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Exercícios de micro-história

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MÔNICA RIBEIRO DE OLIVEIRA
CARLA MARIA CARVALHO DE ALMEIDA
ORGANIZADORAS

Exercícios de micro-história

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Copyright © 2009 Mônica Ribeiro de Oliveira e Carla Maria Carvalho de Almeida
Direitos desta edição reservados à EDITORA FGV
Rua Jornalista Orlando Dantas, 37
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em parte, constitui violação do copyright (Lei no 9.610/98).
Os conceitos emitidos neste livro são de inteira responsabilidade do autor.
Este livro foi editado segundo as normas do Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa,
aprovado pelo Decreto Legislativo no 54, de 18 de abril de 1995, e promulgado pelo Decreto
no 6.583, de 29 de setembro de 2008.
1a edição — 2009
Versão digital — 2012
Preparação de originais: Daniela Duarte Candido, Maria Lúcia Leão Velloso
de Magalhães, Sandra Frank
Revisão: Adriana Alves Ferreira e Catalina Arica
Capa e Diagramação: Santa Fé ag.

Ficha catalográfica elaborada pela
Biblioteca Mario Henrique Simonsen / FGV
Exercícios de micro-história / Organizadores: Mônica Ribeiro de
Oliveira e Carla Maria Carvalho de Almeida. — Rio de Janeiro : Editora
FGV, 2009.
300 p.

Inclui bibliografia.
ISBN: 978-85-225-0898-3

1. História — Metodologia — Coletânea. 2. Historiografia —
Coletânea. 3. História social — Coletânea. I. Oliveira, Mônica Ribeiro
de. II. Almeida, Carla Maria Carvalho de. III. Fundação Getulio Vargas.


CDD – 907-2

Sumário

Apresentação

7

Mônica Ribeiro de Oliveira
e Carla Maria Carvalho de Almeida

Prefácio

11

Giovanni Levi

Parte I: A micro-história e seus precursores
1. Microanálise e história social

17
19

Edoardo Grendi

2. Paradoxos da história contemporânea

39

Edoardo Grendi

3. Reciprocidade mediterrânea

51

Giovanni Levi

4. Economia camponesa e mercado de terra
no Piemonte do Antigo Regime

87

Giovanni Levi

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famílias e comunidades: trajetórias percorridas no tempo e no espaço em Minas Gerais — séculos XVIII e XIX 209 Mônica Ribeiro de Oliveira 9. Redes de compadrio em Vila Rica: um estudo de caso 239 Renato Pinto Venâncio 10. O capitão João Pereira Lemos e a parda Maria Sampaio: notas sobre hierarquias rurais costumeiras no Rio de Janeiro do século XVIII 155 157 João Fragoso 8. Indivíduos.indd 6 297 4/12/2009 15:03:14 . metodologia e fontes 263 Cristina Mazzeo de Vivó Sobre os autores AF_livro final ok. sociais e políticos da elite mercantil de Lima no final do período colonial e início da República: estudos de caso. Delio Cantimori: um diálogo com a história da cultura 111 113 Cássio da Silva Fernandes 6. Pensando as transformações e a recepção da micro-história no debate histórico hoje 131 Henrique Espada Lima Parte III: Exercícios de micro-história 7. Os vínculos interfamiliares.Parte II: O diálogo com a história e a historiografia 5.

não conseguiriam compreender as estratégias individuais que podiam tornar mais compreensível aquela realidade mais estrutural.indd Sec3:7 4/12/2009 15:03:14 . o que acabou por criar fronteiras rígidas entre as histórias social.Apresentação Mônica Ribeiro de Oliveira Carla Maria Carvalho de Almeida A grande ressonância da perspectiva metodológica da micro-história é hoje um fenômeno inquestionável. Esse movimento. vem ganhando adeptos em todo o mundo. Também não permitiriam apreender as ações daqueles atores históricos que eram motivadas por outras lógicas que não as da sociedade contemporânea. As análises estruturais baseadas em grandes cortes cronológicos e na quantificação não incorporariam a ação do sujeito como ator histórico importante na defi nição do rumo dos fenômenos e dos processos históricos. política e cultural. econômica. Outra ordem de problemas levantados por esses questionamentos dizia respeito à organização compartimentada da disciplina história. inicialmente restrito à produção historiográfica italiana. os questionamentos à validade das grandes sínteses começaram a chamar a atenção para o perigo de se excluir o sujeito da história ou de se perder a historicidade de suas ações. E mais ainda — e em decorrência disso —. Desde as últimas décadas do século XX. inclusive no Brasil. Em meio aos grandes embates travados por força de tais ponderações. teve início um processo de compreensão de que seria necessário AF_livro final ok.

realizado em outubro de 2008 na Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). parentesco. criado em 1997.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 8 repensar o papel do sujeito na história e reduzir a escala de observação. do Programa de Pós-Graduação em História da UFJF. situações em que a complexidade dos fenômenos históricos teria maior possibilidade de ser resgatada. está ligado à linha de pesquisa História. com o apoio da Fapemig. à semelhança do olhar através de um microscópio. Este livro é em grande parte resultado das reflexões desenvolvidas durante o II Colóquio do Lahes: Micro-História e os Caminhos da História Social. dos confl itos e das escolhas. Utilizando-se da redução de escala de observação para o entendimento de questões mais gerais. O interesse volta-se para a análise das diferenças. A experiência — individual ou coletiva — resgatada empiricamente passou a desempenhar um papel mais destacado no trabalho dos historiadores do que as explicações baseadas nas deduções lógicas que as grandes sínteses teóricas produziam. o objetivo foi definir alguns eixos temáticos caros à história social (redes sociais. A micro-história italiana foi uma das respostas formuladas a partir de tais questionamentos. A micro-história propõe uma reflexão histórica em constante busca da totalidade. família. mesmo sendo esta compreendida como resultante do reconhecimento da ação individual e da percepção de sua trajetória.indd Sec3:8 4/12/2009 15:03:14 . A micro-história propõe um procedimento quase artesanal de aproximação do objeto. estratégias sociais) e discutir AF_livro final ok. Parte do pressuposto de que os indivíduos e os grupos têm uma complexidade difícil de ser reduzida aos fenômenos econômicos ou políticos. Nesse encontro. da Capes e do PPGHIS/UFJF. O Laboratório de História Econômica e Social (Lahes). a micro-história surgiu como uma proposta de análise dinâmica da sociedade que não impunha ao estudo do passado uma ordem artificial e automática. a micro-história resgata o elo entre o micro e o macro. Ao conceber a priori toda a história como social e ao buscar uma alternativa de análise capaz de transcender as análises de cunho generalizante dos denominados agregados anônimos. que revela uma série de aspectos antes impossíveis de detectar pelos procedimentos formais da disciplina. Mercado e Poder.

mas complexa e viscosa. quatro importantes textos de Edoardo Grendi e Giovanni Levi. analogia e reciprocidade. mediante uma leitura muito específica da equidade. Em “Reciprocidade mediterrânea”. de 1977 e 1981.indd Sec3:9 4/12/2009 15:03:14 . Levi discute as especificidades das formas jurídicas das nações católicas do sul da Europa e sugere uma polarização entre países com direitos fortes em que a lei restringe a liberdade de interpretação dos juízes e países em que a origem teológica do conceito de justiça permite aos juízes uma ampla margem de interpretação. a partir da década de 1970.1 Na primeira parte do livro. Os dois primeiros — “Microanálise e história social” e “Paradoxos da história contemporânea” —. da professora dra. considerado o principal responsável pela difusão desse campo de investigação e pela dimensão que o debate teórico sobre a micro-história alcançou. Segundo Levi. Henrique Espada Lima. AF_livro final ok. ou se outras opções metodológicas seriam mais apropriadas para abordá-los. Assim sendo. traduzidos para o português. são apresentados à comunidade acadêmica brasileira. não impossível. respectivamente. partindo das noções de equidade. e ainda inéditos em língua portuguesa. através do periódico italiano Quaderni Storici. Cássio da Silva Fernandes.9 APRESENTAÇÃO até que ponto as proposições da micro-história se adequam aos objetivos dos historiadores que lidam com tais temas. No texto “Economia camponesa e mercado de terra no Piemonte do Antigo Regime”. 1 Para a organização desse evento e da presente obra contamos com o precioso apoio do professor dr. dedicada aos precursores da microhistória. Giovanni Levi emite valiosos alertas aos historiadores interessados em investigar as transações mercantis com a terra nas sociedades da Idade Moderna. senhoris. comunitários. a terra era a base da produção. Originariamente publicados em 1990 e 2000. obstaculizava a fluidez: direitos familiares. os outros dois textos que compõem a primeira parte deste livro são da autoria de Giovanni Levi. “a circulação mercantil da terra. mas também do sistema de poder e de proteção social que caracterizava todo o sistema político nessas sociedades. e também inéditos em língua portuguesa. são da autoria de Edoardo Grendi. Ângela Brandão e do professor dr.

escravos e comerciantes. história da cultura e história interpretativa.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 10 monárquicos. Na terceira e última parte do livro.indd Sec3:10 4/12/2009 15:03:14 . Presente ao II Colóquio. e o significado e o sentido do mundo para indivíduos. Henrique Espada Lima trata das transformações e da recepção da micro-história no debate histórico atual. são apresentados dois textos de caráter historiográfico. enfi m. no qual traça uma breve trajetória da micro-história. Na segunda parte. aventureiros. Giovanni Levi brindou ainda a todos com as importantes reflexões contidas no prefácio deste livro. os quatro últimos capítulos constituem bons exemplos de exercícios de micro-história. e deixa também explícita sua própria concepção de micro-história e sua expectativa em relação ao seu devir. Em “Delio Cantimori: um diálogo com a história da cultura”. desde sua origem à ressonância nos meios acadêmicos. a exemplo da exortação de Giovanni Levi em sua última frase do Prefácio. Em “Pensando as transformações e a recepção da micro-história no debate histórico hoje”. Nos dois textos ficam evidentes as especificidades das sociedades modernas cujas lógicas de funcionamento são muito distintas daquelas que caracterizam as sociedades capitalistas. os historiadores João Fragoso. Cássio da Silva Fernandes procura discutir as interlocuções possíveis entre micro-história. famílias. centrando sua atenção no panorama intelectual mais amplo que transformou de modo significativo o campo da história social entre os anos 1970 e tempos mais recentes. contribuíam para fazer da terra algo que só muito arbitrariamente podia ser considerado um investimento pelo mercado”. AF_livro final ok. analisando alguns aspectos do percurso de Delio Cantimori que tangenciariam a perspectiva metodológica que depois de sua morte ficou conhecida como micro-história. Renato Pinto Venâncio e Cristina Mazzeo de Vivó apresentam suas pesquisas empíricas voltadas para o resgate de como os homens organizavam suas vidas no passado. Mônica Ribeiro de Oliveira. Ou seja.

escolhas políticas e ideológicas. Isso era tanto mais verdadeiro na historiografia. AF_livro final ok. da renúncia. A micro-história nasceu então. na história do movimento operário. pelo menos para mim. E diante da profunda mutação da ordem econômica e social. tinham posto em evidência a fragilidade das forças progressivas na Itália e os limites e a inércia de suas análises políticas. o terrorismo. solidariedades. as simplificações de leitura começavam a revelar toda a sua esterilidade. uma origem política. a esquerda italiana se afirmou segundo o pertencimento de classe. antes de tudo.indd Sec2:11 4/12/2009 15:03:14 .Prefácio* Giovanni Levi Farei uma imagem muito particular da micro-história ao dizer que seu surgimento no final dos anos 1960 teve para mim. para realmente compreender como se originavam comportamentos. escolhas. quanto na interpretação histórica do desenvolvimento distorcido da economia italiana. ∗ Tradução de Ângela Brandão. Eram anos de cansaço para a esquerda italiana. atentados e a desconfiança do movimento sindical e das suas instâncias conciliares e igualitárias —. nos quais muitas tensões e muitos acontecimentos misteriosos e jamais solucionados — entre a restauração conservadora depois do outono quente e o ano de 1968. portanto. às leituras esquemáticas e gerais. Filha de uma longa tradição operária. da necessidade de recuperar a complexidade das análises.

Carlo Ginzburg). na redação da revista Quaderni Storici. senhor. com um breve manifesto — “Notiziario Einaudi”. como o duque d’Auge no Flores azuis. — E o matrimônio das minhas fi lhinhas? — Com esforço. o capelão: — Diga-me uma coisa. com a qual muitos de nós colaborávamos (Edoardo Grendi. — História como? – grita o duque d’Auge – que diabo de linguagem é essa? Que dia é hoje? Pentecostes? — Queira desculpar-me. Em 1980/1981. este Concílio de Basileia é história universal? — Mas sim: é história universal em geral. sobretudo com Ginzburg. era produto do debate com outros pesquisadores. teve início o debate do problema que poderíamos defi nir como de recuperação da complexidade. Thompson em particular —.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 12 Havia modelos importantes dessa reflexão. a começar pela leitura de Gramsci feita pela historiografia marxista inglesa — E. A condenação do acontecimento em prol dos AF_livro final ok. como Natalie Zemon Davis. lançada pelo editor Einaudi. com quem passei depois a dirigir a coleção. portanto. pareceu-me injustamente desaparecido da discussão. ou pelo trabalho minucioso dos antropólogos de Manchester — Clyde Mitchell. surgiu assim a coletânea Micro-histórias. mas muito inovadores. que. Os historiadores discutem frequentemente suas classificações. microhistória. E. de Queneau. muito diversos das motivações que deram origem à coletânea Micro-histórias. Carlo Poni. por certo. é história acontecimental. depois. Essa irônica hierarquia das histórias e o cansaço do capelão são. por exemplo —. ou por pesquisadores no fundo isolados. Efeitos do cansaço. No máximo. P.indd Sec2:12 4/12/2009 15:03:14 . ao interrogar dom Biroton. — E os meus canhõezinhos? — História geral em particular. apesar de levar minha assinatura. de junho de 1981 — que. Acredito que esta seja uma boa ocasião para me referir a esse documento.

de pessoas que. Porque o minucioso trabalho de laboratório não deve permanecer escondido. não apenas remetendo aos documentos — isso faz parte da ética profissional —. mas. como descrever situações. as situações? Ou. dos pequenos. de situações. por certo. pelos mecanismos causais simplificados e estabelecidos a partir de uma percepção tardia. as culturas orais. objetos novos. o verdadeiro excluído é o consumidor de livros de história. subtrair minha parte de lamentação. dos distantes. e sem renunciar à compreensão dos problemas gerais? Talvez seja partindo desse problema insolúvel que os historiadores frequentemente são levados a falar de suas insatisfações. a micro-história não é. Mas não basta falar de alguém para incluí-lo na história do mundo. vice-versa. os leitores esmagados pelas pesadas interpretações gerais. muitas vezes confrontadas com a descoberta de situações novas. as mulheres. E não quero. pelas opiniões discutidas com as armas díspares de quem escreve e de quem lê.AF_livro final ok. e a receita não deve permanecer um segredo do cozinheiro. o modo de formular as perguntas e procurar as respostas. Portanto. pessoas. mas por meio de uma clara declaração do processo pelo qual a história foi construída: os caminhos certos e errados. a vida cotidiana. O importante é como falar desse alguém. sim. exemplos. O resultado corre o risco de ser um tanto lamentável: a historiografia excluiu as classes populares. Pretende ser a reconstrução de momentos. as sociedades diferentes da nossa. para mostrar sua presença e relevância. mas sem esconder as regras do jogo que o historiador seguiu. A micro-história pretende ser antes de tudo uma tentativa: narra. Mas o problema permanece. necessariamente. investigadas com olho 4/12/2009 15:03:14 . Certamente. Porque talvez os verdadeiros excluídos da atenção dos historiadores não sejam os protagonistas descuidados dos eventos. Por essas indagações serem feitas a partir da revelação do nome do assassino. sem cair em tipologias. os mundos marginais. a história dos excluídos.indd Sec2:13 13 PREFÁCIO fenômenos estruturais é uma discussão que então teve o seu tempo. Como fazer para chegar às generalizações sem descartar os indivíduos.

nas defi nições cômodas que agora se dão para explorar posicionamentos e comportamentos políticos ou estratificações sociais de poder: cultura popular. setores médios. entre alusão e metáfora. classe operária. A escala é habitualmente reduzida e isso coloca repentinamente em discussão os instrumentos conceituais do nosso ofício: desgastados pelo uso. que. por exemplo. para funcionar. desse modo. não é vista em sentido único. mas como referências dos fatos à complexidade dos contextos nos quais os homens se movem. na realidade. cujos efeitos o historiador pode mensurar. como um poder imóvel e imutável apenas nos momentos extraordinários de revolta aberta. Malgrado sua utilidade hoje. requerem cada vez mais a especificação e a verificação das situações concretas. na complexa relação de escolha livre e dos vínculos que indivíduos e grupos estabelecem nos interstícios da pluralidade contraditória dos sistemas normativos que comandam. a uma forma particular de sociedade. Ao escolhermos os títulos da coletânea. mas como fruto de um contínuo confl ito. não como exemplos. Estado absoluto.indd Sec2:14 4/12/2009 15:03:14 .EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 14 analítico. por exemplo —. cobriram-se da ferrugem da ambiguidade. cujas circunstâncias concretas permitem compreender os sucessos e os insucessos dos seus esforços para mudá-la. nas quais o indivíduo abstrato torna a pertencer. Por um lado. O normal e o cotidiano tornam-se AF_livro final ok. sem introduzir sub-repticiamente a pretensão de que isso explique uma sociedade em sua complexidade: é o isolamento de um fragmento sob a lente do pesquisador e do leitor que. Por outro lado. partimos dessas considerações. Pensemos. o próprio estudo das situações ou pessoas no seu contexto. em âmbito circunscrito. camponeses. recuperam um peso e uma cor. Essas escolhas e contradições são o motor interno da mutação social. na falta de explicações melhores. que nos propunham duas alternativas não mistificadoras para o estudo dos mecanismos causadores de fatos sociais. isto é. o consciente isolamento de um sistema normativo — as leis dos matrimônios consanguíneos do livro de Raul Merzario. mas que experimentalmente se faz mover no vazio. estará imerso no contexto complexo.

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PREFÁCIO

assim protagonistas da história, e situações singulares assumem a intensidade dos pontos de vista pelos quais se podem explicar os funcionamentos sociais complexos.
Muito frequentemente, as explicações que elucidam os mecanismos casuais tendem a descrever o passado como um feroz mecanismo
de necessidades biológicas, políticas, econômicas. Introduziu-se, assim, uma visão evolucionista, apologética do presente e do fato existente. Nesse sentido, as duas alternativas que procuraremos documentar e as regras em confl ito atuantes em cada situação pretendem
também ser uma perspectiva de pesquisa diferente. Os escritos de E.
P. Thompson, que estão na raiz de toda a renovação da história social, são, segundo o autor, uma resposta àqueles que descrevem “o
homem como subjugado pela necessidade e sobre o qual domina um
único absoluto”.
As palavras-chave eram então evidentes: lente ou microscópio,
experimento, contestação, complexidade, escolha, vínculos, interstícios, confl ito, ponto de vista. Mais uma série de práticas e de métodos do que uma teoria. Todavia, a proposta da micro-história atingia um mundo historiográfico muito sensível. Não foi apenas o tom
de reviravolta que caracterizou os anos 1980 desde o seu início.
Também a crise do sistema soviético que se avizinhava e a fragmentação do sistema mundial depois do fi m da bipolaridade fizeram sentir, com brutal evidência, seus efeitos no debate historiográfico, pondo em crise a historiografia de inspiração marxista, mas também de
modo mais geral a história social, a experiência central dos Annales
franceses, que falavam de ponto de mutação, ou dos Subalterns studies
indianos, que abandonaram o marxismo para voltar sua atenção de
modo especialmente confuso para os estudos pós-coloniais: no centro das atenções progressivamente apareceram temáticas culturais
que pouco a pouco se abriram às dúvidas relativísticas do desconstrutivismo ou à identificação da historiografia com a ficção. Afi nal,
a própria historiografia perdera sua centralidade nas ciências humanas, porque é difícil estudar o passado quando não há perspectivas de
futuro e também porque o papel central que desempenhara até os

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anos 1960 a tinha atrasado com relação ao debate que outras ciências
humanas travavam, sobretudo no que diz respeito à defi nição de
uma racionalidade incompleta e não uniforme na teoria econômica,
à autoridade do cientista na antropologia, à ambiguidade das identidades pessoais e a não linearidade do personagem homem na teoria
literária e no romance. E, contemporaneamente, também o senso
comum historiográfico tinha mudado devido à simplificação e à agilidade com que os mass media propunham temáticas, que a lentidão e
a complexidade da pesquisa histórica não estavam em condições de
fazer frente sem uma profunda renovação. E também os leitores tinham diminuído, frequentemente mais atraídos pelas imagens do
que pela página escrita, mais pela internet do que pelos livros. Uma
atmosfera modificada que hoje ainda encontra dificuldade para se
organizar em um quadro mais sólido.
Também a micro-história, pressionada por todos os lados, sofreu
alterações, interpretações distorcidas, simplificações. No entanto,
sua proposta teve e continua a ter forte ressonância, também porque
revelou, a meu ver, maior sensibilidade do que a história mais acadêmica às novas instâncias que os novos pesquisadores e os novos leitores colocavam. Quis, no fundo, mostrar não a fragilidade das generalizações em história, mas que aquilo que o historiador pode e deve
generalizar são as perguntas, que podem ser colocadas em contextos
de temporalidades e espacialidades diferentes, deixando às situações
singulares a sua especificidade irrepetível. Em um mundo que não
acredita mais na possibilidade de encontrar fundamentos comuns e
universais, a indagação sobre como organizar os homens e dar sentido ao mundo de cada um continua a exigir de nós exercícios de
micro-história.

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PARTE I

A micro-história e
seus precursores

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1
Microanálise e história social*
Edoardo Grendi

1
No número 34 de Quaderni Storici, Villani e Romanelli retomam a
discussão sobre a história (social) contemporânea.1 O primeiro, um
típico “otimista”, tenta descobrir a nova alvorada em uma série de
trabalhos recentes de valor e coerência desigual; o segundo, um típico “pessimista”, pergunta-se por que a alvorada não chega e atribui a culpa disso aos esquemas práticos e mentais dos historiadores
contemporaneístas. Tal “reificação” acontece em duas direções:
contra a simplificação ideológico-política da análise marxista como
princípio historiográfico, e contra a simplificação teórica que deriva
da aceitação generalizada de categorias e de um modelo interpretativo destinados a explicar um processo histórico específico, como a
*

Tradução e notas de Henrique Espada Lima do artigo “Microanalisi e storia sociale”, publicado em Quaderni Storici, v. 12, n. 35, p. 506-520, ago. 1977. O texto é,
na verdade, uma intervenção em um debate sobre história social que acontecia nas
páginas da revista e seguiu textos publicados por Pasquale Villani e Raffaele Romanelli, dois historiadores da Itália contemporânea. O debate em torno da história
social continuou em outros artigos, mas este texto em especial acabou por tornar-se
uma referência central no debate sobre a microanálise social e, a partir daí, sobre as
escolhas metodológicas da chamada “micro-história” italiana.
1
Os textos a que Grendi faz referência aqui são Villani (1977) e Romanelli (1977).

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revolução industrial e o capitalismo ingleses. Consequentemente, a
crítica é dupla, no sentido de que uma simplificação se sobrepõe à
outra. Daí uma conclusão cética, temperada ou acentuada, como se
diz, por um tipo de escatologia historiográfica, confiada à microanálise. Menos dramaticamente, Villani, que prefere o “devir historicista”, vê na microanálise histórica um momento complementar e
subalterno a um trabalho de síntese, colocando explicitamente o
problema da reconstrução da estratificação social na escala nacional
em uma perspectiva de “grandes problemas” — mas sem indicar o
suporte analítico e os modos operativos. Um exemplo de “simplificação teórica”? Com efeito, os grandes problemas adquiriram certa
dimensão intuitivo-ideológica: um pouco como aquele sujeito que
invariavelmente responde às nossas perguntas remetendo-se à complexidade do real — o que, no fi m das contas, acaba sendo um convite para deixar para lá.
Uma atitude, de todo modo, bastante difundida: a história social
é identificada com a questão das classes, da estratificação e da estrutura social, partindo-se do pressuposto de que se trata de realidades
em si, objetais. A esse propósito cabe recordar a polêmica dos antropólogos (de Edmund Leach em diante) contra essa entificação da
estrutura — a estrutura de parentesco, por exemplo —, coerente
com o ponto de vista de E. P. Thompson, que nega essa realidade em
si à classe, propondo-a, ao contrário, como “relação”. Mas vale também o ensinamento que os historiadores podem tirar dos trabalhos
de Adeline Daumard e de seus colaboradores, nos quais as classes são
empiricamente articuladas nos grupos socioprofissionais, assim como
fazem os marxistas, que distinguem “classe em si” e “classe para si”,
tendo como base aquela discriminante “consciência” que precisamente Thompson resolve na relação (que ele tenha feito isso em
termos impressionistas e literários, essa é outra questão).
Se esse é, aproximadamente, o emaranhado crítico ante o qual nos
encontramos, é preciso considerar a possibilidade da pesquisa histórica
a partir de seu ângulo analítico. Não há dúvida de que a abstração em
termos de profissões e níveis de fortuna permite o máximo de agre-

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sexo. mas à revelação de base constituída pelos “formulários de recenseamento”. a diferença entre os objetivos dos historiadores de hoje e os das autoridades censitárias de ontem. J. um aspecto de relevância já comprovada. isto é. como o da correspondência entre a morfologia social e 4/12/2009 15:03:14 . prescindindo. Sublinhemos a passagem analítica do conceito de classe ao de grupo social: não sem razão Eric Wolf lamentou a carência de uma teoria dos grupos sociais na elaboração teórica marxista. o que acabou por confinar o conceito de classe a uma dimensão de pré-julgamento. Foster —. riqueza. em termos rigorosamente quantitativos.AF_livro final ok. portanto. Como deixar de lado. integrando-se dados (idade. obviamente. O recurso aos formulários de dados das famílias individuais é um pressuposto de toda integração prosopográfica e. dados e comportamentos. Vale a pena observar a propósito como a nova história urbana recorre sistematicamente não aos censos. que essa pesquisa acaba revelando sua própria qualidade abstrata. isto é. A. assim. cruzando.). da própria base concreta da pesquisa analítica. De modo que o projeto agregativo corre o risco de fraturar-se: o exame das relações entre grupos (e nos grupos) impõe uma rígida concretude socioparcial. partir dos censos elaborados significa já condicionar unilateralmente o trabalho. que remetem a um exame dos comportamentos: para qualificar tanto os grupos — por exemplo. das infinitas possibilidades das agregações ideológico-intuitivas. por exemplo. aliança/rivalidade etc. abstrair o social. de modo a exigir integrações complementares. Anderson. E esses grupos sociais podem ser qualificados diversamente. que propõem. manipuláveis a gosto. os “estilos de vida” ou os regimes alimentares — quanto à relação entre os grupos — como interagem. O fato é. o exame das solidariedades sociais. escolha no cônjuge. como um é reflexo da consciência do outro. Gostaria de recordar a Villani o interesse de algumas pesquisas recentes — Le Couturier. não analítico-operativa. envolver-se em um confronto estéril com as categorias de agregação das autoridades administrativas do passado. anteriores a qualquer elaboração: e isso corresponde a uma verdade óbvia. porém.indd Sec1:21 21 MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL gação geral (basta “contar”). profissões) e comportamentos (residência.

o problema cabe à história comparativa. Coloquemos uma simples questão: a industrialização distinguiu ou uniformizou as estruturas sociais? Posto nesses termos. e que a própria dinâmica das cidades contemporâneas repropôs e repropõe constantemente? O mesmo se aplicando ao exame dos comportamentos matrimoniais. na qual insistem de comum acordo historiadores antigos e medievais. pré-constituídos (as classes ou os grupos socioprofissionais retirados dos censos). isto é. torna-se difícil ver como proceder de outro modo que não através de uma série de case studies. da alfabetização. segundo os módulos correntes do modelo liberal-marxista. de resto. que poderá ser colocada uma questão igualmente importante como a do crescimento da escala social. ante o qual a microanálise vale como uma “suspensão do juízo. Nesse sentido. Esse é. os temas de análise têm por destino multiplicar-se também em termos qualitativos. o “sentido” para Romanelli. antropólogos e sociólogos. E é por esse caminho. da ampliação da unidade socioparcial relevante. de todo modo.indd Sec1:22 4/12/2009 15:03:14 . da politização e dos modelos de imitação. eventualmente. o “devir historicista”.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 22 a morfologia da ocupação do espaço. Villani parece postular que existe um mapa mudo de dimensões nacionais (o do censo) a ser preenchido com sinais conhecidos ou. Mesmo que ainda não saibamos como operar no domínio histórico-analítico para corresponder ao diagnóstico dos processos de unificação cultural em andamento como efeito de uma estruturação institucional articulada. o que opera aqui é o mesmo processo de simplificação teórica que Romanelli denuncia: a expectativa de que por esse caminho se possa chegar a quadros comparáveis no tempo. Aceite- AF_livro final ok. de fato. um tema recente da história demográfica. considerar tipologias. para depois. sempre prescindindo do espaço. Na base. e uma vez que faz obviamente referência a espaço e tempo. que exige certamente um maior esforço de trabalho. uma tomada de consciência da perda de sentido — que me parece o primeiro passo da reconquista de uma verdade”. que qualifiquem a dinâmica social como progresso. mas desde sempre um tema óbvio para a qualificação das homogeneidades dos grupos sociais. quando amadurecer uma metodologia adequada.

ou seja. Que a demografia faça isso recorrendo antes de tudo a números e. Digamos que se trate do “universo relacional”. às vezes. a qualificação de sua situação em um ciclo de desenvolvimento. histórias individuais suficientemente ri- AF_livro final ok. uma relação. parlamenti. a reconstrução das famílias permite a identificação desses núcleos-base. mais frequentemente. E ainda. mesmo com o risco de cair no ridículo da abstração mais grave. registros contábeis. considerados uma ilustração de uma operatividade analítica independente. a partir da utilização mais sistemática da própria fonte dos registros paroquiais. Na verdade. como contratos notariais. Com relação às teses que não dizem respeito apenas ao modelo do capitalismo industrial. censitário.indd Sec1:23 4/12/2009 15:03:14 . a partir do estudo de fontes até agora pouco utilizadas. por exemplo. identificando. a perspectiva de microanálise histórica que se tenta ilustrar aqui tem certamente um significado radicalmente contestatório. político. do campo das relações interpessoais. a disciplina que coloca seus problemas em relação direta com a sociedade total. operações que permitem mapear relações não secundárias. para contar eventos vitais é relativamente secundário. Existe assim a possibilidade de reconstruir histórias de família e. forçosamente válido para uma microárea. padrinhos de batismo e de crisma.23 MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL mos a apresentação retórica de uma inversão de valores (sentido/não sentido). Essa escolha explica o interesse pela história demográfica. aquela do concreto total. a posterior elaboração de genealogias. contábil. reconheço uma disjunção entre as teses teóricas do pensamento dominante às quais se refere Romanelli e grande parte dos produtos historiográficos. Cada informação exprime um dado ou. por alguma feliz coincidência de fontes. sobretudo. portanto. atos de jurisdição civil e criminal. 2 Vale indicar de imediato o “campo de interesse” específico. cadastros. testemunhas de núpcias. Os apontamentos daí derivados podem ser enriquecidos. De fato. atos privados que remetem a fontes “centrais” de caráter judiciário. antes de tudo. fiscal. em particular.

Isso. Apresenta-se nesse ponto um problema técnico específico: o de como recolher os dados e como elaborá-los — um problema que Le Couturier. relações de débito/crédito). discutiu há tempos e que induziu outros a declarar a morte do historiador-artesão. tratar dessa questão. comunidades etc. contratos de trabalho. De resto.indd Sec1:24 4/12/2009 15:03:14 . anterior à questão citada. e ainda reuniões de ordens e irmandades. insiste em que os dados do antropólogo não são apenas “o fluxo da vida social assim como se desenrola diante dos olhos do observador participante”. reconhecimento de débitos (dos mais diferentes tipos). como doações. isto é. um sentido cultural. aluguéis. arrendamentos. em geral. do que costuma se chamar de antropologia das sociedades complexas. testamentos. A. A linguagem e o tipo de relação documentadas valem como documentos históricos no sentido pleno da expressão: além de revelarem as relações entre dois ou mais sujeitos. quitações. estruturadas (por exemplo. o que justificaria o recurso a enquetes. W. universidades. Considero que o estudo das sociedades camponesas. técnicas AF_livro final ok. em particular. na medida em que atestam um costume ou uma tipicidade. mesmo tendo consciência de que o mapeamento documental das relações interpessoais corresponde apenas aproximadamente à pesquisa de campo. congregações religiosas. Podemos distinguir nele diversos tipos de informações. Douglass (1975). pode oferecer diversas sugestões e instrumentos conceituais operativos. de resto. comentando alguns desses trabalhos.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 24 cas — típicas ou excepcionais —. Não pretendo. não podendo seguir diretamente os muitos ciclos de atividade que caracterizam mesmo as menores comunidades. também por isso. procurações. têm. a rápida expansão dos estudos das comunidades europeias nos anos 1960-1970 e na década corrente colocou o problema específico da utilização das fontes históricas. mas da organização “conceitual” dos dados. breve demais. Consideremos o cartório. vendas. que é. O trabalho de campo é. sendo ainda possível pôr em relevo relações interindividuais contínuas. porém.

mas a ênfase característica na abordagem holística para o estudo do comportamento humano. o religioso..AF_livro final ok. O que ele entende por isso fica claro no capítulo 6 do seu People of the Mediterranean (1976). não obstante o fato de que. frequentemente correlacionados a disciplinas científicas específicas — a ciência econômica. o seu determinar-se no tempo e as suas relações recíprocas”. seja sempre necessário impor limites para demarcar a pesquisa em curso. o demográfico. por assim dizer. por óbvias razões heurísticas. —.indd Sec1:25 25 MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL de amostragem. autor de uma pesquisa sobre Pisticci. de uma relevância “analógica”. a demografia. que cria a possibilidade do emprego de conceitos e esquemas heurísticos ligados à supracitada abordagem holística e que tem consequências radicalmente críticas em contraposição a certos parâmetros setoriais que governam a pesquisa histórica e distinguem os campos de investigação — o político. Cole e Wolf (1974) defi niram a relevância da história a partir da experiência de campo: “uma história das estruturas relevantes para a nossa zona. na medida em que se trata de uma questão que comporta uma correspondente defi nição do trabalho histórico que não o considera apenas. Problemas como aquele. Mas é claro que não se trata de estabelecer uma relevância correspondente do presente com o passado. Nós nos colocamos no outro extremo dessa perspectiva de complementaridade. do planejamento familiar em uma sociedade camponesa de ancien régime evocaram recentemente elementos de necessidade. Douglass sustenta a complementaridade entre trabalho histórico e trabalho antropológico. portanto. o social etc. documentos escritos. Davis. É difícil. fala a respeito de um “uso criativo da história”.. entrevistas informais e diretas. contudo. mas. de modo redutivo. de caráter histórico-demográfico. encontrar desenvolvimentos ou exemplos posteriores desses temas e outros semelhantes. o econômico. como o do “familismo amoral” 4/12/2009 15:03:14 . não é tanto a metodologia. como a simples utilização de fontes escritas. O que distingue a antropologia das outras ciências humanas. de coerção cultural no âmbito familiar e social que podem se revelar congruentes com modelos de explicação geral.

que o encontro entre os historiadores e os antropólogos já está acontecendo. eventualmente preconcebido. as possibilidades de “revelações” (sobretudo nos documentos judiciários).EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 26 de Banfield (1958) ou o da “imagem do bem limitado” de Foster (1965). Por outro lado. de todo modo. Esse é um indubitável benefício do trabalho de campo: a possibilidade de se colher imediatamente as conexões entre fenômenos diversos. De todo modo. uma característica parece permanecer distintiva no caso do antropólogo: a projeção cultural mais ampla. de todo modo. analogicamente. Pensemos. mais difíceis de serem reconstruídas no domínio da história. também a elaboração de temas como o papel da inveja como mecanismo de controle social ou os valores de honra e vergonha no processo de conformação da comunidade podem mostrar-se pertinentes considerando-se diretamente a qualidade das relações interpessoais. entre o problema que é objeto de análise e “o resto”. Nesse campo. que este último planeje e oriente sua estratégia analítica geral (e sucessiva). no significado que o “ciclo de sucessão hereditária” assume no citado trabalho de Cole e Wolf. se a verificação do comportamento factual é comum às duas disciplinas. O historiador volta sua atenção mais insistentemente para os elementos de necessidade econômica. pode-se dizer. portanto. Caracteristicamente. na dicotomia que ele propõe entre ideologia e prática e. embora dirija sua análise também para o problema da distância entre os matrimônios no interior da família. divisão igualitária em Tret — para a organização das relações sociais nas duas aldeias alpinas como um todo. Mas.indd Sec1:26 4/12/2009 15:03:14 . Pelo menos na falta de sua precisa institucionalização e guardadas. é verdade que o modelo cultural geral pode privilegiar um diagnóstico sintético e intuitivo. lá onde o historiador parece destinado a justapor uma série de análises distintas: o que não impede. não plenamente circunstanciado pelas análises e. considere as fases críticas do ciclo familiar. juntamente com isso. na relevância da distinção ideológica — primogenitura em São Félix. examine as práticas de sucessão hereditária e coloque em relevo seu papel condicionante. o historia- AF_livro final ok. por exemplo.

a verificação das correlações não seja unívoca no interior de um grupo (qualificado pela correspondência das outras). Ver ensaios reunidos (após a redação original deste texto) em Barth (1981). Desse ponto de vista.2 27 MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL dor trabalha com muitos testemunhos indiretos: nessa situação. O próprio historiador-demógrafo registra fenômenos de divergência. precisamente por ser revelador. Sem dúvida. divergências similares de comportamento valem sobretudo para qualificar os grupos sociais. AF_livro final ok. resolve analiticamente o problema dos nexos indivíduo-sociedade. da cultura da comunidade. o que.indd Sec1:27 4/12/2009 15:03:14 . o do elite-broker. Um modelo de divergência de grupo nos vértices da comunidade (sendo a exogamia e a mobilidade de residência certamente alguns desses elementos) exprime um típico conceito antropológico. com relação à continuidade de residência e endogamia. para evidenciar regularidades diferenciais. Todavia. isto é. pode-se supor que a justaposição das análises não aconteça de forma congruente e unidirecional. Isso não impede que. por algum aspecto. um mediador entre a comunidade e a sociedade mais ampla: posição que tem uma importância estratégica fundamental para o sistema político local. fazendo registrar margens estatísticas de desvio quanto ao significado indubitável das congruências ou correlações. não basta considerar uma tipologia das comunidades — como fez Wolf —.2 Da perspectiva histórica. a orientação sincrônica comum às duas disciplinas sugere uma epistemologia funcionalista: o próprio tema diacrônico do ciclo familiar postula a reprodução cultural “simples” da sociedade que de algum modo resulta entificada na sua estrutura. mas multidirecional. o documento excepcional pode ser extraordinariamente “normal”. essa é a instância do assim chamado “individualismo metodológico”. nos vértices e na base da comunidade. permitindo a identificação de fenômenos de desvio como elementos inovadores ou desagregadores. apesar de ser um modo indireto de acolher o princípio da transformação (confronto de uma morfologia que postula a passagem de um tipo a outro). ou simplesmente marginais. isto é. Do ponto de vista da antropologia social.

Ver Foster (1965). Freeman [1973] — poderia. como a repartição. a troca econômica). relações mais bem enquadráveis na fórmula do “contrato diádico”. como de outros. sobretudo. e talvez ambos. quanto. aprofundando as tradições folclóricas. frequentemente ligadas à idade e diferenciadas pelo sexo. As alternativas “econômicas” que interessam a toda comunidade postulam um brassage demográfico de variada relevância e. Desse ponto de vista.5 De fato. Ver Davis (1975).EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 28 Não menos importante. a disposição ou a provisão de recursos de interesse comum.4 Assim como a história rural europeia parece indicar a extraordinária constância das associações territoriais — agregados de vizinhos não necessariamente aparentados —. a característica qualificação da sociedade camponesa como “sociedade e cultura parciais”3 não se limita ao fato dessa mediação. formas de mobilidade não definitivas. e Castan (1974). é mais bem caracterizada a partir de relações que indiquem homogeneidade (por exemplo.” Daí o interesse pelo estudo das formas de ocupação do espaço e a possibilidade de traçar um quadro móvel e funcionalmente diferenciado das referências socioterritoriais. derivar de um estudo amplo. acredito. essas relações postulam uma troca que. “Uma das máximas contribuições da pesquisa europeia à antropologia social — escreve S. as constantes de uma estrutura social distinta por sexo e grupos etários. horizontais. em alguns casos — como nos de 3 4 5 Ver Kroeber (1948). a troca matrimonial) ou de outras que indiquem assimetria (como. a história das sociedades europeias redescobre. O interesse por instituições como a clientela e o parentesco ritual — mais bem exploradas até agora pelos antropólogos — deriva do fato de elas permitirem fazer o mapeamento das relações interpessoais. no caso do parentesco fictício. em geral. De fato. pelo menos no contexto mediterrâneo. solidárias na execução de certos objetivos. a estrutura social tem necessariamente uma relevância espacial defi nida: como tal. histórico e etnológico das formas de organização comunitária. tanto verticais. AF_livro final ok.indd Sec1:28 4/12/2009 15:03:14 .

O conflito político. Em termos de análise econômica. que eles ofereciam tecidos velhos e grãos estragados a preços fi xados por seu próprio arbítrio. o que é absolutamente normal em uma sociedade pré-industrial: o mercado não só é restrito. pode ser sistematicamente documentada. Mas a “liberdade” do primeiro continua sendo uma função da estreiteza do mercado. parecem momentos de revelação da estrutura social subjacente. A dilatação dessas relações para além do espaço da comunidade amplia por isso mesmo a dimensão territorial da estrutura social para o nível de uma assimetria fundamental intracomunitária. na qual a comunidade de Monterosso — hoje pertencente à província de La Spezia —. como também ocasional. e tal ocasionalidade está estritamente ligada “àqueles” mercadores. parece-me útil mostrar as implicações da abordagem acima ilustrada em confronto com tal “ortodoxia”.indd Sec1:29 4/12/2009 15:03:14 . Que o preço do grão seja fruto de uma relação oferta/procura é no mínimo tautológico: de fato. a assimetria da troca deriva de um jogo oferta/demanda livre contra um jogo demanda/oferta prefi xado. a festa. protesta contra o fato de que eram sempre os mesmos mercadores que iam ao burgo. Cito uma súplica do fi nal do Seiscentos.29 MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL empréstimo de dinheiro —. 3 Uma vez que a ciência econômica constituiu até agora um suporte privilegiado para a pesquisa histórica. As análises tipicamente antropológicas do ritual e do simbolismo descobrem assim toda a sua relevância analógica para a pesquisa histórica. típico do lugar e um de seus poucos recursos. assim como. em troca de um vinho com preço defi nido pela administração. mas isso não quer dizer que AF_livro final ok. já exaustivamente mapeada com base na reconstrução sistemática das relações interpessoais. por outro lado. pode-se assumir preliminarmente que seja assim. sujeita às méte (impostos) aplicadas por Gênova ao vinho rossese. o que não exclui o aprofundamento analítico da estrutura específica da comunidade subalterna.

Essa era certamente uma constante importante nas transações comerciais pré-industriais e 6 Ver. que. não estavam em questão. que contrabalançaria em alguma medida o preço do rossese: e essa era. e é por isso que as relações de troca são um sinal essencial da articulação e da estrutura social. motivado pela inovação das méte. a variação-chave com respeito ao costume que resultou no protesto e na exigência. Mintz (1971). Os mercadores “acrescentavam” a seus produtos um lucro ad libitum. portanto. portanto. induz a postular uma adaptação. é razoável supor que a novidade administrativa se resolvesse na possibilidade de obter menos grãos com a mesma quantidade de vinho do ano precedente — abstraindo. em tempos “normais”. enquanto tais.indd Sec1:30 4/12/2009 15:03:14 . no que diz respeito às variações de produção que certamente aconteciam. exatamente como costuma acontecer. entre outros. Uma troca natural. parece não ter existido uma elite de negociantes locais (brokers ou intermediários com a sociedade mais ampla). mas não há dúvida de que. Mas o caráter excepcional do protesto. de compensações no tempo. não tinham alternativas. de outro tipo de relações interpessoais. AF_livro final ok. Como disse alguém. Os camponeses tinham necessidade de grãos e não tinham nada a oferecer senão seu vinho. Considerando que os dados da situação de troca eram elementares. de fato. criaram-se relações pessoais de mão dupla entre compradores e vendedores que poderiam incluir a possibilidade. sendo recorrentes essas visitas periódicas. No caso específico. não existe troca que não seja desigual. talvez mais difícil no caso de mercadores visitantes.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 30 a análise processual da relação deva ser posta de lado. Os pobres vinhateiros de Monterosso estavam cobertos de razão ao apresentarem sua situação em termos de uma relação interpessoal: não podiam esperar outros mercadores e. a solidariedade entre os próprios negociantes (o monopólio dos compradores). mas nesse caso não era possível contrapor uma contratação. utópica.6 Isso volta a se ligar com o que foi observado no parágrafo precedente. à situação de troca. mas reconduzida às medidas monetárias (condicionantes dos preços da méta).

que acabavam por favorecer a consolidação de uma elite de notáveis. negociantes e transportadores. Pode-se. de modo que não há motivo para privilegiar os esquemas da análise econômica no estudo dessas situações. mapear a clientela de um notável. E é evidente que se torna muito difícil fazer distinções entre relações sociais. Como se apontou antes. ligado também ao costume eventual de diferir e resolver no tempo as compensações monetárias. a liquidação de um débito é condição para um novo crédito.indd Sec1:31 31 MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL que acabava por reforçar o elemento pessoal da transação. e essas relações específicas podem ser investigadas de geração em geração. É possível intuir assim a possibilidade de haver uma correspondência entre clientela e endividamento. mais regular é a certificação ou a quitação de um débito. de modo que. por outro lado. as fontes cartoriais (e os documentos judiciário-civis) nos permitem reconstruir essas estruturas de dependência: se a transação mercantil não aparece senão raramente como tal. capazes de generalizar as próprias posições de privilégio econômico: grandes proprietários. sobre os quais os dirigentes podiam descarregar eventualmente o peso da conjuntura negativa. bem como de produtores e negociantes. inseridos nessa dimensão. assim. A análise e a relação entre os preços estão. assinalando crises imprevistas da estrutura social. considerar que o mercado mais amplo envolvesse sobretudo os grupos dirigentes (que assumiam uma função de “mediação”) e apenas indiretamente os subalternos. muitas vezes.AF_livro final ok. dadas as diversas urgências de vender e comprar entre produtores e produtores. A relação pode mudar de qualidade: os débitos podem ser consolidados em uma renda ou em uma venda que têm 4/12/2009 15:03:14 . a possibilidade dessas soluções era limitada. emigrações etc. Os inventários post mortem (sobretudo os redigidos para a divisão de bens comuns entre fi lhos) nos permitem. relações econômicas e relações políticas: na base dessa afi rmação está o fato de que as relações de significado “econômico” eram antes de tudo relações interpessoais. Apesar de tudo. deslocamentos de solidariedade. mas sempre em circunstâncias e segundo avaliações que não podem ser reduzidas à simples “racionalidade econômica”. através dos registros dos créditos.

Naturalmente. a troca de bens e serviços tem também suas dimensões horizontais. particularmente. da demanda? Considerando processualmente o esquema “vertical” que acabamos de delinear acima. nas quais a intermediação é particularmente desenvolvida e uma série de ligações diádicas preferenciais solidifica os canais de comércio através da institucionalização de relações interpessoais. Mas as transações horizontais vão além dessas trocas. porém. é possível encontrar transações minúsculas que dizem respeito não só a pequenas porções de terra. esse não me parece ser o caso. como se evidencia hoje em muitas sociedades camponesas.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 32 por garantia e objeto. entendida mais frequentemente como reciprocidade prolongada de serviços (trabalho). AF_livro final ok. em primeiro lugar. Chaianov (1966) nos explicou bem que o preço não corresponde ao valor da renda capitalizada. e que possibilidades estratégicas daí derivam. é preciso considerar se a análise econômica adquire maior significado quanto mais as referências a procura e oferta assumem caráter de “massa”. a terra. as transações 7 A pratik haitiana de S. é essa a dimensão característica da reciprocidade camponesa. Examinado analiticamente. nesse caso. Em particular. mas também à repartição de animais. todavia. portanto. de modo que o ex-proprietário torna-se um locatário ou arrendatário. um fenômeno mais difícil de ilustrar historicamente. Diremos com ele que o preço é simplesmente uma função da demografi a e. Mintz (1961). A ficção do jogo equilibrado entre oferta e demanda torna-se. uma vez mais. onde. mas também as divergências nos diversos níveis do objeto da transação. digna de riso. não se pode abandonar completamente e com a consciência tranquila o patrimônio de racionalização interpretativa dos processos sociais e a compreensão do curso da história que essa racionalização permite. São registradas. De todo modo. o mercado de terra evidencia não apenas — como mostrou Giovanni Levi (1976) — as lógicas dos ciclos familiares. Com efeito.7 É óbvio que essas práticas dificilmente podem ser encontradas no registro cartorial. assim como a débitos mínimos.indd Sec1:32 4/12/2009 15:03:14 .

Mintz). 4/12/2009 15:03:14 . Considerando a sociedade agrária como um todo. Isso no quadro de uma resistência comum das sociedades camponesas a uma monetarização radical das trocas que lhes interessam.indd Sec1:33 33 MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL de dote: a troca cruzada de despesas que permite economizar dotes representa para os mais pobres uma forma de reciprocidade rigorosamente balanceada. de modo que. enquanto as transações de outros bens comportem o emprego imediato de moeda. pode ser colocado o problema das unidades domésticas singulares que investem trabalho (não contabilizável em termos monetários) e obtêm bens destinados. em Man (1975): “a proteção do setor de subsistência é a base provável para a ideologia de muitas economias camponesas com relação às esferas de troca”. em geral. Riches. Podemos imaginar facilmente diferenças e limites entre as distintas comunidades. à defesa e à reprodução do status tradicional. Essa pode ser indicada como uma terceira linha de defesa da sociedade camponesa. e depois a troca horizontal que opera frequentemente como forma de mutualismo (S. objeções culturais. as transações de alguns bens comportem a sua resolução no âmbito do sistema de crédito. Com efeito. portanto. têm-se duas esferas de intercâmbio relativamente distintas. em parte por meio da sua conversão de mercado. do papel diverso da autossubsistência: o que pode significar também que certas transações encontrem. Como escreveu D. uma vez sabidos quais são os bens protagonistas dessas trocas. por exemplo. Daí a construção ex-post de uma hipótese homeostática fundada no malthusianismo. No nível microanalítico que aqui se propõe. o conceito antropológico de esferas de troca tem possibilidade de generalização também em uma economia monetária em que. a historiografia econômica coloca como fundamental o problema da relação entre população e recurso e. utiliza ampla escala territorial (de região para cima). que comporta uma orientação produtiva articulada e a desaprovação cultural de transações que lidem com bens alimentares de base.AF_livro final ok. como consequência da penetração diversa da economia mercantil e. depois da defesa da autossubsistência. nos distintos casos.

isto é. A dramática dialética entre população e recursos que serve como explicação do desenvolvimento histórico é uma simples hipótese que. AF_livro final ok. O que significa que a necessidade de chegar a uma irreparável e fatal “contradição” entre a comunidade e os recursos que dispõe não é necessariamente automática e inevitável. em Evolution agraire et pression démographique. 8 um modo de evidenciar o caráter “econômico” da estrutura social. entretanto. Com efeito. está presente.indd Sec1:34 4/12/2009 15:03:14 . Em outras palavras. 1975). Sahlins mostrou como a aplicação do modelo de Chaianov (defi nido pela evolução da ratio consumidores-produtores segundo o ciclo de desenvolvimento doméstico) não explica a continuidade de algumas sociedades simples. em parte. oportunidades “externas” (trabalho. deverá ser verificada nas diversas situações. Ainda que a base produtiva seja restrita e atomizada e origine.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 34 Na medida em que tal “status” é definido culturalmente a partir de termos eminentemente relacionais. pôde apresentar de modo inteiramente plausível a hipótese oposta. que se torna então inconcebível sem a presença de formas institucionalizadas de coparticipação (Stone Age Economics. além de tudo. 1972. uma solidariedade de destinos que explica em última instância as formas de integração social. por conseguinte. 8 Sahlins. Nas sociedades complexas. relevância “econômica”. atitudes culturais. diversificação da forma de exploração dos recursos. são as formas de organização social da comunidade que estão em questão e que têm. mercado). do mercado e da cidade. Tanto isso é verdade que E. Boserup (1970). é inverificável na escala territorial em que foi colocada. ela é representativa da tese que se afasta de outra grande projeção histórico-etnocêntrica da “civilisation” europeia: o desenvolvimento entendido como o triunfo progressivo do mercador. a comunidade — se é verdade que a família pode em certa medida controlar as suas próprias dimensões — pode adaptar-se e assegurar a sua sobrevivência de muitos modos. a mobilidade dos recursos de apoio ou substitutivos cresce por meio da intensificação do trabalho.

é a recondução da história a uma contextualização e a uma vocação analítica em que o objeto da análise é basicamente indicado pela série ou a rede das relações interpessoais. Mas isso quer dizer. a estrada mestra é indicada pelo estudo dos comportamentos ou das relações interpessoais (como paradigma de referência). não há por que haver ruptura entre história medieval e história contemporânea no plano teórico e metodológico. Assim. onde. em minha opinião. acredito que a abordagem conserva sua validade como perspectiva geral de história social. de modo mais ou menos explícito. sustentar que se tratam de perspectivas historiográficas gerais. como é mostrado pelos exemplos já indicados. enquanto provavelmente se perde em parte o benefício das convergências locais da documentação como material imediatamente utilizável para os fins das reconstruções prosopográficas. sem dúvida. em um setor se premia a novidade histórico-analítica. a escolha poderia cair também sobre um bairro urbano. que satisfaz ao menos teoricamente a “virtù” da abordagem holística. Mas mesmo prescindindo da escala da sociedade indicada. uma opção guiada. Se Romanelli denunciava a ancoragem das perspectivas historiográficas contemporâneas em um modelo unívoco e pouco “elástico”. acredito que com razão. pelo exemplo paralelo da antropologia. “ideológico” nesta acepção.indd Sec1:35 35 MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL 4 Retornamos assim ao tema inicial deste artigo. Daí a escolha de uma sociedade em escala reduzida como é a aldeia camponesa. O que se desenha. ao menos na Itália. podemos. Em princípio. 4/12/2009 15:03:14 . a microanálise social liga-se mais ao caráter da base de dados examinada do que à dimensão da área social enquanto tal. que análises mais seccionais e rigorosas podem ser multiplicadas. A “perda de sentido” é a recusa de um sentido largamente pré-constituído. Nesse sentido. no outro. largamente condicionadas pela economia como “ciência social mais avançada”.AF_livro final ok. aquilo que nós registramos hoje é um hiato gigantesco nos critérios de relevância da produção historiográfica. Obviamente. para a época contemporânea é mais abundante a documentação quantificada ou quantificável. Ao contrário.

funcional ou de associações). ou o ofício. de objetivá-la nos seus conteúdos de relação. AF_livro final ok. pode ser enriquecido indefi nidamente. o objetivo de uma historiografia social contemporânea é o de conquistar a distância cultural da sociedade que estamos vivendo. que foi aqui desenvolvido de modo muito parcial. a história medieval e mesmo a história antiga. venha sendo. de reconstruir a evolução e a dinâmica dos seus comportamentos sociais. E isso não pode ser atribuído à correspondência do objeto (sociedades relativamente mais “simples”). tais possibilidades podem apenas crescer e jamais diminuir. O crescimento da “administração” multiplicou as observações e levantamentos. Me parece indubitável que. capaz de estimular. são perfeitamente capazes de se tornar objeto de imprevistas iluminações histórico-analíticas. no âmbito da vida social contemporânea. não há motivos para prescindir). o lugar de eleição para o estudo dessas transformações? No fundo. De fato. hoje destinados ao descarte. mesmo tratando necessariamente de sociedades contemporâneas. há bastante tempo. Assim. é claro. considerando-os dedutíveis e reconhecíveis por meio de uma grade de teses e temas que são. ou a cidade. frequentemente. uma mistura de “ideias recebidas”. a argumentação que procurei ilustrar nesta intervenção equivale à defesa de um princípio: que a história social é a história das relações entre pessoas e grupos. O problema posterior e fundamental da identificação dos conceitos e das possibilidades operativas. e inumeráveis depósitos de documentação (seccional.indd Sec1:36 4/12/2009 15:03:14 .EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 36 predomina uma expectativa de síntese político-ideológica que descarta sistematicamente os processos sociais. E o que pode ser a história contemporânea senão uma história das transformações sociais? E por que deve ser o agregado-nação e não a comunidade. É significativo que a antropologia. mesmo que não utilizemos as indicações da história oral (das quais. sobretudo. o mesmo problema da social change foi discutido e ilustrado analiticamente pelos antropólogos.

The theory of peasant economy. Eric. Nova York: Harcourt. [Ed. 1975. n. apr. Ill. Londres: Routledge. dic. R. 620-624. Brace and World. ———. FREEMAN. William A. v. Peasant society and the image of limited good. LEVI. 1958. Ester. Paris: Plon. The moral basis of a backward society. Arlington. George M. BARTH. 4. 1961. WOLF. Natalie Zemon. p. Quaderni Storici.: American Economic Association. 37 MICROANÁLISE E HISTÓRIA SOCIAL REFERÊNCIAS CHAIANOV.. Yves. 247-269. p. Cambridge. Comparative Studies in Society and History.: Culturas do povo: sociedade e cultura no início da França moderna. v. 743-749. Issues in the study of South Italian society. 1966. Fredrik. American Anthropologist. 13. 67. v. Kegan & Paul.indd Sec1:37 4/12/2009 15:03:14 . 1990. 1970. People of the Mediterranean: an essay in comparative social anthropology. n. n. apr. 33. v. Aleksandr Vasilevich. Edward C. Society and culture in early modern France: eight essays. Ed. Cal. 1974. 1976. 1974. Ill. dec.] DOUGLASS. 3. L. 11. by R. American Anthropologist. women and trade. Proceedings. 1965. Homewood. 1. BOSERUP. The hidden frontier: ecology and ethnicity in an Alpine valley. CASTAN. n. MINTZ. 75. 1. Nova York: Academic Press.: Stanford University Press. Evolution agraire et pression démographique. Paris: Flammarion. A. v. 2. 1973. Stanford. In: ANNUAL SPRING MEETING OF THE AMERICAN ETHNOLOGICAL SOCIETY. Giovanni. 1975.095-1. AF_livro final ok. Honnêteté et relations sociales en Languedoc. Process and form in social life: selected essays of Fredrik Barth. Pratik: Haitian personal economic relationship. Seattle. Chicago. John W.. 16. Terra e strutture familiari in una comunità piemontese del’ 700. n. Arlington. Londres: Routledge & Kegan Paul..BANFIELD. p. John H. Current Anthropology. 293-315. Seattle: University of Washington Press. Glencoe. 1715-1780. Introduction to studies in rural European social organization. COLE.121. p. 1976. Irwin. 1971.: Free Press. 2. DAVIS. p. Bolonha. D. Susan. 1948. Anthropology. Rio de Janeiro: Paz e Terra. FOSTER. 1961. bras. KROEBER. Men. DAVIS. 1981. Sidney.

Marshal. 12. VILLANI. p. Quaderni Storici. n.: Aldine. 34. Stone Age economics. 1977. Bolonha. 230-248. Chicago. 12. 1972. n. v. v. 1977. Ill. Bolonha. apr.indd Sec1:38 4/12/2009 15:03:14 . Pasquale. Quaderni Storici. p. 34.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 38 ROMANELLI. 215-229. Problemi e prospettive di ricerca: la storia sociale dell’Italia contemporanea. Raffaele. AF_livro final ok. Storia politica e storia sociale dell’Italia contemporanea: problemi aperti. apr. SAHLINS.

Antonio Gibelli. portanto.indd Sec1:39 4/12/2009 15:03:14 . mas como uma operação política subordinada às suas certezas teóricas. AF_livro final ok. “Paradossi della storia contemporanea” foi publicado originalmente em maio de 1981. que incluiu ainda contribuições de Sergio Bologna. no máximo. ∗ Tradução de Henrique Espada Lima. Vittorio Foa. enriquecida. É paradoxal. Isso nos faz pensar que o historiador da idade contemporânea parte de um sistema conceitual de certezas quase absolutas e considera o trabalho histórico não como uma operação analítica capaz de descobrir nexos significativos e propor interpretações. a uma interpretação geral e preconcebida que será sustentada ou. assim. em Turim (Itália). e. Maurizio Carbognin. Federico Bozzini. pelas próprias características do seu objeto. Giovanni Levi. Gabriela Bonacchi. atravessada mais do que qualquer outra pelas várias perspectivas das ciências sociais e pela miríade de interrogações da consciência presente. em uma coletânea intitulada Dieci interventi sulla storia sociale. A origem do volume foi a organização das intervenções em um debate promovido pela editora sobre as tendências e instituições da história social e das classes subalternas na Itália. participou do debate. Edoardo Grendi. que havia escrito sobre o movimento operário inglês e o trabalhismo britânico.2 Paradoxos da história contemporânea* Edoardo Grendi A história contemporânea é. Dora Marucco. Luisa Passerini e Franco Ramella. lançada pela editora Rosenberg & Sellier. que ao menos na Itália ela se apresente como a mais repetitiva e a menos inovadora.

é perfeitamente congruente com os parâmetros curriculares (e com as orientações políticas). a arte e a política do Renascimento. o capitalismo maduro. seja qual for seu sentido. caracteristicamente opcional e capaz de ditar escolhas de relevância absoluta: a sociedade democrática. E o historiador é o funcionário desta instituição. sub-repticiamente. A interrogação será a mesma. de todo modo. E a seletividade teleológica do tema da civilização segue normalmente como um trator. os bispos. mas é fácil intuir que a escolha das relevâncias seria diferente. ampliariam em alguns centímetros a sua consciência se tivessem conhecimento de “como chegamos aqui”. absorve e unifica. ser novamente escrita a cada gera- AF_livro final ok. o objeto se torna. a revolução proletária. sejam quais forem as contradições. os milênios da conquista cultural: a matemática dos babilônios. positivo ou negativo. na verdade. o estudioso. os monges e os mercadores da Idade Média. ainda mais clamorosa porque o único “aqui” histórico simples é a personalidade do indivíduo singular. a revolução industrial. proclamando que a história deve. a fi losofia e as artes dos gregos. e a retrospectiva é o desenvolvimento. a própria biografia. Imaginemo-nos no dia seguinte à catástrofe nuclear. um funcionário que se considera “cientificamente” resguardado. na medida em que tem uma capacidade de dilatação infinita no espaço e no tempo retrospectivo da “grande história” e postula uma escolha de escala não reversível. Na prática é uma proposta de aculturação ao nosso eurocentrismo mais comum: este é o verdadeiro sentido da história como disciplina institucional.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 40 O estatuto da história não é nem mesmo colocado em discussão: o historiador é um especialista que deve explicar o passado e responder à banal questão: “Como chegamos aqui?”. a vanguarda. Mas aqui onde? O advérbio é.indd Sec1:40 4/12/2009 15:03:15 . Por outro lado. Noção retórica. as descobertas geográficas. o cidadão. a revolução científica. a civilização. como disse. assim como é retórica a sua projeção educativo-política: assume-se que o indivíduo. na celebração das sínteses. ou ao menos isso podemos desejar aos sobreviventes. a lei dos romanos. A noção do “aqui” é sempre uma noção retórica. as instituições políticas. o partido.

O padrão científico do trabalho. em uma perspectiva interpretativa diacrônica. Enquanto a chave funcionalista organiza “todo o empírico” segundo a teleologia do equilíbrio. aspirando assim. paradoxalmente. ministros ou prefeitos. as mesmas que enfatizam a relevância do mundo dos partidos políticos. privilegiando invariavelmente as questões ideológico-políticas. nesse caso. podemos imputar ao historicismo um defeito análogo àquele imputado ao funcionalismo: “tudo se sustém mutuamente entre si”. O mecanismo da seleção cultural opera de forma perfeitamente paralela ao mecanismo da exclusão. a uma hegemonia também cultural. mas nunca analisada). uma hiper-racionalidade própria. O macroteleologismo historiográfico é o ponto de conexão dessa homogeneidade. a chave historicista organiza teleologicamente as relevâncias (os Estados. a registrar a confl itualidade (afirmada. Seja qual for a confl itualidade. é referi- 4/12/2009 15:03:15 . assim. as relações de produção) segundo uma sucessão lógica. Quando não são deputados. É muito mais normal e frequente que sejam os historiadores medievais e modernos a escolher temas mais variados. de fato. em outras palavras. talvez graças à inspiração de disciplinas irmãs. mesmo quando não praticam o exercício conhecido como “cavalgada nos séculos”: a verificação pontual está no fato de que eles respondem muito raramente às indagações do presente (exorcizadas como o “campo das ciências sociais”). não por acaso estão amplamente envolvidos nas instituições de informação (jornais. Os contemporaneístas aparecem como as vítimas predestinadas deste estatuto da história. Curiosamente. Qualquer sistema social adquire. A opção da grande escala espaçotemporal responde bem a esta exigência.AF_livro final ok. televisão).indd Sec1:41 41 PAR ADOXOS DA HISTÓRIA CONTEMPOR ÂNEA ção. a renovar. a descobrir novas fontes e novos objetos. expelindo todo o resto e limitando-se. a verificar hipóteses e questões novas. a abrir novos canteiros de pesquisa. obtida da distribuição do poder no interior do próprio sistema. o aparato conceitual e as interpretações. Mas consideremos empiricamente o trabalho histórico corrente. o que conta é o seu êxito e esse responde à lógica de uma organização posfactual dos acontecimentos. tanto em um caso como no outro.

que reproduz o debate político. contestado. E pelo menos neste caso estamos diante de um contraste entre diferentes estatutos da história. assim como o esquema das relevâncias explicativas está já predefinido. fontes criminais ou greves singulares e depois disso refazer ou repetir o enésimo manual. O contemporaneísta parece ignorar esta antinomia: o episódio individual vem de tal modo carregado de valores ideológicos que nem mesmo interessa mais enquanto tal. a mesma amplidão de opções temáticas. imitado. a instituição ou o debate ideológico: tudo dentro de uma estrutura analiticamente esgotada e dominada pelas classes e pelos partidos. a possibilidade absolutamente livre de selecionar e organizar as relevâncias. não se torna campo específico de análise. para o enquadramento dos fatos e fenômenos históricos. com os mesmos elementos de gratuidade. desde que por isso não entendamos equivocadamente uma acusação de parcialidade e se tenha presente que a crítica refere-se antes ao tipo de orientação mental que a ideologia representa quando opera como omnicompreensividade de categorias prontas para o uso. isto é. De resto. em meio ao esotérico e o oracular). também de uma orientação ideológica. a propósito da orientação macroteleológica. mas não refeito a cada geração. e o mesmo vale para toda instituição interessada naquele etnocentrismo do qual tira sua autojusti- AF_livro final ok. Dentro deste campo da história contemporânea. que toda sociedade civil é autocelebrativa. A história termina por ser redimensionada a uma experiência cognoscitiva como as outras. ou seja. acredito. capaz de elevar o estudo singular a um valor ilustrativo geral. Pode-se dizer.indd Sec1:42 4/12/2009 15:03:15 . uma das manifestações mais deprimentes do nosso tempo (os discursos de Moro. Podemos falar. Os temas mais comuns são o événémentiel. Não está mais em questão uma síntese que não se fará jamais. voltando a contar o costumeiro périplo secular do homem. e um trabalho histórico pode vir a ser discutido.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 42 do à sua qualidade analítico-imaginativa. não se vê porque o historiador deveria condenar-se a uma perpétua esquizofrenia: ocupar-se de cadastros. a escolha entre as interrogações mais ou menos relevantes já está feita. as entrevistas de Berlinguer.

apontado por Braudel como justificativa para uma macroanálise histórica (e. A história. move-se entre a elaboração analítica e as verificações empíricas. Em todo caso. E a instituição educativa encarrega-se de transmitir o conforto desta pseudoconsciência: como “missão” e não segundo esquemas de hipóteses-verificação didáticas. combinada à grande escala temporal. e 4/12/2009 15:03:15 . o cientista. a resolver-se em um grande afresco de racionalização posfactual. e sobretudo a história contemporânea. não por acaso. me parece. mas as verifiquem criticamente sobre o corpo social e cultural que é objeto da própria transformação. Ninguém gostaria de negar o significado da macroanálise — mormente em uma época em que as estruturas de interdependência entre fenômenos diversos em escala mundial parecem tão evidentes — como referência aos modelos interpretativos da politologia e a economia enquanto suportes analíticos. mas essa escolha é voluntária. corifeu das instituições e da sociedade civil. uma geopolítica descritiva do intercâmbio desigual. arrisca-se. isto é. está completamente envolvida nesta celebração de idola. fica evidente que os objetivos analíticos são somente alcançados através da reconstrução das relações em cadeia que não deduzam as mutações do impacto externo. E é por meio deste ângulo de visão que o historiador se faz funcionário.AF_livro final ok. parece fatalmente propor uma teleologia da “civilisation”. foi proposto aos economistas do crescimento pela densidade das realidades socioculturais (“etnológicas”). A perspectiva da grande escala espacial. sem que seja colocado o problema da mudança social que. no entanto. O tema bem-sucedido da economia-mundo. devemos concordar que a função da modelística não é a de mecanicamente simplificar. reduzindo realidades de relações a simples nexos de causa-efeito: exatamente porque um modelo é válido enquanto propõe uma articulação de variáveis.indd Sec1:43 43 PAR ADOXOS DA HISTÓRIA CONTEMPOR ÂNEA ficação. O romancista quer ser lido. e o seu papel de aculturador se dilata universalmente. As ambiguidades de tal papel são inesgotáveis. serializado pelos mass media em uma sucessão de imagens exclamativas sobre o homem europeu). Não está em questão uma oposição entre macro e microanálise. com finalidades ideológico-políticas. por outro lado.

E isso é possível graças a um genérico consenso retórico inteiramente superficial. As ênfases alternativas são ou a tradicional acentuação pragmática do protagonismo. a estrutura. e que também não é suscetível de ser discutida logicamente. as “histórias de vida”. em que a retórica se torna cumplicidade (ou seja.indd Sec1:44 4/12/2009 15:03:15 . Fora destas antinomias. como se faz com o texto fi losófico. não é determinado pelo cálculo. E sobre o terreno da didática deve-se observar que nenhuma matéria de ensino é mais distante da fórmula de “laboratório” quanto a história. biografias. ou pelo menos. Observemos. o que de algum modo assimila o historiador ao papel do romancista. O historiador oscila entre a gratuidade de um trabalho sem leitores e a sacralidade ridícula de um educador geral que se subtrai às verificações concretas do seu papel didático. que está em operação uma certa convergência de avaliações que se dirigem ao micro: cito o recente boom de histórias da família. histórias de momentos e episódios individuais. E isso vale também para a sociedade contemporânea. um sentido provocador. seu papel parece encontrar um consenso unânime. um certo efeito de provocação. o exemplo francês sugere que o público prefere histórias particulares. já que normalmente este se funda sobre AF_livro final ok.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 44 ainda que marginalizado. o modelo de uma história social como prosopografia generalizada. entretanto. A proposta da microanálise histórica tem aqui. como se viu. ou o incentivo à curiosidade: todas operações confiadas ao capricho (ou mesmo à preguiça) do docente. claramente. me parece que vale a pena desenvolver as implicações de um estatuto alternativo para a história. É provável que a história com estatuto analítico possa constituir uma referência idônea para a refundação da didática. a técnica de estudo fundamentada na análise de microepisódios e na reconstrução de biografias ilustrativas. estupidez. No que diz respeito ao mercado. Um único episódio da crônica do cotidiano pode fornecer elementos para a determinação das estruturas de uma sociedade: o que vale dizer que o repetitivo. e em proveito oportunista). ou o exercício de uma complexidade com um fi m em si mesmo. que propõe um confronto com uma narrativa que não pode descompor-se como se descompõe o texto literário.

funções desempenhadas. ainda que reconheça que se mantém em pé para este fi m também a relevância crucial dos papéis de mediação com a sociedade externa. Em terceiro lugar. e que postulam. Em segundo lugar está a análise da estrutura política. rupturas. é preciso redescobrir toda a utilidade das fontes qualitativo-narrativas. A projeção sobre elas do modelo mercantil (demanda/oferta=preço) supõe um procedimento de abstração que corresponde a três perspectivas fictícias: 1) a ficção de que se trata de uma situação temporalmente determinada. é feita em função de uma mais completa reconstrução das estruturas de dependência internas. alianças parentais e familiares. símbolos de prestígio. que se encontra vinculada a um nexo complexo constituído por sentimentos de identidade coletiva. as compensações débito/crédito etc. a partir do elemento primário da instalação da habitação. a venda vinculada. 2) a ficção de que a transação seja o resultado de um confronto específico. colocando-nos assim o problema de uma relação entre produtores e comerciantes: é claro que a pré-venda. que é de tempo médio. da crônica do passado. por outro lado. as transações econômicas que incluem serviços e bens. as relações interpessoais: isso vale para os grupos sociais e para as comunidades. A escolha de escala da microanálise é exatamente em função dos objetos analíticos propostos.. permitindo assim estudar concretamente a mudança social. do mesmo modo que as outras relações. que constitui o nexo de correspondência entre o agregado social e o espaço.indd Sec1:45 45 PAR ADOXOS DA HISTÓRIA CONTEMPOR ÂNEA elementos que emanam dos processos de relação. grupos formais e informais de gestão da universitas e da comunidade. e papéis inovadores.AF_livro final ok. Partamos da hipótese de que a transação tenha por objeto um bem produzido. A opção pela segunda. Nesse sentido. isto é. 3) a ficção de que este confronto não tenha determinações espaciais. continuidades. também é evidente que a razão da troca ocorre em 4/12/2009 15:03:15 . conferem às transações uma dimensão maior. compensações no tempo. ou seja. A fidelidade ao contexto tem um significado heurístico preciso: antes de tudo possibilita a reconstrução em termos dinâmicos da estrutura social que postula um sistema de papéis.

especialmente à fábrica. Podemos realmente dizer que o preço/salário é fi xado por uma oferta/demanda de trabalho? Com certeza não pode ser provado ou negado que uma escolha voluntária tenha um papel na determinação do nível do salário. entendida esta última. gesto ou rito. A continuidade ou a renovação das formas expressivas coletivas constituem certamente um problema. já que se trata de compreendê-las e apreender seus significados. portanto. não por acaso. O proletário. E tudo o que dissemos sobre a transação de um bem produzido vale também para o bem trabalho. de mineradores etc. E tudo isso cria a oportunidade da intermediação. de fato. os mecanismos muito humanos da imigração e da admissão. em uma circunstância onde não estão presentes opções alternativas relevantes fora da área social dessa mesma troca. não é um trabalhador eventual. De resto. violência coletiva. demanda e oferta confrontam-se em uma rede de relações interpessoais: por uma parte. também como uma pirâmide de rendimentos. Naturalmente. por um lado. E é por todos esses elementos que o indício de uma transação assume um significado revelador do conjunto da estrutura social. certamente o grupo social. mais ou menos ligados entre si. pois trata-se sempre de tecidos de relações interpessoais inseridos em contextos sociais mais amplos. organização.). que lhe outorga então a ocasião para uma AF_livro final ok. formas diversas de delegação e subarrendamento a terceiros. por outra. e isso oferece uma continuidade de referência com relação ao seu ambiente de trabalho. Em quarto lugar. que é um tema inesperado.indd Sec1:46 4/12/2009 15:03:15 . do seu significado sociocultural contextual: apenas desse modo poderemos capturá-lo como orientação de valor. Mas o problema central é o da função do fenômeno expressivo e. em um processo coerente que recoloca o problema do próprio sujeito histórico: se não sempre a comunidade (que pode ser uma comunidade de produtores industriais-têxteis. a cultura.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 46 função da profundidade dessas mesmas transações. Certamente a relevância destas temáticas não é válida apenas para os estudos do Ancien Régime. mas também ação social. tal expressividade não é apenas palavra. Seu significado encontra-se.

apenas um pouco mais sofisticado do que o desejo do político. governado pelo desejo de etiquetar. o que temos que reconstruir são sempre as relações entre pessoas. Deve se observar aqui que há um singular paralelo entre o uso da categoria “mercado de trabalho” e o uso da categoria “consciência de classe”. sobretudo. pois só deles é possível extrair a presença operante de valores sociais. seja no nível de agregados mais amplos. que notoriamente se ocupa de outro ofício. De fato.indd Sec1:47 47 PAR ADOXOS DA HISTÓRIA CONTEMPOR ÂNEA socialização específica. Não é por acaso que uma das propostas mais sugestivas e mais discutidas de história social tenha sido e seja aquela que enfatiza as relações entre os grupos familiares (ou de residência) e os grupos de trabalho. uma situação de industrialização. portanto. o que equivale a uma análise dinâmica da estrutura social. não é possível pensar a atribuição de uma qualificação tão tipicamente cultural como “consciência de classe” fora de um estudo dos comportamentos. Os modelos que lhe são oferecidos são altamente formais: isso exatamente para permitir apenas aquele amplo enquadramento das evidências empíricas (etnológicas) necessário para operar as necessárias construções morfológicas. quer tendo como referência uma situação regional de protoindustrialização. tão difícil para o nosso historiador contemporaneísta. ou. o estudo dos grupos sociais comporta a análise complementar da sua cultura. Donde. à luz do bom-senso. assim como também a referência evasiva à complexidade das situações — que aparecem tão vaga e metafisicamente “complexas” precisamente porque não foram verdadeiramente consideradas de uma maneira analítica. portanto. seja no nível do grupo de qualificação. qualquer exploração analítica posterior: uma circunstância extraordinária se considerarmos que. Não é por acaso que emerge esse problema histórico da cultura. 4/12/2009 15:03:15 .AF_livro final ok. Antes de uma teoria geral das classes sociais. tanto em sentido vertical quanto horizontal. o historiador deve verificar uma teoria dos grupos sociais. no sentido de que a sua simples evocação parece esgotar os objetivos da pesquisa e bloquear. Formalmente. esse necessário ajustamento àquilo que deriva e alude falar todo o tempo de uma certa “diferença”.

classe. isso não justifica seu determinismo. Assim. de “adaptação”.. a mulher. isto é. tantos campos de especialização. Recordo que a instância da microanálise parte exatamente do confronto com a tendência triunfante de explicar o comportamento dos grupos sociais ignorando-os. Uma nova prova dos danos de uma ortodoxia historiográfica pode ser encontrada na emergência das temáticas “à parte”. De fato. que responde a hipótese de princípio sobre a unidade sociocultural que é o grupo-comunidade. capaz de resolver a assinalada ambiguidade de algumas categorias interpretativas. Esta me parece a perspectiva de uma coerente imanência. A hipótese alternativa é a de uma reconstrução das configurações da sociedade como um todo a partir do grupo-comunidade. o contexto. portanto. a classe dirigente se apresenta como composição e decomposição de grupos. de uma precedente opção por uma hierarquia de relevâncias. por exemplo. O mercado é apenas um dos seus componentes. A ação social.. E é a esta última referência.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 48 Mercado. AF_livro final ok. comportam uma escolha em um campo de alternativas limitadas que constituem a “fábrica da realidade social e psicológica do homem”.indd Sec1:48 4/12/2009 15:03:15 . O que normalmente se objeta à microanálise histórica é que não se pode explicar o comportamento do grupo isolando-o. concebidas como um conjunto de elementos que se encontram temporariamente fora da síntese (e que teriam que ser. É nesse sentido que a referência à microanálise histórica vale como um sinal de forte coerência de uma metodologia geral para a história social. que serão de todo modo restituídos ao fundamento comum do contexto sociocultural.. assim como a ação individual. sob o ponto de vista do perfi l politológico. não muito bem dissimulada. estado. reabsorvidos no futuro). mesmo que admitamos um papel efetivo do mercado. como aquela. a mentalidade. o tema do “privado” repercute pela historiografia: a vida cotidiana. estas categorias da macro-história cuja apologia soa como uma explicação “em última instância” ou “fundamental” — o que vale como uma tradução. consciência de classe.. a partir da reconstrução analítica das experiências coletivas: os próprios mediadores se configuram como grupo social e.

de resto. confi rmação dos meus diagnósticos. todavia. e inesperada. na verdade. E é. Tudo isso me parece sóbrio e sensato.AF_livro final ok. 4/12/2009 15:03:15 . E esse é. a construção de quadros morfológicos. do adulto) se satisfaz ou é estimulada pelas sínteses interpretativas periodicamente revisadas que deveriam enriquecer a consciência histórica e civil (a aproximação é comum) do aluno? E por que não? Aquilo que importa nos termos do sentido histórico é a consciência de dimensões socioculturais outras com relação à cultura social em que vivemos: reencontros possíveis para ponderar um pouco mais a fundo sobre a especificidade do presente. na minha opinião. parece valer como uma feliz. a síntese entre a lógica histórica e a atenção ao indivíduo e ao episódio. cujo tratamento implica elaborações teóricas formalizadas. indicativo do universo mental de alguns historiadores contemporaneístas que a história social se tenha conectado com o tema da Autonomia: o que.indd Sec1:49 49 PAR ADOXOS DA HISTÓRIA CONTEMPOR ÂNEA E insistamos na hipótese de que os resultados da micro-história poderiam representar algo muito próximo ao modelo de didática-laboratório que estamos tentando alcançar. O elemento-guia é a referência a um quadro social global. o sentido profundo de uma convergência entre formação histórica e formação antropológica. E quem nos diz que a mente do adolescente e do jovem (e.

indd Sec1:50 4/12/2009 15:03:15 .AF_livro final ok.

ao qual. Na área mediterrânea é possível incluir nesta categoria de direito débil pelo menos três tradições — o direito canônico. em relação com os sistemas jurídicos que. Galmarini e para o português de Ronald Polito. em oposição à ação dos juízes com respeito ao caráter central do poder legislativo soberano. 103126 e reproduzido com a permissão da revista.3 Reciprocidade mediterrânea* Giovanni Levi 1 Se quisermos empregar o conceito de reciprocidade em sentido concreto e não meramente formal. chamarei de direito débil. LX/1. Portanto. chamarei sistemas de direito forte. p. parece-me imprescindível incluí-lo em um marco amplo de relações jurídicas e econômicas relativas a um tempo e a uma região de referência específicos.indd Sec4:51 4/12/2009 15:03:15 . outra vez inadequadamente. sistemas jurídicos nos quais predomina a jurisprudência sobre a lei. AF_livro final ok. buscarei mostrar de que modo esse conceito assume sua especificidade na Idade Moderna. núm. o direito islâmico e o direito talmúdico — que extraem de princípios gerais de origem religiosa as bases imutáveis às quais se re∗ Publicado originalmente em Hispania (Madri). 204 (2000). ou seja. Tradução para o castelhano de Marco A. utilizando uma expressão inadequada.

entre irmãos. Portanto. a justiça na desigualdade será o marco no qual se inserirão as formas específicas da reciprocidade neste esboço. entre grupos sociais.. é preciso dizer que o ponto de partida destas reflexões é um campo concreto de investigação que se pode adotar como exemplo para compreender a importância do problema que me proponho. Quais são. entre gêneros. entre gêneros. de incremento das rendas nem de disposição de novos bens. Há tempos que estudo o consumo em Veneza de 1500 a 1700 para responder a uma pergunta que parece essencial para compreender a sociedade de Ancien Régime. as formas que adota a justiça em uma distribuição desigual de bens em que os valores de equidade se chocam com os de igualdade? Em minha opinião. idiomaticamente. pois. a saber: como se estrutura o consumo em uma situação em que as diversidades — e sobretudo as diversidades de consumo — entre irmãos. AF_livro final ok.indd Sec4:52 4/12/2009 15:03:15 . ao mesmo tempo. Contudo. E a primeira análise destes sistemas pode orientar-se de acordo com três princípios: reciprocidade. para uma sociedade que governa seus comportamentos mediante um idioma — só um idioma. por exemplo. equidade e analogia. Brewer e Porter (1993). não se pode propor a questão das formas de reciprocidade sem se referir a sociedades complexas em cujo centro se encontram os mecanismos de solidariedade que caracterizam um projeto social baseado na justiça distributiva e. Um estudioso da sociedade de Ancien Régime que particularmente se ocupa de países mediterrâneos.1 Pelo contrário. que se legitima nas codificações — de igualdade entre herdeiros. trata-se de um problema 1 Cf. aceita e racional. se construíram estrategicamente para garantir a sobrevivência? E também como se passa desta sociedade onde a desigualdade é estratégica. a chamada revolução do consumo não é na realidade um problema de quantidade.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 52 ferem as práticas jurídicas. entre grupos sociais e. que pretende ser mais uma primeira reflexão teórica que a exposição de uma investigação verificada nos fatos. na rígida hierarquização social. como com farta frequência os historiadores têm opinado.

a própria ideia de reciprocidade.3 a saber. Do mesmo modo.53 RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA de lenta transformação cultural da desigualdade estratégica em igualdade idiomática. Em uma sociedade governada pela justiça distributiva. 1977:61-74.indd Sec4:53 4/12/2009 15:03:15 . complica-se inclusive o modelo polanyiano de reciprocidade. e todo intercâmbio de bens pode parecer o resultado de uma reciprocidade equilibrada ou generalizada segundo quem realiza o intercâmbio e com quem. transformação que requer uma profunda revolução cultural que implica. Levi. todo intercâmbio mercantil teoricamente equilibrado pode considerar a determinação do preço segundo os níveis sociais e as relações dos contratantes. o movimento recíproco e bilateral através do qual passam os bens no intercâmbio: não se trata só de reciprocidade generalizada ou equilibrada. AF_livro final ok. é impossível examinar uma sociedade que põe os valores puramente econômicos acima dos valores de boa vontade e amizade. 1996. isto é. por uma justiça que aspira a garantir a cada um o que lhe corresponde segundo seu status social. conceito que governa alguns dos sistemas jurídicos dos países mediterrâneos e certos aspectos profundos da cultura e da estrutura antropológica do sentido comum de justiça das populações mediterrâneas. Polanyi. e provavelmente simplifica. na qual a relação de dom e contradom resulta menos importante que o sistema global de intercâmbio em uma sociedade governada por um sistema aceito de justiça da desigualdade. Desta forma.2 2 No centro do discurso devemos pôr a equidade. mas de uma multiplicação de reciprocidades possíveis nas quais — nas relações de cada grupo com todo outro grupo e no próprio seio de cada grupo ou no limite das relações de cada pessoa com todas as outras — as interpretações da reciprocidade se multiplicam de acordo com significados complexos que misturam tipo de reciprocidade e nível social dos protagonistas do intercâmbio. 2 3 Cf.

Em segundo lugar — e como consequência —. Para observações muito interessantes sobre a distância entre a interpretação do direito do antropólogo e do jurista. ainda que com significados diversos devido à distinta atenção que uma e outra prestam à igualdade. como se se pudesse explicar as práticas sociais através das leis e dos códigos exclusivamente. pelo contrário.] É preciso perguntar-se qual é a ação mais justa à luz da verdadeira justiça”. anulada pelo juiz. Natalia Ginzburg (1990:2).EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 54 de dom e de contradom. Mas o confl ito entre rigor da lei e equidade se manifesta especialmente na dificuldade frequentemente comprovada para aceitar a impessoalidade da justiça. AF_livro final ok. tanto no terreno jurídico como no econômico. destacar que.5 que tantas vezes se discute em nome de uma concepção de equidade que talvez estivesse já latente à margem dos sistemas jurídicos formais. sem ter em conta se sua fi nalidade é construir uma sociedade de iguais ou se.indd Sec4:54 4/12/2009 15:03:15 . mas que agora tem a possibilidade de se expressar: a indeterminação dos limites que se põe à lei e o papel do juiz em relação com a lei ocupam o centro da 4 O importante livro de Clavero (1991) me parece que subestima a necessidade de inserir o dom e o contradom no modelo geral de sociedade — hierárquico e protegido — que aspira construir a segunda escolástica. veja-se Geertz (1983). Sobre este tema foi publicado um livro exemplarmente representativo do sentido comum de justiça. de uma concepção de justiça em confl ito com as instituições estatais. tentou — sem êxito — relançar a questão em outro país católico.4 Queria. o qual é antes uma paradoxal figura retórica que um conceito operativo. provocou uma autêntica insurreição popular com uma manifestação de mais de dez mil pessoas perante o Ministério da Saúde e conseguiu que dois juízes municipais se pronunciassem a favor de que o sistema sanitário público se encarregasse de uma terapia sua contra o câncer que havia se demonstrado ineficaz. Recentemente. Há anos houve um caso de adoção ilegal. A cultura social católica e amiúde também a socialista. falam com frequência de capitalismo solidário. todavia. um médico. em que pese a importância de seu reflexo nas práticas políticas. o doutor Di Bella. que sustentava precisamente que “o fi m de proteger a universalidade dos meninos não justifica uma ação cruel realizada sobre a pessoa de um só menino [. Apagado o caso na Itália.. se trata de um problema vigente na sociedade atual. além disso. 5 Na Itália são frequentes os movimentos de repúdio às leis em nome de um sentido indefi nido de justiça mais justa que a lei. Duas coisas não partilho com Clavero: a insuficiente avaliação do sentido comum de justiça. escrito por uma conhecida autora. a Argentina.. se propõe confi rmar uma estrutura social hierárquica. que deu lugar a uma discussão que se prolongou vários meses. a insuficiente avaliação da permanência. nos comportamentos políticos nos países católicos de hoje.

tenho a impressão de que os sistemas jurídicos dos países católicos e dos islâmicos. A defi nição da área que temos chamado mediterrânea. aplicação e interpretação da lei caracteriza de uma maneira muito particular a história cultural dos países do Mediterrâneo. A relação entre elaboração. contudo. Excluiria deste modelo a França. A debilidade das instituições em relação ao sentido comum de equidade parece associar-se a um papel particularmente forte de tradições políticas de origem teológica e à permanência. para o uso da analogia. Certamente não de modo unívoco. na consciência comum. para o papel corretivo dos juízes no sentido da equidade na hora de aplicar a casos concretos a lei demasiadamente geral. não se tem alcançado estabelecer uma separação e uma hierarquização nítida a favor das instituições do Estado sobre a presença de instituições religiosas.AF_livro final ok. trata-se de um problema de caráter mais antropológico que estritamente histórico-jurídico. O papel do sentido comum de justiça difundido entre as pessoas que vivem nesta área parece particularmente confl itivo em relação com os sistemas jurídicos que se foram constituindo sucessivamente.indd Sec4:55 55 RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA crise da justiça em muitos países europeus. Hoje retornam ao centro do debate jurídico e político tanto a intervenção da jurisprudência na elaboração do direito propondo interpretações. pode encontrar-se em todas as realidades nas quais. repito — muito espaço para as interpretações jurisprudenciais. em que pesem os esforços realizados. têm deixado — com grandes variantes. não obstante sua dificuldade e sua grande arbitrariedade. da imagem de um pluralismo jurídico que na multiplicidade das fontes de produção das normas vê em realidade a possibilidade intersticial de mover-se com relativa liberdade entre sistemas normativos contraditórios. cada um deles já debilitado e erodido pela própria multiplicidade. 4/12/2009 15:03:15 . porque a formação do Estado moderno neste país através do absolutismo defi niu precocemente a supremacia das instituições do Estado também no sentido comum de justiça. enquanto tradição jurídica do judaísmo. Portanto. como a consciência da impossibilidade de individualizar uma interpretação única do texto.

102 (1998). Nesta reconsideração da relação entre justiça e história. M. 4-52. para alcançar seu encargo. o próprio Polanyi vê uma estreita relação entre reciprocidade e equidade: Para retornar à reciprocidade. Y. por exemplo. Então os membros do grupo A poderiam estabelecer relações de reciprocidade com suas contrapartidas do grupo B e inversamente. o dossiê Verité judiciaire. não só se tem visto implicado o debate recente sobre a ética e a justiça como equidade. vérité historique.6 3 Mas partamos de Polanyi. o que remete a difíceis operações analógicas e a apelações a imagens universais de equidade. entre tarefas do juiz e tarefas do historiador. Hartog. Apesar de que os comentaristas não o tenham observado e de que não se possa encontrar neste autor uma elaboração ampla do conceito de equidade. senão com os membros correspondentes de outros grupos com os quais se encontram em relações análogas. com artigos de F. ou bem se pode dizer que três. Thomas e P. Baruch. como também a própria prática historiográfica recente. subdividir-se em subgrupos simétricos cujos membros respectivos pudessem identificar-se reciprocamente enquanto tais. Gaudard em Le débat. um grupo que decidisse organizar as relações próprias sobre essa base deveria. AF_livro final ok. a remissão ao sentido comum acerca do que é justo.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 56 Uma última consideração sobre a importância do problema. o que 6 Cf. quatro ou mais grupos são simétricos com relação a dois ou mais eixos e que os membros desses grupos não têm por que praticar necessariamente a reciprocidade entre si. a difundida prática de processar a história e o papel jurídico (mais testemunhos de experts) que se tem confiado aos historiadores nos processos recentes por crimes contra a humanidade. Y. p.... têm voltado a pôr sobre a mesa problemas complexos de relação entre sistemas positivos de leis e sistemas éticos.indd Sec4:56 4/12/2009 15:03:15 .

tende claramente a desalentar as manifestações de egoísmo econômico nas relações de reciprocidade baseadas no dar e no receber. as atitudes de reciprocidade darão lugar a instituições econômicas de certa importância. Só em um ambiente organizado simetricamente.indd Sec4:57 4/12/2009 15:03:15 . E a regra das sociedades que se baseiam na reciprocidade não será senão a adequação: 57 RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA dá vida a uma cadeia ilimitada de reciprocidades sem que exista Enquanto nosso sentido de justiça busca a adequação em termos de castigo e recompensa. a não ser por esta simetria. Neste caso. pois. O grifo de equidade é meu. De fato. é diferente da atitude stricti juris da lei antiga. portanto. o pózinho dos atos de reciprocidade. Com frequência o comportamento adequado é o que se inspira na equidade e na consideração do outro. Naturalmente.8 7 8 Polanyi. em consequência.reciprocidade alguma entre eles. segundo um cerimonial que impede qualquer noção de equivalência. um sistema. que pode ser exemplificada na insistência de Shylock em ter sua libra de carne. a pessoa justa é a que se encontra em uma posição de simetria. 1977:64-65. de dom e contradom. Seja qual for a razão da elasticidade que leve a preferir a equidade ao rigor. os movimentos recíprocos dos bens reclamam a adequação em termos de dom e contradom. e. que “tem lugar em ocasiões diferentes. Um sistema de reciprocidades não é. seria impossível o funcionamento do conjunto das ações de dar e receber implícito em um sistema de reciprocidade. AF_livro final ok.7 As formas de integração devem criar. O costume dos dons recíprocos não vai quase nunca acompanhado de rígidas práticas contratuais. porque com frequência as atitudes pessoais individuais carecem de efeitos sociais”. adequação significa sobretudo que a pessoa justa deveria recompensar um dom com o objeto de tipo justo no momento justo. ou que pelo menos parece inspirar-se nela. Polanyi (1977:66).

um rigor referido à simetria que governa o conjunto do sistema. ou o fi lho responde bem às atenções paternas. nenhum deles poderá aspirar a outra mercê. cometerão AF_livro final ok. entre mensurabilidade das equivalências e arbitrariedade relativa do intercâmbio de dons e contradons: também a equidade tem de ter sua medida. porque já a recebeu. mas se o príncipe. e fez o que devia fazer. impulsionados por aquela obrigação natural. mas que remete a uma percepção social que os protagonistas possam identificar e que mantenha a equidade de uma relação de intercâmbio entre pessoas desiguais. o soldado serve bem a seu príncipe ou ao capitão pelo soldo estabelecido. lhes fazem um donativo. e a institucionalização de classificações sociais de sociedades hierarquizadas não bastavam para garantir o funcionamento de um sistema de integração baseado na reciprocidade. o capitão. Uma medida que se deve estabelecer caso a caso. delicadeza no serviço ou atenções. suficientes para sistemas sociais mais simples. de quem recebe o salário. o patrão ou o pai. garantia da justiça distributiva. em um sonho provavelmente irrealizável. da solidariedade e do dom-contradom. com capacidade para apresentar-se em juizo. uma vez superadas as pequenas dimensões das comunidades nas quais operam simetrias mais limitadas. em relação com uma diligência particular. que os juristas chamam antidoral. que os juristas explicam como ação civil. Muitas vezes o todo que se dá será consequência desta justiça (distributiva). mesmo quando a mistura de mecanismos de integração baseada na redistribuição se propusera conviver com uma sociedade em que as células básicas — família e comunidade — puderam continuar operando através da reciprocidade que emanava da boa vontade e da amizade. o criado serve bem a seu patrão. E contudo — e nisto não estou de acordo com Polanyi — não se tratava de um conflito entre rigor e adequação. em estrito rigor de justiça comunicativa. quer dizer. A força de um poder central. transação a transação.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 58 Durante muito tempo.indd Sec4:58 4/12/2009 15:03:15 . ou lhes concedem outra mercê. as sociedades complexas islâmicas e católicas tiveram a reciprocidade entre suas imagens centrais. por exemplo. distinto da equivalência.

da mesma maneira em que se dá nos raios ou nas linhas. e é regra bem proporcionada por muito que seus raios ou linhas se distanciem do centro. A lei existe. segundo as condições e os méritos. AF_livro final ok. como tira de outros. que comporta injustiça ao tirar dos meritórios e dar aos que carecem de mérito”. de fato.indd Sec4:59 4/12/2009 15:03:15 . onde têm origem todo raio e toda linha. porém é distinta para todos. Contudo. mas vício de prodigalidade. o bem limitado a distribuir em sua perfeição. A justiça distributiva. porém não sem esta condição. se assemelha a uma esfera cuja circunferência está regulada por 59 RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA um ato de justiça distributiva contanto que o exerçam com seu centro. mas os méritos e deméritos produzem variações na longitude dos raios. sem perda da proporção devida. 1740:54-65. sem os quais esta não existe. se pode dar maior distanciamento. requer o rigor da proporcionalidade geométrica. porém no modo de quem tem o poder para exercê-la.9 Portanto. “posto que o dar ou o premiar sem mérito não será ato de virtude de liberdade. não arbitrária. o mérito ou o demérito são o centro desta justiça. A esfericidade da justiça distributiva é uma metáfora: a esfera é a totalidade. E isto é precisamente o que requer uma proporção ponderada. Portanto.aquilo do que podiam dispor livremente sem molestar as posições de outro e na devida proporção da circunferência a seu centro do mérito. E também é uma metáfora a imagem com que De Luca nos descreve a justiça comutativa e a proporcionalidade aritmética: 9 De Luca. a medida é a proporção. O cardeal De Luca parece aqui imaginar um mundo de bens limitados no qual todo ato de generosidade não só premia alguém. que pode defi nir-se caso a caso através da avaliação que só uma autoridade pode determinar. Porém se trata de uma medida exata.

as instituições temporais “relinquuntur humano arbitrio”. com sua função corretiva e de controle. Portanto. Mais em geral. seus sistemas políticos não são criações de Deus. seja qual for a forma pré-selecionada entre a pluralidade de formas que a comunidade dos homens possa assumir. por sua conta e risco. encarnação do poder diretivo e coativo de Deus. Villey (1985). devem tender ao bem comum político prescrevendo as virtudes e combatendo os vícios. 1740:66. para a consecução de seus fi ns sobrenaturais. mas também na coerência entre os comportamentos individuais e o modelo geral que a sociedade prescreve. dos quais continuamente se distan- 10 11 De Luca. mas fruto de seu livre-arbítrio. que para estar em equilíbrio deve ter tanto peso em um prato como no outro: e em consequência. porém. de acordo com a lei. nenhuma das quais deve ser maior que as outras.10 Portanto. os homens se aventuram. a justiça comutativa se assemelha à figura qua- EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA drada. na empresa prescrita de formar uma sociedade política e econômica.11 Muitas vezes. cf. AF_livro final ok. que a cada um se dê o seu e o que lhe é devido. corresponde a tarefa de controle e de atração para dirigir os homens. Porém esta liberdade está sob tutela: como meninos que experimentam sua relação com a realidade sob o olhar atento dos pais.indd Sec4:60 4/12/2009 15:03:15 . não só no seio da relação entre indivíduos se pode apreender a medida. que por necessidade requer a igualdade e a proporção das linhas. E neste caso se trata das prescrições da teologia e da moral cristã em suas implicações políticas: se não há na revelação divina nada do qual se possa deduzir uma política especificamente cristã. Cf. mas não mais nem menos. os que têm se ocupado da antropologia política das sociedades católicas do Ancien Régime têm se surpreendido perante o caráter aparentemente libertário das regras sociais: os homens são completamente livres em suas eleições. ou então à balança. Villey (1991). porém à Igreja. a liberdade dos homens deve estar presidida pela superioridade moral da Igreja.60 Pelo contrário.

apesar de serem excelentes ambas as coisas. porém não o é segundo a lei.indd Sec4:61 4/12/2009 15:03:15 . A aporia é produto de que o equitativo é justo. é uma correção do legalmente justo. Cf.13 por exemplo. uma aparência de incomensurabilidade nas relações de reciprocidade porque há uma aparência de liberdade absoluta. a não ser os que tendem a favorecer a circulação de bens e o bem-estar coletivo e desigual. a equidade é um ideal que não se mede sobre a base de regras abstratas. como podemos caracterizar mais detalhadamente este conceito de equidade? 4 É obrigatório remontar o conceito de equidade (epiéicheia) a este conhecidíssimo fragmento da Ética a Nicômaco: O justo e o equitativo são o mesmo. Há. predominem a amizade e a boa vontade e no qual cada um tenha o que lhe corresponde segundo equidade.12 Na realidade. AF_livro final ok. Em consequência. pelo contrário. mas de juízo por parte da Igreja em seu papel de tutora. o equitativo é melhor. Sendo assim. conservando a proporção relativa a seu status. Skinner (1978:199-253) sobre o renascimento do tomismo. ou seja. não são objeto de medição por parte dos atos particulares. em que. e Clavero (1991). mas sobre determinados temas é im- 12 13 Skinner. mas sobre a base de referências ao processo geral de melhora progressiva da sociedade rumo a seus destinos sobrenaturais.61 RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA ciam enquanto pecadores. Causa disso é que toda lei é universal. e. só é aparente: é a liberdade do pecador sob tutela. pois. o aspecto libertário da doutrina católica que vendem Skinner e Clavero. portanto. Porém. 1978:213. nela se oculta um sentido determinado de justiça que se mede em função da adequação na criação de uma sociedade hierarquizada e corporativa em que não são justos os atos econômicos que têm como fi nalidade o enriquecimento. senão que.

Por- EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA tanto. nos casos em que é necessário pronunciar-se de maneira universal. livro V. a de ser correção da lei na medida en que esta perde valor por causa de sua formulação geral. melhor dizendo. acentuam a desigualdade de uma sociedade hierárquica e segmentada. não que o justo em absoluto. porém. Na sociedade de Ancien Régime. o equitativo é justo e é melhor que certo tipo do justo..62 possível pronunciar-se corretamente em forma universal. defi nida e estável. mas que. Ética a Nicômaco. quando não para cada pessoa.indd Sec4:62 4/12/2009 15:03:15 .] Portanto. 14. uma pluralidade de equidades segundo o direito de cada um ao qual se reconheça o que lhe corresponde sobre a base de sua situação social e de acordo com um princípio de justiça distributivo. o conceito de equidade era o protagonista central de seu sonho impossível — ou...] Portanto. p. 5-25. pelo contrário. em uma justiça do caso concreto determinado segundo as desigualdades sociais defi nidas. quando a lei se pronuncia em geral. sem ignorar o erro [.14 Porém o conceito surgiu e teve importância em sociedades que não reconheciam a igualdade entre cidadãos abstratos — segundo a qual a lei é igual para todos —. por outro lado. em que conviviam sistemas hierárquicos correspondentes a diversos sistemas de privilégio e de classificação social: portanto. é impossível fazê-lo corretamente. Nela a impossibilidade não se sustentava tanto no confl ito entre aequitas y aequalitas quanto no sonho de que cada um fosse classificável com exatidão em um papel ou em uma condição social unívoca. a lei tem em conta o que sucede ordinariamente. AF_livro final ok. A lei difere para cada estrato social. mas que o erro que tem como causa a formulação absoluta. E esta é a natureza do equitativo. já impossível — de construir uma sociedade justa de desiguais.. 14 Aristóteles. porém no âmbito da ação sucede algo que vai contra o universal. é justo corrigir a omissão ali onde o legislador deixou o caso incompleto e errou porque se pronunciou em geral [.

em contrapartida.indd Sec4:63 4/12/2009 15:03:15 . esforços desprendidos justamente para defi nir de maneira estável condições sociais às quais se reconhecem privilégios específicos. de espanhol e mestiça. embora sem atribuir-lhe natureza antijurídica ou ilícita. pela reafi rmação de um sistema adquirido diferenciado e equitativo de preços. que reproduz “a sociedade de castas” e que trata de classificar os efeitos das mestiçagens e das mestiçagens de mestiçagens entre índios. de espanhol e castiza. na qual convivem muitos sistemas normativos no esforço de conhecer o que é justo para cada um.63 RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA Frequentemente se tem imaginado na história do direito a equidade como mero instrumento com eficácia derrogadora do direito. segundo Edward P. pense-se no gênero pictórico mexicano que floreceu nos séculos XVII e XVIII. O mesmo ocorre com as revoltas anonárias básicas. para confi rmar e não para modificar a estrutura social. Não poderíamos compreender as revoltas camponesas da Idade Moderna se as concebêssemos como revoltas contra um sistema estratificado e não como destinadas a obter o justo e equitativo para os camponeses no seio de um sistema de desigualdades aceitas. me parece que a equidade — ou. brancos. ou “de índio e mestiça nasce coyote”. Até que ponto os cardeais que administravam a anona romana tinham presente o problema do preço justo dos alimentos é mostrado em Martinat (1999). mas não movimentos igualitários ou contrários à existência do mercado. me parece que acentuar a equidade contribui para explicar os esforços classificatórios que caracterizam a sociedade de Ancien Régime. Varano (1989:1-14). por exemplo. as equidades — são a própria raiz de um sistema jurídico que aspira organizar uma sociedade estratificada. Além disso. negros e orientais: “de mulato e mestiça se produz mulato tornatrás”. AF_livro final ok. porém móvel. Guarino (1960:619624). Thompson. espa- 15 Veja-se. melhor ainda.15 Para mim. melhor. Para dar um exemplo extremo. ou “de espanhol e índia nasce mestiço. 16 Thompson (1993).16 para a interpretação da economia moral do povo e que são precisamente revoltas pelo preço justo ou. as sínteses: Calasso (1966:65-68). castizo.

18 AF_livro final ok. Uma interessante casuística neste sentido. ao chegar como prófugo em Estrasburgo. não só indivíduo a indivíduo. grifo. e que. albino. 1999:339. chino. jenízaro. García Sáinz. Os arquivos dos tribunais do Ancien Régime estão cheios de procedimentos nos quais os protagonistas fazem seu jogo intersticial mediante a reivindicação de diferentes pertencimentos para gozar de diferentes privilégios.indd Sec4:64 4/12/2009 15:03:15 . pois.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 64 nhol”. quando na realidade nenhum deles dois jamais praticou o ofício em cuja corporação tinha sido inscrito. pode ser vista em Groppi (1999).19 Eram simplemente qualificações para existir: “no discurso medieval da cidadania. como também situação a situação. no te entiendo. ahí te estás. coyote. calpamulo. mourisco. tenté en el aire. barcino. a classificação das mestiçagens chega a uma lista paradoxal que compreende criollo. embora fictício. zambo. zambaigo. cabujo. por 17 Cf. tornou quase proverbial a desconfiança dos historiadores nas qualificações corporativas. dois séculos e meio depois. evidente no último caso. Além da necessidade. mulato. a visibilidade do sujeito está mediada. Cf. Mas os homens recebem muitos papéis ao mesmo tempo e criam realidades ambíguas que requerem equidades diferentes.18 Que Dante Alighieri estivesse inscrito no grêmio florentino dos médicos e dos boticários. salta-atrás. ou se inscrevem em classes impróprias pela exigência de ingressar no esquema classificatório requerido para gozar do mesmo privilégio de existência jurídica. chamizo. tornatrás. 1989. mestiço. com referência aos tribunais civis romanos. para fazer manipulável. entrasse no grêmio dos alfaiates. um processo que do contrário seria infi nito. albarazado. jíbaro lobo. João Calvino. cholo. de fechar o círculo com o retorno ao espanhol.17 Este esforço revela a impossibilidade de se criar uma classe para cada diferença e a ilusão de que todo indivíduo podia ser incluído em uma classe segundo uma regra uniforme de atribuição. 19 Berengo. castizo. também Ago (1998).

1966. Comecemos pela equidade canônica que ilustram. Escolherei três momentos como particularmente significativos. com particular atenção ao significado político de longa duração do conceito. Tenho a impressão de que precisamente nas sociedades mediterrâneas não predominou nenhuma destas orientações. em Gaudemet (1994) deixa-se de lado por completo a importância do problema. Pelo contrário. Lefebvre. outros ordenamentos — os que acentuam mais o papel dos tribunais e da jurisprudência — tendiam a fazer da equidade um instrumento central da interpretação e da aplicação da lei.21 P. Fedele22 e. prescreve diretamente como 65 RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA seu pertencimento ao corpo”.23 a quem remeto também para uma análise mais profunda. porém entre uma e outra se seguiu uma história própria e paralela nas atitudes e nos sistemas informais de direito. P. contrapondo a inflexibilidade e a imobilidade abstrata da justiça divina à especificidade da justiça humana. senão sua importância tanto para os sistemas jurídicos como para a elaboração dos sistemas políticos e a realidade antropológica das sociedades do Mediterrâneo. Neste momento só me urge destacar que a equidade é um elemento central de um sistema normativo que.indd Sec4:65 4/12/2009 15:03:15 . 21 AF_livro final ok. embora não nos ordenamentos. 1999:19. Lefebvre. 23 Grossi (1995:203-222). 20 Costa. reduzindo-a em realidade a instrumento perigoso ao qual recorrer unicamente em casos extremos de ausência de regras no campo civil. 22 Fedele.20 mesmo quando esse pertencimento ordenado fosse fictício. Contudo. Grossi. Ch. toda a história do conceito de equidade pode ser sintetizada em dois processos contrapostos: enquanto alguns ordenamentos — quase todos os dos Estados modernos continentais — tendiam a deixar de lado toda referência à equidade. por exemplo.5 Mas o que agora me interessa não é a história do conceito jurídico de equidade. 1951a.

E isto nos permitiria esclarecer melhor em que sentido é católica a razão de Estado católica.indd Sec4:66 4/12/2009 15:03:15 . como faz. na prática canônica. um fim fundamentalmente positivo. como também da tradição jurídica canônica.26 Precisamente nos limites da dissimulação se apoia o problema central de sua legitimidade e sua honestidade. AF_livro final ok. passando por Maquiavel. E disso nasce uma complexa série de normas de comportamento para o juiz canônico. Portanto. Em particular seria muito útil — e só o digo de passagem — ver em que medida as doutrinas católicas da razão de Estado e a discussão sobre a dissimulação honesta tomavam muitos de seus elementos constitutivos não só da tradição estoica.24 A dissimulação tem. e especial atenção à ratio peccatum vitandi e ao periculum animae. da conformidade da razão à teologia). 1951b.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 66 dever do juiz a aplicação da lei de acordo com os princípios da rationabilitas (isto é. Villari quando comenta Della dissimulazione onesta. ligado precisamente à gestão da justiça em estrita referência à contextualização dos casos singulares.25 tanto que “também o mundo da oposição e da resistência ativa ao poder recebeu e fez sua uma técnica elaborada oficial e exclusivamente para a ação de governo”. nestes termos: “Concebida pelo pensamento clássico e medieval como problema eterno do homem. de Torquato Accetto. da salus animarum e da charitas. Tampouco me parece que encare este problema Borrelli (1993). por exemplo. O que se traduza em técnica de governo ou de resistência ao poder. 1987:25. não me parece suficiente vê-la como técnica política de domínio. Villari (1987:18). em função de uma melhora moral geral. entre mentira e verdade. da relação entre aparência e realidade. limites que têm sua definição na prática jurídica católica. Olivero.27 24 25 26 27 Lefebvre. 1953. em fins do século XVI e durante o século seguinte foi considerada sobretudo como um aspecto específico da vida política e do costume da época”. a tolerantia é no essencial a dissimulatio. Villari. não afeta no fundamental a relação da razão de Estado católica com as origens jurídico-canônicas. que tanta importância terão nas doutrinas políticas dos séculos XVI e XVII: por exemplo.

e em particular à monarquia absoluta. A referência é também à equity do sistema jurídico inglês. verdadeira norma constitucional não escrita. penetrarão na ordem jurídica da sociedade civil. e sujeitos bem encarnados. a solicitarão. ao transbordar 67 RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA Grossi fala da os termos fechados da sociedade eclesial. não se resolve em uma sucessão de concepções jurídicas: de fato. a consequente e forçosa elasticidade deste e o importante papel do juiz que o aplica: eis aqui pontos fi rmes que. no sentimento comum convivem “nossa igualdade formal. é pura substância […] a unicidade do sujeito — do sujeito civil abstrato — é um futurível das invenções iluministas.28 Mas vale a pena destacar que não se trata tão só de relação entre ordem jurídica canônica e civil. Convivência complexa que. portanto.indd Sec4:67 4/12/2009 15:03:15 . abstrata. A equidade não se proporá sem gravíssimos confl itos: a conciência que a equidade contrapõe à própria concepção de Estado moderno. AF_livro final ok. o modo de relacionar-se com o Estado e suas instituições. a impregnarão. 29 Grossi. pouco a pouco abrirá ca- 28 Grossi (1995:216). o sentimento constante da mutabilidade do direito humano. pois nos distanciaria demasiadamente desta análise mediterrânea. que contudo não estudaremos aqui. pelo contrário. de imersão nos fatos”29 e.notável influência do direito canônico clássico no desenvolvimento de toda a juridicidade ocidental. portanto. A posição central da equidade canônica. Não existe aqui o sujeito. o modo de perceber o justo e o injusto das sociedades católicas e. não obstante os ordenamentos e as codificações. como é o do sentido comum de justiça. com toda sua carga de faticidade. mas os sujeitos. de status e de papéis diferentes. ou seja. igualdade jurídica de sujeitos na realidade desiguais e que continuam sendo desiguais apesar da cínica afi rmação de princípio” e “a igualdade que a aequitas pretende garantir e que. 1995:179. senão também de influência da concepção de unidade em um campo menos defi nido.

(mas) sua confirmação e sua provisão [. Tradução livre de “La premiere marque du prince souverain. ni de pareil. c’est la puisssance de donner loi à tous en général et à chacun en particulier [.30 30 Bodin.] A terceira marca de soberania é a de instituir os principais funcionários [. AF_livro final ok.] la puissance d’octroyer gráce aux condamnés par-dessus les arrêts et contre la rigueur des lois.... nem de semelhante. ni de moindre que soi [.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 68 minho para si...] La cinquiéme marque de souveraineté [.] Ce n’est pas I’élection des offi ciers que emporte droit de souveraineté....] A quinta marca de soberania [. capítulo X. que na interpretação dos juízes de acordo com a equidade via precisamente uma ameaça ao próprio princípio de soberania: na base mesma das teorias absolutistas reside a contradição que deriva da interpretação da lei e da aplicação equitativa das normas como modo de operar dos juízes...] sem consentimento dos maiores. os bens. No primeiro livro de La République. c’est á savoir du dernier ressort..indd Sec4:68 4/12/2009 15:03:16 .] A segunda marca de majestade [..] declarar a guerra ou tratar da paz [..] L’autre marque souveraine. por cima das sentenças e contra o rigor das leis.] La seconde marque de majesté […] décerner La guerre ou traiter la pax [.. 10. soit pour La vie..] La troisième marque de souveraineté est d’instituer lês principaux offi ciers [...] sans le consentement de plus grand. cada vez será mais evidente a explícita contradição entre o poder do juiz na aplicação equitativa da norma e da segurança do direito... nem de menor em relação a si mesmo [... qui est et a toujours eté l’un des principaux droits de La souveraineté [..] o poder de outorgar graça aos condenados. A primeira marca do príncipe soberano é o poder para dar a lei a todos em geral e a cada um em particular [. Les six livres de la République..] Não é a eleição dos funcionários o que comporta direito de soberania. soit pour le rappel du ban”... soit pour I’honneur. J. Da mesma maneira. soit pour les biens.. a honra ou o regresso do desterro. 6 Podemos exemplificar isto com Bodin. (mais) la confirmation et provisión [. livro I.] A outra marca soberana é a instância última. Bodin defi ne “as verdadeiras marcas de soberania”... cap.. que é e sempre tem sido um dos principas direitos da soberania [. seja para a vida..

Mas em que consiste a equidade para Bodin? Ele o esclarecerá no capítulo VI do livro sexto.. livro I.] S’il y a coutume ou ordonnance au contraste.Mas entre as marcas de soberania.. na qual cada um tem direitos diferenciados e todo semelhante em status deve unir-se e ser tratado com seus semelhantes.. precisamente em função da exclusividade dos direitos que defi nem a soberania. em contrapartida. Tradução livre de “Mais entre les marques de souveraineté. Portanto. o que dissolveria a soberania. momentos e pessoas. primeiro entre todos e do qual os outros aspectos são só especificações. il n’est pas en la puissance du juge de passer par-dessus la loi.] Porém o Príncipe pode fazê-lo se a lei de Deus — única limitação da soberania — não é expressa a respeito. Só um aspecto da equidade escapa ao soberano: poder para passar por cima da lei. são inalienáveis. se consente que faça as leis. a equidade. típica da sociedade aristocrática e hierárquica. 10. não se consente aos juízes a aplicação desigual da lei segundo a variedade de lugares.] Mais le Prince le peut faire si la loi de Dieu —única limitação a la soberanía— n’y est expresse”. a quem. que deixam a ação derrogatória da lei à discrição do soberano. nem para discutir a lei [. AF_livro final ok.indd Sec4:69 4/12/2009 15:03:16 . A característica da justiça distributiva e da proporção geométrica é uma igualdade geométrica que governa este tipo de justiça. deixando à consciência dos juízes a tarefa de julgar somente na ausência da lei e nunca em oposição à lei. cap.. embora dentro dos limites da equidade.. plusiers on mis la puissance de juger selon sa conscience: chose qui est commune á tous juges. ni disputer la loi [.. s’il n’y a loi ou coutume expresse [.31 De tudo isto decorre a rígida atitude com que Bodin limita a interpretação da lei. o juiz não tem 69 RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA Todos estes signos de soberania. J. A interpretação e a aplicação equitativa da lei transformariam de algum modo o juiz em legislador. há os que têm posto o poder de julgar segundo sua consciência: o que é comum a todos os juízes em caso de não haver lei nem costume expresso [. Tem muitos aspec31 Bodin.] Se há costume ou ordenação em sentido contrário.. é o princípio próprio do soberano. Les six livres de la République..

portanto. o sonho de uma lei tão simples e clara que reduzisse o papel de juiz ao de mero agente de aplicação mecânica das normas dominaria as escolas fundamentais do pensamento jurídico-político. et accoler ces quatre points ensemble. A justiça distributiva tende a desaparecer dos objetivos do 32 Bodin. des temps et des personnes”. Em contraste com as duas formas de justiça aristotélica é preciso. “suivre la justice harmonique. J. quer das interpretações essencialistas ou realistas. “la fermeté de la regle de Polycléte”.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 70 tos de equidade. livro VI. á savoir loi. mas não pode funcionar por si só devido a sua rigidez. que não aceita diferenças de status. pois. 6.32 7 Durante todo o século XVII — de Hobbes a Leibniz —. a saber. equité. para as quais Deus quis que as coisas fossem assim porque eram justas. momentos e pessoas” (N. a Execução da lei e o dever do Magistrado” e “acomodar a equidade à variedade particular de lugares. todas têm em comum a ideia de que há uma única fonte de justiça e que. a Lei. “seguir a justiça harmônica e reunir os quatro pontos. do T. cap. Tradução das quatro citações em francês deste parágrafo: “a incomovível fi rmeza da regra de Policleto”. Les six livres de la République. quer das interpretações do positivismo jurídico que deixam à vontade do homem a criação das normas jurídicas para que sirvam a seus apetites nas cambiantes circunstâncias da vida. “da variedade e incerteza da regra lesbiana”.indd Sec4:70 4/12/2009 15:03:16 . veja-se Beaud (1994:191-196). a Equidade. é possível criar uma justiça exata e uniforme. E a justiça harmônica. Sobre Bodin e a equidade. que é a proporção que funde ambas as igualdades. et le devoir du magistrat”.). é a equidade garantida pela soberania absoluta do príncipe. se baseia na justiça comutativa e está em poder “de la variété et incertitude de la regle Lesbienne”. o único que pode “accomoder l’équité á la varieté particuliére des lieux. Quer se trate das interpretações voluntaristas e nominalistas da justiça para as quais as coisas são justas porque assim Deus o quis. AF_livro final ok. exécution de la loi. A isto se opõe a igualdade da proporção aritmética da sociedade democrática.

soluções subalternas e parciais em um mundo imperfeito que contudo tem que recorrer a uma distinção entre strictum ius. já não serão mais necessárias as disputas entre dois fi lósofos que entre dois calculistas. bondade e equidade. 1994.71 RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA direito propriamente dito. Em suas reflexões jurídicas. AF_livro final ok.indd Sec4:71 4/12/2009 15:03:16 . que é o fundamento da verdade. mas que poderá sê-lo quando os homens se submeterem à lei de Deus e à razão. Villey (1985:529). em consequência. bastará pegar a pena. “quando surgirem controvérsias. como o são a lógica. 33 A busca de uma distribuição justa dos bens seria sem dúvida um objetivo demasiadamente ambicioso para o jurista e que. sem contrastes. A justiça é uma das ciências necessárias e demonstrativas que não dependem de fatos.34 A equidade. que fi xasse de uma vez por todas a proporção entre caracteres e coisas. De fato. a geometria. são. Grócio descarta a justiça distributiva do campo do direito propriamente dito. O conceito de equidade iniciou assim um processo progressivo de marginalização e de redução. Dessa forma. a interpretação equitativa. por exemplo nas Meditações sobre o sentido comum de justiça (c. Em consequência. a ciência dos movimentos e também a ciência do direito. Leibniz (1994) chega ao que talvez seja a posição mais extrema quando sonha com uma justiça praticamente mecânica. 34 Leibniz. que não se fundam na experiência e nos fatos e servem antes para aplicá-los e regulá-los por antecipação. mas unicamente da razão. do ius strictum.33 enquanto a equidade tende a ser reabsorvida na justiça como a moral e a vontade na razão. cujo desenvolvimento não seguirei porque nos distanciaria muito das costas mediterrâneas. ou bem não forma parte de suas tarefas. a metafísica. sentar-se perante o ábaco e dizer-se reciprocamente: calculemos” (De scientia universalis). de acordo com sua teoria lógica que buscava a coordenação rigorosa entre signo e significado. a aritmética. este é o objetivo por agora não realizado. 1702). ou bem carece diretamente de todo sentido para ele. o que também valeria para o direito se não houvesse leis no mundo.

EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 72 Mas não ocorre o mesmo na Itália e na Espanha. isto é. Em De universi iuris uno principio et fine uno (1720). difundida por toda parte. A semelhança com Leibniz é mera aparência: para o primeiro. Agnelli.indd Sec4:72 4/12/2009 15:03:16 . que pouco a pouco se converteu em antropologia concreta. de um significado distante e fraco das instituições do Estado. Assim se criou uma cultura específica. 8 Disto se dava conta Vico — que utilizarei como último exemplo da evolução comparada do significado da equidade —. fundada na capacidade da razão para transformar o princípio de conservação individual em coletivo.35 Vico divide o direito natural em ius naturale prius e ius naturale posterius. que se contrapõe à verdade porque “ex ipsa hominis sociali natura duplex existit naturalis rerum socíe35 Vico (1974). Este processo passa pelo ius gentium e pelo desenvolvimento do direito civil. muito influenciado pelo sentido católico da comunidade política no caminho rumo à redenção. em que o primeiro mostra o indivíduo em sua exigência de conservação. a história tem a função de desvelar progressivamente uma ordem natural diferente. não puderam ter deixado de incidir. dirigido à conservação. Milão. do arrependimento e do perdão. A tradução italiana é de Carlo Sarchi. referido aos corpos sociais. AF_livro final ok. no sentido comum de justiça que o tribunal das consciências sugeria aos fiéis. A ação da Inquisição e a prática da confissão. sociedades nas quais o direito canônico conserva uma presença notável no sentido comum e na realidade cotidiana. a lei desaparece na equidade. para a qual o critério individual de cada um. em um nível inconsciente. faz as vezes de norma. sentido muito estendido de um duplo valor da moral. a equidade desaparece na lei. “o progresso não interrompido de toda a história profana”. Em seu curso. P. 1866. que transformam a luta de todos contra todos em relações de proteção baseadas no domínio e na subordinação. enquanto para o segundo. Da equidade natural do ius prius. quer dizer.

o direito natural posterius faz coincidir aequitas e lei. parece e é autoritária. 1974:65. quia civilis rigor est sane rigor in causis in quibus contra immerente duratur)”. pois.73 RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA tas: altera veri. pelo que “muito frequentemente recebe o nome de rigor da lei porque o rigor civil que se sofre imerecidamente é muito grave e amargo (magis appellata est ‘iuris rigo’. Portanto.indd Sec4:73 4/12/2009 15:03:16 . A equidade natural se caracteriza. cuius ideam aeternam a Deo esse demonstravimus. Vico. o pretor provia a estabilidade da região civil. e com as exceções. em consequência. ac proin36 37 38 Vico. AF_livro final ok. cuja ideia — como temos demonstrado — é uma ideia eterna que vem de Deus. porque no ius naturale prius domina contudo um hiato entre indivíduo e conveniência racional. no qual “o vulgo (é) sensível à equidade natural e ignora a equidade política (vulgus naturalis solens. em troca. Porém se trata de uma aequitas que tem sua raiz na aequitas natural. A alma de uma república é o direito equitativo para todos. Com a manutenção invariável das fórmulas das ações — segundo as XII tábuas —. segundo a defi nição de Celso. quando se tratavam questões não contidas nas XII tábuas ou quando a lei das XII tábuas resultava demasiadadamente dura (si aequitati lex surda durave esset). que a comunidade consente realizar. lhes introduzia.38 Só com o desenvolvimento da racionalidade e da communitas. altera aequi boni”. a equidade do ius naturale.37 Assim se introduz uma jurisprudência benigna. Vico. 1974: 289. 1974:283-285.36 Vico nos conduz à equidade civil: parte da descrição da jurisprudência benigna ou ateniense e do ius pretorio. A equidade civil. mas para a equidade natural animus republicae ius aequum omnibus. Unde formam rerumpublicarum aeternam ordinem naturalem esse confecimus. por acolher muitas exceções nas regras que a lei expressa. temos concluído que a constituição eterna da república é a ordem natural e que. em caso de necessidade. civilis aequitatis ignarum)”. a alma da república não é equitativa para a equidade civil. “ars adqui boni”.

quia in ipsis caussis in quibus immota haeret — haeret autem in omnibus — in ipsis. a passagem do ius prius ao ius posterius marca a passagem de uma equidade natural individual para a equidade natural absoluta.74 de animum reipublicae non esse aequum aequitate civili. “A norma eterna de uma jurisprudência assim realizada é a AF_livro final ok.] neque enim ex suo iure immutabili quequam solvit. 1974:261.. idem est iustum quod eligis”. Sed ea ipsa durior est iuris rigor [. Vico (1974:289). quia civilis rigor est sane rigor in caussis in quibus contra immerentes duratur. qua Iustinianus in Novellis dicit niti usucapiones. Tamen totius generis nomen occupavit.39 porque o direito existe na natureza (ius esse in natura) e é demonstrável matematicamente. quam stultitiam definivimus. pois. na qual se fundem o sentido (utilidade e necessidade) e a razão sob o domínio desta última e em polêmica com o ius naturale philosophicum de Grócio.40 Portanto. Porque a equidade civil expressa a manipulação autoritária da segurança da lei que justifica a razão de Estado: “atque haec est aequitas civilis. “At quod est aequum dum metiris. inquam. da utilidade privada à pública. et aequitas civilis magis appellata est “iuris rigor”. Eiusque iurisprudentiae regula aeterna est aequitas naturalis.41 O processo de civilização nos leva. nec ullum unquam hominis meritum tantum est ut ratio naturalis ipsi indulget quod non dictet honestas.42 39 40 41 42 De constantia jurisprudentis (Vico. caussis benigna est. Et parvum est hominum iudicium qui eam iniquo animo ferunt. sed aequitate EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA naturali). iudicant. Vico.. quam Itali elegantiori phrasi vertunt ‘razão de Estado”. quae multa contra communes iuris regulas recipit et admittit ac iuris civilis rigores temperat. que reduzia só à razão a fase fi nal do sistema jurídico em que coincidiam aequum y justum. 1974:381).indd Sec4:74 4/12/2009 15:03:16 . Vico. et ‘impium praesidium’ eleganter appellat. 1974:57. passando pela equidade civil. nam de ea sensuum sapienta. At aequitas naturalis ex genere “aequitas” dicta est.

abrem passagem pouco a pouco para a codificação e o ordenamento que reforçam — sem renunciar a certa forma de medida e de segurança do direito — o poder interpretativo dos juízes nas práticas judiciais. e se esforça em temperar os rigores da razão civil. seja em sua forma mais limitada de analogia legis. Mas por sua própria condição. pois a equidade natural é o nome genérico. equidade natural. que compreende todas as formas do equitativo. o problema vai se concentrando no espaço concedido aos juízes perante os casos não previstos explicitamente pela lei ou de difícil redução aos princípios fundacionais do ordenamento: é assim como o conceito de analogia vem cumprir um papel muito importante. não exclui ninguém de sua lei imutável. e a nenhum homem pode a razão natural agradar com o distanciamento da honestidade. pelo contrário. se mostra sempre benigna inclusive nas causas nas quais se mostra mais estreitamente unida (e em todas é encontrada). reforçando o peso da lei. Em síntese. a equidade natural implica um rigor mais inflexível ainda. leva à explicitação de uma racionalidade comum. AF_livro final ok. e perverso é o conselho dos que a toleram de má vontade. através da realização progressiva da communitas entre os homens dominados pelas paixões e pelo pecado. que progressivamente elimina a força das relações entre os homens. a ‘equidade’ genérica e absoluta.indd Sec4:75 4/12/2009 15:03:16 . porque têm o juízo ofuscado pela sabedoria dos sentidos. Que a equidade civil receba mais frequentemente o nome de ‘rigor de lei’ se deve a que o rigor civil sofrido imerecidamente é muito grave e amargo. seja na mais geral de analogia iuris. que temos defi nido como estultícia”. enquanto. Desta forma. a equidade natural. e por isso recebe e acolhe muitas exceções às regras que a lei expressa. isto é. uma racionalidade que conhece um desenvolvimento paralelo ao desenvolvimento das formas de convivência social.75 RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA Em Vico — e especialmente no Vico de De universi iuris uno principio et fine uno — é muito marcada a inspiração no cosmopolitismo católico e no pensamento político tomista quando descreve o processo que. 9 A fi nalidade dos exemplos que examinei era mostrar que as imagens de justiça que se vão estruturando na Idade Moderna nos países europeus e nos do Mediterrâneo nascem de modos diferentes de enfrentar a oposição entre ordenamentos que.

Sobre as posições de Tomasso de Vio Cayetano a propósito da analogia. p. cf.indd Sec4:76 4/12/2009 15:03:16 . 12-14. no tocante a este conceito. Analogia — dirá Kant — não significa. cuja função é integradora. e a analogia. foi em contrapartida aumentando sua importância nos ordenamentos do direito hebreu. isto é. 44 Cf. Em geral. se mostram as tendências contrastantes dos sistemas jurídicos. “como se costuma interpretar a palavra. embora conserve o caráter da semelhança como faticamente defi nitório da analogia. 45 O Kant dos Prolegomena zu einer jeden künstigen Metaphysik die als Wissenschaft wird ausreten können (1783) é citado por Needham (1980) em seu importante ensaio sobre analogia intitulado “Analogical classification”. de fato. mais explícita. Cf. uma semelhança imperfeita de duas coisas. foi-se dando uma definição cada vez mais estreita de analogia. a proporção. tem sido a de pôr limites ao uso das práticas judiciais. podemos dizer que o problema central na evolução para a codificação dos ordenamentos jurídicos tem sido o da limitação da analogia em duas direções.43 Só me deterei na analogia. do ponto de vista da análise teórica. mas uma semelhança perfeita de duas relações entre coisas inclusive completamente diferentes”. Entretanto. precisamente. a remissão aos princípios gerais do ordenamento. com particular referência à relação entre equidade e analogia. Bastit (1990). a analogia tem desempenhado um papel cada vez mais limitado nos sistemas jurídicos europeus.44 O próprio conceito de analogia vai perdendo pouco a pouco a indefinição da semelhança para converter-se em um conceito exato de proporção. veja-se Nef (1993) e Riva (1955). excluindo-a especialmente 43 Bobbio (1960). A segunda via.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 76 O procedimento mediante o qual se busca a disciplina do caso não regulado pode adotar três formas: a interpretação extensiva. também Carcaterra (1988). com um papel interpretativo e integrador. AF_livro final ok. dada a particular clareza com que.45 E se recordará que para o cardeal De Luca a proporção também é a regra geometricamente exata da justiça distributiva e da equidade. enquanto. que não tem caráter integrador. Secretan (1984). do islâmico e do canônico. isto é. retirando dela esse caráter um tanto indefinido de semelhança que já haviam combatido o tomismo e depois Cayetano. mas interpretativo. Sobre Tomás de Aquino e Suárez.

48 Veja-se a palavra “kiyas”. I. p. a equidade impõe o procedimento analógico como instrumento central de direito. Coulson (1964:59-60) e Brunschvig (1976. “Les quatre similitudes”.48 nos quais constitui uma das quatro fontes da lei muçulmana referida aos casos em que não exista uma prescrição textual explícita do Corão ou de uma tradição. vol. Contudo. Vassalli. 1960. para a multiplicidade das provas.47 Precisamente com referência à consideração subjetiva do delito. à diferencialidade social de conjunto do sistema jurídico. o raciocínio analógico contém um vigoroso elemento de insegurança e permite. o problema da proporção entre as penas e a segurança se desloca — no caso do direito islâmico — para o testemunho. é preciso destacar que todos os ordenamentos que tendem à individualização da pena. também Schacht (1964:64-75). de Foucault (1966). com maior razão no caso de leis penais incriminatórias. os lugares e as pessoas. 49 Em um dos textos fundadores da metodologia jurídica islâmica.46 Pelo contrário. 47 AF_livro final ok. Muhammad lbn Idrîs Ash-Shâfi î (767-820) defi ne com clareza tanto o raciocínio analógico como o esforço de investigação pessoal: Shâfi (1997:317-338). de grande predomínio nas sociedades desiguais e hierárquicas do Ancien Régime. por exemplo. vol. 303327. para a confissão do réu e para a coerência com os princípios e as regras do direito de Deus.77 RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA do perigoso caminho das leis excepcionais e do direito penal. p. 347-403). remete rigorosamente aos deveres morais dos juízes e à equidade: de fato. Problemas semelhantes apresenta o papel da analogia (héqèsh y gezéra chava) na exegese jurídica do direito talmúdico.indd Sec4:77 4/12/2009 15:03:16 . Não é necessário recordar o papel central da analogia (qiyás) nos sistemas jurídicos islâmicos. redigida por Bernard (1980:238-242). utilizam com amplidão a analogia. Sobre semelhança e analogia na sociedade moderna é útil referir-se também ao capítulo 2. à sua diferenciação de acordo com os momentos. II. Cf. Na realidade. coincide com o esforço de investigação pessoal (ijtihâd). no qual o raciocínio 46 Cf. interpretações diferentes.49 Mas o foco de toda a discussão sobre a analogia está ocupado pelo problema da segurança e da uniformidade do direito: mesmo quando o papel interpretativo do juiz seja na verdade amplíssimo.

por contato. O Talmud emprega a forma casuística.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 78 analógico leva a conclusões prováveis porque se baseia em semelhanças e não na identidade matemática da proporção. Em síntese. quando se afi rma (como ocorre nas sete middot de Hillel o Antigo) a analogia de lugares bíblicos sobre a base da semelhança fonética das palavras ou a analogia de duas disposições. 1998:xix. a analogia desempenha um papel básico. um princípio distinto do desejado. em oposição aos casos da vida real. por sua presença no mesmo versículo bíblico. com uso do método indutivo. tem caráter orientativo e hipotético. Porém — à diferença da tradição lógica aristotélica — sua caracterização também toma forma em obediência a regras que 50 Wingort.50 Porém isto admite tanto uma referência continuada à equidade como um uso extenso da analogia.] Esta formulação artificial. uma verdadeira proliferação da analogia: em todo o debate jurídico talmúdico vão se desenvolvendo progressivamente regras específicas que consentem a analogia. com exclusão de qualquer outro. a analogia é um instrumento necessário para o procedimento mesmo com o qual os Amoraim — os redatores do Talmud — construíram as regras gerais.indd Sec4:78 4/12/2009 15:03:16 . Isto unicamente é possível mediante a elaboração de modelos que respondam ao critério de excluir qualquer ensinamento distinto do que os sábios têm requerido [. como. tanto no direito hebreu como no resto da hermenêutica talmúdica. Porém — como nos lembra Weingort —. permite fazer abstração dos detalhes concretos que poderiam produzir. Portanto. O Talmud.. portanto. apesar de sua grande diferença. deve assegurar-se de que o caso particular que cita como exemplo do princípio geral ilustre um princípio legal e só um. Melhor dizendo. AF_livro final ok.. graças à qual. frequentemente distintas tanto da semelhança como da proporção. o princípio geral abstrato é extraído a partir do caso particular. por exemplo.

Seus limites.indd Sec4:79 4/12/2009 15:03:16 . que detalha os quatro meios para preencher as lacunas. levará Suarez ao princípio geral em virtude do qual é legítima a interpretação extensiva de qualquer lei eclesiástica. No direito canônico. Assim. semelhança fonética ou valor numérico das letras. contudo. a legibus latis in similibus. porque se funda no fi m da lei. O primero destes meios é precisamente a analogia em sua versão débil de semelhança: “Si certa de re desit expressum praescriptum legis sive generalis sive particularis. para chegar às chamadas trinta e duas middot que devem seu nome a Eliezer ben Yosé há-Gelili. Contra as posições dominicanas de Cayetano. 20 C. a stylo et praxi Curiae Romanae. a generalibus juris principiis cum aequitate canonica servatis. são específicos e rigorosos porque se defi nem progressivamente a partir das sete regras de Hillel para passar através das treze middot de Rabbi Ismaél.. senão de uma proporção geométrica que refere o caso específico ao sistema de conjunto e proporciona méritos e culpas entre eles. Mas tampouco aqui se trata de arbitrariedade. nisi agitur de ponis applicandis. a communi constantique sententia doctorum”. inclusive penal.J. a distinção entre analogia tesis (o recurso a leges latas in similibus) e analogia iuris. em De Legibus. Suárez sustenta a analogia dos atributos. Contudo.79 RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA derivam da sacralidade do texto de referência.51 No direito canônico se apela expressamente para a analogia no cân. a analogia da atribuição. norma sumenda est. no qual contam elementos de vizinhança e distância entre palavras. AF_livro final ok.C. também Cohen (1991:145-184). que acentua a salus animarum e a aequitas canonica. é importante recordar que no campo católico — substancialmente uniforme no que diz respeito aos procedimentos jurídicos — a discussão sobre a analogia apresenta profundos contrastes de grande importância político-teológica. que privilegiam a analogia de proporcionalidade e que consideram a analogia como diferença gradual. com referência aos princípios gerais. afi rma que Deus transmite ao povo o poder soberano 51 Abitbol (1993:94-210). Para a relação com a equidade. cf.

Sobre equidade. hoje em dia moeda corrente entre os antropólogos. De fato. que se remete a Deus para legitimar o poder político. Tractatus de legibus ac Deo legislatore. 54 Grenier (1996) tem proposto o problema com maior ênfase na dificuldade para a elaboração de uma teoria do valor que no marco cultural distinto em que se colocava a prática do intercâmbio.52 10 Após esta viagem. Esta soberania popular não é totalmente distinta da divina.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 80 para instituir o poder. AF_livro final ok. se é possível e necessário. 53 Retomo aqui a defi nição de Sahlins (1972:185-261). é necessário complexar a diferenciação entre esses conceitos. Utilizou-se a edição do Corpus Hispanorum de Pace do CSIC. viii. nem totalmente idêntica a ela: é análoga por participação. quando referimos a reciprocidade equilibrada e a reciprocidade generalizada às sociedades complexas do Mediterrâneo e às formas econômicas.54 que não conhece um mercado impessoal e autorregulado. 1-16. recompensada.53 Em uma sociedade que não tem uma defi nição clara da determinação dos valores econômicos. Não se trata de deduzir o valor dos bens intercambiados de uma determinação defi nida no intercâmbio. mas de construir um sistema de inter- 52 Suárez. voltemos à reciprocidade. III. os problemas de defi nição do preço justo e do salário justo são complexos e remetem continuamente ao conceito de equidade. sociais e jurídicas que nelas predominam. não se trata de identificar transações presumivelmente altruístas. mas sem a expectativa de uma contrapartida material direta de transações diretas nas quais a compensação seja um equivalente consuetudinário e instantâneo do bem recebido. pelos conceitos mencionados. Madri. 103-107 e p. p. inclusive em relação com a analogia na interpretação das leis. F. 4-6 y III. p. 231-239. demasiado rápida sem dúvida. O que tratei de sugerir é que. nem de uma característica intrínseca dos bens. 1975.indd Sec4:80 4/12/2009 15:03:16 . Daqui que o poder do Estado só será legítimo se o povo o reconhece. xvi. 11.12. o que resulta bastante mais difícil na interpretação de Cayetano. modeladas sobre o padrão da assistência prestada e. Suárez discute amplamente sobretudo no livro II. xv.

AF_livro final ok. seu prestígio. Ou a um juiz. ao ponto de que um mesmo bem adote valores distintos segundo quais sejam as pessoas que entram na transação: “in salarii taxatione ad hoc. nem por sua capacidade. Um exemplo muito evidente da relação entre economia e salário justo se encontrará em Trivellato (1999).81 RECIPROCIDADE MEDITERRÂNEA câmbio no qual os valores estejam determinados pelas características específicas dos que os intercambiam. a mistura de economia e ética. 55 Zacchia (1658:37). complica e dificulta a determinação das medidas — imprescindíveis.55 Como se pode pagar um médico. Creio que precisamente através do exame destes problemas. Mas nunca haverá uma vitória total em nenhum campo.indd Sec4:81 4/12/2009 15:03:16 . não por suas prestações. será possível esclarecer algumas diferenças substanciais na história e nas características culturais e antropológicas de diferentes países e identificar uma série de especificidades mediterrâneas que continuam operando ainda hoje. contudo — da sociedade equitativa e desigual que obedece a estas regras. et primo qualitatis personae”. e menos ainda no campo jurídico. mas de acordo con seu status social. pergunta-se o jurista Zacchia. que se ocupa da vida e da morte?. Sendo assim. sua honra: por isso se denomina “honorários” ao salário do médico e do juiz. exame que requereria sem dúvida muito mais espaço do que eu tivesse podido dispor aqui. que se ocupa do justo e do injusto? Não pode haver um salário adequado: eles serão pagos de maneira diferente. de valores gerais da sociedade e de valores específicos que entram na reciprocidade que se manifesta nos intercâmbios. Isto não se opõe ao esforço de medir e assegurar os valores e dar uma ordem legível à sociedade por meio de classificações simplificadoras: esta exigencia será precisamente a que favoreça o progressivo predomínio de esquemas uniformes de valor que deslocarão a atenção do uso e das pessoas para o intercâmbio e para as coisas. ut se cum dispositione iuris conforment multarum rerum rationem habere debebunt. setor no qual sempre será difícil separar a justiça legal do sentido comum de justiça.

como critério dominante da justiça distributiva em uma sociedade corporativa e hierárquica. o tema da equidade confi rma seu papel central na experiência dos países católicos. parece-me importante observar que a vigência do direito canônico junto ao positivo. a permanência de um sentido comum de equidade em oposição às normas codificadas goza de tal vigor e de tal virulência. uma solidariedade e uma reciprocidade carentes de rigor: porém se trata de um rigor que requer um olhar autoritário que imprima proporção geométrica nos prêmios e nos castigos. o reconhecimento da superioridade moral dos clérigos sobre os laicos e práticas religiosas como a confissão. E. A dificuldade com que topam os juristas italianos (que exemplifiquei com Vico) em pleno século XVII é justamente a de conservar este critério. que chegou a ser um aspecto constitutivo de sua antropologia política. tem-me parecido que também as sociedades de tradição islâmica ou a tradição jurídica talmúdica apresentam caracteres similares. embora com significados diferentes. sistemas jurídicos baseados em um idioma de igualdade. As sociedades católicas do mundo mediterrâneo têm acolhido. Não obstante. AF_livro final ok. o mero aspecto jurídico para converterse em critério de conjunto da integração e da regulação de todos os aspectos sociais e econômicos. com simultânea atenção à especificidade dos casos particulares e das perspectivas globais de melhora moral do sistema político geral. A importância interpretativa deste conceito excede em muito. típica desta e de outras sociedades católicas nas quais não teve lugar uma subordinação precoce da igreja ao Estado. embora lhe reconhecendo natureza histórica. a hipótese que quis propor é que. Portanto.indd Sec4:82 4/12/2009 15:03:16 . sobretudo nestas sociedades. que propõem por toda parte formas lógico-morais às consciências individuais. têm contribuído para construir uma forma específica de sentido comum do justo. E isto é também o que tem contribuído para debilitar as instituições e para propor formas intersticiais de ação entre sistemas de normas contraditórias e paralelas. é impossível imaginar uma equidade.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 82 Se contemplarmos em particular a Itália. Contudo. contudo. por certo.

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e é exatamente por meio desta ficção que tais categorias são organizadas. AF_livro final ok. Uomini e classi. para a terra.indd Sec5:87 4/12/2009 15:03:16 . da terra e da moeda como mercadorias é inteiramente fictícia. manifestadamente falso. Publicado em Storia dell’agricoltura italiana in età contemporânea. II. Terra como mercadoria? O problema dos aspectos específicos da mercantilização da terra — suas origens e desenvolvimento — é um tema recorrente do debate historiográfico. a verificação da expansão de um dos aspectos basilares do mercado capitalista e de quando este ∗ Traduzido da versão italiana “Economia contadina e mercato della terra nel Piemonte di Antico Regime”. 1 Polanyi. portanto. Marsilio Editori.4 Economia camponesa e mercado de terra no Piemonte do Antigo Regime* Giovanni Levi 1. 535-553. mas também à artificialidade e ao próprio perigo de considerar a natureza e o ambiente como mercadoria: o postulado de que tudo aquilo que é comprado e vendido foi produzido para a venda é. p.1 No centro da discussão está. Tradução e notas para a versão em português de Ângela Brandão. 1990. 1980:32-33. A descrição do trabalho. E isso não apenas se deve à dificuldade de construir séries homogêneas de preços.

administrativo e político. seu estatuto e sua função eram determinados por regras jurídicas e consuetudinárias. comunitários. monárquicos. que obstaculizavam o livre desprender-se de forças da demanda e da oferta). não era nem mesmo uma mercadoria. senhoriais. Sob o Antigo Regime.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 88 fator fundamental da produção se tornou. e isso tornava toda forma de circulação mercantil da terra não impossível. a presença de terras comuns. aliás. obstaculizando sua fluidez: direitos familiares. elemento essencial do ordenamento feudal. 1980:29. mas também do sistema de poder e de proteção social que caracterizava todo o sistema político. no fundo. portanto. era o alicerce do sistema militar. AF_livro final ok. de direitos coletivos. em caso positivo. ao menos em parte e progressivamente. que tornavam imperfeita a propriedade e extraordinariamente irregular o acesso ao mercado. Ela era. descobrir nos atos notariais medievais e modernos um número enorme de transações mercantis sobre a terra contradizia 2 Polanyi.indd Sec5:88 4/12/2009 15:03:16 . multiplicando os níveis nos quais as transações se desenvolviam. a terra. enfi m. a quem e sob quais restrições. judiciário. de áreas feudais e senhoris contribuía para a deformação dos comportamentos mercantis.2 E de resto. e eram transferidos a um conjunto completamente diverso de regulamentação institucional. mas complexa e viscosa. desvinculado de barreiras sociais que tornavam difícil a troca mercantil: antes de tudo o conjunto dos fatores coletivos de posse (os direitos comunitários sobre a terra. Se sua posse era transferível e. entrelaçando lógicas econômicas diferentes e apenas parcial e reciprocamente intercambiáveis. contribuíam para fazer da terra algo que só muito arbitrariamente podia ser considerado parte do mercado. a qual empenho podiam ser revertidos certos tipos de terra — todos esses problemas eram separados da organização habitual de compra e venda. ainda que se levasse em consideração somente a terra livre. Por outro lado. A terra não era uma mercadoria como as outras. não só a base da produção. o que implicavam os direitos de propriedade. bem como os direitos senhoriais ou eclesiásticos.

na forma. por isso mesmo. mas poderia ser entendido como complexidade. Rafi s (1974). Com a desvantagem de polarizar as posições entre quem negava qualquer regularidade significativa nos comportamentos mercantis da terra — renunciando. de um mercado que era.) 5 A utilização de preços médios que escondem as oscilações foi uma prática corrente na historiografia que se ocupou do mercado da terra no Antigo Regime. de todo modo.5 3 O termo viscosidade. que incluía a terra nos circuitos impessoais do mercado. e que separava os homens da viscosidade3 social e corporativa do mundo familiar e coletivo para fazê-los agentes livres. Cf. Ainda os ótimos estudos de Béaur (1984) e Masella (1976) parecem-me pouco sensíveis ao problema da dispersão dos preços. mas no fundo formulada de modo estéril. Os estudos sobre a Inglaterra são muito numerosos e foram discutidos em Levi (1989:225-258).indd Sec5:89 4/12/2009 15:03:16 . dispostos a maximizar utilidades puramente econômicas. cf. a dispersão dos preços. empregado por Giovanni Levi em diferentes momentos de seu texto. periodicamente ressurgida sem solução pela pesquisa historiográfica.. ao lado de outras mercadorias. simplificava o quadro adequando um mercado específico às regras do capitalismo contemporâneo ao somente mensurar a quantidade de terra efetivamente revestida das práticas de mercado. do T. por isso. para a América colonial. Davisson (1967). e. variações conjunturais e cíclicas ocultavam. muito acentuada entre cada ato de troca que não podia ser explicada somente com uma variabilidade mais intensa da participação dos compradores e vendedores no mercado. sob uma manipulação estatística.4 Esta é uma discussão importante. Tratava-se. ao ponto de atribuir ao processo progressivo de trocas mercantis de terra a prova indiscutível da difusão de uma mentalidade individualista — se não capitalista—. os estudos sobre o mercado da terra na Inglaterra medieval são mais atentos aos problemas aqui discutidos do que aquele extremo de MacFarlane. Em realidade. Alguns exemplos: para a Inglaterra medieval. Postan e Brooke (1960). de outro lado. ao estudo das características específicas daquelas transações. 4 MacFarlane (1978). por isso.89 ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA este quadro: chegou-se. (N. foi mantido na tradução como oposição à ideia de fluidez. em particular. que apareciam em grande número nos documentos redigidos por notários — e quem. homogêneo pelo menos por seis séculos e governado por leis da oferta e da procura: daí porque série de preços e preços médios. tendências seculares. Importantes con- AF_livro final ok.

perguntar-nos quais são as regras formais das transações de terra através do mercado em um contexto social ainda amplamente feudal e o que se pode inferir sobre os mecanismos sociais que caracterizam esta forma. E ainda: quais regularidades ou leis se destacam sobre a extrema variabilidade de preços registrados nos atos notariais. Também em uma área muito circunscrita. se. do T. supomos que numa economia deste tipo os seres humanos se tribuições para o debate histórico estão reunidas no número especial de Quaderni Storici.6 por pedaços de terra cultivada de modo semelhante em qualidade e dimensão os preços unitários oscilavam entre 20 e 500 liras por jornada (cerca de um terço de hectar [1ha = 10. regulado e dirigido somente pelos mercados em que a ordem na produção e na distribuição das mercadorias é confiada a este mecanismo autorregulante. situado entre Turim e Asti). valham ao menos pela abstrata formulação que oferecem dos aspectos relevantes sobre os quais devemos nos interrogar para outras situações ainda que geográfica e cronologicamente distantes. acredito.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 90 A alternativa não está em procurar entre a ausência (ou a total diversidade) e a presença do mercado. portanto. o número de transações de mercado registradas nos atos notariais é extremamente alto e. o exemplo do Piemonte entre o Seiscentos e o Setecentos com o intento de elencar alguns problemas gerais que.: no original não consta a medida de terra utilizada).indd Sec5:90 4/12/2009 15:03:16 . 6 Cf. Utilizarei. No Piemonte do Seiscentos e do Setecentos. A jornada piemontesa corresponde à área 38. AF_livro final ok. n. todavia.0095 (N. mas se acentuam de modo semelhante no curso do mesmo ano. O mercado da terra em Santena foi estudado nos anos de 1678 a 1702. a dispersão dos preços não é derivada do leque muito amplo da qualidade pedológica da terra ou de sua colocação mais ou menos favorável em relação ao mercado ou às vias de comunicação. Isso torna imediatamente evidente que o preço não é determinado pelo jogo automático da demanda e da oferta.000 m²]). Il mercato della terra. as variações de preço não se referem somente às diferenças de ano a ano. 65. ao contrário. nas páginas que se seguem. Se uma economia de mercado é um sistema econômico controlado. Devemos. a de um vilarejo em particular (refi ro-me a Santena. 1987. Levi (1985a:83-121).

algum obstáculo importante deve ter entrado em jogo para criar uma situação tão dispersa no nível dos preços da terra. em uma economia na qual os mercados.indd Sec5:91 4/12/2009 15:03:16 . em condição de utilizar plenamente a força de trabalho familiar disponível num grau ótimo de intensidade de cultivo não têm necessidade de comprar ou arrendar terras. Os negócios camponeses que têm uma quantidade considerável de terra e estão.. o comércio. O objetivo não é maximizar o resultado monetário. com esta nova terra. pode alcançar um equilíbrio seja com melhoramento do nível de vida. portanto. a família. mas. e se a ordem na produção e na distribuição das mercadorias é assegurada somente pelos preços. são apenas elementos assessórios com relação à vida econômica. portanto. seja com uma diminuição da distribuição de trabalho. os preços são ditados pelas necessidades. 1966:9-10.91 ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA comportam de modo tal a conquistar um máximo de ganho monetário e imaginamos que existem mercados nos quais a oferta das mercadorias e dos serviços disponíveis a um determinado preço seja equivalente à demanda do mesmo. não é o lucro monetário. a exigência de cada família camponesa num momento específico de seu ciclo de vida.7 A explicação de Chayanov é que a participação dos camponeses no mercado é descontínua. como unidade econômica. Não é o mercado em geral que determina o preço da terra. A resposta mais evidente foi sugerida por Chayanov: numa economia apenas parcialmente mercantilizada e na qual o objetivo primário não é a troca. mas a subsistência. mas encontrar e conservar um equilíbrio entre as necessidades da família e o esforço distribuído: O que determina o preço da terra? [. 7 Chayanov. Qualquer despesa nesse sentido parece irracional porque não aumenta a prosperidade da família na medida em que subtrai recursos.. sim. AF_livro final ok.] Procurar terra para arrendamento ou compra é evidentemente vantajoso para a família camponesa somente se. mas sim o autoconsumo.

por exemplo. um mercado fechado em si mesmo.. Podemos parafrasear esta explicação dizendo que. as poucas ocasiões — em geral dramáticas — que levam certa família a vender sua terra. que determina os preços segundo regras muito mais indeterminadas do que aquelas que Chayanov sugeriu. então. Ou vice-versa: em caso de necessidade. em parte. disposta a pagar um preço excedente. em particular. se a família não dispõe de terra suficiente. dependerá.8 Esta explicação — à qual deverei retornar — difere. particularmente em comunidades rurais pobres. 1966:10. que melhore o equilíbrio entre a força de trabalho disponível e as necessidades. colocam-na em dificuldade para encontrar alguém em condição de comprar. mas segundo uma lógica que pode ser aqui utilmente retomada. muito mais oscilante do que aquele determinado pelo mercado capitalista. daquela dada por Clifford Geertz para os diferentes bens da terra. portanto.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 92 Ao contrário.9 8 9 Chayanov. O preço da terra camponesa será. custa-se a encontrar alguém disposto a colocar suas terras à venda. portanto. Isso faz com que cada simples ato de compra e venda seja.indd Sec5:92 4/12/2009 15:03:16 . Cf. AF_livro final ok. ainda que em muito. Geertz volta sua atenção mais acentuadamente para a fraqueza recíproca de demanda e oferta em situações apenas parcialmente mercantilizadas. de certo modo. e. Geertz (1963 e 1979). ainda que para isso seja necessário utilizar a maior parte do produto bruto que lhe advirá da utilização desse novo pedaço de terra: estará. e nas quais a quantidade de moeda acumulada seja escassa. mais do crescimento da população do que da situação do mercado dos produtos agrícolas: “os camponeses com pouca terra pagam preços que significativamente excedem a renda capitalista”. nas quais não exista uma demanda externa por terra. para o caráter acidental de seu encontro. em relação ao preço determinado pela situação do mercado dos produtos agrícolas ou pelo lucro que a agricultura almeja. estará disposta a pagar um preço de terra acrescido.

o comércio no âmbito familiar é justamente um indicativo da muito significativa viscosidade de circulação da terra. no fi nal do Seiscentos. da mutação relativa) como objeto de transação. Cf. AF_livro final ok. neste mercado descontínuo o comércio não é nada mais que um dos momentos e dos objetos de um complexo mecanismo de transações e de reciprocidade.indd Sec5:93 4/12/2009 15:03:17 . vizinhos ou estranhos. mas não menos importante.10 11 93 ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA Finalmente. 111-112. Frequentemente. portanto. os preços eram diferentes caso as transações ocorressem entre parentes. menos carregadas de transações precedentes. o registro notarial das mudanças de propriedade é apenas uma fase final ou intermediária de uma rede complexa de transações. O mesmo não ocorre de maneira tão sistemática para outros gêneros mais móveis (como o gado. que deixa traços escritos nos atos notariais. com a passagem fi nal de propriedade. então. e os próprios preços exprimem algo mais. 1980:28-30. produtos agrícolas. como sendo a prevalência de longo período de comércio interfamiliar. que o ato notarial.11 Levi. Razi. diferentemente de outros objetos de comércio. 1985a. porque o aparato estatal organizou precocemente o registro cadastral das propriedades de terra (e. além da simples transmissão de terra entre famílias por meio do mercado. que não permite falar de mercado da terra em sentido pleno além da ilusão de ótica produzida pelas transações fi xas. Uma prova disso tudo é a diferença de nível de preços segundo as relações pessoais que mantêm os contraentes entre si: em Santena. reequilibrava de algum modo. e eram sensivelmente mais altos à medida que se reduzia a distância de parentesco: justamente porque mudava o conteúdo das reciprocidades em jogo e as relações de troca de terra tornavam-se progressivamente mais puras.10 De resto. prestação de serviços e. registradas nos atos notariais. até mesmo. e foi destacado no estudo da progressiva mercantilização da terra na Inglaterra. de deveres e de proteções. para muitas das trocas monetárias que precedem os empréstimos).

nos dotes propriamente e. só sucessivamente. Isso quer dizer que era a estrutura de cultura diversificada a ser procurada mais do que a especialização. com que houvesse uma substancial diversidade de fases: na primeira era essencial a produção de cereais de subsistência. enfi m. a transmissão da terra ocorria em duas fases: no matrimônio. uma relação relativamente constante entre as destinações de cultivo (quanto mais cresciam as dimensões. o papel do mercado era AF_livro final ok. e continham vinha. ao mesmo tempo que privilegiava as culturas de subsistência e. dependendo do índice de nascimentos e da idade com que as pessoas se casavam) de existência autônoma. Seguia-se a vinha e. portanto. mas também bens imóveis. a criação de gado. Matrimônio e hereditariedade Também o processo de formação da propriedade era controlado nos negócios camponeses — mais por problemas de otimização do autoconsumo do que pela lógica do acesso ao mercado dos excedentes agrícolas. existia. a lavoura em primeiro lugar. recorrer ao mercado: o dote implicava a procura de terras para o plantio quando não era disponível um excedente interno da propriedade familiar. pela via feminina no momento de formação da nova família. quando o novo núcleo doméstico tinha enfrentado alguns anos (às vezes decênios. onde os dotes incluíam não apenas bens móveis. sim. no momento da morte do patriarca da família de origem e. e que a fazenda seguia uma lógica de formação escalonada. então. era uma exceção e restringia-se somente a fazendas particularmente complexas e amplas. mais aumentava a diversificação dos cultivos) e as várias fases de constituição da fazenda. o pasto. quando a dimensão da propriedade possibilitasse. com frequência. Em muitas áreas do Piemonte. e a terra que entrava nos dotes era primordialmente de lavoura (junto da moradia).EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 94 2. De modo mais geral. portanto. tendencialmente. que implicavam.indd Sec5:94 4/12/2009 15:03:17 . pastos e bosques ao lado dos campos. e por herança. pela via masculina. enquanto as parcelas transmitidas por herança davam uma contribuição mais casual e variada. Portanto. Este processo em dois tempos fazia. numa fase sucessiva do ciclo de duração da família. segundo as dimensões da propriedade. O bosque de uso exclusivo.

aquela rigorosa documentação das mudanças de propriedade que põem em evidência o papel do mercado. AF_livro final ok. Também sobre Brischerasio. especialmente.12 é uma demonstração de tudo isso: a boa conservação da documentação cadastral e. a dimensão das porções. um jogo recíproco entre possibilidade de constituir novas famílias e disponibilidade de terra no mercado. Parece-me. em suma. num único mercado fluido governado por regras impessoais de demanda e oferta. Há. na profunda imersão de sua lógica num modelo social muito diversificado se comparado àquele capitalista ou plenamente mercantil. Sclarandis (1987). que acrescentam suas intervenções. a alterar a lógica puramente maximizante na determinação da demanda e dos preços da terra sobre o mercado camponês. então. da gestão eficiente e voltada ao lucro da terra: variam a frequência de acesso ao mercado. as oportunidades.indd Sec5:95 4/12/2009 15:03:17 . eclesiásticos e comunitários. O exemplo de Felizzano. portanto. distanciando o funcionamento desse mercado complexo daquele simples e coerente — e talvez imaginário — do mercado autorregulado. impróprio supor um modelo de progressiva absorção da terra no mercado. do dote e da herança na devolução da terra permitem confi rmar a função determinante da família e do matrimônio. E isso além dos vínculos feudais e senhoris. que contrabalançasse as situações familiares segundo as fases do ciclo da vida. Também aqui. durante o curso do Setecentos. as destinações de plantio.95 ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA aquele de criar um equilíbrio não somente dimensional. mas de destinação. 12 Levi (1985b:151-177). os preços pagos. como índice do processo de modernização: é verdadeiramente certo que o mercado viscoso e socialmente dominado pelo Antigo Regime fosse mais fi xo do que aquele mercado fluido da sociedade capitalista nascente? É este o problema que será enfrentado nas páginas seguintes. embora existente. no Piemonte. no Alessandrino. do autoconsumo e das relações entre gerações nas estruturações do mercado da terra. cf. o mercado gerado pelo autoconsumo possui uma lógica diferente daquele. que entra como caso particular. mas bastante generalizado.

Também os historiadores sucessivamente fizeram uso muito parco desse rico material: algo parecia não funcionar e os preços médios que Giuseppe Prato tinha publicado. eram evidentemente fruto de dados tão diferenciados e heterogêneos a ponto de não suscitar. cada transação em particular (extensão. que resumiam. porque — apesar de ter sido feito com grande rigor — os resultados. a fi m de avaliar o preço médio da terra. por ano. a curiosidade dos historiado- AF_livro final ok. porém mais manipuláveis. destinação de cultivo e preço). mas também segundo níveis de qualidade e de fertilidade no âmbito de cada destinação de plantio. posteriormente. a assim chamada Equiparação. terminaram por ser julgados demasiado heterogêneos (em particular no que se refere aos níveis dos preços. este enorme trabalho foi deixado de lado depois de algumas experiências de utilização nas avaliações. A terra a ser taxada a partir do cadastro devia ser. durante o trabalho preparatório do grande cadastramento promovido por Vittorio Amedeo II. de fato.indd Sec5:96 4/12/2009 15:03:17 . avaliada não somente segundo grandes divisões específicas de cultivo. mesmo em cada comunidade singular) para que se pudesse utilizar as médias como algo significativo. Todavia. e passou-se a confiar nas estimativas mais genéricas. e somente estudando cada negócio singular ao longo de seu ciclo de vida pode-se observar plenamente o caráter complexo da relação entre terra e mercado que descrevi.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 96 Até aqui as considerações que desenvolvi estão baseadas em duas pesquisas microanalíticas relativas a dois vilarejos piemonteses na Idade Moderna: somente trabalhando sobre as relações de parentela dos compradores e dos vendedores. em nível de província. Assim. para cada comunidade continental do estado de Savoia aquém dos montes. dos agrimensores e dos experientes avaliadores locais. Trata-se do espólio que os funcionários piemonteses fizeram de todos os contratos de compra e venda de terra por 29 anos (1680-90 e 1700-17). o que teria sido possível somente através de um exame mais aproximado de cada contrato singular — o que era claramente impossível. uma outra fonte mais agregada nos fornece mais indicações. Um trabalho colossal e revelado inútil.

Ivrea.14 mas teria ele podido continuar observando que ainda mais fortes eram as variações de contrato a contrato. 14 Prato. Mondovi. Os dados sobre formas jurídicas de posse da terra foram retirados do maço 43 do mesmo fundo. Fossano.indd Sec5:97 4/12/2009 15:03:17 . 15 Idem.15 Mas. A impressão geral de um aumento progressivo de período a período nas agregações de todo o estado não faz mais do que exprimir outros fenômenos — a desvalorização geral da moeda. Vercelli e aumentavam nas outras províncias. Seções Reunidas. 1908:198. 16 Bracco. Saluzzo. do que justificar a consideração otimista de um “sintoma de crescente prosperidade que se manifestava no emergente valor das terras”. AF_livro final ok. Alba. o defeito não estava somente na excessiva sintetização com a qual eram tratados os dados. ou. Ivrea.97 ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA res. entre 1706-10 e 1711-17. Susa. de modo dificilmente explicável. segundo arquivamento. “As disparidades fortíssimas que se notam entre a média geral por província apresentam um desencontro ainda mais impressionante nas variações não menos notáveis que se verificam de povoado em povoado”. na “variedade das fórmulas de contratos. Vercelli. Fossano. repito. que indicavam de modo variado o objeto da compra/venda”. maços 1-9. Pinerolo. aumentavam nas províncias de Turim. por exemplo —. por exemplo.16 O problema estava na dificuldade teórica de perceber. a partir do centro mercantilizado de um estado mercantilista. diminuíam em Turim. Cuneo. Pinerolo. Alba. que multiplicava um mercado aparentemente único em mais setores fragilmente interligados. Biella. pasta 21. O fundo da equiparação relativo ao espólio dos contratos de compra e venda sobre os quais estão baseados todos os dados citados nas páginas seguintes encontra-se no Arquivo de Estado de Turim. observa Prato. Mondovi. entre 1680-85 e 1686-90 os preços. 13 Prato (1908:192-201 e 1910:334-339). Os dados sobre população estão na pasta 10.13 Também nas agregações em nível de província os dados eram discordantes quanto ao fato de que. 1981:51-52. Finanças. maços 162-206. a lógica social que presidia a compra/venda da terra por parte dos camponeses. para os quais as médias não faziam mais do que tornar aparentemente uniformes realidades disparatadas. mas diminuíam em Asti.

3 13.1 21. as vendas por peça.7 25.2 15.0 22.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 98 E.7 16. Duas lógicas diversas Uma primeira observação: a sensibilíssima variação entre províncias no percentual de terras que entram no mercado.1 Cuneo 16.8 38.6 16.9 15. todavia.3 36. O levantamento dos atos notariais feitos por funcionários de Savoia implica duas formas de subavaliação da terra que efetivamente passou pelo mercado: antes de tudo.1 16.2 Susa 10.3 11.0 31. superfície útil eclesiásticos.6 18.4 2.0 14. Antes de comentar os dados da tabela 1.0 Pinerolo 19.1 23. o trabalho da equiparação sobre contratos nos pode mostrar algumas coisas.8 17.6 11.1 Ivrea 10.1 25. mas somente se a atenção se voltar não tanto para o nível dos preços.3 21.9 11.2 Vercelli 7. mas para a qualidade e a quantidade das transações.6 12.2 6.5 18. AF_livro final ok.4 20.8 9. TA B E L A 1 Percentuais de terras vendidas em 29 anos sobre o total da superfície disponível (1680-90 e 1700-17) % vendido sobre % vendido sobre superfície total superfície útil % feudais e % sobre alódio eclesiásticos sobre (excluídos feudais.5 18.6 35.7 Total 14.9 Mondovi 11. comuns) % bens comuns sobre superfície útil Turim 20.5 Asti 15.5 Saluzzo 19.3 29.2 14. algumas considerações sobre limites da fonte.7 34.1 37.5 23.1 26.2 19.2 Biella 6.6 7.1 17.1 20.4 20.9 22.0 Fossano 23.9 34.2 20.4 22.2 21.9 15.indd Sec5:98 4/12/2009 15:03:17 .6 Alba 13.1 34.8 12.3 13.2 26.3 7.9 3.6 3.

a 23. no entanto. a situação é extremamente diferenciada: entram no mercado percentuais de superfície útil que oscilam entre 7. no entanto. Quero.AF_livro final ok. reagrupados frequentemente 4/12/2009 15:03:17 .6% na rica província de Fossano. Como se vê. pântanos).428 jornadas sobre uma superfície total de 3. nela prevalecendo os arrozais. uma província montanhosa e de agricultura pobre. portanto. recordar que o território da cidade de Turim está excluído das medidas para o cadastramento e. não eram levadas em consideração porque era impossível fazer referência ao preço de uma extensão determinada de terra vendida. A primeira coluna da tabela não é muito indicativa porque contém ainda os bens infrutíferos (montanhas. da qual foram justamente subtraídas as áreas infrutíferas. O fato não deveria.6% em Biella.indd Sec5:99 99 ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA e não por superfície.4%). rios. o que leva a uma incompletude dos dados. imaginar que esta fragilidade documental não incidia de modo significativamente diferente nas várias províncias. alterar o confronto horizontal entre as várias áreas. Isso impede a utilização serial dos dados anuais. todavia. a menos que se eliminem os últimos anos de cada série. tanto mais acentuada quando mais se aproxima dos anos finais de cada período (em particular os anos 1689-90 e 1716-17). mas não se distancia substancialmente (salvo para a província de Cuneo) da segunda coluna. insalubre e infestada pela malária.668 (9. A outra subavaliação derivava do fato de que os empregados aos quais tinha sido solicitado o inventário utilizaram exclusivamente os volumes concernentes aos anos objeto do recenseamento (justamente 168090 e 1700-17). as situações intermediárias parecem disparatadas. registrados alguns meses ou anos depois da estipulação do contrato. é uma área escassamente populosa. mas bastante coerentes com essa hipótese: a província de Vercelli. também deste recenseamento. Alguns atos eram.454. Vale. enfim. onde as terras são pouquíssimo comercializadas. Esses extremos parecem significativamente indicar que a participação no mercado era proporcional à fertilidade do solo. Não tenho condições de apresentar nem mesmo uma estimativa aproximada da importância de tais vendas e assinalo este fato exclusivamente como indicação da fragilidade dos dados nos quais me baseio. que representam 326.

ainda que somente por motivos jurídicos: feudo. Pinerolo e Saluzzo são as províncias mais dinâmicas. Saluzzo e Turim são províncias compostas. no entanto. mais adiante. que pode ser tomado em consideração num mercado de terra ao menos hipoteticamente homogêneo. Susa. por outro lado. nem toda terra é comercializável do mesmo modo. nem mesmo que a presença de uma ampla terra de uso comum desacelere a comercialização. mudam. É somente o alódio. Fossano. como relativas ao alódio e cujo peso percentual é calculado exclusivamente sobre terra de propriedade alodial. As últimas três colunas permitem verificar se a presença de muita terra feudal e eclesiástica. portanto. onde a expectativa seria a de encontrar pouca comercialização devido à estrutura fragmentária de suas propriedades e à grande prevalência das áreas montanhosas e pouco férteis. as situações de Susa. mas não muito: de novo Turim. Pinerolo. se a variação no peso do alódio mudam coerentemente segundo as taxas de comercialização da terra. interessante) em nível provincial pudesse ser assumida como absolutamente válida. Observe-se. Ivrea e Mondovi são províncias nas quais prevalece a montanha. Procurarei. Cuneo.indd Sec5:100 4/12/2009 15:03:17 . são zonas em que há uma forte presença das vinhas e da pequena propriedade. ao contrário. em posição intermediária. na qual todas as vendas são consideradas. Cuneo.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 100 em grandes propriedades feudais ou eclesiáticas. antes que essa resposta negativa (e. por exemplo. E. não parece que uma redução da superfície livremente comercializável à disposição dos camponeses os conduza a uma comercialização mais intensa. ainda que impropriamente. a terceira coluna. propriedade eclesiástica e bens comunais têm. O quadro torna-se mais móvel. sob vários títulos. explicar o significado deste comportamento. em nível de comunidade. e de Ivrea. nas quais estão presentes igualmente montanhas e planícies. São ainda perguntas que requereriam um exame mais detalhado. Mas nenhuma resposta unívoca parece extrair-se: isto é. AF_livro final ok. portanto. Asti e Alba. se a disponibilidade de uma ampla superfície comunal e. rigidez — quando não impossibilidade absoluta — de participação no mercado. portanto.

5 1705-10 57. pela terra.0 Total 53.3 7.indd Sec5:101 4/12/2009 15:03:17 .3 45.6 1711-17 53.4 7.9 6.500 contratos sobre outros 520 mil).3 46.8 31. Todavia.1 38. AF_livro final ok.101 ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA Experimentemos.1 44.1 57.2 37. proporcional à superfície: o levantamento completo do fundo — que tenho em curso — permitirá uma maior precisão.7 42. diminuir a escala de observação e estudar algumas províncias mais detalhadamente. preços que excedem significativamente a renda capitalizada.6 29.1 27. como se pode ver pela tabela 2. os preços pagos pela terra ocupada.4 31.8 1686-90 52.6 18.2 29.6 50.2 31. Podemos então considerá-las como indicadores suficientemente bons de um mercado de mais alta qualidade que o das fragmentadas terras camponesas. em todo caso.4 6. de que os camponeses com uma pequena propriedade estão dispostos a pagar.1 41. os estábulos com edifícios e são. Pode ser uma observação relativamente evidente.5 41.1 64.1 27.9 45.2 41. que. ou seja.4 37.2 10.9 48.4 40.10 50.1 31.0 48.5 17 O número de camponeses é uma hipótese.9 36.5 29. confirma a opinião já citada de Chayanov. TA B E L A 2 Percentuais de contratos relativos a propriedades superiores a 10 jornadas sobre o total das vendas (em jornadas e liras piamontesas) Fossano Ivrea Saluzzo Vercelli Extensão Dinheiro Extensão Dinheiro Extensão Dinheiro Extensão Dinheiro 1680-85 52. então.9 47.7 34. A amostra foi escolhida por acaso e representa cerca de 31% da superfície útil (e 72.17 As áreas superiores a 10 jornadas compreendem todas as terras ocupadas.9 45.3 51.6 47.4 47.8 9. em todos os casos examinados. o percentual de dinheiro que circula em relação a estas terras é menor do que aquele representado pela extensão.3 1700-05 53. portanto.1 28. propriedades melhores.

por certo. que por este aspecto — um forte peso percentual das terras de mais de 10 jornadas — comporta-se como Fossano. um dos mais altos entre as províncias piemontesas (cf.3 0.4 4. TA B E L A 3 Número das transações em quatro províncias Fossano Ivrea Saluzzo Vercelli N de contratos com mais de 10 jornadas 567 322 642 336 Totalidade dos contratos 13. tabela 1). ainda que a superfície e o dinheiro para as propriedades superiores a 10 jornadas sejam consideravelmente diversos em favor de Fossano. e a de puro alódio seja superada somente pelo entorno de Ivrea. área mais rica. do T. apresenta um mercado de terra todo concentrado sobre áreas de pequeníssima extensão: 72% da superfície e 92% do dinheiro dizem respeito a contratos de menos de 10 jornadas. Fossano e Saluzzo têm comportamentos muito parecidos no que se refere ao número e à qualidade dos contratos. como dito antes. uma província com pouquíssimas transações.579 Superfície alodial* 114.620 14. Tanto mais que o percentual da superfície ingressada no mercado na província de Ivrea não era.368 36. o que é imputável apenas em pequena parte à diferença de superfície útil ou de propriedade alodial. ao contrário. é. pobre e de propriedades fragmentadas.977 4.indd Sec5:102 4/12/2009 15:03:17 .410 o % dos contratos com mais de 10 jornadas N.631 7.331 310. uma zona.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 102 Uma segunda observação.919 113. Ivrea. como se pode ver pela tabela 3.138 174.2 Superfície útil 172.427 284.: No original não consta a medida de terra utilizada.783 208. na qual é relativamente pouco representativa a terra feudal e eclesiástica. Mas é ainda a província em que o número de transações (cf. AF_livro final ok. e que tem um quarto da superfície útil composta pelos bens comunais.000 163. Vercelli. tabela 3) é de longe o mais alto. ainda que sua superfície útil seja de longe a mais alta.9 4.

9 3.7 80.5 Até 3 10.2 ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA 103 Distribuição percentual dos contratos segundo as dimensões Trata-se.3 10.1 1.4 0. no entanto.8 Até 9 0.6 0. isto é. em todas as províncias.TA B E L A 4 Fossano Ivrea Saluzzo Vercelli Até 1 Jornadas 38. Em realidade.indd Sec5:103 4/12/2009 15:03:17 .6 Até 7 1.7 0.6 13.7 0.4 0. Além disso. o mercado mais ativo do ponto de vista do número das transações é aquele das áreas dominadas pela pequena propriedade camponesa. tabela 4).5 0.6 5. por mais tentativas e cruzamentos que eu tenha experimentado.1 0.0 0.1 34.3 Até 5 2.9 1.7 3.0 0. O hábito de trocar a terra por moeda é muito intenso justamente na província mais marginal e na qual a terra tem um papel precípuo de atender ao autoconsumo. é um problema de difícil solução e.1 0.3 1.2 44.2 1. se a presença de uma população numerosa tende a fazer multiplicar as transações. isto é.9 4.5 0. a distribuição da propriedade.1 33. um dado de grande relevo: ao contrário daquilo que se poderia esperar.3 Até 6 1.4 1.3 0. em cada caso. É justo perguntar se a densidade da população é um fator de dinamização do mercado da terra. pouco mais de um hectare (cf.9 Até 4 4.2 5.1 13. a presença de atividades diversas da agricultura ou AF_livro final ok.5 Outras 4. Aparece.3 3.6 27. não consegui chegar a uma conclusão quantitativa aceitável: a diferença de estrutura pedológica e de posição de várias comunidades não permite encontrar respostas unívocas e calcular correlações entre o número de transações e a terra à disposição de cada família.0 Até 2 35.3 Até 8 0. de um mercado muito fracionado. no qual prevalecem as porções inferiores a 3 jornadas.4 4.2 1.7 Até 10 0.

5 41. em todas as províncias. Não me parece imprudente imaginar que a verdadeira relação entre mercado e população refira-se a episódios de ciclo de vida de cada família que modelam o mercado em ritmos relativamen- AF_livro final ok.4 31.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 104 de trabalhos agrícolas em terras feudais.9 49. uma indicação de que a concentração dos contratos. que foi.8 50 19. de resto.indd Sec5:104 4/12/2009 15:03:17 .1 Outros 26 30. independentemente da terra à disposição.2 Este mesmo silêncio é.1 Até 2 79 18. distribuída de maneira extraordinariamente homogênea.6 64.7 Outros 24 37.8 TA B E L A 6 Relação entre extensão de terra alodial per capita e número de contratos por família — província de Saluzzo No de jornadas de alódio per capita Contratos por família (%) No de comunidades Até 1 Até 2 Outros Até 1 2 100 — — Até 2 14 28.6 64. bem como a existência da terra comum. mostram justamente esta frágil correlação. As tabelas 5 e 6.7 20. podem tornar ainda mais frágil a possibilidade de uma aferição. sobre as províncias de Ivrea e Saluzzo.3 7. girou em torno da categoria de até dois contratos por família nos 29 anos. TA B E L A 5 Relação entre extensão de terra alodial per capita e número de camponeses por família — província de Ivrea No de jornadas de alódio per capita Contratos por família (%) No de comunidades Até 1 Até 2 Outros Até 1 14 28. num assentamento muito denso — uma referência a qualquer regularidade subjacente às práticas mercantis relativas à terra. no entanto.3 7.

que sustenta tese de grande interesse (mas um pouco geral demais) também para o estudo do mercado da terra. sobre demanda e oferta.18 É sempre um pouco arbitrário construir hipóteses de forma negativa. convivendo concomitantemente e em confl ito direto. AF_livro final ok. excederão claramente a renda econômica capitalizada. Mas somente uma pesquisa local poderá sustentar esta hipótese. do efeito que uma ampliação ou melhoramento da terra terão sobre o equilíbrio entre distribuição do trabalho e necessidades familiares. portanto. seja o preço das transações. a pesquisa das condições sob as quais a terra circula como mercadoria em diferentes regimes de valores aquilo que parece essencial ter presente quando falamos em mercado de terra no Antigo Regime. ao contrário. de significados sociais contemporaneamente ativos. Numa situação de relativa escassez de terra. Para a agricultura organizada segundo princípios mercantis e capitalistas. É. voltado em primeira instância ao equilíbrio do autoconsumo não o subtrai do mercado.indd Sec5:105 4/12/2009 15:03:17 . portanto. então. justamente graças às lógicas diferentes pelas quais são governadas.105 ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA te regulares: a formação de novas famílias e os matrimônios. papel da terra comum e da propriedade feudal ou eclesiástica permitem ao menos imaginar o contexto cultural das trocas com uma pluralidade de arenas e. renda capitalizada. E isso justamente porque a natureza específica do negócio camponês. a família camponesa estará disposta a pagar o preço ou a introduzir melhoramentos considerados irracionais num empreendimento capitalista: os preços. de fato. a aquisição de nova terra ou a introdução de melhoramentos técnicos depende de que o aumento da renda econômica devida a este incremento ou a esta melhoria seja maior ou ao menos igual à taxa de juros do capital investido. como é demonstrado pelo fato de que são justamente as terras mais fragmentadas as que ativam uma 18 Uso aqui os termos de Appadurai (1986). mas o torna um fator relevante ao determinar seja a quantidade. mas é o que tenho sido compelido a fazer ao longo dessas páginas: a escassa resposta que os dados forneciam a respeito do que se podia prever. A decisão da família camponesa dependerá.

e também onde a densidade da população corresponde à intensidade ótima para a agricultura. a diferença entre as províncias piemontesas é explicável somente levando em conta esta contemporânea presença de uma agricultura relativamente moderna e voltada ao mercado e de uma agricultura camponesa. E não se trata somen- AF_livro final ok.indd Sec5:106 4/12/2009 15:03:17 . até que as avaliações produzidas pelo setor camponês tornam-se decisivas para o mercado e empurram para as margens o preço baseado nas avaliações do setor capitalista.. a diferença entre Fossano e Saluzzo nas tabelas 2 e 3. E ainda: Nas áreas em que há um excedente absoluto de terra. é uma prova evidente disso. justamente porque a segunda província é mais populosa e mais pobre — tanto mais os percentuais entre terra dos camponeses comercializada em pequenos pedaços e preços pagos se distanciam. E quanto mais pobre e sufocada a área de interesse — como mostra do caso de Ivrea. Mas nas áreas superpopulosas. São as mesmas conclusões de Chayanov (1966) sobre a Rússia ou de Latur sobre a Suíça: “Isso leva a uma conclusão paradoxal: nas áreas superpopulosas as famílias camponesas mais pobres pagarão os preços e os arrendamentos mais altos pela terra”. de disponibilidade para comercializar. quando os negócios capitalistas aumentam e tem-se uma escassez relativa de terra. ou. ainda. comparecem em número sempre crescente compradores e vendedores em condições de pagar preços mais altos do que aqueles capitalistas [. que está na vanguarda da difusão do capitalismo no campo piemontês. Gradualmente eles se tornam sempre mais relevantes também na determinação do preço sobre o mercado capitalista. não existem bases concretas de coalizão. Nas zonas superpopulosas os limites dos melhoramentos.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 106 circulação de moeda percentualmente superior à superfície de interesse. Em síntese..]. dos preços são enormemente mais altos do que nas áreas em que prevalecem os negócios capitalistas: o número vertiginoso de transações na pobre província de Ivrea com relação à estagnada província de Vercelli.

21 107 ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA te de uma guerra sobre preços. como número de transações.1989:13). com uma suficiente quantidade de dinheiro em circulação e. mas também sobre a terra: ter- 19 Chayanov (1966:235-238). em particular nas montanhas: como seria “superado pelo tempo o problema de separar os produtores da terra” (Merzario. Aquilo que Raul Merzario (1989) definiria como capitalista nas montanhas é. uma vez que me parece que seja bastante útil no estudo da proto indústria levar em consideração o papel diferenciado que resulta do confl ito entre modelos diferentes de mercado da terra. trata-se de situações em que a população é densa. As pesquisas de Laur sobre a Suíça são temas de contínuo confronto utilizado por Chayanov. parecem-me não levar em conta esta diferença de confl ito de comportamento econômico. Boserup (1981).19 Mas. Em outros casos. neste caso. 21 As teses de Ester Boserup.indd Sec5:107 4/12/2009 15:03:17 . uma ilusão de ótica: duas lógicas diferentes e não coerentes presidem o advento do mercado da terra. com frequência.20 O capitalismo nascerá justamente ali. 20 Concordo em grande parte com a tese sustentada no livro. naturalmente. com uma característica inesperada: a vivacidade do mercado da terra. é isso que empurra os negócios camponeses para a margem do sistema. no entanto. a própria diferença entre as várias províncias piemontesas entre o Seiscentos e o Setecentos parecem-me confirmar esta hipótese.se-á contemporaneamente uma clara transferência da terra do setor capitalista ao setor camponês. portanto. que têm alguma analogia com tudo o que aqui sustentei sobre a capacidade dos negócios camponeses tradicionais de desenvolver novas técnicas e de incrementar a produção. maiores do que podia fazer o setor camponês. orientados em direção ao autoconsumo. o papel da terra parece-me subavaliado. A quantidade de transações e a quantidade global de dinheiro colocado em circulação por dois setores. onde mais lento e viscoso nos parece o costume nas transações e no comércio. AF_livro final ok. de situações marginais em que a pressão dos negócios orientados pelo mercado é relativamente escassa. é tanto mais forte quanto mais a área de interesse é dominada pelos negócios camponeses. nos quais por um certo período o setor capitalista estava em condições de pagar rendas muito altas e. Cf.

Paris: Editions de l’Ecole des Hautes Etudes en Sciences Sociales. v. 1985b. Raul. In: ——— (Ed. archaiche e moderne. 1985a. Massachussets: Essex Institute Historical Collection. ROSEN. GEERTZ.). MASELLA. Arjun. Giappichelli Editore. Oxford: Basil Blackwell. William I. 123-264. GEERTZ. The social life of things. 26196. Commodities in cultural perspective. 1981. in l’espai viscuit. H. Oxford: Basil Blackwell. Annali. Lawrence (Eds. ———. 1979. 1963. Karl. 225-258. p. 191-342. 1981. Economie primitive. 1986. Alan. I. DAVISSON. El mercato de la terra. The origins of english individualism. Chicago: University of Chicago Press. 88. property and social transition. Suq: the bazaar economy in Sefrou. L´eredita immateriale. IL: Richard D. The family. 1966. CIII. Gérard. Homewood. AF_livro final ok. BRACCO. Strategie famigliari nella prima fase di industrializzazione nel Comasco. p. 3-36. Anglaterra.. Introduction: commodities and the politics of value. Turim: G. Turim: Einaudi. Luigi. Reino Unido: Cambridge University Press.. Turim: Einaudi. p. Le marché foncier à la veille de la Révolution. Aleksandr V. Terra e fi scalità nel Piemonte sabaudo. Turim: Rosenberg. Mercato fondiario e prezzi della terra nella Puglia barese tra XVII e XVIII sec. Índia i un poble del Piamont en el segle XVII. p. CHAYANOV.. Peddlers and princes: social change and economic modernization in two Indonesian towns. 1984 BOSERUP. 1976.indd Sec5:108 4/12/2009 15:03:17 . Cambridge: Cambridge University Press. Carriera d’un esorcista nel Piemonte del Seicento. G. 1989. América colonial. On the theory of peasant economy. Population and technology. Ester. Il capitalismo nelle montagne. Centro e periferia di uno stato assoluto. 1967. Meaning and order in contemporary Morocco. Valencia. POLANYI. Ir win.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 108 REFERÊNCIAS APPADURAI. Bolonha: Il Mulino. Clifford. 1978. t. Colloqui Internacional d’Historia Local.). MACFARLANE. 1989. Mélanges de l’Ècole Française de Rome. p. ———. BÉAUR. Essex couty price trends: money and markets in 17th century. In: ———. Giovanni. MERZARIO. Tre saggi su Piemonte e Liguria in età moderna. ———. 1980. LEVI. 144-85.

Quaderni Storici.. Toronto: Pontifical Institute of Mediaeval. ———. (Eds. 467-92. M. M. 109 ECONOMIA CAMPONESA E MERCADO DE TERRA POSTAN. J. Nazionale. RAFTIS. Torino: [s. C. 1960. AF_livro final ok. SCLARANDIS. Clara. L. Giuseppe. society and demography in Halesowen.). Il costo della guerra di successione spagnola e le spese pubbliche in Piemonte negli anni dal 1700 al 1713. marriage and death in a medieval parish. Turim: Società Tipografica Ed. 1987. 1910. Life. Ambrose. La vita economica in Piemonte a mezzo il secolo XVIII. BROOKE.indd Sec5:109 4/12/2009 15:03:18 . RAZI. 1980.n. Zvi. Cartae nativorum: a Peterbrough abbey cartulary of the fourthteenth century. 1974. Northampton: Northamptonshire Record Society.]. p. 1270-140. Cambridge: Cambridge University Press. Bolonha XXII.PRATO. Assart data and land values: two studies in the East Midlands. Economy. 1220-1350. Struttura della propietà e mercato della terra in una comunità piemontese del XVIII secolo. 1908. N.

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PARTE II O diálogo com a história e a historiografia AF_livro final ok.indd Sec5:111 4/12/2009 15:03:18 .

indd Sec5:112 4/12/2009 15:03:18 .AF_livro final ok.

Em sua incursão no campo da história da historiografia. que se consolidou com a publicação póstuma de um volumoso livro intitulado Storici e storia. muito mais questões de interpretação histórica do que aquelas de fundo teórico. esp.indd Sec6:113 4/12/2009 15:03:18 . 223-228. há um dado do percurso acadêmico de Delio Cantimori 1 Ver a esse respeito Miccoli (1970). Nem mesmo em sua vasta e significativa obra ele buscou construir explicitamente um arcabouço metodológico que se antepusesse a suas investigações ou indagações históricas.1 No entanto. na obra dos historiadores. Cantimori sempre procurou compreender. p. Ele entendeu a história da historiografia como pesquisa conduzida não sobre pressupostos ou sobre concepções gerais a respeito da história. não sobre um plano especulativo e metodológico.5 Delio Cantimori: um diálogo com a história da cultura Cássio da Silva Fernandes Delio Cantimori (1904-1966) jamais falou de micro-história. mas como um sofisticado instrumento analítico voltado para a compreensão dos julgamentos e das representações construídas pelos historiadores sobre problemas ou panoramas históricos concretos. AF_livro final ok.

inglesa etc. no prefácio a Mitos. não muito alto. Warburg a E. emblemas. Ele continuou: “Bom. como o principal responsável por sua escolha em abraçar a profissão de historiador. Aquela maneira de ler o texto levantando uma multiplicidade de problemas foi algo que me pareceu realmente magnífico. mas vamos comparar as traduções italiana. a importância que Delio Cantimori teve em sua formação. como nos retratos de cardeais de El Greco. Ginzburg citou. e depois de uma semana tínhamos lido cerca de dez linhas. decidi estudar história. francesa. à vertente historiográfica que ficou conhecida alguns anos depois de sua morte como micro-história: Cantimori foi reconhecido por seu aluno.2 Em outra passagem. Poucos liam. em algumas oportunidades. explicando as razões que o levaram a escrever “De A. Gombrich: notas sobre um problema de método”.indd Sec6:114 4/12/2009 15:03:18 . publicado no referido livro. vamos ler o livro de Burckhardt. o Warburg Institute. e disse que ia ler e comentar a obra de Burckhardt.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 114 que pode remetê-lo. 2006:286. H. Carlo Ginzburg. durante os anos de estudo na Scuola Normale Superiore di Pisa. AF_livro final ok. É significativa a passagem em que Carlo Ginzburg narra seu primeiro contato com Cantimori. ainda que tangencialmente. no ano acadêmico de 1957-1958: [Cantimori] ia passar uma semana em Pisa. de barba branca. A tentativa de acertar contas com a tradição a ele ligada 2 Ginzburg. Aquilo me marcou profundamente. na edição brasileira]. apud Lima. Considerações sobre a história universal [Reflexões sobre a história.”. Um ano depois. com uma cara de cardeal. Falava com uma voz pastosa e perguntou: “Algum de vocês lê alemão?”. Lembro-me muito bem do momento em que o vi pela primeira vez: era um homem gordo. afirma: No começo dos anos 60. Ginzburg. sinais. graças a Cantimori. descobri. Começamos.

há que se ressaltar um dado presente nas duas citações de Ginzburg: em ambos os casos a referência a Cantimori aparece ligada a um modelo histórico-cultural de grande importância para o cenário historiográfico europeu a partir da segunda metade do século XIX. aliás. Seria necessária uma indagação pontual a respeito da influência de Delio Cantimori sobre o primeiro livro de Ginzburg. publicado no mesmo ano da morte de Cantimori. em 1966. do historiador suíço Jacob Burckhardt (1961). 2007:9-10. tendo em vista a semelhança do tema do livro (tema. Na primeira passagem. de Burckhardt. que persegue a obra de Ginzburg por muito tempo) e o foco central dos estudos do professor em Pisa. Meu interesse se volta especialmente para a obra de Cantimori. mas também sobre a permanência de formas e fórmulas para além do contexto em que nasceram. fugidos das persegui3 115 DELIO CANTIMORI obrigou-me a refletir.vos como fonte histórica. concentremo-nos em Cantimori. a referência de Ginzburg a Cantimori relaciona-o a Aby Warburg e à tradição da Kulturwissenschaft (ciência da cultura) no instituto de pesquisa que leva seu nome. Cantimori trabalhava numa tradução italiana das Weltgeschichtliche Betrachtungen. não só sobre o uso de testemunhos figurati- Ginzburg. Ginzburg refere-se às aulas de Cantimori sobre as Reflexões sobre a história.3 São de fato referências muito fortes à importância de Cantimori para a formação de Ginzburg. De fato. AF_livro final ok. nesse período.indd Sec6:115 4/12/2009 15:03:18 . E é sabido o quanto a obra de Burckhardt serviu de modelo para Warburg e para seus seguidores. notando possíveis relações entre sua perspectiva historiográfica e o citado modelo histórico-cultural. E. nesse sentido. A obra de Delio Cantimori é marcada pela amplitude e pela profundidade com que desenvolveu a pesquisa de quase uma vida a respeito dos hereges italianos do século XVI. I benandanti. editada na Itália em 1959. Entretanto. reveladoras da atenção dedicada pelo aluno às indicações do mestre. Na segunda passagem. Não desenvolverei aqui uma reflexão sobre esse particular.

À universidade medieval se somava a instituição de altos estudos — a Scuola Normale Superiore —. amadurecido numa cidade de província. em ambiente de gente de escola”. Porém. fundada por Napoleão Bonaparte 4 Cantimori. da Áustria. em sua mais ampla e rica diversidade. com suas poderosas relações comerciais com o Ocidente e com o Oriente. da atual Alemanha. místicos. Como ele mesmo afirmou mais de uma vez. 1992:11. teólogos. ainda que com forte presença nas monumentais construções e no traçado urbano. levou Cantimori a iluminar. AF_livro final ok. não sem uma dose de ironia no confronto com a modernidade dos grandes centros acadêmicos europeus.indd Sec6:116 4/12/2009 15:03:18 . sapateiros. tecelões. A busca pelos sinais da passagem dessa multidão de homens das mais variadas formações. e com uma pitada de crítica em relação à Europa contemporânea (a Europa das grandes capitais). Polônia. desde doutos humanistas e homens de letras até impressores. o cosmopolitismo que marca a história medieval da República de Pisa. os pequenos círculos de relações pessoais e de elaboração e divulgação de ideias que aproximaram o mundo de um e de outro lado dos Alpes. propiciadas por sua posição geográfica às margens do mar Tirreno e pela força da civilização presente na memória que etruscos e romanos haviam deixado ali. A formação e a atuação de Delio Cantimori desenvolveram-se basicamente em torno de duas instituições de uma mesma cidade: a Università degli Studi di Pisa e a Scuola Normale Superiore di Pisa. Inglaterra. procedentes das mais diversas regiões italianas. não mais que memórias. O produto desse trabalho ficou documentado em especial em dois livros: o volumoso Eretici italiani del Cinquecento e Umanesimo e religioni nel Rinascimento. suas “pesquisas nasceram de problemas juvenis de um estudante de liceu. era. Seu longo e paciente trabalho de pesquisa o conduziu a inúmeros arquivos e bibliotecas em várias partes da Europa. a diminuta importância da cidade no século XX não se reproduzia no papel de suas instituições acadêmicas. à procura de abrigo em várias cidades da Confederação Suíça.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 116 ções religiosas na Itália.4 De fato. quando Cantimori chegou à cidade (em 1924).

reed. teriam aberto ao jovem estudante o universo do humanismo italiano. Em Pisa. todos publicados em Il pensiero italiano del Rinascimento. A tese de perfezionamento de Cantimori sobre o conceito de Renascimento fora discutida na Scuola Normale exatamente com Giovanni Gentile. Com os escritos e o ensinamento acadêmico de Gentile. assim como os arquivos e os museus. Cantimori participou. a formação acadêmica e a prática docente de Delio Cantimori.: Cantimori. Além disso. Gentile. No prefácio de Eretici italiani del Cinquecento. Cantimori diz ter sido encorajado a retomar a leitura (já realizada na juventude) da obra de Burckhardt sobre o Renascimento italiano. 1932:229-268. Giordano Bruno e il pensiero del Rinascimento. além de seu estudo sobre o caráter do Renascimento ou aquele sobre o conceito de homem no Renascimento. 1971:413-462. afinal. quase integralmente. numa chave de cunho fi losófico-idealista que marcou um tipo de leitura de Burckhardt nas primeiras décadas do século XX.indd Sec6:117 4/12/2009 15:03:18 .5 Sobre o papel de Giuseppe Saitta. Nesse ambiente deu-se. ele próprio afirmaria que seu interesse original em estudar esse tema teria surgido da leitura do livro de Gentile. Certamente também as conferências de Gentile. autor de livros como Marsilio Ficino e la filosofia Cantimori. conferências que mergulhavam com amplitude na ciência e na fi losofia do Renascimento. e publicada em 1932. Esses escritos traziam a marca burckhardtiana da compreensão do Renascimento italiano como berço e origem do indivíduo moderno. como aluno. faziam de Pisa um dos mais importantes centros de estudos humanísticos na Itália e passagem necessária de pesquisadores de toda a Europa. e eram interpretados. em parte publicadas depois no livro Il pensiero italiano del Rinascimento. e não somente na Itália. era um dos principais responsáveis pela recepção dos escritos de Burckhardt em solo italiano nas primeiras décadas do século XX. AF_livro final ok. da escola de Giovanni Gentile e de Giuseppe Saitta.5 117 DELIO CANTIMORI seguindo o modelo da École Normale parisiense. Vale lembrar as páginas de Gentile sobre o papel de Petrarca na formação do humanismo italiano. pelas mãos de Gentile. as várias e importantes bibliotecas originadas na Idade Média.

o Giordano Bruno de Giovanni Gentile (1955:ix) tinha uma marca semelhante. “da nossa verdadeira tradição.. o berço da consciência italiana”.7 O estudo de G. que tem início com o Humanismo. afi rma Cantimori no prefácio à edição suíça dos Eretici (p.]. à qual era acrescida a simbologia do mártir. Desses modelos de interpretação de dois personagens do humanismo 6 7 Saitta.. Giuseppe Saitta teve que se defender. 11): A contemporânea experiência fi losófica neoidealista. em sua formação. como monumentos à memória. que tinha colocado isoladamente. Saitta apresenta em seu livro de 1923 é o representante.. os estudos sobre Lelio e Fausto Sozzini e sobre Giordano Bruno. Ele afirma que teve o primeiro impulso em direção aos hereges italianos sob a ótica da relação entre fi losofia e história das ideias. Em relação a Marsilio Ficino. em suas palavras. figuras que representassem a resistência fi losófica e científica à ameaça das perseguições religiosas e dos tribunais da Inquisição na Itália. como ele mesmo afirma. Idem. 1953:vi. até então. 1927). AF_livro final ok. Saitta tinha um fundo romântico. Paralelamente.6 Era o problema da compreensão. 1923) e L’educazione dell’Umanesimo in Italia (Veneza. da acusação de fornecer a demonstração de um Ficino idealista e extemporâneo e de interpretar o pensamento de Ficino contra um fundo subjetivista e revolucionário. Assim tinham vindo à tona.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 118 dell’Umanesimo (Bolonha. e portanto também extemporâneo. sustentado na ideia de nação. nas reedições de seu livro (em 1942 e em 1953).. O fato é que o Ficino que G. fez[-me] formular o problema primeiramente como problema de história do pensamento fi losófico: no quadro das discussões sobre as relações entre Renascimento e Reforma [. “della nostra anima nazionale” [de nossa alma nacional].indd Sec6:118 4/12/2009 15:03:18 .] e de uma acentuação do caráter imanente do pensamento neoidealista de Giuseppe Saitta [.

ver Miccoli (1970:54-62). a cidade era o destino 8 9 Apud Prosperi. no momento inicial de seus estudos sobre um grande tema de história moderna. que dizia o seguinte: O primeiro distante princípio nestes estudos o devo a seu livro. Na verdade. Movimenti religiosi e sette ereticale nella società medievale italiana. a cidade de Calvino. Nesse período. AF_livro final ok. A esse respeito. e lia o Institutio de Calvino. Mas o deslocamento da fi losofia para a história. ministrados pelos professores Ernst Stähelin e Johannes Wendland. nas de Wendland. de acordo com o próprio Cantimori. nas aulas de Stähelin. em 30 de novembro de 1939. Com aquela leitura começou o meu interesse a deslocar-se lentamente da fi losofia. e a permanência para estudos em Basileia (Suíça). trabalhando na Biblioteca Universitária e no Arquivo de Estado de Basileia.9 No século XVI.119 DELIO CANTIMORI italiano. enquanto estudava a vida e a obra do historiador Alexandre Vinet (estudioso oitocentista de história da Igreja). havia partido Delio Cantimori. Saitta. no início da década de 1930. tinha sido uma indicação de Benedetto Croce.8 Mas o momento em que o projeto verdadeiramente amadureceu teria sido entre dezembro de 1931 e julho de 1932. Cantimori havia se decidido por Basileia após um período de dúvida entre essa cidade e Genebra. Marsilio Ficino. e Giordano Bruno. da especulação para dizer melhor. àquela concreta fi losofia que é o estudo da história. A escolha de Basileia representou a escolha por um problema histórico a ser desenvolvido. Cantimori iniciou suas pesquisas sobre os hereges e protestantes italianos em Basileia no século XVI. teve no centro dois acontecimentos: a leitura do livro do historiador Gioacchino Volpe. por Gentile. A importância do livro de Volpe ficaria atestada em uma carta dirigida a ele por Cantimori. Genebra.indd Sec6:119 4/12/2009 15:03:18 . período em que o historiador frequentou os cursos de história da Igreja na Faculdade de Teologia da Universidade de Basileia. 1971:XXVII. pelas mãos de G.

que havia sido o palco de onde Erasmo polemizara com Lutero. Johannes Amerbach. logo após a morte de Erasmo. no contexto imediatamente posterior — naquele que interessava a Cantimori —. como ele próprio revela no prefácio à edição suíça dos Eretici: Sob influência de G. então. Vale lembrar. Basileia. Bonifacius Amerbach. então. era o destino desejado pelos hereges italianos que pretendiam manter um olhar voltado para a Itália e ficar apartados da aceitação confessional da Reforma. AF_livro final ok. para Cantimori. ao contrário. a cidade cosmopolita. também do ponto de vista metodológico. em especial. Basileia seria. professor de direito romano e fi lho do erudito impressor e amigo do humanista holandês.. a fronteira. Saitta. contra os luteranos e contra Calvino. reformada e humanista: a cidade do reformador Johann Oecolampad.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 120 dos hereges italianos que pretendiam assimilar a Reforma confessional e voltar as costas à Itália. e que se abria ainda.indd Sec6:120 4/12/2009 15:03:18 . [. o limite. A cidade. estabelecida pela atuação de Erasmo na universidade e na vida erudita da cidade.. o local das polêmicas dos humanistas italianos ali refugiados. a polêmica de Castellion (expulso da Genebra de Calvino exatamente por suas interpretações “muito livres” da Bíblia) contra Calvino. mas buscava instintivamente uma [história] de homens [. à influência direta dos humanistas italianos (dos hereges. Mas Basileia tinha sido importante.] a pesquisa da participação italiana no grande movimento europeu de reforma e de renovação [.. nas mãos de seu herdeiro testamentário. para Cantimori.. tanto de maneira difusa.]. quanto concretamente. que Cantimori buscava). tinha uma atmosfera de concórdia. pelo legado que havia deixado. como Celio Secondo Curione e Pietro Perna. seria.. polêmica que resultou num livro célebre de um escritor célebre: Stefan Zweig. mas também a cidade de Erasmo e dos erasmianos. ou o “savoiardo” Sebastian Castellion.] não encontrava resposta satisfatória para quem não se contentava com uma história intelectual de gênios. o local de encontro.. Basileia.

indd Sec6:121 4/12/2009 15:03:18 . porém.tão facilmente que ao fi nal surgia a suspeição de sua arbitrariedade. A atmosfera mística e iluminada do círculo de Basileia”. “O processo de Curione”. e erudito. Para comprovar essa afi rmação. na apreciação historiográfica de Cantimori. as relações entre homens pareciam sempre menos claras e precisas. Ele passaria a se concentrar nos contextos mais específicos. Borrhaus.] [A estada em Basileia proporcionou] uma passagem da “fi losofia” à “história” que coincidiu com uma crítica à fi losofia e um distanciamento de sua profissão. [. a passagem da fi losofia para a história significava aproximar-se da concretude da vida dos homens.. Eis alguns de seus títulos: “A imigração italiana a Zurique e a Basileia”. assim sensivelmente se passou do estudo doutrinário ao estudo 121 DELIO CANTIMORI Relações entre ideias e ideias podiam-se estabelecer muitas. Eretici italiani del Cinquecento. A passagem da fi losofia à história significava.. então. “Curione em Basileia. e o seu processo”. AF_livro final ok. “Os amigos basileenses de Curione: David Joris. um posicionamento quanto aos caminhos da po- 10 Cantimori. Castellione. empreender uma redução de escala (embora ele não utilize essa expressão) na observação dos fenômenos. nos círculos de contatos diretos entre personagens. mas as vidas dos homens.10 Para Cantimori. compreender o espaço de suas vidas a partir da relação direta entre personagens. “Aconcio na Inglaterra”. “Fausto Sozzini em Basileia”. basta observar a organização dos capítulos da obra. pensando. “Cracóvia e os hereges italianos”. É claro que há. sempre em dar uma base concreta a uma pesquisa de ordem puramente fi losófica ou de história da vida intelectual fi losófico-religiosa. “Um seguidor de Occhino e de Lelio Sozzini em Zurique (Anton Mario Besozzi). 1992:11-13. É assim que seu livro publicado na Itália em 1939 e traduzido em Basileia em 1949. Curione e Bullinger”. M. S. foi inteiramente concebido a partir desse ponto de vista. ainda que veladamente. as suas atividades intelectuais. de sua função e de seus elementos.

em detrimento das noções de identidades nacionais e da concepção de unidades espirituais impenetráveis. Esta. O empenho de sua investigação. no século XX. tinha aquele extraordinário sentido de preci- AF_livro final ok. sob a égide dos Estados nacionais. que havia se ancorado sempre num discurso histórico. em sua própria obra. das fusões. um caminho em direção à história da cultura. o livro que representa o testamento intelectual do historiador da arte Max Dvorák tem por título Kunstgeschichte als Geistgeschichte (História da arte como história do espírito). A pesquisa de Cantimori sobre os hereges italianos do século XVI inaugura.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 122 lítica na Europa contemporânea. da segunda metade do século XIX ao início do XX: em Viena. sustenta uma argumentação de cunho ao mesmo tempo político e historiográfico. porém a uma vertente histórico-cultural inteiramente estranha à perspectiva da Geistgeschichte (história do espírito). ou melhor. das transposições. estendeu seus tentáculos para além da Prússia e para além da história política. através de caminhos muito concretos. de viés marcadamente hegeliano. Em outras palavras. e também de maneira velada. sendo de origem prussiana. Ao mesmo tempo. de fi losofia da história e assumido pela historiografia o discurso das identidades nacionais. A pesquisa de Cantimori opunha-se à Europa das nações e à historiografia que compreendia a Europa a partir do conceito romântico de “nação”. que culmina no livro sobre os Eretici. Lembremos de boa parte dos representantes da chamada “Escola de Viena”. as relações transalpinas dos hereges italianos. Essas correntes também atingiram a Itália no início do século XX. e que se estende em sua pesquisa no pós-guerra.indd Sec6:122 4/12/2009 15:03:18 . A pesquisa de Cantimori. ao buscar. contra a Europa dos Estados nacionais. ao contrário dos modelos histórico-espirituais. Assim. influenciando certos modelos de história cultural e de história da arte. Cantimori levanta-se contra a Europa das grandes nações. Cantimori sinalizava na direção dos contatos. ele mostrava a impossibilidade de separar as raízes históricas formadoras dos povos que vivem. interligado ainda a uma crítica voltada para a compreensão da história da Europa pela historiografia a partir do início do século XIX.

o Magnífico. é significativo que.indd Sec6:123 4/12/2009 15:03:18 .11 12 13 123 DELIO CANTIMORI são e de concretude. AF_livro final ok. havia sido importante para Cantimori. a concretude da vida e da ação dos homens instala-se sempre nas fronteiras dos modelos ideais. e especialmente no círculo de relações muito próximas a Lutero. em Florença. abrira os olhos de Cantimori. o estudioso do Renascimento que já em 1902. Em 1937. que tinha eleito como mote de seu trabalho intelectual a máxima de Flaubert. Porém. editada na Itália em 1966. É também sintomático que no primeiro número do Journal of the Warburg Institute. depois aportadas na Itália Ver. então instalado em Londres. no texto em questão. Delio Cantimori tenha publicado o artigo “Retórica e política no humanismo italiano”. O modo pelo qual Warburg percebia o traço de paganismo nas imagens astrológicas elaboradas no âmbito do cristianismo luterano. “Deus está no particular”. 1932b:487-557. e não apenas pelo tema. no oceano de diversidade que compõe o tecido histórico. seus estudos e sua memória eram celebrados por um círculo de historiadores da arte e da cultura em torno do “Instituto Warburg para a Ciência da Cultura”. no futuro.11 Nesse sentido. concentrando-se no círculo erudito de Lorenzo. de 1937. Emma Cantimori. Miccoli (1970:90). O historiador alemão. fazendo-o perceber que. observava as pinturas de Domenico Ghirlandaio como “provas indiciárias” (Indizienbeweis) do gosto clássico florentino. Aby Warburg não mais vivia. percebia a presença dos demônios astrais nas imagens e nos textos astrológicos elaborados no ambiente de Lutero como produtos de um entrecruzamento cultural que dizia respeito a interpretações árabes medievais de estudos astrológicos gregos no âmbito de Aristóteles. Warburg. a esse respeito. Warburg. de objetivo e pontual esclarecimento de parte da realidade. a tradutora para o italiano da obra de Aby Warburg. tenha sido a esposa de Cantimori.12 Especialmente os estudos de Warburg sobre a “profecia antiga pagã em textos e imagens da época de Lutero”13 (publicados em 1920) tinham interessado ao estudioso italiano. 1932a:96. Warburg.

quando aluno em Pisa. como “meras e arbitrárias abstrações. produtos de um contexto muito preciso de relações pessoais. individuais ou biográficas”. tais como Renascimento. E ele tinha sido. Contrarreforma. então.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 124 pelas mãos de um humanista florentino da segunda metade do século XV. AF_livro final ok. Através dos textos de Warburg. segundo o texto de Warburg. derivadas de tendências e concepções gerais da história e do mundo”. Cantimori tornara-se um crítico dos conceitos historiográficos. então professor em Roma. diante da cena italiana dos historiadores voltados para o estudo do mundo moderno.indd Sec6:124 4/12/2009 15:03:18 . No que diz respeito aos historiadores da cultura. não são redutíveis às grandes correntes de ideias. colega de um dos principais historiadores da arte da Itália da época: Carlo Ludovico Ragghianti (1910-1987). por sua vez.14 Diante dessa postura. em suas palavras. gerais ou particulares. tão próximo dos problemas posteriormente tratados por Cantimori a respeito dos hereges italianos do século XVI emigrados para ambientes reformados ao norte dos Alpes. reduzir a escala e observar com precisão os espaços de vida dos personagens e sua produção concreta. As interpretações astrológicas de Ficino. que. Decerto. ele preferia a companhia dos historiadores da arte. portanto quase inúteis “para se entender situações de fato. Cantimori percebeu que as imagens construídas pelos homens. e agora o era como professor também em Pisa. Cantimori chegou a afirmar. serviu-lhe de exemplo. tempos depois. Certamente entre os componentes do Instituto Warburg. o texto de Warburg. sofrendo novas transformações. Ficino as interpretava à luz do classicismo florentino de então. Cantimori encontrou acolhida também fora da Itália. Em 14 Apud Miccoli. Mas não apenas ali. vistos. que nos anos 1950 tinha no centro a figura de Federico Chabod. atingiram. o ambiente de Lutero através de um humanista germânico muito próximo ao monge reformista: Filipe Melanchton. que procuravam fazer reverberar o estudo da arte num fundo histórico-cultural. Marsilio Ficino. Barroco. era preciso. É aí então que os demônios astrais se mesclam ao universo pio e reformista em torno de Lutero. 1970:310.

Cantimori foi o tradutor na Itália das Historische Meditationen de Werner Kaegi. Kaegi foi o responsável pela publicação basileense dos Eretici italiani del Cinquecento. naquele momento. aluno de alunos de Jacob Burckhardt. Jacob Burckhardt. para celebrarem o quarto centenário de morte de Erasmo. nos anos 1930. Tempos depois. as conferências de ambos juntaram-se à voz de um outro historiador da cultura. autor recente de uma tese sobre Hutten e Erasmo. discípulo de Walser. era o estudioso do humanismo na Europa central. Cantimori fazia a já referida tradução italiana das Weltgeschichtliche Betrachtungen de Burckhardt: as Meditazioni sulla storia universale15 publicadas na Itália em Burckhardt. Além das várias conferências pronunciadas por Werner Kaegi na Scuola Normale Superiore di Pisa e das muitas visitas de Cantimori à Universidade de Basileia. o holandês Johan Huizinga. inédito até mesmo em idioma original. No dramático contexto da II Guerra Mundial. por parte de Cantimori. Cantimori trabalharia na edição em italiano do livro do historiador holandês. o grande representante em Basileia. O contato erudito entre os dois ficaria registrado na história das edições de seus livros. o título de doutor honoris causa. um frutífero diálogo erudito e uma sincera amizade que levaria um e outro a transpor inúmeras vezes a barreira dos Alpes. visitas que incluem a de 1960. 1959. para receber das mãos de seu ex-professor de história da Igreja. Os três haviam se encontrado em Basileia. Enquanto Kaegi trabalhava no maior empreendimento de sua vida. dos estudos sobre o humanismo italiano. Quando falam as armas. por sua vez. eram três conferencistas refletindo sobre o humanismo na Europa central. em 1949. Entre Cantimori e Kaegi havia ainda outro ponto de aproximação. então reitor Ernst Stähelin. As sombras do amanhã. Kaegi. oriundo da escola de Ernst Walser. encontrava-se o jovem Werner Kaegi. a biografia intelectual do historiador de Basileia. em sete volumes e editada entre 1947 e 1982 (o último publicado postumamente). em 1936. Com Kaegi iria se prolongar. Naquele momento.indd Sec6:125 4/12/2009 15:03:18 . AF_livro final ok.15 125 DELIO CANTIMORI Basileia. e Kaegi traduziria para o alemão o último manuscrito de Huizinga.

indicando um caminho para a compreensão da trágica crise da Europa naquele momento tão obscuro.16 Certamente. de Cantimori e de Huizinga. E devemos levar em consideração que os textos de Cantimori sobre Burckhardt representam uma virada na compreensão da obra do historiador suíço. Era. o cenário cosmopolita da cidade de Basileia a conferir um sentido à obra de Delio Cantimori. propiciaria ao mesmo tempo compreender o fenômeno histórico na diversidade e profundidade de seu caráter europeu. em contextos precisos e concretos. Cantimori apresenta um Burckhardt até então conhecido quase exclusivamente no erudito meio dos estudiosos de Basileia. Cantimori frisava a importância de tirar o foco dos estudos sobre os hereges e os movimentos reformistas no século XVI dos grandes homens. de fato.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 126 1959. a imagem de Burckhardt iluminava as faces de Kaegi. Na longa resenha que Cantimori compôs. E quanto o Burckhardt de Cantimori abriu caminho para os estudos atuais sobre o historiador de Basileia! De todo modo. de novo. percebendo um novo Burckhardt em relação à imagem do pessimista e niilista radical. Além disso. no sentido de ultrapassar os limites da história italiana para tocar problemas relativos à vida religiosa e ao humanismo europeu. para daí. AF_livro final ok. buscar os contextos mais precisos.indd Sec6:126 4/12/2009 15:03:18 . escrita por Kaegi. a perspectiva centrada em pequenos grupos. de como o contexto de vida de um personagem pode. com o auxílio da história da cultura. Exatamente o Burckhardt de quem Warburg se diz seguidor. o diálogo de Cantimori com esse grupo de historiadores propiciou ainda a amplitude de sua perspectiva de pesquisa. nos anos 1940 e 1950. Portanto. do primeiro volume da biografia intelectual de Burckhardt. tocar o teor de sua obra. na Itália. É certo que a maneira de Kaegi mergulhar a biografia de Burckhardt na cultura citadina de Basileia serviu de exemplo para Cantimori. Cantimori trata o problema metodológico num curso ministrado na Scuola Normale Superiore 16 Ver Cantimori (1971). do pensador espremido entre Nietzsche e Schopenhauer. tal afirmação se confirma.

Nas palavras de Delio Cantimori (1992:424): Há também que estudá-los.. na qual aqueles grupos e aqueles núcleos se inserem. 1992:419-481. considerados na perspectiva e sob o ponto de vista da história da cultura [. sob o título Prospettive di storia ereticale italiana del Cinquecento. sob certos aspectos. Essa síntese histórico-cultural. daquele núcleo de pessoas mais inquietas e radicais que foram chamadas hereges no sentido mais delimitado e restrito. apagando seu sentido de movimento (entendido como corrente de algum modo unitária e contínua). para integrá-los na vida religiosa italiana e europeia. Como afi rmou o próprio Cantimori (1992:426). entretanto. pelo interesse que apresentam as formas da vida religiosa de pequenas comunidades ou de grupos de exilados e de emigrados. não era aplicada como um amálgama uniformizador e..]. e entre estes grupos. falar de problemas e questões de história da vida religiosa do Cinquecento europeu. AF_livro final ok.] Poder-se-ia.127 DELIO CANTIMORI di Pisa em 1959. a história da cultura funcionava como uma operação de síntese que podia conferir um sentido cosmopolita ao fenômeno histórico. Essas aulas foram posteriormente editadas em livro. [. Nesse sentido. sim.17 Nessas aulas. visto que sua compreensão extrapola os limites nacionais e a centralidade nos chamados “grandes personagens”.. nem a face multiforme de suas expressões e ideias.indd Sec6:127 4/12/2009 15:03:18 . como um campo de relações diretas entre homens percebidos concretamente em suas ações e inter-relações. de modo que a operação de tecitura histórica não apagasse o brilho e a diversidade dos contextos locais. essa operação historiográfica 17 Cantimori. distribuídos e dispersos em seu interior. o historiador afi rma a necessidade de descentralizar os estudos dos hereges italianos.. assim. ainda nessas aulas de 1959.

como primeiro passo de sua operação metodológica. denunciava sua ligação com a grande tradição historiográfica italiana. da especificação e da cautela que são próprios de todo estudioso de história. A concentração na perspectiva microscópica. pelos elementos aqui apresentados. que não apaguemos também aquilo que os distancia. tenhamos presente que um dos pontos mais instigantes da obra de Delio Cantimori é sua aversão à aplicabilidade em contextos e pesquisas distintas de pressupostos metodológicos.indd Sec6:128 4/12/2009 15:03:18 . Esse aparato analítico. Foi assim que Delio Cantimori. Talvez. e por seu diálogo com Werner Kaegi e com Johan Huizinga. seja possível compreender. que desde os escritores latinos antigos havia concebido a biografia como a forma primordial de compreender a ação do homem com um profundo senso histórico.128 constitui para o estudioso um espelho que amplia de maneira EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA mais evidente os fenômenos da vida religiosa europeia. quando se concentrou em pequenos círculos eruditos formados por italianos e não italianos fora da Itália. sem revogar os cânones da concretude. permitindo assim usar (com um método análogo àquele da Wissenssoziologie) os materiais e os resultados da pesquisa microscópica para uma indagação e consideração macroscópica. servia apenas para a compreensão da história dos hereges italianos do século XVI. AF_livro final ok. e sem incorrer em generalizações arriscadas ou fantásticas. pelo menos em alguns traços. construído no próprio processo da pesquisa histórica. pôde tocar um problema primordial de história moderna: a transposição do humanismo italiano para o cenário da Europa central. A redução de escala. bem adequada à tradição histórico-cultural à qual ele podia se ligar por seu contato com as obras de Jacob Burckhardt e de Aby Warburg. tinha sido certamente intuída desse diálogo. Se há uma construção de caráter metódico em sua obra. Essa era uma indagação cosmopolita (europeia). E nesse sentido. Mas não apenas dele. a importância de Cantimori para a formação de Carlo Ginzburg. tal como a realizava Cantimori. ela foi concebida como aparato analítico para compreender um problema muito preciso de história. Se assim for.

CANTIMORI. In: WARBURG. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Florença: Sansoni. 255-256. Leipzig. 3. 1959. A micro-história italiana. Heidnisch-antike Weissagung in Wort und Bild zu Luthers Zeiten. p. Storici e storia. Umanesimo e religioni nel Rinascimento. Florença: Sansoni. Jacob. Delio Cantimori. Turim: Giulio Einaudi. Aby. WARBURG. ———. A. Adriano. ———. Annali della Scuola Normale Superiore di Pisa. ———. 6. 1975. 1. Sulla storia del concetto di Rinascimento. SAITTA. Giuseppe. Berlim: B. Marsílio Ficino e la filosofia dell’Umanesimo. Henrique Espada. Storici e storia. Meditazioni sulla storia universale. Teubner. Band 1. G. p. 2. Estudos Históricos. Eretici italiani del Cinquecento. 1971. n. 1955. 229-268. Il pensiero italiano del Rinascimento. G. 129 DELIO CANTIMORI REFERÊNCIAS ———. Delio. Rio de Janeiro: Zahar. Giovanni. sinais. GINZBURG. 1970. 1990. LIMA. 1932. Teubner. PROSPERI. Berlim: B. História e cultura: conversa com Carlo Ginzburg. v. Turim: Giulio Einaudi. n. Leipzig. Turim: Giulio Einaudi. Turim: Giulio Einaudi. Carlo. FGV. Giovanni. 1932. Band 1. A. 1992. Introduzione. 1971.BURCKHARDT.indd Sec6:129 4/12/2009 15:03:18 . Trad. Der Erneuerung der Heidnischen Antike. São Paulo: Companhia das Letras. Bildniskunst und florentinisches Bürgertum. Bolonha: Fiammenghi & Nanni. Der Erneuerung der Heidnischen Antike. 1961. 2006. ———. Delio Cantimori. Refl exões sobre a história. Delio. In: CANTIMORI. 2007. 1932a. AF_livro final ok. MICCOLI. emblemas. 1953. ———. Turim: Giulio Einaudi. 1932b. GENTILE. La ricerca di una nuova critica storiografica. Mitos. Rio de Janeiro. In: WARBURG.

AF_livro final ok.indd Sec6:130 4/12/2009 15:03:18 .

Enfi m. a terceira questão que gostaria de abordar diz respeito à recepção seletiva da micro-história no debate intelectual brasileiro. diz respeito a como a micro-história — ou pelo menos os historiadores mais fortemente ligados a ela — respondeu a essas transformações ao longo da própria trajetória do debate. o debate — e sobretudo o debate italiano — sobre a micro-história encontra de algum modo o seu lugar. supostamente. até os dias atuais.6 Pensando as transformações e a recepção da micro-história no debate histórico hoje Henrique Espada Lima Abordarei aqui três questões que me parecem pertinentes para refletir sobre o lugar que a micro-história pode ocupar no debate histórico no Brasil hoje. A primeira diz respeito ao panorama intelectual mais amplo que transformou de modo significativo o campo da história social entre os anos 1970 e tempos mais recentes. que se relaciona bem estreitamente à primeira. portanto. Como se verá. Essa primeira indagação toca. trato dessas três questões de modo desigual. mas procurando tecê-las em um objetivo geral. A segunda questão.indd Sec7:131 4/12/2009 15:03:18 . aquele “contexto” em que. em meados dos anos 1980. desde o seu princípio. Creio que a articulação AF_livro final ok.

AF_livro final ok. tanto do ponto de vista intelectual quanto do institucional (especialmente na França). utilizavam amplamenmte métodos quantitativos e apresentavam. Em suas distintas versões. Havia nisso o impulso de construir modelos sintéticos de interpretação — sobretudo da sociedade europeia dos séculos XVI a XIX —. contando ainda com um forte componente racionalista. Por outro.. sobretudo na Europa. desde o pós-guerra. em meados dos anos 1960. Sewell Jr. por um lado. Esse questionário — fortemente “materialista” — previa. um verdadeiro projeto internacional. forte tendência à modelização. pode-se dizer que ela se baseava na convicção otimista de que o questionário pertinente para explicar a sociedade havia sido construído de uma vez por todas em seus aspectos mais fundamentais. como — em uma versão marxista — aquele que discutia a ascensão do capitalismo e. A história social era. Primeiro. e era visto 1 Cf. o panorama intelectual no qual surgiram os debates e propostas que se articularam sob o nome de micro-história na Itália era marcado por um modelo de história social que tinha como características mais destacadas a preocupação em explicar a sociedade através de suas variáveis materiais e estruturais.indd Sec7:132 4/12/2009 15:03:18 . era também marcado por modelos explicativos fortes. a sociologia e a demografia. quanto a tornar mais claros os impasses — teóricos e outros — que esse debate envolve. igualmente. 2005:25. esse era um modelo de história social certamente triunfante. como a economia. Como já discuti em A micro-história italiana (2006a). a partir de uma hierarquia de relevâncias muito bem defi nida. um conjunto de diálogos entre a história e as ciências sociais que priorizavam muito claramente aquelas disciplinas que.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 132 dessas três dimensões pode ajudar tanto a pensar os modos pelos quais o debate florescente sobre a micro-história no Brasil vem se desenvolvendo. em outras vertentes. Essa versão “triunfante” da história social pode ser caracterizada por certos eixos de que vale a pena lembrar. o modelo da “modernização”.1 que havia produzido resultados sólidos.

nos ajudam a compreender o alcance e a direção das transformações que ocorreram no período. um programa a ser seguido. também. n. texto originariamente publicado em Daedalus. A crescente percepção de que uma “crise” se abria no horizonte aconteceu simultaneamente nos dois campos. (2005:30 et seq. 1971. quanto a própria agenda dos historiadores sociais. o que se vê na década de 1970 é que o ponto alto do sucesso da história social coincidiu com o momento em que ela começou a passar por profundos questionamentos sobre o próprio alcance de seus resultados como disciplina. que vê na falência do modelo “fordista” (uma expressão usada por ele para classificar tanto as sociedades quanto as ciências sociais que nelas se desenvolviam no período) um dos fatores essenciais dessa crise. Os motivos são muitos. publicados com duas décadas de diferença e realizados por protagonistas dos debates sobre a história social. p. Não há dúvida de que há uma relação dialética entre as transformações políticas e culturais e as mudanças no campo das ciências sociais. Assim.indd Sec7:133 4/12/2009 15:03:18 . 20-45. Portanto. 100. AF_livro final ok. ver Lima (2002:77-106). Esse quadro se transformou bastante entre o final dos anos 1960 e o início dos 80.. De acordo com Sewell Jr. Falando dos Estados Unidos e da Europa ocidental.).2 Não creio que haja necessidade de detalhar a natureza dessas transformações. a desconfiança crescente quanto às virtudes de um modelo de sociedade padronizada e estruturada foi um dos fatores essenciais a mover tanto os movimentos políticos de esquerda e a contracultura a partir do fi nal da década de 1960. Dois diagnósticos. pode-se acompanhar a análise de William Sewell Jr. de natureza tanto historiográfica quanto extra-historiográfica. 3 Hobsbawm (1997:105).133 PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES e reconhecido como sinônimo de uma historiografia mais sofisticada. Pensando o estado da história social em 1971. é perfeitamente razoável que Eric Hobsbawm concluísse seu amplo diagnóstico sobre o campo afirmando que era “um bom momento para ser historiador social”.3 sublinhando ao mesmo tempo as fronteiras ilimitadas da 2 Sobre alguns dos impasses que brotaram dessa conjuntura de “crise”.

temas de investigação. antes de tudo. Por outro lado. a ênfase na documentação serial e quantitativa havia se deslocado para fontes menos serializáveis. seria um equívoco imaginar que apenas um modelo alternativo de história cultural tenha surgido nesse horizonte. métodos de análise. O tom otimista permanece. estilo intelectual: os termos de defi nição da “nova história cultural” (para usar uma expressão que começou a circular mais ou menos na mesma época4 ) passavam por uma reavaliação de tudo isso. em um artigo intitulado precisamente “As formas da história social” — uma discussão sobre os rumos da disciplina na década anterior — concluía seu diagnóstico dizendo: a história social. Claro que essa reavaliação não era homogênea e. No plano das fontes. AF_livro final ok. em contraste. Vocabulários. pelos estudos literários e mesmo pela psicologia. mas uma mudança considerável certamente se havia operado naqueles 20 anos. fontes de pesquisa. rearticulando ao mesmo tempo seu horizonte de intercâmbio intelectual na direção da antropologia cultural e simbólica. passou a se interessar cada vez mais pelo tema da cultura e. em 1990. história cultural. que havia estabelecido seu domínio através de um intercâmbio intenso com a sociologia.indd Sec7:134 4/12/2009 15:03:18 . Hunt. certamente. o que se via era uma reorientação de prioridades e uma redefi nição do consenso em torno daquilo que deveria ser o principal foco da pesquisa histórica.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 134 disciplina e o otimismo quanto a sua capacidade de assegurá-las. 4 Cf. no início dos anos 1990. a historiadora americana Natalie Zemon Davis. é. 1992. a economia e a antropologia social. Natalie Davis não hesitava em incluir a micro-história italiana como um exemplo claro dessa nova estação de estudos. mais capazes de ser interpretadas em uma chave simbólica. Desde um “culturalismo” não inteiramente incompatível com as preocupações clássicas da história social até as versões mais radicais e “pós-modernas” de uma crítica radical e epistemologicamente cética dos próprios fundamentos do conhecimento histórico. Davis apontava alguns dos aspectos gerais dessa transformação: a história social.

onde parece estar em curso uma nova inflexão desse panorama teórico. parece-me. que esse quadro não deixou de se transformar. as recentes avaliações dos caminhos do debate histórico nos Estados Unidos. enquanto termos como “identidade”. e que faz com que fi nalmente se acabe confrontando as promessas feitas no momento com os resultados teóricos e empíricos que as próprias pesquisas obtiveram ao longo do tempo. porém. O último capítulo ou. com a revisão de parte desse quadro. O impacto sobre o vocabulário em circulação nos debates centrais da historiografi a mostra isso: noções como “classe”. A pergunta sobre os modos às vezes contraditórios pelos quais a micro-história se relacionou com esse quadro de transformações da história social levanta alguns pontos de discussão nos quais valeria a pena nos deter mais. Logics of history.135 PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES É verdade que muitos ramos da “velha” história social continuaram a florescer e a dar frutos. AF_livro final ok. pelo menos em parte. Pretendo voltar a falar mais adiante sobre esse quadro de reavaliação. de que o centro do palco — o que ecoava mais fortemente nas caixas de reverberação acadêmica (sobretudo nos Estados Unidos e na França) — era um debate que tematizava crescentemente a cultura. “organização social” foram sendo menos escutadas. das quais se pode destacar o já citado livro de William Sewell Jr.. quem sabe. “estrutura”. 5 Atestam isso. É importante notar. em uma versão mais extrema. A “virada cultural” (e mesmo. após me deter no segundo ponto de discussão que levantei no início deste capítulo.5 Isso se deve. o último capítulo antes do último — para parafrasear Siegfried Kracauer (1969) — dessa história é o que se vive hoje. e o de Geoff Eley. mas com menos alarde.indd Sec7:135 4/12/2009 15:03:18 . à dinâmica própria ao desenvolvimento de qualquer debate intelectual. Una linea torcida (publicado originariamente em inglês em 2005). uma “virada linguística”) sintetizou essa busca por rearranjar a hierarquia de importância na interpretação histórica entre os anos 1980 e o final da década de 90. “gênero”. entretanto. Não há dúvida. é preciso acrescentar. “subjetividade” e “representação” tomavam clamorosamente a dianteira.

desde a história ético-política. pode ser estendido ao debate sobre a microhistória como um todo. era um debate que se travava na Itália também contra um quadro de discussões históricas bastante impermeável ao diálogo com as ciências sociais. a “micro-história” surge simultaneamente como resultado e como reação no debate italiano sobre a história de início dos anos 1970. também muito marcada pela busca de uma “história-síntese”. sobretudo na França (com os Annales) e na Inglaterra (com a história social marxista britânica). AF_livro final ok.6 E esse. a meu ver. marcado por tradições intelectuais importantes e contrastantes. a sofisticada discussão historiográfica. Diante desse panorama.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 136 O primeiro ponto diz respeito à relação entre a micro-história e aquele primeiro panorama da história social triunfante no início dos anos 1970. em um artigo de balanço publicado pela primeira vez em francês em 1996.indd Sec7:136 4/12/2009 15:03:18 . é preciso lembrar. Como foi dito. O diagnóstico. Claro que isso tudo vinha acompanhado de uma rejeição muito clara aos modelos estrutural-funcionalistas adotados pelas 6 Edoardo Grendi (1998:258) afi rmou. até uma historiografia de inspiração marxista. aparecia como o horizonte a seguir e o modelo historiográfico ante o qual se posicionar de algum modo. que a “microanálise representou uma espécie de ‘via italiana’ para uma história social mais elaborada (e mais fundamentada teoricamente) num contexto particular. com forte interesse pela história intelectual e a história do Estado. Se tomarmos os primeiros textos em que se anuncia o que depois viria a se chamar de micro-história. a convicção de que era possível — através do aperfeiçoamento dos métodos da história social — fortalecer a disciplina do ponto de vista científico. reconheceremos imediatamente que são essas as preocupações que estão no horizonte do debate: a necessidade de se construir modelos explicativos mais adequados. fechado às ciências sociais e dominada por uma ortodoxia historiográfica que hierarquizava de maneira rígida a importância dos objetos”. Digo resultado e reação porque não há dúvida de que é como uma tentativa de se aproximar desse modelo de uma história com instrumentos e modelos interpretativos fortes e fôlego intelectual amplo que os debates sobre a história social aparecem na Itália nos anos 1960 e 1970.

Tratava-se antes de tudo de uma proposta metodológica. Ver também o capítulo “História social e microanálise: Edoardo Grendi”. Como falou Carlo Ginzburg (2007a:249). A citação de Ginzburg não é casual. a ser preenchida. como Giovanni Levi. de Lima (2006:151-224). com quem de resto Ginzburg escreveu um texto sugestivo sobre o tema em 1979. Edoardo Grendi e mesmo Carlo Poni. por outro lado. A trajetória intelectual de Grendi revela.7 Um aspecto importante a ser ressaltado é que a microanálise apenas lentamente ganhou substância em trabalhos de pesquisa empírica. mas também sobre a forma original que poderia adquirir (como. O tema da “microanálise”. em meados dos anos 1970. AF_livro final ok. adquiriu) ao entrelaçar-se com discussões menos óbvias e problemas de investigação que brotavam da própria historiografia italiana. o quanto a micro-história devia a esse debate mais amplo que ocorria não só sobre a história social fora da Itália. brota das intervenções de Edoardo Grendi no debate sobre a história social nas páginas dos Quaderni Storici. Na medida em que o debate se tornou mais amplo e mais diversificado. bem como de uma reapreciação crítica muito articulada dos resultados alcançados pela história social naqueles anos. 8 Ver Ginzburg e Poni (1989:169-178). a trajetória de Ginzburg e suas preocupações intelectuais não poderiam estar mais distantes das dos outros protagonistas da micro-história. In altri termini. Como já se falou muitas vezes. aquele programa intelectual inicial foi bastante alterado. ver a introdução de Osvaldo Raggio e Angelo Torre ao livro de Grendi publicado postumamente.137 PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES ciências sociais. de fato. com forte inspiração na antropologia social. pois ele é um dos responsáveis pela complicação do quadro da interpretação do debate. a micro-história mais parecia um rótulo em uma caixa vazia. e sua abordagem da história 7 Sobre a trajetória intelectual de Grendi. que emergiu inicialmente como o termo que sintetizava as preocupações teóricas e metodológicas. o fato é que.indd Sec7:137 4/12/2009 15:03:18 .8 A aproximação de Ginzburg passava por um conjunto muito diferente de diálogos e aproximações.

11 O texto a que me refiro é “Sinais. A contribuição de Ginzburg ao debate da micro-história não é negligenciável. que não havia deixado traços documentais. ou da análise de uma anomalia iconográfica localizada.9 Quando passou a colaborar com os Quaderni Storici. como se sabe. detinha-se no episódio ou no caso e projetava-o “sobre um contexto histórico-cultural. nem da recomposição das trajetórias individuais e de grupo através da documentação serial.10 Os dois livros abordavam o tema da “microanálise” por um ângulo bastante distante das propostas de Grendi e Levi: não se tratava da reconstrução de teias de relações sociais. as rela- 9 Ver Ginzburg (1988). e isso foi reconhecido imediatamente.11 Havia. Edoardo Grendi identificou duas vertentes da microanálise histórica: uma delas. de um lado. Ver Ginzburg (1987 e 1989a). representada antes de tudo por Ginzburg. mesmo sabendo que a fórmula do “paradigma indiciário” estava longe de encontrar boa aceitação entre os próprios micro-historiadores. “sua pertinência era pelo menos dupla: ele servia para ilustrar. E. Não faltaram discussões sobre o que os separava e os unia. nesse ponto”. mas de abordar a história a partir da observação de um episódio singular. na tentativa de investigar uma realidade mais profunda. em meados dos anos 1970. Basta lembrarmos o quanto as discussões elaboradas por ele em um texto de 1979 chamado “Sinais” acabaram se tornando indissociáveis das propostas micro-históricas. Raízes de um paradigma indiciário”. desde meados dos anos 1960. em 1966). 10 AF_livro final ok.indd Sec7:138 4/12/2009 15:03:18 . um problema historiográfico particular (por exemplo. por um interesse de pesquisa em “crenças”. em Ginzburg (1989b). em 1996. pontos de vista distintos no projeto micro-histórico. O queijo e os vermes estava em processo de publicação e ele preparava seu livro sobre Piero della Francesca. Tentando sintetizar essas diferenças. “atitudes religiosas” e “mentalidades” do mundo camponês (para mencionar três expressões presentes na introdução de seu primeiro livro. nas palavras de Grendi (1998:253).EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 138 social já era alimentada.

Um dos motivos disso talvez tenha sido o fato de nunca ter acontecido um verdadeiro diálogo sobre as diferenças e convergências entre as duas abordagens possíveis para a micro-história. o “elemento decisivo” a marcar a experiência historiográfica entre meados dos anos 1980 e meados dos 90 havia sido a “passagem de uma problemática da produção e da troca para a da linguagem e da representação”. Grendi qualificava como voltada para a contextualização social. Grendi. Cf.12 Esse quadro esquemático era problematizado. na qual se incluía.13 Além disso. De resto. A segunda vertente microanalítica. ao menos parcialmente. “Empréstimos e trocas recíprocas” ajudavam a turvar esses limites. de outro. Isso talvez tenha acontecido — o que me parece mais importante — no próprio trabalho dos micro-historiadores nos anos seguintes e se mantido como uma das fontes de renovação do próprio debate. o interesse por idiomas políticos. Grendi reconhecia que a mudança no quadro de influências e diálogos que os historiadores ligados à micro-história empreenderam acabou sendo responsável por reforçar temas não previstos no programa original. pela própria pesquisa. como a aproximação com a antropologia cultural. Grendi. 1998:259. sendo a “alternativa original entre contextualização social e contextualização cultural” excessivamente abstrata e havendo sido superada.indd Sec7:139 4/12/2009 15:03:18 . a cultura de uma época (mais que a de um grupo social específico)”.14 O quadro abstrato que dividia arbitrariamente a micro-história social da micro-história cultural permaneceu não resolvido no plano da discussão teórica. no entanto.12 13 14 139 PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES ções entre a cultura de elite e a cultura popular) e. marcada por outros “procedimentos analíticos” e interessada na “reconstrução de redes de relações e [na] identificação de escolhas específicas (individuais e coletivas)”. AF_livro final ok. 1998:253. Grendi. 1998:254. que reconhecia o “primado das relações interpessoais” como seu principal plano de investigação. a discussão sobre as “práticas sociais”. mais adiante pelo próprio Grendi.

cultura plebea (Sociedade patrícia e cultura plebeia). Thompson (1981). sem abandonarem um programa forte de história social.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 140 O tema da “cultura” parece estar no centro dessa área de indefinição na qual se desenvolveu o debate em torno da micro-história. Se observarmos alguns dos principais trabalhos que levaram adiante as exigências de contextualização social que a microanálise havia colocado em pauta — por exemplo. com o próprio lugar da micro-história na reorientação do debate sobre a história social durante as décadas de 1970 e 80. Thompson. 16 AF_livro final ok. ao modo de investigar essa dimensão. Mas a questão que me parece mais relevante aqui é a maneira distintiva com que a vertente “social” da micro-história tratava o problema da cultura. o livro de Giovanni Levi A herança imaterial —. Sobre a avaliação de Grendi do trabalho de N. publicado em 1981 como o segundo número da coleção einaudiana “Micro-histórias”. o projeto histórico-antropológico que inspirava a micro-história sugeria exatamente que a avaliação da importância dos modelos culturais tinha um peso significativo para a compreensão das lógicas e estratégias sociais. É preciso olhar com mais atenção. Ao contrário. é digno de nota o entusiasmo com que um historiador como Grendi acolheu os trabalhos publicados por Natalie Davis no início dos anos 1970. 1976. aliás. reunidos por Grendi em um volume intitulado Societá patrizia. a meu ver. Davis. ver também Lima (2006b:151-224). portanto. o lugar que esse tema ocupou nas “duas vertentes” micro-históricas.15 bem como sua análise certamente positiva dos trabalhos de antropologia histórica publicados por E. A cul15 Ver Grendi. Esse elemento está ligado. P. o que tem a ver. a cultura tinha um papel importante e confundia-se com o modo pelo qual os sujeitos sociais organizavam suas vidas e o horizonte de racionalidade em que suas ações faziam sentido.indd Sec7:140 4/12/2009 15:03:18 . Nesse sentido. O tema da cultura estava longe de ser uma preocupação ausente nas discussões sobre a microanálise.16 Davis e Thompson haviam sido pioneiros nessa exploração da interface com a antropologia.

mas também na “ação social. As ideias de Menocchio e. em especial.AF_livro final ok. Ali o autor procura reconstruir. [na] violência coletiva. [na] organização”. a grade de leitura que ele projetava nos livros que lia faziam emergir um extrato cultural desaparecido de uma cultura camponesa com componentes materialistas e radicais que não podiam ser intuídos através de outras fontes e. Em contraste. as “formas expressivas coletivas” cujo significado. isto é. O que Levi evitava fazer em seu livro era pensar a cultura como um contexto autônomo. sua investigação sobre a trajetória de Giovan Battista Chiesa não procura encontrar o sentido da pregação do padre exorcista nos livros religiosos ou nos manuais de exorcismo. podemos pensar um pouco sobre aquilo que separa e aproxima o livro de Levi de um outro trabalho que ajudou a dar conteúdo ao termo “micro-história”: O queijo e os vermes. através da leitura intensiva das palavras do moleiro Menocchio registradas no processo inquisitorial de que fora objeto. entre os “objetos analíticos” de uma microanálise deveria estar seguramente a cultura. desse modo. tomando uma distância considerável da história das ideias. era lida através dos comportamentos dos atores sociais: a lógica que guiava as estratégias dos grupos e definia seu leque de respostas para o problema da incerteza e definia um conjunto de valores e de princípios comuns que davam sentido às escolhas familiares. bem como na reflexão sobre o caráter imaterial do poder político que dava título ao livro. na pesquisa intensiva sobre as formas de organização da vida camponesa. no gesto ou rito. 4/12/2009 15:03:18 .indd Sec7:141 141 PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES tura. Assim. mas busca-o sobretudo nos modos possíveis com que os camponeses que seguiam Chiesa organizavam seu horizonte de expectativas diante de um mundo em colapso. a lógica do mercado de terra. enquanto “orientação de valor”. em A herança imaterial. poderia ser capturado não só na palavra. de Carlo Ginzburg. A discussão de Levi ecoa em muitos pontos o programa de pesquisa que Edoardo Grendi havia feito discutir alguns anos antes: para Grendi (1981:71-72). Essa inspiração etnográfica estava presente. no estudo do jogo de alianças verticais e horizontais operado pelos vários sujeitos sociais. no funcionamento do mercado de terras. a política e assim por diante. um contexto cultural e intelectual perdido.

veremos a presença tanto de trabalhos que seguem muito de perto o programa de uma microanálise histórica das redes sociais. AF_livro final ok. para além das diferenças evidentes.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 142 muito menos. uma sonda para explorar um contexto cultural que não se conhecia precisamente.17 Não 17 Ver Merzario (1982). O que essa comparação permite ver — e. Para além da distinção entre uma contextualização “cultural” e uma contextualização “social”. Se tomarmos apenas os livros publicados na coleção “Micro-histórias” — organizada por Carlo Ginzburg e Giovanni Levi entre 1981 e 1992 —. aquela linha fronteiriça entre duas maneiras de se pensar e fazer a micro-história era. unindo os dois livros. das ideias heréticas eruditas que circulavam no período. de fato. é preciso dizer. traduzido para o italiano e proposto a ser lido sob o rótulo de “micro-história”. até livros decididamente voltados para o estudo do imaginário e da crença. havia uma coerência de perspectivas que dotava o empreendimento (ou o programa) da micro-história de uma coerência de fundo. constantemente turvada. escrutado por uma leitura fi lológica. e Boureau (1991). através da leitura intensa da documentação e da atenção obsessiva pelos aspectos singulares de cada caso estudado.indd Sec7:142 4/12/2009 15:03:18 . no caso de Ginzburg. como o de Alain Boureau sobre a lenda medieval da papisa Joana. outras comparações e outros livros poderiam ser chamados a comparecer nessa mesma chave — é que. como o livro de Raul Merzario sobre as estratégias matrimoniais da diocese de Como entre os séculos XVI e XVIII. uma convicção comum na capacidade de penetrar. A análise intensiva das fontes cartoriais sob a inspiração da antropologia social e da network analysis. A excepcionalidade e singularidade de Menocchio tornavam-se uma via de acesso. o uso da rica crônica do processo inquisitorial. em uma realidade social e cultural cuja compreensão anterior era julgada inadequada ou incompleta. Mas. as diferenças entre os dois livros eram ligadas tanto à própria escolha do problema de pesquisa quanto às ferramentas intelectuais colocadas à serviço da investigação. Portanto. no caso de Levi.

As diferenças e aproximações foram negociadas nos resultados das próprias pesquisas dos historiadores e historiadoras que tiveram sua formação sob essa inspiração. vale a pena voltar um pouco à relação problemática que o debate sobre a micro-história teve com o panorama cambiante dos estudos históricos durante os anos 1980. bem como na Inglaterra e nos Estados Unidos. Olhar o debate por esse ângulo — um ângulo externo — é antes de tudo multiplicar os mal-entendidos. a abertura ao debate internacional exigiu uma readequação das discussões às novas questões que se impunham. nesse caso. Aqui. é tentar simplesmente encaixar a micro-história em um quadro mais geral e homogêneo de “virada cultural”. acredito que as questões propostas pelo trabalho de Ginzburg não deixaram de ter algum efeito sobre as formulações gerais do debate. onde mais tarde muitos se inseriram profissionalmente. mas o que quero não é apenas reafirmar o caráter aberto e experimental da micro-história.AF_livro final ok. Creio que não se pode ignorar que alguns dos caminhos tomados pelas pesquisas dos micro-historiadores estão diretamente ligados a essas transformações.indd Sec7:143 143 PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES vou continuar a lista. mas pensar um pouco como o seu programa original foi também modificado e tornado mais complexo com o tempo. na École des Hautes Études en Sciences Sociales de Paris. não sendo uma informação secundária considerar que vários dos ex-alunos dos micro-historiadores italianos foram fazer seus doutorados fora da Itália. Assim. enquanto o interesse pela micro-história fora da Itália apenas crescia. A circulação de pessoas tem aqui um papel fundamental. De um ponto de vista interno. Há também uma dinâmica institucional da qual vale a pena falar brevemente. O que se pode identificar de saída é uma clara reação ao rumo que o debate histórico tomou a partir da década de 1980. Os estudos de história nas universidades italianas permaneceram fortemente impermeáveis à micro-história. O erro. Por outro lado. os temas e problemas teóricos em circulação no debate histórico dos anos 1980 entraram no horizonte das pesquisas que se inspiravam com maior ou menor intensidade no 4/12/2009 15:03:19 .

Levi assinala a oportunidade que teve de discutir seu livro nos seminários do Instituto de Estudos Avançados de Princeton.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 144 debate italiano sobre a micro-história. há pelo menos duas circunstâncias nas quais Levi se dedica a explorar suas diferenças com a história interpretativa que brota desse debate com Geertz. AF_livro final ok. baseada na leitura intensa de episódios singulares. Clifford Geertz. Levi criticava fortemente os pressupostos intelectuais de Darnton. Para a versão em português. O exemplo em que gostaria de me deter brevemente é mais uma vez o de Giovanni Levi. Ora. O título da resenha era precisamente “Os perigos do geertzismo”. reconstituindo seus significados historicamente localizados. Também a mobilidade dos historiadores garantiu que o programa da micro-história fosse refletido e. O eixo central do livro era a metáfora da “leitura”: a ideia de que o mundo social deveria ser encarado como um texto a ser decifrado. É verossímil pensar que foi essa temporada americana que o colocou em contato com o debate corrente que se travava então entre os estudos históricos e a antropologia cultural e interpretativa. A primeira delas é em uma resenha muito crítica sobre o livro recém-publicado de Robert Darnton. entre 1983 e 1984.18 Nesse texto. A crítica de Levi apontava exatamente para a debilidade intelectual de uma análise histórica construída nessas bases. naturalmente. sobretudo sua proposta de aproximar a investigação histórica do modelo hermenêutico de Geertz. que fazia parte do corpo permanente do instituto.indd Sec7:144 4/12/2009 15:03:19 . reavaliado em confronto com os debates mais amplos da disciplina. eventualmente. A abordagem hermenêutica deixava em aberto o problema de um conhecimento 18 Publicado originariamente em Quaderni Storici em 1985. O grande massacre dos gatos. fosse capaz de atravessar a opacidade do passado. Acompanhando o antropólogo americano. Darnton propunha o modelo de uma disciplina interpretativa que. ver Levi (1999). Na introdução de A herança imaterial. A referência fundamental aqui é.

Levi (1992:149) retomou a discussão acerca da história interpretativa. através dele. apenas ilustravam um contexto estático. Quanto à metodologia em si. O episódio em si era lido através de um vocabulário já conhecido. O projeto da microanálise — da redução da escala de observação com o fim de explorar uma realidade não acessível de outra forma — apontava para uma maneira distinta e muito mais complicada de enxergar também o mundo dos significados. da própria experiência humana). Portanto. complementam a crítica a certa forma de compreender a cultura. Creio que essa polêmica é particularmente reveladora. A virulência da crítica de Levi a Darnton e. Há também o perigo de se perder a visão da natureza socialmente diferenciada dos significados simbólicos e consequentemente de sua qualidade em parte ambígua. a Clifford Geertz e a Georg Gadamer deve ser lida contra o fundo dos vários paralelos que AF_livro final ok. nesse caso. a descrição densa não resultavam em um verdadeiro ganho cognitivo. dando espaço para o relativismo historiográfico. que seriam marcados por uma tendência a procurar a homogeneidade e a descrevê-la em termos normativos. do mesmo modo. Poucos anos depois. a linguagem e o significado. os resultados também não apresentavam novidade: a atenção ao caso individual. a ênfase no caráter descontínuo.indd Sec7:145 4/12/2009 15:03:19 . O julgamento. no caráter limitado e incompleto da sua “racionalidade”. o problema não é simplesmente aquele do funcionamento do intelecto. desta vez em um balanço seu sobre a micro-história. Ora. era mais claro: Parece-me que uma das principais diferenças de perspectiva entre a micro-história e a antropologia interpretativa é que a última enxerga um significado homogêneo nos sinais e símbolos públicos. ambíguo e fragmentado das representações (e.145 PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES empiricamente mais sólido sobre o passado. enquanto a micro-história busca defi ni-los e medi-los como referência à multiplicidade das representações sociais que eles produzem.

muitas das reelaborações que a micro-história sofreu ao longo dos anos. Levi (1992:141). Grendi (1998:261) reconhece o impacto das questões colocadas pela “virada cultural” sobre o seu próprio programa historiográfico. por exemplo. 20 Ver. Jogos de escalas. Essa preocupação marcaria. Sem dúvida é uma preocupação fundamental nas discussões de Ginzburg. a propósito. O que essa atenção crítica à história interpretativa sugere é que Levi reconhecia que havia questões importantes ali. a meu ver. mais de um comentador da micro-história enfatizou essa suposta “dívida” da micro-história para com a antropologia interpretativa de Geertz.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 146 se pode enxergar entre a micro-história e a proposta da “descrição densa” formulada por Geertz. AF_livro final ok. que manifestou isso claramente em seu balanço sobre a micro-história publicado no livro organizado por Jacques Revel. me parece equivocada). por exemplo. apontando a necessidade de incorporar a preocupação com as “formas expressivas” e o “problema da interpretação histórica”.indd Sec7:146 4/12/2009 15:03:19 . por exemplo — não fosse convincente. por exemplo. ainda que a resposta — a dada por Darnton. Ginsburg (2002 e 2007b).19 bem como a toda uma maneira de pensar a “história cultural” que acabava por se inspirar nessa mesma proposta. Reconhecemos isso em trabalhos como o de Maurizio Gribaudi (1987) sobre os traba19 E. Mesmo algumas passagens do autorretrato de Levi discutindo sua própria versão da micro-história sugerem essa ambiguidade (que.20 Mas essa foi também uma preocupação de Edoardo Grendi. de fato. questões para as quais a micro-história — pelo menos aquela vertente da micro-história que ele e Grendi haviam defendido — talvez não tivesse dado a atenção devida. Havia uma pergunta intelectualmente legítima ali. que a partir de outras questões também se engajou no debate sobre os limites da história das representações e a necessidade de levar a sério o desafio daqueles que achavam por bem dissolver os limites entre a história e a ficção. Nele. A geração de historiadores que se formaram sob o impacto da micro-história talvez tenha sido responsável por enfrentar mais de perto em suas próprias pesquisas esse diálogo. Ver. como é Ronaldo Vainfas (2002).

Simona Cerutti (2004:17-40). Poderíamos acrescentar outros livros. dos significados. Sex & gender in historical perspective (1990). Temas igualmente presentes no livro de Simona Cerutti (1992) sobre o nascimento de uma linguagem corporativa no Piemonte do século XVII. da dimensão ritual e simbólica. O debate em torno dessas questões. mas das categorias de análise e dos procedimentos interpretativos. sobre os rituais de violência e de poder na vida familiar e comunitária da Fontanabuona. Muito recentemente. O primeiro livro de Sandra Cavallo (1995) é um exemplo dessa convergência entre microanálise e estudos de gênero. uma das principais responsáveis por levar adiante a pesquisa micro-histórica nos últimos anos. da subjetividade. colega e orientando de Edoardo Grendi em Gênova. de todo modo. como o de Oswaldo Raggio (1990). na discussão dos Quaderni Storici (a revista que reuniu a maior parte das colaborações dos micro-historiadores) desde o início dos anos 1980. continua. bem como sobre o alargamento não só do leque de interesses dos micro-historiadores. que pareciam aspectos negligenciados pelo programa de microanálise social colocado inicialmente em circulação por Grendi e Levi. na Liguria. AF_livro final ok.21 Poderia citar outros. ou ainda o livro de Angelo Torre (1995) sobre o consumo das devoções no Piemonte moderno. A temática do gênero estava presente. debruçou-se sobre essas mesmas questões e formulou uma autocrítica muito articulada tanto à forma pela qual a 21 Pomata vem trabalhando com temas relacionados ao gênero e à história da saúde desde o fi nal dos anos 1980. acabaram sendo incorporados ao universo de temas e questões centrais da micro-história. como atesta a coletânea organizada por Edward Muir e Guido Ruggiero.indd Sec7:147 4/12/2009 15:03:19 .147 PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES lhadores de um bairro operário de Turim no entreguerras — um trabalho marcado por uma verdadeira desconstrução da ideia de uma “classe trabalhadora” homogênea e dotada de interesses comuns e coerentes. como nos trabalhos de outras historiadoras ligadas à micro-história. por exemplo Gianna Pomata e Sandra Cavallo. mas o que essa breve lista quer dizer é que os temas da cultura (e da pluralidade das culturas). explorando amplamente o papel construtivo das linguagens políticas. Também os estudos de gênero passaram a ocupar aí um lugar importante.

a necessidade de uma nova contextualização cultural brota da pesquisa das próprias relações sociais. os próprios micro-historiadores sentiram a necessidade de superar essa dicotomia artificial entre uma perspectiva voltada estritamente para o estudo das relações sociais e outra dedicada ao estudo dos modelos culturais. sexuais. Para ela. Para Cerutti. está longe de ter visto seus últimos momentos.indd Sec7:148 4/12/2009 15:03:19 . 2004:19. Afi rma. A microhistória foi um dos vetores dessa transformação no debate contemporâneo. “que é o comportamento que explica a eficácia e a vitalidade dos modelos culturais”. ao mesmo tempo em que se viu transformada por ele. aparentemente. Como se sabe. As tradicionais hierarquias de relevância foram desafiadas por histórias que chamavam a atenção para os grupos marginais.22 O objetivo de Cerutti de pensar uma convergência possível de interesses entre as duas exigências intelectuais que moldaram a micro-história ilustra o caráter dinâmico de um debate que. sendo possível “analisar melhor significados profundos (e recônditos) se nós não desconectarmos a análise dos modelos culturais da análise do comportamento. Essa vitalidade que a micro-história ainda parece possuir está ligada ao caráter experimental que ela desenvolveu desde os seus primórdios e que também se expressa em uma saudável “autossubversão”. boa parte do “senso comum historiográfico” contra o qual a micro-história se insurgiu foi também bastante alterado. mas os mantivermos juntos”. A pluralização de temas. portanto. AF_livro final ok. as histórias ligadas às identidades étnicas. a emergência de novas categorias de análise e de novos diálogos disciplinares significaram também o aparecimento de novas contradições e simplificações que reestruturaram o horizonte de crítica e reflexão histórica. de gênero.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 148 chamada micro-história cultural ao estilo de Ginzburg ocupava-se dessas questões quanto à micro-história social que ela mesma havia encampado em seu trabalho anterior. as histórias locais. A inflexão recente que parece representar uma revisão do quadro teórico que fez triunfar a “virada 22 Cerutti.

Eugene Genovese e Natalie Davis. a atenção a esse debate italiano era muito seletiva e. (2005). AF_livro final ok. como Jacques Le Goff e Georges Duby. Chegando às últimas considerações deste texto. pelo menos nos cursos universitários. como referência desse quadro de revisão. bem como historiadores ingleses e anglo-americanos. de modo quase simultâneo: a tradução maciça de historiadores franceses ligados aos Annales. A primeira recepção da micro-história coincide com a própria recepção de um debate mais amplo sobre a historiografia que se internacionalizava. Esse foi o contexto que permitiu. seria importante concluir com uma constatação. Ainda que se possa lamentar a ausência de traduções de muitos livros e textos importantes sobre a micro-história — e a centralização da atenção e da leitura. que daí deriva. que passou por uma rearticulação de problemas e um vigor renovado de pesquisa certamente notáveis. No início dos anos 1990 — época em começa a circular a palavra “micro-história” no Brasil —. ao mesmo tempo. da 23 E aqui. como Edward Thompson.149 PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES cultural”23 pode sugerir que as questões levantadas pela micro-história ainda podem ter muito a dizer sobre os caminhos do debate historiográfico nos próximos anos. Em contraste. o debate sobre a micro-história parece hoje muito mais rico e atento às sugestões e propostas que a própria pesquisa dos micro-historiadores produziu ao longo dos anos. em um pequeno número de autores selecionados —. em meados da década de 1980. não há dúvida de que o debate brasileiro vem conseguindo articular as sugestões de pesquisa oriundas dos trabalhos dos micro-historiadores com as próprias conquistas da história social e cultural no Brasil dos últimos anos.indd Sec7:149 4/12/2009 15:03:19 . excessivamente impressionista e lacunar. além de todo um leque de discussões que brotavam da fi losofia. o contato com um conjunto amplo de leituras que vinham traduzidas para o português e lidas. aponto para os livros de Geoff Eley (2008) e William Sewell Jr. que toca o terceiro ponto que eu havia me proposto a discutir nas primeiras páginas do capítulo.

e todo o conjunto de questões que tratam da renovação da história social e econômica. De todo modo. uma história simultaneamente em sintonia com o debate internacional e disposta a intensificar suas relações com as outras disciplinas das ciências humanas. A recepção dessa impressionante massa de textos. isto é. Novas publicações. que tiveram todos enorme impacto sobre as discussões dos historiadores brasileiros. Se nos mantivermos apenas nos resultados coletivos mais evidentes. bem como aqueles sobre o funcionamento do antigo regime na América portuguesa. a AF_livro final ok.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 150 antropologia ou da sociologia — como é o caso. os estudos de história social do trabalho. mas uma das modalidades de uma “história cultural” ou “história das mentalidades” cujos significados permaneciam suficientemente ambíguos para permitir combinações de toda ordem. como o livro organizado por Jacques Revel em 1996 e publicado quase em seguida no Brasil — Jogos de escalas. A micro-história. bem como uma história “a partir de baixo”. a inspiração que o prefi xo “micro” sugeria acabou ainda por reforçar um quadro — que também emerge dos desdobramentos do debate historiográfico dos anos 1980 e 90 — que parecia justificar uma atenção às singularidades e aos estudos de caso. Esse é o enquadramento que permite compreender como a micro-história pode se tornar não só sinônimo da obra de Carlo Ginzburg (traduzido conspicuamente a partir de 1987). de Michel Foulcault e. mais tarde. nesse contexto. Pode-se dizer que esse foi também um momento em que a historiografia brasileira descobriu com mais intensidade seu próprio caminho para uma “história social”. ideias e sugestões de pesquisa foi mediada — como talvez não pudesse deixar de ser — por leituras parciais e aproximações inesperadas.indd Sec7:150 4/12/2009 15:03:19 . foi tomando contornos mais claros. cabe citar os estudos sobre a história da escravidão e da pós-emancipação. acabou também por reforçar algumas das transformações mais significativas dos estudos históricos no Brasil dos últimos anos. Pierre Bourdieu. inicialmente capturada como parte de uma constelação mais ampla de sugestões de pesquisa. A micro-história. por exemplo.

151 PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES experiência da microanálise — reunindo contribuições de historiadores e antropólogos italianos e franceses sobre a micro-história em sua versão “social”. isto é. como acabou por acrescentar um elemento novo no quadro da recepção do debate no Brasil.24 que é sua capacidade de formular perguntas que puderam ser generalizadas a ponto de servir de inspiração e contraponto aos avanços recentes da história social no Brasil. Apesar de esse interesse ainda ser mediado por traduções seletivas. tem o mérito de apresentar um exemplo de microanálise histórica cujos procedimentos e estratégias de investigação são perfeitamente capazes de instruir trabalhos do gênero que abordem temas de pesquisa mais próximos das possibilidades oferecidas pelos arquivos brasileiros. A publicação do livro de Giovanni Levi — A herança imaterial — em 2000 tanto atesta a atenção aos desdobramentos da micro-história para além da referência da obra de Ginzburg. na entrevista dada a Diego Sempol na Costa Rica. certamente ajudaram a tornar o debate sobre a micro-história mais rico e mais fundamentado. portanto. é que o interesse pela micro-história não deixa de crescer entre os pesquisadores brasileiros. que tendem a ignorar os desenvolvimentos (mesmo contraditórios) do debate sobre a micro-história. manifesta-se o risco — já presente. deixando de lado o aspecto essencial da proposta. AF_livro final ok. Por outro lado. ser uma estratégia de pesquisa colocada a serviço da investigação de um problema historiográfico de amplo fôlego. O que se atesta. pontualmente. ele também testemunha aquela característica da micro-história enfatizada por Giovanni Levi. em alguns dos debates recentes — de tomar a “microanálise” como um procedimento com fi m em si mesmo.indd Sec7:151 4/12/2009 15:03:19 . tanto na Itália quanto na França. entre outras qualidades. fazendo circular um texto que. As transformações recentes no horizonte das discussões historiográficas apontam para uma reconfiguração de temas e questões que terão certamente impacto sobre o modo pelo qual a micro-história 24 Por exemplo. Ver Levi (1998:16-17).

São Paulo: Companhia das Letras. o debate está apenas começando. Relações de força. collective action. 2008. Turim: Einaudi. Cambridge. Markku. 1990. AF_livro final ok. 1989a. In: GINZBURG. Alain. Mitos. O confronto entre esse quadro. (Microstorie.). PELTONEN. and nation building. O queijo e os vermes. Helsinque: SKS. prova. Essays on micro-history.: Cambridge University Press. Anna-Maija. 1991. São Paulo: Companhia das Letras. Matti (Eds. Benefactors and their motives in Turin. p. emblemas. secoli XVII-XVII. 1988. Simona. La papessa Giovanna. p. 1995. DAVIS. 17-40. Nascita delle corporazioni a Torino. Geoff. 28-34. Storia della Storiografi a. Sinais. 2002. [1981] São Paulo: Paz e Terra. Os andarilhos do bem. [1976] São Paulo: Companhia das Letras. n. C. Carlo. Sandra. Between sociology and history. na verdade. ELEY. De la historia cultural a la historia de la sociedad. Turim: Einaudi. Indagações sobre Piero. O cotidiano e as ideias de um moleiro perseguido pela Inquisição. ———. ———.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 152 vem sendo lida no Brasil. ———. GINZBURG. Raízes de um paradigma indiciário. p. 20. sinais. retórica. 1992. São Paulo: Companhia das Letras. LONKILA. História. Feitiçaria e cultos agrários nos séculos XVI e XVII. o próprio desenvolvimento das pesquisas inspiradas na micro-história realizadas por historiadores brasileiros e as contribuições que o debate sobre a micro-história continua a fazer sugerem que. Morfologia e história. ———. 143-179. ———.) CAVALLO. 1987. Natalie Zemon. Valencia: PUV. O batismo — o Ciclo de Arezzo — a flagelação. Charity and power in early modern Italy. CERUTTI. 1541-1789. The shapes of social history. Micro-history: social relations versus cultural models? In: CASTRÉN. Una linea torcida. Mestieri e privilegi. Mass. REFERÊNCIAS BOUREAU. 17. 2004. 1989b.indd Sec7:152 4/12/2009 15:03:19 .

Da história social à história da sociedade. PONI. C. fictício. p. 2007a. A escrita da história. 137148. History: the last things before the last. Belém. Rivista Storica Italiana. 1998. O fio e os rastros. 169-178. A “crise” da história e os dilemas da representação. ———. O nome e o como: troca desigual e mercado historiográfico. 1. et al.). v. Jacques (Org. 1981. 2004. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Humanitas. In: GINZBURG. Zemon Davis. Turim: Rosenberg & Sellier. falso. Repensar a micro-história? In: REVEL. Acesso em: 20 set. 1987. Lynn (Org. 153 PENSANDO AS TRANSFORMAÇÕES ———. HUNT. htm>. São Paulo: Unesp. 18. 1969. ———.). ———. KRACAUER. p. História Social. [1989] São Paulo: Martins Fontes. 6. 2000. 16 oct. São Paulo: Companhia das Letras. 2. A micro-história e outros ensaios. Edoardo. S. mar. Peter. ———. Spazi e percorsi sociali a Torino nel primo Novecento. n. GRIBAUDI. In: BURKE. HOBSBAWM. AF_livro final ok. C. In altri termini. 2000.ac.indd Sec7:153 4/12/2009 15:03:19 . Etnografia e storia di una società di antico regime. Eric. O fio e os rastros: verdadeiro. v. Jogos de escalas: a experiência da microanálise. n. 88. A nova história cultural. Campinas. LEVI. Brecha. fictício. GRENDI. In: ———. São Paulo: Companhia das Letras. 1989. 1999. La discusión histórica tiene consecuencias políticas. In: GINZBURG.ucr. p. 2002. 1997. Sobre a micro-história. Sobre história. 1976. Carreira de um exorcista no Piemonte do século XVII. Micro-história: duas ou três coisas que sei a respeito. A herança imaterial. Paradossi della storia contemporanea. ———. 1998. Society and culture in early modern France. In: BOLOGNA. Verdadeiro. Siegfried. Mito operaio e mondo operaio. p. 77-106. Milão: Feltrinelli. Os perigos do geertzismo. 1992. São Paulo: Companhia das Letras. Nova York: Oxford University Press. Rio de Janeiro: FGV. Recensione: N. 1992. 2007b. Henrique Espada.cr/articulos/c-levi.fcs. 71-72. Giovanni. LIMA. falso. ———. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil. p. Disponível em: <http://historia. Turim.———. Turim: Einaudi. ———. n. C. 16-17. Maurizio. Lisboa: Difel. Dieci interventi sulla storia sociale.

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indd Sec7:155 4/12/2009 15:03:19 .PARTE III Exercícios de micro-história AF_livro final ok.

indd Sec7:156 4/12/2009 15:03:19 .AF_livro final ok.

Richardson.609.edu>.library. t. ao longo de dois séculos. Berhens e Florentino.869 escravos. tornando-o o principal porto de destino daquele negócio.7 O capitão João Pereira Lemos e a parda Maria Sampaio: notas sobre hierarquias rurais costumeiras no Rio de Janeiro do século XVIII* João Fragoso Entre 1601 e 1800 o tráfico atlântico de escravos trouxe para as Américas cerca de 5. e Serrão e Marques (2005:85-89).II). tenças. eram pagos com a concessão de hábitos militares. os moradores de Cabo Verde tinham tal exclusividade na área da Senegambia. em <http://wilson. 1 AF_livro final ok.emory. Ver Eltis. ∗ Pesquisa fi nanciada pelo CNPq. monopólios etc. no Atlântico e em outras paragens. Ver Teixeira (2005.2 conseguiu superar as importações tumbeiras custeadas pelo capital mercantil-bancário de Londres e Amsterdã. e Fragoso (2000).1 Assim. Sobre o tema. dos quais aproximadamente 39% para o Brasil. com suas práticas de resgate nas costas africanas. o sistema atlântico luso. os serviços prestados à monarquia. expedientes políticos da monarquia corporativa nada regulados pelo mercado. 2 Sistema pelo qual a coroa concedia o privilégio do comércio de cativos em determinadas áreas da costa africana.indd Sec8:157 4/12/2009 15:03:19 . Por exemplo. Através da economia do dom. arrematações de contratos e economia de mercês. ver Xavier e Hespanha (1993). no século XVI.

conforme Blackburn (2003) e Higman (2000). alguns dos quais consanguíneos e compadres dos senhores do engenho. primo e cunhado do capitão João Pereira Lemos. 872. Na América lusa.indd Sec8:158 4/12/2009 15:03:19 . freguesia rural da então principal praça comercial do Atlântico Sul português. foram usados nas chamadas plantations integradas — protótipos do sistema manufatureiro europeu —. e o tenente Antonio Gomes de Abreu. senhor de Sapopema.2 1. no 9.3 99. A família de Batista.9 Fonte: Inventário post mortem de Ana Maria de Jesus. contava com 113 cativos responsáveis por cerca de um quarto do valor das colheitas daquele ano. lavouras de cana nas mãos de 11 escravos da fazenda.225. ao contrário das imensas gangs de escravos de Barbados. a exemplo de outros integrantes dessa elite das senzalas. como Miguel Cardoso Castelo-Branco. o Engenho de São João Batista de Sapopema. mantinha também relações de parentesco ritual com a família senhorial. AF_livro final ok. além daqueles lavradores. os engenhos de açúcar. Entretanto. Os demais três quartos do açúcar. um dos 13 situados em Irajá.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 158 No Caribe inglês. compadre da mesma família senhorial. 1795. dirigidas pelo capital absenteísta situado em Londres. foram colhidos principalmente dos 14 partidos de cana de lavradores livres. se desdobravam nos chamados partidos de canas. Em 1795. ou seja. como o cabra José Batista. Um fenômeno que transformava essa centenária empresa num empreendimento em que as relações econômicas se confundiam com as parentais. existiam os chamados partidos dos pretos. como se vê na tabela 1. a tabela 1 também nos informa que.1 4. cx. aqueles cativos.3 70. TA B E L A 1 Distribuição dos partidos de cana entre diferentes estratos sociais: Engenho São João de Sapopema Partidos de cana Do engenho Dos lavradores livres Dos libertos Dos pretos da fazenda Total No de lavradores Valor % 14 2 11 27 115$200 332$500 5$200 20$500 473$400 24. explorados em geral pelo dono do engenho e por lavradores com seus parentes e escravos.

Agradeço a Sheila de Castro Faria a consulta dessa fonte. as normas sociais desse engenho foram produzidas conforme os parâmetros da sociedade considerada. 1692. Sapopema vivia ainda a ideia de autogoverno das casas. estava envolvida em uma extensa rede parental da nobreza da terra da capitania. Mas com certeza Sapopema se distanciava daquilo que conheço sobre a plantation integrada de Barbados. a ideia é recuperar um antigo e bom chavão da história: capturar mu3 Ver escritura de entrega que faz Vicente João da Cruz ao capitão-mor Agostinho de Carvalho. Maria Januária Galvez Palença.159 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS Não sei até que ponto as relações sociais vividas em Sapopema — acesso de escravos a partidos de cana. Com isso. conceito presente na concepção da monarquia corporativa lusa. ver inventário post mortem de Manoel Antunes Suzano e de sua mulher. de José Batista e de outros sujeitos da mesma capitania. também com certeza. da fazenda do visconde Asseca. Seja como for.indd Sec8:159 4/12/2009 15:03:19 . procuro combinar a micro-história italiana (trajetórias de vidas como ponto de encontro de diferentes relações sociais e. DEP 511. porém. contribuir para o entendimento da lógica de funcionamento das empresas açucareiras do sistema atlântico luso. 1818. portanto tinha legitimidade para exercer o mando local. de outras vidas) com a longa duração. sua família. 1o Livro de Notas do Tabelião de Campos. é a que apresenta maiores detalhes. Nas páginas a seguir procuro. Para tanto basta lembrar que seu dono era capitão de ordenanças. Sapopema não era uma colônia de marcianos encravada na economia exportadora e escravista do Rio de Janeiro. Da mesma forma. combinação de parentesco e economia — foram comuns a outros engenhos da região e da América lusa. Tenho conhecimento de outras fazendas do século XVII e XVIII onde os escravos tinham acesso a plantações de cana. presença de uma elite nas senzalas. 3622. portanto. esta entendida como uma temporalidade que ultrapassa as existências de João Pereira e de seu cabra.3 Sapopema. AF_livro final ok. Assim como. Sobre o início do século XIX. a ideia de autogoverno etc. Para tanto. Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. e pardos livres tinham a posse de escravos. aquelas que surgiram de mecanismos identificados com a economia das mercês. cx. através de fragmentos das trajetórias de João Pereira Lemos. de longa data senhorial.

Tratase de uma documentação seriada. perguntas atinentes a uma antropologia da aldeia. dominada por nego- 4 A principal documentação utilizada foi a coleção dos registros paroquiais de batismos do Rio de Janeiro. procuro compreender os comportamentos dos moradores — senhores. reconstruir redes parentais. da taxa de fecundidade e das decisões dos casais quanto a tais taxas etc. como inventários post mortem. Essa ideia talvez esteja em desuso. Tudo faz parte de um pesquisa minha em andamento — “Fidalgos parentes de pretos” —. quanto às suas alianças na vida (casamentos e compadrios). especialmente os das freguesias de Irajá e Jacarepaguá. no início do século XVIII. algo como “ao historiador cabe o estudo das mudanças principalmente das estruturas sociais. No texto a seguir. Na minha época de estudante. a professora Yedda Linhares gostava sempre de repetir uma ideia de Pierre Vilar. é estudar até que ponto a chamada plantation açucareira brasileira do Setecentos seguia a ideia de autogoverno das casas. procurei fazer uma primeira aproximação das estratégias de vida de mais de 2 mil famílias (casais e solitários) de diferentes status sociais. das mudanças e permanências. um conceito caro à concepção corporativa. a capitania do Rio de Janeiro estava prestes a se tornar a principal praça comercial do Atlântico Sul escravista.indd Sec8:160 4/12/2009 15:03:19 . mas acredito que cabe ao profissional de história o estudo do tempo social e. escravos e pardos — das plantations no sistema normativo considerado. AF_livro final ok. Com esse intuito. daí a necessidade de investigações sobre a longa duração”. o que permite acompanhar as decisões de escravos. como afi rmei.4 Escolhi duas freguesias — Irajá e Jacarepaguá — e. Capitão João Pereira Lemos — descendente postiço de conquistadores e senhor de São João de Sapopema — e uma hierarquia social costumeira no Antigo Regime nos trópicos Na época em que João Pereira Lemos nasceu. o vocabulário social usado pelos fregueses. entre outros. fi nanciada pelo CNPq.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 160 danças e permanências na vida social ao longo do tempo. genealogias etc. senhores e pardos. distribuídas entre 1700 e 1800. Essa fonte serviu como espinha dorsal. e a ela foram incorporadas outras. Através dos registros também é possível ter ideia da dimensão dos plantéis. nessa ótica. minha intenção. através dos registros paroquiais.

Francisco Lemos recebeu as comendas da Ilha de Santa Maria. Porém. 5. senhor de Sapopema. Em razão dos serviços prestados no norte.5 6 7 161 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS ciantes de grosso trato e seus negócios. Ver Olival (2001). 3. Rio de Janeiro. 1. o comendador Jorge Lemos de Bitencourt. Ver Fragoso (2007). tal engenho escravista passara pelo menos por duas gerações sem ser fragmentado. a cidade ainda guardava traços da velha sociedade agrária seiscentista. aportou no Rio de Janeiro no segundo quartel do século XVII. por seu turno. v. AF_livro final ok. com o intuito de povoar o Maranhão. chegara à América na esquadra aprestada por seu tio. Natural de Fayal e descendente das famílias fidalgas da casa real — a Abreu Lima. Tal estabilidade permitiu aos escravos e pardos formarem famílias. São Miguel de Cássia e do Termo dos Palhaes. Biblioteca Nacional. provavelmente resultara de uma prática comum entre soldados profissionais (tropa paga e/ou integrante de ordens militares) a serviço da monarquia lusa no Atlântico. Francisco de Lemos de Faria. no registro de batismo de seus fi lhos. no primeiro quartel do século XVIII. Essa estabilidade. escolherem aliados e afinarem estratégias num mundo escravista marcado por incertezas. aparece como exposto na casa do padre Luis Pereira Lemos. escravos ou não. Seção de Obras Raras. 13-15. prevalecia no recôncavo e cercanias uma economia escravista açucareira. e os postos honrosos eram ocupados por senhores saídos de uma complexa rede de parentesco autodenominada nobreza principal da terra. construído a sociedade local conforme os preceitos da monarquia e do cristianismo.5 João Pereira Lemos. Porém. fenômeno com todo um significado particular para seus moradores. a Furtado de Mendonça e a Vieira Fialho —. Desse modo. no século XVI.6 O avô materno de Luis Pereira e bisavô postiço de nosso personagem. Ms. tinham vencido os invasores franceses na região e.7 Com tais insígnias passou ao Rio de Janeiro. p. após a conquista feita por Jerônimo de Albuquerque Maranhão. Em outras palavras.indd Sec8:161 4/12/2009 15:03:19 . depois. 33-120. Isso porque se viam como descendentes de conquistadores que. a condição de exposto não o impediu de se tornar dono da fábrica.

com ela. em nome de seu amo e a serviço de sua majestade. criados e agregados. clientes. Assim.9 Em troca desses serviços. fosse na luta contra o Islã ou na ocupação de áreas ameaçadas. Açores e Cabo Verde.indd Sec8:162 4/12/2009 15:03:19 . a forma de manter e acrescentar grandeza e honra às suas casas. na circulação desses fidalgos pelo ultramar na defesa dos interesses da monarquia. ocupou o senhorio marítimo Ilha da Madeira. Em outras palavras. resultava de um ethos da fidalguia. e Serrão e Marques. 2005:140-150. região situada no recôncavo da Guanabara. e a crescente dificuldade de formação de novas casas. Nesse ethos existia uma hierarquia das áreas preferidas para a prestação do serviço. a exemplo de outras tradicionais da capitania vindas da Madeira e dos Açores. 8 a ideia de casa e. sob sua tutela. I. Fenômeno que se traduzia. senhores do Engenho de Pendotiba. Isabel Pereira de Carvalho. à custa de sua própria fazenda. nos séculos considerados. através da experiência na Madeira. a de autogoverno — este entendido como espaço social no qual existia um chefe e. quais sejam: a descendência da clientela do duque de Viseu. que percebia no serviço ao rei. coroada com o sistema do morgadio. 2005. Ver Cunha e Monteiro (2005:191-252). do funcionamento das plantations de açúcar baseadas no trabalho escravo e em partidos de cana distribuídos entre lavradores livres. 9 AF_livro final ok.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 162 onde se casou com d. o uso de recursos provenientes de tais empresas no serviço ao rei nas campanhas no norte da África contra o Islã como forma de manter a grandeza de casas fidalgas. foi produto de algumas experiências do Atlântico luso nos séculos XVI e XVII. o conhecimento. que no século XV. tais fidalgos recebiam a gratidão 8 Sousa. a família Pereira Lemos. João Pereira. filha de Gaspar Pereira de Carvalho e de Margarida Gomes de Oliveira. a princípio. porém do lado oposto ao de Irajá. parentes rituais. uma família extensa constituída por consanguíneos. em razão da escassez de terras. t. Um bom exemplo disso são as folhas de serviço dos capitães de fortaleza ou daqueles que adquiriam ordens militares.

92. dos Andrade Soutomaior com Castro Morais (o casamento com o fi lho do mestre de campo Gregório de Castro Morais) e com Francisco Camelo Pinto de Miranda. algo cobiçado. que provavelmente contribuíram para o casamento de seus bisavós postiços. para Lemos Faria. vindo do distante Maranhão. algo que talvez não mais fosse possível em Faial. aquele casamento significava o ingresso em uma nova república e em sua respectiva estratificação local.163 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS régia. ofícios etc. de José Barreto de Faria e Sebastião Martins Coutinho com os fi lhos de Egas Moniz da Silva. em meados do século XVII. pode-se encontrar consórcios maritais em que fidalgos da casa real ou portadores de hábitos militares casam-se com fi lhas de donos de engenho e. 1965. Entre eles. portanto. Por isso a chegada às amplas terras americanas dos avós postiços de João. com o seu sistema de morgadio. além de mercês (comendas. cuja autoridade. 165 e 217. sua posição social era reconhecida em qualquer canto do império. da Madeira. como no seguinte.). apesar de possuir um engenho de açúcar. além da chance de criar sua própria casa. por boa parte dos moradores do Rio de Janeiro. pois fora concedida pela monarquia. sendo. Em contrapartida. v. assim como de outros conquistadores. Nosso personagem tinha por orientação valorativa itens como uma hierarquia estamental e a formação de uma casa. AF_livro final ok. minha pesquisa em curso — “Fidalgos parentes de pretos” —. com isso. familiar do Santo Ofício e secretário da capitania.10 10 Cf. provavelmente. e os Pimenta Carvalho em 1667. e a possibilidade de formarem uma casa. tinha os limites do poder local: a república. desse modo. p. No século XVII. adquirem a possibilidade de construir suas próprias casas e galgar uma posição cimeira na hierarquia social. fi nanciada pelo CNPq. fidalgo da casa real. Ver também Rheingantz. terras. Talvez este tenha sido o caso do contrato entre o fidalgo da casa real Egaz Muniz Telo. 1. o sogro Gaspar Pereira Lemos. Francisco de Faria Lemos pertencia à fidalguia.indd Sec8:163 4/12/2009 15:03:19 . de Gregório Nazianzeno da Fonseca com Bartolomeu da Siqueira Cordovil.

Na verdade. neto de Francisco Lemos de Azevedo. 1. a da monarquia.indd Sec8:164 4/12/2009 15:03:19 . 482 (ARM. na América. isso. retornando depois ao Rio de Janeiro. não prevaleceu entre os melhores da terra o sistema de centralidade da autoridade familiar na forma do morgadio. Porém. p. ao que parece. temos no sistema de transmissão uma das diferenças em relação às práticas aristocráticas do reino e das ilhas. estimava tais consórcios e os valores por eles representados — leia-se Antigo Regime. Na verdade. sem pôr em perigo o poder da família ou sua unidade política. AF_livro final ok. a elite senhorial que se formara na América tinha as suas diferenças quanto às da Madeira e do reino. e por fi lhos de fidalgos da 11 Um exemplo emblemático e talvez limite de tal ethos aristocrático é dado pela trajetória do capitão Francisco de Lemos Peixoto. onde recebeu em 1653 a ordem de Aviz. prevalecia a ideia de casa. na América prevaleceu uma hierarquia cujas posições cimeiras foram ocupadas por famílias de antiga e conhecida nobreza. e v. vindo depois a se fi xar na Bahia. p. Lemos Peixoto serviu em Massagano e Luanda.11 Desse modo. 122. alcaide da cidade e senhor de engenho. a hierarquia da qual saíra João Pereira Lemos. vindas da Conquista. Nesse ponto. v. como fizeram os da Madeira. Valores que. Nem todos os fi lhos de fidalgos da casa real ou da nobreza principal da terra serviram ao rei em longínquas paragens. natural do Rio de Janeiro. Contudo. e suas orientações valorativas tinham um quê de aristocráticas. Assim como. Inventário dos livros das portarias do Reino. Salvador Correa lutou contra os holandeses em Recife e serviu no Castelo de São Jorge de Mina. fidalgo da casa real. quando da fundação da cidade no Quinhentos. 2. portanto. sendo por essas atividades agraciado com uma tença por ano retirada do almoxarifado da capitania do Rio de Janeiro. Arquivo do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro (IHGB). cujos bens foram partilhados entre os herdeiros e. houve a multiplicação de casas. Ou ainda o caso de Salvador Correa Vasqueanes. fi lho de Duarte Correa Vasqueanes (governador do Rio de Janeiro na década de 1640 e dono de engenhos de açúcar). baseada no trabalho escravo e em plantations. ultrapassavam as fronteiras da baía da Guanabara. o morgadio não era imprescindível para manter a grandeza das famílias e. Na América. p. resultara dos serviços prestados à coroa e à república. com o conjunto delas. Para tanto é exemplar o caso dos Correa Vasqueanes. 34-8). Por seu turno. as casas puderam proliferar sem porem em risco a monarquia ou a elite local. na América.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 164 Parece que essa sociedade americana. 122.

Assim como nas classificações sociais rotineiras. seu acesso. abriram mão desse aspecto do ethos aristocrático e passaram a compor uma elite local. Mas alguns valores vindos do reino permaneceram. Afonso Guimarães. O hábito da Ordem de Cristo por si só ou o foro de fidalgo da casa real não garantia o mando na sociedade. o de uma hierarquia estamental. Nos trópicos foi construída outra hierarquia de mando. se traduzia na possibilidade de dar liberdade a escravos e de conceder acesso à terra. que não guardavam uma exata correspondência com as do reino. AF_livro final ok.165 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS casa real recém-chegados à América. com suas insígnias e normas. Ver Borrego (2008). depois.12 Esses conquistadores fi zeram escolhas diferentes dos da Madeira e do reino. Com essa opção. vários dos conquistadores do Rio de Janeiro eram velhos soldados. ocorrer conforme as normas de tal grupo — através de pactos nupciais. cuja autoridade. Crispim da Cunha. mas decorriam da conquista da região.indd Sec8:165 4/12/2009 15:03:19 . sendo esta gerida por um capo. na qual recursos eram subtraídos da sociedade e usufruídos por algumas poucas famílias. pardos e livres. lembro Antonio de Mariz (Ordem de Cristo). e de relações pessoais de dependência. A ideia de hierarquia estamental estava presente nas regras que presidiam as relações pessoais na casa: escravos. mais de 100 anos em 1700. Por exemplo. O que não invalida o que escrevi anteriormente de alguns potentados plebeus procurarem maior honra junto ao reino mediante casamentos e genros fidalgos. forros. entre os quais: o de casa. tendo algumas de tais classificações. Em outras palavras. portanto. Através do estudo das freguesias ru- 12 Entre eles. do sistema de transmissão de patrimônio do grupo. João Gomes da Silva. por exemplo. no caso dos lavradores e descendentes de escravos. Pedro Gago da Camara etc. em grande medida. a terra ser adquirida em sesmaria por conquistadores e fi lhos e. fidalgos e/ou cavaleiros das ordens militares. Eles e/ou seus descendentes deixaram de circular no império para defender o rei e o cristianismo.

A ostentação da patente de oficial ordenança ou dos auxiliares evo- 13 Para a caracterização das patentes de ordenanças na organização municipal portuguesa e da monarquia. Nesse processo.15 A razão de alguns ostentarem títulos e outros não é mais bem explicada pela história da família do portador do título. entre outros procedimentos. a população recenseada pelos curas era distribuída em quatro categorias recorrentes: “oficiais de milícia”13 para uns poucos homens e “dona” para algumas mulheres. 14 A partir de fi nais do século XVII.14 Até princípios do século XVIII. 2007).indd Sec8:166 4/12/2009 15:03:19 . Em seguida. Em função ainda da conquista. na Biblioteca Nacional. tais postos foram apropriados pela república para sua organização política. como maneira de viabilizar a estratificação social local conforme as negociações com a coroa e entre os locais. ver Costa (1816). Desnecessário dizer que as patentes das ordenanças e auxiliares serviam para identificar alguns dos homens das famílias da nobreza da terra. postos milicianos em sentido restrito. Pelo menos na América. AF_livro final ok. Assim. no cotidiano municipal. nos séculos XVII e XVIII. a câmara indicava ou podia negociar os nomes para desempenhar esse papel. grosso modo. As patentes dos auxiliares não designam. fi nanciada pelo CNPq. 15 Em diversos outros trabalhos procurei caracterizar esse grupo. Eles recorriam. os postos de oficiais de ordenança tinham de ser confi rmados pelos governadores. em geral tais categorias foram empregadas para designar os descendentes dos conquistadores da região e responsáveis pela montagem das instituições do Antigo Regime na região (municipais e régias).EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 166 rais do Rio de Janeiro é possível recuperar aspectos de tal hierarquia nas categorias usadas pelos clérigos das freguesias para classificar seus paroquianos. detinham o controle sobre as terras (via sesmarias) e formavam grandes parentelas com diversas facções sedimentadas com o tempo. Cf. ou melhor. que denominei nobreza principal da terra (Fragoso. minha pesquisa em curso — “Fidalgos parentes de pretos” —. a qualitativos sociais como pardos ou ainda a expressões como “assistente de casa”. Gostaria somente de lembrar que essas famílias absorviam estrangeiros conforme seus interesses. a patentes de ordenanças. no Rio de Janeiro. procuro combinar tal classificação social com as informações disponíveis sobre a trajetória de vida e a genealogia do sujeito considerado. a qualitativos jurídicos como forro. a títulos de dona.

“população sem cor” ou aqui apresentados genericamente como “livres”. muitos dos quais portugueses ou seus fi lhos. portanto. de melhor qualidade. apesar de corresponder a uma posição de mando em tal estratificação e. valendo tal classificação para ambos os sexos. ou seja. mas dos párocos locais. apareciam sem cor. Isso significava que seu portador tinha uma autoridade e um prestígio que ultrapassam os limites de sua república e era assim reconhecido como tal em outras repúblicas ou municípios. Muitos dos assistentes eram pardos. em geral um oficial da ordenança ou uma dona. elas designavam um passado de escravidão. Consiste na maior parte da população registrada nos livros paroquiais de livres. do governador ou dos conselhos palacianos situados em Lisboa. O título de “dona” para as mulheres. Nunca é demais lembrar que a concessão de tal patente dependia da confirmação do rei. diferencia-se deste por um simples motivo: sua concessão não era uma prerrogativa da monarquia. forros e libertos” — não consegui ainda precisar as diferenças existentes entre tais categorias. ser compatível com o de oficial das ordenanças. Por essa categoria nota-se a ideia de casa para designar pertencimento e proteção. Acompanhando a trajetória de certos pardos e/ou forros pude verificar que alguns. “pardos. ver Mattos (1993).indd Sec8:167 4/12/2009 15:03:19 . a universalidade da monarquia. AF_livro final ok. as moças portadoras de tal honra eram de fato as melhores da terra. Porém. Mais adiante falarei mais sobre o grupo.16 167 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS cava a legitimidade social conferida pela freguesia e. aos seus olhos e aos dos demais paroquianos. a certa altura. Tais sujeitos aparecem sem qualificativo.16 Cabe ver se essa perda da cor correspondia a uma mudança Para o século XIX. sendo concedido como uma deferência às freguesas. Assim. somente o nome e apelido. Talvez esse seja um dos melhores vocábulos locais para se identificar as famílias mandatárias da freguesia. ao mesmo tempo. “assistentes de casa” — pessoas de ambos os sexos que residiam sob o teto de um outro personagem.

Entretanto. dispõe de mais documentos preservados e pode nos auxiliar na apresentação do Antigo Regime nos trópicos. a princípio. libertos etc). caso se queira fugir de esquemas explicativos fáceis. Sabe-se de imediato que se está diante de uma sociedade estamental. Segundo os livros das paróquias de Jacarepaguá da década de 1700 foram batizadas 558 crianças. pode-se agregar tais categorias em três grupos: nobreza da terra (oficiais e donas). portanto. descerebradas. 395 escravas e 163 ditas livres. Assim. o entendimento dessa sociedade estamental não se esgota com o termo “escravidão”. onde João Pereira Lemos nasceu. como o número de escravos. perceber as mudanças no quadro de alianças e de inserção social. Caso a intenção seja encarar os cativos como agentes sociais é necessário lembrar que Jacarepaguá consistia.indd Sec8:168 4/12/2009 15:03:19 . pardos. leia-se pessoas sem nexos sociais (culturais. essa classificação social sublinhada pelo clérigo até meados do século XVIII não tinha por base a riqueza material. Alguns traços da dinâmica das freguesias rurais do Rio de Janeiro no século XVIII A freguesia de Jacarepaguá. parentais ou de outro tipo de aliança) e. compreendido como palavra mágica. Também ainda não me detive em um outro grupo: os expostos. livres (os sem cor) e pardos (forros. o significado da passagem dos pardos para os sem cor. falta. Ainda não dei tratamento mais elaborado a essa classificação. De qualquer forma.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 168 no quadro de alianças (casamentos e compadrio) do sujeito considerado. sinônimo de uma disciplina social capaz de manter vastos continentes humanos por sucessivas gerações como estrangeiros. Os sem cor também incluíam ex-forros e ex-pardos. numa verdadeira torre de babel. por exemplo. próxima da de Irajá. onde prevalece numericamente o estrato dos escravos. Suas lavouras eram trabalhadas por pessoas vindas de sociedades africanas de diferentes complexidades — de reinos a aldeias baseadas em linhagens matrilineares — e distintas lín- AF_livro final ok. sendo oito pardas.

18 Ver Thornton (2004) Lovejoy (2002). ou seu fi lho. Na década de 1700-1709 havia na freguesia de Jacarepaguá 290 mães escravas. ou 81. AF_livro final ok. como veremos.17 Como veremos mais adiante. e também a de casas. da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. e Silva (2002). além disso. Nesse processo. por sua vez. o senhor podia também dar a um ex-escravo o uso de terras. casadas ou não. adquirir tais promoções implicava seguir certas regras. e o guardião desse paradigma era a própria monarquia. a possibilidade de o gentio da Guiné. como os curas locais.18 Porém. com certeza. vinham de distintas sociedades africanas. 17 Registros paroquiais de batismos de escravos de Jacarepaguá.169 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS guas. Nesse momento.indd Sec8:169 4/12/2009 15:03:19 . de imprimir normas sociais compartilhadas pelas populações provenientes de outras partes do império português. muitas das quais. apresentadas nas alianças do compadrio católico. A possibilidade da alforria resultava do autogoverno da casa. isto é. para a incorporação pelos ditos africanos das normas hierárquicas do Antigo Regime era necessário que eles se sentissem agentes sociais. Em outras palavras. portadores de recursos (com certeza. fundavam Estados e estratificações sociais. começamos a entrar nos códigos que compunham o que chamo de autoridade moral dos conquistadores e sua capacidade de brokers entre outros agentes sociais. e com estes jogassem com seus donos. diferentes e em menor quantidade que os dos proprietários. pelo menos 155. 1700-1709. porém recursos). E estas funcionavam conforme relações de dependência e pessoais. Parece-me que um dos segredos para se entender tal jogo é perceber que ele se inseria nos próprios preceitos da concepção corporativa tomista do Antigo Regime.6%. Os senhores tinham a capacidade de conceder ou a alforria ou o acesso à terra. no golfo da Guiné ou no Congo-Angola. alguns dos traços de suas regiões de origem devem ter ajudado. eram comuns guerras para a produção de cativos e estas. Na casa. Por sua vez. tais pessoas incorporaram a ideia de escravidão e de hierarquia social como normas suas. Basta lembrar que. e destas. em tal concepção existia a ideia de estamento.

ou ainda como fiadores ou brokers de uma sociedade cujas bases foram lançadas no século XVI. africanos de diferentes procedências. Dos 115 proprietários homens. Estes partilhavam da mesma língua. percebe-se aquelas existentes entre os 142 donos de cativos. minhotos e outros reinóis. mas a percepção daquelas gentes. é ainda confi rmada quando nos lembramos de que ela era também povoada por açorianos. A natureza hierárquica da freguesia fica mais nítida quando. madeirenses. eram estrangeiros nesse lado do Atlântico. como era o caso das ordenanças. que famílias os fregueses reconheciam como de melhor qualidade. Neste último caso. podemos nos valer do depoimento do pároco local (entendo que ele escrevia numa linguagem aceita por todos). com práticas de organização familiar e de transmissão de patrimônio distantes. da mesma monarquia corporativa e católica. das mais seletas famílias da freguesia. apesar de as freguesias de Jacarepaguá e de Irajá ficarem nos confi ns do Rio de Janeiro. não mais o da propriedade cativa ou da monarquia. a monarquia escolhia para mandatários na terra os de antiga e conhecida nobreza. ou seja. mas vinham de aldeias distantes. mas com as práticas costumeiras. todos pertencendo a famílias com mais de 100 anos na terra. sendo portanto mais útil para os nossos propósitos do que as patentes das ordenanças. em vez de uma sociedade. reinóis. somente nove eram oficiais de tropas auxiliares. Assim. Das 27 pro- AF_livro final ok.indd Sec8:170 4/12/2009 15:03:19 . além das diferenças de qualidade produzidas pela distribuição da propriedade escrava. mais uma vez. elas continham alguns dos agentes do Atlântico luso: açorianos.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 170 A possibilidade de Jacarepaguá ter virado uma torre de babel. Portanto. tal título nada tinha a ver com as leis do reino. A quem ele concedia o título de dona? Um título reservado a poucas mulheres. Além disso. sublinha o caráter complexo da sociedade considerada e destaca o papel dos descendentes dos conquistadores como elite local. Através das donas pode-se identificar as famílias que ocupavam as posições cimeiras na estratificação social surgida na localidade e referendada pela ideia de casa e autogoverno dos conselhos. Nesse particular. Pode-se usar ainda um outro critério. O que.

19 A expressão designa a capacidade de certas famílias de influenciarem na organização social da população. Aliás. Provavelmente. Na ocasião. Por essa época Jacarepaguá devia contar com cerca de quatro ou cinco engenhos de açúcar oriundos das velhas sesmarias concedidas aos conquistadores da terra.20 todas no século XVI. AF_livro final ok. nos ofícios régios. Dona Brites pertencia a uma velha família com “autoridade moral”19 de longa data. ver Fragoso (2009). alguns. numa época anterior ao nascimento de João Pereira Lemos. impelindo as velhas famílias ao casamento e ao compadrio católico. Além destas. 20 Cf. descendentes de famílias que comandaram a conquista e a formação da sociedade local no Quinhentos. expedicionários comandados por Estácio de Sá nas lutas contra os franceses cerca de 140 anos atrás. o qualitativo dona bastava para identificar a referida Brites. mantinham em sua casa as terras do Rio Grande e uma fábrica de açúcar. Aliás. o dos conquistadores. essa Ignes era diferente das demais homônimas das redondezas. Rudge (1983). que quase sempre aparece sem apelido no registro paroquial. para o pároco João Barcelos Machado e demais fregueses. mas também a do seu segmento. dona Brites.indd Sec8:171 4/12/2009 15:03:19 . foi também introduzido o costume da alforria. somente seis tinham tal respeitabilidade social. ou de vendas feitas pela família Correia de Sá e Benevides a seus aliados. Algo semelhante acontecia com outra dona.171 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS prietárias de escravos da década de 1700. senhora de escravos em Irajá entre 1704 e 1707. da formação da clientela via compadrio e a adoção do apelido da casa pelos não consanguíneos. Por exemplo. Porém. como os Sampaio. mediante a doação de dotes em testamento. Todas. uma família vinda das ilhas do Atlântico no século XVI e cujos homens serviram sempre nos cargos honrosos da república e. Isso talvez por ela pertencer aos Azeredo Coutinho. fato que lembra a estabilidade de outro engenho — o São João Batista de Sapopema. mais uma vez. Essas práticas estavam presentes nas famílias conquistadoras da região. através de um sistema de transmissão de patrimônio que será mais adiante examinado. o clérigo passava a seu rebanho não só a moral católica. Ela pertencia aos Pontes. os Sampaio. e sobre o funcionamento do mercado. o próprio cura tinha descendência semelhante. a construção e manutenção de capelas nas fazendas. Esse era o caso da senhora dona Ignes.

Daqueles 163 batizados. eram oito (conjugais ou solitárias). registrando um mesmo número de rebentos. como em outras passadas. Passando à população livre. o grupo garantia o compartilhamento de uma mesma identidade marcada pela conquista. Assim. Assim. temos um predomínio demográfico dos sem cor sobre os conquistadores na freguesia. Quanto às famílias designadas como pardas. Essa sociedade ciosa de suas diferenças era também uma conquista e. equivalentes a 82 casais e/ou mães solteiras. Em termos de relações de compadrio.4%) e 73 sem cor (67. como era de se esperar. Desse modo. temos 108 padrinhos: 35 conquistadores (32. desconheço a procedência paterna.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 172 Mas voltando aos dados agregados de Jacarepaguá na década de 1700. Em 10 famílias. pelo controle da terra e pela direção política dos paroquianos. de tradicional família da capitania. entre aqueles 163. havia um predomínio esmagador dos livres como pais espirituais. com 46 crias. em duas.indd Sec8:172 4/12/2009 15:03:19 . comerciantes como Sebastião da Fonseca Coutinho apareciam com 12 batismos. A já mencionada dona Ignes registrou apenas seis crias. os lavradores sem cor. em segundo. nessa década. E prevaleciam nos registros de batismos. mas a materna era quinhentista. parece ser um equívoco associar a patente de milícia ou a costumeira dona à propriedade escrava. que somavam 58 famílias com 120 crianças. e algumas. Com isso. o capitão Ignácio da Silveira Vilasboas. 163 (41%) foram de crias cativas de plantéis de conquistadores. pelo domínio dos cargos honrosos da república. as famílias vindas do Quinhentos ainda dominavam a paisagem rural. prevalecia a estratégia de endogamia nas escolhas matrimoniais entre as famílias de antiga nobreza. pai e mãe possuíam a mesma origem quinhentista e. Na mesma ocasião. nessa época. temos 163 registros de crianças. cinco cativos. e o capitão-mor Luis Vieira Medanha Soutomaior. e sete expostos. Sete crianças foram expostas. estava aberta à imigração reinol. Dos 395 registros de escravos feitos na década.6%). Três mães solteiras batizaram também três filhos. Portanto. Em primeiro lugar. portanto. Porém. nessa AF_livro final ok. 25 o foram por 12 famílias descendentes de conquistadores. a propriedade escrava. diversos conquistadores não mais sobressaíam como grandes escravistas. sendo o campeão.

protegiam. através dos batizados.9).1 # famílias batizadas por conquistadores Como afi rmei. 21 Cf.21 Enfi m.1) e 73 padrinhos sem cor e 65 famílias (0. um maior número de famílias que os padrinhos sem cor. em Jacarepaguá. Fragoso. Porém. do seu poder moral sobre a região.173 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS sociedade católica. AF_livro final ok. o também capitão Ignácio da Silveira Vilasboas. Por exemplo. O raio de ação dos conquistadores seria maior se considerássemos a ação de seus clientes como padrinhos de crianças livres. Em diversas situações os conquistadores eram parentes rituais em mais de uma família. mantinham laços de compadrio com outras quatro famílias livres. das quais sete de lavradores sem origens quinhentistas. prevalecia a prática de os pais convidarem os próprios familiares (irmãos e avós) para batizarem suas crianças. na época do nascimento do capitão João Pereira Lemos. em termos relativos. o Rio de Janeiro estava se convertendo na maior praça do Atlântico Sul.9 0. Porém.indd Sec8:173 4/12/2009 15:03:19 . Eram 35 padrinhos quinhentistas e 38 famílias (1. e em suas freguesias rurais os conquistadores já não eram mais os maiores donos de escravarias. No de famílias batizadas por padrinhos livres e conquistadores. os lavradores ligados à casa de um primo do capitão Aguirre. portanto. tais modificações tinham os seus limites. o gráfico a seguir mostra que essa prática era acompanhada por outra. Só o jovem capitão João Aires Aguirre foi convidado como padrinho por oito famílias diferentes.6 1700-9 1. temos indícios da formação de clientelas comandadas por quinhentistas e. 2009. apesar de minoritários. entre 1700-1709 e 1750-1759 1750-9 0.9 # famílias batizadas por padrinhos livres 1. Vê-se que os padrinhos conquistadores.

e tendo como critério a condição do esposo.). Para avós paternas tivemos 83 mulheres. Esse fenômeno retrata principalmente a grande imigração de ilhéus e reinóis no Rio de Janeiro da época. A tabela 2 nos dá uma ideia de tal imigração em Irajá. fenômeno que nos informa sobre a diversidade populacional na qual as práticas costumeiras (tipos de compadrio. da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. num universo de avôs paternos de 89.5%) nativas e as demais provenientes do reino e das ilhas. considerando apenas a procedência dos avós paternos. Conforme a classificação social utilizada para 1700. 30%. entre a população de Jacarepaguá. o número de batismos por livres. dos quais uma metade era constituída de brasileiros e a outra de ilhéus e reinóis.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 174 Entre a primeira década do século XVIII e a de 1750. alforrias.indd Sec8:174 4/12/2009 15:03:20 . em Jacarepaguá. sendo o total geral de 90. acesso a terra. criadas pelos conquistadores e primeiras gerações de escravos e pardos na região. casa. tiveram que se defrontar e que organizar. 48 (58. passou de 163 para 352 registros (ou 187 casais e/ou mães solteiras e 18 expostos). no geral. 1750-1759. Já o de escravos decresce de 395 para 375 na freguesia. o número de batismos aumentou de 558 para 727. insinuando mais uma vez a capacidade de organização dos conquistadores diante dessas diferentes multidões. ou seja. Assim. É de supor que por essa época o fantasma da torre de babel ainda rondasse a freguesia. hierarquia social simbolizada pelas donas etc. tais números mostram que cerca da metade da população sem cor era recém-instalada na freguesia. Porém. as 142 famílias conjugais livres de 1750 assim AF_livro final ok. Pode-se identificar a procedência de 74 avôs paternos. TA B E L A 2 Naturalidade dos avôs e avós paternos em Irajá (1750-1759) Ilhéus Reinóis Subtotal Brasileiros Avôs paternos 6 31 37 (50%) 37 Totais 74 Avós paternas 6 29 35 (43%) 48 83 Fonte: Registros paroquiais de batismo de livres de Irajá.

o grupo por mim classificado como “nobreza principal da terra” permaneceu o mais resistente a mudanças.indd Sec8:175 4/12/2009 15:03:20 . apenas quatro mulheres não tinham a mesma origem do marido e somente uma mulher de descendência quinhentista casou-se com um sem cor. Dos 20 casais considerados. e mesmo assim este foi designado de doutor. Nota: Tipo de casal classificado conforme o tipo de pai. 1750-1759. Esta última situação reafirma uma velha prática seiscentista do AF_livro final ok. 97 casais sem cor. segundo a condição social Jacarepaguá. Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá. 1750-1759 Personagens e opções Homem conquistador x mulher conquistadora Homem conquistador x mulher livre Homem conquistador x mulher exposta Homem livre x mulher conquistadora Total de conquistadores Homem livre x mulher livre Homem livre x mulher exposta Homem livre x mulher parda Total de sem cor ou livre Homem pardo x mulher parda Homem pardo x mulher livre Total de pardos Homem exposto x mulher exposta Homem exposto x mulher parda Homem exposto x mulher livre Total de expostos Mães solitárias pardas Mães solitárias expostas Mães solteiras sem cor Expostos Mães solteiras e expostos Total geral Casais Registros 16 2 1 1 20 83 4 10 97 19 6 25 2 1 1 4 29 1 11 41 187 44 2 5 3 54 143 8 15 166 36 10 46 2 1 2 5 34 1 12 18 65 336 175 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS se distribuíam: 20 casais de conquistadores.6%. da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. ou 14%. ou 67%.TA B E L A 3 Homens e mulheres e suas opções de união marital. As famílias solitárias reuniam 41 mães e 45 filhos. ou 17. com 54 crianças. Neste cenário. com 46 rebentos. 25 casais pardos. e 166 batismos.

ou um processo de ascensão social em meio a uma estrutura estamental. cabe lembrar que o dito pardo não decorria de uma intervenção da monarquia. pois fora produzido por relações pessoais no interior. Explicando melhor: temos 19 casos em que ambos os esposos eram pardos. A tabela 3 demonstra que o grupo abrigava diversas possibilidades de alianças étnicas e sociais. Provavelmente. principalmente dos engenhos de açúcar. Ainda na tabela 3 verifica-se que. 10 em que as mães pardas se juntam com pais sem cor. por exemplo. a estratificação social da região e da capitania tornou-se mais complexa. Mais de dois terços da população era formada por essas pessoas. segundo os costumes locais expressados por nosso padre.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 176 grupo. o grupo permitia a incorporação de pessoas egressas da escravidão. um exposto.indd Sec8:176 4/12/2009 15:03:20 . Assim. Além disso. qual seja: ser refratário a estrangeiros. às quais o cura não atribuiu qualquer qualidade particular. aparecerem com a mesma procedência. ela estava sob a tutela de uma AF_livro final ok. Entre outras coisas. apesar de 83 dos casais sem cor. em 10 (mais de 10% do total) a esposa era parda ou forra e em quatro. na falta de melhores expressões. Entre 1700 e 1759. ou mais de 85%. uma parda e 29 mães solitárias. mas capturar os portadores de foro de fidalgos. alguns grandes negociantes e letrados. ele constava com 97 casais e 166 batizados. No último período. ou 29% do total (187) da década de 1750. nota-se que as famílias em que um dos pais era pardo. Além do crescimento populacional de Jacarepaguá na primeira metade do século XVIII. Dos 97 casais. Na tabela 3. passaram de oito (10% das 82 famílias do início do século) para 55 famílias conjugais ou solitárias. exposta. apesar do número de mães. Mas existiam outras formas de organização familiar em que a mãe solitária (um quinto das mães) tinha abrigo. Nesse momento. o grupo dos sem cor apresentou o maior crescimento absoluto. isso indicava a maior sedimentação de um agregado familiar procedente da escravidão. ou pelo menos foi assim registrada pelo pároco. o fato de pelo menos 10% dos 97 casais encabeçados por homens sem cor escolherem moças pardas insinua a não racialização de tal estrato. os pardos e pardas preferiam a união marital.

AF_livro final ok. no caso o compadrio como formador de clientelas. Esse número nos informa que estamos diante de uma sociedade escravista em que a alforria não pode ser classificada apenas como fenômeno marginal. ou seja.indd Sec8:177 4/12/2009 15:03:20 . TA B E L A 4 Padrinhos e afilhados em Jacarepaguá entre 1750 e 1759 Famílias afilhadas (conjugais e solitárias) Padrinhos Conquistadores Sem cor Pardos/Forros Escravos Totais 27 (11. Na mesma tabela 4. das quais pelo menos 28% tinham um integrante pardo ou forro. Na década de 1700. Em um universo de 217 casais e/ou mães solteiras. eles próprios não se escolhiam como padrinhos. ou 26%. outro tipo de aliança com o estatuto formador de família e que transforma a autoridade moral em um critério de classificação social. das 75 famílias de pardos. 1750-1759. décadas depois.177 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS casa ou de outro arranjo familiar: dificilmente uma mãe solteira sobreviveria sozinha com uma criança. 15 conquistadores e apenas quatro optaram por pardos.5%) 202 (86%) 5 0 234 Conquistadores Sem cor Pardos Totais 15 (23 reg. Vale ainda realçar a plasticidade da hierarquia estamental considerada através do aumento dos pardos.: Uma mesma família podia ser batizada por padrinhos de diferentes grupos. Os cinco padrinhos pardos batizaram apenas rebentos de seis famílias.) 0 0 29 26 66 2 0 94 15 56 4 0 75 56 (26%) 136 (63%) 6 (3%) 0 217 Obs. os conquistadores apenas surgem como padrinhos em 56.8% dos padrinhos. Fonte: Registros paroquiais de batismo de livres de Jacarepaguá. ou 86% dos 234 pais espirituais (ver tabela 4). 56 escolheram compadres sem cor.) 14 (19 reg. os sem cor representavam 63. indicando o alastramento de novas formas de acumulação e entrada de personagens em velhas práticas sociais. A população total somava 187 famílias conjugais e ou solitárias. da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. Passemos ao parentesco fictício. esse número subiu para 202. A presença de padrinhos livres aumenta.

porém ainda segundo regras hierárquicas e costumeiras e. os Barbosa de Sá tinham ligações creditícias com os Almeida Jordão.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 178 Os sem cor praticamente aparecem como padrinhos em todos os lares. Na década de 1750. que possuíam 276 famílias escravas e mais expostos. em 1753. Talvez seguindo também os costumes desse Antigo Regime nos trópicos. cavaleiro da ordem de Cristo. em 1758. Algo bem diferente do que ocorria em 1700. portanto. Sete anos depois. Dos 217 casais e/ou mães solteiras que levaram suas crianças à pia batismal. mesmo nos dos conquistadores. foi a Jacarepaguá para batizar Joaquim. Ele era o proprietário do Engenho da Serra. Enfi m. Essas cerimônias demonstram as ligações e mesmo a dependência dos potentados quinhentistas ao capital mercantil. existiam em Jacarepaguá seis engenhos e pelo menos 134 proprietários escravistas. É importante aqui qualificar os padrinhos desses potentados locais. O campeão nos registros de crias escravas e provavelmente o maior proprietário de cativos da região era o estrangeiro José Rodrigues Aragão. fi lha do mesmo juiz. preferiram os sem cor. Em 1751. A diferença entre esse afi lhado e os já mencionados era o fato de Manuel ser filho de Bernarda parda. escrava do juiz de órfãos.indd Sec8:178 4/12/2009 15:03:20 . Em meados do Setecentos. Francisco voltou à freguesia para batizar o fi lho do então coronel das ordenanças e futuro mestre de campo dos auxiliares João Barbosa de Sá Freire. o crescimento populacional verificado em 1750-1759 ocorreu em uma sociedade em transformação. desde finais do século XVII. neto do juiz de órfãos Antonio Teles de Menezes. tais ligações tornaram-se mais pessoais. Francisco de Almeida Jordão. no caso parentais. adquirido por meio de uma arrematação em 1751 AF_livro final ok. seguindo assim as normas do catolicismo em vigor. a madrinha fora Antonia Luzia de Menezes. o mesmo Francisco. preexistentes. com 37 crias. outro menino de nome Manuel. 136 pais. Por exemplo. cavaleiro da Ordem de Cristo e integrante de uma das mais poderosas famílias de grosso trato do Rio de Janeiro da primeira metade do século XVIII. quando todas as crianças de casais conquistadores foram batizadas dentro do próprio grupo. batizou ainda em Jacarepaguá. ou dois terços.

ou. os conquistadores (num total de 25) registraram 124 crias. dos 668 registros de escravos da década. Assim. a primazia do mando na freguesia permanecia fi rmemente nas mãos das velhas parentelas da terra. Bom exemplo disso é o coronel João Barbosa Sá Freire. Segundo as mesmas fontes. Dos 95 proprietários homens. apesar de a propriedade cativa ter escapado. das antigas famílias Coelho Cam e Teles de Menezes. 4/12/2009 15:03:20 . Portanto. fizeram 99. no caso. Desses 99. Antonio da Rosa e Bráz de Pina. Três pertenciam a tradicionais famílias quinhentistas e o outro desconheço a origem. integrante. O segundo colocado era o já referido juiz de órfãos Antonio Teles de Menezes. respectivamente. o grupo perdeu o controle da propriedade cativa. Os negociantes e estrangeiros na terra. Em outras palavras. quatro ostentavam patentes de auxiliares superiores ou equivalentes a capitão. Apesar de ter a patente mais alta da freguesia. ou um terço do total. por essa época. nos anos de 1740. Mas resta saber o que esses personagens vindos da mercancia pretendiam de tal sociedade agroexportadora criada pelos conquistadores. Desse modo. escravos e pardos. com 26 crias.indd Sec8:179 179 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS do tenente José Francisco Souza Leite. só registrou quatro cativos. adentrando nas áreas dominadas até então pela velha nobreza da terra. o segundo era João Pereira Lemos. o que é o mesmo. Na freguesia de Irajá ocorreu algo semelhante quanto à propriedade cativa. ou 15%.AF_livro final ok. contrariando o movimento da propriedade sobre pessoas. em meados do século XVIII. o mundo estava mudando. eram. 88 eram adultos — homens e mulheres recém-adquiridos do tráfico atlântico. a não correspondência entre a propriedade e as insígnias de donas e os postos de ordenança continuava clara. o primeiro e o terceiro maiores proprietários de cativos. mas não o da terra e do sistema de normas local. Esses números informam provavelmente a instalação de fazendas desses negociantes na freguesia. conforme os registros de batismo. Aqueles dois senhores. a transformação de parte da acumulação mercantil atlântica em terras e escravos. salvo engano. em Jacarepaguá. a velha hierarquia social abençoada pela tradição continuava de pé. Na ocasião.

de 41 madrinhas. através da distribuição do título de dona entre as madrinhas nos batismos livres. elas representavam 29. Nas duas vezes em que o dito padre batizou os netos do capitão Antonio. ou 60%. Apesar disso. Destas. a tabela 5 confi rma a proeminência das famílias conquistadoras na freguesia.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 180 enquanto seu subalterno. desconheço a origem das demais. A permanência da velha estratificação social costumeira é ainda percebida na ostentação da insígnia de dona. onde a instalação de reinóis negociantes era flagrante. Os caminhos tortuosos da promoção social nessa sociedade são percebidos quando confrontamos casos de mulheres da família de João Pereira Lemos. O fato de novas famílias adquirirem o título de dona e o crescimento dos pardos são fenômenos que informam transformações na sociedade estamental da época. 10 estavam ligadas às mais honrosas famílias da terra (não tenho notícias precisas sobre as outras seis). Nesse ano. como sugere a tabela 5. Francisco de Araújo Macedo. o capitão Manuel Pimenta de Sampaio. das quais somente 16 o pároco reconhece como dona. Seu sogro jamais teve a dignidade do oficial das AF_livro final ok. das quais 33. da patente de capitão das ordenanças. Na década de 1730. o pároco atribuiu tal reverência a 55 senhoras. temos resultados semelhantes aos de Jacarepaguá. aos olhos do rei. Entretanto. são demonstradas na freguesia de João Pereira Lemos em 1745. porém essa opinião não coincidia com a do cura local.indd Sec8:180 4/12/2009 15:03:20 . Esta continuava reservada às senhoras e moças das famílias quinhentistas. o açoriano Antonio da Rosa já era merecedor. ou 70%. vinham de famílias do século XVI. moças de famílias mais recentes estavam obtendo aquela honraria. seja como derivada da propriedade cativa. Passando para Irajá. que acredito ser de uma família quinhentista. a força dessa hierarquia costumeira e sua não sincronia com as demais. sua esposa não foi reconhecida nos assentos como dona. registrou oito crias. Trinta e quatro mulheres aparecem como proprietárias de escravos. apesar desse predomínio. Na década de 1750. Em 1740. seja da autoridade da coroa.

seus seis engenhos de açúcar estavam em mãos dos já conhecidos coronel João Barbosa Sá Freire. 1740 e 1750 Décadas Madrinhas de famílias quinhentistas conquistadoras Madrinhas de famílias desconhecidas ou recentes Total de madrinhas com a insígnia de dona 1730 29 (70%) 12 41 1740 32 (53%) 28 60 1750 33 (60%) 22 55 Fonte: Registros paroquiais de batismo de livres de Irajá. décadas de 1730. entre as mães de Irajá existiam 12 donas. TA B E L A 5 No de madrinhas conquistadoras no universo das madrinhas qualificadas como donas Irajá. Desse modo. a vida dos fregueses ocorria conforme a lógica do que chamei de autoridade moral dos conquistadores. o visconde Asseca (Correia de Sá e Benevides. As paróquias consideradas eram divididas em engenhos de açúcar. e uma apenas era portuguesa. Porém. Desse modo.181 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS ordenanças e sua sogra nunca a de dona. juiz de órfãos (com duas fábricas).indd Sec8:181 4/12/2009 15:03:20 . Voltando à Jacarepaguá de 1750. hierarquicamente construídas dentro de casas. isso ainda não é tudo. em tais freguesias prevaleciam relações pessoais de dependência. Porém. AF_livro final ok. Assim. capitão Manuel Pimenta de Sampaio. Em outras palavras. os filhos dos conquistadores ainda mantinham o controle sobre as terras e a população da região. da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. com o dito João Pereira — um exposto de uma família tradicional — lhe valeu a entrada no rol das donas. residente no reino). e o estrangeiro José Rodrigues Aragão. sendo administradas como casas conforme o princípio do autogoverno. sua autoridade não bastava para criar donas. Na década de 1740. 1730-1750. Esta última distinção estava nas mãos da sociedade local. se o governador podia promover um reinol à condição de capitão. Ana Maria de Jesus. o casamento da fi lha destes. por essa época.

entendo o apadrinhamento como prática de autoridade moral. O número de afi lhados de uma casa informava sua posição na estratificação social. ou melhor. José Rodrigues Aragão tinha a maior escravaria de Jacarepaguá e uma fábrica de açúcar. Tais números seriam bem maiores caso as informações dos registros paroquiais fossem mais completas. 37 pelo menos. Para tanto. não significava necessariamente poder de mando na freguesia. senhora de escravos e assistente no Rio Grande — e José Batista. Na tabela 6 verifica-se que entre os 134 proprietários de escravos da freguesia.indd Sec8:182 4/12/2009 15:03:20 . na mesma década ele procurou deixar de ser visto como estrangeiro por meio de negociações com os moradores. nele vejo uma negociação em âmbito hierárquico. ou 27. Talvez um critério mais refi nado de classificação social seja o fato de tais senhores darem vida. possibilitarem a formação de arranjos familiares. Viver nas freguesias açucareiras do Rio de Janeiro da época implicava residir em um de seus engenhos e. mediante a formação de clientelas. o domínio moral e político sobre a população. caso consideremos a patente de ordenança como um dos índices disso. esses proprietários tinham 122 famílias escravas com AF_livro final ok. cabra de João Pereira Lemos: casa. da região. moravam nos seis engenhos já mencionados. aceitar as normas que presidiam o autogoverno das casas. Provavelmente.6%. através do acesso à terra e à liberdade. Os que tinham tal poder ocupavam as posições cimeiras da sociedade. na década de 1750. inclusive pardos e escravos. pardos e demais lavradores atuarem como agentes. Ou melhor. Mas voltemos a um ponto que acima ficou perdido. Mesmo assim. consequentemente. essa política deve ter contribuído para o agraciamento do título de capitão pelo rei a Manuel.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 182 Maria Sampaio — parda. mas não tinha. Isso fica patente quando lembramos que a posse de terras. Como ainda veremos. basta lembrar alguns números. costumes e hierarquia nas senzalas Para entendermos um pouco melhor a realidade da estratificação social construída pelas relações de dependência nos engenhos não podemos tirar do horizonte a possibilidade de escravos. Por conseguinte. fi lho de José Aragão. e principalmente de engenhos.

esses par- AF_livro final ok.2%) 134 276 Engenhos de açúcar Proprietário Taquara Fora Rio Grande Manuel Pimenta de Sampaio Serra Água Subtotal Total 183 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS crias batizadas no período estudado. receberam alforria e depois terras. Esses fragmentos de histórias têm em comum alguns traços: as três famílias saíram da escravidão.indd Sec8:183 4/12/2009 15:03:20 . Fontes: Rudge (1983). mas sem escravos. lavradores da terra e reinóis. genros e netos. seu fi lho. Eles batizaram fi lhos de escravos de seus antigos amos. 1750-1759. e Registros paroquiais de batismo de livres de Jacarepaguá. tinham o apelido de Sampaio e residiam no mesmo engenho. Outro senhor de escravos pardo e residente com sua família nas mesmas terras era Boaventura Sampaio. da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. era afi lhado de Antonia Neves Sampaio. Aliás.6%) 122 (44. Entretanto. como vários outros pardos assistentes no Rio Grande. Entre esses senhores temos não só parentes consanguíneos do dono de engenho. incorporaram o apelido da casa Sampaio. servindo assim como instrumentos na cadeia de autoridade cuja referência era o capo. moradora no Rio Grande com seus escravos. fi lha do pardo José Rodrigues Homem. mas também pardos como Maria Sampaio. ou 44. João.TA B E L A 6 Engenhos de açúcar e seus moradores proprietários de escravos em Jacarepaguá. * Famílias conjugais ou solitárias. Nessa trajetória. Em outras palavras. 1750-1759 Proprietários de escravos Famílias escravas* Antonio Teles Barreto 5 40 João Barbosa Sá Freire 4 9 20 37 Antonio Teles Barreto 2 25 Visconde Asseca 6 11 37 (27.2% do total dos casais e mães solteiras presentes nos livros de batismos de escravos da época. fi lhos. uma cria escrava de Manuel Pimenta Sampaio era afi lhada do fi lho e da neta de Maria.

entre outros ex-escravos. uma ideia de família. nos quais as famílias dos nubentes pré-acordavam a não fragmentação das terras. estamos em meio a uma série de jogos ou interações. apesar de preservar a casa no tempo. ele abrigava nas ditas terras os demais herdeiros e parentes. adotando uma atitude distante do morgadio. Provavelmente. por sua vez. Fenômeno que.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 184 dos também mantinham alianças entre si. mas eram sujeitos com suas devidas estratégias. horizontais e verticais. opções relativas ao mercado e outras estratégias da nobreza principal. reforçando sua capacidade de negociação com o mesmo capo. pressupõe um sistema de transmissão de patrimônio. Daí que nos registros da década de 1750. conferiam legitimidade social aos Sampaio.indd Sec8:184 4/12/2009 15:03:20 . como terra dos Sampaio. conseguiram alforria como resultado de uma série de estratégias ou de relações pessoais.22 Em gerações sucessivas dos Pimenta de Almeida e dos Sampaio parece haver sido escolhido um herdeiro preferencial. portanto. Ver Fragoso (2009). ao mesmo tempo. estava ligado aos pactos nupciais. pelo menos 13 dos 20 proprietários de escravos residentes do Rio Grande eram tios. AF_livro final ok. optou-se por um padrão de transmissão de patrimônio que protegesse a família das inseguranças de uma sociedade rural pré-industrial. sujeita às oscilações do comércio internacional (escravos e açúcar) e às intempéries da natureza. nas quais reconheciam a autoridade dos Sampaio — cravado em seu nome. primos ou irmãos de Manuel. A possibilidade desses jogos e histórias de escravos e pardos se desenrolarem por várias gerações no Rio Grande. via compadrio. O capitão Manuel Pimenta Sampaio casou-se duas vezes (1742 e 1756).23 Em contrapartida. transformandoos em capitães de ordenança e em donas. diferia do morgadio. Mas. De imediato pode-se dizer que tal prática implicava um sistema de transmissão de patrimônio que. Ver Pedroza (2008). Maria e Boaventura. E a vida seguia nas freguesias. em ambas as ocasiões com moças 22 23 Tratei desses assuntos em outros textos. nos quais os agentes possuíam recursos desiguais e diferentes. Nesse caso. Enfi m.

Algo parecido deve ter ocorrido na vida de Boaventura Sampaio. a montarem estratégias que culminaram na alforria da segunda e na transformação de João em um pequeno senhor de cativos. João Batista. forro e depois dono de escravos. Assim. as terras do Rio Grande passavam a pertencer ao casal. Com certeza essa permanência da casa não reduziu as desigualdades sociais. por mais de três gerações as terras da fábrica continuaram indivisas nas mãos de um único senhor. quando da morte de Ana Maria de Jesus. estabelecer alianças dentro e fora das senzalas. Pelo menos desde fi ns do século XVII ele estava em mãos da família Pereira Lemos. em termos legais. forro. também à esposa do capitão. ou seja. dos quais dois pertenciam aos fi lhos e um ao irmão daquela senhora. a exemplo do Rio Grande. em 1795. passando então ao primogênito do casal — homônimo do pai —. depois com João Pereira Lemos. em um mundo marcado pela compra e venda de escravos e de terras. e após sua morte com a esposa Ana Maria de Jesus até seu falecimento em 1795. entre outros pardos e escravos. No Engenho das Capoeiras. foram listados 20 lavradores de cana livres presentes. A estabilidade ao longo do tempo como prática costumeira provavelmente diminuiu as margens de insegurança de Boaventura. Como vimos. na prática. primeiro com o padre Luis. mas talvez tenha facilitado a Boaventura e a outros escravos — em meio a uma hierarquia social ciosa de suas diferenças — a criação de estratégias para formar uma família. nem o terror da escravidão. Com essas núpcias. assim como outros expedientes para me- 4/12/2009 15:03:20 . continuaram em mãos da família do marido. como resultado de um pedido em testamento de Ana Maria. sua mulher escrava. porém. ex-escravo. e Perpétua. outro do capitão João Pereira Lemos. Algo semelhante ocorreu com o engenho de São João Batista de Sapopema.AF_livro final ok. apesar de o acesso ser facultado a outros parentes.indd Sec8:185 185 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS de tradicionais famílias quinhentistas de nobreza reconhecida na localidade: os Machado Homem e os Muniz Telo (fidalgo da casa real). O fato de esse engenho e o de Sapopema terem ficado por todo o século XVIII com a mesma família ajudou. e isso deve ter sido discutido nos pactos pré-nupciais.

EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 186 lhorar suas condições de negociação com os senhores. e o irmão batizaram escravos do dito domínio. Portanto. o tipo de transmissão de patrimônio no qual este é indiviso pressupõe uma ideia de família. enfi m. Uma escolha que deu maior alento a sua família postiça e permitiu a promoção social da parte materna do velho padre. informa sobre as orientações valorativas de João e sobre sua ideia de casa. concedido pela comunidade. uma prerrogativa que sua mãe não tivera. João era exposto. pois. Pedroza. de valores que orientavam as opções de João Pereira. 2008. a família podia perder sua qualidade através da fragmentação da terra e. ver Pedroza (2008). portanto. Mas preferiu se casar com uma parente postiça. garantida pelo compartilhamento costumeiro do senhorio das terras e das relações de clientela nela estabelecidas. Porém. temos o fato de João Pereira Lemos ser viúvo de uma tia de Ana.25 Condição que seria posta em risco caso a partilha fosse igualitária ou através do morgadio. provavelmente mais pobre. e o casamento com a prima postiça rendeu a ela o título de dona. Ou melhor. Desse modo. melhorar de vida. Parece. com isso. com 15 anos. a base material de 24 25 Sobre essas opções como resultado um conjunto de valores. AF_livro final ok. Como vimos. isso não o impediu de receber do rei a patente de oficial das ordenanças. João tinha prestígio aos olhos daquela sociedade. Uma das interpretações possíveis é a prioridade atribuída à manutenção da qualidade social dos integrantes da família. ampliar seu cabedal. que esse sistema de transmissão de patrimônio era vital na vida de diferentes grupos sociais da freguesia. Algo que merece um estudo mais cuidadoso. Em outras palavras. Na primeira situação. Em razão disso. com isso.indd Sec8:186 4/12/2009 15:03:20 . assegurando-lhes o acesso formal ao senhorio das terras de Sapopema. Pelo menos Ana. Além dessas ligações. o casamento de João e Ana não resultara do acaso. A avó paterna de Ana Maria de Jesus era parente do padre Luis Pereira e sua família residia no Engenho do Sapopema. podia ter se casado com uma esposa proveniente da nobreza da terra e.24 Esse ato. mas de uma longa convivência e de pactos.

Da mesma forma. Manuel e Salvador. verificar a linguagem política que vigorava na freguesia. apesar de não ser senhora de engenho e possuir poucos escravos. 28 Cf. Ms. a família e a casa continuavam através do primogênito em detrimento dos demais.187 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS suas relações de clientela. minha pesquisa em curso “Fidalgos parentes de pretos”. Em Jacarepaguá.27 Assim. AF_livro final ok. por ser prima do capitão Manuel Pimenta Sampaio. “A reforma monetária. provavelmente. achou por bem. sendo o formato desta modelado ao mesmo tempo por relações de dependência vertical e ho26 Cf. 27 Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. 3. mas. compartilhando. em fins do século XVIII. as terras do Rio Grande. mãe do primeiro e sogra do segundo.26 A família do desembargador João Pereira Ramos de Azeredo Coutinho.28 Com essas informações podemos voltar ao compadrio e. em cuja casa morava. Seção de Obras Raras. primeiro senhor da casa/morgado de Maripicu. entre outras famílias. texto ainda inédito de minha autoria. há situações de embates judiciais entre herdeiros para o domínio do patrimônio da família. desdobrar a casa em duas. puderam ter outra opção. o rapto de noivas e o escravo cabra José Batista: notas sobre hierarquias sociais costumeiras na monarquia pluricontinental lusa — séculos XVII e XVIII”. ambas com engenhos: uma em Portugal e a outra com sede no Brasil — esta última encabeçada pelo mestre de campo dos auxiliares Ignácio de Andrade Soutomaior Rendon. os Correa Vasqueanes. financiada pelo CNPq. O título lhe fora dado. No segundo caso. Por seu turno.indd Sec8:187 4/12/2009 15:03:20 . Tal foi o caso dos embates entre os cunhados capitães-mores José de Andrade Soutomaior Machado e Clemente Pereira Ramos de Azeredo Coutinho pelos bens de Ana Alarcão e Luna. Pelo menos dois fi lhos. zelosos da manutenção de seus laços familiares. Maria Madalena era dona. na dita sociedade temos a chance de diferentes sistemas de transmissão de patrimônio. agiam provavelmente de comum acordo no tocante aos bens distribuídos entre eles. montaram seus próprios engenhos ou casas no início do século XVIII. 13-15. 5. o que implicava a desqualificação dos outros herdeiros. de modo costumeiro. agora o considerando a partir da ideia de casa. fidalgos da casa real. através dele.

fora convidado por seis famílias para batizar seus rebentos: duas de conquistadores. Talvez esse fosse um de seus recursos para se tornar mais tarde mestre de campo. seguira uma velha prática destinada aos fi lhos e netos de con- AF_livro final ok. bisneto de conquistadores. pode-se perceber reminiscências da supremacia dos conquistadores nesse campo. ao longo da década de 1750. a tal norma social como ferramenta de poder estava presente em suas cabeças. Seu fi lho. entre os conquistadores. primo do capitão Manuel Pimenta Sampaio. Antonio Pacheco Cordeiro era um pequeno senhor de escravos. Portanto.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 188 rizontal. A mesma coisa ocorreu com Miguel de Almeida Sampaio. na década de 1750 fora o campeão de batismos em Irajá. Além disso. Como disse. batizara quatro crianças livres. uma parda. Em outras palavras. tornando corriqueiros casos como o de Antonio Pacheco Cordeiro. essas redes clientelares não se repetiam entre os sem cor. de José Rodrigues Aragão. sendo duas solitárias e pardas. também primo e morador nas terras do senhor do Rio Grande. a alforria e o acesso à terra.67). Contudo. Manuel. A mesma cadeia pode ser observada nos demais senhores de engenho da região. Estes somaram 27 padrinhos e batizaram em 56 famílias. uma de mãe solteira e duas sem cor. Eles demonstram uma cadeia de poder ou clientelar cujo capo é o senhor do Rio Grande. a tendência de formação de redes clientelares foi bem maior. Ou ainda tentar perceber o grau de ligação entre o compadrio. sendo compadre de 10 famílias. A tabela 4 mostrou o domínio dos sem cor no parentesco ritual. No caso dos sem cor. em cujas terras residia. primo e compadre do dito coronel. por exemplo. essa relação cai para 202 padrinhos e 136 famílias (ou 0. Ele foi padrinho em quatro diferentes famílias. mas. cada padrinho tinha sob sua tutela. examinando-o mais detidamente. Os exemplos escolhidos não são aleatórios. Estava no horizonte. que provavelmente por meio do compadrio pretendia angariar a respeitabilidade dos fregueses da região. duas famílias. sendo duas pardas. Antonio Correia da Silva.indd Sec8:188 4/12/2009 15:03:20 . a cadeia clientelar do coronel João Barbosa Sá Freire chegava a freguesia vizinha de Irajá através de seus primos compadres. Por exemplo. entre elas reinóis e pardas. em média. Ele.

Na verdade. a freguesia de Irajá. forro: a permanência de normas costumeiras em Irajá de fins do século XVIII Como dei a entender. 2007. provavelmente negociante. escravos. consequentemente. com sua conversão em principal praça do Atlântico Sul e. e seu escravo José Batista. Segundo os registros de batismo de escravos da época. com seu domínio do capital mercantil. e João Correia da Silva. contava com 242 fogos e 13 engenhos de açúcar. O maior engenho em população cativa era o da viúva de 29 Ver Fragoso. autoridade sobre elas. criado por conquistadores. v. O capitão Bento Luiz de Oliveira. Antonio Telles era compadre de diferentes famílias escravas. batizara dois dos fi lhos de Antonio Telles. AF_livro final ok. acompanhando as práticas desses novos senhores ou de expostos como Lemos Pereira.29 A essa altura. 1. repetia antigas práticas costumeiras adotadas pelos conquistadores há mais de 100 anos — a construção de uma teia clientelar com pardos. portanto. e provavelmente o acesso deste às terras. que reuniam mais de 444 cativos. onde moravam Ana Maria de Jesus. escravo de seu avô e peça-chave na engenharia política de sua casa. pardos e escravos. tendo. construiu uma casa e possibilitou que seu fi lho se convertesse em capitão. viúva de João Lemos Pereira. Por volta de 1779. Rodrigues Aragão. senhor de engenho e sobrinho de negociantes de grosso trato. podemos ter pistas daquele sistema de normas construído ao longo de mais de um século. 33-120. p. Em outras palavras: José Rodrigues Aragão. neto do juiz de órfãos. porém. em tais freguesias já prevalecia um sistema de normas do Antigo Regime dos trópicos. ao adotar a linguagem política da região. cujos traços já foram apontados. José Joaquim Moura. as transformações vividas pelo Rio de Janeiro no século XVIII. resultaram na falência de parte da nobreza principal da terra e no ingresso de novos personagens nas freguesias açucareiras.189 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS quistadores: foi padrinho de crianças escravas.indd Sec8:189 4/12/2009 15:03:20 . Na mesma década.

A capacidade do sistema de normas do Antigo Regime nos trópicos. TA B E L A 7 Origem das mães escravas de Irajá entre 1780 e 1795. Antonio de Oliveira Durão. O primo de Bento Luiz. vinham de diferentes sociedades africanas. e em vida fora um dos maiores negociantes da praça mercantil em meados do século. ver minha pesquisa em curso — “Fidalgos parentes de pretos” —.. O terceiro maior engenho em escravaria. A tabela 7 mostra que cerca de um terço das mães escravas. O tio de Bento. também dono de engenho em Irajá. senhor de engenho nos primeiros tempos do século XVII.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 190 nosso herói. entre 1780 e 1795. o dito capitão Bento vinha de uma família recheada de estrangeiros. tinha o mesmo nome de seu falecido pai. com 50 cativos. com 80 cativos ou pouco menos de um quinto da população das fábricas de açúcar. além de também capitão.indd Sec8:190 4/12/2009 15:03:20 . descendente de um alcaide-mor da Bahia e de Bento Garcez. com 34 escravos. fora capitão na freguesia.31 Enfim.30 Este último personifica os novos ventos acima mencionados. de suas normas costumeiras. era o do capitão Bento Luiz de Oliveira Braga. Ele era filho do sargento-mor Bento de Oliveira. 31 AF_livro final ok. cuja origem desconheço. e Bento. casou-se com Francisca Mariana de Oliveira Coutinho. e descendente por parte materna do açoriano Antonio da Rosa. Francisco Caetano Oliveira. 1842. salvo engano reinol. segundo os livros de batismo Origens Mãe Angola 92 Benguela 82 Congo 11 Guiné 6 30 Lavradio. Ibid. mas que conseguiram ocupar posições de mando na sociedade local. fi nanciada pelo CNPq. em transformar negociantes em potentados rurais e de absorver contingentes humanos despejados pelo tráfico atlântico de escravos continuava a ser testada em fi ns do Setecentos.

Sapopema reaparece como uma casa de An- AF_livro final ok. caso prefiram. com 24 crias. todos os terrenos tinham donos e a fronteira agrícola estava fechada. ou 56. ou 88% do total. ou somente 3. Cabe ainda lembrar a inexistência de um mercado de arrendamentos em Irajá. as terras de Sapopema abrigavam outros sete donos de cativos. detinham 76.3%) 626 Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá. ou quase 10% dos registros. 1780-1795. ou 1%. entre eles João Batista. e detinham 443. sendo as que existiam entendidas como reservas de lenha para as moendas. Por essa época não havia terras devolutas. Portanto.7%) Crioulos 352 Pardos e cabras 44 Subtotal Total 396 (62. presentes no livro paroquial.7%. ou melhor. alguns poucos com grandes escravarias. 191 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS Origens Como insinuamos na tabela 1. Os lavradores pardos e livres sem terras estavam assim sujeitos à ideia de autogoverno — às relações de clientela e de mandonismo — que prevalecia naqueles engenhos. pardos com ou sem cativos. Em compensação. Em um total de 349 proprietários e 781 registros de crias escravas. dos batizados da época. Porém. Pelo registro paroquial de batismo de escravos de Irajá de 1780 a 1795 tem-se uma primeira ideia da distribuição da propriedade cativa na região. as crias da viúva de João Pereira Lemos somavam 25. Nesse instante.indd Sec8:191 4/12/2009 15:03:21 . era atravessado e circundado por lavradores livres. Os senhores com até três registros somavam 307 proprietários. o acesso à terra continuava dependendo da vontade dos senhores de engenho.Outras procedências africanas Mãe 39 Subtotal 230 (36. há uma multidão de pequenos senhores. esse mundo de grandes casas ou de engenhos de açúcar. da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro.2% dos 781 batismos. daquelas casas senhoriais. três proprietários. cabra pai do escravo José Batista. Desse modo. Nesse universo. Percebe-se assim um certo grau de concentração de cativos em poucas mãos.

vimos que a casa do falecido capitão João Pereira Lemos continha pelo menos três estratificações: uma de caráter jurídico. concedendo-lhes ou retirando deles. tais famílias. porém possuíam terras. o acesso a terras e a liberdade aos escravos. outra dada pelo acesso à terra. compartilhavam entre si outros traços: naturalidade e ofícios qualificados. de qualquer forma os colocava num patamar especial da hierarquia existente no interior das senzalas. Em cinco delas.indd Sec8:192 4/12/2009 15:03:21 . com uma posição cimeira na estratificação social das senzalas. ou seja. correspondendo portanto pelo menos à segunda geração de uma mesma família de escravos. o estabelecimento de alianças horizontais e ver- AF_livro final ok. ou 21 (19%) pessoas em uma população de 114 cativos. especialmente diante dos pardos livres sem terras. cujo eixo era a escravidão e. Sapopema era povoada de diversas relações pessoais (ou seja. de suas relações pessoais. vivia aquelas três estratificações. que viviam a mesma peculiaridade de José Batista. em maior ou menor grau. os titulares dos canaviais eram crioulos. pois 11 cativos integrantes de oito (29. Essa posição social difícil de ser definida. portanto. Consequentemente. todas submetidas ao mando de um único senhor capaz de influenciar a vida dos moradores em sua casa. As três hierarquias dependiam. cabra de Ana de Jesus. o estatuto jurídico do personagem. da ação dos agentes sociais (recursos e restrições) envolvidos na casa.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 192 tigo Regime. por exemplo. tiveram partidos. pertencentes às 11 pretas da tabela 1. tal família crioula tinha 50 anos ou mais de vivência na mesma fazenda. Na verdade. e uma terceira no interior das senzalas. sem a intervenção do rei) entre distintos estratos sociais. A exemplo dos engenhos de Jacarepaguá de 1750. em tese. José Batista. A hierarquia nas senzalas e escolhas escravas em finais do Setecentos Na tabela 1. no caso partidos de cana. algo que provavelmente nem todos os fregueses pardos e livres de Jacarepaguá tinham. em um total de 27. além de possuírem canaviais. o que lhe permitia um melhor entendimento dos códigos de normas da casa. portanto. Ele e parte de sua família eram escravos. Na tabela 8 apresento outras sete famílias.6%) famílias escravas. eram grupos parentais escravos com acesso a plantações de cana e.

Ou seja. pactos com forros e com livres. ferreiros. 1795 Pai Origem Idade João Cassange Angola Manuel Ignácio Angola Thomaz 50 Estado civil Mãe Origem Idade Filhos serviço de roça casado Profissão Ana Angola 30 caldeireiro casado ? ? ? 0 Total de familiares 2 ? ? 60 s/informação casado Josefa Angola 50 2 7 cabra 30 of. carpinteiro casado Efigênia Angola 40 0 2* Joaquim Domingues pardo 30 barqueiro casado Isidora parda 20 0 2 Fabiano cabra 30 s/informação casado Arcângela parda 25 0 2 Raimundo crioulo 30 pastor casado Marcela angola 30 1 3 Martinho crioulo 30 s/informação solteiro José Batista 2 * Os pais de José Batista eram forros em 1795.TA B E L A 8 193 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS ticais com outros escravos. Nessa tabela reúno quatro engenhos de açúcar das freguesias rurais do Rio de Janeiro entre 1795 e 1818. Os cinco escravos com partidos também tinham oficio qualificado. 872. somente um teve filhos. Os cativos com ofícios qualificados estavam em 17 famílias e somavam 56 pessoas. no 9. tendo como referência o acesso de africanos e crioulos aos ofícios mais qualificados nas plantations. 1895. Assim.indd Sec8:193 4/12/2009 15:03:21 . Como se vê. Fonte: Inventário post mortem de Ana Maria de Jesus. Na mesma tabela nota-se que. entre outros ofícios mecânicos. não resta dúvida de que carpinteiros. assim como o estabelecimento de negociações com os senhores da casa. o equivalente a 12% da população total escrava. apesar de os titulares dos partidos saírem de famílias com mais de uma geração na terra. Mas vejamos esses traços com mais cuidado. a população total era de 453 escravos — 239 africanos (53%) e 214 crioulos (47%) —. A tabela 9 trabalha com a ideia de hierarquia nas senzalas. parece que tais famílias estavam desaparecendo. cx. Hierarquia nas senzalas: escravos com partidos de cana e seu acesso a ofícios qualificados Fazenda São João Batista de Sapopema.225. formavam uma elite AF_livro final ok. dos quais 249 (55%) viviam em 85 famílias. alfaiates.

A figura a seguir indica claramente que esses oficiais procuravam estabelecer alianças entre si. se os africanos compõem a maior fração na população das senzalas. Assim. Joaquim e Felizardo. Um desses padrinhos. crioulo. cx.: africanos — família africana chefiada por pai africano ou mãe solitária africana. Raimundo. aliados diante das incertezas da vida em cativeiro. O nosso José Batista. de suas estratégias. teve um comportamento semelhante. os que tinham mais acesso a famílias e alguma chance de ter canaviais. inventário post mortem de Manoel Antunes Suzano e de sua mulher. Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. pastor e com partido de cana. todos batizados por escravos oficiais casados. ferreiro e pai de dois rebentos. Indo mais adiante. e sua mulher tiveram três filhos. AF_livro final ok. também com lavoura.225. Assim. sendo um. 872. 3. Raimundo. Fontes: Inventário post mortem de Ana Maria de Jesus. ou seja. chamado Joaquim — pardo. crioulos — família crioula chefiada por pai crioulo ou mãe solitária crioula. no 9. Felizardo.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 194 profissional nos plantéis: eram os mais caros. TA B E L A 9 Hierarquia nas senzalas: famílias escravas e acesso aos ofícios qualificados masculinos em quatro engenhos No de famílias com ofícios (x) Integrantes das famílias com ofícios (y) População nos quatro engenhos Africanos Crioulos Totais 7 10 17 23 (41% de y) 33 (59%) 56 (12% de a) 239 (53%) 214 (47%) 453 (a) Obs. os crioulos — entendidos como filhos e netos daqueles africanos — prevaleciam na elite das mesmas senzalas. a posição cimeira daquelas famílias de oficiais resultava também de sua ação. eram compadres. Ele era compadre de Salvador. escolhera para batizar sua filha Agueda o acima mencionado Joaquim. Maria Januária Galvez Palença. ou melhor. angola. os integrantes das famílias mais antigas tinham mais chances do que os estrangeiros. DEP 511. cx.622. cabra. Na verdade. 1818. 1795. Para entrar nesse clube seleto. leia-se os recém-desembarcados pelo tráfico atlântico. além de compartilharem a mesma posição na senzala. nota-se que tal situação não decorria apenas da antiguidade nas fazendas.indd Sec8:194 4/12/2009 15:03:21 . caldeireiro.

Em meio a esse cenário. Na tabela 10 nota-se que. 126 (43%) escolheram padrinhos sem cor e menos de um terço optou por compadres escravos. escravo.Raimundo. estava entre dois segmentos sociais distintos. 1791 Felizardo. na década considerada. n. a situação de José Batista. n. quase sempre os padrinhos eram livres ou forros. Na verdade. mais de três quartos das alianças feitas pelos cativos via compadrio ultrapassavam a senzala. a de 1750. pastor com lavoura Constância. 1795 Florinda. filho (por parte de pai) e afilhado de forros. Angola. em Jacarepaguá. Angola Joaquim. 1794 Marcela. n. barqueiro com lavoura 195 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS Compadrio entre escravos com ofícios e lavouras: Engenho Sapopema Izidora. pardo. crioulo. parda Na década em que José Batista nasceu. pois nessas sociedades escravistas prevaleciam práticas legais e costumeiras que visavam a não integração dos cativos à sociedade ou sua manutenção como estrangeiros. onde a alforria e os casamentos mistos eram legalmente coibidos. disso. Desse modo. é um bom exemplo. chegavam aos segmentos sociais livres. inclusive aos conquistadores. 295 famílias de cativos levaram seus filhos para o batismo. assim como suas relações com a sociedade.indd Sec8:195 4/12/2009 15:03:21 . AF_livro final ok. Quando isso ocorreu. eram realizadas práticas que reiteravam as hierarquias nas senzalas. Destas. a criança aparecia como o ponto de encontro de duas relações sociais distintas. Portanto. a situação de alianças como a personificada por Batista perde seu caráter ambíguo ou marginal e ganha novas feições quando consideramos as opções de pactos dos escravos via compadrio. 1793 Eufrázio. ou seja. foram registrados em Irajá e em Jacarepaguá poucos batismos de filhos de casais mistos (pai livre ou forro e mãe escrava). caldeireiro Agueda. n. Angola Maurício. Algo marginal em sociedades escravistas como as do Caribe inglês do Setecentos. ou melhor. Algo diferente ocorreu na América lusa e.

26 fi lho por mãe. tal flexibilidade foi o cenário para a reiteração de estratificações nas senzalas e o trampolim para a liberdade. AF_livro final ok.indd Sec8:196 4/12/2009 15:03:21 . Essa mistura de relações sociais em que um escravo pode ser parente ritual de forros e de livres (sem cor) é um dos traços estruturais da vida nas freguesias açucareiras da capitania. Esses fenômenos ficam mais claros nos registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá entre 1780 e 1795. Glassman (1995) e Willis (1980). 33 O século XVIII foi um período de várias transformações. apesar de Irajá ser uma freguesia com mais de 200 anos. Nessa tabela trabalho com informações sobre a procedência e o estado civil das mães escravas. Watson (1980). notando-se o predomínio das mães africanas casadas. deve-se ter certa cautela nas análises de conjunto da segunda metade do século. na escravidão aberta da América lusa. a repo- 32 Sobre escravidão aberta e fechada e suas respectivas sociedades. ver. filhos Afilhados. Assim. da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 196 TA B E L A 10 No de padrinhos e de afilhados escravos em Jacarepaguá. ou. desse modo.32 Porém. filhos Afilhados. entre outros. se preferirem. Afilhados.33 Na tabela 11 procuro apresentar os traços segundo os quais os escravos e demais personagens atuavam no período considerado. comparada com a anglo-americana. Na verdade. As observações a seguir não estão imunes a tais perigos. cuja qualidade das informações é melhor do que a de meados do século. Elas correspondiam a mais de um quarto da amostra e tinham a maior taxa de fecundidade: 1. 1750-1759. filhos filhos de de mães de mães solteiras de mães solteiras casais solteiras pardas com apelidos 2 9 50 57 27 30 123 126 36 62 98 96 60 34 284 295 125 135 5 25 3 30 5 2 Fonte: Registros paroquiais de batismo de livres de Jacarepaguá. Isaacman e Isaacman (2004). 1750-1759 Tipo de padrinhos Conquistadores Pardos/Forros Livres Escravos Totais Padrinhos Famílias compadres 13 16 Afilhados. essa plasticidade não deve esconder a natureza hierárquica da sociedade.

havendo portanto saído de famílias preexistentes. a existência de uma família solitária — entendida como mãe e fi lho — é pouco provável.TA B E L A 11 Estado civil das mães escravas por naturalidade e cor. A ideia de que tais mães solteiras — ou as relações sociais nelas personificadas — resultavam de uma escolha fica mais patente quando observamos que algumas tinham mais chance de alcançar tal situação do que outras. ou 26. Na verdade. Examinando mais atentamente essa tabela. nascidas no Brasil. ou 56.2% do total. das quais 43 aparecem como solteiras e apenas três. Primeiro. as famílias conjugais eram majoritariamente africanas. majoritariamente da terra. Algo bem distinto AF_livro final ok. Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá. mas que existiam) optava e/ou era levada a escolher pactos maritais diferentes do casal formal.7% do total. pode-se ter uma outra leitura. 258 mulheres ou dois terços tiveram seus rebentos fora de uniões maritais. estamos diante de uma situação em que parte expressiva das moças pardas e de suas redes de pertencimento (redes que pouco conheço. sendo essas moças ditas solteiras. 145. 38. Segundo. no caso nomeadas pelo cura como crioulas e pardas. Estas últimas notícias nos impedem de classificar tais mães como famílias solitárias. Das 142 mães casadas. 104 eram africanas e o restante. Irajá 1780-1795 Mães No Casadas Solteiras Africanas 217 104 113 Crioulas 137 35 102 Pardas 46 3 43 Total 400 142 258 197 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS sição da mão de obra cativa dependia ainda em grande medida do tráfico atlântico. 1780-1795.indd Sec8:197 4/12/2009 15:03:21 . numa sociedade pré-industrial. pertenciam à segunda geração ou mais de escravos na capitania. como já disse. casadas. da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. De uma amostra de 400 mães. eram da terra. Mais do que isso. Na tabela 11 temos 46 pardas. ou seja.

dos quais 34 (74%) eram livres. começamos a voltar ao tema iniciado na tabela 1. os aliados livres correspondiam a menos de 30% do total de padrinhos. em que o número de solteiras e casadas é quase o mesmo. As chances de estabelecer pactos com livres era bem menor para as mães africanas. Em outras palavras. de viverem situações diferentes. ambas já produtos de relações parentais pretéritas na terra. 1785-1790 Mães No de mães Padrinhos escravos Padrinhos pardos/ forros Padrinhos livres Total de padrinhos Africanas casadas 100 (127 filhos) 85 (94 afilhados) 12 (13 afilhados) 20 (20 afilhados) 117 Africanas solteiras 113 (124 filhos) 63 (65 afilhados) 17 (18 afilhados) 36 (38 afilhados) 116 Crioulas casadas 35 (43 filhos) 25 (25 afilhados) 6 (8 afilhados) 10 (10 afilhados) 51 Crioulas solteiras 102 (121 filhos) 34 (35) 16 (17) 62 (69) 112 Pardas casadas 3 (3 filhos) 1 (1) 0 2 (2) 3 Pardas solteiras 46 (48 filhos) 8 (8) 4 (4) 34 (34) 46 Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá. AF_livro final ok. Quarenta e seis mães solteiras pardas tiveram também 46 compadres. fossem elas casadas ou solteiras. a existência de estratificações sociais nas senzalas. As diferenças entre africanas. em particular das africanas. Irajá. crioulas e pardas podem ser percebidas também no compadrio (tabela 11.indd Sec8:198 4/12/2009 15:03:21 .1). estrangeiras na terra e provavelmente tinham mais pressa de reconstruírem seus laços de sociabilidade via parentesco. dois terços escolheram algo diferente do que o casamento formal na senzala. TA B E L A 11. as mestiças — fi lhas de pardos ou de relações interétnicas ou ainda entre pessoas livres e escravas — tinham mais oportunidades de não se casarem com escravos e. estado civil e status social — de seus compadres — conforme status social e jurídico. ou seja. Estas últimas eram desterradas pelo tráfico. Nos dois últimos casos. Algo que não ocorria com as crioulas e pardas.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 198 ocorre no caso das africanas. 1780-1795.1 Escolhas das mães escravas — conforme naturalidade. ou mais de 90% delas. As pardas. Das 137 mulheres crioulas investigadas. preferiam ou tinham chances de escolher aliados sem cor ou livres. Assim. portanto. da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro.

personifica uma relação social entre status jurídicos diferentes. Em outro ensaio apresentei dados. Em ambas se vê que a elite da senzala era formada por homens naturais da terra.1. compreendida como resultado de relações pessoais desenvolvidas no interior de uma casa. A argumentação até agora construída leva à alforria. basta voltar às tabelas 8 e 9. o rapto de noivas e o escravo cabra José Batista: notas sobre hierarquias sociais costumeiras na monarquia pluricontinental lusa — séculos XVII e XVIII”. As evidências apresentadas insinuam tal cenário. Na verdade. Entre eles. O que. A própria baixíssima fecundidade das pardas sugere que elas mais adiante sumiram dos livros de batismo de escravos e reapareceram nos dos livres.indd Sec8:199 4/12/2009 15:03:21 . entre os casais forros.199 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS Enfi m. a classificação das mães e de seus grupos de pertencimento em pardos. mesmo toscos. Um fenômeno que nos ajuda a defi nir melhor a escravidão tratada como aberta em relação às demais sociedades escravistas. que demonstram que. AF_livro final ok. enquanto cor. a taxa de fecundidade era bem superior à dos cativos. crioulos e africanos apenas abre a discussão sobre hierarquias sociais nas senzalas e seus elos com outras estratificações fora da senzala. Parece que na sociedade estudada a alforria estava no horizonte dos cativos. à margem da formalidade da monarquia. Para tanto. o próprio pardo. apesar de ser uma velha freguesia escravista. e como resultado dos jogos dos grupos domiciliados ou não em tal casa. ainda inédito. 34 Cf.34 Entretanto. Isso. o segmento dos pardos teria mais chances do que os demais grupos. mesmo considerando a baixa taxa de fecundidade das escravas. a princípio. a baixa fecundidade das escravas angariava para elas a recompensa de alianças ou a proteção de sujeitos livres. “A reforma monetária. parece que na sociedade escravista considerada os pardos tinham mais oportunidades do que os demais segmentos da senzala. soa como um paradoxo. no Congo-Angola ou no Islã. A frequência desse ato de liberdade concedida pelo senhor da casa pode nos ajudar a entender por que Irajá. dependia tanto do tráfico atlântico de cativos. Conforme as tabelas 11 e 11. seja no Novo Mundo.

Eles privilegiavam. alianças com outros escravos e. a estabilidade no engenho ou o fato de pertencerem a uma antiga parentela escrava implicava prestígio perante os demais cativos. uma senhora que. seguidos dos africanos (1. Nesse momento. Aqui não há como esquecer que os pais eram crioulos. e os escolhidos como padrinhos eram escravos da terra. chama a atenção para o fato de os casais com maior fecundidade serem os formados por crioulos e africanas (1. apesar de sua fragilidade. José Batista era casado e fi lho de outro casal. Portanto. talvez tais pactos remontassem a outros tempos e mesmo gerações. Na verdade. usavam o batismo como instrumento para reforçar pactos com aliados já conhecidos. Ou melhor. mas visando a mesma coisa: reduzir as margens de insegurança no cativeiro. Aqui encontramos um link entre uma elite de cônjuges e as mães pardas aparentemente solitárias: ambos saíram de velhas parentelas escravas. Já a tabela 12. onde Raimundo e Marcela escolheram o casal Joaquim e Izidora para batizar dois de seus três fi lhos. Em segundo lugar. para ingressar nesse seleto grupo. nos obriga a olhá-la com mais cautela. e mais: sua esposa era Efigênia. angola.1 mostra que os ditos casais mais férteis escolhiam seus compadres na senzala. se encontrava no último patamar entre as mulheres da senzala. AF_livro final ok.19). segundo os critérios já mencionados.indd Sec8:200 4/12/2009 15:03:21 . com pessoas fora do cativeiro. uma das condições era o casamento. Portanto. com ofícios qualificados e com acesso a canaviais. portanto descendiam de escravos como os seus compadres escravos crioulos e pardos também escravos. em primeiro lugar.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 200 casados.92). A tabela 12. Ao que parece tais práticas ocorriam em casas com grandes escravarias. Vejamos o mundo que José Batista personificava. Talvez uma saída para essa aparente confusão por mim construída seja perceber que a sociedade escravista considerada comportava diferentes estratégias escravas. Daí 14 padrinhos escravos terem batizado 21 crianças. à semelhança do apresentado na figura. a história de José Batista destrói toda a estratificação de moças acima construída. leia-se com mais de uma geração na mesma fazenda. não.

TA B E L A 12 . 1785-1795 No de padrinhos No de casais Afilhados Forros/Pardos 2 2 2 Livres 2 2 2 Escravos 14 9 21 Total 18 13 25 Tipos de padrinhos Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá. 1780-1795. 1780-1795. da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro.1 Escolhas de padrinhos pelos 13 casais com pai crioulo e mãe africana Tipos de padrinhos: origem e status social e jurídico.19 Crioula x africano 24 27 1. AF_livro final ok.TA B E L A 12 Casais No Filhos Africana x africano 93 111 1. escolhendo para cada um de seus rebentos um padrinho diferente. apesar de tais casais terem a segunda melhor taxa de fecundidade entre os casais.92 Crioulo x crioula 16 16 1 Forro x parda 1 3 3 Forro x forro 1 1 1 Forro x crioula 2 4 2 150 187 Total O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS 201 Tipos de casais em Irajá por origem dos cônjuges e número de filhos Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá. Eles preferiam diversificar suas alianças.indd Sec8:201 4/12/2009 15:03:21 . Irajá. Os casais de africanos adotavam uma estratégia bem diferente dos casais formados por pais crioulos e mães africanas. Daí o número de padrinhos ser praticamente igual ao de afi lhados.12 Crioulo x africana 13 25 1. da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro.

localizei 51 forros como compadres de 73 famílias escravas. Feito esse cruzamento. ou 11. tal recurso era mais vital do que para os livres. Nela. optavam por livres e não por outros pardos. mas proposital.1. tomei por critério a montagem de alianças nas quais estavam presentes mais de um casal de escravos enquanto pais. Isso fica claro quando consideramos o comportamento de José Correia da Silva. Ambos. estavam envolvidos em amplas alianças. Portanto. entre 1780 e 1795. algumas — as casadas com crioulos — podiam pertencer à elite de suas senzalas. Desses 51 padrinhos. como se vê na tabela 13. o compadrio. Ou seja. pardo. Além disso. Porém. Apesar da importância dos padrinhos forros/pardos para os escravos. O caso de José Correia chama a atenção. Assim. particularmente considerando que se tratava de uma sociedade em grande medida formada por estrangeiros. eram redes em que a presença de casais não era fortuita. ou a criação de aliados. Mais uma vez a figura nos serve de exemplo. A tabela 13 procura demonstrar isso. A hierarquia estamental assim retornava. os pardos. todos de senhores diferentes. seis forros. ela era formada por casais que procuravam como aliados outros casais da mesma estirpe. para os escravos e forros. pode-se observar que os padrinhos sem cor ou livres aparentemente não tinham a preocupação de participar de tal empreendimento. que reuniam 19 ou mais de um quarto das 73 mães cujos fi lhos foram apadrinhados pelo grupo na tabela 13. em tal rede encontramos casais que pertenciam à elite das senzalas. E isso fica patente quando se percebe que tal prática possibilitava a formação de redes de aliados que podiam atravessar diferentes segmentos sociais e mesmo casas. Ele e sua mulher batizaram dois casais e uma mãe solteira. quando escolhiam seus padrinhos.7% do total. não há como saber se tais proprietários eram moradores ou não da mesma casa. seis estavam presentes em redes com mais de um casal de escravos. a começar por seu nome e apelido. AF_livro final ok. Em Irajá. Entre essas 19 mães. Os compadres pardos pelo menos eram aliados de três famílias escravas.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 202 Seja como for. parece ser central na vida dos escravos.indd Sec8:202 4/12/2009 15:03:21 . como vimos.1. Nela temos compadrios em que um mesmo padrinho é compadre de mais de um casal.

outra deferência à hierarquia estamental da região. Por seu turno. da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro.indd Sec8:203 4/12/2009 15:03:21 . da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro. Casais Padrinhos No Africano x Africano x Crioulo x Crioulo x Africana Parda Crioula Mães Forros africana crioula africana crioula solteira solteira solteira Forros/Pardos 6 5 3 2 1 4 2 2 19 21 Escravos 17 11 2 8 0 6 0 0 27 34 Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá. O fi lho mais velho de José foi batizado por um capitão. Quando se passa do dado agregado para a trajetória de vida. a tabela 13 referenda a ideia de que os casais de escravos escolhiam como compadres outros escravos (ver tabela 11. 1780-1795. TA B E L A 13 . que preferiam outros cativos para padrinhos. escravo de João Pereira Lemos e depois de sua viúva. Um fenômeno que também sugere tal prática seria o daqueles casais que formavam a elite nas senzalas: os casais de crioulos-africanos.TA B E L A 13 Redes de compadrio com a participação de mais de um casal de escravos 203 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS provavelmente. apadrinhou dois casais — um dos fi lhos de Salvador AF_livro final ok. pelos padrinhos. aparentados do mestre de campo João Barbosa Sá Freire e ex-potentados na região. O nosso José Batista.1 Escolhas. essa opção fica mais patente.1). uma deferência à família Correia da Silva. ou seja. de suas comadres escravas: origem e status social e jurídico Padrinhos Forros/Pardos Escravos No de padrinhos Mães africanas Mães crioulas Mães pardas Total de mães 51 35 34 4 73 204 137 58 9 204 Livres 136 64 76 35 175 Total 391 236 168 48 452 Fonte: Registros paroquiais de batismo de escravos de Irajá. 1780-1795.

Nesse sentido. alguns fenômenos começam a tomar contornos mais precisos. eram alianças de escravos dentro das casas. Entre eles. Mas qualquer tipo de conclusão nesse momento é precipitada. ao morrer em 1818 deixou em testamento a recomendação AF_livro final ok. as ideias de dona e de oficial da ordenança continuaram como símbolos de poder até pelo menos fins do século XVIII. esposa de Manuel Antunes Suzano. Da mesma forma. apadrinharam oito crias de quatro casais. batizou fi lhos de pardos. Portanto. ao fi lho mais velho de João Pereira. sua fortuna saiu dos negócios do Atlântico. O próprio Bento Luiz. Roman. na época já capitão e dono de um partido de cana em Sapopema. como a alforria e o acesso a terras.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 204 cabra e ferreiro e outro do casal de angolanos Caetano e Maria. entre 1791 e 1795.indd Sec8:204 4/12/2009 15:03:21 . com menor intensidade. ele seguia ainda uma moral ou sistema de valores construída no tempo do predomínio dos conquistadores. para os temas levantados toda e qualquer conclusão neste momento é precipitada. Outro exemplo é o da casa do capitão Bento Luiz de Oliveira Braga. fi lhos de cativos perdurou. Quatro escravos de seus escravos. quando tinha 12 anos. batizou. Apesar disso. ou seja. por exemplo. Maria Januária Galvez. nas amplas casas senhoriais cujos moradores incluíam também outros donos de escravarias. dois rebentos de Roque crioulo e de Joana angola e outra cria de João camundongo e Maria benguela. em 1794. como vários filhos de conquistadores fizeram no século XVII. cativo pardo. este pertencente. a prática de apadrinhar pardos e. Porém. ou melhor. Estas últimas informações indicam que as redes de alianças complexas vistas na tabela 13 talvez ocorressem com mais frequência nos grandes plantéis. Por exemplo: o capitão Bento Luiz de Oliveira Braga pertenceu a uma geração de senhores de engenho fruto do capital mercantil. e seus objetivos talvez fossem produzir recursos para lidar com os senhores nas relações clientelares. dona de dois engenhos em Irajá somando mais 250 escravos. *** Na verdade.

no Brasil. Isso sem falar nos mecanismos de transmissão de patrimônio e nos expedientes usados pela velha nobreza principal da terra para exercer domínio sobre a propriedade rural (e sua combinação com os pactos nupciais). In: MONTEIRO. Robin. Habilitações nas ordens militares. Nuno Gonçalo F. Inventário post mortem de Manoel Antunes Suzano e de sua mulher Maria Januária Galvez Palença — 1818.indd Sec8:205 4/12/2009 15:03:21 . Rio de Janeiro: Record. Ou seja. CARDIM. a elaboração de métodos de pesquisa que combinem a micro-história italiana com técnicas seriais. para estes e outros estudos é necessário. 1816. CUNHA. Collecção systematica das leis militares de Portugal dedicada ao principe regente n.35 E em seus engenhos existiam partidos de cana de lavradores livres e escravos.emory.622. Apesar dessas evidências. Nuno G. Pedro. 2008.). 2005. p. Manolo. COSTA. 191-252. Governadores e capitães-mores do império atlântico português nos séculos XVII e XVIII. CUNHA. 3. Mafalda Soares da (Org. A construção do escravismo no Novo Mundo. REFERÊNCIAS BLACKBURN. BORREGO. Por último. 2003. ainda na segunda década do século XIX. BERHENS.library.. Stephen. Optima Pars. Mafalda Soares da. Elites ibero-americanas do Antigo Regime. Lisboa: Guarda-Mor. é necessário muito estudo para compreender melhor temas como o sistema de normas das freguesias rurais do Rio de Janeiro. s. cx. Verissimo Antonio Ferreira da.edu>. Disponível em: <http:// wilson. DEP 511. escravos e pardos compartilhavam uma moral vinda de séculos atrás e cuja referência era a casa e suas relações clientelares. The trans-Atlantic slave trade database. I e II. a fim de driblar a falta de fontes. fantasma que atormenta os pesquisadores profissionais. Nuno Gonçalo P. Lisboa: Imprensa de Ciências Sociais. MONTEIRO. v. FLORENTINO. ELTIS. David. Arquivo Nacional do Rio de Janeiro. RICHARDSON.205 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS de alforriar 11 escravos e de dotar para o casamento três pardas. David. Lisboa: Impressão Régia. AF_livro final ok. 35 Cf. senhores.

The sugar revolution. Economic Historic Review. Carlos. PEDROZA. RHEINGANTZ. Honra. In: FRAGOSO. MATTOS. AF_livro final ok. Rio de Janeiro: Arquivo Nacional. MARQUES. Maputo: Ciedima. Lisboa: Estampa. Raul Telles. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Antônio Carlos Jucá de. LAVRADIO.) HIGMAN. pardo: notas sobre uma hierarquia social costumeira (Rio de Janeiro. GLASSMAN. Topoi — Revista de História. 2000. Engenhocas da moral: uma leitura sobre a dinâmica agrária tradicional. Conquistadores e negociantes: histórias de elites no Antigo Regime nos trópicos. SERRÃO. ———. 1965. Manuela. n. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 2001. P. Rio de Janeiro. senhor do Engenho do Rio Grande. Revista do Instituto Histórico e Geográfi co do Brasil. LOVEJOY. Tese (Doutorado) — IFCH. v. séculos XVI. 49-52. vice-rei. OLIVAL. 1. (Orgs. B. Escravos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. Rio de Janeiro: Brasiliana. 2004. 2007. Jonathon. 1995 (Social History of Africa Series. guerreiros e caçadores. Bárbara. Allen. Joel. João. n. Fernanda. 4. p. Capitão Manuel Pimenta Sampaio. 2008. escravagistas.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 206 FRAGOSO. 2000. Das cores do silêncio. João. Na trama das redes: política e negócios no império português. São Paulo: Kosmos. 213-236. Feats and riot.). 1983. UFRJ. Lisboa: Estar. In: GOUVÊA. A escravidão na África. mercê e venalidade: as ordens militares e o Estado moderno. ISAACMAN. 1842. 2005. 1993. ———. Nova história da expansão ultramarina. Relatório do marquês do Lavradio. ISAACMAN. A nobreza da República. notas sobre a formação da primeira elite senhorial do Rio de Janeiro. Fidalgos e parentes de pretos: notas sobre a nobreza principal da terra do Rio de Janeiro. RUDGE. Hebe. v. neto de conquistadores e compadre de João Soares. Carla (Orgs.XVIII. Campinas. W. 2008. A. p.indd Sec8:206 4/12/2009 15:03:21 . FRAGOSO. João (Orgs. LIII.). SAMPAIO. Primeiras famílias do Rio de Janeiro. 2002. As sesmarias de Jacarepaguá. 2. Maria de Fátima. 319320. marquês do. Portsmouth: Heinemann. 2009. 1700-1760). ALMEIDA.). H. p.

James L.). Antônio M. 1980.). A economia — o comércio: do resgate no litoral africano ao comércio transatlântico. I. 183-197. Paris. AF_livro final ok. Ângela B. WILLIS.jstor. Arthur Teodoro de (Org. THORNTON. 2002. (Coord. As redes clientelares. História de Portugal — Antigo Regime. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Lisboa: Estampa. t. Berkeley: University of California Press.org>. 207 O CAPITÃO JOÃO PEREIR A LEMOS SILVA. Antônio M.SOUSA. Studia Islamica. In: ——— (Ed. 382-386. 2005. 1980. Arthur Teodoro de (Org. p. Islamic Africa: reflections on the servile Estate. João José Abreu.indd Sec8:207 4/12/2009 15:03:21 . Nova história da expansão portuguesa — a colonização atlântica. Disponível em: <www.). In: HESPANHA. p. In: MATOS. Slavery as institution: open and closed systems. 2005. Rio de Janeiro: Campus. TEIXEIRA. Nova história da expansão portuguesa — a colonização atlântica. II. Lisboa: Estampa. 1993. 2004. A sociedade: tentativa de caracterização. A África e os africanos na formação do mundo atlântico. WATSON. HESPANHA. Alberto da Costa.. André. t. 52. Asian & African systems of slavery. n. A manilha e o limbambo: a África e a escravidão de 1500 a 1700. XAVIER.). J. In: MATOS. Lisboa: Estampa. John Ralph.

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8
Indivíduos, famílias e comunidades:
trajetórias percorridas no tempo e no espaço
em Minas Gerais — séculos XVIII e XIX*
Mônica Ribeiro de Oliveira

As diferentes matrizes culturais que conformaram a América portuguesa e especialmente as Minas Gerais encontram-se inscritas nos agrupamentos sociais, tanto naqueles mais integrados à lógica de domínio do
Império português, quanto naqueles mais distantes e periféricos. Constituiu um importante traço desses indivíduos e grupos o movimento
contínuo no espaço e no tempo em busca de um destino, de uma terra
para se fixar, de uma família por formar e manter, de uma rede de amizades e trocas para tecer. Esse tipo de agrupamento social ou comunidade agrária constitui o substrato desta pesquisa. Pela leitura do significado dos laços generativos e dos laços de afinidade, objetivo perceber o
universo cultural desses grupos, através da formação de redes de parentesco e alianças, capazes de promover o enraizamento e a construção de
novas identidades a cada fronteira aberta no espaço colonial.

Resultados ainda parciais das reflexões que venho realizando em um projeto de
pesquisa intitulado “Destinos incertos: o comportamento familiar das comunidades
rurais da América portuguesa”, com apoio da Fapemig e do CNPq.

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EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

210

Para atender a esse propósito, acompanho trajetórias de indivíduos e grupos em uma determinada região de Minas Gerais no século
XVIII. Essa opção não se deve ao fato de considerá-los detentores de
uma originalidade, muito pelo contrário. As diferentes escolhas desses indivíduos e grupos remetem a todo um universo de práticas
culturais próprias de sua época. Ao mesmo tempo, a pesquisa não se
resume à história de uma comunidade, ao gênero de monografi a de
povoados e vilarejos. Proponho um estudo das relações sociais de
indivíduos e grupos inseridos no contexto de abertura da fronteira e
ocupação de terras, formação de povoados, controle e exploração
dos recursos naturais e formação de redes mercantis, analisando as
dificuldades enfrentadas e as transformações processadas nas famílias
como fruto das escolhas realizadas.1
Por outro lado, este trabalho não se enquadra em uma história da
cotidianidade, das percepções e das experiências, tal como criticada
por Jürgen Kocka (2002). O autor questiona a tendência à simplificação daqueles trabalhos que se propõem a estudar os modos de
vida, os nichos da vida cotidiana, como alternativa à história estrutural. Para ele, o historiador deve levar a sério as vivências e opiniões
de seus sujeitos e, ao mesmo tempo, compreendê-las em seus contextos, como parte de uma cultura que o cerca: “lograr una conexión
adecuada entre las experiencias, las percepciones, las actitudes y las acciones,
de um lado, y las estructuras e procesos, de outro, resulta crucial”.2
O presente trabalho se inspira nas proposições da micro-história
italiana, principalmente quando esta utiliza como procedimento de
pesquisa a redução da escala de análise, propondo-se a esclarecer certas questões gerais que, no nível micro, podem revelar o que em uma
escala maior não é possível compreender. O espaço para o individual
e, portanto, incerto é articulado com uma perspectiva mais ampla,
1
Não faz parte também de meu objetivo trafegar no vasto e rico debate sobre a
história da família no Brasil e sua demografi a, já bastante consolidado há quase 20
anos. Pretendo outra qualidade de investigação, que não passa prioritariamente pelos levantamentos demográficos sobre nascimentos, idades de casamento, ciclo de
vida e taxas de legitimidade/ilegitimidade.
2
Kocka, 2002:84.

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INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES

contextual. Ao acompanhar a trajetória de indivíduos e grupos familiares mais abastados e suas diferentes escolhas, considerei concomitantemente a tendência à reiteração de comportamentos mais gerais,
apreendidos na cultura política do Antigo Regime que os cercava.
Os povoados eleitos para esta pesquisa poderiam ser outros, como
considerou Giovanni Levi (1993): “Creo que didacticamente, necesariamente, lo ideal es no tener ningún interes específi co por la localidad que se
estudia. Es una tarea instrumental, se busca una escala reducida como un
laboratorio, para devenir al problema general”. Diferentemente de uma
história da cotidianidade afastada de seu entorno, unilateral e abstrata, propõe-se, através de um recurso sistemático ao contexto, o
estudo das sociedades agrárias, analisando-se os significados, atitudes e formas de atuar no mundo.

A conformação do lugar
O “lugar” eleito para essa investigação formou-se como reflexo de um
amplo movimento migratório de portugueses e naturais da terra, especialmente os paulistas em direção à região das minas. A imigração se
constituía em um traço da identidade cultural do Império português,
e os números, às vezes divergentes, comprovam essa importância.
Charles Boxer calcula que, no século XVI, cerca de 2.400 pessoas
deixavam Portugal todos os anos com destino à Índia portuguesa. Já
Magalhães Godinho cita a saída de 3 mil a 4 mil por ano, chegando a
atingir 8 mil por volta de 1620. No século XVIII, o fluxo humano
teria aumentado consideravelmente, levando a efeitos catastróficos
para Portugal.3 Por outro lado, David Eltis (2003:18), ao analisar as
variáveis entre a imigração e a estratégia global, trabalha com números
mais baixos. Enquanto os espanhóis tiveram uma média de 2 mil migrantes por ano no século XVI e os portugueses, 3 mil por ano no
século XVIII, é provável que antes do século XIX a migração europeia
não tenha excedido uma média quinquenal de 10 mil imigrantes.
3

Russel-Wood, 1998:95.

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EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

212

Contudo, afora esses números divergentes, interessa-nos a análise
das motivações para tal comportamento populacional dos portugueses, e os fatores explicativos apresentados são muitos. As primeiras
saídas aconteciam em função do impacto do descobrimento de novas terras, culturas e possibilidades de ganho para os trabalhadores
urbanos ou camponeses menos abastados, até a emigração de emissários, embaixadores, missionários e enviados comerciais, num amplo processo de alargamento das fronteiras, englobando África, Ásia
e Américas. Já a emigração durante as primeiras décadas do XVIII
deveu-se à febre do descobrimento do ouro e, certamente, ao acesso
ao poder, não necessariamente para amealhar o metal em si, mas
pela posse de homens, terras, respeito e status que ele ensejava.
Nas últimas décadas do século XVII, para além dos fatores socioeconômicos que, em nível local, influenciavam a forma predominante da corrente emigratória portuguesa, havia também fatores
culturais que acabavam por promover o abandono da paróquia de
origem. Entre os primeiros pode-se citar, genericamente, a pressão
populacional (válida para as saídas comprovadamente mais numerosas das regiões do norte e noroeste de Portugal) e também o sistema
sucessório. Este contemplaria, teoricamente, todos os descendentes,
e os obrigaria a criar diferentes estratégias para conciliar a igualdade
entre os herdeiros e a indivisibilidade da propriedade, garantindo
assim a sobrevivência econômica do núcleo doméstico.4
Quanto às motivações culturais, remeto-me ao movimento secular dos povos que se utilizavam da emigração por distintos fatores,
seja por sua força conservadora capaz de perpetuar certo agrupamento social no tempo, seja por provocar um estímulo à mudança
social. Caroline Brettel, ao eleger a emigração como temática principal de seu trabalho, buscou entender seu significado em Portugal
não só como solução para as dificuldades da zona rural, a densidade
das famílias, mas também como reflexo do sistema sucessório, comum em outros países europeus. Para ela, o recurso à emigração

4

Durães, 2004.

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5
6

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INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES

funcionava como uma resposta local às pressões e à necessidade de
manutenção de um equilíbrio demográfico. A migração foi analisada como um fenômeno dependente do sistema sucessório, de parentesco, do sistema fundiário, ou mesmo como resposta ao comportamento dos níveis de fecundidade.5
Por volta de 1709, as províncias do norte português sofriam fortes
impactos das migrações aceleradas para o Novo Mundo. D. João V
reeditava ordens, com o objetivo de conter a saída desenfreada, segundo as quais, para viajar, o pretendente deveria dispor de passaporte. Os capitães de navios, por sua vez, podiam sofrer penalidades
se não respeitassem tais medidas. Contudo, essas pressões não surtiram o efeito almejado, o que se comprova através da chegada de
navios sem a autorização requerida. Os destinos eram as capitanias
do Nordeste e, principalmente, o Rio de Janeiro, ponto mais próximo para a chegada à região das minas.6
Portanto, diferentes motivações, internas, específicas de cada região e período da história de Portugal, levaram milhares de pessoas
a emigrar para o espaço colonial. Fugir da escassez de recursos, das
pressões de ordem natural e do inchamento das famílias, diante das
alternativas abertas no além-mar de acesso à terra e aos bônus dela
advindos, constituíam os principais fatores a explicar o fenômeno da
emigração no longo prazo. O espaço colonial abrigou ao longo dos
séculos inúmeros indivíduos. Nobres, fidalgos, clérigos, mercadores, homens de negócios vários, mas a metrópole expulsou concomitantemente milhares de camponeses, homem sem fortuna, honra
e prestígio.
Falar dos emigrados e da condição dos colonizadores em terras
coloniais em fi ns do século XVII e início do XVIII constitui apenas
um enfoque da questão da ocupação do Brasil. Juntamente com os
navios carregados de população portuguesa e das ilhas atlânticas,
esse período assistiu a um aumento considerável do número de en-

Brettel, 1991; e Lobo, 1992.
Russel-Wood, 1998:94.

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entre 1698 e 1717. AF_livro final ok. saíam anualmente do Rio de Janeiro para as Minas cerca de 2. cita o aumento da demanda de escravos.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 214 trada de escravos africanos. O incremento do tráfico de escravos em função do ouro. Ocorreu um vigoroso aumento populacional com a chegada de portugueses. conseguiu uma melhor aproximação com o movimento populacional da região das Minas e preencheu uma importante la7 A respeito da chegada de “paulistas” e das considerações relativas ao emprego desse termo. John Thorton (2004:395). em sua maioria angolanos. entraram aproximadamente 2. na década de 1730. africanos e “paulistas” por todos os caminhos. pela ótica das áreas receptoras — na região das minas —. detectado por todos os especialistas.500-4 mil no período 1717-1723 e para 5. número que se elevou para 3. a dinâmica mineradora do Sudeste brasileiro ao promover um crescimento continuado e o aumento dos preços de escravos num ciclo vertical que perdurou por todo o século. além do inevitável enfrentamento com os nativos. depois. principalmente das ilhas do Caribe.600 escravos por ano em Minas Gerais. crescia também a importância da região congo-angolana como principal fornecedora de cativos. 8 Ver Florentino (1995:45). a produção de açúcar e tabaco no Brasil e. para a região mineira. de acordo com os dados levantados por Manolo Florentino. Na década de 1730 aumentara em 40% o volume de escravos africanos importados pelo Rio de Janeiro. consultar Oliveira (2008). ao se utilizar de fontes fiscais como a cobrança de quintos. ou seja. Entre 1715 e 1727. suplantando. quando analisado por dentro. a Costa da Mina. ao analisar as causas do prodigioso aumento do comércio de escravos no século XVIII. O Rio de Janeiro tornou-se a principal porta de entrada de africanos. Concomitantemente ao incremento das importações pelo Rio de Janeiro. enfrenta muitos obstáculos. grande parte deles direcionados para as Minas.700-6 mil em 1723-1735.300 cativos.7 Russell-Wood (2000:164) calcula que.8 Botelho (2000:5). Refi ro-me à ausência de trabalhos demográficos que deem conta daquelas sociedades em constante transformação.indd Sec9:214 4/12/2009 15:03:22 .

9

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INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES

cuna ao produzir dados sobre a presença escrava nos principais termos e arraiais na primeira metade do século XVIII. A título de
exemplo, cito os dados do autor para o ano de 1721. Nesse período,
havia um total de 10.741 escravos em Vila Rica (fundada em 1711),
com 1.757 proprietários. Aproximadamente 57% desse total possuíam de um a quatro cativos; 25% possuíam de cinco a nove cativos;
13%, de 10 a 19, e menos de 5%, mais de 20 cativos. Esses dados
reiteram as pesquisas sobre a difusão da propriedade escrava, constatada pela grande presença de pequenos proprietários, bem como um
padrão de propriedade de escravos desconcentrado, característico de
uma hierarquia desigual, própria das sociedades escravistas fora do
eixo da plantation exportadora.
Esse grande afluxo populacional para a região central da capitania
mudou definitivamente a paisagem dos sertões mineiros, antes habitados por gentios e cortados por vias íngremes, trilhadas por aventureiros. A presença indígena na região das Minas sofreu um quadro de
acomodação da fronteira originado da destruição e da assimilação
das sociedades indígenas, tal como relata Renato Pinto Venâncio.
Em uma cuidadosa investigação, o autor analisou como as populações indígenas foram afetadas pelo desenvolvimento das atividades
econômicas do litoral e pela expansão das fazendas de gado. Dessa
forma, o norte mineiro foi ocupado mobilizando habitantes da
Bahia, do Espírito Santo e paulistas, e um segundo eixo de penetração, mais tardio, que partia especialmente de São Paulo, levaria à
fundação das vilas e arraiais, como Taubaté, Guaratinguetá e Jacareí.
Dessas regiões, posteriormente, é que se irradiaram expedições à
serra da Mantiqueira. Foi através desse fundamental eixo de penetração, em fi ns do século XVII, que a existência de lavras de ouro
foi descoberta e o movimento de captura de índios e retorno a São
Paulo foi transformado em colonização efetiva do território.9
Processou-se um importante florescimento urbano, caracterizado
inicialmente pela construção de capelas, vendas, tabernas e moradias

Venâncio, 2007, v. 1, p. 85-102.

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EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

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irregulares, em um movimento anterior ao da chegada do Estado,
capaz de ordenar, atribuir funções e estabelecer autoridade. Nesse
contexto foi fundado o arraial do Carmo (Mariana) em 1711 e também Vila Rica e São João del Rei. No entorno da principal região
aurífera desenvolveram-se atividades econômicas de caráter essencialmente rural, com diferentes conexões com o mercado, baixa
concentração populacional, poucos e esparsos núcleos urbanos estrategicamente localizados. Muitos desses núcleos, fundados como
reflexos da região mais dinâmica da extração, nasceram em função
da descoberta das lavras auríferas e logo perderam sua vocação mineradora, pelo fato de as lavras serem pouco profundas, acabando
por assumir, posteriormente, uma função de reserva agrícola de
apoio aos centros urbanos mais florescentes.10

A conformação da paróquia
É nesse contexto de encontro de distintos indivíduos que a comunidade eleita para nossa investigação se encontra. Quando opto pela
utilização do conceito de comunidade, faço-o sem me prender às
tradicionais reflexões acerca do termo.11 Ana Sílvia Volpi Scott, tributária de uma longa tradição demográfica do Núcleo de Estudos e
Pesquisas Populacionais da Universidade do Minho (Neps), elegeu
uma freguesia do noroeste português para, mediante uma vasta pesquisa empírica, analisar as famílias, as formas de união e reprodução
social numa comunidade. A autora reflete sobre os riscos desse tipo de
opção metodológica, ressaltando os riscos do “paroquialismo” através
10

Há importantes trabalhos dedicados ao estudo da ocupação urbana em Minas
Gerais. Destaco Moraes (2007) e Borrego (2004).
11
Refi ro-me às questões propostas originariamente por Alan MacFarlane (1980 e
1990). O autor analisou a precisão da delimitação de uma comunidade; se as fronteiras defi nidas respeitavam os limites geográficos nos quais se realizavam os casamentos e as trocas de produtos; ou mesmo se uma comunidade reuniria aquelas
pessoas que praticavam juntas seus cultos. O autor também dissociou os aspectos
sociais e geográficos dos estudos de comunidade, procurando demonstrar que os
relacionamentos sociais em uma área geográfica defi nida seriam distintos do sentido
de “pertencer a um grupo” e da proximidade física.

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INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES

de uma perspectiva reduzida e local, ou mesmo a falta de representatividade estatística, inerente a esse tipo de estudo. Para Scott (1999:14),
o estudo de comunidade “é um dos meios mais indicados para se
avaliar como os indivíduos, que viveram em um determinado espaço
geográfico e num dado espaço temporal, definiram seus arranjos familiares, como organizaram seus agregados domésticos, como se relacionaram com seus parentes e vizinhos...”.12
Edoardo Grendi, ao prefaciar um número da revista Quaderni Storici dedicado ao estudo da família e da comunidade em 1976, apresenta o tema tecendo críticas à proposição de modelos familiares de
P. Laslett e a sua tentativa de integrar a história demográfica à história social. Para Grendi, a dimensão da família em determinado momento captado pelas fontes constitui apenas uma fase de seu ciclo
biológico, devendo-se levar em conta todo o ciclo de desenvolvimento doméstico e de distribuição da riqueza familiar.13 O autor
defende a “direzione microscópica di uno studio della comunità rurale, di
sapore indubbiamente etnologica”,14 no qual não se deve prescindir do
tema da comunidade no estudo da família e de sua sucessão hereditária, para se entender a convergência de interesses, seja na esfera
econômica, política ou sociocultural desta última.
Nessa mesma direção, Giovanni Levi (2003:257) ressalta que o
estudo da cultura das massas camponesas deve estar articulado às
funções e às interdependências que as redes sociais criam, através do
vínculo entre situações individuais, locais, comunitárias e a evolução da sociedade complexa na qual todas elas se encontram inseridas. Portanto, uma análise assentada em fichas de famílias, criadas a
partir de um dado ciclo biológico, é insuficiente e incapaz de aduzir
12
Para discussões mais amplas a esse respeito, consultar Brandão e Feijó (1984),
Pina Cabral (1989) e Rowland (1984).
13
A pertinente crítica de Grendi (1976) nos alerta para o uso indiscriminado de
certas fontes documentais sem o devido cruzamento com outras. Na pesquisa história no Brasil, por exemplo, alerto para a utilização dos inventários como única
fonte de pesquisa, uma vez que estes eram abertos no momento da morte do chefe
de família ou da esposa, o que coincidia, na maioria das vezes, com o período da
velhice e, portanto, de decadência do ciclo doméstico.
14
Grendi, 1976:883.

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a dinâmica dessas sociedades. Recorrer ao contexto, assim como a
uma análise que supere os limites da família em si, a fi m de analisar
o comportamento de “frentes familiares”, tal como proposto por G.
Levi em Herança imaterial, torna-se um procedimento metodológico
fundamental para o estudo da história da família.
A comunidade rural eleita para análise foi se delineando lentamente, à medida que a pesquisa avançava. Primeiramente, o limite
foi se conformando a partir de um critério empírico. Parti de todos
os registros de batismo inscritos nos livros de assento de batismo de
Conceição do Ibitipoca. Aos poucos, percebi que esse povoado abrigava uma igreja matriz, que era a sede da paróquia, e que era o mais
próspero vilarejo de um conjunto mais amplo de outros povoados.
Os registros dos nascimentos, levantados a partir dos pais dos batizandos, eram realizados em diferentes capelas, do que auferi que os
indivíduos e suas famílias estavam espalhados por uma rede de pequenos povoados interligados pela paróquia central. Então, um segundo critério de delimitação emergiu: a rede de relações sociais,
tecida pelo movimento das pessoas e grupos em busca de oportunidades, terras férteis, lavra por descobrir, matrimônios, entre outras
motivações. As pessoas se movimentavam no espaço do alto da Borda do Campo e, posteriormente, migravam para outras regiões da
comarca do Rio das Mortes. Posteriormente, esses dados primários
foram cruzados com distintas fontes cartoriais, a partir do nome dos
pais, principalmente inventários, com a fi nalidade de compreender
o perfi l das organizações familiares ali residentes, tal como a posse
de escravos, o número de fi lhos, a cultura material, entre outros.
Dados passíveis de quantificação que me pudessem fornecer informações sobre o número de livres e escravos, a composição dos grupos por sexo, idade, profissão etc., tais como nos mapas de população. Mas estes não existem para a localidade em estudo, o que
dificultou a formulação de uma base estatística mais ampla. Portanto, como o cruzamento nominal dos registros de batismo com as
demais fontes de natureza cartorial me permitia um acompanhamento das trajetórias individuais e familiares, essa atitude foi assu-

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INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES

mida como a única saída possível para a aproximação com esses grupos periféricos, dispersos em uma área de fronteira.
A paróquia de Conceição de Ibitipoca localizava-se no alto da
serra da Mantiqueira, em uma região de difícil acesso, parte do termo da Borda do Campo, parte da comarca de São João del Rei e,
mais tarde, da comarca de Barbacena. As bandeiras paulistas chegaram à região na última década do século XVII e instalaram as primeiras datas de exploração aurífera. Os índios encontrados foram
aos poucos exterminados ou expulsos da região logo nos primeiros
anos de exploração. Foram fundados os primeiros arraiais e, entre
eles, Nossa Senhora da Conceição de Ibitipoca. No livro de lançamento de escravos desse povoado para o procedimento da capitação
em 1715, consta a presença de 149 cativos, divididos entre 30 proprietários:
TA B E L A 1

Livro de capitação de 1715, lançamento dos moradores de Ibitipoca
Faixas de posse
de cativos

Total
de escravos

% do total de cativos
por faixa

No de proprietários

1a2

19

12,75

12

3a5

30

20,13

9

6a8

28

18,80

4

Acima de 9

72

48,32

5

149

100,00

30

Total

Fonte: Arquivo Público Mineiro. Casa dos Contos 1012.

Esses dados demonstram que, nas duas primeiras décadas da extração aurífera, mesmo em regiões mais distantes dos principais centros de exploração mineral como Vila Rica e Mariana, já estava de
certa forma aberta a fronteira da Mantiqueira, com a formação de
unidades produtivas de diferentes dimensões, voltadas para suas datas
de exploração mineral e também agrícola, tendo em vista que a terra
nessa região prestava-se a atividades agropastoris, de acordo com os
relatos de época e dos documentos encontrados para o período.

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Entre esses primeiros povoadores percebe-se a presença de no mínimo quatro sertanistas, reconhecidos pelos genealogistas como importantes desbravadores do sertão das Minas Gerais.15 Comprova-se
aí a associação dos serviços prestados ao reino, como os dos capitães
ou sargentos-mores, com o desbravamento, a interiorização e a concessão das mercês de sesmarias. André Figueiredo Rodrigues (2002),
em seu trabalho sobre a ocupação e a posse de terras na freguesia da
Borda do Campo, ressalta a importância das doações de sesmarias a
esses primeiros homens e como, através de suas intrincadas redes
familiares, estes favoreceram muitos de seus parentes com a doação
de vastas terras, o que conduziu a uma rápida ocupação das terras, à
primeira vista em poucas mãos. Mas ele mesmo ressalta que, paralelamente a esse processo formal de doação, solicitação e confi rmação
de sesmarias, havia espaço para o intruso, o homem livre pobre,
disposto a arrendar terras para a produção agropastoril, ou mesmo
um assento para sua família com pequena roça de milho e feijão.
A tabela 1 oferece outro enfoque, que vem confi rmar importantes trabalhos historiográficos sobre Minas Gerais colonial: a disseminação da propriedade escrava, em que 12 dos 30 proprietários
detinham de um a dois cativos e, por outro lado, a concentração
dessa posse. Entre os cinco maiores proprietários, encontramos posses de 11, 12, 13, 16 e 20 cativos, ou seja, esses proprietários detinham mais de 48% da escravaria encontrada. Propriedades com essa
dimensão indicam grandes possibilidades de extração nessas duas
primeiras décadas, mas não necessariamente de profundidade das
lavras. A extração rápida e agressiva desse início não se perpetuou
nas décadas subsequentes, levando a uma nova configuração da paisagem agrária e dos grupos sociais nela instalados.
Como se percebe, os povoados foram fundados seguindo o mesmo padrão de formação das mais florescentes áreas urbanas da região
das minas. Contudo, não se observa uma preocupação urbanizatória, nem tampouco um interesse do Estado português em se estabe15

Franco, 1989.

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lecer oficialmente na região, a não ser pelo enquadramento aos tributos. As lavras pouco profundas não ofereciam muitos atrativos
para a fi xação de famílias. O que se percebe pela captação é a presença de unidades movidas não por famílias nucleares, mas pelos
primeiros desbravadores, agraciados com títulos de terras e lavras.
No entanto, os mais abastados emigraram para outras regiões mais
dinâmicas da própria comarca do Rio das Mortes, e também mais
lucrativas, onde podiam instalar suas famílias em melhores condições de acesso ao mercado e vida social. A extração aurífera pressupunha a transitoriedade de pessoas, e a mobilidade espacial impedia
ligações mais duradouras. Não encontrei rastros desses primeiros
homens nos registros batismais, o que me leva a inferir que eles realmente não se fi xaram na localidade com suas famílias. A expansão
para outras áreas, possivelmente mais prósperas, era uma alternativa.
Eles mantiveram sua autonomia, não se enraizaram e não estabeleceram os laços espirituais que o sacramento do matrimônio e do
batismo ensejavam. Eram homens de seu tempo e, nesse tempo,
cumpriam uma missão fundamental de abertura do sertão, enfrentamento dos povos indígenas e implantação de todo um sistema de
exploração mineral.

A conformação da família
Entre 1750 e 1760, 399 responsáveis batizaram 555 ingênuos no Alto
da Borda do Campo.16 Utilizo o termo “responsáveis” porque minha opção de levantamento dos registros baseou-se no método de
“reconstituição de paróquias”, pelo qual foi criada uma ficha de família a partir da entrada do nome do pai no registro de batismo e a
16

Não consegui mapear a primeira metade do século XVIII, a não ser pelos registros de capitação de 1715, acima analisados, que nos dão indícios da presença dos
primeiros mineradores. Os dados subsequentes referem-se à segunda metade do
Setecentos. Está sendo realizada uma varredura em todas as informações possíveis
sobre as localidades, a partir do levantamento nominal de cada indivíduo que pagou
impostos, batizou seus fi lhos, abriu inventário e demais processos cíveis. A pesquisa
ainda se encontra em desenvolvimento.

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EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

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ela foram anexados outros eventos da vida desse indivíduo que puderam ser investigados ao longo da pesquisa. Mas encontrei incluídos nesse total 50 registros de “pais incógnitos” e 88 de pais não
citados, muitos deles com mães declaradas cativas, outros só com a
menção de padrinhos cativos, ou mesmo a simples menção de expostos. Criei também uma ficha de família para aqueles registros
abertos pelas mães, contudo ainda estou buscando uma resposta metodológica para como trabalhar com esses dados. Optei por desconsiderar as inúmeras implicações e diferentes olhares sobre essas mulheres, que inferem questões relativas aos índices de ilegitimidade,
ou mesmo à condição das forras.
Nos registros com dados identificáveis entre 1750 e 1760, encontrei um total de 261 famílias. Desse total, 46,7% eram de pais de
ascendência portuguesa declarada, com dados detalhados acerca dos
avôs maternos e paternos do ingênuo, 38,3% eram daqueles considerados naturais da terra e 14,9 de pais ou mães cativos declarados.
O percentual de “naturais da terra” é composto por aqueles que não
fi zeram menção a sua ascendência portuguesa e se autodesignaram
como moradores das capitanias de São Paulo, Rio de Janeiro e Minas. Sobressai a referência constante a Taubaté, Guaratinguetá, Santos, Jacareí e Mogi para São Paulo; a capitania do Rio de Janeiro é
citada genericamente e na de Minas Gerais aparece a citação da comarca do Rio das Mortes, mais especialmente São João del Rei,
Mariana e a própria Ibitipoca.
A grande presença de paulistas na região das Minas já foi atestada
por importantes trabalhos, tendo sido foco de debates em torno do
confl ito dos emboabas que opôs, no início do século XVIII, paulistas e portugueses pelo controle das minas. Em outro trabalho analisei os significados de ser “paulista” no período. Os paulistas eram
sobretudo fi lhos de portugueses nascidos no planalto paulistano, no
mínimo de segunda geração, ou já instalados há anos, possuidores
de toda uma organização social familiar específica, na qual o parentesco tinha vital importância para cimentar as relações sociais, diante da imprevisibilidade da vida na colônia. Uma sociedade marcada

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INDIVÍDUOS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES

também pela mestiçagem, perceptível na presença de mamelucos e
bastardos entre os colonos.17 A presença destes nos povoados do
Alto da Borda do Campo está ligada à tradicional trajetória dos indivíduos, que saíam do planalto paulistano em direção ao interior
em busca de ouro ou de índios. Justificava-se também pela posse de
terras em uma área menos estratégica em comparação com as cidades de Vila Rica, Mariana, Ouro Preto e seu entorno, e principalmente mais inóspita, o que dificultava a disputa com outros indivíduos e grupos.
Portanto, um segundo movimento populacional, ainda no fi nal
da primeira metade do Setecentos, se estabeleceu, com a chegada de
portugueses da região do Minho, noroeste de Portugal, especialmente do arcebispado de Braga e de Viana do Castelo (termos de
Barcelos, Guimarães e suas diversas pequenas freguesias), e também
dos arquipélagos dos Açores e Madeira. A presença desses imigrantes portugueses na região corrobora as análises anteriores sobre os
fatores e os números da emigração portuguesa no século XVIII para
o Brasil. Júnia Furtado (1999:154), ao estudar a origem dos comerciantes portugueses em Minas na primeira metade do século XVIII,
chegou ao número de 74,4%. Sobre o predomínio de naturais da
região norte de Portugal, Iraci del Nero Costa (1979:218), ao levantar a população de Vila Rica, chegou a uma percentagem de aproximadamente 68,1% de portugueses provenientes do norte do país.
Carla Almeida (2006:77-80), ao investigar a naturalidade da população inventariada nas comarcas mineiras em geral, chegou a 75,6%
de portugueses entre 1750 e 1779. Em uma amostragem mais detalhada, a mesma autora encontrou 89% de homens naturais das províncias do norte, 11% provenientes da região central do país e nenhum do sul.
No grupo encontrado no Alto da Borda do Campo percebe-se
uma peculiaridade em relação aos trabalhos citados. Observe-se a
tabela 2:

Oliveira, 2007:257-268.

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EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA

224

TA B E L A 2

Origem do grupo de portugueses do Alto da Borda do Campo em 1750-1760
Origem
Portuguesa declarada

Arcebispado de Braga

Ilhas atlânticas

Dados incompletos

Total

122

73

46

3

%

100

60

37

3

Tal como nos trabalhos citados, observa-se a maior presença de
portugueses naturais das províncias do norte, da região do Minho,
especialmente do arcebispado de Braga. Chama a atenção apenas a
presença de muitos indivíduos originários das ilhas atlânticas, principalmente do arquipélago dos Açores. A emigração das ilhas da
Madeira e Açores para o Brasil iniciou-se no século XVI, em função
das atividades ligadas à indústria açucareira. Considerados experientes no plantio da cana, teriam sido muito importantes na difusão da
cultura na América portuguesa. Sua presença é assinalada também
na capitania de São Paulo, onde atuaram como produtores de cana e
nas incursões para o interior. Mas foi a descoberta de ouro que criou
um surto emigratório mais amplo, a ponto de decretos régios tentarem impedir o fluxo sem muito êxito. A política do reino português
se modificou em 1746, quando o Conselho Ultramarino decidiu
colonizar Santa Catarina e o Rio Grande do Sul, com vistas a ocupar as estratégicas áreas ao sul da América portuguesa contra o avanço espanhol. O reino custeou o transporte, concedeu ajuda de custo
e garantiu a alimentação dos emigrados por um ano. Foi dada preferência a casais, para garantir uma colonização de famílias já estáveis nas áreas praticamente vazias de colonização branca. Em 1757, a
pressão demográfica e a situação de pobreza da população das ilhas
acabaram por provocar a emigração de mais de 200 casais, além de
dezenas de homens solteiros para o sul do Brasil.
Apesar de haver indícios da presença de imigrantes das ilhas atlânticas em outras povoações da região aurífera, o número encontrado na
Borda do Campo supera as previsões anteriores. Certamente, junta-

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redes de amizade.2 De ascendência fluminense e paulista 5 4.7 De ascendência portuguesa e mineira 9 7. parentesco e compadrio desse vasto grupo possibilitava aos recém-chegados as condições necessárias para sua integração.7 Sem declaração 6 5. estimuladas não só pelos fatores de dispersão nas ilhas.8 De ascendência mineira e paulista 5 4. de primeira ou segunda geração. A tabela 3 nos dá uma noção mais clara dessa assertiva: TA B E L A 3 Origem das esposas dos imigrantes portugueses da Borda do Campo. AF_livro final ok.5 De outras capitanias 2 1.0 Fluminenses 3 2.0 Total 119 % 100 Dos matrimônios realizados pelos portugueses recém-chegados.18 Ao somar as uniões com esposas de 18 Os registros de casamento que ainda não foram levantados poderiam responder a essas questões. muitas pessoas saíram clandestinamente. Não tenho como afi rmar se chegaram casados ou se realizaram o matrimônio no Brasil.5 De ascendência portuguesa e paulista 15 12. O acesso a propriedade de terras. cativos. mas também pelos fatores de atração: acesso a terras minerais. FAMÍLIAS E COMUNIDADES mente com a política oficial de introdução de casais. 1750-1760 Matrimônio com esposas Número bruto % 13. por iniciativa própria. agricultura e criação.6 De ascendência portuguesa e fluminense 20 16.2 De ascendência mineira e fluminense 2 1.4 Portuguesas 16 Mineiras 11 9. infere-se que apenas 13.indd Sec9:225 4/12/2009 15:03:22 . disponíveis no centro-sul da América portuguesa. e especialmente a presença de uma população lusa já residente.4% desse grupo uniram-se a esposas portuguesas.2 Paulistas 25 21.225 INDIVÍDUOS. matrimônios. entranhada no território.

bem como a possibilidade de compartilhamento desses critérios na vida social impediram a dicotomização dos grupos. paulista ou fluminense. O matrimônio. multiplicar as possibilidades de crescimento. fossem eles africanos. 20 Barth. AF_livro final ok. pardos ou simplesmente paulistas.21 Percebe-se a reiteração de outra estratégia — já observada em outros trabalhos — entre portugueses e os nascidos na terra: a ex19 Carla Almeida (2006:76) chegou a outra conclusão. mamelucos.2% de noivas oriundas do espaço regional stricto sensu. percebe-se que a maioria emigrou solteira e realizou suas escolhas matrimoniais na nova terra. tal como um contrato.indd Sec9:226 4/12/2009 15:03:22 . atuava como uma importante estratégia de enraizamento dos recém-chegados. esse novo aprendizado realizado por esses recém-chegados dependeu de sua integração com os outros habitantes desse espaço. cobrá-lo devidamente e fazer com que todos pagassem constituía uma obrigação. o encontro desses indivíduos e grupos inseridos em um meio natural adverso estimulou a transposição dos desafios próprios da expansão a áreas de fronteira. Esse comportamento permitiu que todos agissem com a mesma finalidade: recriar laços sociofamiliares. a maciça presença de noivos naturais da província do norte de Portugal (86. cheguei a um percentual de aproximadamente 40%. gerando o fortalecimento dos laços de identidade em uma conjuntura de expansão de fronteiras e estabelecimento de redes relacionais no novo espaço. Na comunidade em foco. a fi m de que o ônus pudesse ser partilhado.20 Muito pelo contrário.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 226 ascendência portuguesa e naturalidade mineira.7%) se aliou a mulheres nascidas na região das Minas (83%). indígenas. 21 A cobrança da capitação é um bom exemplo desse “contrato”. A preexistência de fronteiras sociais entre os grupos em questão. Segundo a autora. 2000:25-30. ou seja. Depreende-se que a escolha matrimonial era uma importante instância de reconstituição dos laços familiares. perpetuar o grupo familiar e garantir o pagamento dos altos tributos cobrados. encontrei apenas 9. preferencialmente entre famílias de primeira ou segunda geração de portugueses no Brasil. a manutenção de critérios de identificação.19 Essa readaptação às novas condições da colônia. Como seu montante era determinado pela Coroa com base na propriedade escrava de cada habitante.

Esse e outros trabalhos comprovam que as sociedades setecentistas serviam-se dos arranjos e alianças efetuados na pia batismal para dar significado às suas existências diante do novo. ou seja. perceptível na troca de posição entre indivíduos. a nova terra a ocupar. que. do inusitado. FAMÍLIAS E COMUNIDADES tensão das redes relacionais por meio dos apadrinhamentos. o que nos permite aduzir que o compadrio. ora na condição de pais. a busca de padrinhos de igual ou melhor condição social. as relações sociais a reconstruir. as estratégias subjacentes às escolhas que direcionavam as ações e a importância da equidade e da reciprocidade na orientação dessas relações. No entanto. subjaz o comportamento de consolidação dos laços familiares entre aqueles de condição social mais abastada. Um importante trabalho de Marta D. 4/12/2009 15:03:22 . percebe-se. como forma de aproximação e extensão dos laços de afi nidade. dos mais abastados aos camponeses. não se percebe qualquer lógica nos apadrinhamentos que remeta à ideia de exclusão. Examinando os comportamentos familiares e de grupos.indd Sec9:227 227 INDIVÍDUOS. buscou reconstituir a trajetória de uma comunidade do sul do país para entender o significado da formação das identidades e alianças através desse sacramento. em retribuição. Concomitantemente. Hameister tentou perceber os ganhos obtidos. relacionava-se com a obtenção de prestígio social para aqueles menos abastados. Na comunidade eleita para esta pesquisa o comportamento encontrado não divergiu do delineado acima. os recursos naturais a desenvolver e a orientar para o consumo. O apadrinhamento é usufruído por todos.AF_livro final ok. No que se refere à origem étnica (portugueses recém-chegados e nacionais). centrado basicamente em registros de assento de batismo. sem contudo o recurso à realização de matrimônios consanguíneos. Hameister (2006). além de referendar alianças. ofereciam respeito. a autora analisou as estratégias matrimoniais através dos casamentos endogâmicos e a extensão das redes relacionais através do compadrio. lealdade. ora na condição de padrinhos. Utilizando como fio condutor o conceito de “família corporativa”. no caso das famílias com menor posse de escravos e baixa produção agrícola.

prazos. a análise das dívidas ativas e passivas através dos inventários se apresentou como uma instância de entendimento do comportamento socioeconômico. Rio de Janeiro e do próprio espaço regional da comarca do Rio das Mortes. É evidente que essas frágeis e recentes alianças não bastavam para assegurar a ausência de problemas. esse instrumento revelou-se ineficaz para a comunidade em estudo. na maioria das vezes. As dívidas apareciam nos inventários apenas com a menção do nome e do valor. 1981. embrionário. AF_livro final ok.23 Em uma sociedade na qual as atividades econômicas e as formas de endividamento eram marcadas pelos laços de afinidade. Considero as ações de “justifica- 22 23 Cunha. Encontrei pequenos empréstimos ainda minimamente formalizados. modificavam condições.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 228 além de uma maior probabilidade de esse ato ensejar a construção de “pontes” entre universos sociais distintos. Grupos com diferentes orientações valorativas em busca de formas de convivência comunitária. somadas às provenientes das capitanias de São Paulo. se não determinavam as ações. sem nenhum título de mão ou recibo de saldo assinado. que.indd Sec9:228 4/12/2009 15:03:22 . com elementos de diferentes culturas — famílias lusas do norte do país. essas interações eram permeadas por tensões. outras das ilhas do arquipélago dos Açores. havendo.22 O cruzamento dos dados permitiu o acompanhamento de alguns indivíduos e seus grupos familiares no momento de formação e extensão de suas relações sociais. estava sendo aberto pelos mais abastados e incluía uma gama de pequenos proprietários que recorriam a ele de forma pouco regular. uma vez que cada um buscava a maximização de seus interesses. Barth. além da presença de escravos e índios. característicos de uma sociedade parcamente monetizada. O próprio mercado. juros e preços. a indicação de que tinham sido acertadas. 2000:441. seja através da extração de ouro. Contudo. tendo em vista que uma nova comunidade ali se formava. seja através de uma produção agrícola mais voltada para o mercado. Evidentemente.

indivíduos e famílias buscavam a intermediação da justiça para a formalização da dívida e o compromisso de ressarcimento. FAMÍLIAS E COMUNIDADES ção de dívidas” e de “prestação de contas” encontradas na documentação cível como registros que aduzem a ideia de confl ito. uniam-se de acordo com as alternativas restritas dentro das comunidades. O matrimônio atuava como uma instância de encontro. e realizado um acordo sobre o prazo de pagamento. traço muito comum em sociedades agrárias. Observa-se que o empréstimo e o endividamento eram formalizados especificamente no caso de dívidas relativas a terras e escravos. uma oportunidade para o estabelecimento das primeiras relações sociais. fi lhos 24 Ações de justificação de dívidas e prestação de contas — Arquivo Mendes Pimentel. Ou seja. Portanto. Barbacena. bilaterais entre duas grandes famílias. o grupo doméstico era gerido pelo chefe da família. mediante uniões entre primos. com essas ações. nas quais se percebe essa prática vinculada à preocupação de preservar e manter o patrimônio entre grandes famílias. A configuração familiar encontrada é do tipo nuclear. Se há uma tendência à endogamia na sociedade em estudo. caracterizadas por poucos momentos de sociabilidade. Eram todos recém-chegados. AF_livro final ok. mas não necessariamente nas famílias extensas. mais enraizadas. portanto quando os empréstimos envolviam produtos e valores mais altos e quando as partilhas envolviam menores sob tutela. tios e sobrinhas ou matrimônios unilaterais. associado ao trabalho da esposa.24 Através delas eram arrolados os nomes dos devedores. havendo a possibilidade de corresidência entre a primeira e a segunda geração. ela se dá entre aqueles de mesma condição social.indd Sec9:229 4/12/2009 15:03:22 . mas não em seu sentido estrito.229 INDIVÍDUOS. o valor das dívidas. assentados em propriedades agrárias dispersas e. portanto. Uma situação de intervenção legal no caso de a instância de resolução informal e costumeira estar esgotada. Outra importante questão que remete a um comportamento de fronteira é a ausência de uma sociedade marcada por estratégias de parentesco consanguíneo.

Estimulada pela disponibilidade de terras e pelo consequente grau de atividade agrícola. certamente. AF_livro final ok. sendo grande parte dessas comunidades marcadas pela presença de unidades de padrão camponês. No comportamento dos dotes percebi a mesma tendência.25 O modo de vida rude. mesmo quando esses bens eram. Por outro lado. A convergência de interesses entre pais e fi lhos nessas situações atuava como uma estratégia para o sucesso da empreitada. por proporcionarem mais braços para o trabalho e para a administração da unidade. atuavam como fatores de estímulo a esse padrão da demografia familiar. com intervalos intergenésicos de dois anos. Ver Oliveira (2008:186). Esses novos lares utilizavam parte do patrimônio familiar paterno como seu. escravos. para os pais. no qual o grau de atividade agrícola é que determinaria a composição da família (o camponês providencia uma família de acordo com sua segurança material) é plenamente adequado. a organização familiar ensejava o aumento do número de fi lhos e a redução dos intervalos intergenésicos: mais braços para a potencialização das oportunidades. como uma forma de potencializar sua nova unidade. A disponibilidade de terras e mão de obra. Dotava-se uma fi lha com bens que podiam fortalecer e multiplicar a unidade doméstica. com poucos móveis. bastantes exíguos. Esse. como potros. Nas partilhas encontrei indicações de bens sob a custódia dos fi lhos.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 230 e cativos. era compensado pelas maiores possibilidades de produção agrícola e investimentos em mão de obra escrava. pode ser considerado um traço do campesinato constituído na América portuguesa do Setecentos. O sucesso da empreitada familiar dependia da atuação de todos os componentes.indd Sec9:230 4/12/2009 15:03:22 . bois e. assim como a estabilidade entre os casais. principalmente. numa média aproximada de oito por unidade. o maior número de fi lhos vinculava-se a outra possibilidade: a potencialização da unidade produtiva através do maior número de fi lhos. utensílios e objetos. Donald Ramos (2008:140) defende a presença de um elo de convergência entre o norte de Portugal e o Brasil que teria permitido a permanência de alguns caracteres minhotos nos domicílios 25 Creio que. Com relação à configuração familiar recriada nas novas terras ocupadas. o modelo de campesinato delineado por Chayanov. no caso brasileiro. O número de fi lhos era alto. mesmo os casados.

indd Sec9:231 231 INDIVÍDUOS. FAMÍLIAS E COMUNIDADES mineiros. Portanto. Os dados encontrados a partir de 1720. A escassez do ouro levou à diversificação das unidades produtivas e a sua maior integração às redes de mercado interno. o que o levou a concluir que o movimento de homens mineiros em busca de novas oportunidades econômicas foi semelhante à constatada entre os homens do norte de Portugal. mas considero que existe um traço fundamental que difere essencialmente esses comportamentos. além de acesso às doações de sesmarias. A configuração que defi nia o norte [Portugal] era “moldada pela ausência de homens e caracterizada por casamentos tardios no tocante às mulheres. uma vez que esses lares e unidades disporiam de terras a ocupar.AF_livro final ok. bem como altas taxas de ilegitimidade e abandono”. Na localidade em estudo não se percebe uma mudança na configuração familiar. baixas taxas de casamento entre a população geral. essas mesmas características teriam sido identificadas especialmente na região do ouro: predominância de noivos do norte de Portugal e menor presença de mulheres portuguesas. após a diáspora paulista pelos sertões em consequência das notícias do descobrimento do ouro. concordo que valores sociais e culturais do norte de Portugal tenham influenciado o comportamento familiar no espaço colonial. via 4/12/2009 15:03:22 . sob a ameaça de não se sustentarem. permitem-me afi rmar que a movimentação interna posterior não se deu por homens que emigravam em busca apenas de oportunidades. ou seja. A extensão das relações sociais por meio da política matrimonial ensejava a realização de alianças que não podiam se restringir à localidade. constituía-se nas alternativas mais viáveis. A posterior crise do ouro teria conduzido à imigração e a uma desproporção entre o número de homens e mulheres. Para o autor. A constituição de lares e unidades domésticas nos limites da comarca do Rio das Mortes. as áreas mais estrategicamente localizadas eram as mais desejáveis. Esse complexo movimento teria interferido na formação da família e na configuração do casamento. Essa “escolha” estava orientada por uma série de fatores conjunturais. Em linhas gerais. ou até em outras capitanias mais ancestrais. baixa proporção de famílias nucleares.

26 Contudo. permaneceram os mesmos traços da hierarquia de fortunas que identificavam esses grupos nas duas primeiras décadas do século XVIII. a tendência natural dos grupos foi a sedentarização e a montagem de unidades 26 Trabalhos recentes têm revelado interesse em analisar as teias de relações familiares e estratégias socioeconômicas das elites que remontam ao século XVIII. como casamentos endogâmicos. Ver Oliveira (2005) e também Ferreira (2008). muito característica da fase inicial da extração aurífera. Como esses grupos eram estendidos e fortemente interrelacionados. a imigração como traço revelador de uma configuração familiar própria ao espaço colonial torna-se mais factível de ser percebida quando realizada pelos mais abastados. Grupos nômades. entre 1780 e 1870. Com o escasseamento do ouro de aluvião.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 232 diminuição do número de homens e aumento de lares chefi ados por mulheres. a comunidade em estudo foi marcada pela transitoriedade de pessoas. convivendo com um grupo menor de médios proprietários. Certamente eles engrossaram o longo processo de expansão das fronteiras e de reocupação de terras no clássico movimento de dispersão de “mineiros” por diversas regiões do centro-sul da América portuguesa. fluminenses e portugueses que ocuparam o Alto da Borda do Campo em meados do referido século. Nas duas últimas décadas do século XVIII não encontrei descendentes desse extenso grupo de paulistas. iniciavam processos produtivos e tendiam a reproduzir o mesmo comportamento cultural assinalado anteriormente. Como citado anteriormente. acompanhando o leito dos rios. arranjos e alianças sociais através do batismo.indd Sec9:232 4/12/2009 15:03:22 . Para além dessas mudanças. as alianças matrimoniais eram realizadas fora dos limites da vizinhança e os casais recém-formados partiam para novas áreas. muitas das famílias constituidoras desse núcleo possuíam suas raízes no termo de Barbacena e São João del Rei. No processo de montagem do sistema exportador cafeeiro da Zona da Mata mineira. abriam fronteiras. realizavam explorações menos invasivas nas encostas das montanhas. tal como dispostos na tabela 1: um grande número de pequenos proprietários de cativos. e um número reduzido de grandes proprietários no controle da maior parte da escravaria. AF_livro final ok.

Ao acompanhar um agrupamento social original em uma área de fronteira que se reproduzia pela incorporação de outros espaços. Plantar. a descida e a emigração para outras áreas mais promissoras. aproveitando os laços socioeconômicos já estabelecidos. No caso dos primeiros AF_livro final ok. muitos povoados passaram por uma rápida e drástica diminuição das possibilidades de extração. nem sempre semelhantes. restando às unidades ali implantadas o investimento na agricultura e no pastoreio voltados para o abastecimento interno e o estabelecimento de vínculos com o mercado para a venda dos excedentes. Mas por que permanecer em uma área inóspita. que. criar e. as opções de ir e vir ao se cruzar o Atlântico. minerar. mais regular e menos incerta.indd Sec9:233 4/12/2009 15:03:22 . impunha muitas dificuldades de trânsito de pessoas e mercadorias? A melhor saída foi migrar para outras áreas. Considerações finais Tentei acompanhar a trajetória de uma comunidade e de seus indivíduos no espaço e no tempo. entre outras. foi assumida pelas comunidades em foco. verdadeiras fronteiras disponíveis para ocupação. Grupos e indivíduos buscavam potencializar suas oportunidades. a formação dos laços de parentesco rituais. ordenando seus recursos. FAMÍLIAS E COMUNIDADES de extração mineral ou mistas — de extração mineral e exploração agrícola pastoril. Essa se tornou a alternativa para grupos familiares inteiros. Essa atividade. além de oferecer pouco ouro. as regras comunitárias criadas e as transformações ocorridas na família no longo prazo permitiram-me uma maior aproximação com o comportamento socioeconômico das sociedades agrárias setecentistas. as capitanias. A análise das escolhas realizadas no momento da abertura da fronteira mineral e agrícola. interesses e necessidades particulares.233 INDIVÍDUOS. identifiquei os diferentes matizes do comportamento familiar: a escolha matrimonial. Essas trajetórias revelaram-se diferentes respostas à série de desafios que foram surgindo no decorrer das vidas dos indivíduos. a fi xação no alto de uma serra. secundariamente. a esfera do nascimento. Nessa conjuntura.

começou a fi ncar raízes. realizou uma política matrimonial mais ostensiva de união e preservação de patrimônio e status.indd Sec9:234 4/12/2009 15:03:22 . Alguns conseguiram desenvolver suas unidades domésticas e tiraram proveito dos privilégios e mercês concedidos. AF_livro final ok. infantaria. não só de sesmarias. passou por outra série de enfrentamentos. O matrimônio e a formação da família seriam realizados em outras paróquias. O escasseamento do ouro e das terras mais estrategicamente localizadas tornaram-se importantes obstáculos a serem ultrapassados. convivendo lado a lado com os mais abastados. tenentes e capitães das ordenanças. Esse grupo tinha que funcionar com regras comunitárias capazes de possibilitar o acesso de todos aos recursos naturais. mas de capitães de cavalaria. Essas reflexões só se viabilizaram na medida em que. Os descendentes diretos desse grupo. tive acesso a várias solicitações de mercês. Outras áreas próximas foram sendo incorporadas quando do avanço da fronteira agrícola e mercantil. ao mercado e ao pagamento de tributos. e redes de aliança se estenderam para fora da comarca do Rio das Mortes e da própria capitania mineira. Já o agrupamento posterior. entre outras. o Alto da Borda do Campo não chegou a se constituir em uma comunidade. como parte da complexa hierarquia social da América portuguesa. incorporou terras. ensejando a diversificação dos investimentos. pois agiam como errantes. a segunda geração. se mantiveram pequenos e até despossuídos. servindo-me das proposições da micro-história. questão que tratarei em outros trabalhos. Criou uma política matrimonial que possibilitou a transposição das barreiras e levou à formação de uma comunidade estendida pelos laços de parentesco rituais e não necessariamente consanguíneos. fluminenses e os próprios mineiros.27 Outros. reduzi a escala de investigação a 27 Em levantamento feito no Arquivo Ultramarino. Essas solicitações constituem uma outra instância de investigação do comportamento dos indivíduos e grupos.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 234 povoadores. formado por portugueses e famílias de paulistas. Tornaram-se sesmeiros. Essa nova geração detentora de uma herança de bons contatos e alianças se expandiu. uma vez que se estavam recriando os primeiros laços de identidade na nova terra que o abrigava.

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Minha intenção é reafi rmar o resultado de outros estudos. ver Almeida (2004). como um exemplo representativo desse vínculo social em grupos da elite da América portuguesa. como desenvolvida por Giovanni Levi (1989). indicando. no sentido modal. a biografia caso-limite sublinha a irredutibilidade do indivíduo e de seu comportamento em relação aos sistemas normativos existentes. o funcionamento das normas e regras estruturais existentes na sociedade. Tal defi nição. 2 Para uma análise do perfil da elite da capitania de Minas Gerais. Nessa pesquisa recorri a dois conceitos. volta-se para a análise de indivíduos que expressam as características do grupo social a que pertencem. na prática. sendo o primeiro deles o da biografia modal.1 Na pesquisa. AF_livro final ok. que revelam o quanto o compadrio permitia a criação de um capital relacional de enorme importância. Trata-se de uma noção que se contrapõe à de “grupo social: em um grupo organizado.2 O segundo conceito a ser salientado é o de rede social. ou seja.9 Redes de compadrio em Vila Rica: um estudo de caso Renato Pinto Venâncio Este texto tem por objetivo analisar redes de compadrio de um membro da elite de Vila Rica.indd Sec10:239 4/12/2009 15:03:23 . explorei alguns traços biográficos referentes à prática do compadrio. 1 Em contraposição à biografia modal.

3 Nesse sentido. sim. Natural de Coimbra. Em 1775.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 240 os indivíduos componentes formam um todo social mais abrangente. em Vila Rica. começou a atuar na capitania de Minas Gerais como comerciante de grosso trato. O personagem escolhido para o estudo foi João Rodrigues de Macedo. o futuro inconfidente também se tornou contratador de dízimos de Minas Gerais. tendo objetivos comuns. Silva e Fonseca. têm relações uns com os outros”. açambarcando ainda os contratos de entradas das capitanias de São Paulo. quando provavelmente fi xou residência em Vila Rica. Jardim. e não todos os indivíduos componentes. Não é de estranhar que ele tenha sido defi nido. molhados. escravos e gado”. 1976:76. 1989:164. papéis interdependentes e uma subcultura peculiar. A atual Casa dos Contos constitui em verdadeiro palácio particular. tornou-se contratador das entradas da capitania de Minas Gerais. 1981:5. uma rede social. revelador da importância econômica e social de seu proprietá- 3 4 5 6 Both. o conjunto de afi lhados e compadres de um indivíduo não forma um grupo social — por não haver elementos de homogeneidade que permitam fazer essa afi rmação — e. um conhecido potentado econômico e político de fi ns do século XVIII. na década que precedeu 1789. graças a recursos próprios e às relações de parentesco que mantinha com membros da elite do Rio de Janeiro. em 1769. “como o homem mais rico da capitania das Minas”5 ou mesmo de todo o Império português. somente alguns. controlando a cobrança dos impostos que incidiam sobre “toda e qualquer mercadoria que adentrasse em território mineiro: secos. Oliveira.indd Sec10:240 4/12/2009 15:03:23 . Goiás e Mato Grosso. 2004:22. João Rodrigues de Macedo nasceu em 1740 e.4 Em 1776.6 Talvez o melhor documento deixado por Rodrigues de Macedo tenha sido a residência que construiu. entre 1782 e 1784. com conectividades mais ou menos intensas e que podem ser acionadas em momentos e situações diversas. Na formação da rede. por outro lado. AF_livro final ok.

Cabe sublinhar que o valor de um escravo adulto foi calculado. pesaram sobre ele sérias suspeitas. porém. 9 Mattoso (1982:95). 10 Maxwell. o capital político do contratador foi abalado em razão de seu envolvimento com a Inconfidência Mineira. a Real Fazenda procedeu ao sequestro de seus bens e.168$019 réis. que sua riqueza escoou rapidamente. sem prova confi rmatória”.9 algo próximo à média da escravaria de 80 engenhos baianos.000$000 réis. assim como dados 7 Jardim. mantendo estudantes mineiros na Universidade de Coimbra ou apoiando poetas e músicos mediante empréstimos generosos. Em 1797. Situação ainda mais dramática quando lembramos a existência de estimativas dessa dívida que a elevam a 763. e José Aires Gomes. 11 Jardim. praticamente dobrando os cálculos acima apresentados.7 A riqueza do contratador também se expressava em atitudes nobres. Em outras palavras. o que equivaleria a 3. obrigando-o a se retirar para uma fazenda em São Gonçalo do Sapucaí. quando houve risco de sua prisão por ordem do Fisco. de verdadeiro mecenas. 1981:15. e Oliveira. Os dados a respeito da vida familiar de Macedo são incertos.10 Na década de 1790. um dos maiores proprietários de terras de Minas Gerais e de quem Macedo era compadre. Nela estavam incluídos alguns dos homens mais ricos da capitania. 1977:90. como José Álvares Maciel. aos 67 anos de idade. Em 1789. para o ano de 1790. onde veio a falecer em 1807. correspondendo 400 contos a 400. 1989:168-169.241 REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA rio. 8 AF_livro final ok.8 Sabe-se. 1989:165. o contratador devia à Real Fazenda valores bastante elevados. em 125$000 réis.indd Sec10:241 4/12/2009 15:03:23 . capitão-mor de Vila Rica. Jardim. o contratador tinha uma dívida que dificilmente seria paga. Alguns autores calculam essa dívida em cerca de 400 contos de réis. embora “haja a afi rmação de que se casara duas vezes. Outra expressão importante de sua riqueza era sua rede de devedores e colaboradores. sua riqueza havia se tornado bastante modesta. em 1802.11 Utilizei como fonte para meu estudo alguns exemplos tirados da extraordinária correspondência do contratador. 1989:166.200 escravos. Embora João Rodrigues de Macedo não tenha sido chamado a depor.

Até o presente momento foram identificadas 1. Com certeza. indicações de cargos para postos de entradas e caminhos etc. há situações fronteiriças que acabam gerando nuances entre as duas distinções referidas. tal levantamento permite que se vislumbrem as práticas sociais. pouco a pouco. No entanto.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 242 que ele nos legou através dos registros paroquiais de batismo da Igreja de Nossa Senhora do Pilar de Vila Rica. sejam extraídas informações úteis à pesquisa. que. que trabalharam no levantamento dos dados. apenas àquelas registradas na paróquia estudada. cabe salientar que ela se divide entre a pública (que diz respeito a transações comerciais.668 cartas.indd Sec10:242 4/12/2009 15:03:23 . Rastrear redes de compadrio nessas séries documentais envolve a leitura de milhares de atas paroquiais para que. as preocupações de natureza econômica dominam o conjunto da documentação epistolar em questão. cobrança de impostos. Em relação à correspondência. Embora reduzido em escala. Foi a partir dessa documentação que iniciei o rastreamento da prática de compadrio envolvendo o contratador. Além de dispendioso. Um exemplo disso pode ser percebido na correspondência entre João Rodrigues de Macedo e Inácio José de Alvarenga Peixoto. Fapemig/ UFMG/Casa dos Contos. Isso para não mencionar o material a ser identificado no Fundo Casa dos Contos. e fornece pistas para interpretações globais do fenômeno. tal levantamento não diz respeito ao conjunto das relações de compadrio efetuadas pelo contratador. Arquivo Público Mineiro e Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Em razão do envolvimento desses dois personagens na Inconfidência Mineira. contei com detalhadas informações biográficas a respeito deles. por exemplo. Soube. Sou grato a Maria José Ferro e Maria Teresa Gonçalves.). que se encontram distribuídas pelas seguintes instituições: Biblioteca Nacional (Rio de Janeiro). de vizinhança. Alvarenga Peixoto convidou Ma12 Banco de dados da paróquia de Nossa Senhora do Pilar de Ouro Preto. em 1788. de amizade etc. do Arquivo Nacional.12 A correspondência do contratador é surpreendentemente extensa. A documentação batismal também é volumosa.) e a privada (relações familiares. AF_livro final ok.

do seu antecessor. a ortografi a foi atualizada e as abreviaturas desdobradas. porque até os paióis ficaram despejados de todo. duas peças de baeta azul. e não tenho partido para a Campanha à espera dos 243 REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA cedo para ser padrinho de seu terceiro fi lho. o mais ele o irá pagando do que fizer. Faça-me o favor de mandar dar ao portador desta oito arrobas de ferro e duas arrobas de aço.indd Sec10:243 4/12/2009 15:03:23 . Ora pois a Campanha graças a Deus pode com tudo. Ele por ora não pode botar mantimentos.13 Trata-se. Nesse documento. redigida em São João del Rei: homens que até o presente não têm chegado. No entanto. vá logo para a minha conta. veremos o que ele faz. que a casa ficou nua e destituída de tudo. Amigo e Senhor. e vai de assistência para a Paroupeva (sic). a continuação do texto revela que a carta também trata de assuntos comerciais e pedidos de empréstimos: Meu cunhado leva vinte negros. de uma correspondência privada. sendo um Menino. e isto que eu mando dar.Sr. José Eleutério. e como a Senhora Dona Bárbara já pariu um Menino que é mais um criado de Vossa Mercê. Bem sabe que eu sou. como se pode notar. AF_livro final ok. e para tingir por princípio. conforme se pode ler na missiva a seguir. Recebi a de Vossa Mercê em resposta da que lhe mandei. Desejo-lhe todas as felicidades e muitas ocasiões de obedecer-lhe. Outra questão importante é como interpretar a correspondência subsequente: ela deve ser decifrada sob o crivo das relações de com- 13 Apud Lapa (1960:73). e fico no que me diz. Deus me dê paciência. nada mais me demora e por estes oito dias parto. como nos que se seguem. carece disto. e conheceremos quanto difere. João Rodrigues de Macedo. e duas bruacas de sal.

de uma iniciativa unilateral. é necessário lembrar que o batismo era a porta de entrada da Igreja Católica. colocandoas a serviço da difusão do batismo. para evitar interpretações mistificadoras da documentação. Os sinais de estar a criança embruxada não são fáceis de conhecer. Daí a preocupação constante das autoridades eclesiásticas em velar que o sacramento fosse aplicado.14 14 Gusmão (2004:141).. porque isso é o que o demônio principalmente pretende.um Menino que é mais um criado de Vossa Mercê”. pois ocorre de a referida relação ser apresentada de forma muito sutil. AF_livro final ok. e outros domésticos animais. grifo meu. que é o batismo. como ocorria nas pregações sobre os perigos impostos aos infantes pelas feiticeiras: Costumam estas bruxas entrar às crianças em figuras de gatos.indd Sec10:244 4/12/2009 15:03:23 . Crenças populares muito arraigadas demandavam rituais de purificação e proteção de recém-nascidos. e a seus santos pelo remédio do corpo.. Essa escolha só aparentemente é de fácil implementação. A pergunta que se faz frequentemente é sobre o nível de cobertura do registro eclesiástico. porém. ou picaduras de alfinetes. pode ser sinal (como notou Del Rio) ver algumas gotas de sangue. por isso é necessário que. Não se tratava. haja nisto muita vigilância. naqueles dias antes do batismo. Em termos mais simples: todas as crianças recém-nascidas e escravos adultos recém-chegados eram batizados? Para se entender isso. ou os beicinhos feridos da peçonha. elegi como critério metodológico selecionar somente cartas que mencionassem de forma explícita o vínculo de compadrio.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 244 padrio? Ora. A própria Igreja se reapropriava dessas crenças. o que contribuía para a adesão geral ao sacramento ou mesmo um culto à água batismal. como pode ser percebido no convite da carta acima: “. e se acaso enxergarem algum destes sinais. acredito que não e. A documentação paroquial também não é destituída de problemas e desafios. é necessário acudir primeiro ao remédio da alma. cachorros. e logo a Deus. Uma sociedade que não cuidasse de batizar crianças nem mesmo poderia ser considerada cristã.

aliás. constituía uma fonte de pressão para que o sacramento do batismo fosse difundido. AF_livro final ok. constituindo testemunho escrito. que teve de criar um “lugar” intermediário — entre o Céu e o Inferno — para abrigá-las. nem sempre seguida. Numa sociedade marcada por elevado número de iletrados. relativamente confiável. não garantia a universalização do batismo. Tudo isso. que podia ser utilizado na demonstração de provas genealógicas de pureza de sangue — elemento essencial no bom provimento dos cargos administrativos. principalmente nos primeiros dias de vida. nascidos localmente ou importados da África. na concessão das mercês etc. a data de nascimento. anotando a data do batismo. da mesma forma. Ver Le Goff (1993).15 15 A crença no Limbo é um exemplo de como a morte de crianças sem o sacramento do batismo devia ser comum no conjunto da cristandade. porém. marcadas por elevadíssimas taxas de mortalidade infantil. em casos de cativos vendidos de uma fazenda ou de uma vila a outra.245 REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA Razões materiais também levavam à adesão ao sacramento. Pode-se mesmo suspeitar de que. onde a distância entre o local de residência e a igreja acabava por engrossar as fi leiras do Limbo.indd Sec10:245 4/12/2009 15:03:23 . estimulava que senhores procurassem batizá-los. houvesse o risco do super-registro (ou seja. a cor e. a condição social. Os processos matrimoniais dele dependiam. esse documento representava um dos raros testemunhos escritos que provava o vínculo familiar e a condição social dos indivíduos. também deviam ser registrados os nomes e sobrenomes dos pais e dos padrinhos e suas respectivas condições sociais e cor — determinação. O Estado monárquico. a legitimidade. como no caso do tétano. A raridade de registros sobre a posse de escravos. assim como o nome da criança. o padre elaborava o assento de batismo em um livro. Pesava contra isso as próprias condições demográficas da época. rebatizados) e não do subregistro. que chegou a receber a denominação popular de mal dos sete dias. A opção metodológica para minorar os efeitos disso foi a escolha de uma paróquia que concentrasse população em seus arredores (sendo por isso defi nida como urbana). evitando o risco que devia ser muito comum nas áreas rurais. eventualmente. Após o ato sacramental.

1999:740. AF_livro final ok. tanto na área urbana quanto na rural. A inventividade e as resignificações desse laço social — que constantemente justapunha ou mesclava o sagrado e o profano — são tantas e tão surpreendentes que chegaram a ser definidas como exemplo do “pensamento selvagem do cristianismo”. que influenciava diretamente a carnal. no sentido de sacralizar as relações sociais para além da família consanguínea. 16 17 18 Venâncio. não há como negar que. criando laços de parentesco espiritual regidos pela doutrina cristã.17 Como se vê. gesto que os transformava em fiadores públicos daqueles que recebiam como afi lhados. os quais eram reconhecidos através da obediência. Sousa e Pereira.16 Pesquisas recentes confi rmam essa situação. Ter maior ou menor acesso a cargos do Estado e às demais mercês era algo regulado pela capacidade de estabelecer vínculos pessoais de amizade. como nos casos de testamentos que registram padrinhos declarando. ou então reconhecendo uma certa impessoalidade. em relação aos afilhados: “criei em minha companhia. que mostrar ser meu. Era usual. cabe salientar que a noção de amizade era um dos princípios ordenadores das sociedades pré-modernas. Sua existência possibilitava a constituição de laços com uma nova família espiritual. da fidelidade e da reverência do afi lhado. o sacramento batismal era registrado em grande profusão. tal compromisso significava privilégios e deveres.indd Sec10:246 4/12/2009 15:03:23 . servia para incorporar ou ordenar interesses laicos de natureza diversa. Nesse sentido. doze mil e oitocentos réis a cada um e a cada uma”. ao mesmo tempo.18 O compadrio atendia a inquietações teológicas. às quais eles respondiam em alto e bom tom. no momento do batismo. mas afi rmando: deixo a cada afi lhado de batismo. Faria. em contrapartida às múltiplas responsabilidades dos padrinhos. Klapisch-Zuber.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 246 Embora com maior ou menor rigor. Tanto no reino quanto na América portuguesa não se fugia a essa situação. 1998:216. o pároco fazer algumas perguntas aos padrinhos. e. 2006:276. não constituindo isso desvio da norma.

Klapisch-Zuber. p.. para a execução. registrado nas missivas de Bárbara Eliodora. esposa de Alvarenga Peixoto: “Senhor João Rodrigues de Macedo. 1999:742.20 No entanto. e por ele lhe rogo sua bênção com Xavier e Hespanha. sem que tal gesto fosse estigmatizado socialmente.. e nas calúnias. para o conselho. nos perigos. a amizade.indd Sec10:247 4/12/2009 15:03:23 .] Seu afi lhado vive. 1712-1728. e o bem por meio do qual logram os homens um dos maiores prodígios do ser Divino”. aliás.. Berti. para a necessária distinção entre a boa e a má amizade. meu compadre e senhor de minha maior veneração [. um tipo de relação teologicamente sacralizada. vínculo da vida civil. ou em sensualidade”. vistas como ‘normais’”. muitas cabeças [. muitas bocas que o defendem”. v. 1993. ou mesmo trocassem cartas.. AF_livro final ok. sujeita a várias formas de controle e condenação. A relação devia se constituir num “recíproco amor de benevolência. porém. Bluteau. muitos olhos e muitos braços.. 4. O laço selado na pia batismal permitia a criação da amizade ritualizada.21 poderia constituir uma ameaça. O compadrio era a solução teológica para que esse conjunto de relações recebesse o crivo normativo da Igreja. muitas mãos.19 20 21 22 247 REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA tal como a entendemos no mundo contemporâneo. por ter distintos fundamentos. uma mesma alma em dois ou vários corpos.. mas sua legítima efetivação: “De fato. que variam da virtude à utilidade e sensualidade.] a afeição fundada em conveniência. 381-393. fundado em boa razão e em virtude. Muito aceito era o princípio aristotélico de a amizade representar a “unidade com pluralidade”.19 Os textos de época alertavam. portanto. conceber mercês ao ‘mais amigo’ eram situações sociais cotidianas e corporificavam a natureza mesma das estruturas sociais. Daí os dicionários alertarem para o “indigno do título de amizade [.] e. 2002:318. perspectiva também expressa nos ditados populares: ter amigos é “ter. fato.22 Na sociedade patriarcal isso permitia que homens e mulheres estabelecessem convívio. sendo.

Macedo apadrinhou. 24 AF_livro final ok. as relações de compadrio permitiram a refundação de laços comunitários estilhaçados pelo tráfico. é possível perceber que João Rodrigues de Macedo era muito requisitado como padrinho. Sousa e Pereira (2006:276).24 ou mesmo regularam relações potencialmente de confl ito nos casos em que grupos étnicos rivais eram misturados nas senzalas. o compadrio também permitiu que se camuflassem relações ilegítimas de concubinato — transfiguradas nas combatidas “amizades sensuais”. subverteu projetos políticos. seis meninos e nove meninas. Goldschmidt (1989:242). ver Venâncio. ver Faria (1998:216-217).27 É justamente essa apropriação laica do sacramento que a documentação analisada revela.26 O ritual.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 248 o mais vivo desejo da saúde e felicidade de Vossa Mercê de quem sou compadre a mais obrigada”. Em Vila Rica. ou seja. não raramente. constatou-se que a maioria dos governadores da capitania estabeleceu laços de compadrio com a elite local. em 1775.25 Atuando no sentido contrário à pregação religiosa. 2007. 26 Maia. 1997. 25 Florentino e Goes. praticamente uma ocorrência 23 Apud Oliveira. São João del Rei e Juiz de Fora também foram constatadas redes semelhantes a essa. e Silva. por exemplo. como as realizadas em outros países e períodos. Brugger e Kjerve (1991:234). Através das atas batismais. Rios (2000). Gudeman e Schwartz (1988:33-59). 2004. No mundo escravo. 2004:50. Como em outras partes da América portuguesa. 1981:15.28 De seu estabelecimento em Vila Rica. aspecto constatado quando se confi rma que “qualquer desejo por parte da Coroa portuguesa de manter as autoridades reais independentes dos interesses locais foi subvertido pelo compadrio”. envolvendo dezenas ou até mesmo centenas de afilhados de um mesmo padrinho. Pesquisas brasileiras a respeito do tema. 15 crianças. Brugger (2007:303-312) e Oliveira (2005:176). até o ano da Inconfidência Mineira. dessa forma. 28 Em Campos dos Goitacazes. ele constituiu ampla rede de compadrio. somente na paróquia de Nossa Senhora do Pilar.23 O sucesso popular do sacramento batismal. 27 Ramos. têm revelado as múltiplas reapropriações do compadrio.indd Sec10:248 4/12/2009 15:03:23 . também se deveu a seu lado profano.

Por meio do sacramento na pia batismal. 1712-1728. 64. caracterizados como doutor ou dona. registra-se na tabela o compadrio com doutor Antônio da Costa de Azevedo. a relação de compadrio não era segmentada socialmente. 30 AF_livro final ok. As relações clientelísticas compensavam a brutal diferenciação de natureza social e econômica. ele aparece como “advogado do auditório”. doc. não descurando em tecer laços com membros das camadas médias (como no caso do ajudante. “possivelmente o homem mais 29 Bluteau. 24-12-1783. percebe-se que João Rodrigues de Macedo. doc. Na primeira linha da referida tabela. Tratavase da fi lha de José Luis Saião. cx. 73. Na documentação da Câmara de Vila Rica. concubina de José João Teixeira Coelho. Arquivo Público Mineiro.indd Sec10:249 4/12/2009 15:03:23 .249 REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA por ano. em 1783. Solicitação de pagamento por serviços prestados à Câmara — Antônio da Costa de Azevedo — advogado. Essa aproximação reforçava laços há muito existentes. esse personagem é registrado como um proeminente advogado. Ver Salgado (1985:328). que uniam o intendente Teixeira Coelho ao contratador Rodrigues de Macedo. 58. cx. patente militar no nível de tenente)29 ou pertencentes à elite. em 1777. Josefa Fidelis Molina de Velasco. sugerindo uma concepção de sociedade baseada na troca de favores. assim como de ex-escravas. Ricos e pobres eram aceitos como compadres. até 1778. Em relação a essas crianças. tornou-se compadre de d.30 Eventualmente esse vínculo também se expressava de forma indireta. Em 1791. tal situação era. intendente do ouro de Vila Rica. na circulação de dádivas e contradádivas. Arquivo Público Mineiro. registram-se 12 brancas e três pardas livres. funcional. As formas de tratamento e títulos registrados na documentação relevam essa multiplicidade de laços sociais. proporção semelhante sendo observada em relação à fi liação: 10 fi lhos legítimos. por assim dizer. Em relação a este último segmento. Rodrigues de Macedo se tornou “parente espiritual” de crianças abandonadas ou bastardas. Cargo que exigia curso de oito anos de direito. No universo escravista. Câmara Municipal de Ouro Preto — CMOP. Câmara Municipal de Ouro Preto — CMOP. 68. três ilegítimas e duas enjeitadas. Conforme foi possível perceber. secretário de governo da capitania de Minas Gerais e.

Ana Ferreira da Cunha Fontes: Livros de batismo da paróquia de Nossa Senhora do Pilar. João Guedes Pinto D. AF_livro final ok. Josefa Fidelis Molina de Velasco 30-4-1778 Mariana Leg. Ajudante Manoel Fagundes da Costa Ângela Teresa D. Alexandre da Costa de Oliveira Micaela Francisca dos Anjos D.31 Rede de compadrio de João Rodrigues de Macedo Batismo Afilhado Condição Pai Mãe Madrinha 14-10-1777 Francisco Leg. Antônia Teresa de Jesus D. Ana Margarida Antônia da Conceição Ana Maria Caetana Pereira 18-2-1787 Gertrudes Leg. 31 Coelho (2007:128). Manuel Luís Ana Maria do Pilar Joana Perpétua Felícia de Castro 8-2-1786 Lourença Nal. Incógnito Genoveva Rosa parda forra Ana Maria de Queiróz Coimbra 27-6-1786 João Ex. José Pedro Alves Maria do Nascimento de Jesus D. Maria Micaela de Melo 21-10-1787 João Ex. Rosa Maria de Fontes 10-10-1782 Josefa Leg. José Marques Guimarães Genoveva Maria Rosa N/C 22-5-1781 Maria Nal. Inácia Rosa Angélica da Silva 19-11-1778 Maria Leg. UFMG/ Casa dos Contos/Fapemig. Banco de Dados da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar do Ouro Preto. Incógnito Vitoriana Maria Guedes parda forra D. Mariana de Jesus e Lana 8-11-1778 João Leg. Francisco Fernandes de Sales Tomásia Leite da Silva D. Francisca Antônia Xavier de Souza 28-8-1781 Justiniana Nal.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 250 rico da Capitania e. Incógnito Incógnita Ana Maria de Queiróz Coimbra 15-10-1786 Raimundo Leg.indd Sec10:250 4/12/2009 15:03:23 . Antônio da Costa de Azevedo D. Dr. Ana Maria do Nascimento N/C 13-6-1785 João Leg. João Correia Lima Maria da Conceição D. Domingos Fernandes Barros D. Inácia Rosa Angélica da Silva 14-12-1782 Crecência Leg. Ouro Preto. José Marques Ferreira Prudência Constância de Oliveira D. Incógnito Incógnita D. em simultâneo. o principal devedor da Real Fazenda nos fi ns do século XVIII”. Maria Teresa 25-3-1789 Florência Leg. Sou grato ao professor Caio Boschi pela lembrança dessa informação.

33 O compadrio de consanguíneos reforçava laços preexistentes. diferentemente de Macedo. a elite parece ter sido mais seletiva na aceitação de compadres estranhos aos consanguíneos. a importância do vínculo batismal na ampliação da rede familiar “espiritual” do Rodrigues de Macedo.indd Sec10:251 4/12/2009 15:03:23 . AF_livro final ok. com parentes envolvidos na conspiração.32 33 34 35 251 REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA A documentação paroquial também sugere que os vínculos entre os inconfidentes se formaram bem antes de 1789. seja por preocupação de proprietário. 1989:165. 1998:213. De todo modo.34 As alianças tecidas pelo contratador parecem não seguir o princípio da consanguinidade. Isso não decorria da falta de proximidade com cativos. Rodrigues de Macedo se preocupava com o destino da escravaria. tios.32 Em outras áreas da América portuguesa. Jardim. avós etc. tratando até mesmo de conseguir médicos para assistir aos doentes: Catão. 1981:29. não foi constatado o estabelecimento de qualquer laço de compadrio. percebe-se. quando o contratador estava falido. na ausência ou na raridade de parentes consanguíneos. Tais vínculos chegavam até mesmo às camadas populares. Rodrigues de Macedo tornou-se compadre de João Guedes Pinto. Em 1782. como nos casos de compadrios com as pardas forras Vitoriana Maria Guedes e Genoveva Rosa. devido à ausência de fi lhos batizados no Pilar. Rio de Janeiro. Na cidade de Campos dos Goitacazes. pois a proximidade entre irmãos. 2005:276. 23 escravos e escravas trabalhavam em sua residência em Vila Rica. Em relação aos escravos. Souza. Mesmo no início do século XIX. furriel. assim como ao fato de o registro analisado não indicar compadrios com parentes residentes em outras localidades. Nesse sentido. existe independentemente da relação criada na pia batismal. Faria.35 Seja por paternalismo. em fi ns do século XVIII: “os com mais de trinta escravos foram os que tiveram maior percentual de familiares como padrinhos de seus fi lhos”. sua incidência pode ser interpretada como um sinal de diminuição de importância do vínculo de parentesco espiritual.

em contrapartida. Em casos extremos.] os quais. O compadrio criava laços de respeito e proteção superiores aos preceitos escravistas. Por ir duas vezes à Chácara ver um negro casado. o senhor que aceitasse tal vínculo estaria socialmente condenado a não mais ordenar que o escravo fosse castigado. a constatação da ausência de parentesco espiritual com esses cativos não chega a ser uma surpresa.. No caso das forras registradas como comadres. que foi para Antonio Dias .indd Sec10:252 4/12/2009 15:03:23 . Conforme viajantes do início do século XIX observaram. AF_livro final ok. O governador da capitania tentou até mesmo impedir que forros apadrinhassem escravos. e este indicou que os senhores nunca apadrinhavam os próprios escravos. sugeririam “inclinação a revogar algo de seu próprio poder”. ½. o compadrio foi alvo de política metropolitana.. Casa dos Contos.36 Por outro lado.. temendo que “o respeito e deferência devidos aos senhores fossem desviados para os padrinhos [. com um reumatismo . Por assistir a um negro que veio do Jacuba. todo este mês 5/8 e ½.. evitavam a todo custo aceitar essa incumbência.. Há mais de uma década. No período analisado. se assim fizessem. também é necessário evitar simplificações. poderiam se sentir moralmente obrigados a ajudar os afi lhados a escapar ou a se rebelar”. como em Minas do início do século XVIII. Arquivo Público Mineiro. embora não enfrentassem impedimentos legais. Os autores efetuaram o levantamento dos registros de batismo de paróquias do recôncavo baiano. 6 /8. uma pesquisa realizada por Stephen Gudeman e Stuart Schwartz (1988:49) revelou uma importante dimensão do compadrio na sociedade escravocrata. rolo 523.. porque. 74. CC-cx. Os proprietários. Acreditava-se que o compadrio e a escravidão eram instituições incompatíveis. que corresponde 36 Lista de dívida com os serviços médicos prestados aos escravos de João Rodrigues de Macedo. Por assistir ao preto Carvalho com um reumatismo gálico.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 252 Março de 1801.

Como se não bastasse isso. Tal situação demonstra a importância de se pensar na noção de rede de compadrio. esse vínculo sugere uma típica relação clientelística de dependência.37 253 REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA ao apogeu da fortuna de João Rodrigues de Macedo. na década de 1780. Em se tratando de uma mulher forra. No entanto. Em 1781. como veremos a seguir. o simples fato de se estabelecer publicamente a relação de compadrio implicava a imediata criação de expectativas sociais que deveriam ser cumpridas. dona Francisca Antonia Xavier de Souza. Acesso em: 1 fev.indd Sec10:253 4/12/2009 15:03:23 . de pai incógnito. Vitoriana Maria Guedes — forra comadre de Rodrigues de Macedo — teve como madrinha de sua fi lha Maria. cabe lembrar que um ano antes do batizado da fi lha da referida forra. Ao reconstituir a genealogia familiar dessa mulher. Este último não só aceitou esse encargo como também fez da esposa — d. uma hipótese a ser desenvolvida é saber se. paradoxalmente. AF_livro final ok. Mesmo que isso tenha ocorrido. eventualmente. o contratador João Rodrigues de Macedo não estaria. 2005. podia haver elementos de reciprocidade social. ex-escravas também podiam deter um capital relacional de primeira grandeza. através de um laço de compadrio estabelecido com uma simples forra.37 Tratava-se da esposa do doutor Gregório Pereira Soares de Albergaria. foi “escrivão da Receita e Despesa da Real Casa de Fundição de Vila Rica”. homem muito poderoso e que. Para além da criação de vínculos hierárquicos. Albergaria convidou para padrinho do fi lho o governador Rodrigo José de Menezes. que teria gerado o nascimento da fi lha ilegítima apadrinhada.pt>. dona Leonor Francisca Xavier de Souza Albergaria. me deparei com a presença de uma irmã. Disponível em: <http://genealogia. que transformavam uma ex-escrava em uma importante intermediária. poder-se-ia suspeitar de que o compadrio seria a forma de encobrir uma relação sexual extramatrimonial. Maria José de Eça e Bourbon — a madrinha. reforçando relações sociais na elite. Portanto.sapo. a reconstituição das redes de compadrio revela que.

conforme é possível ler na missiva a seguir.] responder por causa da moléstia grave que tive e lancei sangue pela boca e agora que Nosso Senhor me fez mercê dar melhora vou a presença de Vossa Mer38 Faria.indd Sec10:254 4/12/2009 15:03:23 . Nos casos em que ele batizou por procuração. De certa forma. Tal convento foi fundado em 1749. Antes de a menina ser alfabetizada. As atas batismais registram o compadrio vivenciado na paróquia em que o contratador residia. Essa correspondência revela que.. Escolhia-se cuidadosamente com quem manter aliança”. Da década de 1780 em diante. 39 AF_livro final ok. mesmo em se tratando de um caso de paternidade ilegítima. Ana Maria havia sido enviada ao Convento de Nossa Senhora da Ajuda. essa documentação completa lacunas dos livros paroquiais da Igreja do Pilar. as relações com afi lhados e compadres passaram a depender da escrita ou de intermediários que levassem recados pessoalmente. João Rodrigues de Macedo tinha afi lhados e afi lhadas em outras localidades.. datada de 1785: Meu Senhor de minha maior veneração e respeito. frei João da Cruz. por ordem do bispo d. Ver Algranti (1993:84). Uma estudiosa do tema sublinhou que essa situação é reveladora da importância do ritual: “a própria situação de existência de procuradores para batismo demonstra o quanto o estabelecimento de relações rituais era importante naquela sociedade. a superiora da instituição escreveu regularmente ao referido padrinho.] presentemente [não] tem sido possível [. embora também se registre correspondência ativa).EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 254 Essa situação ficou registrada em outra série documental de grande importância. Ainda muito jovem.. Trata-se da correspondência legada pelo contratador (em sua esmagadora maioria passiva. 1998:214-215. as demandas e expectativas sociais giravam na órbita do compadrio. moradora no Rio de Janeiro.38 Além dos apadrinhamentos em Vila Rica. o contratador manteve correspondência direta e indireta com uma de suas afi lhadas: Ana Maria do Espírito Santo. 39 da referida cidade. [..

] 40 Era por ser padrinho que Rodrigues de Macedo deveria velar pelo destino e pela vida material da menina.. ela fica boa. Cá veio Luis Pinto Gouveia pessoalmente trazer-me a carta. 40 Carta de Perpétua Maria de Santa Ana a João Rodrigues de Macedo sobre notícias de sua afi lhada e agradecimento pela esmola. pois sou muito interessada em todas as suas felicidades.. muito na sua boa educação [. faça o mesmo que desejo ache a Vossa Mercê assistido de boa saúde. e o dito senhor com todo cuidado [e] desvelo. 25 dez..indd Sec10:255 4/12/2009 15:03:23 . CC-cx.] as felicidades que lhe sabe apetecer o meu sincero afeto. tenho escrito várias cartas a Vossa Mercê e de próximo o repeti e como agora tenho este por certo. basta ser afi lhada de Vossa Mercê [para] que eu a ame e estime muito o cuido. que me segura ser entregue. e falar-me. A importância do laço de parentesco residia não na imediata e obrigatória concessão de bens de fortuna ou mesmo de atenção. rolo 20. livre de moléstias [..com as suas notícias e desejo Nosso Senhor lhe continue saúde muito inteira. mas na possibilidade de solicitá-los.] fazer minhas vezes e logo com toda 255 REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA cê dar-lhe satisfação de mim e certificar-lhe alegrei-me muito brevidade teve a entrada da menina. e galante. que faz com que todas lhe queiram principalmente em que lhe tenho grande amor. e por estar de cama eu [mesma] lhe não falei. AF_livro final ok. livre de tudo que lhe pode dar moléstia. pois desejo a Vossa Mercê todo bem como próprio. datado de 1791: Meu Senhor muito da minha veneração e respeito.. Arquivo Público Mineiro. 1785. mas mandei uma Religiosa [. por via de Dona Francisca. muito esperta. como se fora alguma das minhas sobrinhas.499.. 101. e prontidão fez tudo que na verdade achei [muito] capaz para em ausência servir a um amigo. Eis um desses escritos. A menina entrou para esta Religião em dia de São Miguel com muito gosto meu e demais Companheiras.

indd Sec10:256 4/12/2009 15:03:23 .. sem nenhuma Letra. 74..256 Eu vou passando com as minhas moléstias. pois desejo vê-la bem arrumada. o padrinho não correspondia às expectativas sociais depositadas na relação espiritual de parentesco. esta indo se banha[r] de prazer todas as vezes que por minha consolação [. pois vejo Vossa Mercê muito esquecido dela. 1791. ela é muito boa e com muito bom procedimento. 42 Carta de Ana Maria do Espírito Santo à madrinha Ignácia M... há nove meses que lhe não dá nada [. solicitando auxílio desta última nas intercessões: Minha Madrinha e minha Senhora a quem sempre prezei muita estimação.] grande esmola que ele quer fazer. CC-cx. rolo 523. os [.41 Em outras palavras. a própria Ana Maria passa a cobrar o auxílio a Rodrigues de Macedo. como Deus quer. que se faz amável. rolo 523. Uma vez crescida. às vezes escrevendo para a madrinha. AF_livro final ok..] feitos desta foram bem prestados quando tive o feliz recebimento desta estimadíssima carta. À minha amada Madrinha. eu não sei expressar a Vossa Mercê o muito amor que lhe tenho. a qual fico esperando muito certa [. Nosso Senhor a tome a sua conta.. CC-cx. porque Luis Pinto.. 16 jun.. a quem Vossa Mercê encarregou-o servir com as mesadas.] e para ir passando tenho pedido emprestado e peço a Vossa Mercê mande pagar e pelo amor de Deus mande por assistência a Menina e Vossa Mercê a não desampare.. Arquivo Público Mineiro.] Vossa Mercê não se esqueça com seu respeito de esforçar o meu Padrinho na [. de Franca. nunca lhe escreve e nem assistência tem. a EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA nossa menina boa.. da Pa. Arquivo Público Mineiro. 15 ago. 74. 1797. e Vossa Mercê a não desampare. e já muito crescida. eu não tenho expressões com que possa expressarlhe os transportes que teve minha alma.] 42 41 Carta de Perpétua Maria de Santa Ana a João Rodrigues de Macedo a respeito da afi lhada.

Recebais essa ninharia de dote que servirá para as orações de seu serviço. ao escrever ao padrinho. Em 1798. João Rodrigues de Macedo.] sem merecimento algum. Ultimamente oferto a meu Padrinho e Senhor estes sabonetes. AF_livro final ok...43 Diante dessa demanda.. e estou persuadido do muito que me amais [.. Recebi a vossa carta pelo próprio..] da sua costumada caridade para meu sustento [.. Arquivo Público Mineiro.] será de sua estimação.. 19 abr. a afi lhada pede a doação de um escravo.. e um Rosário de Jerusalém.. que por [cá] está muito caro....Meu Prezado Padrinho e Senhor [com aquele] afeto com que sempre o venerei e com humildade e muita submissão vou nesta [. quisera me mandasse [.. CC-cx. rolo 523.. que vossa mãe me enviou. ou pelo menos parcialmente atendidos. que além de fazer o meu calçado.] no que tenho muitas faltas e também de escravo para meu serviço a que. não da [. protegida até o presente de um tão estimável Padrinho [. o qual não desconheço.] 43 Carta de Ana Maria do Espírito Santo a seu padrinho. para seu uso.] de sentir o incomodo que tivestes para com ele me dareis melhor a conhecer o vosso afeto.indd Sec10:257 4/12/2009 15:03:23 . 74. que muito vos agradeço.] um moleque para pôr ofício de sapateiro. não dando incômodo a meu Padrinho e Senhor. o contratador — num período em que estava amargando grave crise fi nanceira decorrente de seu endividamento — responde da seguinte forma: Minha afi lhada... e juntamente para me servir de utilidade no seu jornal... 1798. e por ele recebi também o vosso mimo.] 257 REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA A coleção de cartas mostra que esses pedidos eram atendidos. e tudo vai bento.] beijar-lhe a mão [. e igualmente um bentinho. sobre sua escolha de vocação religiosa e pedido de compra de escravos. avançando contradádivas em bens do dia a dia ou de natureza religiosa: Mas preciso dizer a meu Padrinho e Senhor sobre a necessidade [. que [.

]. 46 Carta de Manuel Joaquim a João Rodrigues de Macedo sobre a confi rmação da entrega das cartas a madre Perpétua e sua afi lhada Ana e envio das despesas do convento. 17501822. AF_livro final ok. 45 recurso que possibilitou a permanência da protegida na vida religiosa.44 Novas cartas indicam que os clamores da afi lhada. apesar de todas as dificuldades fi nanceiras que enfrentava. Arquivo Público Mineiro. 45 Mattoso (1982:95). Rio de Janeiro: José Olympio. e pelo mesmo vos re- EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA meto uma barrinha [de ouro] com dezesseis mil e duzentos e oitenta seis réis.104.] Lanço a minha bênção com todo amor e vos encomendo que peçais a Deus por mim. para com ela vos comprares o de que mais carece. que me ajude a cumprir o que desejo. rolo 523. de ordem material ou sentimental. 1797. 79. s/d. e ele como lhe Rogo [.. Macedo concedeu a Ana a “esmola” de 2. consideradas legítimas.588$800 réis. certo de que nunca se afrouxará em mim. 44 Carta de João Rodrigues de Macedo a Ana Maria do Espírito Santo. afi lhada. condição feminina nos conventos e recolhimentos do Sudeste do Brasil. madrinha e aliada religiosa surtiram efeito: em 1797.. uma verdadeira fortuna. rolo 20. Leila Mezan. 1993. que permitia a compra de 20 escravos adultos.. CC-cx. e de que o mais breve que me for possível há de cuidar em [arrumar-vos] na vocação que tendes e de que faço muito gosto de vendo vos Rogar a Deus. REFERÊNCIAS ALGRANTI. O letramento facultava que isso ocorresse mesmo em situações de ausência de convívio cotidiano entre padrinhos e afi lhados.46 É a partir desses testemunhos epistolares que se deve interpretar os dados brutos da tabela.258 Agora pelo portador lhe torno a escrever.. pouco mais ou menos [.indd Sec10:258 4/12/2009 15:03:23 . Honradas e devotas: mulheres da colônia. 74. creio que andais por 21 anos. Arquivo Público Mineiro. 12 jun. As expectativas sociais depositadas no compadrio davam origem a demandas. A respeito de vossa idade. CC-cx.

A colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial. 1997. Rio de Janeiro: Francisco Alves. SCHWARTZ. 20. A paz das senzalas: famílias escravas e tráfico atlântico. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Carla Maria C. Stephen. Ricos e pobres em Minas setecentista: a sociedade colonial polarizada. Rio de Janeiro. ———. KJERVE. 2007. Acesso em: 30 nov. Estudos Afro-Asiáticos. GOLDSCHMIDT. Paris: Vrin.BERTI. 2004. Belo Horizonte. 1998. In: DHERBEY.indd Sec10:259 4/12/2009 15:03:23 . GUDEMAN. 119-159. AUBRY. José Roberto.). Gilbert Romeyer. p. BRUGGER. p. 1991. Anais. Sheila de Castro. Disponível em: <www. n. Stuart. São Paulo: Annablume. João José (Org.. 2002. Eliana Maria Réa. GOES. 33-59. 1976. Gwnaëlle (Dirs. v. Le rapport entre les formes d’amitié selon Aristote. Leandro Pena. 2005. 1988. In: Reunião da Sociedade Brasileira de Psicologia Hospitalar. Rio de Janeiro. Instrução para o governo da capitania de Minas Gerais. BLUTEAU. 3. CATÃO. de. Silvia Maria Jardim. 8.. 1782. São Paulo: Brasiliense.ieb. 2007.1790-1850. Raphael. Sacrílegas palavras: Inconfidência e presença jesuítica nas Minas Gerais durante o período pombalino. Coimbra: Colégio das Artes da Companhia de Jesus. 259 REDES DE COMPADRIO EM VILA RICA ALMEIDA. 1989. 1712-1728. estudos sobre o negro no Brasil.br/online/index. COELHO. 1754-1766). Manolo. Purgando o pecado original: compadrio e batismo de escravos na Bahia no século XVIII.). FLORENTINO. Elizabeth. L’excellence de la vie: sur l’éthique à Nicomaque et l’éthique à Eudème d´Aristote. 2008. Minas patriarcal: família e sociedade (São João del Rei — séculos XVIII e XIX). Enrico. Belo Horizonte: Secretaria de Estado de Cultura/Arquivo Público Mineiro. Vocabulário portuguez & latino. Compadrio de escravos em São Paulo colonial. 8v. usp. Compadrio: relação social e libertação espiritual em sociedades escravistas (Campos. c. FARIA. AF_livro final ok. Família e rede social. Dissertação (Mestrado) — UFMG/Fafich. Escravidão e invenção da liberdade. de Caio César Boschi. Org. M. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. José João Teixeira. Ofi cina da Inconfidência Revista de Trabalho.. T. BOTH. In: REIS. N. 2005.asp>.

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AF_livro final ok.indd Sec10:262 4/12/2009 15:03:23 .

10 Os vínculos interfamiliares. ou seja. metodologia e fontes* Cristina Mazzeo de Vivó Na década de 1970. sociais e políticos da elite mercantil de Lima no final do período colonial e início da República: estudos de caso.indd Sec11:263 4/12/2009 15:03:23 . estudos de biografias coletivas dos membros de uma categoria social específica. a da dependência. ∗ Tradução de Catalina Arica. Mais tarde. mais local. por exemplo. com o enfraquecimento do paradigma marxista. em geral elites sociais e políticas. ganhou ênfase. as histórias de famílias superaram a análise puramente genealógica e passaram a ser realizados estudos do ponto de vista prosopográfico. a história mais diversificada. AF_livro final ok. no fi nal da década de 1980. que enfatizou o conceito de subdesenvolvimento na América Latina. com o avanço da análise marxista e as teorias estruturalistas que entendiam a história como processo. Surgiram nessa época análises regionais para entender as mudanças ocorridas em determinadas conjunturas. como. surgiram interpretações importantes de caráter geral que marcaram o advento de diferentes teorias.

AF_livro final ok. ao se tratar de casos específicos. por sua vez.indd Sec11:264 4/12/2009 15:03:23 . Os novos estudos de alguma forma conseguiram esmiuçar aquelas teorias de conjuntos com o objetivo de aprofundar mais as especificidades de cada sociedade. é aumentar a escala de observação. histórias da vida cotidiana. como sustentam G. mas chegar ao particular para entender de forma mais clara esses processos de mudança. Passou-se então da história política e econômica. A utilização dessa metodologia permite. foi renovado graças a documentos que começaram a revelar discursos contraditórios. Ou seja. surgiu de um grupo de historiadores italianos que lançaram uma série de propostas para trabalhar assuntos comuns. O surgimento dessa nova história social. assim. 1 Vincent. que têm sido determinantes quando relacionadas à expansão da micro-história.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 264 A ideia não era analisar grandes processos de mudança. por sua vez. das instituições foram tomando o lugar das histórias totais. é trocar a escala de observação. as qualidades e. focar-se mais no sujeito e em suas relações do que nas estruturas. Dalla Corte e D. como defende María Luz González. colocavam em xeque essas mesmas conclusões. Como sustenta Giovanni Levi. das pessoas comuns. chegar a generalizações específicas. Analisando-se o panorama geral era possível chegar a determinadas conclusões que. Não se trata de uma técnica ou de una disciplina. relacionadas à busca de interpretações globalizantes e teorias generalizantes. mas de um enfoque diferente. a partir da análise de diferentes estudos de caso. história da mulher. da análise de grandes assuntos como o Estado nacional. A nova história social tomou de empréstimo ferramentas de análise da sociologia e da antropologia e a influência enriquecedora da historiografia mais diversificada. captar as especificidades. o que tornou obrigatório recorrer a novas fontes primárias.1 A micro-história. 2002. mais tarde. para uma história social e cultural que se entrelaça com as mentalidades e que engloba. a Revolução Industrial. conceitos da micro-história. a transição do feudalismo para o capitalismo. como se pudéssemos usar um microscópio. Barriera (2003). Histórias locais.

econômico e político. o estudo das famílias de comerciantes apresenta-se como um objeto de análise de grande importância não só para entender e decifrar as estratégias utilizadas na época nos campos social. por exemplo. para a Argentina. e que tipos de estratégias foram utilizados para driblar os obstáculos surgidos nessa época. Portanto. a historiografia tradicional via nas reformas bourbônicas. Susan Socolow (1978 e 1985). Essa conclusão foi derivada das críticas que a instituição do Consulado do Comércio levou à Coroa naquela época. que vínculos estabeleceram com o poder político. inclusive tirando vantagem das medidas. especialmente na abertura comercial de 1778. e minhas próprias pesquisas para Lima (1994 e 1999) demonstram que houve um padrão de comportamento no que se costuma definir como “atitudes coletivas” ou estratégias. Foi necessário identificar os principais comerciantes para analisar com quem tinham se relacionado. para o norte do Peru. ao se realizar estudos de caso. para o caso mexicano. Conceito de estratégia Jean Paul Zúñiga (2003) define o termo estratégia como um conjunto de práticas e comportamentos que permitem alcançar ou che- AF_livro final ok. como tiveram acesso ao poder econômico. O estudo das famílias na América espanhola revela a existência de “redes familiares”. que tipos de atividades desenvolveram. Susan Ramírez (1991). comprovouse que nem todos foram prejudicados. laços em vários setores da sociedade e da economia. medidas que alteraram e prejudicaram os grandes comerciantes que estavam muito ligados ao monopólio comercial espanhol. e que relatavam a ruína dos comerciantes. por que alguns se beneficiaram mais do que outros.indd Sec11:265 4/12/2009 15:03:23 . ou seja. e que.265 OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES No Peru. em certas situações. Branding (1985). Entretanto. como também para compreender o verdadeiro alcance das medidas tomadas pelos Bourbon que tanto afetaram a classe mercantil. Trabalhos como os de D. os comerciantes conseguiram mais do que apenas se adaptar às novas circunstâncias. quem foram seus representantes no interior do país.

Na América. a solicitação de um cargo púbico ou de incorporação militar. Além disso. enquanto alguém da família cumpria o papel de assumir um posto na assembleia ou no cabildo. o que permitia ampliar a rede de relações mercantis e sociais. Por exemplo. os novos comerciantes estrangeiros. ficou comprovada a importância da mulher e seu papel na ampliação da rede mercantil. Um familiar na Assembleia significava ter um juiz por perto. e parecem ser um tipo de comportamento próprio das famílias de elite. ou até a compra de um título de nobreza. o acesso também a mão de obra. era uma espécie de escudo protetor contra a possibilidade de um julgamento pela Inquisição.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 266 gar a uma posição de privilégio como resultado de um esforço realizado. permitindo inclusive a distribuição de mercadorias entre os indigentes. Essas agendas matrimoniais não foram aplicadas apenas ao longo do século XVIII. por isso. seja através de um grupo familiar para alcançar ou manter um status social. Por exemplo. Que benefícios poderiam ser obtidos dessa maneira? Ter acesso a diferentes instituições governamentais. no século XVIII. o que permitiria escalar posições na sociedade. contar com um parente nas milícias dava às famílias o controle da população. as unidades do Exército estavam organizadas em milícias compostas por pessoas do lugar. em 1823. uma estratégia familiar era encaminhar um fi lho à carreira eclesiástica e outro à carreira militar. alguém que poderia intervir em seu favor quando de algum confl ito com o governo.indd Sec11:266 4/12/2009 15:03:23 . Se a família tinha fi lhas. já que muitos capitães de milícias eram também corregedores da região. Essas foram algumas das estratégias utilizadas ao longo do período colonial e durante os primeiros anos da república. principalmente os in- AF_livro final ok. Quando realizei os estudos de caso. o recomendável era que casassem com funcionários ou comerciantes recém-chegados. político e também econômico. Ter um parente na Igreja funcionava como uma carta de apresentação às autoridades religiosas para resolver problemas como a purificação do sangue. São habilidades postas em prática seja de forma individual.

levando em consideração os correspondentes dos comerciantes. que chegaram após a independência. Trabalhos como os de Gabriela dalla Corte.3 considero que rede é um conceito muito mais amplo que elite. Casaús. como demonstrarei mais adiante neste capítulo. Pesquisá-las permite um aprofundamento no campo econômico.indd Sec11:267 4/12/2009 15:03:23 . Andrea Reguera e Darío Barriera fazem um estudo detalhado desses casos. conflitos por dote e até pela propriedade da terra. 1994. por exemplo. Assim. enquanto as relações interfamiliares têm a ver com a interação delas em um espaço social e econômico determinado. Barriera em Corte e Barrier (2003:305).4 Pode-se ver. 2 3 4 Ver esses trabalhos em Corte e Barrier (2003). É um ponto de referência a partir do qual torna-se possível esclarecer conceitos ou definições totalizadoras. e que não são necessariamente integrantes da família. Esses indivíduos ligariam o grande comerciante com seus correspondentes tanto no exterior quanto no vice-reinado. Apesar de tudo o que já foi dito até aqui. que formaria um grupo oligárquico. como diz Zacaría Moutokias (2000). formando assim uma unidade ou grupo de elite. teríamos ou poderíamos reconstruir redes sociais interligadas entre si. Algumas vezes também se apresentaram como espaços de conflito.267 OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES gleses. casaram-se com mulheres locais da elite.2 Relações interfamiliares: elite Ainda que as redes familiares sejam defi nidas como um conjunto de famílias que configuram uma elite. Havia conflitos durante a distribuição de heranças. o complexo domínio de esferas de poder que essas famílias conseguiam controlar. social e político. além de procurarem representações em determinadas instituições ou cumprirem tarefas específicas para os novos governos com a fi nalidade de conseguir um espaço na sociedade. vale lembrar que os espaços familiares nem sempre eram de afinidade e solidariedade. AF_livro final ok. A rede abrange indivíduos que agem como conectores ou “mediadores”.

Já nos estudos de famílias. Fontes para estudo Trabalhar uma rede é muito mais complexo do que fazê-lo com um grupo de família de elite. diferentemente do que se acredita. no caso das famílias de comerciantes — nosso objeto de estudo neste capítulo —. conseguiu manter sua capacidade econômica depois da independência. nos AF_livro final ok. os identificam como integrantes da elite. além das relações com seus pares ou pessoas próximas ao governo do vice-reinado. é necessário consultar. No primeiro caso. desfrutam de prestígio social. testamentos e inventários de bens. foram integrantes e em alguns casos dirigentes do Consulado de Comércio de Lima. onde são anotados portos de destino.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 268 Entendo por elite. por herança ou por compra. como veremos mais adiante. como documentos de cartório. Para quantificar de alguma forma as atividades mercantis. como certidões de nascimento e casamento. o conjunto de pessoas que compartilham interesses comuns e. obtêm poder político. Essas características e a capacidade econômica. possuem uma riqueza composta não só de capital líquido. não bastando o uso de cartórios e testamentos. produtos. conta-se com uma quantidade maior de fontes documentais. nos quais ficam evidenciadas transações mercantis. depósitos outorgados. ou seja.indd Sec11:268 4/12/2009 15:03:23 . fazendas e propriedades urbanas. mas também expressa na capacidade de estabelecer importantes relações sociais. como costumava acontecer. Uma elite mercantil que. livros de alfândega. consignatários. Além disso. é importante consultar documentos do Consulado de Comércio. procurações. quantidades e preços. no caso de grandes comerciantes vinculados ao comércio exterior. além de pertencerem a uma ordem militar e contarem com um título de nobreza obtido por mérito no serviço do rei. intervêm em instituições do Estado colonial. empréstimos recebidos e pagos e dotes. então. Deve-se levar em consideração também os documentos de caráter social. Trata-se de um conjunto de comerciantes que realizaram funções comuns. é necessário contar com cartas pessoais dos comerciantes.

entre os quais se encontra a quantia de 1. pro- 4/12/2009 15:03:23 .. Esse dado é muito importante porque dá a conhecer a capacidade de locomoção e de adaptação que o comerciante chegou a ter nessa época tão conflituosa de fins do século XVIII. Quanto às cartas particulares. situações familiares e de negócios. voluntários ou forçados. devido às necessidades da Coroa. e o comércio de escravos realizado através de barcos neutros. o que posteriormente seria revertido em algum favor ou benefício econômico. documentos que especificam a situação do comerciante e sua relação com o Estado. a partir dessas cartas. Para incursionar no mercado interno. Por exemplo: Antonio diz ao irmão Juan Bautista. em 1804. Por exemplo.AF_livro final ok. que contêm registros dos contatos com os comerciantes itinerantes. mas são as mais ricas no que se refere a dados precisos sobre conjunturas políticas. não constituem a maioria dos documentos dos arquivos. empréstimos ao Estado — colonial ou republicano —. que se a Europa se perder — refere-se às conquistas de Napoleão — não terá dúvidas em se instalar em Londres e de lá realizar suas transações comerciais. No caso da distribuição de mercadorias para o interior do vice-reinado é preciso revisar os livros de checagem. pude analisar o comércio por ocasião da guerra com a Inglaterra. é necessário utilizar outro tipo de fontes. julgamentos. como conseguir importar mercadorias isentas do pagamento de alguns impostos. radicado em Lima.indd Sec11:269 269 OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES quais são registrados listas de eleitores. declarações de credores etc. consegui ter acesso ao arquivo particular da família Lavalle e. No meu caso. O Consulado de Comércio de Lima era o encarregado da arrecadação desses empréstimos. ainda existem arquivos privados de famílias aos quais só é possível ter acesso através de relações ou contatos muito precisos — ainda não estão ao alcance do público em geral. questões comportamentais. os comerciantes foram os principais credores do governo espanhol na entrega de “donativos da graça”. Nesses arquivos há referências muito interessantes à situação política do momento.5 milhões de pesos exigidos pela Coroa espanhola aos comerciantes de Lima para enfrentar os portugueses às margens do rio da Prata. No caso do Peru.

entre 1779 e 1821. Os comerciantes de Lima no século XVIII No século XVIII.063 indígenas. existiam riscos e podiam perder grande parte de seu capital em uma só transação.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 270 dutos e valor das mercadorias.: criollo é o nome dado em toda a América hispânica aos fi lhos de espanhóis nascidos nos vice-reinados. mas.029 por castas. O fazendeiro.632 espanhóis. Lima era uma espécie de grande corte. por exemplo. da troca. chega-se à conclusão de que. de província. dos quais 19. instituição que reunia os comerciantes. Basta ler os relatos dos viajantes da época. como Amadeé Frezier e Antonio de Ulloa. No trabalho com uma rede. 11. A cidade tinha 37.5 umas 213 famílias eram consideradas nobres ou pessoas de distinção. Mas também é necessário levar em conta que os ganhos rápidos vinham do comércio.indd Sec11:270 4/12/2009 15:03:23 . Mas manter esse nível de consumo só era possível com ganhos compatíveis — e isso acontecia através do comércio. 938 pessoas se dedicavam à atividade. dessa maneira. acima de tudo. armadores de barcos e caixeiros-viajantes. Havia comerciantes itinerantes. pode-se seguir a trajetória da comercialização pelos nomes proporcionados pelas cartas dos comerciantes e. Lima era também o lugar das reuniões e debates. AF_livro final ok. Ainda que os grandes comerciantes pudessem aumentar suas fortunas devido às grandes margens de lucro. tinha que esperar um tempo determinado para fazer a colheita e vender o produto. A terra também não permitia auferir rapidamente uma quantia em dinheiro — a não ser que fosse 5 N.237 habitantes. e 4. do T. dedicados às coisas pequenas. que descrevem o modo de vida dos limenhos. era o empório comercial onde os artigos estrangeiros encontravam um vasto mercado. Considerando-se os indivíduos matriculados no Consulado de Comércio de Lima. onde as mulheres gostavam de se vestir com muitos acessórios e vestidos suntuosos. Do grupo de espanhóis e criollos. visualizar o raio de ação do indivíduo.

os Pérez de Cortiguera. em que o prestígio e a hierarquia social eram o principal patrimônio para conseguir bons negócios mercantis. descendentes dos primeiros colonizadores. os irmãos Elizalde e Isidro de Cortázar y Abarca. que descendiam por linha materna dos primeiros conquistadores. Pode-se citar nomes como os Santiago y Rotalde. se ligaram a prestigiadas família criollas. mediante casamentos. Havia também os comerciantes por tradição. Essa família tem hoje descendentes 4/12/2009 15:03:23 . como os comerciantes venezianos do século XVII. empregados ou marinheiros e. especialmente porque muitos deles recebiam empréstimos com juros de instituições coloniais — a Igreja. especificamente de Amsterdã. Seu pai foi regente em Piura e um irmão mais velho morou primeiro no Chile e depois em Buenos Aires. A característica do comerciante na América foi a capacidade de combinar as formas de vida típicas dos grandes senhores. Isso prova o grau de mobilidade social que a vinda para a América permitia aos espanhóis — eles conseguiam aqui o que teria sido muito difícil de conquistar na mesma época na Europa. que ofereceram maiores possibilidades comerciais quando foram abertos ao comércio vários portos espanhóis e americanos.indd Sec11:271 271 OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES entregue como garantia para um empréstimo com juros. chegaram a ocupar a posição mais alta na sociedade colonial. como José Antonio de Lavalle y Cortés. Ainda assim.AF_livro final ok. como os Sáenz de Tejada e os Lavalle y Cortés. patriarcal. Por isso se diz que no século XVIII houve um duplo processo: uma aristocracia que se aburguesou e uma burguesia que se aristocratizou. o Consulado ou a Fazenda Pública. Já o comerciante dispunha de dinheiro vivo para realizar suas transações. com a capacidade de inovação dos capitalistas europeus do século anterior. Muitos dos comerciantes de destaque tinham chegado ao Peru no início do século XVIII. Os recém-chegados traziam a pureza do sangue e. que chegou a ser conde de Prêmio Real. depois de 30 anos. que começaram como principiantes. foram representantes de uma sociedade do antigo regime. Outros chegaram na segunda metade do século em consequência das reformas implantadas pelos Bourbon.

quando existiam. 1778 e 1782. Dessa vez. na Bolívia. ir aos cartórios de Lima e ver os inventários de bens. além de um comerciante estrangeiro que ingressou na sociedade limenha durante o período republicano. no Uruguai e na Colômbia.6 Diego não teve filhos e todo o seu patrimônio foi herdado pela esposa. 7 AF_livro final ok. na cidade. e José Joaquín Luque. uma viúva na colônia precisava ter um bom patrimônio ou casar novamente. 1775:704-708. Diego casou-se com Rosa de la Cuadra y Mollinedo.indd Sec11:272 4/12/2009 15:03:23 . notario Antonio Luque. bispado de Calahorra. Já em Lima.7 Para conseguir sobreviver. Uma das diferenças das elites mercantis de Lima em relação a outras regiões do vice-reino é que. quem eram esses grandes comerciantes. Estudei quase todos os 25 dirigentes que apareciam na lista. Comecei então a pesquisa de cada um deles. mas no Chile. depois. Era comum que essas mulheres 6 AGN Lima. distrito da Real Audiência de Chuquisaca. para personificar a instituição e adentrar nas diferentes atividades que cada um desenvolveu. notario Valentín Torres Preciado. 1818/386:153/54. filhos de Diego Sáenz de Tejada e Catalina Sáenz de Codes. 1825. mas os dois foram integrantes do Consulado de Comércio de Lima. 1777. Não se sabe quando chegaram à América. Vamos analisar primeiramente o caso dos irmãos Sáenz de Tejada. temos dois grupos de famílias descendentes de um mesmo ramo e cujos herdeiros mantiveram as atividades mercantis após a independência do Peru. é possível encontrar várias gerações de imigrantes espanhóis que se integraram à sociedade colonial através do casamento. Diego participou em 1775. O primeiro passo para dar início à pesquisa foi identificar as pessoas. Diego ocupou o cargo de corregedor na província de Tomina.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 272 não só na Argentina. Antonio Sáenz de Tejada e Diego Sáenz de Tejada nasceram em Pinillos (La Rioja). Para tanto recorri aos dirigentes do Consulado e comecei a analisar cada um deles. 378:216-222. AGN Lima. anos em que colocou grandes quantias em dinheiro a juros. Seu irmão Antonio foi cônsul do Consulado em 1805 e 1806. recorrendo aos testamentos para. levando ao casamento a quantia de 32 mil pesos.

2003:39. Os litígios derivados da união de pessoas de qualidade racial diferente começaram a aparecer no direito civil com o estabelecimento da Pragmática Sanción de 1776. em Chancay.273 OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES emprestassem dinheiro a juros como forma de obter uma renda mensal que permitisse uma vida mediana. hierarquia ao grupo familiar como um todo. porque era recém-chegado e não tinha garantias sociais. de garantir atividades econômicas e.indd Sec11:273 4/12/2009 15:03:23 . marquês de Santa Maria. poderoso na sociedade colonial. irmã de Francisca que se casou com Tomás de la Bodega y Cuadra. que desenvolveu intensa atividade mercantil durante o século XVIII. consequentemente. Se o futuro marido ainda não fosse poderoso ou ilustre.8 Vale lembrar que a pureza do sangue nessa época era uma das condições indispensáveis para obter qualquer título de nobreza ou pertencer a uma ordem militar. na qual morava com o esposo. O casamento entre descendentes de duas famílias socialmente importantes na colônia — e também no período pós-independência — era uma das estratégias mais comuns. Josefa de la Cuadra e. que foi dona de uma grande casa. de “proteger” a mulher e dar a ela certa estabilidade ao colocá-la sob a tutela de um marido ilustre e.9 No caso da família estudada. o casamento dava à mulher a oportunidade de não “cair” em uma união com outro grupo racial que não fosse de seu nível. conde de Prêmio Real. de Pedro Carrillo y Albornoz. Ver Castillo Palma (1998). por sua vez. por outro. Isso respondia à necessidade. sobrinho de Isabel de la Bodega 9 AF_livro final ok. da qual descendia o importante comerciante José Antonio de Lavalle y Cortés. Antonio Sáenz de Tejada casou-se com uma irmã de Rosa. Ela também conseguiu obter uma renda mensal pelos 20 mil pesos que emprestou a juros à Fazenda Huayte. tornaram-se parentes da família de la Bodega y Cuadra. dessa forma. e depois da morte do marido emprestou a juros grandes quantias de dinheiro a comerciantes importantes como o conde de Fuente González e Fernando Carrillo y Udurraga. o que dava. 10 Josefa e Rosa eram fi lhas de Dorotea de Mollinedo y Lozada Agüero. que proibia os casamentos entre pessoas social e racialmente desiguais. Esse foi o caso de Rosa de la Cuadra. por um lado. e pelos 4 mil pesos à chácara de García Alonso.10 8 Zúñiga.

2000:134 e 272. casou com Francisco Javier de Inda. Josefa Sáenz de Tejada. Petronila Celestina foi mulher de Juan del Valle Ponga. Francisca. mas Antonio teve 10 — apenas um do sexo masculino. 13 Ver árvore genealógica. 11 AGN Lima. os dotes em média eram de 34. Sua esposa foi a única herdeira e recebeu 105 mil pesos.12 O casamento dos dois com as irmãs Rosa e Josefa permitiu unir dois importantes grupos mercantis. protocolo 378:216-222. descobrir os hábitos de consumo e a mentalidade da época. no século XVIII. principal herdeira de sua tia Rosa. devido à necessidade de pagar o dote das fi lhas no casamento. e de quem falarei mais adiante. AGN. O dote permite não só estimar o patrimônio da família. poder-se-ia dizer que esse número de mulheres teria custado caro a seu patrimônio.825 pesos. As outras irmãs tornaram-se freiras. AF_livro final ok. espanhol e comerciante. pelo seu conteúdo.indd Sec11:274 4/12/2009 15:03:23 . conde de Prêmio Real.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 274 Diego não teve fi lhos. incorporar novos integrantes espanhóis e comerciantes ao clã original. pais de José Antonio de Lavalle y Cortés. Antonio Sáenz de Tejada deu continuidade aos y Cuadra. María Mercedes foi esposa de Pedro Juan Sanz. que chegou ao Peru no início do século XIX.13 Diego foi testamenteiro de sua sogra. Quatro fi lhas de Antonio casaram-se com comerciantes. cujos descendentes deram continuidade ao ramo familiar. a mulher permitia a aliança. mas também. 12 Rizo Patrón. Entretanto. Ver árvore genealógica em Mazzeo (1994:96). de quem tomou emprestado a quantia de 38 mil pesos. Rosa de la Cuadra. também espanhol e comerciante. A mais velha. casou-se com um destacado comerciante espanhol. Ele se dedicava ao comércio de lenços e tecidos. também espanhol e comerciante. o fi lho homem. sección Notarios. Manuel. Felipe de Orellana. casou com Eulalia Mendes Guzmán de la Cadena. e fazendo o cálculo aproximado. com famílias de prestígio e. como destaquei antes. pode-se dizer que Antonio disponibilizou mais de 300 mil pesos para os dotes de suas nove fi lhas. que provavelmente importava de Quito. Francisco Javier de Izcue. casada com Simón de Lavalle y Cortés.11 Considerando-se que. Protocolo 477:274. À primeira vista. notario José Joaquín Luque. via matrimonial.

conhecida como Orrantia. mas depois acumulou uma dívida que não conseguiu pagar. Manuel — o único fi lho homem — tornou-se testamenteiro. em 1845. Manuel pagou pontualmente até 1817.indd Sec11:275 4/12/2009 15:03:23 . um elemento diferenciador do grupo porque. era necessário preencher certos requisitos e ter certas características. pagar pelo menos 750 pesos de imposto por ano e utilizar um capital superior a 12 mil pesos anuais. Entre 1773 e 1824. 10 pessoas integrantes de apenas quatro famílias ocuparam os cargos mais importantes da instituição.14 Nessa família. Pode-se constatar que María Josefa de la Cuadra y Mollinedo. El Peruano.14 275 OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES negócios da família. livros LTC 16. 1785 e 1796. AF_livro final ok. sección Aduanas. no vale de Huatica. origem racial. Ela tinha sido arrendada por 3 mil pesos anuais. o total deveria ser de 60 mil pesos. ele declara que ainda tinha esperança de cobrar o que lhe era devido pela Fazenda San José.280 dobrões de ouro em 1784. Com a morte de María Josefa. Ser integrante do Consulado era não apenas uma distinção que permitia negócios a distância. Se levarmos em consideração a taxa média de 5% sobre o valor. herdou de seus irmãos todos os bens. Quatro filhas de Antonio — Petronila. entre os vales de Miraflores e Magdalena. esposa de Antonio. possuir uma loja.045 pesos fortes e 140. dava também ao indivíduo a possibili- AGN Lima. Outra característica geral desses comerciantes era a participação no grêmio. nos navios La Mejicana. que morreu em 1785. Francisca e Josefa — se casaram com comerciantes espanhóis que tinham acabado de desembarcar na América. Mercedes. para entrar nesse órgão. Os priores e cônsules eram eleitos em função de sua capacidade econômica. San Pedro Alcántara. o que nos permite concluir o espaço de poder econômico que controlavam. são as mulheres que proporcionam os detalhes interessantes da situação familiar. Ambos aparecem enviando grandes quantidades de prata e ouro para a Espanha para a compra de mercadorias no valor de 178. No testamento deixado por Manuel. o Consulado de Comércio de Lima. Francisco Javier e Astrea.

o que significava ter um nível maior de poder e decisão. José Antonio obteve o título de conde por ter oferecido ao rei sua pessoa. Na Espanha. Outro ramo dos de la Bodega y la Cuadra era composto por Simón de Lavalle. José Antonio de Lavalle e Manuel Sáenz de Tejada chegaram a ser alcaides da cidade de Lima. posição que já tinha sido ocupada por seu pai. além de 40 cargas de cacau AF_livro final ok. O primeiro cargo importante de José Antonio foi o de prefeito da cidade de Trujillo. que depois de oferecer ao rei o envio de cobre em sua fragata sem pagamento de frete. sua família e seu pecúlio durante a revolta de Túpac Amaru. recebendo em troca tratamento especial. os comerciantes prestavam certos benefícios à Coroa. Esses feitos lhe valeram uma franquia real para a importação de 2 mil escravos da África. Antonio e José Casimiro.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 276 dade de estar um passo à frente quando o assunto era lucro mercantil. de uma família proprietária de fazendas e minas. Foi depois corregedor e coronel de milícias. Já morando em Lima. já que eram integrantes do Cabildo e também da Audiência. Os comerciantes exerciam também funções políticas. mas também em batalhas defendendo as posições espanholas contra os franceses. casou-se com Mariana Sugasti Ortíz de Foronda. que teve como descendente representativo José Antonio de Lavalle y Cortés. através do Consulado. Ele é o melhor exemplo de comportamento favorável ao rei que permite o acesso a benefícios econômicos e sociais. Por outro lado. e não apenas prestígio social. Ele se destacou em muitas funções.indd Sec11:276 4/12/2009 15:03:23 . Ser ouvidor da Audiência significava ter um grau acadêmico. o caso de Juan Bautista de Lavalle. nascido em 1735. Vejamos. Cada um poderia retirar 150 couros livres de direitos reais e exportá-los para Hamburgo. por exemplo. não só na criação de regimentos bancados por ele. destacaram-se José Antonio. o que gerava maior confiança nas negociações. pôde extrair o metal sem pagar o imposto correspondente. ser doutor em leis. parente de María del Carmen Cortés Santelices. Os seis fi lhos de José Antonio ocuparam cargos na milícia ou lutaram pelo rei da Espanha quando da guerra contra Napoleão.

em Lima. José Casimiro fez parte do mesmo corpo organizado pelo irmão e chegou a brigadeiro. se mudava para a capital —.15 Depois da morte do pai. Essa família é particularmente importante porque se junta aos Barreda y Osma. nota-se um caso típico de endogamia — outra estratégia para proteger heranças. Essa correspondência é composta por 161 cartas entre Juan Bautista de Lavalle. Juan Bautista foi alcaide e regente do cabildo de Lima. montou o Corpo de Granadeiros Voluntários do Estado. e na terceira é que aconteciam os casamentos entre primos ou membros de outras redes. Simón. que ocuparam cargos de peso no século XIX. e Antonio de Lavalle. assim como Antonio. Geralmente a fortuna era feita na primeira geração.indd Sec11:277 4/12/2009 15:03:24 . As cartas descrevem os negócios da família e os detalhes do comércio. Molinari (1916:116). também livre de direitos. o contato para as trocas.15 277 OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES por escravo. As cartas desses comerciantes (às quais tive acesso) permitem visualizar as negociações feitas entre 1801 e 1815. Mariano foi ouvidor da Audiência de Guadalajara. Outro fi lho. Depois da independência. em Cádiz. Nesse ponto. Juan Bautista manteve os negócios. Manuel Pardo y Barreda. em Cádiz. através do comércio. ingressando-se na carreira política ou ocupando cargos eletivos. José Antonio. regente de Cuzco. Da união dos dois nasceu o futuro presidente do Peru. foi capitão da Companhia de Alabardeiros e depois coronel de exército. De Cádiz lhe foi permitido extrair 20 peças de tecidos estrangeiros para vestir os negros e 200 barris de alcatrão e piche. aumentava-se o número de atividades e o capital — se a família era do interior. as diferenças causadas e o impacto das guerras. A fi lha de Simón Petronila casou-se com Felipe Pardo y Aliaga. Juan Bautista se casou com a criolla Narcisa Arias de Saavedra. em duas conjunturas de guerras internacionais. radicado em Lima. AF_livro final ok. além de identificar as embarcações que entraram e saíram do porto de Callao. que substituiu o pai nos negócios. ver Mazzeo (1994). na segunda. os confl itos que geraram. Em tudo o que se referir a Lavalle.

ao estudar diferentes grupos de famílias. p. esses comerciantes fi nanciaram os gastos dos governos. Nesse caso nota-se um declínio acentuado dos negócios em função das reformas feitas pelos Bourbon. 2000. enquanto o comércio teve um aumento delas. AF_livro final ok. v. Pedro Juan Sáenz emprestou 500 pesos e Juan del Valle Ponga. por exemplo. deveria contribuir com 1. pode-se ver que as reformas afetaram mais os comerciantes vinculados ao mercado interno e beneficiaram os comerciantes poderosos. No dia 1o de agosto de 1821. proprietário de minas e fazendas no século XVIII. depois a favor da república. O impacto da independência nas famílias de comerciantes A independência produziu mudanças econômicas e sociais na elite. 21. t. Portanto. o protetor San Martín solicitou um empréstimo de 150 mil pesos aos comerciantes inscritos no Consulado.17 Com a independência. Com doações voluntárias ou forçadas.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 278 Também pesquisei um comerciante ligado ao comércio interno. porque as exportações foram liberadas do pagamento de tarifas. 300 pesos.indd Sec11:278 4/12/2009 15:03:24 . no comércio. 1. 1971. o que demonstra seu prestígio no ramo mercantil. Prova disso são as doações de grandes quantias de dinheiro para sustentar a Guerra de Independência — primeiro a favor do rei. devido à situação dos corregimentos. muitos espanhóis foram perseguidos e os que fugiram tiveram suas moradias e propriedades confi scadas — e imediata- 16 17 Figueroa. Juan Fernández de Valdivieso.16 Dessa forma. fica evidente que as reformas abalaram mais o mercado interno do que o comércio exterior. portanto. A quantia que cada integrante cederia como empréstimo era defi nida pelo governo de acordo com a importância de cada comerciante no grêmio e. Colección documental de la Independencia del Perú. Mas o grêmio dos comerciantes continuou sendo importante do ponto de vista econômico. Antonio Sáenz de Tejada. 441-442.250 pesos.

442. A fi lha Margarita faleceu em 1839. A título de exemplo: em 1795 importou mercadorias de Cádiz no va- Colección documental de la Independencia del Perú.20 O casamento mais importante entre as irmãs de Manuel foi o de Josefa com Francisco Javier de Izcue. o último fi lho. p. que morava nas Filipinas. entre 1784 e 1796. N. mas sua esposa. comerciante e cônsul do Tribunal do Consulado de Lima entre 1811 e 1813. doente.: Bairro de Lima onde fica o Jóquei Clube.21 Francisco Javier foi um grande comerciante que desenvolveu suas principais atividades durante o auge mercantil.18 19 20 21 279 OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES mente oferecidas em leilão. Em outras palavras. que ficou por muito tempo em litígio com o irmão mais velho devido à má administração do testamento do pai. 1999:13. Em 1845. Ver árvore genealógica do anexo 1. Francisco Javier de Izcue não deixou testamento. em seguida vinha María del Carmen Faustina de Izcue y Canal. que chegava a 633. em um total de vinte e três”. Ele também ficou com o dinheiro de algumas capelas que tinham como função oficiar milhares de missas. Silva. AF_livro final ok. José María. O casal teve seis fi lhos: o mais velho chamava-se Juan Francisco.18 A guerra prejudicou muitos comerciantes. disse ter recebido uma grande fortuna. mas o mau gerenciamento do capital também levou à falência alguns deles. do T. Quem ficou teve de obter o registro de cidadania para continuar vivendo no país. Francisco Javier de Izcue não teve dúvidas e ficou. aparece como comerciante na inscrição do Consulado em 1839. devido ao dinheiro gasto em jogo em Chorrillos19 e em “convites e passeios durante o ano.indd Sec11:279 4/12/2009 15:03:24 . Josefa Sáenz de Tejada. sendo compradas por comerciantes estrangeiros que chegaram ao país. além de uma grande lista de ações judiciais. pode-se deduzir uma contínua deterioração econômica. no testamento de Manuel. um dos filhos de Antonio Sáenz de Tejada. e Evaristo. Juana casou-se em Concepción de Chile com José Salvador Palma.771 pesos fortes. o pai e a mãe. gastou tudo o que haviam deixado para ele a tia. mas Francisco Inda consta na lista dos que deixaram Lima. ficou sob a custódia dos irmãos Inés e José María.

tratava-se de tecidos de Barcelona e tecidos derivados da seda. Francisco Javier importou 141.. 21 ene. encontrei seu nome assinando as atas do Tribunal de Comércio de Lima. Dalmacio Arias e Álvarez del Villar.455 pesos fortes. com um fundo de 48 mil pesos fortes. jul. 24 AGN. Ayllón de Salazar.518. mas foi suplantado por outros comerciantes. Francisco Javier de Izcue. em 1800 uniu-se a Tomás Gallego e Manuel de Pertica para importar negros escravos com um capital de 18. Nessa época. Em dois anos. Francisco contribuiu com 10 mil pesos. e em 1808 começou a mesma empreitada com José Antonio Azevedo e Pedro Villacampa para importar negros no valor de 30 mil pesos. em 1823.23 Além disso. genro de Juan Bautista de Elizalde. Dois anos depois. fragata San Pedro alias La Reina. para prestar socorro a Montevidéu durante a Guerra de Independência com um empréstimo a juros de 6% ao ano.indd Sec11:280 4/12/2009 15:03:24 . notário Joseph Aizcorbe. ajudou o grêmio. procedente de Cádiz. 26 ago. 23 AGN. e José Melchor Rodríguez. Barcos procedentes de Cádiz. e em 1796 importou mercadorias no valor de 613. em 1813. Luis Tenorio.590 pesos fortes). Em geral. 22 ago.037 reais (40.500 pesos. além de participar da cota solicitada pelo governo em 1821 com 4 mil pesos. o Estado passou a pressionar mais a corporação mercantil a fi m de cobrir os custos da guerra. que equivalem a 100.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 280 lor de 1.24 Durante o mandato de Francisco Javier de Izcue como cônsul de Tribunal do Consulado de Lima. e também a Antonio Ximeno. como Pedro Moreno. Agradeço muito especialmente a Ramiro Flores por me fornecer esses dados. protocolo 10: 106v. 1800. San José alias La Princesa. que deu 12 mil pesos. que cedeu 20 mil pesos. El Buen Suceso alias El Levante. Libros de Aduana. criou uma companhia em 1799 com Domingo Ochoa de Zuazola e Juan Pertica.045 pesos fortes. El Jasón 1795. 1808. Com essa fi nalidade. sección Aduanas. o que evidencia a capacidade econômica do comerciante. San Pedro alias La Reina. trabalhou também na importação de escravos negros na época em que o comércio deles ficou livre de impostos na primeira venda. 1796.22 Nas negociações ele aparece vinculado a Manuel de Santiago y Rotalde. AF_livro final ok. junta- 22 AGN.359 reais. protocolo 35:669. 1799. anos de 1795 e 1796. Guadalupe alias La Reina. protocolo 1029:559.

281 OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES mente com outros dois empresários de destaque: Manuel Ex Helme e Juan de Elizalde. ele vendeu ao Estado uma prensa.26 Nessa época participou de dois outros empréstimos. passou a ocupar a direção do Consulado de Lima. 1823. seu fi lho Juan Francisco. juntamente com Isidro Aramburu e Felipe Barreda.25 Quando. Devia receber um salário de 3 mil pesos anuais.30 Em 1824. documentos do Consulado. 1984:251. Por volta de 1839. que se converteu em Câmara de Comércio. notas promissórias que o comerciante descontaria na Alfândega como parte do pagamento do respectivo imposto. depois foi reinstalado em 1829 de forma definitiva e atuou até depois da Guerra do Pacífico. San Martín decretou a extinção do Consulado de Comércio. a guerra se prolongava e os empréstimos se sucediam todos os meses. que seria pago com fundos que viriam do Chile.00 pesos”. Francisco Javier de Izcue continuava representando a Câmara de Comércio e o presi25 Flores Galindo. pela quantia de 3 mil pesos. 26 AF_livro final ok. como estabelecia o regulamento. 2 “Relación de individuos que entregaron la cantidad de 200. 29 Entre 1821 e 1826.indd Sec11:281 4/12/2009 15:03:24 . Legajo n.27 Nesse ano. Francisco Javier de Izcue a presidiu até 1824. sección Republicana.291 pesos em espécie e 1. Ele havia sido cônsul do Tribunal do Consulado em 1816 e. e em outubro deu 5 mil pesos ao Tesouro. ou seja. em 1821. o Consulado passou a se chamar Câmara de Comércio. em julho contribuiu com 1.387 pesos em moedas de prata. devido às circunstâncias da época. pela qual devia pagar em taxas à Câmara de Comércio29 a quantia de 3. Na instituição exercia a função de secretário suplente e. não recebia salário. OL 84-66 e 84-56. participou com outro grupo de espanhóis de um empréstimo no valor de 70 mil pesos. Foi em 1823 que o governo mais precisou de recursos. 28 AGN Lima. 27 AGN. documentos da sección Republicana. Lima estava em poder dos separatistas. 30 AGN Lima. a serem pagos no prazo de seis meses a contar da data de entrega. OL 72-78 697. 31 jul.28 Outra atividade econômica desenvolvida por Francisco Javier era a importação de farinha do Chile. O montante seria compensado com direitos aduaneiros. mas só tinha recebido 250 pesos. AGN. Nesse ano. ocupara o cargo por dois anos. documentos da sección Republicana. OL 84-17 1358 e OL 1691.266 pesos em 1823. mas as forças monarquistas ainda se encontravam em Cuzco. totalizando 2 mil pesos.

06. seria enviada uma comissão militar para fazer cumprir tal determinação.31 O principal descendente desse ramo foi Juan Francisco de Izcue. em 1840. 1846). radicada nas Filipinas.32 principalmente algodão e lã. com seu irmão e sua família. Carmen. Este recebeu do governo supremo a notificação de que todos os comerciantes estavam sujeitos a pagar uma contribuição mensal de 12 pesos. Juan Francisco passou a se dedicar à exploração de cobre. os bens e mercadorias poderiam ser confiscados. Isso revela que a estratégia seguida pelas famílias de comerciantes se assemelhava à utilizada no século anterior. 32 AF_livro final ok. que morava no Chile. já que continuavam importando trigo e cobre do Chile. no prazo de três dias a quantia restante deveria ser paga —proporcional aos bens de cada um — e se isso não acontecesse. mas a maior parte do minério devia ser transportada em bruto. casado com Inés Gutiérrez de Cossio. Outra irmã. nativa da cidade de Arequipa. além de produtos orientais. Apesar dos obstáculos. estabeleceu a Companhia Peruana de Minas de Cobre. Juan Francisco Izcue montou uma empresa de mineração com Julio Flucker em Morococha. Antes. Quirós. enviado à Alemanha aos 14 anos para estudar. 33 Carlos Bernardo Flucker.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 282 dente era Torre Tagle. documentos da sección Republicana.indd Sec11:282 4/12/2009 15:03:24 . recebeu 300 onças de ouro como parte de sua herança paterna — ela era casada com José Salvador Palma. o que exigia muita logística e muitos adiantamentos em dinheiro. seguiram em frente. María del Carmen e Francisco Javier. 1978 e 1979. se não fossem pagas. 1987:39. e que teve três fi lhos: José Rafael. Uma das irmãs de Juan Francisco. empregaram operários alemães para erguer uma fundição. Depois. palestra ministrada sobre a situação em Morococha (Imprenta del Correo Peruano. Juana. Flucker ajudou a capacitar Izcue e. mas como só haviam sido recebidos ao todo apenas 9 mil pesos.33 Ele também teve uma companhia de trans- 31 AGN Lima.05 e 108. 108. casou-se com um membro da família de la Canal. o que mostra que as cotas pedidas aos comerciantes eram obrigatórias e. se dedicara à exportação de produtos primários do país.

A junta estava envolvida em atividades beneficentes que movimentavam grandes quantias de dinheiro. chegando a ser coronel e primeiro chefe do Regimento da Legião da Concordia. mas cujo imposto tinha sido cedido a um mosteiro de Santa Clara). devido a uma doença grave.34 Em 1836. Juan Francisco foi testamenteiro da irmã Margarita e da avó María Josefa de la Cuadra. e que deixou registrada em testamento uma dívida de 20 mil pesos para com o fi lho Francisco Javier de Izcue.142 pesos a ser paga pelo governo. Após sua morte. 1841. 11 abr.indd Sec11:283 4/12/2009 15:03:24 .283 OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES porte de mercadorias para as Filipinas junto com o pai. notario Felipe Orellana. 1987:43. protocolo 447:274. protocolo 477:273 v. falecida em 1836. obtendo o cargo de prior em 1840. Nessa época. Rosa de la Cuadra y Mollinedo recebeu a chácara de Orrantia e o curral de Arrosavena (pagando um tributo anual de 70 pesos. Ramon Castaneda. Ele também foi testamenteiro de sua tia Rosa de la Cuadra. 1842 e 1843. 36 Guía de Forasteros de Lima. perdi o rasto dessa família. que se tornou o verdadeiro centro da rede familiar. Quirós. Juan Francisco emprestou 300 pesos ao governo (como seu pai também fizera) e em 1839 (já prior do Consulado de Lima) participou como candidato das câmaras de comércio. órgão que reunia as pessoas mais importantes na sociedade. Felipe de Orellana. Ver árvore genealógica do anexo 1. que participou com a quantia de 25 mil pesos. em 1846 em Morococha. ele também aparece como credor do ramo de impostos com uma dívida de 5. em Lima. 35 AF_livro final ok. já que era necessário dispor de certa quantia para pertencer a ela.36 Entrou em negociações com Martín Aramburu. já que tinha o nome de Rio de Janeiro. 37 AGN Lima.35 Ele também foi membro da Junta de Beneficência. com um capital de 75 mil pesos.37 34 Silva (1999:18). 1846. Francisco também foi testamenteiro de outro empresário respeitado. Como comerciante de sucesso. para uma empresa que aparentemente se destinava à comercialização de produtos brasileiros. Também ingressou no Exército republicano. 1846. onde tinha uma taberna. AGN. 1837. morador do Callao.

10. e foi condecorado “Digno Defensor de la Libertad Nacional”. Estudou no Colégio de São Carlos. um em 1828. depois foi para o Chile. Ele fi nanciou com o próprio dinheiro a expedição de San Martín ao Peru.972 em créditos a cobrar. como a casa no Tigre.628 pesos. AGN Lima. e outro em 1844. Margarita e José Maria tinham ganhado mais do que lhes correspondia. Esse personagem participou da reconquista de Buenos Aires e da declaração de Independência em 1816. A questão era que Carmen. casou-se com Manuela Díaz Ravago y Avellafuerte. seu irmão. um local de armazenagem no Callao e os benefícios da Capela da Boa Morte. notario Orellana. protocolo 477: 313. criolla cujo dote foi de 64. Militou nos exércitos libertadores como ajudante de campo do general Alvear.39 José Riglos foi militar de destaque e também participou de importantes atividades comerciais. O caso emblemático é o de José Riglos. em 1814. argentino. onde Riglos ficou encarregado do Comando Geral da Esquadra do Chile em 1825. resolvido em favor dele. em 1825. Inés. pelo fi lho de Juan Francisco.38 Os comerciantes estrangeiros depois da independência Muitos comerciantes estrangeiros se estabeleceram em Lima depois da independência. de onde partiu para o Peru ao lado de San Martín. Riglos nasceu em Buenos Aires em 30 de janeiro de 1797. e capitão da 1a Companhia da “Legión Comercio”. Morreu em Lima. Cada um dos fi lhos tinha direito à quantia de 105. sua esposa.916 pesos fortes. de Buenos Aires. se comprometeram a encerrar defi nitivamente o processo movido por má gestão da propriedade do pai. em 22 de janeiro de 1839. sem contar outras propriedades não detalhadas no testamento. juntamente com José Maria.656 pesos em prata e 94. Esses números correspondem à parte da herança que presumo ser do pai. e o responsável pelo irmão doente. 39 AF_livro final ok. Dois inventários foram feitos.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 284 Depois da morte de Juan Francisco. Evaristo. Ver Ludowing Figari (2000:142). “Medalla de la Rendición” em Montevidéu. que chegou ao Peru com o Exército de San Martín e. em detrimento do irmão Evaristo — esse foi o motivo do processo. conduzido pela esposa Josefa. À época de seu casamento. apresentou um quadro geral de 38 Silva (1999:14-15).indd Sec11:284 4/12/2009 15:03:24 . Filho de Miguel Fermín de Riglos y San Martín e María Mercedes Lasala y Fernández.

além de aplicar 30 mil pesos fortes em Valparaíso. Huanchaco e Lambayeque. Paita. Riglos se endividou em 20 mil pesos com Manuel Blanco Encalada. a quem deveria pagar juros de 6% ao ano.43 Riglos. Suas ligações com autoridades do governo ficam evidentes na relação que teve com José Gutierrez. protocolo 46:425. A lista incluía uma casa em Buenos Aires no valor de 15 mil pesos. armas. também radicado no Chile.42 Também se relacionou com o senador chileno José Maria Rosas. manteiga. sección Notarios. AGN Lima. na compra de bens pessoais. 1825. Prova disso foram os adiantamentos concedidos ao governo em 1827. data em que a dívida do Estado chegou a 47. no valor de 32 mil pesos. como tantos outros estrangeiros.701 pesos fortes. advogado da Corte Suprema de Justiça do Peru. Ele devia.125 pesos. além das dívidas do Estado. exportou têxteis. sección Aduanas.44 Em 1829.indd Sec11:285 4/12/2009 15:03:24 . não apenas de fardas para o Exército.739 pesos a particulares e 49. no valor de 92. mas também em empréstimos necessários para a manutenção da guerra. joias e dívidas de pessoas no valor de 37. por sua vez. Em compensação. Coquimbo. a quem representou em Lima perante a Casa Baring Brothers e Cia. protocolo 156:245v. Ayllón de Salazar.40 José Riglos importou mercadorias de Valparaíso.45 Riglos che- 40 AGN Lima.41 Também adquiriu produtos em Pisco. protocolo 41:767v e 837. Ayllón de Salazar. a quem entregou uma procuração para que o representasse em todas as causas e negócios. móveis. vinho. Barcos procedentes y con destino a mares del Sur.761 pesos fortes à alfândega. 45 AGN Lima. que só em capital e bens líquidos adquiridos chegava a 273.285 OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES suas propriedades.040 pesos fortes. protocolo 42:709. 44 AGN Lima. 42 AGN Lima. sección Notarios. Chivay e Guayaquil e mercúrio da Europa. atuando como seu representante nas negociações em Londres.. bebidas. Protocolo 41:694-705. Ayllón de Salazar. e Juan Cosio. 41 AF_livro final ok. o Estado cedeu-lhe uma casa que já havia pertencido ao Tribunal da Inquisição. chegou a ser cônsul da Argentina no Peru. Ayllón de Salazar.239 pesos. protocolo 49:759. avaliadas em 10. Ayllón de Salazar. 43 AGN Lima.770 pesos. passou a ser um dos provedores do Estado peruano. sección Notarios. 69.

como Sarratea. Esse papel da família na sociedade foi o que lhe deu apoio. protocolo 204:162. Esses comerciantes agiam em conjunto. para a compra de algumas minas e fazendas adjacentes. Lynch. Eles pagaram ao Estado com papéis da dívida pública de valor superior. com os Cortiguea. proteção e segurança. uma rede de relações e vínculos que ultrapassava o familiar. comprando. e 271. feito com que perdessem grandes quantias de dinheiro. especialmente em momentos críticos de crise econômica. AF_livro final ok. notario Julián de Cubillas. a casa de Cochran.560 pesos. Conclusões O estudo minucioso de várias famílias de comerciantes permite que se chegue às seguintes conclusões: os comerciantes do século XVIII. sendo diferença repassada ao Estado como novo empréstimo a juros de 30%. Em primeiro lugar. Em segundo lugar. o Consulado de Comércio de Lima. e depois.46 Essa transação evidencia a especulação a que os novos comerciantes estrangeiros chegaram na questão dos empréstimos ao Estado. Embora a independência tenha afetado os comerciantes e. como na fase de consolidação da república. Samuel Price e Manuel Castilla. a utilização de práticas endogâmicas permitiu a essas famílias de comerciantes a não dispersão da herança. pelo valor de 432. como foi o caso dos Elizalde. formavam uma espécie de irmandade.indd Sec11:286 4/12/2009 15:03:24 . em Lima. 186. González Gutiérrez com os Santiago y Rotalde. Cristóbal Armero. O caso mais emble46 AGN Lima. vendendo ou montando empresas para determinada atividade e participando de forma contemporânea na condução de uma das instituições que teve mais continuidade ao longo do século XIX.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 286 gou a fundar uma empresa importante com outros comerciantes estrangeiros. várias gerações de comerciantes se uniram pelo matrimônio. considero que esse grupo de elite soube se recompor lançando mão de diversas estratégias. por vezes. Correa y Garay e até Polanco. localizadas em Cerro de Pasco.

fornecendo quantias significativas de dinheiro através de diferentes agências. com ênfase na exploração de minérios e na agricultura. Nesse quesito. Em termos econômicos. data em que foi substituído pela Câmara de Comércio. continuaram sendo apoiados pela instituição que os representava: o Tribunal do Consulado de Comércio de Lima. essa organização empresarial permitiu aos comerciantes contar com apoio institucional ao longo de toda a sua existência. inserindo-se socialmente pelo casamento na antiga elite limenha. os comerciantes continuaram a emprestar aos governos recém-independentes. sempre precisando de dinheiro. obtendo em troca interessantes privilégios econômicos. O grêmio mercantil foi o que manteve relações mais estreitas com o Estado — colonial ou republicano — sendo uma das instituições mais fortes durante todo o século XIX. José Antonio e Mariana Pardo y Lavalle se casam em pleno século XIX. envolveram-se em todas as etapas da produção e da diversificação econômica. mas também comum durante a república. em que dois primos. Ele foi restabelecido em 1829 e manteve suas funções até 1886. Em terceiro lugar. Portanto. que cumpriam a mesma função na era colonial: fi nanciar os novos governos em suas necessidades de caixa. que resultavam em lucros extras no comércio e em tarifas reduzidas. os comerciantes estrangeiros que se estabeleceram em Lima após a independência foram os que mais especularam sobre a concessão de empréstimos a altas taxas de juros. Do ponto de vista social. Em quarto lugar. As relações de parentesco e os laços familiares desempenharam um pa- 4/12/2009 15:03:24 . donde se deduz que essa não era uma prática apenas vigente na colônia.AF_livro final ok. o jogo de gentilezas entre o poder político e o econômico perdurou durante todo o século XIX. Portanto. O Consulado desempenhava não só funções de árbitro em questões comerciais. agiram de forma semelhante à elite local. mas também garantia os comerciantes nos empréstimos que concediam ao Estado.indd Sec11:287 287 OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES mático é o da família Lavalle. O Consulado de Comércio de Lima agia como um mediador entre os comerciantes locais e o novo Estado republicano.

FIGUEROA. La pervivencia de las redes familiares en la configuración de la elite de poder centroamericana: el caso de la familia Díaz Durán. n.cr/~anuario/casauz.ucr. Espacios de familia ¿Tejidos de lealtades o campos de confrontación? México: Red Utopía. 1998. 23. 1984.F. In: CASTAÑEDA. v. Revista del Instituto Peruano de Investigaciones Genealógicas. 1: Informes y oficios del Tribunal del Consulado. Lima: PUCP.ac. CASAÚS. ———(Comp.) CORTE. José Antonio de Lavalle y Cortés. BARRIERA. p.pdf>. Lima: Mosca Azul. capacidad y cohesión de una élite. 2000. REFERÊNCIAS BRADING. Los comerciantes limeños a fines de la colonia. In: ——— . Lima: PUCP. Disponível em: <http://cariari. Alberto. 1971. 1994. 21: Asuntos económicos. Tesis (Licenciatura en Historia) — PUCP. Marta Elena. p. n. 20. FLORES GALINDO. v. Miguel. CASTILLO PALMA. Carlos Pardo. Cristina. Círculos de poder en la nueva España. Carmen (Comp. 105-117. Darío. Lima. 1777-1815. El comercio libre en el Perú.). 2. Anuario de Estudios Centroamericanos. 7-34.). 2000. 1999. (t. 41-92. La familia Rávago. LUDOWING FIGARI. MAZZEO. COLECCIÓN documental de la Independencia del Perú. Los estatutos de pureza de sangre como medio de acceso a las élites. já vez que as posições de prior e cônsul passaram muitas vezes de pai para fi lho.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 288 pel importante na direção da instituição. México D.: Centro de Investigaciones y Estudios Superiores en Antropología Social. Norma Angélica. ———. Fuentes para los estudios de familia. Lima: Comisión Nacional del Sesquicentenario de la Independencia del Perú. 2003. Aristocracia y plebe: Lima 1760-1830. AF_livro final ok. Mineros y comerciantes en el México borbónico. Gabriela dalla. 1763-1810. Familia y elite en el siglo XVIII: los Fernándes de Valdivieso en el contexto del virreinato peruano (1700-1778). In: Las estrategias de un comerciante limeño. 1985. David.indd Sec11:288 4/12/2009 15:03:24 . México: FCE. 2000. 1994. 1750-1825. Manter a pesquisa de famílias de comerciantes permitirá um aprofundamento no impacto de certas conjunturas políticas tanto no período colonial quanto no republicano. p.

Familia patriarcal o redes sociales: balance de una imagen de la estratificación social. Zacarías. El comerciante Juan Francisco Izcue. Susan. Buenos Aires: Compañia Sud-Americana de Billetes de Banco. RAMÍREZ. 2000. Jean Paul. Cambridge: s.MOUTOKIAS. G. Lima. VINCENT.). 1916. 35-57.. Prohistoria. 1991. dalla. 289 OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES MOLINARI. (Comp. 2002. Raúl. In: Orígenes y desarrollo de la burguesía en América Latina. Clan. QUIRÓS. Morelia.). 1987. familia. Lima: Pontificia Universidad Católica del Perú.indd Sec11:289 4/12/2009 15:03:24 . p. Ensayos sobre microhistoria. n. In: BARRIERA. ———. México: Nueva Imagen. México: Red Utopía. Susan. Lima: Instituto de Estudios Peruanos. ms. p. Espacios de familia ¿Tejidos de lealtades o campos de confrontación? México: Red Utopía. BARRIERA. Darío (Comp. La burguesía comercial en Buenos Aires. 2000. ZÚÑIGA. Documentos para la historia argentina. individuo. SOCOLOW. 1999. RIZO PATRÓN. VIII. t. Michoacán. D. 1978. Microhistoria a la española. Linaje. 147-158. Jitanjáfora. The merchants of Buenos Aires 1778-1810. Alfonso. D. Patriarcas provinciales: la tenencia de la tierra y la economía del poder en el Perú colonial. SILVA. 2003. dote y poder. 15. Paul. La deuda defraudada. parentela. In: CORTE. Anuario del Instituto de Estudios HistóricoSociales. AF_livro final ok. Madri: Alianza. 1985. Bernard.ed.

Salvador Boyer y Bayot Manuel Presidente 1872-1876 c. Francisca Cáceda y Bracamonte Simón Arcediano Simón c. Felipe Pardoy Aiaga Mariana José Pardo y Barreda Presidente 1904 e 1919 AF_livro final ok.c. Mariano de Osma Petronila c.c 1729 María del Carmen Cortés Cartavio Manuel José 1753 Mercedes González Ross Pedro Ignacio c.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 290 Simón de Lavalle de la Bodega y Cuadra c. Mariana Barreda y Osma Mariana Francisca c. Isabel Cabero y Salazar Simón Josefa Felipe Pardo Mercedes c.indd Sec11:290 4/12/2009 15:03:24 .c.c.c.c.c.

Susana María Josefa 1727 José Antonio Cacho Catalina c. Luisa María 4/12/2009 15:03:24 .c.Anexo 1 José Antonio Conde de Prêmio Real Mariana Sugasti Ortiz de Foronda Antonio c. José Antonio solteiro Juan Bautista c. Carmen Bindi Aguirre OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES 291 José AF_livro final ok.s.indd Sec11:291 Hernando Mariana Mercedes Elvira Alejandrina Irene M.c 1826 Narcisa Arias de Saavedra José Antonio de Lavalle Arias de Saavedra c.c Dolores Sánchez Trujillo Mariano Oidor de Guadalajara Rita Roa Terón s.c Antonio López Casimiro c.c.

c. c. (Luis Lasarte Ferreyros) Fonte: AGN Lima.indd Sec11:292 4/12/2009 15:03:24 . casou-se com Adriana Vega Bazán. AF_livro final ok.c c. parente de Rosa. Antonio Martín José Estanislao Rodriguez Pérez de Cortiguera Correa n. em Buenos Aires* * O fi lho desse casal.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 292 Manuel de Santiago y Rotalde José Pio José Ignácio c.c. esposa de Bruno Polanco. Notarios. de mesmo nome do pai.c Manuel Josefa Unamunsaga Maria Manuela Maria Francisca Dolores del Carmen de Paula c.

indd Sec11:293 4/12/2009 15:03:24 .c c.c José Matías de Elizalde c.c Juan de Elizalde y González José Gonzáles Gutierrez c. Rotalde e Santiago Juan Lorenzo de Elizalde María Josefa de Arratea c.OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES 293 Anexo 2 Árvore genealógica de Elizalde.c Rosa de la Fuente Gonzáles Francisca González de La Fuente Julia Elizalde Juan Francisco Elizalde y Santiago AF_livro final ok.

Francisca c.c.c. Fco. Inda Josefa 4/12/2009 15:03:24 . del Valle AF_livro final ok.c.c. Eulalia Gusman Rosa Mercedes c.c. Pedro Sanz Mariana c. J.EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 294 SÉCULO XVIII María Josefa de la Cuadra y Mollinedo Martina Petronila c.indd Sec11:294 María Manuel c.

c. Inés Gutiérrez de Cossío SÉCULO XIX José Rafael María del Francisco Javier Carmen Fonte: AGN Lima.c.c.c.c. c. José Salvador Palmas Chile José María Margarida María del Carmen (Filipinas) Juan Francisco Izcue c.Anexo 3 OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES 295 Parentes de Isabel de la Bodega y Cuadra (de cujo ramo descende a família Lavalle de la Bodega y Cuadra) Juan Manuel Pelayo de la Cuadra Dorotea Mollinedo c. AF_livro final ok. Diego Sáenz de Tejada Catalina Sáenz de Codes c. Antônio Sáenz de Tejada c. Evaristo Diego Sáenz de Tejada c. Rosa de la Cuadra y Mollinedo Francisco Javies de Izcue Juana c.indd Sec11:295 4/12/2009 15:03:24 . Notarios.c.c.

indd Sec11:296 4/12/2009 15:03:24 .AF_livro final ok.

2007) e Nomes e números: alternativas metodológicas para a história econômica e social (Ed. Cristina Mazzeo de Vivó Professora de história da América da Pontifícia Universidade Católica do Peru. Cássio da Silva Fernandes Professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). Na área de história. Publicou diversos artigos sobre o Consulado de AF_livro final ok. Itália (2001/02). Leopold von Ranke e Aby Warburg. mestre pela Pontifícia Universidade Católica do Peru e doutoranda do Colégio de Michoacán. Doutora em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF) desde 2001. além da arte e da cultura no Renascimento. Autora de diversos artigos e capítulos de livros. Mestre (1998) e doutor (2003) em história social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Alameda. com estágio de 18 meses (bolsa doutorado sanduíche) na Universitá degli Studi di Pisa. 2005). Graduada na Faculdade de Filosofia e Letras da Universidade de Buenos Aires. É uma das organizadoras dos livros Conquistadores e negociantes: histórias de elites no Antigo Regime nos trópicos. UFJF.Sobre os autores Carla Maria Carvalho de Almeida Professora adjunta da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). séculos XVI a XVIII (Civilização Brasileira. América lusa. enfatiza o campo da historiografia e da história da cultura. abordando temáticas como: historiografia da arte e da cultura. entre eles “Homens ricos em Minas colonial” (Modos de governar. privilegiando as obras de Jacob Burckhardt.indd Sec11:297 4/12/2009 15:03:24 . 2006). com a tese Homens ricos. 1750-1822. homens bons: produção e hierarquização social em Minas colonial.

entre outros trabalhos editoriais. e falecido em Nothingham. Autor do livro A micro-história italiana: escalas. lançado em 1996 no Brasil. de Polanyi: dall’antropologia economica alla microanalisi storica (Etas Libri. 1777-1815 (Pontifícia Universidad Católica Del Perú. Una famiglia genovese fra Spagna e Impero (Einaudi. assim como o livro El comercio libre en el Perú. 1997) e In altri termini (Feltrinelli. Espanha. Dirigiu a prestigiosa coleção Microstorie da editora Einaudi e a conhecida revista Quaderni Storici. 1985. dos quais se destacam “Sob o domínio da precariedade. atualmente. Publicou. em 1999. indícios e singularidades (Civilização Brasileira. Codiretor do Programa de Doutorado “Europa: o mundo mediterrâneo e sua difusão atlântica”.1994). 1978). com o título História dos jovens). Il modelo ligure di antico regime (Einaudi 1993).EXERCÍCIOS DE MICRO-HISTÓRIA 298 Comércio e os comerciantes. lançado no Brasil em 2000 pela Civilização Brasileira com o título A herança imaterial. leciona na Universidad Ca’Foscari de Venecia. Ricerca e Formazione) e membro do conselho diretor do Ideas (Centro interdepartamental para a análise da “Interazioni Dinamiche tra Economía. Foi docente de história moderna na Universidade de Gênova e um dos principais protagonistas do debate italiano sobre a microhistória. 2005) e “Free- AF_livro final ok. em 1932. Giovanni Levi Foi professor de história moderna nas universidades de Turim e Viterbo e. em 2 volumes. Escravidão e os significados da liberdade de trabalho no século XIX” (Topoi. Ambiente e Societá”). las estrategias de un comerciante criollo José Antonio de Lavalle y Cortés. Lettere orbe: anonimato e potere nel Seicento genovese (Gelka. em Sevilha. Edoardo Grendi Nascido em Gênova. Doutor em história social pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) desde 1999. entre outros livros. Itália. Trajetória de um exorcista no Piemonte do século XVII ) e Centro e periferia di uno stato assoluto (Rosenberg. I Balbi. 1994. pela Companhia das Letras.indd Sec11:298 4/12/2009 15:03:24 . na Universidad Pablo de Olavide. 1985). entre outros trabalhos. Reino Unido. os livros L’eredità immateriale (Einaudi. Colaborador da associação Merifor (Mediterráneo. Henrique Espada Lima Professor adjunto do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e pesquisador do CNPq. Foi autor. Il cervo e la Repubblica. 2006) e de artigos em revistas de circulação nacional e internacional. 2004). e juntamente com Jean-Claude Schmitt organizou a obra Storia dei Giovani (Laterza. 1989).

2001) e Conquistadores e negociantes: histórias de elites no Antigo Regime nos trópicos. 1790 – 1830 (4. 1998). séculos XVIII e XIX ( Papirus. Renato Pinto Venâncio Professor associado I da Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP). UFJF. Alexandre de Gusmão: “Arte de criar bem os filhos na idade da puerícia” (Martins Fontes. Arquivo Público Mineiro. 2004). Autora do livro Negócios de famílias: mercado. 2007). Arquivo Público Mineiro. 2001) e um dos organizadores dos livros O Antigo Regime nos trópicos: a dinâmica imperial portuguesa nos séculos XVIXVIII (Civilização Brasileira. Rio de Janeiro. 1790-1830. Livro de ouro da história do Brasil (Ediouro.indd Sec11:299 4/12/2009 15:03:24 . 2004). 2003). Panfl etos abolicionistas: o 13 de maio em versos (Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais. 2007). Doutor em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF) desde 1990. É autor de Homens de grossa aventura: acumulação e hierarquia na praça mercantil do Rio de Janeiro. Mônica Ribeiro de Oliveira Professora associada I da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e do Programa de Pós-Graduação em História da mesma universidade. (2.in nineteenth-century Brazil” (International Review of Social History. Famílias abandonadas: assistência à criança de camadas populares no Rio de Janeiro e em Salvador. uma cidade no Império (Secretaria de Estado de Cultura de Minas Gerais. Doutor pela Universidade Paris IV-Sorbonne e pesquisador do CNPq. 2005) e de diversos capítulos e artigos em sua área de atuação. 2005). coautor de O arcaísmo como projeto: mercado atlântico. ed. Pesquisadora do Programa do Pesquisador Mineiro (Fapemig). 2006). ed. Civilização Brasileira. Doutora em história pela Universidade Federal Fluminense (UFF) desde 1999. AF_livro final ok. 2006). 2007). Publicou os seguintes livros: São João del-Rey. 2009). João Fragoso Professor titular de teoria da história da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Uma história da vida rural no Brasil (Ediouro.. séculos XVI a XVIII (Civilização Brasileira. precariousness and the law. É uma das organizadoras do livro Nomes e números: alternativas metodológicas para a história econômica e social (Ed.. terra e poder na formação da cafeicultura mineira 17801870 (Edusc. América lusa. Freed persons contracting out their labour agrária e elite mercantil em uma economia colonial tardia. 1999). Civilização Brasileira. Álcool e drogas na história do Brasil (Alameda/PUC-Minas. sociedade 299 OS VÍNCULOS INTERFAMILIARES dom. Ancestrais: uma introdução à história da África Atlântica (Campus.