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Laura de Mello e Souza O Sol ea Sombra A sombra, quando o sol esté no zenite, é muito pequenina. toda se vos mete debaixo dos pési mas quando 0 sol esté no oriente ou no ocaso, essa ‘mesma sombra se estende tao imensamente, que ‘mal cabe dentro dos horizontes, Assim mem mais ‘nem menososque pretendem ealcangam os gover- nosultramarinos. Lé onde o solesté no zénite, nao 36 se metem estas sombras debaixo dos pés dos principes, senao também dos de seus ministros. ‘Mas quando chegam aquelas Indias, onde nasce 0 sol, ou a estas, onde se poe, crescem tanto as mes- mas sontbras, que excedem muito a medida dos ‘mesmos reis de que so imagens, Padre Antonio Vieira Sumario Introdugao PARTE 1 — ENQUADRAMENTOS 1. Politica e administragao colonial: problemas e perspectivas 2. conjuntura critica no mundo luso-brasileiro de inicios do século xvi. : 3, Sao Paulo dos vicios e das virtudes. . 4, Nobreza de sangue e nobreza de costume: idéias sobre a sociedade de Minas Gerais no século xvitt....-. PARTE tt —INDIVIDUOS 5. Teoria e pritica do governo colonial: Dom Pedro de Almeida, conde de Assumar....... 6. 0s motivos escusos: Sebastido da Veiga Cabral. 7.Morrer em colonias: Rodrigo César de Meneses, entre o mar eo sertio. 8. A remuneragao dos servigos: Luts Diogo Lobo da Silva... n 7 78 109) 148 185 253 284 327 9. Os limites da dédiva: Dom Antonio de Noronha... 350 Introdugao 10. Um servidor e dois impé Dom José Tomés de Menes« 403 Anexo . 451 Consideragoes finais....... 497 Fontes e bibliografia citadas 463 Créditos das imagens ... 493 Indice onomastico. 495 Forjada por Vieira no final do século xvite presente naepigra- fe deste livea,a metéfora do sol e sua sombra ilustra bem o que era mandar ¢ governar no império portugues, sobretudo depois da Restauracao dos Braganga no trono (1640). certo que Vieira pen- sava em algo muito mais complexo, que transcendia o poder tem- poral e norteava todo 0 seu pensamento teoldgico. Contudo, na medida em que a irradiagao de luminosidade permanece igual mesmo que a sombra varie, torna-se possivel pensar no sol enquanto metafora do poder temporal dos reis, sendo o proprio jesuita quem, na seqtiéncia da alusio a figura solar, se refere & pra- tica administrativa do Império.' Assim, se em principio as diretr zes metropolitanas deviam ser seguidas,a distincia distendia-Ihes ‘as malhas, as situagoes especificas coloriam-nas com tons locais. Nessaszonas de sombra, por outro lado, os interesses metropolita~ nossecombinavam aos regionaiseacabavam produzindoalterna- 1 Agradego, agqui,as ponderagoes preciosasde Carlos Zeron, Sérgio Alcides Ama- raleAdone Agnolin. tiva peculiares, que, como viu Edmund Burke para um império bem diferente— 0 britanico do século xvitl—, os mares se encres- pavam e passavam-se meses entre a ordem ¢ a execugao. Elites locais e admini: radores enviados pelo rei buscaram agdes co- muns com freqiiéncia maior do que se imaginou ha cerca de cin- giientaanos,¢ fizeram-no de forma ambivalente:o enriquecimen- to desenfreado, os interesses escusos, 0 contrabando, as varias arbitrariedades ¢ injusticas combinaram-se nao raro com a busca desolugdes eficazes para crises econdmicas e fiscais,a melhoria das condigoes de vida, 0 sonho de uma formagao politica capaz de atender aosinteresses do Reino e aos das conquistas.O ideal de um império luso-brasileiro deve também ser visto nessa chave: a ten- tativa de combinar as virias zonas de sombra e repensar 0 centro solar de irradiagdo do poder, pois acreditava-se, como Giovanni Botero no final do século xvi, que os Estados constituidos por par- tes nao eram mais desunidos que os dotados de territérios canti- huos: em perspectiva oposta a de Burke — espectador hortoriza- do de revolugdes —,0 mar podia ser poderoso elemento de uniao, Aprendemos com a histéria que essa empreitada era impos- sivel pors crem irredutiveis os interesses em jogo, irreconciliaveisa metrdpole e suas colénias,e porque idéias e disposigdes mudavam de significado quando atravessavam os oceanos, conforme ensi- nou Fernando Novais num dos clissicos da storiografia brasilei ra, Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial.’ Mas s6 0 tempo ea possibilidade da interpretagao sao capazes de fornecer cota ver teat pata os hhomens que viveram naquela €poca, 0s jogos ainda nao estavam feitos, ou pelo menos nao se sabia que estavam. alvez nenhumaanilise historiografica tenha captado as contradi- {s0e5, 0s impasses € 05 limites da Iustragao nas coldnias america- 2, Fernando A. Novais, Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial, Sio lo, Huc nas como o fez a ficeao de Alejo Carpentier: contradic&es que tor- navam Madri triste, feia e apagada para um senhor mexicano cres- cido entre“alarguezae oadorno” dasruas de sua cidade natal, pro- digas em fachadas cobertas de azulejos, querubins e“cornucépias que extraiam frutas da pedra”; impasses ¢ limites expressos na figura de Henri Christophe, ex-escravo feito tirano no Haiti; na guilhotina implacdvel a desembarcar no Novo Mundo junto com a liberdade; nos “tltimos jacobinos” que, perseguidos na Franca, levantavam a cabega em territério americano para, em seguida, preservarem a escravidao,” Este livro é uma tentativa de entender aspectos da politica e administragao setecentistas do império portuguésatlantico a luzde algumas situagées especificas sem, contudo, perder de vista o enquadramento geral. Nao se preocupa com a questao mais técni- ca dos drgios que viabilizaram 0 mando portugues na América: 0 governo-geral, as provedorias, as ju am, por sinal,a ser estudados por jovens historiadores brasileiros, maisde trintaanos depois de publicado olivro inovador e hoje clis~ sico de Stuart Schwartz, Burocracia e sociedade no Brasil colonial.’ tas, 08 tribunals, que come- 3. Referéncias, respectivamente, a Concierto harraco e El reino de este mundo, 2 ed. Santiago do Chile, Andrés Bello, 1999; O século das luzes, So Paulo, Com- panhia das Letras, 2004. 4. Alguns exemplos: Maria cle Fatima Gouvea, “Poder politico eadministragao na formagao do complexo atlintico portugues (1645-1808)’,in Jodo Fragoso, Maria Fernanda Bicalho e Maria de Fatima Gouvea (orgs.), O Antigo Regime nostrépicos: ‘acdindmica imperial portuguesa (séeulos XVI-XVIIL), Rio de Janeito, Civilizacto Brasileira, 2001, pp. 285-315; Maria de Fatima Gouvea, "Poder, autoridade eo Senado da Cimara do Rio de Janeiro, a. 1780-1820", Tempo, vol. 7,13, Rio de Janeiro, jul. 2002, pp. 111-5; Maria de Fatima Gouvés, Gabriel Almeida Frazio e ‘Marilia Nogueira dos Santos,"Redes de poder e conhecimento na governagio do [Império portugues, 1688-1735", Topoi.n'8, Rio de Janeiro, 2004, pp. 96-137.Sobre «cidade ea cimara do Rio de Janeiro: Maria Fernanda Bicalho, A cidade eo impé- rio —0 Ria de Janeiro no século XVIII, Rio de Janeiro, Civilizagio Brasileira, 2003 Sobreas cimaras em geral,id.,"Ascimaras ultramarinas eo governo do Império”, Hd sem diivida muitoa fazer nesse campo, masos objetivos do pre- sente estudo sao outros: entender os significados do mando no império portugués, o modo como se constitufram estruturalmen- tee,ao mesmo tempo, foram se tecendo ao sabor de conjunturase de atuagdes individuais; situagdes e personagens que obedeciama normase determinagoes emanadas do centro do poder, mas que as recriavam na pritica cotidiana, tornando as vezes o ponto de che- ‘gada tao distinto do ponto de partida que, nao raro, ocultava-se ou mesmo se perdia a idéia e 0 sentido originais— se é que cabe falar de um sentido, por mais cara que me parega a idéia, conforme expressada por Caio Prado Jr. com relacao aos nexos colonizado- res lusos na América? Em que pese o interesse predominante que,ao longo de minha trajet6ria, dediquei a hist6ria cultural e social, a preocupa os aspectos politicos e administrativos do Império nao é nova para mim No final da década de 1970, dialética da mando metropoli com tano havia chamado minha atengao a ponto de merecer tratamen- to mais detido num dos capitulos de Desclassificados do ouro (1980). Ali, a agao dos governadores da capitania de Minas Gerais foi qualificada de“pratica do bater-e-soprar’,ea natureza do poder in Joao Fragoso, Maria Fernanda Bicalho e Maria de Fatima Gouvéa (orgs.), 0. Antigo Regime nos trépicos... Sobre a Provedoria Real da Fazenda numa regio: Mozart Vergetti de Menezes, Colonialism em aga —fiscalismo, economia e socie. dade na capitania da Paratba (1647-1755). Tese de Doutorado em Hist6ria Econd- nica, Us, S30 Paulo, 2005. Sobre priticas governativas: Francisco Carlos Cardoso Consentino, Governadores-gerais do Estado do Brasil (séculos XVEe XVII): oficio, rogimentos,governagao etrajetérias. Tese de Doutorado em Hist6ria, Urr,2005. Ver aincla: Nauk Maria de Jesus, Na tramta dos conflitos: a administragao na fronteira ‘este da América Portuguesa (1719-1778). Tese de Doutorado em Histéria, UF, 006. Niterdi, 9, Caio Prado Jr,*O sentido da colonizagao’,in id, Formagao do Brasil contempo- reo, 13 ed. Sto Paulo, Brasiliense, 1973, pp. 19-32. foi vista como eminentemente contradit6ria, tendendo ora a cen- tralizagao,oraa autonomia; pautando-se ora pela violencia, ora pela contemporizagao. Essa busca oscilante da justa medida foi constitu- tiva do proceso de construgao do poder nos Estados modernos por ser imprescindivel a preservagio e d perpetuagao do mando no mundo de entao: no meu entender, os absolutismos procuraram seguir uma pritica politica pendular, evitando identificarem-se com um grupo social especifico e combinando o rigor com certa dose de contemporizagao.* As dimensoes do império portugues, onde grandes distancias separavam as diferentes conquistas € 0 centro decis6rio do sistema — Lisboa —, imprimiram uma com- plexidade notavel ao poder exercido no seu Ambito, Até onde se podia apertar sem que a corda arrebentasse? Como temperar 0 rigor com a tolerancia, ou vice-versa, sem por em risco 0 funciona- mento do todo — o mando no Império e, em tltima instancia, 0 proprio Império? Os dez capitulos que constituem este livro foram eseritos a0 longo dos tiltimos dez anos, o reavivar do interesse pelo mando ¢ pela administragao do Império tendo sido atigado quando da edi- sao critica que organizei, entre 1993 e 1994, para o Discurso histé- rico epolitico sobrea sublevacao de 1720, pedido da Fundagaio Joao Pinheiro. Parte da correspondéncia do conde de Assumar referen- te aos anos entre 1717 ¢ 1720 ja havia sido estudada por mim em Desclassificados do ouro, mas 0 contato com outras cartas, suase de sua familia, bem como aleitura de outros documentos —o inven- lario de sua biblioteca, o discurse que proferiu av toi governo de Sao Paulo e Minas do Ouro (1717), a memoria que escreveu quando foi vice-rei da India —, permitiram-me ver a per- sonagem e a propria pritica administrativa sob viés novo. posse do 6. Discord, neste sentido, do belo classico de Perry Anders sista 1974], Madri, Siglo xx, 1979. on, Hl Estado absolu- 5 Assumar me ensinou que nao importava desqualificar os capitae: generais portugueses sem procurar entendera légica desuasagoes, nao cabia querer que tivessem feito diferente, identificando-se comos da terrae defendendo seus interesses em detrimento dos da metrépole, mesmo porque tal distingao era, na época, quase impossivel. Ao contrério, é surpreendente que virios administra- dores tivessem conseguido ir além de posigoes dominantes nos conselhos do Reino e enxergado a especificidade presente em nexos que eram, sobretudo, coloniais. A trajetéria ea inteligencia incomum de Assumar ensinaram-me, igualmente, que os admi- nistradores tinham defeitos mas também qualidades, e que com- promisso brasileiro de construir uma nagao jovem e espand-la do legado colonial impunha, ao mesmo tempo,a construgao de certa memiéria, as mais das vezes unilateral, assentada em abordagens ‘que davam conta de um tinico lado da moeda. Por ter convivido tanto tempo com essa personagem, acabei Ihe dando aqui atengio maior quea dedicada a outros governantes. Sob a inspiragao desse governador, passei a selecionar, desde 1994, problemas ¢ trajetérias referentes ao império portugues, tentandoir além darelacao Brasil-Portugal e, sempre que possivel, entender o sistema como um todo. A importancia crescente do centro-sul no contexto da América portuguesa acirrou rivalidades regionais, expressou-se em situagdes peculiares ¢ implicou a rea~ valiagao do controle portugués sobre as colénias, em particular atlinticas. Homens como Rodrigo César de Meneses ¢ Luis Diogo Lobo da Silva tem sua historia engastada tambem no continente africano, Outros, como Sebastiao da Veiga Cabral, Dom Antonio de Noronha ou José Tomas de Meneses, deslocaram-se apenas centre Portugal e a América, mas as peripécias por que passaram se tornam mais inteligiveis quando postas em contexto imperial. As fontes para oestudo da administragao podem ser magan- tissimas: decretos, cartas régias, consultas, promogdes militares 6 secas e burocraticas, listas intermindveis de nomes— nada que se compare comas divertidas Devassas Eclesidsticas ou 0s extraordi- narios processos da Inquisigao com que me ocupei durante boa parte de uma vida de pesquisa. O primeiro obstaculo, portanto, é contornar o tédio que invade a leitura dos documentos e se acos~ tumar a extrair leite de pedra. Mas ha também conjuntos docu- ‘mentais interessantes, constituidos pelos papéis reunidos com 0 objetivo de comprovar os servigos prestados e titeis ao estudo ‘mais vertical de alguns governos e experiéncias administrativas. ‘Trabalhar com a administragao implica ainda ultrapassar mais de um obstéculo ideolégico (cap. 1): 0 tema parece menor, cheira a conservadorismo, embaralha Reino ¢ conquistas, admi- nistradores eadministrados, antes justificando a agio dos avésafi- nados coms politicas metropolitanas, ou mudos ante sua iniqiti- dade, do que a dor da violéncia cometida contra os antepassados indioseescravos. E.no entanto,aanilise das tensOesentrea metro- pole eas colonias— ou conquistas — brasilicas sugere que a uni- dade politica destas foi idéia surgida antes na cabega dos integran- tesdoscentros decisériosdo poder em Lisboa quenadosinsurretos — muitos deles reindis — alevantados em Minas, Bahia ou Per- 1 (cap. 2). Preconceitos bem enraizados no passado colonial, como os que exaltam, mas com ‘maior freqiiéncia denigrem os paulistas —abomindveis predado- res de indios —, foram manipulados por administradores colo- nambuco no inicio do século xv niais e tiveram defensores ilustres como 0 jesuita Andreoni, autor de Cultura e opuléncia de Brusil por suas drogaseniinas—obra até hoje fundamental para a compreensio de nossa historia (caps. 2 € 3). Mais de um governador se arvorou em descendente de estirpes ilustres para intimidar mamelucos rebeldes,e quase todos ficaram, smos com a “nobreza” que, inspirada na da Europa e manipu- lando 0 costume, ia-se construindo nesta terra ao arrepio de qual- quer critério estratificador respeitivel para europeus: esse olhar ” horrorizado s6 captoua desordem eo absurdo da situagao, masao registré-la tornou possivel desvendar-lhe a extraordindria dina- mica e criatividade (cap. 4). Estudar administradores é igualmente espinhoso. E homens desempenharama tarefa ingrata de fazer valer a vor.do rei, prendendo negro fugido e propondo até que se hes cortasse 0 ten- dao de Aquiles para que sossegassem, matando eenforcando quem —preto, branco, indio ou mestigo—contestavaa ordeme propu- nha outra diversa. Mas alguns deles escreveram textos que ajudam_ a entender nao s6 a natureza do poder metropolitano como nossa propria tradicao politica, revelando que o governo na colénia extrapolava os limites do servico e propiciava reflexdes originais (cap.5).Outros, envolvidos em negocios ilicitos atéa raiz dos cabe- los, proporcionam com suas trajetérias pessoais exemplos concre- tos dos limites de tolerancia no Império, dos meandros do spoil system, do enraizamento, em nivel local, das redes clientelares que se teciam em Lisboa e, de quebra, ilustram com atos de bravura ex- trema ou de medo panico 0 contraditério da condi¢do humana (caps. 6 ¢ 7). Hi ainda os que, com suas vicissitudes, mostram co- moa nobreza eo prémio se construiam em grande parte na admi- nistragao das conquistas, mas que este servigo nao era, por si, con- digo soberana, Assim, 0 sistema da dadiva, da graca ou da mercé, que sem nomear desta forma Maquiavel ja reputava, no inicio do século xv1, comoatributo entre os principais do principe, essencial ’ manutengao do poder, € que seu contemporaneo Castiglione ia dever se pautar antes na magnanimidade do governante que no empenho do stidito, tinha limites e mistérios (caps. 8 € 9). Por fim, a histéria de um desses homens pode ser vista como sin- tese de aspiragées comuns a um império luso-brasileiro, gestadas na passagem do século xvi para o x1x: partindo-se da andllise de uum poema célebre, oferecido a personagem quando de seu nasci- into em Vila Rica — e quase sempre tomado como exemplo de 8 protonativismo—., procura-se,com este caso limite,captar ascon- tradigoesabertas pelas possibilidades da administragao portugue sa na América (cap. 10). As trajetérias pessoais nao tém interesse em si, mas pelos pro- blemas que colocam. As que aquise encontram nao tratam de vidas ilustres: com excegio da de Dom Pedro Miguel de Almeida Portu- gal, conde de Assumar, as demais dizem respeito a personagens quase secundarias. A escolha nao foi contudo fortuita, pois muitas vvezes 0 acess6rio tem mais forga explicativa que o fundamental, € penso sero queacontece com oestudo de Sebastiioda Veiga Cabral, Rodrigo César de Menezes, Luis Diogo Lobo da Silva, Dom Anto- nio de Noronha José Toms de Meneses. 0 que em grandesadmi- nistradores da envergadura de Antonio de Albuquerque Coelho de Carvalho ou Gomes Freire de Andrada talvez ficasse esmaccido ante o brilho das agdes notaveis, aparece, nos menores, com todo © relevo. Ao fim das contas, foi com eles, mais que com os outros, que se fea administracao do império portugues. Por fim, a andlise dos individuos sempre apresenta perigo, sobretudo quando estes fazem parte das elites. Primeiro, porque haasombraameagadorado culto do herdi ouda personalidade,da hist6ria velha que se explica pela vida das personagens. A forma ‘0s problemas nortearam que se buscou neste trabalho foi opost: a escolha das personagens, as trajetorias s6 fazendo sentido pelas ‘questoes— quase sempre estruturais —quesuscitavam:a reflexao politica sobre os limites do mando em conquistas ultramarinas;a teoria ea pritica da concessao de dons ou mercés;a promiscuida- de entre governo, poder e ganhos ilicitos; a tensao entre o ambito publico e o privado das carreiras imperiais. Assim sendo, nao importava que se tratasse de personagens secundérias, e, de certo modo, era até melhor que o fossem. Em segundo lugar, porque a reconstituicao dessas vidas parte quase sempre das gencalogias, infelizmente eivadas de equivocos, sem falar no carter muitas 19 exaltatério e encomidstico que as norteia. Ora, genealogias falham menos quando as personagens sio ilustres e a variedade de documentos por meio dos quais se pode acompanhar suas vidas ¢ confrontar informagées é considerdvel. Um obstéculo complementar consiste na existéncia de homonimos: persegui a identidade de Dom Antonio de Noronha ao longo de dezesseis pesquisa se emaranhando e se perdendo em pistas falsas, indo, por mais de uma ocasido, em erros graves, até chegar ao resultado que aquiseapresentae, espero, esteja proximo deser 0 definitivo. Como principio geral, tentei driblar tais limitagdes recorrendo ao maior ntimero possivel de referéncias documen- tais e bibliografic Enquadramentos ¢ trajetérias so 0 modo encontrado para pensar o Brasil na administragao do império portugues setecentis- ta, mas também para acertar contas com um legado intelectual especifico, que é nosso e que nos precedeu. Creio haver neste tra~ balho propostasanaliticas sugestivase talvez originais, entre elas o meu namoro, jé longo, com a antropologia: a preocupacao com estrutura e evento ajuda a sustentar a carpintaria dos capitulos, mas o que se faz mais presente, sobretudo na segunda parte, éuma etnografia da pratica governativa—naesteira da etnografia da prd~ tica mdgico-religiosa que, vinte anos atrés, busquei no capitulo final de O diabo ea Terra de Santa Cruz((1986). Ao lado de possi- veis originalidades,o nervo deste livro éa tentativa de dialogar cri- ticamente com uma tradi¢ao brasileira de pensamento, incorpo- rando-a sempre que possivel. relativizando-a quando necessiirio, sobretudo ante o avanco consideravel da pesquisa empirica e da reflexio nos tiltimos vinte anos. Se o mundo globalizado impoe 0 diilogo constante com a produgao internacional, hé tradigoes especificas que conferem identidade e devem ser preservadas, mesmo se sujeitas & revisio de muitas de suas “verdades”. Refiro- me a autores que pensaram 0 Brasil na sua condigao subalterna, latino-americana, como—paracitarapenasalguns—Caio Prado Jr., Sérgio Buarque de Holanda, Fernando Novais, Raymundo Faoro. Nao por acaso, varios dos capitulos deste livro que sedebru- ‘gam sobre trajetorias comportam, ao lado da etnografia, uma deti- da critica historiogréfica. ‘A representagao iconografica escolhida para esta capa mos- tra,em primeiro plano, os homens que exerciamn o nmanidy politiey ¢ gozavam de preeminéncia social na América portuguesa: vesti- dos, montados ou conduzidos a moda da Europa, como se estive sem em Lisboa, mas movimentando-se nas imediagSes de uma praia tropical, emoldurada por vegetagao muito diversa da encon- trada no Velho Continente. O poder politico nao prescindia do religioso, mantendo-se distinto mas sendo por ele enquadrado: & direita e a esquerda do cortejo, a igreja, o convento. Mais longe, junto a costa, quase imperceptiveis, figuras de homens nus, poss velmente indios,aqueles queo poder dos brancos metropolitanos, leigos ou religiosos, buscava dominar, Impondo-se ao todo, pon- tilhado por uma ou outra embarcagao de porte variavel, o mara perder de vista, o mar que, no horizonte, acabava se confundindo com 0 céu. Mar que era oceano, unindo Impérios — conforme as concepgdes do século xvI—, mas também os separando — como temia Burke, critico acerbo das revolugoes do século xvii. Distan- cias ocednicas distorciam praticas, tradigdes ¢ ordens: do mar ao ‘oceano, do préximo ao distante, da sombra ao sol, eis-nos de volta ametéfora de Vieira. Durante 0 longo periodo em que estive absorvida pelos meandros da politica e da administragao colonial, contei com o apoio de virias instituigdes e pessoas. Primeiramente, quero agra- decer a Fundagao de Amparo a Pesquisa do Estado de Sao Paulo— FAPESP—, que financiou as primeiras etapas da investigagao quan- do de meu mestrado, entre 1977 ¢ 1980, e continuou acreditando em meu trabalho ao longo dos tiltimos 25 anos; sem falar nos varios congressos ¢ seminarios de que participei com seu apoio, essa instituigao me concedeu em 1996 um auxilio que permitiu aprofundara pesquisa sobre administragao setecentista nos arq vos mineiros, e agora, em 2005, aprovou por quatro anos 0 auxilio a0 Projeto Tematico Dimensoes do Império Portugués— Estrururas ¢ Dindmicas, que coordeno junto a Catedra Jaime Cortesao da Fa- culdade de Filosofia, Letras e jéncias Humanas da Universidade de Sao Paulo. Agradeco igualmenteao cNeq, junto ao qual sou bol- sista de produtividade, e que tem apoiado minha pesquisa desde 1992, possibilitando a compra de bibliografia espe reproducao de documentos depositados em arquivos estrangei- ada ea 10s. Devo ainda mencionar a cares, que, por meio de um convénio firmado entrea Faculdade de Filosofia, Letrase Ciéncias Humanas de minha Universidade e 0 1¢s-Universidade de Lisboa, permitiu, em fevereiro de 2005,a finalizagao desta pesquisa emarquivos por- tugueses. Sou grata aos meus companheiros de Projeto Temitico, os principais interlocutores com quem, nos tiltimos dois anos, parti- Ihei muitas das inquietagoes aqui expressas: José Jobson de Andrade Arruda, Vera Liicia Amaral Ferlini, Leila Mezan Algranti, Pedro Luis Puntoni, Carlos Alberto de Moura Ribeiro Zeron, Adone Agnolin, Ana Paula Torres Megiani, Iris Kantor, Marina de Mello e Souza, Maria Cristina Cortez Wissenbach e os p6s-douto- randos Ana Lucia Nemi e Bruno Feitler. Maria Fernanda Bicalho, com quem escrevi um livrinho que também trata de politica e administragao, leu e comentou alguns destes textos, bem como Katia de Queirés Mattoso, Maria VerOnica Campos, Sérgio Al- cides Amaral, Luis Carlos Villaltae Luciano Raposo de Almeida guciredo, trazendo acréscimos ¢ criticas que procurei incorporar. A leitura final de Lili Schwarcz, amiga e editora, ajudou a dar ao livro uma forma mais harmoniosa ¢, espero, acessivel. André Figueiredo Rodrigues me ajudou com a formatagao das fonteseda bibliografia. Por fim, alguns dos textos que compem este livro foram apresentados pela primeira vez em congressos, seminarios ¢ cur- sos dados no exterior, a convite de Maria Beatriz Nizza da Silva, Stuart B, Schwartz, Diogo Ramada Curto, Fernando Mascarenhas, Mafalda Soares da Cunha, Serge Gruzinski, Ivan Nichols e Nuno Gongalo Monteiro; a eles deixo aqui registrado o meu reconheci- mento. Sem Tiago Reis Miranda, interlocutor permanente duran- te todos estes anos, companheiro no interesse pelas coisas aparen- temente sem importancia ¢ eximio genealogista, muito do que iz respeito aos enhum aqui esté nao teria esta forma, sobretudo no que mistérios da identidade de Dom Antonio de Noronha: agradecimento pode expressar 0 quanto Ihe devo nem como admi- ro sua generosidade permanente e irrestrita. Com Leila Mezan Al- granti—junto com Silvia Hunold Lara, outra amiga delonga data — fizos primeiros avangos, décadas atras, no estudo da adminis- tragao, Pela vida afora, Leila ¢ eu continuamos a conversar sobre este assunto, bem como sobre tantos outros que nos unem desde — literalmente—os bancos escolares. Por isso, este livro é para ela Se tantos me ajudaram para que acertasse, sou obviamente a Xinica responsavel pelos enganos q encontrarem. qu Sao Paulo, margo de 2006. 23 PARTE I Enquadramentos Eu nao considero menos seguros e duréveis os dominios desunidos(...) do que os unidos. [.] Depois, embora muito distantes um do outro, os Estados nao sedevem de maneira nenhuma consi- derar desunidos, jé que {..]estio unides por meio do mar, pois nao hé Estado tao distante que nao possa ser socorrido pelas armas maritimas, € os catalaes, biscainhos e portugueses sao tao habeis na marinhagem que se podem dizer realmente donos da navegagao. Giovanni Botero, Da razao de Estado 1, Politica e administra¢ao colonial: problemas e perspectivas [a] e como este Governo todo é de engongos, por ‘ora se nao deve obrar cousa alguma que nao seja por jeito, principalmente aonde nao hé forgas, ¢ ainda que as houvesse, na conjuntura presente consegue mais 0 modo que a indistria, que assim mortem mostrado a experiencia. [..] Rodrigo César de Menezes, governador ¢ capi- tao-general de Sao Paulo, 1721-1728 TRADIGOES ANALITICAS BRASILEIRAS Durante muito tempo, o estudo da administragio portugue- segundo plano pouco honroso. Alguns trabalhos ja antigos, como os de Rodolfo Garcia, Vicente Tapajés e Augusto Tavares de Lira dedicaram-se exclusivamente ao assunto, sem contudo contribuir deforma mais incisiva para uma reflexao consistente sobre o problema. O mes- sano Brasil dos tempos coloniais foi relegado a u 27 mo se pode dizer acerca de um trabalho mais recente ¢ muito importante, Fiscais ¢ meirinhos, de Graga Salgado, obrigatério sobretudo pelo carater de obra de referéncia, mas destituido de maiores preocupagdes com o sentido, ou melhor, os sentidos da administragao.' A excecao que confirmaa regra seria o trabalho de Edmundo Zenha, O municipio no Brasil, em que o enfoque mais empirico acabou por render dividendos.’ A reflexao acerca dos sentidos e significados dos estudos sobre administragao remete a problemas muito interessantes, que trazema tonaadificuldade de separar uma produgao hi oriogra- fica do tempo no qual ocorreu. Isso pode parecer chavao ou lugar comum na era pés-Annales em que vivemos, ainda tributaria de muitos dos corolarios fixados por Bloch e Febvre no primeiro quartel do século passado, entre eles o de que“a historia é filha de seu tempo”, Olhando mais detidamente 0 objeto, contudo, fica claro 0 quanto tem sido contaminado por enfoques profunda- tensidade maior, talvez, do que 0 mente comprometidos, em temas considerados mais dignos ou nobres, com os quais, po! mesmo, hé maior cuidado em refinar argumentos. ‘Tome-se, como primeiro exemplo, o sentido da auséncia. Por que, durante tanto tempo, aadministragao nao suscitou trabalhos est Por interessantes, ao contririo do que aconteceu em outros pai que motivo alguns dos principais marcos no assunto sao fruto da 1. Rodolfo Garcia, Ensaio sobrea histiria politica eadministrativa do Brasil(1500- 1810), Rio de Jancio, jose Olympio, 1956; Vicente Tapajds (org,), Historia admi- nistrativa do Brasil, 2'ed.,Sa0 Paulo, DASP, 1965-1974, 7 vols: Augusto Tavares de Lira, Organizagao politica ¢ administrativa do Brasil (Colbnia, Império ¢ Re- pilblica),Sd0 Paulo, Editora Nacional, 19411; Graga Salgado (coord), Fiscaise mei- rinhos— a administragao no Brasit colonial, Rio de Janeiro, wstJNova Fronteira, 1985, 2, Edmundo Zenha, O municipio no Brasil, 1532-1700, Sto Paulo, Inst. Progresso Ealitorial, 1948, 28 investigagao de historiadores estrangeiros, todos pertencentes & tradigao anglo-saxnica: Charles R. Boxer, Stuart B, Schwartz, Dauril Alden, John Russell-Wood?® Talvez haja uma s6 resposta para essas indagagOes preliminares: a necessidade de uma jovem nagiio—a Independencia ¢ de 1822 masa Reptiblica, que rompeu de ver as ligagies com a dinastia portuguesa, é de 1889 —em ce afirmarantea metrépolede ontem, opressora, incompetentee ini- qua, responsabilizando-a por vicios e equivocos. O ressentimento Pés-colonial deixou livre o caminho para que historiadores estrangeiros tracassem suas hip6teses e preenchessem lacunas Sbvias, desimpedidos que estavam do peso deum passado que nao era seu econtra o qual nao precisavam acertar contas. Cabe lem- brar ainda que entre os anglo-saxdes existia uma forte tradigdo de estudos sobreimpérios, tanto o deles quanto os dos outros. Para os brasileiros, inclusive alguns de minha geracao,a administracao era temayem nobreza nenhuma, bem ao gosto de historiadores afeitos a tradigao e ao conservadorismo, numa senda em tudo oposta a ‘que levava ao estudo do sistema escravista ou da formagao da clas- se operiria, O luso-tropicalismo de Gilberto Freyre s6 fazia com- plicar ainda mais as coisas, prova evidente de que o campo estava minado.’ Estudar governadores, instituigdes locais — camaras 3.CharlesR. Boxer, Oimpério maritinnoportugués,Sio Paulo, Companhia das Letras, 20025 Portuguese society inthe tropics —the municipal councilsof Gon, Macuo, Bahia sand Luanda, 1510-1800, Madison, University of Wisconsin Press, 1965; Stuart B, Schwartz, Burocracia esociedade no Brasil colonial, Sto Paulo, Perspectiva, 1979; Dauril Alden, Royal Government in colonial Brazil — with special reference to the ‘administration ofthe Maryuisof Lavradio, vice-roy, 1769-1779, Berkeley/LosAngeles, University of California Press, 1968; A. J. R, Russell- Wood, Fidalgose flantropos. A Santa Casa de Misericdndia da Bahia (1550-1755), trad. Braslia,Una, 1981 4. Para uma interpretagao que limita 0 papel de Freyre na constituisao da teoria do luso-tropicalismo, ver Yves Leonard, “Immuable et changeant, lelusotropica- lisme au Portugal’, in Le Portugal et Atlantique — Arquivos do Centro Cultural Calouste Gulbenkian, vol. xii, Lisboa e Paris, 2001, pp. 107-17. 29 icipais, irmandades, misericérdias —ou gerais —conselhos, como o Ultramarine; t unais, como a Relago — era atividade para os empoeiradissimos Institutos Histéricos, e quase inevita- velmente redundava em obras apologéticas ou encomiisticas. Navversio mais igeira,o rango pés-colonial acabavaem discus \termindveis sobre a dor e o azar de ter feito parte do império portugues. No limite, lamentava-se o fracasso do empreendimento colonizador dos holandesesno Nordeste, pois, sebem-sucedidos,os batavos possivelmente teriam sido capazes de nos dotardeadminis- tragao mais competente; ou olhava-se com uma ponta de despeito para as coldnias hispanicas, melhor conduzidas por um Estado que, apesar de tao burocratico quanto 0 portugues, soubera lidar coma descentralizagao, atribuindo papéis is elites locais e nao temendo a criagao in locode instituigdes de varios tipos, como as universidades €05 tribunais regionais do Santo Oficio. Objeto negado, incapaz de merecer dos brasileiros estudos monogréficos,a administracdo foi contudo alvo dealgumas inter- pretacdes preocupadas com o desvendamento do seu significado mais fundo. Antes pela escassez.no campo do que pela forga pro- pria que eventualmente apresentassem, acabaram por se tornar pontos de referénc: epor se perpetuar, sem que com issoo melhor conhecimento do assunto ganhasse muito em qualidade — e eu mesma tenho minha parte nessa histéria. Intrigada, ha cerca de 25 anos, com 0 aspecto contraditério que ressaltava dos documentos sobrea administracao portuguesa na regidio de Minas Gerais durante 0 século xvii, comeceia pensar sobrea natureza do mando na colonia, Meu objeto era outro, apa- rentemente muito distinto: os homens livres pobres que, na nomia do ouro, viviam nos intersti jos do sistema escravista. A ambigitidade dos papéis por eles desempenhados imbricava-se na ambigilidade das préticas politicas e administrativas adotadas com relagao a eles, deixando claro que, naquela regiao nevralgica, 30 nao se podia apenas bater, havia também que soprar, e com fre~ quiéncia. Em coldnias, separadas dos centros decissrios do poder —as metrépoles — por meses de navegagao maritima e habitadas por grandes contingentes de escravos, o mando estava fadadoaser is caso vestisse apenasa mascara da dureza,o contemporizador, p edificio todo se esboroava, a perda do controle levando a da pré- pria coldnia. Administragao, portanto, s6 podia ser entendida a luz da politica: separar uma da outra condenava 0 observador & apreensao mecinica e funcionalista do fendmeno, impondo a perda do seu sentido dialético. Duas das principais interpretagdes que a historiografia brasi- leira havia claborado sobre a administragao até aquela época — final dos anos 1970 — coadunavam-se perfeitamente com 0 que surgia nos documentos, mas absolutizando ora um aspecto, ora outro,e perdendo dessa forma aambigitidade,a nuance eacontra~ dicao. Abordei o assunto no capitulo 3 de Desclassificados do ouro, chamado de“Nas redes do poder’, ¢ ali indiquei duas formas pos- siveis, mas igualmente extremadas, de se examinar 0 problema da administragao: aquela escolhida por Raymundo Faoro em Os donos do poder (1959 ¢ 1975), ¢ a adotada por Caio Prado Jr. em Formagio do Brasil contemporineo (1942). E preciso retomé-las para recolocar 0 argumento da presente reflexao. Raymundo Faoro é autor de uma interpretacao marcante sobre o Brasil, em que ressalta o papel central do Estado no proces- so de constituigao do pais e sua capacidade de moldar uma criatu- 1a estumenty burverdtico— que sempre reproduzisse a ordem dominante sem alterar-lhe a essencia. No primeiro volume de Os donos do poder, 0 autor recua aos tempos de formagao do Estado portugués e se detém nos primérdios da colonizagao da América, 5. Laura de Mello e Souza,"Nas redes do poder’ in id., Desclassificados do ouro— ‘a pobreza mineira no século XVIII Rio de Janciro, Graal, 1982, pp. 91 ss a retratada em capitulos muito importantes, mesmo se bastante dis- cutiveis.* O que ali escreveu sobre a administracao colonial tor- nou-se ponto de referéncia durante décadas, pois conseguia um certo equilibrio entre a demonstragao empirica e a andlise, ultra- passando tanto os trabalhos meramente descritivos — como os indicados na abertura desta reflexao — quanto os eminentemen- te analiticos e yeneralizantes — como o de Caio Prado Jr, que se examinarda seguir. Segundo a interpretagao de Faoro, o sistema administrativo portugués foi transposto com sucesso para suas coldnias gracas a um Estado que cedo se centralizou e soube, com maestria, cooptar as elites, inclusive as locais, como os “bandeirantes” paulii as. Nesse proceso, contudo, manietou os funcionarios, que se torna- ram meras sombras, e se superp6s a realidade local, alheio a pr6- pria dinamica hist6rica: Aordem publica portuguesa, imobilizada nosalvarés, regimentose ordenagdes, prestigiada pelos batalhdes, atravessa 0 oceano, incor~ rupta, carapaga imposta ao corpo sem que as medidas destea recla~ mem. 0 Estado sobrepos-se, estranho, alheio, distante a sociedade, amputando todos os membros que resistissem ao dominio. [..] Ao sul eao norte, os centros de autoridade sao sucursais obedientes de Lisboa: 0 Estado, imposto a colonia antes que ela tivesse povo, per- manece integro, reforgado pela espada ultramarina, quando a sociedace americana ousa romper a casca do ovo que a aprisiona, 6.Sobretudo os de niimero 4,5 € 6, respectivamente: “O Brasil até 0 governo, ‘geral’"A obra da centralizacao colonial” e “Tragos gerais da organizagio admi- nistrativa, social, econOmica e financeira da colonia’, in Raymundo Faoro, Os donos do poder —formacao do patronato politico brasileiro, *ed., Porto Alegte/ Sio Paulo, Globo/Edusp, 1975,pp.97-234, vo. 1. 7.Ibid.,pp. 164-5. 32 Faoro ressaltou o papel do Estado também porque desejava relativizar a poderosa interpretacao de Gilberto Freyre em Casa- grande & senzala (1933), segundo a qual a familia marcava a colo- nizagdo desde o inicio e orientava toda a formacao da sociedade.* Conseguiu desse modo fornecer uma alternativa analitica para a compreensio do Brasil e de suas elites, mas negligenciou 0 mat das situagdes especificas ou desviantes e, exagerando 0 papel do Estado, disseminouaidéia perigosa de que, independentementedo contexto, cle antecedeu a sociedade: “As vilas se criavam antes da Ppovoacio, a organizacao administrativa precedia ao afluxo das populagoes’,a realidade era gerada pelaleie pelo regulamentoeem forte contraste com 0 ocorrido nas coldnias inglesas ao norte, “a Améri¢ nos, nao um mundo acriar”” © papel da dinamica social edas con- seria um reino a moldar, na forma dos padroes ultramari- tradigdes viu-se, assim, minimizado: nao houve lugar, em sua and- lise, para as tensas ¢ complevas relagdes entre os administradores coloniais eas oligarquias, amitide documentadas nas fontescoevas. Faoro escreveu a primeira versao de Os donosdo poderduran- te 0 governo de Juscelino Kubitscheck, quando o Brasil regime democrético, mas publicou a segunda ve sob jo em 1975,em_ plena ditadura militar. Nao por acaso, o tamanho da obra dupli- ‘cou, buscando exemplificar de modo exaustivo a presenga secular de um Estado sufocador ede um estamento burocrdtico que se des- colava da sociedade para gerir 0 governo em beneficio préprio, alheio as necessidades nacionais. A matriz teérica mais reconheci- da é Max Weber, mas hé outras, menos evidentes. Em primeiro lugar, Faoro reeditou uma idéia expressa de Oliveira Viana, um dos grandes expoentes do pensamento conservador no Brasil dos anos 1930, para quem, numa passagem de Populagdes meridionais do 8.Cf.ibid., por exemplo, pp. 110¢ 114. 9.Ibid., pp. 120-1 B Brasil (1920), a administragao nao tinha sido, como na América inglesa, uma criacao consciente dosindividuos, nem haviaemana- do da prépria sociedade, mas seimpuseraa ela como “uma espécie de carapaga disforme”, Para Oliveira Viana, a administracao por- tuguesa que amordagou a colonia era em tudo dispar da socieda- de, entao rarefeita, dispersa e ganglionar."* Curiosamente, contu- do, Faoro descontextualizou € como que inverteu a explicagao de Viana, que havia também se dado conta do “conflito interessantis- simo” entre“ espfrito peninsular eo novo meio”, ou seja, entre“a velha tendéncia européia, de carter visivelmente centripeto, ea nova tendéncia americana, de carater visivelmente centrifugo”" De Oliveira Viana, portanto, Faoro pingou uma afirmacao que confirmasse sua tese da hipertrofia do Estado, e minimizou o des- taque dado pelo autor ao mando local, ruralizagao e ao papel dos grandes proprietérios locais, esvaziando a complexidade das rela- ‘s0es ali evidenciadas entre administracao, politica e sociedade. Procedimentos como este acabaram por gerar uma série de distor- (G0es fatais na obra de Faoro: se 0 autor apela para a onipresenga e tado, fornece, a © peso excessivo do la momento, evidéncias, empiricas que inviabilizam sua tese, indicando os processos de centrifugagao presentes na sociedade, Em artigo recente e muito sugestivo, Antonio Manuel Hespanha notou com acuidade essa distorgao. 10.Citado emibia.,p. 165.Cf. Oliveira Viana, “Populagoesmeridionaisdo Brasil”, iano Santiago (org.), Intérpretes do Brasil, Rio de Janeiro, Nova Aguilas, 2000, p. 1139, vol. 11, Oliveira Viana,"Populagoes...,p. 938. 12, Antonie Manuel Hespanha,"A constituigao do império portugues. Revisiode alguns enviesamentos correntes’, in Joao Fragoso, Maria Fernanda Bicalho ¢ Maria de Fatima Gouvéa (orgs.), O Antigo Regime nos trépicos:a dindmica impe- rial portuguesa (séculos XVI-XVIT), Rio de Janeiro, Civilizagao Brasileira, 2001, 1p. 163-88, notadamente p. 168. 4 Em segundo lugar, Faoro bebeu no pensamento liberal por- tugués do fim do século xix e inicio do século xx, representado por Oliveira Martins, Antero de Quental e, posteriormente, Antonio Sérgio." Nao foi o nico a sofrer tal influéncia, decisiva em boa parte do pensamento brasileiro da primeira metade do sculo Xx, alimento para as criticas ao atraso de Portugal e suas colénias ante outros povos colonizadores, a rotina ¢ ignorancia desuas elites, a0 Preconceito imperante contra 0 trabalho manual. O pessimismo inerente a essa visdo impediu, muitas vezes, perceber especificida- des prOprias a hist6ria de Portugal e de seu império, forsando os juizosnegativose fazendo prevalecera perspectiva liberal. Nao é de seestranhar, portanto, o anticlericalismo, a identificagaio mecani- caentre forga da Igreja e atraso e, no outro pélo,a valorizagao per- manente, nas comparagoes, da América inglesa ¢ da Inglaterra como metrépole ideal. Nesse ponto, Raymundo Faoro e Caio Prado Jr, mar rade formacio, aproximam-se bastante. Mas suas perspectivas acerca da administragao foram, em quase todo o resto, opostas. Mais de quinze anos antes, num dos capitulos de Formagao do Brasil con- tempordneo, de 1942, Prado Jr. qualificara a administragao portu- ‘guesa de castica, irracional, contradit6ria ¢ rotineira, ressaltando “acomplexidade dos 6rgios,a confusao de fungdese competéncia; aauséncia de método e clareza na confec¢ao das leis” e estranhan- doa“verborragia abundante em que nao faltam as vezes até disser- tages literdrias”. Os érgaos centrais pareciam-Ihe excessivamente burocraticos, o funcionalismo era “imiitil e numeroso”, meramen- te deliberativo, sem haver, por outro lado, agentes que bastassem. Para executar as decisoes. O centralismo excessivo nao tinha senti- 13, Ana Liicia Nemi chamou-mea atengio para o fato de que, influenciados pelo liberalismo, muitos doscomponentes dessa geracio foram sincerossocialistas no plano da politica, 35 do,jé que Lisboa, a“cabega pensante” da administracao, situava-se “a centenas de léguas que se percorrem em lentos barcos a vela”: [..] tudo isto [ monstruosa, emperrada ¢ ineficiente maquina burocratica que éa administragao colonial. E com toda aquela complexidade e variedade de orgios e fungdes, nao hi, pode-se dizer, nenhuma especializagao. ‘Todos eles abrangem sempre 0 conjunto dos negocios relativos a | nao poderia resultar noutra coisa sendo naquela determinado setor, confundindo assuntos os mais variados ¢ que as ‘mesmas pessoas ndo podiam por natureza exercer com eficiéncia." Prado Jr-alerta para aimpossibilidade dese pensaraadminis- tragio daquele tempo tomando-se por base a do nosso: os princi pios eram diversos, 0 publico nao se distinguia claramente do pri- vado, nao havia a unidade ¢ a simetria que hoje se observam, discriminando fungdes, definindo competéncias e atribuigses. Percebe, portanto, que ha uma diferenga essencial, mas a vé como cadtica, e nao como especifica: “um amontoado”, “um cipoal’”, um “caos imenso de leis”, uma “confusao inextricavel” que sempre atrapalhava e quase nunca esclarecia: Como resultado, as leis nao 36 ndo eram uniformemente aplicadas no tempo. no espago, como freqiientemente se desprezavam intei- ramente,havendo sempre, caso fosse necessario, um ou outro moti- vo justificado para a desobedién mosentreaquilo quelemosnos textos legai E dai, a relagao que encontra- co que cfetivamente se pratica é muitas vezes rem¢ e vaga, se nao redondamente contra- ditoria. Sendo assim, ecomo éesta pritica que mais nos interessa aqui, endo a teoria, temos que recorrer com a maior cautela aqueles textos 14. Caio Prado Jr., Formagao do Brasil contempordneo, 13% ed., Sao Paulo, Brasiliense, 1973, capitulo "Administraao”, pp. 298-340, citagdo a p. 333. 36 legais, e procurar de preferéncia outras fontes para fixarmos a vida administrativa da colénia.® Aposicao do autor é portanto muito peculiar. Reconhece que se estd diante de um sistema distinto, mas desconsidera que este tenha uma légica propria. A luz da perspectiva do Estado liberal, assentado sobre a teoria dos trés poderes, ressalta a irracionalida- de do mundo do Antigo Regime —“passado caético por nature- za” —,¢ nao leva em conta que, nele, o Estado portugués nao era excecdo, incorrendo, nesse tocante, em anacronismo. Mas cabe destacar outro ponto, muito positivo: a constatagao da irracionali- dade — que é discutivel —o leva a perceber o fosso entre a teoriae a pratica e, em ultima instancia, a mostrar que o texto normativo, sobretudo o de natureza juridica, nao pode ser tomado ao pédaletra. Aqui a situacao especifica conta, levando-o a valorizar nao sé a uti- lizagao de outras fontes, de tipo variado, como também — marxis- ‘ta que era—a dinamica social, capaz de transformaras teorias toda ‘vez que se mostrassem distantes da realidade. Como se procurara mostrar adiante, o alerta de Prado Jr, tem sido negligenciado. Por tiltimo, ha ainda um aspecto intrigante a invocar: a insis- téncia com que o autor recrimina o Estado portugués por ter sido incapaz de criar algo original na administragao da colonia,“srgaos diferentes eadaptadosa condigdes peculiares que nao se encontra- yam no Reino”."* Forcados pelas circunstancias especificas, gover- nadores “arbitrérios” puderam, eventualmente, alterar as disposi- ges metropolitanas, mas nunca de modo Ambito no qual o Estado portugués procurou sair da rotina foie do lemético. O unico 15. Ibid. pp. 300-1, citagio nesta tiltima, Nessa edigdo hai um erro: na passagem citada —“as leis nao s6 nao eram” — omite-se 0 segundo nao, alterando toda a sua argumentagao. Conferir id., Formacao do Brasil contempordneo— Colonia, Si Paulo, Livraria Martins Fditora, 1942, p.299. 16. Ibid. p.301. 7 fisco, conclui, com certo espanto, Caio Prado Jr. Porém, nema ree- digo dos parimetros administrativos metropolitanos em terras, colonii is, nem 0 empenho em repensar o fisco deveriam causar espécie ao autor de “Sentido da colonizagao’, o notivel capitulo inicial do mesmo livro. Afinal, a colonizacao portuguesa nao visa~ va, primordialmente, criar uma sociedade original na América, ‘mas explorar ao maximo a colonia — daf o empenho em aperfei- ‘soar o sistema fiscal — e, ao mesmo tempo, nela estabelecer “um outro Portugal’; como observou, no fim do século xvi, 0 padre jesufta Fernao Cardim.” Para fechara anilise desse primeiro momento, quando certos historiadores brasileiros comegavam a buscar um sentido na administracao portuguesa da colénia, é preciso invocar ainda Sér- gio Buarque de Holanda, que nao entrara em minhas cogitagoes iniciais quando da realizacao de Desclassificados do ouro. Antes de Caio Prado Jr.ou de Raymundo Faoro,cm 1933, cle havia tratado tangencialmente do problema em Raizes do Bras, iluminando-o, como sempre fazia, com uma interpretacao instigante, ¢ inserin- do-0 no escopo comparativo tao inovador que caracteriza o livro, no qual a América espanhola fornece a cada passo os elementos de aproximagao e de oposicio para a anslise da América portuguesa. Segundo Buarque de Holanda, da mesma forma como dir fundagao das cidades com “um zelo minucioso ¢ previdente”, Castela impés sobre a América, desde cedo, “a mao forte do Es- tado”, Contraste flagrante com o “empreendimento |...] timido € mal aparelhado para vencer” dos portuguese’, feitorizadores que 17. Ch. Fernando Novais, “Condigbes da privacidade na coldnia’, in Laura de Mello e Souza (org), Historia da vida privada no Brasil. Cotidiano e vida privada ‘na América portuguesa, a0 Paulo, Companhia das Letras, 1997, pp. 13-39, vol. Evaldo Cabral de Melo, Um imenso Portugal — historia ehistoriografia, Sao Paulo, Ed, 34,2002, notadamente o ensaio do mesme nome, pp. 24-34, 38 se fixavam na costa e relutavam em adentrar o territ6rio em inicia- tivas mais propriamente colonizadoras, semeando cidades sem planeja-las com o rigor dos quadriliteros espanh6is, Mais fluida e até mais liberal, colonizagao portuguesa deveu tal feigo centra- lizacao precoce do Estado, que na explicagao de Sérgio assume papel oposto ao desempenhado na de Faoro. Se a Espanha tinha uma “fiiria centralizadora, codificadora, uniformizadora” que se manifestava“no gosto dos regulamentos meticulosos’; projetando para o Império a monarquia do Escorial, isto se devia porque, internamente, o pais era formado de partes desconexas e aspirava ‘O amor exasperado & uniformidade e a simetria surge, pois, como um resultado da caréncia de verdadeira unidade’." A precoce centralizacao do Estado portugués teria decorréncias opostas, e a auséncia de pro- a.uma unidade quase sempre impossivel blemas sérios nesse campo permitiu que as “situagdes concretas e welhor € propiciassem 0 afloramento do jismo” tao portugueses. individuais” levassen a “realismo” e do “natur: Explica-se como, por outro lado, o natural conservantismo, o deixar estar —o “desleixo” — pudessem sobrepor-se tantas vezesentre eles [os portugueses) 4 ambigao de arquitetar o futuro, de sujeitar 0 pro- «esso histérico a leis rigidas, ditadas por motivos superiores as con- tingéncias humanas. Restava, sem dtivida, uma forga suficientemen- te poderosa e arraigada nos coragdes para imprimir coesito e sentido espiritual a simples ambigdo de riquezas.” Como ocorreria alguns anos depois na obra de Caio Prado Jr., a interpretagao de Sérgio Buarque de Holanda ¢ marcada pelo tom. 18, Sérgio Buarque de Holanda, Ratzes do Brasil,9"ed., Rio de Janeiro, José Olym- pio, 1976, p. 83. Para as citagoes anteriores, ver pp.62, 64 ¢ 82. 19. Ibid. p.83. 39 desconsolado ante os pendores administrativos dos portuguese rotineiros e faltos de imaginacdo. O exame desses trés autores mos- tra, portanto, que o melhor do ensaismo brasileiro nos anos 1930, 1940 0u 1950ajudoua firmar uma visio negativada admin istracdo, Portuguesa na América. A “explicacao do Brasil” nao se desprendia, nesses ensaios, do ressentimento ante a antiga metrépole, ¢ a ma Bestdo da ex-colonia alinhava-se com outros “pecados” ¢ doen sas, 9 escravismo sendo 0 maior deles. Como observou com agudeza Stuart Schwartz, Gilberto Preyre foi, na sua geragao, o tinico a ter uma visdo otimista do Brasil ede seus primérdios, boa partedas cri- ticas que recebeu decorrendo dessa perspectiva antes résea.” Por outro lado, sendo autores de ensaios explicativos, busca- tam 0 enquadramento geral e deixaram para segundo plano 0 exame dos fenémenos especificos, muitas vezes elucidativos. Faoro € um caso a parte, jd que invoca particularidades com maior freqiiéncia mas, ao fazé-lo, contradiz as explicagoes propostas. Apesar de datadas, entretanto,essasexplicagdes so pontos derefe réncia obrigat6rios e nao podem ser esquecidas: hé que colocé-las No seu tempo, entender suas implicagées ideolégicas , last but not least, considerar com mais cuidado as evidéncias empiricas ¢ as 20. Stuart Schwartz, “O pais do presente”, entrevista a Veja n° 1594, 21 de abril de 1999: “Gilberto Freyre foi um raro otimista deste século. Havia nos anos [19}30 tum pessimismo racial que dizia que a miscigenagao era uma coisa negativa. Gilberto Freyre dizia que nao, que a mistura era positiva. Repare que ele sempre foi um autor festejado mas nao fer discipulos. Viveu e morreu. modificagdes.a entrevista foi depois publicada convo artigy ily “Gilberto Freyre © a histéria colonial: uma visio otimista do Brasil’, in Joaquim Falcao e Rosa Maria Barbosa de Araijo (orgs.), © lmperador das idéias, Rio de Janeiro, Top books, 2001, pp. 101-20; Gilberto Freyre, Casa-grande & senzala, org. de Guillermo Giucci etal, Paris, lca xx, 2002, pp. 909-1, Para uma interpretagao matizada da obra de Freyre, especialmente Casa-grande & senzala, ver Ricanlo, Benzaquém de Aratijo, Guerra e paz. Casa-grande & senzala ¢a obra de Gilherto Freyrenos anos 30, 2+ ediga0, Sio Paulo, Ed. 34, 2005. 40 situagdes particulares, jd que, como observou E. P. Thompson em formulagao consagrada, a historia é a disciplina do contexto." UMA NOVA VOGA Do ImPERIO. Na Giltima década, intensificou-se no Brasil o Interesse pela histéria do império portugués e da administracao colonial. Talver {sso se devaem parte a expansao dos programas de p6s-geaduacao © prosaica necessidade de escolher temas de pesquisa, mas 0 motivo principal foi a percepgao de que o Atlantico sul,a partirdo século xvil, passou a constituir um sistema préprio dentro do império portugués. De modo mais ou menos incisivo, virios tra- balhos comegaram a veicular essa idéia, ¢ se O trato dos viventes (2000), de Luis Felipe Alencastro, alcancou justa notoriedade, _ abe destacar os de outros especialistas ha muito: empenhadosem mostrar a estreita conexio entre Africa ¢ Brasil: Alberto da Costa €Silva, Manolo Florentino, Marina de Mello e Souza.” Alencastro tem afirmado ser impossivel compreender o Brasil como expres- sao peculiar dentro do Império, impondo-se a comparacao com as outras partes, inclusive as do Oriente. Malgrado sua indiscu- 21. E. P. Thompson, “Liantropologia e la disciplina del contesto’, in id. Societ patricia, cultura plebea, Tarim, Einaudi, 1981, pp.251-74. 22. Alberto da Costa e Silva, Un Rio chamado Adantico—a Africa no Brasil eo Brasilra A rica Rio de Janeiro, Nova Fronteira,2003;id., Francisco Félix de Souza, ‘mercador de escravos, Rio de Janeiro, Eduer/Nova Fronteira, 2004; Manolo Flo- Fentino, Em costasnegras —uma hist6ria do trfico deescravosentrea Africac.o Rio de Janeiro (séeulos XVIII e XIX), S40 Paulo, Companhia das Letras, 1997; Marina de Mello eSouza, Reis negros no Brasilescravista— historia da festa de coroagao de Rei Congo, Belo Horizonte, UFMG, 2002, 23. Em recente entrevista, Alencastro lembrou que Macau foi fundada poucos anos depois deSio Paulo eafirmou: “nao dé para fazer historia do Brasilsem situd- lanavertente doAtlinticosul.E 0 Atlantico ul na0.és6 Angola, € a Costa da Mina, a tivel originalidade, Trato dos viventes inspira-se no clissico de Charles Boxer, Salvador de Sé.ea luta pelo Brasile Angola,e a reper cussao que alcangou serviu também para relembrar a importan- cia desse grande historiador britanico do império luso, recente- mente falecido. Boxer vinha sendo presenga cada vez mais freqiiente na bibliografia das teses sobre irmandades e camaras muntcipais, ea sua conhecida teoria da importancia dessas instituigoes como cimento do Império voltou a baila. Em sentido contratio ao de Prado Jr.,consideraraa reprodugao deinstituigoes metropolitans nas col6nias como elemento positivo e fecundo, capaz de assegu- raraexisténcia do império portugués por tempo tao longo: A Camara ea Misericérdia podem ser descritas, com algum exage- +0, como os pilares gémeos da sociedade colonial portuguesa do Maranhao até Macau. Elas garantiam uma continuidade que os governadores, 0s bispos ¢ 0s magistrados transitérios nao podiam identicos um estudo comparativo de seu desenvolvimento e destias fungdes mo: assegurar. Seus membros provinham de estratos sociai ou semelhantes e constitufam, até certo ponto, elites colonial tard como os portugueses reagiram as diferentes condigoes sociais, {que encontraram na Africa, na Asia ena América,cem que medida conseguiram transplantar essas instituigdes metropolitanas para ncios exsticos e adapti-las com éxito, Além de apelar para a necescidade da comparagao, conectan. do historias espacialmente distintas, Boxer nao se esquecia de uma também Buenos Aires ¢,no século xix, Mogambique, cujo trifico é puxado para Rio de Janeiro nessa época’:In“Um historiador na esquinado mundo’;entrevis- twa Revista de Historia da Biblioteca Nacional, ano |,n*4, outubro 2005, pp. 45-6. a das prinei escravismo, completava: ais peculiaridades daquele império, e, invocando 0 Desse modo, podemos também testar a validade de algumas gene- ralizagdes amplamente accitas, como, por exemplo, afirmagio de ilberto Freyre de que portugueses e brasileiros sempre tenderam. ‘na medida do possivel,a favorecer a ascensio social do negro." Infenso as dores do passado colonial, propria aos brasileiros, ou mé consciéncia de senhores de um Império, comum entre os Portugueses mais criticos — afinal, o seu Império era outro... —, Boxer enfatizava com naturalidade o que havia de comum e part Ihado entre ambos, ¢ em outro trecho conhecido lembrou que, conforme rezava um provérbio alentejano, “Quem nao esté na (Camara esté na Misericérdia |...] ¢ isso também valia para as duas institnigoes no ultramar’® Em Portugal, 0 estudo do império portugués colocava, da mesma forma, problemas complexos, eas geracdes recentes procu- raram fugir da histéria mais oficial e presa a celebragdes que, inde- Pendente da qualidade (muitas vezes boa), mostra-se em obras como a Histéria da colonizacao portuguesa no Brasil, organizada entre 1921 1924 por Carlos Malheiro Dias,ou nos varios trabalhos Publicados sob incentivo da Agéncia Geral do Ultramar nos anos de chumbo da ditadura salazarista.* Nesse sentido, os estudos de Vitorino Magalhaes Godinho cafram num certo vazio: de qualida- de indiscutivel, nao conseguiram entusiasmar as geracdes mais jovens, para quem estudar 0 Império significava compactuar com 24. Boxer, O império maritime portugues... p. 286. 25. Ibid.,p. 299, 26, Carlos Malheiro Dias, Hist6ria da colonizacao portuguesa do Brasil, Porto, Litografia Nacional, 1921, 1923, 1924,3 vols. 4B aypectos condendveis do Estado Novo.” Preenchendo uma lacuna consideravel, portanto, Francisco Bethencourt e Kirti Chaudhuri publicaram, em 1998, os cinco volumes da Historia da expansao portuguesa, para a qual, além de portugueses e de um brasileiro — Caio Cesar Boschi —, contribufram autores de na lades varias, entre cles um dos mais conhecidos discipulos de Boxer, A.J. R. Russell-Wood. Escapando, no titulo, da associagao ideologica- mente comprometida — afinal, Império teimava em invocar 0 Estado Novo” —, a Histéria da expansaio portuguesa procurava assim aliar duas tradicoes de estudos sobre impérios: a portuguesa ea britanica, representada ali por Kirti Chaudhuri. O que ressalta da obra como um todo éa preocupagao em buscar os nexos comuns do Império ¢, ao mesmo tempo, destacar as especificis No que diz respeito ao Brasil, ¢ dentro do assunto tratado aqui, cabe destacar dois capitulos:“Governantes eagentes”,de A.J. R. Russell-Wood, “América Portuguesa’, de autoria de Francisco Bethencourt.” Ambos indicam a necessidade de estudar as carrei- 27. Cr. Vitorino Magalhies Godinho,“Portugal,as frotas do agticar eas frotas do ‘ouro (1670-1770)"; Revista de Histdria, w 15, So Paulo, 1950, pp. 69-88; Pris et ‘monnaiesau Portugal(1750-1850),Patis, Armand Colin, 1955; Mitoe mercadoria, utopia epratica de navegar. Séculos XIIL-XVII, Lisboa, Difel, 190, obrea dimen: sao atlantica do império portugués, particularmente nas relagoes com o Brasil, ver Frédéric Mauro, Le Portugal etl”Atlantique au XVIF siele(1570-1670) ~ Etude économique, Paris, 1960, ¢, ainda, id, Etudes économiques sur expansion ports _gaise, 1500-1900, Paris, Centro Cultural Portugués da Fundagao Calouste Gul- benkian, 1970. Ao lado da de Boxer, a obra de Mauro também influenciou o tra balho de Luis Felipe de Alencastro, 28. Em comunicagao ainda inédita, Maria Fernanda Bicalho destacou essa asso- ciagao. Cf. “Historiografia e Império’, comunicagao feita no simpésio “O gover no dos povos’,Paraty, de setembro, 2005. 29. A.J.R. Russell-Wood, “Governantes e agentes"; Francisco Bethencourt, “A ‘América portuguesa’, in Francisco Bethencourt e Kirti Chaudhuri (orgs.), Histéria daexpansao portuguesa. O Brasil na balanca do Império (1697-1808), Lis- boa, Circulo de Leitores, 1999, respectivamente, pp. 169.92, 228-49, vol. I “4 rasde admit Império, e re daadministracao colonial, aliando, assim,a empiria eo enquadra- mento mais analitico. Quando reconhece, nas paginas iniciais, a “tirania da distancia” e 0 carter impreciso das dreas de jurisdicao, Russell-Wood deixa vislumbrar a presenga da matriz explicativa de Caio Prado Jr. Ao insistir, contudo, sobre 0 aspecto sistémico da descentralizagao administrativa ¢ as numerosas atribuigdes e res- ponsabilidades do “homem no local’; remete a outro paradigma explicativo, tributario dos estudos de Jack P. Greene, como se vera adiante, consideravelmente popular entre os estudos mais recen- tes sobre oassunto.”" Russell-Wood fornece importantes subsidios para se detectar um aspecto fundamental, ainda mais explicito no capitulo de Bethencourt: as l6gicas préprias do sistema administrativo do Império. Isso fica evidente quando mostra que a duragao dos governos era mais ou menos uniforme, ocorrendo certa flutuagao no cotejo entrea India e o Brasil; ou que havia “qualidades deseja- veis num vice-rei, capitao-geral ou governador’”, capazes de nor- tear a escolha para 0 cargo — tais como sangue nobre, pertenci- mentoa redes familiares, idade madura,experiéncia militar. Nao é esse aspecto sistémico, nem essa logica especifica, contudo, que mais mobilizam Russell-Wood, masa atuagao dos agentes locais e a sua capacidade de flexibilizarem o sistema. “Uma historia insti- tucional do império ultramarino portugués”, afirma, poderia dar a impressio de que ele era m ado e que “ex cadeias de comando e areas de jurisdicao bem definidas, deacordo com os regimentos e instrugdes entregues aos vice-reis, governa- radores para melhor entender o funcionamento do am um 6timo trabalho sistematizador dos niveis 10 central 30, Russell- Wood, "“Governantes..., pp. 169-72, sobretudo p. 171. Jack P. Greene, ‘Negotiated authorities. Essays incolonial, political and constitutional history,Char- lottesville, Londres, University Press of Virginia, 1994. 45 dorese capitaes”. O“estudo da dimensao humana, principalmen- te governadores e agentes”, aponta contudo para uma realidade distinta, que nega a “rigidez administrativa” e mostra como as situagdes especificas impunham a flexibilidade na “interpretagao das ordens ou decretos metropolitanos’. Sem explicité-lo desta maneira, Russell-Wood sugereaexisténcia de um eixo vertical que, de Macau a Minas Gerais, permitia aos colonos tornarem suas vozes audiveis junto ao centro decisério do poder (Lisboa), bem como de um cixo horizontal passivel, no plano local, deaproxima- Jos dos agentes e governantes.” Com base em seu capitulo, é possi- vel concluir que a eficacia e duracao do império portugués decor- reram da combinagao desses dois eixos. (O capitulo de Bethencourt preocupa-se de modo mais expli- cito com a andllise de um sistema administrativo, ¢ af reside sua maior contribuigao. Destacando, de inicio conflitualidade cons- tante das colonias portuguesas na América, passa a analisara orga- nizagao que permitiu enfrentar essa situagao,edesvenda suas logi- cas de modo mais sistematico que Russell-Wood. Analisando os comportamentos e decisdes metropolitanas ante as diferentes capitanias, mostra como aestrutura administrativa e organizacio- nal respondiaa conjunturas hist6ricas ea necessidades especificas, alterando-se quando necessirio. O exame dos cargos, por sua vez, indica haver os que eram patrimonializaveis e os que nao o eram. Aqui, cabe ressalvar que a questao 6 polémica: trabalhos mais recentes indicam a generalizagao da venda de cargos cm todo © Império, incluindo-se a América portuguesa.” 31, Russell-Wood,“Governantes.." p. 192. 52, Bethencourt, A América portuguesa’, p. 241 33.Ibid.p.247. Para posigOesdistintas, ver: Fernanda Olival,"Pagamentos de ser- vvigose formas de comunicagio entre o império portugués ea metrépole (século Xvi)’, exemplar datiloscrito, 2004; id., As ordens militares eo Estado moderno— 46 | Outro aspecto importante do capitulo de Bethencourt é0 cuidado em indicar no que a comparagao entre a América por- tuguesa ¢ a América espanhola pode trazer beneficios para a and- lise, retomando a tradigao, bastante esquecida, de Sérgio Buarque de Holanda. Isso acontece nao apenas na questao da venalidade, ‘mas também quando aborda o problema da amplitude de poder dos administradores. © Estado portugues mantinha um contato direto com os governadores das capitanias — os capitaes-generais — porque havia interesse em enfraquecer 0 governo central —os governadores-gerais ou vice-reis. Por outro lado, o cerimonial de nomeagao dos vice-reis portugueses revestia-se de maior formali- dade que o dos de Castela: “Dir-se-ia que 0 maior investimento simbélico na nomeagao dos vice-reis portugueses funcionava ‘como elemento de comparagao para competéncias mais reduzi- das, sobretudo no que diz respeito as relagdes hierérquicas”™ Por fim, Bethencourt mostra-se atento as diferengas entre 0 império portugues no Atlantico e no Oriente. Seria possivel pen- sar que “o padrao de longevidade dos vice-reis da América espa- nhola contaminoua pritica portuguesa de exercicio dosaltos car- g0s”, mas os motivos sao diversos. Na América portuguesa os governadores podiam ficar mais tempo, porque a distancia da metrépole era menor, sendo assim maior a possibilidade de con- ‘honra, merce e venalidade em Portugal (1641-1789), Lisboa, Estar, 2001, parte 1, cap.1, item 1,"O mercado de habitos~ 1. A Coroae o estatuto da venalidade em Portugal”, pp. 237-82. Ernst Pijning, Controlling contraband: mentality, economy ‘and society in Fighteenth-Century Rio de Janeiro, Tese de Doutorado apresentada Johns Hopkins University, Baltimore, Maryland, 16 de maio de 1997, pp.294-6, fem queo autor mostra que cargos como escrivao dealmoxarifee outrosligados administragao das alfndegas eram vendidos. Para um quadro sobrea yenalida- de na capitania do Rio de Janciro, ver Apéndice 2, pigina nio numerada. 34, Bethencourt,“A América portuguesa’, p. 241 a7 ¥ trole. Na India, ao contrario, o risco de se reforcarem as solidarie- dades horizontais era mais ameacador, fazendo com que foss necessario encurtar as estadias dos governantes.” A pouca atengao dada especificidade dos diferentes contex- tos imperiais —ou mesmo 0 descuido quanto aos contextosimpe- riais — € 0 calcanhar-de-aquiles dos estudos de Antonio Manuel Hespanha, hoye bastante intluentes entre os historiadores brasilei- 10s. Conhecendo muito bem as logicas internas da administragao portuguesa quinhentista e seiscentista, a obra de Hespanha tem sido decisiva no sentido de chamar atengao paraa importincia de se olhar o passado como “um pafs estrangeiro”, sem incorrer nos anacronismos que pontuam a obra de Caio Prado Jr. e em menor escala, a de Raymundo Faoro. O que hoje soa confusio de atribui- Ges ou superposicao de jurisdigoes é elemento constitutive & caracteristico do Estado europeu entre os séculos xv e xviti, do periodo que, de modo talvez impreciso, se convencionou chamar de Antigo Regime. Além disso, aquele era um mundo onde os “atos informais” importavam tanto ou mais do que os formais, ‘onde os “poderes senhoriais’,a“autonomia municipal’,“os 6rgaos periféricos da administragao real” eram decisivos.” 0 “complexo organico da administracao central” da época se caracterizava, 34, Bethencourt,“A América portuguesa’ 35. Ibid. p. 243, 36. £ preciso lembrar que Alexis de Tocqueville chamou de Antigo Regime a ‘ordem desaparecida com a Revolusao Francesa, ¢, pensando-a sobretudo com, ‘ace na histéria de seu pais, reeonheceu quc cra identificavel nas diversas vegives ‘européias. Grosso modo, referia-se ao sistema vigente no século Xvi europeu, Estudos mais recentes sobre o Estado moclerno sugerem contudo que ele teve ‘virias faces: renascentista, barroca, republicana. Seria pertinente considerar que formas politicasespecificassealternassem sob uma ordem mais geral que perma- necia a mesma —o aludido Antigo Regime? Voltarei questao logo a seguit. 37. Hespanha, As vésperasdo Leviathan. Institwicdese poder politic. Portugal, sécu- Jo XVI, Coimbra, Livraria Almedina, 1994, pp.33 ss. 241, 48 ‘assim, por um “paradigma de ago politico-administrativa’, que era jurisdicionalista; por um “modelo de organizagao”, que era 0 “governo polisinodal”; por um “estilo de processamento”, que era ‘0 processo burocratico.* No mundo ibérico, o paradigma jurisdi- cionalista teria limitado muito a agdo da Coroa, ¢ 0 esquema poli- sinodal fez. com que cada um defendesse veementemente a sua esfera de competéncia, gerando contlitos cotidianose contribuin- ea ineficécia da administra- do de modo decisivo “para a paral 40 central da Coroa’.” Se contribui significativamente para entender o Estado por- tugues e a administragao do Império em chave renovada, forne- cendo a matriz teérica das légicas de um outro tempo € aproxi- mando mais a politica da analise da administragao, 0 enfoque de Hespanha apresenta problemas a contornar. Como ja observou Nuno Gongalo Monteiro, sua anilise vale sobretudo para o século ‘xvtt,® deixando de funcionar no mundo complexo do século xvith, quando 0 equilibrio do Império e as politicas metropolitanas se alteraram profundamente — seja no meado do governo de Dom. Joao V, seja com 0 consulado pombalino." © aprego ao esquema polisinodal e a microfisica do poderlevam-no a enfraquecer exces- sivamente o papel do Estado ea criar armadilhas para si proprio, 238. Ibid. p.278, 39. Ibid, pp. 286, 288-9. 40, Nuno Gongalo F. Monteiro, ““Trajetériassociaise governo das conquistas: nots preliminaressobreosvice-reise governadoresgeraisdo Brasil eda India nosséculos deve xvii Frayne, Dicalhore Gouveia (orgs), O Antigo Regine nostrdpicon- 283. 41 Muita coisa mudou com Pombal, sobretudo nas col6nias,mashé quem diga, ‘om razao, que mudangas substantivas vieram antes, no meio do reinado joan no. Cf. Mafalda Soares da Cunha ¢ Nuno Gongalo F. Monteiro, "Governadorese capitdes-mores do império atlamtico portugués nos séculos xvite xvi in Nuno Gongalo F. Monteito, Pedro Cardim e Mafalda Soares da Cunha (orgs.), Optima Pars — elites ibero-americanas do Antigo Regime, Lisboa, sc, lmprensa de Cien- as Sociais, 2005, pp. 191-252. 49 Wes sobretudo no capitulo que escreveu para uma coletanea brasileira, O Antigo Regime nos trépicos, organizada por Joao Fragoso, Maria de Fatima Gouvéa e Maria Fernanda Bicalho. Ali, ha insights origi- nais, como a ja referida critica a Raymundo Faoro e a observagao de que“aimagem deum Império centralizado era tinica que fazia jusao genio colonizador da metrépole’, mostrando, maisuma vez, a permanente contaminagao ideolégica sofrida pelo tema da adi ha também certo descuido quanto a especificidade do império istragao, conforme destaquei no inicio deste capitulo. Mas Portugués na América, que o levaa generalizar com base em situa- ‘G0es proprias ao Oriente. Um exemplo: para fortalecer sua argu- mentagao de que os“nichos de poder” contam maisdo queo poder central, invoca, entre outros, o argumento da distanci 08 governadores ultramarinos estavam isolados da fonte de poder por viagens que chegavam a levar anos, tenda necessidade de resol- vver sem ter de esperara demorada resposta as suas demoradas per- guntas. Em que pese o argumento, as distancias entre 0 Centro e as diversas partes do Império tinham escalas distintas, ¢ nao podem ser consideradas em termos absolutos: nunca, no caso da América ou da Africa Ocidental, uma viagem levaria mais do que alguns meses, as viagens ao Oriente, por sua ver, podendo durar até um ano. Como se viu acima, Bethencourt analisou a distancia em chave totalmente diversa, diferenciando, em fungio dela, a dura- 40 dos governos no império Atlantico e no do Oriente. Outro problema, advindo tanto da importincia dada aos 42. Nuno Gongalo F. Monteiro, A constituigao do império portugues. Revisio de algunsem Fragoso, Bicalho e Gouveia (orgs.), Antigo Regime nos trépicos, pp. 163-88, quip. 175. samentos correntes’, 50 “nichos institucionais de onde o poder pode ser construido” como A excessiva fragilidade do poder central, é a desconsideragao de que, a0 fim e a0 cabo, tudo se fazia em nome do rei e de Portugal. Rodrigo Bentes Monteiro deixou claro qualerao processo decons- trugao da imagem real na auséncia do rei,aautoridade régia sendo “tespeitada como elemento mantenedor da ordem na América, mais amada do que temida” e, a0 mesmo tempo, capaz de preser- vara integridade territorial da América portuguesa." Hespanha tem certa razdo ao sustentar que o Império nao era“centrado, diri- gido e drenado unilateralmente pela metrépole”, mas nao conse- “gute, a meu ver, ir fundo na anilise das peculiaridades do poder num mundo distinto do nosso, caindo, por isso, na propria arma- dilha. Se, como ensinou, a anatomia do poder era, entao, distinta da de hoje, nem por isso havia “auséncia do Estado”, mas um Estado em que as racionalidades eram outras. © Estado esteve indiscutivelmente presente na colonizagave na adiministiayav das /possess6es ultramarinas: 0 que se deve perscrutar 6a expresso ea Iégica dessa presenga, pois podem, constantemente, nos iludir. Se aquela era, como afirma o autor, uma sociedadede Antigo Regime, sua propria esséncia, assentada na hierarquia € no privilégio, impediriam que fosse diferente. A anélise do mundo colonial em geral e da América portu- guesa em particular havia estado, até o capitulo que se acabou de mencionar, quase ausente das preocupagoes de Hespanha. Na introdugaoa As vésperasdo Leviathan (1994), 0 autordeixou claro que o objeto do livro era“o Portugal continental, o‘Reino” e que, _ conseqiientemente, “as dependéncias atlanticas e ultramarinas ficam fora do seu alcance”."" No volume que organizou sobre 0 43. Rodrigo Bentes Monteiro, O reine espetho—a monarquia portuguesa ea colo- izagao da América (1640-1720),S40 Paulo, Hucitec, 2002, p.329, 44. Hespanha, As vésperas do Leviathan... p.11. st século xvitt para a Hist6ria de Portugal dirigida por José Mattoso, © tinico capitulo que dedicou ao Império —“Os poderes num império ocednico” — € curtissimo, o que na época provocou certa estranheza devido ao fato de o Brasil ser, conforme expressao conhecida, a “vaca de leite” de Dom Joao v. De modo resumido, Hespanha reiterava ali a teoria da estrutura polisinodal, sugerin- do quea légica do império portugues se assentava na“modulari- dade das partes componentese sobre a economia dos custos poli- ticos da administragao dos territérios”. O ultimo perfodo do capitulo reforca o sentimento de que oimpério de suas cogitacoes, era sobretudo o oriental: Além do mais, esta economia da ocupagao te (comexcepgao do Brasil e, muito mais tarde, da Africa) explica ainda 0 relativo ualitarismo das relagdes raciais no Império oriental, pois, no Oriente, 0s contactos permanentes na terra tinham finalidades que teriam sido destruidas com uma estratégia de violencia.” Apesar disso, as andlises de Hespanha vem alcangando consi- deravel ressonancia entre a produgao académica brasileira recen- te, das teses e dissertagdes ainda inéditas a coletanea brasileira ja mencionada.“ Por outro lado, nao sao poucos os problemas que a aplicagao indiscriminada da anilise de Hespanha ao contexto bra- sileiro pode trazer. Primeiro, porqueacorrentea qual se filia— dosestudos da his- toriografia constitucional alema a discussio mais contemporanea, 45.1d.,"Os poderes mum império accdnico’ in id. (coord), Histria de Portugal (© Antigo Regime (1620-1807), obra soba direga de Forge Mattoo, Lisboa, ai torial Estampa, 1998, p.351-64,citagdoa p. 361, vow /#6.Apenasium exemplo: Maria Santana daSilva, Podere locais em Minas Gerais (WD setecentista —a representatividade do Senado da Camara Vila Rica (1760-1808), “Tese de Doutorado em Hist6ria, FHC-Unicamp, 2003. 52 voltada para a revisio daquilo que se convencionou chamar de Estado moderno—tem por objeto asmanifestagdeseminentemen- te européias do fendmeno. O que lhes interessa, muitas vezes na dependéncia de andlises juridicas tributarias dos escritos de Otto Brunner, é evidenciar a indistingao entre puiblico e privado propria ‘40 mundo do Antigo Regime, bem como as especificidades de uma ‘ordenagao social estamental e corporativa.” Natalia, ondea discus- ‘so sobre o Estado alcangou um de seus pices nos estudos de Fe- derico Chabod," o assunto continua na ordem do dia, girando em torno da perplexidade quanto 20 fato de os italianos terem organiza~ doo poder no“momento ideal e genético” dos Principados, semcon- "tudo “produzirem” formacoes monarquicas absolutistas.” Sem ser 47.A maior parte da obra do austriaco Otto Brunner se encontra em alemao.A “iaisimportante,talvez, data de 1939 ese acha traduzidaem italiano e inglés. Ver “Otto Brunner, Terra epotere, intr de P.Schiera, Mildo, 1983; Land ana lordship structures ofgovernancein medieval Austra, Philadelphia, University of Pennsyl- Yania Press, 1992. Sobre ainfluéncia do autor na historiografia politica do p6s- _guerra,Ant6nio Manuel espanhaavalia que foigrande,sobretudona Alemanha ‘ena Itlia,eacha paradoxal que tenha incidido menos sobrea historiografia con- servadora e mais sobre *historiadores criticos em relagio aos modelos politicos ‘stabelecidos, que se encontravam com Brunner na sua critica implicita ao para- digma democratico-representativo” Fespanha reconece tratar-se de um "estra- imho casamento,tipico da nova vaga de historiadores do poder e do direito dos Anos setenta [do século xx", cavalero de influén ede Brunner, “inspirados por uma visio politica muito conservadora”.Cf. Hespanha, #0 debate acerca do Estado moderno”, Working Papers, 1, Faculdade de Dire _t0,Universidade Nova de Lisboa, 1998, p. 5 48, Sobretudo “Fsiste un Estado del Renacimiento?", mas também toda a terceira “parte de Lscrtos sobre el Renacimieuto, denominada “Los origcnes del Estado ‘moderno’:Ci. Federico Chabod, Fscritossobreet Renacimienso,México,Fondode Cultura Economica, 1990, pp.523-93. 49.CE Pierangelo Schiera,“Legitimytd disciplina,istituzioni tre presuppost per la nascita dello Stato moderno”, in G. Chittolini, A. Molho e P.Schiera (orgs), Origini dello Stato, Processi di formazione statale in Italia fra Medioevo ed eta ‘moderna, Bolonha, Il Mulino, 1994. Giuseppe Petralia, “Stato e‘moderno” in alia e nel rinascimento’ Storica,n*8,1997,pp.7-48, 1s marxistase dos esc elemento determinante na questao, osimpasses sofridos pelo Estado nacional na Europa de hoje ajudam aentender a voga desses estudos, intensos sobretudo entre o inicio da década de 1970 ea de 1990, e que, nnasua verso mais radical e p6s-moderna, implodem a prépria pos- sibilidade de existéncia de um Estado absoluto, solapando 0 “para- digma estatalista” e enfatizando “os elementos nao absolutistas do absolutismo”.® Nessa vertente, sequer cabe 0 conceito mais genérico eum “Estado moderno’, “brilhante construgao historiografica for- jada pela necessidade de legitimagao de uma burguesia européia nem sempre revolucionsria e quase sempre nacionalista” A pecu- liaridade do cenrio italiano fornece, mais uma vez, munigao para © debate: L. Mannori opoe a idéia de um “Estado-arena” —em que se busca harmonizar a monarquia administrativa ea sociedade de corpos por meio da vigilancia continua sobre a conflitualidade dos sujeitos —a de“Estado-pessoa’, pautado na concepgao de absolu- tismo, Para ele, a nogio clissica de Estado moderno tende a se res- tringir:“Moderno é apenas 0 Estado dotado de vocagao para proje- tar; moderno ¢ apenas o Estado-administrador contemporaneo”: Nessa discussao, a existéncia de Estados com impérios coloniais, 50, Aurétio Musi, “Um assolutismo preriformatore?’in L'talia dei Viceré—inte- _grazione e resistenza nel sistema spagnuolo, 2 ed., Salerno, Avagliano, 2001, pp. 225-41, citagao a p. 234. Alguns exemplos dessa historiografia L. Blanco, “Note sulla pid recente storiografia in tema di ‘Stato moderno”, in Storia amministra- zione costituzione, Annale 1saP 2, 1994, pp. 259-97; C. J. Hernando Sanchez, “Repensar el poder. Estado, Corte y Monarquia Catolica en la historiografiaita- liana’yin Diezanosde historiografia modernista, Bellaterra, Universitat Autonoma, de Barcelona, 1997, pp. 103-39; Flena Fasano Guarini,"“Etat Moderne’ etanciens Gtatsitaliens: élémentsd Histoirecomparée’, Revued Histoire moderneetcontent- oraine, 1°45, 1998, pp. 15-41 pf 51-P- Fernandez Albaladejo, Fragmentos de Monarguia, Trabajos de Historia poli- ‘ica Madri, Alianza, 1992. 52, Comentirio de Aurélio Musi ao livrode Mannori, lsovrano tutore, Pluralismo istituzionale e accentramento.aniministrativo nel Principato dei Medici (sées. XVI XVII), Milao, 1994, Aurélio Musi,"Unassolutismo preriformatore?”,p. 236. 5a tem interesse marginal, e, quando ocorre, relativiza, mais uma vez, ‘0s elementos centralizadores; no entanto, cabe ponderar que os impérios contaram muito na estruturagao e no delineamento das peculiaridades daqueles que os possufram: pense-se no caso da Espana, onde aestrutura interna invertebrada valeu-se muito do apoio dado pelo império ultramarino.” Isso ajuda a entender por ‘que Hespanha havia centrado scu foco em Portugal, negligencian- do 0 fato de ter sido, por tanto tempo, metrépole de um vasto Ampério. A segunda ordem de problemas advém da supervalorizagao. dada por Hespanha aos textos juridicos. Estes so o seu principal ‘tnaterial de trabalho, “o maior legado”, junto com a teologia, “da civilizacao antiga, medieval e moderna da Europa ocidental’”, cole- tivos por natureza, observatério privilegiado, portanto, para se entender uma época." As relagdes entre direito e moral sustentam ~ algumas de suas idéias mais caracteristicas, e €a via pela qual recu- pera a analise classica de Marcel Mauss sobre 0 dom.” Imerso no mundo dos juristas e dos tedlogos, deixa-se magnetizar por eles € supervaloriza os limites impostos pelo direito ao poder dos reis, escorando-se, para tanto, na “historiografia a mais atual”.* Por 458. Cf-a anillise instigante de Perry Anderson, Elestado absolutista, Madri, Siglo Veintiuno Editores, 1979, pp. 85-80. prata americana proporcionoua Espanha rendas especificas e distintas das demais na Europa de entao. “Desta forma, 0 _ absolutismo espanhol pode continuar prescindindo por muito tempo da lenta tunificagao fiscal e administrativa que foi condigao prévia do absolutismo em ‘outros paises” (p. 66). Para as relagdes contraditérias complementares entre Espanha e Império num contexto histérico posterior, vero ensaio luminoso de José Ortega y Gasset, Espana invertebrada — bosquejo de algunos pensamientos historicos, 13° edigao, Madi, Austral, 2002. 54, Hespanha, As vésperas do Leviathan... obretudo pp.295 ss. 55. Marcel Mauss, “Essai surle don — forme et raison del’&change dans les socié- {tésarchaiques” (1929), inid., Sociologie etanthropologie,int-Claude Lévi-Strauss, ‘9 edigao, Paris, Pur, 2001, pp. 143-279. 56, Hespanha,“La economia de la gracia’in La gracia del Derecho: economia dela 55 mais importantes que tenham sido as andlises sobreas teorias con- tratualistas subjacentes a constituicao do poder politico na Epoca Moderna,” o mundo das colénias —e aqui, lembrem-se as ressal- vas feitas por Caio Prado Jr. — nao pode ser visto predominante- mente pela ética da norma, da teoria ou da lei, que muitas vezes permanecia letra morta e outras tantasse inviabilizava anteacom- plexidade e a dinamica das situagoes especificas. Alias, para uma das maiores expressdes do pensamento politico, sequer 0 mundo do Antigo Regime poderia ser visto sob tal ética: caracterizando-o por “uma regra rigida” e “uma pratica flcida’, Aléxis de Toc- queville ensinou: “Quem quisesse julgar o governo daquele tempo pelo conjunto de suas leis incorreria nos erros os mais ridiculos”* Em terceiro lugar, mas nem por isso menos importante, porque a América portuguesa se assentou na escravidao. Durante cem anos no minimo, de Joaquim Nabuco a Florestan Fernandes ¢ Fernando Novais, 0s historiadores e pensadores brasileiros chamaram atengao Para o fato de o Brasil ter tido uma sociedade escravista.” Leis, rela- cultura en la edad moderna, Madri, Centro de Estudios Constitucionales, 1993,p. 176, 57. Para Portugal, o trabalho decisivo, neste sentido, 60 de Luis Reis Torgal, ideo logia politica e teoria do Estado na Restauragio, Coimbra, Biblioteca Geral da Uni- versidade, 1981,2vols. 58. De Tocqueville, “Les mocurs administratives sous I"Ancien Régime’s in id., LAncien Regime et la Revolution, Paris, Flammarion, 1988; livro tI,cap. Vt, 160. Comentando esta passagem, diz Furet: “[Tocqueville] viu-se diante do dilema bem conhecido de todos os historiadores do Antigo Regime: no alto, minticia extraordindria na regulamentagio de tudo} em baixo, desobedi Frangois Furet, Penser la Révolution francaise, nova edigao revista e corrigida, aris, Gallimard, 1983,p. 186. 59, Joaquim Nabuco, O abolicionismo — discursos e conferéncias abolicionistas, Sao Paulo, Instituto Progresso Editorial, 1949; Florestan Fernandes,"A sociedade ‘ano Brasil, in id., Circuito fechado, Sao Paulo, 1976, Fernando Novais, Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial, Sto Paulo, Hucitec, 1979. 56 goes de produgao, hierarquia social, conflitualidade, exercicio do poder, tudo teve, no Brasil, que se medir com o escravismo. Admi- nistrar uma sociedade composta predominantemente por brancos nijo era a mesma coisa que fazé-lo quando o contingente escravo podia chegar — como chegava em algumas regides — a 50% da populacao. Mesmo que a lei vigente na primeira —a européia. a metropolitana ouambas— fosse igual a que se tinha paraa segunda. _ Portudoisto, parece-me que os pressupostos tedricos abraga- _dos por Antonio Manuel Hespanha funcionam bem no estudo do seiscentos portugués, mas deixam a desejar quando aplicados ao contexto do Império setecentista em geral, e das terras brasilicas ‘emespecifico. Olhar para os estudos sobre o Império espanhol tal- ‘ver possa, mais uma ver, trazer beneficios: se ali, até os Bourbon, vingou antes um sistema imperial que um Império,® a Restauragao firou Portugal da égide dos Austrias e impés desenho novo. Ao “mesiny tempo, a Europa pos-Westfilia tornava-se crescentemen- “te multipolar e atropelava, no percurso, © pequeno Portugal.' A 60, Para J. H. Elliott relativo sucesso do sistema imperial dos Habsburgo residi- “fiana conjugacao de um governo regional efetivo e de uma centralizacao elevada Améxima potencia. Cf. Imperial Spain, Londres, 1963. }4 Geoflrey Parker sugerit ‘enfatizarasrelagoes entreas diferentes politicas regionais dos Habsburgo.CF. The “army of Flanders and the Spanish Road — 1567-1659, The logistics of Spanish vic~ “tory and defeat in the Low Countries’ war, Cambridge, 1972. Sigo neste tocante as “observagdes de Musi, “L'talia nel sistema imperiale spagnuolo”, in L'Italia dei _Wlceré.. pp. 13,5. 61.0 conceito de Europa multipolar se opde ao da “balanca de podleres" ea das “Shegemonias’: Sustenta que se formaram, entao, 1@s polos: um mediterranico, ‘coma Franga no centro; um polo centro-europeu, cujo coracao éa Inglaterra, mas Jue presencia aemergencia do Brandemburgo/Prissia e,por fim, um péloque,no Norte, gravita em torno da Suécia e da Russia. Esse sistema constituide por varios polos de influéncia formou-se no bojo da crise do sisterma imperial espanhol que, “de Filipe 1! até 0 governo do Conde-Duque de Olivares, epresentou nao apenas Jum modelo de organizagao interna de uma formacao politica supra-estatal ¢ suypranacional, como também um centro em torno do qual gravitou todaa politi- 7 relativa autonomia das partes, efetiva no sistema espanhol, foi assim sendo substituida por controle maior: a culminancia do processo foi o Consulado pombalino. © PROBLEMA DO ANTIGO REGIME Nacoletanea organizada por Fragoso, Bicalho eGouveia—O Antigo Regime nos trépicos—,aatragao por trabalhos que, como 0 de Antonio Manuel Hespanha, minimizam 0 alcance do Estado soma-se a um relativo abandono da problemitica da escravidao enquanto elemento constitutivo da sociedade luso-americana no século xvi." © poder local, as redes clientelares, os arranjos infor- mais, os “bandos” — para citar expressao cara a Fragoso em varios de seus trabalhos —, a capacidade de negociagao direta com a Corte dissolvem amarragGes que, por muito tempo, se acreditou sustentarem a estrutura do mundo colonial — entre elas, escra~ vismo, ou seja, 0 sistema complexo que articulava as relagdes sociais naquela formagao histérica." Sendo também autor do livro, Hespanha é, nele, o campeao das referencias ali presentes: a bibliografia arrola vinte trabalhos diferentes de sua autoria. Sin- ‘ca internacional”: Musi,"L’evoluzione politico-costituzionale dell italia nell’ E- ropa multipolare’, in L'talia dei viceré...pp-207-23,citagaoa p. 211. (62. Em escrito posterior, Maria Fernanda Bicalho matizou sua posigto pessoal: “No entanto,o quea coldnia, no caso do Brasil, ou o império atlantico portugués possuiam de especifico —e que dotava jgualmente suas elites de uma singular dade em relagio as elites européias do Antigo Regime — era o fato de terem-se sgetado numa sociedade escravista, que se gerou por sua ver na dinamica do tri co negreiro”” “Elites coloniais: a nobreza da terra e © governo das conquistas Nuno G. F.Monteiro etal., Optima Pars... pp.73-97, citagao nesta tltima pagina, (63. Ch. Fernando Novais, Portugal e Brasil na crise do... op.cit., passim. 38 tomaticamente, outros historiadores que trataram do Brasil no império portugues em chave analitica mais estrutural, como Ken- neth Maxwell, nem sequer sao mencionades. [sso nao invalida, por certo, a qualidade das anélises ali presentes, que trazem questoes. muito interessantes e, sobretudo, exibem magnificas contribui- ‘ges empiricas. © cuidado coma pesquisa documental ea utiliza- _ glo de fundos arquivisticos até agora pouco freqiientados talvez. constitua, alids,o ponto alto do livro.O mesmo destaque nao pode ser dado ao aspecto mais conceitual, que contudo se apresenta ambicioso, os prépriosautores considerando olivro “fruto de uma _ perspectiva historiogréfica inovadora’™ Além de formulacoes "nem sempre claras 0 suficiente, como economia do bem comum e economia politica de privilégios* — contaminadas, talvez, por uma ‘6 Fragoso, Bicalho © Gouveia, “Introdusio" in i, (orgs.),O Antigo regime nos “ipicos...p. 21. mesma crensa no potencial inovador do grupo revela-se em *Umaleitura do Brasil colonial — bases da materialidadee da governabilidade do mpétio”, Penélope n* 23, Ocras, Celta Editors, 2000, p.67-88, que conclu &p. “83: "0 artigo procurouabordar alguns aspectos —econémicoseadministrativos Bie Yicasl-Coldniss a partic de um novo enfoque; qual sj apreende-lo [sic] “enquanto parte componente do Império ultramarino portugues, enfatizando as _ priticas politicas do Antigo Regime”, {65 Em outro escrito, Joo Fragoso explica mais detidamente o que entende por economia do bem comum:“Um outro lado da questao,éque tanto o Senado da “Camara ea Coroa (como cabecas da Republica) retiravam do mercado e da livre "concorréncia bens eservigos indispensiveis a0 pablico, passando ater sobre eles 9 exrcicio da gestao. Em outras palavras,entremeando einterferindo nas lavou- “as, comércio eartesanato dos moradores dos conselhos/stiditos doreiteriamos, sno Antigo Regime porsugues, um conjunto de bens e servigos que poderlam ser Jdentificados pelo nome de economia do bem comum, ou de economia da " Repablic’ Jo20 Fragoso,"A nobrezada Repablica:notassobrea formagto dapri- meira elite senhorial do Rio de Janeiro (séculos v1 e xvi), Topoin*1, Rio de Janeiro,7 Letras, 2000, pp.45-122,citaga0 a p.94.e.conforme6 trecho citado.a sociedade parece tender um jogo econdmico live ¢auto-regulado,o'Senadoco relimpunham omonopolio. Seria possvel tal situagio antes do liberalism eco- nomico? Cr. li E Hecksher, La epoca mercantilsta, México, Fondo de Cultura 59 imprecisdo do proprio Hespanha, a economia do dom, que desloca aanilise feita por Mauss com base sobretudo num mundo desmo- netarizado ea langa no universo do capitalismo nascente —, as diferensas entre metr6pole e colnia sao irrelevantes a ponto de justificarem a abordagem da América portuguesa como quase uma verso tropical do Antigo Regime europeu. Se nao, como explicar o titulo? Em que pese a importancia do estabelecimento de relagdes ¢ da comparagao na andlise dos fendmenos hist6ricos, a Histéria, como lembrou Thompson na passagem ja invocada, é a disciplina do contexto, a indistingao sendo, conseqientemente, uma de suas maiores ameagas. Nao me parece que a questao seja, como assina~ Iaram os autores de O Antigo Regime nos trépicos, romper “com uma visao dualista e contraditéria das relagdes metrépole-colé- nia’, mesmo porque a contradigao, enquanto principio, define-se como a antitese do dualismo. Em situacao colonial, ande as con- tradigdes séo particularmente exacerbadas, a convergéncia ou coincidéncia de praticas ¢ interesses € nao raro antes forma que contetido. E importante tentar compreender os pressupostos que nor- Econémica, 1943. Parao modo bastante livre com que Fragoso utiliza certoscon- ccitos, ver ainda “A nobreza vive em bandos: a economia politica das melhores familias da terra do Rio de Janeiro, éculo xvul.Algumas notasde pesquisa’ Tempo, 15, Rio de Janeiro, 7 Letras, 2003, pp. 11-35, em que, as pp. 33-5, refere-se a uma “ecomuniia plebéia” © uin “ay dear plebeu’,cabendo menclonar ainda a relativa facilidade com que associa nobreza.a riqueza ou poder, descuidando do sentido sociolégico do conceito e da diferenciagao entre nobrezae aristocracia, A mesma indistingao aparece em outro artigo,“Potentados coloniais ¢ circuitos imperiais; notas sobre uma nobreza da terra, supracapitanias, no Setecentos Monteiro et al., Optima Pars... pp. 133-68, a0 qual voltarei no capitulo 4 deste livro. Jé para a expressio economia politica de privilégios, ver Fragoso, Gouveia e Bicalho,"Uma leitura do Brasil colonial.” passim. 60 1m O Antigo Regime nos trépicos, porque eles tém se manifesta também em outras interpretagdes sobre politica ¢ administra- ¢,a meu ver, implicam alguns equivocos que cabe evitar ou, slo menos, discutir. Realimentados pela perspectiva analitica de .ntonio Manuel Hespanha, esses pressupostos retomam, alias, \déncia que jé vinha se esbogando entre nés,e conforme a qual papel do Estado eo antagonismo dos interesses de colonos ¢ rei- is apareciam diminuidos. Tomando como exemplo a historio- ifia sobre Minas Gerais, com a qual tenho maior familiaridade, se que, apés o peso consideravel dado ao controle da Coroa Jbre as irmandades religiosas — penso em Os leigos eo poder, de \io César Boschi —, ou ao destaque que eu mesma conferi aos yresentantes do poder enquanto agentes que intensificavam os ycessos desclassificadores, Jtinia Ferreira Furtado procurou des- ontar a sujeicdo do Distrito Diamantino ao poder real—em O da capa verde —e valorizar as redes de solidariedade que for- Jeciam a atuacao dos comerciantes e, de certa forma, os autono- \izava ante o controle estatal da economia —em Homens de neg6- cio.* Nos anos 1990, portanto, foi se delineando tendéncia oposta ‘A que dominara nos vinte anos anteriores,” e na qual 0 papel do Caio César Boschi, Os leigos 0 poder, Sao Paulo, Atica, 1986; Laura de Mello Souza, Desclassificados do ouro; nia Ferreira Furtado, O livr da Capa Verde —oregimento diamantinode 1771 ea vida no Distrito Diamantino ne periodo da Real Extragao, S40 Paulo, Annablume, 1996;id., Homensde negdcio—a interio- Fain du metrSpotec so comércio nas Minas stecentistan S50 Paulo, Hucitec, 1999. {67.No quedizrespeito aosestudos sobre escravidao, levanteiesse problema num ‘ensaio bibliografico, 0 eseravismo brasileiro nas redes do poder: comentario de ‘quatro trabalhos recentes sobre escravidao” (resenha dos livros de Leila Mezan ‘Algrant, feitor auzente; Caio Cesar Bochi, Os legos eo poder: Ronaldo Vainfas, Teologiaeescravidag Silvia Funoldt Lara, Camposda violéncia), Estudos Hist6r- ¢0s,vol.2,n*3, Riode Janeiro, 1989, pp. 133-46. 6 Estado foi, em certos aspectos, hipertrofiado: reacao, portanto, salutar e compreensivel."* Politizando a anélise no pélo das relagoes horizontais — 0 empenho dos bandosem controlar as Camaras ea governanga, ou ainda a desenvoltura com que atuavam junto aos agentes metro- politanos do poder, alinhavando interesses comuns ou comple- mentares —, essa perspectiva despolitizou-a— ou, melhor, confe- riu-lhe uma conotagao politica diferente— no tocante as relagoes verticais, distendendo as relagdes de dominagao que se verifica- vam de cima para baixo ¢ enfatizando a capacidade de habitantes da colénia comunicarem-se diretamente com a metrépole. Neste Ponto, tal perspectiva se inspira nao apenas no reequacionamento das anillises sobre o escravismo —que passam a valorizar os estra- tagemas dos escravos e sua capacidade de negociagao —como nos estudos desenvolvidos por Russell-Wood desde os anos 1980, vol- tados para as formas peculiares de comunicasao com a mctspole encontradas pelos colonos.” Ali, a influéncia de Russell-Wood neste volume — para o qual escreveu o Prefiicio— nota-se igual- 68, Além das obras j citadas nas notas acima, remeto a Nicholas Henshall, The ‘myth of absolutism — change & continuity in Early Modern European Monarchy, Londres ¢ Nova York, Longmans, 1992. De certa forma, também Frangois Furet, emseucélebre estudo,jé minimizava—ou, pelo menos, relativieava—,em 1978, ‘absolutismo enquanto concentracao suprema de poder ressaltando seu carter decompromisso, Penser la Revolution francaise... pp-14588 69.0 principal representante da tendéncia que discutea idéia da escravidao-cir- cere edo escravo-coisa. destacanda sen papel camnagente histérico,é.entee nds, Joa0 José Reis; ver,sobretudo, Rebeliaoescrava no Brasil —a historia do levante dos ‘males (1835), a0 Paulo, Brasiliense, 1986; com Eduardo Silva, Negociagio e con {Mlito—a resistencia escrava no Brasil escravista, S40 Paulo, Companhia das Letras, 1989; com Flivio Gomes, Liberdade por um fio— historia dos quilombos brasilei- 10s,So Paulo, Companhia das Letras, 1996. De Russell- Wood, veja-se sobretudo Excravos¢ libertos no Brasil colonial, Rio de Janeiro, Civilizagao Brasileira, 2005: “Centrose periferias no mundo luso-brasileiro, 1500-1808", Revista Brasileira de 62 te na énfase dada ao poder local, a autonomia crescente das riferias com relagao ao centro, na busca dos intersticios que pos- ibilitam a negagao do poder enfeixado a partir da metrépole, fim, daquilo que Jack P. Greene qualificou de “autoridades nego- \das”” ‘A categoria de Antigo Regime é privilegiada porque, para os itores, denota um mundo onde a politica predominava sobre a nomia.”' Mas ha implicagoes mais fundas. Mesmo que, acatan- ‘eriticas, se limite o alcance do conceito de Antigo Sistema Colo- {1 ao século xvii! ou, quando muito, ao periodo posterior a stauragao de 1640; ou ainda que se pense na sua acepgao plural Sistemas Coloniais expressaria melhor relacdes tao distintas into as estabelecidas, através dos séculos, entre a Franga, a jlanda, a Inglaterra e suas respectivas possesses —, € significa {que tal conceito venha sendo eclipsado pelo de Antigo Regime, ado para designara ordem imediatamenteanteriara Revolugao incesa.”* Antigo Regime foi definido e circunscrito a partir de um via, vol.18,n*36, pp. 187-249, 1998;“Autoridadesambivalentes: 0 Fstado do lea contribuigio africana para a‘boa ordem na Repiiblica”, in Maria Bea~ Nizza da Silva (org.), Brasil: colonizagao e escravidao, Rio de Janciro, Nova inteira, 1999, pp. 105-23. (Cf. Russell-Wood, “Centros e periferias..” pp. 242.ss. Jack P. Greene, Periph- ‘and center. Constitutional development in the extended polities ofthe British jneand the United States, 1607-1788, Athens/Londres. University of Georgia , 1986, Ver ainda: id.,"O governo local na América Portuguesa: um estudo divergéncia cultural”, Revista de Histdria, vol. Lv, n* 108, ano xxv, 197, pP. 25-79. 71. Fragoso,"Potentados..’,in Nuno G. F Monteiro etal, Optinia Pars... Pp. 165, 166. - "72. Penso aqui, evidentemente, no livro de Fernando Novais, Portugal e Brasil a ‘rise do antigo sistema colonial 6 contexto hist6rico especifico. Inicialmente referido as formas de vida e de governo franceses destruidos pela Revolucao, passou, aos poucos, a qualificar um fendmeno mais geral, europeu. Um ano apéseclodira revolucao, Mirabeau teria sido, segundo Tocqueville, um dos primeirosa usar a expressao: “Comparaio novo estado das coisas com 0 Antigo Regime’, escreveu secretamenteao rei,“éonde residem os consolos eas esperangas’: Agente do processo queia sub- vertendo a velha ordem, Mirabeau enxergava-o como reforgo da ‘monarquia, e considerava que “a idéia de nao formar senao uma linica classe de cidadaos teria agradado a Richelicu: essa superficie toda igual facilita 0 exercicio do poder. Inimeros reinados de um governo absoluto nao poderiam fazer tanto pela autoridade real quanto este tinico ano de Revolugao”?" Mais que a centralidade do poder, portanto, Mirabeau identificava o Antigo Regimea sociedade desigual dos privilégios: em suma,ao feudalismo,sem sedarcontade que 0 povo nao se compunha mais de stiditos, e sim de cidadaos; a soberania nao mais emanava do rei,esim do povo. Escrevendo muito tempo depois — seu livro foi publicado em 1856 —, Tocqueville pode ver além: o Antigo Regime era algo comum a toda a Europa,e a mostrava-se geral: “nao so homens diferentes, sio, por toda parte, praticamente os mesmos homens”, © que entrava em ctiseera, portanto, um verdadeiro sistema,o do Antigo Regime, que le se propunha compreender.* Entre os historiadores, Behrens considerou que Antigo Regime correspondeu ao periodo no qual a Europa foi dominada 73. itadlo por Tocqueville, L’Ancien Régime et la Révolution,livro |,cap.2,.104. 74, 1d.,"Comment presque toute Europe avait précisément les mémes insti tions et comment ces institutions tombaient en ruine partout”, in L’Ancien Régime... livro 1,cap.1V,p. 111. No“Avant-Propos”, Tocqueville escrevea passa _gem freqiientemente citada: “Este livro que publico nao é uma hist6ria da revo- uga0,0 que foi feito com brilho suficiente para queeu almeje refazé-ta;éum est- ssa revolugao’, op. cit. 87. 64 Austria, Prissia, Riissia e Franga: ao século xviii, portanto, jando, como disse Marc Fumaroli, “a Europa falava frances”, ¢ ito havia ainda identidade nacional que se antepusesse a auto- mnsciéncia euférica e triunfante de um leque de povos distintos busca da unidade.” Ja para Pierre Goubert — como para muitos contempora- do processo,a exemplo de Mirabeau —o regime feudal, abo- na noite de 4 de agosto de 1789, constitufa um dos fundame do Antigo Regime. Outro de seus elementos constitutivos, informe Tocqueville, era o absolutismo monarquico, que, na nga, tornow inutil o feudalismo, na medida em que chamou 1 sitodasas funcdesda politica.“ Tocqueville explicara tudo por io da agao deste agente tinico de subversdo, a emergéncia do ado ea decomposicao da sociedade antiga; a revolugao politica revolucao social. Num movimento tinico, ele elaborara uma jologia politica do absolutismo e uma hist6ria social do Antigo sgime”.”* Francois Furet, grande admirador e, em muitos pontos, jidor de Tocqueville, também glosou o papel do absolutismo 10 elemento constitutivo do Antigo Regime:“O Antigo Regime ou a forma da autoridade: poder central arbitrariofindivi- isolado,a partir da qual se moldarao as instituigdes revolucio- rias”2” Para Furet, a esséncia do Estado do Antigo Regime ¢ jus- C.B. A. Behrens, O Ancien Régime, Lisboa, Verbo, 1967, p. 9. Mare Fumaroli, ind Europe parlait francais, Paris, De Fallois, 2001. vasta a produ ‘de Europa edo seuempenhoem se vercomo unidade.A titulo deexemplo, ver leriea Chala, Storia deidead Furopal961,Roma,|aterza. 1995: Lospecchio "Buropa— immagine eimmaginario ai un continemte, Riminiy I Cerchio, 1999; mny Pagden (org.), Theidea of Europe —from Antiquity tothe European Union, row Wilson Center Press e Cambridge University Press, 2002; Robert Darn- Wn, "A unidade da Europa: cultura e civilidade’; in id., Os dentesfalsos de George ‘Washington, Sa0 Paulo, Companhia das Letras,2005, pp. 91-104. 4. Francoise Mélonio, Préfaco” a Tocqueville, Ancien Régime..P-25. P7.Wasrot, Penser la Révolution francaise... p-187.Cabe lembrar que Furet, comu- sobrea 65 tamenteasupresstio dos poderesconcorrentes:“A monarquia abso- Tuta nao € senao essa vit6ria do poder central sobre as autoridades tradicionais dos senhores e das comunidades locais’, diz.” De fato, ‘Tocqueville acreditava que o Antigo Regime francés havia conse- guido levar a cabo a centralizagaio administrativa, “a tinica parte da constituicao politica” da época capaz de sobreviver a Revolugao, por sera tinica compativel com 0 novo Estado social ento criado.” Esbater o papel do Estado, valorizando os poderes interme- didrios, e manter, sem nuances, a designasao de Antigo Regime para um mundo que, como oluso-americano, nao conheceu o feu- dalismo, traz. portanto problemas consideraveis. Nesse sentido, coletanea que se ven aqui discutindo propde um Antigo Regime totalmente atipico ao mesmo tempo que afirma a sua tipicidade: ele € também atlantico e escravista, ja que “[a] escravidao foi uma instituigao plenamente incluida na légica societéria do Antigo Regime’. De fato, numa sociedade hierarquizada e assentada em ordens que se distinguiam conforme o privilégio, a honra ea esti- ma social —na Peninsula Ibérica distinguiam-se ainda pelos esta- tutos de pureza de sangue—,a escravidao vinha a calhar." Por que, nista de formagio, migrou para o neoliberalismo ealvejou, na passagem citada,o terrore a vanguarda leninista revolucionria, 78. Ibid.,p. 144. 79, Tocqueville, ’Ancien Régime,..livro tt cap.2,"Que la centralisation adminis trative est unc institution de I'Ancien Régime, et non pas 'ocuvre de la Révolu: ton nidetEmpire, comme on le dit pp. 127-30, cltagao 4 p. 127. 80. Hebe Mattos, “A escravidao moderna nos quadros do império portugues: 0 Antigo Regime em perspectivaatlintica’yin Fragoso, Gouveia e Bicalho (orgs.),0. Antigo Regime nos trépicos, pp. 141-62, citagao a p. 162. Itlico meu. 81. CE Maria Luiza Tucci Carneiro, Preconceito racialem Portugal e Brasil Col6nia os crstios-novos eo mito da pureza de sangue, Sa0 Paulo, Perspectiva, 2005 (1 edigio: Preconceito racial 10 Brasil Coldnia — 0s eristaos-novos, S40 Paulo, Brasiliense, 1983). 66 tudo, teria ela sido“plenamente” recriada—na forma daescra- \o deafricanos —apenasno contexto de sociedades européias Antigo Regime que, ademais, tinham colénias — Portugal, nha, Franga, Holanda, Inglaterra —, e nao em outras — ria, Priissia, Russia, Poldnia? Em outros termos: seria histori- ante enriquecedor considerar equivalentesouaté iguais aslégi- societarias de Portugal, Espanha e suas col6nias, por um lado, , Wr outro, as da Pruissia e da Austria — este pais, indiscutivelmen- uum dos mais tipicamente Ancien Régimeda Europa? Longe de mim propor 0 abandono do conceito de Antigo ime. Mas acredito que, ao utilizé-lo, deve-se ter clareza quanto iplicagdes subjacentes ao seu uso, e sobretudo quantoa relagao algumas das sociedades assim qualificadas estabeleceram com wsessdes externas A rbita européia. O que houve nos nossos tr6- sem duivida, foi uma expressao muito peculiar da sociedade Antigo Regime européia, que se combinou, conforme andlise osautores de O Antigo regime nos trépicosbuscaram programa- jente evitar, com o escravismo, 0 ¢apitalismo comercial, a pro- ‘em larga escala de géneros coloniais — que nunca excluiu a ‘outros, obviamente—, coma existéncia de uma condigao colo- que, em muitos aspectos e contextos, opunha-se a reinol e que, {te 0 século xvi, teve ainda dese ver com mecanismos decon- sle econdmico nem sempre eficaz e efetivo, mas que integravam, lificavam e definiam as relagoes entre um e outro lado do Atlan- © exclusivo comercial. Em suma, 0 entendimento da socieda- de Antigo Regime nos tr6} ja nas suas relacdes com o antigo sistema colonial.” icos beneficia-se quando con: Fernando Novais, Portugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial. Valho- aqui, igualmente, das reflexdes de Leila Mezan Algeanti na aula dada durante ‘seu Concurso de Livre-Docéncia na Unicamp:“Monocultura e diversidade eco- ‘ndmica: novas visdes da economia colonial”, Campinas, 3 de maio, 2002. a Ao contrario do que se afirma com alguma freqiiéncia, Por- tugal e Brasil na crise do antigo sistema colonial nao aborda apenas questoes econdmicas — o que € objeto sobretudo do capitulo 2, “A crise do antigo sistema colonial” —, mas procura esmiugar“o conjunto das relacdes entre as metrpolese suas respectivas cold- nias, num dado perfodo da hist6ria da colonizagao"." Na verdade, o livro é uma hist6ria da “politica econémica colonial da metr6- pole portuguesa, relativa ao Brasil’, ¢ da grande énfase as pecu- liaridades da llustragao em Portugal, mostrando como os signifi- cados do movimento na Europa podiam se transformar uma vez em solo colonial." Nao trata diretamente de questoesadministra- vas, mas fornece uma perspectiva analitica riquissima para se entender as relagoes contraditérias entre a metrépole e sua cold- nia americana, sens{vel, por um lado, & especificidade do mundo que se construiu nos trépicos e, por outro, a sua inextricdvel liga- a0 coma metropole e, além dela, coma Africa ea Buropa A especificidade da América portuguesa nao residiu na assi- milagio pura e simples do mundo do Antigo Regime, mas na sua recriacdo perversa, alimentada pelo trafico, pelo trabalho escravo de negros africanos, pela introdugao, na velha sociedade, de um novo elemento, estrutural nao institucional: 0 escravismo. Su- bordinadas 4 monarquia portuguesa, que entre a Restauragio € 0 periodo pombalino tornou-se crescentemente centralizadora, tendo assim que recriar suas relagdes com os dominios ultramari- 89, Fernando Novais, Portugal e Brasil. p37. 84, Ibid.,p.5. '85."A politica colonial portuguesa relativa ao Brasil na ultima etapa do Antigo. Regime articula-se de forma sistemstica com a politica econémica executada na metrépole, ¢ configuram ambas uma manifestagao muito clara da Epoca das Luzes. Na maneira de focalizar os problemas, na teorizagao que lastreia 0 seu cesquema de ago, nas préprias hesitagdes com que foilevadaa pratica revelam-se as marcas caracteristicas das incidencias da llustracio." Ibid. p-299. 68 as terrasbrasilicasintegraram o mundo do Antigo Regime por iio do antigo sistema colonial. Enxergar os dois lados do sistema ‘a metropole e, no caso, as cold spectivacm queahomologia tendeadominarenquantoaespe- americanas — por meio de idade acaba circunscrevendo-se ao cariter tropical parece-me \exato, discutivel e, no limite, perigoso. A idéia de um Antigo ime nos trépicos ameniza as contradigées € privilegia olhares »peus, inclusive no campo da historiografia. 7 Corre-se assim 0 risco de cair no que hoje é engodo e que, no lo xvill, foi mesmo ideologia, enxergando- itinentes de modo andlogo a Gianbattista Tiepolo quando pin- © teto do palicio dos bispos principes de Wurzburg, familia \cipesca sem nenhum contato com navegagaioe comeércio tran ;nicos. Representando a Asia, a América, a Africa ea Europa, de tal forma que, estando onde estiver, o observador s6 pode cada uma dasalegorias em relagaoa Europa. figura alegorica Asia esté sentada num elefante, a Africa num camelo ea \érica num crocodilo, ameagador, linguido eanfibio. a relagao entre os 6a Europa esté sentada num trono enao num animal, eem verde achar-se identificada por meio dos produtos naturais do continen- te que representa, s6 ela se encontra rodeada por aquilo que seus povos-i ciéncias e da tecnologia da guerra. Além disso, a Europa €0 pontoa 1ram, pelos atributos das artes, da miisica, da pintura, das partir do qual as outras figuras tém de ser vistas iropa cosmopolita, triunfadora, capaz de impor leis, linguas, mes politicos, formas societarias e religiosas, costumes e mer- ‘H6,Anthony Pagden,“Europe:conceptualizinga continent’ of Buropen pp-33-S44citagaoap.51. id. (org.), The idea 69 cadorias sobre o resto do globo, permanecendo incélume e impo- Juta ante qualquer contaminacao externa. Os impérios, afinal, se construiram sobre relagoes de domi- nagao mas também de intercimbio, como frisou Russell-Wood num trabalho recente.” PERSPECTIVAS DE RENOVAGAO Ha muito que fazer quanto anallise da politica e da adminis trago nos tempos coloniais,e as ponderagSes aqui tecidas tém por Linico objetivo contribuir ao refinamento conceitual da discussio, lembrando que, ao lado de certa escassez no tocante a estudos monognificos, hé, entre nés,tradigdes a consideraryevitando 0 vicio um tanto infantil de, a cada passo, jogar a crianga fora junto coma dgua do banho. Nao se trata, evidentemente, de detender uma historiogratia mais nacional: muito pelo contrario. Entre os melhores trabalhos escritos recentemente sobre aspectos da administragao no Im- Pério esto os de Nuno Gongalo Monteiro, historiador portugués. Com base numa investigacao empirica exaustiva — que vem desenvolvendo, cabe destacar, juntamente com Mafalda Soares da Cunha —, 0 autor clabora de modo criativo algumas das idéias de Antonio Manuel Hespanha e traz subsidios decisivos para o estu- do da administracao imperial. No capitulo publicado na coleti- £87. Russell-Wood, Un mundo em movimento, Os portugueses na Africa, Asia e América — 1415-1808, Lisboa, Difel, 1998. 88, Nuno Gongalo F. Monteiro, “Trajetérias sociais e govern das conquistas: notas preliminares sobre os vice-reis e governadores-gerais do Brasil e da Indi nos séculos xvit e xvit’,in Fragoso, Bicalho e Gouveia, OAntigo Regime nos trépi- 05.» pp-251-83. Mafalda Soares da Cunha e Nuno Gongalo F. Monteiro, “Go- vernadores e capitaes-mores do império atlintico portugués nos séculos XVII € xvii’ in Monteiro, Cardim e Cunha (orgs.), Optima Pars.. pp. 191-252. 70 O Antigo Regime nos trépicos,langa luz sobre o papel desempe- Jo pelo Império na remuneracao dos servigos de funcionarios loniais, mostrando que, apés a Restauracao, quando as vias de 0 A nobreza foram se estreitando, os vice-reinados da India e Brasil tiveram papel nobilitador de destaque. Num trabalho Kerior, Monteiro havia relativizado, talvez de modo excessivo, 0 stema das carreiras imperiais du de suas contribuigoes mais substantivas se anuncia em nota |,em que recoloca—de modo um tanto tautolégico—a'“cen- lade do centro”, ou seja, de Lisboa, que, apés a Restauragao e te 0 século xviii, manteve-se como miicleo de onde emanava ando. No “sistema de poderes” que caracterizou 0 Império, “a junicagao politica quase universal com a Corte” foi “pressu- to decisivo da flexibilidade do sistema”: éela, para além da cen- lizagao propriamente dita, que cabe considerar. No tiltimo balango publicado sobre seu projeto de pesquisa,” ynteiro e Soares da Cunha avangam substancialmente na ansli- interna da administragao imperial, reiterando a importanciado itro decisério e mostrando como ele mudou ao longo dos sécu- No seio de uma “monarquia pluricontinental caracterizada la comunicagdo permanente e pela negociagio com as elites da feria imperial”, cresceu a diferenciagao entre as esferas institu- mais, que tinham ldgicas especificas e “distintos padroes de cir- la¢ao no espago da monarquia”. Nao foi,a seu ver, o enraizamen- local dos agentes do poder que possibilitou a integracao das 89, Nuno Gongalo F. Monteiro, O crepiisculo dos grandes — 1750-1832, Lisboa, Imprensa Nacional / Casa da Moeda,s/d. 90.0 projeto denomina-se Optima Pars —As elites wa sociedade portuguese do Antigo Regime, financiado pela Fundagao paraa Ciencia e Tecnologia desce 2000 a periferiase o“equilibrio dos poderes no Império”, mas o“fato de as distintas instancias, e as respectivas elites, mutuamente se tutela- rememanterem vinculos de comunicagao com 0 centro” A con- tribuigao principal reside, contudo, no mapeamento das logicas que presidiam a escolha dos governantes coloniais: qual a hierar- quia dos cargos — como, quando e por que os governos da India fo- ram mais importantes que os do Brasil e Africa, ou vice-versa — qual o mecanismo das escolhas — por quais Conselhos elas passa- vam; quais os cargos que enobreciam, e de que categorias sociai saiam os seus ocupantes. Por tras de tudo, 0 rei eos conselhos de! niam quem governava o Império, mesmo que houvesse presses proximas— da Corte — ou distantes — das Conquistas. © cuidado com o sistema de recompensas vigente na monar- quia lusitana e de grande repercussao em ambito impe a Pagamento ou remuneragao de servigos — € outra contribuiga0 decisiva dada pela historiografia portuguesa aos estudos do Amperio, cabendo destacar os trabalhos de Antonio Manuel Hes- panha, Angela Barreto Xavier ¢ Fernanda Olival. O tema ja figura- va na nossa historiografia, sobretudo nas anilises da Guerra de Restauracao pernambucana: Cleonir Xavier de Albuquerque escre- yeu sobre o assunto um estudo especifico no final dos anos 1960,¢ tanto José Antonio Gonsalves de Mello como Evaldo Cabral de ‘Mello estiveram, em boa parte de seus escritos, atentos a questo, recorrendo sistematicamenteaos fundosarquivisticos especificosa 91.“Governadores ¢ capitdes-mores do império atkintico portugues nos séculos AVILExVu'S p. 194. A“Lenttalidadedy centio” aparece, deces ta for sante capitulo que Joao Fragoso escreveu para a mesma coletaneae que represen: ta certa revisdo de seus pressupostosanteriores. A idéia de uma“ nobrezada terra supracapitanias” deve bastante, na concepgao, 2 engenhosa tese de Maria Veronica Campos, Governo de mineiros — de como meteras Minas numa moenda ebeber-Ihe o caldo dourado, Tese de Doutorado em Historia, FLCH-UsP, 2002.No tocante a conceituacao, nobreza da terra continua, a meu ver, merecendo maior lado. Cf Fragoso, “Potentado: “passim. 7” jassunto.” Além da verticalizagao da anélise,a novidade trazida grupo portugués residiu em associar a remuneragao dos servi em geral, ea concessao de habitos militares, em particular, a ria do dom, ou dadiva, de inspiragao maussiana, assim definin- para o império portugués, uma economia da graga, do dom ou, smo viui Olival, das mercés, por ela considerada o sistema mais angente de todos.” Reconhecendo o potencial interpretative ibilitado por esse viés, cabe lembrar, contudo, que, medida que Regime foi se aproximando do termo, 0 sistema atributivo se paullatinamente solapado por um sistema t contributivo, € 0 # tenderam a ser substitufdos por valores mais pragmatics. Cleonir Xavier de Albuquerque, A remuneragao de servigos da guerra holande- Recife, Universidade Federal de Pernambuco, Imprensa Universitaria, 1968. Antonio Gonsalves de Mello, Henrique Dias — governador dos crioulos, /emulatosdo Brasil, Recife, Massangana/Pundagio Joaquim Nabuco, 1988; Fernandes Vieira — Mestre-de-campo do tergo de Infantaria de Pernambuco, 14, Comissio Nacional para a Comemoragao dos Descobrimentos Por- Centro de Estudos de Historia do Atlantico, 2000, sobretudo pp. 30538. remuneracio dos servicos de Joao Fernandes Vieira”); Evaldo Cabral de lo, O nome e 0 sangue— wma frau genealdgica no Pernambuco colonial, Sa0 ilo, Companhiadas Letras, 1989; A fronda dos mazombos—nobrescontra mas- Pernambuco, 1666-1715.Si0 Paulo, Companhia das Letras, 1995. |, Hespanha,“La economia de la gracia’;in id. La gracia del Derecho... pp-151- Angela Barreto Xavier ¢ Antnio Manuel Hespanha,“As redes lientelares’,in /Mattoso (direco), Histiria de Portugal —o Antigo Regime (coordenagao de jonlo Manuel Espanha), Lisboa, Estampa, 1998, pp. 339-49; Pemmanda Oliva, ‘ordens militares e o Estado Moderno, passim, sobretudo parte 1, cap. 2,"As 1 militares: um forte pilar do Estado Moderno’, item 2.2,"A organizagao da “economia da merce’; pp. 107-31. ‘94, Ja lembrei, acima, que Mauss pensou a didiva para um contexto em que a {roca se favia com aseem valoressimbslicos,enao materiais. Qadventodo capi- Aalismo-ea teoria marxista da reificagao, parece-me,limitam fundamentalmente ‘suplicabilidade da teoria de Mauss para sociedades complexas. Para uma releitu- 3 Se a complexidade das questdes levantadas pela anélise do Império ¢ da administragao impée nao perder de vista 0 enquadra- mentote6rico,osescritosmaisrecentes —de Russell-Wood, Bethen- court, Nuno Monteiro, Maria Fernanda Bicalho, Maria de Fatima Gouveia, Joao Fragoso — insistiram na importan casos particulares, e creio que isto vale tanto para individuos (os agentes) quanto instituigdes (conselhos, tribunais, camaras, secreta- de se estudar rias)." O consércio entre empiria e teoria deve possibilitar o desen- volvimento de uma hist6ria renovada da politica e da administragao no Império portugues em geral e na América portuguesa em parti- cular, e 0 escopo comparativo pode ser, neste sentido, um dos mais interessantes: tanto no interior do Império portugues — como fez e impérios dife- rentes — os ibéricos, mas também o inglés, 0 holandés, e o francés. Boxer — quanto externamente a ele, comparando- +a inteligente da obra de Mauss —além do ensaio clissico de Lévi-Strauss — ver Maurice Godelier, O enigna do dom, Rio de Janeiro, Civilizaga Brasileira, 2001, em que ficam claras as limitages de se aplicar indistintamente— mente —o modelo explicativo da ddiva. Para o oposto, ou seja, como modelo do que nao deve ser feito, ver Jacques T. Godbout, O espirito da diidiva, Rio de Janeiro, Fundagao Getilio Vargas, 1999, Paraa passagem do sistema atributivoao contributive, vero instigante artigo de Alain Guéry,"Leroi dépensier —ledon,la contrainte et Porigine du systéme financier de la monarchie frangaise d’Ancien Regime’, in Annates—E.S.C,, 39° année, 6, 1984, pp. 1241-69. Agradeco a Luciano Raposo de Almeida Figueiredo por esta indicagao e ainda por terme feanqueado consulta de suasanotagdes sobre oassunto, 95.Um bom cxcmple das pomsibilidades de cstuslos monogréficos sobre inst {s0cs —no caso,a Provedoria da Fazenda — €a tese recente de Mozart Vergetti de Menezes, Colonialismo emagao—fiscalismo, economiaesociedadenacapitaniada Paraiba (1647-1755), "Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Histéria Economica, rrtc#-usr, 2008. 96. Nesse sentido, Diogo Ramada Curto organizou, de 11 a 13 de dezembro de 2003, um simpésio muito interessante no Instituto Universitério Europeu de Fiesole-Florenca, The making of the overseas career. Ver também Stuart B. anistorica- 74 ‘Considero promissor combinar anilises especificas e enqua- jentos gerais, bem como problematizar e questionar modelos licativos. O balango aqui empreendido procurou mostrar 10 se alternaram, no tempo, visdes mais afeitas ora ao papel do \tro (como Faoro), ora a sua relativizagao, invocando ai \coe- \cia, a desordem (como Prado Jr.) ou, mais recentemente, a sua jlugao em poderes concorrentes,a eficacia da agéncialocal, da \cidade de tecer redes clientelares (como em O Antigo Regime 0s trépicos). Nao existem, em hist6ria, explicagoes definitivas sn verdades acabadas, e todasas linhagens que examinei trouxe- . a0 longo do tempo, contribuigdes de peso. Nao existe, da forma, inocéncia, ¢ no estudo da politica e da administra- 05 posicionamentos ideolégicos pesaram de modo particular. Por fim, é preciso voltara insistir na importancia dos estudos yparativos, lembrados em varias passagens deste capitulo. Eles ram a riqueza das situagdes particulares ao mesmo tempo ‘colocam o problema de sua validagao. Impoem o cuidadocom contexto mas, da mesma forma, invocam o valor das relacdes. Ibro aqui apenas dois exemplos dessa pritica analitica no pas- 1. Ao longo de boa parte de sua obra, Sérgio Buarque de Ho- \da perseguiu os nexos comparativos entre a América portu- .a ea espanhola, e em umautor hoje tao presenteeste talvez seja |aspecto menos invocado. Num ensaio luminoso, Contrapunteo sbano del tabaco y del azucar, 0 antropélogo e pensador cubano nando Ortiz ilustrou sua teoria dinamica da transculturacao hoje apropriada por estudiosos norte-americanos— por meio wartz, Da América portuguesa ao Brasil — estudos hist6ricos, Lisboa, Difel, +2003, sobretudo“A jornada dos vassalos: poderreal,everes nobrese capital mer- 3,6"Panico nas Indias:a ameaga portugue- 9p. 185-215. ‘cantil antes da Restauragio"spp. 14: ao Império espanhol, 1640-165 de um didlogo entre o tabaco ¢ o agiicar: 0 negro africano,o 6cio,a natureza, 0 especifico, a América a se contrapor ao branco euro- peu, ao trabalho, a transformagao, ao geral, & Europa mercantil.” Mais do que o didlogo, a andlise da administragao imperial impoe a perspectiva dialégica: ha perguntas e respostas, mas, entre uma e outra, entre um lado ¢ outro do oceano — ou entre os varios lados dos varios oceanos —,a massa ligitida que com freqiiéncia unia as partes diferentes servia também para veicular e transformar, tanto na ida quanto na volta, as praticas, as concepgdes ¢ os significados que viajavam sobre ela. Creio ainda ser este um dos aspectos da obra de Fernando Novais que merece ser revisitado: o sentido que as relagdesentreas partes do sistema colonial adquirem no plano especificoe no geral, como se transformam e se ressignificam. Se insisti na necessida de da comparagao entre sistemas coloniais distintos para melhor compreender politicasadministrativass se destaqueio bencficio de se olhar para os vizinhos hispanicos de nosso continente, nao quero, entretanto, deixar a impressao que, neste livro, emprego 0 método comparativo ou considero o império portugués num sen- tido alargado. Permanego no Atlintico sul, sobretudo na América portuguesa setecentista, que, hoje, creio conhecer razoavelmente. Procuro desvendar alguns dos aspectos estruturais que constitui- ram a especificidade desse espago num dado momento hist6rico: anatureza da politica e da pratica administrativa, talhada no bate- e-volta dos levantes € da repressao; 0 nascimento de uma socieda- de pluriétnica e pluricultural, tributéria de moldes europeus mas fadada a buscar arranjos novos ¢ a camuflar sua natureza, quase 97.F Ortiz, Contrapunteo cubano del tabaco y del azticar [1948], preficio de B. ‘Malinowski, Havana, Consejo Nacional de Cultura, 1963. Uma das expressocs da voga atual de Ortiz €0 trabalho de Mary Louise Pratt, Imperial eyes — travel writ- ing and transculturation. Londres | Nova York, Routledge, 1992. 76 wre consideradia ameagadora, Procuro ainda ilustrar empiri- lente esses aspectos mais abstratos, rastreando as trajetérias dleram carne e ossatura ao que, sem as personagens — fossem administradores reconhecidos ou servidores obscuros —, ‘ia apenas clucubragao. "Uma primeira versio dest texto, muito redzida, foi apresentada no semi- le Serge Gruzinski na Ecole des Hates tudes en Sciences Socates(Teverei- 2003), agradesoos comentarios entaofeitos pelo proprio Gruzinski, Fran Bethencourt e Luis Felipe de Alencastro. Em agosto de 2005, apresentei bem maior em Bogoté, no ambito do I Encontro de Historiadores Colom- fe Drasileirs organic pelo Tnsttate Cultural Brasil Colémbia (Ubraco)s ime dos comentirios de Jouo Paulo Garrido Pimenta, Maria Helena ato Rafael Marquese. im setembro desse mesmo ano,apresente pela ter- ‘ero texto, agora no seminario © Governo des Poros, em Paraty.e procurei rar comentirios entiofeitos por Francisco Cosentino, Antonio Manuel spanha e Nuno Monteiro. Por fim, sou grata a todos os meus colegas de Pro- JloTemitico—em particular Sérgio Alcides Amaral —por teem me passado ‘umentiriosescritoseauxiliado no refinamento da argumentagio