Sl 14.7; 49.14-15; 68.20; Jó 33.22-24; Is 25.8; 28.15-16;
Jr 9.21; Os 13.14 com 1Co 15.26).
3
O salmista lança um olhar profético para além de sua própria pessoa, reinado e circunstâncias, vislumbrando seu descenden-
te divino, que ainda estava para vir e estabelecer, no final dos tempos, seu grande, inabalável e eterno Reino (Lc 1.32-33).
Capítulo 62
1
Ao ser perseguido e ameaçado pelos familiares de Saul, o rei Davi olha para a multidão dos conspiradores, mas fixa sua fé
no amor e no poder do Senhor. A plena confiança em Deus é a total exclusão de todas as esperanças menores oferecidas pelo
mundo em que vivemos. Nosso livramento e salvação, assim como todas as demais bênçãos, procedem de Deus, o Eterno (como
a ele se referem os originais hebraicos), que a todos dá generosamente (Tg 1.5,17). Nenhum outro salmo de Davi é mais eloqüen-
te em relação à expressão de uma fé inabalável e singela em Deus (Sl 31; 61). O texto deste versículo pode ser transliterado do
original hebraico da seguinte maneira: Ach el Elohim dumitá nafshi, mimênu ieshuati. A expressão “silêncio” é interpretada como
“descanso” ou “em repouso” (v.5).
2
A metáfora da parede ou muro instável e prestes a ruir é comum nos provérbios orientais. Os covardes, ardilosos e calunia-
dores encontram, na maldade, a perfeita expressão da sua natureza pecaminosa.
3
Temos grande necessidade de parar e meditar sobre tudo aquilo que Deus é e pode. Se o Senhor ainda não significa para
nós o que Davi declara aqui, então precisamos urgentemente nos aproximar do Pai com um coração humilde e penitente (v.8;
Lm 2.19; Jo 14.1-16).
4
Davi conclui seu hino de exortação à absoluta confiança em Deus, com a proclamação do poder, da graça e da justiça do
Senhor; declaração que deu origem às mais belas e poderosas doxologias do NT (Rm 16.25; Ef 3.20; Jd 24).
SALMOS 61, 62
67
recompensas o ser humano, conforme
seus atos!
Anseio da alma por Deus
Salmo de Davi, quando estava no deserto de Judá.
63
Ó Eterno, Tu és o meu Deus e a Ti
eu busco dia e noite; a minha alma
tem sede de Ti! Todo o meu ser anela
pelo refrigério da tua presença numa ter-
ra árida, exausta e sem água.
1

2
Recordo-me dos dias em que te con-
templei no santuário, para me embeber
de teu poder e de tua glória.
2
3
Porquanto melhor que a própria vida
é o teu amor leal e misericordioso! Por
isso, os meus lábios te exaltarão sobre-
maneira.
4
Sim, por toda a minha vida eu Te ben-
direi e erguerei meus braços invocando o
teu Nome.
5
Como num rico banquete, assim minha
alma ficará plenamente satisfeita e, com
alegria nos lábios, te louvará minha boca.
6
Em meu leito, durante as noites de vi-
gília, lembrar-me-ei de Ti e meditarei so-
bre a tua bondade.
3
7
Porque tens sido meu socorro, e à sombra
das tuas asas canto louvores de alegria.
8
Minha alma a Ti se une, e tua destra me
sustenta.
9
Aqueles que procuram a minha des-
truição serão lançados às profundezas da
terra!
4
10
A espada os ferirá e se tornarão pasto
para os chacais.
11

O rei, porém, se alegrará em Deus; to-
dos os que juram pelo Nome de Deus o
louvarão todavia, as bocas dos mentiro-
sos serão lacradas.
5

Proteção contra as injustiças
Para o mest re de música. Um salmo davídico.
64
Ouve, ó Eterno, minha voz, quan-
do expresso meu lamento; protege
a minha vida do inimigo ameaçador.
1

2
Defende-me da conspiração dos ímpios
e da ruidosa multidão dos perversos.
3
Eles afiam suas línguas como espadas,
e como flechas disparam suas palavras
cheias de veneno.
4
E de suas trincheiras ocultas atiram con-
tra o homem íntegro; atacam, de embos-
cada, sem o menor receio da justiça.
2
5
Estão absolutamente dominados pela mal-
dade, conspiram para tramar ciladas e argu-
mentam entre si: “Quem nos descobrirá?”
6
Tramam a injustiça e declaram: “Fizemos
um plano perfeito!” A mente e o coração de-
les buscam legitimar os crimes cometidos.
7
Entretanto, é Deus quem dispara con-
tra eles uma flecha e, de pronto, os fere
de morte.
3
1
Assim como o Sl 62, este poema do rei Davi (2Sm 15.23-28; 16.2-23) tem, implícita, uma oração e foi muito usado nas orações
públicas da igreja primitiva. O progresso a partir do ouvir e a metáfora da noite que simboliza as crises e os perigos em contraste
com a aurora de um novo dia, que traz a salvação do Senhor (vv. 2,6; 48.8; 57), são as marcas da sua estrutura, cuja expressão
inicial de anseio dá lugar à alegria triunfal daqueles que confiam em Deus.
2
As reflexões consoladoras de Davi evocam os sentimentos que experimentou na presença de Deus, no santuário, e que desper-
tam expectativas jubilosas de vitória (vv.2-5). Ainda que algumas de nossas atitudes sejam desabonadoras, a graça perdoadora do
Senhor pode nos alcançar em nosso deserto pessoal e conduzir-nos para o oásis da perfeita paz e abundância (Sl 84.4-7).
3
Davi descobriu a melhor maneira de aproveitar as horas de insônia. Quem busca ao Senhor encontra satisfação para a alma
(v.5), memórias agradáveis e de confiança em Deus (v.6) e segurança absoluta (v.7).
4
Os inimigos dos filhos de Deus que tentarem prejudicá-los ou atentarem contra suas vidas, receberão, do Senhor, justo cas-
tigo e poderão perder suas próprias vidas (Gn 9.5; Êx 21.23; Dt 19.21 com Sl 5).
5
Os que “juram pelo Nome de Deus” são todos aqueles que um dia fizeram o voto de entrega de suas vidas ao Senhor e que
confiam nele de todo o coração (Dt 6.13). Os que vivem de mentiras e falsidades serão anulados e aniquilados por Deus e seus
corpos insepultos se espalharão pela terra como símbolo da maior ignomínia (53.5; Ap 6.4).
Capítulo 64
1
O rei Davi ora para que sua vida seja colocada fora do alcance de conspiradores que tramam sua morte. As circunstâncias
gerais são semelhantes às do Sl 62.
2
A arma mais poderosa dos inimigos, covardes e atrevidos quando escondidos, é a língua que dispara maledicências. A intriga
e a calúnia podem arruinar muitas vidas (5.9; 10.7-9; 22.7; 52.2-4).
3
Nada detém o ímpio em sua insolência diabólica. Ele é completamente indiferente a qualquer senso de justiça ou temor a
Deus. Os inimigos de Davi haviam lançado mão de muitas “setas” com o objetivo de destruí-lo (vv. 3,5 e 6). Contudo, apenas uma
SALMOS 62–64
68
8
Sua própria língua lhes provocará o
fracasso repentino; todos que assistirem
a esse triste fim menearão a cabeça e
zombarão deles.
9
Então, todos os seres humanos temerão
e proclamarão as obras de Deus, meditan-
do sobre esses grandes feitos de Deus.
10
Que se alegre o justo, no Eterno; e nele
busque refúgio; congratulem-se todos os
retos de coração!
4
Ações de graças pelas bênçãos
Ao mestre de música. Salmo de Davi, um cântico.
65
A ti, ó Deus, é dedicado todo o lou-
vor, em Sião, mesmo quando ínti-
mos e silenciosos, cumprem-se os votos
diante de Ti.
1
2
A ti, que acolhes as orações, virão todos
os seres humanos.
3
Quando nossos pecados pesavam sobre
nossos ombros, tu mesmo fizeste propi-
ciação por nossas transgressões.
4
Bem-aventurados são todos aqueles que
escolhes e trazes a Ti para viverem da tua
Casa, do teu santo Templo!
5
Tu nos respondes com tremendos feitos
de justiça, ó Deus, nosso Salvador, que
sustentas a terra até seus confins e os ma-
res até o mais longínquo e profundo.
6
Tu que formaste as montanhas pela tua
força criativa, por meio do teu infinito
poder.
2
7
Tu que acalmas o rugido dos oceanos, o
bramido das ondas dos mares e o tumul-
to dos povos das nações.
8
Temor por teus portentosos feitos des-
pertas nos habitantes das terras longín-
quas, e júbilo trazes aos habitantes dos
países do Oriente e do Ocidente.
9
Cuidaste da terra e a irrigaste, enrique-
cendo-a com cursos de água por Ti abas-
tecidos; provês os grãos para alimento do
ser humano, pois para isso a terra prepa-
raste.
10
Regas seus sulcos, fazes por seus canais
correr água; com as gotas da chuva a fa-
zes germinar e sua flora abençoas.
11
Com tua bondade a cobres por todo
o ano e abundância ext ravasa de tuas
veredas.
12
Pastagens brotam nos desertos e de jú-
bilo se cingem as colinas.
13
As campinas se revestem de rebanhos,
os vales se vestem de trigais viçosos e
ecoam vozes uníssonas em jubilosos cân-
ticos de louvor a Ti!
3
Ofertas de gratidão
Ao regente do coro. Um salmo para cantar.
1
66
Aclamai a Deus, terra inteira.
2
Entoai hinos à magnificência do
seu Nome; dai-lhe glória, mediante vos-
so louvor!
3
Declarai ao Eterno: “Quão assombrosas
flecha do Senhor será o suficiente para exterminá-los (v.7). O que os inimigos planejavam fazer contra Davi, o próprio Deus lhes
ofereceu de volta. É a lei da retribuição divina (Sl 44.14; 63.9,10).
4
No original hebraico; a primeira palavra do salmo, “Ouve”, forma um jogo de palavras com a primeira expressão deste versí-
culo 10, “Que se alegre...”, a fim de reforçar a idéia de que ao confiarmos no Senhor, ele se inclina para ouvir nossas petições e,
porque Ele nos ouve, nada poderá frustrar nossa mais profunda alegria: sermos seus filhos amados.
Capítulo 65
1
Hino de louvor pela grande bondade e misericórdia do Senhor para com seu povo. A palavra hebraica dumiyã vem da raiz
dãmam, que significa “ser silencioso”, cujo substantivo nos remete à idéia de “silêncio” e “permanência confiante”. Esses sentidos
mais amplos e profundos do termo hebraico nos ajudam a compreender a idéia de que Deus é perfeitamente capaz de ouvir a
súplica mais secreta, feita no mais íntimo do nosso ser (v.2).
2
Uma referência ao poder e sabedoria de Deus, nosso Criador, que ordenou o caos e criou o Universo e a vida (Gn 1; Hb
1.3). Ele estabelecerá, na redenção definitiva do seu povo, uma ordem pacífica entre as nações (Is 2.4; 11.6-9; Mq 4.3,4), com o
objetivo de propiciar paz a Israel na Terra Prometida (Sl 33; 46). Os salmistas e profetas do AT costumavam comparar os atos de
Deus na criação com seus atos poderosos da redenção, visto que seu poder, no passado histórico, como Criador, era a maior
garantia da sua esperada ação final como Redentor absoluto e eterno de todos os que nele crêem (Sl 74.12-17; 89.9-18; 95.4,5;
Is 27.1; 40.6-31; 51.9-11).
3
Na linguagem poética e exuberante de Davi, toda a criação – inclusive seus elementos inanimados – forma um grande coral
para louvar a Deus por seu poder e misericórdia em seus atos criativos, nas bênçãos generosas e infinitas e, especialmente, no
portentoso ato da redenção definitiva (Sl 89.12; 96.11-13; 98.8,9; 103.22; 145.10; 148.3-10 com Jó 38.7; Is 44.23; 49.13; 55.12).
Capítulo 66
1
Um hino para a celebração do culto no templo, com uma parte destinada ao coro (vv. 1-12), e a parte final para o solista (vv. 13-20).
SALMOS 64–66
69
são tuas obras! Pela grandeza do teu po-
der, teus inimigos a Ti se rendem.
4
Prostra-se diante de Ti a terra inteira e
entoa hinos em tua honra, canta louvo-
res ao teu Nome”.
2
(Pausa)
5
Vinde ver as ações de Deus, os feitos
que aos homens inspiram temor!
6
O mar ele transformou em terra firme,
a pé atravessaram o rio; ali nos alegra-
mos nele.
7
Ele governa eternamente com seu po-
der, seus olhos vigiam as nações: não se
vangloriem os rebeldes!
(Pausa)
8
Povos, bendizei o nosso Deus, fazei res-
soar seu louvor!
9
Ele conserva com vida nossa alma e não
deixa vacilarem nossos pés.
10
Pois Tu, ó Deus, nos puseste à prova,
purificaste-nos como se purifica a prata.
3
11
Tu nos levaste para a armadilha, puses-
te um pesado fardo sobre nossas costas.
12
Permitiste que, sobre nossas cabeças,
homens cavalgassem; passamos pelo fogo e
pela água. Mas nos trouxeste ao refrigério!
13
Venho à tua Casa, com holocaustos,
cumprir para contigo os meus votos.
14
Votos que meus lábios proferiram e mi-
nha boca pronunciou na minha angústia.
15
Animais cevados te ofereço em holo-
causto, com imolação de carneiros; pre-
paro-te bois e bodes.
(Pausa)
16
Vinde ouvir vós todos que temeis a
Deus! E contarei o que Ele realizou por
mim.
17
Invoquei-o com minha boca, e por mi-
nha língua foi enaltecido.
18
Se eu, no coração, tivesse visado a mal-
dade, o Senhor não me teria escutado.
4
19
Contudo, Deus me ouviu e prestou
atenção à voz da minha súplica.
20
Bendito seja Deus, que não afastou de si
minha súplica, nem de mim o seu amor!
5

Súplica pela bênção divina
Ao regente do coro: com inst rumentos de corda.
Um salmo para cantar.
67
Que o Eterno nos conceda sua
graça e nos abençoe, e que faça
sobre nós resplandecer a sua face,
1
(Pausa)
2
para que sejam conhecidos na terra o
teu Caminho, a tua Salvação entre todas
as nações.
3
Ergam-te graças todos os povos. Que
todas as nações louvem a Ti.
4
Alegrem-se e exultem as nações, pois
governas os povos com retidão e reges na
terra todos os povos.
(Pausa)
5
Louvem-te os povos, ó Deus; que te
exaltem todas as nações!
6
Possa, então, a terra produzir em abun-
dância seus frutos, possa o Eterno, nosso
Deus, nos abençoar.
2
7
Sim, possa Ele nos abençoar e ser reve-
2
Segundo conceituados historiadores e biblistas, este poema canta e exalta a Deus pela maneira prodigiosa como livrou Judá
dos assírios (2Rs 19). Este louvor foi oferecido no templo em cumprimento a um voto e conclama todos os crentes a reverencia-
rem o Nome do Senhor (vv.13,14; 7.17; 9.1). Deus rege a tudo e a todos com sua soberana justiça e misericórdia. Até o final dos
tempos todos terão de se submeter ao Senhor (Fp 2.9-11).
3
As crises, sofrimentos e provações, pelas quais todos nós passamos, contribuem para a formação do verdadeiro e piedoso
caráter do cristão sincero e humilde; assim como o fogo é usado, não para destruir, mas para purificar e valorizar a prata e o ouro
(1Pe 1.7; Hb 12.11).
4
Apenas um coração puro, amoroso e livre de maldades pode obter a resposta do Senhor às suas súplicas (Jo 15.7).
5
Davi sabia que suas orações haviam sido respondidas pelo Senhor, que observa e avalia os corações dos seres humanos. Entre-
tanto, esse gesto de Deus era fruto da sua graça, e não de qualquer obra ou sacrifício meritório do salmista. Oração e louvor são duas
disciplinas que caminham juntas na doutrina devocional do AT, conceito que foi incorporado à teologia do NT (Fp 4.6; 1Tm 2.1).
Capítulo 67
1
Oração comunitária, suplicando a bênção do Senhor. O texto no original hebraico reflete claramente a bênção sacerdotal
descrita em Nm 6.22-27. Todos aqueles que conhecem a Deus, o Eterno, devem torná-lo também conhecido de todos os povos.
Por isso, ao longo dos séculos este poema tem sido chamado de Salmo Missionário. Deus nos constituiu seus embaixadores
(2Co 5.18-21). A bênção que Deus outorga a seu povo assim como seus atos salvíficos em favor dos seus escolhidos, atrairão a
reverência de todas as nações e as conduzirão ao verdadeiro e sincero louvor (Sl 65.2; 98.4-6; 100.1).
2
O grande objetivo de Deus é que as nações da terra reconheçam sua soberania e misericórdia, assim como deveria fazê-lo o
SALMOS 66, 67
70
renciado e temido até os confins da terra!
O triunfo de Deus sobre o mal
Ao mest re do coro, um salmo de Davi. Um cân-
tico.
1
68
Ao erguer-se o Eterno, dispersa-
ram-se seus inimigos, e da sua
presença fogem os que lhe são adversá-
rios.
2
2
Dissipa-os como fumaça que se esvai;
assim como no fogo se derrete a cera, que
ante a presença divina pereçam os ímpios.
3
Os justos, porém, que se alegrem; que
exultem diante de Deus e regozijem-se
com grande alegria!
4
Cantai a Deus, salmodiai ao seu Nome,
exaltai aquele que cavalga nas nuvens!
Seu nome é SENHOR: exultai, pois, na pre-
sença dele!
5
Pai dos órfãos, Defensor das viúvas; eis
o que é Deus na sua santa morada.
6
Aos rejeitados, Deus os recolhe em pá-
trio lar; faz os cativos serem libertos para
a prosperidade; só os rebeldes permane-
cem na árida terra.
7
Ó Deus, quando saíste à frente do teu
povo, quando avançaste pelo deserto,
3
(Pausa)
8
tremeu a terra, os céus se derreteram em
gotas d’água. Ante a presença do Eterno,
o Deus de Israel, tremeu o Sinai!
9
Derramaste, ó Deus, abundante chuva;
tua herdade, que estava ressequida, tu a
restauraste.
10
Nela se fixaram tuas criaturas; bon-
dosamente a preparaste, ó Deus, para os
pobres.
11
O Senhor anunciou a Palavra e muitos
mensageiros a proclamaram:
4

12
“Reis e exércitos fogem em debandada,
e a dona-de-casa reparte os despojos.
13
Entre fronteiras seguras vos haveis de
abrigar, enquanto sobre vós resplandecem,
como prata, as asas esvoaçantes da minha
pomba, e brilham como ouro suas penas.
5
14
Quando o Todo-Poderoso ali desbara-
tava reis, era como se flocos de neve caís-
sem sobre o monte Zalmom.
15
Montanha altíssima é a montanha
de Basã, majestosos e escarpados são os
montes de Basã!
16
Por que, ó montes de altos píncaros,
olhais, com inveja, a montanha que Deus
escolheu para sua habitação, onde o pró-
prio SENHOR habitará para sempre?
17
São os carros de Deus milhares de mi-
lhares; incontáveis; neles o Senhor veio
do Sinai para o seu Lugar Santo.
6
povo escolhido. Essa, portanto, é a missão da Igreja até o Dia Final (Ap 7.9,10). Veja a transliteração destes dois últimos versículos, a
partir do original hebraico: Érets natena ievulá, ievarechênu Elohim Elohênu. Levarechênu Elohim, veyireú Oto col afsê árets.
Capítulo 68
1
Este salmo faz parte, até hoje, da liturgia israelense. Nos tempos antigos, o povo entoava este hino de louvor a Deus, em
cortejo, celebrando o governo glorioso e triunfante do Deus de Israel sobre toda a terra (Sl 4; 24; 30; 47; 118; 132).
2
Os versículos de 1 a 18 revelam detalhes poéticos da gloriosa marcha desde o monte Sinai (Nm 10.33-35), sob a liderança de
Moisés, até o monte Sião, já nos dias do rei Davi. Os eventos no monte Sinai definiram o surgimento do reino de Deus entre seu
povo na terra; momento histórico, especial, quando a Arca da Aliança, símbolo da presença e do trono de Deus, foi estabelecida
em Jerusalém, o que passou a representar o próprio estabelecimento do reino divino para a redenção de toda a terra, tendo
Jerusalém como cidade santa, de onde emana a majestade do Senhor. Desde os primórdios da Igreja, os primeiros cristãos as-
sumiram este salmo como profecia e prenúncio da ressurreição, ascensão e governo eterno do Senhor Jesus Cristo, bem como
do triunfo final da sua Igreja sobre todos os inimigos de Deus e o mundo hostil (Ef 4.8-13).
3
Aqui temos um breve resumo do livro de Números (vv. 7-10), exaltando o amor e o poder de Deus, porém não descrevendo
os muitos momentos em que o povo de Israel foi rebelde e desobedeceu ao Senhor, pois este poema foi escrito com o principal
propósito de exaltar a Deus. Somos relembrados da gloriosa marcha de Deus pelo deserto, a partir do Sinai até a Terra Prometida
(Js 5.4,5; Hc 3.3-6).
4
Deus já havia declarado que venceria os reis cananeus. Entretanto, os filósofos e poetas de Canaã, que adoravam o deus
Baal, debochavam dessas profecias e compunham canções e poemas afirmando que “Baal cavalga sobre as nuvens”. O salmista
então, usa a própria literatura dos cananeus para demonstrar que somente Yahweh (Javé, Jeová) é Deus, e faz das grandes
nuvens de tempestade seu carro de guerra (Sl 18.9; 33; 104.3; Is 19.1; Mt 26.64).
5
Israel é a “Pomba de Deus”. O salmista emprega um exagero poético (hipérbole) para realçar o fato de Deus ter derrotado
todos os reis hostis a Israel, muito antes de os exércitos israelenses terem iniciado qualquer confronto militar (Js 2.8-11; 5.1; 6.16;
2Sm 5.24; 2Rs 7.5-7; 19.35; 2Cr 20.22-30).
6
O inumerável exército celestial de Deus é comparado, pelo salmista, a uma enorme força de carros de guerra (2Rs 6.17; Hc
3.8,15). Na época do Império Romano, o próprio Senhor Jesus referiu-se às hostes de Deus como “legiões” (Mt 26.53).
SALMOS 67, 68
71
18
Subiste ao cume, levando os cativos;
recebeste dádivas dentre os homens, até
mesmo dos que se rebelaram contra a
tua habitação.
7
19
Bendito seja o Senhor, Deus, nosso
Salvador, que cada dia nos dá forças para
que possamos levar as nossas cargas.
(Pausa)
20
Sim! Ele é para nós o Deus que nos li-
berta até mesmo dos grilhões da morte!
21
Com toda a certeza Deus arrebentará a
cabeça de todos os seus inimigos, esma-
gará o crânio do que perambula envolto
em iniqüidade.
22
Proclamou o Senhor: “Eu os trarei de
Basã! Eu os farei voltar, mesmo das pro-
fundezas do mar,
23
para que pises teu pé sobre as poças
do sangue deles, para que até a língua de
teus cães tenha uma porção de teus ini-
migos para devorar.
24
Já se avista a tua marcha triunfal, ó
Eterno, a marcha do meu Deus e Rei
adentrando o santuário!
25
À frente marcham os cantores, depois,
os músicos; com eles caminham os jo-
vens tocando pandeiros.
26
Congregai-vos para bendizer a Deus!
Abençoai ao SENHOR, todos vós que vin-
des da fonte de Israel.
27
Ali está a pequena tribo de Benjamim a
conduzi-los, os príncipes de Judá acom-
panhados de seus exércitos, e os prínci-
pes de Zebulom e Naftali.
8
28
Teu Deus dispensou o poder em teu fa-
vor: mostra teu poder, ó Deus, que usaste
para o nosso bem,
29
desde teu templo, em Jerusalém, aonde
reis vêm trazer-te presentes!
30
Repreende a fera ent re os juncos, a
manada de touros ent re os novilhos das
nações, até que se cur vem humildes,
t razendo oferendas de prata; dispersa
os povos que se deleitam em praticar as
guerras.
31
Embaixadores virão do Egito, e toda a
Etiópia estenderá suas mãos para louvar
a Deus!
32
Reinos da terra, cantai para Deus, sal-
modiai ao Senhor
33
que cavalga pelos céus, desde a eterni-
dade passada, fazendo ecoar sua voz po-
derosa e comandando o Universo!
34
Reconhecei e honrai a soberania do
Eterno, cujo poder está na altura dos
céus e cuja majestade se derrama sobre
Israel, seu povo.
35
De seu santuário emana o temor do
Eterno, o Deus de Israel, que concede
força e grandeza a seu povo. Bendito seja,
ó Deus!
9

O lamento do Messias, o Cristo
Ao regente do coro: segundo a melodia “Os
Lírios”. Um salmo de Davi.
69
Ó Deus, salva-me! Porquanto as
águas chegaram até o meu pescoço.
2
Nas profundezas lamacentas estou afun-
dando; não tenho como firmar meus pés;
cheguei às águas profundas, e a forte cor-
renteza me arrasta!
3
De tanto clamar por socorro, ressecou-
se minha garganta, se embaçaram meus
olhos e se fatigou sobremaneira o meu
7
O salmista faz uma analogia com os tributos e despojos recebidos pelo rei vitorioso na guerra. O apóstolo Paulo aplica este
versículo, como traduzido pela Septuaginta (a versão grega do AT), à ascensão de Jesus Cristo, fazendo-nos compreender que
a Ascensão do Senhor foi uma continuação histórica e cumprimento fiel do Reino que Deus estabelecera na sua cidade real de
Jerusalém (Ef 4.8-13).
8
Aqui estão representadas todas as tribos que formam Israel. Desde a menor e mais pobre, Benjamim, até a poderosa Judá,
incluindo as tribos do norte e do sul. A tribo de Benjamim foi encarregada de conduzir o grande cortejo, como alusão ao fato de
ter provido o primeiro rei de Israel (Saul), que deu início às vitórias dos reis de Israel sobre os inimigos do povo de Deus (1Sm
11.11; 14.20-23). O cortejo litúrgico aproxima-se do templo (vv. 24-27) e roga ao Senhor que continue a vencer e conquistar as
potências que ameaçam Israel (vv. 28-31), o que sugere que realmente não haverá plena e duradoura paz em Israel até o final
dos tempos e a Nova Jerusalém (Ap 21.1-4).
9
O apogeu do grande cortejo litúrgico chega com um apelo: que todos os reinos da terra louvem ao Deus de Israel como o
Senhor do Universo, reconhecendo que foi de sua soberana vontade estabelecer seu trono terrestre no Templo em Jerusalém (Sl
29.3-9; 47). O Senhor Deus fez de Israel o seu povo; e seu governo entre os seus os torna co-participantes do poder vitorioso ,
para todo o sempre (Êx 19.5,6; Sl 29.10,11).
SALMOS 68, 69
72
corpo, enquanto aguardo pelo auxílio do
meu Deus!
1
4
São mais numerosos que os cabelos de
minha cabeça os que me odeiam sem
causa; poderosos são os que me querem
aniquilar, são injustos meus inimigos: o
que roubei, como hei de restituir?
5
Conheces, ó Deus, meus desatinos e o
quanto fui insensato; as minhas culpas
não te são encobertas.
6
Contudo, não permitas que eu venha ser
causa de humilhações para aqueles que
têm fé em ti, ó Eterno, Deus das Legiões.
Que não sejam por mim envergonhados
os que te buscam, ó Deus de Israel!
2
7
Porquanto por amor a ti suporto zom-
barias, e a vergonha cobre-me o rosto.
8
Sou um estrangeiro para meus próprios
irmãos, um estranho até para os filhos da
minha mãe;
9
pois me consumiu o zelo que dedico à
tua Casa, e sobre mim recaíram os vitu-
périos dos que te insultam.
3
10
Com jejum e muitas lágrimas afligi
minha própria alma, e isso ainda mais os
enfureceu.
11
Com mortalha me cobri e perante eles
fui objeto de zombarias.
4
12
Murmuram contra mim os que se
ajuntam nas portas da cidade, e sou tema
de chacotas nas canções dos bêbados.
13
Todavia eu, SENHOR, no tempo opor-
tuno elevo a ti minha petição; responde-
me, por teu grande amor, ó Deus, com
tua graça infalível!
14
Resgata-me do lamaçal, para que eu
nele não pereça; salva-me de meus detra-
tores e das profundezas das águas.
15
Que eu não seja arrastado por seu tur-
bilhão, nem tragado pelo abismo, e que
tampouco se feche sobre mim a boca do
poço onde caí.
16
Responde-me, ó Eterno, pois inco-
mensurável é tua benevolência; volta-te
para mim com a grandeza de tua mag-
nanimidade.
17
Não ocultes do teu servo a tua face;
responde-me de pronto, pois estou mui-
to angustiado.
18
Faze que de ti se aproxime a minha alma,
redime-a e salva-me de meus inimigos.
19
Pois sabes da vergonha e do infortúnio
que me fazem passar.
20
Meu coração se partiu ante tanta hu-
milhação, e me sinto gravemente enfer-
mo. Procurei alguém que se compade-
cesse de mim e me confortasse, mas a
ninguém encontrei.
21
Ao contrário, puseram veneno em meu
alimento e vinagre me oferecem para mi-
tigar minha sede.
5
22
Que, em retribuição, a mesa deles se
1
Davi descreve sua situação de profundo sofrimento da alma, dor física e terrível angústia, enquanto espera confiante pela
interveniência perdoadora e salvadora de Deus. É a sincera oração de um rei piedoso diante dos ataques maliciosos de uma
conspiração generalizada que se aproveitara de uma ocasião em que o próprio Deus já o havia castigado por um pecado come-
tido (v.5; 26). A igreja primitiva considerava este clamor como o prenúncio dos sofrimentos do Messias, Jesus Cristo; juntamente
com o Salmo 22 são os textos do Saltério mais citados no NT.
2
O salmista pede que sua disciplina não seja causa de escândalo para os que esperam em Deus. Este versículo pode ser transli-
terado do original hebraico desta forma: Al ievôshu vi covêcha Adonai Elohim Tsevaót, al yicalemu vi mevac’shêcha Elohê Yisrael.
3
O que se aplicava ao salmista era ainda mais realidade na vida de Jesus Cristo (Jo 2.17). Os que zombam de Deus, achin-
calham igualmente o servo do Senhor (74.18-23; 2Rs 18.31-35), situação que Cristo enfrentou sem que tivesse cometido um só
pecado (Rm 15.3).
4
Davi, num momento de fraqueza e falta de juízo, pecou contra Deus. Entretanto, isso não o desqualificou como filho e servo,
diante do Pai, pois seu coração fora entregue ao Senhor para o adorar e servir por toda a vida. Em seu profundo amor a Deus,
e arrependimento pelas faltas cometidas, o rei salmista não se nega a passar pela mais profunda dor e humilhação pública,
chegando a ser afrontado até pela escória da sociedade que, nesses momentos, sempre procura minimizar sua própria condição
desprezível evidenciando o erro da pessoa em foco (Sl 35.13 com Gn 37.34; 2Sm 12.16,17; Jl 1.13,14; 2.15-17; Jn 3.5).
5
Quando mais precisamos de abrigo, consolo e ânimo, é que conhecemos nossos poucos e leais amigos e os muitos e gran-
des inimigos. O salmista usa uma forte metáfora para mostrar que o alimento por que mais ansiava sua alma era a compreensão
e o perdão dos seus pecados. No texto hebraico original a palavra algumas vezes traduzida por “fel” é, literalmente, “veneno”:
Vayitenú bevaruti rosh, velits’maí iashcuni chômets. Os autores dos Evangelhos, especialmente Mateus, entenderam que os sofri-
mentos comunicados nestes versos se constituíam numa profecia quanto ao martírio de Jesus Cristo, o Messias e Nosso Senhor
(Mt 27.34,48; Mc 15.23,36; Lc 23.36; Jo 19.29).
SALMOS 69
73
lhes transforme em armadilha e sua paz,
em emboscada.
23
Que se lhes escureçam os olhos para
que, de fato, não possam ver; faze-lhes
tremer o corpo sem que haja como
cessar!
6
24
Despeja sobre eles a tua ira justa; que o
teu furor ardente os alcance.
25
Que sejam destruídos os seus palácios
e que fiquem desertas as suas tendas.
26
Pois têm prazer em perseguir a quem
tu puniste e acrescentam dor e sofrimen-
to a quem feriste.
27
Agrega iniqüidade à iniqüidade deles
para que não mereçam usufruir da tua
justiça.
7
28
Que tenham seus nomes apagados do
Livro da Vida, e jamais sejam inscritos
entre os justos novamente.
8
29
Quanto a mim, grande é minha aflição
e minha dor! Protege-me, ó Deus. A tua
salvação há de me elevar acima de qual-
quer sofrimento!
30
Em cânticos, então, louvarei o Nome
do Eterno, e em meus agradecimentos
exaltarei a ti Senhor!
31
Serei mais agradável ao SENHOR do que
a mais perfeita oferta de todo o passado!
32
Alegrar-se-ão os humildes e animar-
se-ão os corações dos que buscam a
Deus.
33
Porquanto todos verão que Deus ouve
os necessitados e não despreza os alque-
brados.
34
Louvem-no os céus e a terra, os mares
e tudo o que neles se move!
35
Pois Deus salvará Sião e reconstruirá
as cidades de Judá; e haverá habitantes
que a herdarão.
36
A descendência de seus servos a rece-
berá em herança, e os que amam o seu
Nome farão nela sua morada!
9
Súplica pelo socorro de Deus
Para o mest re de música. Uma oração em forma
de poema. De Davi.
70
Ó Deus, para minha libertação,
apressa-te, SENHOR, em socorrer-
me!
1

2
Cubram-se de vergonha e confusão os
que me demandam a própria vida! Re-
cuem, cobertos de desonra, os que se di-
vertem com a minha desgraça!
3
Recuem, cobertos de vergonha, os que
maliciosamente murmuram: “Bem-feito!
Bem-feito!”
4
Contudo, que se alegrem e regozijem,
por tua causa, todos os que te buscam!
“Deus é grande!” Proclamem sem cessar
os que amam a tua salvação!
5
Sendo eu um pobre aflito, ó Deus,
apressa-te em valer-me! Tu és meu auxí-
lio e meu Libertador: SENHOR, não tardes
mais!
Oração de fé de um servo idoso
71
Em ti, SENHOR, me refugio: que ja-
mais eu seja envergonhado!
1
6
O apóstolo Paulo fez menção deste salmo, quando admoestava os judeus a reconhecerem Jesus Cristo, como o Messias e
Senhor de todo aquele que nele crer (Rm 11.9,10).
7
Uma das piores punições que o ímpio pode sofrer é que o Senhor o deixe seguir seu próprio caminho de iniqüidades e peca-
dos. Seu coração duro e arrogante, muito diferente da alma do salmista, não lhe permite ser tocado pelo Espírito de Deus, refletir
sobre seus erros e, arrependido, receber o perdão de Deus (Rm 1.18-32).
8
No AT, o “Livro da Vida” é compreendido como a lista divina régia dos justos, aos quais Deus abençoa na terra e na vida
eterna (1.3; 7.9; 11.7; 34.12; 37.17,29; 55.22; 75.10; 92.12-14; 140.13). No NT, o “Livro da Vida” refere-se à lista de Deus que
contém os nomes dos eleitos, destinados à vida eterna por meio da fé em Jesus Cristo, o Messias (Fp 4.3; Ap 3.5; 13.8; 17.8;
20.12,15; 21.27).
9
Alguns biblistas e comentaristas entendem que essas expressões têm a ver com a época do Exílio, ocorrida mais de quatro
séculos depois de Davi. Contudo, ao analisarmos a amplitude da visão teológica de Davi, não é difícil concluirmos que ele está
comunicando, em oração, o grande anseio de ver sua nação e o povo de Deus verdadeiramente edificado no amor, na fé, na
prática contínua e intensa da piedade, sob as preciosas bênçãos do Senhor de Israel (Sl 127).
Capítulo 70
1
Este salmo está presente nos trechos dos salmos 35.4,21,26 e 40.13-17. É uma pequena jóia de oração para se decorar e
guardar no coração. Um pedido eloqüente de socorro urgente a Deus, contra as artimanhas e ataques dos inimigos (Sl 4; 38).
Capítulo 71
1
Este salmo encerra uma coleção de salmos davídicos e revela a experiência de alguém que, na velhice, suplica a presença
SALMOS 69–71
74
2
Por tua justiça, me livrarás e me liber-
tarás. Inclina para mim teus ouvidos e
salva-me!
3
Sê para mim a rocha de refúgio, sempre
acessível, pois decidiste salvar-me. Sim,
és o meu rochedo e minha fortaleza!
2
4
Meu Deus, livra-me da mão do ímpio,
das mãos dos criminosos e dos violentos!
5
Tu és minha esperança, ó Soberano SE-
NHOR; deposito em ti toda a minha con-
fiança, desde a minha juventude.
6
Ora, desde o ventre materno dependo
de ti, das entranhas de minha mãe me
separaste; dia após dia és motivo de todo
o meu louvor.
7
Para muitos tornei-me um prodígio, en-
quanto eras tu meu refúgio fortificado.
8
Minha boca está repleta do teu louvor, e
constantemente proclamo o teu esplendor!
9
Portanto, não me rejeites agora, na ve-
lhice; quando as forças declinam, não me
abandones!
10
Pois meus inimigos tramam contra mim,
confabulam entre si os que me espreitam
com a intenção de tirar a minha vida.
11
Alegam: “Deus o abandonou: per-
segui-o, agarrai-o! Pois não há quem o
possa salvar”.
3
12
Ó Deus, não fiques longe de mim, meu
SENHOR, vem depressa em meu auxílio!
13
Sejam confundidos e abatidos os que
me hostilizam! Cubram-se de opróbrio e
de vexame os que buscam meu dano!
14
Eu, todavia, sempre esperançoso, re-
dobrarei mais e mais teus louvores.
15
Minha boca narrará tua justiça e, em
todos os dias da minha existência, os teus
incontáveis atos de salvação!
16
Proclamarei os teus feitos poderosos,
ó Soberano SENHOR; divulgarei diante de
todos a tua justiça.
17
Desde a minha juventude, ó Deus, tens
me ensinado, e até hoje eu anuncio as
tuas maravilhas!
18
Agora, porém, vejo que estou idoso, de
cabelos brancos: não me desampares, ó
Deus; para que eu possa pregar sobre as
grandes obras de teu braço, às gerações
presentes e futuras.
4
19
Ora, tua justiça, ó Deus, chega até as
mais elevadas alturas. Grandes proezas re-
alizaste, ó Deus. Quem é semelhante a ti?
20
Tu, que me fizeste experimentar tantas
aflições e desgraças, de novo me farás vi-
ver, e das profundezas da terra me farás
ressuscitar.
5
21
Aumentarás minha dignidade e, uma
vez mais, me abençoarás com a tua pre-
sença confortante.
22
Então, acompanhado da harpa, te da-
rei graças, meu Deus, por tua fidelidade;
cantarei louvores para ti, ao som da cíta-
ra, ó Santo de Israel.
23
Ao cantarem teus louvores, exultarão
de alegria meus lábios e minha alma, que
resgataste.
24
Igualmente, todos os dias, minha lín-
gua recitará tua justiça, porque se cobri-
ram de vergonha e vexame os que busca-
vam minha desgraça!
e ajuda de Deus, diante das ameaças de seus inimigos (5.9). A falta do costumeiro cabeçalho indica que o Sl 70 representa sua
introdução e que, portanto, este é mais um salmo da autoria de Davi, já em idade avançada (vv.9,18), fato reforçado pela oração
do rei Salomão no Sl 72.
2
Um homem pode chegar ao final desta vida com uma grande alegria na alma: se no passado e, especialmente, no presente
tiver depositado no Senhor Deus toda a sua fé e confiança (vv.3,7). Não existe velhice sem provações, mas Deus é misericordioso
em nos socorrer em todas as nossas aflições e rapidamente nos confortar com sua presença libertadora e salvadora (vv.10-11).
Este trecho é uma boa recordação do Sl 31.1-3.
3
Os faltos de sabedoria olham para o justo sem prosperidade aparente, debilitado fisicamente e sem boa aparência, e o des-
prezam, procurando tirar alguma vantagem da sua humilde condição pessoal. Contudo, o justo jamais será pobre, ignorante ou
desamparado, pois sua riqueza e poder vêm da graça do Senhor. É Jesus Cristo quem nos concede todas as forças e a paz que
o mundo não pode oferecer (Jo 14.27).
4
Um servo de Deus, cuja vida espiritual foi provada por meio de vitórias e insucessos, pode na terceira idade dedicar-se ao
maravilhoso ministério do aconselhamento de jovens, provendo para esses construtores das novas sociedades uma sabedoria
bíblica que eles não poderiam ganhar tão rapidamente sozinhos, nas tentativas e erros da vida.
5
O mesmo Deus que nos abençoa com o privilégio da vida (v.6), nos renovará, por meio da Salvação, a fim de que estejamos
para sempre em sua companhia. As profundezas da terra (em hebraico: sheol) é a região dos mortos, cuja porta de entrada é a
sepultura (Sl 30).
SALMOS 71
75
Prefguração do reino de Cristo
Um salmo para Salomão e os reis davídicos.
72
Ó Deus, concede ao rei a tua justi-
ça, e ao filho do rei os teus juízos.
2
Que ele governe teu povo com retidão,
preservando o direito dos humildes!
3
Proporcionem as montanhas e colinas
paz ao povo, mediante justiça!
4
Que ele faça resplandecer o direito dos
oprimidos, salve os filhos dos pobres e
esmague o opressor!
1
5
A ti eles temam, à luz do sol e sob o luar,
de geração em geração!
6
Seja ele como o cair da chuva sobre a relva,
ou da garoa que rega suavemente a terra!
7
Em seus dias floresça a justiça e grande
paz, até não mais haver lua!
8
Governe ele de mar a mar, desde o rio
Eufrates até os confins da terra.
2
9
Curvem-se diante dele todas as tribos do
deserto, e os seus inimigos lambam o pó.
10
Que os reis de Társis e das regiões lito-
râneas lhe paguem tributos; e os reis de
Sabá e de Sebá lhe tragam presentes.
3

11
Inclinem-se diante dele todos os reis, e
sirvam-no todas as nações da terra!
12
Porquanto, ele liberta os oprimidos que
clamam por socorro, assim como os pobres
que não têm quem lhes preste auxílio.
13
Ele tem compaixão dos enfraquecidos
e dos humildes, e os salva da morte!
14
Ele os resgata da opressão e da violên-
cia, pois, aos seus olhos, a vida que lhes
corre pelo sangue é por demais preciosa.
15
Que ele tenha longa vida, e lhe tragam
ouro de Sabá; por ele intercedam sem
cessar e o bendigam, todos os dias!
16
Que haja no país trigo em abundância,
ondulando-se até o topo dos montes; vi-
cejem os cidadãos como o fruto do Líba-
no e como a erva do campo!
17
Que seja eterno seu nome; diante do sol
se propague seu nome, e sejam nele aben-
çoadas todas as nações que o bendizem!
4

18
Bendito seja o Eterno, Deus de Israel, ab-
solutamente Único em suas maravilhas!
19
Abençoado e exaltado seja para sempre
seu Nome glorioso: que toda a terra seja
repleta da sua glória! Amém e Amém!
5

20
Terminam aqui as orações de Davi, fi-
lho de Jessé.
6
TERCEIRO LIVRO
Salmos 73 a 89
A prosperidade e o fm dos ímpios
Um salmo da família de Asafe.
73
Com toda a certeza Deus é bom
para Israel, ou seja, para todos
quantos cultivam um coração sincero!
1
1
A tradição judaica sempre viu neste salmo uma alusão ao Messias (Cristo, em grego), assim como a Igreja primitiva via Jesus
neste poema profético. Este salmo reflete o conceito ideal do governante supremo e os efeitos maravilhosos do seu reinado,
assim como ocorreu no período em que o rei Salomão se manteve humilde e obediente à Palavra de Deus (1Rs 3.9-12; Pv 16.12).
Entretanto, mesmo alguns dos últimos reis davídicos (seus filhos) mereceram a repreensão do Senhor por meio do seu profeta
(Jr 22.2-15), que também anunciou ao povo a iminente chegada do verdadeiro Rei e o estabelecimento do governo messiânico
(Is 9.7; 11.4-5; Jr 23.5,6; 33.15,16; Zc 9.9). Nenhuma nação respeitará as leis, nem se desenvolverá em solidariedade, paz e pros-
peridade, sob a liderança de governos corruptos e injustos. O pleno estado de justiça é como a boa chuva que torna fértil a terra
de uma nação e alegra o coração do seu povo (vv. 6,7; Sl 5.12; 65.9-13; 133.3; Lv 25.19; Dt 28.8).
2
Profecia acerca do Rei que dominará toda a terra e sobre todos os povos, com o poder de Deus (vv. 9-11). Esperança bíblica
que se aplica somente a Jesus Cristo e seu reino (Zc 9.10).
3
Uma referência aos beduínos e tribos que peregrinam e vivem a leste, no deserto da Arábia, e que virão a se submeter ao
Messias, o Cristo (Mq 7.17). Os reis, cujas terras se estendem até as praias do mar Mediterrâneo, a oeste, haverão também de
reverenciá-lo, assim como os que dominam a Arábia do sul, ao longo da costa oriental da África. A cidade de Társis era um im-
portante porto, muito distante, a oeste no Mediterrâneo, onde hoje se localiza a Espanha. Sabá (Gn 10.28; 1Rs 10.1; Jl 3.8). Sebá,
que é citada também como Cuxe no AT (Gn 10.7; Is 43.3), refere-se à atual região do Sudão, ao sul do Egito.
4
A expressão hebraica bíblica “todas as nações” tem a ver com a promessa de Deus a Abraão (Gn 12.3; 22.18) e, nesse con-
texto, revela que seu cumprimento acontecerá com a chegada triunfal do filho régio de Davi: Cristo, o Messias.
5
Uma bela doxologia conclui o segundo livro do Saltério (Sl 4; 41.13), e o povo responde em duplo uníssono: “Assim seja!”
(Amém). O v.18 pode ser transliterado do original hebraico desta forma: Baruch Adonai Elohim Elohê Yisrael, osse niflaót levado.
6
Antiga anotação de copista, que se integrou aos originais, e que revela a oração de Davi por seu filho Salomão, nos dias da
sua coroação (1Rs 1.32-40). Os termos usados por Davi, embora perfeitamente justificados somente na pessoa de Cristo, têm a
ver com as bênçãos que o próprio Deus prometeu, e efetivamente concedeu, ao rei Salomão, como uma prefiguração humana do
Messias (2Sm 7.12-16). Esta frase pode ser transliterada do hebraico assim: Calu tefilót David bem Yishai.
Capítulo 73
1
Os primitivos copistas do Saltério escolheram este salmo, para abrir o Livro III, assim como colocaram o Sl 1 na abertura
SALMOS 72, 73
76
2
Quanto a mim, os meus pés quase tro-
peçaram; por pouco não escorreguei.
3
Porquanto eu acumulava inveja dos
arrogantes, ao ver a prosperidade desses
ímpios.
4
Eles não passam por crises e sofrimen-
tos, e têm o corpo esbelto e saudável.
5
Estão livres dos fardos cotidianos impos-
tos a todos os mortais, não são atingidos
por doenças como a maioria das pessoas.
6
Por isso, a soberba lhes serve de colar e,
em seu orgulho, se vestem de violência.
2

7
Do seu íntimo brota a maldade, assim
como da sua mente transbordam todos
os ardis.
8
Eles zombam, e suas palavras são reple-
tas de malícia; em sua arrogância exaltam
a própria corrupção.
9
Contra os céus dirigem as palavras de
suas bocas, e pela terra fazem espalhar a
maldade de suas línguas.
10
Por isso, seu povo se volta para eles e se
delicia sorvendo suas palavras até saciar-se.
11
Eles questionam: “Acaso poderá Deus
saber disso? O Altíssimo se ocupará des-
ses assuntos?”
12
Assim são os ímpios: sempre seguros,
acumulando riquezas.
13
Pensando dessa forma, em vão con-
servei puro o coração e lavei as mãos em
sinal de inocência?
14
Para que me atormento o dia todo, e
sou repreendido, toda manhã?
3
15
Caso levasse a efeito me expressar as-
sim, eu teria renegado a linhagem de teus
filhos.
16
Todavia, quando busquei compreender
tudo isso, reconheci que estava diante de
uma tarefa muito acima das minhas forças;
17
até que entrei na Casa de Deus, e então
compreendi o destino dos ímpios.
4
18
Na verdade, tu os colocas em terreno
escorregadio e os fazes cair na destruição.
19
Como são destruídos de repente, abso-
lutamente tomados de terror!
20
São como um breve sonho que se vai
assim que acordamos; quando te levan-
tares, ó Senhor, tu os farás desaparecer.
21
Quando meu coração estava amargu-
rado e no meu íntimo curtia a inveja,
22
era eu um insensato e ignorante; mi-
nha atitude para contigo era semelhante
a de um animal irracional.
5

23
Contudo, sempre estou diante de Ti;
portanto, tomas a minha mão direita e
me susténs.
24
Tu me diriges de acordo com os teus de-
sígnios, e no fim me acolherás em glória.
6
25
A quem tenho nos céus senão a ti? E
na terra, nada mais desejo além de estar
junto a ti!
26
Embora minha carne e meu coração
definhem, Deus é a rocha do meu cora-
ção e minha herança para sempre.
7
de toda a coletânea Sagrada. Este é um salmo atribuído historicamente a Asafe, dirigente de um dos coros levíticos de Davi (Sl
39; 42; 50), e trata de um dos mais angustiantes dilemas do AT: Por que os ímpios muitas vezes prosperam, ao passo que os
fiéis sofrem tanto? (Sl 37; 49). O salmista fraquejou e por pouco não caiu de suas convicções quanto ao livramento do Senhor. A
batalha é mencionada no v.2, mas a vitória está expressa logo no v.1.
2
Ao observar a saúde que os ímpios demonstram, sua aparente despreocupação e soberba, o salmista se deixa envolver por
sentimentos invejosos (Jó 21).
3
O salmista se sente responsável como um filho que busca oferecer obediência e respeito ao pai, e que é punido, tantas
vezes quanto necessário, por esse pai amoroso e justo, para que se mantenha por toda a vida no caminho da verdade (Pv
3.12; 23.13,14).
4
Quando temos certeza de um assunto, podemos verbalizar nosso pensamento. Contudo, quando a dúvida nos assalta, é
melhor nos recolhermos à nossa insignificância e esperarmos pela ação de Deus, ao longo da história. O que o intelecto humano
não pode compreender deve ser humildemente levado a Deus em oração.
5
O que importa na vida não é como começamos, mas como vamos terminar nossa jornada na terra. O salmista faz uma avalia-
ção de suas considerações momentâneas, à luz da eternidade e da sabedoria de Deus, e se considera imprudente. A amargura
estraga nossa capacidade de pensar com amplitude e inteligência (v.22).
6
O salmista conclui que os ímpios acabam caindo do seu estado de arrogância e desonesta prosperidade. Enquanto os incré-
dulos passam para a eterna separação de Deus (v.27), os crentes são promovidos à comunhão plena e eterna com o Senhor. O
conselho divino venceu a tentação que consumia os pensamentos do salmista, e o guiará todos os dias até o momento de ser
recebido no Reino eterno (16.7; 32.8; 48.14; 49.15).
7
Sendo levita, o salmista considerava o Senhor como sua porção na terra prometida, pois vivia dos dízimos que o povo oferecia
a Deus. Mas o salmista aprendeu a ir além desse reconhecimento material e imediato, e passou a considerar o Senhor como sua
SALMOS 73
77
27
Eis que perecerão os que de ti se afas-
tam, tu exterminas a todos os que te re-
jeitam.
28
Eu, porém, tenho por felicidade estar
na presença de Deus. Em ti, Eterno Deus,
deposito minha plena confiança, para
proclamar todas as tuas obras!
Lamento sobre a ruína do templo
Poema da família de Asafe.
74
Por que, ó Deus, esta rejeição sem
fim, esta ardente cólera contra as
ovelhas de teus pastos?
1
2
Lembra-te da comunidade que adqui-
riste desde a origem, da tribo que reivin-
dicaste como herança, do monte Sião,
onde fizeste tua morada!
2
3
Dirige teus passos para essas eternas
ruínas! O inimigo tudo devastou no san-
tuário.
4
Teus adversários rugiram no lugar de
tua assembléia, erigiram seus estandartes
como insígnias.
3
5
Pareciam homens a brandir o machado
em mata espessa,
6
ao despedaçarem todos os entalhos, a
golpes de machado e malho.
7
Atearam fogo ao teu santuário, derruba-
ram e profanaram a morada do teu Nome.
4
8
Disseram em seu coração: “Juntos va-
mos oprimi-los!” E incendiaram, no país,
todos os lugares de encontro com Deus.
9
Não mais vemos nossas insígnias, já
não há profeta e não temos alguém, entre
nós, que saiba até quando:
10
até quando, ó Deus, tripudiará o adver-
sário? Blasfemará o inimigo teu Nome,
sem cessar?
5
11
Por que retrais tua mão, e reténs tua
destra contra o peito?
12
No entanto, Deus é rei desde sempre, é
ele quem realiza vitórias na terra.
13
Com tua força fendeste o mar, e des-
pedaçaste, sobre as águas, as cabeças dos
monstros marinhos.
14
Esmagaste as cabeças do Leviatã e o
serviste de alimento aos habitantes do
deserto.
6

15
Fizeste jorrar fontes e torrentes, e secar
rios impetuosos.
16
O dia é teu, é tua a noite; criaste a luz
e o sol.
17
Os limites da terra estabeleceste; verão
e inverno foram por ti determinados.
18
Lembra-te, em teu poder, de que o ini-
migo te ultrajou, ó Eterno, e de que o povo
infame contra teu Nome blasfemou.
19
Não permitas que seja entregue às feras
a alma de tua pomba, Israel, nem esque-
ças para sempre a vida dos teus filhos!
7
20
Considera a aliança, pois os esconde-
rijos do país encheram-se de covis da
violência.
8
21
Não permitas que o oprimido se retire
razão maior para viver (Nm 18.21-24; Dt 10.9; 18.1,2). E termina seu salmo com um convite para louvarmos a Deus por todas as
suas misericórdias, inclusive aquelas que ainda não percebemos (Sl 7.17).
Capítulo 74:
1
Este salmo data da época do exílio, quando Israel tinha sido destruído como nação, a terra prometida havia sido comple-
tamente devastada, e o templo, reduzido a ruínas pelos caldeus (babilônios) por volta do ano 586 a.C. (Sl 79; Lm 2). Nesse
momento da vida nacional israelense, o relacionamento entre Deus e seu povo é visto à semelhança do que existe entre um rei,
bom e poderoso, e seus súditos.
2
A destruição súbita e implacável faz que o salmista e o povo indaguem se Deus havia abandonado o mesmo povo que res-
gatara do Egito, com poder e glória (Sl 9.11; Êx 15.13-18).
3
Os estandartes (bandeiras) simbolizavam o reagrupamento das tropas como um sinal de vitória (Nm 1.52; Is 31.9: Jr 4.21).
4
O “Nome de Deus” no santuário representava sua própria presença física no templo (Sl 5.7; Dt 12.5).
5
Não havia mais sinais miraculosos como ocorrera na época do êxodo (vv. 13-15; 78.43). E não havia mais profetas, pois
Jeremias tinha sido levado para o Egito e não se sabia do paradeiro de Ezequiel. Os zombeteiros se multiplicavam (Jr 43.4-7;
2Rs 18.32-35; Is 37.6,23).
6
Monstros marinhos e o deus Crocodilo (Leviatã), adorado no Egito antigo, servem de símbolos proféticos contra o Faraó, e para
celebrar o Deus de toda a criação e a libertação futura de Israel (Sl 89.10; Jó 9.13; 26.12-13; Is 51.9-13; 21.1; Ez 29.3-5; 32.2-6).
7
Israel é carinhosamente comparado a um pombo. Este versículo pode ser transliterado do original hebraico da seguinte
forma: Al titen lechaiat néfesh torêcha, chaiat aniiêcha al tishcach lanétsach (Ct 2.14; 5.12; 6.9; Sl 68.13).
8
Em sua Aliança com Israel, Deus prometeu que seria o Guardião do seu povo, que lhes daria segurança e bem-estar na terra
prometida (Êx 19.5,6; 23.27-31; 34.10,11; Lv 26.11-45; Dt 28.1-14; Sl 105.8-11; 106.45; 111.5,9; Is 54.10; Jr 14.21; Ez 16.60).
SALMOS 73, 74
78
humilhado! Faze que o pobre e o neces-
sitado louvem o teu Nome.
22
Levanta-te, ó Eterno, e defende a tua
causa; lembra-te de como os insensatos
zombam de ti dia e noite.
23
Não ignores o rugido dos opressores,
o alvoroço dos que se erguem contra ti, e
destrói-os para sempre!
Deus, o grande Juiz dos povos
Ao mestre do coro, de acordo com a melodia Não
Destruas. Um salmo e cântico da família de Asafe.
75
Nós te exaltamos, ó Eterno; graças
a ti rendemos, e sentimos a pro-
ximidade de tua presença; todos procla-
mam os teus feitos maravilhosos.
1
2
Pois disseste: “Quando Eu escolher o tem-
po apropriado, farei justiça com retidão.
2
3
Trema, entretanto, toda a terra com seus
habitantes. Eu lhe firmei as colunas.
(Pausa)
4
Aos arrogantes ordenei: Não sejais in-
solentes! E aos ímpios repreendo: Não
levanteis a vossa fronte.
3
5
Não ergais com soberba a vossa voz
contra os céus; não faleis com insolência
contra a Rocha”.
4

6
Não é do Oriente nem do Ocidente,
tampouco é do deserto, ao sul, ou das
montanhas ao norte que vem a vitória.
5
7
É Deus quem julga: a um rebaixa, a ou-
tro eleva!
8
O SENHOR tem na mão uma taça, cujo
vinho espuma, cheio de mistura; dele
dá a beber: sorvem-no até a última gota,
bebem-no todos os ímpios da terra.
9
Quanto a mim, para sempre proclama-
rei esses feitos; cantarei louvores ao Deus
de Jacó.
10
O orgulho dos perversos abaterei, po-
rém exaltada será a honra dos justos.
6

Canto de vitória
Ao mest re de música. Com inst rumentos de cor-
das. Um salmo e cântico da família de Asafe.
76
Deus é conhecido em Judá, seu
Nome é grande em Israel.
1
2
Sua tenda está em Salém; em Sião, sua
morada.
3
Ali quebrou as flechas do arco, o escu-
do, a espada e o aparato bélico.
2
(Pausa)
4
Tu és deslumbrante, mais magnífico do
que montanhas de despojos.
1
Salmo de conforto e confiança quando Israel se via na iminência de ser atacada pelas potências mundiais, como os assírios
(2Rs 18.13 – 19.37). Há claros paralelos temáticos com o cântico de Ana (1Sm 2.1-10), bem como outros cânticos compostos sob
a mesma melodia (Sl 4; 9; 30; 57; 58; 59).
2
A Palavra do Senhor é perene e o sentido profético pode ser aplicado àquela circunstância, assim como ao futuro iminente.
Deus não deixará passar em branco as atitudes nefastas dos incrédulos e maldosos, e exigirá a devida prestação de contas
(2Rs 19.21-34). A hora do julgamento será determinada exclusivamente pelo próprio Senhor, segundo sua graça e sabedoria
absolutas.
3
Em geral, os salmistas consideram que os ímpios são tanto soberbos e arrogantes (Is 37.8-13), quanto insensatos (Sl 10; 14.1;
31.23; 73.4-12; 74.18,22; 92.6; 94.4,8). Este versículo pode ser transliterado do original hebraico dessa forma: Amárti laholelim al
tahôlu, velareshaim al tarímu cáren. O sentido da expressão literal “não levanteis o chifre” aqui traduzida por “não levanteis a vossa
fronte” tem a ver com uma metáfora muito usada no AT, para referir-se a “glória” e a “poder”, tendo como base o “vigor” e a “força”
dos touros e bisões, quando atacam (v.5,10; 18.2). Algumas traduções dessa expressão, literais e impróprias, influenciaram vários
artistas a pintar ou esculpir personagens bíblicos, como o Moisés, de Michelangelo, ostentando “chifres” e, portanto, sendo mal
compreendidos pela maioria dos observadores.
4
A “Rocha” simboliza a natureza inabalável de Deus e a segurança que o crente tem na pessoa de Cristo, a Rocha (Pedra)
fundamental (1Co 3.11).
5
Vindos do norte, os assírios ameaçavam Israel, e o povo buscava alianças políticas com as nações do Oriente e do Ocidente.
Os profetas condenavam essas tentativas e proclamavam que o grande socorro vem somente de cima, do Senhor.
6
Quem fala aqui não é o salmista nem mesmo um rei (Sl 101), mas a mesma pessoa que ao falar no v.9 relembra, à congrega-
ção, outra Palavra de Deus. A redação mais correta seria: “O Deus de Jacó” (declarando ao mundo): “o orgulho dos perversos
abaterei...” (vv.4,7; 1.5).
Capítulo 76
1
Mais um salmo da galeria de poemas e cânticos sagrados que celebram a libertação de Jerusalém da destruição planejada
pelo Império Assírio, comandada por Senaqueribe (2Rs 19; Is 37). O poder invencível do Senhor e seu amor perpétuo por seu
povo e cidade real ficam evidentes neste salmo e na relação temática com Sl 46; 48; 64; 87. Deus esmaga os inimigos de Sião ou
Salém, duas formas hebraicas de se referir à cidade de Jerusalém (v.2).
2
As armas e os inimigos a respeito dos quais o profeta Isaías profetizou que não conseguiriam atingir Jerusalém (Is 37.33).
SALMOS 74–76
79
5
Foram espoliados os de coração indo-
mável, tomados pelo sono, e nenhum dos
valentes pôde valer-se das próprias mãos.
6
Ante tua ameaça, ó Deus de Jacó, carros
e cavalos ficaram imobilizados.
3
7
Tu infundes temor: quem pode manter-
se diante de ti durante a tua ira?
8
Do céu enunciaste a sentença: a terra
fica paralisada de medo,
9
quando tu, ó Deus, te levantas para julgar,
para salvar todos os humildes da terra.
10
Até a ira dos homens redundará em teu
louvor, e com os resquícios de furor tu te
cinges.
4
11
Fazei votos ao SENHOR, vosso Deus, e
cumpri-os! Tragam-lhe presentes todas
as nações, e depositai-os em torno dele,
que inspira temor!
5
12
Ele deixa sem alento os príncipes, aos
reis da terra faz tremer de medo.
Deus rico em poder e misericórdia
Ao regente do coro, ao estilo de Jedutum.
Um salmo e cântico da família de Asafe.
77
Elevo a Deus minha voz, e clamo;
elevo a Deus minha voz, para que
me ouça.
1
2
No dia da minha angústia, procuro o Se-
nhor; de noite, não me canso de erguer a
mão. Minha alma recusa ser consolada.
3
Lembro-me de Deus e gemo; medito, e
meu espírito desfalece.
(Pausa)
4
Manténs abertas minhas pálpebras; tão
perturbado estou, que nem posso falar.
5
Relembro os dias passados, os anos de
outrora.
6
De noite, recordo minha cantiga; medi-
to-a no meu coração. O espírito indaga:
7
“Acaso o Senhor nos rejeitará para sem-
pre, e já não voltará a ser-nos favorável?
2
8
Acaso de todo se esgotou sua fidelidade,
terminou sua promessa para as gerações?
9
Acaso Deus se esqueceu de ter compaixão,
ou a cólera lhe enrijeceu as entranhas?”
(Pausa)
10
Então pensei: “Apelarei para o que
há muito realizou a mão direita do
Altíssimo”.
3
11
Recordo-me dos feitos do SENHOR, lem-
brado estou dos teus milagres de outrora;
12
penso em todas as tuas obras, e medito
em teus prodígios.
13
Teu Caminho, ó Deus, é Santo: grande
como Deus, outro deus não existe!
14
Tu és o Deus que fazes milagres, mos-
traste teu poder entre os povos.
15
Com teu braço resgataste teu povo, os
filhos de Jacó e de José.
4
3
Louvor à majestade temível do Senhor (18.15; 104.7; 106.9; Jó 26.11; Is 50.2; Is 51.20; 54.9; 66.15; Ml 2.3 com Sl 75), cujo
poderoso juízo aterroriza os inimigos de Israel e provoca reverente adoração (Na 3.18). Temos aqui uma evocação da vitória de
Deus contra os antigos egípcios no mar Vermelho (Êx 14.28,30; 15.5-10).
4
O povo de Deus considera a destruição dos opressores como um ato de livramento (salvação) e proteção do Senhor. Uma
expressão do seu amor justo (Na 1.4). A soberania e a graça de Deus ficam ainda mais evidentes quando a humanidade se
levanta em rebelião ou rejeita a correção divina (Rm 5.20).
5
Quem pode observar nas crises e dramas, pessoais e mundiais, a mão justa e misericordiosa de Deus, volta ao culto e à
adoração com redobrado vigor espiritual (Na 1.15; Sl 50.14).
Capítulo 77
1
Uma comparação deste salmo com Hb 3.8-10 indica eventos passados num período avançado da monarquia israelense. O
salmista vence uma árdua e assustadora escalada, partindo do desespero para a esperança certa (a certeza da fé), mediante uma
reflexão honesta sobre os atos de Deus no passado.
2
Os primeiros versículos narram a crise de depressão profunda que acomete o salmista. Ele se vê como uma pessoa muito
doente, apelando pelo socorro de alguém durante o silêncio frio e surdo da noite. Seu foco fica todo sobre seu próprio ser e o
desassossego lhe rouba o sono. Nesse ponto, até as recordações das antigas manifestações de misericórdia de Deus servem de
suplício para a alma angustiada (Sl 22.1-11).
3
A fé é a decisão pessoal e irrevogável de crer na intervenção do Senhor no centro das nossas crises, a fim de nos salvar de
forma plena e eterna. O salmista medita nos poderosos e inquestionáveis atos salvíficos de Deus para com seu povo, na antigui-
dade, e se rende à graça da majestade de Deus (Sl 63.2; Êx 14.19; 15.11).
4
É comum os autores do AT se referirem a “José” (ou Efraim, filho de José), querendo significar o Reino do Norte em contra-
posição ao Reino do Sul, ou seja, “Judá” (2Sm 19.20; 1Rs 11.28; Sl 78.67; Ez 37.16,19; Am 5.6,15; 6.6; Zc 10.6). Contudo, aqui
e em outros trechos, “José”, por ter sido elevado à condição de primogênito, representa todo o seu povo, bem como todos os
descendentes de Jacó (Sl 80.1; 81.5; Ob 18; Gn 48.5; Js 16.1-4; 1Cr 5.2; Ez 47.13).
SALMOS 76, 77
80
16
As águas te avistaram, ó Deus, as águas
te tremeram e contemplaram; até as pro-
fundezas estremeceram.
17
As nuvens desfizeram-se em água, hou-
ve trovões nos céus; também tuas flechas
coruscavam em todas as direções.
18
Ao reboar do teu trovão na tempesta-
de, os raios iluminando o mundo; estre-
meceu a terra e abalou-se.
19
A tua vereda atravessou o mar, e o teu
Caminho, pelas águas poderosas.
20
Guiaste o teu povo como a um reba-
nho pela mão de Moisés e de Arão.
Ação divina na história de Israel
Um poema da família de Asafe.
78
Escuta meu ensino, ó povo meu,
presta atenção às palavras da mi-
nha boca!
1
2
Em parábolas abrirei a minha boca,
proferirei enigmas do passado.
2
3
O que ouvimos e aprendemos, o que os
pais nos contaram,
4
não o ocultaremos aos filhos; transmi-
tiremos à geração vindoura as gloriosas
realizações do SENHOR, seu poder e as
maravilhas dos seus feitos.
5
Ele estabeleceu uma lei em Jacó, deter-
minou um código de conduta em Israel.
Ordenou a nossos pais que o ministras-
sem a nossos filhos,
6
para que a geração seguinte o apren-
desse; e os filhos que haviam de nascer,
quando maduros, o transmitissem igual-
mente a seus filhos,
7
para que depositassem em Deus sua con-
fiança e não se esquecessem dos feitos de
Deus, mas guardassem seus mandamentos,
8
a fim de não se tornarem como seus
pais, geração indócil e rebelde, geração
de coração inconstante, de espírito infiel
a Deus.
9
Se os filhos de Efraim, arqueiros arma-
dos, retrocederam no dia do combate,
3
10
é porque, não guardando a aliança de
Deus, recusaram seguir a sua Lei.
11
Esqueceram-se dos seus atos e dos
prodígios que lhes mostrara.
12
Ele realizou maravilhas diante dos seus
antepassados, na terra do Egito, na região
de Zoã.
13
Dividiu o mar para que pudessem pas-
sar; fez a água erguer-se como um muro.
14
Durante o dia guiava-os por meio de
uma nuvem e, a noite toda, por um cla-
rão de fogo.
15
Fendeu as rochas no deserto e deu-lhes
água em abundância, como a que flui das
profundezas;
16
do rochedo fez jorrar torrentes, fez
correr a água como rios.
4
17
Eles, porém, continuaram a pecar con-
tra Ele, rebelando-se contra o Altíssimo
na estepe.
1
Este salmo expressa um conceito básico que permeia toda a Palavra de Deus: a confiança (fé) em Deus e a fidelidade ao
Senhor por parte do seu povo são questões relativas à Aliança, e não provêm de princípios abstratos. Resultam da lembrança
dos muitos milagres e atos salvíficos de Deus. Portanto, a incredulidade e infidelidade são atitudes ainda mais censuráveis, por-
quanto, quem assim procede desconsidera a realidade e a maravilha da intervenção divina em favor dos seus amados (Sl 105;
106). Este poema melódico e doutrinário faz parte do período da chamada monarquia dividida, na época do profeta Oséias que,
muitas vezes, assim como Isaías, usa o nome de Efraim significando todo o Reino do Norte, por ser a tribo líder daquele reino.
A deslealdade de Israel é sintetizada aqui no pecado de Efraim (v.9). O salmo é uma advertência aos judeus crentes, a Judá e
ao Reino do Sul (v.68), que viviam e adoravam a Deus em Jerusalém, a fim de não se deixarem desviar da fé como fizeram seus
irmãos do Norte (vv.59,60).
2
As parábolas (enigmas e metáforas sapienciais) deste salmo foram lembradas por Mateus como uma voz profética que pre-
nunciava a voz do Cristo (o Messias), sendo proclamada, com ênfase, pelo apóstolo Estêvão (Mt 13.35; At 7).
3
Conforme ressaltam os profetas, especialmente Amós e Oséias, o Reino do Norte não guardou as ordenanças estipuladas
na Aliança do Senhor, nem se recordou dos seus atos salvíficos, agindo sistematicamente com rebeldia à Palavra de Deus,
violando os compromissos de lealdade que firmara desde os tempos da peregrinação no deserto (vv.9-16; 32-39; 40-55). Efraim,
que liderava e representava o Reino do Norte, tinha uma tribo de exímios arqueiros e guerreiros; a metáfora aqui usada é melhor
compreendida à luz do v.57, em que o “arco frouxo” ou “defeituoso” significa o “afrouxamento da fé e do padrão de fidelidade do
povo em relação a Deus, de forma contínua e prolongada, ao longo da história” (v.10; Dt 33.17).
4
Uma coleção de citações bíblicas e históricas resume as conhecidas pragas do Egito e alguns milagres relacionados à água,
no mar Vermelho e no próprio deserto do Sinai. Em seguida, nos ciclos narrados nos vv. 17-39 e 40-64 mais pecados são agrega-
dos ao processo de julgamento de Israel (Êx 15.24; vv.35,56; Gn 14.19). Zoã era uma cidade situada na região nordeste do delta
do rio Nilo (v.43; Nm 13.22; Êx 14.1 – 15.21; Êx 17.6; Nm 20.8-11).
SALMOS 77, 78
81
18
Em seu coração tentaram a Deus, exigin-
do alimento mais apetitoso ao seu paladar.
19
Exclamaram contra o Senhor, questio-
nando: “Será Deus capaz de servir-nos à
mesa no deserto?
20
É verdade, Ele bateu na rocha, e eis que
brotou água e jorraram torrentes; mas
poderá também fornecer pão e prover de
carne seu povo?”
5
21
Portanto, ao ouvir tais queixas do
povo, enfureceu-se e com fogo atacou a
Jacó, e sua ira se levantou contra Israel,
22
pois eles não creram em Deus nem
confiaram no seu poder salvador.
23
Deu ordem às nuvens do alto e abriu
as comportas do céu:
6
24
fez chover maná sobre o povo para que
se alimentassem, deu-lhes trigo do céu!
7
25
Cada pessoa se alimentou do pão dos
anjos; enviou-lhes comida à vontade.
26
Mandou do céu o vento oriental, e por
meio do seu poder fez avançar o vento sul.
27
Então, fez chover carne sobre eles
como grãos de areia, bandos de aves
como a areia da praia.
28
Levou-as a cair dentro do acampa-
mento, ao redor de suas tendas.
29
Comeram até se fartarem, e assim Ele
satisfez o desejo do coração deles.
30
Contudo, antes de saciarem o apetite,
quando ainda mastigavam a comida que
lhes restava na boca,
31
desencadeou-se a ira de Deus contra
aquele povo, semeando a morte entre os
mais valentes, abatendo os jovens de Is-
rael.
8
32
Apesar disso, continuaram pecando;
não creram nos seus milagres.
33
Por isso, Ele encerrou os dias deles
como um sopro, e os anos deles em re-
pentino pavor.
34
Sempre que Deus os castigava com
morte, eles o buscavam; com fervor se
voltavam de novo para Ele.
35
Recordavam que Deus era a sua Rocha,
que era o seu Redentor, o Deus Altíssimo.
36
Com a boca tentavam enganá-lo, men-
tiam-lhe com a língua;
37
de coração inconstante para com Ele,
não eram fiéis à sua aliança.
38
Entretanto, porque era misericordioso,
perdoava a culpa deles, a fim de que não
fosse necessário que os destruísse; mui-
tas vezes, reprimiu sua cólera santa e não
acendeu todo o seu furor,
39
recordando-se de que eram seres frá-
geis e meros mortais, brisas passageiras
que não retornam.
40
Quantas vezes se mostraram rebeldes
contra Ele no deserto, e o entristeceram
na terra solitária!
41
Quantas vezes puseram Deus à prova; ir-
ritaram profundamente o Santo de Israel.
42
Não se lembravam da sua mão podero-
sa, do dia em que os redimiu do opressor,
43
do dia em que revelou as suas maravi-
lhas no Egito, os seus milagres na região
de Zoã,
44
quando transformou os rios e os ria-
chos dos egípcios em sangue, e eles não
mais conseguiram beber das suas pró-
prias águas;
45
e mandou enxames de moscas que os
molestaram, e rãs que os devastaram;
9
46
quando entregou suas plantações às lar-
vas; a produção da terra, aos gafanhotos,
5
O ser humano, incrédulo e pecaminoso chega a aceitar os milagres de Deus, mas não com a gratidão e a reverência devidas
e, sim, como apenas um ponto de partida para novas exigências e questionamentos. Aqui, o salmista faz uma junção de dois
episódios conhecidos (Êx 16.2,3; Nm 11.4).
6
Em Nm 11.1, vemos como a ira divina literalmente se acendeu. Várias metáforas permeiam este salmo, como recurso didático
para transmitir a história do amor de Deus para com seu povo, ao longo dos séculos (vv.31,49,50.58,59,62; Gn 7.11; 2Rs 7.2; Ml
3.10; Sl 2.5). Toda a obra de Deus, desde a Queda (Gn 3), tem como objetivo resgatar um povo formado por filhos amados que
no Senhor e Salvador depositassem toda a sua fé, gratidão e reverência (Jo 6.29).
7
Um dos significados mais profundos do termo hebraico “maná” é “pão do céu”, como descrito em Êx 16. Contudo, seu
sentido eterno fica evidente no sacrifício vicário e redentor de Jesus Cristo, o Messias (Jo 6.51).
8
A gula carnal do povo (egoísmo sórdido e desesperado) fez que as pessoas fixassem seus olhos na provisão, e não no
Provedor. Deus, em sua tristeza e decepção, castigou aqueles irreverentes e incrédulos com uma superabundância de provisão.
Sem os limites da sabedoria divina, muitos morreram de prazer (Nm 11.31-34).
9
A preocupação do salmista não é apresentar uma lista detalhada das pragas do Egito (Êx 7 – 12), mas, sim, deixar bem clara
SALMOS 78
82
47
e destruiu as suas vinhas com a saraiva,
e as suas figueiras bravas, com a geada;
48
quando entregou o gado deles ao gra-
nizo, os seus rebanhos aos raios;
49
quando os atingiu com sua ira ardente,
com furor, indignação e hostilidade, com
muitos anjos destruidores.
50
Abriu caminho para sua ira, não pou-
pou da morte suas almas, mas entregou
suas vidas à peste.
51
Feriu todos os primogênitos do Egito, as
primícias da virilidade, nas tendas de Cam.
52
Fez partir seu povo como um rebanho e
os conduziu como ovelhas pelo deserto.
53
Guiou-os com segurança, sem temo-
res, enquanto o mar cobria os inimigos.
54
Fê-los entrar em seu domínio sagrado,
até a montanha que sua destra conquistara.
55
Diante deles expulsou nações e, por
sorteio, repartindo o patrimônio, insta-
lou em suas tendas as tribos de Israel.
56
Eles, no entanto, puseram Deus à pro-
va e foram rebeldes contra o Altíssimo;
não obedeceram às suas prescrições.
57
Desertaram e, como seus pais, o atraiçoa-
ram, envergando-se como um arco frouxo.
58
Com seus altares idólatras, eles o irri-
taram tremendamente; com seus ídolos
lhe provocaram ciúmes.
10

59
Deus ouviu e se indignou e, com vee-
mência, repudiou Israel.
60
Abandonou o tabernáculo de Siló, a ten-
da onde fazia morada entre os homens.
11

61
Entregou o símbolo do seu poder ao
cativeiro, e seu esplendor, nas mãos do
opressor.
62
Abandonou à espada seu povo, irrita-
do contra a herança.
63
Um fogo devorou os jovens, e as don-
zelas não tiveram canto nupcial.
64
Os sacerdotes tombaram sob a espada,
e não os prantearam as viúvas.
65
Então, como de sonolência, despertou
o Senhor, como um guerreiro aturdido
pelo vinho,
66
e golpeou os inimigos pelas costas,
infligindo-lhes infâmia eterna.
67
Descartou a tenda de José, preteriu a
tribo de Efraim.
68
Escolheu a tribo de Judá, o monte Sião,
que Ele amava.
12
69
Construiu seu santuário como no alto
céu, como a terra, que consolidou para
sempre.
70
Escolheu Davi, seu servo, tirando-o
dos apriscos do rebanho;
71
do cuidado das ovelhas, seu povo, Isra-
el, sua herança.
72
E ele os pastoreava com coração irre-
preensível e, com a perícia de suas mãos
os conduzia.
O povo suplica o socorro de Deus
Um salmo da família de Asafe.
79
Ó Deus, as nações invadiram tua
herdade, profanaram teu santo
templo, reduziram Jerusalém a ruínas.
1
2
Lançaram os cadáveres de teus servos
a história de incredulidade, rebeldia, falta de gratidão e reverência sincera para com o Senhor, o Santo de Israel (Sl 71.22; 89.18;
Is 1.4). O v.55 oferece um resumo da história narrada em Josué. A rebeldia de Israel e a benignidade de Deus continuaram a ser
temas recorrentes na terra prometida, conforme o livro dos Juízes (1Sm 2.12 – 7.2; Jr 7.15).
10
Deus não divide sua glória com nada e com ninguém. Zelo e ciúmes são as expressões hebraicas originais para traduzir
o sentimento de indignação de Deus ao contemplar a deslealdade do seu povo amado, erguendo altares idólatras e cultuando
coisas e deuses (Êx 20.5).
11
A cidade de Siló era reconhecida como um centro de adoração a Deus desde os tempos de Josué (Js 18.1,8; 21.1,2; Jz
18.31), situava-se em Efraim, entre Betel e Siquém (Jz 21.19). Na época dos juízes, Siló abrigou o tabernáculo de Deus que,
mais tarde, tornou-se um templo (1Sm 1.3; Jr 7.12). Entretanto, por causa da incredulidade e rebeldia de Israel, esse templo foi
parcialmente destruído pelos filisteus, e completamente arrasado pelos assírios, no ano 721 a.C., quando a Arca da Aliança foi
seqüestrada e jamais voltaria para Siló (Jr 7.12). Os vv.62-64 descrevem o fim das tribos e do Reino do Norte.
12
O Santuário foi estabelecido em Jerusalém na pessoa do rei Davi, cuja majestade e messianato simbolizam – eternamente e
ao mesmo tempo – o Rei, o Profeta e o Sumo Sacerdote (ou Pastor): Jesus Cristo, ministrando no Tabernáculo Celestial, assen-
tado à direita da glória e majestade do Pai nos céus (Hb 8 e 9; Jo 10.1-17).
Capítulo 79
1
“Nação” é uma palavra bíblica de origem hebraica que significa “uma coletividade de pagãos”. Israel reconhece que Deus
usou “as nações” para castigar seu povo por sua incredulidade, rebeldia e demais pecados, de maneira que se rende e suplica
o perdão do Senhor. Contudo, Israel também sabe que os reinos pagãos têm agido por malignidade e desprezo contra Deus e
SALMOS 78, 79
83
como pasto às aves sarcófagas, a carne
dos teus fiéis, aos animais selvagens.
3
Derramaram, como água, seu sangue
em torno de Jerusalém, e ninguém os
sepultava.
4
Tornamo-nos o escárnio dos vizinhos,
objetos de riso e menosprezo para todos
que vivem ao nosso redor.
5
Até quando, SENHOR? Estarás sempre
irado, ardendo com fogo teu zelo?
6
Derrama teu furor sobre as nações pa-
gãs, sobre todos os reinos que não te ado-
ram, que não invocam teu Nome,
7
porquanto devoraram Jacó e assolaram
sua morada!
8
Não evoques contra nós as culpas dos
nossos pais! Venha logo ao nosso encon-
tro tua compaixão, pois estamos profun-
damente deprimidos.
2

9
Ajuda-nos, ó Deus, Salvador nosso, pela
glória do teu Nome! Livra-nos e perdoa
nossos pecados, por causa do teu Nome!
10
Por que hão de dizer as nações: “Onde
está o seu Deus?” Diante de nossos olhos,
mostra aos pagãos a tua vingança pelo
sangue dos teus servos!
3
11
Chegue à tua presença o lamento dos
prisioneiros; com teu braço poderoso
preserva os sentenciados à morte.
12
Devolve a nossos vizinhos, sete vezes
mais, a afronta com que te insultaram,
Senhor!
13
Então nós, o teu povo, as ovelhas das
tuas pastagens; de geração em geração,
para sempre te adoraremos e cantaremos
os teus louvores.
Oração pela restauração de Israel
Ao regente do coro: segundo a melodia “Os lírios
da Aliança”. Um salmo da família de Asafe.
80
Escuta, ó Pastor de Israel, que
guias José como um rebanho! Tu,
que estás entronizado sobre os queru-
bins, manifesta a tua glória,
1
2
diante de Efraim, Benjamim e Manassés!
Desperta teu poder e vem salvar-nos!
3
Restaura-nos, ó Deus: faze brilhar tua
bondosa face, para que sejamos salvos.
4
Eterno, Deus dos Exércitos, até quando
em tua ira santa ignorarás as preces do
teu povo?
5
Deste-lhe a comer o pão das lágrimas, a
beber um pranto triplicado.
2
6
Fizeste-nos objeto de contenda dos vi-
seu povo; esse fato justifica sua petição pelo juízo do Senhor contra tais nações (Is 10.5-11; 47.6,7). Em 586 a.C., os babilônios
invadiram e destruíram Jerusalém, massacrando os pobres e incultos, e levando para o cativeiro todas as pessoas com boa for-
mação cultural ou capacidade técnica. A oração de Daniel em muito se assemelha a este salmo em suas expressões de profundo
arrependimento (Dn 9.4-19; Sl 73;74). Aqui há uma referência explícita à pátria de Israel como domínio (templo) do Senhor (Sl
2.8; 78.62-71).
2
O salmista lembra o profeta Jeremias e consegue ver o amor do Pai mesmo sob repreensão severa (Jr 10.25). Jacó é usado
como sinônimo de Israel (Gn 32.28). A destruição de Jerusalém ocorreu após mais de um século em que o povo se desviou
do Senhor e preferiu seguir orientações pagãs (2Rs 17.7-23; 23.26,27; 24.3,4; Dn 9.4-14), pecados se avolumaram e não foram
reconhecidos, confessados e abandonados por amor a Deus. Aqui, os exilados suplicam que o Senhor leve em conta a Aliança
celebrada com seu povo e o sincero arrependimento daquela geração de crentes sofredores (Sl 23.6; 43.3).
3
Mais terrível que o desterro, a escravidão e a desgraça é ouvir dos pagãos: “Onde está o seu Deus?”, pois o incrédulo é o
primeiro a fazer uma relação direta entre “bênção divina” e “prosperidade”. A nova geração de fiéis israelitas pede que o Senhor
tenha compaixão deles, e que também não permita que seu Nome (a pessoa excelsa de Deus) seja difamado pelos ímpios. O
povo pede ressarcimento pelo sangue derramado, especialmente dos inocentes, e lembra a Deus que há uma maldição prescrita
sobre todo aquele que persegue um filho de Deus (Dt 32.35-43; Sl 3.2; 23.3; 65.3).
Capítulo 80
1
Esta é uma súplica pela restauração de Israel depois de ter sido arrasado por uma potência pagã. O salmo é dividido em
três partes, cada qual tendo um coro que exclama literalmente Elohim hashivênu, vehaer panêcha venivashêa – transliteração do
original hebraico que significa “Restaura-nos, ó Deus, e faze sobre nós resplandecer tua face, e então seremos salvos”. Segundo
descobertas arqueológicas, Jerusalém e sua região rural passaram nessa época por um aumento repentino e substancial de
população, certamente como resultado da chegada maciça de refugiados no Norte, que fugiam dos exércitos assírios. Esse fato
justifica a presença de “Efraim, Benjamim e Manassés”, no templo em Jerusalém, e sua oração em favor de uma restauração
nacional, já que essas tribos representavam o Reino do Norte - as dez tribos recebidas por Jeroboão, deixando apenas Judá para
Roboão, ainda que essa abrigasse a tribo de Simeão (1Rs 11.29-36; Js 19.1-9). Mesmo considerando que a pequena Benjamim
pertencesse ao Reino do Norte, parte dessa tribo viveu dentro das fronteiras de Jerusalém. Foi, portanto, a nação pagã dos assí-
rios que varreu o Reino do Norte da história (1Rs 12.21; 2Rs 17.1-6).
2
Por causa do pecado cometido no Éden (Gn 3), o ser humano foi condenado a obter seu alimento por meio do suor do seu
SALMOS 79, 80
84
zinhos, e de nós zombam os inimigos.
7
Restaura-nos, ó Deus dos Exércitos,
faze resplandecer sobre nós o teu rosto,
para que sejamos salvos.
8
A videira que retiraste do Egito, tu a re-
plantaste, expulsando nações.
3

9
Limpaste o terreno, e ela lançou suas
raízes enchendo a terra toda.
10
Sua sombra cobriu as montanhas, e
seus ramos, os cedros altíssimos.
11
Suas ramagens se estenderam até o
Mar, e seus brotos, até o Rio.
4

12
Por qual motivo derrubaste suas cer-
cas, permitindo que todos os que passam
tomem suas uvas?
13
O javali da selva a devasta, pastam nela
os animais do campo.
14
Volta-te, ó Deus Todo-Poderoso, olha
do céu e vê! Vem visitar esta videira
15
da raiz que a tua mão direita plantou,
o filho que para ti fortaleceste!
16
Ei-la incendiada, cortada. Pereçam
eles, sob a ameaça do teu rosto!
17
Pousa a tua mão sobre aquele homem
que está à tua direita: o filho do homem
que para ti mesmo fizeste crescer.
5
18
Não nos afastaremos de Ti: Tu nos
conservarás a vida, e invocaremos o teu
Nome.
19
Restaura-nos, ó Deus, SENHOR Todo-
Poderoso: faze brilhar tua face sobre nós,
e então seremos salvos!
Exortação ao culto e à obediência
Ao regente do coro: segundo a melodia “Os la-
gares”. Um salmo da família de Asafe.
81
Cantai de júbilo a Deus, nossa for-
ça; celebrai o Deus de Jacó.
1

2
Salmodiai e fazei soar os pandeiros, to-
cai a lira e a harpa melodiosa.
3
Fazei ressoar a trompa, na lua nova, na
lua cheia, no dia de nossa festa!
4
Porque é uma lei para Israel, um precei-
to do Deus de Jacó,
5
uma regra que Ele impôs a José, quando
saiu contra a terra do Egito. Ali ouvimos
uma língua que não compreendíamos.
6
Ele declara: “Tirei o fardo dos teus om-
bros, e tuas mãos ficaram livres dos ces-
tos de cargas.
7
Quando clamaste na aflição, Eu te li-
bertei; Eu te respondi, oculto no trovão;
provei-te junto às águas de Meribá.
2
(Pausa)
rosto. E, em virtude dos sucessivos pecados individuais, é com lamento e lágrimas que muitas vezes faz suas refeições. No
momento, a que se refere este salmo, Deus vinha permitindo grande sofrimento a Israel, em vez do “pão dos anjos” e da “água
da rocha” (Sl 78.20-25).
3
A expressão hebraica original “videira-vinha” era uma maneira simbólica de se referir a Israel, mas só na pessoa de Jesus
Cristo nos é possível compreender a plenitude dessa metáfora: um ramo sem valor algum quando separado do tronco, que é
Cristo, o Messias (Jo 15.1-27; Sl 78.52; 40.2).
4
Aqui, o salmista faz uma referência à extensão do território santo, no tempo da prosperidade política de Israel (cerca de 950
a.C.): desde o “Mar” Mediterrâneo até o grande “Rio” Eufrates. A palavra hebraica traduzida por “Deus” e “Senhor” é, às vezes,
no original, usada no sentido de “Todo-Poderoso” ou “Deus dos Exércitos” (Sl 29.1). Os profetas também comparavam Israel à
Vinha do Senhor, florescente e transplantada por Deus (Is 3.14; 5.1-7; 27.2; Jr 2.21; 12.10; Ez 17.6-8; 19.10-14; Os 10.1; 14.7; Mq
7.1; Gn 49.22; Mt 20.1-16; Mc 12.1-9; Lc 20.9-16; Jo 15.1-5).
5
Quando está desamparada, a videira se enfraquece e acaba como um simples e inútil cipó. Entretanto, devidamente cultivada,
ela cresce à altura das grandes árvores, como o carvalho, que utiliza como esteio. O salmo inteiro relembra a Aliança e as bênçãos
divinas do passado, ao rogar pela salvação imediata. A expressão hebraica original “o filho do homem” era um título que Jesus
Cristo aplicava a si mesmo (Hb 1.13).
Capítulo 81
1
Motivo de júbilo festivo é a celebração da renovação da Aliança (2Cr 15.10-15). Jacó é sinônimo de Israel (Gn 32.28). Essa
solenidade tem ligação estreita com a festa da Páscoa (festa dos Pães sem Fermento – Êx 12.14-17), pois ambas constituem um
memorial da libertação do povo de Deus. Na Páscoa se evoca a libertação da agressão externa, ao passo que em Pentecostes
se celebra a libertação da divisão interna. O contexto histórico é o Êxodo dos israelitas em trajetória desde o Egito até o Sinai.
Outras festas judaicas podem usar este salmo em suas cerimônias: o Ano Novo (v.3; Lv 23.34; Nm 29.1); a festa dos Tabernáculos
ou Cabanas (Nm 29.12).
2
O autor levítico recebe a revelação do significado da “voz” (linguagem) do Senhor que se projetou dos “trovões”, na época
do juízo divino contra o Egito, a qual passa a interpretar com sua aplicação presente à congregação reunida em celebração
solene (vv.6-16; 114.1; Dt 28.49; Is 19.18; 33.19; Jr 5.15; Ez 3.5,6). A resposta de Deus à aflição que os inimigos impunham a
Israel fora uma tempestade que destruíra todo o exército perseguidor. O nome “Meribá” pode significar “rebelião” e “contenda”
(Êx 17.1-7).
SALMOS 80, 81
85
8
Escuta, povo meu! Quero admoestar-te.
Tomara que tu, Israel, me escutes!
9
Não haja no meio de ti deus estranho,
não adorarás qualquer entidade diferen-
te de mim!
10
Eu Sou o Eterno, teu Deus, que te fez
subir da terra do Egito; abre bem a tua
boca, e Eu te satisfarei!
3
11
Contudo, meu povo preferiu não me
dar ouvidos; Israel não quis obedecer-me.
12
Por isso os entreguei a seu próprio co-
ração teimoso, a fim de que seguissem
seus intentos e desejos!
4
13
Ah! Se meu povo me escutasse! Se Isra-
el andasse pelos meus caminhos,
14
prontamente, Eu mesmo venceria seus
inimigos, voltaria a minha mão contra
todos os seus adversários;
15
os que odeiam o SENHOR se renderiam
diante dele, e receberiam uma punição
perpétua.
16
Então, Eu sustentaria Israel com o me-
lhor trigo e, com mel retirado da rocha,
Eu, pessoalmente, o satisfaria”.
Os juízes devem agir com justiça
Para o mest re de música. Salmo e cântico da
família de Asafe.
82
Deus, o supremo Juiz, levantou-se
na assembléia divina, no meio dos
poderosos abre o julgamento:
1

2
“Até quando dareis sentenças injustas,
favorecendo os ímpios?
2
(Pausa)
3
Sede juízes para o desvalido e órfão, fa-
zei justiça ao mísero e ao indigente;
4
libertai o fraco e o pobre, livrai-os das
garras dos ímpios!
5
Eles nada compreendem, nem perce-
bem que vagueiam pelas trevas da igno-
rância e da insensibilidade; abalam assim
as bases que sustentam a própria terra.
6
Eu declarei: vós, ó juízes, sois como os
deuses; todos vós sois filhos do Altíssimo!
7
No entanto, como seres humanos, mor-
rereis e, como qualquer outro governan-
te, caireis”.
8
Levanta-te, ó Eterno, e julga tua ter-
ra, porquanto a ti pertencem todas as
nações!
3
Deus peleja contra seus inimigos
Cântico. Salmo da família de Asafe
83
Ó Deus, não emudeças; não fiques
como quem não pode falar nem te
detenhas, ó SENHOR!
1
3
O crente deve confiar totalmente (sem qualquer sombra de dúvida) na provisão amorosa, certeira e completa de Deus, assim
como agira no deserto (Sl 78.23-29; 37.3,4; Dt 11.13-15; 28.1-4). Este versículo pode ser transliterado do original hebraico da
seguinte forma: Anochi Adonai Elohêcha hamaalchá meérets Mitsráyim, harchev pícha vaamal’êhu. No NT, o discípulo amado
encerra sua primeira carta à Igreja, admoestando-nos a jamais desviarmos o Messias do foco absoluto da nossa fé (1Jo 5.21).
4
Nenhuma correção é mais justa e severa do que esta: entregar a alma humana à sua própria renitência (Rm 1.24-28).
Capítulo 82
1
O esplendor da justiça divina ofusca e envergonha todos os julgamentos iníquos e as procrastinações dos juízes e governan-
tes da terra em relação ao direito dos povos, especialmente dos pobres e incapazes de se defender. O autor levítico deste salmo
evoca uma visão de Deus presidindo seu tribunal, nos céus. Uma ilustração análoga às experiências dos profetas (1Rs 22.19-22;
Is 6.1-7; Jr 23.18,22; Jó 15.8; Sl 47; 94.2; 96.13; 98.9: 99.4; Gn 18.25; 1Sm 2.10). Na antigüidade hebraica, alguns rabinos de
grande prestígio costumavam ensinar que a expressão “os deuses” no texto sagrado se referia à presença de “governantes e
juízes perversos” em Israel e que estavam contrariando a vontade de Deus. Atualmente, a maioria dos estudiosos de renome
afirma que esse termo indica os “governantes pagãos e vizinhos a Israel” que procuravam convencer os povos acerca de sua
procedência extraterrestre e divina. Embora teoricamente, e em seus discursos, sempre fizessem apologia à justiça, na prática
suas atitudes eram freqüentemente desfavoráveis à solidariedade e ao direito dos povos, especialmente dos pobres. Seja como
for, o fato é que chegou a hora apocalíptica da confrontação entre o Juiz dos juízes e Rei dos reis, em relação aos poderosos e
governantes do mundo (Sl 58).
2
O salmista tem a nítida visão de uma grande assembléia no Superior Tribunal da Justiça Divina, onde os reis, juízes, governan-
tes e os poderosos da terra foram convocados para depor e prestar contas de suas ações (1Rs 7.7; 22.19; Jó 1.6; 2.1; Sl 89.5; Is
6.1-4). Na linguagem poética do antigo Oriente Médio, os reis, príncipes e juízes eram considerados procuradores do Rei celestial
e, portanto, dignos de receber o título de “deus” (Êx 9.16; 21.6; 22.8; Sl 2.7; 1Rs 3.9; Pv 8.14-16; Jr 27.6; Dn 2.21; 4.17,32; 5.18;
Is 11.2; 44.19,28; Jo 19.11; Rm 13.1).
3
O salmista eleva sua oração em nome de todos os justos da terra, suplicando que Deus venha sem demora e realize seu
julgamento sobre o mundo todo; literalmente: “tua herança” ou “teu domínio” (3.7; 79.1).
Capítulo 83
1
Este salmo é fruto de uma mensagem recebida pelo levita Jaaziel, descendente de Asafe, quando Israel esteve sob a ameaça
SALMOS 81–83
86
2
Eis que teus inimigos se alvoroçam; vê
como empinam a cabeça em sinal de de-
safio!
3
De maneira astuta armam ciladas con-
tra o teu povo; tramam maldades contra
os teus protegidos.
4
Conjeturam: “Vinde, exterminemo-los
da face da terra; a fim de que não haja mais
qualquer lembrança do nome de Israel!”
5
Eles deliberam de comum acordo, é
contra ti que estabelecem conchavos:
6
as tendas de Edom e os ismaelitas, Mo-
abe e os hagarenos,
2
7
Gebal, Amom e Amaleque, a Filístia,
com os habitantes de Tiro.
3

8
Até a Assíria juntou-se a eles, e empres-
tou sua força aos descendentes de Ló.
4
(Pausa)
9
Age sobre eles como agiste contra Mi-
diã, como fizeste a Sísera, como trataste a
Jabim, no rio Quisom;
5

10
os quais pereceram em En-Dor e vira-
ram esterco para serem consumidos pela
terra.
6

11
Faze com seus nobres o que fizeste
com Orebe e Zeebe, e com todos os seus
príncipes, o que fizeste com Zeba e Zal-
muna,
12
que aventaram: “Apoderemo-nos das
habitações de Deus!”
13
Meus Deus! Faze-os rodopiar como
folhas secas no chão, como palha ao ca-
pricho do vento!
14
Como o fogo que devora a floresta,
como a labareda que abrasa os montes,
15
persegue-os com o teu vendaval, apa-
vora-os com a tua tempestade.
7
16
Cobre-lhes de vergonha o rosto até que
decidam buscar teu Nome, ó Senhor!
17
Assim, humilhados e aterrorizados
para sempre, pereçam na mais absoluta
desgraça.
18
Saberão, portanto, que só tu, cujo
Nome é Eterno, é Único, e que somente
tu, ó Altíssimo, és o SENHOR e soberano
de toda a terra!
8

Saudades da Casa de Deus
Ao mest re de canto, de acordo com a melodia
“Os Lagares”. Um salmo dos coraítas.
84
Como é amável o lugar da tua
morada, ó SENHOR dos Exércitos!
2
Minha alma se consome de ansieda-
de pelos át rios do SENHOR, meu coração
e minha carne vibram de alegria pelo
Deus vivo.
de uma grande confederação de inimigos, e os aliados de Moabe, Amom e Edom estavam invadindo Judá (2Cr 20.1-30). Embora
essa Palavra de Deus tenha vindo para dar forças ao povo em momento específico da história de Israel, tudo indica que seja
também um sinal quanto às grandes e ameaçadoras movimentações contra o povo de Deus, que ocorrerão no final dos tempos.
Este salmo foi escrito depois do reinado de Salomão, mas antes dos terríveis ataques da Assíria nos dias do rei Manaém, o que
reforça seu caráter profético (1Rs 15.19).
2
Os hagarenos ou ismaelitas descendiam de Hagar e estavam misturados a uma confederação de arameus (1Cr 5.10-22; 27.31).
3
Gebal era uma importante cidade fenícia também conhecida por Biblos (1Rs 5.18; Ez 27.9).
4
Nesta época, a Assíria ainda não se constituía numa grande ameaça como nação inimiga, mas ao aliar-se a Moabe e Amom
(povos descendentes de Ló – Gn 19.36-38), passou a representar sério perigo. Os inimigos tendem a juntar-se (ainda que não
haja real amizade entre eles) contra o povo de Deus.
5
Assim como na antigüidade, no tempo dos juízes e em todas as épocas, o Senhor protege seu povo. Deus deu a Gideão
vitória sobre os midianitas (Jz 7), cujos principais líderes eram Orebe e Zeebe, Zeba e Zalmuna (v.11), bem como ajudou Baraque
contra a aliança cananéia de Sísera e Jabim (Jz 4).
6
Neste episódio histórico, até parte do exército que estava em fuga, a nordeste da linha de frente da batalha, foi perseguida
pelo povo do Senhor, e seus soldados, completamente dizimados (Js 17.11).
7
Descrição simbólica dos guerreiros celestiais do Senhor atacando os inimigos do povo de Deus do meio dos fenômenos
atmosféricos (Sl 18.7-15; 68.33; 77.17,18; Êx 15.7-10; Js 10.11; Jz 5.4,20,21; 1Sm 2.10; 7.10; Is 29.5,6; 33.3). As nuvens das
tempestades são figuras dos carros de guerra do Senhor (Sl 68.4).
8
Deus não tem prazer nas guerras nem na dor ou sofrimento dos seres humanos, mesmo que sejam seus inimigos. O motivo
pelo qual o Senhor milita com seus exércitos contra seus adversários e as nações pagãs é proporcionar uma última forma de
quebrar-lhes a arrogância, e criar, nesses povos, um coração capaz de reconhecer a Deus e buscá-lo como verdadeiros crentes
(v.16; 40.9; 47.9; 58.11; 59.13). Este versículo pode ser assim transliterado, a partir dos originais hebraicos: Veiedeú ki ata shimchá
Adonai levadêcha, elion al col haárets (Gn 14.19).
Capítulo 84
1
Os levitas normalmente oficiavam o culto no templo. Nesse caso, porém, devido à invasão e assolação promovida por Sena-
SALMOS 83, 84
87
3
Até o pardal encontrou morada, e a an-
dorinha um ninho para si, para abrigar
seus filhotes, um lugar próximo ao teu
altar, ó Eterno dos Exércitos, meu Rei e
meu Deus.
2
4
Felizes os que habitam em tua Casa,
louvando-te sem cessar!
3
(Pausa)
5
Felizes os que em ti encontram sua for-
ça, e todos aqueles que são peregrinos de
coração!
6
Ao atravessarem o vale de lágrimas de
Baca, convertem-no num lugar de fon-
tes, como a boa chuva de outono, que,
ainda o cobre de bênçãos.
7
Caminhando com vigor sempre cres-
cente, apresentam-se perante Deus em
Sião.
4
8
SENHOR, Eterno, Deus dos Exércitos,
escuta minha oração, presta ouvido, ó
Deus de Jacó!
(Pausa)
9
Ó Deus, que és o nosso Soberano; trata
com misericórdia o teu ungido!
10
Pois um dia em teus átrios vale mais
que mil em qualquer outro lugar; estar
recostado à porta da Casa do meu Deus é
melhor que morar nas tendas mais ricas
dos ímpios.
5
11
Porquanto DEUS, o Eterno, é sol e escu-
do, o SENHOR concede graça e glória. Ele
nenhum bem recusa aos que vivem com
integridade.
6
12
Ó SENHOR Todo-Poderoso, feliz é o ser
humano que em ti confia plenamente!
Súplica pelo perdão do Senhor
Ao regente do coro. Salmo da família de Corá.
85
Favoreceste, SENHOR, a tua ter-
ra; trouxeste Jacó de volta do
cativeiro!
1
2
Perdoaste a culpa do teu povo e cobriste
todos os seus pecados.
2

(Pausa)
queribe contra Judá, o levita e autor deste salmo se vê separado da Casa do Pai, e expressa toda a sua saudade e anseio pelos
doces momentos passados em louvor, adoração, oração e comunhão com Deus (Sl 42; 2Rs 18.13-16).
2
O salmista observa a liberdade e o privilégio dos pequenos pássaros que, contemplados pela graça divina, podem se estabe-
lecer no templo e construir seus ninhos bem próximos do altar, honra que estava destinada a Israel e ao povo de Deus.
3
O mais importante na Casa de Deus é a presença do seu Espírito, que habita a alma e o corpo de todo crente sincero em
Jesus Cristo, o Messias (Mt 28.20).
4
Os verdadeiros peregrinos são aqueles que estão caminhando com Deus ao longo da vida, rumo à Terra Prometida (o eterno
Shabbath Shalom do Senhor). Uma tradução literal para a expressão “peregrinos de coração” pode ser “em cujo coração estão
os caminhos planos”, que lembram as estradas nas quais os israelitas andavam rumo a Jerusalém, na época das festas religiosas
(Sl 4.7). “Baca” significa ao mesmo tempo “choro” e “bálsamo”, e é o nome de um vale árido de localização incerta (Sl 23.4).
Essa expressão representa os trechos áridos e sofridos por onde os peregrinos tinham de passar até chegar em Jerusalém. As
expectativas felizes dos peregrinos ajudavam a transformar as travessias mais difíceis em momentos de consolo e aprendizado.
Assim, o vale do “choro” transformava-se, também, no vale do “bálsamo e do louvor a Deus” (2Cr 20.26), e os peregrinos, rumo
a Sião, experimentaram a mesma mão divina, poderosa e abençoadora, que conduziu Israel pelo monte Sinai à terra prometida.
Assim seus descendentes fizeram, ao sair do exílio na Babilônia, para suas casas em Sião (Sl 78.15,16; 105.41; 114.8; Is 41.17-
20; 43.19,20; 49.10).
5
Os filhos de Corá (levitas) tinham a obrigação de serem os porteiros solenes do templo. Nenhuma posição de honra no mun-
do (a casa dos ímpios) se compara à glória do mais humilde serviço prestado por amor ao Senhor.
6
O sol representa a fonte gloriosa de iluminação, revelando nossos erros e pecados e produzindo vida. O escudo nos protege
dos dardos mortíferos do Diabo (Ef 6.16). A luz e a força majestosa do Senhor são compartilhadas com seus filhos (Ap 19.6-8;
Gn 17.1; Sl 3.3; 15.2; 27.1).
Capítulo 85
1
Este versículo pode ser assim transliterado, a partir dos originais hebraicos: Ratsíta Adonai artsêcha, shávta shevit Iaacov. A
expressão shávta shevit Iaacov (literalmente: tu te voltaste para Jacó” significa “a volta de Deus para o povo” (Jacó é sinônimo de
Israel – Gn 32.28) e, nas profecias sobre o exílio “a volta dos cativos” (Jr 29.14). Este salmo, portanto, é uma oração comunitária,
suplicando a renovação das misericórdias de Deus para com seu povo durante um período de crise no qual novamente Israel
se vê sob grandes aflições. Os versos 1 a 3 se referem à volta do exílio, e as provações são aquelas narradas por Neemias e
Malaquias. O verso 12 revela que uma terrível seca desolou Israel nessa época (Ag 1.5-11).
2
Deus responde à oração do salmista (e da congregação), com palavras que motivam e renovam a confiança de que seu povo
voltará a ser muito abençoado (v. 9; Nm 6.22-26), transmitidas por meio de um dos sacerdotes ou adoradores coraítas (2Cr 20.14;
Sl 12.5,6). Onde quer que o poder salvífico de Deus seja expresso, sua Glória é revelada (Sl 57.5,11; 72.18,19; Êx 14.4,17,18; Nm
14.22; Is 40.5; 44.23; 66.19; Ez 39.21).
SALMOS 84, 85
88
3
Puseste fim à tua indignação, retiraste
tua ardente cólera.
4
Restaura-nos, ó Deus, nosso Salvador!
Suprime teu rancor contra nós!
5
Estarás para sempre irritado contra nós,
prolongando tua ira, de geração em gera-
ção?
6
Acaso não nos renovarás a vida, a fim
de que o teu povo se rejubile em ti?
7
Revela-nos o teu amor, ó Eterno, e con-
cede-nos a tua salvação!
8
Ouvirei atentamente o que Deus, o SE-
NHOR, tem a nos declarar; Ele promete
paz ao seu povo, aos seus devotos, desde
que não retornem à insensatez!
2
9
Em verdade, próxima está a salvação
que Ele trará aos que o temem, e sua gló-
ria habitará em nossa terra.
10
Então, o amor e a fidelidade se encon-
trarão; a justiça e a paz se beijarão.
11
A lealdade germinará da terra, e a per-
feita justiça descerá dos céus!
12
O SENHOR nos concederá a felicidade, e
nossa terra produzirá farta colheita.
13
A justiça seguirá à sua frente com a fi-
nalidade de preparar o caminho para seus
passos!
3
Oração em tempos de afição
Uma prece de Davi.
1
86
Ó Eterno, inclina para mim os teus
ouvidos e dá-me tua resposta, pois
sou um desvalido e estou muito aflito.
2
Conserva-me em vida, pois sou fiel.
Tu, meu Deus, salva teu servo, que em ti
confia!
2
3
Tem piedade de mim, SENHOR, pois a ti
clamo, todo o dia.
4
Alegra o coração do teu servo, porquan-
to a ti, SENHOR, elevo a minha alma.
5
Pois tu és bondoso e perdoador, SE-
NHOR, rico em graça e misericórdia para
com todos os que te invocam.
6
Escuta a minha oração, SENHOR; atenta
para a minha súplica!
7
No dia do perigo clamo a ti, porque tu
me respondes.
3
8
Ninguém, entre os deuses, é como tu, ó
SENHOR, e nada existe que se compare às
tuas obras.
9
Todas as nações que fizeste virão pros-
trar-se diante de ti, SENHOR, e glorificarão
teu Nome,
10
pois tu és magnífico e realizas mila-
gres maravilhosos; em verdade só tu és
Deus!
11
Revela-me, SENHOR, teu Caminho, para
que eu o siga em fidelidade para contigo.
Orienta meu coração, para que tema teu
Nome!
4
12
De todo o coração te exaltarei, SENHOR,
meu Deus, e glorificarei para sempre o
teu Nome,
13
porquanto teu amor é tão generoso
3
O salmista personifica as expressões do caráter e do favor de Deus em relação a seu povo, como fruto da sua aliança leal e
indestrutível (vv.10-13). Portanto, a lealdade brotará da terra, assim como uma nova vida vegetal que surge para abençoar a huma-
nidade com seus frutos (Nm 6.26). A justiça atingirá a terra como os bons raios solares e, como uma guia experiente e arauto fiel
irá adiante, pelo caminho, demarcando como Deus deseja operar a favor dos seus, segundo sua aliança eterna (Sl 31.19; 4.1).
Capítulo 86
1
Inimigos pagãos e que desdenham de Deus estavam procurando, de todas as maneiras, destruir a vida de Davi (2Sm 7.5,8; Sl
18). O salmista recorre às misericórdias e ao poder libertador do Senhor. Este é o único salmo pós-exílico do livro III (Sl 73 – 89),
atribuído ao rei Davi ou a sua dinastia. Sua colocação entre os salmos coraítas tem a ver com a ligação temática que há entre o
verso 9 e Sl 87.4.
2
A expressão hebraica aqui traduzida por “fiel” é chassid, cujo sentido é de “sincera devoção, apesar das falhas humanas”.
Este versículo pode ser assim transliterado, a partir do original hebraico: Shamra nafshi ki chassid áni, hosha avdechá ata Elohai,
habotêach elêcha (Sl 4.3). A expressão “Tu, meu Deus...” não significa que Davi tivesse escolhido Deus, mas o reconhecimento
jubiloso de Davi de que fora escolhido pelo Senhor, para ser seu servo, ainda que seu ungido e rei de Israel (1Sm 13.14; 15.28;
16.12; 2Sm 7.8).
3
O Deus a quem Davi recorre é o Deus único e verdadeiro Yahweh (o Eu Sou do AT), criador do Universo e da Terra. Nenhum
outro “deus” age com tamanho amor, justiça e poder soberano. Um dia todas as nações da terra vão adorar a Deus por isso
(vv.8-10; Sl 46.10 115.3-7; 135.13-17).
4
Davi nos revela a maior aspiração do verdadeiro crente: não apenas ficar livre dos seus problemas imediatos e temporais, mas
ter seu coração em contínua e santa dependência do Espírito de Deus (Sl 4.7; 25.5; 51.7-10; Ez 11.19; 1Cr 12.33; 1Co 7.35). A
expressão “Nome” quando se refere a Deus, tem a ver com sua pessoalidade, e indica a presença divina (vv.9,12; 5.11). A profecia
do versículo 9 se cumpre em Jesus Cristo (Fp 2.9-11).
SALMOS 85, 86
89
para comigo, que livraste minha alma de
todos os poderes da morte.
5
14
Ó Deus, os arrogantes se levantam
contra minha pessoa; um bando de pre-
potentes atenta contra minha vida, gente
que não faz caso de ti.
15
Entretanto tu, SENHOR, és Deus compas-
sivo e misericordioso, rico em paciência,
amor leal e justiça;
16
volta-te para mim, tem compaixão de
mim! Concede tua força a teu servo ne-
cessitado e salva o teu filho fiel!
6
17
Dá-me um sinal do teu favor, para
que todos os que me tratam com ódio o
vejam e se sintam humilhados, ao con-
firmar que tu me acompanhas com teu
conforto e auxílio!
Cântico profético sobre Jerusalém
Um salmo dos descendentes de Corá.
87
O SENHOR firmou as bases da sua
cidade sobre o monte santo;
1

2
Ele ama os portais de Sião mais do que
todas as habitações de Jacó.
3
Ah! Maravilhas são contadas a teu res-
peito, ó Cidade de Deus!
2
(Pausa)
4
“Entre os que me reconhecem incluirei
o Egito e a Babilônia, além da Filístia, de
Tiro, e também da Etiópia, como se tives-
sem nascido em Sião.”
3
5
Na verdade em Sião nasceram multi-
dões que conhecem o Eterno e Ele, pes-
soalmente, a estabeleceu como a mais
nobre cidade.
4
6
Assim o SENHOR escreverá no registro
dos povos: “Este nasceu ali”.
(Pausa)
7
Músicos e compositores sobre ela afirma-
rão: “Todos os meus pensamentos e toda a
minha inspiração provêm de ti, ó Sião!”
5
Oração em dias de grande afição
Um hino dos coraítas para o mestre de música. Em
5
A palavra hebraica aqui traduzida por “poderes da morte” é Sheol. Pode significar – dependendo do contexto – “profundezas
da morte”, “região dos mortos”, “sepultura”, ou ainda “pó da terra”. Davi demonstra seu júbilo pela graça da salvação (livramento)
que vem do Senhor (Sl 3.8; 30.1).
6
Embora os textos massoréticos tragam a expressão “salva o filho da tua serva”, melhores manuscritos podem ser claramente
traduzidos por “salva o teu filho fiel”, compreendendo a palavra “fiel” como no v.2 (Sl 119.16). Os arrogantes desconsideram
o poder e a interferência do Guerreiro celestial que milita a favor dos filhos de Deus (Sl 10.11; Jr 20.11). Os vv.15 e 5 parecem
extraídos do coração da Lei (Êx 34.6,7).
Capítulo 87
1
Este é um salmo profético – cintilando no meio do Saltério (2Cr 32.21-23; Sl 86.9) – que antevê a colheita das nações em
Jerusalém (Sião – 2Sm 5.6,7) como concidadãs com Israel do pleno Reino de Deus (Is 2.2-4; 19.19-25; 25.6; 45.14-24; 56.6-8;
60.3; 66.23; Dn 7.14; Mq 4.1-3; Zc 8.23; 14.16). A análise desta peça literária sagrada precisa levar em conta a praxe da chamada
“sintaxe interrompida”, na antiga poesia hebraica, segundo a qual as referências às nações devam ser compreendidas como
vocativos (v.4). Dessa maneira, este salmo pode ser tematicamente harmonizado com os demais hinos que celebram o amor
especial de Deus por Sião, mesmo entre as demais cidades de Jacó ou Israel – Gn 32.28 - (Sl 46; 48; 76; 125; 129; 137). O próprio
Deus criou e estabeleceu os alicerces da fortaleza de Sião (Is 14.32) e do Templo como seu palácio real. A expressão “monte” em
hebraico está no plural, com a finalidade de ressaltar a majestade e imponência do lugar onde o Senhor instalou a representação
visível do seu trono na terra (Sl 48.2).
2
Celebração de Sião como a “Cidade de Deus” (Sl 46; 48; 76). Esse versículo pode ser assim transliterado, a partir do original
hebraico: Nichbadot medubar bach, ir haelohim (sêla).
3
Este salmo prevê o dia em que todas as nações da terra, inclusive os antigos e tradicionais inimigos de Israel, serão converti-
dos ao Senhor (Is 19.21; 26.18). Deus mantém um registro sistemático e atualizado de cada indivíduo que o aceita como Senhor
e Salvador pessoal mediante fé sincera (fiel), de maneira que essas pessoas passam a ser – independente da sua origem étnica
– cidadãos do Reino, com todos os direitos, privilégios e deveres reservados aos filhos de Deus (Jo 1.12; Os 6.3). Portanto, os
incrédulos são advertidos sobre o cuidado especial com o qual o Senhor zela pelos seus e as punições reservadas para todos
aqueles que se atreverem a lhes fazer qualquer mal (Is 14.28-32; Sl 105.15). O Egito (Raabe é o seu o nome poético, como “Nú-
bia”, em hebraico Kuš – Is 51.9) e a Babilônia representam todos os gentios e o poder civil da época.
4
Jerusalém restaurada – o povo de Deus – herdará todas as nações da terra (Is 54.1-3). Este versículo pode ser assim transli-
terado, a partir do original hebraico: Ultsión iemar ish veish iulad ba, vehu iechonenêha elion.
5
A verdadeira felicidade se encontra na presença de Deus. Hoje, podemos experimentá-la pela fé, na Cidade Celestial de
Sião, contudo, a teremos plenamente, como um “divino rio de delícias” (Sl 30; 36.8), cujos “canais alegram a Cidade de Deus”
(46.4). Os vv.6 e 7 podem ser assim transliterados a partir do original hebraico: Adonai yispor bichtov Amim, ze iulad sham (sêla).
Vesharim kecholelim, col maianai bach.
SALMOS 86, 87
90
melodia para o coração aflito: para responsório.
Salmo didático de Hemã, o ezraíta.
1
88
Ó Eterno, Deus de minha salva-
ção, dia e noite clamo a ti!
2

2
Chegue à tua presença minha oração,
presta ouvido ao meu clamor!
3
Minha alma está saturada de desgraças,
minha vida está à beira das profundezas
da morte.
4
Já sou contado entre os que baixam à
sepultura, sou como uma pessoa absolu-
tamente alquebrada;
5
Sinto-me abandonado à minha própria
sina, entre os mortos. Sou como os tru-
cidados, que jazem na região dos mortos,
dos quais já não te lembras, pois estão
apartados de tua mão.
3
6
Tu me depositaste nas profundezas do
fosso, nos lugares tenebrosos e abismais.
7
Sobre mim pesa a tua cólera; com todas
as tuas grandes ondas do mar me afligiste.
(Pausa)
8
Afastaste de mim os meus conhecidos,
fizeste de mim um horror para eles. En-
clausurado, não vejo qualquer saída;
9
meus olhos anuviam-se de preocupa-
ção. Todo dia te invoquei, SENHOR, esten-
dendo para Ti minhas mãos.
10
Farás, entretanto, um milagre para
aqueles que já se despediram da vida?
Porventura os mortos virão a se levantar
e te louvar?
(Pausa)
11
Será que teu amor é também procla-
mado no túmulo, e a tua fidelidade no
Abismo da Morte?
12
Será teu sinal milagroso conhecido na
região das trevas, e tua justiça, na dimen-
são do esquecimento?
13
Contudo, eu, ó SENHOR, clamo a ti por
socorro; já ao romper da alvorada a mi-
nha oração chega à tua presença.
14
Por que, SENHOR, me rejeitas e escon-
des de mim a tua face?
15
Desde muito jovem tenho sofrido e
ando próximo da morte; os teus terrores
levaram-me ao desespero.
16
Sobre minha existência se abateu a tua
ira; os pavores que me causas me consu-
miram.
17
Cercam-me o dia todo como uma
inundação; fazem-me submergir em
agonia.
18
Afastaste de mim os meus amigos e
todos os meus conhecidos de jornada; as
trevas são a minha única companhia.
Promessa messiânica a Davi
Obra poética do ezraíta Etã.
89
Para sempre cantarei sobre o ines-
gotável amor leal do Eterno; mi-
nha boca proclamará a tua fidelidade a
todas as gerações!
1

2
Sim, anuncio a todos que teu amor está
edificado para sempre; nos céus estabele-
ceste tua fidelidade:
1
Hemã ou Hêman (nome hebraico que significa “fiel”), filho de Zera, da descendência de Judá (1Cr 2.6; Sl 89), foi um dos prin-
cipais sábios da corte de Salomão (1Rs 4.31). Apesar de o salmista ter vivido desde a infância sob as agruras da vida e o iminente
perigo da morte, sua oração (em melodia mesta: triste, melancólica), começa com uma declaração de fé e confiança na salvação
eterna que vem do Senhor, e esse é seu maior consolo (v.1). O subtítulo deste salmo (literalmente, o título no original hebraico)
pode ser assim transliterado: Shir mizmor livnê Côrah, lamenatsêach al machalat leanot, maskil leheman haezrachi.
2
Por mais difícil que seja compreendermos a razão do sofrimento humano, as Sagradas Escrituras nos ensinam que as aflições
e angústias fazem parte do plano de Deus para o aperfeiçoamento de toda a humanidade (Cl 1.24; 1Pe 3.14). A história hebraica
está salpicada de exemplos: José sendo injustamente atirado na cova e mais tarde na prisão, para depois vir a ser salvador da
sua família e primeiro-ministro do faraó do Egito; Abraão lançado em densas trevas antes de receber a maravilhosa revelação
da aliança (Gn 15.12-18); Jonas lançado nas profundezas do mar antes de aprender a ser um fiel profeta de Deus; Jesus Cristo
padecendo e sendo aperfeiçoado por meio dos muitos sofrimentos pelos quais passou desde o nascimento, a fim de se confirmar
como pleno Autor da nossa salvação (Hb 2.10). Este versículo pode ser assim transliterado, a partir do original hebraico: Adonai
Elohê ieshuati, iom tsaácti valaila negdêcha.
3
O salmista narra seu sofrimento a partir de uma perspectiva totalmente humana e cartesiana da morte: uma condição e local
em que não há mais qualquer possibilidade de intervenção divina em favor da restauração do necessitado (Sl 25.7; 74.2; 106.4).
Capítulo 89
1
O autor deste salmo é um levita, ezraíta mencionado em 1Rs 4.31, descendente de Jedutum, que se colocou como porta-voz
de Israel e completa a oração de Hemã, no salmo anterior (Sl 88). O salmo que começa cantando o amor e a lealdade de Deus
para com seu povo e por sua terra, transforma-se numa oração profundamente triste e aflita (v.38-45), contemplando a repentina
SALMOS 88, 89
91
3
“Fiz aliança com meu eleito, jurando a
Davi, meu servo:
4
Estabelecerei tua descendência para
sempre, e firmarei o teu trono, de gera-
ção em geração”.
(Pausa)
5
Os céus exaltam tuas maravilhas, SENHOR,
e tua fidelidade, na assembléia dos santos.
6
Quem, nos céus se compara ao SENHOR?
Quem é igual ao SENHOR entre os seres
celestiais?
7
No conselho dos santos, Deus é gran-
demente temido e inspira mais temor do
que todos os que o cercam.
8
Ó DEUS, ETERNO, SENHOR DOS EXÉRCITOS,
quem é igual a ti? Poderoso és tu, SENHOR,
e tua fidelidade está ao teu redor.
2

9
Dominas a insolência do mar bravio;
quando suas ondas se sublevam, tu as
amansas.
3
10
Mataste e aniquilaste o Monstro dos
Mares, desbarataste os inimigos com o
poder do teu braço forte.
4
11
O céu é teu, tua é a terra; fundaste o
mundo e tudo o que nele existe.
12
Tu criaste o Norte e o Sul. Os montes
Tabor e Hermom entoam hinos de lou-
vor ao teu Nome.
5

13
Tens o braço cheio de poder, a mão
forte, a destra sempre erguida.
14
A justiça e o direito são as bases de teu
trono; amor e fidelidade precedem a tua
passagem.
6

15
Como é feliz o povo que aprendeu a
honrar-te, SENHOR, e que se deixa conduzir
pela maravilhosa luz de tua presença!
16
Dia e noite sabem exaltar o teu Nome
e se alegram em tua retidão,
17
pois tu és a nossa glória e o nosso poder,
e por tuas misericórdias reergues nossa
fronte!
7
18
Sim, ó Eterno, Tu és o nosso escudo, o
Santo de Israel, Tu és o nosso Rei!
19
Outrora, em visão, falaste assim aos
teus fiéis: “Dei meu apoio a um herói, do
meio do povo exaltei um escolhido.
8

20
Encontrei Davi, meu servo, ungi-o
com meu óleo santo.
21
A minha mão o susterá, e o meu braço
será a sua força.
22
Nenhum inimigo o humilhará sob pe-
sados tributos; tampouco alguém poderá
oprimi-lo.
23
Esmagarei diante dele os seus adver-
sários e exterminarei todos os seus ini-
migos.
e violenta queda da dinastia davídica, provocada pela invasão dos exércitos de Nabucodonosor contra Jerusalém e o exílio do rei
Joaquim, em 597 a.C. (2Rs 24.8-17). A oração termina com um apelo urgente pelo livramento do Senhor, por amor leal a sua alian-
ça. O verso 52, portanto, não é apenas a conclusão desta poema sacro, mas de todo o “Terceiro Livro” do Saltério (73 – 89). Este é
um salmo messiânico e, portanto, seu pleno sentido só pode ser compreendido na pessoa e obra de Jesus Cristo (Ef 1.3-7).
2
Este versículo pode ser assim transliterado, a partir do original hebraico: Adonai Elohê Tsevaót mi chamôcha chassin lá, ve-
emunatechá sevivitêcha. A fidelidade do Senhor o envolve, bem como à sua Palavra (1Sm 1.3; 17.45; Dt 33.2; Js 5.14; Sl 68.17;
Hc 3.8).
3
Para os judeus, o mar e seus mistérios sempre foram símbolos das forças rebeldes do Maligno. Entretanto, o Senhor abriu o
mar Vermelho para que Israel pudesse atravessá-lo sobre terra firme. Da mesma forma, a tempestade e o mar revolto acalmaram-
se mediante a ordem de Jesus (Lc 8.23-25).
4
O autor faz uso poético da antiga mitologia hebraica, como a lenda sobre o maior e mais terrível dos monstros marinhos,
também conhecido como Leviatã ou Raabe (32.6; 74.14; 87.4; 104.26). A última parte deste versículo pode ser também percebida
no NT (Lc 1.51).
5
Norte e Sul não se referem aos pontos cardeais, mas a dois montes conhecidos na época e que nesse hino formam um
paralelo poético com o Tabor e o Hermom (vv 16,24; 5.11; 48.2; Ct 4.8; Jz 4.6; Dt 3.8; Sl 65.13).
6
Da pessoa e do governo do Senhor, emanam amor leal e justiça, especialmente a favor do seu povo (todos os que nele crêem
sinceramente – seus filhos – Jo 1.12). Enquanto a retidão e o direito simbolizam a matéria-prima do trono de Deus, o amor e a
fidelidade são personificados como arautos angelicais que vão à frente do Senhor proclamando sua passagem real (v.16; 23.6;
4.1). Jesus, Deus-Filho, foi o principal e definitivo arauto do Senhor (Jo 1.14).
7
A palavra aqui traduzida como “poder” e “fronte” é, literalmente, “chifre”, em hebraico antigo; fato que levou muitos artistas
renascentistas a esculpir e pintar personagens bíblicos, com chifres, como é o caso das famosas obras de Michelangelo sobre
Moisés. Este versículo pode ser assim transliterado: Ki tiféret uzámo áta, uvirtsonechá tarum carnênu.
8
A visão se refere à revelação concedida aos profetas Samuel e Natã (1Sm 16.12; 2Sm 7.4-16). O Senhor escolhe Davi para
ser regente sobre seu povo, e estabelece com ele sua aliança eterna. Tanto Davi como seu descendente Jesus foram exaltados
entre o povo humilde e pobre (Hb 7.25).
SALMOS 89
92
24
Minha lealdade e meu amor estarão
sempre com ele; e em meu Nome se er-
guerá sua fronte!
25
Porei sua mão para dominar os mares
e comandar os rios.
9

26
Ele me invocará, declarando: ‘Tu és
meu Pai, meu Deus, a Rocha que me
salva’.
10
27
Eu também o constituirei meu primo-
gênito, supremo sobre todos os reis da
terra!
11
28
Manterei meu amor leal por ele para
sempre, e minha aliança com ele jamais
se quebrará.
29
Para sempre estabelecerei sua des-
cendência; e seu trono, como os dias do
céu.
12
30
Se seus filhos abandonarem minha Lei
e não mais desejarem seguir meus man-
damentos,
31
se violarem minhas ordenanças e des-
denharem dos meus santos decretos,
32
virei sobre eles com a vara das aflições
e castigarei seu pecado e sua iniqüidade,
com açoites;
33
contudo, não afastarei dele meu amor
benevolente e jamais lhe negarei minha
atenção pessoal e fiel.
34
Eu não violarei minha aliança, tam-
pouco modificarei qualquer das promes-
sas dos meus lábios.
35
De uma vez para toda a eternidade
jurei por minha santidade, e não faltarei
com a minha palavra a Davi:
36
sua descendência viverá para sempre,
e seu trono estará diante da minha face e
durará como o sol,
37
como a lua, que não cessa de refletir sua
iluminação, fiel testemunha nos céus!”
(Pausa)
38
Entretanto, Tu o rejeitaste, recusaste-o
e te enfureceste com o teu ungido.
13
39
Renegaste a aliança com teu servo, profa-
naste sua coroa, atirando-a ao pó da terra.
40
Derrubaste todas as suas muralhas,
desmantelaste suas fortalezas.
41
Saquearam-no todos os transeuntes, e
ele tornou-se o ludíbrio dos vizinhos.
42
Exaltaste a destra dos seus adversários
e alegraste todos os seus inimigos.
43
Tiraste o fio de sua espada e não o
apoiaste na guerra.
44
Puseste fim a seu esplendor e derru-
baste por terra seu trono.
45
Abreviaste os dias de sua juventude e o
cobriste de vergonha.
(Pausa)
46
Até quando, SENHOR? Para sempre te
ocultarás, ardendo como fogo a tua ira?
47
Lembra-te da duração da minha vida!
Criaste em vão todos os seres humanos?
48
Viverá, sem ver a morte, algum valen-
te, que possa esquivar-se das garras da
sepultura?
(Pausa)
49
Onde estão teus dons de amor que tão
maravilhosamente demonstraste outro-
ra, ó Eterno, os quais prometeste a Davi
manter por causa da tua fidedignidade?
50
Lembra-te, ó SENHOR, das ofensas que
o teu servo tem sofrido, das zombarias
que na alma tenho de suportar, desferi-
das por todos os povos,
51
dos ultrajes dos teus inimigos, ó Eter-
no, com que afrontam a cada passo o teu
ungido.
14

9
As fronteiras originais de Israel vão desde o Mediterrâneo, de um lado (“mão”), até o outro lado dos rios Eufrates e Tigre.
Esses limites foram alcançados durante o reinado de Salomão, filho do rei Davi (72.8; 80.11; Êx 23.31).
10
Este é um fato extremamente marcante na vida de Jesus, e bênção legada exclusivamente a nós, cristãos. Ninguém no AT se
referia a Deus como “Pai”. Entretanto, essas foram as primeiras e as últimas expressões de Jesus, em sua língua natal, o aramaico
(Abba – Lc 2.49; Lc 23.46; Mc 14.36; Rm 8.15; Gl 4.6).
11
Na tradição israelita, o primogênito recebia uma parte dupla na divisão dos bens do patriarca da família (Dt 21.17), e exercia
autoridade sobre todos os irmãos e sobrinhos (2Cr 21.3). Nos primórdios de Israel, o primogênito era também separado (santo)
para ser dedicado ao sacerdócio (Nm 8.14-17). Mais tarde, entretanto, a tribo de Levi foi santificada para esse ministério.
12
Segue uma explicação sobre a aliança firmada por Deus com seu servo, o rei Davi (vv.29-37; 2Sm 7.12-17).
13
A presente rejeição do filho de Davi por Deus e todas as suas terríveis conseqüências desfazem tudo o que havia sido pro-
metido e garantido pela aliança divina (vv.19-29). A esperança de Etã, o ezraíta, está na lealdade eterna do Senhor à sua aliança
e, especialmente, à sua essência: a santidade. A expressão “ungido” se refere, em primeiro plano, aos reis da linhagem de Davi e,
depois, a Jesus, o Messias – a maior e derradeira demonstração do cumprimento cabal da Aliança de Deus com a humanidade.
SALMOS 89
93
52
Bendito seja para toda a eternidade o
SENHOR! Amém e amém!
QUARTO LIVRO
Salmos 90 a 106
A brevidade da vida
Oração de Moisés, homem de Deus.
1
90
Senhor, tu tens sido o nosso abrigo,
sempre, de geração em geração.
2
2
Antes que se originassem os montes e for-
masses o universo e a terra, de eternidade a
eternidade, tu és Deus.
3
Tu reduzes o ser humano ao pó, afir-
mando: “Retornai ao pó, filhos dos
homens!”
3
4
Verdadeiramente, mil anos aos teus
olhos, são como o dia de ontem, que já
passou, e como as poucas horas das pri-
meiras vigílias da noite.
4
5
Tu arrastas os homens na correnteza
da vida; são breves como o sono; são
todos como a relva que brota com a al-
vorada,
6
germina e floresce pela manhã, mas, ao
pôr-do-sol, murcha e seca.
7
Porquanto somos consumidos por tua
ira e perante tua indignação ficamos pas-
mos!
8
Tu conheces bem nossas iniqüidades;
nossos pecados mais secretos não esca-
pam à luz da tua face.
9
Sim, todos os nossos dias dissipam-se
diante do teu furor, findamos os anos
como um suspiro.
10
De fato, os dias de nossa vida chegam
a setenta anos, ou a oitenta para os que
têm mais saúde; entretanto, a maior par-
te dos anos é de labuta e sofrimentos,
porquanto a vida passa muito depressa,
e nós voamos!
11
Quem é capaz de conhecer a força da
tua ira e de tua cólera, segundo o temor
que te é devido?
12
Sendo assim, ensina-nos, pois, a con-
tar nossos dias, a fim de que possamos
alcançar um coração verdadeiramente
sábio!
5

13
Volta-te para nós, ó Eterno! Até quan-
do haveremos de esperar? Tem compai-
xão dos teus servos!
14
Sacia-nos, desde o romper da aurora,
com teu amor infinito, e exultaremos de
alegria, todos os nossos dias.
6
15
Alegra-nos na proporção dos dias em
que nos puniste, pelos anos em que pas-
samos sob grande sofrimento.
16
Que as tuas realizações se manifestem
aos teus servos, e a teus filhos, a tua ma-
ravilhosa glória!
17
Que a graça do Senhor, nosso Deus,
pouse sobre nós; faze prosperar as obras
14
Apesar do ínfimo espaço de tempo da vida humana de Jesus na terra, da maligna e constante perseguição dos seus inimigos
desde seu nascimento, o Senhor gerou inúmeros filhos e filhas para a eternidade, por meio do seu sacrifício voluntário e vicário,
cumprindo, assim, toda a Lei e autenticando a Aliança (Ap 7.9).
Capítulo 90
1
A expressão original hebraica “homem de Deus” era normalmente aplicada aos profetas do Senhor no AT (1Sm 2.27; Js 14.6).
Nenhum outro salmo comunica de maneira tão clara e contundente o lamentável estado da humanidade diante do Criador, nosso
santo e eterno Deus. Moisés assume a dor dos homens e honestamente reconhece nossa culpa. A ira e o afastar-se de Deus são
perfeitamente justificáveis. Mas o Senhor incute fé no coração dos homens que descobrem o verdadeiro “amor reverente” a Deus
(v.14). Os 40 anos de sofrida peregrinação no “imenso e pavoroso” deserto, rumo à terra prometida, produziu uma oração desta
magnitude e profundidade (Dt 8.15; Nm 14.26-35).
2
Melhor é sofrer nos caminhos áridos da vida, mas na presença do Senhor, que no pseudoconforto e segurança do palácio
de Faraó (Hb 11.24-25; Sl 71.3; 91.9).
3
O ser humano vive, desde a Queda (Gn 3.19), sob a sentença divina da morte: “Tu és pó e ao pó retornarás”.
4
Deus não está sujeito ao tempo, pois ele é eterno. A vida humana, entretanto, é comparada a uma espécie de relva palestina
que surge promissora com o raiar do dia, porém murcha, sob o sol escaldante de Canaã e morre ao final da tarde, antes que se
encerre a segunda vigília da noite (Jz 7.19; Mt 14.25).
5
Qualquer pessoa que não se preocupe em avaliar seus planos e atitudes ao longo da vida, nem com a fatal prestação de
contas diante de Deus, quanto à forma como usou sem tempo na terra, é completamente insensata e carece urgentemente de
Salvação (Gn 20.11; Sl 73.4-12; Mc 8.35-38).
6
A oração de Moisés intercede pelo povo na terra prometida (Êx 33.14; Dt 12.9). Contudo, a resposta plena e eterna vem com
a ressurreição de Cristo, o Messias (Rm 5.2-5; 8.18; 2Co 4.16-18).
SALMOS 89, 90
94
das nossas mãos; sim, confirma a obra
das nossas mãos!
7

Sob a eterna proteção de Deus
91
Aquele que vive na habitação do
Altíssimo e descansa à sombra do
Todo-Poderoso desfrutará sempre da sua
proteção.
1

2
Sobre o Eterno declara: “Ele é meu re-
fúgio e minha fortaleza, o meu Deus, em
quem deposito toda a minha confiança”.
3
Ele te livrará do laço do inimigo ardilo-
so e da praga mortal.
2
4
Ele te cobre com suas plumas, e debai-
xo de suas poderosas asas te refugias; sua
fidelidade é escudo e armadura.
3
5
Não temas o terror que campeia na ca-
lada da noite, tampouco a seta que pro-
cura seu alvo durante o dia.
6
Não temas a peste que se move sorratei-
ra nas trevas, nem o demônio que devas-
ta ao meio-dia.
4
7
Ainda que caiam mil ao teu lado e dez
mil à tua direita; tu não serás atingido.
8
Somente teus olhos perceberão e con-
templarão a retribuição destinada aos
ímpios.
9
Porquanto afirmaste: “O SENHOR é o
meu refúgio” e fizeste do Altíssimo a tua
morada,
10
nenhum mal te alcançará, desgraça al-
guma chegará à tua tenda.
5
11
Porque a seus anjos Ele dará ordens a
teu respeito, para que te guardem em to-
dos os teus caminhos;
12
com as mãos eles te susterão, para que
jamais tropeces em alguma pedra.
6
13
Poderás pisar sobre o leão e a víbora;
pisotearás o leão forte e a serpente mais
vil.
7
14
“Porquanto ele me ama, Eu o resgata-
rei; Eu o protegerei, pois este conhece o
meu Nome.
8
15
Sempre que chamar pelo meu Nome
hei de responder-lhe; estarei sempre com
ele; nos momentos mais difíceis, quando
enfrentar tribulações, Eu o resgatarei e
farei que seja devidamente honrado.
16
Eu o contemplarei com vida longa e
lhe revelarei a minha Salvação”, assim
7
Por mais breves que sejamos, nossos esforços e obras podem ser abençoados com valor divino, quando depositamos nossa
vida nas mãos de Deus (Sl 3.7; 27.4; 111.2-5).
Capítulo 91
1
Testemunho entusiasmado sobre a segurança e a paz que todos aqueles que têm verdadeira fé no Senhor podem experimen-
tar, ao longo de suas vidas. Salmo escrito por um sacerdote hebreu no período pós-exílico, com o objetivo de encorajar a comuni-
dade dos fiéis. Esta tradução levou em conta os manuscritos da LXX (Septuaginta – a primeira e mais importante tradução do AT
para o grego) e as mais recentes análises sobre os Rolos do Mar Morto – os conhecidos originais de Qunram, em cotejo com o
Texto Massorético (TM). A habitação (tabernáculo) preferida de Deus é o coração dos seres humanos, a quem o Senhor promove
à condição de filhos (Jo 1.12; 14.17; At 7.48; Rm 8.9; 1Co 3.16; 2Co 6.16; Ef 3.17; Cl 3.16; Ap 21.3). O templo foi um símbolo da
proteção divina, onde os justos encontravam abrigo e segurança (Sl 23.6; 27.4,5; 31.20; 61.4; Gn 14.19; 17.1). Este versículo pode
ser transliterado, a partir dos manuscritos em hebraico, da seguinte forma: Ioshev besséter elion, betsel Shadai yit’lonan.
2
Metáfora que representa o perigo iminente, armado pelo Diabo e por algum outro adversário desleal e oportunista (vv. 5,6;
124.7). Segundo os manuscritos descobertos em Qunram, o autor sugere que seus leitores expressem sua fé no Senhor assim
como ele próprio tem feito. A expressão literal usada é “diz” (registrada no documento arqueológico 11 Q Os Ap
a
), em vez de
“digo”, como aparece no Texto Massorético.
3
É impressionante comparar esta afirmação com a declaração de Jesus Cristo em Mt 23.37.
4
Deus protege seus filhos dia e noite, ininterruptamente, ainda que não o percebamos ou reconheçamos esse fato. Deus é Pai
amoroso e onipotente (Mt 6.6,9; 7.11; 10.32; 11.27; 24.36; 28.19). A antiga expressão hebraica yāšûd que significa “assolador” ou
“destruidor” foi melhor traduzida na LXX (Septuaginta) por wệšēd “e o demônio”.
5
Encontramos neste salmo várias referências aos acontecimentos da primeira Páscoa (Êx 12). A expressão “tenda” significa
qualquer moradia simples e temporária, como o próprio corpo humano.
6
A promessa feita aos crentes piedosos de todos os tempos é perfeitamente aplicável a Jesus, o Filho de Deus. No NT (Mt
4.6-7), vemos a pessoa de Satanás, usando sua velha e insuperável técnica de torcer a verdade para atingir seus objetivos nefas-
tos, separar parte deste versículo do contexto geral da fé bíblica, expressa claramente nos versos de 1 a 9.
7
Os perigos da peregrinação pelo deserto são uma metáfora da nossa própria caminhada ao longo da vida (Dt 8.15).
8
O grande alvo da vida é a compreensão de que Deus é Pai e, portanto, digno de todo amor e respeito. No Senhor está toda
a nossa glória e vida eterna (Jo 17.3). O salmista usa uma forma de oráculo profético que apóia seu vigoroso testemunho e asse-
gura que todas as promessas do Senhor serão plenamente cumpridas nas vidas de seus filhos (vv.14-16).
SALMOS 90, 91
95
disse o Eterno!
9
Hino sabático de gratidão a Deus
Salmo melódico para ser entoado no dia do
Shabbath.
1
92
É muito bom exaltar ao SENHOR, ó
Eterno, e entoar salmos em honra
ao teu Nome, ó Altíssimo!
2
Proclamar desde o amanhecer o teu amor
leal e durante a noite a tua fidelidade,
3
ao som da lira de dez cordas e da cítara,
bem como da melodia com harpa.
4
Porquanto tu me alegras a alma, com os
teus feitos; as obras das tuas mãos moti-
vam-me a cantar jubiloso.
2
5
Quão maravilhosas são as tuas obras, ó
Eterno, e insondáveis os teus desígnios!
3
6
O insensato fica sem entender nada, e o
néscio não percebe o menor sentido.
7
Se os ímpios brotam como mato bravo,
e florescem todos os malfeitores, é para
serem exterminados para sempre!
4
8
Mas tu, ó SENHOR, eternamente és ex-
celso.
9
Eis que teus inimigos, ó Eterno; sim, os
teus adversários serão aniquilados; todos
que praticam a malignidade serão dis-
persos!
10
Tu reergueste, como chifre de búfalo,
a minha fronte; derramaste, sobre mim,
óleo balsâmico e revigorante.
11
Os meus olhos contemplam a derro-
ta dos meus inimigos; os meus ouvidos
escutaram a debandada dos malfeitores
que tramavam contra a minha vida.
12
Os justos florescerão como a palmeira,
crescerão altaneiros como o cedro do Lí-
bano;
13
plantados na Casa do SENHOR, floresce-
rão nos átrios do nosso Deus.
5
9
Teremos paz e satisfação completas quando chegarmos à compreensão de que as respostas de Deus nem sempre são
concessões às nossas petições, mas sempre bênçãos ainda maiores. Paulo pediu cura, mas ganhou infinitamente mais: a pre-
sença do Espírito de Deus em sua vida diária; a poderosa graça de Deus que o levou a vencer todos os obstáculos do seu
tempo e a completar com galhardia a missão que o Senhor lhe havia proposto (2Co 12.7-10). Portanto, é impossível que o mal
vença o servo de Deus; as mais terríveis calamidades nada mais produzem do que encurtar a peregrinação do filho de Deus e
aproximá-lo do seu galardão. Todas as dificuldades, na verdade, são bênçãos ocultas supervisionadas atentamente pelo próprio
Senhor. Enxergando dessa forma, as perdas nos fazem ricos, as enfermidades nos tornam saudáveis de verdade, o desprezo
das pessoas nos fazem experimentar ainda mais da graça e da glória do Pai, a morte nada mais é que a porta de entrada para
o céu e a vida eterna.
Capítulo 92
1
No relato da criação não existe a palavra “sábado” (em hebraico shabbãth), mas ocorre a raiz de onde deriva esse vocábulo:
shãbhath (Gn 2.2). A obra da criação desenvolveu-se em seis dias (quer sejam períodos de vinte e quatro horas ou grandes eras) e, no
sétimo dia, Deus “descansou” (literalmente em hebraico wayyinnãphash “cessou obra específica e tomou alento”), ou seja, separou
(santificou) esse tempo como “período sabático”. A expressão “descansar” é antropomórfica, pois, evidentemente, Deus não precisa
repousar como um ser humano extenuado depois de sua jornada de trabalho. Entretanto, o Senhor deixou um exemplo prático e uma
orientação clara para que a humanidade dedicasse um dos dias da semana ao culto do seu Criador e Senhor. O sábado pertence
primariamente a Deus e, em segundo lugar, destina-se descanso humano (Êx 20.8-11; 31.17). Na liturgia pós-exílica do templo, este
salmo passou a ser entoado na hora do sacrifício matutino no sábado, sendo que em cada dia da semana se cantava um salmo dife-
rente: Sl 24, no primeiro dia da semana; Sl 48, no segundo; Sl 82, no terceiro; Sl 94, no quarto; Sl 81, no quinto; Sl 93, no sexto dia. A
idéia de cinco dias de trabalho nasceu na Babilônia com o nome de shabbatum, cujo sentido em nada se parecia com o “descanso”
bíblico, mas apenas como um tempo destinado a outras atividades. Em seu conflito com os fariseus, nosso Senhor Jesus, o Messias
(christos, em grego), enfatizou, perante os judeus, o fato de que eles entendiam muito mal os mandamentos do AT e procuravam
tornar a observância do sábado mais rigorosa do que o próprio Deus havia estabelecido, posto que não era errado debulhar os grãos
da espiga com as mãos, tampouco, obrigatório deixar de fazê-lo no dia de sábado. Afinal, o Senhor do sábado é misericordioso. No
primeiro dia da semana foi que o Senhor Jesus ressuscitou dentre os mortos, e nele os cristãos (o Corpo de Cristo – a Igreja) começa-
ram a se reunir, a fim de prestarem culto ao Cristo ressurreto. Esse é o Dia do Senhor e, como tal, é o sábado que Deus instituiu desde
a Criação. Os mandamentos referentes ao sábado nunca foram anulados e as bênçãos decorrentes da sua correta observação (culto
sincero e dedicado ao Senhor) têm implicações atuais e futuras (escatológicas).
2
Louvar e adorar a Deus com cânticos e poemas (salmos) não é somente uma questão de gosto ou talento musical: tem a ver
com os mais profundos sentimentos de gratidão e comunhão com o Espírito do Senhor (vv.1-4; 10-11).
3
É impossível ao ser humano compreender os pensamentos de Deus e a lógica divina, por isso é necessário ter fé para obe-
decer (Is 40.28; Sl 49.10; 94.8-11; Rm 11.33-36).
4
As Escrituras se referem ao mato e às ervas daninhas como símbolo do mal que hoje aparece, mas que amanhã não existirá
mais (Is 40.6-8), são passageiros tal como o próprio mundo (1Jo 2.17). Este versículo apresenta um resumo do que é exposto
com mais detalhe nos Sl 73 e 90.4-6.
SALMOS 91, 92
96
14
Mesmo na velhice, cheios de seiva e
viço produzirão muitos frutos,
15
para proclamar que o SENHOR é justo. Ele
é a minha Rocha; nele não há injustiça!
Louvor à majestade do Senhor
93
Reina o Eterno, vestido de sobera-
na majestade; sim, toda a força e
poder o revestem! O Universo está segu-
ro e não se abalará.
1
2
Desde a antigüidade, o teu trono está
firme: tu existes desde a eternidade!
3
Levantam os rios, ó SENHOR, levantam
a voz de suas águas fragorosas; levantam
os rios o seu bramido.
4
Entretanto, o SENHOR nas alturas é mais
poderoso do que a força das grandes águas,
do que os poderosos vagalhões do mar.
2
5
Os teus mandamentos permanecem inal-
terados, e a tua fidelidade dura para sem-
pre; a santidade é o ornamento eterno da
tua Casa.
3
Apelo à justiça divina
94
Ó Eterno, SENHOR da vindicação,
Deus vingador, manifesta-te!
2
Levanta-te, Juiz da terra, paga aos so-
berbos o que merecem!
1
3
Até quando, Ó Eterno? Até quando os
ímpios triunfarão?
4
Proferem palavras de afronta, todos esses
malfeitores cheios de arrogância e empáfia
5
esmagam teu povo, SENHOR, e oprimem
tua herança;
6
matam a viúva e o migrante, e trucidam
os órfãos.
2

7
E comentam: “Deus nada vê, não se atém
aos detalhes da terra, o Deus de Jacó”.
8
Atendei vós, os mais néscios do povo!
Insensatos, quando compreendereis?
9
É possível que quem criou o ouvido
não possa ouvir? Será que quem formou
os olhos nada veja?
10
Aquele que disciplina as nações os dei-
xará sem a devida retribuição punitiva?
Não tem conhecimento Aquele que con-
cede ao ser humano o saber?
3
11
O SENHOR conhece muito bem todos os
pensamentos humanos, e sabe o quanto
são fúteis!
12
Bem-aventurada a pessoa a quem dis-
ciplinas, ó Eterno, aquele a quem ensinas
a tua Lei;
13
calmamente atravessará os dias maus,
5
Apesar de os ímpios brotarem como erva ruim ou mato bravo, sua destruição é certeira e iminente. Entretanto, os justos
(justificados pelo Senhor) estão plantados em terreno fértil e seguro (v.7; Sl 91). Por essa razão, o vigor da sua juventude ainda
continua durante a velhice, e se regozija nas bênçãos espirituais da casa do Altíssimo (v.15; 2Rs 21.5; 23.11,12; Sl 84.2,10).
Capítulo 93
1
Este é um dos muitos salmos compostos na era pré-exílica (Sl 93 – 100) com o objetivo de exaltar o poder e a majestade de
Deus sobre toda a ordem cósmica e, particularmente, em relação a Israel, seu povo escolhido na terra. Anualmente este hino era
entoado por toda a congregação no período das grandes festas e celebrações ao Senhor (Sl 47; 94; 95.3). A expressão “Reina
o Eterno” é a verdade suprema e a primeira declaração do credo judaico. Este versículo pode ser assim transliterado, a partir do
original hebraico: Adonai malách, gueút lavesh, lavesh Adonai, oz hit´azar, af ticon tevel bal timot (Sl 96.10; 97.1; 99.1; Zc 14.9).
2
Os terríveis trovões e relâmpagos das eras caóticas e primevas são como sussurros da natureza, quando comparados à força e
ao poder da Palavra de Deus (v.2,3; 104.7-9). As trevas e o caos foram perfeitamente dominados e organizados ao som da voz cria-
dora do Senhor (Gn 1.6-10; Jó 38.8-11; Sl 33.7). Nada poderá se opor à vontade de Deus e ao cumprimento da sua Palavra (65.6,7;
74.13,14). A metáfora das “águas” e “rios” pode ser aplicada também aos três grandes impérios situados às margens de importantes
e caudalosos rios da época: Egito, Assíria e Babilônia, os quais se levantaram contra a nação escolhida de Deus e quase a inunda-
ram com seus exércitos e dominação. Contudo, o Senhor os venceu, e assim será, definitivamente, no futuro escatológico.
3
Deus tem o controle absoluto da História e, soberanamente, mantém a ordem do Universo segundo sua vontade, assim como
oferece, a seu povo, diretrizes seguras, estáveis e fiéis (19.7; 95.8-11), que devem ser obedecidas pelos de sua Casa (o templo
terrestre e também a família dos fiéis que o freqüentam).
Capítulo 94
1
Este salmo é a voz dos oprimidos clamando ao Senhor e Juiz da terra para que exerça seu justo poder e correção sobre todas
as injustiças cometidas contra os indefesos, por homens arrogantes e impiedosos que ocupam cargos de grande prestígio e
poder. Essa característica reivindicatória popular faz deste hino uma peça literária única na coletânea dos salmos 92 a 100.
2
A viúva, o estrangeiro e os órfãos, representam as três classes que no Oriente sempre passaram por grandes necessidades
de amparo material e emocional, pois não podiam contar com a presença de parentes que lhes oferecessem proteção ou que os
“vingassem” (pleiteassem por justiça). A Lei de Deus exige justiça com compaixão e lealdade (Tg 1.27).
3
O Senhor faz séria advertência aos ímpios, arrogantes, presunçosos e, portanto, insensatos (92.6-9), porquanto castiga todos
SALMOS 92–94
97
enquanto que, para os ímpios, uma fossa
se abrirá!
14
O SENHOR jamais desamparará seu povo;
nunca abandonará sua herança.
15
Voltará a haver justiça nos veredictos, e
todos os retos de coração a seguirão.
16
Quem se levantará a meu favor contra
os ímpios? Quem permanecerá ao meu
lado combatendo os malfeitores?
4

17
Não fosse o socorro do SENHOR, eu já
estaria habitando na região do silêncio.
18
Quando declarei: “Os meus pés vaci-
laram”, teu amor leal, SENHOR, me ampa-
rou!
19
Quando a angústia já controlava todo
o meu ser, teu consolo trouxe tranqüili-
dade à minha alma.
5
20
Será, um governo corrupto, capaz de
fazer aliança contigo? Um trono que pra-
tica injustiças em nome da lei?
6
21
Eles, contudo, tramam contra a vida do
justo e condenam os inocentes à morte!
22
Entretanto, o SENHOR é meu baluarte e
meu Deus, a torre inexpugnável em que
me refugio.
23
O Eterno fará recair sobre os ímpios
a própria iniqüidade deles e serão con-
sumidos por seus pecados; o Senhor, o
nosso Deus, os destruirá!
Convite a cantar louvores a Deus
95
Vinde, cantemos com júbilo ao
SENHOR, aclamemos a Rocha da
nossa Salvação!
2
Apresentemo-nos diante dele com ações
de graças, vamos adorá-lo com cânticos
de louvor.
1
3
Pois o SENHOR é o grande Deus, o mag-
nífico Rei acima de todos os deuses!
2
4
Em suas mãos estão as profundezas da
terra; são seus, os cumes dos montes.
5
Dele é o mar – foi Ele quem o criou – e
a terra firme, que suas mãos formaram.
6
Vinde! Adoremos prostrados e nos ajoe-
lhemos perante o SENHOR, o nosso Criador.
7
Porque Ele é o nosso Deus, nós somos
o povo do seu pastoreio e ovelhas condu-
zidas por sua mão. Tomara que escuteis
hoje a sua voz:
3

8
“Não endureçais o vosso coração, como
em Meribá, e ainda como aquele dia em
Massá, no deserto,
4
9
quando vossos pais me desafiaram e me
puseram à prova, embora tivessem visto
quantos se afastam de seus princípios eternos (Lv 26.18; Jr 31.18; Is 28.26). O Senhor (o Cristo) conhece perfeitamente nossos
mais íntimos desejos e motivações (v.11; Jo 2.25).
4
Deus é o nosso único tribunal de recursos perfeitamente sensível, leal e justo. O salmista demonstra sua confiança na justiça
divina que se revelará absoluta, no fim. Sob essa perspectiva, agora pode aspirar à vindicação imediata do Senhor, para suas
causas presentes, pode suplicar por um sinal da presença e aquiescência de Deus. A resposta surge no v.17 (o livramento da
morte física naquele momento), e no v.18 (sustento da plena confiança do crente em meio às tribulações).
5
A expressão “meu ser” ou “íntimo” está registrada neste versículo, literalmente, como “alma” (Sl 6.3).
6
Aqui, além de o salmista se referir aos governos corruptos e iníquos do seu tempo, há uma conotação escatológica, quando
o centro de autoridade mundial será totalmente dominado pelo Maligno e se voltará contra os crentes (Ef 2.1,2). Um dos grandes
instrumentos da maldade tem sido o suborno. O pecado também faz da Lei de Deus um pretexto para condenar o ser humano
culpado (Rm 7.8-13).
Capítulo 95
1
O sacrifício que Deus realmente deseja e aceita é a expressão de verdadeiro agradecimento do coração humano, diante do
amor e da salvação que vem do Senhor.
2
Desde a antigüidade, todos os povos pagãos têm o hábito de acreditar em vários deuses e entidades divinas, um para cada
parte, das regiões cósmicas da terra, e dos aspectos da vida humana. Israel foi o único povo que sempre foi ensinado a depositar
toda a sua fé em Yahweh (o nome hebraico e impronunciável, do Senhor). O fato de o Deus de Israel cuidar de cada detalhe do
Universo, da vida de cada ser humano e de realizar grandes maravilhas, deixava todos os demais povos perplexos.
3
Os reis israelenses eram chamados de “pastores” do seu povo, e seus domínios, de “seu pastoreio” (23.1; 100.3; Jr 23.1;
25.36; 49.20; 50.45; Ez 34.20-23). Os sacerdotes e os levitas ensinavam o povo a “ouvir a voz de Deus” durante a liturgia das
festas e cerimônias religiosas no templo. O ápice do culto a Deus é ouvir e compreender sua Palavra, com humildade, fé e obe-
diência (Sl 50 e 78).
4
O ministro do louvor conduz a congregação a uma profunda reflexão sobre a época de sua rebelião no deserto do Sinai,
apesar dos grandes sinais e feitos do Senhor (Êx 17.7; Nm 20.13). Este versículo pode ser transliterado, a partir do original he-
braico, desta forma: Al tac’shú levavchem kimrivá, keiom massa bamidbar. A expressão “Massá” quer dizer “lugar de provação”
ou “tempo de teste”.
SALMOS 94, 95
98
meus grandes feitos!
5
10
Durante quarenta anos permaneci ira-
do contra aquela geração e declarei: ‘Este
é um povo de coração ingrato, que não
reconhece meus caminhos’.
11
Por esse motivo jurei em minha re-
volta: ‘Essas pessoas jamais entrarão no
lugar do meu repouso!’”
6
Tributo à majestade do Senhor
1 Cr 16.23-33
96
Erguei ao Eterno um cântico novo!
Cantai ao SENHOR a terra inteira!
1
2
Cantai ao SENHOR, bendizei seu Nome;
dia após dia, anunciai a sua salvação!
3
Proclamai sua glória entre as nações,
entre todos os povos as suas realizações
maravilhosas!
4
Pois o SENHOR é magnífico, digno de
todo o louvor; Ele inspira mais temor
que todos os deuses juntos!
5
Todos os deuses dos pagãos não passam
de objetos feitos ídolos, mas o SENHOR
criou os céus.
2

6
Majestade e magnificência estão diante
dele, poder e dignidade no seu santuário.
7
Famílias de povos, tributai ao SENHOR,
rendei ao SENHOR glória e poder,
8
Dedicai ao SENHOR a glória do seu
Nome! Trazei sua devida oferta, entrai
em seus átrios,
9
prostrai-vos diante do SENHOR no es-
plendor da sua santidade! Tremei diante
dele, terra inteira!
3
10
Anunciai entre as nações: “O SENHOR é
rei. Sim, o mundo está firme e não será aba-
lado; Ele julgará os povos com retidão!”
4
11
Alegrem-se os céus e exulte a terra, es-
tronde o mar e tudo o que ele contém!
12
Esteja em festa a campina, e tudo
quanto nela existe! Regozijem-se todas
as árvores da floresta,
13
cantem diante do SENHOR, porque Ele
vem. Sim, Ele vem julgar a terra; Ele go-
vernará o mundo com justiça e os povos
com a sua fidelidade!
5
Louvor à soberania do Senhor
97
O SENHOR reina! Exulte a terra
toda, e alegrem-se até as pequenas
ilhas mais distantes!
1

2
Nuvens inescrutáveis e espessas o cir-
5
Os profetas, sacerdotes e representantes oficiais do Senhor tinham permissão para proferir certas ordens espirituais, usando
a primeira pessoa do singular (Gn 16.7; Sl 50.5-15). Deus realizou maravilhas no Egito e no mar Vermelho, e supriu todas as
necessidades do seu povo no deserto (Êx 16; Nm 14.11-24). A principal afronta contra o Senhor ocorreu quando Israel se negou
a conquistar a terra prometida em o Nome de Deus e, pior, desejou retornar à vida de escravidão no Egito. Então o povo foi
condenado a vaguear pelo deserto por 40 anos, até que toda aquela geração de adultos, que foram libertos do Egito, perecesse
(Nm 14.1-34; 32.13).
6
O “descanso do Senhor” é um conceito dinâmico e está ligado ao “Shabbath Shalom perpétuo de Deus”. A terra (Nm 14.30) se
refere à Canaã, a terra da Aliança, a herança prometida aos descendentes físicos de Abraão (que haverá de se cumprir plenamen-
te na história). Mas também é uma profecia para todos os crentes, em relação à vida eterna nos céus (Hb 11.8; Rm 4.13-25).
Capítulo 96
1
Este salmo foi entoado pelo povo de Israel, quando Davi trouxe a Arca de Deus para o templo. É um hino de proclamação da
glória universal do Senhor. Uma convocação para todas as nações se humilharem diante da majestade do Eterno (em hebraico
Adonai) e o adorarem como único Deus. Temos aqui uma palavra profética sobre a missão da Igreja no NT (Mt 28.16-20), como
povo santo: o Israel de Deus (Sl 93; 95 a 100).
2
O motivo central pelo qual todo ser humano deve louvar a Deus é porque somente ele é Deus (Sl 115; Gn 20.11). O Senhor
é o próprio criador de todo o âmbito celestial, que do ponto de vista humano (de todos os tempos e raças) sempre foi a morada
dos deuses (Sl 97.7). Os ídolos não têm, de fato, poder algum, nem há realidade nas divindades que representam; quanto a Deus,
porém, os próprios céus proclamam a sua glória (v.6).
3
A radiante beleza de Deus é também sua qualidade mais sublime: a santidade. O profeta Isaías contemplou esse esplendor
tremendo do Senhor, e proclamou ao mundo: “Santo, santo, santo é o Senhor dos Exércitos” (Is 6.3). Todos devemos a Deus um
contínuo e reverente respeito (temor).
4
As nações perdem muito em não aceitar a direção de Deus para suas políticas sociais e econômicas; por isso há um estado
permanente e crescente de injustiça, miséria e conflitos minando as virtudes concedidas à raça humana.
5
Uma palavra profética quanto à vinda do Messias (o Cristo, em grego), com seu reino de justiça e retidão, conforme a profecia
de Isaías 11.1-9. Tudo de que o homem precisa é confessar seus erros e injustiças (pecados), e o Senhor está pronto (pelo amor
leal de Deus) a perdoá-lo e oferecer-lhe nova e eterna vida (1Jo 1.9).
Capítulo 97
1
A soberania e a justiça de Deus – o Criador e Rei do Universo – são proclamadas por toda a terra, até as mais longínquas
regiões costeiras (Sl 96.1; 99.1; 117.1; 1Rs 9.26-28; 10.22; Is 60.9; Jn 1.3).
SALMOS 95–97
99
cundam, retidão e justiça são o alicerce
do seu trono.
3
Diante dele alastra-se o fogo, devoran-
do ao redor seus adversários.
4
Os relâmpagos clarearam o mundo, a
terra viu-o e estremeceu.
5
Como cera derreteram-se os montes,
diante do Eterno, perante o SENHOR de
toda a terra!
6
Os céus proclamam a sua justiça e to-
dos os povos vêem a sua glória.
2
7
Sejam decepcionados todos os adora-
dores de objetos, que se vangloriam de
seus ídolos! Prostrai-vos diante do SE-
NHOR, todos os poderosos!
3
8
Sião ouve e se rejubila, exultam as filhas
de Judá por causa dos teus julgamentos,
SENHOR.
9
Pois tu, ó Eterno, o Altíssimo sobre todo
o universo, de todos os deuses és o mais
excelso.
10
Vós, que amais o SENHOR, odiai o mal!
Ele protege as almas de seus fiéis, livran-
do-os da mão dos ímpios.
4
11
A luz amanhece para o justo e, para os
corações retos, o júbilo.
5
12
Alegrai-vos, justos, no SENHOR, e exal-
tai, lembrando sua santidade!
Jeová, o Rei Salvador
Salmo.
98
Cantai ao SENHOR um cântico
novo, pois Ele tem realizado ma-
ravilhas; sua mão direita e seu santo bra-
ço forte lhe deram a vitória!
1
2
O SENHOR manifestou a sua Salvação;
aos olhos das nações revelou sua justiça.
3
Recordou-se do seu amor e da sua fideli-
dade pela casa de Israel. Todos os confins
da terra contemplaram a Salvação do nos-
so Deus.
2
4
Aclamai o SENHOR, terra inteira! Lou-
vem-no com cânticos de júbilo e ao som
de música!
5
Oferecei música ao SENHOR por meio da
harpa, com a cítara e a voz do canto!
6
Com trombetas e ao som da trompa exul-
tai na presença do SENHOR, que é o Rei!
7
Ruja o mar e tudo o que ele contém, o
mundo e todos os seus habitantes!
8
Com palmas se manifestam os rios, e o
cantar dos montes ressoa em uníssono,
9
para aclamar o Eterno que vem julgar
toda a terra. Sim, Ele julgará o Universo
com justiça e os povos com eqüidade!
3
Louvor à santidade do Senhor
2
A ordem estável da imensidão cósmica declara e confirma que a sabedoria e a soberania de Deus sustentam, de modo seme-
lhante, a ordem moral do Universo (Sl 19.1-6; 96.10). Os versos 2 a 6 testemunham a revelação geral da glória do Senhor.
3
Versículo central, e o contraponto deste salmo, revelam os efeitos que a soberania de Deus (v.9) tem sobre a raça humana:
todo tipo de idolatria, superstição e paganismo se demonstram práticas vãs, ilusórias e ofensivas a Deus (v.7). Entretanto, o povo
de Deus é jubilosa e justamente vingado (v.8). O salmo conclama todos os poderosos dos céus e da terra a se dobrarem em
humilde adoração ao Senhor (Sl 29.1).
4
Quanto maior e mais dedicado nosso amor ao Senhor, tanto maior e mais radical será nossa aversão a tudo quanto estiver
relacionado ao Maligno e suas obras. Somente aqueles que odeiam o mal e a injustiça têm prazer no justo governo e se alegram
com a verdade. A ameaça dos pagãos entre o povo de Deus sempre acarretou perigo mortal aos fiéis (Sl 139.21-22).
5
A expressão usada no texto hebraico massorético transliterada em Or zarúa latsadic, uleyishrê lev simchá, é aqui traduzida
como “amanhece”. Literalmente, significa “semear”. O sentido, porém, é que Deus está “semeando” seus poderosos raios
de luz, com o objetivo de iluminar os passos de seus filhos. A sabedoria e a iluminação rompem todas as manhãs para os
crentes fiéis no Senhor. Esse é o significado que aparece igualmente na Septuaginta e em alguns manuscritos antigos (Jo
1.12; 1Jo 1.7).
Capítulo 98
1
O salmista convida o povo de Deus para celebrar com música e louvores o governo justo e universal do Senhor (Sl 9.1;
33.3). A congregação dos crentes é estimulada a expressar, com alegria, sua gratidão pelas muitas bênçãos recebidas das
mãos do Altíssimo. O louvor tem início no templo, influencia todos os povos da terra e atinge toda a natureza e o planeta (Sl
93; 95; 96).
2
O próprio Senhor é nosso maior exemplo de missionário, evangelista e pastor (Sl 46.10; Is 52.10). Os atos salvíficos de
Yahweh (Jeová é o nome hebraico e impronunciável de Deus) revelam, com toda clareza seu amor e sua justiça (Sl 4.1; 71.24). A
expressão hebraica original para “amor” significa “amor-e-fidelidade”, e isso nos ajuda a entender o conceito de “Aliança” firmado
por Deus com seu povo (Sl 3.7; 6.4; 36.5).
3
Este salmo é uma grande sinfonia que, iniciada por Deus numa pequena reunião de crentes, espalha-se pela vizinhança,
conquista outros povos e culturas, atinge todo o planeta e a natureza, e prossegue vigorosa, num ministério crescente de evan-
gelização até o gran finale: O Dia do Julgamento.
SALMOS 97, 98
100
99
O SENHOR reina! As nações tre-
mem! O seu trono está sobre os
querubins! Estremeça toda a terra!
1
2
O Eterno é magnífico em Sião, excelso
sobre todos os povos.
2
3
Celebrem eles o teu Nome, que é grande
e inspira reverente adoração, pois é Santo!
4
É Rei poderoso, que ama a justiça: Tu es-
tabeleceste a retidão; o direito e a eqüida-
de em Jacó, tu pessoalmente os instruíste!
5
Exaltai o SENHOR, o nosso Deus, pros-
trai-vos diante do estrado dos seus pés.
Ele é Santo!
3
6
Moisés e Arão estavam entre os seus
sacerdotes; Samuel, entre os que invoca-
vam seu Nome; eles clamavam pelo SE-
NHOR, e Ele lhes respondia.
7
Da coluna de nuvem, lhes falava, e o
povo obedecia a seus decretos e à Lei que
lhes dera.
4
8
SENHOR, nosso Deus, tu lhes respondias,
demonstrando ser Deus perdoador, ain-
da que os tenhas disciplinado, por causa
de suas rebeliões.
5

9
Exaltai o SENHOR, o nosso Deus; pros-
trai-vos voltados em direção ao seu san-
to monte, porquanto o Eterno, o nosso
Deus, é Santo!
Vinde todos e louvai ao Senhor
Um salmo para ações de graças.
100
Aclamai com júbilo ao SENHOR,
todos os habitantes da terra!
1
2
Rendei culto ao SENHOR com alegria,
vinde à sua presença com cânticos de
louvor.
3
Reconhecei que o SENHOR é Deus! Ele
nos fez, e somos seus: seu povo e rebanho
de seu pastoreio.
4
Entrai por suas portas com ações de
graças e em seus átrios com hinos de ado-
ração; exaltai-o e bendizei o seu Nome!
5
Porquanto o SENHOR é bom e seu amor
leal dura para sempre; sua fidelidade
acompanha todas as gerações.
2
Modelo do governante ideal
Um salmo de Davi.
1
101
Quero cantar a misericórdia e a
justiça, entoar um hino de lou-
vor a ti, ó SENHOR!
2
Quero instruir-me no caminho da per-
1
Hino de aclamação a Deus como o grande Santo e Rei de Sião (o povo de Deus). O Senhor é entronizado em Sião e so-
berano sobre todas as nações da terra. Bem-aventurados todos aqueles que já reconhecem esse fato; um dia todos os povos
proclamarão que o Senhor é Deus e Rei absoluto do Universo (Sl 93.1). Uma representação de querubins folheados a ouro ficava
sobre a tampa da Arca, no santo dos santos, o santuário mais interior do templo, onde resplandecia a glória da presença de Deus
(Sl 80.1; Êx 25.18).
2
Deus é louvado e engrandecido em todos os lugares onde crentes sinceros se reúnem para adorá-lo, assim como fora em
Sião nos dias deste salmo.
3
O “estrado dos seus pés” é o escabelo régio de Deus (2Cr 9.18), e simboliza a ligação entre o trono celestial e o terrestre.
Quando o Senhor está assentado em seu trono nos céus, seu trono na terra se transforma, metaforicamente, em simples estrado
para apoio dos seus pés; neste salmo, “seu santo monte” (v.9; 132.7; 1Cr 28.2; Lm 2.1).
4
Durante a jornada do êxodo do Egito e na terra prometida, o Senhor providenciou intermediários sacerdotais a fim de receber
e ministrar a Israel as instruções que todos deveriam seguir, a fim de, guardando a Palavra, não fraquejarem na fé (v.6; Êx 17.11;
32.11-32; Nm 14.13-19; 21.7; 1Sm 7.5-9; 12.19,23; Jr 15.1). Moisés, Arão e Samuel representam a Lei, o Sacerdócio e a Profecia,
que somente na pessoa e obra de Jesus Cristo formam uma unidade perfeita.
5 Deus corrige e castiga seus filhos sempre que necessário, mas jamais quebra suas promessas eternas (Sl 89.30-33).
Capítulo 100
1
Convocação geral para que todos os povos da terra reúnam-se em torno do Espírito do Senhor para adorá-lo e servi-lo com
gratidão e muita alegria em seus corações (Sl 93, 95 e 117). Os crentes devem vir para o culto público não apenas para receber,
mas dispostos a fazer suas ofertas com alegria e generosidade (Sl 75.1; Lv 7.12). Tradicionalmente, este hino acompanhava os
atos de ação de graça e ofertas no templo.
2
O salmista dá um exemplo claro de como devemos oferecer nosso culto ao Senhor: com júbilo, alegria e cânticos espirituais
(vv.1-3); com um coração agradecido a Deus, mesmo sob provações, pois Deus é Amor (Sl 6.4). A expressão “O Nome” nas
Escrituras é uma indicação da presença divina (v.4,5; Sl 24.7; 84.2,10; 95.6,7; 2Rs 21.5; 23,11,12).
Capítulo 101
1
Vários biblistas e renomados historiadores acreditam que Davi tenha escrito este salmo, especialmente para a celebração
de posse do rei Salomão, seu filho que assumia o compromisso de governar seu povo com sabedoria celestial: retidão, amor
sincero e eqüidade (1Rs 2.2-4; 3.3-9; Sl 72). Contudo, somente Jesus Cristo, o Filho de Deus e descendente exemplar de Davi,
tem cumprido perfeitamente esse compromisso majestoso, ao longo da história (Sl 6.4; 99.4).
SALMOS 99–101
101
feição: Quando virás ao meu encontro?
Quero proceder com coração íntegro den-
tro de minha casa.
2
3
Não colocarei diante dos meus olhos
nada que seja pernicioso. Detesto a con-
duta dos infiéis; tais atitudes jamais me
conquistarão!
3
4
Longe de mim os perversos de coração;
não me deixarei envolver pelo mal.
4
5
A quem difama os out ros às ocult as,
eu o farei calar! Assim como out ros al-
t ivos de cor ação e ar rogantes não su-
por t arei.
6
Os meus olhos se agradam dos fiéis da
terra, e essas pessoas habitarão comigo.
Somente quem se dedica a viver com in-
tegridade me servirá!
7
Quem pratica obras fraudulentas não
viverá no meu santuário; o mentiroso
não habitará na minha presença!
8
Manhã após manhã destruirei os ím-
pios da terra, para livrar de todos os ma-
lévolos, a cidade do Eterno!
5

Arrependimento e esperança
Súplicas de um aflito à beira do desespero, der-
ramando seu lamento diante do SENHOR.
102
Ó SENHOR, ouve a minha ora-
ção! Chegue a ti o meu pedido
de socorro!
1

2
Não escondas de mim a tua face, no dia
de minha angústia! Inclina para mim os
teus ouvidos! Responde ao meu clamor
com urgência!
3
Pois meus dias esvaíram-se como fu-
maça; os ossos ardem como braseiro;
4
meu coração está ressequido como erva
cortada; até me esqueço de comer meu
pão.
2
5
Meus gemidos são tão veementes, que
meus músculos aderem aos ossos.
6
Sou como a gralha da estepe, como a
coruja das ruínas.
3
7
Fico insone: tornei-me qual pássaro so-
litário no telhado.
8
Todo dia meus inimigos me ultrajam;
furiosos, contra mim praguejam.
9
Pois alimento-me de cinza, como se
fosse pão; e lágrimas misturo à minha
bebida.
4
10
Por causa da tua indignação e da tua ira,
tu me ergueste e me arrojaste ao chão.
11
Meus dias são como a sombra que se
alonga, estou secando como a erva.
12
Mas, tu, ó Eterno, estás entronizado
2
O rei implora que Deus venha ajudá-lo a cumprir seu mandato, com integridade. Quanta diferença benéfica haveria no
mundo, se os governantes e líderes em geral meditassem profundamente sobre essa atitude de sabedoria (Gn 17.1; 1Rs 3.7-9;
Sl 4.7; 72).
3
Este versículo pode ser transliterado, a partir do original hebraico, desta maneira: Lo ashit lenégued enai devar beliial, asso
setim sanêti, lo yidbac bi. Literalmente: “Não pousarei meus olhos sobre qualquer ação perversa; atos desonestos abomino e
deles não participarei” (Sl 119.37; Jz 14.1,2; 2Sm 11.2; 2Rs 16.10; Jó 31.1; Pv 4.25; 17.24; Nm 15.39; Jó 31.7; Pv 21.4; Ec 2.10;
Jr 22.17). A palavra hebraica aqui traduzida por “pernicioso” (qualquer ato que tenha parte com o “mal”) é, curiosamente, igual
ao nome Belial (v.4; Dt 13.13; 2Co 6.15).
4
O rei Davi, apesar de suas fraquezas humanas, buscou – de todo o coração – santificar-se ao Senhor. Um coração perverso
e uma língua mentirosa são, conforme a tradição sapiencial bíblico-hebraica, a raiz e o fruto (18.26; Pv 17.20; 11.20; 18.19; 19.1;
28.6). A soberba é o âmago do pecado, fazendo o ser humano adorar a si mesmo (v.5).
5
Era costume os reis julgarem as causas do povo, ao romper da aurora. A prática enérgica dos princípios divinos – manhã após
manhã, dia a dia – ensina os discípulos de Deus, até que a Cidade Santa se torne uma antecâmara dos Céus (Is 50.4).
Capítulo 102
1
Considerando a estreita relação que sempre houve entre o que acontecia com o rei e o destino da nação de Israel, e por
causa do tema comum aos salmos régios, conclui-se que esta é uma oração de um rei davídico, ou membro da linhagem e casa
real de Davi, durante o exílio na Babilônia (vv.1,17; 61.2; 77.3; 142.3; 143.4 conforme 107.5; Jn 2.7). A expressão “lamento”, que
aparece na epígrafe (que nos originais hebraicos se constitui no primeiro versículo), é traduzida também por “queixa” ou “aflição”
(64.1; 142.2; Jó 7.13; 9.27; 10.1; 21.4).
2
A erva carpida logo se abate e seca por não receber mais a seiva da vida. Aqui, as expressões “coração” e “ossos” (v.3) são
usadas poeticamente para refletir o ser humano como um todo; na visão hebraica, corpo e espírito (22.14; Pv 14.30; 15.30; Is
66.14; Jr 20.9; 23.9; Sl 121.6-8; 90.4-6).
3
Duas palavras diferentes são usadas no original hebraico para se referir a “aves de mau agouro que vivem no deserto” (Lv
11.16-18; Jr 50.39; Sf 2.14). A coruja era associada às áreas desérticas e às ruínas (Is 34.11,15). O salmista sente-se como um
pardal solitário, sem amigos e alvo dos ardis e ataques de inimigos cruéis.
4
Na profunda angústia e depressão, o prato mais saboroso não tem melhor paladar que a cinza.
SALMOS 101, 102
102
para sempre e serás lembrado, de geração
em geração.
5
13
Tu te erguerás e terás misericórdia de
Sião, porque já é tempo de teres piedade;
sim, o momento chegou.
14
Pois teus servos amam até as pedras de
suas cidades destruídas e a poeira de seus
caminhos arruinados.
6

15
As nações temerão o Nome do Eterno,
e todos os reis da terra, tua glória,
16
quando o SENHOR reconstruir Sião e
aparecer em sua glória,
7
17
quando se voltar para a oração dos es-
poliados e deixar de rejeitar sua prece.
18
Que isso seja escrito para a geração fu-
tura, para que um povo, que ainda será
criado, louve o SENHOR, declarando:
19
“O SENHOR se debruçou do alto do seu
santuário, lá nos céus, e olhou para a terra,
20
para ouvir o gemido dos cativos e li-
bertar os condenados à morte,
21
para que em Sião se proclame o Nome
do SENHOR e seu louvor, em Jerusalém,
22
quando se reunirem povos e reinos
para servir ao SENHOR”!
23
Ele reduziu minhas forças em pleno
caminho, abreviou meus dias.
24
“Meu Deus – disse eu - não me arre-
bates na metade dos meus dias, Tu, cujos
anos duram por gerações!”
25
Outrora fundaste a terra, e os céus são
obra de tuas mãos.
26
Eles perecerão, mas tu permaneces; to-
dos eles se desgastarão como um manto;
Tu, como a roupa, os trocarás, e serão
abandonados.
8

27
Tu, porém, és o que és, e teus anos não
têm fim.
28
Os filhos de teus servos se estabele-
cerão, e seus descendentes se manterão
diante de ti!
Hino à suprema graça de Deus
Um salmo davídico.
103
Bendize, ó minha alma, ao Se-
nhor, e todas as minhas entra-
nhas, seu santo Nome!
1
2
Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e
não te esqueças de nenhum dos seus be-
nefícios!
3
É Ele quem perdoa todos os teus peca-
dos e cura todas as tuas enfermidades.
4
Ele resgata da sepultura a tua vida e te
coroa de amor e misericórdia.
5
Ele sacia de bens a tua existência, de
maneira que a tua juventude se renova
como o vigor de uma águia.
2
6
O Eterno realiza atos de justiça e de di-
reito, em favor de todos os oprimidos.
7
Ele revelou seus caminhos a Moisés e,
aos israelitas, seus feitos maravilhosos.
8
O SENHOR é misericordioso e clemente,
lento para a cólera, mas paciente e gene-
roso em seu amor.
3

5
Porque Deus é uma pessoa indestrutível, que reina para sempre com absoluto poder (tema da coletânea Sl 92 – 100), suas
misericórdias não falharão jamais, especialmente para os que nele depositam fé sincera para a salvação (v.27; 30.4 de acordo
com os salmos 111; 135; 145).
6
Sião (Jerusalém), a Cidade Santa, é muito amada pelos servos de Deus e, mais ainda, pelo próprio Senhor. O salmista sofre
por causa do exílio na Babilônia (586 a.C.), mas sabe que já é hora de a profecia do juízo e da libertação se cumprir (3.7; 46.4;
48.1-8; 75.2; 87.3; 101.8;132.13; Êx 9.5; 2Sm 24.15; Dn 11.27,35; ). Exercer fé no amor e na soberania de Deus é o melhor remédio
para todos os momentos de crise e tristeza.
7
Esta esperança profética encontra sua expressão mais plena na vinda da “Nova Jerusalém” (Ap 21; Sl 46.10; Is 40.1-5). Só o
Senhor pode atender, perfeitamente, a oração do coração humilde e desamparado (Sl 51.17).
8
Deus é indestrutível, incansável, absoluto e eterno. A terra e a primeira criação cederão lugar para uma nova criação, enquanto
o Senhor permanecerá o mesmo: imutável, fonte segura da verdade e da vida (Is 65.17; 66.22). Todo o Universo, obra do Criador,
é uma simples expressão da vontade divina, um símbolo físico da majestade de Deus; pode ser totalmente trocado como a roupa
que usamos (Ap 21.1; Sl 8.1-4; 19.1; 29.3-9; 104.1,31; Is 6.3; Jó 40.10).
Capítulo 103
1
Louvor intenso e profundo, fruto de vívida experiência pessoal do salmista com o amor leal de Deus. Convocações à adora-
ção do Senhor integram o prelúdio e poslúdio deste hino, bem como determinam seu tom (vv. 1,2,20-22; Sl 101). A expressão
hebraica original “minha alma” era a maneira típica de os hebreus se referirem ao próprio íntimo, às entranhas psicológicas e
emocionais (Sl 104.1,35; 116.7).
2
As forças, os sonhos e o dinamismo da juventude são restaurados a ponto de poderem ser comparados ao proverbial vigor
inesgotável das poderosas águias de Is 40.31.
3
Os grandes feitos de Deus ficaram marcados na história da humanidade e, muito especialmente, na história do povo judeu
(v.3; Dt 8.2-4; Êx 33.13; 34.6-8).
SALMOS 102, 103
103
9
Não nos castiga o tempo todo, nem
guarda rancor para sempre.
10
Não nos trata segundo os nossos pe-
cados nem nos retribui de acordo com as
nossas culpas.
11
Pois, como os céus se elevam acima da
terra, assim é imenso o seu amor para
com os que o temem.
12
Quanto dista o Oriente do Ocidente,
assim também Ele afasta para longe de
nós as nossas próprias transgressões.
13
Como um pai se enternece pelos filhos,
assim, semelhantemente, o SENHOR tem
compaixão de todos aqueles que o temem.
4

14
Porquanto Ele conhece a nossa estru-
tura, lembra-se de que somos pó.
15
A existência do ser humano é seme-
lhante à relva; ele floresce como a flor do
campo,
16
que se esboroa quando o vento sopra e
ninguém mais se lembra do lugar onde a
planta estivera firmada.
17
Mas o amor leal do SENHOR é, desde
sempre e para sempre, para aqueles que
o temem; e sua justiça, para os filhos de
seus filhos,
18
com todos os que guardam a sua alian-
ça e se lembram de obedecer aos seus
mandamentos.
19
O SENHOR estabeleceu o seu trono nos
céus e, como Rei, domina sobre tudo o
que existe.
20
Bendizei ao SENHOR vós, seus anjos,
forças poderosas de elite que amais a
sua Palavra e obedeceis a todas as suas
ordens.
21
Bendizei ao SENHOR vós todos, seus
exércitos; vós seus ministros, que cum-
pris sua vontade!
5
22
Bendizei ao SENHOR todas as suas
obras, em todos os lugares do seu domí-
nio eterno! Bendize ao SENHOR, ó minha
alma!
Hino a Deus, o Criador
104
Bendize, ó minha alma, o Eter-
no: “SENHOR, meu Deus, Tu és
deveras grandioso! Estás vestido de ma-
jestade e magnificência!”
1
2
Vestido de esplendorosa luz, como num
manto, Ele estende os céus como uma
tenda,
3
e deposita sobre as águas dos céus as
vigas dos seus aposentos. Faz das nuvens
a sua carruagem, e cavalga nas asas do
vento.
2

4
Dos ventos faz seus mensageiros, e de
seus ministros, labaredas de fogo.
3

5
Criaste a terra, assentando-a sobre base
firme, para que seja para sempre indes-
trutível!
6
Como se estendesses sobre ela um
manto, assim a cobriste com os oceanos;
as águas cobriam as montanhas.
4
O povo de Deus não pode se esquecer de que o Senhor nos trata especialmente como seus filhos, não apenas como nosso
Rei e Senhor. A ternura do pai brota do seu amor paterno e do seu cuidado para com a fragilidade de seus filhos (Hb 4.14-16;
12.5-11; Sl 78.39; 109.12; Lc 1.50).
5
Apenas neste versículo e no Sl 148.2, a expressão original hebraica, aqui traduzida por “exércitos”, é masculina. Nesses
dois textos, os “exércitos” são compostos por “seres angelicais” (servos ou ministros). “Servo” é o particípio do verbo hebraico
traduzido por “servir” em 101.6 (Sl 91.11; 104.4; Hb 1.14).
Capítulo 104
1
O mesmo apelo do salmo anterior; porém, aqui, o poema sagrado reflete a contemplação das forças e das maravilhas da
natureza. O salmista canta a glória do seu Criador e Sustentador, oferece um vislumbre do mundo angelical (v.4) e, de passagem,
menciona o ser humano, pois seu foco é a criação dos elementos e de todos os seres vivos ao seu redor, que ele considera o
manto esplendoroso e original, com que o Criador se vestiu no princípio das eras, com o objetivo de revelar sua glória ao Universo
(v.6; 102.25,26; Gn 1.3-5; Jo 1.5).
2
O poeta do Senhor usa belas e significativas metáforas para demonstrar o poder, a criatividade e o amor de Deus. A palavra
hebraica original traduzida por “aposentos”, no singular, refere-se a um quarto especial, no andar superior da casa (cenáculo)
como em 1Rs 17.19; 2Rs 1.2; Mc 14.15; At 1.13). Segundo a linguagem figurada do AT, das águas acima da tenda, o Senhor der-
rama a chuva para rejuvenescer a terra (v.2,13; Gn 1.7; Sl 36.8). As nuvens são como suas carruagens adornadas de majestade
(Sl 18.7-15; 68.4; 77.16-19).
3
O poder justo, amoroso e criador de Deus é ilimitado: tanto pode transformar seus mensageiros em grandes forças cósmicas,
como pode usar essas forças a seu serviço e missão. A expressão original hebraica traduzida aqui por “mensageiros” pode
igualmente significar “anjos” ou “ministros”. Os ventos, raios e relâmpagos são aqui personificados como agentes dos propósitos
divinos (Sl 148.8; 103.21).
SALMOS 103, 104
104
7
Diante da tua repreensão, as muitas
águas começaram a refluir, puseram-se
em fuga ao ribombar dos teus trovões;
4
8
subiram pelos montes e escorreram pe-
los vales, para os lugares que tu mesmo
lhes designaste.
9
Estabeleceste um limite que não podem
ultrapassar; nunca mais voltarão a cobrir
a terra.
5
10
É Ele quem faz jorrar as fontes nos va-
les; elas correm por entre os montes;
6
11
delas bebem todos os animais selva-
gens, e os jumentos selvagens saciam sua
sede.
12
As aves do céu fazem ninho junto às
águas e, entre os galhos, põem-se a can-
tar.
13
É Ele quem, dos seus altos patamares,
rega as montanhas, e a terra se sacia do
fruto de suas obras;
14
faz brotar a erva para o gado, as plan-
tas que o homem cultiva, tirando da ter-
ra o alimento,
15
o vinho que alegra o coração, o óleo
que dá brilho às faces e o pão que susten-
ta o vigor dos seres humanos.
16
As árvores do SENHOR saciam-se e os
cedros do Líbano que Ele plantou,
17
nos quais os pássaros fazem seu ninho,
em cujos cimos a cegonha tem pousada.
18
As altas montanhas pertencem às ca-
bras montesas, os penhascos dão abrigo
aos roedores de várias espécies.
19
Foi Ele quem fez a lua para marcar as
estações, e o sol conhece seu ocaso.
7
20
Quando desdobras as trevas, faz-se
noite, na qual rondam as feras da selva.
21
Os leões rugem por alguma presa, bus-
cando de Deus seu alimento;
22
mas ao nascer do sol recolhem-se e vão
se deitar nos covis.
23
O homem sai para seu trabalho, para o
seu labor até o pôr-do-sol.
24
Quão numerosas são as tuas obras, ó
SENHOR! Fizeste-as todas com perfeita sabe-
doria. A terra está repleta de tuas criaturas.
25
Eis o mar, vasto e profundo. Nele vi-
vem inúmeras criaturas, seres vivos, mi-
núsculos e enormes!
26
Por ele singram os navios e também
o Leviatã que criaste, para com ele se di-
vertir.
8
27
Todos esperam em ti que lhes dês ali-
mento no devido tempo.
28
Tu lhes dás, e eles o recolhem; abres a
mão, e eles se fartam de bens.
29
Escondes a tua face, e eles se pertur-
bam; se retiras o seu alento, perecem e
voltam a seu pó.
30
Quando envias o teu fôlego, eles são
criados, e renovas a face da terra.
31
Perdure para sempre a glória do SE-
NHOR! Alegre-se o SENHOR em suas reali-
zações maravilhosas!
32
Ele olha para a terra, e ela treme; Ele
toca as montanhas, e elas fumegam.
9
33
Enquanto eu viver, cantarei ao SENHOR;
entoarei louvores ao meu Deus, enquan-
to eu existir.
34
Que as minhas meditações lhes sejam
agradáveis, pois no SENHOR depositarei
toda a minha satisfação!
4
Uma alusão ao terceiro dia da Criação e ao poder criador da Palavra de Deus (Gn 1.3; Jo 1.1-3; Sl 76.6).
5
Com segurança, Deus estabeleceu a porção seca em contraposição aos céus e aos oceanos (Gn 1.10; Sl 24.2; 93.1; 96.10).
O Senhor firmou um limite, a fim de que a terra habitável jamais seja dominada pelo mar (v.5; Sl 33.7; Gn 9.15).
6
A terra é o jardim florescente da vida criado por Deus, e o ser humano, o ápice da sua criação. O que fizemos do planeta
que Deus nos deu para cultivarmos e sermos felizes? Em seguida temos uma descrição do amor leal e cuidadoso de Deus em
sustentar todos os seres vivos no mundo que criou (vv.10-18). A dádiva das águas de baixo, irrigando as ravinas do Neguebe.
E a dádiva das águas de cima, irrigando as regiões altas de Israel, onde se estabeleceram os principais campos cultivados. O
Líbano com suas árvores gigantes, muitas aves e animais alpinos, formam uma sinopse do jardim de Deus na terra (Sl 72.16;
2Rs 14.9; 19.23; Is 10.34; 35.2; 40.16; 60.13; Jr 22.6; Os 14.7). Nenhuma criatura, por mais simples que seja, escapa ao cuidado
meticuloso de Deus (v.18; Mt 6.26).
7
Os principais astros cósmicos, o sol e a lua, foram criados para ordenar o ciclo da vida; o tempo, as épocas e as estações
(Ec 3.1-8; Gn 1.14).
8
O salmista reduz metaforicamente o enorme e terrível monstro dos mares, na mitologia hebraica, à condição de animalzinho
de estimação de Deus, que brinca inofensivo pelos oceanos do planeta (Jó 3.8).
9
Deus é maior que todo o Universo, sua criação (Gn 1.1,2). O Senhor pode desfazer absolutamente tudo o que criou com um
mero olhar ou simples toque de suas mãos. Deus é o Doador da Vida e o Renovador do nosso ser (Jo 3.5,16; 10.10; 11.25; 14.6).
SALMOS 104
105
35
Que os pecadores desapareçam da ter-
ra, e os ímpios sejam extinguidos! Ben-
dize, ó minha alma, ao SENHOR. Louvado
seja o Eterno! Aleluia!
10

As obras de Deus por Israel
105
Louvai ao SENHOR, invocai o
seu Nome, proclamai seus fei-
tos entre os povos!
1
2
Cantai para Ele, entoai-lhe hinos, con-
siderai todas as suas maravilhas!
3
Gloriai-vos em seu santo Nome! Exulte
o coração dos que buscam o SENHOR!
4
Procurai o SENHOR e seu poder, buscai
sempre a sua face!
5
Recordai as maravilhas e os julgamen-
tos provenientes de sua boca,
6
vós, descendência de Abraão, seu servo,
vós filhos de Jacó, seus eleitos!
7
Ele é o SENHOR, nosso Deus; seus julga-
mentos estão em toda a terra.
8
Ele sempre se lembra de sua aliança, a
Palavra que ordenou para mil gerações,
2

9
aquela que Ele firmou com Abraão e
confirmou por juramento a Isaque.
10
Ele confirmou sua promessa como de-
creto a Jacó, aliança eterna para Israel, ao
declarar:
11
“Dar-te-ei a terra de Canaã como qui-
nhão de tua herança”.
12
Quando eram ainda poucos em nú-
mero, apenas um punhado de peregrinos
na terra,
3

13
migrando de nação para nação, de um
reino para outro povo,
14
não deixou ninguém oprimi-los; casti-
gou reis por sua causa, proclamando:
15
“Não toqueis em meus ungidos, não
maltrateis meus profetas!”
16
Chamou a fome sobre aquelas terras,
cortando todo o suprimento de pão.
17
Enviou à frente deles um homem, José,
vendido como escravo.
18
Prenderam-lhe os pés em grilhões, e
seu pescoço rendeu-se aos ferros,
19
até que se cumprisse sua predição e
a Palavra do Senhor confirmasse o que
profetizara.
20
O rei mandou soltá-lo, o governante
maior dos povos o pôs em liberdade.
21
Constituiu-o senhor de sua casa, e ad-
ministrador de todas as suas posses,
22
para orientar os oficiais como dese-
jasse, e minist rar sabedoria aos anciãos
do rei.
4
23
Ent rou então Israel no Egito, e Jacó
foi viver como est rangeiro na terra de
Cam.
5
24
E Deus fez multiplicar seu povo, tor-
nando-o muito mais poderoso que seus
inimigos.
25
A estes, mudou-lhes o coração, para
10
Uma vida de sincero e humilde louvor ao Senhor pode transformar em alegria todas as relações humanas (Cl 3.16). Que a
terra seja purificada do único elemento que a macula: o pecado em todas as suas formas e sutilezas (Ap 21.27).
Capítulo 105
1
Hino composto para ser ministrado a Israel, por um levita (1Cr 16.7-22), durante uma das principais festas solenes anuais, espe-
cialmente a Festa das Semanas (Êx 23.16; Lv 23.15-21; Nm 28.26; Dt 16.9-12; 26.1-11). O povo de Deus é admoestado e encorajado
a confiar no Senhor Jeová (Yahweh em hebraico), por causa de todos os seus maravilhosos atos salvíficos realizados em cumprimen-
to à sua Aliança com Abraão: a promessa de dar a seus descendentes a terra de Canaã. Os versos de 1 a 15 formam a primeira parte
do salmo cantado por Davi, quando trouxe a arca de Deus para Jerusalém; a outra metade se encontra no Sl 96.
2
As promessas de Deus são irrevogáveis (Gn 15.9-21; Rm 11.29). A Aliança do Senhor refere-se às promessas que são repetidas
na vida de cada Patriarca (Gn 22.17-18). Este versículo e o seguinte ecoam no NT, em Lc 1.72-73 (Êx 20.6; Dt 7.9; 1Cr 16.15).
3
Os versos 12 a 41 formam um recital dos atos salvíficos de Deus a favor do seu povo, desde o momento em que a Aliança
foi outorgada (v.11; Gn 15.9-20), até seu cumprimento (v.44; Js 21.43), de acordo com o recital ordenado por Moisés, juntamente
com a cerimônia de oferta das primícias (Dt 26.1-11).
4
Este versículo pode ser transliterado, a partir dos manuscritos hebraicos, da seguinte forma: Leessor sarav benafsho, uzkenav
iechakem. A palavra “orientar, ou, instruir” é, literalmente, “amarrar”. Aquele povo, cujo pescoço (nafsho) havia sido preso com
ferros, agora recebeu autoridade para “amarrar” (benafsho) os príncipes do faraó, conforme a sua vontade. Os conselheiros do
faraó eram, normalmente, homens mais velhos, com ampla experiência de vida e notável cultura (Êx 3.16). Embora “ferros” (v.18)
não sejam mencionados em Gn 39.20-23, pois o ferro somente passou a ser de uso comum entre eles numa época histórica
posterior, o autor deste salmo toma a liberdade poética de usar os termos de seu tempo (Jó 13.27; 33.11). As correntes e grilhões
da antiguidade eram forjados em bronze (Jz 16.21).
5
Israel é o nome que o Senhor Deus concedeu a Jacó, e que foi herdado por seus descendentes. Em Gn 10.6, o povo do Egito
(Mizraim) consta como descendência de Cam, filho de Noé.
SALMOS 104, 105
106
que odiassem seu povo e tratassem seus
servos com perfídia.
6

26
O Senhor enviou Moisés, seu servo, e
Arão, a quem tinha escolhido,
27
por meio dos quais realizou os seus
sinais miraculosos e seus maravilhosos
feitos na terra de Cam.
28
Mandou trevas, e fez-se escuridão; e
não puderam contestar sua Palavra.
29
Converteu a água em sangue e fez
morrer os peixes.
30
Seu país fervilhou de rãs, até nos apo-
sentos de seus reis.
31
Ele ordenou e vieram insetos, mosqui-
tos em todo o seu território.
32
Em vez de chuva deu-lhes granizo e
raios flamejantes sobre sua nação.
33
Arrasou-lhes os vinhedos e as figueiras,
e destruiu as árvores de toda a sua terra.
34
Outra vez Ele ordenou, e vieram nu-
vens de gafanhotos e incontáveis enxa-
mes de larvas,
35
que devoraram toda a vegetação e os
frutos daquela terra.
36
Depois matou todos os primogênitos
da terra deles, todas as primícias de sua
virilidade.
37
O Senhor libertou Israel daquele povo,
que saiu cheio de prata e ouro. E não se
encontrava em suas tribos quem fosse
trôpego.
38
Todo o Egito muito se alegrou com a
saída de Israel, porquanto grande era o
pavor do povo de Deus.
39
Então, Ele estendeu uma nuvem para
lhes dar sombra como um toldo, e um
clarão de fogo para iluminar a noite.
40
Pediram, e Ele mandou codornizes, e
os saciou com pão do céu.
41
Fendeu a rocha e dela brotaram águas
puras, que correram qual torrente pelo
deserto.
42
Porquanto estava lembrado da sua Pa-
lavra sagrada e de Abraão, seu servo.
43
E conduziu com alegria o seu povo e,
com jubiloso canto, os seus escolhidos.
44
Concedeu-lhes as terras dos pagãos, e
eles tomaram posse do fruto do trabalho
de outros povos,
45
para que obedecessem aos seus decre-
tos e guardassem as suas leis. Aleluia!
7
A ingratidão do povo de Deus
106
Aleluia!
Dai graças ao SENHOR, por-
quanto Ele é bom; o seu amor dura para
sempre!
1
2
Quem poderá proclamar as proezas do
SENHOR e apregoar todo o louvor que me-
rece?
3
Felizes os que observam o direito e pra-
ticam a justiça em todo o tempo!
4
Lembra-te de mim, ó Eterno, de acordo
com a tua benevolência para com teu povo;
vem em meu socorro quando o salvares,
5
para que eu possa ver a felicidade dos
eleitos, alegrar-me com a felicidade de teu
povo e gloriar-me com a tua herança!
6
Pecamos, como nossos antepassados, co-
metemos iniqüidades, praticamos o mal.
2
6
Os autores das Escrituras, especialmente no AT, demonstram compreensão teológica em relação à soberania de Deus sobre o
Universo e, particularmente, sobre o povo de Israel; tão completa e perene soberania, que governa até mesmo o mal que os homens
tentam e praticam contra Israel. Não que Deus mande o mal a alguém, mas que ele usa o mal a fim de ensinar à humanidade, e
especialmente aos seus, o que significa o temor do Senhor (Êx 4.21; 7.3; Js 11.20; 2Sm 24.1; Is 10.5-7; 37.26,27; Jr 34.22). Mais uma
vez Deus permite a desgraça aparente, com o propósito de prosseguir com os seus atos salvíficos e graciosos (Rm 8.28).
7
O motivo dos feitos portentosos e salvíficos de Deus é a preparação de um povo (judeus e gentios de todas as partes) que
adore e obedeça ao Senhor de todo o coração e para sempre (1Pe 2.9-10; Tt 2.11-14).
Capítulo 106
1
Poema davídico para ser cantado pela congregação, de autoria de um dos levitas que retornaram para Jerusalém, logo após o
exílio. O primeiro versículo e os dois últimos foram adotados de uma peça literária mais antiga (1Cr 16.34-36). A expressão hebraica
original ¨_ ` `7 7 ¨ (transliterado em Alelu – yah ou Haleluiá) significa “Louvai ao Senhor!” (Sl 100; 107.1; 118.1,29; 136.1-3). “Aleluia!”
é o início e o final deste salmo convocatório à adoração, e nos revela o longo histórico de desobediência do povo de Israel, que sim-
boliza a rebeldia da própria raça humana, posto que o ser humano já nasça demonstrando todo o seu potencial rebelde e egoísta, e
tenda a viver assim até a morte. A não ser que aceite a graça reconciliadora de Deus e nasça de novo (Jo 3; Rm 5.20).
2
O salmista, como líder espiritual, não se exclui da responsabilidade dos pecados de seu povo (Ed 9.6,7). Ao mesmo tempo
faz-nos lembrar que a “alegria” é um dom divino concedido a todo crente. Ainda que sob provações e sofrimentos, jamais perde-
mos a convicção do amor leal e generoso do Senhor (Jo 14.27; Gl 5.22).
SALMOS 105, 106
107
7
Nossos pais, no Egito, não deram a
devida atenção a teus sinais milagrosos;
esquecidos de teus inúmeros favores,
rebelaram-se junto ao mar, o mar Ver-
melho.
8
Entretanto, Ele os salvou por causa do seu
Nome, para deixar manifesto o seu poder.
9
Repreendeu o mar Vermelho, e este se-
cou; permitiu-lhes andar pelas profun-
dezas, como por um deserto!
10
Salvou-os da mão daquele que os odia-
va; resgatou-os das garras do inimigo;
3
11
as águas cobriram seus adversários,
sem que um só deles restasse.
12
Então creram em suas promessas, e a
Ele entoaram cânticos de louvor.
13
Muito depressa, porém, esqueceram
seus feitos e não quiseram esperar para
conhecer mais de seus desígnios.
14
Dominados pela fome no deserto, pu-
seram Deus à prova, nas regiões áridas.
15
Concedeu-lhes tudo o que reclama-
vam, mas, por sua gula, mandou-lhes
uma doença horrível.
16
No acampamento eles invejaram Moi-
sés e Arão, o consagrado do SENHOR.
4
17
Então, abriu-se a terra e engoliu Datã,
e sepultou o grupo de Abirão.
18
Um fogo consumiu aquele bando, uma
chama tornou os ímpios em brasa.
19
Em Horebe construíram um bezerro,
adoraram uma estátua feita de metal;
20
trocaram Aquele que é a Glória deles
pela imagem de um boi que se alimenta
de capim!
5
21
Esqueceram-se de Deus, seu Salvador,
que fizera portentos no Egito,
22
maravilhas na terra de Cam e realiza-
ções magníficas junto ao mar Vermelho.
23
Por isso, Ele ameaçou destruí-los; po-
rém Moisés, seu escolhido, intercedeu
em sua presença, a fim de evitar que sua
ira os consumisse a todos.
6
24
Da mesma forma rejeitaram a terra
aprazível do Senhor; não creram em sua
Palavra,
25
mas murmuraram em suas tendas e
não obedeceram à voz do Eterno.
26
Então lhes jurou, de mão erguida, que
os havia de abater no deserto,
27
e prostraria todos os seus descendentes
entre as nações e os dispersaria por ou-
tras terras longínquas.
28
Aderiram ao culto de Baal-Peor e co-
meram dos sacrifícios pelos mortos.
29
Assim, com seus atos, o provocaram
à ira, e irrompeu entre eles uma peste
mortal.
30
Mas Finéias se interpôs para executar
o juízo, e a praga foi interrompida.
31
Isso lhe foi creditado como um ato
de justiça, de geração em geração, para
sempre.
7
32
Contudo, eles ainda provocaram a in-
3
A mesma voz poderosa que afugentou o caos e as trevas primevas, agora retira o obstáculo que fazia separação entre o povo
de Deus e a liberdade. Esse mesmo fenômeno divino pode ocorrer em nossas vidas, hoje, diante de todos os nossos obstáculos
(Sl 104.7; Gn 1.3). O povo estava na escravidão, e Deus “comprou” para si os que sempre foram seus. Esta expressão descreve
bem a obra de Cristo como nosso Redentor, pois que pagou cabalmente todo o custo do pecado da humanidade, a fim de nos
libertar para sempre das garras de Satanás, da nossa própria índole carnal, e da morte eterna (v.9; Ef 1.7; Êx 14.28).
4
A expressão hebraica original “consagrado”, aqui usada, também pode ser traduzida como “santo”. Ou seja, aquela pessoa
que o próprio Deus vocacionou e separou para a ministração da sua obra entre o povo. O sacerdócio fez parte do plano de Deus;
não foi uma invenção de Israel (Êx 28 com Zc 3).
5
O salmista, ironicamente, coloca diante dos idólatras o ridículo e aviltante culto a qualquer ser ou coisa criada por Deus. O
mais grave prejuízo causado pela idolatria é afastar as pessoas da esplendorosa e magnificente “Glória” de Yahweh (Jeová ou
Javé), o nome impronunciável de Deus, em hebraico (Rm 1.18-23). O Senhor se revelou como Salvador, através de toda a história
da humanidade e, particularmente pela peregrinação de seu povo. Portanto, Cristo, o Filho e a Glória de Yahweh, é o absoluto
Senhor e Salvador de todo o “verdadeiro Israel” (v.21; Gl 6.16).
6
Faz parte do plano de Deus, para o desenvolvimento espiritual da humanidade, que seus escolhidos (todos os crentes), parti-
cipem de coração compassivo e perdoador, fazendo súplicas e intercedendo, com fé, uns pelos outros (Êx 32.11-14).
7
O salmista parte de uma analogia para concluir que assim como a fé que Abraão demonstrou lhe foi atribuída como justiça
(Gn 15.6), também ocorreu com Finéias, devido ao seu zelo sacerdotal pela pessoa e obra do Senhor (Nm 25.7,8). A aliança do
sacerdócio perpétuo foi outorgada a Finéias como recompensa misericordiosa de Deus por sua dedicação sincera. A aliança de
Deus com Abrão foi outorgada após o Senhor lhe creditar fé como justiça (Gn 15.9-21); o mesmo aconteceu na celebração das
alianças entre Deus e Noé (Gn 9.9-17) e entre Deus e Davi (2Sm 7.5-16).
SALMOS 106
108
dignação do Senhor junto às águas de
Meribá e, por causa deles, aconteceu um
infortúnio a Moisés,
33
porquanto, sendo rebeldes contra o
Espírito de Deus, induziram Moisés a fa-
lar sem refletir.
8
34
Eles também não destruíram os pa-
gãos, como o SENHOR havia ordenado,
9
35
em vez disso, misturaram-se com esses
povos e imitaram suas práticas.
36
Prestaram culto aos ídolos, que se tor-
naram uma armadilha para eles.
37
Chegaram ao ponto de sacrificar seus
filhos e filhas aos demônios.
38
Derramaram sangue inocente, o san-
gue de seus próprios filhos e filhas, sacri-
ficados aos ídolos de Canaã; e a terra foi
profanada pelo sangue deles.
39
Tornaram-se impuros por meio dos
seus atos infames; prostituíram-se por
suas más ações.
10
40
Por tudo isso se inflamou a ira do SE-
NHOR contra seu povo, e Ele sentiu repug-
nância por sua herança.
41
Entregou-os nas mãos dos pagãos, e os
seus adversários dominaram sobre eles.
42
Seus inimigos os oprimiram e os hu-
milharam com seu poder.
43
Ainda assim, Ele os tem libertado mui-
tas vezes, embora prosseguissem em seus
planos de rebelião e afundassem cada vez
mais em sua malignidade.
44
Contudo, Deus atentou para o sofrimen-
to deles, quando ouviu o seu clamor.
11
45
Lembrou sua aliança com eles, e ar-
rependeu-se, por causa do seu imenso
amor leal.
12
46
Fez que obtivessem clemência de todos
os que os haviam deportado.
13

47
Salva-nos, SENHOR, nosso Deus, e recolhe-
nos dentre as nações pagãs, a fim de que
possamos dar graças ao teu santo Nome e
fazer do teu louvor a nossa glória perene.
48
Bendito seja o SENHOR, Deus de Israel,
desde sempre e para sempre! Que todo o
povo declare: “Amém!”
Aleluia!
QUINTO LIVRO
Salmos de 107 a 150
Deus salva de todas as afições
107
Rendei graças ao SENHOR, por-
que Ele é bom, e a sua miseri-
córdia dura para sempre.
1
2
Que o digam os redimidos do SENHOR, os
8
O povo havia se tornado rebelde e caído no pecado de relativizar ou desprezar a perpétua e milagrosa salvação que Deus
concede. O mesmo erro foi cometido pelos sacerdotes e teólogos (fariseus) contra a pessoa e a obra do Filho de Deus, não
reconhecendo o amor e o poder de Deus expresso na vida e nos milagres de Cristo (Mt 12.22-32). Ao contrário de Jesus Cristo,
Moisés não conseguiu suportar com paciência a provocação de Israel no deserto, e em vez de proclamar a compaixão de Deus
em prover de água, o seu povo, desafiou-o (Nm 20.5-11). Embora a leitura de alguns manuscritos possa ser transliterada assim:
Ki himru et rucho, vaivate bisfatav, que significa literalmente “pois exasperaram seu espírito, levando-o a pronunciar palavras ás-
peras”, no entanto, à luz de uma melhor exegese e do contexto bíblico geral, o Comitê de Tradução da KJA optou por esta forma
de tradução (Is 63.10-14; Sl 78.40; Êx 31.3; Nm 11.17; 24.2; Ne 9.20).
9
A expressão hebraica, muitas vezes traduzida simplesmente pela palavra “nações”, tem o significado amplo de “pagãos”
(povos sem fé no Único Deus – Yahweh). Portanto, devemos expulsar das nossas vidas qualquer motivo de tentação ou “laço”
ou “armadilha” (v.36; Sl 101.5; 2Co 6.17). Paulo nos ensina que sacrificar (cultuar) a ídolos e imagens (marcas) é reverenciar os
próprios demônios (1Co 10.19-20). Os rituais pagãos incluíam o flagelo e o sacrifício físico de crianças (v.37).
10
A prostituição não nasceu simplesmente como forma de comércio sexual: sua origem tem a ver com a infidelidade religiosa,
que levou os crentes em Deus a se envolverem com os rituais idólatras, que incluíam sacerdotisas oferecendo seus corpos aos
homens, como uma forma de culto aos deuses pagãos (Os 1 a 3; Ap 19.1-10).
11
O olhar de Deus é algo poderoso e sublime. Somente o Senhor é capaz de contemplar e compreender o mais íntimo e
secreto da nossa alma e ministrar sua compaixão, cura e salvação (Lc 22.61-62; 1Jo 2.1,2).
12
Ficou provado que a humanidade não tem a menor esperança de viver em retidão para com Deus e em fraternidade nesta
terra. Portanto, a única chance real de salvação e nova vida repousam nas promessas (na Palavra) do próprio Deus, cuja plenitude
é a pessoa de Jesus Cristo (Jo 1.1-14).
13
O amor leal de Deus fez que até os próprios pagãos fossem mobilizados para cuidar do seu povo no cativeiro, fossem esses
povos babilônicos (2Rs 25.27-30), ou persas (Ed 6.1-12).
Capítulo 107
1
Israel havia experimentado uma vez mais as poderosas e generosas misericórdias do Senhor em seu retorno do humilhante
exílio da Babilônia (v.3; Jr 33.11). Aqui, um levita responsável por reunir o povo para celebrar o amor leal e inesgotável de Deus,
SALMOS 106, 107
109
que Ele resgatou da mão do inimigo
3
e reuniu dos países do Oriente e do
Ocidente, do Norte e das bandas do Sul!
2
4
Alguns andavam errantes pelo deserto,
por terras inóspitas, sem encontrar ca-
minho para alguma cidade habitada.
3
5
Passavam fome e sede, que a vida se lhes
esvaía.
6
Então, na angústia, clamaram ao SENHOR,
e Ele os livrou de suas tribulações:
7
fê-los tomar um caminho reto, para
chegarem a uma cidade habitada.
8
Louvai, pois, ao Eterno por seu amor
leal, por seus milagres em favor dos fi-
lhos dos homens!
9
Pois Ele dessedentou a alma sequiosa e
cumulou de bens a alma faminta.
10
Alguns habitavam na escuridão mor-
tal, prisioneiros da miséria e dos grilhões
de ferro,
4
11
porquanto se revoltaram contra as or-
dens de Deus, desprezando o desígnio do
Altíssimo.
12
Por isso, Ele os humilhou por meio de
trabalhos pesados; sucumbiram, e não
houve alguém que os socorresse.
13
Então, na sua grande aflição clamaram
ao SENHOR, e Ele os livrou de todas as suas
tribulações:
14
tirou-os da escuridão e das espessas
trevas, e rompeu seus grilhões!
15
Dêem graças ao SENHOR por seu amor
leal, por seus milagres em favor dos seres
humanos.
16
Porquanto arrebentou as portas de
bronze e rompeu as trancas de ferro!
17
Alguns, embrutecidos por sua conduta
insana, sofriam por causa de suas iniqüi-
dades.
18
Todo alimento lhes provocava náuseas,
e já tocavam os portais da morte.
5
19
Então, na sua angústia, clamaram ao
SENHOR, e Ele os livrou de suas aflições:
20
enviou sua Palavra para curá-los, para
salvá-los de sua extinção.
6
21
Rendam graças ao SENHOR por sua
bondade e pelas maravilhas que realiza
em favor de todo ser humano!
22
Ofereçam-lhe sacrifícios de ação de
graças e, com cânticos jubilosos, procla-
mem suas obras!
7
23
Os que se lançaram ao mar em navios,
exercendo sua profissão nas grandes águas,
24
esses viram as obras do SENHOR, seus
milagres em alto-mar.
25
A sua Palavra, levantou-se um vento
tempestuoso, que sublevava as ondas:
8
26
subiam até o céu, desciam aos abismos;
especialmente para com todos aqueles que reconhecem seu poder e clamam por sua intervenção, ministra à congregação um
salmo de adoração, como parte do grande recital sobre “as divinas maravilhas em favor da humanidade” (Sl 104 a 107).
2
O salmista refere-se também aos dispersos e cativos em outras terras: Assíria (2Rs 17.6) e Babilônia (2Rs 24.14,16; 25.11,26;
Jr 52.28-30; Ne 1.8; Et 8.5-13; Is 11.12; 43.5,6; Ez 11.17; 20.34). Este versículo pode ser assim transliterado, a partir dos originais
hebraicos: Umearatsot kibetsam, mimizrach umimaarav, mitsafon umiyam.
3
O original hebraico apresenta aqui um verbo impessoal (“andavam” ou “andaram”) que se refere a todos os viajantes perdidos
no deserto, que apelam ao Senhor e encontram socorro e alívio para suas angústias. Israel já havia experimentado as agruras do
deserto em sua peregrinação a Canaã; além disso, fazia fronteira, a leste, com o grande deserto da Arábia, pelo qual caravanas
de mercadores viajavam, e, a oeste, com o mar Mediterrâneo (vv.23-32). A história de Israel é uma grande metáfora da própria
história da rebelião de toda a humanidade contra seu Criador, mas, ao mesmo tempo, a saga do livramento divino em atenção ao
apelo humano por salvação, paz e felicidade (Sl 105 e 106).
4
Criminosos condenados à prisão perpétua e à morte não são apenas os malfeitores que atentam contra as leis civis, senão
igualmente todos aqueles que ofendem a Palavra de Deus (Rm 13.1-7).
5
Aqui se trata de um doente, enfermidade tem a ver com certa aflição provocada por uma vida estulta e descontrolada, sem
o temor do Senhor (v.17).
6
A ordem de Deus (Sua Palavra) aqui é personificada como agente do seu propósito (147.15,18; 23.6). É o Logos divino
quem traz perdão, consolo e restauração ao coração humilde e arrependido (Jo 1.1-12). O Supremo Juiz do Universo “ab-roga”
(expressão jurídica, em latim, relativa à determinação expressa de cessar a exigência do cumprimento cabal de uma determinada
lei), a condenação do pecador à morte eterna.
7
A atitude de cultivar um coração grato a Deus e render-lhe louvores por sua paciência e inúmeros atos de bondade é, de fato, um
sacrifício do eu, normalmente altivo e egoísta (Sl 51.17). Segue-se ao louvor sincero, um testemunho autêntico e poderoso (At 3.8).
8
O povo de Israel sempre viu no mar uma metáfora das profundezas tenebrosas; a mitologia hebraica é recheada de histórias
de monstros marinhos e episódios horríveis passados ou provocados pelos oceanos. As Escrituras também registram muitas pro-
vações enfrentadas em meio às águas bravias dos mares (Jn 1 e 2; At 27.9-44). Contudo, o Senhor, cuja voz domina os oceanos
e as tempestades (Sl 29), concede a mesma autoridade à pessoa do seu Filho Jesus Cristo (Mc 5.35-41).
SALMOS 107
110
no meio dessas angústias, desfalecia-lhes
a alma.
27
Andaram e cambalearam como bêba-
dos, e perderam todo o juízo.
28
Então, em meio ao seu desespero, cla-
maram ao SENHOR, e Ele os livrou de suas
tribulações:
29
reduziu a tormenta a silêncio, e emu-
deceram as temíveis ondas.
30
Alegraram-se, porque elas amainaram,
e Ele os conduziu ao porto ansiado.
31
Dêem graças ao SENHOR por seu amor
leal, por seus milagres em favor da raça
humana!
32
Exaltem-no na assembléia do povo e o
louvem no conselho dos anciãos.
33
Ele converteu rios, em desertos, e ma-
nanciais, em terra seca;
9
34
terra frutífera, em deserto salgado, por
causa da malignidade dos seus habitantes.
35
Transformou o deserto, em lençóis de
água, e a terra árida, em mananciais.
36
Fez ali habitar os esfomeados, que fun-
daram uma cidade habitável.
37
Semearam campos, plantaram vinhas
e colheram os frutos de grande safra.
38
Ele os abençoa, e eles se multiplicam;
e não permite que seus rebanhos dimi-
nuam.
39
Quando, porém, reduzidos, são humi-
lhados com opressão, desgraça e tristeza.
40
Deus derrama desprezo sobre nobres
e ricos incrédulos e os faz vagar num de-
serto sem caminhos.
10

41
Entretanto, levanta da miséria os po-
bres e necessitados, aumenta as suas fa-
mílias como rebanhos.
42
Os justos observam tudo isso e se ale-
gram, mas todos os ímpios são emude-
cidos.
43
Reflitam sobre isso os sábios e conside-
rem o amor leal do SENHOR!
11
Deus dá vitória a seus flhos
Um cântico de louvor. Salmo davídico.
108
Ó Deus, meu coração está fir-
mado em ti! Por isso cantarei e
louvarei ao SENHOR, ó Glória minha!
1
2
Harpa e cítara, despertai! Quero acor-
dar a aurora!
3
Ó Eterno, eu te darei graças entre todos
os povos, e entre as nações entoarei teus
louvores.
4
Pois teu amor leal é maior que os céus e
a tua fidelidade vai até as nuvens.
5
Sê exaltado, ó Eterno, acima dos céus;
estenda-se a tua glória sobre toda a terra!
2

6
Salva-nos com teu braço forte e res-
ponde às nossas orações, para que sejam
libertos aqueles a quem amas!
3

7
Em sua santidade, Deus declarou: “No
meu triunfo dividirei Siquém e repartirei
o vale de Sucote.
8
Gileade me pertence e Manassés tam-
bém; Efraim é o meu capacete, Judá é o
meu cetro.
9
O salmista nos oferece uma descrição geral da soberania de Deus em guiar a raça humana (vv.33-41), e faz um alerta sobre o
castigo reservado aos idólatras (Is 42.15-17; Gn 19.23-29). No entanto, os remidos serão presenteados com a honra do galardão
do Senhor (Is 35.6,7; 41.18; 42.15; 43.19,20; 50.2).
10
Temos aqui um eco de Jó 12.21,24. A prosperidade, quando não administrada sob o temor do Senhor, exacerba a arrogância
e o egoísmo humano, fazendo que o homem relativize seu amor e fé em Deus, dando mais importância aos bens e ao dinheiro
ao que ao amadurecimento da sua relação com o divino e desprezando a fé sincera e simples em Deus (Dt 31.20; 32.15). Por
isso, o Senhor se vê forçado a devolver tais pessoas ao “deserto”, a fim de poderem continuar sua caminhada de tribulações e
aprendizado (Dt 32.10; Os 2.3,14).
11
A grande conclusão do salmista revela que os insensatos e arrogantes (perversos), não conseguem ver, ouvir e muito menos
sentir a Palavra do Senhor, e tão somente seguem sua lógica primária e seus instintos egoístas (vv.33-41; Jó 5.16; Pv 2.21,22;
11.6,7; 12.6; 14.11; 15.8; 21.18,19; 29.27). Os sábios e justos consideram e obedecem à instrução de Deus, louvando ao Senhor
por seu amor leal, poder e longaminidade (vv. 4-32; Dt 32.29; Os 14.9).
Capítulo 108
1
Um hino de Davi ou de seus descendentes, exaltando o amor leal de Deus e suplicando o auxílio divino contra os inimigos
(57.7-11; 60.5-12; 103.11; 1Cr 16.8-36). O coração do fiel está firmado no Senhor, e essa é a razão indestrutível de sua confiança
e esperança. Haja o que houver, o futuro será sempre melhor para o crente.
2
O amor leal e a misericórdia divina são maneiras de descrever a própria natureza do Senhor (1Jo 4.16).
3
A Palavra de Deus produz libertação completa e inabalável para o povo do Senhor, bem como salvação eterna pelo divino
poder de sua destra (mão direita ou braço forte).
SALMOS 107, 108
111
9
Moabe é a bacia em que me lavo, sobre
Edom atiro a minha sandália, contra a
Filistéia lanço meu brado de vitória!”
10
Quem me levará à cidade fortificada?
Quem me conduzirá até Edom,
4

11
se não fores tu, ó Deus, que nos rejei-
taste; tu, ó Eterno, que já não sais com
nossas tropas?
12
Vem em nosso socorro contra os ad-
versários! Vã é a salvação que vem do ser
humano.
13
Com Deus faremos proezas, e Ele es-
magará os nossos inimigos!
5
Prece contra os caluniadores
Ao regente do coro. Um salmo davídico.
109
Ó Deus a quem adoro, não fi-
ques indiferente,
2
porquanto homens ímpios e falsos pro-
pagam mentiras contra mim, e espalham
calúnias a meu respeito.
1
3
Cercam-me com discursos de ódio e
combatem-me sem motivo.
4
Acusam-me, em paga de minha ami-
zade. Eu, contudo, dedico-me a orar por
eles.
2
5
O bem retribuem-me com o mal, e mi-
nha amizade, com ódio.
6
Sentenciam eles: “Suscita, a seu lado, o
maligno acusador, Satanás; que se ponha
à sua direita!
3
7
Citado em juízo, seja declarado culpa-
do, e fique sem efeito sua apelação!
8
Sejam abreviados seus dias, e um outro
assuma seu cargo!
9
Fiquem órfãos seus filhos, e viúva, sua
esposa!
10
Andem errantes seus filhos, a mendigar,
a esmolar longe de suas casas em ruína!
11
De tudo que é seu apodere-se o credor,
e estranhos roubem seus ganhos!
12
Não mais lhe mostrem benevolência, e
ninguém se compadeça de seus órfãos!
13
Sua prosperidade seja completamente
aniquilada, e na geração seguinte extin-
ga-se seu nome!
14
Seja lembrada ao SENHOR a culpa de
seus pais, e o pecado de sua mãe não se
apague:
15
estejam continuamente presentes ante
o Eterno, a fim de que risque da terra sua
memória!
16
Visto que nunca pensou em agir com
misericórdia, mas perseguiu o fragiliza-
do e o pobre, o aflito de coração, para lhe
desferir um golpe mortal.
17
A maldição, que ele tanto amou, veio
sobre ele; a bênção, a que ele não deu
preferência, dele se afastou.
4

18
Revestido de maldição, como de seu
manto, ela penetrou como água em suas
entranhas, e como óleo, em seus ossos:
19
envolva-o, como uma veste mortuária
e aperte-o, sempre, como um cinto que
continuamente se cinge!”
20
Será essa a retribuição do SENHOR aos
meus acusadores, e aos que falam contra
mim todo o mal.
21
Mas tu, ó Eterno, meu Deus, atua em
meu favor, pela honra do teu Nome! Pois
teu amor leal é sublime, livra-me!
22
Sou pobre e necessitado e, no íntimo,
meu coração está abatido.
23
Extingo-me como a sombra que de-
4
Oração costumeira de Davi, antes de suas vitórias contra Edom (2Sm 8.13-14).
5
Este versículo pode ser assim transliterado, a partir dos melhores manuscritos hebraicos: Belohim naasse cháyil, vehu
iavus tsarênu.
Capítulo 129
1
O salmista suplica a Deus que o livre de seus falsos acusadores: que o Senhor julgue com severidade todos que rejeitam o
caminho santo (vv.6-19), e que a misericórdia divina seja generosa para com os que se entregam nas mãos de Deus (vv.20-31).
O autor fala dos adversários, no singular, na primeira parte, que revela algumas das maldições lançadas por seus inimigos; a
segunda parte, discorrida no plural, mostra a aliança dos inimigos contra o servo do Senhor (Sl 35; 101).
2
Este é o sentido mais adequado à frase transliterada do original hebraico: Vaiassímu alai raá táchat tová, vessin’á táchat
ahavati (35.13,14).
3
Estes são alguns dos desejos, expressos, dos inimigos do salmista (vv.6-20). Pedro compreendia que essas palavras conde-
natórias se aplicavam ao traidor, Judas Iscariotes (v.8; At 1.20). Em hebraico, a expressão “satã ou satanás” significa “acusador”.
Veja como fica a transliteração deste versículo: Hafked alav rashá, vessatan iaamod al iemino (Jó 1.6).
4
O pecador ímpio e renitente procura cercar-se de trevas, cada vez mais fugindo da luz e da verdade (Jo 3.18-21).
SALMOS 108, 109
112
clina, sou afugentado como um simples
gafanhoto.
24
Os joelhos tremem de tanto que jejuo,
e o corpo definha de fraqueza.
25
Tornei-me, para meus difamadores,
objeto de zombaria: assim que me vêem,
meneiam a cabeça.
5

26
Ajuda-me, SENHOR, meu Deus! Salva-
me, segundo teu amor misericordioso!
27
Que eles reconheçam que foi a tua boa
mão, que foste tu, SENHOR, que o fizeste.
28
Que eles sigam amaldiçoando, contan-
to que tu me abençoes! Os que se insur-
gem sejam confundidos, enquanto teu
servo seja contemplado com alegrias.
29
Cubram-se de ignomínia os que me
acusam, emaranhem-se no próprio ve-
xame, como num manto!
30
Proclamarei com minha boca muitas
graças ao SENHOR e o louvarei no meio da
multidão,
31
pois Ele se põe à direita do pobre para
salvá-lo daqueles que o caluniam!
O reino sacerdotal do Messias
Salmo de Davi.
110
Assim declarou o SENHOR ao
meu Senhor: “Assenta-te à mi-
nha direita e aguarda, enquanto de teus
inimigos faço um objeto de descanso
para teus pés!”
1
2
O SENHOR estenderá de Sião o poder do
teu cetro: domina no meio dos teus ini-
migos!
3
Teu povo se apresentará generoso, no
dia da convocação. Nos montes santos,
mais numerosos do que gotas de orvalho
no seio da aurora, tu terás teus exércitos
de jovens santos!
2
4
O SENHOR jurou e não se arrependerá:
“Tu és Sacerdote para sempre, segundo a
ordem de Melquisedeque”.
3
5
O Eterno está à tua direita; Ele esmaga-
rá reis no dia da sua ira.
6
Julgará as nações, amontoando cadáve-
res e esmagando governantes em toda a
extensão da terra.
4
7
Meu Rei encontrará refrigério no ribei-
ro em seu árduo caminho, e sua cabeça
estará sempre erguida!
Louvor a Deus por suas obras
111
Aleluia! De todo o coração,
louvarei ao SENHOR,
1

N Alef
na congregação dos justos e na assem-
bléia dos que se reúnem para adorá-lo.
2 Bet
2
Portentosas são as obras do SENHOR,
. Guimel
dignas de profunda meditação para
quem as aprecia.
¨ Dalet
3
Os feitos do Eterno são magníficos e
majestosos,
¨ He
e sua justiça permanece para sempre.
2

` Vav
4
Ele fez memoráveis as suas maravilhas;
* Zayin
5
A expressão “meneiam a cabeça” revela um gesto físico de profundo desprezo, humilhação e zombaria. Foi assim que muitas
pessoas agiram, ao verem Jesus Cristo, o Messias, em seu sofrimento vicário na Cruz do Calvário (Mc 15.29).
Capítulo 110
1
Davi compôs este salmo para a coroação de seu filho Salomão, com profunda conotação profética em relação aos reis davídi-
cos e a seu grandioso Filho futuro (Sl 101). Os profetas do AT perceberam a mensagem profética deste hino somente muito tempo
depois de Davi, mas a Igreja do NT sempre o considerou a mais clara e direta obra messiânica do Saltério (Sl 2). Especialmente
pela maneira como fora interpretado pelo próprio Messias, Jesus (Mt 22.43-45; Mc 12.36,37; Lc 20.42-44), pelo apóstolo Pedro
(At 2.34-36) e pelo autor de Hebreus (Hb 1.13; 5.6-10; 7.11-28). Sentar-se à direita do rei significava ocupar um lugar de honra
sem igual e “estar com ele entronizado” (45.9; 1Rs 2.19). O NT está repleto de referências a Jesus Cristo exaltando essa posição
de primazia absoluta e definitiva (Mt 26.64; Mc 14.62; 16.19; Lc 22.69; At 2.33; 5.31; 7.55-56; Rm 8.34; Ef 1.20; Cl 3.1; Hb 1.3; 8.1;
10.12; 12.2). Os tronos eram acompanhados de um móvel para descanso dos pés do rei. Entretanto, nas pinturas e esculturas, os
reis mandavam que esse objeto fosse substituído pela imagem de seus inimigos vencidos (2Cr 9.18; 1Rs 5.3; Js 5.3; 1Co 15.25;
Ef 1.22). Este versículo, incluindo sua epígrafe, pode ser assim transliterado a partir dos melhores originais hebraicos: Ledavid
mizmor, neum Adonai, ladoni, shev limini, ad ashit oievêcha hadom leraglêcha.
2
O “Rei” e Ungido de Deus, o Senhor Jesus Cristo, terá um exército de voluntários, revestidos de santidade. O reino de Cristo
não é deste mundo e seus guerreiros não usam armas carnais (Jo 18.36; Ef 6.10-18).
SALMOS 109–111
113
o SENHOR é misericordioso e compassi-
vo.
3
l Het
5
Provê o sustento dos que o temem;
C Tet
porquanto, tem sempre presente a lem-
brança da sua aliança.
4
` Yud
6
Revelou a seu povo suas obras grandio-
sas,
2 Kaf
confiando-lhes as terras das nações.
7 Lamed
7
As realizações de suas mãos são verda-
deiras e justas,
C Mem
e todos os seus ensinamentos merecem
absoluta confiança:
. Nun
8
são firmes para todo o sempre,
C Samek
a fim de serem cumpridos fiel e retamen-
te.
5
V Ayin
9
Ele trouxe redenção a seu povo,
£ Pê
promulgou para sempre sua aliança.
3 Tsade
Seu Nome é Santo e inspira temor!
6
¨ Qof
10
O temor do SENHOR é o princípio da
sabedoria;
¨ Resh
todos os que cumprem seus preceitos
demonstram bom senso.
2 Shin
Ele será louvado por toda a eternidade!
7

! Tav
Os justos herdarão a vida eterna
112
Aleluia! Quão feliz é a pessoa
que teme ao SENHOR
N Alef
e tem grande prazer em seus manda-
mentos!
1
2 Bet
2
Sua linhagem será poderosa no país,
. Guimel
abençoada geração de homens íntegros.
¨ Dalet
3
Em sua casa haverá bens e riquezas,
¨ He
e sua justiça permanece para sempre.
2
` Vav
4
Desponta nas trevas como luz para os
homens retos:
* Zayin
é benigno, piedoso e justo.
3
l Het
5
Bem-aventurado quem se compadece e
empresta com generosidade,
C Tet
e com honestidade administra todos os
seus negócios!
4
3
Jesus, o Messias prometido, é a única pessoa que acumula o poder e a responsabilidade de Sacerdote e Rei. Esse sacerdócio
firma-se nas promessas irrevogáveis e eternas de Deus, a fim de manter, perpetuamente, a linhagem de Davi (89.35-37; Hb 7.16-18).
Segundo a ordem de Melquisedeque (Hb 7.11-22), os reis davídicos, como representantes principais do governo de Deus sobre Isra-
el e o mundo, realizaram muitas atividades que se baseavam no culto ao Senhor, como a supervisão da Arca da Aliança e do templo,
bem como a organização dos serviços sagrados dos sacerdotes e levitas (2Sm 6.1-15, 1Rs 5 – 7; 2Rs 12.4-7; 22.3-7; 23.4-7; 1Cr 6.31;
15.11-16; 16.4-42; 23.3-32; 25.1; 2Cr 15.8; 17.7-9; 19.8-11; 24.4-12; 29.3-31; 34.8; 35.15,16; Ed 3.10; 8.20; Ne 12.24,36,45).
4
A vitória absoluta, universal e eterna de Cristo e da sua Igreja (Ap 19.11-21).
5
Mesmo durante os séculos de implantação do seu reino, as terríveis batalhas no final dos tempos, o Ungido de Deus jamais
esmorecerá. As forças da natureza curvam-se para cooperar com o nosso vitorioso Salvador, Jesus Cristo (Mt 22.41-46). Este
versículo pode ser assim transliterado, a partir dos originais hebraicos: Mináchal badérech yishte, al ken iarim rosh.
Capítulo 111
1
Este salmo e o próximo (112) formam um arranjo perfeito entre poesia, música sacra e instrução sapiencial. Essas obras
pós-exílicas introduzem uma série de salmos de Aleluia (Sl 111 – 118). A estrutura dos salmos 111 e 112 é chamada de acróstico
alfabético, por serem eles organizados em ordem alfabética, no original hebraico. Cada meio verso recebe uma das letras do alfa-
beto hebraico. A reunião dos justos (íntegros, retos e piedosos) refere-se a um grupo mais íntimo de adoradores comprometidos
com a Palavra do Senhor (112.2,4; 9.1; 11.7; 33.1; 49.14; 97.11; 107.42; 140.13).
2
As obras do Senhor revelam claramente o caráter e o poder do Criador. Felizes aqueles que sabem contemplar as obras do
Criador (v.2; Sl 19.1-4).
3
Misericórdia e compaixão (amor leal) são as qualidades de Deus que garantem a existência e a peregrinação da raça humana
para a eternidade (130.3-4; 2Pe 3.9).
4
A provisão de alimento para o crente é apenas uma exemplificação da generosidade do Senhor para com os seus (Mt 6.11; Sl
SALMOS 111, 112
114
` Yud
6
O justo jamais será grandemente aba-
lado;
2 Kaf
para sempre suscitará boas recordações.
7 Lamed
7
Não viverá temeroso, esperando más
notícias:
C Mem
confiando plenamente no SENHOR, seu
coração estará sempre firme.
. Nun
8
Seu coração está seguro e nada temerá.
C Samek
Certamente, no final, testemunhará o
fracasso dos seus inimigos.
V Ayin
9
Generosamente reparte o que possui
com os pobres;
£ Pê
perene será sua benevolência;
3 Tsade
de cabeça erguida será honrado e exalta-
do por muitos.
5
¨ Qof
10
Por isso, o ímpio o observa e fica irado,
¨ Resh
range os dentes e se consome de ódio.
2 Shin
A ambição dos ímpios os levará à des-
truição!
6
! Tav
Só Deus é digno de todo louvor
113
Aleluia! Louvai, ser vos do
SENHOR, louvai o Nome do
Eterno!
1
2
Bendito seja o Nome do SENHOR, desde
agora e para sempre!
3
Desde o romper da aurora até o pôr-
do-sol, louvado seja o Nome do Eterno!
4
Excelso é o SENHOR, acima de todas as
nações, e sua glória, acima dos céus.
5
Quem é como o Eterno, nosso Deus,
105.8-11). Este versículo pode ser transliterado, do original hebraico, da seguinte forma: Téref natan lireav, yizcor leolam berito.
5
As mais concretas e indestrutíveis realizações do Senhor são as virtudes e seus mandamentos eternos (119.89-90).
6
As alianças são as promessas da eterna redenção para todos aqueles que sinceramente amam e respeitam (temem) ao
Senhor (vv.5,6).
7
O grande ensino do AT resume-se no “temor do Senhor”; uma combinação perfeita de amor e obediência aos mandamentos
de Deus é a chave para o sucesso perene na Terra e no céu. O sábio, portanto, é aquele que aprende a dedicar seu amor obe-
diente (fiel) ao Senhor (Jó 28.28; Pv 1.7; 9.10, conforme Gn 20.11; Sl 19.7-9; 112.1).
Capítulo 112
1
Este poema, um acróstico, descreve os caminhos de uma pessoa sábia, cujo coração verdadeiramente adora ao Senhor e
alegremente se submete a seus princípios, enquanto complementa o salmo 111, que discorre sobre os caminhos de Deus.
2
Aquele que deposita sua confiança e felicidade na vontade do Senhor também é contemplado com alegrias humanas ines-
peradas (1Rs 3.10-14; Mt 6.31-33). O justo e piedoso produz bênçãos para seus filhos, e ele mesmo poderá ser contemplado
com o reflexo dessas bênçãos em sua descendência (v.6; 37.26; 127.3-5; 128.3; 109.12). Fartura e riqueza são promessas que
acompanham aqueles que temem ao Senhor (v.9; 1.3,5; 128.2).
3
Nesta metáfora sobre as horas difíceis e os tempos de crise, a que todos os seres humanos estão sujeitos, o salmista ressalta
a fé daqueles que pertencem ao Senhor, para os quais as próprias circunstâncias adversas são oportunidades de serem ilumina-
dos e consolados e de experimentar o poder amoroso de Deus (Êx 34.6,7; Sl 107.10-14).
4
O grande segredo da felicidade é dar, com sabedoria e generosidade, em o Nome (em hebraico, indicação da presença
divina) do Senhor (v.9; 34.8-14; 111.5,9). Quem serve a Deus com sinceridade e obediência não precisa temer qualquer inquérito
humano.
5
Este é um versículo difícil de ser traduzido na atualidade, pois há um jogo de palavras envolvendo a expressão hebraica “chi-
fre” como sinônimo de “poder”, cujo sentido era baseado na atitude altaneira e dominadora dos touros selvagens. Seus grandes
e poderosos chifres eram um símbolo de poder e autoridade diante de todo o rebanho. Dessa imagem surgiu o termo “erguer a
fronte” ou “levantar a cabeça”. Veja a transliteração deste versículo, a partir do original hebraico: Pizar natan laevionim, tsidcato
omédet laad, carno tarum bechavod. Assim como as belas e frondosas árvores são podadas a fim de darem mais flores e frutos,
da mesma maneira se desenvolve e produz aquele que dá com generosidade (2Co 9.7).
6
As ambições naturais da humanidade estão na contra mão da vontade declarada de Deus, por isso, a inveja e a avareza
movem os corações na direção da perdição. Os salvos devem buscar o caminho da piedade e da generosidade rumo à plena
felicidade (107.42; 111.10; 1.4-6; 10.2-11 conforme o Sl 37).
Capítulo 113
1
No antigo Oriente Médio o nome de alguém revelava sua própria natureza e caráter. Os “servos do Senhor” são todos os crentes,
aqueles que aceitam com prazer e voluntariedade a chamada de Deus, como na oração de Neemias em favor do seu povo (Ne 1.10).
Várias fontes indicam que este hino foi composto originalmente para a liturgia no templo, em ato de adoração à sublime majestade e
SALMOS 112, 113
115
que reina nas mais elevadas alturas,
6
mas se inclina bondosamente para con-
templar o que se passa nos céus e na terra?
2
7
Ele levanta do pó o necessitado e ergue
do lixo o pobre,
8
a fim de estabelecê-los como príncipes
do seu povo.
3
9
Oferece uma família à estéril, e dela faz
uma feliz mãe de filhos. Aleluia!
Os milagres no Êxodo
114
Quando Israel deixou o Egito,
e a casa de Jacó se retirou do
meio de um povo de língua estranha,
1

2
Judá tornou-se o santuário de Deus, e
Israel, o seu domínio.
2
3
À vista disso, o mar fugiu, o Jordão vol-
tou para trás;
4
os montes saltaram como cabritos, e
como carneiros do rebanho, as colinas.
3
5
Que tens, ó mar, que assim foges? E tu,
Jordão, por que retrocedes?
6
Montes, por que saltais como cabritos? E
vós, colinas, como carneiros do rebanho?
7
Estremece, ó terra, diante do Eterno, na
presença do Deus de Jacó!
4

8
Que converte as pedras em lago, e o ro-
chedo em manancial de água.
5

O único Deus verdadeiro
115
Não a nós, SENHOR, nenhu-
ma glória a nós, mas, sim,
ao teu Nome, por teu amor e por tua
fidelidade!
1
2
Por que questionam as nações: “Onde
está o seu Deus?”
2
3
Nosso Deus está nos céus; tudo o que
deseja, Ele tem o poder de realizar.
4
Os ídolos deles são prata e ouro, obras
de mãos humanas.
5
Têm boca, mas não são capazes de falar,
olhos mas não podem ver;
3

6
têm ouvidos, mas não conseguem ou-
vir; nariz, mas não possuem olfato.
7
Suas mãos não apalpam; seus pés não ca-
minham; som nenhum emite sua garganta.
misericórdia do Senhor (138.6). Este salmo inicia o chamado “Halel Egípcio” (Sl 113 a 118), que veio a ser usado na liturgia judaica
durante as grandes festas religiosas (Páscoa, Semanas, Tabernáculos, Lua Nova, Dedicação – Lv 23; Nm 10.10; Jo 10.22). Na Pás-
coa, por exemplo, os Sl 113 e 114 eram cantados antes das refeições, e os Sl 115 a 118 logo depois das ceias (Sl 111).
2
Jesus Cristo é o Deus transcendental e imanente: separado de nós por causa da sua justiça santa e imaculada, mas próximo e
sensível aos nossos sofrimentos e fraquezas, por meio do amor e da compaixão encarnada na pessoa do Filho (Hb 6.7-10). Jesus
experimentou as angústias humanas e venceu-as como Filho do Eterno Deus, Autor da nossa eterna Salvação e reconciliação
com Deus (2Co 5.18).
3
Todos os renascidos em Cristo são parte de um novo povo, formado de príncipes (1Pe 2.9).
Capítulo 114
1
Magnífica obra poética e um dos mais belos hinos de louvor e adoração a Deus no Saltério. Sua datação encontra-se no
período da monarquia, algum tempo depois da divisão do reino. Foi composto tendo em vista a celebração do Êxodo (o grande
acontecimento remidor do AT) e sua execução litúrgica no templo, durante as grandes festas religiosas que ocorriam de ano em
ano, em Israel ou Casa de Jacó (Êx 19.3; Sl 113).
2
Judá e Israel, os reinos do sul e do norte, são considerados aqui como uma única nação, povo de Deus. A comemoração princi-
pal foi a aliança firmada no Sinai, onde Israel passou a ter comunhão íntima com o Senhor como “um reino de sacerdotes e uma na-
ção santa” (Êx 19.3-6). Deus manifestava sua presença ao mundo, simbolicamente por meio do Tabernáculo, durante a peregrinação
no deserto, e mais tarde no Templo. A própria “Terra Prometida” é chamada figuradamente de “santuário de Deus” (Êx 15.17).
3
Assim como outros profetas, o salmista evoca uma cena de grandes transformações geológicas, abalos sísmicos e fenôme-
nos naturais, (18.7-15; 68.7,8; 77.16-19; Jz 5.4,5; Hc 3.3-10).
4
Jacó como sinônimo de Israel (Gn 32.28).
5
Assim, o Senhor zela pela preservação dos seus filhos, em meio às provações (Êx 17.6; Nm 20.11).
Capítulo 115
1
As bênçãos divinas e o zelo de Deus para com seu povo são decorrência da sua fidelidade (aliança eterna – 6.4; 26.3). O Senhor
é invisível, mas Todo-Poderoso, sensível e imutável. Os ídolos pagãos são bem visíveis, feitos em pedra, madeira ou metais, mas
absolutamente desprovidos de poder real e comunicação; cabendo aos demônios e ao próprio ser humano emprestar-lhes qualquer
sentido ou manifestação. O “Nome” do Senhor é sempre a indicação da presença divina, de sua pessoa gloriosa (5.11).
2
Sempre que os filhos de Deus são provados, ou a nação de Israel é submetida a castigos, por meio dos fenômenos naturais
(Jl 2.17), guerras e destruição de toda espécie, surgem os zombadores pagãos (79.10; Mq 7.10; Mt 24).
3
Quando o povo de Israel é abençoado com vitórias e prosperidade é Deus quem age; quando é castigado ou chora, o templo
do Senhor é nivelado ao chão, é Deus quem executa o juízo (113.5). Nenhum outro deus ou ídolo tem qualquer poder que se
compare à vontade soberana do Senhor Yahweh (o Nome de Deus em hebraico).
SALMOS 113–115
116
8
Sejam como eles quem os fabrica e to-
dos os que neles depositam confiança!
4
9
Confia no SENHOR, ó Israel! Ele é o seu
auxílio e o seu escudo.
10
Confiai no SENHOR, ó casa de Arão! Ele
é o seu socorro e sua proteção.
5
11
Vós, que temeis o SENHOR, confiai no SE-
NHOR! Ele é seu amparo e segurança.
6
12
O SENHOR lembra-se de nós; Ele nos
abençoará! Derramará suas bênçãos sobre
os israelitas, abençoará seus sacerdotes.
13
Ele abençoa os que temem o SENHOR,
tanto pequenos quanto grandes.
14
O SENHOR vos multiplique bênçãos e
mais bênçãos, sobre vós e vossos filhos!
15
Sede abençoados pelo SENHOR que fez
os céus e a terra.
16
Os céus são os céus do SENHOR, mas a
terra, deu-a aos filhos de Adão!
7
17
Não estão os mortos a louvar o SENHOR,
nem os que descem à região do silêncio.
18
Mas nós bendiremos o SENHOR, desde
agora e para sempre. Aleluia!
Ações de graças pela salvação
116
Eu amo o SENHOR, porque Ele
ouve minha voz e as minhas
orações.
2
Porque inclinou para mim seu ouvido e,
portanto, enquanto eu viver, o invocarei.
1
3
Os laços da morte me envolveram e,
surpreendido pelas tribulações do infer-
no, encontrava-me em profunda angús-
tia e tristeza.
4
Invoquei o Nome do SENHOR: “Ó, SE-
NHOR, liberta-me!”
5
O SENHOR é benevolente e justo, nosso
Deus é misericordioso.
6
O SENHOR cuida das pessoas simples;
quando já não tinha mais forças, Ele me
salvou.
2
7
Volta, minha alma, ao teu repouso, por-
quanto o SENHOR tem sido generoso para
contigo!
8
Visto que me livraste da morte; das lágri-
mas, meus olhos, e meus pés, da queda,
9
andarei na presença do SENHOR, na terra
dos vivos.
3
10
Conservei a confiança, mesmo quando
dizia: “Estou sobremodo aflito”.
4
11
Eu dizia em minha consternação:
“Ninguém é digno de confiança!”
5
12
Como poderei retribuir ao SENHOR to-
dos os seus benefícios para comigo?
13
Elevarei o cálice da salvação e invoca-
rei o Nome do SENHOR.
6
4
São fúteis, vazios e iludidos, todos os que depositam sua fé em qualquer ser ou matéria criada, em vez de confiar absoluta-
mente em Deus, o Criador (135.15-18; Is 44.9-20; 46.1-7; Rm 1.23).
5
Algumas versões usam a expressão “sacerdotes” em vez de “casa de Arão”, pois os manuscritos em hebraico se referem aos
descendentes do primeiro sumo sacerdote, responsáveis por todas as obrigações sacerdotais.
6
As repetições poéticas seguem uma convenção litúrgica e enfatizam o convite para confiarmos plenamente no Senhor, e
jamais temermos ou alimentarmos superstições ou qualquer tipo de adoração aos ídolos (96.1-3; 118.2-4; 135.19,20). Nenhuma
descendência genética (v.9) ou ordenação sacerdotal (v.10) é suficiente para que uma pessoa venha a pertencer ao grupo dos
que “verdadeiramente temem ao Senhor” (Jo 4.24; 1Rs 8.41-43; Ed 6.21; Ne 10.28).
7
Doxologia final por parte da congregação reunida em louvor ao Senhor (vv.16-18).
Capítulo 116
1
O salmista repete sua declaração de amor e fé no Senhor nos vv. 13 e 17. Esse testemunho individual nos revela que a adora-
ção, antes de ser uma expressão coletiva, é o testemunho pessoal de cada crente que aprendeu a amar o Senhor, reconhecendo
a grandeza do seu amor leal e perdoador por todos nós (Rm 5.8). Invocamos o Nome do Senhor, na certeza de que ele nos ouve
sempre (1Rs 18.24).
2
A expressão “simples” aqui, tem o sentido de “semelhante a uma criança”, em sua fé e senso de dependência e confiança
no Pai (19.7).
3
Andar com Deus é viver em comunhão (amizade leal e confiante) com o Senhor (Gn 5.22; 17.1).
4
Mesmo sob as mais terríveis e persistentes provações, o crente expressa sua confiança no amor leal e salvador do Senhor
(5.9; 10.7; 109).
5
Somente o Senhor pode nos oferecer seu amor leal e livramento incondicional. Todos os seres humanos, ainda que os vínculos
afetivos sejam os mais íntimos, são limitados e oferecem uma esperança de real ajuda bastante frágil e relativa (60.11; 118.8,9).
6
O copo de vinho, que faz parte da refeição festiva de ações de graças, chamado de “cálice da salvação” (Lv 7.11-21; Sl
22.26-29); da Páscoa (e também da Ceia de Cristo), e que relembra o dia da libertação dos israelitas da escravidão no Egito, é,
também, para o cristão, o memorial e a celebração do dia em que o Filho de Deus salvou todo aquele que nele crê, por meio do
seu sacrifício vicário na cruz (Mt 26.27).
SALMOS 115, 116
117
14
Cumprirei meus votos para com o SE-
NHOR na presença de todo o seu povo.
15
Custa muito ao SENHOR ver morrer
seus fiéis.
7
16
Ah! SENHOR, bem que sou teu servo.
Sim, sou teu servo, filho de tua serva;
livraste-me dos meus grilhões.
17
Eu te oferecerei um sacrifício de ação de
graças, invocando o Nome do SENHOR.
18
Cumprirei meus votos para com o SE-
NHOR, na presença de todo o seu povo,
19
nos átrios da Casa do SENHOR, no seu
interior, ó Jerusalém.
Aleluia!
O mundo deve adorar a Deus
117
Nações todas, louvai o SENHOR;
povos todos, glorificai-o!
1
2
Porquanto seu amor nos ultrapassa, e a
fidelidade do SENHOR é para toda a eter-
nidade. Aleluia!
2
O júbilo dos que amam a Deus
118
Louvai ao SENHOR, porque Ele é
bom, porque seu amor perma-
nece para sempre.
1
2
Diga Israel: “Seu amor é para sempre!”
3
Declare a casa de Arão: “Seu amor é
para sempre!”
4
Proclamem todos os que temem o SE-
NHOR: “Seu amor é para sempre!”
2

5
Em meio à tribulação invoquei o SE-
NHOR, e o SENHOR me respondeu, pondo-
me a salvo!
6
O SENHOR está comigo, nada temerei! O
que podem me fazer os homens?
7
O SENHOR está comigo; Ele é meu aju-
dador. Verei a derrota dos meus adver-
sários!
8
Melhor é refugiar-se junto ao SENHOR
do que depositar qualquer confiança na
humanidade.
9
Melhor é buscar refúgio no SENHOR do
que confiar em príncipes!
10
Todas as nações se uniram contra mim;
mas em Nome do Eterno as rechacei.
11
Cercaram-me por todos os lados, mas
em o Nome do SENHOR eu as derrotei.
12
Cercaram-me como um enxame de
abelhas, mas logo se extinguiram como
espinheiros secos, em chamas. Em Nome
do SENHOR eu as venci!
13
Com violência me empurraram para me
fazer cair, contudo o Eterno me amparou.
14
O SENHOR é minha força e o meu cân-
tico; Ele é a minha Salvação!
3
15
Jubilosos brados de vitória ressoam
nas tendas dos justos: “A destra do SE-
NHOR realiza maravilhas!
16
A mão direita do SENHOR é exaltada! A
destra do Eterno age com poder!”
17
Portanto, não morrerei, mas vivo per-
7
A expressão hebraica literal “Para o Senhor preciosa é a morte dos seus fiéis” tem o objetivo de comunicar o extremo valor
que Deus atribui à alma de qualquer dos seus filhos (72.14; Fl 1.21).
Capítulo 117
1
Este é o salmo mais breve do Saltério (e o capítulo mais curto de toda a Bíblia também). É considerado uma espécie de
“Aleluia” expandido e conclusão vitoriosa da coletânea dos salmos 111 a 116. Todos os povos, raças, nações e culturas são
conclamadas a louvar o Nome (a presença) do Senhor (47.1; 67.3-5; 96.7; 98.4; 100.1).
2
Esta canção retoma o “Aleluia” final do Sl 116, para salientar que o maior motivo de louvor dos seres humanos está no amor leal
(no original hebraico: amor-e-fidelidade), com o qual Deus tem abençoado seu povo por toda a terra (3.7; 6.4; 36.5). Paulo faz ques-
tão de citar este salmo para lembrar aos gentios (todos os não judeus) que a salvação deles e de todas as pessoas da terra, assim
como a conseqüente glorificação universal do Senhor, fora planejada por Deus desde a fundação dos tempos (Rm 15.11; Is 11.10).
Capítulo 118
1
Um rei davídico dirige a nação numa liturgia de ações de graças por um grande livramento e vitória contra os ataques de uma
confederação de nações inimigas. Um hino de louvor e adoração é entoado alegre e responsivamente pelo povo, durante suas
procissões solenes para a Casa de Deus (2Cr 20.27,28; Ed 6.16; Ne 12.37-43; Sl 113). Este, inclusive, pode ter sido o hino cantado
por Jesus e seus discípulos, após a Última Ceia (Mt 26.30).
2
A expressão hebraica original “a casa de Arão” refere-se aos “sacerdotes” (v.3). Aqui temos uma convocação litúrgica geral,
a todos os grupos de crentes, para proclamarem seu louvor ao Senhor (vv.2-4; 115.9-11). A tríplice repetição é característica
poética de alguns salmos (96.1-3).
3
Testemunho vivo, não apenas de Moisés e do rei Davi, mas de todo o povo de Israel que, ao longo da História tem sido cerca-
do e ameaçado por vários inimigos. Jamais foi totalmente destruído, e sempre assistiu aos poderosos e maravilhosos livramentos
providos pelo amor leal e redentor de Deus (Êx 15; Is 12.2).
SALMOS 116–118
118
manecerei para proclamar as obras do
SENHOR.
18
O SENHOR severamente me castigou,
mas não me entregou à morte.
4
19
Abri-me as portas da justiça, pois de-
sejo entrar para dar graças ao SENHOR.
5
20
Esta é a porta do Eterno, pela qual en-
trarão os justos.
21
Eu te exalto, porque me respondeste e
foste minha salvação.
22
A pedra que os construtores rejeitaram
tornou-se a pedra angular,
6
23
pois assim determinou o Eterno. Ma-
ravilhoso é isso para nós!
24
Este é o dia com que nos presenteou
o SENHOR: festejemos e regozijemo-nos
nele!
25
Rogamos a ti, ó SENHOR, salva-nos e
faze-nos prosperar.
26
Bendito seja o que vem em Nome do
SENHOR. Da Casa do Eterno nós vos aben-
çoamos!
27
O SENHOR é Deus, e Ele fez resplandecer
sobre nós a sua luz. Trançai as guirlandas
da festa até as pontas do altar!
28
Tu és o meu Deus, eu te louvarei; ó
meu Deus, eu te exaltarei!
29
Louvai ao SENHOR, porque Ele é bom,
porque seu amor leal dura eternamente!
A excelência da Palavra de Deus
N Alef
119
Bem-aventurados aqueles cujos
caminhos são íntegros e que vi-
vem de acordo com a Lei do Eterno!
1

2
Felizes os que guardam suas prescrições
e o buscam de todo o coração;
3
e, não se entregando à prática de ini-
4
A expressão “os justos” refere-se idealmente ao povo de Israel em geral (judeus e gentios que amam e servem ao único e ver-
dadeiro Deus – Yahweh ). Este é o testemunho dos que vivem na Casa de Deus (v.15), pois receberam a salvação (livramento) do
Senhor em suas próprias vidas (v.16) e, portanto, têm a certeza de estar caminhando para a vida eterna (v.17). Sabem, contudo,
reconhecer quando são disciplinados e corrigidos pelo Senhor (sempre para a vida), a fim de que seus corações se mantenham
humildes e obedientes ao Pai (v.18; 6.1; 38.1; 94.12; Dt 4.36; 8.5).
5
O grande cortejo dos adoradores começava fora da Cidade Santa, e o salmista refere-se às portas de Jerusalém, pelas quais
deveriam passar “os justos” (perdoados e salvos pelo Senhor). A procissão litúrgica aproximava-se do pátio interior do templo,
entoando hinos de louvor a Deus (24.7; Is 26.2). O v.20 pode ser assim transliterado, a partir dos originais hebraicos: Zé hasháar
ladonai, tsadikim iavôu vo.
6
Uma referência ao rei de Israel, que havia sido rejeitado e ridicularizado por reis mundanos que invadiram seus domínios. A ex-
pressão hebraica original “pedra angular” significa, literalmente, “cabeça de esquina” ou “pedra principal”, usada para ancorar e
alinhar a esquina de uma grande parede. Os vv.22 e 23 podem ser assim transliterados: Éven maassu habonim, haieta lerosh pina.
Meet Adonai háita zot, hi niflat beenênu. O salmista faz um jogo de palavras, criando uma metáfora para a expressão “cabeça”, ou
seja, “governante ou principal líder” (Is 19.13; Jz 20.2; 1Sm 14.38). O povo de Israel, desprezado por diversos impérios, por ser
uma nação pequena, e pelos filósofos pagãos, por ser um povo considerado de mente fechada (por crer em apenas um Deus), é
a parte mais gloriosa do magnífico edifício das realidades espirituais. Jesus Cristo aplicou esta passagem (vv.22 e 23) como profe-
cia sobre sua própria pessoa e obra, bem como sobre sua Igreja (Mt 21.42; Mc 12.10,11; Lc 20.17; At 4.11; Ef 2.20; 1Pe 2.7).
Capítulo 119
1
Este é um dos poucos salmos compostos como obra literária, para leitura e meditação, mais do que peça musical. O
salmista escreveu com o objetivo de ministrar instrução sacerdotal na prática da piedade e devoção religiosa (vv.23,57). O
autor foi um sacerdote israelita, pós-exílico, absolutamente convencido quanto à verdade e magnificência da Palavra de Deus
como Palavra da Vida. Diante do esplendor da Palavra, o salmista reconhece seu coração errante e agradece pelos castigos
e repreensões do Senhor, sem os quais, a natural arrogância humana não lhe teria permitido receber a graça de Deus para
compreender a Verdade. O salmo é acróstico, isto é, cada grupo de oito versículos segue uma letra do alfabeto hebraico (Alef,
Bet, Guimel, até Tav). Enquanto outros salmos destacam os atos poderosos de Deus na criação e na redenção, bem como
seu pleno poder (soberania), aqui o tema dominante é a total fé e devoção ao Deus da Palavra. O autor ressalta dois aspectos
dessa Palavra: os mandamentos de Deus para a vida e as promessas do Senhor – que pedem dos seus adoradores (crentes),
fé e obediência (os dois princípios da verdadeira piedade – 34.8-14). O salmista faz uso de vários termos hebraicos, todos
relativos às diretrizes e à Lei de Deus: torah ou torá (Lei); ‘edot (estatutos, prescrições, testemunhos); piqqudim (preceitos);
mitswot (mandamentos); mishpatim (ordenanças, decisões); huqqim (decretos) davar (palavra);´imarah (promessa). Este ver-
sículo pode ser assim transliterado, a partir dos originais hebraicos: Álef – Ashrê temimê dárech, haholechim berotat Adonai. _ N
Alef é a primeira letra do alfabeto hebraico (alefbets, com 22 letras), cujo som corresponde à nossa letra “A”, e é usada também
para representar o valor numérico 1. Entretanto, as civilizações ocidentais modernas adotaram alfabetos compostos por letras
romanas e algarismos arábicos. Os acentos massoréticos (pontinhos e outros sinais gráficos e vocálicos ao redor das con-
soantes hebraicas) foram criados somente por volta do séc.VII d.C. Até então, a língua hebraica era estritamente consonantal
(sem qualquer vogal ou acento gráfico).
SALMOS 118, 119
119
qüidades, seguem seus caminhos no SE-
NHOR.
2
4
Promulgaste teus preceitos, para que
sejam observados com diligência.
5
Tomara se firme minha conduta, para
que eu observe teus decretos!
3
6
Então, não terei de me envergonhar, se fi-
car atento a todos os teus mandamentos.
7
Vou louvar-te com coração reto, ao
aprender tuas justas decisões.
8
Observarei os teus decretos: não me
abandones de todo!
2 Bet
9
Como pode um jovem conservar puro
o seu caminho? Vivendo-o de acordo
com a tua Palavra.
4
10
De todo o coração eu te procurei: não
deixes que me afaste de teus manda-
mentos!
11
Em meu coração conservei tua pro-
messa para não pecar contra ti.
12
Bendito sejas, SENHOR! Ensina-me teus
decretos!
13
Com meus lábios tenho enumerado
todas as decisões de tua boca.
14
No caminho de tuas prescrições encon-
trei alegria, como em grandíssima fortuna.
15
Em teus preceitos quero meditar, e fi-
car atento às tuas veredas.
16
Encontro minhas delícias em teus de-
cretos; não me esqueço de tua Palavra.
. Guimel
17
Em tua misericórdia acolhe teu servo,
para que eu viva e obedeça à tua Palavra!
5
18
Abre meus olhos para que veja as ma-
ravilhas que resultam de tua Lei.
19
Sou um peregrino sobre a terra: não
ocultes de mim teus mandamentos!
20
Minha alma se consome, desejando as
tuas ordenanças para cada instante.
21
Ameaçaste os soberbos, os malditos,
que de teus mandamentos se desviam.
22
Livra-me da afronta e do desprezo,
pois obedeço às tuas orientações.
23
Mesmo que os príncipes se assentem
para conspirar contra mim, ainda assim o
teu servo refletirá sobre os teus decretos.
24
Tuas ordenanças fazem as minhas delí-
cias, são minhas conselheiras.
¨ Dalet
25
Minha alma está abatida até o pó: rea-
nima-me, segundo tua Palavra!
6

26
A ti relatei todas as minhas atitudes, e Tu
me respondeste. Ensina-me teus decretos!
27
Faze-me discernir o caminho de teus
mandamentos, e meditarei em tuas ma-
ravilhas.
28
Minha alma se consome na tristeza:
reergue-me, segundo a tua Palavra!
29
Afasta-me do caminho enganoso, e
favorece-me com tua Lei.
30
Escolhi o caminho da felicidade, colo-
quei diante de mim as tuas decisões!
31
Mantenho-me apegado às tuas orde-
nanças: SENHOR, não me deixes passar
vergonha!
32
Corro pelo caminho de teus manda-
mentos, pois me alargas o coração.
¨ He
33
SENHOR, indica-me o caminho de teus
decretos, e a eles obedecerei até o fim.
7
34
Dá-me entendimento, para que eu
2
Bem-aventurados ou muito felizes são expressões que têm seu pleno significado na pessoa e obra de Jesus Cristo (Mt 5.1-12).
Os estatutos ou prescrições do Senhor, referem-se ao termo hebraico‘edot, expressão ligada à aliança de Deus, cujo sentido está
associado às estipulações determinadas pelo Senhor (Dt 4.45; Sl 4.7; 25.10).
3
Devemos almejar uma vida pura para compreender bem a Palavra de Deus; e obedecer a essa Palavra, para desfrutar de uma
vida plena. Os conselhos de Deus são imutáveis (Dt 6.2; 28.15,45; 30.10,16; 1Rs 11.11).
4
Uma pergunta vital e uma resposta infalível aos jovens de todas as épocas, segundo o estilo sapiencial dos mestres e sacerdo-
tes judaicos. 2 Bet é a segunda letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 2 e corresponde à nossa letra “B” (vv.9-16).
5
Os melhores conselhos devem ser buscados em oração e na leitura atenta da Bíblia. ·. Guimel é a terceira letra do alfabeto
hebraico, tem valor numérico 3 e corresponde à nossa letra “G” (vv.17-24).
6
A verdadeira oração ao Senhor não é apenas uma reza repetitiva ou um mantra sem fim, mas o abrir sincero do mais íntimo
do coração em diálogo com o Pai (N_2_N Abba, em aramaico, a forma como Jesus se referia a seu Pai – Mc 14.36), ou seja, expor
perante o Senhor “nossos caminhos” e aceitar dele as orientações de que necessitamos. A vida espiritual tem por princípio uma
escolha pessoal, livre, decidida e irrevogável (Ez 18.27,28; Jr 9.23-24). ¨ Dalet é a quarta letra do alfabeto hebraico, tem valor
numérico 4 e corresponde à nossa letra “D” (vv. 25-32).
7
Somente uma pessoa verdadeiramente convertida ao Senhor pode compreender a alegria inefável de obedecer à Palavra
de Deus e assim glorificar seu Nome (1Co 9.19-23). Esse foi o principal pedido do maior de todos os reis da terra, Salomão (1Rs
SALMOS 119
120
observe a tua Lei e a guarde de todo o
coração!
35
Encaminha-me na senda de teus man-
damentos, pois nela encontro meu pleno
prazer.
36
Inclina meu coração para os teus esta-
tutos e não para a ganância!
37
Desvia meus olhos do fascínio da ilu-
são, faze-me viver em teu caminho.
38
Mantém com teu servo a tua promessa
feita aos que te temem!
39
Desvia o insulto que me amedronta,
pois são boas as tuas ordenanças.
40
Como anseio pelos teus preceitos! Pre-
serva a minha vida, por tua justiça.
` Vav
41
Venham sobre mim, SENHOR, os dons
do teu amor; tua salvação, segundo a tua
promessa!
8
42
Então terei como responder àqueles que
me afrontam, pois confio em tua Palavra.
43
Jamais me tires da boca a palavra da
verdade, pois espero em tuas ordenanças!
44
Cumprirei, sem cessar, a tua Lei para
todo o sempre.
45
Andarei em verdadeira liberdade, por-
quanto tenho buscado os teus preceitos.
46
Diante de reis falarei dos teus testemu-
nhos sem ficar envergonhado!
47
Encontro todo o prazer em teus man-
damentos; eu os amo sinceramente.
48
Levanto as mãos para teus manda-
mentos, que muito amo, e meditarei em
teus decretos.
* Zayin
49
Lembra-te da tua Palavra ao teu servo,
pela qual me encheste de esperança!
9
50
Isto me consola na minha aflição: que
tua promessa me vivifica.
51
Os arrogantes zombam de mim o tem-
po todo, mas eu não me desvio da tua Lei.
52
Lembrei-me, SENHOR, de tuas decisões
de outrora, e fiquei consolado.
53
Arrebatou-me a indignação contra os
ímpios que abandonaram tua Lei.
54
Teus decretos tornaram-se meus cânti-
cos, na casa onde vivo como migrante.
55
Durante a noite lembro-me do teu
Nome, SENHOR, e faço guarda à tua Lei.
56
Este tem sido meu estilo de vida: obe-
decer aos teus preceitos!
l Het
57
Tu és minha herança, SENHOR; prometi
obedecer à tua Palavra!
10
58
De todo o coração suplico o teu favor:
sê-me propício, de acordo com a tua pro-
messa!
59
Refleti sobre os meus caminhos, e vol-
3.6-15). Entretanto, a “cobiça” foi o pecado que motivou Eva e seu marido Adão a quebrarem sua parte na aliança com Deus e
prejudicarem toda a raça humana, pela desobediência explícita à vontade declarada do Senhor (Gn 3.1-7; Js 7.1-12; Tg 1.13-15).
Junto à “cobiça” (v.36) e à vida libertina dos soberbos (v.21), nasce a “arrogância”, que é a luta frenética do “Eu” contra “Deus”.
A promessa de Deus é cumprida plenamente em Jesus Cristo (89.26-37; 130.4; 2Sm 7.25,26; 1Rs 8.39,40; Jr 33.8,9; Hb 1.1-5).
¨He é a quinta letra do alfabeto hebraico, pode ser utilizada como artigo definido (o,a,os,as), tem valor numérico 5 e corresponde
à nossa letra “H” (vv.33-40).
8
O salmista demonstra como devemos buscar ao Senhor de todo o coração: suplicando, antes de tudo, para que a miseri-
córdia e o poder da sua Palavra sejam sempre bênçãos presentes em nossas vidas. A presença de Deus (seu Nome) na vida do
crente lhe concede coragem e santa ousadia, até mesmo diante dos insultos dos maiores adversários (At 4.19-20; Jo 7.17; 1Pe
2.6; 3.14,15). A expressão “liberdade” pode ser aqui traduzida literalmente por “um espaço amplo”. É um grave erro imaginar que
ao obedecer verdadeiramente à Palavra corre-se o risco de estreitar a capacidade analítica e criativa. Em Cristo gozamos a ple-
nitude da liberdade (Gl 5.1). O crente jamais será escravizado ou derrotado pela aflição ou opressão (v.45; 18.19). ·` Vav é a sexta
letra do alfabeto hebraico, pode ser usada como vogal (o,u) ou como conjunção (e), tem valor numérico 6 e corresponde à nossa
letra “V” (vv.41-48). Alguns hebraístas transliteram essa letra como “Vav”, o que permitiu a certos pesquisadores afirmar que o
último e mais terrível anticristo (Ap 13.18) seria a rede mundial de computadores, conhecida como “internet” ou World Wide Web.
Dedução obtida a partir da simples tradução do valor numérico de cada letra “Waw” ou “Vav” (www ou 666). Entretanto, o número
misterioso relatado em Apocalipse é seiscentos e sessenta e seis, formado por diferentes letras hebraicas ou gregas.
9
Na Palavra de Deus encontramos todo o consolo e direção de que necessitamos, sejam quais forem as circunstâncias à
nossa volta (Hb 6.12). Nem mesmo a morte tem poder sobre a vida do crente (v.50; Ef 2.1; 1Pe 1.23). Satanás e seus adeptos
sempre se utilizam do sarcasmo e das zombarias para tentar desviar o crente de sua devoção ao Senhor (v.51; At 17.18). A vida
na terra é considerada como breve peregrinação e morada em tenda frágil, mas, para quem deposita sua fé no Senhor, a vida
é um perpétuo hino de louvor e vitória (2Co 2.14; 5.1-4) * Zayin é a sétima letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 7 e
corresponde à nossa letra “Z” (vv.49-56).
10
Deus (Yahweh – Jeová) se dá, ao crente, na pessoa de Jesus Cristo, a fim de ser o cumprimento perpétuo da nossa herança
SALMOS 119
121
to meus passos para a observância das
tuas prescrições!
60
Apressei-me, sem perder um instante,
em observar os teus mandamentos.
61
Os laços dos ímpios me envolveram,
mas não me esqueci de tua Lei.
62
Levanto-me em plena noite para te
louvar, por causa de tuas justas decisões.
63
Associo-me a todos os que te temem e
observam tuas ordenanças.
64
SENHOR, do teu amor a terra está reple-
ta: ensina-me teus decretos!
C Tet
65
Trataste teu servo com extrema bon-
dade, segundo a tua Palavra, SENHOR.
11
66
Ensina-me bom senso e entendimen-
to, pois deposito toda a minha confiança
em teus mandamentos.
67
Antes de ser humilhado, eu andava ex-
traviado, mas agora aprendi a obedecer à
tua Palavra!
68
Tu és bom, e tudo o que fazes é muito
bom; ensina-me os teus decretos!
69
Os insolentes mancharam o meu
nome com calúnias contra mim; mas
eu, de todo o coração, obedeço aos teus
preceitos.
70
O coração deles é absolutamente in-
sensível; eu, contudo, tenho prazer na
tua Lei.
71
Foi bom para mim ter sido castigado,
para que aprendesse os teus decretos.
72
A Lei de tua boca vale, para mim, mui-
to mais do que milhões em ouro e prata.
` Yud
73
As tuas mãos me criaram e me forma-
ram; dá-me entendimento para aprender
os teus mandamentos!
12
74
Ao me verem, alegram-se os que te te-
mem, pois espero em tua Palavra.
75
Reconheço, SENHOR, que tuas decisões
são justas; foi com lealdade que me cas-
tigaste!
76
Seja meu consolo o teu amor, segundo
a promessa a teu servo.
77
Alcance-me a tua misericórdia para
que eu tenha vida, porque a tua Lei é o
meu grande prazer!
78
Sejam humilhados os arrogantes, pois
muito me prejudicaram sem motivo;
mas eu refletirei nos teus preceitos.
79
Venham apoiar-me aqueles que te te-
mem, aqueles que compreendem os teus
estatutos!
80
Que meu coração seja íntegro em teus
decretos, para eu não ter de me envergo-
nhar!
2 Kaf
81
Minha alma quase desfaleceu, aguar-
dando tua salvação; espero em tua Pala-
vra.
13
82
Meus olhos se consumiam, aguardan-
do tua promessa, e eu me perguntava:
“Quando me consolarás?”
83
Apesar de ser como uma vasilha inútil,
não me esqueço dos teus decretos.
84
Até quando o teu servo deverá aguar-
dar para que castigues os meus persegui-
dores?
85
Os insolentes cavaram fossos e cons-
(1Pe 3.4). A Palavra de Deus é o verdadeiro espelho no qual podemos ver refletidos nossos mais íntimos pensamentos e desejos
(v.62; Tg 1.23-25) l Het é a oitava letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 8, e seu som gutural (produzido na garganta)
corresponde ao nosso dígrafo aquele “RR” (vv.57-64).
11
Enquanto a absoluta confiança na Palavra de Deus nos leva à verdadeira e perene sabedoria, as aflições (provações) fazem
nosso coração maleável aos desígnios do Senhor (v.58; 4.7). A ambição do justo é conquistar os valores eternos (73.26; Mt 6.19-
21). ·C Tet é a nona letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 9 e corresponde à nossa letra “T” (vv.65-72).
12
O salmista nos exorta a reconhecer humildemente que aquele que nos criou tem todo o direito e poder de nos moldar à sua
vontade. Portanto, o Senhor repreende e castiga todos aqueles que adota como filhos amados (51.4; 2Co 7.10; Hb 12.4-11). Deve
haver uma fraterna comunhão entre todos aqueles que amam a Palavra de Deus em todo o mundo (At 2.42). ` Yud é a décima
letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 10 e corresponde à nossa letra “Y” (ou “i”). É a menor das 22 letras que compõem
o alfabeto hebraico, e por se tratar de um pequeno traço gráfico; servindo às vezes, como vogal, Jesus usou-a para enfatizar o
total cumprimento de toda a Palavra de Deus na História (vv.73-80; Mt 5.18).
13
Mesmo enfrentando as mais adversas situações e enfermidades cruéis, o crente confia que a Palavra de Deus que lhe garante
a graça e a misericórdia do Senhor jamais se extinguirão e que a felicidade eterna é seu destino final (Sl 83; Hb 2.11-12; Jo 10.10). A
profecia contida neste salmo revela que Jesus Cristo, o Messias, foi vítima da falsidade e das armadilhas dos próprios mestres da Lei
de seu tempo (v.85; Mc 12.13; Êx 20.16). Quando a causa é justa, é legítimo e oportuno pedir a intervenção e o livramento divino. 2
Kaf é a décima primeira letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 20, e corresponde à nossa letra “K” (vv.81-88).
SALMOS 119
122
truíram armadilhas para mim: eles não
respeitam a tua Lei.
86
Todos os teus mandamentos são fide-
dignos: ajuda-me contra os que, injusta-
mente, me perseguem!
87
Por pouco não me eliminaram da terra,
eu, porém, não abandonei teus preceitos.
88
Segundo o teu amor, reanima-me para
que eu observe a instrução que procede
de tua boca!
7 Lamed
89
Para sempre, SENHOR, está firmada a
tua Palavra nos céus.
14
90
Tua fidelidade dura de geração em ge-
ração: estabeleceste a terra, e ela perma-
nece;
91
por tuas decisões permanecem até hoje,
pois o Universo está a teu serviço.
92
Se tua Lei não fosse o meu maior pra-
zer, o sofrimento já me teria consumido!
93
Jamais esquecerei os teus preceitos, pois
por eles me fizeste reviver.
94
Salva-me, pois a ti pertenço e tenho
procurado os teus preceitos!
95
Os ímpios estão à espreita para des-
truir-me, mas eu estou atento aos teus
testemunhos!
96
Compreendi que toda perfeição tem
limite; entretanto, não há limite para a
tua Lei, cuja grandeza é infinita!
C Mem
97
Quanto amo a tua Lei! Sobre ela reflito
o dia inteiro!
15

98
Os teus mandamentos me fizeram
mais sábio que meus adversários, por-
quanto estão sempre comigo.
99
Tornei-me mais perspicaz que todos
os meus mestres, pois meditei em tuas
prescrições.
100
Tenho mais discernimento que os an-
ciãos, pois obedeço aos teus preceitos.
101
Desviei meus pés de todas as trilhas
do mal para guardar a tua Palavra!
102
Não me afasto de tuas ordenanças,
pois tu mesmo me ensinas.
103
Quão doces são os teus decretos ao meu
paladar! Mais que o mel à minha boca.
104
Graças aos teus preceitos tenho en-
tendimento; por isso, detesto todos os
caminhos da mentira!
. Nun
105
Tua Palavra é lâmpada que ilumina
os meus passos e luz que clareia o meu
caminho!
16
106
Fiz um juramento, e o confirmo: obe-
decerei às tuas justas ordenanças.
107
Estou extremamente aflito: vivifica-
me, SENHOR, segundo a tua Palavra!
108
Aceita, SENHOR, as ofertas de louvor de
minha boca e ensina-me os teus juízos.
109
A minha vida está sempre correndo
perigo, mas não me esqueço da tua Lei.
110
Os ímpios armaram-me uma cilada,
mas não me desviei de teus preceitos.
111
Tuas prescrições serão sempre minha
herança; elas são a grande alegria do meu
ser!
112
Inclinei todo o meu coração a cumprir
teus decretos para sempre, até o fim.
C Samek
14
A Palavra de Deus, soberana e imutável, governa e mantém todo o Universo e a criação sob seu atento cuidado. Essa Palavra
(o Logos divino), mediante a qual Deus sustenta e dirige o mundo e tudo o que existe é eterna e fidedigna (v.90). Essa é a verdade
maior que garante ao crente sua confiança nas leis e promessas do Senhor (19.1-4; 33.4,6; 93.5; 96.10; 107.20; 147.15,18) 7
Lamed é a décima segunda letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 30 e corresponde à nossa letra “L” (vv.89-96).
15
A busca desesperada e frenética da Filosofia, na busca da razão da existência humana e do absurdo da vida, só encontra
verdadeira e plena solução na Palavra de Deus. Todos aqueles que podem reagir afirmativamente a esta seção (vv.97-104)
demonstram que já resolveram essa questão em suas existências e passaram da morte para a vida eterna. Os “anciãos” eram
homens de idade avançada, experientes na vida e, especialmente, na aplicação prática e cotidiana da Palavra de Deus em suas
atitudes e relacionamentos (v.102; Is 50.4-5). A verdadeira vida devocional é amar a Deus de todo o coração e meditar em sua
Palavra (no original hebraico “leis ou decretos” – v.103) C Mem é a décima terceira letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico
40, e corresponde à nossa letra “M”.
16
Quando as maiores glórias humanas voltam ao pó, permanece gloriosa a Palavra de Deus (Is 40.6-8). O sacrifício da obe-
diência lúcida, sincera e voluntária que produz o verdadeiro louvor e ações de graças é mais valioso do que todas as oferendas,
cultos e ritos. É o sacrifício do próprio “Eu” em devoção ao Senhor (Hb 13.15). O mundo é articulado por Satanás, seus demônios
e correligionários, no sentido de levar o maior número de pessoas ao pecado e à morte (v.110; 1Pe 5.8-9). Viver em comunhão
eterna com o Senhor é o destino (legado, herança) dos escolhidos, daqueles que acolhem o dom da graça divina (v.111) ·. Nun é
a décima quarta letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 50, e corresponde à nossa letra “N” (vv. 105-112).
SALMOS 119
123
113
Detesto os inconstantes, mas amo a
tua Lei.
17
114
Tu és o meu abrigo e o meu escudo;
e na tua Palavra deposito toda a minha
esperança!
115
Afastai-vos de mim, malfeitores! Que-
ro obedecer aos mandamentos do meu
Deus!
116
Sustenta-me de acordo com a tua
promessa, e eu viverei; não permitas que
as minhas esperanças sejam frustradas!
117
Ampara-me, e estarei seguro! Sempre
estarei atento aos teus decretos.
118
Repudias todos os que se desviam de
teus ensinamentos, porquanto vivem em
mentira e falsidade.
119
Reduziste a escória todos os ímpios
da terra; por isso amo os teus decretos!
120
Por temor de ti, minha carne estre-
mece, e eu temo as tuas ordenanças.
V Ayin
121
Tenho vivido com justiça e retidão;
não me abandones nas mãos dos meus
adversários!
18
122
Garante o bem-estar do teu servo; não
permitas que os arrogantes me oprimam.
123
Os meus olhos fraquejaram, aguar-
dando a tua redenção e o cumprimento
da tua promessa de justiça.
124
Trata, pois, o teu servo, conforme o teu
amor leal, e ensina-me os teus decretos.
125
Sou teu servo: dá-me discernimento,
para que eu conheça as tuas prescrições!
126
Já é tempo de agires, SENHOR, pois a
tua Lei está sendo desrespeitada.
127
Por isso amo teus mandamentos mui-
to mais que o ouro purificado.
128
Por isso considero totalmente retos
todos os teus preceitos e detesto todas as
trilhas da falsidade!
£ Pê
129
Os teus testemunhos são admiráveis;
por isso minha alma a eles obedece com
alegria.
19
130
A exposição das tuas palavras ilumina
e dá entendimento aos inexperientes!
131
Abro a boca e suspiro, ansiando por
teus ensinamentos.
132
Volta-te para mim e tem misericór-
dia de mim, como sempre fazes aos que
amam sinceramente o teu Nome!
133
Firma meus passos em tua promessa e
não permitas que mal algum me domine!
134
Livra-me da opressão dos homens,
para que eu guarde teus preceitos!
135
Que tua face se ilumine sobre o teu
servo, e ensina-me os teus decretos!
136
Meus olhos vertem torrentes de lágri-
mas, por não se guardar a tua Lei.
3 Tsade
137
Justo és, ó SENHOR, e corretas são to-
das as tuas decisões!
20
17
O ser humano perdeu a capacidade de, naturalmente, caminhar com Deus, fazer o bem e cumprir a verdade (Gn 3). Esse
dom é restituído e ministrado apenas àqueles que aceitam, sinceramente, em seus corações, a graça salvadora do Senhor (Rm
7). A rejeição dos malignos é como a depuração do ouro, pelo fogo: o ouro fica mais puro e valioso, e a escória é abandonada
(Mt 13.24-43). C Samek é a décima quinta letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 60 e corresponde à nossa letra “S”
(vv.113-120).
18
Como é difícil encontrarmos um fiador idôneo hoje em dia. Nosso maior fiador é Jesus Cristo que pagou nosso resgate com
o valor do seu sangue na cruz (1Jo 2.1,2). A única medida de justiça que o crente pode pedir é a graça divina: o favor de Deus,
não merecido. Os profetas do Senhor são unânimes em afirmar que se aproxima o Dia do Senhor, no qual a justiça de Deus será
plenamente vindicada (Ap 6.16,17). V Ayin é a décima sexta letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 70, e não tem um som
característico, pois de fato não é lida, apenas serve de apoio para a vogal que normalmente a acompanha (vv.121-128).
19
A expressão “os inexperientes”, traduzida em algumas versões como “simples”, refere-se às pessoas cujos corações, do-
tados de humildade por Deus, são ensináveis (têm desejo de aprender). Jesus falava, por parábolas, com as crianças de seu
tempo e elas o compreendiam bem (Lc 18.17). Se contemplarmos, pela fé, a face do Senhor, seremos transformados para viver
de acordo com sua vontade (2Co 3.18). £ Pê é a décima sétima letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 80, e corresponde
à nossa letra “P” (vv.129-136).
20
Deus é leal, em seu amor, e absolutamente infalível, em sua justiça. Portanto, todas as suas promessas se cumprirão ca-
balmente ao longo da História, conforme sua boa vontade e soberania (Hb 6.17-19). Foi o zelo pela Casa de Deus (que habita o
corpo dos crentes e, conseqüentemente, a Igreja de Cristo), que levou Jesus a enfrentar os teólogos e religiosos de seu tempo
(mestres fariseus) e, mais tarde, entregar-se a eles em sacrifício por toda a humanidade (v.139; Jo 2.13-22). O cuidado com a pu-
reza e a santidade da Igreja era o fardo mais pesado e extenuante que o apóstolo Paulo carregava todos os dias (2Co 11.28-29).
Mesmo que sejamos ou possamos nos sentir pequenos como Davi, é possível – pela fé e em o Nome do Senhor – vencer as maio-
res batalhas (v.141; 1Sm 17.41-51). Feliz é a pessoa que ama e confia na Palavra de Deus na hora das mais terríveis angústias e
SALMOS 119
124
138
Promulgaste com justiça as tuas pres-
crições; e com plena fidelidade.
139
Meu zelo me consome, pois os meus
adversários desdenham das tuas pala-
vras.
140
A tua promessa foi absolutamente com-
provada, e, por esse motivo, o teu servo a
ama.
141
Sou insignificante e desprezado, con-
tudo não esqueci teus preceitos.
142
Tua justiça é justiça eterna, e a tua Lei
é a verdade!
143
Sobrevieram-me angústia e tribula-
ção; todavia teus mandamentos são mi-
nha delícia.
144
As tuas prescrições são justiça eterna:
dá-me discernimento para que eu tenha
vida!
¨ Qof
145
Clamo de todo coração: responde-
me, SENHOR! Quero obedecer a teus de-
cretos.
21
146
Clamo a ti: salva-me, para que eu possa
observar as tuas prescrições!
147
Antes da aurora me levanto para su-
plicar o teu auxílio; em tua Palavra depo-
sito toda a minha esperança!
148
Fico acordado nas vigílias da noite, a
fim de refletir sobre as tuas promessas.
149
Ouve as minhas orações por teu amor
leal; ajuda-me a viver, SENHOR, de acordo
com as tuas ordenanças.
150
Aproximam-se esses infames, meus per-
seguidores, que se afastaram da tua Lei.
151
Entretanto, tu estás perto de mim, SE-
NHOR, e todos os teus mandamentos são
verdadeiros!
152
De tuas determinações sei, desde mui-
to, que as estabeleceste para sempre!
¨ Resh
153
Vê minha aflição e liberta-me, pois
não me esqueci de tua Lei.
22
154
Advoga minha causa e defende-me;
vivifica-me, segundo a tua promessa!
155
A salvação está longe dos ímpios, por-
que eles não buscam os teus decretos.
156
SENHOR, copiosa é a tua compaixão:
vivifica-me, segundo as tuas decisões!
157
Numerosos são meus perseguidores e
adversários, mas não me afastei de tuas
prescrições.
158
Vi traidores da fé e senti desgosto,
porque não guardavam a tua promessa.
159
Vê quanto amo os teus preceitos: vi-
vifica-me, SENHOR, segundo o teu amor!
160
O princípio de tua Palavra é a ver-
dade, e todas as tuas justas decisões são
para sempre.
2 Shin
161
Príncipes perseguiram-me sem moti-
vo; mas é da tua Palavra que o meu cora-
ção sente reverente temor.
23
162
Encontrei alegria em tua promessa,
como quem encontra grande tesouro.
163
Detesto e abomino a falsidade, mas
amo profundamente a tua Lei.
164
Louvo-te, sete vezes ao dia, por tuas
justas ordenanças.
sofrimentos; o céu e a vida eterna serão sua herança e glória (vv. 24,77,143).3 Tsade é a décima oitava letra do alfabeto hebraico,
tem valor numérico 90, e seu som corresponde ao nosso “TZ”, pronunciado com a língua junto aos dentes frontais (vv.137-144).
21
À medida que o salmo se aproxima de sua conclusão, as súplicas por livramento (salvação) tornam-se mais evidentes e
dominantes. A única fonte da verdadeira ética e moralidade é a Palavra de Deus (v.150; Jo 10.35). ¨ Qof é a décima nona letra do
alfabeto hebraico, tem valor numérico 100, e corresponde à nossa letra “Q” (vv.145-152)
22
Quem se dedica a meditar na Palavra de Deus sabe como falar com o Senhor (v.153). Tudo o que pedirmos em o Nome de
Jesus nos será feito; isso significa: pedir o que Jesus pediria ao seu Pai nesse momento e em seu lugar (Jo 14.13). A expressão
original “em o Nome” tem o sentido da “própria presença excelsa do Espírito de Deus”. Os ímpios, todos que rejeitam a men-
sagem de salvação expressa na Bíblia, estão alienados de qualquer possibilidade de perdão e resgate divino (2Co 6.2). Deus
criou o Universo e a humanidade por meio da sua Palavra (o Logos eterno, Jesus Cristo). A verdade da Bíblia tem seu paralelo
na estrutura do Universo (Gn 1.3-9; Jo 1.1-3; Hb 1.3).¨ Resh é a vigésima letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 200, e
corresponde à nossa letra “R”, pronunciada por meio do tremer da língua entre os dentes (vv.153-160).
23
Se aprendermos a pontuar nosso dia-a-dia com pequenos momentos de louvor e ações de graças (um cântico, uma peque-
na oração, um breve meditar com sentimento de sincera adoração ao Senhor), compreenderemos muito melhor o que significa
andar com Deus e manter comunhão com o Espírito Santo (v.23; 4.7). Paz e segurança pertencem àqueles que depositam toda a
sua fé nas mãos do Senhor (Mt 28.20). 2 Shin é a vigésima primeira letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 300, e corres-
ponde às nossas letras “SH”, soando com o efeito sonoro de “X”, como em nossa palavra “Xícara”. Essa letra tem uma variação
chamada 2 Sin, de mesmo valor numérico, cujo som corresponde ao nosso “S”, como na palavra “Sopa” (vv.161-168).
SALMOS 119
125
165
Grande paz têm os que amam a tua
Lei: para eles não há tropeço!
166
Espero de ti, SENHOR, a salvação, e pra-
tico os teus mandamentos.
167
A minha alma tem observado as tuas
orientações; e amo-as ardentemente.
168
Obedeço a todos os teus preceitos e
testemunhos, pois conheces todos os meus
pensamentos!
! Tav
169
Que meu clamor chegue à tua presen-
ça, SENHOR: concede-me entendimento,
de acordo com a tua Palavra!
24
170
Que minha súplica chegue à tua pre-
sença: livra-me, segundo a tua promessa!
171
Que meus lábios proclamem teu lou-
vor, pois me ensinas teus decretos.
172
Cante minha língua tua promessa, pois
todos os teus mandamentos são justos.
173
Venha tua mão em meu socorro, pois
escolhi teus preceitos.
174
Anseio por tua salvação, SENHOR, e tua
Lei é meu maior prazer!
175
Viva minha alma para te louvar, e tuas
ordenanças me sustentem.
176
Eu, como ovelha desgarrada, me des-
viei e me perdi: vem em busca de teu
servo, pois jamais me esqueci dos teus
mandamentos!
Oração contra os maldizentes
Cântico de peregrinação.
1
120
Em minha aflição invoquei o SE-
NHOR, e Ele me respondeu.
2
2
SENHOR, livra-me dos lábios caluniado-
res, da língua mentirosa e traiçoeira!
3
3
O que te dar em paga, o que te retribuir
em dobro, ó língua pérfida?
4
Contudo, Ele a castigará com as flechas
afiadas de um guerreiro, com brasas in-
candescentes de sândalo.
4
5
Infeliz de mim que vivo como forastei-
ro em Meseque, que habito entre as ten-
das de Quedar!
5
6
Tenho passado tempo demais entre os
que odeiam a paz.
7
Sou um homem de paz; no entanto,
ainda que insista em falar de paz, eles
preferem engendrar violências e bruta-
lidades.
24
Deus havia prometido, na Antigüidade, que Ele mesmo falaria e ensinaria a seus filhos sobre o Caminho que deveriam seguir.
Essa profecia se cumpre com a vinda de Cristo e, mais tarde, com o envio do Espírito de Deus para habitar no coração de todo
crente sincero (Is 54.13; Jo 10.1-18, conforme Lc 15.4-7). O salmista reconhece que, apesar de toda a sua dedicação à Palavra de
Deus, repetidas vezes desgarrou-se para outros caminhos (todos enganosos e de perdição – Is 53.6) e, como ovelha fraca, cega
e perdida, somente poderia ser trazido de volta ao aprisco pelas mãos fortes e generosas do Pastor celestial. Não há lugar mais
seguro e aconchegante que a Casa do Pai eterno, e sua Palavra está sempre apontando para o bom e verdadeiro Caminho (Lc
15.11-32). ! Tav é a vigésima segunda e última letra do alfabeto hebraico, tem valor numérico 400, e sua pronúncia corresponde
à da nossa letra “T” (vv.169-176).
Capítulo 120
1
Os salmos 120 a 134 formavam uma espécie de “hinário de bolso”, muito apreciado e intitulado “Cânticos de Romagem ou
Peregrinação”. São breves peças poéticas e musicais, sobre variados assuntos teológicos, formando uma coletânea de ensinos e
princípios bíblicos para serem decorados e cantados durante os afazeres cotidianos e as longas peregrinações anuais até a Cidade
Santa de Jerusalém (Sl 84.5-7; Êx 23.14-17; Dt 16.16; Mq 4.2; Zc 14.16), nas quais os adoradores chegavam, cantando ao monte
Sião, à Rocha de Israel (Is 30.29). A coletânea começa (Sl 120) narrando a experiência de um servo de Deus distante do seu lar e
acossado por bárbaros (brutos, ignorantes), e termina com um testemunho de louvor e um convite à adoração pública no santuário
(Sl 122 e 134). Evidentemente, esses salmos foram entoados nas liturgias do templo, conforme a disposição pós-exílica final dos
textos sagrados no Saltério, que juntamente com os salmos 135 e 136 ficaram conhecidos como o “Grande Halel” (Sl 42, 43 e 84).
2
Expressão de absoluta confiança formulada em frases, cujos verbos estão originalmente, em hebraico, no tempo “perfeito de
confiança”, com o sentido do presente: “invoco o Eterno e Ele me responde” (Sl 6.8-10).
3
O filho de Deus é advertido várias vezes nas Escrituras contra a maledicência que sempre o espreita (Ef 4.31; 5.4; 1Pe 2.1).
4
A madeira produzida pela pequena árvore do sândalo, zimbro ou giesta produz um fogo ardente, brasas muito vivas e du-
radouras, além de forte perfume característico. O óleo de sândalo era usado para curar feridas, assim como, suas brasas, para
cauterizar ferimentos de guerra, normalmente provocados por material cortante (Pv 16.27; Tg 3.6). A língua é arma perigosa e
destruidora (Pv 25.18; Jr 9.8; Sl 57.4; 64.3). Mas o castigo divino é resposta certa e à altura (Sl 7.11-13; 11.6; 63.9; 64.7,8).
5
Meseque ficava na região da Ásia Menor central (Gn 10.2) e Quedar, na Arábia (Is 21.16). Duas regiões de povos nômades
e pagãos (incivilizados e sem fé em Deus), que procuravam impedir que os israelitas restaurassem a Cidade Santa. O salmista,
acossado por caluniadores, sente-se inseguro, longe do afeto dos seus, e cercado por inimigos impiedosos e inflexíveis. Con-
tudo, no coração onde habita a paz do Senhor há sempre a certeza da libertação e do juízo de Deus (v.3; 1Sm 3.17; Jo 14.27;
At 9.31; 10.36; Rm 12.18; Cl 3.15).
SALMOS 119, 120
126
Oração pela proteção do Senhor
Cântico de peregrinação.
121
Levanto meus olhos para os
montes e questiono: de onde
me virá o socorro?
1

2
O socorro virá do meu SENHOR, o Cria-
dor dos céus e da terra!
3
Ele não deixará que teus pés vacilem;
não pestaneja Aquele que te guarda.
2

4
Certamente não! De maneira alguma
cochila nem dormita o guarda de Israel.
5
O Eterno é o teu protetor diuturno;
como sombra que te guarda, Ele está à
tua direita.
6
Não te molestará o sol, durante o dia,
nem de noite, a lua.
3

7
O SENHOR te guardará de todo o mal, Ele
protegerá a tua vida!
8
Estarás sob a proteção do SENHOR, ao
saíres e ao voltares, desde agora e para
todo o sempre!
4
Súplica pela paz em Jerusalém
Cântico davídico, de peregrinação.
122
Alegrei-me quando me con-
vidaram: “Vamos à Casa do
Senhor”.
1
2
Eis que nossos pés chegaram às tuas
portas, ó Jerusalém!
3
Cidade construída em bases sólidas,
edificada para unir
4
todas as tribos do Eterno, em grande
celebração de ação de graças ao Nome do
SENHOR, conforme o mandamento dado
a Israel.
2
5
Lá estão os tribunais de justiça, a sede
da casa real de Davi.
3
6
Rogai ao Eterno pela paz de Jerusalém:
“Prosperem os que te amam, ó Jerusalém!
4
7
Haja paz dentro das tuas muralhas e se-
gurança em teus palácios.”
8
Em favor dos meus irmãos e compa-
nheiros, suplicarei: “A paz esteja contigo!”
1
Diálogo litúrgico, de confissão e testemunho de fé absoluta no controle divino do Universo em geral e na vida pessoal do
crente. Este desabafo e a expressão de louvor para com Deus podem ocorrer na intimidade do coração (como o refrão dos sal-
mos 42 e 43); nas caravanas de peregrinos que vinham de lugares distantes para celebrar ao Senhor no templo em Jerusalém;
ou na vida diária de todos nós, peregrinos rumo à glória eterna, na qual os crentes fiéis serão recebidos (Sl 33; 49.15; 73.24). Os
povos pagãos, vizinhos a Jerusalém (como os baalins), costumavam cultuar entidades que dominavam os montes (literalmente
no original hebraico: lugares altos) ao redor da região. Curiosamente, a cidade de Sião foi erguida sobre um desses montes (Sl
125.1,2; 87.1; 133.3). A vigilância amorosa e poderosa de Yahweh (Jeová) sobre seus filhos é um grande apelo para confiarmos
em Deus em todas as circunstâncias.
2
Nosso Deus, Yahweh, é o único e verdadeiro Rei de toda a criação e nosso Senhor (Sl 124.8; 134.3; 33.6; 89.11-13; 96.4,5;
104.2-9; 136.4-9). Ele jamais se cansa ou se distrai em seu cuidado zeloso para conosco, ao contrário de todos os demais seres
espirituais existentes (1Rs 18.27).
3
O salmista usa a metáfora dos luzeiros cósmicos para revelar a proteção ininterrupta de Deus – dia e noite – para com seus
filhos (Is 4.6; 25.4,5; 49.10; Jn 4.8).
4
Esta é uma expressão hebraica usada em contextos militares, cuja transliteração, a partir dos originais, é Adonai yishmor
tsetechá uvoêcha, meata vead olam (1Sm 29.6; 2Sm 3.25). Entretanto, o sentido mais amplo, nesse contexto, é a promessa da
bênção perpétua do Senhor a seus filhos, mesmo atravessando as situações mais difíceis e tristes desta vida terrena e passageira
(Dt 28.6).
Capítulo 122
1
Hino de regozijo e louvor a Deus por causa da Cidade Santa (Sl 42; 43; 46; 48; 84; 87; 137, especialmente em suas introdu-
ções), cantado por um peregrino da casa de Davi, ao chegar em Jerusalém por ocasião de uma das principais festas religiosas
do ano (Dt 16.16). Alegria por ter se unido ao grupo de peregrinos (Sl 120) a caminho da Casa de Deus, lugar onde a presença
de Yahweh / Jeová era percebida com grande esplendor: o templo, uma representação da residência de Deus na terra, o Taber-
náculo, a Igreja, o nosso próprio Corpo (Jo 2.21; Rm 8.11; 12.5; 1Co 6.15-20).
2
O verdadeiro culto a Deus é uma celebração na qual, além das nossas súplicas e petições, apresentamos ao Senhor nossa
gratidão por tudo que Ele nos concede (Sl 116.12). A expressão “ao Nome do Senhor” indica, originalmente, a presença clara
e real do Espírito de Deus naquele local ou circunstância. Este versículo pode ser transliterado, a partir dos originais hebraicos,
desta forma: Hine lo ianum velo yishan, shomer Yisrael (Sl 5.11; 81.3-5; Dt 16.1-17).
3
Jerusalém é considerada tanto a Cidade Santa quanto a cidade majestosa da sua dinastia escolhida, por meio da qual Deus
abençoa e protege todas as regiões de Israel e, idealmente, as demais nações da terra. Mesmo no período pós-exílico, continuou
sendo celebrada como a cidade de Davi, mas isso mediante a fé messiânica (Sl 2.2; 6.7; 89.3-37; 110; 2Sm 7.8-16).
4
No original hebraico (aqui transliterado), há um jogo de palavras, significando que a palavra “Paz” é um conjunto de bênçãos:
“perfeição, plenitude, contemplação, saúde e prosperidade”, ou seja, um estado de paz de espírito dinâmico e frutífero: Shaalu
shelom Ierushaláyim, shalva bearmenotáyich (Sl 133).
SALMOS 121, 122
127
9
Por amor à Casa do Eterno, nosso Deus,
buscarei sempre o teu bem.
Prece por rápido auxílio divino
Cântico de peregrinação.
123
Ergo meus olhos em tua dire-
ção, a ti que habitas nos céus.
1
2
Como os olhos dos servos estão aten-
tos à mão de seus senhores, e os olhos da
criada, à mão de sua senhora, assim nos-
sos olhos estão voltados para o SENHOR,
nosso Deus, até que Ele expresse sua mi-
sericórdia para conosco.
3
Piedade, SENHOR! Tem compaixão de
nós! Porquanto estamos cansados de
tanto desprezo.
4
Estamos fartos de tanta zombaria dos so-
berbos e da humilhação dos arrogantes!
2
Ação de graças pela liberdade
Um cântico davídico de peregrinação.
124
Se o SENHOR não estivesse do nos-
so lado, que Israel o repita:
1

2
Se o SENHOR não estivesse do nosso lado,
quando os inimigos nos atacaram,
3
eles já nos teriam devorado vivos, quan-
do se enfureceram contra nós.
4
Então, as águas nos teriam arrastado e
furiosas torrentes teriam feito submergir
nossas almas.
2
5
Sim, águas profundas e violentas nos
teriam afogado!
6
Bendito seja o SENHOR, que não nos
entregou para sermos dilacerados pelas
presas e garras ferinas do inimigo.
3
7
Como um pássaro, escapamos da cilada
do caçador; a armadilha foi destruída e
ficamos livres!
8
O nosso socorro está em o Nome do
Eterno criador do céu e da terra.
4

A verdadeira fé é indestrutível
Cântico de peregrinação.
125
Todos aqueles que depositam
absoluta fé no Eterno são ina-
baláveis como o monte Sião.
1
2
Assim como um colar de montanhas
que cerca Jerusalém, a proteção do SE-
NHOR envolve seu povo eternamente.
2
3
O cetro dos ímpios não prevalecerá so-
1
O mesmo Deus que reside no templo terrestre, em Sião, e nos corações dos crentes, habita os céus e todo o Universo. Sua
misericórdia e compaixão são ricas para com todos que o buscam com humildade e fé (Sl 2.4; 9.11; 11.4; 80.1; 99.1; 113.5;
122.5; 132.14).
2
Desprezo será uma das mais terríveis punições com que, no Juízo Final, Deus castigará as pessoas incrédulas (Mt 5.29; Lc
12.5; 2Pe 2.4; Ap 20.14). É um dos sofrimentos mais cruéis que um ser humano pode padecer. Especialmente quando é despreza-
do injustamente por seus parentes e amigos. O povo de Israel viveu historicamente vários momentos de desprezo e humilhação;
contudo, de todos o Senhor livrou Israel, como na reconstrução dos muros de Jerusalém na época de Esdras e Neemias (Ne
2.19; 4.1-9 e capítulo 6).
Capítulo 124
1
Um cântico de louvor e agradecimento ao Senhor pelo grande livramento de Israel. Um levita proclama os vv. 1-5 e, em se-
guida, a congregação ou um grupo de adoradores responde por meio dos vv. 5-8. Uma seqüência apropriada para o Sl 123. Um
salmo considerado davídico por causa dos ecos observados em outras composições de Davi (Sl 18; 69). Israel deve reconhecer
que somente o Senhor Yahweh o salvou (e salva) da total destruição (Sl 20.7; 94.17).
2
É interessante lembrar que as grandes civilizações e potências pagãs do passado, como os impérios do Egito, Assíria e Babi-
lônia, sempre prometeram inundar as terras do povo de Deus e afogá-lo no próprio sangue (Sl 32.6; 49.14; 69.1,2).
3
A preservação nacional de Israel sempre foi considerada uma prova evidente do amor leal e da aliança imutável de Deus
para com seu povo. Um antegozo da salvação eterna. A metáfora do pequeno pássaro que é liberto das armadilhas do caçador
refere-se à libertação de Israel das garras do cativeiro babilônico.
4
Como grand finale, temos a maravilhosa confissão da congregação, em uníssono. Este verso pode ser assim transliterado, a
partir dos manuscritos em hebraico: Ezrênu beshem Adonai, osse shamáyim vaárets. (Sl 121.2).
Capítulo 125
1
A grandeza e a segurança da Cidade Santa inspiram o peregrino levita a cantar, nas liturgias do tempo pós-exílico, sobre a
eterna e indestrutível confiança do crente (Gl 4.24-26). Este versículo, incorporando o subtítulo, pode ser transliterado, a partir dos
originais hebraicos, da seguinte forma: Shir hamaalot, habotechim badonai, kehar Tsión lo yimot, leolam ieshev.
2
A Igreja Cristã de hoje faz bem em refletir sobre o significado da antiga expressão hebraica “povo de Deus”. As características
dos crentes não se limitam às bênçãos que recebem do Senhor, mas igualmente a um caráter ilibado, fervoroso, piedoso e abso-
lutamente honesto. Por isso, as Escrituras os comparam aos “que fazem o bem”, “justos”, “que têm coração íntegro” (Sl 34.8-14;
46 e 48). Ainda que Jerusalém não esteja cercada por grandes picos, os escritores bíblicos sempre se referiram poeticamente à
região montanhosa que circunda a cidade, como o próprio monte Sião (2Rs 6.17; Zc 2.5).
SALMOS 122–125
128
bre a terra concedida aos justos; se assim
fosse, até mesmo os justos se entregariam
à prática da impiedade.
3

4
Sê misericordioso, SENHOR, com os bons,
com todas as pessoas de coração íntegro!
4
5
Mas aos que se desviam por caminhos
inescrupulosos, que o SENHOR os expulse
da sua presença juntamente com todos os
ímpios. E que haja paz sobre Israel!
5

Consolo para os que sofrem
Um cântico de peregrinação.
1
126
Quando o SENHOR trouxe no-
vamente restauração a Sião,
nos sentimos como num sonho!
2
Então, se nos encheu de riso a boca, e a
nossa língua de alegres expressões de lou-
vor. Até nas outras nações se comentava:
“O Eterno fez maravilhas por esse povo!”
2
3
Sim, realizações grandiosas fez o SENHOR
por nós, por esse motivo estamos felizes!
4
SENHOR, traze os nossos cativos de volta,
assim como enches o leito dos ribeiros
no deserto do Neguebe.
5
Os que em lágrimas semeiam, em júbi-
lo ceifarão!
6
Aquele que par te chorando, enquan-
to lança a semente, retornará entoando
cânticos de louvor, t razendo seus fei-
xes.
4
Quando todo trabalho é inútil
Cântico de peregrinação. De Salomão.
127
A não ser que o Eterno edifi-
que a Casa, trabalham em vão
os que desejam construí-la. Se o SENHOR
não proteger a cidade, inútil será a senti-
nela montar guarda.
1
2
Os obstinados que retardam seu sono
até alta noite, acordam antes do amanhe-
cer e idolatram o trabalho, não alcança-
rão os bens que o Eterno concede aos
que o amam, mesmo quando estes estão
repousando.
2

3
Na história da humanidade, o “povo de Deus” sempre foi minoria. Governantes pagãos e ímpios vivem ao redor dos crentes
tentando influenciá-los e oprimi-los. Até mesmo os mais justos se vêem em perigo. Contudo, o Senhor preservará os seus dessas
ameaças corruptíveis. O texto aqui é uma evocação à época de Esdras e Neemias, quando os persas dominaram Israel (Ne 2.19;
4.1-8; 6.1-19; 9.36,37; 13.7-28).
4
Deus trata cada ser humano de acordo com seu coração e suas atitudes ao longo do tempo (Sl 18.25-27). Essa é a razão
teológica da confiança na oração (v.4) e numa afirmação igualmente confiante (v.5).
5
O salmista suplica pelo sustento do Senhor nos momentos de aflição e para que os ímpios sejam banidos para sempre (Jd
18,19). A expressão transliterada do original Shalom al Yisrael (que haja paz sobre Israel) é uma forma concisa da tradicional e
grandiosa bênção sacerdotal (Nm 6.24-26).
Capítulo 126
1
Um salmo de júbilo pelo triunfo alcançado mediante a boa e poderosa mão do Senhor. O povo de Deus fora contemplado,
mais uma vez, com a graça da restauração divina. O texto Massorético traz a expressão transliterada šûb΄et š bût significando,
literalmente, nos Salmos, “a volta de Javé para seu povo”, ao passo que, nas profecias referentes ao Exílio, a expressão deve ser
interpretada como “a volta dos cativos”.
2
A alegria dos que voltam à pátria e honram a Deus entre as nações (literalmente, no original hebraico: “entre os pagãos”).
Este versículo pode ser assim transliterado: Az yimalê sechoc pínu ulshonênu rina, az iomeru vagoyim higdil Adonai laassot im
êle. (Sl 46.10).
3
A região do Neguebe está localizada na parte sul de Israel, chegando até quase a fronteira com o deserto do Sinai. Numa
região inóspita e seca, especialmente no verão, encontrar um ribeiro (torrente) ou fonte de água potável é como reencontrar a
própria vida.
4
Assim como muitos israelitas que não permitiram que seus corações fossem contaminados no cativeiro, o crente que procura
viver com fé e em obediência à Palavra de Deus, ainda que atravesse momentos terríveis e incompreensíveis, há de contemplar
as maravilhosas realizações do Senhor em sua vida (20.5).
Capítulo 127
1
Embora nem todos os manuscritos hebraicos tragam claramente o nome de Salomão como autor deste hino, o fato é que seu
nome consta nos mais antigos e fiéis originais aos quais o Comitê Internacional de Tradução da KJ teve acesso. A transliteração
deste versículo, incluindo o subtítulo, é: Shir hamaalot Iishlomô, im Adonai lo yivne váyit, shav amelu vonav bo, im Adonai lo yishmor ir,
shav shacad shomer. O tema deste salmo é o valor eterno do que somos e fazemos, não um estímulo à ociosidade inconseqüente.
O princípio bíblico ensinado é que nenhum talento, carisma ou esforço valem a pena se não estiverem sob a bênção do Senhor (Sl
121.3-8; 2Sm 13.34; 18.24-27; Ct 3.3; 5.7). O arrogante confia apenas ou principalmente em si, enquanto o sábio luta e trabalha sob
a graça e as orientações do Espírito do Senhor (Dt 28.1-14). O humilde sabe que existe um Deus, e que esse Deus não é ele.
2
Um bom trabalho, uma grande conquista ou lucrativa colheita não são fruto de labuta insana e infinda, mas resultado direto
da graça e misericórdia de Deus (Dt 33.12; Jr 11.15; Pv 10.22; Mt 6.25-34; 1Pe 5.7).
SALMOS 125–127
129
3
Quanto a seus filhos, eles são herança
do SENHOR: o fruto do ventre é um pre-
sente de Deus.
3
4
Como flechas na mão do guerreiro são
os filhos nascidos na sua juventude.
5
Bem-aventurado o homem cuja alja-
va deles está repleta! Será respeitado até
mesmo por seus inimigos quando pleite-
ar com eles junto às portas da cidade.
4
Feliz o lar que ama a Deus
Um cântico de peregrinação.
128
Bem-aventurado aquele que
teme ao SENHOR e busca andar
em seus caminhos!
1
2
Comerás do fruto do teu trabalho, serás
feliz e próspero.
2
3
Tua esposa será como videira frutífera
em tua casa; teus filhos serão como bro-
tos de oliveira ao redor de tua mesa.
4
Eis como será abençoada a pessoa que
teme o SENHOR!
5
Que o SENHOR te abençoe desde Sião,
para que contemples a prosperidade de
Jerusalém todos os dias de tua vida.
6
Que alcances a felicidade dos filhos de
teus filhos, e vejas a paz sobre Israel!
4
Recordação dos dias de livramento
Um cântico de peregrinação.
129
Desde a minha juventude, mui-
tas vezes fui oprimido; Israel
que o diga!
1
2
Muito me angustiaram desde a minha
mocidade, contudo não prevaleceram
contra mim.
3
Sobre as minhas costas passaram o ara-
do, e em minha alma calcaram longos
sulcos.
2

4
O SENHOR é justo! Ele me libertou das
algemas dos ímpios.
5
Sejam envergonhados e recuem todos
os que detestam Sião!
6
Sejam como o capim que brota nas la-
3
Segundo as leis do AT, o Senhor concedia porções de terreno em Canaã aos filhos dos israelitas, para que nelas habitassem,
cultivassem e desenvolvessem suas famílias (Nm 26.53; Js 1.13; 11.23; Jz 2.6). Entretanto, sem filhos, a “herança” (a expressão
hebraica original significa “doação”) das terras seria perdida (Nm 27.8-11). Assim, “herança” passou a ser uma expressão com
duplo sentido, especialmente para as famílias judaicas.
4
Uma família numerosa é sempre uma chance de colaboração e bons testemunhos nas disputas da vida, principalmente numa
época e cultura como as que vemos no contexto original deste hino. Algumas versões trazem a expressão “não será humilhado
quando enfrentar seus inimigos no tribunal”, e isso tem a ver com o fato de as grandes disputas públicas se darem literalmente
“às portas da cidade”. A KJ optou pela forma mais literal neste versículo, que pode ser transliterado, dos originais hebraicos desta
forma: Ashrê haguéver asher mile er ashpato mehem, lo ievôshu ki iedabru et oievim basháar (Sl 128.3,4; Dt 17.5; 21.19; 22.15,24;
25.7; Rt 4.1; Is 29.21; Am 5.12).
Capítulo 128
1
Muito feliz a pessoa e a família que observam com amor e dedicação a Palavra de Deus (Sl 120; 127). A bênção final é um
sinal de que este salmo serviu originalmente de instrução levítica (ou sacerdotal) ao povo que vinha adorar em Jerusalém, em
tempos pré-exílicos.
2
Não devemos deixar de realizar o trabalho que Deus espera que façamos, nem tentar fazer o que somente a Deus compete.
Sempre haverá prosperidade para os que vivem uma vida piedosa (consagrada ao Senhor), quer seja no lar, no trabalho ou nos
relacionamentos sociais (1Tm 4.8).
3
A videira, no contexto da tradição judaica, sempre foi um símbolo de fertilidade (Gn 49.22), encantos sexuais (Ct 7.8-12), festi-
vidade e alegria (Jz 9.13). A oliveira é o símbolo da longevidade e da vitalidade. Os frutos da videira e da oliveira sempre estiveram
presentes à mesa das famílias judaicas, especialmente em tempo de liberdade e prosperidade nacional, e representam, juntas, a
beleza de um lar aconchegante e feliz (Êx 23.11).
4
A expressão “desde Sião” pode ser interpretada como: desde o lugar onde se erguia o Templo central em Jerusalém; desde
o lugar onde Jesus foi crucificado em nosso lugar, como sacrifício vicário único, suficiente e eterno; desde a morada celestial
do Senhor (Hb 12.22-24). Este versículo pode ser transliterado, a partir dos manuscritos hebraicos, desta maneira: Ur’e vanim
levanêcha, shãlôm al Yisrael. (Sl 125.5).
Capítulo 129
1
Este salmo é uma das orações de Israel para que seus inimigos mais poderosos e ameaçadores sejam destruídos pelo Se-
nhor. A fé é reforçada pelas muitas e grandiosas recordações que o povo tem dos livramentos promovidos por Deus, ao longo da
História, como a libertação do exílio na Babilônia (Os 11.1). A expressão literal “desde o tempo da minha juventude” refere-se aos
longos períodos em que o povo de Israel sofreu, escravizado pelo Egito e outras potências hostis (Sl 120; 124-128).
2
Os inimigos de Israel conseguiram ferir o povo (e a alma da nação), como se um arado abrisse profundos e longos cortes
em suas costas. Apesar de tantas e cruéis tentativas, Deus jamais permitirá que Israel (e seu povo) seja escravizado para sempre
ou completamente destruído.
SALMOS 127–129
130
jes das casas e seca antes de crescer,
3
7
que não completa um punhado na mão
do ceifeiro, nem uma braça para aquele
que amarra os feixes.
8
E ninguém declare ao passar: “A bên-
ção do SENHOR esteja convosco. Nós vos
abençoamos em Nome do SENHOR!”.
4
Confança no perdão do Senhor
Cântico de peregrinação.
130
Das profundezas clamo a ti, ó
Eterno;
1
2
Senhor, ouve a minha voz; teus ouvidos
estejam atentos ao clamor das minhas
súplicas!
3
Se mantivesses diante de ti a imagem
viva de todas as nossas iniqüidades, quem
se livraria da condenação eterna?
4
Contudo, em ti está o perdão, pelo que
és reverenciado!
2
5
Aguardo no SENHOR, espero com toda
a minha alma e tenho certeza quanto à
sua Palavra.
6
Todo o meu ser espera no SENHOR, mais
que as sentinelas pelo romper da alvora-
da.
7
Israel, deposita toda a tua esperança no
SENHOR! Pois no Eterno há misericórdia
sem fim, e com Ele vem plena redenção.
3

8
Ele pessoalmente redimirá Israel de to-
dos os seus pecados!
Os flhos confam no Pai celeste
Cântico de peregrinação. De Davi.
131
SENHOR, o meu coração não é
arrogante, e os meus olhos não
vêem com soberba. Não há em meu ser
a pretensão de explicar todos os misté-
rios.
1

2
De fato, acalmei e aquietei os meus sen-
timentos. Como uma criança satisfeita
está para sua mãe, assim a minha alma
está para todo o meu ser.
2
3
Israel, deposita toda a tua fé no SENHOR.
Espera tranqüilo e confiante, desde agora
e para sempre!
3
A promessa de Deus a Davi
Um cântico de peregrinação.
132
SENHOR, lembra-te a favor de
Davi, de todas as suas prova-
ções.
1
3
Os inimigos de Israel murcharão como o capim ou a erva frágil que costumava surgir nas lajes de barro seco, dos planos
terraços superiores das casas israelenses.
4
Os transeuntes não poderão saudar estes ceifeiros com a tradicional bênção sobre a colheita, pois as mãos dos ceifeiros
estarão vazias (Rt 2.4).
Capítulo 130
1
Este é o sexto de sete salmos considerados penitenciais (Sl 6; 69.2; 30.1; 32.6). O sábio autor deste poema viveu numa data
pós-exílica e soube perceber que não há um ser humano que esteja livre do pecado desde o seu nascimento (Gn 3). Entretanto,
descobriu que no amor leal de Deus há misericórdia para perdoar todos os nossos pecados e nos livrar da condenação eterna
(1Jo 1.9; Rm 3.23; 6.23; 8.1; 1Pe 1.18-21). Este versículo, incluindo o subtítulo, pode ser transliterado a partir dos melhores origi-
nais hebraicos, desta forma: Shir hamaalót, mimaamakim keratícha Adonai.
2
Diante de um mundo que caminha célere para a destruição, em todos os sentidos, nosso grande consolo é saber que o Senhor
nos prometeu seu perdão e o resgate eterno das almas dos crentes (Êx 34.6,7; Sl 57; 59.9; 127.1; 2Sm 13.34; 18.24-27; Ct 3.3; 5.7).
3
No sacrifício vicário de Jesus Cristo, o Messias, foi cumprida toda a expressão do amor leal de Deus para com a humanidade, e
seu perdão eterno. Essa foi a maior promessa do AT cumprida no NT (Jó 19.25; Jo 3.16; 5.24; 6.47; 10.10; 11.25; 14.6,23-27). Este
versículo pode ser assim transliterado dos originais hebraicos: Iachel Yisrael el Adonai, ki im Adonai hachéssed veharbê imó fedút.
Capítulo 131
1
Este não é um apelo à ignorância e passividade, mas ao bom senso e à humildade. Ninguém pode se comparar a Deus ou
ter seu entendimento, mas podemos confiar em receber a capacitação que Ele nos concede para vivermos e sermos felizes (Jo
10.10). O orgulho é que afasta o ser humano de Deus e o conduz às piores decisões (Sl 31.23; 2Sm 6.21,22). Segue uma transli-
teração, incluindo o sub-título, a partir dos originais hebraicos: Shir hamaalot, zechor Adonai ledavid et col unoto.
2
O adulto insensato deixa seus sentimentos dirigirem todo o seu ser. A criança em fase de amamentação estabelece uma
profunda dependência de sua mãe, que, além de lhe fornecer o alimento vital é fonte de todo o carinho e proteção. Assim, Israel
e o povo de Deus devem confiar e descansar no Senhor – Adonai – o Eterno (v.3).
3
Transliteração deste versículo: Iachel Yisrael el Adonai meata vead olam.
Capítulo 132
1
Este salmo difere dos demais “hinos de peregrinação” pela extensão do texto poético e profético, e por cuidar de temas
relacionados à Aliança (Promessa) feita entre Deus e seu servo Davi. Nesta oração, o salmista pede as misericórdias do Senhor
para o filho de Davi que reina sobre o trono de Davi (v.10). Na liturgia pós-exílica, tinha implicações messiânicas. Era também
SALMOS 129–132
131
2
Como fez votos solenes e juramentos ao
Eterno, o Poderoso de Jacó, declarando:
2

3
“Não entrarei na minha tenda e não me
deitarei no meu leito;
4
não permitirei que meus olhos conci-
liem o sono nem que minhas pálpebras
repousem,
5
enquanto não encontrar um lugar para
o SENHOR, uma habitação para o Podero-
so de Jacó”.
6
Ouvimos falar que a arca poderia ser
encontrada em Efrata, mas a encontra-
mos nos campos de Jaar:
3
7
“Entremos na sua habitação! Vinde e
adoremos ao Senhor diante do estrado
de seus pés!
8
Levanta-te, ó SENHOR, e vem para o teu
lugar de repouso, tu e a arca onde res-
plandece a tua Glória!
4
9
Vistam-se de justiça os teus sacerdotes,
e rejubilem-se com cânticos de louvor os
teus fiéis!”
5
10
Por amor ao teu servo Davi, não rejei-
tes o teu ungido.
6
11
O SENHOR determinou uma promessa
a Davi, um juramento firme que Ele não
revogará jamais: “Estabelecerei um dos
teus descendentes no teu trono.
12
Se os teus filhos guardarem a minha
aliança e as prescrições que Eu lhes ensi-
no, também os filhos deles se assentarão
no teu trono por toda a eternidade!”
7
13
Pois o SENHOR escolheu Sião com a
vontade de constituí-la sua morada:
14
“Este será sempre o lugar do meu re-
pouso, ali residirei, porque assim Eu o
desejei.
15
Abençoarei copiosamente suas provi-
sões e de pão saciarei seus pobres.
8

16
Vestirei de salvação os seus sacerdotes, e
seus fiéis a celebrarão com grande júbilo!
17
Lá eu promoverei o renascimento do
vigor de Davi e farei resplandecer a Luz
do meu Ungido.
9
usado nos rituais de coroação dos reis davídicos (Sl 2; 20.3; 72; 110; 1Rs 11.12,13; 15.4,5; 2Cr 6.41,42). Muitas dificuldades foram
vencidas na conquista de Jerusalém como cidade do Templo (2Sm 5.6-8). A expressão “voto” é usada no sentido de “abnegação”
(vv.2-5; Nm 30.13).
2
Jacó é um dos sinônimos de Israel (Gn 32.28; 2Sm 6 e 7). Este versículo pode ser transliterado, a partir dos manuscritos
hebraicos, desta maneira: Asher nishba ladonai, nadar laavir Iaacov.
3
Este trecho do salmo refere-se à parte do salmo que o povo cantava depois da oração do líder do coro ou sacerdote. Efrata é
uma região localizada ao redor de Belém, cidade onde nasceu o rei Davi e morou Abinadabe sob a guarda de quem a arca ficou
durante vinte anos (1Sm 7.1; Rt 4.11; Mq 5.2). Campina do Bosque, Campos de Jaar ou Quireate-Jearim designa um distrito do
território de Judá (2Sm 6.2-5).
4
Considerando que a poesia hebraica costuma omitir palavras introdutórias, como “dizendo”, por exemplo, os vv.8,9 podem
ser compreendidos como declarações que emanam dos fiéis adoradores (Sl 24). Depois de acompanhar seu povo pelo deserto,
habitando num tabernáculo (uma tenda) que se movia rotineiramente, agora o Templo oferece a imagem da centralidade do trono
e do descanso (2Sm 7.6; 1Cr 28.2). Assim como a terra prometida foi o lugar do repouso ao final de longo período de peregrina-
ções e lutas (Nm 10.33; Js 1.13; Mq 2.10).
5
Os sacerdotes (no NT, todos os crentes sinceros em Cristo – 1Pe 2.9) devem ser exemplos de uma vida reta (Jó 29.14; Pv
31.25). Considerando que no v.16 a palavra hebraica original, correspondente, é “salvação”, mesma expressão usada pelo
autor de Crônicas ao citar este texto (2Cr 6.41), e que “salvação” e “retidão” são palavras, em alguns casos, decorrentes e
sinônimas, conclui-se que há uma evidente referência à “justiça” de Deus que produz a “salvação” (livramento) do seu povo
(Sl 4.1-3).
6
Os vv.8-10 foram incorporados à oração dedicatória do rei Salomão, filho de Davi e Bate-Seba (2Sm 12.24; 2Cr 6.41,42). A
oração pessoal do rei “teu ungido”, que apela a Deus por amor de seu antepassado Davi, que era um homem temente ao Senhor.
Da mesma forma, o cristão ora em o Nome de Cristo, “o Ungido”, o modelo e predecessor de cada filho de Deus.
7
Em várias passagens bíblicas, as “promessas” que Deus fez a Davi, recebem o nome de “alianças”, todas firmadas e cele-
bradas com “juramentos” (Sl 89.3,28,34,39; 2Sm 23.5; Is 55.3; Sl 110.4). A “Aliança no Sinai” era um conjunto de “estatutos ou
prescrições” a que todos os israelenses e seus filhos deviam obedecer em todas as épocas (1Sm 10.25; 1Rs 2.3,4).
8
A verdadeira prosperidade de uma nação é avaliada pela quantidade de seus pobres que passam a viver confortavelmente,
e não por um pequeno grupo de ricos que se tornam ainda mais ricos, arrogantes e dominadores. Deus elegeu Sião (Jerusalém)
como sua cidade santa e habitação na terra (v.13). Os desejos de Davi se harmonizaram à vontade do Senhor (Sl 78.68; Dt 12.5-
14). O povo de Deus encontrará pleno descanso, quando o Senhor estiver definitivamente entronizado e reverenciado em seu
trono em Israel (Dt 12.9; Js 1.13; 1Rs 5.4).
9
A expressão literal hebraica “chifre”, neste versículo significa “glória” ou “vigor”. A descendência de Davi florescerá como um
ramo forte que, no tempo certo, brota da velha videira (1Rs 11.36). Este versículo pode ser transliterado, a partir dos manuscritos
hebraicos desta maneira: Sham atsmíach keren ledavid, aráchti ner limshichi.
SALMOS 132
132
18
Cobrirei de ignomínia os seus ini-
migos, mas sobre Ele florescerá a sua
coroa!”
10
Feliz é a fraternidade dos crentes
Cântico davídico de peregrinação.
133
Como é feliz e agradável ob-
servar quando os irmãos vi-
vem em fraternidade!
1

2
É como um bálsamo precioso derrama-
do sobre a cabeça, que desce pela barba
como se fosse a barba de Arão, até a gola
de suas vestes sacerdotais.
2

3
É como o orvalho do Hermom quando
desce sobre os montes de Sião. Porquan-
to ali o SENHOR oferece a sua bênção: vida
para hoje e por toda a eternidade!
3

Convite para o culto de vigília
Um cântico de peregrinação.
134
Vinde, bendizei o SENHOR vós
todos, servos do SENHOR que
permaneceis servindo durante a noite, na
casa do SENHOR!
1
2
Erguei vossas mãos para o santuário e
bendizei o SENHOR!
2
3
De Sião te abençoe o SENHOR, que fez o
céu e a terra!
Cantai louvores ao Senhor
135
Aleluia!
Louvai o Nome do Eterno, lou-
vai-o, servos do SENHOR,
1
2
que permaneceis na Casa do SENHOR,
nos átrios da casa de nosso Deus!
3
Aleluia! O SENHOR é bom: cantai louvo-
res ao seu Nome, que é amável!
4
Pois o SENHOR escolheu Jacó para si, Is-
rael, por sua propriedade.
5
Pois eu sei: O SENHOR é grande, o Se-
nhor supera todos os deuses.
2
6
Tudo quanto aprouve ao SENHOR, nos
céus e na terra, nos mares e em todas as
profundezas, Ele o fez!
10
Este versículo pode ser assim transliterado do original hebraico: Oivav albish bóshet, vealav iatsits nizro. Ao longo da história
do povo de Deus, o Senhor permanece fiel à aliança que firmou com Davi (vv.13-18). A expressão literal hebraica “florescerá”
evoca de, modo sutil, a imagem de brotos crescendo, transformando-se em ramos fortes que sustentam muitos frutos.
Capítulo 133
1
A fraternidade (união vital entre irmãos de sangue e/ou credo), depende exclusivamente da união de cada irmão, pessoal-
mente, com o Senhor Deus. Somente assim, essa unidade de propósitos pode florescer e testemunhar eficazmente ao mundo
(Jo 15.1-9; 17.20-25; Sl 135.3; 147.1).
2
O salmista da casa de Davi faz uma comparação entre o ministério sublime do sacerdote Arão, cuja unção e ministério
visavam manter o povo em perfeita comunhão com Deus e entre si, e a sensação de conforto e segurança proporcionada pelo
derramar do óleo ungido sobre o corpo dos crentes israelitas (Êx 29.7; Lv 21.10). O óleo balsâmico saturava os cabelos, a barba,
e descia pelas vestes dos sacerdotes, em sinal de consagração absoluta de suas vidas ao serviço santo do Senhor.
3
O orvalho abundante que se projetava do monte Hermom fazia que os montes de Sião fossem ricamente frutíferos (Gn
27.28; Ag 1.10; Zc 8.12). Da mesma maneira, a união fraternal do povo de Deus faria de Israel uma nação rica e frutífera. Essas
metáforas revelam claramente que as bênçãos de Deus fluíam até os israelenses crentes, por meio das ministrações sacerdotais
no tabernáculo ou no templo (Êx 29.44-46; Lv 9.22-24; Nm 6.24-26), as quais são figuras das misericórdias de Deus na própria
redenção. O orvalho é uma evocação das bênçãos perenes do Senhor na ordem da criação. A vida é a principal das bênçãos,
segundo a Aliança (Dt 30.15-20; 32.47).
Capítulo 134
1
Cântico litúrgico de despedida da congregação, pouco antes de deixarem o culto vespertino no templo. Uma espécie de troca
de saudações entre os adoradores e os levitas que mantinham a guarda do templo. No saltério este é o último dos “cânticos de
peregrinação” ou “hinos de romagem” (Sl 120 a 134).
2
Os responsáveis pela liturgia, ao se despedirem, encomendam aos levitas que continuem, durante toda a noite, a realizar os
serviços no templo, com espírito de absoluta adoração ao Senhor (1Cr 9.33; Êx 17.12; Sl 63.4).
3
Um solo levita responde com uma bênção final, impetrada sobre o grupo de adoradores (Sl 121.2; 124.8; 128.5). Este versícu-
lo pode ser assim transliterado, a partir dos manuscritos hebraicos: levarechechá Adonai mitsión, ossê shamáyim vaárets.
Capítulo 135
1
Este versículo pode ser assim transliterado, a partir dos manuscritos hebraicos: Haleluiá, helelu et shem Adonai, halelu avdê
Adonai. Temos neste salmo pós-exílico um grandioso convite para louvarmos ao Senhor, o Deus único e verdadeiro, Criador do
Universo, Senhor de todas as nações, o Redentor de Israel e de todos os seus filhos sobre a face da terra. Aqueles que recebem
o privilégio de assistir na Casa de Deus devem saber louvá-lo dignamente, não apenas com músicas e poesias, mas por meio
de um viver santo (Sl 120).
2
Nada e ninguém há que possa se comparar ao poder, amor e justiça do Senhor (vv.3,15-18; Jr 10.11-16; Sl 96.5; 97.7; 115.3).
O Senhor faz tudo que lhe agrada fazer, ao passo que todos os ídolos e deuses nada realizam; eles próprios são feitos por mãos
humanas (vv.16,17).
SALMOS 132–135
133
7
Ele, que dos confins da terra faz subir as
nuvens, fez os raios para a chuva, e tira de
seus antros a ventania.
8
Feriu os primogênitos do Egito, desde o
homem até o gado.
3
9
O Senhor realizou, em pleno Egito, si-
nais e prodígios contra o faraó e todos os
seus sábios!
10
Feriu numerosas nações, e a reis pode-
rosos tirou a vida:
11
Seam, rei dos amorreus, Ogue, rei de
Basã e todos os reinos de Canaã;
12
e deu a terra deles como despojos, em
herança a Israel, seu povo.
13
SENHOR, teu Nome dura para sempre,
e tua lembrança, SENHOR, de geração em
geração!
14
O SENHOR defenderá seu povo, e terá
compaixão dos seus servos.
15
Os ídolos pagãos são prata e ouro, obra
de mãos humanas:
16
Têm boca, mas não podem falar, olhos,
mas não conseguem ver;
17
têm ouvidos, mas são incapazes de ou-
vir, nem mesmo qualquer alento de vida
há em seus corpos.
18
Tornem-se, portanto, como eles, aque-
les que os fazem e todos os que neles
confiam!
19
Casa de Israel, bendizei ao SENHOR;
Casa de Arão, bendizei ao SENHOR!
4
20
Casa de Levi, bendizei ao SENHOR! Vós,
que temeis ao SENHOR, bendizei ao SE-
NHOR.
21
Desde Sião, bendito seja o SENHOR que
habita em Jerusalém!
Aleluia!
5

As misericórdias do Senhor
136
Rendei graças ao SENHOR por-
que Ele é bom, porquanto seu
amor leal dura para sempre.
1
2
Louvai ao Deus dos deuses, porque a
sua misericórdia dura para sempre.
2
3
Dai graças ao SENHOR dos senhores, pois
o seu amor dura eternamente!
4
Ao único que realiza grandes maravi-
lhas. A sua misericórdia é perpétua:
5
fez os céus com sabedoria, porque seu
amor é para sempre,
6
firmou a terra sobre as águas, porque
seu amor é para sempre.
3
7
Fez grandes luminares: porque seu
amor leal é para sempre,
8
o sol, para presidir o dia, porque seu
amor é para sempre,
9
a lua e as estrelas, para comandarem a
noite, porque o seu amor é para sempre.
10
Feriu o Egito nos seus primogênitos,
porque seu amor justo é para sempre,
4
11
libertou Israel do meio deles, porque
seu amor é para sempre,
3
Deus revelou seu poder sobre a terra do Egito e seu amor leal para com Israel. As terras dos reis pagãos foram arrancadas de
suas mãos e entregues, como herança, ao povo de Deus (Êx 7 a 14; Nm 21.21-35 e todo o livro de Josué).
4
A expressão hebraica original “Casa de Israel” refere-se ao grupo dos israelitas. Os membros da “Casa de Arão” são todos os
sacerdotes (Sl 115.9-11; 118.2-4); e os da “Casa de Levi” formam uma classe especial de “adoradores” – os levitas, que tinham o
ministério de oferecer seus serviços não sacerdotais ao templo (Sl 134.1,2).
5
Este versículo pode ser assim transliterado: Baruch Adonai mitsión, shochen Ierushaláyim, halelu lá. Convocação final ao
louvor, dirigida a todos os crentes que se reúnem no templo. Jerusalém (Ierushaláyim) foi o grande centro da adoração a Deus
(Yahweh) no AT. Foi nessa cidade também que Jesus Cristo, o Messias, morreu e ressuscitou, motivo do louvor eterno de todos
os que verdadeiramente amam ao Senhor (Mq 4.2; Rm 10.4).
Capítulo 136
1
O líder levítico dirigia a recitação litúrgica deste salmo, enquanto um coro de adoradores respondia no refrão (1Cr 16.41; 2Cr
5.13; Ed 3.11; 2Cr 7.3,6; 20.21; Sl 106.1; 107.1; 118.1-4). Seu tema e vários versículos formam um paralelo significativo com boa
parte do Sl 135 (O paralelismo poético judaico é sempre em relação ao sentido e conteúdo das expressões e não melódico e
métrico, como na maioria dos poemas ocidentais).
2
A expressão literal hebraica aqui traduzida por “misericórdia” é muito ampla e ajuda a descrever a própria essência da nature-
za de Deus: benignidade, paciência, amor, lealdade, fidelidade, graça, favor, longanimidade. Ao longo da História podemos notar
esse amor persistente de Deus, culminando na pessoa de seu próprio Filho, Jesus Cristo, o Messias. Somente o Espírito de Deus
é capaz de desenvolver esse caráter divino em nossas vidas (Gl 5.22-23).
3
A criação do Universo, da terra e de tudo o que nela há, especialmente os seres humanos, é ato da vontade e sabedoria de
Deus (Pv 3.19-20; Rm 11.36).
4
Os atos salvíficos de Deus, bem como sua sabedoria, bondade e justiça, se expressam na preservação do seu povo e na des-
truição dos seus inimigos (muitos exemplos de livramentos divinos estão registrados no livro dos Juízes e no reinado de Davi).
SALMOS 135, 136
134
12
com mão forte e braço estendido, por-
que seu amor é para sempre.
13
Dividiu ao meio o mar Vermelho, por-
que seu amor é para sempre,
14
fez passar Israel no meio dele, porque
seu amor é para sempre,
15
lançou Faraó e seu exército no mar Ver-
melho, porque seu amor é para sempre.
16
Conduziu seu povo pelo deserto, por-
que seu amor é para sempre,
17
feriu grandes reis, porque seu amor é
para sempre,
18
tirou a vida de governantes poderosos,
porque seu amor é para sempre:
19
Seom, rei dos amorreus, porque seu
amor é para sempre,
20
e a Ogue, rei de Basã, porque seu amor
é para sempre.
21
Depois deu a terra deles como despo-
jos, porque seu amor é para sempre,
5
22
em herança a Israel, seu povo, porque
seu amor é para sempre.
23
Em nossa humilhação, lembrou-se de
nós, porque seu amor é para sempre.
24
Ele nos libertou dos nossos adversá-
rios, porque seu amor é para sempre.
25
Dá alimento a toda criatura, porque
seu amor é para sempre.
26
Louvai o Deus dos céus! Porquanto, seu
amor leal permanece pela eternidade.
7

Lamentação dos exilados
137
Junto aos rios da Babilônia sen-
tamo-nos a chorar, com sauda-
de de Sião.
1
2
Nos salgueiros que lá existiam, pendu-
rávamos as nossas harpas,
2

3
pois aqueles que nos levaram cativos nos
pediam para entoar belas canções, e os
nossos opressores, que fôssemos alegres,
exclamando: “Entoai-nos algum dos cân-
ticos de Sião!”
4
Como, porém, haveríamos de cantar as
canções do Eterno numa terra estranha?
3
5
Se eu de ti me esquecer, ó Jerusalém,
que se paralise minha mão direita!
6
Pegue-se minha língua ao céu da boca, se
não me recordar de ti; se não elevar Jeru-
salém acima das minhas maiores alegrias.
7
Contra os filhos de Edom, lembra-te,
SENHOR, daquele dia em que Jerusalém foi
destruída, como gritavam: “Desnudai-a,
arrasai-a até os fundamentos!”
4
8
Filha da Babilônia, devastadora, bem-
aventurado aquele que te der a paga de
tudo quanto nos fizeste!
5
5
As terras aqui mencionadas ficaram de posse das tribos de Rúben, Gade e Manassés.
6
O povo salvo (resgatado) pelo Senhor pode confiar em seu amor e justiça. Deus suprirá todas as nossas necessidades, con-
forme suas promessas, das quais Jesus Cristo é o apogeu e absoluto cumprimento (Is 61.1-3; Lc 4.16-21; Rm 8.32).
7
O título “Deus dos céus” era, costumeiramente, uma forma de expressão dos povos persas, que se encontra nos livros
de Esdras, Neemias e Daniel (Ed 1.2). Seu significado é semelhante à referência hebraica ao Nome do Senhor (vv.2,3). Este
versículo pode ser transliterado, a partir dos manuscritos hebraicos, da seguinte maneira: Hodú leel hashamáyim, ki leolam
chasdo.
Capítulo 137
1
Os rios aqui mencionados são o Tigre, o Eufrates e seus muitos canais, que atualmente banham a região do Iraque. Israel fora
traído pelas nações pagãs vizinhas e seu povo levado como escravo para servir na Babilônia. A “saudade” (expressão tipicamente
portuguesa que comunica com propriedade o tipo de sentimento que assaltava o coração dos exilados à época) lhes tirava toda
a alegria de viver e os lançava em profunda depressão e lamento (Jó 2.8,13; Lm 2.10).
2
As árvores (salgueiros) que cresciam nas planícies úmidas e quentes da Babilônia eram muito diferentes da vegetação que flo-
rescia nas montanhas rochosas de Sião (Jerusalém). Os babilônicos, como dominadores insensíveis, desprezavam as tradições e
a cultura judaicas e forçavam os exilados a entoar músicas festivas e exóticas, sem compreender que até mesmo os instrumentos
musicais dos israelitas escravizados recebiam uma afinação própria ao “som do pranto” (Jó 30.31).
3
O inimigo pode forçar os filhos de Deus a tocar seus instrumentos, mas não poderá obrigá-los a ser felizes longe da sua
amada terra e da presença (o culto no templo) do seu Deus.
4
Os edomitas eram os descendentes de Esaú, irmão de Jacó: revelaram-se covardes e traidores no momento mais angustiante
e dramático de Jerusalém. O salmista conheceu os juízos de Deus contra aquela nação, conforme foram determinados pelos
profetas do Senhor (Is 63.1-4; Jr 49.7-22; Ez 25.8-14; 35, conforme o livro de Obadias). A expressão hebraica literal, aqui traduzida
por “desnudai-a”, refere-se à cidade de Sião, que – de acordo com o costume literário hebraico – é retratada como figura feminina.
Jeremias prevê que Edom será castigado com o mesmo tipo de humilhação (Lm 4.21).
5
A expressão original hebraica, aqui traduzida por “Filha”, é a personificação da “cidade” da Babilônia com seus habitantes. O sal-
mista conheceu também os juízos de Deus profetizados contra esse inimigo voraz e cruel (Is 13; 21.1-10; 47; Jr 50 e 51; Hc 2.4-20).
SALMOS 136, 137
135
9
Feliz aquele que agarrar os teus descen-
dentes e os despedaçar contra a rocha!
6

Graças a Deus por seu socorro
Um salmo de Davi.
138
Eu te louvo, ó SENHOR, de todo
o meu coração; canto teus lou-
vores na presença dos poderosos.
1
2
Prostro-me perante o teu santo templo
e louvo o teu Nome, por teu amor e fi-
delidade; pois exaltaste acima de todas as
alturas o teu Nome e a tua Palavra!
2
3
No dia em que te invoquei, tu me respon-
deste, concedendo-me força e coragem.
4
Louvem-te, SENHOR, todos os reis da
terra, quando ouvirem as promessas de
tua boca!
5
Celebrem eles os caminhos do SENHOR:
“Grande é a glória do SENHOR!”
6
Pois o SENHOR é excelso, mas vê os hu-
mildes, e de longe reconhece o altivo.
3
7
Se eu andar em meio à angústia, tu me
fazes reviver; estendes tua mão contra a ira
dos meus inimigos, e tua destra me salva.
4
8
O SENHOR me assistirá até o fim. Ó
Eterno, teu amor dura para sempre: não
abandones as obras das tuas mãos!
5
Louvor à onisciência de Deus
Para o mest re de música. Um salmo de Davi.
139
SENHOR, tu me sondas e me
conheces!
1

2
Sabes quando me sento e quando me
levanto, e acompanhas o meu pensa-
mento onde quer que eu esteja.
3
Discernes minha caminhada e a minha
pousada, e estás a par de todos os meus
intentos.
4
Porquanto a palavra ainda não chegou
à minha língua e tu, ó Eterno, já a conhe-
ces completamente.
5
Tu me envolves por trás e pela frente, e
pões sobre mim tua mão.
6
Tal conhecimento é para mim dema-
siado maravilhoso, tão elevado que não
posso compreender totalmente.
2

6
Sem uma cuidadosa comparação com os atuais crimes de guerra ou o uso moderno dos arsenais bélicos precipita-se quem
julga que o povo de Deus ou as guerras da antigüidade eram bárbaros e antiéticos. Os filhos da Babilônia continuam sua perse-
guição maligna contra a Cidade de Deus (Sião) e todos os filhos de Deus. Entretanto, sua completa e definitiva destruição está
reservada para o Dia final (Ap 18.1 – 19.4).
Capítulo 138
1
Este salmo dá início a uma coletânea de oito hinos davídicos (Sl 138 –145). Por meio deste cântico, o salmista e a congrega-
ção dos crentes louvam a Deus, pelo auxílio salvador e libertador – providência do Senhor, em resposta às preces dos seus filhos
contra as ameaças e ataques dos adversários (Sl 18; 82). Este versículo pode ser transliterado, a partir dos manuscritos hebraicos,
da seguinte forma: Ledavid, odechá vechol libi, négued Elohim azamerêca.
2
Davi edificou um tabernáculo (tenda) para abrigar a arca (2Sm 6.17). Embora muitos salmos atribuídos a Davi refiram-se ao
“templo” (5.7; 11.4; 18.6; 27.4; Sl 30), o amor e a fidelidade do Senhor ao responder às orações dos crentes fazem seu Nome (sua
presença gloriosa) e sua Palavra (suas promessas e ensinos) mais preciosos que tudo quanto um rei possa desejar. A resposta de
Deus às nossas orações é imediata, sendo que as primeiras bênçãos concedidas são “poder e vontade” para continuar lutando;
as demais bênçãos, que fazem parte da resposta, vêm no devido tempo (v.3).
3
Os soberbos se acham tão resolvidos e auto-suficientes que rejeitam a própria Graça do Senhor, motivo pelo qual o Senhor
também os aguarda à distância, enquanto eles estão muito ocupados adorando a si mesmos. Os humildes, entretanto, reconhe-
cem suas limitações e a extrema necessidade que têm de Deus; e abrem seus corações ao Espírito Santo (Lc 1.51,52; Tg 4.6,7).
4
A companhia e o socorro que vêm de Deus são uma realidade tão concreta que o crente não perde a fé (confiança, em hebrai-
co), mesmo nos momentos mais angustiantes e nas crises mais agudas e inexplicáveis (Sl 116.10-13; Rm 8.35-39).
5
O Senhor tem um projeto para seu povo amado – projeto imutável e glorioso. Nada pode deter a vontade de Deus. O hebraico
muitas vezes usa de plurais para se referir de forma ainda mais honrosa a Deus, assim como ao rei de Israel. Este versículo pode
ser assim transliterado: Adonai yigmor baadi, Adonai chasdechá leolam, maassê iadêcha al téref.
Capítulo 139
1
Transliteração deste versículo, incluindo o subtítulo a partir do original hebraico: Lamenastsêach ledavid mizmor, Adonai
chacartáni vateda. A expressão “um salmo de Davi” pode se referir aos descendentes de Davi, fiéis a Deus (Sl 4; 138). Não há
em outra parte das Escrituras, além do livro de Jó, expressão mais viva e profunda de sinceridade na adoração ao Senhor e à
sua Palavra. Por isso o pedido poético para que o Espírito de Deus verifique a alma do salmista e reveja todo esse sentimento de
absoluta lealdade de alma que até mesmo supera nossa maneira de agir em algumas situações da vida. Não podemos esconder,
do Senhor, a intimidade da nossa alma, pois Ele nos contemplou, ainda informes, no recôndito mais secreto do ventre materno.
As figuras de linguagens são diferentes em Jó, mas o significado é muito semelhante (v.5; Jó 13.27).
2
Nos originais hebraicos, a expressão “demasiado maravilhoso” tem o mesmo sentido dos termos aplicados aos sinais, mara-
vilhas e milagres de Deus (Sl 77.11,14; Êx 15.11).
SALMOS 137–139
136
3
Os “céus” e o “Sheol” (expressão original hebraica que neste contexto significa “sepultura, morte ou pó”) representam os dois
grandes extremos verticais do Universo. No versículo 9, o salmista menciona os dois extremos horizontais: o leste e o oeste (o mar
é o Mediterrâneo), a fim de dar concretude à idéia da totalização da realidade espacial (vv.9 e 10; Sl 73.23,24).
4
Os chamados Rolos do Mar Morto, descobertos no monte Qunram, na região do mar Mediterrâneo, aos quais o Comitê de
Tradução da KJ teve acesso, confirmam a tradução deste texto feito pela Septuaginta (a primeira e mais importante tradução das
Escrituras do hebraico para o grego) e a respeitada tradução Siríaca. Segue a transliteração dos originais, Odechá al ki noraót
niflêti, niflaim maassêcha venafshi iodáat meod, que pode ser assim literalmente traduzida: “Louvar-te-ei por me teres tão maravi-
lhosamente plasmado, pois admiráveis são todas as Tuas obras como bem o sabe minha alma” (Ec 11.5).
5
O salmista recorre a uma metáfora hebraica bem conhecida, ao comparar o ventre materno à profundeza da terra, pois os dois
lugares são escuros, úmidos e separados do âmbito visível da vida, assim como o Sheol (a sepultura e lugar dos mortos – 63.9;
Jó 14.13; Is 44.23; 45.19). O ser humano provém do pó (da terra) e retorna ao pó (desce à terra e seu corpo se torna literalmente
em poeira). O ventre é uma forma de “profundeza” (lugar oculto) onde somos formados (Gn 3.3-19; Sl 90.3; Ec 3.20; 12.7; Is
44.2,24; 49.5; Jr 1.5).
Capítulo 140
1
O salmista suplica que o Senhor o livre da ação injusta e maligna dos caluniadores e inescrupulosos (Sl 58; 64). Uma descri-
ção poética das tramas que freqüentemente ocorrem nos meios políticos e empresariais, especialmente em nossos dias.
2
A maledicência e as maldições (expressões de desgraça lançadas sobre desafetos) são descritas como a própria peçonha (ve-
neno) da serpente. (Pausa) ou Selah é um sinal de reverência especial e uma notação musical que indica interlúdio (Sl 3 nota 2).
7
Para onde poderia eu fugir do teu Espí-
rito? Para onde poderia correr e escapar
da tua presença?
8
Se eu escalar o céu, aí estás; se me lançar
sobre o leito da mais profunda sepultura,
igualmente aí estás.
3
9
Se eu me apossar das asas da alvorada e
for morar nos confins do mar,
10
também aí tua mão me conduz, tua
destra me ampara.
11
Se eu cogitar: “As trevas, ao menos,
haverão de me envolver, e a luz ao meu
redor se tornará em noite”,
12
constatarei que nem as mais densas
trevas são obscuras para teu olhar, pois
a noite brilhará como o meio-dia, por-
quanto para ti as trevas são luz.
13
Tu formaste o íntimo do meu ser e me
teceste no ventre de minha mãe.
14
Graças te dou pela maneira extraor-
dinária como fui criado! Pois tu és tre-
mendo e maravilhoso! Sim, minha alma
o sabe muito bem.
4

15
Meus ossos não te eram encobertos,
quando fui formado ocultamente e teci-
do nas profundezas da terra.
5

16
Teus olhos viam meu embrião, e em
teu livro foram registrados todos os
meus dias; prefixados, antes mesmo que
um só deles existisse!
17
Ó Deus, como são complexos e pre-
ciosos para mim os teus pensamentos,
quão vastos e profundos os teus conhe-
cimentos.
18
Se eu os pudesse somar, seriam mais
que os grãos de areia. Se os contasse, le-
varia toda a eternidade e ainda haveria o
que contar.
19
Quem me dera exterminasses os ímpios,
ó Deus! Então, as pessoas inescrupulosas e
sanguinárias se afastariam de mim;
20
pessoas que, com má intenção, pro-
nunciam teu Nome, tomando-o em vão,
como inimigos teus.
21
SENHOR, como não odiar aqueles que te
odeiam? Como não abominar os que se
levantam contra ti?
22
Eu os odeio com ódio implacável: tor-
naram-se, dessa forma, meus próprios
inimigos.
23
Sonda-me, ó Deus, e analisa o meu
coração. Examina-me e avalia as minhas
inquietações!
24
Vê se há em mim algum sentimento
funesto, e guia-me pelo Caminho da vida
eterna!
Oração contra os caluniadores
Para o mest re de música, um salmo de Davi.
140
Livra-me, SENHOR, do homem
mau, preserva-me do homem
violento,
2
daqueles que planejam maldades no co-
ração e, todo dia, provocam contendas!
3
Eles aguçam sua língua como a da ser-
pente; têm veneno de víbora sob os lá-
bios.
2

(Pausa)
SALMOS 139, 140
137
3
O princípio fundamental para uma oração eficaz é o reconhecimento sincero de que o Senhor é Pai e Soberano (Jo 1.12); por-
quanto, somente ele sabe o que é melhor e quando nos dar suas bênçãos. A partir dessa consciência e fé, desenvolveremos corações
sábios e agradecidos. Essa atitude de plena confiança em Deus nos coloca bem no centro da sua proteção diária e perene (v.7).
4
A maledicência e a calúnia (fofoca) são como uma droga que produz falsa sensação de euforia, alívio e prazer mórbido, mas, na
verdade, embota a capacidade de raciocinar com bom senso, arruína a saúde, cauteriza a consciência ética e arrasa a vida espiritual.
É fonte de acessos de raiva e injustiças, piores do que as crises de violência e brutalidade produzidas pelo efeito do álcool e outras
drogas alucinógenas. É a própria “destruição” em ação (em grego Apoliom, um dos nomes de Satanás – Ap 9.11). Contudo, o fogo do
juízo final de Deus alcançará até mesmo o âmbito dos mortos (Jó 15.30; 20.26; 31.12; Sl 21.9; 36.12; 97.3; Is 1.31; 26.11-14; 33.14).
Capítulo 141
1
Apelo do salmista para que Deus venha depressa em seu socorro e o livre das ciladas e ameaças de seus adversários
pagãos (Sl 138).
2
Um simples erguer das mãos, com humildade e sinceridade de fé no Senhor, vale muito mais que as antigas oferendas
hebraicas envolvendo o sangue de animais sacrificados. O salmista – ao louvar ao Senhor – suplica a Deus que controle seus
pensamentos e atitudes (vv.3,4).
3
O salmista suplica a Deus que o impeça de ceder diante do mau exemplo à sua volta e das insistências dos ímpios para que
“goze a vida” (literalmente: “coma dos manjares da vida”). As mesas dos ímpios são freqüentemente fartas de iguarias custeadas
com ganhos desonestos (Pv 1.10-16).
4
O verdadeiro “amor leal” (em hebraico edesh “atos de amizade autêntica”) algumas vezes produz repreensões e feridas (Pv
27.6; Sl 23.5).
5
Os “guias cegos”, que o povo parece sempre preferir como líderes dos destinos nacionais, acabarão por conduzir os ímpios
às mais terríveis provações, quando muitos reconhecerão as palavras do profeta, mesmo havendo passado muito tempo de
sua morte. Este versículo pode ser transliterado, a partir dos manuscritos hebraicos, da seguinte maneira: Nishmetú vidê sêla
shoftehem, veshameú amarai ki naêmu.
6
Por meio de uma fé inteligente, sincera e indestrutível, o crente mantém estreita comunhão (amizade filial e respeitosa) com
4
SENHOR, guarda-me das mãos do ímpio,
preserva-me do homem violento, daque-
les que tramam minha queda!
5
Os arrogantes prepararam armadilhas
contra mim; perversos, estenderam re-
des; no meu caminho armaram embos-
cadas para me atacar.
(Pausa)
6
Eu declaro ao SENHOR: “Tu és meu Deus!”
Ouve, ó SENHOR, o meu clamor!
3
7
Ó soberano SENHOR, meu Deus e meu
Salvador, tu me proteges a cabeça no dia
do combate.
8
SENHOR, não atendas aos desejos dos
ímpios. Não permitas que tenham êxito
com suas intrigas!
(Pausa)
9
Recaia sobre a cabeça dos que me ame-
açam toda a malignidade que suas bocas
proferiram.
10
Caiam sobre eles carvões em brasa e
sejam arrastados para covas em chamas,
das quais jamais possam escapar!
11
Nenhum caluniador se estabeleça so-
bre a terra, e a desgraça persiga os agres-
sores com golpes sobre golpes até sua
completa destruição.
12
Sei que o SENHOR defende a causa do
oprimido e faz justiça aos pobres.
13
Com certeza os justos darão graças ao
teu Nome, e os homens íntegros habita-
rão em tua presença!
4

Oração da tarde por proteção divina
Um salmo de Davi.
141
SENHOR, elevo meu clamor a ti:
vem depressa! Presta ouvido à
minha voz, quando te invoco!
1
2
Que minha oração seja como incenso
diante de ti; minhas mãos erguidas, ofe-
renda vespertina!
2
3
SENHOR, põe uma guarda à minha boca,
fica de vigia à porta dos meus lábios!
4
Não deixes meu coração inclinar-se para
a maldade, para a prática de ações iníquas
na companhia de malfeitores. Que eu ja-
mais participe dos seus banquetes!
3
5
Que me castigue o justo; é um favor
que me repreenda! É óleo perfumado
que minha cabeça não vai recusar. Pois
minha oração persiste contra a prática
dos malfeitores.
4
6
Contra a Rocha foram destruídos todos
os juízes que diante das minhas palavras
de sabedoria se mostraram insensíveis!
5
7
“Como a terra é arada e sulcada, assim
são espalhados os nossos ossos à beira da
sepultura!”
6
SALMOS 140, 141
138
Deus e pode enxergar sua vindicação e a justiça divina em ação, derrotando os maus e ímpios (vv.6,7). Este versículo pode ser
assim transliterado: Kemo folêach uvokêa baárets, nifzerú atsamênu lefi sheol. A palavra sheol pode ser traduzida por profundezas,
pó, morte ou sepultura, em função do contexto literário em que se encontre.
Capítulo 142
1
Davi se vê no fundo do poço, quando vê a luz do Senhor e suplica por sua libertação. A tribulação e o perigo freqüentemente
nos levam aos momentos mais intensos e sinceros de oração a Deus: nosso único suficiente refúgio, hoje e eternamente (Sl 17;
22.14,15; 32; 138).
2
Deus deseja que todos os seus filhos sigam pelas vias frutíferas da verdadeira vida (23.3).
3
É durante as crises e nas horas de fraqueza que o crente encontra em Deus sua força e abrigo seguro (2Co 12.9-10).
4
Davi usa uma metáfora para explicar sua sensação de estar acorrentado à aflição (18.19; Jó 36.8). Contudo, o servo do
Senhor se apropria da força ministrada pelo Espírito de Deus e antevê, pela fé, sua libertação do fundo da caverna da angústia
e da depressão (3.8; 5.11;7.17).
Capítulo 143
1
Este é o sétimo e último salmo penitencial (Sl 6). O salmista estriba-se na graça do Senhor mediante o correto uso da sua fé (em
hebraico, plena confiança). Nesta oração, Davi pede para ser salvo da angústia, humilhação e ameaça dos inimigos (Sl 130.3-4).
2
A expressão hebraica original, aqui traduzida por “meu espírito desfalece”, significa literalmente: “meu espírito desmaia por
causa da ansiedade”, em que a palavra “fôlego” pode ser traduzida por “espírito” (104.29 de acordo com 119.81). A transliteração
deste versículo, a partir dos manuscritos hebraicos, pode ser apresentada desta forma: Maher anêni Adonai caletá ruchi, al taster
panêcha mimêni venimshalti im ioredê vor.
8
Entretanto, os meus olhos te contem-
plam, ó Soberano, SENHOR: em ti depo-
sito toda a minha confiança; não me en-
tregues à morte.
9
Guarda-me da cilada que me armaram
e das armadilhas dos malfeitores!
10
Caiam todos os ímpios em sua própria
rede, enquanto eu prossigo ileso meu ca-
minho!
Oração por libertação
Poema sacro de Davi, quando estava
na caverna.
142
Em alta voz clamo ao SENHOR,
em alta voz suplico ao SENHOR
as suas misericórdias!
1
2
Derramo diante dele a minha queixa; a
Ele apresento a minha angústia.
3
Quando esmorece em mim meu espíri-
to, tu conheces o caminho que devo se-
guir. Na vereda que percorro, ocultaram
uma armadilha para mim.
2
4
Olha para a direita, e vê que ninguém se
importa comigo! Perdido está para mim
o refúgio: ninguém se preocupa com mi-
nha alma.
5
A ti, SENHOR, clamei, declarando: “Tu és o
meu refúgio, minha partilha na terra dos
viventes!”
6
Atende aos meus apelos, pois estou
muito exausto. Livra-me dos meus per-
seguidores, porque são mais fortes do
que eu.
3
7
Tira minha alma desta prisão, para que
eu dê graças ao teu Nome! Então, os jus-
tos me rodearão, por causa da tua bon-
dade para comigo!
4
Oração por livramento e salvação
Um salmo davídico.
143
SENHOR, escuta minha oração,
presta ouvido às minhas súplicas;
responde-me por tua fidelidade e justiça!
2
Entretanto, não leves teu servo a jul-
gamento, pois nenhum ser vivo é justo
diante da tua presença.
3
Pois o inimigo perseguiu-me e prostrou-
me por terra; ele me fez morar nas trevas,
como os que há muito morreram.
4
Esmorece em mim meu espírito; meu
coração, dentro de mim, está em pânico.
5
Lembro-me dos dias de outrora, medi-
to em todas as tuas ações, reflito sobre as
obras de tuas mãos.
6
Estendo para ti as minhas mãos; eis-me
diante de ti, qual uma terra sedenta!
(Pausa)
7
Depressa responde-me, ó Eterno! Por-
quanto meu espírito desfalece. Não ocul-
tes de mim a tua face, senão serei igual
aos que já baixam à sepultura.
2
8
Faze-me ouvir pela manhã, do teu amor
leal e perene, pois em ti depositei toda a
minha confiança! Dá-me a conhecer o
caminho que devo seguir, pois a ti elevo
a minha alma.
SALMOS 141–143
139
1
Um rei davídico, possivelmente o próprio Davi (Sl 18), eleva uma oração a Deus, suplicando vitória na guerra contra os ini-
migos de Israel (Sl 138; 143.1,2). O ponto marcante da oração é a confiança (fé) com que o salmista ora, na certeza da resposta
amorosa e poderosa do Senhor (v.2; Sl 27.1; 35.3; 62.2).
2
Há pessoas que não oram porque não se sentem dignas; todavia, é exatamente o reconhecimento da insignificância humana
que deve levar toda pessoa a uma vida de profundo e permanente diálogo (oração) com Deus. É o incomensurável amor do
Senhor que o faz inclinar seus santos ouvidos às nossas preces. E esse amor foi demonstrado cabalmente, por meio da vida e do
sacrifício vicário do seu Filho Jesus Cristo, nosso Salvador (Jo 3.16; Hb 12.2).
3
Erguer a mão direita em juramento era um sinal tradicional da expressão absoluta da verdade, gesto usado na celebração
de importantes contratos e pactos de lealdade (106.26; Êx 6.8; Dt 32.40). Por outro lado, as mais terríveis armas do Diabo estão
ligadas à mentira, falsidade e calúnia (Jo 8.44).
Capítulo 145
1
Hino de louvor a Yahweh (o nome hebraico impronunciável de Deus, que pode ser traduzido como Javé ou Jeová), por todos
os seus feitos portentosos e seu amor leal infindo. É uma peça musical e poética de extremo esmero, de acordo com as normas
estéticas tradicionais da poesia hebraica, bem como a linguagem reverente e clássica dos hinos de louvor. O acróstico alfabético
(em destaque no texto bíblico – vide Sl 119) demonstra o especial cuidado na elaboração pormenorizada da obra (Sl 9 e 10).
Segue a transliteração desta parte inicial do salmo: Tehillah ledavid, aromimchá Elohai hamélech, vaavarechá shimchá leolam
vaed. A expressão tehillah que, nos originais hebraicos, ocorre somente aqui nos títulos (subtítulos no caso da KJ), mas advém
da forma plural tehillim, significando “louvores”, é o próprio nome do Saltério. O fato de ser um “salmo davídico” está relacionado
à tradição de sua autoria ser creditada a Davi, ou a um de seus descendentes (Sl 138).
9
SENHOR, livra-me dos meus inimigos,
pois me refugiei junto a ti!
10
Ensina-me a fazer tua vontade, pois tu
és o meu Deus. Teu bondoso Espírito me
guie por terra plana!
11
Pela honra do teu Nome, SENHOR, tu
me farás viver; por tua justiça me farás
sair da angústia;
12
por teu amor leal e justo acabarás com
meus inimigos e farás perecer todos os
meus adversários, pois sou teu servo!
Graças pela proteção de Deus
Salmo davídico.
144
Bendito seja o SENHOR, minha
Rocha, que adestra minhas
mãos para a guerra, meus dedos para as
batalhas!
2
Ele é meu aliado e minha fortaleza, meu
protetor; e eu junto dele me abrigo. Ele a
mim submete os povos.
3
SENHOR, o que é o homem, para dele
tomares conhecimento, ou o filho do ho-
mem para que por ele te interesses?
2
4
O homem é semelhante a um sopro;
seus dias, como a sombra que passa.
5
SENHOR, inclina os céus e desce; toca os
montes, para que fumeguem!
6
Fulmina os raios e dispersa os inimigos;
arremessa tuas flechas e faze-os debandar.
7
Estende daí, do alto, tua mão: salva-me
e livra-me das grandes águas, da mão
desses estrangeiros,
8
cuja boca fala mentiras, e que com a mão
direita estendida juram falsamente!
3
9
Ó Deus, eu te cantarei um cântico novo,
tocarei teus louvores na harpa de dez
cordas.
10
És tu que dás a vitória aos reis, que da
cruel espada salvas Davi, teu servo.
11
Salva-me e livra-me da mão dos es-
trangeiros, cuja boca fala mentiras e que,
com a mão direita estendida, juram fal-
samente!
12
Quanto aos nossos filhos, serão como
plantas, já desenvolvidos na adolescên-
cia; nossas filhas, como colunas bem es-
culpidas, como obras de arte que ornam
um palácio.
13
Nossos celeiros estarão repletos, forne-
cendo provisões e mais provisões. Nos-
sos rebanhos se multiplicarão aos milha-
res, às dezenas de milhares, pelos nossos
campos.
14
Nossas reses andarão prenhes; não ha-
verá brecha nem ataque, nem alarme em
nossas praças.
15
Feliz o povo, ao qual assim sucede! Fe-
liz o povo, cujo Deus é o SENHOR!
Louvor à divina providência
Um hino davídico de louvor.
1

145
Exaltar-te-ei, ó meu Deus e
Rei, e bendirei o teu Nome por
toda a eternidade!
N Alef
SALMOS 143–145
140
2
O ser humano não consegue, por mais que ambicione, compreender completamente a grandeza, a justiça e o amor de Deus
(Rm 11.33-36).
3
Estas expressões evocam a revelação especial que Deus concedeu a Moisés no deserto do Sinai (Êx 34.6-7).
4
Se até as rochas e os seres inanimados do Universo têm obrigação de louvar a Deus, o Criador Supremo, quanto mais os
seres humanos (Cl 1.17), em especial, seus santos (os convertidos e crentes em Deus). Estes devem ser os arautos do Senhor e
seus missionários na proclamação da Palavra, mediante uma vida de testemunho e graça. Se cairmos, devemos buscar a luz e
a restauração plena em Deus (1Jo 1.7). O temor do Senhor é o princípio indispensável de toda a sabedoria e comunhão eterna
com Deus. A rejeição a Deus é o prelúdio da destruição (Sl 111.10).
Capítulo 146
1
Este é o primeiro dos cinco salmos pós-exílicos, de “Aleluia”, que encerram o Saltério. O verdadeiro crente jamais perde a
2
Todos os dias te bendirei e louvarei o
teu Nome para todo o sempre:
2 Bet
3
“O SENHOR é grande e mui digno de lou-
vor; sua grandeza é insondável”.
2
. Guimel
4
Uma geração à outra fará o louvor de
tuas obras, proclamando teus maravi-
lhosos feitos.
¨ Dalet
5
Pregarão sobre a esplêndida glória de
tua majestade, e eu meditarei sobre tuas
portentosas realizações.
¨ He
6
Anunciarão o poder dos teus magnífi-
cos e temíveis prodígios, e eu falarei das
tuas grandes obras.
` Vav
7
Divulgarão a memória de tua imensa
bondade e cantarão com júbilo tua justiça:
* Zayin
8
“O SENHOR é clemente e misericordio-
so, paciente e t ransbordante de amor
leal;
3

l Het
9
o SENHOR é bom para com todos; e sua
compaixão alcança todas as suas criatu-
ras”.
C Tet
10
Todas as tuas obras, ó SENHOR, te ren-
dem graças, e teus fiéis te bendirão.
` Yud
11
Eles proclamarão a glória do teu Reino
e pregarão sobre o teu poder,
2 Kaf
12
a fim de que todos saibam dos teus fei-
tos maravilhosos e do glorioso esplendor
do teu Reino.
7 Lamed
13
Porquanto teu Reino é Reino Eterno,
e o teu domínio perdura de geração em
geração.
C Mem
O SENHOR é fidedigno em todas as suas
palavras, amoroso em todas as suas re-
alizações.
. Nun
14
O SENHOR ampara todos os que caem e
ergue todos os que estão deprimidos.
C Samek
15
Os olhos de todos em ti esperam, e tu
lhes dás o alimento no devido tempo.
V Ayin
16
Abres tua mão e sacias, de bom grado,
todo ser vivo.
£ Pê
17
O SENHOR é justo em todos os seus ca-
minhos e fiel em todas as suas obras.
3 Tsade
18
O SENHOR está junto de todos aqueles
que invocam seu Nome, de todos que
clamam por sua presença, com sinceri-
dade.
¨ Qof
19
Assim, Ele realiza os desejos daqueles
que o reverenciam; ouve-os clamar por
socorro e os salva.
¨ Resh
20
O SENHOR cuida de todos os que o
amam, mas destrói todos os ímpios!
2 Shin
21
Minha boca proclamará o louvor do
SENHOR, e que todo ser vivo bendiga seu
santo Nome para todo o sempre!
4

! Tav
Louvor a Deus por sua misericórdia
146
Aleluia!
Louva, ó minha alma, ao SE-
NHOR!
1
SALMOS 145, 146
141
confiança e a esperança em Deus; portanto, louva o Senhor – sob as mais difíceis circunstâncias – durante toda a sua vida. Sua
fé absoluta está depositada em Deus, e jamais em qualquer pessoa humana (vv.5,6; Jr 17.7).
2
Deus é completamente leal às suas próprias promessas. Falhar com sua Palavra seria negar a Si mesmo (Hb 6.13-18).
3
Este versículo pode ser transliterado, a partir dos manuscritos hebraicos, da seguinte forma: Yimloch Adonai leolam, Eloháyich
Tsíon, ledor vador, halelu lá.
Capítulo 147
1
O salmista louva ao Senhor pela restauração pós-exílica de Jerusalém. É uma grande alegria adorar a Deus com hinos e
cânticos espirituais quando nosso propósito íntimo é somente louvá-lo (135.3).
2
O mesmo poder de Deus (Yahweh) que criou e administra o Universo é aplicado na restauração do seu povo amado (v.2),
no conforto dos que sofrem (v.3) e na proteção daqueles que não têm como se proteger sozinhos (v.6). Este versículo pode ser
transliterado, a partir dos manuscritos hebraicos, desta maneira: Bone Ierushaláyim Adonai, nidchê Yisrael iechanes.
3
Os dispersos de Israel e os que muito se esforçaram, diante de grande oposição, para reconstruir os muros de Jerusalém,
receberam também a bênção da restauração emocional (Sl 137; 126; Ne 2.17-20; 4.1-23).
4
Aquele, cujo poder e inteligência são tão grandiosos, que determina o número das estrelas e lhes atribui os nomes, tem
capacidade suficiente para proteger e sustentar todas as pessoas que, humildemente, nele confiam e para abater a altivez e
arrogância dos ímpios (20.8; 146.9; Is 40.26-29).
5
Não se agrada a Deus com rituais, sacrifícios e oferendas, mas – e tão-somente – depositando absoluta fé (obediência) na sua
Graça e por humilde obediência à sua Palavra (Rm 4.5; 8.4; 2Tm 2.15).
6
Aqui há um bom tema para estudo dos teólogos, astrônomos e astrofísicos: observa-se no primeiro capítulo da Bíblia (Gn
2
Louvarei ao SENHOR, por toda a minha
vida; cantarei louvores a meu Deus, en-
quanto eu existir.
3
Não conteis com os príncipes, com meros
seres humanos: são incapazes de salvar!
4
Ao se esvair seu espírito, eles voltam ao
pó; no mesmo dia seus planos se apagam.
5
Feliz o que tem por ajudador o Deus
de Jacó e, por esperança, o SENHOR, seu
Deus,
6
que fez o céu e a terra, o mar e tudo
quanto neles há, e que guarda fidelidade
para sempre,
2

7
que faz justiça aos oprimidos, que dá
pão aos que têm fome! O SENHOR é quem
liberta os prisioneiros.
8
O SENHOR dá vista aos cegos, o SENHOR
ergue os combalidos, o SENHOR ama os
justos.
9
O SENHOR protege os migrantes, ampa-
ra os órfãos e as viúvas, mas frustra os
planos e atitudes dos ímpios.
10
O Eterno reina para sempre; Ele é teu
Deus, ó Sião, teu rei de geração em gera-
ção. Aleluia!
3
Louvor ao Deus Todo-Poderoso
147
Aleluia!
Como é bom cantar louvores
ao nosso Deus; como é agradável pres-
tar-lhe uma adoração condigna!
1
2
O Eterno reconstrói Jerusalém; Ele con-
grega os exilados de Israel.
2
3
Somente Ele cura os corações quebran-
tados e lhes pensa as feridas.
3
4
Ele fixa o número das estrelas, a cada
uma dá um nome.
4
5
Nosso Senhor é Soberano e tremendo o
seu poder; é infinita sua sabedoria.
6
O SENHOR ergue os humildes, mas re-
baixa os ímpios até o chão.
7
Entoai ao SENHOR com ações de graças,
cantai ao nosso Deus ao som das cíta-
ras!
8
Ele cobre de nuvens os céus, prepara a
chuva para a terra; faz brotar a relva so-
bre as colinas,
9
dá alimento ao gado e aos filhotes do
corvo, quando crocitam de fome.
10
Ele não se compraz no vigor do cavalo,
nem dá valor à agilidade dos seres huma-
nos;
11
o SENHOR se agrada dos que o temem,
daqueles que depositam sua esperança
em seu amor leal e perene.
5
12
Glorifica ao SENHOR, Jerusalém! Sião,
louva teu Deus!
13
Porque Ele reforçou as trancas de tuas
portas e, em teu meio, abençoou teus fi-
lhos.
14
Ele, que dá a paz em tuas fronteiras, te
sacia com a flor do trigo.
15
Ele envia suas ordens à terra, e veloz
corre a sua Palavra.
6
16
Ele faz cair a neve como lã, como cinza
espalha a geada;
SALMOS 146, 147
142
1) que, quando a voz de Deus soa no Universo, cumpre-se precisa e imediatamente sua vontade. Em paralelo, todos os sinais e
maravilhas realizados pelo Senhor, diante de Israel e dos povos pagãos, assim como todos os milagres realizados por Jesus, o
Messias, ocorreram infalivelmente logo em seguida a suas ordens (Êx 14.21; Jo 11.43,44).
Capítulo 148
1
Todo o Universo e a criação são conclamados a humildemente louvar a Deus (Yahweh). Todos os seres e corpos celestiais (e
legiões celestes) se submetem ao Senhor. Somente a Palavra de Deus (o Logos divino – Jo 1.1-3) tem o poder de criar e restaurar
todas as coisas.
2
Ao contrário dos que pregam certas teorias filosóficas sobre uma suposta inércia atual de Deus que, havendo criado o Univer-
so, o entregou à sua própria sorte, as Escrituras revelam que Deus não cessa de trabalhar e que cuida, com zelo, de cada detalhe
do Universo, em especial dos seres humanos, seu povo e seus filhos sobre a terra (Jo 5.17).
3
O salmista usa pares de figuras de linguagem, empregando uma técnica poética para divisão de assuntos chamada “meris-
ma”, a fim de revelar a extensão e profundidade total do convite universal à adoração e louvor ao Senhor. A expressão “cetáceos”
se refere às grandes serpentes marinhas ou mamíferos pisciformes que habitaram o mar e a terra (Gn 1.7,10,21). Ao mencionar
“céus e terra”, o salmista apenas está indicando a soma de toda a criação (v.13; 89.11; 113.6; 136.5,6; Gn 2.1,4).
4
É mais fácil o Universo assim como a terra com todos os seus fenômenos físicos e meteorológicos curvarem-se reverente e
humildemente, à vontade de Deus, do que o ser humano prestar sincera obediência à Palavra do Senhor (147.15).
5
A expressão hebraica “chifre” que aparece nos originais hebraicos deste versículo significa “vigor, glória, poder”, e representa
todo o poder e carisma que acompanham os verdadeiros crentes; seus “santos”, que podem refletir ao mundo a imago Dei, a
imagem de Deus (2Co 3.18). Este versículo pode ser assim transliterado: Vaiárem kéren leamo, tehila lechol chassidav, livnê Yisrael
am kerovo, halelu lá.
Capítulo 149
1
Este salmo pós-exílico presta louvores ao Senhor pelas grandes honrarias concedidas a seu povo. A Israel Deus outorgou
uma honra com dois lados: a Salvação (na realidade e na promessa), e o privilégio de servir ao Senhor na execução final do Juízo
de Deus contra as potências pagãs mundiais, que atacaram impiedosamente a Cidade Santa e o Reino de Deus. Israel será o
contingente terrestre do poderoso exército universal do Rei dos céus (68.17; Js 5.14; 2Sm 5.23,24; 2Cr 20.15-22; Hc 3.3-15). Este
17
lança o granizo aos punhados: diante
de tal frio, quem pode resistir?
18
Ele envia sua Palavra e derrete o gelo;
faz soprar o vento, e as águas voltam a
correr.
19
Ele proclama a Jacó a sua Palavra; a Is-
rael, seus decretos e suas decisões.
20
Isto, não o fez a nenhuma outra nação;
todas as outras não conhecem as suas or-
denanças. Aleluia!
Louvor ao Deus do Universo
148
Aleluia!
Louvai ao SENHOR, os do céu,
louvai-o nas alturas!
1
2
Louvai-o vós todos, seus anjos, louvai-o
vós todos, seus exércitos celestiais!
3
Louvai-o, sol e lua, louvai-o vós todas,
estrelas brilhantes!
4
Louvai-o vós, os mais altos céus, e vós,
águas que estais acima do firmamento!
5
Que eles louvem o Nome do SENHOR,
porquanto Ele ordenou, e foram criados.
6
Ele os estabeleceu para todo o sempre,
ao promulgar uma Lei, que não passará!
2
7
Louvai ao SENHOR, os da terra; cetáceos
e profundezas todas;
3
8
relâmpagos, granizo, neve e neblina;
vendavais e tempestades, todos dóceis à
sua Palavra,
4
9
montanhas e todas as colinas, árvores
frutíferas e todos os cedros;
10
feras e todos os rebanhos domésticos,
répteis, aves que voam e todos os demais
seres vivos,
11
reis da terra e todos os povos, gover-
nantes e todos os magistrados da terra;
12
moços e moças, velhos e crianças!
13
Que todos louvem o Nome do SE-
NHOR, pois o seu Nome é o único subli-
me, sua majestade está acima da terra e
dos céus.
14
Outorgou glória e poder a seu povo, e
tem recebido louvor de todos os seus fiéis,
dos israelitas, povo a quem Ele tanto ama.
Aleluia!
5
Hino de vitória e louvor a Deus
149
Aleluia!
Cantai ao SENHOR um cântico
novo, e o seu louvor, na assembléia dos
fiéis!
1
2
Alegre-se Israel no seu Criador, os fi-
lhos de Sião exultem em seu Rei!
3
Louvem seu Nome com danças, cantem
seus louvores com pandeiro e cítara!
SALMOS 147–149
143
penúltimo salmo marca o Saltério como o livro de orações do AT e, portanto, do povo judeu. Tanto que é tradição, ainda hoje,
muitos fiéis recitarem a seguinte oração (transliterada), após a leitura e meditação em algum dos salmos: Mi yiten mitsión ieshuat
Yisrael beshuv Adonai shevut amo, iaguel laacov yismach Yisrael. Utshuat tsadikim meadonai mauzam beet tsara. Vaiazerem Adonai
vaifaltem, iefaltem mershaim veioshiem ki chássu vo. “Que possa, em breve, vir de Tsión, a salvação de Israel! Quando fizer o
Eterno retornar Seu povo do exílio, exultará Jacob e alegrar-se-á Israel. A salvação dos justos provém do Eterno, Seu baluarte para
os momentos de aflição. O Eterno os ampara e liberta; das mãos dos ímpios os salva, pela fé que nEle depositam!”
2
A Graça salvadora do Senhor só pode habitar o coração humilde, que não confia em seus recursos pessoais para conquistar
a benevolência e o favor do Altíssimo. Somente os salvos podem louvar a Deus pelo presente do maravilhoso resgate e coroa
da vida eterna (147.6; Is 55.5; 60.9; 61.3; Hb 12.22-24; Ap 14.3; 15.3). Este versículo pode ser assim transliterado: Ki rotsê Adonai
amo, iefaer anavim bishuá.
3
A Salvação é o dom de Deus capaz de conceder nova vida ao crente. Vida repleta de atitudes santas e que glorificam o
Nome do Senhor, expressas durante todas as horas do dia por meio de atitudes práticas. Essa salvação evoca também orações
e cânticos de louvor à noite (42.8; 63.6; 77.6).
4
O amor justo e leal de Deus tem duas facetas: misericórdia e perdão aos que humildemente recebem sua Graça salvadora,
e vindicação (retribuição punitiva – em hebraico n
e
qāmâ) contra os ímpios e arrogantes que procuram destruir seu povo e ridicu-
larizar sua Palavra. O AT está repleto de considerações sobre o castigo divino (58.10; 79.10; 94.1; Nm 31.2; Dt 32-33; 2Rs 9.7; Is
34.8; 35.4; 47.3; 59.17; 61.2; 63.4; Jr 46.10; 50.15,28; 51.6-36; Ez 25.14,17; Mq 5.15; Na 1.2). Entretanto, no NT as nossas armas
são outras: devemos nos revestir do poder do Espírito Santo e vencer a fraqueza da nossa própria carne e as investidas dos
exércitos de um inimigo ainda mais cruel e voraz: o Diabo (2Co 6.7; 10.4; Ef 6.12,17; Hb 4.12). A participação da Igreja de Cristo
e, portanto, dos cristãos, no castigo divino final contra as nações pagãs do mundo está reservada para o momento derradeiro
do Dia do Senhor (1Co 6.2,3).
Capítulo 150
1
Poema musical especialmente composto para encerrar o grande livro dos louvores a Deus – o Saltério – com uma convocação
solene e final ao louvor (Sl 41.13; 72.18,19; 89.52; 106.48; 146).
2
O santuário em Jerusalém é comparado ao magnífico firmamento; a expansão simboliza a presença do poder divino (Gn
1.6; Sl 11.4; 19.1); o templo de Deus na abóbada celeste do universo visível (os céus), que aos olhos humanos parece ser um
templo cósmico.
3
O Senhor Yahweh (Deus em hebraico) deve ser reverenciado como o Único e Todo-Poderoso Criador do Universo e dos seres
humanos (v.2). Devemos oferecer todos os dons e talentos com os quais fomos contemplados, por propósito divino, para a glória
do Criador, nosso Deus (vv.3-5). Todo ser vivente, especialmente o ser humano, é convidado a tomar parte nessa grandiosa e
eterna celebração de louvor (v.6). Este salmo antecipa a retumbante e esplendorosa ocupação do Universo por parte dos crentes
e todas as criaturas em seu estado perfeito e final, quando tudo o que foi criado estiver plenamente sujeito à absoluta vontade
de Deus (1Co 15.24-28).
4
Pois o SENHOR se compraz em seu povo;
Ele coroa de vitória os humildes.
2
5
Regozijem-se nessa glória os fiéis e can-
tem, jubilosos o dia todo e ao deitar!
3
6
Altos louvores a Deus estejam sempre
em seus lábios; em suas mãos, a espada
de dois gumes:
7
para exercer vindicação entre as nações,
e castigo sobre os pagãos;
4
8
para prender seus reis com grilhões, e
com algemas de ferro, seus nobres;
9
para executar contra eles a sentença es-
crita. E assim, em esplendor e felicidade
louvá-lo-ão todos os seus devotos: Lou-
vado seja o Eterno!
Aleluia!
O grande louvor do Universo
150
Aleluia!
1
Louvai a Deus em seu Santuário,
louvai-o no seu majestoso firmamento!
2
2
Louvai-o por seus grandes feitos, lou-
vai-o por sua infinita grandeza!
3
Louvai-o ao som de trombetas, louvai-o
com harpas e cítaras!
4
Louvai-o com tamborins e danças,
louvai-o com instrumentos de cordas e
com flautas!
5
Louvai-o com o clangor dos címbalos,
louvai-o, altissonantes trombetas!
6
Que todos os seres vivos louvem ao
Eterno! Louvado seja o SENHOR!
3
Aleluia!
SALMOS 149, 150

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful