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Robert W.

Connell
University of Sydney

James W. Messerschmidt
University of Southern Maine

Masculinidade hegemônica:
repensando o conceito
Resumo
Resumo: O conceito de masculinidade hegemônica tem influenciado os estudos de gênero em
vários campos acadêmicos, mas ao mesmo tempo tem atraído um sério criticismo. Os autores
traçam a origem do conceito a uma convergência de ideias no início dos anos 1980 e mapeiam
as formas através das quais o conceito foi aplicado quando os estudos sobre homens e
masculinidades se expandiram. Avaliando as principais críticas, os autores defendem o conceito
de masculinidade como fundamental, uma vez que, na maioria das pesquisas que o opera, seu
uso não é reificador nem essencialista. Entretanto, as críticas aos modelos assentados em
características de gênero e às tipologias rígidas são sólidas. O tratamento do sujeito em pesquisas
sobre masculinidades hegemônicas pode ser melhorado com a ajuda dos recentes modelos
psicológicos, mesmo que os limites à flexibilidade discursiva devam ser reconhecidos. O conceito
de masculinidade hegemônica não equivale a um modelo de reprodução social; precisam ser
reconhecidas as lutas sociais nas quais masculinidades subordinadas influenciam formas
dominantes. Por fim, os autores revisam o que foi confirmado por formulações iniciais (a ideia de
masculinidades múltiplas, o conceito de hegemonia e a ênfase na transformação) e o que
precisa ser descartado (tratamento unidimensional da hierarquia e concepções de características
de gênero). Os autores sugerem a reformulação do conceito em quatro áreas: um modelo mais
complexo da hierarquia de gênero, enfatizando a agência das mulheres; o reconhecimento
explícito da geografia das masculinidades, enfatizando a interseccionalidade entre os níveis
local, regional e global; um tratamento mais específico da encorporação1 em contextos de
privilégio e poder; e uma maior ênfase na dinâmica da masculinidade hegemônica, reconhecendo
as contradições internas e as possibilidades de movimento em direção à democracia de gênero.
Palavras-chave
Palavras-chave: masculinidade; hegemonia; gênero; poder social; agência; encorporação;
globalização.

Copyright © 2013 by Revista
Estudos Feministas.
1
N. T.: termo utilizado para traduzir
a categoria “embodiment” usada
pelos autores.
2
Este artigo foi publicado original-

O conceito de masculinidade hegemônica formulado
há duas décadas influenciou consideravelmente o
pensamento atual sobre homens, gênero e hierarquia social.2
Esse conceito possibilitou uma ligação entre o campo em
crescimento dos estudos sobre homens (também conhecidos

Estudos Feministas, Florianópolis, 21(1): 424, janeiro-abril/2013

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ROBERT W. CONNELL E JAMES W. MESSERSCHMIDT

mente na revista Gender & Society,
v. 19, n. 6, p. 829-859, Dec. 2005.

3

DINGES, RÜNDAL e BAUER, 2004.

e.g., DEMETRIOU 2011; e
WETHERELL e EDLEY, 1999.

4

como estudos de masculinidade e estudos críticos dos
homens), ansiedades populares sobre homens e meninos,
posição feminista sobre o patriarcado e modelos sociais de
gênero. Encontrou uso em campos aplicados que variam
desde a educação ao trabalho antiviolência até a saúde e
o aconselhamento.
Pesquisas em bancos de dados mostram mais de 200
artigos que usam o termo exato “masculinidade hegemônica”
em seus títulos ou resumos. Artigos que usam uma variante ou
que se referem à “masculinidade hegemônica” no texto
chegam a centenas. Um interesse contínuo é visto em
conferências. No início de maio de 2005, a conferência
“Masculinidade hegemônica e política internacional”
ocorreu na Universidade de Manchester, Inglaterra; em 2004,
uma conferência interdisciplinar em Stuttgart focou no tópico
“Hegemoniale Männlichkeiten”.3
O conceito também atraiu um sério criticismo de várias
direções: sociológico, psicológico, pós-estruturalista e
materialista.4 Fora do meio acadêmico foi atacado como –
para citar um post com grande repercussão na internet –
“uma invenção dos psicólogos New Age” determinados a
mostrar que os homens são muito machos.
Esse é um conceito contestado. Ao mesmo tempo, os
assuntos de que trata continuam presentes nas lutas contemporâneas sobre poder e liderança política, violência pública
e privada, transformações na família e na sexualidade. Uma
reavaliação compreensiva do conceito de masculinidade
hegemônica parece valer a pena. Caso prove ser útil, o
conceito deve ser reformulado em termos contemporâneos.
Almejamos ambas as tarefas neste artigo.

Origem, formulação e aplicação
Origem

5

KESSLER et al., 1982.

6

Raewyn CONNELL, 1983.

7

CONNELL, 1982.

8

CONNELL et al., 1982.

CARRIGAN, CONNELL e LEE,
1985.

9

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O conceito de masculinidade hegemônica foi
primeiro proposto em relatórios de um estudo de campo sobre
desigualdade social nas escolas australianas;5 em uma
discussão conceitual relacionada à construção das
masculinidades e à experiência dos corpos de homens;6 e
em um debate sobre o papel dos homens na política sindical
australiana.7 O projeto nas escolas forneceu a evidência
empírica de múltiplas hierarquias – de gênero e ao mesmo
tempo de classe – entrelaçadas com projetos ativos de
construção do gênero.8
Os estudos pioneiros foram sistematizados no artigo
“Towards a New Sociology of Masculinity”,9 que criticou
extensivamente a literatura sobre o “papel sexual masculino”
e propôs um modelo de masculinidades em múltiplas

Estudos Feministas, Florianópolis, 21(1): 241-282, janeiro-abril/2013

MASCULINIDADE HEGEMÔNICA: REPENSANDO O CONCEITO

10

CONNELL, 1987.

GOODE, 1982; e SNODGRASS,
1977.
11

TOLSON, 1977.
Maxine Baca ZINN, 1982.
14
Angela DAVIS, 1983.
15
Bell HOOKS, 1984.
12
13

16

CONNELL, 1977.

17

EISENSTEIN, 1979.

18

HACKER, 1957.

19

BRANNON, 1976.

relações de poder. Por sua vez, o modelo foi sistematicamente
integrado a uma teoria de gênero sociológica. As seis
páginas resultantes em Gender and Power10 sobre “masculinidade hegemônica e feminilidade enfatizada” se tornaram
a fonte mais citada para o conceito de masculinidade
hegemônica.
O conceito articulado por grupos de pesquisa australianos representou a síntese de ideias e evidência de fontes
aparentemente díspares. Mas a convergência de ideias não
foi acidental. Assuntos intimamente ligados foram sendo
tratados por pesquisadores e ativistas também em outros
países; o tempo era, em certo sentido, maduro para uma
síntese dessa natureza.
As fontes mais básicas foram as teorias feministas do
patriarcado e os debates sobre o papel dos homens na
transformação do patriarcado.11 Alguns homens da nova
esquerda tentaram se organizar em apoio ao feminismo, e
essa tentativa chamou atenção para as diferenças de classe
na expressão da masculinidade.12 Além disso, as mulheres
de cor – tais como Maxine Baca Zinn,13 Angela Davis14 e Bell
Hooks15 – criticaram os preconceitos raciais que ocorrem
quando o poder é unicamente conceitualizado em termos
de diferenças de sexo, preparando, desse modo, o terreno
para o questionamento de quaisquer reivindicações
universalizantes sobre a categoria de homem.
O termo gramsciniano de “hegemonia” foi corrente,
no período, em tentativas de compreender a estabilização
das relações de classe.16 No contexto da teoria dos sistemas
duais,17 a ideia foi facilmente transferida para o problema
paralelo das relações de gênero. Essa transferência teve
significativo risco de mal entendimento. Os escritos de Gramsci
focam nas dinâmicas da mudança estrutural envolvendo a
mobilização e a desmobilização de classes inteiras. Sem um
foco claro nesse tópico da mudança histórica, a ideia de
hegemonia teria sido reduzida a um modelo simples de
controle cultural. E, em boa parte do debate sobre gênero, a
mudança histórica em larga escala não está em foco. Aqui
vemos uma das fontes das últimas dificuldades com o
conceito de masculinidade hegemônica.
Mesmo antes do Movimento de Liberação das Mulheres,
a literatura sobre o “papel sexual do homem” na psicologia
social e na sociologia reconheceu a natureza social da
masculinidade e as possibilidades de transformação da
conduta dos homens.18 Ao longo dos anos 1970 houve uma
explosão de escritos sobre o “papel masculino”, nitidamente
criticando as normas sobre papéis como origem do
comportamento opressivo dos homens.19 A crítica à teoria dos
papéis forneceu a base conceitual principal para o primeiro
movimento de homens antissexistas. A debilidade da teoria

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ROBERT W. CONNELL E JAMES W. MESSERSCHMIDT

20

KIMMEL 1987; e PLECK, 1981.

21

ALTMAN, 1972.

22

MIELI, 1980.

23

MORIN e GARFINKLE, 1978.

BROKER, 1976; e PLUMMER,
1981.
24

WILLIS, 1977.
COCKBURN, 1983.
27
HERDT, 1981; e HUNT, 1980.
25
26

28
29

FREUD, 1955.
STOLLER, 1968.

FRIEDMAN e LERNER, 1986; e
ZARETSKY, 1975.
30

dos papéis sexuais foi, entretanto, cada vez mais reconhecida.20 Esses autores incluíram a desfocagem característica
do comportamento e da norma, o efeito homogeneizador do
conceito de papel e suas dificuldades em acessar o poder?
Considerar a questão do poder? Dar conta da questão do
poder? Incorporar a concepção de poder?
Por outro lado, o poder e a diferença foram conceitos
centrais no movimento de liberação gay, o qual desenvolveu
uma análise sofisticada da opressão do homem, assim como
da opressão pelo homem.21 Alguns teóricos perceberam a
liberação gay como ligada a um ataque aos estereótipos
de gênero.22 A ideia de uma hierarquia das masculinidades
cresceu diretamente a partir da experiência de homens
homossexuais com a violência e com o preconceito dos
homens heterossexuais. O conceito de homofobia originouse nos anos 1970 e já estava sendo atribuído ao papel
masculino convencional. 23 Teóricos desenvolveram
contribuições cada vez mais sofisticadas sobre as relações
ambivalentes entre os homens gays e o patriarcado e com a
masculinidade convencional.24
Uma fonte igualmente importante foi a pesquisa
social empírica. Um corpus em crescimento de estudos de
campo estava documentando hierarquias locais de gênero
e culturas locais de masculinidades nas escolas,25 em locais
de trabalho dominados por homens26 e em comunidades
populares. 27 Esses estudos acrescentaram o realismo
etnográfico de que a literatura de papéis sexuais carecia,
confirmando a pluralidade de masculinidades e as
complexidades da construção do gênero para os homens,
e trazendo evidências à luta ativa pela dominância, que é
implícita ao conceito gramsciniano de hegemonia.
Por fim, o conceito foi influenciado pela psicanálise.
O próprio Freud produziu a primeira análise de biografias
de homens e, na história do caso do “Homem dos Lobos”,
mostrou como a personalidade adulta era um sistema sob
tensão, com contracorrentes reprimidas, mas não
obliteradas.28 O psicanalista Stoller29 popularizou o conceito
de “identidade de gênero” e mapeou suas variações no
desenvolvimento de meninos, sendo as mais famosas
aquelas que levam ao transexualismo. Outros autores
influenciados pela psicanálise dedicaram-se aos temas do
poder dos homens, do espectro de possibilidades do
desenvolvimento do gênero e da tensão e contradição dentre
masculinidades convencionais.30

Formulação
O que emergiu dessa matriz em meados dos anos
1980 foi análogo, em termos de gênero, às pesquisas na

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Talvez fosse possível que uma maneira de ser homem mais humana. Foi em relação a esse grupo. que o conceito de hegemonia foi mais eficaz. pesquisas sobre homens e masculinidade estavam se consolidando como um campo acadêmico. formulado nesses termos. das instituições e da persuasão. as masculinidades hegemônicas passaram a existir em circunstâncias específicas e eram abertas à mudança histórica. dessa forma. significava ascendência alcançada através da cultura. definidos em termos da lógica do sistema patriarcal de gênero. Assumiam que as relações de gênero eram históricas e. BROD. 1987. e com a complacência dentre as mulheres heterossexuais. 21(1): 241-282. ela exige que todos os outros homens se posicionem em relação a ela e legitima ideologicamente a subordinação global das mulheres aos homens. encontrou uso imediato. especialmente das masculinidades subordinadas. Esses conceitos eram abstratos em vez de descritivos. pudesse se tornar hegemônica como parte de um processo que levaria à abolição das hierarquias de gênero. A hegemonia não significava violência.. coisas feitas. apoiado por uma série de conferências. Aplicação 31 e. as hierarquias de gênero eram sujeitas a mudanças.MASCULINIDADE HEGEMÔNICA: REPENSANDO O CONCEITO sociologia sobre estruturas de poder. Nesse sentido. Ela incorpora a forma mais honrada de ser um homem. e rapidamente expandiu a agenda de pesquisas nas ciências sociais e humanidades. janeiro-abril/2013 245 . não apenas uma série de expectativas de papéis ou uma identidade) que possibilitou que a dominação dos homens sobre as mulheres continuasse.. A masculinidade hegemônica se distinguiu de outras masculinidades. apenas uma minoria dos homens talvez a adote. Esse foi um elemento de otimismo numa teoria de outra forma bastante sombria. Mas certamente ela é normativa. A masculinidade hegemônica foi entendida como um padrão de práticas (i. Homens que receberam os benefícios do patriarcado sem adotar uma versão forte da dominação masculina podem ser vistos como aqueles que adotaram uma cumplicidade masculina. pela publicação de livros31 e revistas acadêmicas. A masculinidade hegemônica não se assumiu normal num sentido estatístico.g. menos opressiva. Estudos Feministas. Florianópolis.e. poderia existir uma luta por hegemonia e formas anteriores de masculinidades poderiam ser substituídas por novas. No final dos anos 1980 e início dos anos 1990. Mais precisamente. O conceito de masculinidade hegemônica. dando centralidade ao grupo dominante. apesar de poder ser sustentada pela força.

1992. 1994.: no original “playing hurt“. CONNELL E JAMES W. mesmo lesionado ou com dor. por exemplo. 35 NEWBURN e STANKO.34 e foi também usado em estudos sobre crimes específicos de homens e meninos. expressão de língua inglesa usada para várias situações em que o sujeito. mas o conceito de papel sexual estava muito difuso para ser considerado útil.35 O conceito também foi usado nas pesquisas sobre as representações do homem na mídia. 1992. 39 MESSNER e SABO. 21(1): 241-282. 34 MESSERSCHMIDT.39 Os determinantes sociais da saúde dos homens foram levantados anteriormente. os homens mantinham um monopólio virtual sobre determinadas formas de crime. Florianópolis.41 Os conceitos de masculinidade hegemônica e subordinada ajudaram a compreensão da exposição dos homens a situações de risco. Para além. 1995. 41 SABO e GORDON. MESSERSCHMIDT 32 MARTINO.37 Esportes comerciais são um foco das representações midiáticas da masculinidade. tais como os de instrutores de educação física. Todos os dados refletiam que os homens e os meninos perpetravam mais os crimes convencionais – e os mais sérios desses crimes – que as mulheres e as meninas. 37 HANKE.33 O conceito também influenciou a criminologia. e o campo em desenvolvimento da sociologia do esporte também encontrou um uso significativo do conceito de masculinidade hegemônica. Foi usado para explorar as relações com o currículo e as dificuldades da pedagogia neutra de gênero. N. Expressão muito ligada aos esportes e às práticas sexuais masculinas. além da agressão violenta nos Estados Unidos. 42 GERSCHICK e MILLER. 1994. Os conceitos de múltiplas masculinidades e de masculinidade hegemônica foram progressivamente mais usados para compreender as práticas de saúde dos homens. 38 MESSNER. 1995. tais como estupro na Suíça. assassinato na Austrália. como também acerca de suas dificuldades para lidar com as próprias incapacidades e ferimentos. os estudiosos da mídia começaram a mapear as relações entre diferentes representações de masculinidades. nas interconexões entre o esporte e os imaginários de guerra. 33 SKELTON. O conceito de masculinidade hegemônica contribuiu na teorização da relação entre masculinidades e uma série de crimes. como crimes em sindicatos e crimes de colarinhobranco.32 Foi usado para entender as estratégias e as identidades de professores em grupos. 40 246 O conceito de masculinidade hegemônica foi usado em estudos na educação para compreender as dinâmicas da vida em sala de aula. hooliganismo no futebol americano e crimes do colarinho-branco na Inglaterra. janeiro-abril/2013 . 1993. incluindo os padrões de resistência e bullying entre meninos. 1994. T. dá continuidade a determinada prática.38 Foi implantado na compreensão da popularidade dos esportes de contato e confronto – que funcionam como uma renovação contínua do símbolo da masculinidade – e na compreensão da violência e homofobia frequentemente presentes em meios esportivos. tais como “jogar ferido”40 e comportamentos que envolvem risco. 1993. 1990. 36 JANSEN e SABO.ROBERT W.36 Como o conceito de hegemonia ajudou a dar sentido tanto à diversidade como à seletividade das imagens na mídia de massa.42 Estudos Feministas.

Florianópolis.51 e em discussões mais gerais sobre as políticas de gênero dos homens e a relação com o feminismo. pelo desvelamento dos mecanismos da hegemonia. 44 MESSERSCHMIDT. THORNTON. No que tange aos custos e às consequências. 47 48 49 50 51 52 BELTON. janeiro-abril/2013 247 . em disciplinas acadêmicas como Geografia50 e Direito. O conceito de masculinidade hegemônica também se mostrou significativo nos estudos organizacionais. 1989. em discussões de arte. em que o caráter generificado das burocracias e dos locais de trabalho foi cada vez mais reconhecido. em termos de danos emocionais e físicos.45 Discussões sobre prática profissional envolvendo homens e meninos também utilizaram o conceito. 1995. Eventualmente os esforços em crescimento de pesquisas tendiam a expandir o conceito. 1996. BERG. 46 KUPERS. 1997. não como um efeito mecânico do qual ela fosse a causa. Essa imagem pode ser vista em quatro formas principais: pela documentação sobre as consequências e os custos da hegemonia. 1992. 21(1): 241-282.MASCULINIDADE HEGEMÔNICA: REPENSANDO O CONCEITO CHENG. Algumas são altamente visíveis.46 programas de prevenção à violência para a juventude47 e programas de educação emocional para meninos. 1996. 1996. Estudos etnográficos e com entrevistas traçaram a institucionalização das masculinidades hegemônicas em organizações específicas43 e seu papel nos processos organizacionais de tomada de decisões. como aquelas sobre a “ostentação” da masculinidade nos Estudos Feministas.53 Além disso. 1999. substituindo a teoria do papel sexual e os modelos categoriais da psiquiatria.52 Podemos razoavelmente concluir que a análise das múltiplas masculinidades e o conceito de masculinidade hegemônica serviram como quadro para muitos dos esforços das pesquisas em desenvolvimento sobre homens e masculinidade. em que padrões específicos de masculinidade hegemônica costumam ser dominantes. mas têm se tornado cada vez mais problemáticos. ao mesmo tempo que reproduz hierarquias exageradas. a pesquisa pioneira de Messner54 mostrou que a colocação em ato da masculinidade hegemônica nos esportes profissionais. SALISBURY e JACKSON. pela demonstração da vasta diversidade de masculinidades e pelo delineamento das transformações nas masculinidades hegemônicas. 1993.44 Um foco particular dessas pesquisas foi a instituição militar. 1994. pesquisas em criminologia mostraram como padrões particulares de agressão eram ligados com a masculinidade hegemônica. e COCKBURN. mas através da busca pela hegemonia. 1996. DENBOROUGH. SEGAL. Mas também houve uma vasta gama de aplicação. também vem com custos consideráveis para os vitoriosos.49 por exemplo. 1991. 54 MESSNER. 43 45 BARRETT. Pesquisas têm sido frutíferas na revelação dos mecanismos de hegemonia. Tais práticas incluem a psicoterapia com homens. e MESSERSCHMIDT. 1995.48 Esses foram os campos primários em que o conceito de masculinidade hegemônica foi aplicado na década posterior à sua formulação. 1990. 53 BUFKIN.

MESSERSCHMIDT 55 56 57 58 SABO e JANSEN. Ferguson64 analisa o declínio dos ideais de longa duração de masculinidade na Irlanda – o padre celibatário e o homem de família que trabalha duro – e sua substituição por modelos mais modernizados e orientados pelo mercado. deixando a mídia sem outra forma de representar os atiradores. nota como a questão da masculinidade foi retirada do escrutínio. Ele mostra como o imaginário do machismo se desenvolveu historicamente e foi entrelaçado com o desenvolvimento do nacionalismo mexicano. 2003. quando apareceu a figura cultural do “salaryman escaping”.ROBERT W. não há uma masculinidade unitária. Em outro famoso país homogêneo. 248 programas televisivos de esportes. e o são também os ajustes em face desses desafios. removendo a forma dominante da masculinidade da possibilidade de censura. mascarando a enorme complexidade nas vidas dos homens mexicanos. Florianópolis. 2003. insistindo que mesmo esses quatro padrões são transversalizados por outras divisões sociais e são constantemente renegociados na vida cotidiana. Dasgupta65 pesquisa as tensões no modelo de masculinidade do “assalariado” japonês. Finalmente. com mudanças nas práticas de cuidado das crianças como desenvolvimento-chave. 61 HIGATE. Valdés e Olavarría59 mostram que. ROBERTS. 21(1): 241-282. Diversidade de masculinidades também é encontrada em instituições particulares como a instituição militar. Morrell63 mostra evidências sobre as transformações de gênero na África Meridional associadas com o fim do Apartheid. 2003. especialmente depois da “bolha econômica” dos anos 1980.62 na mais bela observação etnográfica moderna da masculinidade.55 assim como aquelas sobre mecanismos sociais que Roberts56 chama de “censura” direcionada a grupos subordinados – variando desde xingamentos informais por crianças à criminalização da conduta homossexual. estudou um caso no qual existe uma identidade masculina pública bem definida – o “machismo” mexicano.57 Consalvo. um sistema de patriarcados segregados e concorrentes. 66 TAGA. 2000. senão como “monstros”. Pesquisas internacionais confirmaram fortemente o insight inicial de que ordens de gênero constroem masculinidades múltiplas. 59 VALDÉS e OLAVARRÍA. janeiro-abril/2013 . 65 DASGUPTA.58 examinando a mídia sobre o massacre na Escola Columbine. BROWN. 1998. 1992. 64 FERGUSON. 62 63 MORRELL.61 Gutmann. 60 ISHII-KUNTZ. um corpo considerável de pesquisas mostra que as masculinidades não são simplesmente diferentes entre si mas também sujeitas a mudanças. mesmo em países culturalmente homogêneos como o Chile. 2003. 2001. CONSALVO. 1996. Ainda outros mecanismos de hegemonia operam por invisibilidade. O autor traz à tona quatro padrões de masculinidade nos ambientes da classe trabalhadora urbana que ele estuda. 1999. uma vez que os padrões variam por classe e geração. Ishii-Kuntz60 traça a “emergência de masculinidades diversas” na história social recente. CONNELL E JAMES W. o Japão. 1993. GUTMANN. Taga66 Estudos Feministas. Desafios à hegemonia são comuns. 1998.

Florianópolis. Meuser67 estuda mudanças geracionais na Alemanha. encontram um ritmo mais lento na mudança. Morris e Evans. 1998. janeiro-abril/2013 249 . Muitos (apesar de não serem todos) homens jovens. MacINNES. parcialmente dirigidas pelas respostas dos homens às transformações ocorridas com as mulheres. COLLIER. Que o conceito subjacente de masculinidade é falho já foi argumentado a partir de dois diferentes pontos de vista. Não é surpreendente. 68 MORRIS e EVANS. O conceito de masculinidades múltiplas tende a produzir uma tipologia estática.MASCULINIDADE HEGEMÔNICA: REPENSANDO O CONCEITO 67 MEUSER. documenta respostas diversas à mudança entre homens jovens da classe média japonesa. Críticas Cinco principais críticas têm sido avançadas desde que o debate sobre o conceito começou no início dos anos 1990. 21(1): 241-282. o conceito de masculinidade hegemônica passou de um modelo conceitual com uma base empírica bastante restrita para um quadro vasto muito usado nas pesquisas e nos debates sobre homens e masculinidades.71 Collier72 e MacInnes73. é incerto no seu significado e tende a desenfatizar questões de poder e dominação. HEARN. estão elaborando um “igualitarismo pragmático” próprio. 1998 e 2003. realista e pós-estruturalista. que o conceito tenha atraído criticismo. É fundamentalmente desnecessário para a tarefa de compreender e contestar o poder dos homens. Dessa forma. então. o conceito de masculinidade é falho porque ele essencializa o caráter dos homens ou impõe uma unidade falsa a uma realidade fluida e contraditória. que agora se deparam com a rejeição das mulheres às relações sociais patriarcais.68 estudando imagens da masculinidade e da feminilidade rurais na Grã-Bretanha. 1994. 2001. Para Collinson e Hearn69 e Hearn. Para Petersen. aspecto no qual focaremos a partir de agora. 1996 e 2004. Algumas versões desse argumento criticam as pesquisas sobre masculinidades porque essas não adotaram um kit de ferramentas pós-estruturalistas específico – que seria. 1998.70 o conceito de masculinidade é turvo. O conceito subjacente de masculinidade 69 70 71 72 73 COLLINSON e HEARN. a partir de meados dos anos 1980 até o início dos anos 2000. por exemplo. 2003. mas uma sutileza e fragmentação crescentes na representação da masculinidade hegemônica. PETERSEN. incluindo novas opções de parceria doméstica com as mulheres. Nesta seção avaliaremos cada crítica esperando descobrir o que vale a pena reter da concepção original de masculinidade hegemônica e o que necessita ser reformulado. O conceito foi aplicado em contextos culturais diversos e a uma gama considerável de questões. a ênfase na construção Estudos Feministas.

1997. em grande parte da literatura preocupada com a masculinidade. 2002. Um exemplo paradigmático é a etnografia mexicana de Gutmann. HALBESRTAM. 76 77 GUTMANN. mas sempre relacionais e constantemente transversalizadas por outras divisões e projetos. entretanto. que essas não são identidades monádicas. reivindicar que o conceito de masculinidade deva ser confundido com essencialismo ou até mesmo que seja tipicamente esse o uso que os pesquisadores fazem do conceito. CONNELL E JAMES W.ROBERT W. 250 e discursiva das identidades. o macho e o mandilón –.74 O conceito de masculinidade é criticado por ter sido enquadrado no seio de uma concepção heteronormativa de gênero que essencializa a diferença macho–fêmea e ignora a diferença e a exclusão dentro das categorias de gênero. mostrando em detalhes. 21(1): 241-282. MESSERSCHMIDT. Florianópolis. precisamente porque o conceito subjacente empregado não é reificante ou essencialista. 2004. há uma grande quantidade de confusão conceitual. janeiro-abril/2013 . Diríamos que as pesquisas sobre masculinidades floresceram em ciências sociais e nas humanidades durante os últimos 20 anos. É uma outra questão. MESSERSCHMIDT 74 WHITEHEAD. As observações de Warren78 numa escola primária inglesa nos fornecem um outro exemplo. 2003. Nenhuma mente responsável pode negar que. dessa forma marginalizando ou naturalizando o corpo. Isso é certamente comum em abordagens da masculinidade na psicologia pop. Diferentes construções de Estudos Feministas. 78 WARREN. Ao conceito de masculinidade é atribuído o fato de esse permanecer logicamente numa dicotomização do sexo (biológico) versus gênero (cultural). 1996. dessa forma. As masculinidades são configurações de práticas que são realizadas na ação social e. podem se diferenciar de acordo com as relações de gênero em um cenário social particular. 1998. na mitopoética do movimento de homens e nas interpretações jornalísticas das pesquisas sobre a diferença biológico-sexual. ao mesmo tempo que reconhece.77 já mencionada. 75 CONNELL. 76 A masculinidade não é uma entidade fixa encarnada no corpo ou nos traços da personalidade dos indivíduos. assim como uma grande quantidade de essencialização. A ideia de que o reconhecimento de múltiplas masculinidades necessariamente se torna uma tipologia estática também não é confirmada pelo desenvolvimento de pesquisas.75 O que distancia o conceito do essencialismo é o fato de que pesquisadores exploraram as masculinidades postas em ato por pessoas com corpos femininos. Gutmann é capaz de desvendar diferentes categorias de masculinidade – por exemplo. A noção de que o conceito de masculinidade essencializa ou homogeneiza é um tanto quanto difícil de reconciliar com a tremenda multiplicidade das construções sociais que etnógrafos e historiadores têm documentado com o auxílio desse conceito.

e WALBY. MESSERSCHMIDT. 1991.84 os corpos laborais de homens da classe trabalhadora. 83 MESSNER. desde seu início. 1992. 1997. DONALDSON. 2000. SCOTT. Como Brod89 precisamente observa. Como Brod também argumenta. mesmo que muitos meninos não se encaixem exatamente nas categorias principais.79 essa é uma crítica contestada. não em abandonar os conceitos de gênero ou masculinidade. os meninos demonstram relações complexas de aderência e rejeição a essas categorias. estudar as masculinidades através do olhar exclusivo sobre os homens e sobre as relações entre homens.80 Enquanto identifica corretamente um problema nos modelos categoriais de gênero. CONNELL.82 O policiamento da heterossexualidade tem sido um tema recorrente nas discussões sobre masculinidade hegemônica desde então. cap. na qual o uso de “corpos como armas” e a permanência de danos nos corpos dos homens foram examinados. CONNELL e LEE. No desenvolvimento do conceito de masculinidade hegemônica. janeiro-abril/2013 251 . SABO e GORDON. Um dos primeiros e mais influentes programas de pesquisa no novo paradigma foi a abordagem de Messner83 sobre a masculinidade de atletas profissionais. 1994. masculinidade são encontradas. 1995. 82 CARRIGAN. Alarmante porque o atravessamento entre corpos e processos sociais foi um dos temas centrais da pesquisa sobre masculinidades. isso não é inevitável. Discussões teóricas exploraram a relevância de uma “nova sociologia do corpo” para a construção da masculinidade. divisões entre os homens – especialmente a exclusão e a subordinação dos homens homossexuais – foram geralmente questões centrais. Embora seja atualmente familiar a crítica de que o conceito de gênero traz embutida a heterossexualidade como norma. 2002. 1985. de dicotomizar as diferenças entre homens e mulheres. A ideia de que o conceito de masculinidade marginaliza ou naturaliza o corpo (porque se supõe que ele se assenta numa dicotomia sexo–gênero) é talvez a mais alarmante das reivindicações dessa crítica.88 Críticas ao conceito de masculinidade fazem mais sentido quando apontam uma tendência. de proceder como se as mulheres não fossem uma parte relevante da análise e. A construção da masculinidade em um contexto de incapacidade. 84 GERSCHICK e MILLER. 1997. 1997. 89 BROD. Estudos Feministas. 21(1): 241-282. dessa forma. 1994.MASCULINIDADE HEGEMÔNICA: REPENSANDO O CONCEITO 79 80 81 HAWKESWORTH. não é um criticismo válido dos modelos de gênero relacionais81 ou das abordagens históricas em que a construção da categoria de gênero é objeto de investigação. tanto nas pesquisas como na literatura popular.85 a saúde e a doença dos homens86 e a violência interpessoal de meninos87 estão dentre os temas de pesquisas que demonstram como os corpos são afetados por processos sociais. as quais produzem efeitos na vida da sala de aula. 85 86 87 88 CONNELL. 2. Florianópolis. há uma tendência no campo de estudos sobre homens de presumir “esferas separadas”. A cura reside em tomar uma abordagem consistentemente relacional do gênero. 1995. de fato.

a ambiguidade em processos de gênero talvez seja importante de ser reconhecida como um mecanismo de hegemonia. Tais modelos se referem (mas também em vários sentidos as distorcem) às realidades cotidianas da prática social.ROBERT W. Por outro lado. narrados pela mídia de massa ou celebrados pelo Estado. dirigir bêbado. 92 MARTIN. do trabalhador industrial nomeado Stakhanovite. pelo regime soviético. em outros aspectos. em homenagem ao minerador de carvão Aleksandr Stakhanov. se mostrar. p. Um exemplo clássico é a celebração. Pensamos que os críticos apontaram de forma correta as ambiguidades do uso do conceito. Florianópolis. E Whitehead94 sugere que há uma confusão sobre quem é realmente um homem hegemonicamente masculino – “É John Wayne ou Leonardo DiCaprio. e 2002. algumas vezes referindo a um tipo fixo de masculinidade e em outras ocasiões referindo ao tipo qualquer que seja dominante em um tempo e em um lugar particulares. 58. 91 CONNELL. Similarmente. que. Wetherell e Edley93 afirmam que o conceito falha na especificação de como a conformidade à masculinidade hegemônica realmente se objetiva na prática. Martin92 critica o conceito por levar a aplicações inconsistentes. Mas. janeiro-abril/2013 . Ele discute o caso dos surfistas esportivos australianos “iron man” descritos por Connell. como um modelo trans-histórico. há uma circulação de modelos de conduta masculina admirável. 1998. É familiar que muitos homens que detêm grande poder social não encorporam o ideal de masculinidade. todos eles?” – e também sobre quem na realidade pode pôr em ato práticas hegemônicas. CONNELL E JAMES W. 1999. Mike Tyson ou Pelé? Ou talvez. 1993. 1998. É desejável eliminar qualquer uso da masculinidade hegemônica como fixa. 94 252 As primeiras críticas do conceito levantaram a questão de quem concretamente representa a masculinidade hegemônica.91 um exemplo popular da masculinidade hegemônica. em diferentes momentos. MESSERSCHMIDT Ambiguidade e sobreposição 90 DONALDSON. que são exaltados pelas igrejas. 21(1): 241-282. p. Considere-se como uma definição idealizada de masculinidade é constituída em um processo social. 1990. Donaldson90 declara que não parecia haver muita substância masculina naqueles homens identificados por pesquisadores como modelos hegemônicos. Num nível societal mais amplo (ao qual chamaremos de “regional” na continuidade). 93. WHITEHEAD. defender seu próprio prestígio. Mas o status hegemônico regional dos jovens homens na realidade alerta para que eles façam as coisas que seu grupo de pares local define como masculinas – enlouquecer. Esse uso viola a historicidade do gênero e ignora a evidência massiva das transformações nas definições sociais da masculinidade. 93 WETHERELL e EDLEY. bateu o recorde Estudos Feministas. entrar em uma briga. em 1935.

Não é apenas uma questão de personagens descritos em scripts. Mesmo assim esses modelos expressam.95 exibam contradições. Cavender100 mostra como os modelos de masculinidade hegemônica foram construídos diferentemente em filmes de longa-metragem nos anos 1940. por exemplo. 1999. 1999. provocando uma corrida para bater seu recorde. mundial ao escavar 102 toneladas de carvão em um único dia. a interação face a face ao filmar um filme como ator – em última análise constrói a fantasia dos modelos de masculinidade hegemônica (nesse caso de Estudos Feministas. Desse modo. de seus colegas de trabalho.97 Modelos hegemônicos de masculinidade socialmente legitimados estão também em jogo nas famílias. discursos homofóbicos e assédio. em comparação com os dos anos 1980. 1994. Parte da distorção aqui foi de que os famosos “trabalhadores de choque” alcançaram seus números com grande ajuda. janeiro-abril/2013 253 . Na medida em que fazem isso. Eles oferecem modelos de relações com as mulheres e soluções aos problemas das relações de gênero. A sobreposição entre masculinidades também pode ser vista em termos dos agentes sociais construindo masculinidades. Florianópolis. controle do espaço escolar. fantasias e desejos muito difundidos.MASCULINIDADE HEGEMÔNICA: REPENSANDO O CONCEITO 95 DONALDSON. padrões de encontros afetivossexuais. padrões de hegemonia da masculinidade estão embutidos em ambientes sociais específicos. tais como as organizações formais. as estratégias de gênero dos homens definem negociações em torno do trabalho doméstico e da “dupla jornada” nas famílias norte-americanas estudadas por Hochschild. Existem. WAJCMAN. 1993. 97 98 HOCHSCHILD. Por exemplo. como os “iron man” discutidos por Donaldson. MAC AN GHAILL. as masculinidades hegemônicas podem ser construídas de forma que não correspondam verdadeiramente à vida de nenhum homem real. 21(1): 241-282.99 Em nenhum desses casos esperaríamos que a masculinidade hegemônica se sobressaísse como um padrão nitidamente definido separado de todos os outros. 98 Padrões hegemônicos de masculinidade são tanto envolvidos como contestados. A prática no nível local – quer dizer. Ademais. e THORNE. 1989. Não é surpreendente que homens que funcionam como exemplos no nível regional. O gênero é produzido nas escolas e nas vizinhanças através de estrutura de grupos de pares. 1993. à medida que as crianças crescem. padrões bem definidos de masculinidade gerencial nas corporações britânicas estudadas por Roper96 e Wajcman. eles se articulam livremente com a constituição prática das masculinidades como formas de viver as circunstâncias locais cotidianas. 1994. 96 ROPER. ideais. em vários sentidos. não reconhecida. 99 100 CAVENDER. contribuem para a hegemonia na ordem de gênero societal. Um grau de sobreposição e indefinição entre as masculinidades hegemônica e cúmplice é extremamente provável se a hegemonia é efetiva. No nível local.

103 HOLTER. 1997. 254 Que o conceito de masculinidade hegemônica reduza. (Exploraremos essa questão das relações entre níveis na seção “Revisão e reformulação” deste artigo. Collier sugere que a masculinidade hegemônica se tornou associada somente a características negativas que Estudos Feministas. como o fazem com aquelas relacionadas à violência. Na “virada da masculinidade” na criminologia. encontramos aqueles que revelam variações um tanto quanto sutis. na prática. MARTINO. Navy. e o “gênero”.) O problema da reificação 101 HOLTER. CONNELL E JAMES W. Holter acredita que nós devemos distinguir entre o “patriarcado”.101 na crítica conceitualmente mais sofisticada de todas. a uma reificação do poder ou a uma intoxicação de seu uso também já foi argumentado em diferentes pontos de vista. a U. a classe e a região. 2000. Holter102 significativamente aponta as evidências de um survey norueguês que mostram que as identidades de gênero dos homens não colocam em ato tão prontamente as práticas relacionadas com a igualdade. Também devemos levar em questão a institucionalização das desigualdades de gênero. 1997 e 2003. especialmente aquelas feitas em salas de aula. em que vemos o entrelaçamento da masculinidade com a identidade rural.S. Holter103 certamente está certo ao dizer que é um equívoco deduzir relações entre as masculinidades a partir do exercício direto do poder pessoal pelos homens sobre as mulheres. 104 BARRETT. CAMPBELL.106 mostram a produção refinada e a negociação das masculinidades (e feminilidades) como configurações de prática. Na verdade. 1995. 1996. Collier107 critica o conceito de masculinidade hegemônica através de seus usos típicos na contabilização da violência e do crime.105 Outras pesquisas. No seio dos frutíferos estudos sobre masculinidades institucionais. argumenta que o conceito constrói o poder masculino a partir da experiência direta das mulheres em vez da base estrutural da subordinação das mulheres. É um equívoco tratar a hierarquia das masculinidades construídas no seio das relações de gênero como um contínuo lógico com a subordinação patriarcal das mulheres. 105 106 107 COLLIER. 21(1): 241-282. uma estrutura de longo termo da subordinação das mulheres. o papel das construções culturais e a ação combinada das dinâmicas de gênero com a raça. entre diferentes ramos de uma força militar. por exemplo.ROBERT W. um sistema específico de trocas que surgiu no contexto do capitalismo moderno. 102 HOLTER. são as pesquisas sobre essas questões que mostram que o conceito de masculinidade hegemônica não está preso à reificação. MESSERSCHMIDT “detetives”) no nível societal mais amplo ou no nível regional. e WARREN. Holter.104 Há estudos sobre masculinidades hegemônicas locais específicas construídas em espaços como um pub neozelandês. 1998. 1997. 1997 e 2003. janeiro-abril/2013 . Florianópolis.

não cuidadores.111 Devido ao fato de o conceito de masculinidade hegemônica ser baseado na prática que permite a continuidade da dominação coletiva dos homens sobre as mulheres. p. Martin. independentes. se torna a explanação (e a desculpa) para o comportamento.MASCULINIDADE HEGEMÔNICA: REPENSANDO O CONCEITO 108 MARTIN. o comportamento que talvez sirva aos interesses e aos desejos das mulheres. Esse não é um problema uma vez que nós avancemos a marca rígida da teoria da personalidade. 1998. 1999. uma vez que a hegemonia tem numerosas configurações. 109 McMAHON. 113 COLLIER. Nesse ambiente. em um argumento circular. uma das mais efetivas formas de “ser um homem” em certos contextos locais pode ser a demonstração da distância da masculinidade hegemônica regional. Florianópolis. a violência e outras práticas nocivas não são sempre as características definidoras. Essa crítica tem força. 112 WETHERELL e EDLEY. por exemplo. 1988. como trazer para a casa um ordenado. Collier113 vê como um defeito crucial no conceito de masculinidade hegemônica o fato de que esse exclui o comportamento “positivo” por parte dos homens – quer dizer. assim ocorre com qualquer dos problemas contemporâneos definidos sob a consígnia “crise da masculinidade”. o novo homem. O comportamento dos homens é reificado em um conceito de masculinidade que. não é surpreendente que em alguns contextos a masculinidade hegemônica realmente se refira ao engajamento dos homens a práticas tóxicas – incluindo a violência física – que estabilizam a dominação de gênero em um contexto particular. sustentar uma relação sexual e ser um Estudos Feministas. dominador. N. Isso pode ser visto em várias discussões sobre a saúde dos homens e os problemas na educação dos meninos – de fato. Entretanto.108 similarmente. 1998. a invenção de novos tipos de personalidade é endêmica (o macho alfa. a masculinidade hegemônica pode se tornar o sinônimo (com um tom científico) de um tipo de homem rígido. por exemplo).: no original “new lad“ diz respeito a uma subcultura masculina que surgiu na Inglaterra no início dos anos 1990. o homem cabeludo. janeiro-abril/2013 255 . Na psicologia pop. observa um movimento em direção a uma visão da masculinidade hegemônica não apenas como um tipo. o rapaz new age sensível. 21(1): 241-282. Muitas abordagens sobre a masculinidade hegemônica incluem ações “positivas”. 110 111 MOSHER e TOMKINS. retratam os homens como não emocionais. T. como Wetherell e Edley 112 ironicamente observam. agressivos e não passio-nais – as quais são vistas como causas do comportamento criminal. 473. Para tal. 1993. mas como um tipo negativo.110 o “homem rato” etc. sexista e “macho” (segundo o uso anglo-saxão. ao “dizer que defender o porte de armas é uma defesa da masculinidade hegemônica”.). Ela se assenta na análise precisa de McMahon109 sobre o psicologismo em muitas discussões sobre homens e masculinidade.

O conceito de masculinidade hegemônica não busca abarcar tudo e muito menos ser uma causa primeira. De fato. argumentando que a masculinidade hegemônica não pode ser entendida como uma estrutura estabelecida de caráter de qualquer grupo de homens. Estudos Feministas. janeiro-abril/2013 . 115 MESSERSCHMIDT. pai. em vez de uma simples reflexão sobre elas. Coordenação e regulação ocorrem nas práticas sociais da vida de coletividades. O que falta em Collier. Mas não há nada surpreendente sobre a ideia de práticas diversas sendo geradas em modelos culturais comuns. saúde e educação. é que pesquisas consistentemente sofisticadas prossigam na exploração da relação dessas idealizações com as vidas diárias de meninos e homens – incluindo os desajustes. MESSERSCHMIDT 114 COLLIER. não há nada conceitualmente universalizante sobre a ideia de masculinidade hegemônica. p. 337. 116 256 Muitos autores têm argumentado que o conceito de masculinidade hegemônica se baseia em uma teoria não satisfatória do sujeito. é difícil enxergar como o conceito de hegemonia seria relevante se apenas as características do grupo dominante fossem a violência. sem que qualquer um incorpore exatamente aquele ideal”. CONNELL E JAMES W. mas raramente constituiriam hegemonia – uma ideia que embute certas noções de consenso e participação dos grupos subalternos. p. 1998. por ser tautológica e universalizante ou excessivamente multitudinal naquilo que explica. entretanto. Collier114 está certo em comentar que o que está realmente sendo discutido em muitas abordagens da masculinidade hegemônica e do crime (e nós acrescentaremos a saúde e a educação) é “uma gama de ideologias populares do que constitui um ideal ou verdadeiras características do que é ‘ser um homem’”. Tais características talvez signifiquem dominação. são centrais para a compreensão das consequências generificadas nos processos de violência. Florianópolis. instituições e sociedades inteiras. O sujeito masculino WETHERELL e EDLEY. 1999. 21. As relações práticas de homens e meninos com as imagens coletivas ou os modelos de masculinidades. é uma forma de entender certa dinâmica no seio de um processo social. as tensões e as resistências. 1993. a agressão e o egocentrismo.ROBERT W. Isso tem sido evidente desde que Messerschmidt115 formulou a ideia de que diferentes crimes são usados por diferentes homens na construção das masculinidades. Devemos questionar “como os homens se acomodam a um ideal e se tornam tipos que são cúmplices e resistentes. 21(1): 241-282. Collier considera essa ideia inaceitável. Wetherell e Edley116 desenvolvem essa crítica a partir do ponto de vista da psicologia discursiva.

mas que Wetherell e Edley tomam como um ponto de partida positivo. 92-94.119 Para Whitehead. Para Whitehead. Os homens podem se esquivar dentre múltiplos significados de acordo com suas necessidades interacionais. a qual tem resultado em uma falta de atenção sobre como os homens de fato se relacionam psicologicamente com a masculinidade hegemônica. 73. 21(1): 241-282. 2002. se relacionam com as várias masculinidades”. Whitehead118 argumenta que o conceito de masculinidade hegemônica “enxerga” apenas a estrutura. Os homens podem adotar a masculinidade hegemônica quando é desejável. 118 WHITEHEAD. 119 WHITEHEAD. Uma crítica relacionada deriva da psicanálise. em vez disso. O autor sugere que meninos e homens escolhem essas posições discursivas que os auxiliam a afastar a ansiedade e evitar sentimentos de ausência de poder. a “masculinidade” representa não um tipo determinado de homem. em termos althusserianos. reproduzem e geram sua dominação e o fazem como uma minoria social vis-à-vis às mulheres e a outros homens. Consequentemente. Florianópolis. e JEFFERSON. janeiro-abril/2013 257 . mas a psicologia profunda revela um sujeito multifacetado e dividido. em uma ‘dinâmica estrutural abstrata’”. p. O argumento da psicologia discursiva é bem aceito e bem integrado com uma abordagem investigativa frutífera. com suas biografias e formações psíquicas particulares. 93. Estudos Feministas. Consequentemente. mas os mesmos homens podem se distanciar estrategicamente da masculinidade hegemônica em outros momentos. sujeito a ele e a uma vontade inata de poder”. uma forma como os homens se posicionam através de práticas discursivas. A masculinidade hegemônica tem múltiplos significados – um ponto que alguns autores têm afirmado como uma crítica. o uso do conceito resulta em “uma ofuscação. De acordo com essa visão. 1999. COLLIER. o modelo de masculinidade hegemônica presume um sujeito unitário. na fusão de masculinidades fluidas com uma estrutura abrangente e. o conceito falha em especificar como e por que alguns homens heterossexuais legitimam. 2002.MASCULINIDADE HEGEMÔNICA: REPENSANDO O CONCEITO 117 WHETHERELL e EDLEY.120 Jefferson (2002) critica a “visão excessivamente socializada do sujeito masculino” em estudos de masculinidade. ele argumenta que pesquisadores deveriam perguntar “como homens concretos. 1994. p. 1998. tornando o sujeito invisível: “o individual se perde no interior de um aparato ideológico ou. 120 Whetherell e Edley117 sugerem que deveríamos compreender as normas hegemônicas como definindo posições de sujeito no discurso que é levado a cabo estrategicamente por homens em circunstâncias particulares. por fim. Dadas as múltiplas masculinidades. p. mas. é preferível concentrar no discurso como as formas através das quais os homens conhecem a si mesmos para praticar o “trabalho de identidade” e para exercitar o poder de gênero e a resistência.

essa não deve ser considerada apenas como uma norma cultural. A coerção também emerge no interior da própria pessoa. MESSERSCHMIDT 121 LEA e AUBURN. Perspectivas discursivas enfatizam a dimensão simbólica. assim como através de ações rotineiras não refletidas. 2003. Embora qualquer especificação da masculinidade hegemônica necessariamente envolva a formulação de ideais culturais. trabalho doméstico e cuidado com as crianças. sexualidade. reduzem sua responsabilidade pelo estupro. 125 JEFFERSON. 123 RUBIN. mas também como são usadas no discurso. embora vivam uma contradição que Jefferson 125 parece exemplificar ao Estudos Feministas. 21(1): 241-282. Especificamente. Eles estão convictos de serem sujeitos unitários. da difamação racista. Os informantes de Rubin124 atuam como o fazem e enfrentam os custos. A partir desse trabalho. 124 RUBIN. Outro exemplo é a análise que Archer122 faz da fala de jovens homens muçulmanos na Grã-Bretanha sobre identidade. podemos aprender não apenas como as masculinidades são construídas no discurso. incluindo trabalho assalariado. porque têm uma convicção inabalável de serem homens.ROBERT W. 1994 e 2002. Relações de gênero também são constituídas através de práticas não discursivas. As possibilidades são massivamente limitadas pelos processos de encorporação. Uma pessoa não é livre para adotar qualquer posição de gênero em interação. nós aprendemos como uma versão local da hegemonia da masculinidade pode ser usada para promover o respeito de si diante do descrédito. janeiro-abril/2013 . Os custos de se fazerem determinadas escolhas discursivas podem ser muito altos – como mostrado pelos índices de suicídio dentre pessoas envolvidas em mudanças transexuais. Que existem tais limites é um ponto forte no estudo de Rubin123 sobre homens transexuais feminino-para-masculino. pelas forças econômicas e pelas relações familiares e pessoais. mostrando como eles usam um modelo específico de masculinidade hegemônica (“com ausência de poder patriarcal”) para posicionarem-se em relação a homens afro-caribenhos. violência. por exemplo. 2003. 2001. CONNELL E JAMES W. apesar de começarem com corpos femininos e terem sido criados como meninas. 122 ARCHER. de certa forma. pelas histórias institucionais. ao passo que o conceito de masculinidade hegemônica foi formulado dentro de uma compreensão multidimensional do gênero. homens brancos e mulheres muçulmanas. simplesmente como um movimento discursivo ou reflexivo. 258 Um bom exemplo é o estudo de Lea e Auburn121 sobre a história contada por um estuprador condenado em um programa para infratores sexuais. Florianópolis. 2001. o qual mostra como o infrator narrador se move entre ideologias conflituosas da interação sexual que. Reconhecer o não discursivo e as dimensões não refletidas do gênero nos permite perceber alguns sentidos dos limites da flexibilidade discursiva.

A linguagem conceitual do pós-estruturalismo é apenas uma forma de fazê-lo. Florianópolis. Entretanto. A prática social humana cria relações de gênero na história. Tão logo se reconheçam a multidimensionalidade das relações de gênero129 e a ocorrência das tendências de crise nas relações de gênero. O conceito realmente apaga o sujeito? Nós terminantemente não concordamos com a reivindicação de Whitehead128 de que o conceito de masculinidade hegemônica reduz ao determinismo estrutural. a psicanálise e o modelo da agência no seio de estruturas sociais contraditórias são outras. A masculinidade é definida como uma configuração de práticas organizadas em relação à estrutura das relações de gênero. 2005. diferentes maneiras de se representar a incoerência do sujeito. 128 WHITEHEAD. 129 CONNELL. É por isso que os estudos de história de vida se tornaram um tipo característico de trabalho sobre masculinidade hegemônica. 21(1): 241-282. o qual ainda ressoa nas discussões contemporâneas sobre a juventude marginalizada. Concordamos com Jefferson que a prática e a teoria psicanalíticas são recursos importantes para a compreensão do sujeito complexo da prática de gênero. janeiro-abril/2013 259 . 2002. fez emergir a ideia do “protesto masculino”.127 É um tanto quanto irônico que o conceito seja criticado por simplificar por demais o sujeito. 1987. O conceito de masculinidade hegemônica embute uma visão histórica dinâmica do gênero na qual é impossível apagar o sujeito. 1995. 130 CONNELL. argumentar sobre o sujeito dividido. com sua ênfase nas consequências emocionais das relações de poder generificadas na infância. 127 CARRIGAN. Estudos Feministas. Há. claro. e CONNELL. A psicanálise adleriana. 1985.130 é impossível perceber o sujeito no seio dessas relações como unitário. a abordagem psicanalítica particular de Jefferson não existe sem problemas.126 e é importante reconhecer a diversidade e a riqueza da tradição psicanalítica. 2002.MASCULINIDADE HEGEMÔNICA: REPENSANDO O CONCEITO 126 MESSERSCHIMIDT. da contestação cotidiana como parte da vida social e da mescla de estratégias necessárias a qualquer tentativa de sustentar a hegemonia. O conceito homogeneiza o sujeito apenas se ele é reduzido a uma dimensão única das relações de gênero (usualmente o simbólico) e se ele é tratado como uma especificação da norma. mas com certeza é verdadeiro o fato de que muitas vezes foi empregado de formas simplificadas. O conceito de masculinidade hegemônica foi originalmente formulado com uma forte consciência de argumentos psicanalíticos acerca do caráter multifacetado e contraditório da personalidade. CONNELL e LEE. Abordagens como a psicanálise existencial de Sartre são úteis na compreensão das masculinidades como projetos e a identidade masculina como tendo sempre sido uma realização provisional no período de uma vida.

137 a violências e assassinatos homofóbicos.134 Cockburn135 e Martin. um sistema autorreprodutor e explanatório de todos os elementos em termos de suas funções na reprodução do todo. 2001. A dominação dos homens e a subordinação das mulheres constituem um processo histórico. 1997. 132 BOURDIEU. que variam do trabalho sobre homossociabilidade de Bird133 à pesquisa organizacional de Collinson. 135 COCKBURN.139 Na cuidadosa crítica de Demetriou 140 sobre o conceito de masculinidade hegemônica. Evidências de tais mecanismos variam do descrédito de opções “soft” num mundo de relações internacionais “hard”.ROBERT W. 1996. A “hegemonia externa” se refere à institucionalização da dominação dos homens sobre as mulheres. 1991. 2001. O autor argumenta que a relação entre as duas formas é pouco clara na formulação original do conceito e não especificada nos usos correntes. 21(1): 241-282. Identifica duas formas de hegemonia.136 Há evidências consideráveis de que a masculinidade hegemônica não é uma forma autorreprodutora.: no original “sissiness”. T. 2000. sugere que outra forma de simplificação tenha ocorrido. MESSERSCHMIDT O padrão das relações de gênero 131 HAWKESWORTH. 1990. e a “hegemonia interna” se refere à ascendência social de um grupo de homens sobre todos os outros homens. 137 138 260 Nas teorias sociais do gênero. 138 chegando aos constrangimentos de meninos nas escolas por “bichices”. janeiro-abril/2013 . Há uma série detalhada de trabalhos que mostram as táticas de manutenção da dominação através da exclusão das mulheres. 139 KIMMEL e MAHLER. Florianópolis. CONNELL E JAMES W. 133 134 e HOOPER. A “dominação masculina” é aberta à contestação e requer um esforço considerável na sua manutenção. 2003. essa não é apenas uma ideia teórica. N. KNIGHTS COLLINSON. Para se sustentar um dado padrão de hegemonia é necessário o policiamento de todos os homens. a historicidade do gênero é reconhecida. há comumente uma tendência em direção ao funcionalismo – que significa entender as relações de gênero como autônomas. a hegemonia interna foi entendida como uma forma tipicamente “elitista”. interna e externa. Apesar de se ter dado destaque a esse ponto em declarações iniciais sobre o conceito de masculinidade hegemônica. 2001. TOMSEN. assim como a exclusão ou o descrédito das mulheres. e MESSERSCHIMIDT. BIRD. COLLINSON. Para além. Ele. Knights e Collinson. 140 DEMETRIOU. Isso quer dizer que masculinidades subordinadas e marginalizadas são vistas como não tendo nenhum impacto na construção da masculinidade Estudos Feministas. 2002. seja através de habitus ou outros mecanismos. Hawkesworth131 detecta essa tendência na maioria das teorias modernas de gênero e a última intervenção de Bourdieu132 para explicar que a dominação masculina deu novo lugar à vida do funcionalismo na análise de gênero. desde as ameaças à segurança e à guerra. 136 MARTIN. não um sistema autorreprodutor. 2001. entretanto.

A conceitualização acerca do pragmatismo dialético de Demetriou144 sobre a “hegemonia interna” é útil e constrói uma argumentação convincente de que certas representações da masculinidade e práticas diárias de gênero de alguns homens heterossexuais têm apropriado aspectos das masculinidades gays. deixa escapar o “pragmatismo dialético” da hegemonia interna.142 Como um exemplo desse processo. então. 2001. 2001. Tal apropriação enfumaça a diferença de gênero. Um processo constante em que ocorrem negociação. O resultado dessa dialética não é um padrão unitário da masculinidade hegemônica. dos quais o hibridismo é a melhor estratégia possível para a hegemonia externa. janeiro-abril/2013 261 . 21(1): 241-282. Há. Práticas masculinas específicas talvez sejam claramente apropriadas dentro de outras masculinidades. DEMETRIOU. o bloco masculino hegemônico é uma hibridização cuja apropriação de elementos diversos o faz “capaz de se reconfigurar e adaptar às especificidades de novas conjecturas históricas”. mas nunca penetram ou impactam a masculinidade hegemônica. 143 144 DEMETRIOU. 2001. Demetriou141 argumenta. Masculinidades não hegemônicas existem em tensão com. 2001. 142 DEMETRIOU. criando um híbrido (como o estilo hip-hop. Will and Grace e Queer Eye for the Estudos Feministas.MASCULINIDADE HEGEMÔNICA: REPENSANDO O CONCEITO 141 DEMETRIOU. pelo menos para além de um sentido local. 2001. 145 DEMETRIOU. não importando o quanto pareça pragmaticamente útil na continuidade da dominação. mas um “bloco histórico” envolvendo uma rede de padrões múltiplos. 355. p. Florianópolis. Tal conceitualização. Isso fez com que se tornasse possível para muitos homens heterossexuais se apropriarem de “partes e pedaços” dos estilos e das práticas de homens gays e construírem uma nova configuração híbrida de prática de gênero. hegemônica. Ainda não estamos convencidos de que a hibridização que Demetriou145 descreve seja hegemônica. Essa conceitualização leva a uma visão diferente da transformação histórica nas masculinidades. pela qual a masculinidade hegemônica se apropria de outras masculinidades. mas não enfraquece o patriarcado. Mesmo que a masculinidade e a sexualidade gay estejam em um processo de crescente visibilidade nas sociedades ocidentais – testemunhado pela fascinação com personagens gays masculinos em programas de televisão como Six Feet Under. A masculinidade hegemônica não se adapta simplesmente às condições de transformação histórica. uma representação dualística das masculinidades. a linguagem adotada por alguns adolescentes brancos da classe trabalhadora e a composição única de um estilo de “clones” gays). tradução e reconfiguração. Demetriou143 discute o crescimento da visibilidade da masculinidade gay nas sociedades ocidentais. Em vez disso.

Não importando a diversidade empírica das masculinidades. classe. 2002. Ainda quando examinados de perto. O conceito de masculinidade hegemônica presume a subor- 262 Estudos Feministas. 147 MEUSER e BEHNKE. 148 MESSNER. Também é resultado de pesquisa bastante difundido o fato de que certas masculinidades são socialmente mais centrais ou mais associadas com autoridade e poder social do que outras. Devido ao fato de que toda etnografia descobre uma cultura de gênero distinta. há pouca razão em pensar que a hibridização se tornou hegemônica nos níveis regional ou global. muitos desses movimentos apresentam uma reivindicação de serem a maneira correta de como os homens devem pensar e viver. aquelas características que deveriam ser descartadas e. 1998. CONNELL E JAMES W. Há aqui um paradoxo. p. O que deve ser mantido A característica fundamental do conceito continua a ser a combinação da pluralidade das masculinidades e a hierarquia entre masculinidades. que é importante para o entendimento das políticas de gênero. gênero e geração. Indicaremos aquelas características do conceito original que se sustentaram diante da luz das pesquisas e das críticas. Voltaremos a essa questão. Revisão e reformulação Neste momento desenharemos esses tópicos conjuntamente para sugerirmos como o conceito de masculinidade hegemônica deve ser reformulado. Padrões múltiplos de masculinidade têm sido identificados em muitos estudos. que revelou uma gama de movimentos com agendas contrastantes. de que todo estudo de histórias de vida desvela trajetórias únicas de vidas de homens e de que toda análise estrutural define novas intersecções de raça. 21(1): 241-282. O ponto é fortemente sustentado pelo mapeamento de Messner148 das políticas de masculinidade nos Estados Unidos. janeiro-abril/2013 . 1997.ROBERT W. Essa ideia básica se manteve firme nos últimos 20 anos de experiência investigativa.147 Isso também é certamente verdadeiro para os reivindicadores da hegemonia. aquelas áreas em que o conceito necessita de uma reformulação contemporânea. é logicamente possível definir “mil e uma” variações da masculinidade. a contestação pela hegemonia implica que a hierarquia de gênero não possui nichos múltiplos no topo. detalhadamente. MESSERSCHMIDT 146 JEFFERSON. O conceito de um bloco hegemônico traz o foco para a questão de múltiplas masculinidades hegemônicas. Jefferson146 e outros têm criticado a tendência de se falar de apenas um padrão – “a masculinidade hegemônica é sempre usada no singular”. Florianópolis. em uma variedade de países e em diferentes contextos institucionais e culturais. 71. Straight Guy –.

janeiro-abril/2013 263 . e dos homens como portadores de masculinidades alternativas. A formulação em Gender and Power se esforçou em localizar todas as masculinidades (e todas as feminilidades) em termos de um padrão único de poder. a centralidade discursiva.MASCULINIDADE HEGEMÔNICA: REPENSANDO O CONCEITO dinação de masculinidades não hegemônicas. Duas características das formulações iniciais sobre a masculinidade hegemônica não se sustentaram perante as críticas e devem ser descartadas. agora é claramente inadequado para nosso entendimento das relações entre grupos de homens e formas de masculinidade. a institucionalização e a marginalização ou a deslegitimação de alternativas são características amplamente documentadas de masculinidades socialmente dominantes. e esse é um processo que agora tem sido documentado em muitos contextos. 1987. as situações nas quais as masculinidades foram elaboradas mudam ao longo do tempo. apesar do fato de a maioria dos homens e meninos não viver de acordo com eles. 183. Florianópolis. e das relações das mulheres com as Estudos Feministas. Em vez disso. Pesquisas confirmaram fortemente a ideia da construção histórica e da reconstrução das masculinidades hegemônicas. os contratos conjugais entre pessoas do mesmo sexo) e resultam em redefinições da masculinidade socialmente admirada (como o parceiro doméstico. As formulações originais depositaram alguma ênfase na possibilidade de transformação das relações de gênero e na ideia de que um padrão dominante de masculinidade estava aberto à contestação – da resistência das mulheres ao patriarcado.149 Na medida em que isso foi útil durante um tempo na prevenção da ideia de múltiplas masculinidades se confrontarem em um conjunto de estilos de vida em competição. 21(1): 241-282. Essas mudanças podem suscitar novas estratégias nas relações de poder (por exemplo. a “dominação global” dos homens sobre as mulheres. Também muito apoiada é a ideia de que a hierarquia das masculinidades é um padrão de hegemonia. em vez do patriarca vitoriano). a hegemonia trabalha em parte através da produção de exemplos de masculinidade (como as estrelas dos esportes profissionais). Também muito apoiada é a ideia original de que a masculinidade hegemônica não necessita ser o padrão comum na vida diária de meninos e homens. O que deve ser rejeitado 149 CONNELL. O consenso cultural. símbolos que têm autoridade. em nível internacional. não um padrão de uma hegemonia simples baseada na força. A primeira é um modelo muito simples das relações sociais em torno das masculinidades hegemônicas. Tanto no nível local como nos níveis societais mais amplos. p.

21(1): 241-282. a geografia das configurações de masculinidade. Nos subtópicos a seguir ofereceremos uma linha de pensamento e algumas sugestões de pesquisa sobre cada um desses eixos. 2001. mas também. janeiro-abril/2013 . pesquisas contemporâneas mostraram a complexidade das relações entre diferentes construções da masculinidade. que abriu caminho para o tratamento da masculinidade hegemônica como um tipo de caráter fixo. argumentamos que o conceito de masculinidade hegemônica precisa ser reformulado em quatro grandes áreas: a natureza das hierarquias de gênero. Claramente. a abordagem dos traços para compreender o gênero necessitam ser completamente transcendidos. já causou muitos problemas e foi altamente criticada nos escritos psicológicos recentes. A noção de masculinidade como um conjunto de traços. melhores formas de compreender as hierarquias de gênero são necessárias. O que deve ser reformulado À luz das pesquisas e das críticas discutidas anteriormente. Apesar da crítica do traço psicológico em Gender and Power e do apelo às ideias psicanalíticas sobre a motivação inconsciente. quando tentaram caracterizar o conteúdo de fato das diferentes configurações de masculinidade. a dominação nas relações de gênero envolvem uma interação entre custos e benefícios. o peso do social no processo de encorporação da masculinidade e a dinâmica das masculinidades. MESSERSCHMIDT masculinidades dominantes. em geral. desafios à masculinidade hegemônica emergem das “masculinidades de protesto” dos grupos étnicos marginalizados e mulheres burguesas podem se apropriar de aspectos da masculinidade hegemônica ao construírem carreiras profissionais ou corporativas. Por exemplo. A pesquisa recente em psicologia discursiva indica como diferentes construções da masculinidade no nível local podem servir como alternativas táticas. fracassaram em apresentar alternativas a ela. Relações estruturadas entre masculinidades existem em todos os contextos locais. 264 Comparadas com as formulações originais do conceito.ROBERT W. declarações iniciais sobre a masculinidade hegemônica. Não apenas o conceito essencialista de masculinidade. muitas vezes caíram numa terminologia classificatória de traços – ou na melhor das hipóteses. a motivação em direção a uma versão hegemônica específica varia de acordo com o contexto local e tais versões locais de masculinidade inevitavelmente diferem entre si. no entanto. A noção de Demetriou150 de pragmatismo dialético Estudos Feministas. Hierarquia de gênero 150 DEMETRIOU. Florianópolis. CONNELL E JAMES W.

MASCULINIDADE HEGEMÔNICA: REPENSANDO O CONCEITO POYNTING. Análises das relações entre masculinidades. Na prática. e os padrões de masculinidade são socialmente definidos em oposição a algum modelo (quer real ou imaginário) da feminilidade. captura a influência recíproca das masculinidades umas sobre as outras. Processos similares de incorporação e opressão podem ocorrer dentre meninas e mulheres que constroem masculinidades. A hegemonia pode se realizar pela incorporação de tais masculinidades em uma ordem de funcionamento do gênero. reconhecem a agência dos grupos subordinados e marginalizados – comumente condicionados por sua especificação local (como discutido abaixo). Pesquisas também documentaram a durabilidade ou a capacidade de sobrevivência de padrões de masculinidade não hegemônica. Florianópolis. os quais podem representar respostas bem trabalhadas à marginalização racial/étnica. 2003. focando-se apenas nas atividades dos homens que ocluem as práticas das mulheres na construção do gênero dentre homens. à tolerância e mesmo à celebração cultural e à representação política. por exemplo. algumas vezes entre homens etnicamente marginalizados que encorporam a reivindicação de poder típica de masculinidades hegemônicas regionais em países ocidentais. a posição contemporânea das masculinidades gays nos centros urbanos ocidentais. padrões de masculinidade hegemônica podem mudar ao incorporarem elementos de outras masculinidades. Isso é lastimável por mais de uma razão. mas carecem de recursos econômicos e autoridade institucional para sustentar os padrões regional e global dessa forma de masculinidade. à deficiência física. Isso quer dizer que. 21(1): 241-282. janeiro-abril/2013 265 . No desenvolvimento de pesquisas sobre homens e masculinidades. agora mais claramente. A “Masculinidade de protesto”151 pode ser entendida neste sentido: um padrão de masculinidade construído em contextos locais de classes trabalhadoras. Como é bem mostrado pelas pesquisas com histórias de vida. NOBLE e TABAR.152 O conceito de masculinidade hegemônica foi originalmente formulado em relação ao conceito de feminilidade hegemônica – prontamente renomeada de “feminilidade enfatizada” para reconhecer a posição assimétrica das masculinidades e das feminilidades em uma ordem patriarcal do gênero. as mulheres Estudos Feministas. em vez de uma opressão ativa na forma de descrédito ou violência. tanto a incorporação como a opressão podem ocorrer juntas. 151 152 MESSERSCHMIDT. Talvez mais importante. 2004. onde comunidades gays têm um espectro de experiências variando da violência homofóbica e difamação cultural. à desigualdade de classe ou à sexualidade estigmatizada. O gênero é sempre relacional. essa relação saiu de foco.

Sugerimos. 2001. a reduzir o isolamento dos estudos sobre homens e enfatizará a relevância das dinâmicas de gênero para os problemas – que variam dos efeitos da globalização à questão da violência e da promoção da paz – explorados em outros campos das ciências sociais. 266 Mudanças em construções locais específicas da masculinidade hegemônica têm sido tema de pesquisas nas duas últimas décadas. Ainda. 155 PEASE e PRINGLE. Nessa veia.155 em uma coletânea internacional recente. é questão ainda em debate. e isso continua a ser altamente relevante na cultura de massa contemporânea. 2005. janeiro-abril/2013 . as hierarquias de gênero também podem ser afetadas pelas novas configurações das identidades e das práticas das mulheres. tanto quanto o poder dos grupos dominantes e o condicionamento mútuo das dinâmicas de gênero e outras dinâmicas sociais. No mínimo devemos entender que construções regionais e locais da masculinidade hegemônica são conjuradas pela articulação desses sistemas de gênero com processos globais. 21(1): 241-282. tais processos ultrapassam dinâmicas de gênero mais locais e regionais. e Connell154 propõe o modelo da “masculinidade coorporativa transnacional” dentre executivos corporativistas conectados com agendas neoliberais de globalização. portanto. Florianópolis. como trabalhadoras na divisão sexual do trabalho. MESSERSCHMIDT são centrais em muitos dos processos de construção das masculinidades – como mães. CONNELL E JAMES W. Kimmel156 examinou recentemente como os efeitos de uma Estudos Feministas. reconhecendo a agência dos grupos subordinados. argumentam por um foco contínuo no entendimento regional e comparativo das masculinidades. namoradas. especialmente mulheres mais jovens – configurações que estão crescentemente sendo reconhecidas pelos homens jovens. Pensamos que isso tenderá. e assim por diante. Pease e Pringle. ou o quanto. ao longo do tempo. A geografia das masculinidades 153 HOOPER. 1998 e 2000. Hooper153 descreve o desenvolvimento da masculinidade hegemônica e de outras formas de masculinidades nas arenas das relações internacionais. que nossa compreensão da masculinidade hegemônica precisa incorporar um entendimento mais holístico da hierarquia de gênero. Mas a crescente atenção dada à globalização e à significância das arenas transnacionais para a construção da masculinidade também tem sido argumentada. O conceito de feminilidade enfatizada põe o foco sobre a complacência em relação ao patriarcado. 1998. colegas de classe. parceiras sexuais e esposas.ROBERT W. 154 CONNELL. Se. Consideramos que as pesquisas sobre masculinidade hegemônica agora precisam estar mais atentas às práticas das mulheres e à ação histórica recíproca entre feminilidades e masculinidades. 156 KIMMEL.

da mídia e do comércio transnacionais. consideremos o exemplo do esporte. Como uma ilustração dessa ação regional e local recíproca entre masculinidades hegemônicas. global: construídas nas arenas transnacionais das políticas mundiais. a masculinidade hegemônica regional dá forma a um sentido de realidade masculina em nível societal amplo e. Nas sociedades ocidentais. Instituições globais pressionam ordens de gênero regionais e locais. mas podem ser importantes nas políticas de gênero. Pesquisas sobre o ensino fundamental Estudos Feministas. Consideremos especificamente a relação entre masculinidades regionais e locais. regional: construídas no nível da cultura ou do estado-nação. como ocorre com as pesquisas discursivas. Uma masculinidade hegemônica regional fornece. então. organizações e comunidades imediatas. as práticas no nível local – como o engajamento em eventos esportivos – constroem modelos masculinos hegemônicos (“estrelas do esporte”) no nível regional.MASCULINIDADE HEGEMÔNICA: REPENSANDO O CONCEITO masculinidade hegemônica global estão incorporados na emergência de masculinidades “de protesto” regionais (supremacistas brancos nos Estados Unidos e na Suécia) e global (o Al Qaeda do Oriente Médio). uma estrutura cultural que pode ser materializada nas práticas e nas interações cotidianas. Ainda. conforme acontece comumente nas pesquisas etnográficas e de histórias de vida. portanto. e 3. As ligações entre esses níveis não apenas existem. 2. em uma gama de circunstâncias locais diferentes. Consideramos que essas questões são agora inevitáveis para os estudos de masculinidade e sugerimos a seguinte estrutura simples. local: construídas nas arenas da interação face a face das famílias. por atletas profissionais e por políticos. opera no domínio cultural como material à disposição para ser atualizado. 21(1): 241-282. Florianópolis. ao passo que ordens de gênero regionais fornecem materiais culturais adotados ou retrabalhados em arenas globais e também modelos de masculinidade que podem ser importantes para as dinâmicas de gênero locais. como aquelas construídas por atores de filmes de longa-metragem. políticas e demográficas. O conteúdo exato dessas práticas varia ao longo do tempo e nas diferentes sociedades. Masculinidades hegemônicas existentes empiricamente podem ser analisadas em três níveis: 1. em retorno. como ocorre com os estudos emergentes sobre masculinidades e globalização. janeiro-abril/2013 267 . o qual. afeta outras configurações locais. A masculinidade hegemônica no nível regional é simbolicamente representada através da ação recíproca de práticas masculinas locais específicas que têm significância regional. alterado e desafiado através da prática.

MESSERSCHMIDT 157 158 MESSNER. mas isso poderia levar ao erro. É tentador assumir uma hierarquia simples de poder e autoridade. 2005. 162 268 e médio fornecem um exemplo paradigmático. e fica claro que processos como a reestruturação econômica. Até o momento as evidências sobre dinâmicas globais de gênero estão crescendo. com capacidade de prevalecer sobre masculinidades regionais ou locais. CONNELL E JAMES W. Nas discussões sobre globalização. competição implacável e em dar tudo pela escola. indicando que a participação bem-sucedida no esporte é comumente uma prática masculina hegemônica em um contexto local particular. 2000. levantado anteriormente. e MORRELL e SWART. 2005. CONNELL e WOOD.160 As limitadas pesquisas que até agora foram feitas sobre masculinidades em arenas globais161 não sugerem uma formulação eficaz. Adotando uma estrutura analítica que distingue as masculinidades nos níveis local. ao passo que a resistência e a capacidade daquilo que estamos chamando de “regional” não são reconhecidas. as masculinidades hegemônicas são. a migração de longa distância e a turbulência das agendas de “desenvolvimento” têm o poder de remodelar padrões locais de masculinidade e feminilidade. em graus significantes. 159 160 MITTELMAN. Além disso. janeiro-abril/2013 . agressão.162 Temos todas as razões para pensar que as interações envolvendo masculinidades globais irão se tornar cada vez mais importantes nas políticas de gênero e que essa é uma arena-chave para pesquisas futuras sobre hegemonia. na qual uma forma hegemônica específica foi conjurada através da prática de encorporação do rugby – um código que certamente não está confinado a essa escola – centrado em dominação. A ação recíproca entre dinâmicas de gênero societais mais amplas é parte da explanação. modelos regionais exemplares influenciam – apesar de não determinarem completamente – a construção das relações de gênero e as masculinidades hegemônicas no nível local.)159 Desse modo. como já argumentamos. (Comparem-se descobertas similares de Burgess. circulando do global ao regional e ao local. Light e Kirk158 examinaram uma escola de elite australiana. 2001. 2004. BURGESS. EDWARDS e SKINNER. eles geralmente se sobrepõem. 21(1): 241-282. Apesar de os modelos locais de masculinidade hegemônica poderem se diferenciar uns dos outros. 161 CONNELL. e HOOPER. LIGHT e KIRK.ROBERT W. Edwards e Skinner. 2002. 2003. Florianópolis. 2005. regional e global (e os mesmos pontos se aplicam às feminilidades). podemos reconhecer a importância do território sem cairmos em um mundo monádico de independência cultural e discursiva total. descobrindo que uma clara estrutura de masculinidades existia nessa escola. portanto. constituídas nas interações entre homens e mulheres. os aspectos Estudos Feministas. o poder determinante do “global” é muitas vezes superestimado. Essa perspectiva também projeta alguma luz no problema das múltiplas masculinidades hegemônicas.157 Por exemplo.

Consequentemente. nunca por múltiplos modelos. 21(1): 241-282. Logicamente isso resulta na promoção de estratégias de saúde que atuam nos estados de degeneração física – contestando a masculinidade hegemônica ou levando os homens para uma direção mais andrógina. com prestígio dado aos meninos com parcerias heterossexuais e o aprendizado sexual imaginado como exploração e conquista. Nesse sentido. habituais nas ciências sociais. Essa é uma forma-chave de ligação entre a masculinidade e a heterossexualidade na cultura ocidental. Florianópolis. no compromisso com práticas de risco como significantes para o estabelecimento da reputação masculina em um contexto grupal de pares. para usar um termo de Wittgenstein. Estudos Feministas. mais intimamente e mais intrinsecamente em processos sociais do que a teoria usualmente lhes permitiu. são agora amplamente consideradas inadequadas. é comumente representada por um modelo simbólico no nível regional. Os corpos estão envolvidos mais ativamente. Mesmo assim o padrão de encorporação envolvido na hegemonia ainda não foi teorizado de forma convincente. É importante que não apenas as masculinidades sejam entendidas como encorporadas. conforme vemos no esporte. em vez de uma identidade lógica. tais como comer carne e assumir riscos na estrada. mas também que sejam tratados os entrelaçamentos das encorporações com os contextos sociais. as habilidades corporais se tornam um indicador primeiro de masculinidade. a pluralidade local é compatível com a singularidade da masculinidade hegemônica nos níveis regional ou societal amplo. Os corpos participam na ação social ao delinearem os cursos da conduta social – o corpo como participante da geração de práticas sociais. por exemplo. as construções locais da masculinidade hegemônica têm certa “semelhança familiar”. As leituras sobre corpos como objeto de processos de construção social.MASCULINIDADE HEGEMÔNICA: REPENSANDO O CONCEITO comuns nas práticas de gênero das mulheres também produzem convergência. janeiro-abril/2013 269 . A importância da encorporação masculina para a identidade e para o comportamento emerge em muitos contextos. Encorporação social Que a masculinidade hegemônica está relacionada com formas particulares de representação e uso dos corpos dos homens já foi reconhecido desde as formulações iniciais do conceito. como. Mas as dificuldades dos processos degenerativos também são parcialmente baseadas na encorporação. Na juventude. dentre as variantes locais. A “semelhança familiar”. também se tornam ligadas às identidades masculinas. Práticas corporais.

21(1): 241-282. como uma demonstração da sua vulnerabilidade. e assim por diante – não cessando de envolver os corpos materiais. por exemplo. Um campo rico de pesquisa se abre aqui. relações econômicas. MESSERSCHMIDT 163 164 RUBIN. especialmente quando consideramos como as tecnologias de alto custo – sistemas computacionais. ou podem ser longos e complexos. 2003. a qual tratou os cruzamentos de gênero como uma subversão da ordem de gênero ou. 2000. 165 RUBIN. as práticas de lazer e a alimentação desses homens publicizam sua riqueza e estabelecem relações de distância e dominação sobre os corpos de outros homens. Estudos Feministas. fácil estar seguro sobre as implicações da prática trans para a hegemonia.ROBERT W. p. 167 270 A necessidade de um tratamento mais sofisticado dos processos de encorporação na masculinidade hegemônica é tornada visível a partir da questão das práticas trans que são difíceis de entender dentro de um modelo simples de construção social. comunicações seguras – amplificam os poderes físicos dos corpos de homens de elite. NAMASTE. 2004.164 consideramos que as masculinidades construídas durante as vidas de pessoas transexuais fêmea-para-macho não são inerentemente contra-hegemônicas. CONNELL E JAMES W. 166 CONNELL. Isso pode ser facilmente ilustrado ao pensarmos sobre os padrões de gênero na saúde. 2003. os circuitos de encorporação social constantemente envolvem as instituições nas quais seus privilégios permanecem. DONALDSON e POYNTING. Esses circuitos de encorporação social podem ser muito diretos ou simples. passando por instituições. no tratamento médico. precisamos compreender que os corpos são tanto objetos da prática social como agentes na prática social. Debates acalorados sobre o transexualismo emergiram quando alguns psiquiatras levantaram a questão da possibilidade mesma da mudança de gênero. “Homens feitos por si próprios” podem buscar a igualdade de gênero ou se oporem a ela. viagens aéreas globais. Florianópolis. Isso é dramaticamente visto no estudo pioneiro de Donaldson e Poynting167 sobre as vidas cotidianas de homens da classe dominante. 180.165 Para entender a encorporação e a hegemonia. portanto. O que a experiência transexual destaca é a forma como a modernidade trata o corpo como um “meio através do qual indivíduos interagem uns com os outros”. como os esportes característicos. 2002. na doença. símbolos culturais. como qualquer homem não transexual. Com Rubin163 e Namaste.166 Existem circuitos de práticas sociais ligando processos corporais e estruturas sociais – muitos desses circuitos se somam ao processo histórico no qual a sociedade é encorporada. Dentre grupos dominantes de homens. Não é. janeiro-abril/2013 . Esse estudo mostra. ao menos. Essa questão foi reformulada pela ascensão da teoria queer.

1992. a estrutura de um projeto. Florianópolis.MASCULINIDADE HEGEMÔNICA: REPENSANDO O CONCEITO A dinâmica das masculinidades 168 SCHWALBE. Masculinidades são configurações da prática que são construídas. a complexidade interna das masculinidades apenas gradualmente começa a se tornar uma questão de pesquisa. Apesar de há muito tempo reconhecida. As masculinidades hegemônicas tendem a envolver padrões específicos de divisão interna e conflito emocional. precisamente por sua associação com o poder generificado. e essa capacidade é a base de muitas Estudos Feministas.168 Sem tratar os homens privilegiados como objeto de pena. Tais práticas não podem ser lidas simplesmente como expressando uma masculinidade unitária. dada a divisão sexual do trabalho no cuidado das crianças. a potencial contradição interna. devemos reconhecer agora explicitamente a estratificação. Relações com os pais são mais comumente focos de tensão. a “cultura das longas horas” em profissões e gerenciamentos. reveladas e transformadas ao longo do tempo. Pesquisas com histórias de vida apontaram para uma outra dinâmica das masculinidades. janeiro-abril/2013 271 . As transformações ao longo do tempo. assim como os adultos. levando a oscilações da aceitação e rejeição da igualdade de gênero por esses homens. e a preocupação dos pais ricos no manejo de sua riqueza. A ambivalência em direção aos projetos de mudança por parte das mulheres é comumente outro foco de tensão. As crianças. A análise cuidadosa das histórias de vida podem detectar compromissos contraditórios e transições institucionais que refletem diferentes masculinidades hegemônicas e também sustentam sementes de transformação. Como indicado em uma discussão anterior sobre o sujeito na prática de gênero. dentre todas as práticas que constroem masculinidades. ou por resultados de cálculos incertos sobre os custos e os benefícios de diferentes estratégias de gênero. 21(1): 241-282. têm a capacidade de desconstruir binarismos de gênero e criticar a masculinidade hegemônica. e uma maior produção sobre infância e juventude enfatizam essa questão. Uma literatura menos abundante sobre masculinidade e envelhecimento. representar formações comprometidas por desejos contraditórios ou emoções. Qualquer estratégia de manutenção do poder é mais comumente envolvida na desumanização de outros grupos e num correspondente definhamento da empatia e do envolvimento emocional subjetivo. também podem ser intencionais. devemos reconhecer que a masculinidade hegemônica não necessariamente se traduz em uma experiência de vida satisfatória. Elas podem. na medida em que são certamente moldadas por contradições no seio das masculinidades. por exemplo.

Tal contestação ocorre continuamente. é aberto ao questionamento – ele. Colocada de outra maneira. tendendo a estabilizar o poder patriarcal ou reconstituí-lo em novas condições. todavia. A contestação é real. 2001. 1998.171 A história recente mostrou a dificuldade de se atingir essa prática. titulares da masculinidade hegemônica não são necessariamente “entorpecidos culturais”. e não apenas a reprodução da hierarquia. Estudos Feministas. como uma estratégia-chave para os esforços contemporâneos de reforma. MESSERSCHMIDT 169 MEUSER. através dos esforços do movimento de mulheres (nos níveis local. Relações de gênero são sempre arenas de tensão. de fato. CONNELL E JAMES W.169 gera contradições que podem levar a transformações adicionais. e assim por diante. será contestado. e a teoria de gênero não prevê qual prevalecerá – o processo é historicamente aberto. Uma hegemonia positiva permanece. regional e global). a conceitualização da masculinidade hegemônica deveria explicitamente reconhecer a possibilidade da democratização das relações de gênero e da abolição de desigualdades de poder. eles podem tentar ativamente modernizar as relações de gênero e remodelar as masculinidades como parte de contratos. é possível definir uma masculinidade hegemônica completamente “positiva” (no sentido de Collier). janeiro-abril/2013 . 2001. Nesse sentido. Um bom exemplo é o “novo gerenciamento público” em organizações do setor público. as quais rejeitam a burocracia do estilo antigo e acreditam em organizações “horizontais”. Florianópolis. 170 DEMETRIOU. em igualdade de oportunidades e em políticas de emprego familiares e amistosas. Um dado padrão de masculinidade é hegemônico enquanto fornece uma solução a essas tensões.ROBERT W. mas não em novas situações. Isso também. entre gerações em comunidades de imigrantes. O conceito de masculinidade hegemônica não se assenta em uma teoria da reprodução social. 21(1): 241-282. entre reivindicadores por atenção na indústria de entretenimento. 171 COLLIER. a hegemonia pode fracassar. entre modelos de masculinidade gerencial. como argumentou Meuser. Ao mesmo tempo. entre rivais por autoridade política. Um padrão de práticas (isto é. Mas mesmo a modernização das masculinidades talvez não resolva os problemas. Em consequência. Um movimento transicional nessa direção requer uma tentativa de estabelecer como hegemônica dentre os homens (“hegemonia interna” no sentido de Demetriou)170 uma versão da masculinidade aberta à igualdade com as mulheres. 272 intervenções educativas e programas de transformação. uma versão de masculinidade) que forneceu soluções em condições anteriores.

um estilo de análise ou uma figura característica em um argumento. Mas esses usos são feitos de uma maneira que entra em conflito com as análises da hegemonia nas relações de gênero e são. o qual tem sido apropriado em diferentes campos. Estudos Feministas. Mas isso significa que os novos usos também devem estar abertos à crítica. à questão da violência e às relações internacionais. tem uma relevância crescente no momento presente das políticas de gênero. portanto. Nos países ricos da metrópole global. Como uma formulação teórica encontra aplicação em outros contextos e por outras mãos. Não há nada de errado nesse processo como tal – é a forma comum através da qual o conhecimento em ciências sociais e humanidades se desenvolve. rejeitamos aqueles usos em que ficou implícito um tipo fixo de caráter ou um conjunto de traços tóxicos. 21(1): 241-282. variando da educação à psicoterapia. e são formulados em linguagens e estilos intelectuais específicos. janeiro-abril/2013 273 . incompatíveis (e não apenas uma variação) tanto com as declarações iniciais como com os principais desenvolvimentos do conceito. Algumas das suas ambiguidades despertaram uma reação crítica a vários usos que o conceito encontrou e às formas como foi flexibilizado em resposta a novos contextos. tais como a persistência da violência ou as consequências da dominação. o conceito deve se mutar – e deve fazê-lo em diferentes direções e em diferentes ambientes. Esses usos não são triviais – eles tentam nomear questões significantes sobre gênero. Desse modo. Isso certamente aconteceu com o conceito de masculinidade hegemônica.MASCULINIDADE HEGEMÔNICA: REPENSANDO O CONCEITO Conclusão Os conceitos nas ciências sociais emergem como respostas a problemas práticos e intelectuais específicos. pois talvez careçam da substância ou da justificação presente na formulação original. Um conceito específico pode se transformar em uma generalização para se falar de algo. o deslocamento do neoliberalismo (a agenda radical do mercado formulada nos anos 1970) para um neoconservadorismo (incluindo apelos populistas para religião. do tipo sugerido anteriormente. Esse é talvez um problema geral sobre a conceitualização nas ciências sociais e nas humanidades. ao mesmo tempo que acolhemos muitas das aplicações e das modificações do conceito de masculinidade hegemônica como contribuições à compreensão das dinâmicas de gênero. etnocentrismo e segurança) tornou a reação de gênero uma questão política e cultural muito importante. Florianópolis. Uma análise renovada das masculinidades hegemônicas. Mas eles também têm a capacidade de viajar e talvez recebam novos significados enquanto viajam.

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