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Seção Debate

Claudia de Lima Costa
Universidade Federal de Santa Catarina

Eliana Ávila
Universidade Federal de Santa Catarina

Gloria Anzaldúa, a consciência
mestiça e o ““““feminismo
feminismo da
diferença””
Resumo
esumo: Este artigo situa a contribuição fundamental de Gloria Anzaldúa sobre a consciência
mestiça na história do feminismo, enfocando sua perspectiva epistemológica da diferença
interseccional na articulação de uma política de coalizão contra a exclusão da alteridade dos
lugares privilegiados da construção da modernidade. Ancorando-se nas reflexões acadêmicas
sobre os escritos de Anzaldúa, as autoras destacam as maneiras pelas quais a teoria da
identidade mestiça de Anzaldúa está antecipando não apenas críticas aos conceitos de sujeito,
diferença e modernidade, mas também aquelas que enfatizam as distinções entre versões
capitalistas e versões críticas do hibridismo cultural.
Palavras-chave
alavras-chave: interseccionalidade, hibridez, teoria queer, política identitária, política de
alianças.

I began to think, ““Yes, I’’m a chicana but that’’s not all I am. Yes, I’’m a woman but that’’s not all I am.
Yes, I’’m a dyke but that doesn’’t define all of me. Yes, I come from working class origins, but I’’m no
longer working class. Yes, I come from a mestizaje, but which parts of that mestizaje get privileged?
Only the Spanish, not the Indian or black.”” I started to think in terms of mestiza consciousness. What
happens to people like me who are in between all of these different categories? What does that do to
one’’s concept of nationalism, of race, ethnicity, and even gender? I was trying to articulate and
create a theory of a Borderlands existence. …… I had to, for myself, figure out some other term that
would describe a more porous nationalism, opened up to other categories of identity.
[Começei a pensar: ““Sim, sou chicana, mas isso não define quem eu sou. Sim, sou mulher, mas isso
também não me define. Sim, sou lésbica, mas isso não define tudo que sou. Sim, venho da classe
proletária, mas não sou mais da classe proletária. Sim, venho de uma mestiçagem, mas quais são as
partes dessa mestiçagem que se tornam privilegiadas? Só a parte espanhola, não a indígena ou
negra.”” Começei a pensar em termos de consciência mestiça. O que acontece com gente como
eu que está ali no entre-lugar de todas essas categorias diferentes? O que é que isso faz com nossos
conceitos de nacionalismo, de raça, de etnia, e mesmo de gênero? Eu estava tentando articular e
criar uma teoria de existência nas fronteiras. [...] Eu precisava, por conta própria, achar algum outro
termo que pudesse descrever um nacionalismo mais poroso, aberto a outras categorias de
identidade.]
Gloria E. Anzaldúa, Interviews

Estudos Feministas, Florianópolis, 13(3): 320, setembro-dezembro/2005

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anglófonas. 1981. Elizabeth Spellman. o que abrirá. Como explica Susan FRIEDMAN. entre masculino e feminino) e caminha rumo à exploração das diferenças entre as mulheres e no interior das mulheres –– tônica que marcou principalmente as preocupações intelectuais e práticas militantes feministas na década de 1980. 1976 –– havia sido traduzido e publicado nos Estados Unidos). de classe. esteve muito marcado pelos debates sobre as diferenças entre mulheres e homens. somente um artigo de Hélène CIXOUS –– ““The Laugh of the Medusa””. intervenções das mulheres feministas de cor. No contexto do feminismo norteamericano. em sua primeira fase. Segundo as discussões de Michèle Barrett e de Nancy Fraser sobre o conceito de diferença. é a época do discurso Estudos Feministas. diferença racial. Com a irrupção dessas vozes histórica e estruturalmente reprimidas ou sem espaço. 3 Seria importante observar que. dentro do feminismo. até então dominado pela miopia das feministas consideradas brancas. para o centro do debate feminista norte-americano. Maria Lugones e Norma Alarcón (para arbitrariamente citar apenas algumas autoras) percorrem o curso aberto por Anzaldúa. Cherríe MORAGA e Gloria ANZALDÚA. Enfim. Florianópolis. embora houvesse discordâncias quanto à explicação dessas diferenças (biologia. nos anos 1990. com o qual os escritos de Anzaldúa dialogam. distancia-se das determinações biológicas para salientar as inscrições socioculturais dos sujeitos além do gênero. o discurso da diferença. 1979) teve o efeito de intensificar o então discurso dominante da diferença de gênero e de sua estrutura binária (é interessante observar que antes da publicação dessa coletânea. heterossexuais. portanto. Adrienne Rich. entre outras. verdades. a partir de seu lugar de escritora chicana às margens do cânone. Co-organizadora de uma das mais importantes antologias emblemáticas do feminismo da diferença. setembro-dezembro/2005 . a discussão sobre diferença se desloca do plano de uma dicotomia de gênero (a diferença entre homens e mulheres. judias e mulheres do Terceiro Mundo. a diferença de gênero era vista como a categoria de análise mais significativa e determinante. examinando e polemizando as questões sobre diferença: diferença sexual para além das formulações dicotômicas. Veja também ANZALDÚA. de Gayle RUBIN. desintegração de epistemologias e a exploração. 1975. das múltiplas opressões constitutivas das diferenças entre as mulheres. A influência do ““feminismo da diferença”” francês nos debates norte-americanos (influência esta somente sentida nos anos 1980 a partir da publicação da coletânea New French Feminisms. organizada por Elaine MARKS e Isabel de COURTIVRON. etc. Teresa de Lauretis. 2000b. com a entrada dos debates sobre pós-modernismo e pós-estruturalismo na academia norte-americana. O desafio a uma análise ancorada somente na diferença de gênero dentro do feminismo norte-americano 2 692 Sobre amasamientos culturais e a constituição do sujeito mestiço A importância de Gloria Anzaldúa para o surgimento da discussão sobre diferença no bojo do feminismo norteamericano não pode ser menosprezada. que por sua vez estavam influenciados pela noção de sistemas de sexo/gênero. curso para a análise da interseccionalidade do gênero. 1998. 2000a. estamos fazendo alusão à trajetória norteamericana desse conceito. revelando o reconhecimento de que o campo social está intersectado por várias camadas de subordinação que não podem ser reduzidas unicamente à questão de gênero. Esse foi um período em que. O feminismo da diferença. assistimos a uma massiva desestabilização de certezas.3 os anos 1980 mostraram como as diversidades culturais. lésbicas. ao usarmos o termo ““feminismo da diferença””. raciais. This Bridge Called My Back: Writings by Radical Women of Color.CLAUDIA DE LIMA COSTA E ELIANE ÁVILA Copyright ¤ 2005 by Revista Estudos Feministas 1 ANZALDÚA. contribuíram para as distintas experiências das mulheres. protestantes e de classe média. diferença pós-colonial.2 Anzaldúa trouxe. 13(3): 691-703. diferença étnica. entre as mulheres e entre as mulheres e os homens. cultura ou uma combinação de ambos os fatores).

o espaço para o que mais tarde veio a ser denominado abordagem interseccional. Alice JARDINE. setembro-dezembro/2005 693 . 1988. e Claudia de Lima COSTA. lésbicas. 2003. feministas negras. abrindo. La Llorona. simultaneamente empregando-os e subvertendo-os. particularmente as feministas negras. judias. Mistura de poesia. 13(3): 691-703. Nancy K. 1985. Segundo Stephenson. No contexto europeu. 1994 e 2002. Para maiores explorações sobre a discussão norte-americana do ““feminismo da diferença””. 1983. Tlazolteotl.] [E]ssa re-apropriação do ‘‘lar’’ privilegia a Estudos Feministas. enfatizadas por Dale Spender. a pária e a Queer. veja Toril MOI. Argumentando que a opressão das mulheres não poderia ser entendida unicamente pelo viés da diferença de gênero. o ““feminismo da diferença”” toma outros contornos. autobiografia espiritual. Nancy FRASER.6 argumenta que Anzaldúa. o qual se situa entre vários gêneros textuais e registros discursivos. 1980. das diferenças salientadas por Nancy Chodorow na constituição das subjetividades a partir da reprodução da maternidade e das diferenças entre homens e mulheres no uso da linguagem. com sua consciência polivalente e por meio de uma prática performática/textual transversiva. 1994. Naomi SCHOR e Elizabeth WEED. espanhol. por exemplo. 6 STEPHENSON. 1998. Borderlands é visto por algumas feministas como a tentativa de Anzaldúa de ir mais além do feminismo da diferença do início dos anos 1980. MILLER. Para essas outras acepções da diferença (incluindo a diferença sexual). 1978. Norma Alarcón.. ocupa. a deslocada. cultural e teórico de ‘‘residência’’ para a chicana. portanto. 1985. 5 ALARCÓN.. um ‘‘lar’’ que está aberto para a ilegal. 1989. 1987. não apenas questiona o sujeito autoritário e coerente das representações eurocêntricas. e Diana FUSS. operárias. veja Michèle BARRETT. Para um estudo sobre as relações entre o pós-estruturalismo francês e o feminismo norte-americano. Teresa de LAURETIS. 1982. várias línguas e dialetos indígenas).. 1996.GLORIA ANZALDÚA. do ““Terceiro Mundo”” e chicanas. a qual expandiu o conceito de gênero e passou a formulá-lo como parte do conjunto heterogêneo das relações móveis. mas também invoca outros sistemas simbólicos para recuperar e recodificar os múltiplos nomes da Mulher que não se encontram contidos dentro dos registros hegemônicos ocidentais e dos modelos psicanalíticos freudianos e lacanianos. FRIEDMAN. etc. ficção. Esse terceiro espaço também demanda uma forma diferente de conhecer e sentir. CHODOROW. variáveis e transformadoras do campo social. A CONSCIÊNCIA MESTIÇA E O ““FEMINISMO DA DIFERENÇA”” surgiu a partir das intervenções das feministas não-brancas. seu livro Borderlands/La Frontera: The New Mestiza. Coatlicue. entre outras (ou uma mistura de todas essas categorias) demandaram atenção para as diferenças múltiplas entre as mulheres. a nova mestiça de Anzaldúa. Anzaldúa reivindica as fronteiras a partir da criação de uma comunidade imaginária utópica ou de um terceiro espaço. Em outras palavras. Dado que os sistemas de significação predominantes desautorizam qualquer sentido político. especialmente a partir das discussões francesas e italianas. veja GILLIGAN. La Chingada. e Rosi BRAIDOTTI. discurso analítico e escrito em vários idiomas (inglês. para um escrutínio (geo)político das mestiçagens e hibridismos presentes na explosiva zona de contato que caracteriza a fronteira entre México e Estados Unidos.4 Em breves pinceladas. ao assumir posições resistentes de sujeitos nas figuras da Mulher. ela figura tanto como presença e ausência nas representações textuais e nos discursos prevalecentes do estado-nação. esse é o contexto em que Anzaldúa lança. em constante sobreposição/deslocamento. 2002. Jane GALLOP. Guadalupe.Cobra [Snake Woman]. 2003. da diferença no feminismo norte-americano: da ““voz diferente”” de Carol Gilligan. veja. os interstícios dos vários vetores da diferença resultantes dos desequilíbrios históricos e das exclusões múltiplas. Os escritos de Anzaldúa são precursores dessa visão interseccional dentro do feminismo contemporâneo. 1994. e SPENDER. das abstrações desconstrucionistas ou sinais da diferença pura de algumas vertentes pós-estruturalistas. 4 Para uma maior compreensão de como a diferença foi articulada nesse período do feminismo norte-americano. Florianópolis. [. em 1987.5 realizando uma leitura bastante incisiva da nova mestiça (leitura esta que vem acompanhada de comentários não menos incisivos de Marcia Stephenson).

setembro-dezembro/2005 . Enfatizando que os terrenos da diferença são mais que nunca espaços de poder. no entanto. mostra como esta é constituída na história e adquire forma a partir de articulações sempre locais –– suas mestiçagens múltiplas revelam simultaneamente mecanismos de sujeição e ocasiões para o exercício da liberdade. um ‘‘lar’’ sem território geopolítico juridicamente nacionalizado. os processos de deslocamentos sociopolíticos do império e da construção da nação ao longo desses 500 anos de história aconteceram de tal forma que a noção de ‘‘lar’’ se tornou tão móvel quanto as populações. 13(3): 691-703. minha terra natal me despejou. toda tradução é uma ““pérfida fidelidade””).8 Devemos lembrar que esse amasamiento que constitui o sujeito de Anzaldúa se refere ao processo de tradução cultural abalizando a lógica do hibridismo nãoassimilacionista. tenho cultura porque estou participando da criação de uma outra cultura. mas também uma criatura que questiona as definições de luz e de escuro e dá-lhes novos significados. p. Todas as traduções que aqui aparecem são das autoras. ou seja. noção de migração. 1987. sou um ato de juntar e unir que não apenas produz uma criatura tanto da luz como da escuridão. Como tradutora e traidora (já que não existe tradução fiel. como uma feminista.CLAUDIA DE LIMA COSTA E ELIANE ÁVILA STEPHENSON. eu não tenho país. a nova mestiça opera dentro de uma referência epistemológica distinta 694 Estudos Feministas. p. todos os países são meus porque eu sou a irmã ou a amante em potencial de todas as mulheres. exceto quando explicitadas. 7 8 ANZALDÚA. Migrando pelos entre-lugares da diferença. um novo sistema de valores com imagens e símbolos que nos conectam um/a ao/à outro/a e ao planeta. desafio as crenças culturais/religiosas coletivas de origem masculina dos indo-hispânicos e anglos. Florianópolis. (Como uma lésbica não tenho raça. Soy un amasamiento. Anzaldúa conclama: Como mestiza. 2003. multiplicidade e de um tempo provisional: nas Américas hoje. mas sou de todas as raças porque a queer em mim existe em todas as raças. 80-81. uma nova história para explicar o mundo e a nossa participação nele. A ambigüidade e a indecidibilidade que acompanham o ato tradutório no qual Anzaldúa se engaja têm o efeito de perturbar os binarismos culturais. a autora complica radicalmente o discurso feminista da diferença. entretanto. o sujeito subalterno/chicano de Anzaldúa articula uma identidade mestiça que já antecipava a crítica ao pensamento binário e a modelos de hibridismo cultural ancorados em noções de assimilação e cooptação. meu próprio povo me rejeita. Em um dos trechos mais citados e de grande força retórica de La conciencia de la mestiza. 371 –– tradução das autoras.7 Marcado por uma subjetividade nomádica moldada a partir de exclusões materiais e históricas.) Sou sem cultura porque.

por exemplo. O ““originário”” está sempre aberto à tradução [. 1999. mas como um motivo ou tropo como sugere Benjamin para a atividade de deslocamento dentro do signo lingüístico. 2004. Seu cronotopo é a limiaridade/ insterstício e sua prática. Para uma reflexão instigante sobre a noção de ““zona de contato””. tradição e modernidade. entende a mediação tradutória de Anzaldúa (sempre cruzando mundos e identidades –– chicana. escritora. porém. a tradução é também uma maneira de imitar.: o ““original”” nunca é acabado ou completo em si. 1978. 228. como antes. 125. não no sentido estritamente lingüístico de tradução. a tradução. 2004. brincalhona. Para uma análise da tradução cultural em relação ao feminismo e transnacionalismo. de fato. imitar um original de tal forma que a prioridade do original não seja reforçada. transferido. p. porém de uma forma deslocadora. 1990. O que isso de fato quer dizer é que as culturas são apenas constituídas em relação àquela alteridade interna a sua atividade de formação de símbolos que as torna estruturas descentradas –– é através desse deslocamento ou limiaridade que surge a possibilidade de articular práticas e prioridades culturais diferentes e até mesmo incomensuráveis. A CONSCIÊNCIA MESTIÇA E O ““FEMINISMO DA DIFERENÇA”” do modelo que estrutura as relações entre centro e periferia. setembro-dezembro/2005 695 . sincretismo e diasporização que criam disjunturas entre tempo e espaço (a fronteira) e deslocamentos dos discursos sobre ‘‘origens’’ e essências. 2004. Homi Bhabha esclarece: BHABHA. pobre. ““zonas de contato””11 e epistemologias da fronteira. que teremos alguma chance de produzir um entendimento multicultural das mulheres ou.GLORIA ANZALDÚA. mexicana. ver SOUZA. perguntamos. militante) como uma prática de questionamento de nossas certezas epistemológicas buscando a abertura para outras formas de conhecimento e de humanidade. citado em tradução em Lynn Mario T. Como enfatiza Bulter. 10 11 Essa teoria da cultura está próxima a uma teoria da linguagem. Anzaldúa nos mostra que ““é somente através de existirmos no modo da tradução. Florianópolis. acadêmica. americana. transformado. p. escrevendo sobre feminismo e transformação social. veja Silviano SANTIAGO. pelo próprio fato de que o original se presta a ser simulado.. qual seria a contribuição específica de Anzaldúa para uma prática feminista de tradução? Estudos Feministas. Para uma melhor compreensão de como essa noção se relaciona proximamente com o conceito de ““entre-lugar””. veja Mary Louise PRATT. Para uma discussão esclarecedora sobre os conceitos de hibridismo e tradução cultural em Bhabha. da sociedade””.10 Mas. veja COSTA.9 Judith Butler. Perseguindo esse conceito. Ela é produto da transculturação. 2004. um ““livro traduzido do francês para o inglês””. constante tradução. No que tange ao conceito de tradução cultural presente no processo da hibridização. no atual cenário de divisas fragmentadas. como parte de um processo de traduções –– usando essa palavra.] nunca tem um momento anterior totalizado de ser ou de significação –– uma essência. 13(3): 691-703. lésbica. Menezes de SOUZA. 9 BUTLER. copiado. etc.. como.

Nelly Richard observou que. seu hibridismo móvel aponta. 1998. 14 ANZALDÚA. MOORE. o trânsito da teoria entre os centros metropolitanos e as periferias se faz a partir de uma troca desigual: enquanto o centro acadêmico teoriza. a mestiça de Anzaldúa.CLAUDIA DE LIMA COSTA E ELIANE ÁVILA Sobre a especificidade histórica da interseccionalidade de diferenças 12 RICHARD. 2002. 2004. No entanto. 33. Nós nos engajamos em tais processos. Para uma reflexão inspiradora dos discursos sobre pósfeminismo ou sobre a morte do feminismo. no sentido de um movimento dialógico entre o idêntico e 696 Estudos Feministas. questiona o que Walter Mignolo identifica como ““colonialidade do poder””.18 O ‘‘além’’ de Friedman é o ‘‘além’’ (beyond) de Bhabha. 102. afirmar esse espaço do além não significa incorrer no discurso problemático do pós (pós-feminismo ou feminismo pósdiferença). 13 MIGNOLO. primeiro. 15 FRIEDMAN. esquematizar. Em uma perspicaz discussão sobre feminismo. com o desejo de pertencimento.15 No entanto. p.14 Susan Friedman. Seu hibridismo brinca com os modelos metropolitanos. a periferia torna-se o corpo concreto em oposição à mente abstrata do feminismo metropolitano).16 Ao contrário. ao analisar o discurso feminista da diferença. setembro-dezembro/2005 . Pertencer invoca o desejo e é neste desejo que reside muito da paixão pela diferença. de maneiras distintas. organizar. p. de ser parte de alguma comunidade. espera-se da periferia o fornecimento de estudos de caso. usando uma outra oposição binária perversa. Florianópolis. Como Henrietta Moore enfatiza.12 Em outras palavras. ao mesmo tempo que inaugura outros tipos de conhecimento ou epistemologias da fronteira. mas de processos de identificação e diferenciação. veja Mar y HAWKESWORTH. identidade e diferença não tratam somente de agrupamentos categóricos. na divisão global do trabalho. para a formação de um feminismo ‘‘migratório’’ que resiste à ““tendência da teoria em fixar. 1994. 2003.13 interrompendo a prática de apropriação metropolitana através de um número de estratégias textuais articuladas a partir do cronotropo da différance derridiana em oposição à noção simplista de diferença. a periferia é reduzida ao lado prático da teoria (ou. como temos salientado aqui. Como afirma Anzaldúa. argumenta que a mestiça de Anzaldúa aponta para um lugar além da diferença. 1998. ainda que provisória. alinhava uma crítica à preocupação exagerada do feminismo com a diferença à custa de qualquer reconhecimento do desejo pela identidade. veiculado com tanto fervor pela mídia. p.17 Segundo. 13(3): 691-703. 16 17 18 FRIEDMAN. 1-2. classificar e estabilizar a fragmentação e fluidez do pensamento e da existência””. suas dicotomias e revela as estruturas descentradas dos mesmos. experiência e representação. ““[s]abia de coisas muito antes de Freud””. 1987.

contingentes a cada circunstância específica. por exemplo o debate entre FRASER.21 Uma das importantes ramificações dessa contribuição é perturbar o argumento de que os estudos de sexualidade não passam do âmbito ‘‘meramente cultural’’. Enfatizou a necessidade de se manter uma perspectiva de alianças sem perder de vista a especificidade histórica de cada instância de luta: longe de antecipar qualquer garantia de correspondência entre uma política supostamente homogênea de se viver a fronteira e o conteúdo emancipatório que se pode esperar dela. 21 Veja Diane FOWLKES. e BUTLER. 22 a diferença. explorando os espaços de suas diferenças. de modo que esses parâmetros de agenciamento cultural. desconectadas entre si. 1997a e 1997b. 224. ou mesmo na definição que Michael Taussig lhe dá : o movimento entre mímese e alteridade na inscrição da diferença pelo etnógrafo. Anzaldúa propõe o verbo to sandbar. Ao elencar quatro caminhos necessários para uma possível política de alianças que não dispense (nem despense) a força estratégica de políticas identitárias. 1997. 1997. alinhado aos estudos feministas. materializado como objeto) do humanismo.GLORIA ANZALDÚA. 1993. possam se reforçar e também se interromper dialogicamente. 1984. enriquecendo-se com suas limitações mútuas. simultaneamente. uma das grandes contribuições da prática teórica de Anzaldúa é desenvolver uma perspectiva articulando. 13(3): 691-703. às vezes visível. 1998. 1990. de uma perspectiva interseccional que recusa qualquer redução de subjetividades históricas complexas a categorias identitárias fixas. históricas. Anzaldúa também demarcou sua resistência ao redirecionamento de discursos normatizantes sobre a perspectiva interseccional desenvolvida por teorias feministas e queer a partir dos anos 1980. dependendo da maré””. Veja. formar alianças é um processo que requer estratégias flexíveis e transitórias. p. Florianópolis. a teorização de Anzaldúa reflete o surgimento.20 Para Anzaldúa. a esse respeito. p. política identitária e política de alianças. 47-48. mesmo que aparentemente antitéticos. para a discussão sobre Taussig. e sim viajar constantemente entre mundos. 19 Para Friedman. Assim. A CONSCIÊNCIA MESTIÇA E O ““FEMINISMO DA DIFERENÇA”” TAUSSIG. referindo-se ao banco de areia que conecta a ilha ao continente mas que se mantém ““às vezes submerso. ou seja. setembro-dezembro/2005 697 . Veja FRIEDMAN. não passam de um âmbito supostamente inferior ao dos estudos de classe –– estes tidos como parâmetro absoluto de constituição do sujeito abjeto (portanto. formados negativamente e positivamente a partir de misturas e divisões. 23 LORDE. 19 20 ANZALDÚA.22 Em contraponto a esse argumento –– que Audre Lorde definiu como ““hostilidade horizontal””23 –– que surge no bojo de políticas identitárias essencialistas. a teoria de Anzaldúa exige discernir cada construção de conteúdos Estudos Feministas. esse movimento não significa um retorno ao lugar róseo da irmandade feminista dos anos 1970 e início dos anos 1980.

É contra essa ideologia que Seyla Benhabib argumenta que a teoria de Anzaldúa rejeita o âmbito da subjetividade singular coletiva para abraçar aquele. sexo. etnias e classes são aglomerados. aspectos de cada pessoa. ou seja. sob o qual todos os ‘‘queers’’ de todas as raças. 2003.28 De fato. ANZALDÚA. todos os que atravessam. baixas. a identidade não é um amontoado de cubículos estufados respectivamente com intelecto. Florianópolis. 29 ANZALDÚA. Assim. classe. em suma.29 Estudos Feministas. impedindo sua fixidez. mas coloca em xeque a própria conceitualização de categorias semânticas. p.] processo. setembro-dezembro/2005 . Identidade é um [. Por vezes precisamos dessa abrangência para solidificar nossos postos contra quem nos oprime. 251. mesmo tendo sido pioneira no uso interseccional do termo queer em seu livro influente de 1987. ao considerar as dinâmicas de opressão e resistência cultural. bem mais complexo. Anzaldúa contraria os argumentos pela priorização de um paradigma constitutivo sobre outro. já que seu trabalho tende a ser categorizado sob a rubrica singular de teorias de raça. que impeça o deslocamento e a transgressão abjeta de fronteiras simbólicas/materiais. 252-253. estrategicamente transgredindo parâmetros identitários de raça e sexualidade e demolindo qualquer mito de pureza epistemológica ou identitária. é sintomático que. p. onde as classes mais baixas. Para ela. Mas mesmo quando buscamos abrigo sob esse termo não devemos nos esquecer de que ele homogeniza e oculta nossas diferenças. 27 Nikki SULLIVAN. reproduzindo assim a lógica hegemônica.27 por sua vez tidas como sendo isoladas de outros parâmetros identitários. p. p. Identidade flui entre.. A fronteira específica tematizada neste livro é a fronteira entre o México e o sudoeste dos E. onde o espaço entre dois indivíduos se encolhe na intimidade. 13(3): 691-703. Em Anzaldúa. 66.26 Anzaldúa é raramente citada ou reconhecida por sua contribuição aos estudos queer. o híbrido. o queer. o atrapalhado. médias e altas se tocam. gênero. 250. 1991. Anzaldúa enfatiza a tensão necessária entre as forças simultâneas de especificidade e comunidade que tornam as alianças possíveis entre sujeitos intersticiais: 24 ANZALDÚA. 25 26 698 [q]ueer costuma ser usado como um termo abrangente. alertando para a cooptação do termo queer como apenas mais uma nova categoria identitária e homogenizante. o meio-morto. vocação. da intersubjetividade. de razão ou raça pura.24 É nesse mesmo sentido de interseccionalidade que. 1991. 1987. raça. 1991. p. falsamente unificador. 1987. La Frontera é onde vive o que é impróprio e proibido: ““Los atravesados vivem aqui: o vesgo. e tendo criticado seu uso abstracionista e esbranquiçante. o conceito queer se entrelaça com os de ““borderlands/ la frontera”” e ““consciência mestiça””. As fronteiras se tornam fisicamente presentes em todos os lugares onde duas ou mais culturas se tocam. Anzaldúa enfatizou a dinâmica transitória pela qual ANZALDÚA. 17. A teorização queer não se resume à mera inversão de hierarquias. de um modelo aditivo de opressão e resistência identitária. p. o perverso.25 Nesse contexto. o mulato. 1986. As fronteiras psicológicas. onde pessoas de raças diferentes ocupam o mesmo território. cruzam ou transgridem os confins do ‘‘normal’’”” (ANZALDÚA.CLAUDIA DE LIMA COSTA E ELIANE ÁVILA como uma instância interseccional e vivencial específica.. as fronteiras sexuais e as fronteiras espirituais não são exclusivas a essa região. 3). o mestiço.––Texas.U. sobre.A. 28 BENHABIB.

já que se materializam em relações gravemente assimétricas: ““A fronteira E. 30 Anzaldúa argumenta que é preciso incorporar essa dinâmica em cada luta. a necessidade de fazer distinções entre instâncias de hibridez resistente e não-resistente não deve ser confundida com o impulso para descobrir a forma perfeita de resistência que não possa ser recuperada por forças de dominação. cujo movimento nacionalista buscou dissipar seus conflitos internos sob mitos nacionalistas de unidade identitária. HAMES-GARCIA. ela exige que se atente para a especificidade histórica de toda assimetria intercultural. o bom. Ao contrário. 35 Pretensamente protegendo a família chicana do capitalismo e racismo anglocêntricos. um dos principais documentos do nacionalismo cultural chicano. resolução. como afirma Michael Hames-Garcia. 13(3): 691-703. 1990. p. 110. Segundo Hames-Garcia. p. nada rejeitado. p. concebe o nacionalismo como uma ““chave para a organização”” que ““transcende todas Estudos Feministas.33 Respaldados por ideologias salvacionistas. 79. Anzaldúa ressalta a necessidade de engajar (ao invés de resolver ou dissolver) as tensões subjacentes a qualquer narrativa justificadora de opressão e exclusão: ““os termos solução. Florianópolis. Nesse processo. 2000. nada abandonado. 227. 30 31 32 ANZALDÚA. Por exemplo.34 Tal ênfase sobre a fronteira enquanto uma ““ferida aberta”” nada tem em comum com a ideologia de suposta transcendência de barreiras celebrada por teorias hegemônicas de hibridismo e transculturalismo. A CONSCIÊNCIA MESTIÇA E O ““FEMINISMO DA DIFERENÇA”” AnaLouise KEATING. o ruim e o feio. contrapondo-a através de uma ““nova consiência”” que recusa tanto o identitarismo essencialista quanto o hibridismo hegemônico.31 Ainda assim. progredir e ir adiante refletem conceitos culturais dominantes do Ocidente””. p. p. ao invés de ignorá-la: ““nada é eliminado. [A nova mestiza] não só sustém contradições como também transforma as ambivalências em uma outra coisa””.GLORIA ANZALDÚA. setembro-dezembro/2005 699 . a ideologia resolucionista do movimento ignorou as desigualdades internas legitimadas pelo mito patriarcal de identidade nacional. 2000. Anzaldúa representa essa crise contra a lógica hegemônica que é reproduzida também internamente na cultura chicana. ““El Plan Espiritual de Aztlán””.32 É nesse sentido que. 34 ANZALDÚA. 1987.––México es una herida abierta em que o Terceiro Mundo range contra o primeiro e sangra””. 33 ANZALDÚA. tais conceitos culturais precisam ser reconhecidos enquanto veículos de violência. em sua discussão sobre uma possível política de alianças. 35 HAMES-GARCIA. 3.A. Reconhecendo que a dinâmica corporativa contemporânea capitaliza-se ainda mais ao absorver diversas formas de resistência cultural. 1993.U. 1987. 111. a nova mestiça é quem busca ““reinterpretar a história”” universalizante.

PESQUERA. 5. ““as identidades produzidas nas fronteiras são automaticamente livres de restrições. p. à representação que ignora sua problemática ordem patriarcal. 72-75.38 Ainda segundo Hames.] Recuso-me a glorificar os aspectos da minha cultura que me feriram. portanto. mas em transformação incessante. sustentado pela ilusão modernista de temporalidade linear e. a mero antipatriotismo em cumplicidade com os inimigos da cultura chicana. políticas. setembro-dezembro/2005 .37 Em contraponto. Ela problematiza. especialmente quando a interpretação que Anzaldúa faz dessa ‘‘nova’’ cultura parte de noções arcaicas da cultura indígena précolombiana para simular um modo de vida mais puro ou autêntico. para April Shemak. ou seja. Para Anzaldúa. 86). é importante notar que seu livro Borderlands/La Frontera começa justamente com uma crítica contundente à representação acrítica de um retorno mítico ao passado asteca. Anzaldúa declara: ““Não me convencem os mitos da tribo em que meu nascimento me inseriu. a narrativa de retorno a Aztlan. [. 48-50. ignora a opressão de mulheres como base da dominação asteca sobre os povos pré-colombianos. veja também Scott MICHAELSEN e David JOHNSON. simbolizadas pela serpente. 1998.. de uma fronteira intransponível entre tradição e modernidade. 13(3): 691-703. os espaços entre os mundos Estudos Feministas. 1987. 40 Por exemplo. e perplexa em meio à encruzilhada de ““los intersticios. 1997. assim. que enfatiza a desterritorialização dupla dos chicanos e chicanas (como astecas e como mexicanos colonizados). o argumento de Paul GILROY (1993) para redifinir tradição enquanto modernidade em relação histórica diante de um passado não fixo. 2. SEGURA e Beatriz M. portanto.] Anzaldúa constrói um indigenismo estagnado. portanto com direito (duplo!) de posse sobre a terra usurpada pelos Estados Unidos. nesse sentido. sobre a crítica à importância dada por Anzaldúa às opressões por orientação sexual. 21-22. Sobre a crítica nacionalista a Anzaldúa. Na visão de Anzaldúa. 37 A nova mestiça de Anzaldúa antecipa. p. 39 Se consideramos tal recusa como uma intervenção histórica. e que me feriram em nome de me proteger””. torna-se claramente inconsistente a crítica segundo a qual a teorização de Anzaldúa sobre a nova mestiça implica um hibridismo que dissolve diferenças. 1987.. 41 ANZALDÚA. veja Deena J. p. representada pela águia e sustentada pela subjugação das mulheres. esse mito legitimador das dominações internas entre chicanos e chicanas. p. Florianópolis. 38 ANZALDÚA. Sobre essa crítica ao indigenismo em Anzaldúa. Sua visão sobre a narrativa de retorno a Aztlán é mais bem compreendida como reapropriação. que suas críticas tenham sido reduzidas a mero faccionalismo nesse contexto discursivo. a nova mestiça recusa o conforto simulado de mecanismos arbitrários de resolução e dissolução de conflitos. p. [.Garcia.CLAUDIA DE LIMA COSTA E ELIANE ÁVILA 36 ““El Plan””. 40 Contra essa redução do conceito de mestiçagem de Anzaldúa a uma dissolução de restrições calcada por um indigenismo idílico des-historicizante. veja Denise A. transpõe contingências históricas ou idealiza o período préColombiano. a lógica hegemônica interna à cultura chicana é reproduzida também pelo mito de retorno ao passado idílico de Aztlan.36 É esse o contexto discursivo criticado por Anzaldúa por homogenizar e. 39 700 as facções ou fronteiras religiosas. Não surpreende. GONZÁLEZ. com ressonâncias e ressignificações atuais. 2002. mistificado [que ignora] como o indigenismo pode ser (e é) manipulado por estados-nações para reproduzir formações étnicas/raciais perniciosas que sustentam o nacionalismo”” (SHEMAK. 19881990. reinterpretação ou revisão histórica do que como qualquer volta a uma pureza original idealizada segundo valores patriarcais. ou seja. econômicas””. encobrir os conflitos internos à sociedade. p.41 Recusando as fronteiras arbitrárias entre tradição e modernidade. portanto.. desproblematizando seu legado histórico patriarcal..

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