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Aula de 19/02/2015 (Mafalda

)
Ora bem, nós na aula passada vimos, ainda que de uma forma muito ligeira, do
que é que se tratava quando falamos de situações privadas internacionais. No
fundo estamos a falar de situações em que estão em causa, em princípio, pode
ser uma pessoa, podem ser duas pessoas ou mais, em que não estão dotadas
de ius imperii e essa situação está em contacto com mais de um ordenamento
jurídico. E vimos que, o problema ou um dos problemas que se suscita em
termos de direito internacional privado é o de ver, nestes casos, onde nós
temos uma situação plurilocalizada qual é que é a lei que vai regular essa
situação. Ah, para nos sabermos como é que vamos resolver esta questão, o
problema que vamos ter é de determinação do método. É o método que nós
vamos adoptar para resolver esta questão. Se nos definirmos o método, há
uma questão prévia, que é, nós temos de saber quais é que são os valores que
estão, eles próprios, subjacentes ao direito internacional privado, já sabemos
que depois, destes valores conseguimos identificar princípios e esses
princípios hão-de se reflectir nas normas que são adoptadas, logo, também no
próprio método que é adoptado. É porque é que os valores são importantes?
Bom, é que se nós bem nos recordarmos das aulas de introdução ao estudo do
direito, nessa altura nós vimos que as leis jurídicas,não contrário das leis
naturais, reflectem valores e é por essa razão, que nós quando definimos o
método,quando encontramos as normas para resolver estes nossos problemas
de direito internacional privado, precisamos de saber quais é que são os
valores que estão subjacentes. Mas a relevância dos valores aqui também não
se cinge apenas a questão da própria opção do método. O método nós vamos
tratar dele na próxima aula.
Os valores também nos ajudam a determinar quais é que são os fins das
próprias normas, das regras de direito internacional privado e por isso a
indagação dos valores desta disciplina também têm relevância no que respeita
a própria dogmática. Para além disso, as regras de conflitos de leis no espaço,
também, como todas as regras, (aqui voltando aos vossos conhecimentos de
IED) também têm de ser interpretadas e nós já sabemos que a interpretação
tem de ser feita, também ela, atendendo aos valores do sistema jurídico onde
estas regras se integram. Portanto, também a determinação dos valores do
direito internacional privado têm relevância hermenêutica.
Depois, também nós sabemos (ainda da IED) que as vezes há resultados que
têm de ser corrigidos. Por exemplo, em alguns casos há autores que discutem
se sim, se não, se a redução teleologica é admissível. Mas a verdade é que
temos no direito internacional privado, pela aplicação das regras de direito
internacional privado, podemos chegar a resultados que são contrários ao fim
das próprias normas e nesse caso podemos ter de fazer ali alguma correcção.
Para além disso, tal como nos outros ramos do direito, também em direito
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internacional privado, podemos ter lacunas. A integração de lacunas, como é
que é feita? Atendendo, uma vez mais, aos valores. Daí a importância, de
facto, dos valores também nesta perspectiva.
Então, quais é que são os valores que estão subjacentes aqui ao direito
internacional privado? E quando nos falamos dos valores que estão
subjacentes ao direito internacional privado, estou a falar dos valores que estão
subjacentes as regras de conflitos. As regras de conflitos são aquelas regras
que nos vão permitir saber qual é que é a lei que se vai aplicar. Por exemplo, o
artigo 53º do CC diz o seguinte: “ a substância e efeitos das convenções
antenupciais e do regime de bens legal ou convencional são definidos pela lei
nacional dos nubentes ao tempo da celebração do casamento”. O que é que
nós aqui temos? Sabemos que, por exemplo, se tivermos dois cidadãos
brasileiros que se casem em Portugal, se nós quisermos saber qual é que é a
lei que vai regular o regime de bens deste casal, o artigo 53º CC diz-nos que se
aplica a lei nacional comum. Se eles são os dois brasileiros, então a lei é a lei
brasileira que nos vai dizer qual é que é o regime de bens aplicável. Não
aplicamos a lei material portuguesa, vamos aplicar a lei material brasileira. O
artigo 53º CC é o quê? É uma norma de conflitos.
Em bom rigor, a norma pode-se sentir um bocadinho ofendida quando nós
dizemos que ela é uma norma de conflitos. Na verdade, o que ela faz é
resolver conflitos, é uma norma de resolução, de conciliação. Mas
tradicionalmente chama-se uma norma de conflitos. Porquê? Porque nos
permite resolver um conflito de leis no espaço. Neste exemplo que vos dei, que
normas é que poderiam ser potencialmente aplicáveis ? A portuguesa (do lugar
onde as pessoas vivem, onde o casamento foi celebrado) e a brasileira ( a lei
da nacionalidade dos nubentes). Portanto, o artigo 53º CC é uma norma de
conflitos, que vai responder, que vai dar resposta, que vai dar a solução a este
conflito.Aquilo que nós queremos saber é quais é que são os valores que estão
subjacentes às normas de conflitos e a outras normas que nós também vamos
ver que são relevantes no âmbito do direito internacional privado.
Também vos disse na ultima aula,que o direito internacional privado não
abrange apenas este problema de conflito de leis no espaço, mas, também, os
problemas que se prendem com a competência internacional e com o
reconhecimento de sentenças estrangeiras. Os valores que estão subjacentes
ao DIP, estão subjacentes não apenas ao conflito de leis, mas também a
competência internacional e ao reconhecimento de sentenças. Nós só vamos
tratar do conflito de leis, não vamos tratar do reconhecimento de sentenças,
nem da determinação do tribunal internacionalmente competente.
Bom, posto isto, o primeiro valor que eu aqui tenho é a dignidade da pessoa
humana. A dignidade da pessoa humana é um valor transversal aos vários
ramos do direito e naturalmente também não poderia deixar de ser um valor
que está subjacente ao DIP. Nós já sabemos que a dignidade da pessoa
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humana está prevista desde logo no artigo 1º da CRP, também está previsto no
artigo 2º da carta da união europeia, no artigo 1º da carta dos direitos
fundamentais da UE, na convenção europeia dos direitos do homem, enfim. A
dignidade da pessoa humana está plasmada em vários diplomas . Como é que
ela se manifesta ? Manifesta-se, por exemplo, no reconhecimento da
personalidade jurídica. Tal como também se manifesta no facto de existir um
certo número de direitos de personalidade que cada pessoa humana é titular.
No DIP, este personalismo vai projectar-se também em diferentes planos.
Desde logo,projecta-se reclamando o reconhecimento aos estrangeiros da
susceptibilidade de serem titulares de direitos na ordem interna. Ou seja, tanto
os cidadãos portugueses como os cidadãos estrangeiros são titulares de
direitos. No ordenamento jurídico português nos encontramos manifestações
desta ideia na constituição. Também, por exemplo, no artigo 14º do código civil,
no n.1 que diz aqui que os estrangeiros são equiparados aos nacionais quanto
aos direitos civis, salvo disposição legal em contrário. Portanto, temos aqui esta
ideia de reconhecimento aos estrangeiros da susceptibilidade de serem
titulares de direitos.
Depois, também este personalismo se manifesta na medida em vai
fundamentar a sujeição de matérias que estão compreendidas no estatuto
pessoal dos indivíduos à respectiva lei pessoal. Ponto 1. O que é que é isto da
matéria de estatuto pessoal? A matéria de estatuto pessoal é toda aquela que
está directamente relacionada com a própria pessoa. Por exemplo:
personalidade jurídica, a capacidade jurídica, direitos de personalidade,
sucessões – tudo isto é matéria de estatuto pessoal.
Todas estas matérias vão ser sujeitas aquilo que se chama a lei pessoal. É o
que é que é a lei pessoal? O ordenamento jurídico português, por regra, a lei
pessoal é a lei da nacionalidade. O artigo 31º n. 1 do CC assim o determina. E
reparem, em que medida é que isto está relacionado com a dignidade da
pessoa humana?
Bom, todos nós tendemos a pautar os nossos
comportamento e a assumir certos direitos e deveres que temos, aqueles que
estão directamente relacionados com a nossa própria existência, à luz de uma
lei que nos é muito próxima. Que leis é que podem ser estas? Ou a da
nacionalidade ou a da residência habitual. O legislador português estabeleceu
em primeira instância a aplicação da lei da nacionalidade. Assim respeita este
valor da dignidade da pessoa humana. Podia haver uma outra solução. As
questões que se prendem, por exemplo, com a capacidade jurídica podiam ter
aplicação territorial. E aí o que é que acontecia? Por exemplo, só se aplicaria a
lei portuguesa as pessoas que estivessem em Portugal, fossem portuguesas,
mexicanas ou espanholas. E podia acontecer também o quê? Saíamos de
Portugal, íamos para Espanha e já deixava de ser aplicada a lei portuguesa,
passava a ser aplicada ( suponho que seja a espanhola, mas não deu para
ouvir).
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Este valor visa evitar estes inconvenientes que resultam exactamente daquilo
que vos disse. Isto é, saindo nós de Portugal, então todas as questões que se
prendiam com o nosso estatuto pessoal já seriam reguladas pelo estado para
onde nós estávamos. E podíamos ter ainda um outro problema, que era : por
exemplo, as matérias de casamento, de família estão também incluídas na
matéria de estatuto pessoal. Em princípio, no exemplo que vimos, regime de
bens, por exemplo, o artigo 53º diz que se aplica que lei?
A lei da
nacionalidade comum dos cônjuges. Sendo os cônjuges brasileiros, aplicavase a lei material brasileira. Se os cônjuges fossem portugueses, obviamente
seria aplicada a lei portuguesa, mas aí poderíamos nem estar perante uma
situação privada internacional. Agora vamos lá ver: se nós disséssemos que
era aplicada a lei portuguesa enquanto as pessoas estivessem em Portugal.
Vamos imaginar um casal que ia passar um fim de semana a Espanha.
Chegando a Espanha, o casamento entre eles poderia eventualmente já não
ser reconhecido. Obviamente isto é contrário a todos os princípios. Portanto,
visa-se evitar que os indivíduos sejam despojados dos estados que já
assumiram num determinado ordenamento jurídico que seja reconhecido num
outro ordenamento jurídico.
Outro princípio muito importante é o princípio da autonomia privada. O
princípio da autonomia privada também é vosso conhecido desde sempre. Ele
manifesta-se no DIP pela possibilidade que é dada as partes, em algumas
matérias, de escolherem a lei aplicável. Por exemplo: no regulamento Roma I
(é um regulamento europeu, que por ser justamente um regulamento europeu,
tem aplicação directa no ordenamento jurídico português. Neste regulamento
estão previstas várias normas de conflitos relativas a obrigações contratuais)
temos uma regra prevista no artigo 3º n. 1 que permite que as partes escolham
a lei aplicável ao contrato. Por exemplo: se um português fizer um contrato de
compra e venda com um espanhol, eles decidem que a lei que vai regular o
contrato será a lei portuguesa, ou a lei espanhola ou a lei mexicana, ou a lei
francesa. Aqui se manifesta a autonomia da vontade. Isto existe no
regulamento Roma I, como também existe, por exemplo, no artigo 14º do
regulamento Roma II (regulamento que trata da lei aplicável às obrigações
extracontratuais). Portanto, também aqui vamos encontrar manifestações deste
principio da autonomia privada.
Qual é que é a grande vantagem? Não há uma, há várias vantagens. Nesta
autonomia privada, primeiro, existe certeza na lei aplicável. Porque se as
partes, elas próprias, escolheram e decidiram que o contrato ia ser regulado,
por exemplo, pela lei francesa, não vai haver dúvidas que vai ser a lei francesa
que vai ser aplicável ao contrato. Portanto, primeiro, certeza. Segundo, as
partes vão em princípio escolher uma lei que é adequada para elas e se são as
duas as partes que estão interessadas, porque não escolher a lei que for mais
adequada? Portanto, também permite a aplicação da lei que é mais adequada.
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que se casam em Portugal. se não existisse. porque ele representa também a consagração do DIP na esfera de liberdade que é necessária a realização da própria pessoa. o caso que nos vimos dos dois cidadãos brasileiros. a lei que vai regular uma determinada situação não há-de ser uma lei completamente imprevisível para aquelas pessoas. este princípio acaba por estar ligado com o próprio princípio da dignidade da pessoa humana.Depois. Se fosse a lei portuguesa. É claro que estas escolhas poderão ser sempre limitadas no âmbito do DIP sempre que. E também. também na seria grande surpresa. Por exemplo. devem continuar a ser casadas em Espanha. Se as pessoas não soubessem. Se as pessoas são consideradas casadas em Portugal. A lei da nacionalidade comum dos cônjuges é a lei pela qual eles muito provavelmente contariam. A nossa norma de conflitos o que é que diz? O regime de bens será regulado pela lei da nacionalidade comum dos cônjuges. ou seja. quando se casavam. Este princípio da tutela da confiança é muito importante porque o seu desaparecimento iria por em causa o próprio tráfego jurídico. existe aqui alguma margem. que era por exemplo. se nós tivéssemos um elemento de conexão ( um elemento de conexão é a lei da nacionalidade. qual é que era a lei que eventualmente lhes seria aplicável. na realização das legítimas expectativas que são geradas nas relações entre os privados ou entre eles é um estado. Portanto. Já nada tinha que ver com a situação. Primeiro. Página 5 de 221 . já seria estranho se por exemplo a nossa norma de conflitos dissesse que se aplicava a lei da nacionalidade da avó da nubente. E já sabemos que a realização da própria pessoa se prende também com a dignidade da pessoa humana. Ou seja. iria inviabilizar a própria vida colectiva pacífica. a norma de conflitos tem de determinar o quê? A aplicação de uma lei que seja mais ou menos previsível para as partes. Agora. Daí que o princípio da tutela da confiança é importante para a segurança do próprio tráfego jurídico e porque. desta tutela da confiança vai resultar que devemos exigir o reconhecimento da eficácia da lei estrangeira na ordem jurídica interna. muito provavelmente não casariam. Terceiro princípio. desta tutela da confiança nós conseguimos retirar algumas consequências. No que é que se traduz está tutela da confiança? Ela traduz-se. a nossa norma de conflitos dissesse que se aplicava a lei da residência habitual. ela própria. residência habitual).. condição do equilíbrio social e da paz jurídica. também seria previsível. Portanto. E nós vimos que de acordo com a nossa norma de conflitos a lei que ia regular o regime de bens deste casal era a lei brasileira. A tutela da confiança é fundamental na medida em que é também. por exemplo. é o da tutela da confiança. mexicana.. na permanência das posições jurídicas. Se em vez disso. da autonomia da vontade resulte alguma contrariedade ao bem comum. O exemplo que eu vos dei do casal que se casou em Portugal e que vai passar um fim de semana a Espanha – permanência da situação jurídica. Portanto.

Não se vai exigir que as pessoas voltem a casar em Portugal. Também aqui poderá justificar-se alguns limites a competência da lei que regula um contrato quanto ao valor de uma determinada conduta ou ao valor do silêncio. também. Para além disso. em vez de ser aplicada a lei da nacionalidade para aferir a capacidade jurídica para celebrar um negócio. Depois veremos que isto poderá justificar outros institutos. o casamento entre dois cidadãos espanhóis que se casaram em Espanha. como por exemplo o reenvio. mas depois vamos vê-lo melhor. Só se as pessoas souberem qual é que é o direito aplicável é que poderão pautar a sua conduta por essa lei. chegávamos a conclusão que um determinado testamento era inválido( por norma. Página 6 de 221 . convém que levemos lâmpadas extra e o segundo triângulo. Mas. Por exemplo. quem conduz em Portugal deve saber que deve respeitar as regras de trânsito que estão em vigor em Portugal. está tutela da confiança pode inclusive levar a que seja protegida a aparência de um negócio jurídico que foi considerado válido e eficaz num determinado ordenamento jurídico. Por exemplo. A confiança também está. este negócio seria válido a luz da lei da residência habitual. uma outra consequência vai ter de ser o reconhecimento das situações que foram constituídas noutros estados. em algumas situações que nós depois vamos ver. o nosso ordenamento admite que em algumas circunstâncias. pois temos de respeitar as regras de trânsito espanholas. 2. qual vai ser a co sequência ? A consequência vai ser a aplicação da lei brasileira porque é a lei com a qual eles provavelmente contavam. Nesse caso. que se formos para Espanha. por exemplo. Portanto.Por exemplo. o negócio poderá ser considerado válido se a pessoa fosse capaz a luz da lei do país onde o negócio foi celebrado ( tutela da aparência). que tem uma aplicação muitíssimo residual. Depois. a lei da nacionalidade da pessoa). mas que seria considerado inválido ou ineficaz a luz de outro ordenamento jurídico. vamos imaginar que por força da aplicação da nossa norma de conflitos. uma das consequências vai ter de ser o reconhecimento da aplicação da lei material estrangeira no estado do foro. Mas também devemos saber. Por exemplo. A regra que se aplica é actualmente o artigo 13º do regulamento Roma I e poderá levar a que. no caso em que nos vimos do casamento dos cidadãos brasileiros. necessariamente. A tutela da confiança reflecte-se por isso em várias regras jurídicas. este casamento vai continuar a ser reconhecido em Portugal. É a situação do artigo 31º n. Podemos aceitar que uma certa declaração tem valor negocial porque a tutela da confiança o poderá justificar. Ou seja. este negócio jurídico seja considerado válido porque ele era válido a luz da lei da residência habitual. associada à segurança jurídica porque a tutela da confiança esta necessariamente associada a previsibilidade do direito aplicável. no artigo 28º do CC.

Se a coisa estiver situada em Portugal. nós temos aqui subjacente o princípio da harmonia internacional de julgados. que é. Ou harmonia internacional também podia ser Woodstock no plano internacional. Então. E aqui. A questão é harmonia internacional de julgados. Não vale dizer só que é o princípio da harmonia que aí perguntar-vos-ei se estamos em Woodstock. quem queria intentar acções ia ver qual é que era a lei material que lhe dava mais jeito é ia intentar a acção no país que lhe fosse mais conveniente. independentemente de onde a questão for colocada que se aplique sempre a mesma lei material. em França ou no Brasil. isto é o que se pretende evitar. perante uma coisa que esteja colocada em França. Porquê? Porque aqui. Vamos ao mercado para ver qual é que é a lei que é mais favorável e por isso eu vou intentar a acção no país que tiver a lei material mais favorável. Claro que isto tem subjacente uma ideia de igualdade das leis. devemos pensar na igualdade das leis (aparte da igualdade entre as pessoas). a lei que será aplicável será sempre a mesma. E a verdade é que um dos objectivos do DIP é de tentar o seguinte objectivo: independentemente de uma acção ser intentada em Portugal. há o princípio da igualdade perante a lei. O que se quer alcançar eé que independentemente de onde a acção for intentada. mas temos de admitir a possibilidade de em Portugal aplicar ou a lei material portuguesa ou a lei material brasileira. Portanto. Este artigo diz que o regime da posse. Harmonia internacional de julgados porque independentemente do país onde a questão for colocada. em Espanha. É isto só se consegue se cada estado aceitar que pode aplicar a uma determinada situação a sua própria lei material ou uma lei material estrangeira. Quando os tentamos alcançar este objectivo. Se a questão for colocada no Brasil (imaginando que tem uma regra semelhante). Como é que isto se consegue? Vamos imaginar que temos um problema de direitos reais. Iria fazer aquilo a que nós chamamos forum shoping (compra do foro). Portugal vai aplicar a lei francesa. que está prevista no artigo 46º do CC.Depois. já vai ser irrelevante que a acção seja intentada em Portugal ou em Espanha porque o resultado vai ser sempre o mesmo. a lei material aplicável seja sempre a mesma. não pode haver preconceitos relativamente a lei material estrangeira. Porque é que é importante ? Se cada estado só aplicasse a sua própria lei material. O que se evita com isto? O forum shoping. eu vou aplicar a lei material espanhola. Podem ter conteúdos diferente. Ou seja. todos os estados vão estar em harmonia no que respeita a aplicação da lei material francesa que é o país onde o imóvel está situado. Página 7 de 221 . se a questão for colocada em Portugal. Ora. eu vou aplicar a lei material portuguesa. As leis materiais dos vários estados são iguais. uma lei material portuguesa não é melhor nem pior que a lei material espanhola ou brasileira. Mas se a coisa estiver situada em Espanha. o Brasil vai aplicar a lei francesa. da propriedade e demais direitos reais é definido pela lei do estado em cujo território as coisas se encontrem situadas. Quando falamos em igualdade perante a lei.

A harmonia internacional de é alcançada também. que se prende. o DIP vai ter também preocupações. De modo também a que uma situação privada internacional não seja tratada de forma menos adequada do que aquela que é uma situação interna. Dentro destes valores sociais . A outra forma de alcançar esta harmonia prende-se com o reenvio (matéria que vamos ver um pouco mais à frente). com excepção da Dinamarca. E esta ideia é referida por referência ao princípio da harmonia jurídica material ou harmonia jurídica moderna. mas forma do casamento do casamento. Primeiro. pela adopção pelos vários estados de normas de conflitos que tenham redacções semelhantes. No nosso direito material temos regras materiais que visam a protecção dos consumidores ou dos trabalhadores. Por outro lado. este valor da igualdade vai postular a uniformidade de tratamento das questões privadas internacionais no seio da mesma ordem jurídica. se a questão estiver a ser apreciada em Portugal. porque o texto é sempre o mesmo. vamos aplicar o regulamento Roma I e vamos dar a mesma solução ao caso. podemos ter leis diferentes a regular várias partes da mesma situação. Por exemplo. pela adopção de convenções internacionais ou de outros textos internacionais. por exemplo. com a competência internacional. vamos ver que vamos ter vários problemas. Nos sabemos que é um princípio que está subjacente ao nosso ordenamento jurídico. Página 8 de 221 . Esta situação que nos parece ser só isto. como é o caso dos regulamentos europeus que eu vos falei. do agentes. segundo o artigo 50º do CC já vai ser regulada por lei portuguesa. Para além destes valores. Se a questão for colocada em França. Primeiro. E as vezes pode os ter problemas de adequação entre as várias leis que vão ser aplicadas aquela que nos parece ser uma mesma situação. tem normas de conflitos que dizem qual a lei que vamos aplicar em matéria de obrigações contratuais e esse regulamento está em vigor nos vários estados membros da UE. Se as leis dos diversos estados tiverem regras semelhantes a esse nosso artigo 46º. continuando com o casal brasileiro que casa em Portugal. qual é que é a lei que vai regular a capacidade matrimonial deste casal? Qual é a lei que vai regular a forma do casamento? Qual é que é a lei que vai regular o regime de bens? Qual é a lei que vai regular as relações pessoais deste casal? Na prática. Depois. por exemplo. Porquê? Quando nós estamos a falar no regulamento Roma I e II. aplica-se as normas de conflitos do regulamento Roma I.A harmonia internacional de consegue-se então de várias formas. Vamos ter de conseguir conciliar estas leis de modo a que a sua aplicação seja coerente. não havendo competências exorbitantes no que respeita aos tribunais. existem também outras formas. como o Roma I e Roma II. a protecção da parte mais fraca. Por exemplo: a protecção da parte mais fraca. Neste caso a capacidade vai ser regulada pela lei brasileira. temos ainda outros valores importantes que são valores sociais.

porque dai resultaria uma contrariedade aos princípios estruturantes do ordenamento jurídico português. vamos olhar para o método. Como se consegue a proteção da parte mais fraca em DIP? O caso dos consumidores : no regulamento Roma I. Na próxima aula. na aula passada vimos quais eram os valores que deviam estar subjacentes a esta questão. Admite-se que em determinadas circunstâncias o contrato seja regulado pela lei da residência habitual do consumidor. Estamos a falar da aplicação da lei do próprio território para regular estas situações. Um outro valor ainda é o valor da paz social.por exemplo. A paz social pode manifestar-se na excepção da reserva da ordem pública internacional. vamos aplicar a lei material portuguesa. temos aí como se determina a lei aplicável aos contratos celebrados com consumidores. mas a aplicação desta lei seja profundamente contrária aos princípios mais fundamentais do ordenamento português. porque aos imóveis que estejam situados em Portugal. Aula DIPrivado 24 de Fevereiro nas últimas aulas. Este valor poderá estar subjacente à regras de conflitos como por exemplo o artigo 46º que vos falei. Por último. A aplicação desta lei ao caso poderá ser afastada. vimos que haviam situações que precisávamos de resolver. temos o princípio da preservação da identidade cultural dos indivíduos. Não é por acaso que em matéria de estatuto pessoal. Imaginemos a situação de compra e venda de uma pessoa. Portanto. tendo presentes estes princípios. No fundo. Se nós por aplicação da norma de conflitos concluirmos que se aplica a lei material de um determinado estado. da aplicação das regras de DIP vamos tentar garantir sempre a paz social. vamos ver qual o método que vamos adoptar. porque é a lei com a qual o consumidor está mais familiarizado. a própria norma de conflitos é redigida de forma a que seja aplicada uma lei que visa garantir a maior protecção do consumidor. Um outro valor é o da salvaguarda da soberania nacional. as nossas normas de conflitos determinam a aplicação da lei da nacionalidade. Na medida do possível. Ou seja. porque em princípio é a lei com que a pessoa está mais ligada e é com ele que sente está maior identidade cultural. designadamente saber qual é alei que iria regular uma determinada situação. no artigo 6º. O juiz x não vai aplicar a lei material que permite este negócio. Página 9 de 221 . Agora que já temos estes valores presentes já podemos decidir qual é o melhor método para solucionar o nosso problema e é isso que vamos ver. primeiro vimos o que eram situações jurídicas plurilocalizadas internacionais. tenta-se aplicar uma lei que garanta a identidade cultural dos indivíduo.

E a verdade é que nós também vamos encontrar no nosso próprio ordenamento jurídico algumas manifestações desta orientação. De qualquer forma isto para dizer de facto aqui temos uma manifestação desta orientação jurisdionalista por exemplo neste regulamento no artigo 4. escusado será dizer no entanto que depois existem regras muito especificas no que respeita à determinação da competência internacional dos estados para apreciarem estes litígios. e no artigo 5.º n.º n. falando em sentido amplo.Lei transposto para o direito interno a directiva sobre o comércio electrónico.º1 . se a situação estivesse a ser apreciada por um tribunal de um determinado país será aplicada a lei material desse país onde o tribunal está inserido. No que respeita aos métodos podemos identificar 3 método principais. também poderia estar falar de uma conservatória do registo civil português se fosse um problema da competência da conservatória do registo civil. em que é que isto consiste uma visão jurisdiocionalista? Basicamente a ideia desta orientação que também é chamada de Lex Forista. Mas a ideia é .º1 que “salvo disposição em contrário no presente regulamento a lei aplicável ao processo de insolvência e aos seus efeitos. e quando eu falo em tribunais portugueses. Por exemplo no Regulamento 1346/2000 do Conselho.Como também se trata de uma faculdade em que a liberdade cientifica é um dos valores que está subjacente eu vou-vos dar vário métodos. vem sustentar que as situações privadas internacionais devem de estar sujeitas à aplicação das normas materiais que estão em vigor na ordem jurídica onde se encontra o tribunal. o primeiro método que vamos analisar segue uma orientação jurisdicionalista. este é o regulamento relativo aos processos de insolvência neste regulamento determina-se no artigo 4º n. mas encontramos manifestações desta orientação em que nós encontramos esta influência. por exemplo em alguns tribunais dos Estados Unidos ainda se tenta seguir esta Orientação. O que é que isto quer dizer? isto quereria dizer que se uma determinada situação estivesse a ser apreciada por tribunais Portugueses.lei determina-se a aplicação da lei Página 10 de 221 .” ou seja a lei a ser aplicada será de facto a lei do foro. portanto na prática aqui acaba-se por transferir a preocupação na determinação da lei aplicável uma vez que o tribunal vai a aplicar a sua. é a lei do estado membro em cujo o território é aberto o processo a seguir designado estado de abertura do processo. Mas também no Decreto-lei 7/2004 de 7 de Janeiro é o Dec. a lei do estado no qual está inserido então vamos ter uma preocupação a montante que é a de saber como vamos determinar o tribunal que é internacionalmente competente. vamos apreciálo analisá-los criticamente e no final vou-vos dar pelo menos a minha opinião.º3 deste dec. Este método de resolução das situações internacionais prevaleceu na Europa mais ou menos até ao século XXII e agora em alguns países ainda poderá ser aplicado embora de uma forma talvez não completamente óbvia. nós não seguimos esta orientação.

ou ir investigar qual é a lei estrangeira que será aplicada. é menor porquê? porque o juiz vai estar a aplicar a lei material do ordenamento jurídico com o qual está mais familiarizado. mas contra estas duas vantagens nós podemos apresentar outras desvantagens muito mais significativas. escusado será dizer que este artigo 5. Primeira vantagem que tem: desde logo vai possibilitar a melhor administração da justiça. não hajam dúvidas relativamente a isso. este método de regulação das situações plurilocalizadas. a lei do foro ou a lei material do foro pode na prática não ter qualquer ligação com a situação que está a ser apreciada. porquê? porque os juízes. se se aplica esta lei material. não é preciso um juiz vir a indagar.º3 tem sido objecto de diversas criticas na ordem jurídica portuguesa. o que é que isto significa? significa que a probabilidade de erro na decisão que é dada pelo juiz é menor. imagine-se o tribunal competente é o tribunal português.material portuguesa aos serviços da sociedade de informação que tenham origem em estados não membros da União Europeia. primeiro. ou seja sempre que houver um plano qualquer em que se coloque com um serviço da sociedade de informação que tenha origem. Portanto esta é de facto uma das vantagens desta orientação. a lei material do estado onde o tribunal está localizado e onde a questão está a ser apreciada. vai ter de descobrir o que determina a lei material alemã. porque reparem se um juiz português tiver de aplicar por exemplo lei material alemã. pelo menos no meu entender. justamente por ele estabelecer aqui uma orientação lex forista. mas imaginem que o casal um é do país X outro é do país Y quando se casaram Página 11 de 221 . porquê? porque se se aplica a lei material do tribunal onde a questão está a ser apreciada . no fundo determina a aplicação da lei material do estado onde o tribunal se encontra localizado. por exemplo imaginem que lei aplicável ao regime de bens d um casal. vai ter de interpretá-la. com que lei estão os juízes dos tribunais portugueses mais familiarizados? com a lei material portuguesa. Agora vamos lá ver. por exemplo. vai ter de saber o que diz a doutrina a jurisprudência e tudo isto significa aqui obviamente um dispêndio de recursos.º n. este método tem vantagens. logo esta orientação vem permitir o quê? uma melhor administração da justiça. pode não ter qualquer contacto com a situação e as partes poderão ter desenvolvido toda a sua actividade observando a lei do estado com o qual de facto elas se encontravam quando a situação foi constituída. que tenha sede num estado não membro da União Europeia se a questão estiver a ser discutida em tribunais portugueses é aplicável a lei material portuguesa. Agora. a questão está a ser discutida em tribunais portugueses. Em segundo lugar também esta orientação envolve menor dispêndio de recursos. seguindo esta orientação que lei material é iria ser aplicada pelos juízes? a lei material portuguesa. a sua própria lei material. estas são de facto duas vantagens que podemos apontar a esta orientação.

iam procurar a lei material que lhes era mais favorável para a solução do seu caso e iriam intentar a acção nesse tribunal por exemplo se a lei material portuguesa fosse mais favorável intentavam a acção em Portugal se a lei material italiana fosse mais favorável intentavam a acção em Itália e por aí adiante. iríamos ter aquilo que já chamámos na última aula “ foro shopping” ou seja ía-se à procurado foro que tivesse a lei mais vantajosa para o demandante e reparem que era para o demandante que era quem intentava a acção. mas em algumas Página 12 de 221 . consequência. de um dos estados. ou seja. com a lei dos países que estão em contacto com essas próprias pessoas. se em frança existir a mesma regra os tribunais franceses aplicam que lei? a espanhola. nós vamos ver ao longo do semestre que não existe sempre a possibilidade de escolha pelas partes da lei aplicável. porque é que haveria de ser aplicada a lei material portuguesa neste caso? na prática as partes sempre desenvolveram a sua actividade e sempre contaram com a aplicação de que lei. o que é que nós íamos conseguir? se o imóvel estiver em Espanha e a acção for intentada em Portugal. o exemplo que eu vos dei foi o do artigo 46. e o que é que se consegue? harmonia internacional de soluções. se nós aplicássemos sempre a lei material do foro inviabilizar-se-ía a possibilidade de as parte poderem escolher a lei aplicável. e intentava lá a acção. Portugal aplica que lei? a espanhola. e em contrapartida não permite a consagração de um principio que também vimos que era muito importante em Direito internacional Privado. o artigo determina que na matéria da posse propriedade e demais direitos reais se aplica a lei do país onde a coisa se encontra situada se todos os estados tivessem normas de conflito como estas. qual é que é o objectivo que se visa independentemente do país onde a acção for intentada.º que trata do regime da posse propriedade e demais direitos reais.viviam no país Z e lá permaneceram a viver e actualmente vivem no país R. com o qual apresentem alguma conexão. é que no limite. que é o da harmonia internacional de julgados. Para além disso esta orientação jurisdicionalista tem ainda uma outra desvantagem. por exemplo se uma acção for intentada em tribunais portugueses que o tribunal português vá aplicar a mesma lei que por exemplo um tribunal italiano aplicaria se a mesma acção fosse apreciada em tribunais italianos. alguma ligação. as partes têm confiança na aplicação de que lei? da lei de um dos países. se esta questão por alguma razão está agora a ser discutida em tribunais portugueses a lei material portuguesa não teve nenhum contacto com a constituição da situação e por isso nesta hipótese a aplicação da lei material portuguesa iria até contrariar a própria tutela da confiança das partes. Uma outra desvantagem ainda desta orientação prende-se com o seguinte facto. que não se alcança se cada estado aplicar a sua própria lei material. portanto esta solução propicia o foro shopping. se cada estado aplica-se a lei material desse mesmo estado então o que é que os demandantes iriam fazer.

para território português. convém. o exemplo que eu dei na última aula. é que em algumas situações. isto relativamente à orientação jurisdicionalista. por exemplo em matéria de obrigações contratuais. as regras de trânsito. essa solução acabou por cair. parece me que fosse talvez um bocadinho forçado.matérias isso é admissível. quer tenham também por objecto situações puramente internas. estar a querer aplainar os valo de todos os povos. teria de se saber em que casos se aplicavam. “ atenção mesmo que venham conduzir para cá. mesmo porque nós também vimos na aula passada. exemplo. ou seja. uma vez que o direito reflete os valores que subjazem às sociedades Página 13 de 221 . faz favor de respeitar as nossas normas de trânsito. continuo a não ser. e aqui consequentemente o exercício da su própria soberania tomar as opções de política legislativa que considerem mais adequadas e portanto vai sempre caber a cada estado a decisão de tomarem a orientação que vai ser seguida. que as regras jurídicas que estão em vigor numa determinada sociedade. no caso das regras de trânsito. do código civil europeu. é a orientação substancialista. Agora cabe também a cada estado num âmbito das políticas legislativas que cada estado adopte. é muito vantajoso Portugal dizer. mas isso seria outra história. mesmo que europeus temos muitos pontos em comum. Tudo isto também sem prejuízo de um ponto que importante desde já sublinhar. e de facto se se aplicasse sempre a lei material do foro tal possibilidade de escolha não seria admissível o que conduziria aqui a um retrocesso na liberdade de acção da pessoas. que era de um código civil europeu. condutores britânicos. mas aí teríamos uma solução substancialista. não sei se se recordam há uns anos. aqui iríamos dizer que a regulação das situações privadas internacionais deveriam sempre de resultar de normas ou princípios que facultem directamente a respectiva disciplina material. mas temos outros que nem tanto. o que é que se iria exigir com esta orientação? exigir-se-ía. é de facto muito vantajoso que cada estado possa determinar a aplicação das suas próprias regras. Passemos então a uma segunda orientação. num determinado ordenamento jurídico reflectem os valores dessa mesma sociedade. quer tenham sido especialmente criados para o efeito. ou de pelo menos algumas das suas próprias regras.” portanto de facto em algumas situações nós temos mesmo de no foro aplicar as suas próprias regras. eu nunca fui fã desse projecto. que fossem constituídas que existissem regras materiais que regulassem as questões privadas internacionais. as normas que estão em vigor em Portugal. essa opção vinha beber a esta orientação substancialista porquê? o que é que se conseguia? conseguiam-se regras materiais que estavam plasmadas nesse código civil europeu e essas regras materiais resolviam-se directamente estas questões. portanto. actualmente este é um projecto que não se ouve falar muito dele. e não se ponham a conduzir no sentido oposto da estrada.

na adopção de textos que sejam aplicados especificamente nas situações privadas internacionais por exemplo na altura da Checoslováquia chegou a ser adoptado um código do comércio que seria aplicado apenas nas relações privadas internacionais. mas esse projecto caiu era só para percebermos a ideia dessa orientação substancialista. mas as orientações variam. douvos ainda outro exemplo este em vigor em Portugal a lei uniforme das letras e livranças ou lei uniforme dos cheques. nunca se consegue uma regulação completa de todas as matérias. aquilo que na verdade vamos ter é uma manta de retalhos. um outro exemplo também desta noção substancialista poderia também consistir. porque vamos ter determinadas regras que vão regular certos aspectos da vida em sociedade mas que não regulam tudo. por exemplo há a convenção das nações unidas sobre os contratos de compra e venda internacional de mercadorias a famosa convenção de Viena de 1980 que ninguém entende por que é que Portugal ainda não ratificou mas. sobretudo teve desenvolvimentos nos anos 60 essencialmente na altura pela mão de de dois autores Goldman e Schimipel estes autores acabaram por rebuscar a lex mercatoria entendendo aqui. ainda com respeito a esta orientação e atendendo às dificuldades que se encontram aqui dos estados legislarem. e aqui esta orientação substancialista também acaba por não consagrar por si só uma solução para o caso. o que se trata é na verdade de regime material que está em vigor em diversos estados e é a a mesma lei e no caso até é aplicado quer em situações internas quer em situações internacionais. seguramente já ouviram falar dela. esta lei remonta ao direito romano posteriormente veio a encontrar grande desenvolvimento na idade média e mais recentemente a doutrina da lex mercatoria surgiu no séc XX falando se já da nova lex mercatoria. um dia chegamos lá. encontramos outros diplomas que estão em vigor em Portugal. teríamos sempre de saber quando as aplicávamos ou não. mas no fundo entendendo como regras que resultam do próprio costume das práticas que se foram desenvolvendo no comércio Página 14 de 221 . há aqui uma questão óbvia. Outra possibilidade desta tese ambiciosa consiste em por exemplo celebrar convenções internacionais em que determinadas matérias ficam reguladas materialmente. encontramos nesta convenção regras materiais que regulam a compra e venda internacional de mercadorias temos aqui uma manifestação desta orientação substancialista. por mui que exista um esforço pelos estados no sentido de celebrar convenções que regulem materialmente determinadas matérias. Agora voltamos sempre à mesma questão. e assim como nós encontramos esta convenção. além do mais todos os estado assinam estas convenções elas não estão em vigor em todos os estado.então essa unificação iria pôr isso em causa. e por isso nós vamos também encontrar dificuldades que são inerentes `formação quer por via legislativa quer por via convencional de regras materiais dirigidas à regulação das situações privadas internacionais. importa também falar aqui da lex mercatoria.

das regras que forem designadas pelas partes. ou seja esta tese minimalista vem considerar a que a lex mercatoria não constitui uma ordem jurídica autónoma e eu atrever-me-ia a dizer que a maioria da doutrina é assim que a entende. para outros também se poderia incluir nesta lex mercatoria inclusive as regras que resultam das próprias convenções internacionais que foram adoptadas pelos estados. é que uma vez mais na lex mercatoria.internacional. determinadas Página 15 de 221 . mas se a lex mercatoria depois não regula determinados aspectos. porquê? porque imaginem que é aplicado a um determinado contrato a lex mercatoria. mas a verdade é que quando tentamos definir o que é a lex mercatoria vamos encontrar grandes dificuldades. autónoma relativamente ao quê? relativamente aos próprios direitos estaduais. de algumas lacunas. Segundo a tese minimalista a lex mercatoria poderá exercer quanto muito uma função complementar do direito dos estados. podemos dizer em temos amplos que se prende. esta lex mercatoria acabou por fazer eco essencialmente nos tribunais arbitrais constituídos sobre a égide da câmara de comércio internacional. A tese maximalista acaba por assumir a lex mercatoria como uma verdadeira ordem jurídica autónoma. que a lex mercatoria não constitui uma ordem jurídica autónoma no entanto ela pode ser relevante como tendo uma função complementar dos direitos nacionais. Agora de facto quem vier a adoptar uma concepção maximalista vai encontrar um problema muito significativo. para alguns autores a lex mercatoria seria essencialmente apenas composta pelas regras consuetudinárias as práticas os costumes desenvolvidos pelos comerciantes no âmbito do comércio internacional. Portanto a lex mercatoria epresenta como uma das dificuldades esta incompletude que pode depois também gerar insegurança. que são desenvolvidos pelas boas práticas no âmbito do comércio internacional. isto em sentido mais amplo. e que poderia ser também alternativa deste direitos estaduais. no fundo tem a ver com a ideia que a lex mercatoria tem autonomia suficiente de modo a que se possa de facto falar de uma ordem jurídica autónoma. pelos tribunais arbitrais porque existe realmente uma maior flexibilidade na aplicação da lei. conseguimos encontrar alguns conjuntos de regras que têm uma coerência interna. por exemplo a convenção de Viena1980 apesar de não estar em vigor em Portugal. remos encontrar por assim dizer “ilhotas” destes conjuntos de regras e não temos nem sequer todos os problemas que se prendem do âmbito do comércio internacional regulados pela lex mercatioria. uma minimalista e outra maximalista. ou que a lex mercatoria é composta pelos usos pelos costumes. eventualmente até. E aqui como pode ser esta lex mercatore ser relevante? pode ser relevante na interpretação de algumas regras ou na integração. segundo alguns autores poderá ser relevante na medida em que pode ser entendida como parte integrante desta lex mercatoria. e podemos desde logo distinguir duas orientações principais.

mesmo para quem adopte esta concepção que não é a maximalista. ao mesmo tempo consegue-se segurança jurídica. mas podem para além de dizer : aplica-se a lei francesa. por exemplo no âmbito do regulamento Roma 1 e o Roma 1 é aquele regulamento europeu que nos permite determinar quel é que é a lei que vai ser aplicada em contratos obrigacionais. Quando se fala em lei está-se a falar de lei de um estado. pode ser relevante nomeadamente no âmbito da arbitragem internacional. Mas pode a lex mercatoria ser relevante. que é exactamente a que eu adopto. ou seja na parte em que as normas imperativas francesas não imponham um determinado regime as partes poderão por referência material aceitar que certas parte do seu contrato sejam reguladas por regras da lex mercatoria. que as situações estejam a ser reguladas ou decididas por tribunais estaduais. e no âmbito desse regulamento existe uma regra que é o artigo 3º n. a orientação aqui vai no sentido que não. sublinho.º1 que diz “As partes podem escolher a lei que vai ser aplicável ao contrato obrigacional” quando se diz aqui que as partes podem escolher a lei que vai ser aplicável a pergunta que se pode colocar é: então e as partes podem escolher a lex mercatoria para regular o contrato. mas podem dizer imaginese no que respeita às questões aos problemas que se colocam com alteração das circunstâncias chamada clausula de artship. Portanto acaba por haver uma certa complementaridade consegue se aproveitar o que há de bom na lex mercatoria porque. porque existe uma lei estadual que será aplicável sempre também as esses casos.questões nós vamos ter de determinar como é que essas questões vão ser reguladas e a lex mercatoria por si só não vai dar resposta. o que se consegue aqui? consegue -se certeza e determinação do regime para ser aplicado àquele contrato será aplicado por isso lei material francesa mas na pare em que a lei material francesa o permita. ou mesmo que não estejamos no âmbito da arbitragem internacional. ( considerando 13 são aqueles considerandos que estão antes dos artigos dos regulamentos) admite-se que possa ser incorporado no contrato algumas regras que não são de fonte estadual. mais especificamente podem dizer nós queremos que esta parte seja regulada pelos princípios uni droit. As inseguranças ou incertezas que se prendem com a lex mercatoria pelo facto desta lei não abranger todo o regime material que poderá ter e ser Página 16 de 221 . a lex mercatoria tem grande vantagens. quer dizer que as partes vão ter sempre de determinar qual é que é a lei estadual que irá regular o contrato. esta lei ainda assim para mim parece-me relevante. todavia e conjugando este artigo 3º nº1 com o considerando 13. que já veremos que é isto. nós queremos que esta parte do contrato seja regulada pela lex mercatoria. não podem escolher SÓ a lex mercatoria para regular o contrato. existem regras que estão incluídas no âmbito da lex mercatoria que são de extraordinária riqueza técnica e cientifica e são de aproveitar . o que é que isto quer dizer.

imagine-se impossibilidade do cumprimento. por isso o exemplo que vos dei que se as partes nada disserem no âmbito de várias matérias. em que vamos encontrar aí o próprio regime dos contratos estas regras foram elaboradas por académicos por especialistas no âmbito de direito de vários estados conseguiram incluir nesses princípios aquilo que entenderam que seriam “créme de la créme” no âmbito do contratos. agora devíamos também e é fácil concluir que pela orientação substancialista não vamos conseguir resolver todos os problemas que se colocam desde logo porque as várias regras materiais que existem poderão ser lacunares. mas aí está especificamente indicado. tudo isto é verdade e atendendo a esta realidade que alguns doutrinadores e alguns especialistas internacionais vieram redigir algumas regras tentando compilar nas principais orientações internacionais que eram seguidas em certas áreas. que nos permita determinar que é a lei aplicável quando nós temos uma determinada situação privada internacional que está em contacto com mais do que um ordenamento jurídico. não são principio. não nos võ dar a resposta material ao problema. não há propriamente um estado que os imponha.eventualmente relevante e podemos encontrar regras muito lacunares e até porque podemos encontrar conjuntos de regras que são coerentes entre si. mas o que a norma de conflitos nos vai dizer é qual é que vai ser a lei material que nós vamos aplicar. e é assim por exemplo que vamos encontrar os princípios uni droit aplicados aos contratos internacionais. e por isso as partes só vão recorrer a eles se assim o entenderem. ou alteração das circunstâncias o contrato poderá ser regulado nessa matéria pelos principio unidroit. mas encontramos apenas alguns grupos e não encontramos depois uma codificação. o que nos irão dizer é que é que será a lei materal de que estado vamos aplicas para resolver a nossa situação e aqui não temos problemas de lacunas. no qu respeita a estas normas de conflitos nós podemos encontrá-las em fontes diversas. se a lei material desse país tem lacunas ou não. no fundo tentando aproveitas o que há de bom nesta orientação. não se deixem enganar. qual a vantagem? as normas de conflitos. isso já é outra histórias. Outro exemplo para além dos principios unidroit são os draft common frame of reference também vão encontrar regras que foram elaboradas dentro do mesmo espirito. os principios unidroit. em convenções de unificação de direito Página 17 de 221 . ou outro método melhor dizendo. e são regras que estão muitíssimo bem elaboradas. que estão tecnicamente fantásticas. porquê? porque a norma de confli vais nos indicar as normas de um dterminado país. mas com isto no que respeita a esta orientação substancialista podemos também ir buscar pedacinho a esta orientação. e é por isso que atendendo então às fragilidades dos dois métodos anteriores. eles não são vinculativos. que nós vamos propor uma outra solução. Quer os principio unidroit quer o draft common frame reference não são obviamente fonte de direito. são verdadeiras regras. E a forma que nós temos de o fazer é recorrendo às normas de conflitos.

internacional privado por exemplo vamos encontrar convenções internacionais. e no artigo 14 a 24 iremos encontrar normas de direito internacional privado mas que não são normas de conflitos. nós não vamos encontrar nem convenção internacional nem regulamento europeu que nos resolva a questão. outro exemplo. aplica-se para podermos determinar qual a lei material que vamos aplicar para resolver uma situação plurilocalizada. no dec. por exemplo em matéria de capacidade para contrair casamento. Itália frança todos este países. uma vez que lá vigora este regulamento europeu vão aplicar esta mesma regra.lei 7/2004 a mesma coisa e vamos encontrando em vário diplomas normas de conflitos. vão regular o contrato pela lei que for escolhida pelas partes. nós queremos saber qual a lei que se aplica para determinar a capacidade para contrair casamento de uma determinada pessoa. Espanha. existem diversas convenções da AIA em que nessas convenções que foram ratificadas por diversos estados aquilo que existe são normas de conflitos. será em principio aplicada a lei de um estado que apresente alguma conexão com a Página 18 de 221 . aí recorremos a quê? à normas de conflitos de fonte interna. por exemplo nas clausulas contratuais gerais há normas de conflitos. no regulamento Roma 1. mas como são esta regras elaboradas? quais são os critérios subjacentes? primeiro os valores que já vimos na última aula. o que é que nós temos? quer a situação esteja a ser colocada em Portugal. para além disso de acordo com a doutrina clássica é a localização espacial das situações que nos vai dar um dos critérios que pode ser o critério principal. para além disso vamos encontrar também em vários diplomas avulsos normas de conflitos. é assim que se consegue esta unificação. estão previstas no CC mais especificamente no artigo 25 a 65. mas uma situação que se prende com obrigações contratuais. se tivermos vários estados que tiverem ratificado esta convenção o que vai acontecer? quer a questão seja colocada no país A. basicamente teremos a lei a aplicar para regular um determinado contrato obrigacional. Todavia e apesar de termos convenções internacionais e regulamentos europeus. que qual vai ser a consequência vai ser que os estado que ratificaram vão todos ele aplicar aquelas mesmas normas de conflitos? porquê? porque é aquela mesma convenção que é aplicável a todos. nem sempre nós vamos encontrar nas convenções internacionais e regulamentos europeus a resposta a todas as questões. com excepção da Dinamarca. ou seja. imaginem que por exemplo temos uma convenção internacional que em matéria de direito ao nome é aplicável a lei da nacionalidade.B ou C todos eles vão aplicar em matéria de direito ao nome a lei da nacionalidade da pessoa. este regulamento está em vigor em todos os estados membros da UE. ou seja. os regulamentos europeus de facto aquilo que vão fazer é esta unificação no âmbito do direito de conflitos. neste caso o que nos diz o regulamento Roma 1 ? por regra é aplicável a lei que for escolhida pelas partes. Estas normas de conflitos que nos vão indicar? qual a lei que vai regular uma determinada situação jurídica.

ou seja. o país da nacionalidade da pessoa ou do nubente. e basicamente aqui savigny colocou questões importantes. É claro que esta ideia tem subjacente um principio que já vimos na última aula. IXX.situação e por isso vamos encontrar normas de conflitos que dizem o quê? por exemplo em matéria de capacidade para contrair casamento é aplicável a lei da nacionalidade o que é que nós temos aqui? a conexão com um determinado momento espacial. Internacional Privado ele escreveu no oitavo volume da sua obra o sistema do Dto. que é o principio da igualdade entre os vários ordenamentos jurídicos ou seja que as varias leis são iguais entre si e é tão legitimo aplicar lei material portuguesa. o método da conexão porquê? porque conecta uma determinada situação com um determinado ordenamento jurídico. por exemplo. porquê? porque todos partilhávamos desta comunidade de Direito. Depois aquilo que se conseguiria partindo desta ideia era encontrar o normas Página 19 de 221 .Ou seja ele partia do pressuposto que entre estas havia uma comunidade do Direito. e portanto o que é que estas normas de conflitos vão dizer? vão permitir fazer a ponte por assim dizer. a lei do estado onde o imóvel se encontra situado. essa comunidade de Direito o que é que tinha em comum? determinados valores e princípios que eram comuns a essa comunidade de Direito. posse propriedade e demais direitos reais. vamos aplicar a lei material espanhola para regular a situação. Romano actual ele tratou especificamente do assunto dos conflitos de leis no tempo e no espaço. temos de ter em atenção que isto era séc. artigo 46 o que é que diz? que se aplica a lei de onde o imóvel está situado. aquilo que nos interessa é no espaço. foi o autor mais importante no âmbito do Dto. e por isso seria um pouco indiferente se uma determinada situação estivessemos a aplicar a lei francesa a lei a alemã ou a lei espanhola . E reparem será aplicável a lei da nacionalidade independentemente do teor material desta norma. e quando falava em nações civilizadas ele estava a falar mais concretamente em estados ocidentais. Civ.civ. o problema que nós temos. nestas normas de conflito nós não estamos para já a atender ao que diz o teor material das normas. Este método remonta a Savigny. a única coisa que estamos a ver é uma determinada localização. em matéria de posse propriedade e demais direitos reais? é aplicavé nos termos do artigo 46º do Cód. por exemplo capacidade para contrair casamento artigo 49º do cód. lei material espanhola ou alemã. ele partia do pressuposto que entre as nações civilizadas. Esta é a essência do método conflitual que também é chamado o método da conexão e é este o método que foi essencialmente adoptado pelo legislador Português. entre um determinado problema. o imóvel está situado em Espanha. Primeira: Qual o fundamento de aplicação da lei estrangeira? podemos ou não podemos aplicar lei material estrangeira? Qual é que é o fundamento para aplicar lei material estrangeira? e o fundamento prendia-se aquilo a que ele chamava a comunidade do Direito. e dizem-nos que a lei que vai regular esta situação será alei da nacionalidade e será essa mesma lei que irá regular o caso.

é uma norma de conflitos bilateral. em contraposição à regra de conflitos unilateral. o Tribunal português teria tanta confiança em aplicar a lei material portuguesa. mas basicamente a ideia que está subjacente é uma ideia de fungibilidade entre as várias ordens jurídicas ou de confiança na aplicação de outra lei que não a do fori. e tínhamos visto que… tínhamos falado do Savigny e tínhamos visto que. era que.que permitissem o principio da harmonia internacional de soluções. e que era. independentemente do país onde a questão estivesse a ser apreciada que a lei aplicável fosse sempre a mesma. no fundo entendendo que. Exemplo: art. segundo o que Savigny defendia. uma ideia de igualdade entre as leis dos vários Estados. tanto pode determinar a aplicação da lei material do foro como a lei material estrangeira. Tínhamos visto que subjacente a este problema estava a ideia da comunidade de direito. mas regra de conflitos bilateral é uma norma de conflitos que irá resolver o problema de determinação da lei aplicável a uma situação plurilocalizada e que. claro que quando falava desta base de direito estava a falar dos ordenamentos jurídicos ocidentais como por exemplo o nosso.46º do CC. A regra de conflitos bilateral. existem normas de conflito que são aquelas que vão permitir determinar qual é a lei material aplicada. esta é a ideia base para nós determinarmos que é que é a lei aplicável. de acordo com o método conflitual. Teórica de 26/02 (Ricardo Damas) Tínhamos ficado na conexão. Portanto. e é justamente esta paridade de tratamento das leis que está na base deste modelo. esta é a ideia que está subjacente. Por exemplo. que é proposto por Savigny e este modelo que nós dizemos que é o modelo conflitual ou método conflitual tem por base a regra de conflitos bilateral. O que é que esta norma nos diz? ARTIGO 46º (Direitos reais) Página 20 de 221 . no fundo existia uma comunidade de direito que tinha uma base comum. como a lei material alemã ou a lei material francesa ou italiana.

determina que as leis relativas ao estado e capacidade das pessoas aplicam-se aos franceses. e por outro lado as normas de conflitos unilaterais. podemos ainda. As normas de conflitos unilaterais. são aquelas que apenas determinam a aplicação da lei material do foro. por exemplo. No fundo temos. Este art. se a coisa se encontrar situada em Espanha. e por isso. para resolver um problema qualquer de capacidade de um cidadão espanhol? E este é o problema das normas de conflitos unilateral. Está limitado o seu campo de aplicação no espaço. é uma norma de conflitos bilateral. estas normas materiais serão apenas aplicadas aos cidadãos franceses.46º CC. temos uma norma de conflitos que é uma norma unilateral. ela apenas delimita o campo de aplicação no espaço da norma material do foro. por contraposição às bilaterais. (Depois ainda vamos desenvolver as várias multiplicidades de normas de conflitos). Então como é que os tribunais franceses… qual é a lei que será aplicada. se a coisa se encontrar situada em Itália. normas que são puramente Página 21 de 221 . ela tanto pode determinar a aplicação da lei material do foro. Depois. mas este é o problema da norma de conflitos unilateral.3º nº3 do Código Civil francês. elas não resolvem esse problema. propriedade e demais direitos reais. nós podemos fazer aqui uma distinção entre estas normas de conflitos bilaterais. nós vamos encontrando diversas correntes. Por exemplo: o Art. é definido pela lei do Estado em cujo território as coisas se encontrem situadas. vamos encontrar. aplicamos a lei material italiana. mesmo que residam no estrangeiro. como a lei material de um outro Estado estrangeiro. O regime da posse. Agora podem perguntar. diferenciar as normas de conflitos quanto à atendibilidade do resultado material da aplicação de uma determinada lei. Os franceses resolvem (depois vamos ver). aplicamos a lei material espanhola. aplicamos a lei material portuguesa.1. porque ela apenas está a dizer qual é que é o campo de aplicação no espaço da norma material francesa. a norma material francesa que trata da capacidade e temos uma norma de conflitos unilateral que diz que. Dentro desta datação metodológica.46º por um lado. e não resolve todos os problemas. por exemplo. mas desde já. o art. Então. Se a coisa se encontrar situada em Portugal. por exemplo.

podemos encontrar normas de conflitos que são mais rígidas. Portanto. a validade formal de um testamento. se nós chegarmos à conclusão por aplicação das normas de conflitos… temos um problema. não prejudica a relevância que eventualmente pode ter a lei do foro. que é aplicável a lei que apresentar uma situação de conexão mais estreita e esta acaba por ser um conceito muito amplo e portanto. das regras que estão em vigor no foro.. se a coisa se encontrar em Espanha aplica-se a lei espanhola.46º CC lei do lugar da celebração da coisa. o art. ou a lei da nacionalidade do de cujos ao tempo da celebração. atendendo-se à autonomia da vontade das partes. Por exemplo: o art. Este papel nuclear que é desenrolado pelas normas de conflitos na regulação das situações privadas internacionais. Depois. esta é uma norma manifestamente mais flexível. vamos encontrar outras normas que têm em atenção o resultado da aplicação da lei de um ou outro ordenamento jurídico.46º “aplica-se a lei do lugar onde a coisa está situada” e não interessa o que diz a lei material do Estado onde a coisa está situada. por exemplo. atacamos a norma de conflitos e chegamos à conclusão que Página 22 de 221 . temos 4 possibilidades. Podemos encontrar normas de conflitos que dizem. a do art. por exemplo. ainda podemos ter outras normas de conflitos que se desviam deste modelo comum. E qual é que escolhemos? O artigo diz: Vamos aplicar destas quatro aquela que garantir a validade formal do testamento. E depois. ou a lei da nacionalidade do de cujos ao tempo da morte ou ainda. Em que medida? Desde logo. Por outro lado. Se a coisa se encontrar em Portugal aplica-se a lei portuguesa. mas também podemos encontrar outras que são mais flexíveis. 65º nº1 do CC.3º nº1 do Regulamento Roma I que nos diz que as obrigações contratuais são reguladas pela lei escolhida pelas partes. situação plurilocalizada. Não vamos ver se é mais favorável aplicar a portuguesa ou a espanhola. então. Nós vamos ver que (vamos estudar mais adiante) no art. a lei para onde remete a lei do lugar da celebração. por exemplo. por exemplo. o que é que se admite? Que é aplicável ao contrato a lei que for escolhida pelas partes. ou a lei do país onde o acto foi celebrado. que acabam por prescindir de um elemento de conexão espacial. Podemos aplicar.localizadoras e que elas dizem apenas aplica-se a lei. são normas puramente localizadoras. mas estas acabam por ser a excepção e não a regra. o art.65º nº1 vamos encontrar quatro (4) conexões possíveis. diz-nos qual a lei aplicável para regular a forma de um testamento. É essa lei que vai ser aplicada. Temos aqui uma norma de conflitos que é materialmente orientada.

consiste na internacionalização das fontes. no final. que está prevista no art. recorrendo-se às normas de conflitos. Página 23 de 221 . sendo que a prevalência vai ser manifestamente para o método conflitual ou da conexão. o que não significa que em algumas situações. em alguns casos não vamos encontrar normas onde também existem manifestações do método substancialista. que se designa por reserva de lei pública internacional. Outro fenómeno que se tem verificado. no fundo. Imagine-se que de acordo com a lei do país X as pessoas têm capacidade matrimonial a partir do momento em que nascem. vamos passar ao ponto seguinte.para regular aquela situação é aplicável a lei do país X. e vista esta panorâmica dos métodos. apesar de nós termos normas de conflitos que nos permitem determinar. ou seja. nós podemos dizer que o método que está presente. que está plasmado no ordenamento jurídico português é essencialmente o método conflitual. Neste caso. Portanto.. conforme eu vos fui falando dos vários métodos. fui dando exemplos de manifestações desses métodos no ordenamento jurídico português. Agora que temos presente vários métodos.22º do nosso CC. nós podemos ter de proceder a alguns ajustamentos e não aplicar exactamente aquela lei. Fontes Internacionais Antes de mais importa falarmos numa tendência que se tem verificado nos últimos anos que tem sido a codificação das questões que se prendem com o DIPrivado. no sentido de permitir os casamentos por arranjos na infância. Imagine-se por exemplo. qual é que é a lei material aplicável para regular uma determinada situação. Vamos encontrar em vários ordenamentos jurídicos esta tendência para a codificação. o que na prática nós vamos encontrar é uma pluralidade de métodos. vamos imaginar que a lei do país X é profundamente contrária aos princípios fundamentais da ordem jurídica portuguesa. acabamos por ir buscar o melhor que há em cada um dos métodos e aproveitamos o melhor possível. porque a aplicação dessa lei é profundamente contrária aos princípios fundamentais da ordem jurídica portuguesa. e a verdade é que. Neste caso. funcionaria aquilo que vamos estudar mais adiante. que está em causa um problema de capacidade matrimonial. um Juiz português não iria aplicar essa lei. Posto isto.

estabelecendo normas de conflitos. uma vez que se encontram plasmadas nessas Convenções Internacionais. sendo que isto significa que vamos encontrar Convenções Internacionais que tratam determinados aspectos de DIPrivado. Essas normas de conflitos. aplicam as mesmas normas de conflitos. a segurança. porque as pessoas contam com a aplicação dessas Convenções Internacionais. porque os vários Estados ao aplicarem a mesma Convenção. exemplo. o que permite uma maior previsibilidade na determinação da lei aplicada. é mais fácil nós conhecermos Convenções Internacionais do que conhecermos o Direito interno dos vários Estados e portanto. as normas de conflitos são iguais. a aplicação das próprias normas de conflitos vai depender do foro onde a acção é intentada. no âmbito do estado civil. se a acção for intentada em Espanha aplicam-se as normas de conflito que estão em vigor em Espanha. Há também uma outra Instituição de onde têm imanado várias Convenções de DIPrivado. Se em Portugal e Espanha vigorar a mesma Convenção. Há várias Organizações Internacionais que se têm dedicado à elaboração destas Convenções. o que vai levar à aplicação de uma determinada lei material para a resolução do caso. que é Comissão Internacional do Estado Civil (CIEC) vamos também ai encontrar várias Convenções. Se a acção for intentada em Portugal aplicam-se as normas de conflitos que estão em vigor em Portugal. vai-se conseguir uma maior harmonia internacional de julgados. por exemplo. Também vamos encontrar várias Convenções que foram celebradas sob a égide da ONU. nomeadamente no que diz respeito ao rapto parental (Convenção de Haia de 1980). que foi celebrada em Nova York em 1958. Conferência de Haia de DIPrivado tem produzido imensas normas. porque a mesma Convenção está em vigor nos mesmos Estados. então. no que respeita ao nome. Qual é a relevância destas Convenções no ordenamento jurídico interno: Página 24 de 221 .Internacionalização das fontes que resulta de diferentes vias: Existe uma tendência para adoptar Convenções internacionais em matéria de DIPrivado. Vantagem. A vantagem destas Convenções Internacionais é a de garantir uma maior uniformização entre os vários Estados no que respeita às normas de conflitos aplicáveis a uma determinada matéria. então. nomeadamente a Convenção sobre o reconhecimento e execução de Sentenças arbitrais estrangeiras. vão ser aplicadas de igual modo em todos os Estados contratantes. e se as normas de conflitos são as mesmas nos diversos Estados.

de tal modo que se falava de uma comunitarização do DIPrivado.8º nº4 CRP. nos vários Estados parte destas Convenções.8º nº2 CRP. sejam sempre aplicadas as mesmas normas de conflitos. as que estão naquelas Convenções. de modo a respeitar o mais possível o espírito destas Convenções e a uniformização da sua aplicação nos vários Estados. desde que tal esteja estabelecido nos respectivos Tratados constitutivos. determinou-se que as coordenadas relativas à cooperação judiciária em matérias civis. as normas constantes de Convenções Internacionais. agora fala-se na europeização do DIPrivado. este vamos abordar no ponto seguinte e que tem algumas especificidades.Sabemos que. Aqui. se tivermos Convenção Internacional não vamos aplicar as normas de conflitos de fonte interna. no art. No que respeita ao Direito da EU e das fontes do Direito da EU. se as tiver ratificado. vigoram na ordem interna após a sua publicação oficial e enquanto vincularem internacionalmente o Estado português. Depois. porque. temos a relevância do Direito da EU. A quando da assinatura do Tratado de Amesterdão a 02 de Outubro de 1997.8º nº3 CRP. Há aqui também uma outra questão muito importante. as normas que são imanadas dos Órgãos competentes das Organizações Internacionais de que Portugal seja parte. foram deslocadas do 3º Pilar (âmbito intergovernamental. cada vez mais. o Direito da EU tem uma importância muitíssimo significativa no âmbito do DIPrivado. que entrou em vigor em Maio de 1999. por força do art. também as regras destas Convenções têm de ser interpretadas da mesma forma em todos os Estados. então. também vigoram directamente na ordem interna. Sabemos também que. Esta Convenção está em vigor em Portugal e fornece-nos os cânones hermenêuticos sobre os quais se deve fazer a interpretação das Convenções Internacionais. regularmente ratificadas ou aprovadas. se a ideia que está subjacente à adopção a estas Convenções Internacionais é a de que. era necessário o Página 25 de 221 . portanto. quero aqui fazer um ponto que deve de ser sublinhado nos vossos apontamentos. sob pena de sobre um mesmo texto. então elas estão em vigor em Portugal e elas vão ser aplicadas e terão primazia sobre o direito interno. Estas são Convenções que se Portugal tiver aderido a elas. eu sublinho a existência da Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados de 23 de Maio de 1969. portanto. nos termos do art. termos interpretações diferentes e esta uniformização que se pretende cairia por terra.

foi a determinação no art.c) TUE.d) TUE.8º nº4 da CRP e do TSFUE. no princípio do reconhecimento mútuo das decisões judiciais e extra-judiciais. diz por exemplo o Regulamento Roma I (trata de conflitos de leis no espaço em matéria de obrigações contratuais) neste regulamento nós vamos encontrar normas de conflitos que nos permitem determinar qual é que é a lei aplicável às obrigações contratuais nas situações plurilocalizadas. previstas no art. desde que.65º al. quem diz o regulamento 1215/2012. não existe a necessidade de transposição do Regulamento para as ordens internas. Portanto. nós vamos encontrar diversos Regulamentos Europeus que tratam destas matérias. E nos termos do art. • Regulamento Roma I – Obrigações contratuais. eles têm aplicação directa e. Isto significa que o Conselho e o Parlamento passaram a ter legitimidade para adoptarem medidas no âmbito do próprio conflito de leis. Nos termos do art. incluindo-se. podendo esta cooperação incluir a adopção de medidas que visem a aproximação das leis dos Estados membros. a adopção de medidas que visam a compatibilidade das regras de conflitos de leis e de jurisdição aplicáveis nos Estados membros. segurança e justiça. É por esta razão que actualmente. determinava-se que as referidas medidas teriam como objectivo a função da compatibilidade das normas aplicáveis nos Estados membros.65º nº2 al. determina-se que a UE desenvolverá a cooperação judicial em matéria civil que tem aplicações transfronteiriças.65º nº1 do Tratado de Lisboa. também no que respeita à cooperação judicial em matéria civil. pois. em matéria de conflitos de leis e conflitos de jurisdição. com vista a criar um espaço de liberdade.61º al.c). que o Conselho adoptaria as medidas no domínio da cooperação judiciária em matéria civil. nos termos do art. estas questões se revelem pertinentes para o exercício das liberdades europeias. A relevância desta alteração. Página 26 de 221 . Por exemplo: o Regulamento 44/2001 (trata dos conflitos de jurisdição e foi revogado pelo Regulamento 1215/2012) que nos termos do art. resulta que este Regulamento tem aplicação directa nos vários Estados membros da UE.65º TUE. isto significa que estes órgãos europeus (Parlamento e Conselho) têm legitimidade para legislar em matéria de conflitos de leis e conflitos de jurisdição.acordo dos vários Governos dos vários Estados membros) para o Pilar comunitário.

Em várias Directivas europeias nós também encontramos normas de conflitos. este órgão tem tido um labor muito intenso no que respeita à interpretação destes diplomas e a interpretação que é feita de um deles não é estanque e tem relevância na interpretação que é feita de outros. portanto. assim. portanto. vai estar) na ordem jurídica portuguesa. sendo que a diferença consiste no facto de as Directivas terem de ser transpostas para o ordenamento interno. vamos aplicar os Regulamentos por primazia do DUE sobre o direito nacional. pois. quando é feita a transposição para o direito interno o legislador terá de ter por base essas Directivas europeias. estabelecendo normas Página 27 de 221 . Para além dos Regulamentos europeus podemos relevar a importância de Directivas europeias. A mesma coisa no que respeita ao regime do time sharing. É ainda devida uma palavra ao TJUE (Tribunal de Justiça da UE). a Jurisprudência do TJUE é muito importante mesmo porque. também esse resulta da transposição para o direito interno de Directivas europeias. no entanto. Portanto. Exemplo da relevância das Directivas: A nossa lei sobre as cláusulas contratuais gerais tem normas de conflitos que resultam da transposição da Directiva europeia sobre as cláusulas abusivas.• Regulamento Roma II – Obrigações extra-contratuais. no regulamento 44/2001. todos estes Regulamentos estão em vigor (excepto o Roma V. aquilo que disse relativamente às Convenções é válido para os Regulamentos e que é o seguinte: O Regulamento Roma I é só um. se tivermos Regulamento europeu aplicável numa determinada matéria. em princípio elas não têm aplicação directa. e ele está em vigor em todos os Estados membros da UE (excepto na Dinamarca). é esse Regulamento que vamos aplicar. • Regulamento Roma V – Relevante em matéria de sucessão por morte. por exemplo. havia conceitos (obrigações contratuais ou de obrigações extra-contratuais) também no Regulamento Roma I ou o Regulamento Roma II. • Regulamento Roma III – Relevante em matéria de divórcio. vamos aproveitar a Jurisprudência do TJUE na densificação desses conceitos. nós não aplicamos as nossas normas de conflitos nessas matérias. porque o legislador europeu entendeu que era importante haver uma uniformização em matéria de direito de conflitos. verificamos uma relevância do direito da UE por via das Directivas. Portanto. as normas de conflitos que resultam desse Regulamento e não as nossas normas de conflitos. ou seja.

forem interpretados exactamente da mesma forma em todos os Estados membros da UE. tudo isto são diplomas que vamos ver ao longo deste semestre. o diploma que regula o contrato de agência.. a interpretação tem de ser uniforme e o TJUE é o órgão por excelência para nos dar estas orientações. por exemplo. Com isto encerramos o ponto das fontes e passamos ao ponto seguinte. Disposições relevantes: Art. vamos recorrer às normas de conflito de fonte interna. as normas de conflito em espacial vão do art. Só se consegue este objectivo se as regras. Relação entre o DIPrivado e as outras disciplinas jurídicas Página 28 de 221 .3º). se os conceitos que estão previstos no Regulamento europeu. o regime jurídico das cláusulas contratuais gerais (Dec. o Código das Sociedades Comerciais (art.de conflitos iguais em todos os Estados membros da UE em matéria de obrigações contratuais.Lei 7/2004).65º CC. 25º ao art. Pois se os mesmos termos fossem interpretados de diferentes formas pelos Estados. o Código dos Valores Mobiliários.14º ao art. Internas Sempre que estejamos perante uma matéria que não esteja regulada em nenhuma Convenção Internacional. para além disso também vamos encontrar leis extravagantes onde estão previstas regras de conflitos. A doutrina (não é fonte de direito) no sentido em que não é modo de criação de normas jurídicas. não esteja regulada em nenhum Regulamento europeu ou outro instrumento de fonte internacional.65º CC. A Jurisprudência em Portugal em matéria de DIPrivado é escassa. vamos encontrar ainda outras normas de conflitos que constam de leis extravagantes. mas tudo isto para dizer que. portanto. esta uniformização que é visada não se alcança. para além das normas de conflito que nós vamos encontrar no CC.

devem ou não devem de ser sujeitas à CRP. ou seja. por aplicação da nossa norma de conflitos que é aplicável lei material francesa. mas hoje. do controlo da compatibilidade das normas materiais do ordenamento jurídico estrangeiro que é acionado por força das normas de conflitos. podemos falar na incidência do DC sobre o direito dos estrangeiros. vamos começar a ver a relação entre o DIPrivado e o Direito Constitucional. se nós chegarmos à conclusão. com a nossa Constituição. nomeadamente na incidência do DC no direito da nacionalidade. Problema da admissibilidade ou não. ao crivo da nossa Constituição. à luz da Constituição do Estado de onde dimana esse direito material. Página 29 de 221 . saber se as regras e princípios constitucionais têm ou não têm alguma relevância na redacção das normas de conflito ou até na própria existência de algumas normas de conflitos. saber se nós vamos submeter a lei material estrangeira que é designada por força da norma de conflitos. vamos incidir a nossa atenção na relevância do DC sobre as regras de conflitos de leis no espaço. Portanto. ou seja. conforme à Constituição francesa. 2. por força da nossa norma de conflitos chegamos à conclusão de que é aplicável a norma do país X. a pergunta é: se nós vamos verificar se esta lei material francesa. por exemplo. Temos o problema de saber se as normas de conflitos de fonte nacional estão ou não sujeitas à CRP. ainda podemos encontrar diversos problemas: 1. é ou não. Imaginem que. Pergunta: Vamos saber se aa leis materiais do país X são ou não conforme à nossa Constituição? 3. devem ou não devem de respeitar a CRP.Com respeito a este ponto. Temos o problema da fiscalização da constitucionalidade do direito estrangeiro que é designado ser aplicável pelos tribunais portugueses. As relações entre DIPriado e o DC são muitas. até a inclusão de determinadas normas de conflitos. ou inclusive. saber se as normas e os princípios constitucionais impõem ou prescrevem ao legislador a escolha de determinados elementos de conexão. ou seja. Começando pelo 1º problema: Saber se as regras de conflito de fonte nacional. Só nesta questão. podemos falar na incidência do DC sobre o regime do reconhecimento se sentenças estrangeiras.

se estive a falar nos valores que estão subjacentes ao DIPrivado. então. as normas de conflitos. da própria redacção da norma de conflitos. porque entendia que o DIPrivado. porque há duas aulas atrás eu estive a falar nos valores que estão subjacentes ao DIPrivado. E por isso. de 25-11) Este artigo que falava da filiação ilegítima foi revogado. porque a redacção que existia antes era a de que era relevante a lei da nacionalidade (em matéria de relações entre os cônjuges) comum dos cônjuges.E aqui. portanto. por exemplo. entende que as regras de conflitos não são preceitos axiologicamente neutros. pois. Se repararem. nós vamos encontrar duas orientações diferentes: uma que no meu entender já se encontra ultrapassada (e é defendida por um autor estrangeiro cujo nome não consegui identificar) que dizia que o DIPrivado é um domínio estranho à Constituição. eram normas axiologicamente neutras e que visavam uma justiça meramente formal. (a esmagadora maioria) onde se inclui o Professor Moura Ramos. um princípio da igualdade dos cônjuges não era extensível às normas de conflitos. determina: ARTIGO 59º (Revogado pelo Dec. não tinham de ser submetidas à Constituição pois não eram susceptíveis de infringir os preceitos constitucionais. elas não deviam de ser submetidas. e na falta desta era aplicada a lei Página 30 de 221 . ora. Outros autores. o art. é também a redacção de 1977. mas se não tivessem nacionalidade comum era aplicada a lei da residência habitual. entendeu-se revogar também esta norma de conflitos. e como passou a ser contrário à Constituição.-Lei 496/77. mas explicitamente. e que estes valores. Entende que as normas de conflitos visam a realização dos valores que inspiram a própria ordem jurídica a que pertencem. Outro exemplo: o art. colocou-se entre nós com especial acuidade depois da entrada em vigor da Constituição de 1976. porque qualquer norma que permitisse esta distinção era considerada inconstitucional. É óbvio que esta é também a minha orientação. é porque as normas de DIPrivado não são axiologicamente neutras. Este problema da influência da Constituição nas normas de conflitos.52º e o art. se repararem na redacção do CC. com a CRP de 76 passou a ser contrário à CRP fazer a distinção entre filhos legítimos e filhos ilegítimos. estes princípios se exprimem na própria escolha do elemento de conexão que é relevante. nem são indiferentes aos critérios de justiça. Como eram normas axiologicamente neutras e visavam uma justiça meramente formal.53º CC.59º do CC.

Ora bem. com isto verificamos que as normas de conflitos podem. Ora. Por isso. Verificámos também ai que tinha havido uma alteração legislativa. mas podem ser contrárias à Constituição. nem residência habitual comum. Vimos outro exemplo. a conclusão que daqui retiramos é a de Página 31 de 221 . primeiro. por isso. porque feriria o princípio da igualdade entre os cônjuges. este elemento de conexão (a nacionalidade do marido) é contrário à CRP pois esta prevê igualdade entre os cônjuges. não devem. Portanto.pessoal do marido. porque de acordo com a redacção anterior se os cônjuges não tivessem a mesma nacionalidade. esta regra também foi alterada pelo facto de ser contrária à CRP que prevê a igualdade entre os cônjuges. e verificamos que tinham sido revogados pois eram normas de conflitos que respeitavam a questões que se prendiam com a diferença entre a filiação legítima e ilegítima e a CRP não permite essa distinção. Mesmo que se determinasse que nos casamentos heterossexuais era aplicada a lei da nacionalidade do marido ia estar-se a dar prevalência ao marido porque. segundo. Por isso a norma foi revogada. por exemplo. elas podem desrespeitar os princípios constitucionais. Na próxima aula vamos continuar esta matéria. as normas de conflitos não são axiologicamente neutras e elas estão sujeitas ao crivo da Constituição. se em matéria de relação entre os cônjuges determinarmos a aplicação da lei da nacionalidade do marido. um deles relativo às relações aplicáveis entre os cônjuges e o 53º relativo à determinação da lei que vai regular o regime de bens entre os cônjuges. era a nacionalidade dele que determinava qual era a lei aplicada. Na altura convidei-vos a ver o que disponham os artigos 58º e 59º. se o marido não quisesse aplicar uma determinada lei e quisesse que fosse aplicada outra. mas de qualquer forma era possível). era ele quem tinha o poder de mudar de nacionalidade para que lhe fosse aplicada uma outra lei ( claro que isto daria muito trabalho. DIP 3/3/15 Nós na última aula estivemos a ver a relação que existe entre a CRP e o DIP. Assim. era aplicada a lei da nacionalidade do marido. não se pode dar prevalência a um dos cônjuges. o disposto nos artigos 52º e 53º do CC.

na medida em que elas funcionem através da reserva de ordem pública internacional. imagine-se que se chegava à conclusão de que as pessoas podiam ser objecto de negócios jurídicos. que é do senhor professor Ferrer Correia. nem todos os princípios. se a lei material estrangeira designada aplicável deve. Porque é restritiva? Porque nem todas as regras. O que significa esta cláusula? Significa que se chegarmos à conclusão que por aplicação da norma material estrangeira à situação em apreço resultam efeitos que são contrários aos princípios mais estruturantes do ordenamento jurídico português. de facto. Já não estamos a apreciar a constitucionalidade da norma de conflitos. vem dizer que as nossas regras constitucionais só poderão ser relevantes. ser ou não sujeita às regras e aos princípios previstos na CRP. Por isso. Primeiro. o professor Ferrer Correia. Neste caso. Mas só para percebermos a ideia. já vimos que sim! A questão agora é outra. Esta questão é passível de três respostas diferentes. Este vai reconduzir esta questão da apreciação ou não da constitucionalidade da lei material estrangeira da seguinte forma: isto só pode ser relevante no âmbito do funcionamento da reserva de ordem pública internacional (nós iremos ter uma aula em que trataremos só da reserva de ordem pública internacional e iremos ver que ela está prevista em várias disposições e em vários diplomas. Agora. elas próprias de estar sujeitas à CRP e têm de ser conformes à CRP.que as normas de conflitos têm. no sentido de limitar a aplicação da lei material estrangeira ao caso. um juiz português não iria aplicar uma regra como esta porque ela seria contrária aos princípios fundamentais do ordenamento jurídico português). por exemplo em matéria de regime de bens é aplicável a lei do país X. O primeiro problema que nós vimos era o de saber se as normas de conflitos tinham ou não de ser conformes à constituição. Temos. então a aplicação desta lei material estrangeira pode ser afastada. estruturantes do ordenamento jurídico português e outras que não o são. quando o professor Ferrer Correia diz que as nossas regras e princípios constitucionais só podem funcionar como Página 32 de 221 . que estão previstos na nossa CRP integram a reserva de ordem pública internacional. o problema que se coloca aqui é o de saber se os tribunais portugueses quando vão aplicar a lei desse país X têm de submeter lei material desse país X ao crivo da nossa constituição. Destarte. regras e princípios na nossa CRP que são. ou seja. também. Por exemplo. também ela. vamos encontrar a mais restritiva. como é óbvio. quando a questão esteja a ser analisada pelos tribunais portugueses. absolutamente. passamos a outro problema que é aquele que se prende com a aplicabilidade de preceitos materiais estrangeiros que lidam com a constituição do estado do foro. Isto. Imagine-se que por força de uma determinada norma de conflitos aplicada ao caso. temos no nosso artigo 22º do CC uma cláusula de reserva de ordem pública internacional.

não se deve seguir a doutrina do professor Jorge Miranda.para evitar o fórum shopping) não podemos sujeitar sempre todas as leis materiais estrangeiras ao crivo da constituição de cada um dos estados. a uma mesma situação. sempre. que defendo. não é admissível submetermos à CRP a aplicação de todas as normas matérias estrangeiras que eventualmente sejam aplicáveis pelos tribunais portugueses. é que é defendida pelo senhor professor Jorge Miranda. assim. temos de olhar para as regras constitucionais e verificar em que medida é que elas têm um âmbito de aplicação no espaço que vai para lá dos casos em que se aplica só direito material interno. aos casos em que estejam em causa princípios que integrem a reserva de ordem pública internacional. vão tê-lo em situações. Como vemos quando é que essas normas vão ter esse âmbito de aplicação mais amplo? Em primeiro lugar. a aplicação de normas materiais estrangeiras quando estas lhes sejam contrárias. tentar que. Nesse caso. há uma norma constitucional que proíbe os despedimentos sem justa causa. mais abrangente. de facto. Uma outra orientação. que se encontra no polo oposto sendo. entende-se que. que as nossas regras e princípios constitucionais impedirão. excepcionais. é a seguinte: de acordo com ela não podemos restringir a intervenção da CRP. Por exemplo. absolutamente. invoca o artigo 204º da CRP que nos seus termos se diz que nos feitos submetidos a julgamento. Portanto. De acordo com o Página 33 de 221 . independentemente do país onde ela esteja a ser apreciada. se aplicarmos direito material interno. Ora. Para tal. Obviamente. Este vem entender que a constituição pode obstar à aplicação de direito material estrangeiro independentemente do funcionamento da reserva de ordem pública internacional. podemos afirmar que esta posição é. na medida do possível. de acordo com esta orientação. ele vai estar sempre submetido à CRP. com base no que foi dito supra. também.limite da aplicação da lei material estrangeira por via da reserva de ordem pública internacional. exclusivamente. se aplique sempre a mesma lei material . De acordo com esta posição intermédia. restritiva. não é a regra. os tribunais portugueses não podem aplicar normas que infrinjam o disposto na CRP ou nos princípios nela consignados. Uma terceira orientação ( digamos que intermédia). o professor Jorge Miranda entende. se a ideia que está subjacente ao DIP é uma ideia de harmonia internacional de julgados (ou seja. Mas por outro lado. Mesmo porque (e vai depender do principio fundamental que esteja a ser atingido) em princípio para funcionar a reserva de ordem pública internacional tem de haver alguma ligação entre a situação em apreço e o ordenamento jurídico português. Regra prevista na CRP. estaríamos a submeter à CRP todo o direito material de todos os estados que existem no Mundo. Por isso. pois nesse caso é óbvio que o objectivo da harmonia internacional de julgados caía por terra.

desde que devidamente fundamentada. quanto a esta matéria. também. a que conclusão chegávamos? Aplica-se a lei material do país X. que a constituição pode ser relevante nesta hipótese restrita que eu defendo. se chegarmos à conclusão. também. Página 34 de 221 . são normas que se querem aplicar independentemente do que determina as normas de conflitos. mais adiante vamos tratar desta categoria de normas. Vimos.professor Moura Ramos e. Posto isto. Portanto. Evita-se a aplicação. Por aplicação das normas de conflitos gerais. É óbvio que são absolutamente livres de defender qualquer outra orientação. necessariamente. Qual é o objectivo de acordo com o princípio da harmonia internacional de julgados? É que a questão. vamos imaginar que estamos perante um contrato de trabalho que é executado em Portugal. que é aplicável a lei do país X temos de ver se as normas materiais do país X são ou não conformes à constituição desse mesmo país? Aqui. temos de perguntar: esta norma apenas se quer aplicar nos casos em que a lei que regula o contrato de trabalho é a lei material portuguesa? Não. No entanto. E a terceira relação entre a constituição e o DIP. ou seja. De acordo com a lei do país X. vai ter uma actuação. que é semelhante às normas de aplicação imediata. e que a lei aplicável a este contrato é a lei do país X. não é necessário justa causa para haver despedimento. Na maior parte dos casos vamos ter situações em que a reserva de ordem pública internacional vai funcionar e resolve-nos o problema. temos de apreciar qual é que é a vontade de aplicação destas normas (Só vos estou a dar este exemplo porque é o único que me ocorre e que possa funcionar sem ser. Basicamente é isto. não funcionaria. da lei de um estado que é inconstitucional à luz desse mesmo estado. Ou seja. No fundo. é aquela que se prende com a aplicabilidade dos preceitos materiais estrangeiros que sejam incompatíveis com a constituição do próprio país de onde emanam essas normas materiais. Esta regra também tem vontade de se aplicar nas hipóteses em que o CT esteja a ser executado em Portugal. Lima Pinheiro. pela reserva de ordem pública internacional). ela funcionaria como limite autónomo à aplicação do direito material estrangeiro. tínhamos de delimitar este âmbito espacial da norma como fizemos. Chegados aqui. esta tem de ser conforme à constituição. um funcionamento. o princípio da harmonia internacional de julgados dá-nos resposta. esta norma visa aplicar-se para lá dos casos em que se vise apenas aplicar lei material portuguesa. mas. no estado do foro. A constituição pode também ser relevante no sentido de limitar a aplicação de lei material estrangeira. que vamos ver. já vimos que as regras e princípios constitucionais são relevantes no que respeita à própria norma de conflitos. No caso visto supra. por aplicação das nossas normas de conflitos. Assim. Ou seja. uma vez mais. De acordo com esta regra constitucional que proíbe os despedimentos sem justa causa. temos uma regra constitucional que proíbe os despedimentos sem justa causa. ou seja.

Só assim conseguimos atingir uma harmonia internacional de julgados. tenha a mesma solução. Este é o exemplo de França. A primeira é aquela que as normas materiais estrangeiras já foram declaradas inconstitucionais. com força obrigatória geral. Neste caso vamos ter de distinguir consoante no estado estrangeiro não há um controlo da constitucionalidade das leis pelos tribunais ordinários. vamos ter de distinguir duas hipóteses fundamentais. no estado de um emanam. Teria de saber se há jurisprudência dominante nessa matéria. Ou seja.independentemente do tribunal onde estiver a ser apreciada. Ora. tinha de ver se a maioria dos tribunais tinham já considerado aquela norma inconstitucional ou se a maioria tinha entendido que aquela norma não é inconstitucional. terá de a aplicar. se no país X aquela lei é considerada inconstitucional. Se estivermos a aplicar a lei de um estado dos EUA e o juíz entender que aquela norma material é contrária à constituição norte americana poderá ou não afastar a aplicação desta lei? E consoante o que? O juiz português teria de fazer uma pergunta ao estado norte-americano. Situação diferente verifica-se nos casos em que o controlo da constitucionalidade pertence aos tribunais comuns como é o caso dos EUA. Neste caso. em que a competência para fazer o controlo da constitucionalidade das leis está reservada ao conselho constitucional. Nesta hipótese do país X. A outra hipótese que nós temos é aquela em que as normas materiais em questão ainda não foram declaradas inconstitucionais. nós vamos aplicar a lei do país X tal como os tribunais do país X a aplicam. os tribunais ordinários continuam a ter de aplicar aquela lei material. Portanto. Página 35 de 221 . Chegados aqui. com força obrigatória geral. ou seja. por exemplo em Portugal chegarmos à conclusão que é aplicável a lei do país X e esta seja aplicada como o é no seu próprio país. No fundo. a orientação que tende a ser seguida é a de que os tribunais portugueses só não iriam aplicar a lei material estrangeira se houvesse uma orientação jurisprudencial esmagadora no sentido de que aquela norma é de facto inconstitucional. Por isso. a lei ainda não foi considerada e declarada inconstitucional e nesse país os tribunais ordinários não podem fazer um controlo da constitucionalidade das leis. só poderá ser a mesma se. é óbvio que não vamos aplicar a lei material que já tenha sido declarada inconstitucional. Isto significa que se por exemplo estivermos a aplicar lei francesa e o juíz português olhando para ela pode achar que se trata de uma norma material contrária à constituição francesa mas. e se os próprios tribunais não aplicam essa lei. enquanto este não declarar que uma determinada norma é inconstitucional. então nós também não vamos aplicar. como ainda não foi declarada inconstitucional pelo conselho constitucional.

Portanto. já está afastada. vamos encontrar várias normas de conflitos que constam de convenções internacionais e estas são constituídas por esta via. O DIPúblico. em bom rigor. essencialmente. Por exemplo. o direito de conflitos acabava por servir de certa forma para estabelecer algumas fronteiras no que respeita à própria soberania dos estados. relação entre DIP e o direito do comércio internacional. Não está a abrir nenhuma brecha na sua soberania. se estivessem em causa questões de soberania. de certa forma. a abdicar da sua soberania permitindo que o direito material estrangeiro fosse aplicado. Depois. O primeiro. Vamos ter de aplicar a lei material estrangeira tal como ela é aplicada pelos seus próprios tribunais. terminamos a relação entre DIP e a constituição. está pura e simplesmente a aplicar lei material estrangeira porque o próprio tribunal do foro está a aplicar as normas de conflitos que estão em vigor no ordenamento jurídico e que dizem que se aplica a lei material estrangeira. à relação entre o DIPrivado e DIPúblico. O estado não vê a sua soberania beliscada. Mas. O que não significa que de vez em quando não se entrecruzem. Hoje está completamente afastada. Quando falamos nas situações privadas internacionais estamos a falar das situações em que as partes actuam fora do Ius imperium. com isto. Agora. terem que ver com situações plurilocalizadas. Aqui. também de certa forma. para o TEDH (quando falamos nestes tribunais estamos a falar de direito internacional público) e assim. há aqui uma ideia que pretendo já afastar que é a seguinte: havia uma orientação doutrinária. tendencialmente. agora. nós vemos que podem existir recursos. a verdade é que o direito comercial internacional integra. Agora. Passamos. Aliás. Página 36 de 221 . próprios da comunidade internacional e que transcendem o âmbito estadual. compreende todas as normas criadas segundo o processo de produção jurídica. No fundo. No segundo. versa sobre a relação entre os estados e outros membros da comunidade internacional enquanto membros dessa comunidade internacional.Portanto. só podíamos dizer qual é que era o âmbito de aplicação no espaço das nossas normas materiais. segundo o professor Gonçalves Pereira e o professor Fausto Quadros. E. para delimitar a soberania dos estados entendendo-se que quando o tribunal de um determinado estado aceitava a aplicação de direito material estrangeiro estaria. o que quero dizer com isto é que apesar de tudo o direito internacional público pode ser relevante nas relações relativamente aos próprios privados. que entendia que o direito internacional privado servia. podemos ter privados a recorrer para o TEDH para ver as suas situações privadas tuteladas face a determinados estados. então nós só poderíamos ter normas de conflitos unilaterais. são as situações privadas que são objecto de apreciação. por hipótese. a ideia aqui é sempre a mesma. Ou seja. Têm em comum o facto de. existe aqui uma distinção muito importante que nós vamos ter de fazer entre o DIPúblico e o DIPrivado.

mas escrito em português. vamos aplicar a lei material estrangeira tal como ela é aplicada no próprio país de origem. volume I. O ponto seguinte é muito importante. áreas do direito. Este espaço sem fronteiras internas é todo o espaço que compreende o território dos estados membros da UE. normas materiais que regulam situações privadas internacionais. a UE estabelece um mercado único. Em que mediada? Por exemplo. Quando falamos neste tipo de mercado estamos a falar de uma espaço sem fronteiras internas. a liberdade de circulação é uma das traves mestras do direito da UE e só se admite que possam existir restrições a esta liberdade de circulação se Página 37 de 221 . por exemplo códigos de conduta ou em outro diplomas que não têm força vinculativa). na revista da ordem dos advogados e numa revista online. esta é um conjunto de práticas desenvolvidas no âmbito do comércio internacional (muitas delas acabaram por ser codificadas. Quando vamos aplicar a lei material estrangeira. No DIP. Ou seja. de ver qual é o conteúdo e a função das normas que existem nesse ordenamento jurídico estrangeiro. Estas influenciam muito o DIP. nº 2 de 2009. Com isto. É o que se prende com a relação entre o DIP e as liberdades europeias. (Cuadernos de Derecho Transnacional). no qual a livre circulação de mercadorias. O direito do comércio internacional contém muitas normas materiais que regulam directamente a situação do comércio internacional. terminamos este breve ponto da relação entre o DIP e outros ramos. há um artigo do professor Dário Moura Vicente que está publicado nos temas do professor. Na primeira vamos ter de estudar essa questão específica à luz dos parâmetros mais gerais que organizam esse mesmo sistema jurídico. A última serve para quando nós quisermos saber especificamente um problema que se está a colocar nesse ordenamento jurídico estrangeiro. como vimos. precisamos de conhecer o direito material estrangeiro. tendencialmente. Relação entre o DIP e o direito comparado. vamos ver que esta é uma matéria importante. quando falei da lex mercatoria. Antes que me esqueça. o método adoptado é o das normas de conflitos. Relação entre o DIP e as liberdades europeias. que vamos dar mais adiante. elas são lacunares e não conseguem estabelecer um regime completo. Acresce que estas regras do comércio internacional. espanhola.essencialmente. A verdade é que. de facto. dos serviços e dos capitais é assegurada. Em matéria de qualificação. Aí vão encontrar um artigo muito interessante que tem esta matéria desenvolvida. Devemos fazer uma distinção entre macro -comparação e micro – comparação. O artigo 23º do CC determina que a lei estrangeira é interpretada dentro do sistema a que pertence de acordo com as regras interpretativas nele fixadas. Por isso. das pessoas. vamos de facto precisar do direito comparado. precisamos de o interpretar. não regulam todos os problemas que se suscitam no direito internacional. como vimos. Em primeiro lugar.

Este decide vender os seus sabonetes para todos os estados – membros da UE. Produz os sabonetes em Portugal de acordo com as regras vigentes em Portugal e a seguir vai exportá-los para todos esses países. em que várias pessoas morreram por causa de uns pepinos que aí eram consumidos. das pessoas. inclusive.Vamos imaginar que temos um produtor. etc. prestar serviços.estiverem em causa exigências imperativas que visem. E o problema que nós temos é o seguinte: é verdade que existe liberdade de circulação mas nem todos os estados – membros têm leis iguais. estamos a falar não apenas nos pepinos que são vendidos de Espanha para a Alemanha. se vende para itália. Mas podemos ter aqui um problema. o que vai existir? Liberdade de circulação. Página 38 de 221 . se não estiver em causa problemas de saúde pública. por exemplo. idem. salvaguardar a saúde pública. salvo erro. Houve um limite ao exercício da liberdade de circulação porque estava em causa um problema de saúde pública em que tinha. pode ou não traduzir-se em limites à liberdade de circulação? Vou dar-vos dois exemplos. de prestação de serviços. Então e essa diversidade de leis materiais aplicáveis. E têm de o poder fazer sem restrições porque senão estas liberdades deixam de existir. Portanto. morrido gente. E nós dizemos. ou de segurança ou o que seja. vender os seus bens para qualquer outro país. um relativamente a bens e outro a pessoas: 1. em Portugal. dos cidadãos dos estados-membros da união europeia que se podem fixar em qualquer país desta união. Se os estados de cada um dos países para onde ele exporta os sabonetes exigirem que este produtor respeite também as suas próprias regras de produção de sabonetes. Devido a essa história. pelo menos em termos abstractos: sim. porque houve uma altura em que se suspeitou que o problema era dos pepinos que provinham de Espanha. Ou seja. de sabonetes. Porquê? Porque o produtor português que está em Portugal tem de respeitar as regras vigentes de Portugal e se quer vender para Espanha também tem de respeitar as regras espanholas. Podemos ter este produtor a queixar-se de que a diversidade de leis materiais vai implicar um limite ao exercício à sua liberdade de fornecer bens para outros estados da união. e quando falamos em liberdade de circulação. mas estamos a falar. também. Não sei se recordam que há uns anos atrás houve um problema na Alemanha. o que aconteceu? Eu recordo me disto porque são situações muito raras. teremos uma limitação ao exercício da liberdade de fornecimento de bens. Ou seja se quem quiser fazer produção de um determinado bem e vendê-lo para outros estados membros da união e tiver de respeitar as regras vigentes no país de origem e no país do destino teremos uma dificuldade. neste espaço as pessoas podem circular. a Alemanha impediu a importação dos pepinos que vinham de Espanha.

de facto. Ou seja. a lei do país de origem era a lei Dinamarquesa porque era lá que a criança tinha sido inicialmente registada. Teórica de DIP 05-03-2015 (Mafalda) Página 39 de 221 . a única coisa que vai acontecer é que nos países de destino. também. ter como consequência um limite ao exercício das liberdades europeias. do nome que tinha sido dado à criança na Dinamarca implicava um limite a sua liberdade de circulação e à sua liberdade de estabelecimento.membros da UE aplicado a uma determinada situação pode. Por exemplo. mas não o da mãe. os país quiseram registá-lo. temos novamente um problema que é o da diversidade de leis materiais vigentes nos vários estados. quais são as duas propostas de solução para este problema? Segundo uma orientação considerasse que as liberdades europeias reclamam a consagração de regras de conflitos especiais. afasta-se desta. se iria reconhecer as situações tal como elas foram constituídas no país de origem. A lei material da Alemanha diz que terá de ter o nome próprio e o nome do pai. em especial a que comanda a aplicação da lei do país de origem às situações intracomunitárias. vamos continuar com esta matéria. Segundo uma outra orientação. vamos aplicar a lei material Alemã e a criança tem de ser registada de acordo com o que diz a lei material Alemã. A seguir. por exemplo no caso dos sabonetes seria onde fossem importados os sabonetes. O estado Alemão disse que se a criança era registada na Alemanha.2. de acordo com esta orientação todos estes problemas ficariam resolvidos se nós tivéssemos normas de conflitos que determinassem sempre a aplicação da lei do país de origem. Vai considerar que a tutela das liberdades europeias poderá ser respeitada se for consagrado um princípio de reconhecimento mútuo das situações constituídas no estrangeiro. Na próxima aula. Passou a ter os apelidos. a lei do país de origem seria a lei portuguesa.Vamos imaginar que temos um casal alemão que foi viver para a Dinamarca. Ou seja. Tiveram um filho e quando o foram registar fizeram-no conforme a lei dinamarquesa o prevê. Então. Este casal fez uma queixa perante o TJUE dizendo que o não reconhecimento. na Alemanha. Deram-lhe o nome do pai e o nome da mãe. No caso do Grunkin-Paul. Portanto. Porquê? Porque se tiver dois nomes diferentes terá de dar grandes explicações no aeroporto cada vez que queira mudar de país. no caso dos sabonetes. não vai necessariamente aplicar-se a lei do país de origem. na Alemanha. Grunkin – Paul.

Se nós encontramos áreas em que já existe ou uniformização do regime material. no caso da produção dos sabonetes seria Página 40 de 221 . vimos dois exemplos. se se aplicasse sempre a lei do país de origem. Aqui há uns tempos eu fiz um estudo no que respeita a publicidade nos produtos perigosos e verifiquei que praticamente a legislação nos estados membros da UE está muito uniformizada quanto a esta matéria. Porquê? Porque estando em causa uma situação privada internacional. A UE tem tido isto presente e não é por acaso que vamos encontrar legislação europeia muito significativa relativamente à qual já existe ou uniformização a nível dos estados membros (caso dos regulamentos). É que na determinação desta lei aplicável. existem outras áreas em que não existe essa harmonização ou uniformização. Porquê? Por exemplo. e aí vamos ter um problema no que respeita ao exercício das liberdades europeias e vamos ter também um problema de direito internacional privado. Ou seja. o exercício destas liberdades ficaria sempre tutelado. daqui não resulte nenhum limite ao exercício das liberdades europeias. podemos ter um problema. porque a aplicação cumulativa de leis diferentes pode limitar o exercício destas liberdades. Porquê? Porque assim se consegue que seja respeitado um único conjunto de regras em todos os estados membros. Outro exemplo que nós vimos foi a questão de um produtor de sabonetes querer vender para vários estados membros da UE. A questão que se colocaria era a de saber se ele deve respeitar apenas as leis do país onde ele fazia a produção dos sabonetes (Portugal) ou se também tinha de respeitar as leis dos países para onde ia vender esses sabonetes. Aqui.O que começamos a ver na aula passada foi que dentro do espaço da união europeia é suposto haver livre circulação de pessoas. nós vamos ter de saber qual é que é a lei que vai ser aplicada e aqui vamos ter um cuidado. de capitais ou seja deve haver esta liberdade dentro do espaço da UE. E qual era o problema? É que tínhamos leis materiais diferentes na Dinamarca e na Alemanha relativamente à composição do nome. ou harmonização desse mesmo regime material. Na aula passada. ou em que existe harmonização da legislação vigente nos vários estados membros da UE por via das directivas europeias. Vimos o exemplo da criança que tinha nascido na Dinamarca mas que os pais queriam que ela fosse registada também na Alemanha. E é por isso que nós vamos encontrar uma corrente doutrinária que considerava que a melhor forma de resolver esta questão era sempre estabelecendo uma regra que determinasse reiteradamente a aplicação da lei do país de origem. Mas a verdade também é que nos vários estados membros da UE estão em vigor legislações diferentes e a aplicação de leis diversas pode colocar em causa o exercício destas liberdades. se em todas as situações em que estivesse em causa o exercício de liberdades europeias.

Uma vez que a situação já tinha sido constituída na Dinamarca e a norma de conflitos diz que é aplicável a lei da residência habitual. Ou seja. as pessoas têm nomes próprios. no caso da produção dos sabonetes. em Portugal. elas seriam iguais nos vários estados membros da UE e aí seria indiferente aplicar a lei portuguesa. se da aplicação da lei que é designada pela regra de conflitos. apelido da mãe. Na prática. A verdade é que a maioria da doutrina tem actualmente entendido que não é necessária a aplicação de uma regra tão rígida/rigorosa e que há aqui consequências no que respeita a confiança dos vários estados. O problema foi que. Vamos dizer a estes países para mudarem as suas leis de forma a uniformizar todas as regras? Nem pensar nisso. Daí que. a norma de conflitos alemã aplicava a lei da nacionalidade. Porquê? Só poderia ser admissível estabelecer-se esta regra geral se todos os estados membros já tivessem as suas leis materiais todas uniformizadas. a questão era a mesma. essa lei pode ser aplicável a mesma desde que dai não resulte nenhuma limitação ao exercício das liberdades europeias. resultar uma limitação ao exercício das liberdades europeias. Já é mais difícil está harmonização para efeitos de composição do nome. a consequência é que a composição do nome daquela criança ia ser determinada a luz da lei alemã. nós mantínhamos as normas de conflitos tal como elas existem (e que têm subjacentes todos aqueles valores que nos vimos na nossa segunda aula). as normas em si não são contrárias ao exercício das liberdades europeias. a lei espanhola ou a lei italiana. aplicada a este caso Página 41 de 221 . depois. Por exemplo. Isto significava que independentemente dos países para onde ele exportasse. apelido do pai. há uma outra doutrina que é a doutrina que vem tentar encontrar uma solução conforme ao exercício das liberdades europeias e que vem dizer que não é necessária a aplicação da lei do país de origem. Agora estamos a falar de questões que se prendem muito com a cultura dos países e o ordenamento jurídico é suposto reflectir está identidade cultural. O problema a foi que aplicando esta regra de conflitos ao caso prático.aplicável a lei do país onde o fabricante produzia os sabonetes. não pode resultar nenhuma limitação ao exercício das liberdades europeias. Até aqui não havia nenhum problema de respeito das liberdades europeias. A única questão é que da aplicação dessa outra lei. vamos imaginar que é aplicável a lei do país do destino. porque o que está aqui em causa são questões culturais. Outro caso. Mas na Alemanha é nome próprio. Poderá ser aplicada uma outra lei. Porque se todos os estados membros da UE tivessem as suas leis devidamente uniformizadas. essa lei poderá vir a ser afastada. então a Dinamarca aplicava a lei dinamarquesa e a Alemanha aplicava a lei alemã. no caso brunkin polle (? – caso da criança da Dinamarca/ Alemanha). apelido do pai. Por exemplo. Pela lei alemã a criança só podia chamar-se polle (?). era sempre a mesma lei a aplicável. o caso da criança. porque a lei aplicável seria sempre a mesma.

Qual será o raciocínio em termos gerais? Aplicamos as normas de conflitos. aí vamos também encontrar. a lei que vai ser aplicada vai ser a lei da residência habitual do prestador de serviços. a lei aplicável aos trabalhadores. que nos diz que será aplicável a lei que as partes tiverem escolhido. Tudo isto para chegarmos aqui a conclusão de que o exercício das liberdades europeias têm de ser respeitado. isto significa que num contrato de compra e venda a lei que vai ser aplicada será a lei da residência habitual do vendedor. prendem-se por exemplo: no caso dos trabalhadores. Se as partes não tiverem escolhido a lei aplicável ao contrato. Vamos aplicar as normas de conflitos. elas vão conduzir a produção de um determinado resultado e se da aplicação dessa lei material resultarem limites às liberdades europeias. poderá essa lei não ser potencialmente aplicada.prático. No caso centrus temos dois cidadãos dinamarqueses que resolveram constituir uma sociedade comercial em Londres e depois fixaram-se novamente na Página 42 de 221 . então. porque a norma de conflitos já está pensada. atendendo ao exercício das liberdades europeias. Aqui vamos ter de ponderar não apenas o exercício das liberdades europeias. nós vamos verificar que o regulamento Roma I determina como regra geral que as partes podem escolher a lei aplicável ao contrato. daqui resultou que a lei alemã não pode ser aplicada e as autoridades alemãs tiveram de reconhecer uma situação jurídica previamente constituída a luz da lei de um outro estado membro (Dinamarca). Portanto. o art. Se do resultado da aplicação da norma de conflitos resultar algum resultado limitador do exercício das liberdades europeias. 8º do regulamento Roma I. a criança ia ter de ter dois nomes. mas que ao mesmo tempo não provém os trabalhadores da protecção que lhes é devida. Outros problemas que se podem colocar depois. então aí a aplicação desta lei poderá ser afastada e poderemos ter de reconhecer uma situação conforme ela foi constituída noutro estado. Se nós olharmos para o regulamento Roma I (obrigações contratuais). Em termos práticos. tentarmos encontrar soluções que garantam o exercício das liberdades europeias. é aplicada a lei do país onde aquele que cumpre a prestação característica tem a sua residência habitual. E aqui voltamos a ter a mesma preocupação. vamos ter de ponderar também a protecção dos próprios trabalhadores (partes mais fracas). O DIP não tem necessariamente de estabelecer regras de conflitos especiais no sentido de garantir o exercício de liberdades europeias. No caso da prestação de serviços. Vamos encontrar regras específicas que dizem que independentemente desta lei que for escolhida existem regras que devem ser sempre aplicadas aos trabalhadores. A partir do momento em que nós temos normas de conflitos que nos dizem que no caso do contrato de compra e venda de mercadorias é aplicável a lei da residência habitual do vendedor. por exemplo. nos termos do artigo 4º.

é aplicável a lei do país onde essa sociedade tem a sua sede principal efectiva. Foi o que aconteceu neste caso centrus. não a lei da sede principal e efectiva. Nos mudamos o nosso artigo 3º do CSC? Não mudamos. Há previsão da norma de conflitos também se costuma chamar conceitoquadro. É o que é que as autoridades dinamarquesas disseram quando eles se quiseram registar? Disseram que eles se tinham de registar a luz da lei dinamarquesa. Tudo isso são eles também valores relevantes que vão ser atendidos quando se elaboram as próprias normas de conflitos. As normas de conflitos não têm apenas subjacente os valores relativos ao exercício das liberdades europeias. protecção dos trabalhadores. Ou seja. propriedade e demais direitos reais. A previsão da regra de conflitos consiste na situação da vida que ela visa regular.Dinamarca. o artigo 46º/1do CC . Com isto nós conseguimos perceber qual é que é a ligação entre o DIP e o exercício das liberdades europeias. Aqui vamos ter de saber como delimitamos estas Página 43 de 221 . como todas as outras. 3º/1 do CSC que diz que por regra. Da aplicação desta lei pode resultar exigências que se considerem limitadoras da liberdade de circulação e de estabelecimento e que levem a que se aplica em matéria de estatuto pessoal. Por exemplo: protecção dos consumidores. Mas para nós determinarmos quais é que são as normas materiais aplicáveis vamos recorrer às normas de conflitos. as normas de conflitos têm um elemento extra que é o elemento de conexão. se da aplicação da lei da sede principal e efectiva. O tribunal de justiça da UE veio dizer que não estava provada a fraude e que as sociedades têm de facto a possibilidade de se constituírem num estado e depois exercer a sua actividade num outro estado. Ao que eles responderam que não porque a sociedade já estava constituída e existe liberdade de circulação e de estabelecimento na UE. As normas de conflitos devem ser analisadas na sua estrutura. outros valores sociais. uma sociedade que foi constituída a luz da lei de um outro estado membro. as normas de conflitos não podem só ser elaboradas pensando no exercício das liberdades europeias. mas sim a lei do país onde a sociedade se constituiu. em matéria de estatuto pessoal das sociedades comerciais. Ponto 9 do programa. Estas normas têm. Por exemplo. A norma de conflitos ou a regra de conflitos: Nós vimos nas últimas aulas que o método preferível para disciplinar as situações privadas internacionais consiste em recorrer às normas materiais de um ou mais ordenamentos jurídicos com os quais a situação se apresente em conexão. Todavia. uma previsão é uma estatuição. por exemplo. a autonomia da vontade. a previsão desta norma é posse. resultarem limitações ao exercício das liberdades europeias. Há outros interesses que também estão em causa. poderemos ter de reconhecer. Nós temos uma norma de conflitos no art. Para além disso. porque são essas as situações da vida que essa norma visa regular.

mas não confundir com a estatuição ( que é a aplicação dessa lei). a delimitação da previsão da norma é feita através de conceitos técnico-juridicos. ele trata especificamente da capacidade para contrair casamento. a aplicação da lei material portuguesa já é a estatuição da norma. Porque chamamos a esta previsão da norma. 1. Mas depois quando olhamos para o artigo 50º. para regular um problema de posse. situada em Portugal. Quanto a estatuição. por hipótese. Por exemplo. Se a coisa se encontrar. a aplicação da lei francesa. podemos ter normas que apenas regulam uma parcela de uma determinada situação. Na maioria dos casos. É o caso do ártico 46º. vemos que ele trata da forma do casamento. Temos aqui uma norma de conflitos que limita o Página 44 de 221 . 3º/3 do código civil francês prevê que as leis respeitantes ao estado e a capacidade das pessoas regem os franceses. A própria norma de conflitos delimita o seu próprio âmbito de aplicação. Por exemplo. Nos termos do art. propriedade e demais direitos reais é aplicável a lei do país onde a coisa se encontrar situada. mesmo que residam no estrangeiro. responsabilidade extracontratual. O elemento de conexão é o que nos permite determinar qual é a lei aplicável. ela consiste na consequência da aplicação da norma. quando olhamos para o artigo 49º. Regras de conflitos unilaterais. o elemento de conexão é o lugar da situação da coisa. E por isso nos chamou conceito-quadro. São aquelas que apenas remetem para o direito material interno do estado onde elas estão previstas. Não confundir a conexão com o elemento de conexão. Por exemplo. vamos ter normas de conflitos que regulam partes específicas de uma determinada situação. Quanto a estatuição da norma. Artigo 45º. posse. conceitos-quadro? Estes conceitos são capazes de incorporar uma multiplicidade de conteúdos jurídicos. o art. O elemento de conexão é o lugar da situação da coisa. propriedade e demais direitos reais. No artigo 49º. Não confundir a conexão e a estatuição da norma. 46º. capacidade para contrair casamento e celebrar convenções ante-nupciais. Ou seja.situações e como delimitamos a previsão da norma. nós podemos aqui distinguir três modalidades principais. ou seja. Qual vai ser a consequência? Vai ser a aplicação de uma determinada norma jurídica. propriedade e demais direitos reais são conceitos jurídicos. que é aquele que nos permite associar uma situação jurídica a um certo ordenamento jurídico. Em matéria de posse. Por exemplo. Depois. posse. aplicamos lei material portuguesa e agora sim. no fundo consiste na aplicação da lei de um determinado país. também são conceitos jurídicos. propriedade e demais direitos reais abrange uma multiplicidade muito significativa de realidades jurídicas. justamente por ter esse sentido abrangente. por exemplo. mais um conceito jurídico.

que seja subsumivel ao seu conceito quadro.âmbito de aplicação no espaço das normas materiais francesas que respeitam a matéria de estatuto pessoal. quer o unilateralismo são duas formas de a norma de conflitos desempenhar a sua função de determinar a lei material que vai ser aplicável. as normas de conflitos unilaterais são ainda normas de conexão. temos o art. Depois. aqui por analogia. porque não prevê a hipótese de casamento no estrangeiro por dois estrangeiros. 2. Depois. há um exercício importante que é. a conexão pode ser operada pela norma de conflitos e está conexão pode ser de docentes tipos : singular ou plural. quando falamos em bilateralismo e unilateralismo nós não estamos a falar de dois métodos diferentes. No exemplo dado acima do artigo 3º do código civil francês. O artigo 46º do CC determina que em matéria de posse. Normas de conflitos bilaterais imperfeitas. o casamento celebrado no estrangeiro por um português e um estrangeiro. 51º CC. só que apenas podem determinar a aplicação da lei do foro. 51º/2 CC que admite idêntica solução para o casamento celebrado no estrangeiro por dois portugueses. o elemento de conexão é a nacionalidade francesa. Esta é uma norma bilateral porque se a coisa estiver situada em Portugal. É sempre o método da conexão. A resposta será: a lei material portuguesa. porque nós termos deste artigo determina-se que o casamento de dois parceiros em Portugal pode ser celebrado segundo a forma prescrita na lei nacional dos contraentes. aplicamos a lei espanhola. mas elas só se ocupam de algumas hipóteses que apresentam com o estado do foro alguma ligação. Normas de conflitos bilaterais. Ou ainda. mas é apenas por analogia. vamos aplicar a lei nacional dos nubentes estrangeiros. Página 45 de 221 . Agora. Por exemplo. Tanto remetem para a lei nacional como para a lei estrangeira. Ou seja. Estas normas de conflitos bilaterais tanto podem determinar a aplicação da lei material do foro. propriedade e demais direitos reais. aplicamos a lei portuguesa. Por isso nós dizemos que está é uma norma de conflitos bilateral imperfeita. respeitante a posse. Mas este artigo 51º não prevê a hipótese de dois cidadãos estrangeiros celebrarem no estrangeiro o casamento. 3. mas se a coisa estiver situada em Espanha. Depois. Quer ou bilateralismo. Portanto. tornem está norma bilateral numa norma de conflitos unilateral. o art. é aplicável a lei do lugar da situação da coisa. propriedade e demais direitos reais é aplicável sempre que o imóvel se situe em Portugal. como da lei material estrangeira. Ou seja. São aquelas que indicam a lei competente para dirimir uma qualquer questão jurídica concreta que seja subsumivel à sua previsão.

mas a aplicação da segunda lei que é designada pela norma de conflitos depende da não aplicação da primeira. uma fábrica que faz despejos para um rio. Podemos ter. o artigo 36º/1 do CC vem dizer que a forma da declaração negocial é regulada pela lei aplicável à substância do negócio. Conexão alternativa. em matéria de relações entre os cônjuges. mas o rio não fica quieto no país A. mas vamos aplicar só uma lei.1) Conexão singular. V. por exemplo. A regra de conflitos consagra dois ou mais elementos de conexão. art. os danos podem produzir-se no país B. Aqui determina-se que o demandante pode optar por basear o seu pedido na lei do país onde ocorre o dano ou pode optar pela aplicação da lei do país onde ocorreu o facto que deu origem ao dano. IV. a lei que é aplicada à substância do negócio. Conexão acessória. 52º. II. Se os cônjuges não tiverem nacionalidade comum. Este artigo vem dizer qual é a lei aplicável em matéria de danos ambientais. 65º/1 CC. art. Por exemplo. 46º do CC. Conexão subsidiária. determina que se aplica a lei da nacionalidade comum dos cônjuges. Página 46 de 221 . art. art. Ocorre quando a regra de conflitos remete para uma só ordem jurídica. Nós vamos aplicar à forma do negócio. Conexão simples. I. Nesta altura. Conexão optativa. A regra de conflitos confere a um determinado sujeito. III. A regra de conflitos designa duas ou mais leis. um determinado resultado que é visado pela própria regra de conflitos. dos quais funcionará aquele que permite alcançar no caso concreto. o direito de optar por duas ou mais leis designadas por outros tantos elementos de conexão. Por exemplo. Este artigo diz que no que respeita a forma das disposições por morte é aplicável ou a a lei do país onde o testamento foi celebrado ou a lei da nacionalidade do de cujus ao tempo em que fez o testamento ou a lei da nacionalidade do de cujus ao tempo da mortes ou ainda a lei do país para onde remete a norma de conflitos do lugar onde o testamento foi celebrado. Por exemplo. 7º do regulamento Roma II(obrigações extracontratuais). Por exemplo. A regra de conflitos designa uma só lei aplicável a questão. Temos quatro conexões possíveis. o rio situa-se no país A. a lei que destas quatro garantir a validade formal do testamento. A norma de conflitos manda aplicar a lei aplicável a uma outra questão que está em conexão com esta situação que vai ser regulada. ele corre para o país B. então vamos aplicar a lei da residência habitual comum. Por exemplo.

Aula DIPrivado 10 de Março Na aula passada estávamos a ver e não terminámos. em principio nos termos do artigo 31º nº1 é a lei da nacionalidade. na aula passada vimos as conexões singulares. ela manter-se-á. como contraposição. Ocorre quando a regra de conflitos remete para duas ou mais ordens jurídicas. “o estrangeiro ou apátrida não goza porém de qualquer forma de tutela Página 47 de 221 . e aqui podemos ter. a conexão simples. Na próxima aula. ou seja se tivermos uma pessoa colectiva que transfira a sua sede do país A para o país B se a lei do país A e do país B concordarem as duas que esta pessoa colectiva mantenha a sua personalidade colectiva. e restrições impostas ao seu exercício.2) Conexão plural ou cumulativa. vamos voltar a olhar para o artigo 27º do CC que diz o seguinte: “ aos direitos de personalidade no que respeita à sua existência e tutela. por exemplo o artigo 33º nº 3 do Código Civil. Vimos que as regras de conflito podiam ter conexões singulares e conexões plurais. também diferentes modalidades. vamos concluir esta matéria. aplica-se a lei pessoal. já não aplicamos o artigo 33º mas o artigo 3º do código das sociedades comerciais. e diz o 33º nº3 do CC que a transferência de um estado para o outro da pessoa colectiva não extingue a personalidade jurídica desta se nisso convierem as leis de uma e outra sede. A conexão plural. um parêntesis só. dentro das conexões singulares. Outra modalidade que podemos ter é da conexão cumulativa condicionante ou limitativa aqui temos um ordenamento jurídico que tem um papel primordialmente competente e depois temos um outro que vai ter uma função condicionante ou limitativa da produção dos efeitos jurídicos que estão previstos no primeiro. podemos ter uma conexão cumulativa simples e nesta o que temos é que para que se produzam determinados efeitos jurídicos é necessário que estes sejam reconhecidos por dois ou mais ordenamentos jurídicos. e hoje vamos então olhar para a conexão plural. à singular é aquela que ocorre quando a regra de conflitos remete para duas ou mais ordens jurídicas. portanto este (33º) é para as outras pessoas colectivas. claro. mas tínhamos ficado mais concretamente na parte relativa às conexões. a alternativa a optativa e a acessória. vamos ter de aplicar mais do que a lei de apenas uma determinada ordem jurídica. porque é uma normas especial. que trata das pessoas colectivas. a subsidiária. a estrutura da regra de conflitos. é também aplicável a lei pessoal. ou seja. temos de aplicar duas leis.” ou seja direitos de personalidade. se estivermos a falar de sociedades comerciais. mas depois diz o 27º nº 2. temos uma aplicação cumulativa.

no caso não é da prática. por exemplo o 46º nº1 que determina a aplicação do lugar da situação da coisa. caso da residência habitual comum. que é o de que a conexão não se confunde com o elemento de conexão. o artigo 45º nº1 do código civil determina “a responsabilidade extra-contratual fundada quer em acto ilícito.jurídica que não seja reconhecida na lei portuguesa. uma vez mais um elemento de conexão que consiste no lugar . e aqui também no que respeita ao elementos de conexão nós vamos encontrar vários picos de elementos de conexão. para além disso temos ainda elementos de conexão que podem consistir no lugar da prática de um determinado acto jurídico. imaginemos que à luz do país X eram atribuídos primitive damages. A conexão consiste. todos este exemplos são elementos de conexão relativos aos sujeitos sejam eles pessoas singulares ou colectivos. temos a sede principal e efectiva da administração da pessoa colectiva prevista no artigo 33º nº1 do CC. aqui temos um elemento de conexão relativo ao sujeito que está previsto no artigo 31º nº1 temos a residência habitual. portanto em principio não iríamos atribuir esses primitive damages. estes Página 48 de 221 . mas se olharmos para o regulamento ROMA II no artº 4º nº 1 determina-se a aplicação da lei do lugar do danos. temos elementos de conexão relativos aos sujeitos da relação ou da situação jurídica. Portanto neste caso a lei portuguesa vai ter uma função condicionante ou limitativa. para regular uma determinada situação. noutros casos a determinação da lei aplicável não se faz por um elemento que conecte a situação com um território. com isto terminamos então a questão das classificações das conexões. mas se a lei do país X prevê formas de tutela que a lei Portuguesa não permite. mas da consequência da prática de um determinado acto jurídico. é a estatuição da norma e aplicação da norma num determinado país. então nós não vamos admitir essas formas de tutela. aqui o elemento de conexão é o lugar da situação da coisa. a nacionalidade. por exemplo. é regulado pela lei do estado onde decorreu a principal actividade causadora do prejuízo. se nós estivermos por exemplo a apreciar uma forma de tutela de direitos de personalidade de um cidadão natural do país X a lei que se iria aplicar seria a lei do país X. por exemplo o lugar da principal actividade causadora do prejuízo. é o elemento da situação privada internacional que nos vai indicar qual é a ordem jurídica onde tende. Agora há aqui um ponto para o qual quero chamar a vossa atenção. quer num risco ou em qualquer conduta licita. portanto estes exemplo que nós vimos. uma coisa é a conexão outra coisa é o elemento de conexão. portanto o elemento de conexão. como é que nós encontramos essa lei?? através do elemento de conexão.” portanto o lugar da actuação. os primitive damages não estão previstos no ordenamento jurídico português. prevista no artigo 52º nº2 do CC. Depois vamos também encontrar elementos de conexão que são relativos ao objecto.” o que é que isto quer dizer.

ou seja. por exemplo artigo 46º do CC o conceito de posse propriedade e demais efeitos reais. lugar da situação da coisa.elementos de conexão. e os principio que referimos são também importantes obviamente na interpretação das regras de conflitos. ou seja. Quanto às normas de conflito de fonte interna aqui os principio gerais que presidem à sua interpretação são aqueles que nós já referimos nas primeiras aulas. a lei escolhida pelas partes. nós não podemos interpretar o conceito de sucessão por morte prevista no artigo 62º do CC exactamente da mesma forma como ele é previsto na Página 49 de 221 . conectam a situação com um território. o artigo 9º do código civil continua também aqui a ter relevância. determina-se que em matéria de obrigações contratuais é aplicável a lei que for escolhida pelas partes. seja essa fonte Europeia ou convencional. num caso em que estejamos perante um problema de relações entre os cônjuges se eles não tiverem nacionalidade comum. nem residência habitual comum. caso a caso é que vamos ter de ver qual é que é a lei que com a situação apresenta a conexão mais estreita. nós aqui vamos ter de fazer uma interpretação destes conceitos que não vão poder significar exactamente o mesmo que significam os conceitos homólogos que estão previstos no direito interno. e essa distinção é entre as normas de conflitos que estão integradas em diplomas de fonte interna ou em de fonte internacional. embora a interpretação das normas de conflitos. porque é que obedece a estes problemas especiais?? por exemplo quando nós vamos interpretar os conceitos quadro das normas. Posto isto passamos à questão seguinte que ainda se prende com a regra de conflitos que são as questões que se prendem com a interpretação a integração e a aplicação da regra de conflitos. obedeça a umas normas um pouco especiais. nós ainda conseguimos identificar uma conexão com um determinado lugar no espaço. no que respeita à interpretação da norma de conflitos. mas nós aqui vamos ter sempre de fazer. mas neste caso a concretização vai ter de ser feita casuísticamente. No artigo 3º nº1 do ROMA I. vamos começar por dar uma noções muito gerais que depois desenvolveremos quer em relação à interpretação do conceito de facto quer enquanto ao elemento de conexão. nacionalidade. Agora. residência habitual. ou o artigo 62º o conceito de sucessão por morte. Noutros casos como é a hipótese prevista no artigo 52º nº2 parte final do código civil. determina-se a aplicação da lei que apresenta com a situação conexão mais estreita. aqui já não temos um elemento de conexão que permita fazer uma ligação a um território. 52º nº2 parte final diz-nos que se aplica a lei que apresente a conexão mais estreita. uma distinção prévia quando falamos em norma de conflitos. aqui apesar do conceito em si ser muito amplo. ou quando vamos interpretar o artigo 49º o conceito de capacidade para contrair casamento. é a lei que fôr escolhida pelas partes.

e por isso nesta interpretação nós vamos ter de incluir nos conceitos quadro conteúdos normativos que não são exactamente aqueles que são iguais aqueles que estão previstos na nossa ordem jurídica interna. vou dar um exemplo: nós já sabemos de quando estudamos a matéria da relação entre direito internacional privado e a constituição. tinha como conceito quadro o quê.ordem jurídica portuguesa no livro das sucessões. foi revogado. E é por esta razão. porquê? Porque no país X ainda existe a distinção entre filiação legitima e ilegítima. mas então se nós não temos uma norma de conflitos que tenha como conceito quadro a filiação ilegítima como é que nós vamos resolver o problema. não é por isso que deixamos de aplicar esta norma. e portanto as situações jurídicas que estão constituídas no direito estrangeiro não têm de ser exactamente iguais às nossas. agora vamos imaginar que estamos perante um problema em que de facto. mas que estes conceito quadro. vamos admitir que ela seja aplicada por força de que norma de conflitos? se estiver em causa um problema de constituição de filiação artigo 56º. e tratava do quê. Quero chamar à atenção para o facto de os conceitos quadro das nossas normas de conflitos não serem necessariamente o espelho daquilo que nós temos previsto no nosso direito material. e aí temos o quê. o que tínhamos de aplicar? Este artigo 56º. que tem como conceito quadro as relações entre pais e filhos. também não podemos interpretar da mesma forma a capacidade para contrair casamento do artº49 da mesma forma como ele é entendido no nosso livro que trata do direito da família. que se estiver em causa uma relação entre pais e filhos do país X mas que nesse país X existe a filiação ilegítima. portanto se estivesse em causa um problema de constituição da filiação seja legitima ou ilegítima. nós já sabemos que com a reforma do código civil de 1977 foi abolida a norma de conflitos relativa à filiação ilegítima que antes estava prevista no artigo 59 do CC. se estiver em causa um Página 50 de 221 . não temos previsão da norma. uma situação regulada num país X e a lei desse país X regula essa situação exactamente como filiação ilegítima. E isto porquê? Porque nós em DIPrivado necessariamente vamos estar em contacto com realidades que são diferentes da portuguesa. não temos uma norma que preveja este caso. que ter um conteúdo mais abrangente no sentido de admitir a aplicação de realidades que não estão exactamente previstas no ordenamento jurídico português. e à luz do país X aquela situação é regulada relativamente às regras da filiação ilegítima. A esta altura podem perguntar. nesta hipótese que iríamos fazer? iríamos olhar para o nosso CC e víamos que temos no artigo 56º uma norma de conflitos que tem como conceito quadro a constituição da filiação. a filiação ilegítima. Se estivesse em causa uma relação entre pais e filhos em que à luz do ordenamento X o filho é por exemplo considerado como filho ilegítimo. mas ainda assim o que está em causa? um problema de relações entre pais e filhos. vão ter eles sim. o artigo 57º que tem como previsão da norma.

já sabemos que elas também vigoram na ordem jurídica portuguesa como regras de conflito de direito internacional. o que é que isto quer dizer? quer dizer que nós não podemos interpretar os conceitos que estão previstos nas convenções internacionais exactamente como eles estão previstos no direito material português. artigo 49º capacidade para contrair casamento. mas o que é verdade desde que a finalidade dessa dança com penas à volta da fogueira. o exemplo é um pouco absurdo. então aí. relativamente ao direito material interno. para constituir vida familiar e que esta união esteja formalizada perante alguma entidade. Outro exemplo. A abrangência dos conceito quadro vai ter de ser maior do que aquela que existe no nosso direito material. ou seja. nós precisamos de saber o que significa casamento. chegávamos à conclusão que era aplicável a lei do país X quando fossemos aplicar a lei do país X ao caso concreto é que poderíamos ter aqui um problema de reserva de ordem pública internacional. de se Página 51 de 221 . em Espanha interpretavam consoante o direito material espanhol e por aí fora. relativamente ao direito material interno. Depois poderíamos ter outro problema. imaginemos que tínhamos um problema de constituição de filiação. por exemplo. que é o principio da autonomia de Direito internacional Privado. e que acontecia? sob a aparência de uma uniformização. nós não podemos interpretar o conceito de casamento só como ele está previsto no direito material português. Concluido portanto que os conceito quadro previstos nas normas de conflito tem um alcance mais vasto do que aqueles previstos nos mesmos conceito do direito interno. e entendemos no fundo aqui o conceito da constituição da filiação no sentido amplo abrangendo quer a constituição de filiação legitima ou ilegítima e o que mais houvesse. isto era só no final. porque não? quando entendemos o conceito quadro temos de fazê-lo com esta abertura. mas casamento nós só vamos entender que é casamento exactamente aquilo que está previsto no direito material português? e se no país X de onde a pessoa é originária. nós íamos aplicar a norma de conflitos. que era. por exemplo. E aqui falamos de um principio. chegávamos à conclusão que fazer esta distinção entre filhos legítimos e ilegítimos era contrário aos nossos princípios fundamentais. era aplicada a lei do país X. porque senão o que é que iria acontecer? nós interpretávamos só consoante o conceito material português. seja das pessoas se unirem. a interpretação destes diplomas vai ter de se fazer segundo os cânones hermenêuticos do Direito internacional Público. se nós tivermos uma convenção internacional que se aplique em matéria de casamento. a lei do país X estabelecia que o filho era ilegítimo. quanto à regras de conflitos de fonte internacional. o casamento se realizar de outra forma? com pessoas a dançar com penas à volta de uma fogueira.problema de relações entre pais e filhos. mas notem. antes disso aplicávamos a norma de conflitos. também aqui vai valera autonomia do Direito Internacional Privado. artigo 57º. aqui.

portanto das duas uma. quando nós interpretamos por exemplo os diversos ROMA’S. e por esta razão a interpretação dos conceitos que constam das convenções internacionais tem de ser ele também feito com autonomia. vamos ter de estudar qual é o sentido. ou de obrigações extra-contratuais. porque os próprios juízes do tribunal de justiça da UE têm de se basear em qualquer coisa. e ver por exemplo quais é que são os traços essenciais de um determinado Página 52 de 221 . mas ainda antes disso e à parte estava prevista no regulamento 44/2001 relativamente à determinação do tribunal competente haviam questões que se tinham colocado relativamente ao tribunal internacionalmente competente para apreciar questões de obrigação contratual. ou esta convenções dizem logo do que elas tratam. cada país iria estar a preencher os conceitos à sua maneira. o efeito útil. que pode fazer? pode pedir ao tribunal de justiça da UE que se pronuncie a esse respeito. acontece. vamos ter de atender às técnicas e aos princípios que presidem a interpretação do direito europeu como por exemplo. está prevista no regulamento ROMA I. ou então vamos ter de ver qual é o sentido. na verdade depois temos outro elemento importante. órgãos ou organismos da união. este tribunal é competente para decidir a titulo prejudicial sobre a validade e interpretação dos actos adoptados pelas instituições. artº5 na época do reg. responsabilidade pelo produtor. 44/2001 que já foi revogado e agora está em vigor 1215/2012 artº7. que sobre o novo ainda não há jurisprudência. em último caso e se aí não tivermos nenhuma interpretação teremos de fazer um estudo de direito comparado. se não der resposta directa teremos de fazer uma interpretação sistemática do próprio diploma. e vão se basear. 44/2001.estar a aplicar a mesma convenção. Estou a pensar por exemplo Regulamento ROMA II há uma disposição que trata de responsabilidade por produtos defeituosos. o Tribunal de Justiça da União Europeia. todos esses principios vão ser relevantes. ou até mais que não seja em última instância teremos de fazer um estudo de direito comparado sobre os vario estados contratantes daquelas convenções. trabalhos preparatórios. ainda obrigações contratuais. se estiver em caus algum problema constante do ROMA I. o principio da subsidiariedade. Isto também não dá resposta a tudo. vai começar-se por olhar para o próprio regulamento para verificar se ele dá resposta à questão que queremos ver resolvida. Vamos então aproveitar a jurisprudência do tribunal da UE a respeito também desse regulamento. e por isso esta uniformização não era alcançada. que se o tribunal de um estado membro tiver dúvidas relativamente à interpretação de algum diploma de fonte europeu. nesse podemos atender a uma directiva europeia que trata da questão. no fundo incluem definições de conceitos. a respeito do próprio conceito de obrigações contratuais. teremos de eventualmente ter de atender a outros diplomas de fonte europeia que já tenham tratado a questão. e nos termos do artigo 267º b) TFUE. Quanto às regras de fonte Europeia. aqui teremos de fazer um raciocínio semelhante.

uma comunhão de interesses). como conceito quadro a filiação ilegítima. porque nós não temos normas de conflitos que regule a questão da união de facto. é a forma de fazer uma interpretação real dos conceitos. Um outro Problema que poderemos ter em DIPrivado é o da integração de lacunas. mas nós poderíamos dizer que em Portugal não existe uma norma de conflitos que tenha como previsão. E quando nós temos lacunas que fazemos? vamos basicamente seguir o processo que aprendemos em introdução ao estudo do direito. porque este problema se resolve pela qualificação. não é exactamente igual a casamento. teremos de resolver primeiramente um problema de qualificação. ao que a outra pessoa responde que em Portugal essas obrigações não existem. embora esta questão seja discutivel. podemos dizer que em Dip ocorre uma lacuna quando faltar uma norma de conflitos que indique directamente a lei aplicável a uma situação ou relação privada internacional. e há uma das partes que entende que à luz da lei do país X os unidos de facto têm determinadas obrigações. vamos recorrer à analogia. e aqui quando se pede para se recorrer à norma que o Página 53 de 221 . por hipótese da união de facto.conceito aos vários ordenamentos jurídicos do estados da UE. porque podemos pensar que temos uma lacuna mas verdadeiramente não a temos. que veremos no ponto a seguir. vamos olhar para o artigo 10º do CC e vamos ver se existe algum caso análogo se existir. qual a lei que vai ser aplicada? aqui teríamos um problema. é um conceito suficientemente abrangente. artº57. mas eu admito esta solução pois existe uma união de vidas tendencialmente para constituir familia. aqui sim nós poderíamos ter uma lacuna. então o artigo 10º nº3 do CC manda que a situação seja resolvida segundo a norma que o interprete criaria se houvesse que legislar dentro do espirito do sistema. se não existir. porque a doutrina não é pacifica. tudo isto são elementos importantes que serão relevantes na interpretação dos conceitos. pesa de não temos uma norma de conflito que trate especificamente da filiação ilegítima temos uma norma de conflitos que trata das relações entre pais e filhos. Se não tivermos caso análogo. e portanto nesta hipótese nós não teríamos lacuna. vamos imaginar que temos um casal que está unido de facto e nacionais do país X que entretanto estão a viver em Portugal. e poderíamos ser tentados a dizer que tínhamos uma lacuna. reparem no exemplo dado acima da filiação ilegítima. (mas nesta hipótese dos efeitos pessoais da União de facto este caso admito que a solução possa passar por fazer uma aplicação analógica do artigo 52º do código civil. está em causa por exemplo a aplicação da lei do país X que regula um problema no âmbito da filiação ilegítima. aqui não são conjuges porque não são casados mas são unidas de facto. note-se para podermos dizer que existe lacuna. é verdade que temos normas de conflitos que tratam do casamento mas união de facto. mas não temos. Já podemos ter lacuna numa situação em que se pretende determinar alguns efeitos pessoais. que trata das relações entre os conjuges.

é com base no critério previsto no 12º que vamos dar resposta a esta situações. é relevante porquê? vamos imaginar que quando se casaram as mulheres não tinham tantos direitos como hoje. não de regime de bens mas de relação entre os cônjuges. porque quando se casaram era aplicável a lei da nacionalidade do marido e se a questão fosse apreciada agora seria em principio a lei da primeira residência conjugal. porque como vos referi antes. quer o artº52 e 53º. vamos ter de atende aos valores subjacentes ao DiPrivado. em primeiro lugar. Como resolvemos estes problemas. é neste ponto que nós teremos de fazer a distinção. aqui vamos aplicar a lei nova. e há autores que falam nisso. o que significa que teremos de fazer uma distinção que o próprio artigo 12º assim exige. houve lei que foram alteradas. porque são eles que traduzem aqui o espírito do sistema.interprete criaria. e que pretendemos saber. admitiam que na falta dos primeiros elementos de conexão era relevante a lei da nacionalidade do marido e tal foi alterado. não havia uma ideia de igualdade entre os cônjuges. e em DIprivado coloca desde logo problemas interessantes. agora. Vamos ter de ver se a nova lei e se a situação que está em causa vai dispor directamente sobre o conteúdo de certas relações jurídicas abstraindo os factos que lhe deram origem ou não. artº12º e 13º do CC e é sabido que por força do 12º a nova norma de conflitos apenas se aplica em principio às situações que forem constituídas após a sua entrada em vigor. qual o regime de bens deste casa. e reparem que aplicando analogicamente estes artigos a solução seria Página 54 de 221 . nós aqui teremos sempre de atender às regras de aplicação de leis no tempo que estão em vigor no nosso ordenamento jurídico. é admissível. quais os direitos e deveres dos cônjuges no âmbito do seu casamento. existe alguma jurisprudência relativamente a esta matéria pelos tribunais portugueses. nesta hipótese temos uma situação constituída no momento em que o casal casou.Imagine-se que estamos a tratar de um problema de um regime de bens de um casal casou e estava em vigor a lei anterior a 1977 e era aplicável a lei da nacionalidade do marido. se a questão fosse diferente. então teremos de ver que é um problema do artigo 52º relação entre os cônjuges. Então a pergunta que faço. Outra questão ainda relativamente à aplicação das normas de conflito prende se com aplicação da lei no tempo. do diploma preambular que aprovou o CC e que estabelece no artigo 14º e 15º e que dá resposta à sucessão de leis no tempo. está em causa a protecção da confiança. Podemos também fazer uma aplicação analógica. então que lei aplicaríamos? a lei antiga. por exemplo relativamente à relação entre os cônjuges relativamente ao regime de bens. mas aqui não estamos a falar de uma situação que não versa sobre o artº 12º mas sim sobre o conteúdo directamente do casamento as relações e os direitos e deveres de cada um. houve uma alterações significativas em 1977. é se nós quisermos saber hoje. temos um problema de sucessão de leis no tempo.

vai ter de ser a Britânica. artigo 52º CC se os cônjuges tiverem nacionalidade diferentes é aplicada a lei da residência habitual comum. pois neste caso nós temos o artigo 29º do CC a dar-nos resposta a esta questão. portanto eu sou menor.” o que é que isto quer dizer. Agora nós podemos ter ainda outro problema diferente deste. e a Ana agora que apenas possui nacionalidade moçambicana se arrepende da venda que fez e vem dizer o seguinte: Eu agora sou moçambicana. Nesta hipótese da maioridade nós temos a resposta expressa no artigo 29º. mas não funciona. então nestes casos em que não temos nenhuma regra especial que regule o conflito móvel. Exemplo: Eu quero saber qual a lei pessoal da Ana. se eles amanhã residirem em Itália aplica-se a lei Italiana. aquilo a que chamamos de conflito móvel ou de sucessão de estatutos. O que temos aqui? uma sucessão de estatutos. temos uma sucessão de leis no tempo. mas vamos imaginar que a Ana ainda com 18 anos de idade adquire a nacionalidade moçambicana e renuncia à nacionalidade Portuguesa. e à luz da lei moçambicana a maioridade só se atinge aos 21 anos de idade. relações pessoais entre os cônjuges. se os cônjuges residirem hoje em Portugal aplica-se a lei Portuguesa. e a Ana vendeu uma casa. segundo a lei pessoal anterior.exactamente a mesma. a Ana hoje é portuguesa. e diz-nos o seguinte “a mudança da lei pessoal não prejudica a maioridade adquirida. aqui deve a regra que nós tendencialmente seguimos é a de que a lei correspondente à nova concretização do elemento de conexão não se aplica aos factos Página 55 de 221 . mais o artigo 31º nº1 que diz que a lei pessoal é a lei da nacionalidade. não havia problema tendo em conta que é maior tem capacidade. uma vez maior sempre maior. que ela uma vez tendo adquirido a maioridade à luz da lei Portuguesa. e uma vez que a lei pessoal é a lei da nacionalidade à luz do artigo 31º nº1 a lei pessoal da Ana é a portuguesa. o que é que ela estava a invocar aqui? o artigo 25º que trata da capacidade jurídica diz que é aplicável a lei pessoal. E depois podemos ter aqui um problema interessante. sucessão de estatutos. mas se a Ana amanhã adquirir a nacionalidade Britânica e renunciar à nacionalidade Portuguesa a lei que vai se aplicada à Ana já não vai ser a Portuguesa. é que nesta questão que vimos. ou seja primeiro estava em vigor uma norma de conflitos e esta norma de conflitos foi alterada e agora temos uma norma de conflitos nova. porque no fundo tudo está subjacente nesta ideia de tutela da confiança e continuidade das situações jurídicas. mas podemos ter um problema diferente. e existe tal situação quando ocorre uma alteração do conteúdo concreto do elemento de conexão e desta modificação desta alteração resulta uma sucessão de leis aplicavel. ela vai continuar a ser considerada maior apesar de ter agora a nacionalidade moçambicana. em principio ela agora era moçambicana e o problema estava a ser colocado agora. outro exemplo. imaginem que a Ana é cidadã Portuguesa que tem 18 anos de idade. A ideia é. mas podemos não ter. celebrei um contrato sem ter capacidade e o contrato é inválido.

ou seja. e isto para que não sejam atingidas as expectativas dos outros. mesmo aquelas que tenham sido constituídas no estrangeiro sem qualquer ligação ao estado Português. isto é a qualificação. é essa lei anterior que se aplica. o tribunal onde a questão esteja a ser apreciada. Por isso aqui vale o principio da aplicação territorial do direito de conflitos. olhamos para uma determinada situação da vida e verificamos se esta situação da vida é ou não é reconduzivél à previsão da norma. de facto as regras de conflitos se aplicam a todas as situações e a todas relações privadas internacionais. quando nós começámos no primeiro ano da faculdade a aplicar normas jurídicas. mesmo que a situação não tenha sido constituída em Portugal. nós começámos a fazer qualificação. ou se vamos apenas aplicar as normas de conflitos às situações que tenham uma ligação com o foro. e já sabemos que o juiz tem sempre de resolver todos os litígio que lhe sejam apresentados. e a questão da qualificação é uma das questões mais interessantes e centrais do DIPrivado. quando nós olhamos para esta situação e tentamos determinar se isto é um arrendamento. haverá sempre aqui uma ideia de tutela das legitimas expectativas dos interessados. é o que em principio. na próxima aula veremos como funciona isto em DiPrivado.constitutivos modificativos ou extintivos de situações jurídicas já verificadas ao tempo da mudança do conteúdo concreto do elemento de conexão. ao tribunais locais. é o problema da aplicação no espaço da regra de conflitos e este problema consiste em saber se as regras de conflitos do estado do foro se aplicam a todas as situações e relações privadas internacionais submetidas aos tribunais do foro. ou seja nós vamos só aplicar as nossas normas de conflitos às situações que tem uma ligação com Portugal? ou vamos aplicar as normas de conflitos a todas as situações que se coloquem em Portugal? Aqui o critério de solução. quando nós olhamos para um contrato que é celebrado entre duas pessoas. E com isto terminamos este ponto da matéria na próxima aula vamos desenvolver o problemas da qualificação. nós estamos a fazer qualificação. A última questão deste ponto ainda. o juiz Português vai aplicar as normas de conflitos portuguesas. o juiz não iria ter como dar resposta à questão. isto é ser subsumivél à previsão da norma. para que a segunda pessoa se sirva dele durante um determinado tempo com a obrigação de o restituir. pelo qual uma delas se obriga a entregar à outra um imóvel. modificada ou extinta à luz da lei que correspondia à concretização do elemento de conexão à data. Nós olhamos para a norma. se nós não aplicássemos as nossas normas de conflitos íamos ter um problema. desde que o tribunal português seja o tribunal competente. um comodato ou a cessão da exploração de um estabelecimento. Página 56 de 221 . Se a situação foi constituída. Reparem se assim não fosse. a qualificação é uma operação que é necessária à aplicação de qualquer norma jurídica.

Quando nós aplicamos as regras de conflitos às situações da vida surgem duas questões principais: 1. A especificidade da qualificação em DIPrivado. um comodato ou a cessão de estabelecimento. que aflorei na final da aula passada. Isto é a qualificação. A regra de conflitos remete-nos para uma determinada norma. Ainda em termos muito gerais… o exemplo que vos dei. prende-se com a estrutura da regra de conflitos. A estatuição consiste no chamamento de normas de direito material de um determinado ordenamento jurídico. isto é aquilo que nós fazemos desde o primeiro ano da licenciatura. para que a segunda se sirva dele por um determinado período de tempo. Prende-se desde logo com o alcance da referência que é feita pela regra de conflitos. ou melhor. Nós qualificamos cada vez que aplicamos uma norma jurídica. Se este contrato é um arrendamento. a previsão da norma consiste no seu conceito quadro. Nós estamos a pegar numa situação jurídica e estamos a fazer o seu enquadramento para saber que tipo de contrato é que está em causa. O que é que nós estamos aqui a fazer? A qualificação. nós precisamos de saber se uma determinada situação da vida é ou não é reconduzível ou subsumível na previsão da norma. como direito material estrangeiro consoante para onde nos levar o ordenamento. pelo qual uma delas se obriga a entregar à outra um imóvel. com a obrigação de o restituir. O conceito quadro é aquele que vai delimitar o âmbito de aplicação da norma de conflitos. sempre que aplicamos uma norma escrita. remete-nos para um determinado ordenamento jurídico e portanto. nós já sabemos que no caso das normas de conflitos. Quando nós queremos saber se um contrato celebrado entre duas pessoas. que pode ser interno ou estrangeiro. Nós tanto podemos aplicar normas de direito material interno. nós aqui vamos ter de saber se esta Página 57 de 221 . e na verdade a qualificação é uma operação que é necessária. Conforme eu disse.Teórica de 12/03 Hoje vamos tratar da matéria da qualificação.

quando a nossa norma de conflitos tem como conceito quadro “sucessão por morte”. Por isso é que nós dizemos que o nosso sistema é um sistema de referência selectiva. nós só vamos Página 58 de 221 . Se por exemplo. nós fazemos a referência selectiva. para todas as questões que se suscitem. Isto significa que. é a lei da nacionalidade. Agora. é a lei material francesa. se suscitavam outros problemas que se prendiam com direitos reais respeitantes aos imóveis do de cujos. nós chegamos à conclusão que vamos aplicar a lei do país X. nos casos em que. Pelo contrário. por aplicação de uma determinada norma de conflitos. Quando o direito material francês é chamado por força do art. ao fazermos uma referência selectiva. Que leis são essas desse ordenamento jurídico? Aquelas que também tratem da sucessão por morte. do de cujos. O que é que significa isto de ser uma referência aberta ou uma referência selectiva? Nós podemos dizer que há uma referência aberta. a lei que vai regular a sucessão por morte do F que morreu. Ai.62º do CC que tem como conceito quadro “Sucessão por morte”. nos termos do art. Portanto. essas normas materiais francesas já estavam a tratar de direitos reais. se o problema se colocasse no âmbito dos direitos reais dos imóveis do de cujos.31º nº1 CC. nós vamos aplicar que normas materiais francesas? As normas materiais francesas que regulam a sucessão por morte. e este artigo determina a aplicação da lei pessoal do de cujos. vamos aplicar a sua lei da nacionalidade. tem como conceito quadro “sucessão por morte”. ou que a nossa norma de conflitos contém uma referência aberta.referência que é feita para esse ordenamento jurídico é uma referência aberta ou se é uma referência selectiva. como aquela que nós fazemos. vai determinar a aplicação das leis de um determinado ordenamento jurídico. a referência selectiva apenas determina a aplicação da lei do país X que regula a questão que está prevista no conceito quadro.62º CC e o art. vamos imaginar que para além dos problemas da sucessão por morte. em princípio. Exemplo: Nós temos o art. para regular a sucessão por morte. uma pessoa tiver nacionalidade francesa. em princípio. Agora.62º CC.

nós precisamos de saber quais são os critérios que presidem à subsunção das normas materiais aplicadas ao conceito quadro. Quais é que são as leis que tratam de questões sucessórias? O que é que são questões sucessórias? Questões sucessórias são aquelas que se prendem com a determinação de quem é que vai ficar com os bens de alguém. de acordo com o direito inglês. A outra questão da qualificação e da aplicação das regras de conflitos.62º mais 31º nº1 mais art. solteiro. qual é que é o âmbito da competência da lex causi. Como não tinha deixado parentes sucessíveis. a lei reguladora da sucessão por morte é a lei inglesa. Ou seja. porque os imóveis estavam em Portugal. E o que é que se passa em Inglaterra? A Coroa não sendo herdeira. Aqui. prende-se com a operação de qualificação propriamente dita..aplicar as normas materiais francesas que tratem elas também de “sucessão por morte”. o de cujos não tinha deixado parentes sucessíveis. quando nós temos o A. nem fazem testamento. entre o elenco de herdeiros não se encontra a Coroa. do direito que a Coroa britânica tem por força do “administration of estates act” de recolher os bens que integram as heranças vagas. É isso que nós vamos tratar. porque existem pessoas que não têm herdeiros. é fácil de perceber que esta lei não é uma lei que nós possamos dizer que trate de questões sucessórias.20º do nosso CC. Por exemplo. nós vamos querer saber qual é que é a lei que vai ser aplicada. a Coroa não é herdeira. no direito material inglês existe uma regra que diz que: os bens que não são de ninguém são da Coroa. existem bens que não são herdados por ninguém. cidadão britânico e que morre domiciliado em Portugal. Página 59 de 221 . por força do art. a Coroa britânica vem invocar perante o Tribunal português. para determinar quem é que vai ficar com os bens deste cidadão. então. de acordo com a lei inglesa. e. sem ter feito disposição por morte e deixando bens em Lisboa. Vamos saber. Neste caso. quando essa pessoa morre? Quem é que são os seus herdeiros? Ora. 2. E por isso.

31º nº1 mais art. só as normas de direito material inglês que tratam da sucessão por morte é que poderão ser aplicadas por força do art. o elemento de conexão do art. Esta referência selectiva está consagrada no art. nesta hipótese. O art. nesta hipótese. no caso” que.62º CC.46º que diz que se aplicam as leis do lugar da situação da coisa. era adequado para regular a situação. que tem na epígrafe “Qualificações” diz o seguinte: Artigo 15. sendo que a nossa norma de conflitos tem como conceito quadro “sucessão por morte”. porque em matéria de direitos reais a matéria de conflitos que nós temos é o art. Mas a Coroa adquire a propriedade dos bens que não são de ninguém. Esta é a única forma que nós temos de respeitar o nosso próprio elemento de conexão.O que é que acontece? A Coroa fica com os bens. pelo seu conteúdo e pela função que têm nessa lei.15º do CC.15º do CC. E por isso. Mas quando a lei portuguesa remete para a lei inglesa. Então. está a remeter para as normas de direito material inglês que tratam de sucessão por morte. Portanto. mas em matéria de direitos reais não. remete para a lei da nacionalidade. nesta hipótese nós não podíamos aplicar a lei material inglesa que trata desta forma de aquisição da Coroa britânica. Quando nós aplicamos a norma de conflitos. porque nós só vamos aplicar as normas materiais inglesas que tratam de sucessão por morte. em matéria de direitos reais nós aplicamos as nossas normas materiais e não as inglesas. e isto é o quê? É uma forma de aquisição da propriedade. estando a coisa situada em Portugal. isto trata de matéria de direitos reais.62º CC. em matéria de sucessão por morte o legislador português entendeu que era de aplicar a lei da nacionalidade.62º mais art. pois. esta referência é uma referência selectiva. Página 60 de 221 . dissemos que este era um problema de sucessão por morte (art. “inglesa” integram o regime do instituto visado na regra de conflitos. a competência atribuída à lei inglesa” abrange somente as normas “da lei material inglesa. quando nós fazemos esta referência na norma de conflitos portuguesa à lei designada.º
 (Qualificações) A competência atribuída a uma lei “ou seja.) e a lei portuguesa estava a remeter para a lei inglesa.20º CC. Porque o legislador português entendeu que o direito material inglês.

No primeiro momento da qualificação. suscita-nos aqui três questões que correspondem a três momentos da qualificação em que é possível analisar esta qualificação: 1. nesse jogo. logo.62º CC. porque são estas que são reconduzíveis ao conceito que trata o art. 3. A melhor forma de perceber a qualificação. corresponde à previsão da norma. ou seja. triangulo. portanto.. 2. vamos ver qual é que são as regras materiais inglesas que serão aplicadas e como é que nós caracterizamos estas regras. quadrados. interpretação da previsão da norma. No caso do art. são ou não são reconduzíveis ao conceito quadro. mais central ou mais difícil de algo) da situação jurídica que nós estamos a caracterizar. O segundo momento vai ser o da caracterização do objecto da qualificação. O terceiro momento consiste no apuramento da concreta apreensibilidade deste quid. se nós tivermos que sucessão por morte corresponde à forma de um triangulo.Ou seja. abro um parênteses com um aviso (a forma como eu vou explicar agora não pode ser oficialmente usada em exames mas é só para perceberem a ideia e já vão perceber porque é que isto não pode ser usado em provas orais ou nos exames). destas regras do conceito quadro do art. vamos aplicar que normas do direito material inglês? As normas de direito material inglês que tratem de sucessão por morte. ou seja. interpretação do conceito de sucessão por morte.. qualificação do quid (Parte mais importante. ou seja.62º CC. Art. a interpretação do conceito quadro que é o conceito vinculativo do objecto da conexão das regras de conflitos que são potencialmente aplicáveis. A operação da qualificação entendida nestes termos. círculos. Primeiro Página 61 de 221 . têm umas formas que vão encaixando nos respectivos sítios. aquilo que é feito é a interpretação do conceito quadro. nós só vamos aplicar as normas materiais inglesas que tratam das sucessões. trata da sucessão por morte. Recordam-se daqueles jogos de criança que costumam ter umas bolas com uns formatos geométricos.62º CC que também trata de sucessões. ou seja. para nós vermos se estas normas que nós encontramos no direito material inglês. etc. Vamos ver a qualificação em termos de jogo de criança. bolas.62º CC.

62º Sucessão por Página 62 de 221 . neste caso. temos de lhes dar uma forma geométrica diferente. como é que nós vamos interpretar este conceito? Em primeiro lugar não nos podemos esquecer que o art. o segundo momento corresponde à caracterização do objecto da qualificação. os bens que não eram de ninguém.). ou seja. se é um conceito jurídico tem de ser interpretado juridicamente. portanto. Como é que nós fazemos estes momentos? Interpretação do conceito quadro 
 Quando nós fazemos a interpretação do conceito quadro…Sabemos que o conceito quadro corresponde à previsão da norma.62º está incluído no CC. No nosso exemplo. Esta é uma bola (lei material inglesa) e esta é um triangulo (art. Direitos reais já não são sucessões. Então. eram da Coroa” e esta é uma forma de aquisição da propriedade. vamos voltar a um registo mais cientifico.momento da qualificação: interpretação do conceito base. o nosso legislador quando escreveu no art. se o triângulo encaixa neste outro triângulo. Portanto. o que é que elas regulam? Qual é que é a função delas? Terceiro momento da qualificação: vamos ver se estas normas que regulam a situação do direito inglês são ou não são subsumíveis no conceito quadro. O primeiro momento da qualificação consiste na interpretação do conceito quadro. E encaixa. então. e o terceiro momento corresponde à subsunção ou não destas normas materiais potencialmente aplicáveis no conceito quadro da norma de conflitos..62º CC. mas sucessão por morte é um conceito jurídico. Vamos dar-lhe uma bola. porque umas tratam de reais e as outras tratam de sucessões. o art. Estas regras do direito inglês são caracterizadas como tratando matéria de direitos reais. Mas há bocadinho nós tínhamos visto que existiam regras no direito material inglês que diziam que “quando não havia herdeiros. Mas estas regras materiais que tratam de direitos reais já não são subsumíveis no conceito quadro do art. porque este triângulo corresponde às regras que tratam do direito das sucessões. porque é triângulo / triângulo. Agora que me parece que a ideia ficou percebida. 62º trata da sucessão por morte. Segundo momento da qualificação: estamos a ver do que é que trata estas normas. a qualificação é muito lógica por esta razão. 62ºCC.

vamos determinar qual é que é as notas essenciais dos nossos institutos e vamos fazer a interpretação apenas com base nessas notas essenciais. Por isso se diz que.. qual é que é a ideia que está subjacente? Pretende-se tratar do quê? Como é que nós interpretamos este conceito de filiação? Apenas como ele está previsto no direito material português? Se nós interpretássemos o conceito de filiação apenas como ele está previsto no direito material português.57º que trata das relações entre pais e filhos. esta interpretação da filiação é feita como? Vamos buscar as notas essenciais do nosso ordenamento jurídico material. em princípio estaria a pensar naquilo que são as sucessões por morte à luz do direito material português. no nosso CC. portanto. que consubstanciam realidades jurídicas diferentes das nossas.62º apenas àquilo que é previsto como tal no direito material português.56º. não íamos aceitar a aplicação da nossa norma de conflitos para regular situações que têm uma realidade jurídica completamente diferente da nossa. um problema de filiação ilegítima nós podemos continuar a aplicar estas normas de conflitos. se a nossa norma de conflitos trata da filiação. Exemplo que vimos na aula passada: O caso da filiação legítima ou ilegítima. quando o nosso conceito. devemos de fazer essa interpretação partindo do direito material português mas com autonomia. estaria a pensar em qualquer coisa. Conseguimos respeitar o sentido que o legislador imprimiu à norma. por exemplo. mas o legislador português não pode limitar o conceito previsto no art. a nossa norma de conflitos não iria permitir. ou seja. se no ordenamento jurídico estrangeiro estiver em causa. depois vamos interpretar este conceito com autonomia. por exemplo. mas. O que é que se consegue com isto? Consegue-se resolver as situações jurídicas internacionais. Se nós temos um conceito quadro. Quando se fala ai em filiação.morte. Página 63 de 221 . Nesse caso. que trata da constituição da filiação ou no art. uma vez que pode haver realidades de outros Estados que não são exactamente iguais às nossas. regularmos problemas de filiação ilegítima. Nós temos o art. quando nós fazemos a interpretação do conceito quadro. ou seja. Conseguimos aplicar o elemento de conexão que o legislador intendeu que era o mais adequado.

então. Portanto. caso contrário perdia-se o objectivo que está subjacente às próprias Convenções Internacionais ou Regulamentos. Esta ideia de interpretação autónoma é ainda reforçada pelo art. no direito material português não são admissíveis os testamentos de mão comum. esta norma nunca poderia existir. são exemplos de normas de conflito de fonte interna.. Mas estes exemplos que eu vos estou a dar. do disposto no artigo 53. a pesar deles não estarem previstos no direito material português. que consiste na interpretação do conceito quadro. porque neste artigo alude-se aos testamentos de mão comum e diz-se aqui: Artigo 64. Estamos no primeiro momento da qualificação. sem prejuízo. nós até podemos aceitar essa admissibilidade. até temos uma norma que até considera uma situação que não é aceitável no direito material português.c) do CC. mas nós podemos ter normas de conflitos que são de fonte internacional (Convenções internacionais. Um outro argumento a favor. por aquilo que eu já referi na última aula. consegue-se uma harmonia internacional de soluções. Página 64 de 221 .º
 (Interpretação das disposições. porque aquilo que nos interessa é a ideia que está subjacente ao conceito quadro da norma de conflitos. Regulamentos Europeus) nesses casos a interpretação do conceito quadro não pode ser feita desta forma.º Ora bem. pois. pois. no direito material português não são admissíveis testamentos de mão comum. o que é que o legislador aqui expressou? Que. se noutro ordenamento jurídico eles forem admissíveis.E por último. 64º al. falta e vícios da vontade) É a lei pessoal do autor da herança ao tempo da declaração que regula: … …
 c) A admissibilidade de testamentos de mão comum ou de pactos sucessórios. quanto a estes. Se a interpretação das nossas normas de conflitos for feita á luz do direito material português.

pois. nós vamos interpretar este conceito atendendo ao que se entende por obrigações contratuais nos vários Estados membros da EU. porque iremos ter de atender ao direito dos vários Estados que são parte nessas Convenções. não é admissível que cada Estado faça uma interpretação de um mesmo diploma internacional. e vamos encontrar uma linha comum. Página 65 de 221 . vamos interpretar os conceitos que constam do Regulamento. à luz da sua lei material. de um Regulamento Europeu vamos também atender a outros diplomas que tratem dos mesmo conceitos.Quando nós fazemos a interpretação dos conceitos que constam. Nesse caso a interpretação deste conceito vai partir desse estudo de direito comparado. ver se ele tem soluções ou não tem soluções. uma vez que se trate.. mas ela ainda é aplicado aos contratos realizados antes da entrada em vigor do Regulamento Roma I. Itália. Há um exemplo interessante na Convenção de Roma. olhando para o próprio Regulamento. um ponto comum. que estava em vigor antes do Regulamento Roma I ser adoptado. Então. portanto. a decisão vai olhar essencialmente aos aspectos que são comuns aos ordenamentos jurídicos dos vários Estados. A ideia é semelhante. por exemplo. aquilo que nós vamos fazer é. quando nós queremos interpretar o conceito de obrigações contratuais que está previsto no Regulamento Roma I. etc. Por exemplo. como é que nós temos de fazer essa interpretação? Por exemplo. França. determinava-se que “na interpretação e aplicação das regras uniformes que antecedem (a Convenção de Roma) deve de ser tido em conta o seu carácter internacional e a conveniência de serrem interpretadas e aplicadas de modo uniforme” porque só desta forma é que se consegue uma harmonia internacional de julgados. se estiver em causa regulamentos europeus.18º da Convenção de Roma. vamos ter de fazer uma interpretação sistemática do próprio Regulamento. ficar prejudicada. atendemos também à jurisprudência do Tribunal de Justiça da União Europeia. sobre a mesma palavra haveria conteúdos múltiplos. ou aspectos comuns aos vários ordenamentos jurídicos. ou das Convenções Internacionais ou dos Regulamentos Europeus. no art. Dou-vos ainda outro exemplo no âmbito das Convenções Internacionais. mas os próprios Juízes do TJUE também têm de saber como é que hão-de decidir e na falta de jurisprudência. nós temos de fazer essa interpretação da mesma forma que é feita em Espanha. sob pena de a unificação que é pretendida.

Vai regular quem fica com os bens de uma pessoa quando essa pessoa morre. O que é que trata o nosso conceito quadro quando trata de sucessão por morte? Art. o cônjuges.Portanto. qual é que é a função que elas desenvolvem e se por exemplo. à luz da sua própria lei. a sua função era de determinar que fica com os bens quando alguém morre. Este é o 1º momento da qualificação. era também caracterizada como sendo matéria de sucessões por morte. ponto 1: 1º momento da qualificação. para saber como é que as íamos caracterizar. interpretação do conceito quadro. temos de distinguir consoante estejamos perante normas de conflito de fonte interna. Outra hipótese: Se em Inglaterra a Coroa não herda mas se fica com os bens que são de ninguém. a interpretação do conceito quadro vai ser diferente. os filhos…se tivéssemos uma regra que dissesse “quando uma pessoa morre são seus herdeiros o cônjuge. neste caso. os país. pois. íamos atender ao contudo e à função que essas regras desempenham no ordenamento jurídico inglês para saber do que é que elas tratavam.` No 2º momento da qualificação nós vamos caracterizar juridicamente a situação privada internacional. ai nós tínhamos regras materiais que diziam quem é que é que fica com os bens de uma pessoa quando essa pessoa morre.62º CC. vamos ver a função que esta regra tem? O que é que ela vai determinar? É uma forma de aquisição da Página 66 de 221 . Como é que nós vamos fazer a caracterização das normas jurídicas? Vamos fazer a caracterização das normas jurídicas que regulam a situação. pois. ou seja. esta regra que diz que a Coroa se torna proprietária dos bens que não são propriedade de mais ninguém. quais é que eram as regras que iam regular a nossa situação e depois. Se no direito inglês nós tivéssemos regras que dizem “os sucessores são. podíamos dizer que a função é uma função sucessória. ou normas de conflitos de fonte internacional. neste segundo momento vamos ver como é que as normas inglesas que regulam aquela situação são caracterizadas. ou seja. os filhos. nesta hipótese nós íamos ver no ordenamento jurídico inglês. nós íamos verificar que essa norma que dizia quem ficava com os bens de uma pessoa quando essa pessoa morria. os tios. for de saber quem é que fica com os bens quando alguém morre.

57º vai-nos dizer que se aplicava a lei inglesa. porque eles eram ingleses. se nós fizéssemos a aplicação do art. Então.877º prendese com matéria de obrigações e se o art.57º CC.877º uma função que se prende com as obrigações? Estará ele aqui a estabelecer um problema de obrigações? Não. Mas o art.877º do CC. Nesta hipótese. Outro exemplo: Vamos imaginar o caso de dois cidadãos ingleses. Temos o Regulamento Roma I. Este art.877º está incluído no livro do direito das obrigações. poderá ser aplicado se por força do art.4º nº1 al. Vamos ver qual é a lei que se aplica às obrigações contratuais. O art. ele poderia ser aplicado se por aplicação do Regulamento Roma I. Proíbe a venda de pais a filhos ou avôs a netos.877º do CC.57º trata das relações entre país e filhos. logo.propriedade.877º visa garantir a igualdade de tratamento de todos os filhos de um casal. art. trata de uma questão de relações entre pais e filhos.877º deve de ser caracterizado como? Do que é que ele trata? Reparem o art.877º quando muito. pede a anulação com fundamento no art.57º ia remeter para a lei inglesa. Agora. sistematicamente nós poderíamos dizer: A função do art. o art.877º fosse entendido como matéria de direito das obrigações. Mas terá o art. O art. Se é uma forma de aquisição da propriedade vamos caracterizála como tratando de direitos reais.877º do CC. assim. o art. temos de fazer aqui uma outra tentativa. a lei que regula as relações entre os pais e os filhos for a portuguesa. A lei inglesa não proíbe a venda de pais a filhos. dizendo que nesses casos a venda pode ser anulada.. A e B. uma vez que eles eram todos ingleses. O art. O imóvel estava situado em Portugal.877º verdadeiramente tem uma função de garantir a igualdade de todos os filhos de um casal. chegássemos à conclusão que a lei que regulava a questão era a lei material portuguesa. O art. a pergunta é: Temos um filho a invocar a aplicação do art. que são casados e vendem em Lisboa um imóvel ao seu filho C e D um outro filho.c) que diz “no caso da compra e venda de Página 67 de 221 . quanto muito. portanto.57º CC (que trata de relações entre país e filhos).

o que estava em causa. pois. trata das relações entre pais e filhos. iriamos aplicar a lei material portuguesa. são ou não são reconduzíveis ao conceito quadro da nossa norma de conflitos. Se quisermos.877º que era o que estava em causa. neste caso nós verificamos no terceiro momento se esta norma material conforme nós a caracteriza-mos. O que é que um dos filhos alegou? A aplicação do art. aplicação da lei portuguesa.877º que proíbe a venda de país a filhos. temos de ver qual é que é o conteúdo e a função que essa norma material tem no respectivo ordenamento jurídico. bola. Art. se o que estiver em causa for a aplicação do art. Então.877º trata de relações entre pais e filhos.877º é caracterizando como tratando de um problema de relações entre pais e filhos e a lei material portuguesa tinha dito para aplicar matéria de obrigações contratuais. é ou não é reconduzível ao conceito quadro da norma de Página 68 de 221 .877º? O art. porque o art. art. quando nós queremos caracterizar a norma material que vai regular a nossa situação. Alei material portuguesa de facto era aplicável.877º nós vamos ver qual é a função e o conteúdo do art. (qual é conteúdo e a função que essa norma material tem no respectivo ordenamento jurídico) tanto pode ser no ordenamento jurídico estrangeiro como no ordenamento jurídico interno. E quando nós fazemos isto. mas era a lei material portuguesa que tratava de obrigações contratuais. a função do art. Como é que nós caracterizamos o art. Depois. neste caso nós tínhamos feito a interpretação do conceito quadro de obrigações contratuais. obrigações contratuais correspondem a um quadrado. A coisa encontravase situada em Portugal. No terceiro momento da qualificação Aquilo que nós vamos decidir é se estas regras materiais aplicáveis à situação.877º neste caso? Não. Isto no que respeita ao segundo momento da qualificação. Por exemplo. não é reconduzível esta norma não é reconduzível ao conceito quadro de obrigações contratuais. logo. Pergunta: Poderíamos aplicar o art. Portanto.877º.bens imóveis é aplicada a lei do lugar da situação da coisa. É nisto que consiste o terceiro momento da qualificação.877º. tínhamos visto o que é que significava. significando isto que às obrigações contratuais.877º é a de garantir a igualdade de tratamento entre todos os filhos de um determinado casal ou de uma determinada pessoa.

temos uma determinação de um prazo para as acções darem entrada no Tribunal. temos de voltar a olhar para o art.877º tem como função as relações entre pais e filhos. saber se as normas são ou não são reconduzíveis ao conceito quadro. ou seja. durante esse prazo as acções têm de dar entrada em Tribunal.conflitos. Agora. vamos ter mesmo de olhar para as normas materiais aplicáveis. são regras que determinam o seguinte: Existe um determinado prazo durante o qual. atendendo ao seu conteúdo e à sua função. quando nós estamos aqui a fazer este terceiro momento. portanto. e neste caso verificamos que não é. pelo seu conteúdo e pela função que têm nessa lei. porque o conceito quadro trata de obrigações contratuais e o art.15º agora já se torna mais fácil de o perceber. vai-nos obrigar a ver qual é que é o conteúdo e a função que essas normas materiais têm nesse ordenamento jurídico. O terceiro momento da qualificação é nisto que consiste. Aqui. num sentido funcional. Ele diz o seguinte: A competência atribuída a uma lei abrange somente as normas que. se o pedido não der entrada Página 69 de 221 . quando se diz “…pelo seu conteúdo e pela função que têm nessa lei…”está-se a referir ao segundo momento da qualificação. não trata da interpretação do conceito quadro. há ainda um último aspecto muito importante. integram o regime do instituto visado na regra de conflitos. vamos ter de ver qual é a sua função. que trata a norma de conflitos. verificar se podemos ou não subsumir as normas materiais que nós caracterizámos. “…integram o regime do instituto visado na regra de conflitos. Tendo nós agora presentes estes três momentos. Não trata do 1º momento da qualificação. Por exemplo: No direito inglês há regras.” Quando se fala aqui do instituto visado na regra de conflitos. sendo que. o regime do conceito quadro visado na norma de conflitos. no conceito quadro da norma de conflitos. no administration of estates act. nós aqui. O art. se as pessoas quiserem obter tutela jurídica para um certo direito. e com isso nós vamos caracterizá-las.15º CC.

existem prazos durante os quais as acções podem dar entrada em Tribunal. funcionalmente esta regra inglesa acaba por ter uma função que é semelhante à nossa relativamente à própria prescrição. porque ai há regras de conflitos específicas de prescrição e caducidade. se nós atendermos à função da norma inglesa. e sendo ela uma regra processual. porque nós só podíamos aplicar o direito material inglês substantivo e não processual. no fundo esta regra visa exactamente aquilo que visam as nossas regras da prescrição. aquelas normas materiais funcionais aplicáveis. Isto se não estivermos no âmbito do Regulamento Roma I e II. um problema de prescrição em que fosse aplicável em matéria de prescrição a lei substantiva inglesa. se nós entrarmos pela norma a dentro. portanto. Garantir a estabilidade na ordem jurídica e a tutela da confiança. para nós sabermos se as normas materiais aplicáveis são ou não são reconduzíveis ao conceito quadro. pois. esta regra é caracterizada no próprio direito inglês. nós não tínhamos como aplicar esta regra. porque. nós íamos ter uma dificuldade. Que trata da prescrição e da caducidade. numa situação em que estivesse em causa. Portanto. que consiste no facto de que cada Tribunal aplica as suas próprias regras processuais. Mas a verdade é que. então já não mais se pode intentar essa acção em Tribunal. se a lei que trata da questão no ordenamento jurídico inglês. como sendo uma regra processual. ser reconduzíveis ao conceito quadro do art. porque no DIPrivado existe uma regra que não está escrita. E por essa razão. e por isso se entende que estas regras inglesas poderão ainda. nós vamos verificar que esta norma estabelece um prazo durante o qual as acções devem de dar entrada no Tribunal. por exemplo. caracteriza esta situação como sendo processual. Nós temos de verificar se funcionalmente.até ao final desse prazo. nós temos sempre de desenvolver um raciocínio de correspondência funcional. ficávamos com um problema. nós aqui iriamos ter uma dificuldade. correspondem ao conceito quadro da nossa norma de conflitos. Aula Direito internacional Privado 24 Março Página 70 de 221 .40º CC. Como no sistema inglês tudo isto está pensado em termos de acções que dão entrada nos tribunais. não existem exactamente prazos de prescrição. Assim. daqui concluímos que neste processo da qualificação.

portanto já não há outras remissões. RomaII. • Também nos casos em que existe uniformização de direito de conflitos já se consegue a harmonia internacional de soluções em todos os países que aderiram a essa convenção. poderá remeter directamente para as suas normas materiais ou para as suas normas de conflitos. em todos os países onde se aplicam os regulamentos Europeus. porquê? porque a norma de conflitos. no sentido que a remissão é mesmo essa. para além disso significa basicamente que quando uma norma de conflitos diz que em matéria de capacidade para contrair casamento é aplicável a lei da nacionalidade. Página 71 de 221 . Portanto esta solução da referência material. tendo como exemplo de conexão a nacionalidade. reflecte o respeito pelo elemento de conexão que está consagrado na norma de conflitos. qual é que é a lei material que vai ser aplicada se um sistema praticar a referência material? a lei material da nacionalidade. Se remeter directamente para as normas materiais.Nós hoje vamos continuar a matéria da aula passada em que tínhamos visto que quando é feita uma referência a uma norma de conflitos poderá ser uma referência global. a referência material tem vantagens: • desde logo quando as parte escolhem uma determinada lei aplicável é essa lei material que vai ser aplicada. e aí já é respeitada a escolha que é feita pelas partes. portanto. por exemplo aplicam sempre as mesmas normas de conflito. pelo elemento de conexão que está consagrado na norma de conflitos. por isso ele à partida aplicam sempre a mesma lei e norma de conflitos. • também nos casos em que a norma de conflito determina a aplicação da lei que apresenta a conexão mais estreita é essa a lei materialmente aplicável. o que é que também reflecte esta orientação. do Quebec. ou material. há aqui um respeito também pela justiça da conexão. nós dizemos que pratica um sistema de referência material. Roma II. no regulamento Roma I. uma norma de conflitos remete para um elemento de conexão de um determinado ordenamento jurídico. vai aplicar que lei? vai aplicar a lei material da nacionalidade. portanto aplica directamente as normas da lei para onde remete e esta é a solução consagrada no direito brasileiro.

a vantagem é sempre a harmonia internacional de julgados. à teoria da referência material é a Teoria da Referência Global. se nós tivermos uma hipótese de retorno. abrange inclusive as normas de conflito da lei para onde essa norma de conflitos está a remeter. A referência global é a solução adoptada essencialmente pela jurisprudência francesa pela inglesa e também se encontra consagrada noutros sistemas de forma mais ou menos mitigada. Este é um caso de transmissão para a lei de um terceiro estado. ela vai remeter para as normas de conflitos da L2 e se por hipótese a L2 determinar que é aplicável a L3 porque imaginem que L1 remete para a lei da nacionalidade mas a lei da nacionalidade tem uma norma de conflitos que diz que a lei aplicável é a lei da residência habitual. Quais são as desvantagens da referência global : podemos ter um problema de um ciclo vicioso. porquê? porque se a L1 praticar um sistema de referência global. nesta a referência que é feita a uma lei estrangeira quando a norma de conflitos remete para uma lei estrangeira está a fazer referência global. ou seja todas as leis deste esquema. ou seja diz que também vai atender ao que dizem as normas de conflitos da lei para Página 72 de 221 . e por hipótese até a lei da residência habitual se considera a si própria competente. no esquema anterior se L1 tiver referência global e diz que vem atender ao que dizem as normas de conflitos de L2. imaginemos que a residência habitual é em L1 o que é que nós temos aqui a L1 remete para L2 lei da nacionalidade e lei da nacionalidade tem uma norma de conflitos que diz que aplica a lei da residência habitual. de si própria. L1 se fizer referência global. fazendo uma referência global o que é que isto significa. Áustria. este é o sistema da referência global e portanto atende ao que dizem as normas de conflitos para onde se remete. neste caso caso também se conseguirá a aplicação da lei do foro. Itália. mas L2 por hipótese também pratica ela própria um sistema de referência global. o que é que isto significa. mas. portanto nesta hipótese L1 poderá aplicar L3. como é o caso da Alemanha. a da residência habitual que é L3. que ainda terá de se perguntar a L2 o que é que as normas de conflito da L2 fazem.A outra solução em alternativa. porquê? porque ela considerou o que dizem as normas de conflitos da L2. que L1 vai remeter para L2 e vai atender ao que dizem as normas de conflitos da L2. Qual é a vantagem da referência Global : é a harmonia internacional de julgados. se ainda se consideram a si próprias competentes ou se remetem para outra lei ou se até elas próprias remetem para a lei do foro. ou seja. Portanto quando temos L1 a remeter para a L2 o caso de se fazer referência global. porque se L2 aplica L3 e L3 também se considera a si própria competente. também irá aplicar L3. neste caso se a L1 atender ao que dizem as normas de conflito de L2 o que é que vai determinar a aplicação da L1. vão todas aplicar a mesma lei.

onde remete. o que é que ela vai fazer? vai fazer uma referência global para a lei onde as suas normas de conflitos remetem. Portanto. o que é que isto significa? significa que faço uma referência global para onde a sua norma de conflitos remete. mas para evitar quer o ciclo vicioso quer o reenvio ad infinitum. as normas de conflitos de L2 a remeter para as de L3. ou seja. E foi precisamente para tentar superar estas dificuldades. Temos um sistema que é o da devolução simples. Ou seja a primeira referência é uma referência global e desde logo assume que a referência que L2 fizer para uma outra lei há de ser entendida por L1 como uma referência material. os tribunais do estado que consagra este sistema de devolução simples vão fazer uma referência global para a lei para onde remetem.” Portanto a norma de conflitos de L2 remete para L3 logo nesta hipótese L1 iria aplicar L3. mas aplicarei as normas materiais da lei para onde a norma de conflitos de L2 remeter. logo nesta hipótese L1 aplica L3. podemos ter as normas de conflitos de L1 a remeter para as normas de conflitos de L2. Porquê? porque L1 faz devolução simples. Portanto um dos problemas que podemos ter pela referência global é este ciclo vicioso. a sua norma de conflitos remete para L2 logo atendo ao que dizem as normas de conflitos de L2 mas para evitar o reenvio ad infinitum diz desde logo que aplicará as normas materiais da lei para onde as normas de conflitos de L2 remeterem. e as suas normas de conflitos remetem para L2. que é uma modalidade de reenvio. quer do ciclo vicioso como do reenvio ad infinitum que surgiu uma modalidade especial de reenvio. o que vamos encontrar é que dentro de alguns sistemas que praticam ainda a referência global. a L1 diz desde logo “eu atendo às normas de conflitos de L2. como faz uma referência global vai atender ao que dizem as normas de conflitos de L2. como as normas de conflitos de L2 remete para L3 então L1 vai aplicar L3. as de L3 para L4 e por aí em diante. e andam aqui a remeter as normas de conflitos de umas para as outras e não saímos daqui. em última instância poderíamos andar aqui todos a remeter para as normas de conflitos dos outros e não conseguimos chegar a um resultado. que atendem às normas de conflitos da lei para onde remetem que nós vamos encontrar algumas variações. e a L2 a remeter para L1. Página 73 de 221 . neste sistema. imaginem no esquema. temos aqui um jogo de ping-pong que temos L1 a remeter para L2. é que também podemos ter um reenvio ad infinitum porquê. Por exemplo no esquema: se L1 praticar um sistema de devolução simples. Uma outra possibilidade em abstracto. atende às normas de conflitos de L2 e aplica a lei material para onde L2 remete.

L2 ao fazer devolução simples faz uma referência global para L1. mas como é óbvio ela poderá colocar dificuldades. a referência que L1 fizer a L2 será uma referência global.Se nesta mesma lógica. não há é harmonia internacional de julgados. e assim para diante. ou seja atende às normas de conflitos de L1 dizendo desde logo que irá aplicar as normas materiais para onde L1 remeter. Queremos saber que lei L2 aplica. ou seja atenderá às normas de conflitos de L2 dizendo desde logo que irá aplicar a lei material para onde as normas de conflitos de L2 remeterem. que para sabermos a devolução só precisamos de saber contar até dois. não há que enganar. o que é que isto significa? significa que vai fazer uma referência global para L3. como as normas de conflitos de L2 remetem para L1. Não há qualquer ciclo vicioso porque L2 vai aplicar as normas materiais de L4 e porque L1 vai aplicar as normas materiais de L3. ou seja com este esquema não temos retorno ad infinitum. E as normas de conflito de L1 remetem para as normas de conflito de L2 logo nesta hipótese L2 irá aplicar L2. mas o problema resolve-se. contudo o preço que nós pagamos é nem sempre conseguir ter a harmonia internacional de julgados nos últimos casos referidos não temos. porquê? porque diz desde logo que a segunda referência há de ser assumida como uma referência material. como L3 remete para L4 então L2 iria aplicar L4. irá aplicar a lei material para que as normas de conflitos L3 aplicarem. No caso em que L2 aplica L4 e L1 aplica L3 também não se consegue. o que é que vamos fazer? L1 vai fazer devolução simples. assim não há problema de retorno ad infinito nem de ciclo vicioso. ou seja vai atender ao que dizem as normas de conflitos de L3 dizendo que desde logo. Outra modalidade de reenvio que temos para além da devolução simples é a devolução dupla ou a chamada devolução integral ou dupla devolução é Página 74 de 221 . Reparem que quando queremos saber o que L1 faz temos de partir de L1 se queremos saber que lei aplica L2 faz temos partir de L2 e depois é só seguir o sentido das setas. partimos de L1 para chegar à conclusão que ela aplicava L3. porque L1 aplica L1 e L2 aplica L2. é o problema da harmonia internacional de julgados. pela italiana. Esta modalidade de devolução é praticada pela jurisprudência francesa. Ainda na hipótese se nós tivermos devolução simples o raciocínio é exactamente o mesmo. se fizermos devolução simples. podemos é não ter harmonia internacional de soluções. queremos saber que lei L2 aplica? se queremos saber o que cada uma das leis aplica teremos de partir dessa mesma lei. Agora queremos saber que lei L2 aplica. Eu costumo dizer a brincar. L1 irá aplicar L1. e uma das dificuldades que vai colocar.

consegue-se aqui. como L2 faz devolução simples para L1 já sabemos que faz uma referência global para L1 dizendo desde logo que vai aplicar as normas materiais da lei para onde as normas de conflitos de L1 remeterem já sabemos então que L2 aplica L2 . porque os sistemas que praticam a devolução dupla vão sempre vão fazer o mesmo da lei para onde remetem fizer. A desvantagem é que se no esquema anterior os dois praticarem a devolução dupla. Por esta razão é que de facto o ideal é termos sistema misturados que consigam combinar várias soluções. L1 vai aplicar o quê? L2. temos um problema de reenvio ad infinitum e aqui não temos solução. porquê? já o Professor Eduardo dos Santos dizia que este esquema. Grande vantagem deste sistema de devolução dupla? Harmonia internacional de julgados. ou seja L1 vai aplicar a mesma lei que L2 aplicar. passe primeiro” e não saíamos daqui. mas imaginemos que L2 neste caso fazia referência material nesta hipótese L2 aplicava então L3. não. destes dois sistemas a conclusão a que chegamos é que a devolução simples é sempre praticável mas nem sempre garante a harmonia internacional de julgados. e L2 diz eu faço o mesmo que L3 fizer e L3 diz eu faço o mesmo que L4 fizer. Outro problema pode ser em casos de transmissão de competência se todas as regras do sistema fizerem devolução dupla. também chamado de jogo de espelhos. não dá resposta porque entramos num ciclo vicioso.praticado essencialmente em inglaterra ou nos sistemas de common law de acordo com esta teoria a designação de uma lei estrangeira impõe aos tribunais do foro o dever de julgar a causa tal como faria o do foro da lei para onde remetem. teremos uma situação de ciclo vicioso. Portanto este pode ser o problema da devolução dupla e nestes casos não existe solução. Página 75 de 221 . Aquilo que temos de saber é o que é que a lei a seguir faz e faremos igual. Mas se tivermos uma situação de retorno em que L1 faz devolução dupla para L2. para nós sabermos que lei L1 aplica. (mantive L2 a fazer devolução simples e nós já sabemos que na hipótese que L2 aplica L4) ou seja se nós tivermos L1 a fazer devolução dupla o que significa? significa que os tribunais de L1 vão aplicar a mesma lei que os tribunais da lei para onde remetem aplica. teremos de saber primeiro que lei L2 aplica. era como aqueles cavalheiros muito bem educados que estão ambos à entrada de uma porta e um diz “passe primeiro” e outro dizia “não. faz devolução simples. precisamos de saber primeiro que lei é que L2 aplica. Como L2 nesta hipótese pratica um sistema de devolução simples e L” aplica L4 então L1 também irá aplicar L4. ou seja para sabermos que lei que L1 aplica. se L1 diz eu faço o mesmo que L2 fizer. a devolução dupla. portanto este sistema é fácil pois o fazer devolução dupla irá fazer o mesmo que fará o tribunal do país para onde remete.

por exemplo se estivermos a aplicar o Roma I. significa que se no regulamento Roma queremos saber qual a lei que se aplica a um contrato de compra e venda. Portanto daqui a conclusão a que chegamos é que a própria devolução não pode ser dirigida em principio geral de Direito internacional privado mas vamos ter de reconhecer também a sua utilidade em alguns casos. volto a dizer nós só vamos aplicar este artigo se aplicarmos normas de conflitos que estão previstas no código civil. E é este o pensamento que está subjacente às orientações intermédias em matéria de devolução. nós temos a referência material como regra geral no artigo 16º do CC. Artigo 16º consagra então a referência material. por exemplo no Regulamento Roma I no artigo 20º também está consagrada a referência material. nós não temos em Portugal. Dependendo se estiver em causa a aplicação dos regulamentos europeu. mas também as regras do regulamento Roma I que tratem da devolução. nos Página 76 de 221 . portanto nada de aplicar as regras de conflito do Roma I e a seguir aplicar o artigo 17º. é um erro que não gosto de ver. em que o vendedor tem residência habitual em Espanha e o comprador em Itália. A mesma coisa no que respeita ao Roma II e por aí fora. que já vamos ver. nos regulamentos também vamos encontrar esta referência.conduz sempre à harmonia internacional de julgados mas nem sempre é praticável. Também quando nós falamos do sistema de devolução que existe em Portugal. Não se faz. se as partes não tiverem escolhido a lei aplicável. interessante. 49º. vamos encontrar países como é o caso de Portugal em que não está em vigor nenhum sistema comum. para não variar muito teremos de fazer uma distinção. como iremos ver. um sistema de referência material. Entre nós as regras relativas à devolução são as seguintes. nem de devolução simples nem de devolução dupla temos um sistema híbrido. vamos ter de aplicar o Roma I todo. o aproveitamento dos negócios jurídicos. ou a aplicação das regras do código civil. desde que sejam de fonte interna. 18º e 16º do código civil. O que é que isto significa? significa que nós só vamos aplicar as regras de devolução que estão previstas no código Civil português se nós estivermos a aplicar normas de conflitos de fonte interna. já sabemos se nós estivermos a aplicar os regulamentos Europeus. porque de facto pela devolução podemos conseguir alcançar a harmonia internacional de julgados e também conseguir o aproveitamento dos negócios jurídicos. ou seja. 46º 45º o que seja. não apenas as normas de conflitos do regulamento Roma I. mas que de facto pretende garantir dentro da medida do possível a harmonia internacional de soluções e também a validade.

e depois iremos encontrar excepções à excepção. mas no código civil Português a história já é diferente. Significa isto desde logo um respeito pelo elemento de conexão que foi seleccionado pelo legislador. consagra então referência material o que significa que por regra. e não para as normas de conflitos. que iremos apreciar tendo em conta a sua especialidade quando tratarmos do regulamento Roma V. No regulamento Roma V temos uma regra especial de devolução. mas depois temos o artigo 17º e 18º que consagram excepções à referência material que está prevista no 16º. e não há duvidas que consagra a excepção material porque diz o seguinte : “ a referência das normas de conflito a qualquer lei estrangeira determina apenas.termos do artigo 4º nº1 alínea a) do Roma I é aplicável a lei da residência habitual do vendedor. Se L1 fizer referência material o que isto significa é que L1 aplicará L2 e não lhe interessa nada que L2 remeta depois para outra lei. e por isso admitindo-se o reenvio nos artigos 36º nº2 e 65º nº1 parte final. Em todos estes regulamentos e na convenção de Roma é praticado um sistema de referência material significa que vamos aplicar lei material do ordenamento jurídico para onde a norma de conflitos remete. na falta de preceito em contrário a aplicação do direito interno dessa lei. porque faz referência material. O mesmo se passa no artigo 15º da convenção de Roma. II e III . e excepções à exepção da excepção…. está prevista no artigo 34º. e também no artigo 11º do regulamento Roma III . isso já não interessa nada. não há excepções. se o vendedor tinha residência habitual em Espanha a lei material que vamos aplicar é a lei material Espanhola. Portanto estas são as regras que estão em vigor no ordenamento jurídico Português que consagram a referência material. Vamos também encontrar excepções à referência material. porque temos o artigo 16º que de facto consagra a referência material. referência material e acabou. Vamos começar pelo artigo 16º. o mesmo se passa no artigo 24º do regulamento Roma II. por exemplo em matéria de capacidade para contrair casamento determina em principio a aplicação da lei da nacionalidade se vigorar de facto o sistema da referência material será facto a lei da nacionalidade que será aplicada. o que significa que quando as normas de conflitos remetem para uma determinada lei estão a remeter exclusivamente para as normas materiais dessa lei. vamos encontrar nos regulamentos ROMA I. mas depois. portanto este sistema tem de facto Página 77 de 221 .” portanto referência material. que estava em vigor antes do regulamento Roma I. e aí temos um sistema de devolução que já não é referência material. porque no regulamento Roma I artigo 20º é feita referência material.

mas há um segmento dessa norma que diz : “na falta de preceito em contrário”. e começa assim porque tem desde logo antes dela o artigo 16º. A lei Argentina aplica que lei? a lei Argentina porque ela se considera a si própria Página 78 de 221 . Reparem que se tivermos uma situação de um cidadão Brasileiro que quer saber se tem ou não capacidade para contrair casamento.subjacente este juízo de valor. ora só é feita referência material se não houver preceito em contrário. Significa então também que o direito internacional privado Português só vai admitir que estas opções valorativas que estão consagradas nas suas regras de conflitos. que diz : “se porém” . esta é a regra geral. não estranhem uma norma que comece com se porém. é o direito interno desta legislação que deve de ser aplicado.” Qual é a lei referida pela norma de conflito s Portuguesa? L2. artigo 49º mais o artigo 31º nº1 determina que será aplicada lei da nacionalidade. A Lei Argentina considera-se a si própria competente neste caso o que temos é a lei Portuguesa a remeter para a lei brasileira. para regular o caso é o direito interno desta legislação que deve de ser aplicado. O cidadão tem nacionalidade Brasileira e a norma de conflitos Brasileira determina a aplicação lei da residência habitual para regular os problemas que se prendam com matéria de estatuto pessoal. a situação está a ser colocada nos tribunais Portugueses. há aqui uma premência que foi formulada pelo legislador do foro quando entendeu que para um determinado problema era adequada a aplicação da lei de um determinado ordenamento jurídico. possam ceder se conseguirem obter qualquer outra vantagem. que beneficio é esse? pode ser por exemplo a harmonia internacional de julgados. nós temos é de o saber ler. porém se o direito internacional privado de L2 remeter para outra legislação e remete. preceito em contrário pode ser desde logo o artigo 17º. “se porém o direito internacional privado da lei referida pela norma de conflitos portuguesa remeter para outra legislação e esta se considerar competente para regular o caso. a residência habitual é por exemplo na Argentina. pelo elemento de conexão. remete para L3 e se esta se considerar a si própria competente. o artigo tem cá tudo. por exemplo: da nacionalidade. direito interno de L3. partimos do artigo 16º a regra é a referência material. ou seja o nosso legislador entende que por regra a lei aplicável será a lei material do ordenamento jurídico para onde se remeta mas admite a aplicação de uma outra lei se com isso conseguir alcançar certos resultados que são tidos como úteis na óptica do direito internacional privado designadamente a harmonia internacional de decisões ou eventualmente a validade dos negócios jurídicos. Vejamos que casos são esses. a lei Brasileira vai aplicar que lei? vai aplicar a lei Argentina. e este artigo 16º consagra a referencia material e temos de ter isto presente.

isto significa que para nós os pressupostos de aplicação do artigo 17º nº1 num esquema com três leis. se o Senhor Brasileiro em vez de ter ter a residência na Argentina tinha residência habitual por exemplo em Itália. agora queremos saber L2 aplica o quê? partimos da L2. L3 faz devolução simples. e por isso onde se lê no artigo 17º “se porém o direito internacional privado da lei referida pela norma de conflitos portuguesa…” por exemplo L2 está a remeter. referência global. neste esquema ainda em vez de lei Brasileira fosse lei Francesa. isto significa que faz uma referência global para L2 desde logo diz que a lei que L2 aplicar será a lei aplicada. vamos imaginar que a lei francesa também faz devolução simples nesta hipótese teríamos L1 a remeter para L2.competente. ou seja o que é que se tenta. L2. por força do artigo 17º nº1 vai aplicar que lei? a lei Argentina. Quais são então os pressupostos que nós teremos de verificar sempre pra ver se o 17º nº1 está ou não preenchido? 1º Que a lei Portuguesa remeta para uma lei estrangeira. 3º Que esta outra lei se considere a si própria competente. a harmonia internacional de julgados. L2 aplica que lei L3 porque faz referência material Italiana logo vai aplicar as normas materiais italianas. é o direito interno desta legislação que deve de ser aplicado. e a lei portuguesa. Esta é a situação clássica do artigo 17º nº1. Podemos é ter aqui situações que não sejam exactamente assim. que em todos os tribunais se aplique a mesma lei e isso neste caso consegue-se. L2. no entanto podemos ter uma situação diferente que era. L2 nesta hipótese aplicava que lei. isto significa que no artigo 17º nº1 onde está escrito “remete” se deverá ler aplica. porque a lei Brasileira. L2 aplica L3 e L3 considera-se competente. mas não basta que remeta tem de aplicar uma outra legislação e esta se considerar competente para regular o caso. então que lei é que L3 aplica? L3 aplica L3 e temos desta feita preenchidos os pressupostos de aplicação do artigo 17º nº1. que é a lei para onde a nossa norma de conflitos remete aplica uma terceira lei que se considera a si própria competente. qual é o principio que está subjacente à devolução. e Itália também aplicava a lei da nacionalidade sendo que no Brasil é feita a referência material e em Itália é feita devolução simples. agora precisamos de saber que lei L3 aplica. referência material porquê? porque faz devolução simples. harmonia internacional de julgados. mas diz desde logo que Página 79 de 221 . são que L1 remeta para L2 que L2 aplica L3 e que L3 se considera a si própria competente então nesta hipótese última. significa que atende ás normas de conflitos da lei para onde remete. que não sejam tão lineares como esta. Agora não podemos. porque o artigo 17º nº1 não pode ser tomado à letra. Neste caso L1 remete para L2. O objectivo é a harmonia internacional de soluções. 2º Que L2 aplique uma outra lei.

estando este preenchido tínhamos de verificar se estava preenchido o 17º nº2 e então vamos ver “ cessa o disposto no número anterior se a lei referida pela norma de conflitos portuguesa for a leipessoal…” e é a lei Página 80 de 221 .” ou seja se L2 for a lei pessoal e estivermos no âmbito de matéria do estatuto pessoal. tínhamos o artigo 17º nº1 preenchido porque L1 remetia para L2 L2 remetia para L3 e Le declarava-se a si própria competente. estão determinadas as matérias no artigo 25º do CC. ou em país em que as normas de conflitos considerem competente o direito interno do estado da sua nacionalidade”. que teríamos aqui. L2 tem de aplicar a normas materiais de L3 e nesta hipótese. e L3 aplica L3. nós só abdicamos do nosso elemento de conexão que é a L2 se com isso conseguirmos harmonia internacional de julgados. se L2 for a lei pessoal nomeadamente a lei da nacionalidade …”e se o interessado residir habitualmente em território Português. neste caso L2 aplica L2. como esta norma de conflitos de L3 remete para L2. conseguimos neste caso? Não. vejamos. como não conseguimos então nesta hipótese não estão preenchidos os pressupostos do 17º nº1 logo L1 iria aplicar L2. diz nos então o nº2 que: “ cessa o disposto no número anterior se a lei referida pela norma de conflitos portuguesa for a lei pessoal. O artigo 17º nº1 poderá depois ser excepcionado. são a capacidade. para a lei Portuguesa interessanos mais estar em harmonia com L2 ou com L3? com L2. família. porque L2 aplica-se a si própria.vai aplicar as normas materiais da lei para onde esta norma de conflitos remeter. a Lei portuguesa remetia para a lei da nacionalidade. então L3 vai aplicar L3. L2 não aplica as regras materiais de L3. personalidade jurídica sucessões. cessa então o número anterior se a lei for matéria de estatuto pessoal. é com ele que nos interessa estar em harmonia. porquê? porque é para L2 que o nosso ordenamento jurídico remete. Por exemplo: se tivermos dois suecos residentes habituais em lisboa e que casam em Nova york. porque faz referência global para L2 e diz desde logo para evitar cá ciclos viciosos que vai aplicar a lei para onde as normas de conflitos de L2 remeterem como as normas de conflitos de L2 remetem para L3. Reparem nesta hipótese temos que L3 aplica L3 e que L2 aplica L2. tudo isso é matéria de estatuto pessoal. lei sueca. se nós fossemos ler o artigo de uma forma literal o que é que iríamos dizer? Sim neste caso L2 remete para L3 e L3 considera-se a si própria competente. no artigo 17º nº2 podemos encontrar uma excepção ao artigo 17ºnº1. mas os pressupostos de aplicação do 17º nº1 não são apenas que L2 remeta para L3. Desta vez temos nós preenchidos os pressupostos de aplicação do artigo 17º nº1? Não temos. a lei sueca remetia para a lei de Nova York e a lei de Nova York consideradas a si própria competente.

pessoal porque estamos perante matéria de casamento, “e o interessado
residir habitualmente em território Português.”
residia habitualmente em
portugal, e nesta hipótese cessa o disposto no artigo 17ºnº1, que significa que
aquilo que vamos fazer é regressar à regra geral, que é a regra do 16º, ou seja
se artigo 17ºnº2 estiver preenchido, vai cessar o resultado do nº1 e voltamos à
regra geral. Logo L1 aplicaria L2 porque cessaria o disposto do número
anterior.

Teórica de 27/03/2015
Na aula passada vimos os pressupostos de aplicação do art.17º nº1
CC., vimos que estávamos presentes de uma situação do art.17º nº1 de
estivéssemos perante um caso em que L1 remete para L2, L2 aplica L3 e
L3 aplica-se a si própria.
Vimos que também não tem de ser um esquema necessariamente
assim, pois, atendendo ao próprio sistema de devolução que é praticado é
necessário é que num esquema como este L2 aplique directa ou
indirectamente L3 e que L3 se considere a si própria competente.
Para além deste esquema de três leis nós podemos ter esquemas de
mais leis, por exemplo, podemos ter um caso em que L1 remeta para L2, L2
para L3, L3 para L4 e L4 devolva novamente para L2.
Neste esquema, se todas as leis deste esquema praticarem
devolução simples, qual é que vai ser o resultado.
L2 ao fazer devolução simples, fará uma referência global para L3 e
a referência que L3 fará para outra lei será uma referência material,
portanto, L2 vai aplicar L4, L3 faz uma devolução simples, portanto,
referência global para L4 e a referência que L3 faz para L4 será uma
referência material, logo, nesta hipótese, L3 vai aplicar L3.
Se nós quisermos saber que lei é que L4 aplica, vamos fazer o
mesmo raciocínio. Partindo de L4, L4 faz referência global para L3 e L3
fará uma referência material, logo, L4 aplica L4.
Nesta hipótese nós também temos preenchido os pressupostos de
aplicação do art.17º nº1, porque L1 remete para L2, L2 aplica L4 e L4
considera-se a si própria competente, portanto, neste caso, à luz do art.

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17º nº1 iriamos aplicar a lei de L4, porque os pressupostos de aplicação
do art.17º nº1 são: que L1 remeta para L2, que L2 aplique uma outra lei e
que esta outra lei se considere a si própria competente.
O que é que nos interessa; saber que lei L2 aplica porque o nosso
elemento de conexão remete-nos para L2, interessa-nos estar em
harmonia com L2, que é para onde o nosso elemento de conexão nos
remete, e por isso, vamos querer saber que lei é que L2 vai aplicar.
L2 aplica que lei? L2 aplica L4, mas como subjacente a este
esquema do art.17º nº1 está também a harmonia internacional de
julgados, vamos querer saber se a lei que L2 aplica também se considera
a si própria competente. E considera.
Nesta altura podem-me dizer, “mas não estamos em harmonia comL3”,
pois não, paciência, mas conseguimos estar em harmonia com L2 e com a lei
que L2 aplica.
Portanto, nesta hipótese o art.17º nº1 também estava preenchido.
Vimos também na aula passada que, se nós estivermos num situação
em que L2 seja matéria de estatuto pessoal e será matéria de estatuto pessoal
se nós estivermos em alguma das situações do art.25º CC., (estado,
capacidade, família sucessões), temos o art.17º nº2 a dizer-nos:
Cessa o disposto no número anterior, (ora, no nº anterior chegámos à
conclusão que L1 iria aplicar L3, logo, cessa) se a lei referida pela norma de
conflitos portuguesa for a lei pessoal (logo, se L2 for a lei pessoal, matéria de
estatuto pessoal, em princípio será a lei da nacionalidade) e o interessado
residir habitualmente em território português (vamos imaginar que estamos
perante um problema de capacidade de contrair casamento em que o
interessado reside habitualmente em Portugal. Nesta hipótese o art.17º diz-nos
que cessa o disposto no nº anterior, portanto, teríamos preenchido neste caso
o 17º nº2, consequência, cessando o disposto no nº anterior a consequência
seria que voltávamos ao artigo 16º, L1 aplicaria L2. A razão subjacente a esta
excepção do art.17º nº2, reparem, o art.17º nº2 só se aplica se estivermos
perante matéria do estatuto pessoal, em matéria de estatuto pessoal os
elementos de conexão mais importantes são a lei da nacionalidade ou a
residência habitual, ora, se estamos a tratar de matéria de estatuto pessoal e
se o interessado residir habitualmente em território português, reparem, se
estamos a falar de matéria de estatuto pessoal, em princípio o art.31º vai estar
a remeter para a lei da nacionalidade, ora, para nós admitirmos o reenvio e
admitirmos a aplicação de L3, nós vamos prescindir daquilo que determina o
nosso elemento de conexão, ou seja, da aplicação da lei da nacionalidade.

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Porém, se estivermos perante uma situação em que L1 remete para a lei
pessoal que em princípio é a lei da nacionalidade, (porque estamos perante
matéria que é do estatuto pessoal) e para além disso o interessado reside
habitualmente em território português, neste caso, o legislador português diznos que não vamos prescindir do nosso elemento de conexão, porque os
elementos relevantes em matéria de estatuto pessoal residem todos em
Portugal.
A residência habitual é em Portugal, e Portugal determina a aplicação da
lei da nacionalidade, portanto, faz cessar o reenvio se estes pressupostos
estiverem atingidos.
Na parte final do art.17º nº2 podemos ainda ter outra situação que
faz cessar o nº1:
Cessa também o nº1, aplicando-se o nº2, nos casos em que se trate
de matéria de estatuto pessoal e o interessado resida não em Portugal
mas “… em país cujas normas de conflitos considerem competente o direito
interno do Estado da sua nacionalidade. “
Vamos imaginar que o interessado tem residência habitual em LX. Lx é o
país da sua residência habitual, se o país da residência habitual considerar que
deve de ser regulado por L2 que é a lei da nacionalidade, a situação está a ser
tratada em tribunais portugueses, os tribunais portugueses aplicam as normas
de conflito portuguesas, consideram que a lei que melhor regula a questão é a
lei da nacionalidade, uma vez que estamos a tratar de matéria do estatuto
pessoal, o interessado não reside em Portugal, mas reside num país que
considera que esta questão também deve de ser regulada pela lei da
nacionalidade, ora, se temos, quer em Portugal, quer no país da residência
habitual, a considerar que deve de ser aplicada a lei da nacionalidade, então,
fazemos cessar a aplicação do art.17º nº1, porque se encontram preenchidos
os pressupostos de aplicação do art.17º nº2.
Consequência estando preenchidos os pressupostos de aplicação
do art.17º nº2.
L1 vai aplicar L2, passa a haver uma referência material que é a que
resulta do art.16º.
Agora, nós temos aqui ainda uma outra indicação no art.17º nº3.
Vamos lá ver, só para nos localizarmos:
1. Começámos com o art.16º, regra geral, referência material;

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2. Vemos que existe uma excepção ao art.16º, que é a que está
prevista no art.17º nº1, que admite o reenvio;
3. Depois vimos que existe uma excepção ao art.17º nº1, que
paralisa o reenvio e determina a aplicação de L2.
Agora, nós estamos a ver que existe no 17º nº3 uma excepção ao
art.17º nº2.
Vamos ver.
O art.17º nº1 estava preenchido, resultado provisório: L1 vai aplicar
L3.
Mas é um resultado provisório porque ainda vamos ter de ver se o
art.17º nº2 está preenchido. Se o art.17º nº2 também estiver preenchido,
chegamos à conclusão de que L1 iria aplicar L2, pois, o art.17º nº2 faz
cessar o reenvio.
Agora, vamos ter de verificar o art.17º nº3.
O que é que nos diz o art.17º nº3?
Ficam, todavia, unicamente sujeitos à regra do n.º 1 (ou seja,
excepciona o nº2) os casos da tutela e curatela, relações patrimoniais entre os
cônjuges, poder paternal, relações entre adoptante e adoptado e sucessão por
morte, se a lei nacional indicada pela norma de conflitos devolver para a lei da
situação dos bens imóveis e esta se considerar competente.
Por exemplo, se nós tivermos um problema de sucessão por morte, e
temos que a lei portuguesa remete para a lei da nacionalidade e a lei da
nacionalidade (por exemplo em França) remete para o lugar da situação dos
imóveis (lex rei sitae) porque diz que essa lei é que deve de regular a situação
por morte no que diz respeito aos imóveis, mesmo que por hipótese se tratasse
de um cidadão que tivesse residência habitual em Portugal, nós iriamos
verificar:
Vamos imaginar o caso de um cidadão francês que tinha residência
habitual em Portugal, morre, e deixa bens imóveis em Inglaterra.
1. A lei portuguesa remetia para a lei francesa.
2. A lei francesa a remeter para a lei inglesa e a lei inglesa
considerava-se a si própria competente.

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assim. (que é o último exemplo. Devolve ou não devolve? A Lei da nacionalidade manda aplicar a lei do lugar onde se situam os imóveis e a lei do lugar onde se situam os imóveis considera-se a si própria competente. temos também preenchidos os pressupostos de aplicação do 17º nº3. O interessado nos casos de sucessão por morte é o de cujos. o interessado era o de cujos. se se trata de uma questão relativa a bens imóveis.Então. os interessados são sempre aqueles que fazem acionar o elemento de conexão. Se o 17º nº1 está preenchido.17º nº2 preenchido. relações patrimoniais entre os cônjuges. Consequência: L1 aplica L3. estamos perante um problema de sucessão por morte) se a lei nacional indicada pela norma de conflitos (ou seja. se temos o 17º nº2 preenchido. Mas agora que nós temos o 17º nº1 preenchido e o 17º nº2 preenchido. chegávamos ao resultado provisório que L1 aplica L2. Residência habitual do de cujos antes de morrer. porque a lei referida pela norma de conflitos era a lei pessoal (matéria de sucessões é matéria do estatuto pessoal) e o interessado residia habitualmente em território português. relações entre adoptante e adoptado e sucessão por morte. poder paternal. se nós estivermos a aplicar a lei do lugar Página 85 de 221 . o 17º nº2 diz-nos que se estiverem preenchidos os pressupostos cessa o disposto no 17º nº1. todavia. Se o 17 nº1 não estivesse preenchido. nós tínhamos o art. temos de passar ao 17º nº3 e o 17nº3 diz-nos: Ficam. pois. O princípio que está subjacente ao 17º nº3 é o princípio da efectividade. art. portanto. era Portugal. pois. se L2 que é a lei da nacionalidade) devolver para a lei da situação dos bens imóveis e esta se considerar competente. o resultado provisório a que vamos chegar é o de que L1 vai aplicar L2. não são os herdeiros. logo. temos de passar à regra seguinte.17º nº1 estava preenchido porque L2 aplica L3 e L3 considera-se a si própria competente. nós não podíamos passar ao 17º nº2 e estávamos perante uma situação do 17º nº2. o elemento de conexão é a nacionalidade do de cujos. esta decisão vai ter de ser executada no país onde os imóveis se encontram situados. pois.º 1 os casos da tutela e curatela. unicamente sujeitos à regra do n. logo.

a norma de conflitos L2 considera que é a lei portuguesa. relativamente à situação anterior é a de que: na situação anterior L2 remetia para L3 e eventualmente. Mos termos do 17º nº3. Conclusão L1 aplicaria L3 Para além das situações de transmissão de competências. é feita referência material.16º nos fala na falta de preceito em contrário. e neste caso.da situação dos imóveis. temos também situações de retorno e as situações de retorno são as que estão previstas no art. é este o direito aplicável. nós aqui temos um outro pressuposto preenchido.18º constitui uma excepção ao art. L2 ao fazer referência material para L1 vai fazer referência a uma aplicação material da L1. É a lei da nacionalidade. L3 para L4.18º. Mais.18º? 1.18º para ver do que é que ele trata: Temos de ter presente de que. A diferença que aqui temos. a probabilidade desta decisão ser lá reconhecida é muito maior. aquilo que nós temos é L2 a fazer um retorno e neste caso. não se estabelece como pressuposto único que L3 se considere a si própria competente. Aqui. O art.18º temos de ter em atenção que o art.18º nº1 que. Portanto.16º.17º e art. ou seja. Página 86 de 221 . Se L2 aplica L1. O que é que nos diz o art. Nesta hipótese. então. pois que falta de preceito em contrário pode ser este? Art. também considera competente a lei do lugar da situação da coisa. Se o direito internacional privado da lei designada pela norma de conflitos (L2) devolver para o direito interno português. L1 também vai aplicar L1. nós também vamos aplicar. diz-nos o art. se estivermos perante uma situação em que L1 remete para L2 e L2 entende que a lei aplicável é a lei portuguesa. temos o 18º nº1 preenchido. Vamos pegar no art. se L2 aplicar o direito material português. quando olhamos para o art.18º.

Página 87 de 221 . em que de um lado está o Professor Batista Machado e do outro toda a restante doutrina. como L1 remete para L2. na qual eu me incluo. nesta hipótese. (não basta que remeta para as nossas normas de conflitos. o que significa que não está a aplicar directamente o nosso direito material. então L2 está a atender a todo o ordenamento jurídico português. Consequência L1 iria aplicar L2 e desta forma conseguíamos a harmonia internacional de soluções. L2 faz referência global para L1 e diz que vai aplicar as normas materiais da lei para onde as normas de conflitos de L1 remeterem.16º. não está a dizer que vai aplicar normas matérias portuguesas. L2 tem de facto de aplicar o direito material português) é este o direito aplicável. Se L2 aplica L2. está a remeter para o nosso sistema na globalidade.18º nº1. O próprio art. L2 aplica L2. podemos ter um problema diferente. se está a fazer esta referência global pura ao dizer que fará exactamente o mesmo que vocês fizerem. não temos preenchidos os pressupostos de aplicação do art. nos casos em que L2 pratique uma devolução dupla. mas como L2 faz devolução simples. se por exemplo.18º nº1. Nos sistemas de dupla devolução L2 diz-nos que L2 faz uma referência global para L1. Se nós temos L2 a fazer devolução dupla para L1. logo. L2 fizer devolução simples. íamos aplicar o art.18º nº1 dá uma ajuda. vamos ter L2 a remeter para as nossas normas de conflitos.18º nº1. nós não temos preenchidos os pressupostos de aplicação do art. pois existe uma divergência. se entende que nesta hipótese. Esta é uma questão que tem suscitado grandes questões na doutrina. não aplica as normas materiais de L1. Começando por aquela defendida por toda a restante doutrina. dizendo que fará exactamente o mesmo que os tribunais portugueses fizerem. porque diz “Se o direito internacional privado da lei designada pela norma de conflitos (portanto. Nestes casos o 18º nº1 não está preenchido. Agora. atendendo inclusive ao vosso sistema de devolução. Por isso. se o direito internacional privado de L2) devolver para o direito interno português. está a dizer “eu faço o mesmo que vocês fizerem”. portanto.Mas. nesta hipótese. Portanto. nesta hipótese nós não tínhamos preenchido os pressupostos de aplicação do art.

só se aplica o direito material português se L2 aplicar o direito material português. L2 também vai dizer que somos competentes e ai. a harmonia internacional de soluções está sempre garantida.18º nº1. Mas não ficamos por isto: resolvemos a questão desta forma. porque L2 vai sempre fazer aquilo que L1 fizer. temos os pressupostos de aplicação do art.Mas isto pode suscitar dúvidas. Argumento que o Professor Batista Machado utiliza para dizer que neste caso é preferível fazer esta interpretação é o argumento do princípio da boa administração da justiça. o art. logo.18º nº1 não está feito para garantir ou para forçar a aplicação do direito Página 88 de 221 .16º e assim como assim L2 faz devolução dupla e antão L2 também aplica L2 e conseguimos a harmonia internacional de soluções. O Professor Batista Machado não concorda com esta solução pois entendia que esta era uma situação que também cabia nos pressupostos de aplicação do art. O Professor Batista Machado se o art. a dizer que remete para todo o nosso sistema (normas de conflito.18º nº1 preenchido. a probabilidade de erro judiciário é muito menor. tem de fazer aquilo que L1 fizer. se nós dissermos que nos consideramos. se neste caso nós considerássemos que o 18º nº1 estava preenchido. neste caso. o 18º nº1 diz que. Segundo a outra orientação responde a estes argumentos dizendo que o art. o princípio da boa administração da justiça. sistema de devolução) não está a remeter especificamente para o nosso direito material.18º nº 1 não está preenchido. então L1 irá aplicar L2 por força do art. se L2 diz “ eu faço o mesmo que L1 fizer” e se L1 faz aquilo que a outra lei faz. porque o Professor Batista Machado acaba por demonstrar aquilo que queria demonstrar. pois. a consequência seria a de que L1 aplicaria L1 e L2 também aplicaria L1. Como L2 está com cerimónias. Crítica Petição de princípio.18º nº1 não está preenchido. ficávamos aqui num jogo de espelhos. competentes. L2 vai sempre fazer dupla devolução portanto. isto segundo o Professor Batista Machado. Em todo caso. Se os tribunais portugueses aplicarem o seu próprio direito material. que L2 se aplica a si própria. ou seja. então. Fundamentos: Se L2 faz o mesmo que L1 fizer. logo. ou seja.

nós estivermos perante uma situação em que L1 remeta para L2 e L2 devolva para L1 e L2 faça referência material. nós preferimos aplicar L2. Nesta hipótese. nós tínhamos preenchidos os pressupostos de aplicação do art. Podemos ainda ter situações em que temos retorno indirecto. Vamos imaginar que temos um caso em que L1 remete para L2. o art. então. mas mesmo que L3 não fizesse referência material mas fizesse.18º nº1? Quais são os pressupostos de aplicação do art. ainda assim. Se L2 aplica L1 temos preenchidos os pressupostos de aplicação do art. L1 também vai aplicar L1.material português. porque L2 aplica L1. devolução simples. como neste caso a harmonia internacional de soluções está sempre garantida. porque L3 fazia devolução simples. o argumento principal parece-me que é mesmo o facto que L2 ao remeter para L1 fazendo devolução dupla. Em todo o caso. L2 ao fazer devolução simples vai fazer referência global para L3. logo.18º nº1. que é a lei que pelo nosso elemento de conexão considera a mais adequada. Nesta hipótese. Como L2 aplica o direito material de L1. porquê? 18º nº1 do CC. neste caso iria aplicar L2. L2 para L3. temos o 18º nº1 preenchido.18º nº1 visa a harmonia internacional de soluções e o ordenamento jurídico português só abdica da aplicação de L2. vai atender às normas de conflitos de L3 e diz que vai aplicar as normas materiais da lei para onde as normas de conflitos de L3 remeterem. L2 aplica o direito material de L1. Se por exemplo. L1 só abdica da aplicação de L2 se com isso conseguir a harmonia internacional de soluções. não temos dúvidas.18º nº1 não está preenchido. As normas de conflitos de L3 remetem para L1. De qualquer forma. por exemplo.18º nº1? Que L2 aplique o direito material de L1. Página 89 de 221 . L3 também aplicava L1. porque com isto também conseguimos respeitar o nosso elemento de conexão. Nesta hipótese temos um retorno indirecto. logo. temos ou não temos preenchidos os pressupostos de aplicação do art. e o que nos interessa é estar em harmonia com L2. está a remeter para todo o sistema português e não especificamente para as normas materiais portuguesas. L2 aplica L1. O que é necessário é que L2 aplique as normas materiais de L1. logo. porque L2 aplica as normas materiais de L1. L3 para L1 e vamos imaginar que L2 faz devolução simples e L3 faz referência material. porque L3 está a remeter para o direito material português.18º nº1. o art. portanto.

estamos a falar de um problema de capacidade para contrair casamento e tratava-se. O que é que tínhamos? A lei portuguesa remetia para a lei brasileira.18º nº1. que consiste na aplicação da lei material portuguesa se o interessado tiver em território português a sua residência habitual… Tem ou não tem? Tem sim senhora. porém. de um cidadão brasileiro que tinha residência habitual em Portugal. se trate de matéria compreendida no estatuto pessoal. ou seja. e aqui a ideia também é a mesma. o interessado tinha em Portugal residência habitual. Aqui funcionam os pressupostos cumulativamente. tendo ele residência habitual em território português. Porquê esta exigência do interessado ter em Portugal residência habitual? Reparem.18º n2. se trate de matéria compreendida no estatuto pessoal. E tínhamos também o 18º nº2 preenchido. a lei portuguesa só é aplicável…. a forma de como funciona o 18º nº2 é diferente da forma de como funciona o 17º nº2. porém. Aqui o que é que nós temos? O 18º nº1 está preenchido. a lei brasileira para a lei portuguesa. Neste caso está porque L1 faz referência material para L2. Diz-nos o art. Mantemos a solução do 18º nº1 e está também preenchido os pressupostos de aplicação do art.Mas temos uma excepção ao 18º nº1. como se tratava por que estávamos a falar de capacidade para contrair casamento. por exemplo. O 17º nº2 afasta a função do 17º nº1. porque o artigo diz: Quando. Porquê este pressuposto? Página 90 de 221 .18º nº2 se o 18 nº1 estiver preenchido. a lei portuguesa só é aplicável se o interessado tiver em território português a sua residência habitual… Por exemplo.18º nº2. Quando. só se mantém o resultado do art. tínhamos o 18º nº1 preenchido porque L2 aplicava L1. Nós só vamos olhar para o art. 2. então. nós podemos aqui manter a aplicação da lei material portuguesa. não se enganem. porque tratando-se de matéria de estatuto pessoal. a lei brasileira fazia referência material.

que é a lei portuguesa. nestas hipóteses nós vamos manter a aplicação da lei portuguesa. se o 18º nº2 CC estiver preenchido L1 vai continuar a aplicar L1. porém. É verdade que nós aqui remetemos para a lei brasileira. E neste caso nós aceitamos em aplicar a nossa própria lei. Outra hipótese é: 2. mas tinha residência habitual em LX. é a própria lei da nacionalidade que diz que é a lei portuguesa que é a aplicável. resultado: L1 vai aplicar L1. ou se a lei do país desta residência considerar igualmente competente o direito interno português. fazia aqui referência material para a lei portuguesa. Em matéria de estatuto pessoal as duas leis relevantes? Nacionalidade e residência habitual. mas reparem. e neste caso. que dizia que era aplicável a lei portuguesa. que é: Página 91 de 221 . qual é que é a ideia que está subjacente? Nós aceitamos aplicar a lei material portuguesa nesta segunda hipótese porque. Imaginem que ele não tinha residência habitual em Portugal. porque me matéria de estatuto pessoal… é verdade que não conseguimos aplicar a lei da nacionalidade. a seguir vamos ter de verificar se o 18º nº2 está ou não está preenchido. Uma vez mais. os dois elementos de conexão que são mais importantes em matéria de estatuto pessoal estão a dizer que se aplica a lei portuguesa. temos uma excepção a isto tudo. quer a lei da nacionalidade. 18º nº1 está preenchido.Este artigo só se aplica se estivermos perante matéria de estatuto pessoal. se trate de matéria compreendida no estatuto pessoal. a lei portuguesa só é aplicável se o interessado tiver em território português a sua residência habitual…esta hipótese. mas estamos a aplicar a lei da residência habitual. que é a lei da nacionalidade. portanto. Agora. quer a lei da residência habitual estão a dizer que é competente Portugal. Significa então que. que diz exactamente o quê? A lei da residência habitual. Portanto. Quando.

ou seja. sempre que cheguemos à conclusão. Neste caso o 19º nº1 diz-nos que cessa o reenvio. Chegamos à conclusão que L1 aplica L3. L1 aplica L3. que L1 aplica L1 ou nestas hipóteses que L1 aplica L3. mas se aplicássemos L1 era incapaz para contrair casamento. (ou seja. cessa a devolução e em consequência regressamos à regra do art.19º nº1. por exemplo. e neste caso L1 vai aplicar L2. Imaginem.19º nº1 estava ou não estava preenchido. por foça do 18º.19º do CC. Página 92 de 221 . iria aplicar L2. havia legitimidade para celebrar casamento. Exemplo: Está em causa o problema da validade de um testamento.19º nº1 o que é que diz? 1.Sempre que nós cheguemos à conclusão. porque com isto se conseguia atribuir capacidade à pessoa para casar.º.16º. sendo que o princípio subjacente é o do favor negotii. o que é que teríamos de verificar? Se o art. Outra situação L1 já vimos. em consequência paralisava-se o reenvio e L1 em vez de aplicar L1. sempre que cheguemos à conclusão que L1 vai aplicar L3 ou que L1 vai aplicar L1. sempre que exista devolução. Mas. que de acordo com L2 o cidadão que estava em causa tinha capacidade para contrair casamento. temos ainda de verificar que estão ainda preenchidos os pressupostos do art. ou a ilegitimidade de um estado que de outro modo seria legítimo. iria aplicar L1 (problema para celebrar casamento). Uma vez mais. se aplicássemos a lei portuguesa ele não podia casar. vamos imaginar que este testamento seria válido à luz de L2. mas inválido à luz de L3. Art. quer por força do 17º quer por força do 18º que existe reenvio. se aplicássemos o art. para já o 17º 1. o princípio que aqui está subjacente é o favor negotii.16º) quando da aplicação deles resulte a invalidade ou ineficácia de um negócio jurídico que seria válido ou eficaz segundo a regra fixada no artigo 16. Cessa o disposto nos dois artigos anteriores. temos cumpridos os pressupostos de aplicação do art. 2 e 3 estavam preenchidos. nesta hipótese. ou seja.

(quando se fala aqui na lei local. Mas imaginem. aqui temos situações em que a devolução visa a validade formal dos negócios. Página 93 de 221 . o testamento. o art. Portanto. ou. Autores como o Professor Lima Pinheiro consideram que. para que se aplique L3. L3 tem de se considerar a si própria competente. Queria chamar-vos a atenção para uma divergência doutrinal no que diz respeito a estes casos. não queria ainda terminar esta aula sem vos falar de duas definições que consagram a devolução.36º nº2 e art. parte final …ou ainda às prescrições da lei para que remeta a norma de conflitos da lei local.65º nº1 parte final. a sua norma de conflitos remete para uma terceira lei. L2 é a lei do lugar da celebração e vamos imaginar que L2 remete para L3. e que o testamento é formalmente válido à luz de L3. Isto quer dizer que. para regular a forma do testamento vamos aplicar a lei do lugar onde foi celebrado o testamento ou a lei da nacionalidade do de cujos ao tempo em que fez o testamento. Temos aqui a devolução a funcionar para garantir a validade formal do negócio. determina a aplicação de L3). e se esta lei não se considerar a ela própria competente. (isto significa que. se o testamento não for válido nem á luz do país onde ele foi celebrado.65º nº1 parte final determina a aplicação de L3. Nesta hipótese. ou a lei da nacionalidade do de cujos ao tempo da morte. O art. A declaração negocial é ainda formalmente válida se. em vez da forma prescrita na lei local. é a lei do lugar onde o acto foi celebrado) tiver sido observada a forma prescrita pelo Estado para que remete a norma de conflitos daquela lei. Art. que é a lei do local da celebração negocial. que também se aplica à forma da declaração e diz que em princípio de aplica a lei da substância mas também pode ser a lei do lugar da celebração e depois.65º diz-nos que.Agora. se nós tivermos L1 que remete para a lei do lugar da celebração. Vamos começar pelo 65º CC que diz respeito à lei aplicável à forma do testamento. nem á luz do último lugar do de cujos. diz o nº2: 2. que considera que a declaração é formalmente válida.36º nº2. por exemplo que L1 remete para L2. Encontramos um esquema semelhante no art. no caso.

Religião A são aplicadas um determinado tipo de regras. pessoas da Religião B são aplicadas outro conjunto de regras. Nós até agora temos estado a ver exemplos em que por exemplo a lei portuguesa a remeter para a lei nacional. não se vão acrescentar outras exigências que possam paralisar o favor negotti e portanto. E por isso nestes casos vamos precisar de saber para onde o nosso ordenamento jurídico está a remeter. na qual eu me incluo. um pouco menos.Outra orientação. mas que ainda existem algumas regras. termos normas de conflitos a remeterem para países onde sejam aplicadas leis diferentes consoante os grupos de pessoas. Aula DIP 07 Abril 2015 Hoje iremos falar do parágrafo 13º que se prende com a remissão para ordenamentos jurídicos complexos. Com isto saímos da matéria da devolução. portanto aí temos um conjunto de regras que formam um sistema jurídico que estão em vigor numa determinada unidade territorial. o exemplo paradigmático e típico que se costuma dar é o dos países onde vigoram diferentes sistemas jurídicos válidos para os diferentes Página 94 de 221 . que normas é que nós vamos ter de aplicar. a lei portuguesa a remeter para a lei italiana. Podemos ter ainda outra situação. admite-se a aplicação de L3 mesmo que L3 não se considere a si própria competente. por exemplo: nos Estado Unidos da América em cada estado federado está em vigor um ordenamento jurídico especifico. é um estado federado e portanto o que verificamos é que no mesmo estado soberano estão em vigor diversos sistemas jurídicos. cada um em vigor nessa unidade territorial. diversos ordenamentos jurídicos. mas a verdade é que podemos ter problemas um pouco mais complicados nós podemos ter ordenamentos jurídicos para onde a nossa lei remete que não têm um único ordenamento jurídico. no caso os Estados Unidos. mas que têm vários ordenamentos jurídicos. segundo esta orientação. Na próxima aula vamos começar com a matéria dos ordenamentos jurídicos complexos. por exemplo : podemos ter países com regras que são aplicadas a pessoas de certas religiões. considera que. então. Outro exemplo à parte das religiões. se o princípio que aqui está subjacente é o do favor negotti.

está a remeter para a lei francesa incluindo eventuais regras de direito interlocal que possam existir dentro do ordenamento jurídico Francês. concretizar o nosso elemento de conexão. é aplicada a lei desse estado soberano. imaginem em estatuto pessoal. porque houve um esforço significativo. era por exemplo na India com o sistema das castas. que é aplicável a lei da nacionalidade a uma determinada pessoa. que levou de facto a que os conflitos de leis passassem a ser Página 95 de 221 . Esta concepção é de facto a que se afirmou essencialmente na Europa ocidental. dizem qual é que é a lei da unidade territorial que deve de ser aplicada e segundo esta orientação quando nós estamos a dizer que é a aplicada a lei de um estado soberano. A questão que se coloca é então a de saber como é que nós vamos interpretar. E aqui obviamente existem vários critérios de solução que respondem à questão.XX no sentido de tentar a unificação legislativa. Aqui a pergunta é a de saber se a função da norma de conflitos do estado do foro se esgota com a designação do ordenamento estadual competente ou se ao invés está a remeter de facto para a unidade territorial especifica. que bem se entende. Nós por exemplo temos em Espanha que é um ordenamento jurídico complexo nas várias províncias estão em vigor regras especificas. por exemplo quando se diz que é aplicada a lei Francesa. esta é a questão que aqui se coloca. em especial no final do séc XIX inicio do séc. há quem considere que as regras de conflitos se referem em principio ao direito de um estado soberano e por isso quando está a remeter para o estado soberano.tipos de pessoas. estamos a remeter para Espanha. que fazem essas regras de direito interlocal? Elas resolvem internamente os conflitos. ou seja no caso de Espanha. mas no ordenamento jurídico espanhol existem também regras jurídicas de direito interlocal. quando diz que é aplicada a lei da nacionalidade nós vamos aplicar a lei do estado de onde essa pessoa é nacional quando a nossa norma de conflitos remete para uma determinada lei está a remeter para a lei do estado soberano ou está a remeter para a unidade territorial desse estado urbano onde estão em vigor essas regras. a seguir cabe ao ordenamento jurídico espanhol resolver este problema que acaba por ser um problema interno do ordenamento jurídico espanhol. que supostamente já não existe. porque quando por exemplo se diz no nosso ordenamento jurídico que é aplicável.

que são aquelas que determinam que as regras de conflitos referem se à ordem jurídica estadual complexa quando esta ordem jurídica constitua um sistema de direito privado unitário ou se compões de diversos sistemas de direito privado que estão cordenados por um sistema unitário do direito interlocal. só que não é privado é interno. Para uma segunda concepção as regras de conflitos referem se directa e imediatamente ao sistemas jurídicos territoriais e por isso nos casos em que por exemplo se determina a aplicação da lei do local da situação da coisa. de nas diversas unidades territoriais estarem em vigor regras especificas. depois as questões internas cabe a cada estado resolver. como é o caso de Portugal. Depois como não podia deixar de ser. o próprio ordenamento jurídico resolve esses problemas. desde que esse estado soberano vigore um único ordenamento jurídico e não regras diferentes consoante as diversas unidades territoriais com um conjunto de pessoas. tem o seu próprio ordenamento jurídico e portanto colocam-se problemas diversos aos juízes norte americanos no problema da determinação das regras aplicáveis em questões internas. em que cada estado tem as suas próprias Página 96 de 221 . se a coisa se encontrar por exemplo situada no estado de Nova York aplicar se ía directamente a lei do estado de Nova York. é EUA e sempre EUA mas a verdade é que cada estado dos EUA tem as suas próprias regras. esta concepção vingou essencialmente nos países de Common Law onde de facto o problema de direito internacional privado tem sido encarado como um problema de escolha entre os sistemas de direito privado em vigor nos diversos territórios. e intermédia porque conforme se entende nestas hipóteses está a remeter para o estado soberano mas entendem por outro lado que se o ordenamento jurídico complexo para onde a norma de conflitos remete não tiver sistema unitário de regras de conflitos interlocais como é por exemplo o caso do EUA. nós podemos pensar nos estados unidos como um laboratório de direito internacional privado. como acontece em espanha. Ou seja entende se que quando uma norma de conflitos remete para a lei de um determinado estado há de remeter para um estado soberano. Ou então está também a remeter para o estado soberano nos casos em que apesar de haver essa divisão. podemos identificar também correntes de pensamento intermédias. Segundo ainda esta corrente intermédia. como é o caso de espanha que existem regras de direito interlocal que resolvem esses problemas internos. internas porque tudo se passa dentro dos EUA.concebidos essencialmente entre leis estaduais. isto segundo esta outra concepção. no fundo isto é um breve parêntesis.

onde a influência é Francesa. e portanto nesse caso tem de necessariamente pedir ajuda ao país para onde as nossas normas de conflito remetem para que ele diga de facto quais é que são as leis que se aplicam a cada grupo de pessoas. varia de estado para estado consoante as suas regras.regras e não existe nos EUA regras de direito interlocal nem tampouco de direito internacional privado unificado. Em Portugal nós temos fontes diferentes. portanto este artigo 20º só se aplica Página 97 de 221 . temos o código civil e temos os regulamentos Europeus. porque reparem que o artigo 20º nº1 diz aí “quando em razão da nacionalidade de uma pessoa” desde logo restringe no seu campo de aplicação às hipóteses em que nós estamos a aplicar normas de conflitos que têm como norma de conexão elemento nacionalidade e mais nós vamos ver. as regras de conflitos do estado do foro nunca conseguem indicar directamente que regras são essas. porque aí são eles que têm de resolver a questão. como já é costume. noutros estados já não é assim. Existem divergências na Doutrina contudo a maioria está de acordo num ponto é que quando a remissão é feita pela norma de conflitos se dirige a um ordenamento complexo que esteja assente numa diferenciação por grupos de pessoas. eu comecei por dizer que hoje íamos falar dos ordenamentos jurídicos complexos e não de ordenamentos plurilegislativos porque na verdade é preferivel falar de ordenamentos jurídicos complexos porque os ordenamentos jurídicos poderão não ter necessariamente uma base legislativa e por isso é que é preferivel falar em ordenamentos jurídicos complexos. nos casos em que a norma de conflitos está a remeter para ordenamentos jurídicos como é o caso dos EUA como os próprios EUA não resolvem o problema então a remissão seria para a unidade territorial completa. Temos então o artigo 20º e que nos termos do mesmo. portanto neste estado existe um código de direito internacional privado. De acordo com esta orientação. prevê no n. em razão da etnia. que no termos do artigo 20º nº2 fala-se aí em lei pessoal. cada estado tem as suas próprias regras.” portanto quando a nossa norma de conflitos tiver como elemento de conexão nacionalidade. No CC esta questão está prevista desde logo no artigo 20º e o artigo tem como epígrafe ordenamentos jurídicos plurilegislativos. por exemplo no estado do Louisiana que é um exemplo paradigmático. da religião ou de outro critério pessoal. vamos começar pelas regras que estão previstas no CC.º1 “quando em razão da nacionalidade de uma pessoa for competente a lei de um estado em que existam diferentes sistemas legislativos locais.

e aqui teremos de aplicar lei da nacionalidade se eles tiverem nacionalidade comum. mas que ainda continua na parte final “ se este não bastar” se o direito internacional privado desse estado não bastar ou não existir Página 98 de 221 . em espanha. mas onde existem regras de direito internacional privado unificadas então nós vamos aplicar as regras de direito internacional privado unificadas desse estado. espanha é um ordenamentos jurídico complexo mas aí como existem regras de direito interlocal que resolvem os conflitos internos. Portanto: 1º nacionalidade e matéria de estatuto pessoal.” e como eu estava a dizer. se a nossa norma de conflitos remeter para a lei espanhola. este é o primeiro ponto. isto é importante porque nós podemos aplicar a lei da nacionalidade de alguém fora da matéria de estatuto pessoal. e o artigo trata de matéria da responsabilidade extra contratual. a nossa norma jurídica remete para espanha e aplicamos as regras de direito interlocais espanholas. O exemplo que eu vos dei de espanha.” ou seja se a nossa norma jurídica remete para um ordenamento jurídico complexo onde não existem regras de direito interlocal.directamente nas hipóteses em que a norma de conflitos trate de estatuto pessoal e a lei designada seja a lei da nacionalidade. nos termos do nº2 temos aqui na parte final uma referência à lei pessoal do interessado. apenas resolve esta questão especifico. o artº 20 não regula em termos genéricos o problema da remissão para ordenamentos jurídicos complexos. é o que determina o nº2.” quando remeta para um ordenamentos jurídico complexo. qual é que é a solução que aqui está consagrada? Artº 20 nº1 diz “quando em razão da nacionalidade de uma pessoa for competente a lei de um estado em que coexistam diferentes sistemas legislativos locais. “é o direito desse estado que fixa em cada caso o sistema aplicável. mas não é a lei pessoal porque estamos a tratar da matéria da responsabilidade extracontratual não estamos a tratar de matéria de estatuto pessoal. por exemplo o artigo 45º nº3 do CC admite a aplicação da lei da nacionalidade comum. Por isso continua o 20º nº2 “na falta de normas de direito intelocal” daí sabemos que como o nº1 fala do direito interno desse estado é o direito interlocal desse estado e por isso continua o nº2 “recorre-se ao direito interlocal desse estado.” e aqui quando se fala do direito interno desse estado não estamos a falar do direito material desse estado que vai regular a questão estamos a falar das regras de direito interlocal que existam nesse estado. Portanto dizer aqui que ““quando em razão da nacionalidade de uma pessoa for competente a lei de um estado em que existam diferentes sistemas legislativos locais. Isto é o que resulta do elemento literal da interpretação desta disposição. limita-nos aqui à matéria de estatuto pessoal.

passamos à ultima parte do 20º nº2 que diz que se aplica que lei. e aqui estamos a aplicar a lei da residência habitual. “ então vamos aplicar. é o de saber se nós vamos aplicar esta regra. Mas desde já nós podemos oferecer várias críticas a esta solução: O nosso legislador entendeu que em matéria de sucessão por morte devia ser aplicada a lei da nacionalidade. que é Britânica. “então vamos aplicar as regras de direito interlocal do UK” não existem. mas este nosso cidadão Britânico tinha residência habitual em Lisboa. e nós dizemos “pronto aplicamos a lei do Reino Unido”. tínhamos a lei Portuguesa a remeter para a lei do Reino Unido que é um sistema jurídico complexo. em que caso aplicamos a lei da residência habitual? o caso dos apátridas. nos termos do artº 31 nº1.como é por exemplo o caso do EUA. “considera-se como lei pessoal do interessado a lei da sua residência habitual. nesta hipótese tínhamos a lei portuguesa nos termos do artigo 62º mais 31º nº1 do CC a remeter para a lei da nacionalidade. de facto esta é a solução defendida pelo Professor Ferrer Correia.(20º nº2) as regras de direito internacional privado do UK” também não existem. e por isso vamos aplicar a lei da residência habitual. não podemos aplicar a lei do UK porque é um sistema jurídico complexo e em cada unidade territorial temos regras diferentes. Lima Pinheiro. a lei da residência habitual. se nós formos aplicar literalmente esta disposição do 20º nº2 parte final. indicando que nos termos do artigo 62º que em matéria de estatuto pessoal a lei aplicável era a lei pessoal que em principio é a lei da nacionalidade. vamos estar a considerar este senhor que tem nacionalidade como se fosse um apátrida e vamos estar a desrespeitar o próprio comando que o nosso legislador nos deu.” Este ultimo segmento da disposição do 20º nº2 levanta um problema de interpretação que é o seguinte. o Sr não era apátrida. nos caso em que a residência habitual se localiza no país da nacionalidade ou se nós também vamos aplicar a residência habitual nos casos em que essa residência habitual se situa fora da nacionalidade. Por esta razão se tem entendido e nomeadamente a professora Magalhães Colaço o professor Dário Moura Vicente. Marques dos Santos e Página 99 de 221 . qual vai ser a consequência? vamos aplicar a lei portuguesa que é a lei da residência habitual. no fundo se seguirmos esta solução. Exemplo: queremos saber qual a lei aplicável à sucessão por morte de um cidadão Britânico que faleceu com residência habitual em Portugal. De facto se nós fizermos uma interpretação demasiado apegada à letra da lei esta vai ser a solução.

de modo a que fique ou que seja compatível com as valorações que referi. até porque a lei do UK não existe. porque é a lei que a nossa norma de conflitos determina que deve de ser aplicada. ficamos com uma lacuna. mas que desta vez tinha a residência habitual em Londres neste caso o que temos é 62º mais 31ºnº1 o elemento de conexão que está a ser utilizado é a nacionalidade que está remeter nos para o UK que é um ordenamento jurídico complexo vamos aplicar o artigo 20º nº2 parte final que nos diz que se aplica a lei da residência habitual se o Sr tinha última residência habitual em Londres então a lei portuguesa vai estar a remeter para a lei inglesa porque a residência habitual se localizava dentro do estado da nacionalidade. daí então esta orientação que entende que deve de ser feita uma redução teleológica desta disposição e neste caso o que vai acontecer é que nós só vamos aplicar a lei da residência habitual se a residência habitual se localizar no estado da nacionalidade. Não se justifica este tratamento diferenciado. Ficamos sem solução para o primeiro caso porque não seria permitida a aplicação da lei da residência habitual. ou seja que se aplique em matéria de estatuto pessoal de facto a lei da nacionalidade.eu própria também defendo esta posição. nós fazemos a redução teleológica neste caso só vamos aplicar a lei da residência habitual se a residência habitual se localizar dentro do estado da nacionalidade. ficamos sem solução para este caso. existe sim a lei de cada uma das unidades territoriais e nós precisávamos de saber se aplicávamos a lei inglesa ou a lei escocesa ou galesa. como França não é um ordenamento jurídico complexo não havia grande dúvidas que seria 62º mais 31º nº1 e nós íamos remeter para a lei Francesa. no fundo o que distingue as soluções é que um dos sujeitos calhou a ser nacional de um país onde vigora um ordenamento jurídico complexo e o outro não. porque a residência habitual era fora do estado da nacionalidade. e o artº 20 nº2 diz que se aplica a lei da residência habitual. Mas se nós fazemos uma redução teleológica do artº20 nº2 dizendo que só vamos aplicar a lei da residência habitual se a residência habitual se situar dentro do estado da nacionalidade ficamos com um problema. com isto nós conseguimos resolver de facto um problema de um ordenamento jurídico complexo porque nós precisamos de saber e não nos basta dizer que se aplica a lei do UK. Vamos então alterar um pouco a hipótese : temos à mesma o cidadão Britânico. nós temos uma lacuna que resultou da redução Página 100 de 221 . Francês. e para não estarmos a tratar como apátrida uma pessoa que na verdade tem nacionalidade além de que no fundo se nós tivéssemos em termo comparativos a tratar da sucessão por morte de um Sr. que o artigo 20º nº 2 deve de ser submetido a uma redução teleológica.

dos estados com o qual ele apresente a conexão mais estreita. a aplicação da lei da capital do estado da nacionalidade. que nos diz que se a pessoa tiver duas ou mais nacionalidades a nacionalidade relevante é a do país onde a pessoa tiver residência habitual se a pessoa não tiver residência habitual em nenhum dos estados das suas nacionalidades. e a conexão mais estreita era com Londres porque era onde ele tinha sempre vivido antes de ter vindo para Portugal. Aqui havia várias soluções e a professora Isabel Magalhães Colaço sugeria até em última instância. é respeitar à mesma o elemento de conexão. O que vamos fazer. qual? aquela com a qual a pessoa tenha a vinculação mais estreita. só assim ficam salvaguardadas as suas legitimas expectativas e por isso vamos ter de procurar o ordenamento jurídico local com o qual o interessado possui a conexão mais estreita. o que vamos à procura é da lei. o de o julgador não conseguir determinar no caso concreto a conexão mais estreita entre o interessado e o ordenamento do estado do qual ele era nacional. vamos ver se existe caso análogo ou não e de facto não existe caso análogo. neste caso apesar de tudo nós íamos verificar e tentar determinar dentro do UK com que unidade territorial é que apresentava a conexão mais estreita. ou seja de ele não conseguir determinar qual é de facto a unidade territorial com a qual a pessoa apresenta a conexão mais estreita. O professor Dário Moura Vicente apresenta uma solução com a qual tendo a concordar mais. por exemplo imaginemos que o Sr Britânico que vivia habitualmente em Lisboa e antes de ter vivido em Lisboa tinha vivido sempre em Londres até aos 40 anos e faleceu em Portugal aos 90 anos. então nesta hipótese nós íamos aplicar a lei inglesa. Ora bem no espírito do sistema vai no sentido de aplicar ao estatuto pessoal do indivíduo a lei que esteja mais próxima. e vem dizer que nesta hipótese entende que se está numa situação análoga ao artº 23º nº2 parte final que manda recorrer à lei que for subsidiariamente competente mas reparem que isto é mesmo só se nós não Página 101 de 221 .telelógica que fizemos. mas nos termos do artº 10º nº3 podemos encontrar a norma que o legislador criaria. vamos então aplicar uma lei que esteja em vigor dentro do estado da nacionalidade. Aliás esta solução é também já preconizada no sentido análogo no artº 28º da Lei da Nacionalidade. e este remete-nos para a nacionalidade. vamos ter de ver como a resolvemos. Podemos é depois ter outro problema. se não se conseguisse determinar. e aqui estamos a fazer o mesmo raciocínio.

desde logo a lacuna terá de ser integrada recorrendo a caso análogo o artº 20. Então neste caso do imóvel situado no Texas. porque nós já vimos que o artigo 20º nº1 e 2º não deixa margem para dúvidas. porque não temos nos EUA uma lei material que regule esta questão como resolvemos? o artº20 não oferece solução. neste caso se a coisa se encontra situada no Texas. tendo nós uma lacuna vamos ter de ver como a vamos integrar. e portanto caberá sempre ao estado soberano dar-se a hipótese de resolver a questão que é um problema interno. Segundo outros autores no qual eu me incluo. ou seja o elemento de conexão não ser a nacionalidade. seria aplicada a lei do Texas. que é por hipótese termos uma remissão para um ordenamento jurídico complexo que não seja feito a título de nacionalidade. Nós podemos ainda ter outro problema. é que pelo facto de termos uma lacuna. Mas nem todo o artº 20 pode ser aplicado analogicamente.conseguirmos encontrar de todo em todo qual é que é a lei da unidade territorial com a a qual a pessoa apresenta a ligação mais estreita. aplicando analogicamente o artº 20 temos a lei portuguesa a remeter para os EUA. Então segundo esta orientação. e de facto neste caso em última instância aplicaríamos a conexão subsidiária e esta seria a residência habitual. Mas se remete então para os EUA temos um problema. porque no nosso ordenamento jurídico não existe uma regra como a que temos no artº20 que se aplique nos casos em que o elemento de conexão não é a nacionalidade. sustentam que de facto quando a nossa norma de conflitos está a remeter para a lei de um determinado estado. só se aplica se a norma de conflitos tiver como elemento de conexão a nacionalidade e em matéria de estatuto pessoal. tínhamos de questionar Página 102 de 221 . Segundo estes autores aquilo que deve de ser feito. há autores que defendem que neste caso o nosso legislador não resolve e o que significa que se aplica directamente a lei do ordenamento jurídico local para onde a nossa norma de conflitos remete. Queremos saber quais as regras que se aplicam e aqui o que vamos ter de saber é o atº46º que diz que se aplica a lei do país onde a coisa está situada a coisa está nos EUA e assumimos esta orientação porque a nossa norma de conflitos quando remete está a remeter para o estado soberano no caso está a remeter para o estado Federal e não está a remeter para o estado federado. está a remeter para o estado soberano. Vamos imaginar por exemplo que temos um problema de determinação da lei aplicável em matéria de posse propriedade e demais direitos reais de um imóvel que está situado no Texas.

porque tentamos sempre fazer esta forma de aplicação analógica? Porque a nossa norma de conflitos remete para o estado soberano e no fundo se o estado soberano tiver uma resposta a dar a esta questão seja pelo direito interlocal seja pelo DIP unificado segue se essa orientação. residência habitual de quem? quanto muito do proprietário. Página 103 de 221 . tratando-se de um imóvel que está situado no Texas a lei aplicável será a do Texas. mas isso também não faria sentido porque as pessoas podem ter residência habitual fora do local onde a coisa se encontra situada e não pode ser a residência habitual do proprietário porque não é esse o elemento de conexão. e também não existe. se existia direito interlocal. está pensado para casos em que a norma de conflitos estabelece como elemento de conexão nacionalidade e estamos a tratar de matéria de estatuto pessoal. ora se nesta hipótese nós não estamos a tratar de matéria de estatuto pessoal também já não faz sentido sequer esta última parte. Neste caso vamos ter de aplicar de facto a lei da unidade territorial com a qual a coisa apresenta a conexão mais estreita. vamos aplicar analogicamente o artº 20º nº1 e nº2 primeira parte porque a última parte já não podemos aplicar analogicamente. isto por aplicação analógica do 20º nº1. não existindo nos EUA direito interlocal. em matéria de estatuto pessoal os elementos de conexão relevantes são nacionalidade e residência habitual. passávamos ao 20º nº2 aplicado analogicamente e perguntaríamos se existe nos EUA direito internacional privado unificado. o que vamos fazer na minha opinião. Portanto nos casos em que o elemento de conexão não seja nacionalidade. a residência habitual aqui já não se enquadraria. o que nós fizemos foi tentar aplicar analogicamente estas primeiras hipóteses de solução que encontramos no artº20.desde logo se existia nos EUA. É esta a forma de no fundo respeitar o sentido que o legislador quis incutir na norma de conflitos. além do mais se aplicássemos esta última parte levanta-se a questão. 2º DIP unificado se também não existir 3º vamos aplicar a lei da unidade territorial com a qual a situação apresente uma conexão mais estreita. 1º direito interlocal se não existir. Mas se e como é esta hipótese nós não temos solução que nos seja dada nem pelo direito local nem pelo DIP unificado então nesta hipótese já não vamos poder aplicar analogicamente o 20º nº2 2ª parte porque este quando remete para a lei da residência habitual.

” Ou seja se por exemplo estivermos a tratar de matéria de Roma I obrigações contratuais. Mas esta é uma hipótese de recurso. tendo cada uma normas de direito próprias em matéria (que for) cada unidade territorial é considerada um país para fins de determinação aplicável por força do presente regulamento. Roma II íamos aplicar a lei do lugar do danos. No ROMA II artº 25º Nº1. o vendedor tinha residência habitual em Nova York nós íamos aplicar a lei de Nova York. Se não existirem tais regras e se não se conseguir determinar de todo em todo quais é que são as regras aplicáveis em última instância podemos aplicar o artigo 23º nº2 que é aquele que se aplica nos casos em que nós não conseguimos determinar os elementos de facto ou de direito que dependa a designação da lei aplicável e nesse caso vamos passar à conexão subsidiària. esta é a solução que está consagrada no CC Português. No Reg. Nós temos aí sempre regras. Nós neste caso vamos considerar o estado de Nova YorK como se fosse um estado e portanto é a lei de Nova York que vamos aplicar. queremos saber qual é que é a lei que se aplica a uma compra e venda.O artigo 20º nº3 já estamos a falar de ordenamentos jurídicos complexos em que os conjuntos de normas são aplicáveis consoante determinadas categorias de pessoas então neste caso sendo a remissão feita para um tal ordenamento jurídico à que recorrer às regras de conflitos interpessoais do sistema jurídico em questão ou eventuais regras materiais à doc que disciplinem as situações de conflitos interpessoal. porque nos termos do artº 22º nº1 do regulamento Roma I determina-se aqui que qualquer unidade territorial é considerada um país para fins de aplicação da lei aplicável. com ligeiras diferenças de redacção que dizem todas elas qualquer coisa como: “sempre que um estado englobe várias unidades territoriais . mas nos regulamentos Europeus temos soluções diferentes. vejamos: Na Convenção de Roma no artigo 19º nº 1. sendo que o vendedor tem residência habitual em Nova York e o comprador em Portugal nos termos do artº 4º nº1 a) do Roma I a lei aplicável ao contrato de compra e venda na falta de escolha de lei é a lei da residência habitual do vendedor. isto é o que dizem Página 104 de 221 . se o dano aconteceu em Nova York é essa a lei a aplicar. Roma I artº 22º nº1. Se nós tivéssemos por exemplo uma situação de responsabilidade extracontratual de um acidente que tivesse acontecido por exemplo em Nova York nos termos do artº 4º nº1 do reg. por exemplo as regras materiais que regulem os casamentos entre pessoas de credos religiosos diferentes.

estes dois regulamentos ou seja aplicamos directamente a lei que está em vigor na unidade territorial. estes não deixam margem para dúvidas. c) Qualquer referência à nacionalidade dirá respeito à unidade territorial designada pela lei desse Estado ou. e nos termos do artigo 36º vem dizer o nº1 “Caso a lei designada pelo presente Página 105 de 221 . à unidade territorial com a qual o cônjuge ou cônjuges tenham uma ligação mais estreita. na falta de escolha. aqui a solução que está consagrada é que em relação a este estados e qualquer referência a esse estado será entendida como referindo se ao sistema jurídico determinado pelas normas em vigor nesse estado. porque diz o seguinte no artº 14º : “sempre que um estado englobe váris unidades territoriais tendo cada uma delas o seu próprio sistema jurídico ou um conjunto de normas respeitantes às matérias regidas pelo presente regulamento : a) Qualquer referência à lei desse Estado será entendida. no fundo cada unidade territorial vale como um país. Roma V que trata das sucessões nós temos também no artigo 36º e 37º regras que se aplicam. na ausência de regras pertinentes. b) Qualquer referência à residência habitual nesse Estado será entendida como referindo-se à residência habitual numa unidade territorial. e temos depois o artº 15 que é muito importante porque estamos a falar de matérias de divórcio. caso existam conflitos territoriais de leis ou o 37º que regula o conflito de leis interpessoais. aplica-se o sistema jurídico ou o conjunto de regras com o qual o cônjuge ou cônjuges tenham uma ligação mais estreita. a solução que é dada nas hipóteses que é dada nas situações em que se remete para estados com dois ou mais sistemas jurídicos em matéria de conflitos de leis interpessoais. ou seja a mesma solução está consagrada no 20º nº3 depois diz “Na ausência de tais normas. à unidade territorial escolhida pelas partes ou. como referindo-se à lei em vigor na unidade territorial pertinente. Roma III que se aplica em matéria de divórcio nós já vamos encontrar regras especiais.” é a solução subsidiária. No reg. portanto esta é a regra à semelhança do reg. Aqui nós já encontramos uma especificação. Roma I e Roma II. para efeitos de determinar a lei aplicável ao abrigo do presente regulamento. Por último só para dar nota que no Reg. mesma solução também. ou seja uma vez mais quando temos regras diferentes aplicáveis a diferentes grupos de pessoas.

Mas estas hipóteses que eu vos dei agora são hipóteses de fraude à lei de direito material. para explicar a fraude à lei. estou aqui para falar da fraude à lei em direito de conflitos.” Ou seja vai estar a remeter para as regras de cada estado no que respeita a soluções dos seus próprios conflitos internos. Pergunta-se: Qual é que será a consequência de provocar fraude à lei no domínio da competência do tribunal.877º do CC. há uma disposição no CPC (art.980º CPC) e diz o art. Pegava no art. O Professor Marques dos Santos utilizava sempre estas três hipóteses a partir do mesmo exemplo. tendo cada uma delas as suas próprias normas jurídicas em matéria de sucessões. Teórica 09/04 Vou vos falar da fraude à lei e da cláusula de excepção. sem o consentimento dos outros filhos. da competência internacional. ou seja. A fraude à lei também é relevante na competência internacional ou no direito a reconhecimento. Vocês já sabem que o DIPrivado tem 3 sectores: O direito da competência internacional. e pegava neste artigo e dizia: Há violação directa da lei se os país venderem aos filhos sem o consentimento dos outros filhos. já no que diz respeito ao direito de reconhecimento. Há fraude à lei se os país venderem a um terceiro e esse terceiro vender a um filho. as normas internas de conflitos de leis desse Estado determinam a unidade territorial cujas normas jurídicas são aplicáveis. mas eu não estou aqui para falar disto. solução semelhante então ao nosso artº 20º nº1 e 2. que proíbe aos país de venderem aos filhos. Não há propriamente uma disposição no nosso direito relativamente a esta matéria.980º: Página 106 de 221 . depois o nº 2 vem prever a solução no caso de falta dessas regras internas com vários critérios.regulamento seja a de um Estado que englobe várias unidades territoriais. e há simulação se os país encobrirem uma venda com uma doação. o direito de reconhecimento e o direito de conflitos.

foi discutido durante muito tempo.. mas também não é desta fraude à lei que eu venho aqui falar. Artigo 21. seria competente Isto é que é a fraude à lei no domínio do direito dos conflitos.º
 (Fraude à lei) Na aplicação das normas de conflitos são irrelevantes as situações de facto ou de direito criadas com o intuito fraudulento de evitar a aplicabilidade da lei que. a criação de situações de facto ou de direito… Mais ainda. ou seja. Elemento objectivo. e em relação a esta. a criação de situações de facto ou situações de direito para evitar a aplicabilidade da lei que noutra Página 107 de 221 . no domínio da competência internacional e a atribuir competência à fraude à lei no domínio do direto a reconhecimento. se ela seria relevante ou não. pois. Basta lermos o artigo para vermos que a fraude à lei exige dois elementos: 1. noutras circunstâncias. se ela é relevante ou não. Elemento subjectivo.Para que a sentença seja confirmada é necessário: a) … b) … c) Que provenha de tribunal estrangeiro cuja competência não tenha sido provocada em fraude à lei… Portanto. e essa disposição é o art. Criadas para quê? Para evitar a aplicabilidade da lei que noutras circunstâncias seria competente. O elemento objectivo está referido na parte em que se refere às situações de facto ou de direito criadas. E é discutido noutros ordenamentos jurídicos. Mas é da fraude à lei no domínio do direito dos conflitos. Em Portugal o problema está mais do que solucionado. 2. existe uma disposição expressa no CC que atribui relevância à fraude à lei no domínio do direito dos conflitos.21º CC. No entanto no nosso direito está a atribuir competência à fraude à lei. temos aqui o direito a reconhecimento a atribuir relevância à fraude à lei da competência internacional.

para obter a aplicação da lei estrangeira que permite a liberdade de testar. isto é. podem escolher a lei aplicável. afastar a aplicação de uma lei material que noutra circunstância seria competente. Com a celebração do contrato em Espanha. com esse objectivo. O elemento de conexão é a nacionalidade.62º CC. então. D i s s e . diz-se normalmente que esta criação destas situações de facto ou de direito. seria um caso de fraude à lei através da criação de uma situação de facto. a situação tornar-se-ia uma situação privada internacional. eles poderiam escolher o direito competente. decide naturalizar-se inglês para poder deixar todos os seus bens a outras pessoas que não os seus filhos. n u m a internacionalização fictícia de uma situação puramente interna. Portanto. pode consistir: ou na internacionalização fictícia de uma situação no ordenamento interno ou na manipulação do elemento de conexão da norma de conflitos. ou todos. e a partir do momento em que a situação fosse uma situação privada internacional. que neste caso poderia ser o direito espanhol. Só que. adquire a nacionalidade inglesa. Isto. em princípio. Mas. temos aqui um caso em que se cria uma situação de facto (vaise celebrar o contrato ao estrangeiro para provocar a internacionalidade da questão. Por exemplo: um português. Isto é a manipulação do conteúdo concreto do elemento de conexão da norma de conflitos do art. Criação de situações de facto ou de direito. Por exemplo: Dois portugueses que vivem em Portugal. vão propositadamente a Espanha para celebrar esse contrato. com esse intuito.v o s q u e p o d e c o n s i s t i r e m p r i m e i r o l u g a r. e com a internacionalidade dessa questão. disse-vos também que a fraude à lei pode consistir na criação de situações de facto ou de direito.circunstância seria competente. querem celebrar um contrato para ser totalmente executado em Portugal. através da manipulação do elemento de conexão da norma de conflitos. de forma manipulada. para obterem a aplicação de uma lei estrangeira para determinado aspecto desse contrato. Estamos a analisar o elemento objectivo. e então. Vamos analisar o primeiro requisito: Criação de situações de facto ou de direito Ora. vive em Portugal e tem filhos em Portugal. pretende-se alterar o conteúdo do elemento de Página 108 de 221 .

admitida pelo direito de conflitos. é preciso que haja criação de uma situação de facto ou de direito. não se pode dizer que haja fraude. A lei normalmente competente é aquela que as próprias partes escolherem. é que para haver fraude à lei não basta que haja a criação de uma situação de facto ou de direito. por isso se diz que a fraude à lei tem de ter êxito. Página 109 de 221 . manipulação ou internacionalização e que. Ora. Como vocês sabem. em benefício de uma outra lei. neste caso. é claro quanto a isso. O art. é como diz o Professor Ferrer Correia. Ora. terá de haver uma manipulação ou internacionalização mas dai tem de sair um resultado. a regra é a de que as partes podem escolher a lei aplicável. Eu disse-vos que o objectivo da fraude à lei havia de traduzir-se em situações de facto ou de direito e essa criação de situações de facto ou de direito podem traduzir-se na manipulação ou na internacionalização. nestes casos de autonomia privada. Isto são apenas alguns exemplos. as partes podem escolher livremente a lei que quiserem. porque antes da escolha não há propriamente uma lei normalmente competente e portanto. isto é. Isso acontece. não há afastamento da lei normalmente competente. em primeiro lugar quando no caso não se pode dizer que exista uma lei normalmente competente.conexão e assim consegue a aplicação de uma lei estrangeira que lhe permite não aplicar uma norma portuguesa. se assim é. a fraude é impensável. temos um exemplo que se traduz numa situação de direito. não resulta dai qualquer fraude. em que a manipulação do elemento de conexão não resulta em fraude à lei. Por exemplo: Numa situação internacional que respeita a um contrato. dessa manipulação ou internacionalização resulte o afastamento de uma lei normalmente competente. Assim. na criação de um vínculo jurídico que é a nacionalidade. Pelo facto de escolherem determinada lei com o objectivo de beneficiar dessa lei. há determinados casos em que isso não sucede. E esse resultado é a não aplicação de uma lei. mas dissevos mais. porque não há afastamento da lei normalmente competente a favor de uma outra lei. que é a lei normalmente competente para resolver. Portanto.21º CC. pré determinada.

neste caso que eu vos dei é preciso ter muito cuidado. ou seja. só que. se mantivesse dupla nacionalidade a situação continuava a ser exatamente igual. vamos imaginar que ele de facto. porque a lei competente continuava a ser a lei do art.62º + 31º nº1. Há pouco disse-vos: Um português que vive em Portugal naturaliza-se Inglês para poder livremente testar e assim obter a aplicação da lei inglesa. a lei portuguesa. a luz do art. este português adquiria a nacionalidade inglesa. aquilo que ele tinha feito era apenas a de ter criado uma situação de conteúdo múltiplo do elemento de conexão. Se ele. manipula-se o elemento de conexão da norma de conflitos mas isso dá em nada. aqueles casos de conexão falhada. isso de nada lhe adiantava. só por si significava que ele conseguia o afastamento da lei portuguesa? Haveria aqui a manipulação do elemento de conexão com êxito? Se ele não renunciasse à nacionalidade portuguesa. portanto. em que não se pode dizer que há fraude à lei. Mais. por força da aplicação do art. apesar de haver intenção e haver alteração do conteúdo do elemento de conexão. estava a manipular o elemento de conexão para nada.27º da lei da nacionalidade. Cria-se uma conexão artificialmente. apesar de ele estar convencido que ia obter a aplicação de uma outra lei celebrando o testamento em Inglaterra.62º + 31º nº1. portanto. não há fraude.Um outro caso em que não se pode dizer que haja manipulação do elemento de conexão tenha êxito. Portanto. Isto é um caso em que. decidir celebrar um testamento em Inglaterra. ou seja. entre a nacionalidade portuguesa e a nacionalidade inglesa prevalece a nacionalidade portuguesa. porque.27º da lei da nacionalidade continuava a aplicar-se a lei portuguesa. não o conseguia. Tínhamos uma situação de dupla nacionalidade e portanto. por força do art. com o intuito de obter a aplicação da lei inglesa e afastar a aplicação da lei portuguesa. são aqueles casos em que com a manipulação não se consegue o afastamento da lei normalmente competente a favor de uma outra lei. não é do elemento de conexão relevante. ao invés de se naturalizar decidisse. por exemplo. Isso. Página 110 de 221 .

é que. certos autores dizem que se tratam de elementos de conexão que são insuceptíveis de fraude (Professor Ferrer Correia e Professor Marques dos Santos). ou há residência habitual ou não há residência habitual. já vos dei um caso. Página 111 de 221 . como por exemplo. O que é certo. portanto. Determinada pessoa decide mudar de residência habitual. Então. que era inicialmente a norma competente. não havia fraude. O que é que conseguia esta pessoa? Conseguia apenas que se deixasse de aplicar a lei portuguesa. e o mesmo sucede quanto à sede principal e efectiva da administração. ele tinha residência habitual em Portugal. Há determinados elementos de conexão que são 
 insusceptíveis de fraude. A partir do momento em que há residência habitual em Espanha. A situação da autonomia privada. Outro caso em que não há fraude. porque é a lei que a norma de conflitos quer que se aplique. para com isso beneficiar da aplicação da lei da nova residência habitual. mas essa é uma situação um pouco diferente. é aquele caso em que o que sucede é apenas uma substituição da lei normalmente competente por outra lei normalmente competente. mas fixava residência habitual em Espanha para com isso fugir à aplicação da lei portuguesa e obter a aplicação da lei espanhola. tenha isso sido conseguido com o intuito fraudulento ou não. Estou a falar de uma regra de conflitos que diz que é competente a residência habitual. com um intuito claramente fraudulento. aplica-se a lei espanhola. continuando-se a aplicar a lei portuguesa. porque a lei que vai ser aplicada é precisamente aquela que a norma de conflitos quer que se aplique. e se assim é. a residência habitual ou a sede principal e efectiva da Administração. a própria natureza do elemento de conexão residência habitual. exige determinadas circunstâncias de facto que são inultrapassáveis e portanto.O que quer dizer que ele também não tinha conseguido êxito na manipulação do elemento de conexão. Haverá fraude nestes casos? Não há. A que casos é que eu me estou a referir? Estou a referir-me àquelas situações em que certos autores dizem que não pode haver fraude. aqui. para se passar a aplicar a lei espanhola que também é uma norma normalmente competente. que é a lei da residência habitual.

é claro. era essencialmente isto que vos queria transmitir. está criado o contacto que a lei considera ser relevante. A única questão é a que respeita à prova. Sanção da fraude O art. a começar desde logo pela aquisição da nacionalidade britânica. Mas se é feita a prova há fraude. tudo aquilo que estava envolvido na fraude era nulo. porque lá são tomadas todas as decisões da sociedade. conseguia a aplicação da lei inglesa. Em tempos diziase. Em tempos discutiu-se de a fraude implicaria a nulidade ou ineficácia de todos os actos envolvidos na fraude. pois. Este requisito não necessita de nenhuma explicação pormenorizada. Ou há confissão ou então só pode ser uma prova indiciária feita de acordo com as regras da experiência. mas se não é feita não há fraude porque o elemento subjectivo é um elemento essencial para que haja fraude. para que haja fraude é necessário um elemento objectivo e um elemento subjectivo. É preciso ter muito cuidado com a análise destas situações.21º. Relativamente ao elemento objectivo. Perdendo a nacionalidade portuguesa e adquirindo a nacionalidade britânica. penso que também é claro no que diz respeito a esta questão. mas isso já é um problema que não respeita directamente ao direito dos conflitos mas a processo civil. É claro que a prova do intuito pode ser difícil. Elemento subjectivo Disse-vos que. Isso decorre claramente do art. Portanto.Se se mudar propositadamente de sede de administração da sociedade. Página 112 de 221 . porque muitas vezes parece que há fraude mas depois vamos ver melhor e a questão e não há fraude. é preciso que haja fraude e não há fraude sem a intenção de fraudar. a partir do momento em que a nova sede efectivamente é a sede da nova administração. No exemplo que vos dei: o português que adquiria a nacionalidade inglesa mas neste caso perdia a nacionalidade portuguesa.21º CC “…com o intuito fraudulento…”.

A pessoa vai celebrar o testamento a outro Estado e com isso consegue mudar o elemento de conexão. E por isso. mas havendo fraude. ou seja.É claro que isto era um disparate muito grande. A sanção da fraude é aquela que aqui está referida e que é esta: Na aplicação das normas de conflitos são irrelevantes as situações de facto ou de direito. Esta é a sanção da fraude. eventualmente para efeitos de aplicação de outras normas de conflitos do CC que remetem para a lei da nacionalidade. mas no que toca àquele ponto concreto em que houve fraude. na medida que o elemento de conexão vai ser o lugar do testamento no lugar estrangeiro e com isso consegue a aplicação de uma outra lei. havendo fraude. A pessoa tinha adquirido a nacionalidade britânica e continuava a ser nacional britânico. no que toca a esse ponto. não se podia dizer que o testamento não tinha qualquer validade. Para todos os efeitos ele continua a ser nacional britânico e até. a não aplicação da nova lei. pelo menos quanto à substância do testamento. mas a aplicação de uma lei normalmente competente. quem diz se é nacional britânico ou não é. estas teses hoje em dia não têm qualquer relevância. a sanção que nos dá o art. não é o Estado que julga ter havido uma fraude.21º é: deve continuar a aplicar-se a lei portuguesa. é a Grã-Bretanha não é Portugal. Página 113 de 221 . No nosso direito isso não é possível. O português adquire a nacionalidade britânica. 21º é claro. esse testamento não pode ser válido na parte em que viola a legítima. É claro que o testamento continuaria a ser válido na medida em que o fosse de acordo com a lei normalmente competente. continua a aplicar-se em Portugal a lei portuguesa e portanto. Em que é que isto se traduz? Na aplicação da lei normalmente competente. no que respeita ao testamento em que deixa todos os seus bens a outras pessoas. tendo esta manipulação do elemento de conexão da norma de conflitos êxito. O art. perde a nacionalidade portuguesa e com isso consegue a aplicação da lei inglesa. é irrelevante a manipulação de um elemento de conexão ou é irrelevante a internacionalização que conduzem à aplicação de uma outra lei. Portanto.

por uma questão de harmonia jurídica internacional. Um francês que vive na França. nós estávamos a criar uma situação de desarmonia com a lei mais interessada no caso.21º não distingue. A professora Magalhães Colaço dizia no entanto que. Qual é que é a lei defraudada? A lei francesa. perdendo a nacionalidade francesa para conseguir liberdade de testar. Os exemplos que eu vos tenho estado a dar. nós continuaremos a aplicar a lei francesa e não a lei inglesa. havendo fraude. o tratamento da fraude à lei estrangeira. fê-la o francês com o intuito de fugir à aplicação da lei francesa. reconhecem Página 114 de 221 . isto é. Sendo que essa sanção. pode suceder que nós tenhamos de lidar com uma situação deste tipo. É que se assim não for. à lei francesa. se nós sancionarmos a fraude. deixar de aplicar a lei francesa e passar a aplicar a lei inglesa. Ele naturaliza-se britânico com o intuito de fugir à lei francesa. isto. Como é que nós tratamos isto? Isto é um caso de fraude à lei estrangeira. o art. naturaliza-se inglês. Pode ser que esta situação tenha de ser resolvida em Portugal.A propósito da sanção da fraude. o art. vamos aplicar a lei francesa e não a lei inglesa. há um aspecto que divide a doutrina e que respeita à fraude à lei estrangeira. o que dizia a Professora Magalhães Colaço e é seguida pelo Professor Lima Pinheiro e Dário Moura Vicente e pela Professora Elsa. Com esta naturalização britânica. se na França isso também se fizer. e nós também não devemos de distinguir. ora. com a lei defraudada.21º não distingue. se os franceses não sancionarem a fraude.) se ela for também sancionada pela lei defraudada.21º CC. Reparem. isto é. é que nós só devíamos de sancionar a fraude em Portugal. Que sanção merece esta fraude À luz do nosso direito? O Professor Batista Machado e o Professor Ferrer Correia dizem que é a mesma sanção que merece a fraude à lei do foro. no que toca à sanção deve de ser diferente. se na França também se deixar de aplicar a lei francesa e passar a aplicar a lei inglesa. e portanto. E deve de ser diferente no sentido em que a fraude só deve de ser sancionada em Portugal (faz uma interpretação restritiva do art. Ora. são exemplos de fraude à lei portuguesa (lex fori) mas a fraude também pode ser fraude à lei estrangeira. com a lei francesa.

A ordem pública internacional vem prevista no art. em Portugal devia de ser sancionada a fraude. Era o caso em que a não aplicação da lei material defraudada violava aquilo que ela designava de princípio de mínimo ético nas relações internacionais. Se assim fosse. assim. o que nós estamos a proteger é a aplicação da lei da nacionalidade é a conexão nacionalidade concretizada naqueles termos. No fundo. estávamos a proteger a aplicação da lei francesa quando a própria lei francesa se desinteressava dessa protecção.como verdadeiramente legítima a nova nacionalidade e portanto. num caso destes. mas no fundo. Na hipótese da naturalização. vão aplicar a lei britânica. é a própria justiça da conexão. no entanto. então. é a própria regra de conflitos. sendo. em que apesar da lei estrangeira defraudada não sancionar a fraude. isso é mais importante do que a harmonia. nós devemos de sancionar a fraude. o que a Professora Magalhães Colaço quer dizer é que. se concluirmos que na França a fraude não for sancionada e se se aplicar a lei da nova nacionalidade.22º do CC. se a não aplicação da lei defraudada violar estes valores éticos da lei que subjaz do direito de conflitos. não são valores de direito material. Página 115 de 221 . isto é. não era uma confusão com a ordem pública internacional. Pensando na fraude à lei do foro. Uma nota para distinguir a fraude à lei da ordem pública internacional. apesar da lei defraudada não sancionar a fraude. também em Portugal se deve aplicar a lei da nova nacionalidade. isto é uma aproximação à ordem pública internacional. e as diferenças entre a ordem pública internacional e a fraude à lei tem como diferenças essenciais as seguintes: • A ordem pública internacional protege princípios fundamentais de direito material do foro e na fraude à lei não é isso que está em causa. Na França aplicava-se a lei inglesa e nós íamos aplicar a lei francesa. é a própria regra de conflitos. violava valores éticos do direito de conflitos. havia aqui uma clara desarmonia. O que nós estamos a proteger na fraude à lei é a conexão ditada como sendo a que deve de ser respeitada pelo legislador. para não criarmos uma situação de desarmonia com a lei francesa. não são princípios de direito material do foro que nós estamos a proteger. A Professora Magalhães Colaço admitia apenas um caso (não dava nenhum exemplo) mas admitia apenas um caso excepcional. isto é.

Uma última nota sobre a fraude à lei Em nenhum dos regulamentos comunitários aparece uma referência à fraude à lei. Neste Acórdão estava em causa a situação de 2 dinamarqueses. será que não é? Mas uma coisa parece ser certa. com o intuito declarado de fugir á aplicação das normas dinamarquesas.21º CC. Será que ela é relevante. Portanto. os interesses da lex fori. Na ordem pública internacional não é isso que está em causa. Constituem a sociedade sem capital social mínimo. Decidem ir constituir essa sociedade a Inglaterra e ai estabelecem a sede estatutária. fugindo à aplicação da lei dinamarquesa. e estou-me a referir ao direito europeu sobre as liberdades comunitárias (liberdade de estabelecimento. tanto podem ser protegidos os interesses da lex fori. • Esta última elemina qualquer confusão possível. que obrigavam a um capital social mínimo para a constituição de uma sociedade. nunca se vem a colocar um problema de ordem pública internacional. As entidades administrativas dinamarquesas recusaram o registo da sucursal. com o fundamento de que eles tinham agido de forma fraudulenta. a intervenção da fraude à lei é prévia à da ordem pública internacional.não do direito material. se assim é. Voltando ao exemplo da naturalização fraudulenta com um britânico: o que é que diz o art. Na fraude à lei. Página 116 de 221 . são princípios fundamentais de direito material. se a fraude for fraude à lei estrangeira. sancionando a fraude à lei devemos de continuar a aplicação da lei portuguesa. porque já não se aplica a lei estrangeira. sendo que 100% da actividade havia de ser exercida por essa sucursal e aquela sociedade de direito inglês era reconhecida na Dinamarca como uma pseudo sociedade. A seguir pedem o registo de uma sucursal dessa sociedade na Dinamarca. como os interesses de uma lei estrangeira. o problema da fraude à lei surge sempre antes do problema de ordem pública internacional e deve de ser sempre resolvido antes do problema da ordem pública internacional. ora. circulação…) e estou a referir-me mais em concreto ao Acórdão do Tribunal de Justiça da UE Centros de Março de 1999. a lex fori. • A ordem pública internacional apenas protege o direito do foro. é que o direito europeu tem interferência no instituto da fraude à lei. o funcionamento da fraude à lei.? diz que.

quando a sucursal na Dinamarca se destina a permitir à sociedade em causa. sem ai exercer qualquer actividade comercial. (conexão mais estreita) no entanto. remetem para um direito certo. exercer a totalidade da sua actividade no estado em que esta sociedade está constituída. quer isso seja feito através de normas de conflito que não utilizando esta expressão. no qual aquela tem a sua sede. ainda que com o intuito de fugir à aplicação das normas materiais dinamarquesas sobre o capital mínimo. se essa internacionalização consistir num exercício de uma liberdade comunitária. de acordo Página 117 de 221 . opõem-se a que um Estado Membro. daqui resulta que o art. Portanto. estando em causa liberdades comunitárias não há fraude à lei. A conclusão do TJUE é esta: Os artigos sobre a liberdade de estabelecimento do Tratado da UE. mesmo que haja intenção fraudulenta de estabelecimento noutro Estado Membro de uma sociedade. evitando constituir neste uma sociedade (mesmo que com isto se evite constituir na Dinamarca uma sociedade) eximindo-se assim. O TJUE veio dizer que esta recusa de registo contrariava o direito de estabelecimento comunitário e portanto. quer isso seja feito através de normas de conflitos que remetem expressamente para a lei da conexão mais estreita. mesmo que haja a intenção de fugir a uma lei. à aplicação das normas que regem a constituição de sociedades que ai são mais rigorosas em matéria de capital social mínimo.O tribunal dinamarquês colocou o problema ao tribunal de Justiça da UE. estão a ver. Portanto.21º não pode implicar a sanção de uma manipulação de um elemento de conexão fraudulentamente ou uma internacionalização fictícia. o TJUE disse que. Em sentido amplo ele significa que deve de ser aplicada a lei da conexão mais estreita. como era este caso. Nesse caso não há fraude. era perfeitamente válida e eficaz esta sociedade. recuse o registo de uma sucursal de uma sociedade constituída em conformidade com a legislação de outro Estado Membro. Cláusula de excepção Já ouviram falar várias vezes no princípio da conexão mais estreita. O princípio da conexão mais estreita é um princípio que respeita ao próprio elemento de conexão.

remetem para a lei da conexão mais estreita. pode ditar estas duas soluções. bem como no Regulamento Roma I. deste ponto de vista. O art.52º nº2 do CC. Portanto. Na última parte. o princípio da conexão mais estreita fundamenta a adopção de todas as conexões de um ordenamento jurídico. é aplicável a lei da sua residência habitual comum e.. o legislador deixa para o intérprete a concretização de qual seja a conexão mais estreita em função das circunstâncias do caso. vejam o art. mas ai é o próprio legislador que antecipadamente diz qual é que é a conexão mais estreita. fundamenta todas as normas de conflitos que mandam aplicar. Nós também encontramos normas deste tipo no nosso CC. em matéria de sucessões por morte manda aplicar a lei da nacionalidade? Porque se entende que é a lei da conexão mais estreita. como aquelas que nós temos no nosso CC. na falta desta. Não tendo os cônjuges a mesma nacionalidade. Página 118 de 221 . o art. 2. como fundamenta todas as normas de conflitos que. Porque é que se manda aplicar a lei do lugar do facto em matéria de responsabilidade civil extracontratual? Porque se entende que é a lei da conexão mais estreita. a lei do país com o qual a vida familiar se ache mais estreitamente conexa. embora não identificando por via geral e abstrata um elemento de conexão concreto.o contrato é regulado pela lei do pais com o qual apresente uma conexão mais estreita”. de acordo com certo elemento de conexão mandam aplicar uma lei. muito subsidiariamente. Porque é que a lei portuguesa. o princípio da conexão mais estreita em sentido amplo.com o elemento de conexão que o legislador entende ser aquele com o qual existe uma conexão mais estreita. No Regulamento Roma I. No nº1 também está presente o princípio da conexão mais estreita.52º vêm aqui formas diferentes de usar o princípio da conexão mais estreita. O princípio da conexão mais estreita. No próprio art. é a lei da nacionalidade comum. Deste ponto de vista. no entanto.4º nº4.4º nº4 do Regulamento Roma I vem dizer: “Caso a lei….

Em sentido estrito, o princípio da conexão mais estreita é aquele que
determina a aplicação da lei da conexão mais estreita em função das
circunstâncias do caso.
Portanto, é o que acabámos de ver que está presente no art.4º nº4
Roma I e no art.52º nº2 2ª parte.
Isto é aplicação do princípio da conexão mais estreita em sentido estrito.
Como? Através da utilização de um elemento de conexão de conceito
designativo determinado e portanto, manda-se aplicar a lei da conexão mais
estreita, em função das circunstâncias do caso concreto.
Dando mais um passo.
Este princípio da conexão mais estreita nesta vertente restrita, pode
ainda justificar a criação de normas de outro tipo, que não estas.
No art.52º nº2 e no art.4º nº4, nós encontramos uma norma de conflitos
que apesar de tudo é uma norma subsidiária, mas que remete para a lei da
conexão mais estreita, ainda que a título subsidiário, mas essa é a lei
competente.
Ora, noutros casos, encontramos normas que remetem para a lei da
conexão mais estreita, mas não com esta função de determinar, ainda que a
título subsidiário, o direito competente.
Aparecem-nos normas que remetem para a lei da conexão mais estreita,
mas com uma função correctiva, e essas normas são precisamente as
cláusulas de excepção.
O que é que acontece numa cláusula de excepção?
Encontramos a remissão para a lei da conexão mais estreita, com o
intuito de afastar a aplicação de uma outra lei que é a lei primariamente
competente.
A cláusula de excepção pode definir-se como a norma jurídica que em
função das circunstâncias do caso, atribui competência a uma lei em
detrimento de outra, por virtude de existir uma conexão manifestamente mais
estreita com a primeira lei.
Há cláusulas de excepção no nosso ordenamento jurídico só que essas
cláusulas de excepção, segundo parte da doutrina, são apenas especiais. Por
exemplo:

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Há pouco vimos o art.4º nº4, mas no art.4º nº3 do Roma I encontramos
uma cláusula de excepção. O art.4º nº1 e nº2 dizem qual é que é a lei
competente para certos contratos. Melhor. O art.3º diz que a lei competente é a
lei escolhida. O art.4º vem dizer que não havendo escolha de lei, a lei
competente é esta, nº1 e nº2.
Ora, o nº3 vem dizer que “caso resulte claramente do conjunto das
circunstâncias do caso, que o contrato representa uma conexão
manifestamente mais estreita com um país diferente do indicado nos nº 1 e 2, é
aplicada a lei desse outro país”.
Isto é uma cláusula de excepção.
Uma lei que diz; não se aplica a lei designada como originariamente
competente, mas aplica-se outra, se resultar do conjunto das circunstâncias,
que existe uma conexão manifestamente mais estreita com esta outra lei.
É isto que está no art.4º nº3 no Reg. Roma I.
E é isto que aparece em várias regras de conflitos do Reg. Roma II.
Neste encontramos várias cláusulas de excepção.
Vejam o art.4º nº3, o art.5º nº3, o art.10º nº4, o art.11º nº4, o art.12º nº2
al.c).
A terminologia é sempre a mesma, se resultar claramente do conjunto
das circunstâncias do caso, que a obrigação extracontratual tem uma conexão
mais estreita com um país diferente, é essa a lei competente.
Portanto, como estão a ver, a cláusula de excepção é directamente
influenciada pelo princípio da conexão mais estreita, na sua vertente restritiva,
porque se utiliza um conceito designativo indeterminado, porque se defere para
o aplicador do direito, a análise das circunstâncias do caso, e a decisão sobre
qual é que é a conexão mais estreita.
E vêm também que, a cláusula de excepção é uma cláusula correctiva, é
como certa doutrina diz, é uma cláusula de desvio ou de salvaguarda, ou
ainda, numa outra acessão, é uma escapatória à rigidez do direito de conflitos.
Por isso se diz que, o direito de conflitos hoje em dia já não é um direito
rígido como era há 100 anos atrás, é um direito de conflitos flexível.

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Aula de DIP de 14/4/15

Na aula passada terminei a matéria da fraude à lei. Quanto à cláusula de
excepção, faltam dizer duas ou três coisas. As normas que dei como exemplos
na última aula, são exemplos de cláusulas de excepção especiais. O professor
Moura Ramos dizia em relação a algumas parecidas com estas (pois estas
ainda não existiam) que eram cláusulas de excepção especiais abertas, isto
para contrapor com as que ele designou como cláusulas de excepção
especiais fechadas. Por exemplo, no nosso ordenamento jurídico existiria uma,
a do artigo 45/3 do CC. Vocês já conhecem este artigo, no nº1 em matéria de
responsabilidade civil extracontratual manda aplicar a lei do lugar da prática do
facto, no nº 2 manda aplicar a lei do lugar do efeito lesivo, e no nº 3 manda
aplicar a lei da nacionalidade comum ou a lei da residência habitual comum.
Ora, a aplicação da lei da nacionalidade comum do agente e lesado ou a
residência habitual comum do agente e lesado, diz o professor Moura Ramos,
consubstancia uma cláusula de excepção. Porquê? Porque o que acontece no
45º/3 é, bem vistas as coisas, o afastamento da aplicação das leis designadas
no nº1 e 2, em benefício da lei da nacionalidade comum ou da residência
habitual comum. Só que aqui não encontramos nenhuma norma a dizer que se
aplica, em detrimento do nº1 e 2, a lei da conexão mais estreita. Encontramos
uma norma a dizer que se aplica a lei da nacionalidade ou residência habitual
comum. Ou seja, foi o próprio legislador que disse, em abstracto, à priori, qual
era a conexão que ele entendia ser a da conexão mais estreita. Não deixou
isso para o aplicador do direito. Por isso é que o professor Moura Ramos diz
que esta é uma cláusula de excepção fechada porque não se remete em
abstracto para a lei do estado com que se manifesta uma conexão mais

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estreita, antes, pelo contrário, o próprio legislador diz qual é. Em todas estas
cláusulas de excepção (agora voltando para aquelas que são as normais, as
abertas) encontramos por um lado a característica da manifesta
excepcionalidade, e por outro lado, a remissão, sempre, para as circunstâncias
do caso. É isto que se pretende do julgador, que aprecie todas as
circunstâncias do caso, pondere todos os elementos de conexão, para ver se
deve ou não aplicar uma ou outra lei com o qual existe uma conexão
manifestamente mais estreita. Tem de ponderar os factores de conexão
objectivos e subjectivos (lugar do facto, do dano, da celebração do contrato, da
execução do contrato, lugar da nacionalidade das partes, residência habitual).
Em certos casos não tínhamos isto de forma expressa no nosso ordenamento
antes do regulamento Roma II. Em certos casos, o legislador obriga à
ponderação, como elemento para determinar a conexão mais estreita, não só
destes elementos que vos falei mas também de elementos de outro tipo. No
artigo 4º/3 do regulamento Roma II, diz-se que pode existir uma conexão
manifestamente mais estreita com a lei aplicável a uma relação contratual préexistente entre agente e lesado. Ora, prevê-se uma cláusula de excepção, mas
depois acrescenta-se que pode existir uma conexão manifestamente mais
estreita com a lei que regula uma relação pré-existente entre o agente e o
lesado. Quem vai aplicar a norma é que tem de ver se existe ou não. Que
hipóteses se têm verificado aqui? Exemplo tradicional, o dano é causado ao
lesado no âmbito de um contrato de transporte, a pessoa que apanha um táxi,
que é transportada pelo taxista, sofre um acidente que decorre da violação de
regras de trânsito pelo taxista. Mas esse acidente produz um dano que
simultaneamente decorre da violação do contrato. O que acontece nestes
casos é que a responsabilidade extra contractual tem também ela origem num
facto que simultaneamente constitui violação do contrato, de uma relação préexistente entre as partes. Aquilo que se diz neste artigo é que nestes casos
pode justificar-se aplicar à responsabilidade extracontratual a lei que regula o
contrato. Não é uma presunção inilidível.
Falta dizer a este propósito apenas uma coisa. Já vos dei vários exemplos de
cláusulas de excepção especiais que existem no nosso ordenamento jurídico.
Especiais porquê? Porque em todos aqueles exemplos que vos dei respeitam a
certa matéria. Vejam as cláusulas do Roma I que respeitam aos contratos só,
as do Roma II que respeitam apenas às obrigações não contratuais. Por
exemplo, não há cláusula de excepção que eu conheça em matéria de lei
aplicável às sucessões. Mas não existe em Portugal uma cláusula de excepção
de ordem geral? Isto é, que valha para a aplicação de todo o direito de
conflitos? Ai digo-vos que não. Expressamente não está prevista nenhuma.
Noutros ordenamentos jurídicos há normas que preveem cláusulas de
excepção de ordem geral, por exemplo a lei de DIP Suiça no seu artigo 15º “ o

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Portanto. porque permite o afastamento de uma lei designada pela regra de conflitos portuguesa em benefício de uma outra lei. Dará origem a uma insegurança muito grande. Outra doutrina. Felizmente esta doutrina tem passado despercebida nos nossos tribunais. pois penso que uma coisa é haver uma norma como aquela que está na lei suiça (com critérios definidos). dizia o professor Ferrer Correia. e com o facto de as normas de conflitos. sem critérios seguros. serem por virtude disso. defenderam que vigorava em Portugal uma cláusula de excepção de ordem geral. são as normas auto-limitadas. Felizmente. professor Ferrer Correia. Linhas que orientam o intérprete enquanto isso permitir o respeito pelos princípios e fins essenciais do direito de conflitos. Outros preferem falar em normas internacionalmente imperativas. No entanto. como é o caso do professor Dário Moura Vicente. não são verdadeiras normas auto-limitadas. São meras linhas de rumo. Baptista Machado. Esta doutrina justificava isto com a própria concepção que têm sobre o direito de conflitos. se bem que. utiliza Página 123 de 221 . No entanto são utilizadas outras expressões pela doutrina. Aplicando a lei do estado com a qual existe uma conexão mais estreita). e da conexão mais estreita. falavam em normas de aplicação necessária e imediata. de definitivo. fala mais frequentemente na categoria em que ela se enquadra. Neste momento não existe nenhuma cláusula deste género. como vos vou explicar. torna todas as normas de conflitos portuguesas flexíveis. Ferrer Correia. era a expressão que aparecia em algumas normas portuguesas e que aparece cada vez mais nos diplomas recentes. designadamente. Sempre que da aplicação da norma resultar uma violação desses princípios essenciais. Esta expressão. de concluso. implícita.direito designado por qualquer norma de conflitos pode excepcionalmente não ser aplicado se atendendo ao conjunto das circunstâncias for manifesto que a situação tem apenas uma ligação ténue com a lei designada e se apresentar uma ligação substancialmente com uma outra”. doutrina mais antiga e de Coimbra. Moura Ramos. recusa-se a seguir esta opinião. Esta opinião é revolucionária. da proximidade. A matéria seguinte é a das normas de aplicação imediata. Lima Pinheiro recusa a designação usada por Ferrer Correia. Isto. Baptista Machado. outra coisa é. Moura Ramos. não se deve aplicar essa norma de conflitos e deve corrigir-se o resultado a que leva essa norma de conflitos. isto é uma cláusula de excepção de ordem geral. O professor Lima Pinheiro. no fundo. instrumentais (não são algo de preciso. com base num raciocínio meramente dogmático como este da escola de Coimbra.

não institucional. o protecionismo do Estado. Por outro lado. O artigo 23º/1 das cláusulas contratuais gerais. A identificação desta categoria de normas para direito foi feita por um autor grego que vivia na França. estar em causa a protecção do consumidor. não corresponde à que é maioritariamente seguida. Pode acontecer. Depois irei referir a doutrina do Professor Lima Pinheiro. concorrência. estamos a falar de normas que se aplicam fora dos termos que prescrevem as normas de conflitos gerais. Estas normas levam à aplicação de outra lei. para Marques dos Santos. por exemplo. que de acordo com o artigo 3º do regulamento Roma I. são normas espacialmente Página 124 de 221 . Em Portugal. Por isso elas aparecem muito no domínio do direito da economia. etc. do trabalhador. então aplica-se essa norma apesar de não ser parte do direito competente. Por isso. Francesa. Aquelas normas que prescrevem a obediência a requisitos nacionais de produção de materiais podem ser normas de aplicação imediata mesmo que a lei competente relativamente ao contrato seja outra.a expressão internacional. ambiente. um exemplo concreto. Por um lado o intervencionismo do Estado. Depois da sua tese tendeu a chamar-se em Portugal normas de aplicação imediata. Podia. por exemplo. Mas se houver uma norma de aplicação imediata portuguesa a reclamar aplicação. Agora. pelo menos nesta casa. A que se deve a consagração destas normas? Duas razões essenciais. escolham como competente a lei francesa. Ora. isto faz destas normas materiais. quem mais estudou a questão foi o professor Marques dos Santos. lois des police. nos mercados de acções de valores mobiliários. Elas aplicam-se de uma forma diferente daquela que resulta do direito de conflitos. Em segundo lugar. As terminologias são diferentes mas falam todos da mesma realidade. O que sucede é que por vezes a adopção de terminologias diferentes se prende com a adopção de concepções radicalmente diferentes sobre a natureza das normas de aplicação imediata. diz-nos que independentemente da lei escolhida para regular o contrato se aplicam as normas materiais presentes nesta secção desde que haja uma conexão estreita com o ordenamento jurídico português. normas materiais. Ora. normas de aplicação imediata. aparecem normas deste tipo em matéria de protecção do consumidor. em primeiro lugar. as normas de aplicação imediata são. Essencialmente. vou dar-vos a noção que foi dada pelo Professor Marques dos Santos. ou do investidor. pelo menos na legislação. A tese construída por Marques dos Santos. Portanto. num contrato celebrado entre um português que vive em Portugal e um espanhol que vive na Espanha.

Há outros casos. se aplicam em determinados termos. desde logo o artigo 21º e 22º. E o professor Moura Ramos dizia que o seu âmbito de aplicação não é definido a partir do direito de conflitos geral. Portanto. são normas dotadas de especial intensidade valorativa. Quer num caso quer noutro nunca se deve confundir a norma material com a norma de conflitos. É norma de conflitos unilateral? Sim. Aplicam-se no espaço de forma diferente. O artigo 23º/1 da lei das cláusulas contratuais gerais é um exemplo de uma norma especial ad hoc. as normas do artigo 21º e 22º normas de aplicação imediata. Mas não são. remete apenas para o direito português. Marques dos Santos justificava afirmação da seguinte forma: são normas que se auto limitam no espaço. pois diz apenas que as normas desta secção. o artigo 28º/1 do CC) e as especiais ad hoc. as especiais (por exemplo. Os alunos tendem a confundir normas de aplicação imediata com normas de conflitos. Por isso é que são auto-limitadas no espaço. Ou seja. pelo menos. mas sim a partir de elas próprias. Ora. O artigo 23º/1 é um exemplo de uma norma expressa. não é este que é norma de aplicação imediata. outras implícitas. Em terceiro lugar. da lei portuguesa. isto é.auto limitadas. Estas normas de conflitos unilaterais especiais ad hoc que delimitam o âmbito de aplicação no espaço das normas materiais umas vezes são expressas. Como se detectam as normas implícitas? Marques dos Santos dizia que por via interpretativa a partir Página 125 de 221 . Mas como é que é feita essa auto-limitação no espaço? Através de normas de conflitos unilaterais especiais ad hoc. Embora haja divergência nesta matéria. A lei aplicável ao contrato pode ser a lei espanhola se as partes assim escolherem mas o artigo 23º diz que se devem aplicar os artigos 21º e 22º se houve conexão estreita com a ordem jurídica portuguesa. Torna. pois é uma norma que respeita a preceitos claramente individualizados. Porque diz em que termos se aplicam determinadas normas materiais no espaço. O professor Ferrer Correia dizia que estas normas têm uma vontade de aplicação geral diferente daquela que resulta do sistema do direito de conflitos. são normas que detêm um âmbito de aplicação no espaço diferente daquele que resulta do direito de conflitos geral. Dentro das unilaterais há as gerais (em Portugal não há nenhuma). Só podem ser detectadas pelo intérprete analisando a norma material em causa ou as normas materiais em causa. mas na maioria dos casos elas estão implícitas. essa é a norma de conflitos. É regra de conflitos? Sim. estas normas aplicam-se fora daquilo que é designado pela norma de conflitos geral. São espacialmente auto-limitadas. Pois as normas de aplicação imediata são sempre normas materiais. São normas que criam direitos e obrigações. Eu acabei de vos dar o exemplo do artigo 23º. Já sabem que há regras de conflitos bilaterais e unilaterais. É especial ad hoc? Sim.

do objecto. Isto é. por exemplo numa situação de responsabilidade extracontratual. Só têm um âmbito de aplicação. Mesmo que a um contrato de arrendamento possa ser aplicado direito estrangeiro o despejo há-de fundamentar-se nas causas previstas no direito de arrendamento português desde que o imóvel esteja situado em Portugal. como só se podem aplicar nesses termos não podem aplicar-se mesmo que o direito de conflitos geral remeta para a ordem jurídica a que pertença se a norma de conflitos especial não ordenar a sua aplicação. As regras de trânsito que vigoram em portugal são aplicadas em Portugal. mas pelo menos no que toca aos contratos de trabalho para serem executados em Portugal. a doutrina retira daqui uma norma de conflitos especial unilateral ad hoc implícita (atende-se aos fins da própria norma) que determina a aplicação desta norma. Página 126 de 221 . Por exemplo. seja uma lei estrangeira. Para o professor Marques dos Santos. exclusivamente. mesmo que a lei aplicada à situação em causa. se o contrato for executado em Portugal ou se for celebrado por trabalhador português com residência habitual em Portugal com estabelecimento sediado em Portugal mas que o trabalho será efectuado no estrangeiro. o que é que significa a auto limitação no espaço? Ainda estamos a analisar a segunda característica. dos fins. normas que estão ao serviço dos interesses do Estado. por isso é que só se deve aplicar nesses termos. do artigo 53º da CRP que proíbe os despedimentos sem justa causa. Portanto. Nesta última hipótese já é mais duvidoso. designava como regras de acompanhamento). mesmo que a norma de aplicação imediata faça parte do direito competente. Não precisa ser um interesse de vida ou morte. Até pode ser um interesse acidental. é sempre proibido o despedimento não havendo justa causa. Não é possível distinguir o âmbito de aplicação possível do âmbito de aplicação necessário. e do conteúdo das normas materiais em causa. Agora. Isto é. ela não se aplica se a norma de conflitos unilateral especial ad hoc que a acompanha disser que não se deve aplicar. nos termos das normas de conflitos unilaterais especiais ad hoc que as acompanhavam (a estas. significava que as normas de aplicação imediata só se aplicavam. isto é a proibição de despedimentos sem justa causa. É por essa forma que se há-de encontrar depois a norma de conflitos unilateral implícita. Porque é que isto é assim? Porque o professor Marques dos Santos dizia que as normas de aplicação imediata são normas dotadas de especial intensidade valorativa. A maioria das normas de aplicação imediata são aplicadas nos termos das normas de conflitos unilaterais especiais ad hoc implícitas. Ou seja. que é o necessário. mesmo que a lei aplicável ao contrato de trabalho seja outra.

Eu dei-vos a definição de normas de aplicação imediata !221e dei-vos a construção que o professor MARQUES DOS SANTOS faz na tese de doutoramento. que o professor Marques dos Santos delimita o seu âmbito de aplicação no espaço daquela forma. quero chamar-vos a atenção para o artigo 9º/1 do regulamento Roma I. dizia que as normas de aplicação imediata eram aquelas cuja observância era essencial para a salvaguarda da organização política. Aula teórica de 16 -04. Na próxima aula termino esta matéria. económica e social do estado. Este artigo surge na sequência de um acórdão do tribunal de justiça. Esta característica. resumindo em 30 segundos foi que para o professor Marques dos santos as normas de aplicação imediata são normas materiais. ao lado do direito de conflitos. Vejam a proximidade absoluta desta definição com aquilo que disse o autor estrangeiro que fiz referência. A referência aos fins tutelados pela norma de aplicação imediata justificava toda a doutrina do professor Marques dos Santos.2015 Na última aula estivemos a falar das normas de aplicação imediata. podem ser ainda outros. Isto para perceberem que tudo tem uma história. Ora. Só se aplicam na medida em que tutelem esse interesse do estado. levou também o professor Marques dos Santos a concluir que as normas de aplicação imediata constituíam um método próprio do DIP. Os interesses do estado ao serviço dos quais estão as normas de aplicação imediata não têm que ser apenas estes. O que eu disse. Marques dos Santos inspirou-se nesta concepção embora dizendo que era demasiado restritiva. Aquele autor que vivia em frança. É por isso que diz que as normas de aplicação imediata só podem aplicar-se nos termos em que a norma de conflitos que as acompanha diz que se devem aplicar. Basta ser um interesse que o próprio estado considere fundamental. A medida é ditada pela norma de conflitos unilateral especial que a acompanha e não pela regra de conflitos geral. é precisamente por esta razão.momentâneo. espacialmente auto-limitadas (há muita controvérsia nesta segunda Página 127 de 221 . Esta teoria é completamente contrariada por Lima Pinheiro e em parte por Dário Moura Vicente. Agora. hoje vamos terminar essa matéria.

que as normas de aplicação imediata não são um método próprio ou um método autônomo que existe ao lado do direito de conflitos. designadamente o facto de as normas de aplicação imediata se caracterizarem pelo seu fim. o facto de estas normas constituírem um método próprio do DIP. que existiria ao lado do método de direito de conflitos. umas vezes afirmando expressamente. Pronto esta construção do professor Marques dos santos podemos dizer que é uma construção unilateralista. A tese do professor lima pinheiro. nos encontramos pura e simplesmente uma manifestação específica do unilateralismo das normas de conflitos. Destas várias características. retirava o prof. é um critério que se traduz apenas na sua forma de actuação. embora num primeiro momento ainda se aproximasse da tese do professor Marques dos santos. isto é. outras vezes não. é um critério formal. A auto-limitação no espaço. a consequência de que nestas normas de aplicação imediata. são apenas uma técnica dentro do processo de regulação indirecta. Para o professor lima Pinheiro. A DOUTRINA MAIORITÁRIA entende. há medida que foi desenvolvendo a sua carreira veio aproximar-se mais de uma tese de aplicação das normas de aplicação imediata como uma única é simples técnica do método conflitual.característica) e dotadas de especial intensidade ordenativa (referência dos interesses dos estados). porque estas normas de aplicação imediata são mandadas aplicar de acordo com as normas de conflitos unilaterais. então daqui retira o professor lima Pinheiro outras consequências. A doutrina maioritária entende que as normas de aplicação imediata são apenas mais uma técnica do método conflitual e portanto não são um método próprio do DIP. de acordo com uma norma de conflitos a situações em que não seriam aplicadas nos termos das regras de conflitos gerais. Mas estas normas de conflitos unilaterais são meras Página 128 de 221 . Marques dos santos várias consequências.o que determinava depois a possibilidade de identificar a norma de conflitos que delimita o âmbito de aplicação no espaço da norma de aplicação imediata a partir destes mesmos fins por via interpretativa. a circunstância de a norma de aplicação imediata só se aplicar nos termos em que a própria norma de conflitos o dissesse e só nestes termos e por outro lado ainda. O que caracteriza as normas de aplicação imediata é um critério puramente formal. É isto que diz o professor LIMA PINHEIRO. que é o facto de elas se aplicarem. mas apenas por um critério formal. as normas de aplicação indirecta não se caracterizam nem se podem caracterizar pelo fim. Portanto. não é isso que caracteriza as normas de aplicação imediata. E desde logo. uma construção pura das normas de aplicação imediata. Mas se as normas de aplicação imediata não são caracterizadas pelo seu fim. Ela pode-se dizer que não corresponde à doutrina tradicional. Os fins em relação aos quais as normas de aplicação imediata estão ao serviço podem ser fins essenciais para o estado ou não.

é escolhida como lei competente a lei portuguesa. não há aqui método diferente. mas se não houver conexão estreita com a ordem jurídica portuguesa. Portanto. estamos perante o mesmo método. não fosse de aplicar a Página 129 de 221 . 21º e 22º da lei das cláusulas contratuais gerais. isto quer dizer que estas normas de aplicação imediata só se aplicam se houver conexão estreita com a ordem jurídica portuguesa. apenas e exclusivamente à vontade de aplicação das próprias normas. Por EXEMPLO. como por força de regras de conflitos gerais. mas apenas uma técnica dentro do mesmo método. mas o contrato não têm conexão estreita com a ordem jurídica portuguesa. nós vimos nas últimas aulas o art. 23º/1 da lei das cláusulas contratuais gerais diz que estas normas de aplicação imediata aplicam-se sempre que o contrato tenha conexão estreita com a ordem jurídica portuguesa. mas sim com regras de conflitos unilaterais. isto é. porque a norma de conflitos especial diz que não se devem aplicar ( só se devem aplicar naqueles termos e só naqueles termos). para o professor lima Pinheiro. São normas de aplicação imediata. Para o professor Marques dos santos. ainda que de acordo com a regra de conflitos especial (23º/1 LCCG). o professor lima Pinheiro tem uma concepção diferente e diz que a generalidade das normas de aplicação indirecta. O professor Marques dos santos entende que estas normas por estarem ao serviço de fins fundamentais do estado só se aplicam nos termos em que elas dizem que se aplicam. e dentro destas. O art. Isto vai fazer com que o professor lima Pinheiro tenha uma percepção completamente diferente sobre o sentido da auto-limitação espacial destas normas de aplicação imediata. são elas que delimitam o âmbito de aplicação no espaço das normas de aplicação imediata. as partes até podem escolher a lei portuguesa como lei competente ao abrigo da regra de conflitos geral. O próprio legislador diz: “através do artigo 23º”. com uma categoria específica de regras de conflitos unilaterais. só que aqui não estamos a lidar com regras de conflitos bilaterais. É celebrado um contrato internacional através de cláusulas contratuais gerais. O professor lima Pinheiro diria coisa diferente. tanto se podem aplicar por força da regra de conflitos unilateral. então as normas materiais constantes da lei das cláusulas contratuais gerais devem aplicar a lei portuguesa. O professor lima Pinheiro diz que como não estamos a falar de um método específico. Deve-se respeitar. mas apenas de uma técnica dentro do direito de conflitos. Trata-se de normas que são apenas caracterizadas por este critério formal e não por um critério material. estas normas não se aplicam. não estamos perante um método diferente.normas de conflitos. Portanto. há sim uma técnica dentro do mesmo método. através da norma de conflitos unilateral. porque não estamos perante outro método. Ora.

com um Página 130 de 221 . 23º/1 da LCCG ou através de regras de conflitos unilaterais especiais ad hoc implícitas. regras que permitem ao intérprete aplicar em derrogação do direito competente. Em algumas ordens jurídicas. Roma II. a lei escolhida tinha sido a lei espanhola. Na nossa ordem jurídica não há. convenção da Haia de 1973). Nós em relação a estas regras de conflitos do foro temos no nosso ordenamento jurídico algumas normas que em abstracto admitem a sua aplicação. Mas estas normas não identificam as normas de aplicação imediata. não interessa. Chamo-vos a atenção para a natureza desta norma. no entanto. 3º do regulamento Roma I ou que seja aplicável a lei espanhola por força do art. Mas havia aqui uma norma de aplicação imediata do foro que. Como esta norma há outras. temos normas deste teor para certas matérias ( contratos. Por exemplo. é apenas uma regra que autoriza a aplicação de normas de aplicação imediata. 9º/2 do Roma I. O contrato é celebrado em Portugal. estas concepções completamente diferentes levam a soluções completamente diferentes. num contrato internacional. Mas a lei competente era a lei espanhola. porque tinha sido a lei escolhida. Portanto. têm uma noção. Isto que acabei de vos transmitir não é a parte difícil das normas de aplicação imediata. o artigo 9º/2 do regulamento Roma I: “As disposições do presente regulamento não podem limitar a aplicação das normas de aplicação imediata do país do foro”. mas com carácter geral. há regras deste teor. é aquilo que resulta do 9º/2 Roma I e 23º/1 LCCG). mas nós depois é que temos de encontrar as normas de aplicação imediata e se as encontrarmos depois podemos aplicá-las por força do art. normas de aplicação imediata. o contrato tenha conexão com a ordem jurídica portuguesa. No fundo o que isto está a dizer é que. desde que sejam normas de aplicação imediata e depois cabe ao intérprete caracterizar as normas para ver se são normas de aplicação imediata e em que termos se aplicam no espaço. com a ordem jurídica espanhola e com a francesa. 4º ou 5º. Imaginemos. Mas pode suceder que. está norma do art.lei portuguesa. mesmo que as partes escolham a lei espanhola ao abrigo do art. A parte difícil das normas de aplicação imediata é a que respeita às NORMAS DE APLICAÇÃO IMEDIATA ESTRANGEIRAS. verificando-se a sua regra de conflitos. isto aqui não pode prejudicar a aplicação das normas de aplicação imediata do foro. por um português com residência habitual em Portugal. Até agora falei-vos sempre das normas de aplicação imediata do foro e dissevos que elas se aplicam ou porque há uma regra de conflitos unilateral especial expressa como a do art. 9º/2 Roma I não contém normas de aplicação imediata. permitia a sua aplicação e podia ser aplicada em derrogação da lei espanhola (isto é uma norma de aplicação imediata do foro. isto é. Pergunta-se: poderá ser atribuída relevância a esta norma de aplicação imediata francesa que por hipótese é o estado da execução do contrato.

Se existe na França uma norma de aplicação imediata que tem a acompanhá-la uma norma de conflitos a dizer que se o contrato vai ser executado na França. Veja-se a letra da norma: “Pode ser dada prevalência às normas de aplicação imediata da lei do país em que as obrigações decorrentes do contrato devam ser ou tenham sido executadas. Quanto a isso. O que encontramos nesse artigo? Precisamente uma regra jurídica que permite o reconhecimento em Portugal de normas de aplicação imediata de terceiros estados. desde que haja uma conexão estreita com essa ordem jurídica e desde que seja respeitada a vontade de aplicação desta norma. A regra do art. Ou melhor. Ora bem. mas este não chegou a vigorar. designadamente deu origem o artigo 7º/1 da convenção de Roma. ao artigo 9º/3 do regulamento Roma I. surgiu uma tese. é uma norma de aplicação imediata de um terceiro estado. devem ser tidos em conta a sua natureza e o seu objecto. Esta tese defende que pode ser atribuída relevância aquela norma estrangeira. nem é uma norma de aplicação imediata da lei competente. não é uma norma de aplicação imediata do foro. Esta não é tão clara. mas encontramos aqui Página 131 de 221 . 7º/1 da convenção de Roma é mais clara na influência da teoria da conexão especial. mas aceita-se normalmente que as normas de aplicação imediata estrangeiras da lex causae podem ser aplicadas.espanhol com residência habitual na Espanha. que se chama TESE DA CONEXÃO ESPECIAL. Há aqui uma norma de aplicação imediata francesa. que permitem o reconhecimento de normas de aplicação imediata de terceiros estados. Estas teses hoje em dia estão ultrapassadas. mas o contrato é para ser executado na França. desde que se esteja a aplicar está norma porque a regra de conflitos que a acompanha diz que ela deve ser aplicada. como se passam as coisas ? Esta teoria da conexão especial deu origem a normas que hoje em dia vigoram em Portugal. Depois apareceram orientações a dizer que as normas de aplicação imediata estrangeiras podem ser aplicadas desde que façam parte da lex causae (lei competente). segundo essas normas de aplicação imediata. ainda que com uma formulação um pouco diferente. mas tende a ser a tese MAIORITÁRIA. na medida em que. a execução do contrato seja ilegal. hoje em dia a doutrina não se fica por aqui. isto é. No princípio dizia-se que não podia ser. poderiam ser aplicadas apenas as da lei espanhola enquanto normas incluídas no direito de conflitos. O professor Marques dos santos critica está tese. aplica-se a norma de aplicação imediata francesa. A doutrina discute este problema. bem como as consequências da sua aplicação ou não aplicação”. ou seja. Mas é uma norma de aplicação imediata estrangeira. Mas deu origem. Olhando para o exemplo de a pouco. Mas isto não resolve o problema colocado. Pode ser atribuída relevância a esta norma de aplicação imediata? Vejamos. Para decidir se deve ser dada prevalência a essas normas.

não ao abrigo do 9º/3. Falta aqui a referência directa a vontade das normas de aplicação imediata. não há título para atribuir competência à lei francesa. pode ser dada prevalência a normas de aplicação imediata de terceiros estados (temos uma formulação muito próxima da conexão especial). que diz expressamente que em qualquer caso de referência feita pelas leis de conflitos suíças. ou o art. Então nesses casos podemos aplicar normas de aplicação imediata de terceiros estados? E quando não existe essa regra de reconhecimento expressa? Em certos ordenamentos jurídicos. mas só respeita a matérias especiais. O 9º/2 do Roma I diz respeito a normas de aplicação imediata do foro. 17º do Roma II. encontramos aqui uma norma especial que permite atribuir relevância as normas de aplicação imediata de um terceiro estado. 9º/3 só atribui relevância as normas de aplicação imediata do lugar da execução. Onde ficam as normas de aplicação imediata da lex causae? O art. é a lei espanhola. O 9º/3 a normas de aplicação imediata de terceiros estados. Continuando. utilizando um pouco a terminologia do professor Marques dos santos. Portanto. Não esquecendo que no nosso caso a lei competente não é a lê francesa. também encontramos uma norma deste tipo. o intérprete tem perfeitamente um título para atribuir relevância às normas de aplicação imediata de terceiros estados. mas ao abrigo de outras normas. Vamos a ver. Esta norma do 9º/3. No exemplo que eu vos dei. é uma norma de reconhecimento. encontramos uma norma desse tipo. Portanto. normas especiais que atribuem relevância a normas de aplicação imediata de terceiros estados. Na convenção de Roma fazia-se referência às normas de aplicação imediata do país com as quais haja uma conexão estreita. art. também encontramos uma norma deste tipo. se não houver norma como o 9º/3 do Roma I. Na lei suíça. Nestes ordenamentos jurídicos Página 132 de 221 . 23º/2 da LCCG são normas de reconhecimento que dizem respeito a matérias específicas. mas isso não quer dizer que depois não se possa atribuir relevância a outras normas de aplicação imediata de outros lugares. Quando assim é. 16º da convenção da Haia de 1973. diz-se logo. estas normas do 9º/3 Roma I. No art. por exemplo. só se forem as normas de aplicação imediata do lugar da execução. mas isso está implícito quando se fala de normas de aplicação imediata. existem regras que em geral admitem a aplicação de normas de aplicação imediata de terceiros estados. No art. 16º da convenção de 1973.manifestações da teoria da conexão especial. a execução do contrato seja ilegal. na medida em que segundo estas normas de aplicação imediata. 9º não se refere a elas porque se parte do pressuposto que elas vão ser aplicadas apenas quando fizerem parte da lei competente. pode ser dada relevância as normas de aplicação imediata do lugar da execução. Isto é. 17º do Roma II ou do art. Aqui não. o art. podemos dizer.

Interpretação e aplicação do direito estrangeiro: Há alguns problemas que se levantam aqui. Se for tratado como direito. então aí é o juiz que deve conhecer oficiosamente (art. 5º/1 do CPC. como devem calcular isto é uma questão muito importante. que o direito competente é o direito estrangeiro ( por força da regra de conflitos do art. Portanto. Fazemos a qualificação. Por EXEMPLO. portanto do direito espanhol. O professor DÁRIO MOURA VICENTE e MARQUES DOS SANTOS criticam uma bilateralização. interpretamos e concretizamos o elemento de conexão e chegamos à conclusão que a lei competente é a lei espanhola. é preciso que as partes o aleguem e o provem nos termos do art. As partes não entregaram qualquer documento que comprovasse isso. O primeiro problema é o de saber se o direito estrangeiro competente deve ser tratado como facto ou como direito. A doutrina tem construído doutrinas para reconhecer a atribuição de eficácia a normas de aplicação imediata de terceiros estados. Ora. porque é construída no âmbito de uma operação de bilateralização. construída no âmbito de uma operação de bilateralização. E que título é esse? Uma regra de remissão condicionada implícita. isto não se coloca. Dá-se a audiência e encerra-se a discussão em 1ª instância. mas as partes não alegaram nem fizeram qualquer prova do direito material espanhol. O que deve o juiz Página 133 de 221 . mesmo na ausência de uma regra de reconhecimento geral. 5º/3 do CPC). Estamos aqui a falar da interpretação e aplicação do direito estrangeiro competente. O réu contesta e o juiz a partir daí tem a sua disposição todos os factos necessários para decidir a causa. a lei portuguesa remete para a lei espanhola à luz do art. 49º CC + 31º/1 CC. O professor Dário moura Vicente defende que o reconhecimento é possível através de uma ponderação casuística à luz dos valores e princípios fundamentais do direito de conflitos.em que existe esta regra de reconhecimento geral. estamos a falar já de uma hipótese em que se chegou à conclusão de que uma regra de conflitos remete para um direito estrangeiro. verifica que aquilo se trata de uma situação privada internacional. O professor LIMA PINHEIRO defende que isso é possível através de uma regra de remissão condicionada implícita. Já temos um direitonestrangeiro que é competente. 49º+31º/1). Há aqui alguns problemas. Eram os artigos 852º a 854º do código civil espanhol mais um diploma avulso. este capítulo do programa diz respeito à interpretação e aplicação do direito material competente. ou seja. é possível o reconhecimento através de um título construído pelo intérprete. No nosso direito não existe. Se for tratado como facto. alega todos os factos. dizendo que não é admissível. alega que a situação é uma situação privada internacional. O juiz quando vai fazer a sentença. O autor intenta a acção através da petição inicial. Isto é.

por um lado. Este artigo só se aplica perante a real impossibilidade. ou estrangeiro e nenhuma das partes o tenha invocado. de conhecer o conteúdo do direito competente. O 348º/3 diz que se o juiz não conseguir conhecer o conteúdo (não é determinar o direito competente) do direito competente. onde se lê: 1. ELSA.fazer? Deve tratar isto como facto ou como direito? Se for tratado como facto. Ou o juiz estará obrigado a conhecer todos os direitos do mundo? Na Inglaterra. Na impossibilidade de determinar o conteúdo do direito aplicável. Portanto. 348º/3 do CC. é que há um dever de conhecer oficiosamente por parte do juiz. mas também há um dever de conhecer oficiosamente. antes de passar ao direito português. local. FERRER CORREIA. de forma clara. O juiz deve conhecer oficiosamente mesmo que não tenha sido invocado. 23º/2 CC. porém. sempre que este tenha de decidir com base no direito consuetudinário. este artigo tem de ser articulado com o art. de passar à conexão subsidiária. alegação do conteúdo desse direito e depois provar esse direito. aplica o direito português. 2. Aquilo que resulta do meu ponto de vista. O conhecimento oficioso incumbe também ao tribunal. demonstrada. o direito estrangeiro é tratado como facto. nem se impõe um ônus de alegação. MANUEL DE ANDRADE. 3. embora haja divergência doutrinária. é que podia passar ao direito português.2). mas o tribunal deve procurar. compete fazer a prova da sua existência e conteúdo. também diz esta doutrina e esta jurisprudência que da forma como está redigido o artigo resulta que há um ônus de colaboração neste caso. Agora. ou estrangeiro. E se o juiz não conseguir chegar ao conhecimento do conteúdo do direito estrangeiro competente? Aplica o direito português. É só se não conseguisse este. põe-se ainda a este propósito um outro problema. oficiosamente. O tribunal deve conhecer oficiosamente – assim o entendem MARQUES DOS SANTOS. Resulta daqui que haverá um ônus da prova.nos termos do art. Determinado o conteúdo do direito competente. nem se impõe um ônus da prova. obter o respectivo conhecimento. Como deve o juiz interpretar o direito competente? Aí Página 134 de 221 . Tanto assim é que nem se impõe às partes um ônus de alegação (isso resulta do n. o tribunal recorrerá às regras do direito comum português. Àquele que invocar direito consuetudinário. LIMA PINHEIRO. PROF. que não tem consequências.na parte que tinha interesse na aplicação do direito espanhol devia ter feito a alegação da necessidade de aplicação do direito espanhol. ou a parte contrária tenha reconhecido a sua existência e conteúdo ou não haja deduzido oposição. É claro que o advogado que quer ganhar o caso através da aplicação do direito estrangeiro deve procurar informar o tribunal do conteúdo dessas regras (estamos a falar de factos). local. Este artigo tem de ser articulado com o 23º/2 CC porque se o juiz não conseguir conhecer o conteúdo do direito estrangeiro competente. Em Portugal rege o o artigo 348º do CC.

temos de a aplicar? Não. Esta matéria tem a vantagem de finalmente acalmar o espirito de alguns alunos que estão preocupados por esta altura. A reserva de ordem pública internacional constitui um limite à aplicação do direito estrangeiro que em principio seria competente. deve conhecer da inconstitucionalidade se nesse sistema vigorar um sistema de fiscalização difusa. DIP 21. Ou aquela norma já foi declarada inconstitucional com força obrigatória geral na ordem jurídica de origem e então o juiz não deve aplicá-la. O juiz deve ter em consideração a necessidade de respeitar o precedente. o que significa que nós nunca vamos recorrer à reserva de ordem pública internacional nos casos em que cheguemos à conclusão que a lei aplicável é a lei material portuguesa. Por EXEMPLO. 23º/1 do CC. mas o réu invoca que aquela norma que o autor quer aplicar é inconstitucional a face do direito espanhol. é disso que trata a reserva de ordem pública internacional. o sistema jurídico competente é o inglês. dentro dos cânones de interpretação desse sistema jurídico e respeitando o seu sistema de fontes. isto é. porque um juiz francês também não conheceria. se houver precedente. Deve interpretá-lo e aplicá-lo como se fosse juiz desse sistema jurídico. tanto é relevante nos casos em que está em causa a aplicação de lei material estrangeira como Página 135 de 221 . É inconstitucional na própria ordem jurídica em que vigora. O juiz deve conhecer a inconstitucionalidade ou não? Depende. Abril Hoje vamos iniciar a matéria da reserva da ordem pública Internacional.responde o art. Não deve conhecer se nesse estado vigorar um sistema de fiscalização concentrada (por exemplo na França). como questões como: Mas o que acontece se a matéria estrangeira aplicável for muito contrária aos nossos princípios fundamentais. como é obvio. isto é. onde se lê: “A lei estrangeira é interpretada dentro do sistema a que pertence e de acordo com as regras interpretativas nele fixadas”. É essa questão que vamos resolver hoje. Ou não foi e aí o juiz deve agir como se fosse um tribunal do próprio estado de origem da norma. Isto aqui vale para um outro problema: o juiz chega à conclusão que é competente o direito espanhol. E a reserva de ordem pública internacional.

Página 136 de 221 . E o artigo 49 + artigo 31 número um diz-nos que a capacidade para contrair casamento revelada pela lei pessoal. que este senhor tinha filhos nascidos fora do casamento e estes filhos até eram portugueses. nós iríamos afastar a aplicação da lei material estrangeira. e por isso em todas estas hipóteses a consequência é que essa lei não será aplicável ou a sentença não será reconhecida ou a transcrição não será feita. a lei pessoal era egípcia vamos considerar que a norma egípcia considerava-se a si própria competente e que é que iria acontecer. Segundo exemplo temos um problema de sucessão mortis causa de um cidadão estrangeiro que está a ser apreciada em Portugal por tribunais portugueses. a lei portuguesa iria aplicar a norma material egípcia. mas o objectivo é casar com uma segunda mulher.também nos casos em que está em causa o reconhecimento de decisões estrangeiras nós podemos não reconhecer também decisões estrangeiras que sejam contrárias aos nossos princípios fundamentais. a a lei da nacionalidade. era um problema de capacidade para contrair casamento. E por isso a lei material estrangeira designada neste caso não seria aplicável. O que é que iria acontecer nestas duas hipóteses. vamos imaginar que esta lei da nacionalidade do de cujus Nega qualquer direito sucessório aos filhos nascidos fora do casamento só admite atribuição de efeitos sucessórios aos filhos nascidos dentro do casamento. Porque? Porque num caso como no outro. artigo 49º. neste caso qual era a questão em causa. era que quando se fosse aplicar a lei particular a esta situação. Neste caso vamos ainda adicionar mais uma questão. tal como também a reserva de ordem pública internacional pode ser um limite à transcrição de actos de registo civil que sejam lavrados no estrangeiro e que depois se fossem transcritos nos termos em que foram lavrados no estrangeiro essa transcrição seria incompatível com as concepções ético-jurídicas ou com os princípios fundamentais do estado do foro. Chegamos então a conclusão que aplicando a lei imaterial egípcia o senhor poderia casar pela segunda vez estando ainda casado tendo em conta que lei egípcia permite O Casamento poligamico pela sharia. A melhor forma de perceber a reserva de ordem pública internacional é mesmo com exemplos: Se nós tivermos um cidadão Egípcio que é casado e pretende casar-se novamente em Portugal e não se divorciou. nos termos do artigo 62º determina-se que é aplicável a lei pessoal do de cujus. e Vamos admitir que queríamos saber qual a lei que regula esta sucessão por morte. da aplicação da lei material estrangeira para regular da situação iriam resultar efeitos contrários aos princípios fundamentais da ordem material portuguesa.

Vou voltar a falar disto outra vez. nos exemplos que eu dei não comecei por apreciar o teor da Lei material estrangeira quando nós falamos em reserva de ordem pública internacional não está aqui em causa nenhum juízo de valor relativamente à lei material estrangeira. pode ser a lei portuguesa. Mas vamos imaginar a seguinte situação. não se entra porque até pode dar-se o caso de ser a lei de material estrangeira a aplicável. e quando concluímos que dessa aplicação resultam efeitos que são contrários aos princípios fundamentais da ordem jurídica portuguesa. nós só vamos afastar a aplicação da lei material estrangeira no final do processo quando chegamos à conclusão que é essa lei material estrangeira a aplicável. porque há uma tentação que costumo verificar nos alunos que é uma tentação de quando surge uma lei material estrangeira mais original. só se no final do processo chegarmos à conclusão de que é essa lei material a aplicável. Desde logo trata-se de um conceito indeterminado e que deve de ser concretizado pelo julgador caso a caso. íamos ter por força do artigo 18º nº1 do código civil. E portanto a reserva de ordem pública internacional tem um funcionamento aposteriorista. Se nós estivéssemos perante um caso por exemplo: No caso do artigo 49º. O que é que nós tínhamos neste caso. tentam entrar logo com a reserva de ordem pública internacional. e se L1 aplica L1 não há problema. • Quais são então as características da reserva de ordem pública internacional. isto é um ponto muito importante. a lei portuguesa remetia para lei egípcia. Eu estou só a chamar a atenção para quando virem um caso em que temos uma lei No esquema que nos parece estranha. Página 137 de 221 . e este é um ponto muito importante. que a norma de conflitos egípcia remetia para a lei portuguesa.Agora reparem. aplicávamos aqui a reserva da ordem pública internacional. na hipótese que eu dei tínhamos a lei egípcia a considerar-se competente . que L1 iria aplicar que lei? L1. a Reserva de ordem pública internacional tem uma aplicação aposterioristica. não entrarmos logo pela reserva de ordem pública internacional. o conteúdo da reserva de ordem pública internacional não pode ser concretizado à priori. até pode ser uma outra lei. mas nós podemos encontrar algumas características desta figura. um cidadão egípcio.

há uns anos não era. E reserva de ordem pública internacional no âmbito do Direito Internacional privado acaba por ser um mal necessário. como o próprio nome indica ela é uma exceção ou uma limitação à aplicação da lei imaterial estrangeira competente Segundo as regras do conflito do foro. pode dar-se o caso de aqui uns anos já não integrar. porquê? Porque já sabemos. o estado aqui eventualmente irá aplicar a ordem pública internacional. Terceiro: outra característica é o carácter Nacional da reserva de ordem pública internacional. provavelmente é uma das figuras que representa o que há de mais Nacional é o núcleo mais intangível dos nossos princípios fundamentais • Quais são então os pressupostos de atuação da ordem pública internacional. isto porque os princípios fundamentais do estado do foro só são atendidos se da aplicação da lei estrangeira resultar uma conexão suscetível de produzir efeitos nesse estado. Agora Página 138 de 221 . que a ideia É que se aplique a lei que é designada pela norma de conflitos. há quem fala em relatividade temporal. uma directriz geral de abertura às ordens jurídicas estrangeiras portanto a reserva de ordem pública Internacional só vai funcionar excepcionalmente nestas situações limite. Segundo: Depois tem também como característica actualidade. tenta-se sempre uma abertura da ordem jurídica do foro aos sistemas estrangeiros. E por isso é que a directriz geral é esta. na prática não vai produzir efeitos neste ordenamento. Primeiro: tem de existir uma conexão suficientemente estreita entre os factos em apreço E o estado do foro . a reserva de ordem pública internacional tem um carácter excepcional. a reserva de ordem pública internacional na verdade é constituída pelos princípios estruturantes do ordenamento português. Provavelmente aquilo que integra a reserva de ordem pública internacional. apesar do nome reserva de ordem pública internacional esta figura de internacional tem muito pouco. Ou seja se numa qualquer situação que não produza efeitos no estado do foro não existe qualquer razão para fazer funcionar a reserva de ordem pública internacional.Primeiro : excepcionalidade. ou seja nascidos dentro ou fora do casamento em Portugal é contrário aos princípios jurídicos da ordem portuguesa. Por exemplo: atualmente em Discriminação entre filhos legítimos E ilegítimos. Daí esta característica da atualidade. atualidade porque O preenchimento do conteúdo de reserva desordem pública internacional vai se fazer alguma luz do sentimento ético-jurídico dominante no momento do julgamento da causa.

que é o do contrato de compra e venda de uma pessoa esta é uma situação que juridicamente seria tão tóxica para o ordenamento jurídico português que se ela produzisse efeitos cá era completamente inadmissível. ou seja. era como se fosse ácido sulfúrico e que uma única gota poluía todo o ordenamento jurídico. Aquilo que podemos dizer é que a intensidade desta ligação ao Estado o foro varia na razão inversa da importância dos princípios violados. E ela não pode ser definida à priori muito menos podemos dizer qual a intensidade da ligação que é exigida. que é a imagem da poluição. só se for em muita quantidade é que polui verdadeiramente o ordenamento jurídico português. a situação por exemplo de um cidadão britânico que faz um testamento em que deixa todos os seus bens apenas a um dos seus filhos. porque neste caso os princípios que estão a ser colocados em causa não são tão significativos. mas no limite. podemos dizer é como se funcionasse ali um pouco de monóxido de carbono seja dos escapes dos carros. Noutros casos em que os princípios que estejam a ser postos em causa não sejam tão fundamentais. que é suficiente para que funcione a reserva de ordem pública internacional. basta que esta questão seja apreciada em tribunais portuguesas para que vá funcionar a reserva de ordem pública internacional. que o que está a ser vendido é uma pessoa. porque os princípios que estão a ser postos em causa são tão fundamentais para o ordenamento jurídico português que não se pode admitir sequer que possa existir uma decisão proferida em tribunais portugueses que diga. se nós tivermos uma situação que é como o primeiro exemplo que eu dei. esta forma de estar é admissível luz do ordenamento inglês. Neste caso mesmo que a única ligação que existisse com Portugal fosse o facto de a decisão ser tomada por tribunais portugueses . No Página 139 de 221 . temos o exemplo do senhor que deixou todos os seus bens a um dos filhos. mesmo que se possa admitir está em causa reserva de ordem pública internacional ela só poderia funcionar se existisse uma ligação muito significativa com o ordenamento jurídico português. Neste caso a doutrina e a jurisprudência tem discutido se está ou não está em causa a questão da reserva da ordem pública internacional. nos neste caso faríamos sempre funcionar reserva de ordem pública internacional. O Professor Ferrer Correia utiliza uma imagem interessante. sim senhor pode-se vender e comprar pessoas.esta conexão que se exige entre situação e o Estado do foro pode-se exigir que seja mais estreita ou mais lassa. imaginem que tem quatro. e por isso exigi-se uma ligação ténue com ordenamento jurídico português. Outra hipótese. se por exemplo estiver a ser discutida em tribunais portugueses se é ou não é válido contrato de compra e venda.

Portanto nós não vamos avaliar em abstrato a lei estrangeira. no direito português temos então uma reserva de ordem pública internacional no art. no artº 12 do regulamento Roma III.caso seria precisa uma ligação muito estreita para nos entendermos que estes efeitos iriam intoxicar e não poluir. artº 26º do Regulamento Roma II. por exemplo. se estiver em causa a aplicação de regras de conflitos do nosso código civil nós aplicamos as disposições do nosso código civil. O que está em causa são os efeitos que aplicação dessa lei estrangeira irá ter no ordenamento jurídico português.22º do CC. se nós aplicarmos as normas de conflitos do nos CC e chegarmos à conclusão que é Página 140 de 221 . Volto a repetir o que está em causa não é o conteúdo de lei estrangeira. Direito vigente no ordenamento jurídico português. é afastada. quando funciona a reserva de ordem pública internacional consequência imediata é que não é aplicada. e as situações que vou referir prendem-se com conflitos de leis. se houver outras que sejam apropriadas. Isso é o caso de Portugal. Segundo: Depois há um efeito secundário eventual que é o seguinte. Depois tem de haver uma ligação entre a situação e o estado do foro e também se exige um juízo de compatibilidade entre o resultado da aplicação da lei estrangeira e os princípios fundamentais do Direito do foro. o ordenamento jurídico português. nós vamos apreciar é os efeitos que resultam da aplicação dessa lei estrangeira à situação concreta. Isto porque tal como nós vimos. • Quais são os efeitos da reserva de ordem pública internacional: Primeiro: existe o efeito primário que consiste no afastamento das normas em princípio competente. no artº 35 do regulamento Roma V. do afastamento dessa lei material estrangeira resultar uma lacuna essa lacuna vai ter de ser integrada em princípio ela vai ser integrada recorrendo às normas mais apropriadas da lei material estrangeira. Mas também está consagrada No artigo 16º da Convenção de Roma. no que respeita aos ordenamentos jurídicos complexos. se não encontrarmos regras apropriadas na lei material estrangeira em princípio poderá ser aplicada a lei material do foro. o mesmo se passa no que respeita à reserva de ordem pública internacional ou seja. artigo 21º do regulamento Roma I. noutros países como é o caso de Portugal é aplicada a lei subsidiária. nós temos várias disposições que regulam a reserva de ordem pública internacional.

Os artigos 22º do Código Civil e os artigos dos regulamentos europeus. Artigo 22º nº 1 determina :” não são aplicáveis Os preceitos da Lei estrangeira indicados pela norma de conflitos quando essa aplicação envolva ofensa dos princípios fundamentais da ordem pública internacional do Estado português. que fazemos? Aplicamos o regulamento RomaI.” O disposto neste artigo permite então confirmar que a intervenção da reserva de ordem pública internacional não importa aqui qualquer valoração de conteúdo da lei estrangeira mas apenas o resultado da sua aplicação ao caso concreto. também temos regras atualmente no regulamento 1215/2012 que também afasta as decisões de reconhecimento de sentenças estrangeiras quando elas contrariem a reserva da ordem pública internacional. porque reparem nós podemos ter situações em que da aplicação da lei estrangeira não resulta qualquer lacuna. No domínio do reconhecimento de sentenças também encontramos regras que impedem o reconhecimento de sentenças estrangeiras quando elas contrariem a reserva de ordem pública internacional No novo Código do processo Civil por exemplo no artigo 980º alínea F) . quando aplicamos o Regulamento Roma I também aplicamos a reserva de ordem pública internacional. ou seja não é a lei estrangeira vista em abstracto é a lei estrangeira aplicada ao caso concreto e os efeitos que daí resultam. e íamos afastar a aplicação dessa regra recorrendo ao artº 21 do regulamento Roma I. No âmbito do nosso curso Como nós não abrangemos a matéria de reconhecimento de sentenças. chegando à conclusão que a lei aplicável era a lei do país X que determinava que as pessoas podiam ser compradas e vendidas. exemplo: Vamos imaginar por exemplo que estamos perante uma situação em que é aplicável a lei do país X matéria de capacidade matrimonial e de acordo com a lei do país X determina-se que pessoas de diferentes etnias Página 141 de 221 . mas se nós tivermos a tratar por exemplo. na hipótese que vos dei. mas nada de misturar as regras dos diferentes diplomas. é isto que se retira do nº 1 quando se refere à situação em que a aplicação da lei estrangeira envolva essa ofensa. no contratos de compra e venda de uma pessoa. Depois o 22º nº2 vem contemplar a situação em que a não aplicação da lei estrangeira gera uma lacuna.aplicável uma lei material estrangeira contrária aos nosso principios fundamentais vamos aplicar o art22º. e consecutivamente pelos diferentes regulamentos. vamos ficar essencialmente com. se aquilo que está em causa são as obrigações resultantes do contrato de compra e venda de uma pessoa estamos perante obrigações contratuais.

não podem casar umas com as outras, a situação está a ser apreciada em
Portugal e os nubentes são pessoas de diferentes etnias, o que vai acontecer
neste caso, vamos imaginar a lei material estrangeira proíbe, é uma norma
proibitiva, o casamento entre pessoas de diferentes etnias, o que é que nós
vamos fazer neste caso, esta proibição é contrária aos nossos princípios
fundamentais, o que é que o conservador do registo civil vai fazer?
Vai afastar esta lei material estrangeira quando a afasta, está a afastar a
proibição, está resolvido, não temos lacuna, a única coisa que foi precisa aqui,
foi retirar a proibição. Retirando a proibição as pessoas já se podem casar
independentemente da sua etnia. Mas podemos ter casos em que ficamos de
facto com uma lacuna.
Por exemplo vamos imaginar que pela lei material estrangeira que é
aplicável que determina por hipótese que a idade para casar, imaginemos nas
meninas aos quatro anos, e nos meninos aos seis anos de idade, nós temos
aqui uma norma material estrangeira que uma vez mais é contrária aos nossos
princípios fundamentais, neste caso O que vamos fazer é afastar esta norma
material que estabelece esta idade núbil, mas neste caso vamos ficar com uma
lacuna, ficamos sem saber qual é a idade Com que as pessoas se podem
casar E então aqui temos um número dois a dar-nos resposta a esta questão.
O que ele nos diz é que são aplicáveis a estes casos, casos de lacunas, por
afastamento da lei estrangeira, As normas mais apropriadas da legislação
estrangeira competente, ou seja o que teríamos de fazer era perguntar se
existem outras normas uteis na leiomaterial estrangeira que ainda assim,
fossem adequadas para resolver esta situação.
Neste caso parece-me que não, esta era a regra que existia portanto neste
caso não existindo normas materiais estrangeiras daquela lei que fossem
adequadas então temos ultima solução que é a que está consagrada no
número dois parte final.
Que se não encontrarmos essas normas mais
apropriadas da legislação estrangeira competente iremos aplicar as regras
competentes do direito interno português.
Reparem, o recurso às regras
do direito interno português É
mesmo ao ultima solução, mas é a solução que temos de encontrar porque o
juiz tem sempre de julgar e se não aplica lei material estrangeira então em
último caso tem de aplicar a lei material portuguesa porque não consegue
encontrar resposta.
Porquê desta solução, porque ainda assim se tenta respeitar àquilo que foi
designado pela norma de conflitos, Se norma de conflitos determinou que era
aplicável a lei do país X nós vamos tentar aplicar a lei do país X mesmo
expurgando a norma que produz efeitos contrários aos nossos princípios
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fundamentais mas se expurgando essa norma ficarmos com uma lacuna, ainda
assim vamos tentar encontrar nesse país X Se no ordenamento existe alguma
norma que possa ser adequada se ela existir é essa que vamos aplicar, sou se
ela não existir é que aplicamos As normas materiais portuguesas esta é a
última solução.
A Própria harmonia internacional de soluções está aqui também plasmada,
porque tenta-se aplicar a lei que foi designada pela norma de conflitos de leis.
Os regulamentos Roma I, II, III e V conforme eu referi também disciplinam
intervenção da reserva de ordem pública internacional, estas disposições, já se
sabe prevalecem sobre o artigo 22º do Código Civil mas elas também só terão
aplicação Se os respetivos regulamentos se aplicarem. Entre as disposições
dos regulamentos que tratam da reserva da ordem pública internacional não há
diferenças muito significativas. Por exemplo no regulamento Roma I No artigo
21º determina o seguinte a aplicação de uma disposição da lei de um país
designada pelo presente regulamento sou pode ser afastada Se essa aplicação
for manifestamente incompatível com a ordem pública do foro.
Qual é a diferença que encontramos entre esta disposição do artigo 22º do
Código Civil encontramos apenas o manifestamente. Há quem diga que este
manifestamente vem aumentar ou Estabelecer um critério de maior exigência
no sentido da excepcionalidade do funcionamento da reserva da ordem pública
internacional, porque os próprios regulamentos não são aplicáveis apenas num
estado, mas são aplicáveis em todos os Estados-membros da União Europeia.
Eu parece me todavia que este manifestamente apenas está a sublinhar o
carácter de excepcionalidade conforme também já tínhamos visto no
ordenamento jurídico português portanto em bom rigor eu diria que ele pelo
menos relativamente ao nosso artigo 22º é a forma como nós interpretamos e
parece-me que ele não acrescenta muito mais, porque nós também no
ordenamento jurídico português entendemos O artigo 22º Como tendo caráter
excepcional e só o aplicamos quando a aplicação da lei imaterial estrangeira
for de facto incompatível com os princípios estruturantes do ordenamento
jurídico português.
A pergunta que se coloca aqui também com respeito a estas questões, é a de
saber se a ordem pública estará a relativizar-se ou se no fundo começam
a aceitar nos vários países realidades jurídicas que seriam
tendencialmente contrárias a ordem pública.
A verdade é que a reserva da ordem pública internacional exige sempre que se
faça uma interpretação actualista teremos de ver o que é que a cada dia
integra a Reserva de ordem pública internacional e a verdade é que cada vez
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mais os países tendem a ter uma maior abertura a outras realidades que se
calhar antes não teriam.
Mas depois existem aqui umas figuras um pouco sui generis que resultam da
realidade das várias sociedades, Por exemplo o casamento poligâmico é
contrário aos princípios fundamentais da ordem jurídica portuguesa por várias
razões, mas desde logo há um indício importante é que a poligamia em
Portugal é nada mais nada menos do que crime, à partida há-de ser contrária
aos nossos princípios fundamentais, e por isso o casamento poligâmico não é
permitido na maior parte dos países ocidentais, Incluindo em Portugal.
Mas isto não significa que não se posso reconhecer alguns efeitos do
casamento poligâmico, esta questão colocou-se muito em França por causa da
imigração do Magreb e consequentemente com casamentos poligâmicos.
Qual foi então a questão que se colocou, Só se reconhecia o primeiro
casamento, O primeiro casamento não tem mal, imaginemos que um cidadão
egípcio vem a Portugal casar e é O primeiro casamento por isso não há
problema aplica-se a lei egípcia.
Temos então a situação de um senhor que é egípcio vem a Portugal casar, Ele
é solteiro o que é que o conservador vai fazer? Artº 49 aplicar lei material
egípcia, Quando aplica a lei material egípcia, o que é que ela diz: que o homem
pode ter até quatro mulheres, Esta lei egípcia aplicada a este caso vai ter como
efeitos, o quê? O senhor pode casar com aquela senhora, Efeito, ele vai se
casar, ele era solteiro, isto produz algum efeito contrário a nossa reserva da
ordem pública internacional? Não! Ele permite um casamento, está tudo bem.
O problema é se depois ele se quiser casar outra vez sem se divorciar da
primeira, daí da aplicação da lei egípcia já vai resultar, o quê, um segundo
casamento isto aí é reserva de ordem pública internacional já não vai permitir.

Agora, podíamos ter este mesmo senhor egípcio que já vem para
Portugal com quatro mulheres, por exemplo com quatro casamentos que são
admitidos no Egipto . Neste caso O único casamento que vai ser reconhecido
será o primeiro casamento os outros não.
Agora imaginem aqui que há um problema, segunda a Terceira ou quarta
mulher pedem uma pensão de alimentos, Neste caso apesar de os
casamentos seguintes não serem reconhecidos poderão ser reconhecidos
alguns efeitos desses casamentos, No sentido de neste caso atribuir
eventualmente uma pensão de alimentos a estas senhoras, ou no caso de ele
eventualmente vir a falecer, Se ele morrer sou uma é que é herdeira!? Então e
as outras? Aqui também poderão ser admitidos que estes casamentos
seguintes possam produzir alguns efeitos, O casamento em si não é
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reconhecido, mas admita-se a produção de alguns efeitos, No fundo do próprio
sentido de justiça o exige. Neste caso fala-se em efeitos cumulados de reserva
Da ordem pública internacional este é um efeito acumulado.
Já agora ia me esquecendo, voltando um pouco atrás , quando falamos do
artigo 22 número dois do código civil, Em que se diz que se da aplicação da lei
estrangeira resultarem efeitos contrários aos nossos princípios fundamentais,
afastamos a lei estrangeira mas ainda vamos primeiro tentar descobrir uma
solução nessa mesma lei estrangeira e só em último caso é que vamos aplicar
a lei material portuguesa. Está aí subjacente aquilo a que chamamos princípio
do mínimo dano, mínimo dano a que lei, à lei material estrangeira que é
designada e aplicável.
Depois pode-se facilitar, para compreender a reserva de ordem pública
internacional a delimitação de fronteiras relativamente a outras figuras.
Reserva de ordem pública internacional distingue-se por exemplo da fraude
à lei, porque enquanto a reserva de ordem pública internacional se funda na
inadmissibilidade do resultado da aplicação da lei estrangeira a sanção da
fraude à lei funda-se na rejeição de conexões artificialmente criadas pelas
partes, na fraude à lei o que está em causa são as conexões que são artificiais.
E aqui o que está em causa é mesmo a aplicação desta lei estrangeira.
Depois também a reserva de ordem pública internacional conduz ao
afastamento da lei estrangeira enquanto que é fraude a lei pode ter como
consequência a não aplicação quer da lei estrangeira quer quer da Lei do foro
depende da forma Como o elemento de conexão tiver sido manipulado.
Reserva de ordem pública internacional também se distingue das normas
de aplicação imediata, nos casos das normas de aplicação imediata são
normas que no fundo elas próprias delimitam as normas materiais e elas
próprias delimitam o seu campo de atuação do espaço através de normas de
conflito à volta e elas refletem um determinado intervencionismo do Estado são
normas que por regra apresentam essa característica. No entanto As normas
de aplicação imediata representam uma cedência do próprio direito de conflitos
ou seja, elas aplicam-se no fundo sem atender ao que diz o direito de conflitos
porque elas próprias tem uma vontade de aplicação.
Na reserva de ordem pública internacional aquilo que se tem em vista é
diferente, porque elas só vão funcionar em situações em que nós aplicamos as
normas de conflitos e chegamos a conclusão que é aplicável uma determinada
norma estrangeira e que essa sim é contrária aos princípios fundamentais. As
duas figuras tem uma forma completamente diferente de funcionar.
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Página 146 de 221 . Isto significa que estas quatro matérias que temos aqui indicadas são matérias que integram o estatuto pessoal. Terminarmos com a reserva de ordem pública internacional matéria sobre A parte geral E vamos então entrar na parte especial. e o ponto seguinte é o da lei pessoal das pessoas singulares. as relações de família e as sucessões por morte são reguladas pela lei pessoal dos respetivos sujeitos. a Capacidade das pessoas. O que é que nós vamos ver. e este artigo está integrado na subsecção primeira que trata do âmbito e determinação da lei pessoal E tem o artigo 25º como epígrafe "Âmbito da lei pessoal". todas as regras em que se diz que é aplicável a Lei pessoal integram matérias de estatuto pessoal. Nem todas as disposições imperativas do ordenamento jurídico português integram a reserva de ordem pública internacional. são muito mais limitadas. reserva de ordem pública internacional é o que temos estado a ver. isso é que integra a reserva de ordem Pública Interna. Reserva de ordem Pública Interna É composta por todas as disposições que são imperativas. e o Código Civil abre então a Secção respeitante às normas de conflitos com a previsão do artigo 25º. Imaginem reserva de ordem Pública Interna que é o conjunto de todas as disposições materiais quem não são afastáveis pela vontade das partes. dentro destas há umas que integram os princípios fundamentais do ordenamento jurídico português e estas são muito mais restritas. O que é que diz o artigo 25º diz-nos que o estado dos indivíduos. Mas este artigo 25º não é exaustivo há mais matérias e questões que integram o estatuto pessoal para lá destes que estão indicados no artigo 25º. Posto isto passamos então ao ponto seguinte. vamos verificar que reserva de ordem Pública Interna é composta por todas as regras materiais que não são supletivas . injuntivas ou seja aquelas que não sejam supletivas. a Reserva de ordem pública internacional É muito mais limitada do que é a reserva de ordem Pública Interna. No fundo o que é que integra a reserva de ordem pública internacional? Os princípios fundamentais estruturantes do ordenamento jurídico português. ou seja todas aquelas que são imperativas ou injuntivas depende da terminologia que o professor de introdução ao estudo do Direito tiver utilizado.Depois há ainda uma distinção importante que é entre reserva de ordem pública internacional e reserva de ordem Pública Interna. Hoje começamos então com a matéria da lei pessoal das pessoas singulares.

Página 147 de 221 . Se estas matérias fossem regidas pela lei territorial. uma pessoa que é considerada filha legítima pode não ser considerada no outro estado. Os próprios direitos da personalidade podem não ter no outro estado reconhecimento. Artigo 30º tutela e institutos análogos de proteção dos incapazes é aplicada a lei pessoal do incapaz. matéria então também de estatuto pessoal. Outro exemplo: artigo 27º que trata de direitos de personalidade qual é então indicação que aqui temos. Esta lei pessoal sabemos nós que ela vai ser concretizada pela lei pessoal. em princípio sempre a lei da nacionalidade que vai regular estas matérias independentemente do lugar onde as pessoas se encontrem. corria-se o risco de quando as pessoas atravessassem fronteiras se vissem despojadas de situações jurídicas que foram legitimamente constituídas noutros estados. Por exemplo uma situação de filiação que tivesse sido constituída num estado não seria reconhecida no outro estado. qualidades e situações jurídicas que dependem das pessoas e por isso as pessoas têm interesse em vê-las redigidas sempre pela mesma lei independentemente do lugar em que se encontrem. ou seja pela lei do país onde as pessoas se encontravam ou pela lei do foro. só não sabemos por qual. o casamento que tivesse sido celebrado num estado não seria reconhecido no outro e não valia nada. Mas o que justifica então que estas matérias fiquem sujeitas a lei pessoal dos indivíduos? Estas matérias que aqui referimos correspondem no essencial a estados. Matéria então também de estatuto pessoal. Esta figura que determinaria o âmbito de aplicação territorial destas leis seria atentatória da dignidade da pessoa humana e por isso nosso ordenamento jurídico vem então consagrar a Aplicação da lei pessoal no caso da lei da nacionalidade. No caso português da lei pessoal é a lei da nacionalidade. e às restrições impostas ao seu exercício é também aplicável a lei pessoal. O artigo diznos então que se aplica a lei pessoal. mas o artigo 31º será em princípio pela lei da nacionalidade É não ser que se trate de um cidadão apátrida.Por exemplo: artigo 26º também regula o início e o termo da personalidade jurídica e que diz um 26º número um: que no início e o termo da personalidade jurídica são fixados igualmente pela lei pessoal de cada indivíduo. direitos de personalidade no que respeita à sua existência e tutela.

doutrinária e também legislativa que vai no sentido de aplicar a lei do domicílio ou da residência habitual a matérias do estatuto pessoal vamos encontrar esta cisão nos vários ordenamentos jurídicos que são os que aplicam a lei da nacionalidade a matéria de estatuto pessoal.Tudo isto acaba também vou refletir aqui uma concepção formalista do direito. já sabemos. O nosso legislador consagrou a regra da nacionalidade. Ora bem. pois. qual é que é a lei cuja aplicação garante uma maior vinculação dos cidadãos portugueses no estrangeiro a Portugal? A lei da nacionalidade. deveria de ser regulada pela lei da residência habitual. há duas grandes orientações possíveis. mesmo que os cidadãos estejam espalhados pelo mundo. Há uma outra corrente que existe. por regra. tendo por consideração o facto de o nosso CC. Por seu turno. a lei que vai ser aplicada em matéria de estatuto Página 148 de 221 . vimos que em princípio a lei pessoal é a lei da nacionalidade… Agora. ou seja uma concepção que coloca na base da ordem jurídica a pessoa humana e vê como salvaguarda tem dignidade da pessoa humana como fim primordial da ordem jurídica. e vimos o que é que significava estatuto pessoal. Teórica de 23/04 Na aula passada começámos a matéria da lei pessoal das pessoas singulares. que considera ser mais adequada a aplicação da lei da nacionalidade. E Portugal seguiu a orientação de Manchini. no que respeita à determinação da lei pessoal das pessoas singulares. ter entrado em vigor em 1966 e a realidade portuguesa da altura era de uma forte emigração. O outros aplicam a lei da residência habitual. esta solução não é uma solução pacífica em todos os ordenamentos jurídicos mas a solução que consagramos reflete basicamente a doutrina de Mancini que defendia que em matéria de estatuto pessoal devia ser aplicada a lei da nacionalidade. a verdade é que como também falámos na aula passada. que nos termos do artigo 31º é a Lei da nacionalidade. Savigny já antes considerava que em matéria de estatuto pessoal. Então a lei pessoal do ordenamento jurídico português.

que é o facto de não se ter uma pluralidade de leis aplicáveis pelos juízes. ia ter de saber muitas leis materiais. consoante a nacionalidade das pessoas. e aqui. que é a de prevenir a fraude à lei. Portanto. e nós aqui. o Brasil tenda a seguir a solução da residência habitual. quer estivessem em Portugal. Há aqui um outro aspecto. se no Brasil os juízes Brasileiros tivessem de aplicar a lei da nacionalidade de um sujeito em matéria de estatuto pessoal. os juízes iam ter o problema de ter de aplicar uma multiplicidade de leis. Exemplo: No Brasil por regra. relativamente a cidadãos portugueses. quando estivesse. e com isto conseguese o seguinte: Todas as questões que se coloquem em matéria de estatuto pessoal. se ao invés da aplicação da lei da nacionalidade nós tivéssemos de aplicar a lei da residência habitual. ia ser aplicada a lei portuguesa. Esta regra não descrimina as pessoas em função da Página 149 de 221 . logo.pessoal é a lei da nacionalidade. será a aplicação da residência habitual. Dai que. se estivessem no Brasil. quer estivessem no estrangeiro. brasileira. que é a opção tradicionalmente seguida por países de forte emigração. por exemplo. Conseguia-se manter esta vinculação estreita. italiana. a lei portuguesa. não pode haver descriminação dos cidadãos em função da nacionalidade. portanto. relativamente a portugueses nos vários países. então. perante uma população portuguesa espalhada pelo mundo. porque é mais difícil mudar-se de nacionalidade do que mudar-se de residência habitual ou de domicílio. portuguesa. a solução que vamos encontrar será uma solução diferente. alemã. e portanto. tem também uma vantagem especialmente significativa. este elemento de conexão nacionalidade. a opção portuguesa foi justamente pela lei da nacionalidade. Em Portugal a solução que foi seguida é da adopção da lei da nacionalidade. Nem podia haver. nos termos do art. ou seja. Se estivem na Venezuela aplicávamos a lei venezuelana. A adopção deste critério.12º do TUE. Se nós estivermos a pensar em países de forte imigração. porque o Brasil foi durante muitos anos um país de forte imigração. em matéria de estatuto pessoal é aplicada a lei da residência habitual. em causa uma questão de capacidade para contrair casamento ou sucessório. o juiz português. existem comunidades muito significativas no Brasil de origem japonesa. este vínculo tende a ser mais duradouro. nem sequer podemos invocar que existe algum problema de descriminação em função da nacionalidade. nacionalidade. e para além disso também se conseguia um outro aspecto importante.

neste caso. Sendo que. ou alemã. que em caso de haver dupla nacionalidade. Eles registaram primeiro as crianças perante as autoridades espanholas. as autoridades espanholas aplicaram a sua própria lei e aplicaram a sua própria lei porque. apelido do pai e apelido da mãe). (nome próprio. as crianças só podem ter nome próprio e apelido do pai. a nacionalidade que prevalece é a nacionalidade do estado que está em causa. ou seja. portanto. As autoridades espanholas registaram as crianças com a composição do nome conforme está previsto na lei espanhola. da aplicação destas regras de conflitos. que está publicado nos cadernos de direito privado que está na indicação bibliográfica do programa da cadeira). Pelo que aqui está descrito chegávamos à conclusão de que em Portugal tudo se passaria da mesma maneira. as crianças tinham dupla nacionalidade de Estados Membros da UE (espanhola e belga). dupla nacionalidade. uma vez que o que se está a dizer é que se aplica a lei da nacionalidade. francesa. ou seja. nós já vimos quando tratámos da relação entre o DIP e as liberdades europeias. e já sabemos que de acordo com a lei material espanhola. não há por si só uma descriminação em função da nacionalidade. não haveria aqui qualquer descriminação. Agora. ora. é que em alguns casos da aplicação destas regras poderão resultar consequências… não é exactamente uma descriminação em função da nacionalidade. que determinam a aplicação da lei da nacionalidade.nacionalidade. Garcia Avello. eles até viviam na Bélgica. ora. que foi decido pelo TJUE em 02 de Outubro de 2003. podemos ter problemas que se prendem com limitações ao exercício das liberdades europeias. os pais quiseram registar estas crianças na Bélgica. Processo: C 148/2002 (a Professora tem um artigo escrito que é um comentário a este Acórdão. tenha a pessoa nacionalidade portuguesa. De acordo com a lei belga. No caso do Acórdão Garcia Avello. e quando o fizeram. perante o Estado belga releva a nacionalidade belga. que tiveram dois filhos (Diego e Esmeralda). perante o Estado espanhol prevalece a nacionalidade espanhola. portanto. tínhamos um cidadão espanhol casado com uma cidadã belga. A seguir. as crianças eram filhos de um espanhol e uma belga. porque as crianças tinham nacionalidade espanhola e belga. Quando eles foram registar as crianças. aquilo que pode acontecer. Página 150 de 221 . espanhola. as autoridades espanholas fizeram aquilo que Portugal também faria. mas que.

e na Dinamarca tinha um determinado nome que era constituído à luz da lei material dinamarquesa. mas são as consequências daqui decorrentes. como as que resultaram do caso Garcia Avello e que podem ser contrárias ao exercício das liberdade europeias. E isto acontece desta forma porque se assim não fosse. e por isso. perante as autoridades belgas. Portanto.Mas a verdade é que. a lei alemã. A mesma coisa se passou no caso Brokin Paul. Uma vez mais os pais recorreram para o TJUE. Os pais tinham registado a criança na Dinamarca. uma vez mais uma criança com dois nomes diferentes. Consequência. Perante as autoridades dinamarquesas a composição do nome resulta da aplicação da norma da residência habitual. mas tinha nascido na Dinamarca. logo. havendo assim um limite ao exercício da liberdade de circulação. a situação era diferente pois a criança só tinha uma nacionalidade. as autoridades belgas tinham de reconhecer (aqui a ideia do princípio do reconhecimento mútuo) o nome destas crianças. estas crianças estavam registadas de uma forma perante as autoridades espanholas e com outro nome. sendo que foram as autoridades alemãs condenadas a reconhecer o nome como Página 151 de 221 . o facto de as crianças terem dois nomes diferentes em dois países diferentes. a alemã. iria ter como consequência uma limitação ao exercício das liberdades europeias. neste caso já falado em aulas anteriores. recorreram para o TJUE e o TJUE veio dizer que a situação já tinha sido constituída à luz da lei espanhola. Consequência. quando a criança nasceu tinham residência habitual na Dinamarca. Ora. não é a norma de conflitos em si. A seguir os pais quiseram ir registar a criança perante as autoridades alemãs. não é o elemento de conexão em si. conforme ele tinha sido constituído no outro Estado Membro. uma pessoa que tem dois nomes diferentes é sempre travada em todos os aeroportos. outra de acordo com a lei alemã. logo. não tem qualquer mal a Espanha ter aplicado a lei da nacionalidade à composição do nome. os pais. uma de acordo com a lei dinamarquesa. e a norma de conflitos alemã diz que em matéria de composição do nome se aplica a lei da nacionalidade. e a criança tinha nascido na Dinamarca. aplicaram a lei dinamarquesa. em tem qualquer problema a Bélgica aplicar a lei da nacionalidade à composição do nome. o que pode acontecer é que deste facto podem resultar diferenças. dai que. porque de acordo com a norma de conflitos dinamarquesa a composição do nome é regulada pela lei da residência habitual. pois.

vai ter de ser aplicada a lei do domicílio. não havendo nacionalidade o legislador passa ao elemento de conexão subsidiário que é a residência habitual comum. é aplicável a lei da sua residência habitual comum ao tempo do casamento.. Isto em matéria de estatuto pessoal. no fundo. logo. estamos em matéria de estatuto pessoal. a aplicação da lei da residência habitual. porque o que está em causa é o direito ao nome e o direito ao nome é um direito de personalidade. uma vez que se fosse aplicada a lei da nacionalidade aos refugiados. Várias hipóteses: • Desde logo. que determina a aplicação da lei do domicílio e na falta da lei do domicílio. à lei da sua residência habitual. o caso dos apátridas não se pode aplicar a lei da nacionalidade. A verdade é que a regra no ordenamento jurídico português é a da aplicação da lei da nacionalidade em matéria de estatuto pessoal. do 57º nº1. no art. a verdade é que a lei da nacionalidade pode não ser a única a ser chamada para regular matérias que estão compreendidas no estatuto pessoal. do 60º nº2. poderiam ter sérias dificuldades. não tendo os cônjuges a mesma nacionalidade. • Noutros casos. por razões óbvias. novamente o princípio do reconhecimento mútuo. ao seu domicílio ou na sua falta. eles não têm nacionalidade. o que resulta da aplicação da regra consagrada no art.52º nº2 do CC. Por exemplo. É o caso do art. de acordo com a Convenção de Genebra de 1951.12º da Convenção relativa aos apátridas. então. E..53º nº2. em matéria de relações entre os cônjuges. também é submetido o estatuto pessoal dos refugiados. em que. nós vamos encontrar no CC.anterior havia sido constituído noutro Estado Membro. também encontramos normas de conflito que nos remetem para a lei da residência habitual. é chamada a aplicar a lei da residência habitual. isto é o que resulta do art.. é aplicável a lei da sua residência habitual comum. na falta de nacionalidade comum das partes. Página 152 de 221 .31º nº1 CC. • O mesmo também se encontra consagrado no art. determinase no 52º nº2 que não tendo os cônjuges a mesma nacionalidade.56º nº2. pois. outras referências em normas de conflito. Também nos casos em que se trate do estatuto dos refugiados. tal como nestas.

no que respeita ao início ou ao termo da personalidade. para efeitos civis.6º da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Nós temos. portanto. Por exemplo. Mas assim. o que é que tínhamos aqui? (agora já não temos pois a lei foi alterada em 2011). no sentido de pessoa que é susceptível de direitos e de deveres. e aqui entende-se por personalidade jurídica. no art. o problema pode-se colocar desde logo pelo facto de um nado morto não adquirir personalidade jurídica à luz do direito material português. Tínhamos que a personalidade jurídica só se adquiria 24 horas depois do nascimento. quanto ao início da personalidade jurídica. em todas as legislações do mundo. pois.66º (estamos a falar de direito material) determina-se que a personalidade jurídica se adquire no momento do nascimento completo e com vida. aplicamos a lei portuguesa.26º nº1 CC. mas até 2011 a lei espanhola determinava que se reputava nascido. também aqui. a indicação de que o início o termo da personalidade jurídica são fixados pela lei pessoal de cada individuo. pela lei da nacionalidade. portanto. Entretanto.Quanto à personalidade jurídica É pacífico que a personalidade jurídica é hoje reconhecida às pessoas singulares. e portanto. o feto que tiver vida humana e sobreviver 24 horas fora do ventre materno. no entanto. nós podemos encontrar alguns conflitos. se a criança não chegou a nascer? Temos aqui um ciclo vicioso. a lei espanhola mudou. Página 153 de 221 . é para o facto de podermos ter legislações diferentes nos vários ordenamentos jurídicos. tal como resulta do art. como é que nós sabemos se adquiriu ou não a personalidade jurídica? Se for filho de pais portugueses. o que era relevante para efeitos sucessórios. E podemos perguntar: E se for uma criança que não nasça com vida. Esta personalidade jurídica é reconhecida às pessoas singulares. vamos obviamente assumir que se aplica a lei da nacionalidade que a criança teria se tivesse adquirido a personalidade jurídica. em Portugal nos termos do art. nós aplicamos a lei da nacionalidade. porque é que vamos aplicar o direito material português. O que eu aqui quero chamar a atenção. aqui.

.º 2 do artigo 68. não existe direito à imagem per si. presume-se que morre primeiro a pessoa mais nova.26º nº2 diz-nos que neste caso é aplicado o nº2 do art. De acordo com a lei material do país B. são direitos de personalidade per si. significa que ninguém herda de ninguém.26º Matéria de direitos de personalidade prevista no art.27º CC Esta disposição vem dizer que se aplica a lei pessoal do indivíduo nas seguintes matérias de direitos de personalidade.Também é a lei pessoal do indivíduo. Por exemplo: em Portugal existe direito à imagem e existe direito ao nome.68º nº2. art. se forem potenciais herdeiros um do outro. e neste caso. Página 154 de 221 . Um é nacional do país A. Isto é muito importante porque os direitos de personalidade não são universais. existência e conteúdo dos direitos de personalidade. o art. ou seja. que consagra uma norma material de DIPrivado e ao contrário das normas que até agora vimos. Aplicação da lei pessoal do indivíduo à determinação. esta é uma norma que dá resposta material ao problema que está a ser suscitado.68º do CC. Quando certo efeito jurídico depender da sobrevivência de uma a outra pessoa e estas tiverem leis pessoais diferentes.. por exemplo. que nos diz: 2. duas pessoas que morrem num acidente de avião e não se sabe quem morreu primeiro.º O que é que nós podemos ter? Temos. é isso que resulta do art. se as presunções de sobrevivência dessas leis forem inconciliáveis. determinando que existe uma presunção que as pessoas morreram ao mesmo tempo. Mas no direito inglês não existe direito ao nome. que deve de indicar quais é que são os factos extintivos da sua personalidade jurídica. Isto no que respeita à personalidade. outro é nacional do país B. é aplicável o disposto no n. autónomos. De acordo com a presunção que está em vigor no país A presume-se que morre primeiro a pessoa mais velha. funcionam per si.26º nº2 CC. e temos o art. Temos aqui presunções de morte incompatíveis uma com a outra.

Há aqui um aspecto que é o seguinte: se nós estivermos a tratar de responsabilidade aquiliana por violação de direitos de personalidade. já sabemos. que as formas de tutela com excepção da responsabilidade aquiliana.27º nº2? Diz-nos que… o 27º nº1 diz-nos que se aplica a lei pessoal que é a lei da nacionalidade.27º nº2. nesse caso vamos aplicar o art..45º do CC. a apreensão de um livro que é considerado difamatório. é regulada pelo art.27º. a supressão de certas passagens do livro. nós não vamos aplicar o art. Roma II. as formas de tutela previstas no direito material português estão consagradas no art. que trata de responsabilidade extra-contratual. Roma II afasta do seu âmbito de aplicação material os direitos de personalidade. se nós quisermos saber se um determinado cidadão inglês. O estrangeiro ou apátrida não goza. ou seja. tem ou não tem direito ao nome.Portanto. 2. Este art. a atenuar os efeitos da ofensa já cometida. vamos ter de perguntar à lei Britânica. porém. Significa então. à integridade física e à integridade moral. nem sequer vamos aplicar a regra do Reg. Página 155 de 221 . por exemplo.45º CC. mas a responsabilidade civil.. Se se tratar de um cidadão português. que diz que as formas de tutela são essencialmente a responsabilidade civil. com excepção do direito à vida. e o que é que nos diz o art. são reguladas pela lei pessoal dos sujeitos. e quais é que são as formas de defesa (tutela) dos direitos de personalidade. depois. de qualquer forma de tutela jurídica que não seja reconhecida na lei portuguesa.70º nº2 do CC. temos também outras formas de tutela que se destinam a evitar a consumação da ameaça. por exemplo. à sua existência e tutela e às restrições impostas ao seu exercício.27º também diz que é aplicada a lei pessoal do individuo à determinação das formas de tutela de que esses direitos são susceptíveis. Temos também uma regra original no art. Se por exemplo. e depois. e também à determinação das restrições que afectem o seu exercício. diz o art. porque o Reg. aplicamos a lei portuguesa. ou então. Isto significa que.27º nº2. estiver em causa a tutela dos direitos de personalidade de um cidadão português. é perante a lei pessoal que nós vamos averiguar qual é que é o conteúdo dos direitos de personalidade.

e a capacidade é regulada pela lei pessoal. e 13º do Reg. Capacidade Já sabemos que a lei reguladora da capacidade das pessoas singulares. mas temos aqui uma regra específica. que se traduz na concorrência da competência da lei pessoal e da lei portuguesa. Mas em alguns casos nós vamos encontrar regras especiais. que têm um caracter puramente punitivo. portanto. Isto no que respeita aos direitos de personalidade. Outro exemplo: Conforme também já sabem. 31º nº2. em princípio.63º que trata da capacidade para fazer. está prevista no art. Esta forma de tutela de direitos de personalidade não está expressamente consagrada no direito português. Outro exemplo é o art. para não fazer barulho às pessoas que vivem no andar de baixo. modificar ou revogar disposições por morte. o caso dos artigos 28º. em alguns estados são atribuídos punitive damages. 47º todos do CC. nós também não temos uma forma de tutela igual no direito português. por exemplo: Temos uma pessoa que é do país X. a lei que iria ser aplicada seria a lei do país X. se a lei do país X estabelecer uma forma de tutela jurídica que não seja reconhecida pela lei portuguesa. nos USA. esta forma de tutela não seria aplicada pelo juiz português. em princípio. E depois. Página 156 de 221 . de acordo com a lei do país X. o juiz também não iria aplicar. quer no que respeita à capacidade de exercício. é o caso do art.49º que regula a capacidade para contrair casamento. o juiz português não vai conferir essa forma de tutela. mas. temos ainda outras regras que vêm consagrar desvios à aplicação da lei nacional à capacidade de exercício.. Determina à mesma a aplicação da lei pessoal. portanto. quer no que respeita à capacidade de gozo. lei da nacionalidade. por exemplo.25º do CC.. Roma I.Isto significa que é aqui estabelecida uma conexão plural. Imaginem. assim. é por exemplo. neste caso. o juiz tem poderes para obrigar as pessoas que vivem no andar de cima a alcatifar as casas.

De forma semelhante. que vem dizer que: Num contrato celebrado entre pessoas que se encontram no mesmo país. se fosse aplicável. têm subjacente uma ideia muito parecida. no art.25º mais 31º nº1 do CC) se. em Portugal aos 18 anos já se é maior. ele tem 18 anos e fica combinado pagar metade do preço naquela altura e o restante um mês depois.28º nº1 diz nos que: 1. considerar essa pessoa como capaz. e por isso é que vamos encontrar. (esta é uma norma unilateral). por força do art. aquele que está a vender o carro. elas têm de estar as duas no mesmo país) uma pessoa singular considerada capaz segundo a lei desse país (ou seja. está a actuar de má fé e neste caso.13º do Reg. Roma I e o art. o nosso cidadão moçambicano tem 18 anos de idade e que é considerado capaz de acordo com a lei portuguesa) só pode invocar a sua incapacidade que resulte da lei de outro país (incapacidade que resulta da aplicação da lei moçambicana. para não realizar a outra metade do acordado. vem invocar a sua menoridade de acordo com a sua lei pessoal. o outro contraente tinha conhecimento dessa incapacidade ou a desconhecia por negligência. sendo que nessa altura. em Moçambique a maioridade é atingida aos 21 anos de idade.13º do Reg.28º do CC. Vamos imaginar que temos um cidadão moçambicano que adquire um automóvel em Portugal. que em princípio era de facto a aplicável. que. o outro contraente (o vendedor do carro) tinha conhecimento dessa incapacidade ou a desconhecia por negligência.O art. uma pessoa singular considerada capaz segundo a lei desse país só pode invocar a sua incapacidade que resulte da lei de outro país se. no momento da celebração do contrato. (portanto. pois. invocando a invalidade do contrato. por exemplo. Roma I.13 do Reg. O art. tem capacidade jurídica plena e por isso. nunca poderia imaginar que aquela pessoa era menor. no momento da celebração do contrato. Roma I. se por exemplo. estas disposições. num contrato celebrado entre pessoas que se encontram no mesmo país. Página 157 de 221 . O negócio jurídico celebrado em Portugal por pessoa que seja incapaz segundo a lei pessoal competente não pode ser anulado com fundamento na incapacidade no caso de a lei interna portuguesa. aquilo que vêm fazer é tutelar a confiança das pessoas que actuam num determinado país. Estas disposições vêm-nos dizer que. Manifestamente.. já bilateral vamos encontrar o art. e que no fundo se pautam pelas regras desse país.

que consagrar regras idênticas às fixadas nos números anteriores. em matéria de estatuto pessoal. em Portugal. quando no 31º nº2 diz que. (28º nº1 e nº2 do CC. Página 158 de 221 . casamentos). este cidadão poderia ter aqui alguma dificuldade. que vem dizer que: 3. desde que esta se considere competente. se nós exigíssemos a este cidadão português. esta norma vem depois a ser bilateralizada no art. importa ter presente que o art. mas não. só trata da hipótese em que o negócio jurídico é celebrado em Portugal. que estabelece uma norma de conflitos unilateral. O art. A ideia que está subjacente a esta disposição.28º nº3. pois. altura em que havia em Portugal uma forte emigração e em que as pessoas vinham a Portugal com muito menos frequência. por regra. Estes negócios jurídicos correspondem a negócios de matéria do estatuto pessoal. que para que o negócio fosse válido. ora. e então a ideia subjacente. determina o art. não se esqueçam. em conformidade com a lei desse país. aqui estamos apenas a tratar de negócios jurídicos em matéria de estatuto pessoal (testamento. reconhecidos em Portugal os negócios jurídicos celebrados no país da residência habitual do declarante. Se o negócio jurídico for celebrado pelo incapaz em país estrangeiro. dirige-se às autoridades francesas e as autoridades francesas vão fazer um testamento seguindo a lei francesa. São. pode ser aplicada a lei da nacionalidade.13º que o negócio vai ser considerado válido. o art.31º nº2. porém. está a viver em França e que queira fazer um testamento em França. serão reconhecidos os negócios jurídicos celebrados no país da residência habitual. vamos pensar… Um emigrante português. temos de contextualizar esta norma. 1. desde que esta se considere competente. A lei pessoal é a da nacionalidade do indivíduo. é fácil esquecerem-se a aplicarem isto a todos os negócios que as pessoas celebrem.). Uma vez mais. que é o art. ainda assim. vamos voltar ao ano de 1966. então. temos ainda uma disposição que é especialmente importante. Depois. será observada a lei desse país. conforme referi.Nestas hipóteses.31º nº2 vem determinar que.31º nº2 está a seguir ao 31º nº1 e o 31º nº1 diz-nos que. tivesse necessariamente de seguir as regras previstas pela lei portuguesa. e por isso. apesar de.28º nº1. esta disposição diz-nos que. em conformidade com a lei desse país.

é aplicável a lei pessoal. É igualmente definida pela lei da situação da coisa a capacidade para constituir direitos reais sobre coisas imóveis ou para dispor deles. porque ela está a dizer que São.25º. em França as autoridades francesas aplicassem a sua própria lei. aquilo que é relevante é que o negócio seja considerado válido à luz da residência habitual do sujeito. por exemplo. ou seja.ou seja. mas sim. desde que.47º trata da capacidade para constituir direito reais sobre coisas imóveis ou dispor deles. ou a cidadãos estrangeiros no estrangeiro. Esta norma não se aplica aos cidadãos estrangeiros em Portugal. Tem sido também orientação dominante que não é absolutamente necessário que o negócio jurídico tenha sido celebrado no país da residência habitual da pessoa. Esta norma não se aplica a cidadãos estrangeiros que têm residência habitual. porém. desde que a lei do Página 159 de 221 . à regra do art. é a que vem prevista no art. Ponto 1 Esta disposição aplica-se a questões que se prendem com a capacidade para constituir direitos reais. Esta disposição tanto se aplica a cidadãos portugueses como a cidadãos estrangeiros. poderá ser suficiente que ele tenha sido celebrado num outro país. de contrário. a lei do lugar onde o imóvel está situado. O art. havendo autores que fazem interpretações mais amplas e outros mais restritas. esta é a minha orientação. mas esse negócio seja considerado válido à luz da lei da residência habitual do sujeito. só que. desde que. a lei do país onde o imóvel está situado assim o determine. portanto. reconhecidos em Portugal…se são reconhecidos em Portugal é porque não estamos a falar de pessoas que residem em Portugal. Um outro desvio que nós aqui encontramos.47º do CC. Neste caso. e isso retira-se do elemento literal da própria disposição. Este artigo vem dizer que podemos não aplicar a lei da nacionalidade do sujeito. como já estamos para lá da letra da lei. existem divergências doutrinais. desde que essa lei assim o determine. ela vai ter de se aplicar a cidadãos portugueses no estrangeiro.

a lei portuguesa não diz que é aplicável a estas matérias a lei do lugar da situação da coisa. porque a condição. a lei portuguesa não determina. diz que se aplica a lei da nacionalidade. a que está submetida à aplicação desta norma não se encontra preenchida.país onde o imóvel está situado diga que se aplica a lei do lugar da situação da coisa ou se se considere a sí própria competente.47º nunca terá aplicação no caso em que um imóvel se encontre situado em Portugal. desde que essa lei assim o determine… Escusado será de dizer que este art. em princípio.47º não se aplica. se o imóvel estiver em Portugal o art. aqui. a lei da nacionalidade. Página 160 de 221 . porque nós dizemos que é aplicada a lei do lugar da situação da coisa para constituir os direitos reais. porque a lei portuguesa determina que em matéria de capacidade é aplicável a lei pessoal. Estamos por isso. perante uma norma de remissão condicionada. Portanto. porque nos falta esta última parte. Portanto.

sim. ou situações equiparáveis ao casamento. Também. na seguinte aula teórica. Estão excluídas. mas o tribunal de justiça da união europeia considera que são casos em que as partes assumem compromissos.Aula de DIP de 28/4/15 Regulamento Roma I Este é um regulamento da UE que não regula tribunais competentes nem reconhecimento das resoluções estrangeiras. as escolhas de um tribunal arbitral para conhecer do assunto. estão excluídas as matérias sobre regime de bens no casamento. Por exemplo. se excluem. etc). Excluem-se. O artigo 1º estabelece que o regulamento é aplicável às obrigações contratuais. Também se excluem as sucessões. cheques ou outros títulos negociais. também. Também. por exemplo. extra-contratuais (Roma II) ou não contratuais. Só regula a lei aplicável às obrigações contratuais. as relações entre o intermediário e terceiros e as obrigações decorrentes de negociações prévias ao contrato. em relação ao estado e capacidade das pessoas singulares. Exclui-se também o direito das sociedades (constituição da sociedade. direito privado. as regras especiais. é necessário que estejam em causa situações internacionais. ou de outro tribunal. Pode ser o lugar de celebração do contrato ou a residência habitual das partes do contrato. A matéria das obrigações serão civis ou comerciais. também se exclui o direito da família porque fala de obrigações que decorrem de ralações de família ou com efeitos equiparados como o caso dos alimentos. obrigações relativas a letras. voluntariamente e livremente. mas não os contratos que estas celebrem. portanto. Não se aplica a direito público. Estas questões seriam de matéria civil mas estão excluídas do regulamento. de acordo com o artigo 13º. As obrigações que não correspondem a este tipo de compromisso não seriam contratuais mas. direito da família. Vamos distinguir as regras gerais aplicáveis à maior parte dos contratos internacionais e. São excluídas as matérias de estatuto pessoal. o que se exclui são as obrigações internas das sociedades. Também. Página 161 de 221 . O regulamento não define o que são obrigações contratuais. também.

a lei espanhola ou portuguesa. mas resultar do contrato ou das circunstâncias do caso. É possível. ou resultar de forma clara do contrato ou das circunstâncias do caso. podem acordar subordinar o contrato a uma lei diferente da que precedentemente o regulava. o contrato é regido pela lei escolhida. assim. O Roma I permite-nos isso. que nos diz que o Roma I é um regulamento de aplicação universal. deduzir uma escolha de lei aplicável (uma escolha implícita. São. As regras gerais estão no artigo 3º e 4º. vimos a aplicação universal. em qualquer momento. Na falta de escolha. O regulamento é aplicável aos contratos celebrados após 17 de Dezembro de 2009. Ora. Página 162 de 221 . o artigo 3º estabelece que ao contrato é aplicável a lei escolhida pelas partes. É muito comum que a escolha expressa conste de uma cláusula do próprio contrato. aplicamos o artigo 4º. O artigo 3º/2 permite que as partes. o artigo 3º estabelece que a escolha deve ser expressa. pelo artigo 22º do regulamento. Se é celebrado após esta data é-lhe aplicável o Roma I. fragmentar o contrato. Em primeiro lugar. Temos de ter em conta o artigo 2º. as partes podem designar a lei aplicável à totalidade do contrato ou apenas a uma parte do contrato. se não existia escolha. e agora vamos ver a aplicação no tempo. por exemplo. directamente. Também é possível. Temos aqui algumas condições que têm de ser verificadas. mas pode também determinar que seja aplicável. Já vimos o âmbito material de aplicação. da lei inglesa). permitidas modificações da lei aplicável ao contrato. podemos modificá-la. a lei da Argentina. Se temos uma escolha prévia da lei aplicável. tácita). Um exemplo possível destes casos será o do contrato que siga um modelo ou formulário de determinado estado. O problema é que temos de provar este tipo de escolha perante o tribunal. por exemplo. é muito comum no caso do Reino Unido. Se as partes escolhem. escolher a lei aplicável posteriormente. Estas regras podem determinar que seja aplicada a lei de um estado-membro. Cumprindo estas condições que vimos. assim. escolher um determinado sistema local em países em que existem vários sistemas (por exemplo. também.Por último. Regulam a maior parte das matérias. Mas. a escolha. Só este tipo concreto está excluído. Pode não haver uma escolha expressa. podemos. exclui-se também o contrato de seguro que as empresas contratam para o seu trabalhador. O importante para este regulamento é quando que o contrato é celebrado.

como esse direito comunitário pode ser um regulamento. Ora. as partes têm a sua residência habitual em Portugal. o artigo diz-nos que aplicamos as disposições comunitárias não derrogáveis por acordo serão aplicadas como no estado membro do foro. a escolha da lei espanhola é válida apesar de todos os elementos estarem em contacto com Portugal. A ideia é: como o contrato está conectado objectivamente com a UE vamos aplicar as disposições. Estes são os limites à modificação dos contratos. uma directiva transposta. não derrogáveis por acordo. nos casos em que os elementos relevantes se situem no momento num país que não seja o da lei escolhida. a escolha tem de ser uma escolha válida. que faz com que o contrato seja não interno. no momento da escolha. No artigo 3º/4. Só as que não são derrogáveis por acordo. as obrigações devem ser cumpridas em território português. mas não prejudica a aplicação das disposições da lei portuguesa. o artigo 3º/3 estabelece que. caso todos os elementos relevantes da situação se situem. com consentimento das partes. a celebração do contrato teve lugar em Portugal. todos os elementos objectivos estão conectados com Portugal. Página 163 de 221 . por exemplo a lei espanhola. Ora. num ou em vários estados membros (por exemplo. para fechar o artigo 3º. de direito comunitário. que o converte em contrato internacional. é a lei escolhida pelas partes.Temos de ter em conta que qualquer modificação ocorrida posteriormente não afecta a realidade formal do contrato nem prejudica os direitos de terceiros. estabelece-se que a escolha pelas partes de uma lei aplicável que não seja de um estado membro (px: Brasil) é possível. Remete para os artigos 10º 11º e 13º para valorar se há realmente uma escolha válida pelas partes. ou seja. Mas não são todas as disposições. Esta afirmação tem de ser analisada à luz do artigo 3º/3 e 4. em que o único elemento estranho é a escolha da lei aplicável. caso todos os outros elementos relevantes da situação se situem. no momento da escolha. Então. a escolha das partes não prejudica a aplicação das disposições da lei desse outro país aplicáveis por acordo. em princípio. conectado com Espanha. mas esta escolha não prejudica a aplicação das disposições do direito comunitário não derrogáveis por acordo. Vimos então alguns limites no âmbito da escolha da lei aplicável nestes artigos 3º/3 e 4. Podemos. num país que não seja o país da lei escolhida falaríamos de um contrato que seria interno. Por último. Por exemplo. escolher como lei aplicável uma lei que não está conectada com o nosso contrato. Como o único elemento que faz com que esta situação seja internacional é a escolha da lei aplicável. O único elemento estranho. pensemos num contrato inteiramente conectado com Portugal. Portugal e Itália).

Página 164 de 221 . temos explicadas as condições básicas do artigo 3º do regulamento Roma I.De acordo com o artigo 10º. Ora. ainda. Ora. Isto serve para o caso em que as partes se encontram no mesmo país quando celebram o contrato. se resultar das circunstâncias que não seria razoável determinar os efeitos e o comportamento nos termos da lei designada no nº1. determinada nos termos do presente regulamento. a existência e a validade substancial do contrato ou de alguma das suas disposições são reguladas pela lei que seria aplicável. por um lado. ou pela lei do país em que é celebrado. o contrato em si. do contrato. Por exemplo. se escolhemos a lei espanhola como lei aplicável. Mas num caso excepcional. Com tudo isto. ou pela lei do país em que se encontre qualquer das partes ou os seus representantes aquando da sua celebração. podemos aplicar à forma. se o contrato ou a disposição fossem válidos. Quanto à forma da escolha. estabelece-se que um contraente para demonstrar que não deu o seu acordo poderia invocar a lei do país em que tenha a sua residência habitual. É como que uma segunda oportunidade para a parte se desvincular da escolha de lei aplicável. o artigo 11º. Caso contrário. um contrato celebrado por pessoas ou pelos seus representantes que se encontrem em países diferentes aquando da sua celebração é válido quanto à forma. temos de ter em conta. também. a lei do país da residência habitual de uma dessas partes. Este estabelece que um contrato celebrado por pessoas ou pelos seus representantes que se encontrem no mesmo país aquando da sua celebração é válido quanto à forma. determinada nos termos do presente regulamento. a lei reguladora da substância. por força do presente regulamento. ou o que respeita à escolha da lei aplicável é válida na medida em que seja válida em função da lei que seria aplicável se ao contrato fosse validamente escolhida uma lei aplicável. ou pela lei do país em que qualquer das partes tenha a sua residência habitual nessa data. ou. se preencher os requisitos de forma prescritos pela lei reguladora da substância. se preencher os requisitos de forma prescritos pela lei reguladora da substância. ou podemos aplicar a lei do país em que se encontre uma das partes quando o contrato foi celebrado. Contudo. a escolha será válida se esta o determinar. em parte já falámos no artigo 3º. A lei espanhola determinaria a validade substancial desta escolha e o consentimento válido das partes.

O que veremos depois do artigo 3º será que lei é aplicável na falta de escolha pelas partes. porque em ambos os casos estamos a falar de um país com que o contrato apresenta uma conexão mais estreita. São muito parecidas mas esta última é uma regra subsidiária porque não podemos aplicar as regras anteriores. E a regra subsidiária é muito parecida com a cláusula de excepção. 4º. Compra e venda de mercadorias: art. Se o contrato que estamos a estudar é um destes oito. A Ideia do regulamento Roma I é aplicar as regras dos oito contratos em primeiro lugar e para os outros aplicar a lei do país da residência habitual. em primeiro lugar. 4º/ 3 que diz: Caso resulte claramente do conjunto das circunstâncias do caso que o contrato apresenta uma conexão manifestamente mais estreita Com um país diferente do indicado nos números 1 ou 2. lei do país onde o contraente que deve executar a prestação característica do contrato tem a sua residência habitual. 4º/1 alínea a). Nesta aula vamos ver o art. caso a lei aplicável não possa ser determinada pela aplicação do número um nem do número dois. 3º (a lei escolhida pelas partes). nestas duas situações temos uma cláusula de excepção no art. é aplicável a lei desse outro país. ou seja lei aplicável na falta de escolha. vamos aplicar a regra. ou seja. Teremos de recorrer ao artigo nº 4. Mas isto. temos oito contratos abrangidos pelo artigo 4º/1 e veremos estes oito contratos. E num terceiro nível. Vamos estudar as regras do artigo quarto. é aplicável a lei do país com o qual apresenta uma conexão mais estreita. No entanto. Aos contratos não abrangidos pelo artigo 4º/1 aplica-se o 4º/2. Página 165 de 221 . Na falta de escolha. Vejamos então estes contratos. Esta última regra é uma regra subsidiária. veremos na próxima aula teórica. Aula de Direito Internacional Privado de 30 abril 2015 Na aula teórica de terça-feira estivemos haver o âmbito de aplicação do regulamento Roma I e o art. Em primeiro lugar temos oito contratos abrangidos pelo artigo 4º/1.

Então.Se o contrato é um contrato de compra e venda de mercadorias. Então. Temos falado aqui de duas possibilidade: contrato que tem por objecto um direito real sobre um bem imóvel ou um arrendamento de um bem imóvel. nesta ordem. porque aqui é aplicável a lei do país onde o imóvel se situa (elemento territorial). num contrato de compra e venda de mercadorias. Temos estes quatro contratos agrupados. Depois estudaremos no regulamento o que é a residência habitual para o regulamento Roma I. é aplicável. Então. sempre na falta de escolha. Aqui aplica-se a lei do país em que o prestador de serviços tem a sua residência habitual. porque a regra é a mesma. Faltam os outros quatro contratos dentro deste artigo. por Página 166 de 221 . temporário. Contrato de distribuição: art. como regra geral. salvo se estamos nestes concreto caso da alínea d). Mas temos uma caso especial relativo ao tipo de arrendamento de um bem imóvel. 4º/1 alínea f). É regulado pela lei do país em que o franquiado tem a sua residência habitual. nos arrendamentos de imóvel. aplicamos a lei da residência habitual do prestador de serviços. Contrato que tem por objeto um direito real sobre bem imóvel ou arrendamento de um bem imóvel: art. na falta de escolha. Contrato de prestação de serviços: art. é aplicável a lei do país onde o vendedor tem sua residência habitual. aplicamos a lei do país onde o bem imóvel se situa. 4º/1 alíneas c) e d). Se o arrendamento cumpre as condições deste artigo. nestes contratos a regra é diferente. 4º/1 Alínea e). aplica-se a lei do país da residência habitual do prestador de serviços. na falta de escolha de lei aplicável. 4º/1 alínea b). Como regra geral. Aqui estamos a falar de contratos em que uma das partes tem de realizar uma atividade de prestação de serviços e a outra leva a cabo o pagamento por esta atividade. São duas categorias. É regulado pela Lei do país em que o distribuidor tem a sua residência habitual. Contrato de franquia: art. num contrato de prestação de serviços. Neste tipo de contratos a regra é. a lei do país em que o vendedor tem a sua residência habitual. então aplicaremos as condições desta alínea e não da anterior. Estas condições são as seguintes: o arrendamento de um bem imóvel celebrado para uso pessoal.

Apenas no caso em que a compra e venda acontece em hasta pública. na medida em que seja uma hasta pública territorialmente celebrada em determinado país. O problema é que existem mais tipos contratuais do que estas oito categorias. quem indica a parte é o regulamento. Se falta uma destas quatro condições. O contrato será regulado pela lei que regula o mercado. no arrendamento de um bem imóvel. caso seja possível determinar está localização. precisamos de cumprir quatro condições: arrendamento para uso pessoal. 4º/1 alínea h). precisamos de uma regra aplicável ao resto dos contratos. a regra geral é a lei do país onde o imóvel se situa e a excepção é o arrendamento do imóvel que preencha as quatro condições. Nas quatro primeiras. o locatário e o proprietário têm de ter a residência habitual no mesmo país. Página 167 de 221 . Contrato celebrado no âmbito de um sistema multilateral que permita o múltiplo encontro de interesses de terceiros na compra ou venda de instrumentos financeiros: art. Por isso. Como excepção seria aplicável a lei do país em que o proprietário tem a sua residência habitual. 4º/1 alínea g). Então. Vimos assim oito tipos de contratos. a regra geral é a lei do país onde o imóvel se situa. o locatário tem de ser uma pessoa singular. a regra é a aplicação da lei do país da residência habitual de uma parte. a compra e venda destes instrumentos tem lugar em mercados regulados. Para estes casos.um período máximo de seis meses consecutivos. desde que o locatário seja uma pessoa singular e tenha a sua residência habitual nesse mesmo país. Neste caso. No caso dos contratos que têm por base um direito real sobre um imóvel ou arrendamento de um imóvel. Contratos de compra e venda de mercadorias em hasta pública: art. caso contrário estaríamos na primeira regra de compra e venda de mercadorias. Está pensado para um caso muito concreto de compra ou venda de instrumentos financeiros. Para aplicar a lei do país da residência habitual do proprietário. Neste caso. arrendamento temporário por um máximo de seis meses consecutivos. até aqui temos as oito categorias contratuais. não é aplicável a lei do país onde o imóvel se situa. é aplicável a lei do país em que se realiza a compra e venda em hasta pública (elemento territorial). Por isso. então voltamos a regra geral. Então. nos arrendamentos de bens imóveis podemos encontrar conexões territoriais ou elementos relativos às partes. mas a lei do país onde o proprietário tem a sua residência habitual.

considera-se que a residência habitual corresponde ao local onde se situa a sucursal. ou que correspondam a contratos mistos. Em concreto. 4º/2. agência ou qualquer outro estabelecimento. contratos que não estão admitidos entre os oito contratos. neste caso. mas ncontratemos com um estabelecimento secundário. mas o regulamento indica que caso o contrato seja celebrado no âmbito da exploração de uma sucursal. O que é para o Roma I a residência habitual. mas uma sucursal na Espanha. Nestes casos não aplicaríamos o art. nos termos do contrato. agência ou outro estabelecimento (19º/2). seguimos para o art. Caso os contratos não forem abrangidos pelo 4º/1. Página 168 de 221 . 4º/1.Se o nosso contrato não corresponde à nenhuma destas oito categorias. ou se partes dos contratos forem abrangidos por mais de uma das alíneas a) a h). No exemplo. estes contratos são regulados pela lei do país em que o contraente que deve efectuar a prestação característica do contrato tem a sua residência habitual. Mas se o contrato é celebrado no âmbito da exploração da sucursal ou se nos termos do contrato. Esta é a regra geral. O problema para o Roma I é que quando contratamos com uma sociedade. a residência habitual é o local onde se situa a administração central (art. Começamos por definir a residência habitual. para Roma I a residência habitual seria o local onde se situa a sucursal (excepção). neste caso. Então. em virtude do contrato celebrado com a sucursal. o conceito de residência habitual será válido para todo o regulamento Roma I. o que o regulamento diz é que regra geral a residência habitual seria a administração central. Ou seja. a Alemanha. agência ou estabelecimento. No âmbito deste artigo vamos definir o que é a prestação característica e o que é a residência habitual. Este último artigo estabelece uma regra geral para o resto das categorias contratuais. ou se. pode ocorrer que não contratemos directamente com a administração central. mas sim o 4º/2. No caso das sociedades ou outras entidades sem personalidade jurídica. O regulamento distingue se estamos perante pessoas singulares ou sociedades. 19º/1). o cumprimento das obrigações é da responsabilidade dessa sucursal. consideraríamos residência habitual a Espanha. o cumprimento das obrigações dele decorrentes é da responsabilidade de tal sucursal. Imaginemos um caso em que temos a administração central de um banco na Alemanha.

Mas será o tribunal que vai determinar onde considera que está o centro de gravidade. esta é a prestação característica . o mesmo. Se estamos a falar de serviços. Pode ser uma questão do valor das prestações em questão. O que acontece nestes casos é que as partes. a ideia é determinar o centro de gravidade do contrato. do número. Num contrato em que trocamos um bem em troca de dinheiro. 19º/1). Então. a prestação característica. o momento relevante é a data da celebração do contrato (19º/3). Como determinamos nestes outros contratos a prestação característica? O que o Roma I estabelece no preâmbulo (ponto 19) é: Caso os contratos consistam num conjunto de direitos e obrigações susceptíveis de serem classificados em vários tipos especificados de contratos. O problema é que há muitos contratos que não correspondem a este esquema. Quando encontremos a parte do contrato que leva a cabo as obrigações que constituem o centro de gravidade. 4º/2 a regra que estávamos estudar é : lei do país em que o contraente que deve efectuar a prestação característica do contrato tem a sua residência habitual. Neste conceito de residência habitual. da qualidade. a prestação característica do contrato deverá ser determinada tendo em conta o seu centro de gravidade. No caso de contratos onde simplesmente temos uma troca de bens ou serviços por dinheiro. perante o tribunal. Porque se eu sou a parte do contrato considerada prestador característico. aplica-°©-se o 4º/2. qual delas leva a cabo as obrigações mais importantes. Resumindo: temos de ir ver primeiro de a nossa situação se enquadra num destes oito contratos do 4º/1. Página 169 de 221 . a prestação característica é a prestação não pecuniária. aplica-se a minha lei. Temos de examinar todas as obrigações das partes e ver das duas partes do contrato. A parte do contrato que leva a cabo a maior parte das obrigações. porque a residência habitual tanto das sociedades como das pessoas singulares pode variar com o tempo. Todos os contratos que correspondam a este tipo de esquema. No âmbito do art. Não sendo um destes oito. da quantidade das prestações. sobre essa parte incidirá o centro de gravidade do contrato. Falta definir então a prestação característica. provarão as obrigações que cada uma tem de levar a cabo. a nresidência habitual é o local onde se situa o estabelecimento principal (art. para determinar a residência habitual.No caso das pessoas singulares que estão a exercer actividades profissionais. para o regulamento Roma I a ideia é que para contratos que não correspondam a este esquema de troca de bens e serviços por dinheiro. a prestação característica é considerada a prestação não pecuniária. a prestação característica seria a entrega do bem. Mudanças posteriores não afectariam a residência habitual.

Por exemplo. podemos substituir a lei da residência habitual do vendedor pela lei do país com que o contrato apresenta conexões manifestamente mais estreitas. 4º/1 aplicaríamos a lei espanhola. Possíveis problemas: no regulamento Roma I não estão estabelecidos que elementos podemos ter em conta para conexões manifestamente mais estreitas. neste caso. não está obrigado pelas alegações das partes. caso resulte do conjunto das circunstância do caso que o contrato tem uma conexão manifestamente mais estreita com outro país do que o indicado nos números 1 ou 2. o pagamento das mercadorias. Por isso. aleguem perante o tribunal.Mas depois de todo este trabalho temos a cláusula de excepção. Para aplicar está regra. 4º/1 a lei do país da residência habitual do vendedor. é possível substituir estas regras e aplicar a lei do país com que o contrato apresenta essas conexões manifestamente mais estreitas (4º/3). Mas se aplicarmos esta cláusula de excepção. é possível que o tribunal admita activar a cláusula de excepção. tem de ser receptadas num país distinto da residência habitual do vendedor.. Muitos tribunais preferem ano aplicar a cláusula de excepção porque consideram que está prejudica a previsibilidade do regulamento Roma I. Segundo isto. por ex. porque as partes sabem que quando o contrato é um destes oito a previsibilidade é aplicável. Por isso. que desejam aplicar a cláusula de excepção e provem porque consideram que há outra lei que apresenta vínculos manifestamente mais estreitos com o contrato. Mas se a entrega das mercadorias e o pagamento tem lugar. é aplicável a lei desse outro país. as obrigações contratuais. O facto de uma das partes alegar que deve ser aplicada está excepção não garante que seja aplicada finalmente. um possível caso para activar está cláusula é o caso em que o contrato. se temos um contrato que corresponde a estes oito ou a essa segunda regra. mas as obrigações do contrato vão ser levadas a cabo em outro país. as partes não sabem a priori se o tribunal aplicará ou não a excepção. pode pensar-°©-se que as conexões mais estreitas são com Página 170 de 221 . é aplicável a lei do país da residência habitual do vendedor. Nesse caso. em primeiro lugar. Pensamos no caso da compra e venda de mercadorias. as partes devem provar porque consideram haver conexões mais estreitas. na compra de mercadorias. O tribunal é o que decide. Então. em Portugal. em ambos os casos. Pensemos na compra e venda de mercadorias que o vendedor recebe habitualmente na Espanha. porque quem decide é o tribunal. uma das conexões leva a Espanha (residência habitual do vendedor). seria aplicável o art. Se a entrega das mercadorias. é preciso que uma das partes do contrato ou as duas. Segundo o art. como regra geral. vão ser executadas num país distinto do que indica a regra geral. Na opinião da doutrina.

Por exemplo. O caso típico para chegar a esta conexão subsidiária é o caso das permutas.Portugal. que fala no caso em que uma parte do contrato faz uma oferta para contratar a uma empresa de outro país. 4º/4 : Caso a lei aplicável não possa ser determinada nem em aplicação do n. Uma das primeiras diferenças entre esta regra é a cláusula de excepção é como chegamos a solução. então vamos a cláusula subsidiária. está é uma cláusula subsidiária. como estou a dirigir-°©-me a outros mercados. aqui se chega a conexão subsidiária. Então. Esta cláusula substitui a lei que já determinamos.o 2. Segundo a doutrina. Aqui chegamos depois de encontrar uma regra no 4º/1 ou 4º/2 aplicável ao nosso contrato. faz sentido que como conexões mais estreitas sejam aplicadas as leis do mercados aos quais me dirijo. Também há uma doutrina. O que se tem aqui em conta é onde vão ser levadas a cabo as obrigações do contrato. se não posso determinar lei aplicável. Neste caso do 4º/4. não estando nos 8 contratos e não encontrando a prestação característica. Na cláusula de excepção os passos a seguir foram: 4º/1 ou 4º/2 e depois será corrigido com a cláusula de excepção. ou seja. Por fim. lei do país com o qual o contrato apresenta uma conexão mais estreita. vamos ver o art. Aula 05 Maio Página 171 de 221 . Este caso esta pensado para um contrato que não é dos oito previstos no 4º/1 e tão pouco podemos aplicar a regra do 4º/2 porque é um contrato onde não existe prestação característica. Então não encontramos prestação característica ou poderíamos dizer que ambas são as prestações características. Nestes contratos em que trocamos bens por bens. o contrato é regulado pela lei do país com o qual apresenta uma conexão mais estreita. se eu lanço ofertas ao mercado português a doutrina considera que eu. A doutrina considera que este seria outro caso de conexões mais estreitas. Eu como sociedade espanhola quero chegar ao mercado português. Então. uma sociedade espanhola quer contratar com sociedades de Portugal.o 1 nem do n. No 4º/2 tínhamos de encontrar a prestação característica do contrato e o problema é que numa permuta os bens trocados são por norma bens da mesma qualidade e quantidade. O tribunal valora os dados do caso e determina qual o país com vínculos mais estreitos com o contrato e está é a lei que resulta aplicável. Não é dos oito contratos do 4º/1. não há pagamento em dinheiro. em relação às conexões mais estreitas.

Estes dois exemplos permitem ver qual é que é a prestação que permite dizer Se estamos perante a compra venda estamos perante prestação de serviços. Percebido? Depois ainda apenas um aspecto que eu queria salientar o artigo 3º e 4º vêm nos dizer qual é que é lei se aplica a substância do contrato. Como é que nós determinamos qual é que é a prestação característica de um contrato. O prestador tem a obrigação de prestar de serviço E o comprador de pagar o preço. é a lei que regula a constituição adida de extinção da pessoa coletiva e aqui poderíamos encontrar três principais soluções em abstrato. Contrato prestação de serviço. no caso do mutuo bancário. mas também se aplica para determinar da própria validade formal do contrato.Na última aula apercebi-me que ficaram algumas dúvidas relativamente à prestação característica No âmbito ainda do regulamento Roma I. A forma do contrato. Nós vamos ter que ver qual é que a prestação que nos permite dizer que Estamos perante um tipo real de contrato. mas é sempre mutuante quem empresta dinheiro ao mutuário. ou Prestação do serviço propriamente dito. a prestação feita pelo mutuando. outra prestação num caso como no outro é pagar o preço pagar o valor. Por exemplo contrato de compra e venda. a prestação que caracteriza um contrato. na determinação da Página 172 de 221 . temos vendedor que tem obrigação de entregar a coisa E o devedor tem obrigação de pagar o preço. ter de devolver o dinheiro eventualmente com o pagamento de juros. Portanto tu a explicação que professora Célia fez do artigo 11º é válido como não podia deixar de ser. Se estivermos por exemplo perante um contrato de mútuo temos dinheiro de um lado e de outro. a prestação de entrega da coisa. No que respeita à validade formal do contrato. esta é a prestação característica. mas perante estas duas prestações qual delas é que nos permite dizer que estamos perante um contrato de mútuo. nós vamos aplicar É um artigo 11º do RomaI que também foi referido explicado pela professora Célia. esse até nem suscita grandes problemas visto que está previsto No artigo 4º nº 1 alínea A) mas por exemplo No contrato compra venda o que é que nós temos. Se nós quisermos saber se o contrato é formalmente válido vamos aplicar o artigo 11º por acaso até admite como uma das possíveis leis aplicáveis a lei que se aplica à substância também se aplica à forma do contrato embora aí encontremos conexões alternativas tendo subjacente também o favor negoti. Vamos agora tratar da lei pessoal das pessoas colectivas e esta lei. Estação característica é aquela que nos permite dizer Se estamos perante um determinado tipo contratual. depois temos um mutuário fazer o quê.

temos então um problema. Segundo: a aplicação da lei da sede estatutária ao aplicar esta lei aplica-se a lei que está indicada nos estatutos ou nos pactos sociais. porque depois de constituída. reunir por exemplo uma vez por nas bahamas não é suficiente. Aqui esta solução facilita um pouco a fraude à lei e por isso terá também ser uma solução criticável. imaginemos que temos uma sociedade constituída em Espanha mas que depois muda para outro sítio qualquer atua noutro país. porque muitas das vezes tem a noção de onde é que essas sociedades desenvolvem a atividade. Esta solução tem a vantagem de ser facilmente identificável e de ser publica. Por exemplo. qual é a lei que se aplica para determinar as regras relativas à própria Constituição da sociedade nesse caso poderá ter de se aplicar a lei do local onde sociedade está a ser Página 173 de 221 . Terceiro: corresponde na aplicação da lei do país da sede real. Agora menos há uns tempos envio muitas empresas com sede estatutária na Madeira. e portanto sabese qual é esta lei.lei pessoal das pessoas colectivas. Esta solução tem subjacente a autonomia da vontade e é a que favorece mais os fundadores da pessoa coletiva. tem sede estatutária noutro país. a sede real efetiva tem sido definida com recurso a fatores que são reconhecíveis externamente. esta teoria pode apresentar de facto esta fragilidade. e acaba por não apresentar uma ligação efetiva com a lei do país onde se constituiu. da sede estatutária. esta aplica-se à Pessoa colectiva a lei com a qual esta se constituiu e organizou. além do mais só existe sociedade quando esta passa a ter sede efetiva quando passa a desenvolver sua atividade. por isso aplica-se a Lei onde a sociedade se constituiu. Esta sede real consiste no lugar das decisões fundamentais da direção que se traduzem em atos de gestão corrente. esta teoria pode no entanto apresentar fragilidades. porque em princípio todas as pessoas tem acesso aos estatutos das sociedades. Esta solução é favorável aos interessados que contratam com sociedades comerciais. e esta na verdade é a solução que está consagrada no direito português. eu duvido que todas elas desenvolvessem atividade na Madeira. entre as quais se incluem as sociedades comerciais. não basta saber onde é que é a administração se reúne para tomar as decisões. o que interessa é onde é que as decisões da direcção são depois traduzidos em atos de gestão corrente. Quais são então estas três principais teorias: Primeiro: teoria da incorporação. Crítica feita a esta tese é que a sede estatutária pode não corresponder à sede real. no entanto tem também desvantagem de aqui as pessoas que contactem com a sociedade nem sempre têm noção onde é que se desenvolvem esses atos de gestão corrente.

enquanto ela estiver a ser constituída aplica se a lei do lugar onde estiver a ser constituída. Dizia. Conforme eu disse esta solução tem esta fragilidade de de facto não perceber qual é a lei que se aplica quando ele começa a desenvolver sua atividade. Mas depois temos regras especiais. nada de olhar para o artigo 33º do Código Civil. depois de constituída eventualmente a da sede estatutária. Muita atenção quando se pergunta como é que nós determinamos a lei pessoal de uma sociedade comercial. o artigo 3º nº1 do Código das sociedades Comerciais manda aplicar a lei da sede principal e efetiva da administração no entanto esta regra do artigo 3º nº1 do Código das sociedades Comerciais não é igual a do artigo 33ºnº1 do Código Civil. desde logo no que respeita ás sociedades comerciais temos então a regra que está prevista no artigo 3º nº1 do código das sociedades Comerciais que manda também aplicar a lei da sede principal do local da sede efetiva da administração. Porque porque o artigo 3º nº1 do CSC tem uma segunda parte que o 33º não tem.constituída. Mas depois de determinado onde é que ela desenvolve a sua atividade aplica-se a lei desse país onde está a desenvolver a sua atividade. vamos olhar para o artigo 3º do Código das sociedades Comerciais. esta é de facto uma das possíveis soluções atende-se portanto a um outro elemento de conexão. Indico o artigo 3º nº1 Segundo período em que a regra é a aplicação da lei do país onde a sociedade tenha sede efectiva. Portanto se nós tivermos na sociedade comercial que tem sede principal e efetiva no país X mas que tem sede estatutária em Portugal diz no artigo 3º nº1 Página 174 de 221 . É Esta a regra geral no que respeita as pessoas colectivas. a Regra geral que determina que é pessoa colectiva tenho como lei pessoal a lei do estado onde se encontra situada sua sede principal efetiva da sua administração está então aqui consagrada a teoria de aplicação da lei do país da sede real. todavia a sociedade que tenha sede em Portugal. não pode Contudo opôr a terceiros a sua sujeição a Lei diferente da lei portuguesa. Quais são as soluções consagradas no Direito Internacional privado nas normas de conflitos possíveis? Temos então desde logo no artigo 33º do Código Civil. porque é regra especial e portanto é essa disposição que temos de aplicar.

porque a ideia que está subjacente a este artigo terceiro número um segunda parte do código das sociedades comerciais é a tutela da confiança. porque desde logo se estivermos a contactar com uma sociedade quisermos saber qual é sua lei pessoal. ela limita a sua aplicação. E portanto apenas quis que fosse eventualmente aplicada a lei da sede estatutária Se a sede estatutária se localizasse em Portugal e não num noutro país. A sede estatutária é desde logo aquela a que todas as pessoas podem aceder. todavia não pode ser oposta à lei da sede estatutária ponto. Qual é o princípio que está subjacente a esta sujeição: visa-se aqui tutelar a confiança em direito internacional privado. aos casos em que sede estatutária se localiza em Portugal porque é isso que diz o artigo. entende-se que existe aqui nesta disposição uma lacuna. será que não se justifica também uma Página 175 de 221 . conforme nós vimos. O legislador português podia aqui se quisesse ter feito uma bilateralização da norma ou seja podia ter dito pura e simplesmente qualquer coisa como.do CSC esta sociedade não pode opôr terceiros sua sujeição a lei diferente que a portuguesa que é sede estatutária. seria defraudada seria sociedade pudesse opor a terceiros a sua sujeição à lei do país onde tem a sua sede efetiva. que elementos é que sem qualquer margem para dúvidas temos de aceder. quer ficasse em Portugal quer ficasse noutro Estado mas o legislador não o fez e a verdade é que existe uma divergência na doutrina relativamente à interpretação desta disposição. pode criar expectativas nas partes com quem se relaciona no sentido em que a sua lei pessoal é a lei da sede estatutária. No entanto esta tutela da confiança de acordo com a letra da lei não é levada até às últimas consequências porque de acordo com esta disposição. Segundo outros autores nos quais se encontram professor Lima Pinheiro e o professor Dário Moura Vicente. é a sede estatutária. Segundo alguns autores. porque é aquela que sem qualquer margem para dúvidas pessoas conhecem. temos de aceder desde logo aquilo que constata do registo comercial e o que consta do registo comercial. E na verdade é que esta expectativa na aplicação da sede estatutária. se calhar as pessoas podem nem saber onde é que fica porque podem não ter noção onde é que são tomados os actos de gestão corrente. mas será que se justifica apenas tutelar a confiança de terceiros quando a sede estatutária se localiza em Portugal. Isto porque uma sociedade que tem sede estatutária neste caso em Portugal que é que a regra determina. o exemplo do professor Marques dos Santos entendia que se o legislador não bilateralizou esta norma foi porque não quis. a aplicação da lei da sede estatutária. nos casos em que sede estatutária está situada em Portugal.

porque o princípio da tutela da confiança de terceiros é um princípio que está subjacente ao direito internacional privado. ora em que casos é que existem razões para tutelar da confiança de terceiros. e depois perguntaria. no caso em que os parceiros não sabiam qual é que era lei da sede principal efetiva. e é de facto só nestes casos que se poderá justificar que então em vez de aplicar lei da sede principal e efetiva aplicar a lei da sede estatutária. aplica-se por regra a lei da sede principal e efetiva só se aplica a a lei da sede estatutária para proteger a tutela da confiança de terceiros que esteja em causa. neste sentido dir-se-á mesmo que a sede estatutária se encontre num outro estado que não Portugal. Agora quais são as questões que são reguladas pela lei pessoal das pessoas colectivas no geral e das sociedades comerciais em especial. Teríamos de ver se se justifica uma tutela da confiança ou se basta a aplicação da lei da sede efetiva. Daí que segundo esta outra orientação doutrinária temos aqui uma lacuna.tutela da confiança de terceiros quando a sede estatutária se localiza noutro país que não Portugal? E a verdade é que de facto não se encontra justificação para não haver também esta tutela da confiança. isto dá me jeito ou será que me dá mais jeito a aplicara a lei da sede estatutária aí teríamos uma conexão optativa. Vamos agora voltar um pouco atrás vamos voltar ao princípio. é o princípio da tutela dos terceiros que contactam com a sociedade comercial. A sede estatutária primeiro porque é aquela que está prevista na lei e depois porque é aquela que as pessoas têm sempre a possibilidade de conhecer porque consta do registo que é público. Então neste caso é feita uma bilateralização da norma da parte final do artigo terceiro número um do Código das sociedades Comerciais. Tendo o nós aqui esta lacuna vamos ter de integra-la. onde se lê Portugal passa a ler-se qualquer estado onde esteja situada a sede estatutária. e se esses terceiro não conhecessem a sede principal e efectiva e apenas conhecessem a sede estatutária. no caso aplicando analogicamente. é que interpretado doutra maneira poderíamos ter uma conexão optativa e os terceiros. Só nesses casos é que justifica efetivamente tutelar a confiança de terceiros. o artigo 33º do Página 176 de 221 . recorrendo em regras que já existem. portanto é feita a bilateralização da norma. Isto para dizer que aquilo que temos o artigo 3º nº1 do código das sociedades comerciais não é uma conexão optativa. O princípio que está subjacente. aqueles que contactassem como sociedade tanto podiam olhando para o artigo 3º nº1 do CSC dizer é aplicada a lei da sede principal efetiva. Aqui não temos uma conexão optativa. não poderá ser oposto a terceiros outra lei que não a leio da sede estatutária.

é aplicado o regulamento Roma I. âmbito da lei pessoal art 33º nº2 para todas as pessoas colectivas sejam ou não sociedades comerciais. uma vez mais vamos encontrar regras distintas quando falemos de pessoas colectivas ou sociedades comerciais no caso das pessoas colectivas temos o artº33 nº3 a dizer que a transferência de um estado para o outro da sede das pessoas colectivas não extingue a personalidade jurídica desta se nisto convierem as leis de uma e outra sede. Para regular o contrato já é outra história. na parte inicial diz: “que à lei pessoal compete especialmente”. qual? a lei da sede efectiva da sociedade. Mas no art 3 não temos nenhuma disposição semelhante à do artigo 33º nº2 então neste caso vamos ter de recorrer ao nº2 do artigo 33 do CC. Depois podemos ter problemas que se prendem com a transferência internacional da sede ou com a fusão internacional. a lei de onde sai a pessoas colectivas e a lei que a acolhe aceitem que a pessoas colectivas mantenha a sua personalidade jurídica.CC. se nó quisermos saber se uma determinada sociedade comercial tem ou não te capacidade para celebrar um determinado negócio jurídico vamos aplicar a lei pessoal. a transformação. tudo o que respeite à sociedade é aplicada a sua lei pessoal. Esta é a regra que temos no 33º nº2 do CC. Página 177 de 221 . o artigo3º do CSC tem umas regras um pouco especiais a este respeito vem dizer nos termos do artigo 3º nº2 “que a sociedade que transfira a sua sede efectiva para Portugal mantém a personalidade jurídica se a lei pela qual se regia nisto convier. o nº2 diz: “ à lei pessoal compete especialmente regular a capacidade da pessoa coletiva a constituição o funcionamento a competência dos seus órgãos Os montes de aquisição e de perda da capacidade de associado dos respetivos direitos e deveres. dissolução e extinção da pessoa coletiva” todas estas as matérias são tratadas pela lei pessoal das pessoas colectivas. para o contrato propriamente dito. mas deve conformar com a lei portuguesa o respectivo contrato social”. notem que esta disposição no artigo. a responsabilidade da pessoa coletiva bem como a dos respetivos órgãos e membros perante terceiros. este elenco é meramente indicativo não é taxativo. aplica se às pessoas colectivas. Quando queremos determinar lei pessoal de pessoas colectivas no geral artigo 33º nº1 quando queremos saber a lei pessoal de sociedades comerciais artigo 3º nº1 do CSC. às sociedades comerciais temos o artigo 3º do CSC. ou seja vamos encontrar aqui uma conexão cumulativa porque se exige que as duas leis.

Por outro lado nos termos do nº4 prevê-se aqui que “a sociedade que tenha sede efectiva em Portugal pode transferi-la para outro país mantendo a sua personalidade jurídica se a lei desse país nisso convier” aqui já é uma sociedade que sai de Portugal para outro país. que permitiu que ela fosse uma pessoa colectiva assim o admitir. não podendo em caso algum ser tomada por menos de 75% dos votos correspondentes ao capital social” e depois também existem aqui umas regras relativamente à integração. portanto vamos encontrar aqui regras especificas no que respeita a esta transferência. que determina que a fusão de entidades com lei pessoal diferente é apreciada em face de ambas as leis Página 178 de 221 . e é isso justamente que resulta aqui do artigo 3º nº3 do CSC que diz: “ A sociedade que transfira a sua sede efectiva para Portugal mantém a personalidade jurídica se alei pela qual se reger (portanto eventualmente onde ela se constituiu. podemos dizer que quem dá a vida a cada um de nós foram os nossos pais nas pessoas colectivas tem de ser a própria ordem jurídica a lhes dar vida e é por isso que apenas se aceita que uma determinada pessoa colectiva mantenha a sua personalidade jurídica quando ela passa para um outro país.Portanto aqui Portugal à partida aceita desde que a lei do país de origem da sociedade comercial diga que pode manter a personalidade jurídica. se o ordenamento jurídico que lhe deu vida. nós também aceitamos que ela mantenha. este ponto é importante porque as pessoas colectivas incluindo as sociedades comerciais não tem exactamente uma realidade ontológica. Depois no que respeita à fusão comercial das pessoas internacional colectivas temos o artigo 33º nº4 do CC. O nº5 do artigo 3º vem aqui dizer que: “ a deliberação de transferência da sede prevista no nº anterior (ou seja da sede que está em Portugal e pretende transferir-se para um outro país) deve de obedecer aos requisitos para as alterações do contrato de sociedade. se o país aceitar. neste caso vamos ter de perguntar se o país para onde a sociedade é transferida também aceita que a sociedade mantenha a personalidade jurídica. ou seja quando falamos em pessoas colectivas estamos a falar de realidades jurídicas. nós já vamos ver de facto se estas transferências podem ter estas exigências acrescidas. quando falamos em pessoas singulares a história é outra as pessoas quer queiramos quer não ontologicamente existem. as pessoas colectivas só existem se juridicamente existirem. nós também aceitamos e a sociedade pode então manter a sua vida. que lhe era aplicável) nisso convier mas depois deve de conformar com a lei portuguesa o respectivo contrato social”.

nesta altura as autoridade dinamarquesas pediram que ela se registasse também na Dinamarca. a do país onde estiver a sede principal”. portanto aqui basicamente aplica-se a lei que tiver sido escolhida no âmbito da convenção que criou essa mesma pessoa colectiva. O professor Nuno quando falou da fraude à lei falou aqui de um acórdão interessante que era o acórdão Centrus. Na prática esta sociedade acabava por ser aplicada a lei Inglesa.pessoais portanto se nós tivermos duas pessoas colectivas que tem leis pessoais diferente só poderão ser fundidas de acordo com as suas realidades jurídicas e se ambas as leis nisso convieram. nós já sabemos que o direito Europeu e em especial o exercício das liberdades Europeias tem influenciado muito o direito internacional privado e continua também aqui a influenciar. de acordo com este artigo: “a lei pessoal destas pessoas é designada na convenção que as criou onde nos respectivos estatutos e na falta de designação. porque esta sociedade tinha sido constituída em Londres porque os custos da constituição eram muito menores. estamos a falar de pessoas cuja a criação depende de um acto de direito internacional. e depois pretendiam desenvolver a sua actividade em qualquer estado membro da UE porque a liberdade de circulação. Depois ainda temos uma regra nos artigo 34º do CC. portanto tudo isto são exemplos de pessoas colectivas internacionaiss que não se confundem com as pessoas colectivas que estão previstas no artigo 33º. Depois há ainda a questão do impacto do Direito Europeu. estas pessoas aqui . a liberdade de estabelecimento assim o permite. como é o caso da ONU da União Europeia eventualmente da FIFA também. e a verdade é que de acordo com o Tribunal de Justiça da UE veio aqui considerar-se que a constituição e fixação da sede de uma sociedade comercial em sede de estado membro da UE com o intuito de aplicar a lei de outro estado membro com o qual a sociedade apresente as suas conexões fundamentais não é susceptível de ser qualificada como fraude à lei em direito internacional privado desde que esses actos se fundem no exercício das liberdades de estabelecimento. portanto o principio que está subjacente aqui é que uma sociedade pode constituir em qualquer estado membro da UE e depois pode desenvolver a sua actividade em qualquer outro estado membro também da UE. portanto temos aqui uma conexão cumulativa. Nesse acórdão tínhamos em causa uma sociedade que tinha sido constituída em Londres mas as pessoas que a tinham constituído eram Dinamarquesas e quiseram que a sociedade desenvolvesse a sua actuação na Dinamarca. que é uma regra aplicável às pessoas colectivas internacionais. sem que seja obrigada a Página 179 de 221 . porque em primeiro lugar entenderam que havia fraude à lei.

vamos encontrar aqui uma limitação importante à aplicação da lei da sede principal efectiva. do processo C-167/2001 neste caso também se tratava de uma sociedade que tinha sido constituída no reino unido de acordo com o direito inglês. porque na verdade é isso que se admite. de outro modo os estados membros da UE podiam restringir o exercício das liberdades Europeias mediante a invocação da necessidade de reprimirem uma alegada fraude à lei sempre que os particulares tirassem partido das diferenças que existem entre essas leis. que poderá não ser necessariamente aplicável a lei onde a sociedade foi constituída e de facto ser lhe aplicada mesmo a lei da sede efectiva nos casos por exemplo em que as sociedades actuem de forma fraudulenta visando designadamente fugir ao pagamento dos seus credores. Sede principal e efectiva acaba por ver a sua aplicação condicionada. capital mínimo. o que enfim já se sabe não era nada que agradasse a esta sociedade.constituir-se à luz da lei desse estado onde efectivamente desenvolve a sua actividade. actualmente já não. Há ainda um ponto importante. apesar de tudo. não a sociedade está constituída ela pode actuar a a partir da Dinamarca. a consequência era que não se permitia aos particulares irem à procura da lei que lhes garantisse mais vantagens. é que no âmbito da UE tenta-se na medida do possível uniformizar as várias leis materiais de modo a que não existam grandes discrepâncias em vigor nos vários estados membros. uma vez mais não é por acaso. mas o seu único administrador tinha domicilio na Holanda onde a sociedade exercia toda a suas actividade centrada na venda de objectos de arte. acabou também por ser confirmada por outros acórdãos do Tribunal de Justiça da UE para lá do acórdão Centrus há outros também famosos. o próprio acórdão Centrus ressalva esta hipótese. como a Dinamarca viu a aplicação da sua lei condicionada. agora é 1 euro. por exemplo: Acórdão Inspireart lda. vemos então a concorrência entre estado membros a ser muito estimulada. mas há. e então aqui visa-se tentar estimular a concorrência entre as leis dos estados membros da UE de modo a que cada estado membro acabe por adaptar a sua lei. Basicamente aquilo que se entende. também resulta do acórdão Centrus. esta decisão jurisprudencial. o tribunal de Amsterdão entendeu neste caso tratar-se de uma sociedade formalmente estrangeira e estava por isso sujeita a certas obrigações previstas na lei Holandesa relativa a matricula.” Na verdade esta solução compreende-se que assim seja. Por exemplo há uns anos atrás era necessário um capital mínimo de 5 mil euros para se constituir. dizendo “não. publicações sociais. e o que o Tribunal de Justiça da Ue vem entender neste caso é que a aplicação das regras holandesas à Página 180 de 221 . de modo a conseguir atrair mais sociedades comerciais.

ou seja o tratado na prática opunha-se à aplicação da lei da sede principal efectiva que era na Holanda. é o acórdão (não entendi nome do acórdão) do processo C-208/2000 neste caso havia uma sociedade que tinha sido constituída na Holanda em conformidade com o direito Holandês e tinha sede social na Holanda. entretanto as quotas participativas desta sociedade tinham sido integralmente adquiridas por dois cidadãos alemães e tinha sido a sede transferida para Dusseldorf a sede efectiva desta sociedade. que não tinha nada que se reconstituir a sociedade porque uma tal exigência seria contrária ao exercício da liberdade de estabelecimento e em consequência esta sociedade acabou por ter de ser reconhecida na alemanha. Entretanto esta sociedade demandou outra sociedade com sede na alemanha e o tribunal alemão julgou esta acção inadmissível com fundamento em que a “nossa” sociedade apenas poderia estar em juízo se se reconstituísse na alemanha. Que relevância tem tudo isto quando por exemplo olhamos para o artigo 3º do CSC? isto significa que sempre que uma sociedade se tiver constituído à luz da lei de um determinado estado e se ela quiser transferir-se para Portugal em principio de facto vai puder actuar a partir de Portugal sem que lhe seja exigido que ela se reconstitua em Portugal. Portanto todas as exigências que estão previstas no artigo3 º do CSC vão ter de ser apreciadas nos casos em que se trate de uma sociedade proveniente de um estado membro e que vá para outro estado membro. se se tratar de um sociedade que tem sede no Brasil e se quer transferir para o Portugal ou tem sede em Portugal e se quer transferir para Marrocos. mas as exigências que podem ser feitas por Portugal no caso nunca podem ser tais que ponham em causa o exercício das liberdades Europeias. está se mesmo a ver o que o Tribunal de Justiça da UE veio dizer. mas não se pôde aplicar a lei Holandesa porque neste caso se entendeu que contrariava a liberdade de estabelecimento. Eu não queria todavia deixar também agora de fazer referência a um outro acórdão que é o acórdão Cartesio. é óbvio que esta questão só se coloca quando estamos a falar do espaço Europeu. Um outro acórdão relevante nesta matéria. já não há essas dificuldades. tínhamos uma sociedade que estava constituída na Hungria e que desenvolvia Página 181 de 221 . daí que todas estas regras tem de ser sempre interpretadas de acordo com os principio da UE que estão consagrados nos tratados. e por isso o tratado opunha-se à aplicação da lei Holandesa.sociedade implicavam um entrave à liberdade de estabelecimento garantido pelo tratado. É claro que existem algumas exigências que poderão ser feitas. que é mais recente de 2008 do processo C-210/06 neste acórdão o que estava em causa era uma situação diferente.

os artigos 43º c) e e) e os artigos 48º devem de ser interpretados no sentido em que não se opõem a uma regulamentação de um estado membro que impede que uma sociedade constituída ao abrigo do direito nacional desse estado transfira a respectiva sede para outro estado conservando ao mesmo tempo a sua qualidade de sociedade de direito nacional de estado membro em conformidade com a qual foi constituída. Este acórdão há quem se refira a ele como sendo já um travão à orientação anteriormente seguida nos outros acórdãos. porque reparem aqui não está a ser posta em causa a liberdade de circulação ou a liberdade de estabelecimento. Ele não tem oposição a que a sociedade transfira a sua sede e passe a actua em Itália. mas manter a personalidade jurídica também na Hungria. Aqui a UE entendeu que não havia problema porque não estava a ser posto em causa o exercício da liberdade de circulação ou de estabelecimento. mantinha ou não a personalidade jurídica na Hungria. Teórica de 07/05/2015 Hoje vamos tratar das questões que se prendem com relações de família e análogas. embora sendo esta situação um pouco especial porque reparem que a ideia é sempre a mesma. ou seja queria manter a personalidade jurídica nos dois estados. se foi a Hungria que entendeu que aquela era uma sociedade comercial que admitiu que ela tivesse personalidade jurídica é também ao tribunal húngaro que cabe dizer se ela deve ou não manter a personalidade na Hungria uma vez transferida para outro país. a única coisa a que se opõe é que mantenha personalidade jurídica em ambos países. Eu recomendo que o obtenham.a sua actividade também na Hungria e esta sociedade quis transferir-se para Itália. Aqui o Tribunal de Justiça da UE decidiu no sentido: “ no estado actual do direito comunitário. Página 182 de 221 . isto é o que resulta deste acórdão. assim como os outros que foram referidos e há um artigo do professor Dário Moura Vicente a este respeito que está no livro de temas dele. a única coisa que o direito húngaro se opõem é a que mantenha a personalidade jurídica em Itália e na Hungria.” Ou seja neste caso o Tribunal de Justiça da UE veio dizer que a Hungria tinha plena liberdade para determinar se de facto a sociedade uma vez transferida. Quando a Hungria diz que o direito Húngaro não se opõem a que a sociedade mantenha a personalidade jurídica em Itália. e pretendia transferir-se para Itália.

Começando pela promessa de casamento ou contratos de esponsais. deste regime não resulta um direito de crédito a exigir a celebração do casamento. Temos ainda um elemento adicional que se prende com o facto de haver novas realidades familiares. este incumprimento só pode relevar nos termos da responsabilidade extra-contratual. Existem alguns sistemas como. é muito fácil que pessoas de diferentes nacionalidades. e portanto. além dos casamentos existem uniões de facto. o que nos coloca vários problemas de qualificação. por exemplo. Do CC. por exemplo. em que a promessa de casamento tem uma natureza de contrato e está regulada pelo direito da família e no direito alemão. algumas registadas. que se aplica em matéria de divórcios. os pagamentos que se tenham já avançado do copo de água e coisas do género. casarem ou juntarem-se. a promessa de casamento está regulada nos artigos 1591º e ss. o alemão. mas vamos encontrar uma regra que determina que aquele que romper a promessa de casamento sem ter fundamento justificado. como é o caso do francês. Esta realidade (contratos de esponsais) tem significados diferentes nos diversos ordenamentos jurídicos. no fundo. o incumprimento do contrato de esponsais dá lugar á obrigação de indemnizar a outra parte.Vamos então tratar do conflito de leis em matéria de relações de família. irem viver para outros países é também muito fácil de haver progenitores de nacionalidades diferentes. Para tornar tudo isto ainda mais interessante. sendo que esta é uma matéria de enorme importância por duas razões principais: 1. 2. temos já em vigor o regulamento Roma III que é o Reg. portanto. a multiplicidade das próprias realidades jurídicas é grande. poderá ter de indemnizar a outra parte ou outras partes dos danos que eventualmente tenha causado. Atendendo à crescente mobilidade. Noutros sistemas. e por isso. outras não. residência habitual num terceiro Estado.. ele não está tipicamente previsto. se se vier a verificar o incumprimento do contrato de esponsais. Como é que nós vamos resolver o problema de uma situação que esteja em contacto com mais do que um ordenamento jurídico? Página 183 de 221 . No direito português. temos uma possibilidade muito grande de situações de DIPrivado. não existe uma regulamentação específica para o contrato de esponsais. Não há apenas casamento. o direito francês. aqui.

o caso de os nubentes terem nacionalidades diferentes e residirem habitualmente no mesmo país. Já agora. o Reg. como é o caso do direito francês. existe o dever de indemnizar. Página 184 de 221 . essas normas que regulam o contrato de esponsais.No nosso DIPrivado não vamos encontrar uma regra de conflitos que trate especificamente do contrato de esponsais.52º CC. assim. teríamos de aplicar o art. Vamos passar à questão de saber. nessas hipóteses.45º do CC. (o direito material francês acaba por regular esta questão no âmbito da responsabilidade extra-contratual. convém salientar que neste caso não vai ter aplicação o Reg. Agora. como é o caso do alemão ou do nosso direito. E por isso.25º do CC. qual é a regra de conflitos que se aplica quando queremos determinar a lei aplicável para a capacidade e demais condições de validade intrínseca do casamento. no caso dos nubentes terem nacionalidades diferentes. resultando de uma aplicação analógica do art. tais normas materiais serão reconduzíveis à norma de conflitos que regula a responsabilidade extra-contratual. Se os nubentes tiverem nacionalidade diferentes. aplica-se a lei da nacionalidade. mas este dever é enquadrado no âmbito da responsabilidade extra-contratual) então. entendendo que se houver incumprimento injustificado do contrato de esponsais e havendo dano. serão subsumíveis na categoria de relações de família que está prevista no art. e aqui vamos ter de fazer uma distinção: Se nós estivermos perante legislações que consagrem o contrato de esponsais como uma situação de família. em princípio. pois. a promessa de casamento só será válida se ela for admissível à luz das duas leis da nacionalidade que estão em causa. também se poderá admitir a aplicação da lei da residência habitual. Capacidade matrimonial dos nubentes e condições de validade intrínseca do casamento. se a lei material potencialmente aplicável não reconhecer a existência do contrato de esponsais. não se aplica às relações de família. se os nubentes tiverem a mesma nacionalidade. então. Admite-se também. nesse caso. Roma II. será a lei da nacionalidade comum dos nubentes que irá regular o contrato de esponsais..

Nesta matéria vamos ter de distinguir, por um lado, a lei que regula a
capacidade e demais condições de validade intrínsecas do casamento, e a
estas questões vamos aplicar o art.49º do CC., e por outro lado, temos a lei
que regula a forma do casamento, e à forma do casamento vamos aplicar o art.
50º e 51º do CC..

Nos termos do art.49º do CC., determina-se que:
A capacidade para contrair casamento ou celebrar a convenção antenupcial
é regulada, em relação a cada nubente, pela respectiva lei pessoal, à qual
compete ainda definir o regime da falta e dos vícios da vontade dos
contraentes.
Aqui, a palavra “capacidade para contrair casamento”, tem um significado
amplo, porque tem um significado de ausência de impedimentos, portanto,
quando aqui se fala em capacidade não estamos só a falar na questão da
idade, está-se a falar em todas as condições que têm de estar verificadas para
a pessoa de poder casar.
E por isso é que, em princípio, a lei pessoal (lei da nacionalidade) é que
regula esses impedimentos e vai também regular a validade intrínseca do
casamento, porque a validade intrínseca do casamento prende-se pela
existência ou inexistência desses impedimentos.
Portanto, é o art.49º que resolve esta questão, determinando a aplicação
da lei pessoal, que em princípio será a lei da nacionalidade, nos termos do art.
31º nº1.
E vamos ter de verificar a capacidade para cada um dos nubentes se casar.
Por exemplo, se uma pessoa mexicana se quiser casar com uma pessoa
argentina, vamos ter de ver qual é que é a lei que se aplica à capacidade para
casar, da pessoa mexicana e qual é que é a lei que se aplica á capacidade
para casar, da pessoa argentina. A uma poderá aplicar-se a lei material
mexicana, a outra, a lei material argentina, havendo impedimentos
relativamente a alguma delas, o casamento não poderá ser celebrado.
Portanto, em princípio, aplicação da lei da nacionalidade, sem prejuízo de,
se estivermos por exemplo, perante uma situação do art.31º nº2 do CC., poderse aplicar a lei da residência habitual, pois o 31º nº2 aplica-se aos negócios de
matéria do estatuto pessoal, e o casamento é um negócio de estatuto pessoal,
logo, também poderá ser admissível o casamento que seja resolvido à luz da

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lei da residência habitual das pessoas, se estiverem preenchidos os
pressupostos de aplicação do art.31º nº2 do CC.
Algumas vezes podemos ter aqui problemas de reserva de ordem pública
internacional.
Por aplicação do art.49º, chegamos à conclusão que, para regular a
capacidade para casar, é aplicável a lei do país X. Podemos encontrar grandes
variações nos vários ordenamentos jurídicos. Encontramos, por exemplo, leis
materiais que admitem que o homem pode ter até 4 mulheres, e portanto, o
facto de ser casado com 3 não é um impedimento e obviamente estes efeitos
seriam contrários à nossa reserva de ordem pública internacional e em
consequência iriamos afastar a aplicação dessa lei.
Outros exemplos, prendem-se com a idade mínima para casar.
Existem várias leis que estabelecem idades mínimas para casar, que não
garantem uma vontade livre da parte da nubente, e neste caso, também
podemos estar perante um problema de ordem pública internacional. Mas,
conforme sabem, a reserva de ordem pública internacional é uma questão que
sempre teremos de ver no caso concreto.
No que respeita à forma do casamento
A regra geral está prevista no art.50º do CC., e aquilo que se determina é
que a forma do casamento é regulada pela lei do Estado em que o acto é
celebrado, salvo o disposto no artigo seguinte.
Isto significa que é tido como válido em Portugal, o casamento que seja
celebrado segundo a forma reconhecida no país da celebração. O que nos
interessa é: como é que o país da celebração celebra o negócio.
Reparem, pode até no país da celebração entender-se que a forma seja
puramente consensual, se assim for válido nesse país, então também será
reconhecido como tal em Portugal.
Há no entanto alguns desvios no que diz respeito ao lugar de celebração no
que diz respeito à forma:
Desde logo estão previstas no art.51º nº1 do CC., (norma bilateral
imperfeita).
O art.51º nº1 determina que:
1. O casamento de dois estrangeiros em Portugal pode ser celebrado
segundo a forma prescrita na lei nacional de qualquer dos contraentes, perante

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os respectivos agentes diplomáticos ou consulares, desde que igual
competência seja reconhecida por essa lei aos agentes diplomáticos e
consulares portugueses.
Ou seja, encontramos aqui uma condição de reciprocidade. Portugal admite
que o casamento celebrado entre estrangeiros é formalmente válido, desde
que seja celebrado perante os respectivos agentes consulares ou diplomáticos,
desde que isso também seja reconhecido perante os agentes diplomáticos e
consulares portugueses.
Portanto, situação de 2 estrangeiros a casar em Portugal.
O nº2 do art.51º trata do casamento no estrangeiro de 2 portugueses ou de
1 português e um estrangeiro.
2 - O casamento no estrangeiro de dois portugueses ou de português e
estrangeiro pode ser celebrado perante o agente diplomático ou consular do
Estado Português ou perante os ministros do culto católico.
Neste caso o casamento também será considerado válido, sendo
formalmente válido.
Depois, temos o nº3 que vem completar o nº2 dizendo:
3 - Em qualquer dos casos previstos no número anterior, o casamento deve
ser precedido do processo respectivo, organizado pela entidade competente,
excepto se for dispensado nos termos do artigo 1599
E por último, temos a situação que está prevista no nº4, que determina
4. O casamento no estrangeiro de dois portugueses ou de português e
estrangeiro, em harmonia com as leis canónicas, é havido como casamento
católico, seja qual for a forma legal da celebração do acto segundo a lei local, e
à sua transcrição servirá de base o assento do registo paroquial.
O art.51º suscita várias questões, sendo que desde logo há uma situação
que não está prevista no art.51º.
Se repararem, o 51º nº1 trata do caso de dois estrangeiros que casam em
Portugal, o 51º nº2 trata de dois portugueses ou de um português e um
estrangeiro que casam no estrangeiro, mas o art.51º não trata da situação
de dois estrangeiros que se casem no estrangeiro, e portanto, entende-se
que existe uma lacuna neste artigo.
A maioria da doutrina tem entendido que a lacuna deve de ser
integrada, no sentido de se reconhecer que o casamento também será

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formalmente válido, desde que seja celebrado perante um agente
diplomático do Estado da nacionalidade de um dos nubentes que à luz
dessa lei o casamento seja considerado celebrado.
Portanto, desta forma consegue-se integrar a lacuna.
Agora, temos aqui uma outra questão que se prende especificamente com
o art.51º nº4 que vem dizer:
4. O casamento no estrangeiro de dois portugueses ou de português e
estrangeiro, em harmonia com as leis canónicas, é havido como casamento
católico, seja qual for a forma legal da celebração do acto segundo a lei local…
Significa que, este casamento é válido em Portugal.
Os problemas que esta questão pode suscitar:
Desde logo, podemos ter aqui uma situação claudicante (duvidosa), porque
estamos a dizer O casamento no estrangeiro de dois portugueses ou de
português e estrangeiro, em harmonia com as leis canónicas, será válido,
mesmo que, no país onde o casamento é celebrado ele não seja considerado
válido.
Ou seja, o casamento pode não ser considerado válido à luz da lei do país
onde é celebrado, porque à luz da lei do país onde ele é celebrado o
casamento terá de ser sempre um casamento civil, por hipótese, mas nós
estamos a dizer que se ele for celebrado de acordo com as leis canónicas ele é
válido.
Assim, vamos ter um casamento que é considerado válido à luz da lei
portuguesa, mas considerado inválido à luz da lei do país onde ele foi
celebrado.
Por esta razão, já alguns autores têm entendido que esta disposição
deveria de ser revogada, pelo facto de não ser favorável à harmonia
internacional de julgados.
No entanto, há uma outra orientação com a qual eu me identifico, bem
como o Prof. Dário Moura Vicente, que vem dizer que também podemos ver
nesta regra, um reconhecimento em Portugal dos efeitos de casamentos que
são celebrados no estrangeiro, eventualmente, até por cidadãos portugueses,
que celebram casamento canónico no estrangeiro e que depois veriam o
casamento reconhecido em Portugal.

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estamos sempre a olhar para normas de conflitos que estão pensadas para efeitos de casamento. 50º e 51º todos do CC. e quem diz união de facto pode também falar em outras realidades familiares que reflectem a vida familiar. no que diz respeito à assistência. sendo que esta figura se consubstancia numa união registada perante uma autoridade oficial. coabitação. coloca-se um outro problema. E nós podemos aplicar estas normas de conflitos. teremos de avaliar cada caso pelo facto de que as realidades actuais são muito variadas. art. 52º que fala das relações entre os cônjuges. Quando nós olhamos para esta realidade dizemos: Página 189 de 221 . que diz respeito à constitucionalidade ou não deste nº4. de duas pessoas que têm de ser necessariamente do mesmo sexo.1587º do CC. fidelidade.. Isto no que respeita à validade substancial do casamento (capacidade para contrair casamento) e também a forma do casamento.49º. se a realidade que estiver perante nós não for a de um casamento. 51º.49º. Tem efeitos patrimoniais. os cônjuges são pessoas que estão unidas pelo casamento. desde logo no que respeita ao regime de bens. Quem estiver unido por um Le partenariat enregistré não pode celebrar outro e quem quiser terminar este Le partenariat enregistré. dai que alguns autores veem defender que esta regra não tem necessariamente de ser revogada. Depois.À parte disso. também no nosso direito material se reconhece o casamento católico que está previsto no art.. mas sim uma outra realidade? Aqui. Tem efeitos pessoais. mas esta é uma questão que vai para lá do DIPrivado. Art. Quando nós olhamos para as regras do CC. porque se fala apenas nas leis canónicas e não se fala dos outros cultos religiosos. também podemos ver aqui uma regra que tem subjacente o princípio do favor matrimonis. Mas a verdade é que a união de facto com carácter internacional. mas esta é uma questão entre a República portuguesa e a Santa Sé. mas que não são necessariamente casamento e aqui temos um problema. Por exemplo: Existe no direito material suíço que se chama Le partenariat enregistré. 50º. tem de desenvolver um processo que acaba por ser muito semelhante ao do divórcio.

iriamos aplicar o art. Uniões de facto em que as pessoas vivem juntas. A acrescer a isto. e se na altura em que morrer estiver unido de facto com outra pessoa durante um determinado período de tempo. verificamos que é reconduzível ao nosso conceito quadro do casamento. ou seja. temos desde logo de saber qual é a normas de conflitos que vamos aplicar. logo. nesse caso. nós temos nesta figura suiça aquilo que para nós é um casamento. só que é entre pessoas do mesmo sexo. que estão unidas de facto. mas a verdade é que. vamos ter de saber qual é a lei que se aplica. se existem ou não existem deveres de coabitação.52º analogicamente. se a pessoa que celebrou o contrato morrer. e queremos saber se existem ou não deveres de assistência de uma relativamente à outra. E nós aqui. não temos uma norma de conflitos que regule estas questões. Então.Isto é um Le partenariat enregistré. quando nós olhamos para o ordenamento jurídico suíço o Le partenariat enregistré tem todas as características de um casamento. É sabido que a nossa lei no que diz respeito ao arrendamento prevê que. Nestes casos. não é um casamento. nomeadamente no que diz respeito a efeitos sucessórios. podemos ainda ter casos muito específicos. mas união de facto não significam casamento e apresenta características diferentes e tem efeitos diferentes. Para saber qual é que é a lei que se aplica. em que nós estejamos perante realidades em que não podemos dizer que são verdadeiramente semelhantes ao instituto do casamento. sendo que esta união de facto está regulamentada em alguns países. quando ele Página 190 de 221 . nós não temos uma norma de conflitos que possamos reconduzir a esta situação. iremos aplicar as regras que se prendem com o casamento. Se não temos uma norma de conflitos… Vamos imaginar que temos duas pessoas de nacionalidades diferentes. como sejam as uniões de facto que não têm estas características do Le partenariat enregistré . Mas podemos ter situações diferentes. relativamente a um contrato de arrendamento. Quando nós olhamos para esta realidade. mas neste caso são aplicadas por analogia. assim. temos uma lacuna e vamos tentar integrar esta lacuna recorrendo a um caso análogo e eventualmente. Vamos imaginar um problema que se está a colocar em tribunais portugueses. aqui.

Então. Página 191 de 221 . tudo o que tenha que ver com o regime de bens ou com as convenções antenupciais. nos termos do art.c) do Reg. porque na falta de escolha de lei.morre. Salvo o disposto no artigo seguinte. é uma norma que só a vamos poder utilizar em matéria das obrigações contratuais. este contrato pode ser transferido para a pessoa com quem vivia em união de facto.Roma I. para todas estas realidades que nós podemos ter quando estamos a tratar das uniões de facto.53º. Para nós percebermos quando é que aplicamos uma e outra disposição. as relações entre os cônjuges são reguladas pela lei nacional comum. são os artigos 52º e 53º do CC. nós vamos sempre aplicar o art.52º ele começa por nos dizer: 1. no que respeita aos efeitos do casamento. Ou seja. e se nós olharmos para o art. legal ou convencional.53º. Mas neste caso estamos a falar de uma regra específica que trata do contrato de arrendamento. esta norma material portuguesa nós iremos aplica-la se o imóvel estiver situado em Portugal. que trata da transmissão do contrato de arrendamento. Ou seja.52º com excepção da matéria que está regulada no art. sendo que a matéria que está regulada no art. os contratos de arrendamento são regulados pela lei do país onde o imóvel estiver situado. Portanto.4º nº1 al. Efeitos do casamento Os casamentos produzem efeitos patrimoniais e não patrimoniais. são definidos pela lei nacional dos nubentes ao tempo da celebração do casamento. As duas normas de conflitos principais que tratam dos efeitos do casamento. atenção. Esta norma.53º são questões que se prendem com a substância A substância e efeitos das convenções antenupciais e do regime de bens. importa delimitá-las. nós vamos aplicar o art. que resultam da própria celebração do contrato de arrendamento.

Se repararem.Todas as normas materiais potencialmente aplicáveis. quer sejam questões patrimoniais.52º.52º). mas a minha opinião é a de que este nº1 já é reconduzível ao art.53º. independentemente do regime de bens que vigora entre o casal. tudo isso art. já o art. Se nós quisermos saber se uma pessoa com 70 anos. Tudo isto são matérias que cabem no art. Página 192 de 221 .53º. isto significa que se aplica sempre. serão sempre reconduzíveis ao art. 52º do CC. arrendamento ou constituição de outros direitos pessoais de gozo sobre a casa de morada da família carece sempre do consentimento de ambos os cônjuges. a todas essas regras. salvo se entre eles vigorar o regime de separação de bens: Há uma discussão à cerca deste nº1. que pressuponham a existência de um determinado regime de bens. mas já se aplica o regime material B se o regime de bens for o da comunhão de adquiridos”. oneração. (dever de assistência. está ou não está submetida a um regime de bens imperativo. logo. todas as normas que se prendem com as relações entre os cônjuges e que nada tenham que ver com o regime de bens. esta é uma norma que é reconduzível ao conceito quadro do art. vamos aplicar o art. mesmo que eles estivessem casados com o regime de separação de bens. por exemplo. Todas as regras materiais que façam distinção e que digam que se aplica um determinado regime material “regime material A. esta regra diz-nos que carece sempre do consentimento de ambos os cônjuges.1682º A nº1 diz-nos que: 1. se o regime de bens for uma separação de bens. se nós olharmos 1682º A.53º do CC. diz-nos que: 2. dever de fidelidade. dever de coabitação. quer sejam questões pessoais. nº2 do CC. Por exemplo.53º.52º. que façam alguma distinção relativamente ao regime de bens. É reconduzido ao conceito quadro do art. Como diz aqui que carece sempre do consentimento de ambos os cônjuges. A alienação. Carece do consentimento de ambos os cônjuges. Mesmo que a cada de família seja só de um. interessa é que nada tenham que ver com o regime de bens. Todas as outras matérias são abrangidas pelo art.

Que leis é que o art. são definidos pela lei nacional dos nubentes ao tempo da celebração do casamento. temos aqui uma conexão móvel. Não tendo os cônjuges a mesma nacionalidade. se a tal forem autorizados pela lei competente nos termos do artigo 52. se esta faltar também.52º e o art. A conexão é imobilizável. a lei da primeira residência conjugal. é a lei da nacionalidade ao tempo do casamento. é congelada no tempo. Aqui. nesses casos nós vamos aplicar a 2ª lei que é a lei de onde passam a viver.54º que vai admitir. é paralisável no tempo. a lei do país com o qual a vida familiar se ache mais estreitamente conexa. em situações específicas a modificação do regime de bens. nós vamos determinar qual é que é esta lei da nacionalidade comum ou a residência habitual comum.52º determina que: as relações entre os cônjuges são reguladas pela lei nacional comum. Depois. é aplicável a lei da sua residência habitual comum e. é aplicável a lei da sua residência habitual comum à data do casamento e. temos ainda aqui uma regra no art.º Divórcio Página 193 de 221 . na falta desta. 2. Isto no que respeita às relações entre os cônjuges. No que respeita ao regime de bens. se as pessoas tiverem nacionalidades diferentes e saírem de um país e começarem a residir noutro. este elemento de conexão está congelado.53º mandam aplicar? O art. ao tempo em que o problema se coloca. A substância e efeitos das convenções antenupciais e do regime de bens. legal ou convencional. Não tendo os nubentes a mesma nacionalidade. Atenção. Aos cônjuges é permitido modificar o regime de bens. atendendo ao princípio da tutela da confiança.53º diz-nos que: 1. Portanto. o que faz sentido. o art. 1. legal ou convencional.

a Grécia retirou o seu pedido. À separação judicial de pessoas e bens e ao divórcio é aplicável o disposto no artigo 52. a) Capacidade jurídica de pessoas singulares. Página 194 de 221 . Art. a Áustria. e diz-nos que: 1. No que respeita ao âmbito de aplicação temporal. se não a houvesse. a residência habitual comum. a Bulgária. se não a houvesse.º Ou seja. d) Nome dos cônjuges. h) Trusts ou sucessões. Mas o art. c) Anulação de um casamento.55º actualmente tem um âmbito de aplicação muito limitado. temos que este Reg. consagra o art. Em 3 de Março de 2010. a Espanha. g) Obrigações alimentares. as acções de divórcio intentadas após 21 de Dezembro de 2010.21º do Reg. Âmbito territorial Este Reg. validade ou reconhecimento de um casamento. não está em vigor em todos os Estados membros da UE. ao divórcio e à separação judicial. As situações que ficam afastadas pelo âmbito de aplicação material.No que respeita ao divórcio. b) Existência. a Roménia e a Eslovénia apresentaram posteriormente à Comissão um pedido em que comunicavam a intenção de instaurar entre si uma cooperação reforçada no domínio da lei aplicável em matéria matrimonial. a França. assim.1259/2010). passaram a regular-se pelo Regulamento. nós temos uma regra no art. a Hungria. são as que estão previstas no nº2. A Bélgica. a Grécia. e) Efeitos patrimoniais do casamento.1º âmbito de aplicação material. o Luxemburgo. Roma III (Reg. a Alemanha. Malta. a Itália. pelo facto de ter começado a vigorar o Reg. Portugal. conforme pode ser verificado no Considerando 5. é aplicável nas situações que envolvem um conflito de leis. aplicava-se a lei com a qual a situação apresentasse uma conexão mais estreita. a Letónia. aplica-se a lei da nacionalidade comum.55º do CC. f) Responsabilidade parental.

como não membro da UE. pois. conforme determinado pelo art. Assim. vamos aplicar o Reg. diz-nos o art. Quer seja a lei grega. Roma III. ou c) A lei do Estado da nacionalidade de um dos cônjuges à data da celebração do acordo.4º: Artigo 4.5º quem vem admitir a possibilidade de escolha. e não participante tanto pode ser Estado membro da UE. portanto. ou Página 195 de 221 . mesmo que a lei aplicável seja a lei de um outro Estado. quer seja a lei de um estado membro não participante. nós continuamos a aplica-lo. as partes podem acordar na lei que vai regular o seu divórcio.Significa que este regulamento está em vigor nestes Estados membros.o Aplicação universal É aplicável a lei designada pelo presente regulamento. assim. pois. o regulamento tem um âmbito de aplicação universal.5º: 1. ou b) A lei do Estado da última residência habitual dos cônjuges. se for intentada uma acção de divórcio em Portugal. quando nós queremos determinar qual é que é a lei aplicável. O Regulamento tem aplicação universal. As regras de conflitos mais relevantes que encontramos no Regulamento: Art. nestes casos nós vamos sempre aplicar a lei que for designada por força do Regulamento. quer seja a lei de um Estado membro participante. Mas esta escolha não pode ser completa e absoluta. é uma escolha limitada. desde que um deles ainda aí resida no momento da celebração do acordo. a lei alemã. Portanto. mesmo que os cônjuges não tenham nacionalidade europeia. a lei mexicana ou a lei argentina. mesmo que não seja a lei de um Estado-Membro participante. Os cônjuges podem acordar em designar a lei aplicável ao divórcio e à separação judicial desde que se trate de uma das seguintes leis: a) A lei do Estado da residência habitual dos cônjuges no momento da celebração do acordo de escolha de lei.

Mas o art.o Validade formal 1.d) A lei do foro. Assim. O acordo referido nos n. os cônjuges podem ainda designar a lei aplicável perante o tribunal durante o processo. nos termos do art.d) (lei do foro) pois podia aqui levantar questões de fórum shopping. Essas regras estão previstas no art. Contudo. ou seja. O acordo das partes tem de respeitar alguns aspectos no que respeita à sua validade formal. datado e assinado por ambos os cônjuges. não pode escolher um foro qualquer. o nº2 vem dizer que: 2.os 1 e 2 do artigo 5. Depois.7º Artigo 7. Importa aqui referir a al. essa designação será registada em tribunal nos termos da lei do foro.o é reduzido a escrito. Nesse caso. Admite-se também. um acordo que determine a lei aplicável pode ser celebrado e alterado a qualquer momento. mas não é assim. Sem prejuízo do disposto no n. o mais tardar à data da instauração do processo em tribunal. temos 4 possibilidades diferentes. por isso não tem qualquer problema ser escolhida a lei do foro.o 3. se a lei do Estado-Membro participante no qual ambos os cônjuges têm a sua residência habitual à data da celebração do acordo previr requisitos Página 196 de 221 . Roma III 2.5º nº2 do Reg. Qualquer comunicação por via electrónica que permita um registo duradouro do acordo equivale à forma escrita. porque a própria determinação do tribunal competente já está regulado pelo Regulamento 2211/2003. Se a lei do foro assim o determinar.5º nº3 vem ainda dizer que: 3.

no momento da celebração do acordo. DIP 12/05/15 Nós na aula passada tínhamos começado a ver e estivemos a ver as questões que se prendem com as relações de família. uma vez mais temos aqui a relevância deste elemento de conexão em matéria de estatuto pessoal. 3.da residência habitual dos cônjuges à data da instauração do processo em tribunal. Se. mas. apenas um dos cônjuges tiver a sua residência habitual num Estado-Membro participante e a lei desse Estado previr requisitos formais suplementares para este tipo de acordo. E.formais suplementares para esse tipo de acordo. E nesses casos. sim. no momento da celebração do acordo. Nº4: 4. e tínhamos ficado na matéria do divórcio. Aqui a escolha não é uma escolha completa. Na próxima aula vamos ver como resolvemos a situação no caso dos cônjuges não escolherem a lei. o divórcio e a separação judicial serão regidos pela lei do estado: 1. Se. que as partes não tenham escolhido a lei aplicável. Portanto. Tínhamos visto que havia possibilidade de escolha pelas partes da lei que regulava o divórcio. isto no que respeita à escolha de lei para regular o divórcio. os cônjuges tiverem a sua residência habitual em Estados-Membros participantes diferentes e as leis desses Estados previrem requisitos formais diferentes. Portanto. limitada. contudo. tais requisitos devem ser cumpridos. o acordo é formalmente válido se cumprir os requisitos fixados por uma dessas leis. aqui. temos o artigo 8º a dizer-nos que. ao contrário Página 197 de 221 . nos termos do regulamento Roma III. Pode dar-se. Basta o cumprimento de um. tais requisitos devem ser cumpridos. precisamos de saber qual é que é a regra supletiva que aplicamos. na ausência de escolha prevista no artigo 5º.

já apresenta critérios que se prendem. temos aqui uma regra específica. aqui. se estes não tiverem nacionalidade comum. Só se não for possível é que se passa para a nacionalidade comum dos cônjuges. a igualdade de acesso ao divórcio. sempre que a lei aplicável ao divórcio não preveja o divórcio ou não o conceda a um dos cônjuges. com a residência habitual e nacionalidade. nestes Página 198 de 221 . por exemplo. não irá produzir um problema de fórum shopping. essencialmente. É aqui dito que é aplicada. então será a lei do estado da última residência habitual dos cônjuges. temos aqui um ligeiro desvio à aplicação das leis que foram encontradas quer nos termos do 5º quer nos termos do 8º. sempre que a lei aplicável. 2. quer por força do artigo 5º quer por força do 10º. Portanto. Aliás. a aplicação da lei do foro. aplica-se a lei do foro. Ainda com relevância temos o artigo 9º que trata da conversão da separação judicial em divórcio. à separação judicial em razão do seu sexo. esta é a regra supletiva.se também esta faltar então aplicar-se-á a lei do país da nacionalidade de ambos os cônjuges. 3. portanto. E. portanto. em primeiro lugar no regulamento dá-se relevância ao estado da residência habitual. Porquê? Porque a própria competência do tribunal está expressamente regulada em regulamentos europeus.se os cônjuges já não tiverem residência habitual no mesmo país. desde que o período de residência não tenha terminado há mais de um ano antes da instauração do processo em tribunal e na medida em que um dos cônjuges ainda resida nesse estado no momento da instauração do processo em tribunal. que vem dizer o quê? Vem dizer que. aqui vamos ter a aplicação da lei do foro. Como já tínhamos visto na ultima aula. no nosso artigo 55º do CC que actualmente está derrogado pelo regulamento Roma V. também. então na alínea d) determina-se a aplicação da lei do estado em que se situa o tribunal onde o processo foi instaurado.do que está previsto. Depois. Portanto. E. Isso está previsto no artigo 10º. especificamente no 2201/2003 que. que acaba por conferir solução para os casos em que a lei que é designada aplicável não conceder a um dos cônjuges igualdade de acesso ao divórcio em razão do seu sexo. repare-se.

alíneas a) e b). Depois. Nos termos do artigo 12º. No entanto. Mas. se por exemplo houver remissão para um estado norte-americano em princípio será a lei desse estado norte-americano que será aplicável. na unidade territorial com a qual o cônjuge ou os cônjuges tenham uma ligação mais estreita. é sempre feita referência material. a regra é: se nós chegarmos à aplicação da lei de um estado que corresponda a um ordenamento jurídico complexo através da conexão residência habitual. Nos termos do artigo 14º. que não tem direito interlocal. mais especificamente. está prevista uma cláusula de reserva de ordem pública internacional. Com um problema deste género. à unidade territorial escolhida pelas partes. o artigo 22º do no CC. na aplicação da lei que vai regular o divórcio. dizendo que não se obriga nenhuma estado que não preveja esse divórcio a proferir uma decisão de divórcio. Ainda com relevância. salvo se houver acordo em contrário. Nos casos em que por força das normas de conflitos previstas neste regulamento existe uma remissão para ordenamentos jurídicos complexos. temos aqui uma especificidade. aí aplicamos a alínea c) com Página 199 de 221 . Nos casos do artigo 14º alínea c). em princípio vamos aplicar a lei do estado federado (nunca no exemplo dos EUA). está excluído o reenvio. aplicamos. ou. sim. chamo a atenção para os seguintes factos. na ausência de regras pertinentes. se chegarmos à aplicação da lei desse estado através do elemento de conexão nacionalidade. mais especificamente. nós não aplicamos as regras. ou seja. a alínea c) vem dizer que qualquer referência à nacionalidade dirá respeito à unidade territorial designada pela lei desse estado. Ou seja. Depois. na falta desta. Nos termos do artigo 11º. há ainda uma especificação que é feita no artigo 13º. em que a lei desse estado for designada em razão da nacionalidade. como é o caso dos EUA. as regras do regulamento.casos. o artigo 12º do regulamento. a lei aplicada à separação judicial. ou. chamo a vossa atenção para uma regulação específica.

Por outro lado se o problema for sobre a relação entre pais e filhos. ou seja. temos o artigo 57. estavam previstas no artigo 58 e 59 do CC. Ainda no que respeita às relações de família. então nos termos do artigo 15º última parte. queria chamar a vossa atenção para duas ou três disposições. que já nada ou quase nada tenham a ver com divórcio. Depois temos o artigo 60 que trata da filiação adoptiva e o 61 com os requisitos especiais da perfilhação ou adopção. O artigo 15 vem regular as situações em que existe remissão para a lei de um estado que têm dois ou mais sistemas jurídicos em matéria de conflitos de leis interpessoais. Eventualmente. como é que elas resolvem. aplica-se o sistema jurídico ou o conjunto de regras com o qual o cônjuge ou os cônjuges tenham uma ligação mais estreita. A legitimação e a filiação ilegítima como já sabemos são duas normas de conflitos que foram revogadas. Se tais normas não existirem. actualmente. Nos termos do regulamento Roma iii entende-se divórcio como dissolução do casamento mas tem de haver a intervenção de uma autoridade. então aí poderemos não aplicar o Roma III mas sim o artigo 55 que por sua vez remete para o artigo 52.os critérios que aqui estão previstos e em última instância teremos de aplicar a lei do estado federado que apresenta com a situação a ligação mais estreita. só vamos aplicar este regulamento às acções que tiverem dado entrada depois de ele entrar em vigor. Página 200 de 221 . Depois. Este artigo. tem um campo de aplicação muito limitado. Se ela não existir. 55 CC. Às acções anteriores aplicaríamos o art. o artigo 56 trata da constituição da filiação. podemos não aplicar o regulamento' se a lei potencialmente aplicável ao divórcio estabelecer muito muito originais. ou seja. Conforme referi. Esta disposição vem dizer que nestes casos terá de se atender ao que dizem as próprias regras internas desse estado para onde se remete. estamos a falar de ordenamentos jurídicos complexos porque têm diferentes conjuntos de regras que são aplicáveis a diferentes categorias de pessoas.

Temos. A partir de 17 de Agosto de 2015. e.Posto isto vamos passar à questão seguinte. Até agora. Tudo isto no que respeita ao âmbito de aplicação material. do reconhecimento e da execução das decisões e também da aceitação e da execução de actos autênticos em matéria de sucessões. Este regulamento tem o âmbito de aplicação material determinado nos termos do artigo 1. diz-se que é aplicável às sucessões por morte. Estão também excluídas todas as questões previstas no número 2. a indicação de matérias que ficam excluídas da aplicação deste regulamento. Já quanto às pessoas que falecerem depois vamos aplicar o regulamento. O que significa que no caso de litígios em que os tribunais portugueses ou os notários portugueses são competentes até ao dia 17 de Agosto vamos continuar a aplicar os artigos 62 e ss para determinar a lei que vai regular a sucessão por morte. Tudo isto é tratado neste regulamento. mas a verdade é que me perguntaram qual era a lei que regulava a sucessão por morte de uma pessoa. Mas muito em breve iremos deixar de aplicar. O disposto no artigo 3. A situação em si é um bocadinho dramática. o regulamento vem regular estas questões. fui falando essencialmente do artigo 62 e ss do CC. Não é aplicável às matérias fiscais. administrativas e aduaneiras. Ou seja. Aplica-se após 17 de Agosto de 2015' inclusive. Sucessões mortis causa. inclusive. No que respeita ao âmbito de aplicação temporal temos o artigo 84 do regulamento. Página 201 de 221 . o âmbito de aplicação delimitado pela negativa. Este regulamento 650/2012 trata da competência da lei aplicável. a criação de um certificado sucessório europeu. O que nós vamos tratar é da lei aplicável. quando dava exemplos de sucessões mortis causa. será aplicada à sucessão por morte o regulamento Roma v. Quando alguém morre temos de saber com quem ficam os bens. também. 1 alínea a) ajuda-nos a perceber o que significa sucessão. Estas são as normas de conflitos que nós actualmente aplicamos. também.

tem um âmbito de aplicação universal. os herdeiros até podem ter residência habitual num outro estado. No entanto. No 21. que pode escolher a lei de qualquer dos estados de que é nacional no momento em que faz a escolha.2 parte. Quem tem de apresentar uma conexão manifestamente mais estreita com um estado diferente do da residência habitual do de cujos é o próprio falecido. Vamos começar pelo artigo 21 que é a regra supletiva. se deslocam de um país para outro. tal como os outros. das questões que ficam reguladas pela lei da residência habitual. no artigo 21/2 vamos encontrar uma cláusula de excepção. Esta regra é diferente daquela que está prevista no nosso CC. a regra é a aplicação da residência habitual d do de cujos. No nosso CC por regra aplica-se a lei pessoal que por regra também é a lei da nacionalidade. No artigo 23 dá-se um elenco exemplificativo. Pode vir incluído no próprio testamento. e n que respeita ao próprio acto material onde foi feita a escolha da lei é regulada também pela lei escolhida (a lei da nacionalidade que foi escolhida). Depois. Mais. cada vez mais. ou resultar expressamente dessa disposição. Página 202 de 221 .Quanto à aplicação territorial. Ou seja. ou da nacionalidade (no caso de ter havido escolha). se a acção estiver a correr termos nos tribunais portugueses vamos aplicar este regulamento. nos termos do artigo 20. se uma pessoa tiver mais que uma nacionalidade. diz a 22/1. este regulamento também. não taxativo. O critério da residência habitual não me surpreende porque as pessoas. Prevista no artigo 22. nas situações previstas no artigo 12. No capítulo 3 temos a regra de possibilidade de escolha de lei aplicável. Nos termos do 22/3 vem esclarecer-se que a escolha deve ser feita expressamente numa declaração que revista a forma de uma disposição por morte. O de cujos pode escolher a lei do estado de que é nacional no momento em que faz a escolha ou no momento do óbito. A aplicação da residência habitual pode ser afastada.

vamos encontrando regras especificas que vão sendo aplicadas às diferentes situações. É importante que existam estas especificidades porque entre os vários estados membros vamos encontrar muitas divergências. alínea b) se exclui o reenvio. Enfim. Nos termos do artigo 26 vem-se dizer. outras não. quer se trate de pactos sucessórios quer sejam pactos sucessórios. Neste regulamento não está consagrada a referência material em muitos casos. Também no artigo 28. A matéria do reenvio está prevista no artigo 34. temos referência material. Vamos encontrar leis materiais muito diferentes. tem uma regra interessante em matéria de reenvio. No artigo 27 temos a validade formal das disposições por morte feitas por escrito. diferentes de pactos sucessórios. Também não haverá lugar ao reenvio se for aplicado o artigo 22. A ideia subjacente é não esvaziar a escolha que a pessoa fez. no que respeita à validade material das disposições de sucessão por morte. Página 203 de 221 . Umas admitem testamentos de mão comum. Ou seja. De acordo com esta disposição. Legislações que admitem pactos sucessórios. Quando tivermos de concretizar o artigo 24 e 25 temos de olhar para as disposições do 21 e do 22. Também não existe reenvio se for aplicado o artigo 27. as matérias que serão reguladas por esta lei. outras não. Temos essa diferença entre os artigos 24 e 25. A lógica é precisamente aplicar a lei com a qual se apresente uma conexão mais estreita.Este regulamento tem regras específicas no que respeita à lei aplicável às disposições por morte. Este regulamento. ao contrário dos outros. não vai haver reenvio se for aplicado o artigo 21/2.

Fonte interna A norma de conflitos principal é o art.1º. Já sabemos que os Regulamentos têm primazia sobre as fontes internas e portanto. ou outras categorias de bens. no art. como é o caso do Reino Unido. determinadas empresas. porque o artigo 34 faz referência a estado terceiro. em todas estas situações não vamos ter reenvio. 864/2007). só iremos aplicar as normas de conflitos de fonte interna quando não aplicarmos o Reg. irlanda e Dinamarca. Temos o âmbito de aplicação material do Reg. por força das regras deste regulamento. vamos ter de articular fontes europeias e fontes internas. Roma II. Página 204 de 221 . for de um estado membro. às obrigações extracontratuais em matéria civil e comercial. o artigo 30 é uma norma que atribui eficácia às normas de aplicação imediata de estados onde estejam situados determinados bens imóveis. 21 de Maio 2015 Hoje vamos continuar com a matéria da responsabilidade civil extracontratual. quando é que nós aplicamos um e aplicamos o outro. O presente regulamento é aplicável.Por último. Fontes europeias Regulamento Roma II (Reg.45º do CC. Vamos ver. que diz o seguinte: 1. Portanto. Também não o vamos ter nos casos em que a lei designada competente. em situações que envolvam um conflito de leis. Quando se fala em estado terceiro fala-se nos estados que não são membros da UE e também de estados membros que não estão vinculados por este regulamento. E no que a esta matéria diz respeito. São normas que ficam fora do sistema conflitual.

São excluídas do âmbito de aplicação do presente regulamento: a) As obrigações extracontratuais que decorram de relações de família ou de relações que a lei aplicável às mesmas considere terem efeitos equiparados. No Roma II. como em matéria de constituição. por obrigações extra-contratuais temos de fazer uma interpretação ampla. resultam da violação de uma regra jurídica que atingem direitos absolutos.O regulamento é objecto de uma interpretação autónoma. o que significa que a interpretação que é feita tem de atender ao direito da UE.1º nº2 do Reg. b) As obrigações extracontratuais que decorram de regimes de bens no casamento. a par do que tem sido realizado pelo TJUE. se as obrigações contratuais correspondem às obrigações que são voluntariamente assumidas pelas partes. Este corresponde ao âmbito de aplicação definido de forma positiva e depois temos o âmbito de aplicação definido pela negativa. as extra-contratuais são aquelas que não são voluntariamente assumidas pelas partes. incluindo as obrigações de alimentos. e) As obrigações extracontratuais que decorram das relações entre os constituintes. de capacidade jurídica. pois. livranças. de regimes de bens em relações que a lei aplicável às mesmas considere terem efeitos equiparados ao casamento e as sucessões. relativamente às obrigações da sociedade ou de outra entidade. e de responsabilidade pessoal dos auditores perante uma sociedade ou perante os titulares dos seus órgãos no exercício do controlo legal de documentos contabilísticos. d) As obrigações extracontratuais que decorram do direito das sociedades e do direito aplicável a outras entidades dotadas ou não de personalidade jurídica. bem como de outros títulos negociáveis. de funcionamento interno ou de dissolução das sociedades e de outras entidades dotadas ou não de personalidade jurídica. portanto. cheques. 2. na medida em que as obrigações decorrentes desses outros títulos resultem do seu carácter negociável. c) As obrigações extracontratuais que decorram de letras de câmbio. os trustees e os beneficiários de um trust voluntariamente criado. de responsabilidade pessoal dos sócios e dos titulares dos órgãos que agem nessa qualidade. através de registo ou por outro meio. Página 205 de 221 . no art. há que atender à jurisprudência do TJUE.

Que ele se aplica nos casos em que são atingidos alguns direitos de personalidade. em caso de danos não patrimoniais ou patrimoniais (quando nós estamos a falar. porque diz-nos que ficam excluídos do âmbito de aplicação do Regulamento As obrigações extracontratuais que decorram da violação da vida privada e dos direitos de personalidade. designadamente o Reino Unido. incluindo a difamação. é-nos dito que: A lei aplicável deverá ser determinada com base no local onde ocorreu o dano. Na alínea g) nem todos os direitos de personalidade.f) As obrigações extracontratuais que decorram de um dano nuclear. pois. Se nós olharmos para o considerando 17. teve receio de que aplicando-se o Regulamento em matéria de difamação ou em matéria de reserva sobre a intimidade da vida privada. Portanto. A al. Assim sendo. 1. Tiramos da própria letra do Reg. É fácil de perceber que a disposição não prima pela redacção. desde logo em Página 206 de 221 . incluindo a difamação. exactamente aqueles que são expressamente indicados na al. O direito à honra sim. g) As obrigações extracontratuais que decorram da violação da vida privada e dos direitos de personalidade. pudesse ser limitada a liberdade de expressão e a liberdade de imprensa que são especialmente acarinhadas no Reino Unido. que se prende com a evolução do próprio Regulamento. temos aqui um elenco de situações que ficam excluídas do âmbito de aplicação material do Regulamento. foi uma preocupação que se prendia com e exercício da liberdade de imprensa e com a liberdade de expressão. como nós os entendemos no direito material português estão afastados. desde logo. Para nós interpretarmos o que significa “direitos de personalidade” à luz do Regulamento. pois. Temos de ter presente que a preocupação que esteve subjacente a esta exclusão. dai a oposição a esta inclusão. 2. os direitos de personalidade que vão ser mais facilmente atingidos são a honra e a reserva sobre a intimidade da vida privada. g) suscita alguma dificuldade na sua interpretação. nós temos de atender a vários elementos: Elemento histórico. a difamação não é um direito de personalidade. independentemente do país ou países onde possam ocorrer as consequências indirectas do mesmo. no texto inicial todos os direitos de personalidade estavam abrangidos pelo âmbito de aplicação do Regulamento e depois foram afastados porque alguns Estados membros. E aqui.g).

danos não patrimoniais. sendo que a integridade física é um bem objecto de um direito de personalidade. integridade física. Ora. em especial. Ora. daqui retiramos que temos de fazer uma interpretação autónoma deste conceito. a sua integridade física) quando o acidente ocorre num Estado diferente do da residência habitual da vítima. na protecção da saúde dos consumidores… preocupações com a saúde dos consumidores. e vamos chegar à conclusão que não estão afastados do âmbito de aplicação material do regulamento. No considerando 20 diz-se que: A regra de conflito de leis em matéria de responsabilidade por produtos defeituosos deverá responder aos objectivos que consistem na justa repartição dos riscos inerentes a uma sociedade moderna de alta tecnologia. O Regulamento continuará. se existe acompanhamento médico. se nós temos um dano a ser infligido à pessoa. há quem autonomize o direito à saúde como um direito de personalidade. Portanto. integridade física. incluindo. a sua vida. o tribunal em que a acção é proposta deverá ter em conta todas as circunstâncias efectivas relevantes da vítima em causa. tem de necessariamente de ter havido ofensa à integridade física. terão de ser necessariamente aqueles que atingem a pessoa. tem de ser necessariamente um dano que atinge um direito de personalidade (vida. Outro exemplo. respectivamente. à pessoa ou ao património. integridade Página 207 de 221 . ao quantificar a indemnização por danos não patrimoniais (os danos não patrimoniais decorrentes de um acidente de viação. a aplicar-se a direitos de personalidade como é o caso da vida. direitos de personalidade. todos os direitos de personalidade. Mais. integridade moral. por isso. os reais prejuízos e custos da assistência ulterior e do acompanhamento médico. considerando 33 De acordo com as regras nacionais actualmente em vigor relativas à indemnização às vítimas de acidentes de viação. saúde) todos estes são também direitos de personalidade. estamos a falar de danos que resultam de lesões que atingiram bens de personalidade) o país onde os danos ocorrem deverá ser o país em que o dano tenha sido infligido.

reserva sobre a vida privada e imagem. resultantes da violação destes direitos de personalidade.1º do Regulamento. Em todos estes casos nós vamos aplicar o Regulamento. Artigo 32º Data de aplicação O presente regulamento é aplicável a partir de 11 de Janeiro de 2009.3º. honra. E o art.31º e 32º. é o que resulta do art. e nesse caso aplicamos o art.31º diz-nos: O presente regulamento é aplicável a factos danosos que ocorram após a sua entrada em vigor. g) do nº2 do art. integridade moral e saúde) casos em que aplicamos o Regulamento. temos o art. Se os direitos de personalidade atingidos tiverem sido. Importa ainda sublinhar que o Regulamento tem um âmbito de aplicação universal. mesmo que a lei designada aplicável. com excepção do artigo 29º que é aplicável a partir de11 de Julho de 2008. o Regulamento irá aplicar-se nos casos em que existam obrigações extra-contratuais. direito à saúde. ou o direito à imagem. por força deste Regulamento não seja a lei de um Estado membro. nós já não aplicamos o Regulamento por força da al. estes são afastados do âmbito de aplicação material do Regulamento. a al. nós continuamos a aplicar este Regulamento. Assim. integridade física. for o direito à honra ou o direito à reserva da intimidade da vida privada. ou o direito ao nome. Se o direito de personalidade tiver sido atingido. ou seja. porque também.45º do CC.moral. vai depender de a obrigação extra-contratual resultar da violação de direito de personalidade (vida. g) do nº2 do art. Página 208 de 221 . Quanto ao âmbito de aplicação temporal. 1º assim o determina. A aplicação ou não do Regulamento Roma II.

isto resulta desde logo do art. O presente regulamento não prejudica a aplicação das convenções internacionais de que um ou mais Estados-Membros sejam parte na data de aprovação do presente regulamento e que estabeleçam regras de conflitos de leis referentes a obrigações extracontratuais. sendo que isto resulta expressamente do art.14º consagra a possibilidade de as partes escolherem a lei aplicável Artigo 14º Liberdade de escolha 1. A mesma coisa se passa. Depois. havendo tais Directivas elas vão ter primazia sobre a aplicação do Regulamento. no que respeita aos factos danosos que tiverem ocorrido após esta data (11 de Janeiro de 2009) aplica-se o Regulamento. o princípio da harmonia jurídica internacional.27º.Significa então isto que. com Convenções internacionais pelas quais os Estados já estejam vinculados. se nós tivermos disposições específicas de fonte europeia. em função da questão que esteja a ser regulada. As partes podem acordar em subordinar obrigações extracontratuais à lei da sua escolha: a) Mediante convenção posterior ao facto que dê origem ao dano. ou seja. O Regulamento Roma II cede a sua aplicação nos casos em que existam diplomas especiais de direito europeu que regulem os conflitos de leis em matéria de obrigações extra-contratuais. Regime de conflito de leis previsto no Regulamento Neste Regulamento conseguimos identificar alguns princípios que lhe estão subjacentes. vamos também verificar que a orientação dominante vai no sentido de aplicar a lei que apresentar a conexão mais estreita e vamos ver também que há uma especialização das normas de conflitos.45º do CC. Página 209 de 221 . que diz: 1. aos que tiverem ocorrido antes desta data aplicamos o art. Quando nós temos um problema de obrigações extra-contratuais. temos de determinar a lei aplicável. e podem ser Directivas que tenham sido transportas para o direito interno. e o princípio da autonomia da vontade.28º. por exemplo. o art. Desde logo o princípio da previsibilidade e da segurança jurídica.

no momento em que ocorre o facto que dá origem ao dano. das disposições de direito comunitário não derrogáveis por convenção. outro é italiano e o acidente ocorreu em Espanha e o litígio está a ser apreciado em Portugal. mas as disposições imperativas do país A. num país que não seja o país da lei escolhida. Sempre que todos os elementos relevantes da situação se situem. Página 210 de 221 . O nº3 vem prever uma situação diferente e diz-nos que: 3. Isto significa que. não existem limites à lei escolhida pelas partes. um é português. temos um litígio que está a ser apreciado em Portugal. pois. b): b) Caso todas as partes desenvolvam actividades económicas. se for esse o caso. tal como aplicadas pelo Estado-Membro do foro. e este litígio trata de um acidente de viação que ocorreu em Espanha entre um português e um italiano. a não ser que. nos termos do art. assim. Por exemplo. a escolha das partes não prejudica a aplicação das disposições da lei desse país não derrogáveis por acordo. se se verificar que a situação apresenta apenas contacto com a lei de um país. de uma lei aplicável que não a de um Estado-Membro.14º. num ou em vários Estados-Membros. anterior ao facto que dê origem ao dano. vão continuar a aplicarse. também mediante uma convenção livremente negociada. Depois. não prejudica a aplicação.14º nº2 vamos aqui encontrar uma regra que nos diz: 2. Sempre que todos os elementos relevantes da situação se situem. pelas partes. pode ser uma lei que não tem contacto rigorosamente nenhum com a situação. al. todavia. no momento em que ocorre o facto que dá origem ao dano. sendo que isto é uma boa forma de evitar a fraude à lei. apesar de haver a possibilidade de escolha e a escolha pode ser de uma qualquer lei. a) do nº1 do art. pode haver escolha de lei pelas partes mas esta escolha terá de ser posterior ao facto que deu origem ao dano. (país A) se as partes estiverem escolhido para regular a situação a lei de outro país (país B) pode-se continuar a aplicar a lei do país B.A regra geral é a que resulta da al. a escolha. As partes podem escolher mas podem escolher aquilo que é supletivo. Portanto.

Portanto.4º. A regra geral do art. temos o art.5º que nos vai regular os problemas que se prendam com responsabilidade extra-contratual de responsabilidade por produtos defeituosos. A regra geral está prevista no art.8º. se se tratar de danos ambientais aplicamos o art. 2. é aplicável a lei desse país. não derrogáveis por acordo e que resultem da transposição para o direito português. mas se o problema suscitado for de concorrência desleal ou actos que restrinjam a concorrência.7º. por exemplo. por exemplo. No caso de as partes não escolherem a lei aplicável e chamo a atenção para a parte final do art. nós vamos encontrar no Regulamento uma regra geral e vamos encontrar regras especiais consoante o problema que se possa suscitar. á luz do nº3 os tribunais portugueses vão continuar a aplicar as disposições que estão em vigor em Portugal que sejam imperativas. ou seja. sempre que a pessoa cuja responsabilidade é invocada e o lesado tenham a sua residência habitual no mesmo país no momento em que ocorre o dano.14º que nos diz que a escolha pode ser expressa ou decorrer das circunstâncias do caso. Ou seja. aplicamos o art.4º.9º. mas tem de decorrer do caso sem margem para grandes dúvidas das circunstâncias do caso. nem gestão de negócios nem enriquecimento sem causa. mas as disposições imperativas que estejam em vigor no Estado do foro e que resultem. uma vez que a situação só apresenta contactos com estados membros da UE. se se tratar da violação de direitos de propriedade intelectual aplicamos o art. se se tratar de uma questão que não está abrangida em nenhum destes artigos e que não for culpa em contraendo.4º diz-nos que: Tenham atenção. a lei a ser aplicada será a lei da residência habitual comum do lesado e do responsável pela lesão. comecem a ler o art. Todavia. da transposição para o direito interno de Directivas europeias ou de Regulamentos europeus. temos a regra geral do art. de Directivas europeias. Depois. e as partes podem não querer escolher a lei que vai regular a situação. continuarão a ser aplicados.6º. temos de ver qual é a situação que temos presente. Se as partes não tiverem a mesma Página 211 de 221 . as partes podem escolher a lei brasileira para regular a situação. A consequência vai ser a de que. porque é uma excepção ao nº1. Se não escolherem.Imaginem que as partes escolheram para regular a situação a lei brasileira. as partes podem escolher a lei aplicável.4º nº2. se se tratar de uma questão que se prende com acção colectiva trata o art. porque se não houver escolha de lei aplicável. Nesse caso temos de fazer uma distinção.

ilícito ou no risco tem uma conexão manifestamente mais estreita com um país diferente do indicado nos n. apresenta uma ligação manifestamente mais estreita com a própria lei que regula o contrato de transporte. não o dano indirecto. ilícito ou no risco em causa. que tenha uma ligação estreita com a responsabilidade fundada no acto lícito. Temos o lugar da actuação que é em Espanha e o lugar onde ocorre o dano que é em Portugal. imaginem uma pessoa que está em Espanha e dispara um tiro que atinge outra pessoa que se encontra em Portugal. que matérias é que serão reguladas pela lei Página 212 de 221 . Exemplo. uma relação preexistente entre as partes.os 1 ou 2. é aplicável a lei desse outro país. ou seja. a responsabilidade extra-contratual que resultou do transporte de um país para outro. tal como um contrato. podem ser afastadas se… 3. Se resultar claramente do conjunto das circunstâncias que a responsabilidade fundada em acto lícito. Nesses casos será aplicada a lei do país que apresente uma conexão manifestamente mais extreita. nomeadamente. Depois. Ou seja. podemos ter aqui problemas de responsabilidade contratual e de responsabilidade extra-contratual. quer a lei da residência habitual comum das partes quer a lei do lugar do dano directo. por exemplo. então aplicamos o art. E o art. o que interessa é o país onde ocorre o dano.4º nº1. isso não nos interessa. Depois. que nos vem dizer que. no art. Depois. tal como também não interessa o país onde se verificam as consequências indirectas desse dano. Exemplo. neste caso o Regulamento vem-nos dizer que a situação apresenta uma conexão manifestamente mais estreita com a lei que já regula o próprio contrato. temos um ponto importante que é o de perceber qual é que é o alcance da lei aplicável.4º nº3 está consagrada uma cláusula de excepção. ou seja. viaja para o Brasil e continua a sentir dores.4º nº1 diz-nos que se aplica a lei do país onde ocorre o dano directo. se no âmbito do comprimento de um contrato de transporte ocorrer um acidente de viação. o que nos interessa é o local do dano directo. neste caso temos uma conexão acessória e assim sendo. não interessa o país onde ocorreu o facto que dá origem ao dano.residência habitual. temos a parte final do nº3 a dizer-nos que: Uma conexão manifestamente mais estreita com um outro país poderá ter por base. E o que releva é o lugar do dano directo (onde foi atingida) se depois a pessoa atingida.

a interrupção e suspensão dos respectivos prazos. Depois. por exemplo. pois. que é a lei que regula a responsabilidade extra-contratual. temos também a indicação nos termos do art. como é o caso do direito inglês. c) A existência. o legislador europeu veio esclarecer dúvidas.aplicável. Eu chamo aqui a vossa atenção para a al. bem como as regras de prescrição e caducidade. Enfim. diz-se que é regulada por esta lei. Isto é importante porque. h).22º que regula as questões que se prendem com o ónus da prova. b) As causas de exclusão da responsabilidade. porque a caraterização das regras que regulam o ónus da prova (em Portugal é matéria de direito substantivo. e já sabemos que isto coloca dificuldades em termos de qualificação. porque aqui. não interessa como é feita a caracterização nesses países. incluindo as que determinem o início.16º um norma que é relevante em matéria de normas de aplicação imediata. ou a lei da residência habitual comum das partes. a natureza e a avaliação dos danos ou da reparação exigida. Aqui. o art. temos também no art.15º vem-nos dizer que: A lei aplicável às obrigações extracontratuais referidas no presente regulamento rege. a lei que for designada para ser aplicada regulará os problemas de prescrição e caducidade. a prescrição é caracterizada não como sendo matéria substantiva mas sim matéria processual. mas em alguns Estados é entendida como sendo matéria processual) e o art. designadamente: a) O fundamento e o âmbito da responsabilidade. tal como. Ora. temos ai um elenco de situações que são reguladas pela lex deliti. a lei do lugar do dano.22º dá-nos resposta a estas questões e resolve dúvidas que possam existir. bem como qualquer limitação e repartição da responsabilidade. As formas de extinção das obrigações. que nos diz: O disposto no presente regulamento em nada afecta a aplicação das disposições da lei do país do foro que regulem imperativamente o caso Página 213 de 221 . nós já vimos em matéria de requalificação que em alguns ordenamentos jurídicos. incluindo a determinação das pessoas às quais pode ser imputada responsabilidade pelos actos que praticam.

seriam as regras de trânsito em vigor em Londres. dizendo-nos que: Ao avaliar o comportamento da pessoa cuja responsabilidade é invocada.23º vem dizer-nos o que se entende por residência habitual. O art. terão aplicação desde que regulem imperativamente o caso concreto. as normas de aplicação imediata do foro. este Regulamento tem regras que nós já conhecemos. aplicar-se-ia a lei material portuguesa para regular a situação. as regras de segurança e de conduta em vigor no lugar e no momento em que ocorre o facto que dá origem à responsabilidade. enfim. Depois.17º. O art. Mas qual lei material? Iriamos aplicar as regras de trânsito.17º que é um artigo muito importante. Portanto. o art. mas as regras de trânsito que nós tínhamos de ter em conta para saber se a pessoa estava a conduzir ou não de forma lícita.24º vem excluir o reenvio. logo. uma vez que o acidente havia ocorrido em Londres. temos o art. Ou seja. a título de matéria de facto e na medida em que for apropriado.concreto independentemente da lei normalmente aplicável à obrigação extracontratual. Em Londres tiveram um acidente de viação porque um deles se esquecem que lá se conduzia pela esquerda. Não escolheram a lei aplicável. teríamos a aplicação do art.17º dá-nos resposta a esta questão. aplica-se sempre a referência material no Regulamento Roma Página 214 de 221 . mesmo que seja aplicada a lei de um outro foro de um país que não o Estado do foro. Depois. Vamos pensar na seguinte hipótese: Dois cidadãos portugueses que têm residência habitual em Portugal e que foram passar um fim-de-semana a Londres.4º nº2 e assim. são tidas em conta. o CE português? É que não fazia sentido. íamos aplicar a lei portuguesa no que respeita aos artigos 483º e ss do CC. Isto resulta expressamente deste art.

ou seja. o art. Em que casos vamos aplicar o art. Tínhamos visto o âmbito de aplicação e as normas de conflitos principais. nós não vamos aplicar o art. Para além disso. E tínhamos visto que este art. temos de aplicar as regras que estão previstas no art. mas vamos aplicar o art.45º do CC. 34º não se aplica.26º trata da reserva de ordem pública internacional. Portanto. em que casos não existe reenvio. 30º.mas que não estavam vinculados pelo regulamento ( Reino Unido. Se por exemplo. 28º alinea b) e art. 34º do Roma V é um artigo com alguma complexidade que se prende pela delimitação pela negativa. a lei que se aplica é a lei que está em vigor no Texas. Todas as questões que estejam excluídas do âmbito de aplicação do Roma II. conforme está previsto no artigo 34º/1. 34º/ 2 e aí remete-se para os arts 21º/2. vamos aplicar o art. quando por exemplo. E aquilo que nos vimos é que este art. determinando que. O art. se fala… imaginem. E vimos também que aqui por lei de um estado terceiro entendia-se todas as leis de estados não membros da UE e também estados membros da UE. entende-se a aplicação das normas jurídicas em vigor nesse Página 215 de 221 .45º do CC.II. estivermos perante matéria de difamação não aplicamos o Roma II. o art. por aplicação da lei de um Estado terceiro.22º do CC. 22º. O acidente de viação foi um acidente que ocorreu no Texas. em que casos o art. 34º não se aplica nas hipóteses previstas no art. 34º/1 diz: Nos termos do presente regulamento. 27º.26º do Regulamento. Irlanda e Dinamarca). em todos os casos em que nos apliquemos estas disposições. 34º? O art. o que significa que nós só vamos aplicar este artigo se a lei designada por força das normas de conflitos for a lei de um estado terceiro e não se for a lei de um estado membro. ou porque se trata de matérias que estão excluídas pelo regulamento no art. 34º/1 diz que “nos termos do presente regulamento por aplicação da lei de um Estado terceiro”. assim como o art.1º nº2. Aula teórica de 14/05/2015 Na aula passada ficamos no regulamento Roma V. e podem estar excluídas pelo âmbito de aplicação temporal.25º trata do ordenamento jurídico plurilegislativo. se a matéria for regulada por este regulamento. nós não vamos fazer o reenvio. 34º.

aplique a lei de um estado membro ou então que aplique nos termos da alínea B) a lei de um estado terceiro que por sua vez considera a si própria competente. Ou então podemos ter uma outra hipótese. seja do foro ou outro. por exemplo. A hipótese que está prevista na alinea B) do 34º/1 é a hipótese em que as normas de DIP de L2 (estado terceiro) aplique a lei de um estado terceiro que por sua vez também se consideraria competente. 34º é preciso que L1 (estado membro) remeta para a lei de um estado terceiro e que a lei de esse estado terceiro. que é a lei de um estado terceiro aplicar a lei do estado do foro. que como se está a aplicar o regulamento. ser excluído nos casos em que o falecido tiver feito uma escolha de lei a favor da lei de um Estado terceiro”. na primeira hipótese. todavia. O que releva? Releva que L1 remeta para a lei de um estado terceiro e que a lei deste estado terceiro aplique a lei de um estado membro. Esta disposição não me parece completamente clara. O que é isto da coerência internacional? Não se sabe bem.Estado. haverá que atender às regras do direito internacional privado da lei desse Estado. O que significa? São só as normas de conflitos. O reenvio deverá. que esse próprio aplicaría a sua própria lei. primeiro porque fala aqui em normas de direito internacional privado. Temos de ter em atenção desde logo o considerando 57 que diz: “As regras de conflito de leis estabelecidas no presente regulamento podem resultar na aplicação da lei de um Estado terceiro. esse reenvio deverá ser aceite a fim de assegurar a coerência internacional. é necessariamente um estado membro. Para que exista reenvio nos termos do art. L1 a remeter para L2 ( que é a lei de um estado terceiro) que por sua vez apliquem a lei de um estado membro. Se essas regras previrem o reenvio para a lei de um Estado-Membro ou para a lei de um Estado terceiro que aplicaria a sua própria lei à sucessão. Ou seja. ou são também as normas de devolução? Eu entendo que de facto aqui o que estão em causa são normas de conflitos e normas de devolução também. o que releva é que as normas de um estado terceiro apliquem a lei de um estado membro ou então que as leis desse estado terceiro remetam para a lei de um outro estado. incluindo as normas de direito internacional privado. se o caso está a ser discutido em Portugal. O princípio subjacente é o da harmonia Página 216 de 221 . mas eu imagino que seja a harmonia internacional de julgados. Nesses casos.. ou b) A lei de outro Estado terceiro que aplicaria a sua própria lei. é preciso que L2 aplique de facto a lei desse outro estado. Note-se que não basta que L2 remeta para um outro estado. Daí que esta disposição estará preenchida nos casos em que tenhamos. na medida em que aquelas regras remetam para: a) A lei de um Estado-Membro.

ou seja. E temos por outro lado previsto no art. a estrutura dos vários regulamentos é sempre mais ou menos a mesma e por isso não é de surpreender que também no regulamento Roma V nos encontremos regras específicas que regulam a reserva de ordem pública internacional e os ordenamentos jurídicos complexos. quanto ainda ao regulamento Roma V. Não podemos estar a misturar regulamento com normas de fonte interna. 35º do Roma V e não o art. que encontramos vários conjuntos de leis. Até lá. Isto nas hipóteses em que nos apliquemos o regulamento Roma V. Portanto. Reserva da ordem pública internacional : art. O art. 35º vem dizer que “ a aplicação de uma disposição da lei de um Estado designada pelo presente regulamento só pode ser afastada se essa aplicação for manifestamente incompatível com a ordem pública do Estado-Membro do foro”. Quando nos aplicamos o regulamento Roma I. Página 217 de 221 . Porque nós já sabemos que ele só será aplicado as pessoas que morram ou no dia 17 de Agosto de 2015 ou dai em diante. aqui vamos aplicar o art. 37º os ordenamentos jurídicos complexos em que os conflitos de leis são interpessoais. quando vários conjuntos de leis tem uma aplicação em função da unidade territorial onde estão em vigor. Depois. tendo cada uma delas as suas próprias normas jurídicas em matéria de sucessões. 62º determina então como regra geral que a sucessão é regulada pela lei pessoal do autor da sucessão ao tempo do falecimento do de cujus. 62º. E de facto o princípio geral está consagrado no art. Questão que eventualmente poderá ser discutida é que quando se fala em normas de DIP se está apenas a falar em normas de conflitos ou também em normas de devolução. a ideia é sempre a mesma. Aqui. Atendendo ao considerando 57 eu entendo que é também ao sistema de devolução. aplicamos as normas do CC. 22º do CC. uma vez que nós só podemos ter a certeza qual a lei aplicável a data do falecimento. Ordenamentos jurídicos complexos: art. O professor lima Pinheiro também entende aqui que abrange também o sistema de devolução. mini sistemas jurídicos aplicáveis consoante as determinadas categorias de pessoas. se tivermos um problema de reserva da ordem pública internacional vamos ter de aplicar a norma que está prevista no Roma i que trata da reserva da ordem pública internacional.internacional de julgados que está um pouco mascarado no considerando 57 pela coerência internacional. 36º que diz que “um Estado que englobe várias unidades territoriais. artigos 62º e seguintes. nós dizemos que estamos aqui perante um estatuto suspenso. Ou seja. Então. as normas internas de conflitos de leis desse Estado determinam a unidade territorial cujas normas jurídicas são aplicáveis”.

Íamos ter que para a sucessão mobiliária íamos ter a lei francesa a remeter para a lei portuguesa. Mas vamos imaginar que este cidadão também tinha deixado bens imóveis em Itália. é apenas a aplicação da lei da nacionalidade. definir quem são os herdeiros Página 218 de 221 . ou seja. estabelecer as quotas hereditárias. Isto suscita dificuldades porque o que resulta daqui é que há sucessão de uma mesma pessoa vamos ter a aplicação de leis diferentes. Vamos imaginar que este cidadão tinha tido o último domicílio em Portugal. a partilha da herança. Determinam que em princípio a sucessão mobiliária será regulada pela lei do último domicílio do de cujos e a sucessão imobiliária será regulada pela lei do lugar da situação do imóvel. a lei francesa ia remeter para a lei italiana. Este princípio da unidade da sucessão também é seguido no regulamento Roma V. porque no Roma V a regra geral é a da aplicação da lei da residência habitual com possibilidade de escolha pela lei da nacionalidade. a resolução. a transmissão. remetíamos para L2 que era a lei francesa. No ordenamento jurídico português temos aqui um sistema que adoptou a unidade da sucessão. que vai ser a lei da nacionalidade. 62º + 31º/1 CC). por exemplo no direito inglês ou no direito francês em que é feita a distinção consoante se esteja a tratar de sucessão mobiliária ou de sucessão imobiliária. Isto para dizer que o nosso sistema é unitário mas há outros sistemas que não são e nestes sistemas vamos ter de fazer tantos sistemas quanto as situações. Há uma diferença entre o que está previsto no regulamento Roma V e o que está previsto no CC. que nem sempre são articuláveis entre si. mas a verdade é que nem todos os países seguem esta orientação. 62º. Isto vai-nos obrigar a que? Se por hipótese tivermos um cidadão francês íamos ter: art. Aqui chegados tínhamos que a lei francesa dizia que a sucessão mobiliária era aplicável a lei do último domicílio e à sucessão imobiliária era aplicável a lei do lugar da situação da coisa. vamos aplicar uma única lei a toda a sucessão. 62º+31º/1. 62º que nos diz então que é a lei pessoal do autor ao tempo do seu falecimento que vai determinar a lei que regula a sua sucessão por morte (art.Temos então aqui a regra do art. tínhamos de fazer mais um esquema para os imóveis em Espanha. No que respeita ainda ao art. No nosso CC por regra aplica-se a lei pessoal que por regra é a lei da nacionalidade e temos então aqui um sistema da unidade da sucessão e por isso toda a sucessão vai ser regulada pela lei de um único país. Se por acaso ele também tivesse imóveis em Espanha. Aqui não. Vamos encontrar ordenamentos juridicos. Há cada vez uma maior relevância da residência habitual em matéria de estatuto pessoal e a isto não são alheias as liberdades europeias. são reguladas todas as questões relacionadas com a abertura. Nesse caso íamos ter que a lei portuguesa (62º+31º/1) a remeter para a lei francesa mas a lei francesa aqui dizia que no que respeita a ao imóvel.

Essa disposição é especialmente interessante porque primeiro ao abrigo desta disposição nem todos os ordenamentos juridicos admitem testamentos de mão comum. tudo isto cabe aqui. Em Portugal os testamentos de mão comum estão expressamente proibidos nos termos do art. Se é a lei ao tempo da declaração que vai regular a capacidade.2 determina-se que aquele que depois de ter feito à disposição adquirir nova lei pessoal. Existem profundas divergências entre as várias legislações. 63º. qual o montante da legítima. c) A admissibilidade de testamentos de mão comum ou de pactos sucessórios. Saber se uma pessoa já tem ou não idade suficiente para fazer um testamento. salvo se houver referência expressa ou implícita a outra lei”. Depois. modificar ou revogar disposições por morte. que é uma figura jurídica que tem base no direito inglês e não no direito português. O art. A parte mais enigmática é a parte final da alínea. bem como as exigências de forma especial das disposições por virtude da idade do disponente. temos aqui umas regras de conflitos especiais que estão previstas no art. etc. bem como a execução testamentária. Todavia. 2181º do CC. 64º e 65º do CC. 63º CC trata da capacidade de disposição e vem dizer que a capacidade para fazer. Imaginemos que temos um cidadão português que faz um testamento em Londres e que neste testamento ele faz referência a um trust. Ou seja. Quando nós queremos interpretar o que significa este trust vamos interpretá-lo a luz do direito inglês. modificar ou revogar uma disposição por morte. sem prejuízo quanto a estes do disposto no art. quando for revogar a disposição basta que tenha capacidade para fazê-lo a luz da lei do país do qual tinha nacionalidade na data em que fez o testamento. b) A falta e vícios da vontade. 64º CC tem três alíneas e vem dizer que é também a lei pessoal do autor da herança ao tempo da declaração que irá regular: a) “A interpretação das respectivas cláusulas e disposições. É ainda a esta lei que cabe reger a administração da herança. são reguladas pela lei pessoal do autor ao tempo da declaração. também é ela que vai regular algum vicio da vontade que exista. se uma pessoa a data em que fez a disposição tinha a nacionalidade do país X e a luz da lei do país x tinha capacidade para fazer ou revogar a disposição.legitimarios. nem todos os ordenamentos juridicos admitem os pactos sucessórios. 53º. É esse o sentido aqui da referência expressa ou implícita a outra lei. conserva a capacidade necessária para revogar a disposição nos termos da lei anterior. mesmo que depois passe a ter a nacionalidade do país y. A única coisa que nós aqui temos regulada é a capacidade de fazer. Nos termos do n. O art. temos aqui uma norma de conflitos que nos diz que a própria admissibilidade dos testamentos de mão comum será regulada pela lei Página 219 de 221 . se está ou não está em faculdades mentais para fazer a declaração. A ideia é que podemos ter de ter em conta algumas leis para interpretar a disposição.

no art. Portanto. um problema de qualificação. entendo que neste caso basta que L2 remeta para L3. Nós temos um exemplo no direito material português. quer no momento da morte. ou às da lei pessoal do autor da herança. bem como a sua revogação ou modificação. Todavia. este testamento só vão produzir efeitos em Portugal se este testamento tiver observado forma solene. se corresponderem às prescrições da lei do lugar onde o acto for celebrado. será a exigência respeitada”. se o cidadão que fez este testamento for português. Por último. é uma questão substantiva. serão válidas. então ela será aplicada. mesmo que L3 não se considere a si própria competente porque o principio subjacente ao art. Nós vamos aplicar umas dessas quatro conexões e dentro destas aplicamos aquela que garantir a validade formal da disposição por morte. E aqui o legislador veio resolver o problema. que dispõe que “Se. que é a questão de saber se a admissibilidade dos testamentos de mão comum se são um problema de validade formal ou de validade substantiva. por exemplo. Ou seja. exigem os mesmos pressupostos de aplicação previstos no 17º/1. está alinea C) vem resolver um problema que existia em DIP. sob pena de nulidade ou ineficácia. Portanto temos L1 (65º/1) está a remeter para L2 (lex loci celebrationes) e vamos imaginar que o testamento não é formalmente válido a luz de L2. Nesta hipótese. o testamento que seja feito no estrangeiro por um cidadão português. 65º só está em causa a validade formal e não a validade substantiva das disposições por morte. 65º tem quatro conexões possíveis. Mas há autores como Lima Pinheiro. 65º que trata da forma. 2223º do CC que nos diz que “ o testamento feito por cidadão português em país estrangeiro com observância da lei estrangeira competente só produz efeitos em Portugal se tiver sido observada uma forma solene na sua feitura ou aprovação”. ou ainda às prescrições da lei para que remeta a norma de conflitos da lei local”. porém. o art. O que significa forma solene? O professor Batista Machado e marques dos santos Página 220 de 221 .pessoal do autor ao tempo em que ele tiver esta disposição. Mesmo que no país da celebração seja admissível por exemplo o testamento verbal. se a lei pessoal do autor da herança tiver uma norma que exija uma forma especial e que essa norma se queira aplicar. em princípio. que consideram que só se aplica L3 se L3 se considerar também a si própria competente. parte final diznos que aplicamos L3. Atenção que o art. Significa um desapego relativamente ao direito material português. 65º/1. nomeadamente no art. quanto à forma. por força do art. 65º/2. temos o art. as exigências formais da lei do lugar da celebração só vai produzir efeitos em Portugal se tiver sido observada uma forma solene na sua feitura ou aprovação. Dispõe o referido artigo que “as disposições por morte. a lei pessoal do autor da herança no momento da declaração exigir. mas a norma de conflitos de L2 relativa à forma do testamento remete para uma L3 e que a luz de L3 o testamento já é formalmente válido. mesmo que observe. Eu não concordo com essa orientação. Temos uma norma que nos diz que independentemente daquilo que nos diz o art. Esta última conexão diz-nos que a lei do local é a lei do local onde foi celebrado o testamento. 65º/1. Mas não vamos ficar por aqui porque ainda temos o art. 65º/1 nos diríamos que este testamento era formalmente válido. 65º/1 é o do favor negoti. quer no momento da declaração. a observância de determinada forma. ou seja. Para além do mais. ainda que o acto seja praticado no estrangeiro.

propriedade e demais direitos reais é definido pela lei do Estado em cujo território as coisas se encontrem situadas. 46º vem aqui determinar a aplicação da lex rei sitae. 46º que tem como conceito quadro a posse. apesar de o elemento de conexão ser este. 2223º é por isso. Depois. Nos termos do art. porque temos aqui uma norma material que tem vontade de se aplicar no espaço independente do próprio sistema de direito de conflitos local. 46º CC. com a norma de conflitos francesa que a propósito das próprias sucessões pode ter o elemento de conexão também a lei do lugar da situação dos imóveis. O art. a matéria respeitante à lei reguladora das coisas. na minha opinião. já sabemos que ela está prevista no art. propriedade e demais direitos reais. O art. Outros autores. mas atenção. Por exemplo. enredem que é preciso que exista a intervenção de uma autoridade que confira a forma de solene ao acto. Não confundir esta situação com as situações que vimos a pouco. Página 221 de 221 . uma norma de aplicação imediata. Temos sempre de ver obviamente qual é que é o conceito quadro que está em causa. neste caso nós estamos a aplicar o art. como é o caso de lima Pinheiro como eu própria também. 46º temos aqui a indicação que a posse.entendia que forma solene era a forma escrita.