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A reestruturagao da industria paulista eo ABC Miguel Matteo e Jorge R. B. Tapia* xamina-se neste artigo 0 processo de reestruturacdo por que passou a indistria paulista nos anos 1990, em particular aquela localizada na regio do ABC. A idéia central & que gragas a esse processo a industria da Regidio Metropolitana de Sao Paulo continua a ser a atividade dindmica do Estado. A relevancia desse argumento, a nosso ver, esté associada a pelo menos trés razdes. Primeiro, 4 necessidade de analisar com base nas informagées disponiveis o que de fato ocorreu com a indistria paulista, e a do ABC em particular, durante a década de 1990, marcada por transformagdes de vulto, econdmicas, tecnolégicas e no emprego. Segundo, a necessidade de avaliar 0 significado ¢ o alcance da chamada “sociedade de servigos” ou “metrépole ter- cidria”, cujas teses, alardeadas por académicos e formadores de opiniao, estdo ainda A espera de andlises consistentes, ancoradas em evidéncias empiricas. Por fim, como corolario das consideragées anteriores, parece-nos necessario discutir de maneira integrada o processo de reestruturagao vivido pela industria paulista e do ABC € aquele de surgimento e desenvolvimento do “terciério moderno” de que nos fala Sassen', o que contribuiria para verificar se eles devem ser interpretados como processos concorrentes ou, ao contrario, como sustentamos aqui, complementares, de tal modo que parte do “tercidrio moderno” se originaria de transformagées da propria indistria. Busca-se aqui fornecer elementos para que essa problematica das mudangas da indiistria paulista e do ABC seja abordada a partir das evidéncias empiricas disponiveis para os anos 1990. Os dados da Pesquisa da Atividade Econémica Paulista (Paep), da Fundagiio Seade, referentes a 1996, revelam uma indiistria que vem se modernizando, utilizando cada vez mais equipamentos de automagao, inovando tecnologicamente ¢ adotando estratégias de gesto que Ihe permitiram ganhos de competitividade ao longo da década. Mostram ainda que esses processos foram mais agudos ainda na regio do ABC, que mantém a mesma participagao na estrutura industrial do Estado desde os anos 1980, a qual se vé hoje apoiada pelas atividades do setor de servigos. Ressalte-se ainda o volume de investimentos na industria da regio entre 1996 e 2000, que revela uma participagao expressiva no total de investimentos industriais no Estado. O estudo esta dividido em quatro seges. A primeira traz uma breve analise da situagao da indastria paulista em face da brasileira, mostrando que a sua participago, * Miguel Matteo, doutorando em Economia pelo Instituto de Economia da Unicamp, ¢ analista da Fundagao Seade. Jorge R. B. Tapia ¢ professor do Departamento de Politica e Historia do Instituto de Economia da Unicamp. 1, Sassen, Saskia. Cities in a world economy. Thousand Oaks: Pine Forge Press, 1994 Cadernos de Pesquisa, n* 8, marco de 2003 9 ECONOMIA REGIONAL E NEGOCIACOES COLETIVAS NO ABC PAULISTA ao contrario do que se afirma, nao se altera entre 1985 e 1998, A segunda segao mostra a evolugdo da industria do ABC e os dados mais recentes de sua participagao na estrutura industrial paulista. A terceira apresenta os dados da Paep para o estado de So Paulo, a Regidio Metropolitana e o ABC. Por fim, tecem-se algumas conclusdes sobre as novas institucionalidades regionais ¢ os desafios a serem enfrentados pela sociedade local As caracteristicas da industria paulista nos anos 1990 Desde os anos 1970 a industria brasileira passou por um processo de descon- centracio regional de suas atividades, que expandiram seus limites para além do eixo Rio-Sao Paulo, cuja importdncia relativa decresceu em face de outros estados’. No caso de Sao Paulo, a desconcentragao ocorreu sobretudo em detrimento da Capital e da Regio Metropolitana de Sao Paulo (RMSP), favorecendo as regides do interior do :stado. Esse movimento foi determinado, entre outros fatores, pelas politicas do governo federal de direcionamento dos investimentos industriais para regides periféricas da economia brasileira, conforme as diretrizes dos Planos Nacionais de Desenvolvimento dos anos 1970 ¢ 80 (PNDs Ie II). Durante os anos 1980 o processo de desconcentragao ganhou maior impulso ao se associar a crise recessiva que assolou o pais e atingiu de a 0 estado de Sao Paulo (que na época concentrava mais de dois tergos da industria nacional de bens de capital), dadas as relagdes mais intensivas de interdependéncia entre as divisdes da industria paulista. E também nesse periodo que 08 investimentos federais em outros estados (e no interior paulista) atingem o seu grau de matura As crises da década de 1980, a instabilidade macroeconémica e a abertura do mercado a partir do governo Color exigiram da indistria de transformagao brasileira intensos esforgos de adaptago ao novo ambiente econdmico. Na industria paulista, caracterizada por elevado grau de integragdo produtiva e pelo seu avangado parque tecnoldgico instalado, o processo de ajuste se deu de forma mais intensa que em outras regides do pais. No inicio dos anos 1990 a indiistria paulista apresentava basicamente os mesmos niveis de produgio do inicio da década anterior. O novo ambiente macro- econdmico foi marcado por uma répida e pouco coordenada abertura e desregulamentagio e pelo comportamento erratico da economia, € a isso se associou um movimento de reestruturagiio produtiva que estabeleceu novos parametros de funcionamento para as empresas industriais, implicando a racionalizagao das suas estruturas e a introdugio de novas formas de gestdo, com fortes impactos no emprego industrial Nos iiltimos anos da década de 1990, com a consolidagao do processo de abertura econémica, diferentes impactos puderam ser notados. Se é verdade que a estabilizag%io econdmica trouxe um novo alento a atividade produtiva, em especial nos setores produtores de bens de consumo duraveis endo duraveis, alguns segmentos passaram a sofrer acirrada concorréncia com produtos importados, o que promoveu retragdes na sua produgao fisica total e, conseqiientemente, na sua participagao na estrutura produtiva paulista. Por outro lado, a concorréncia interestadual por novos 2. CF. Cano, Wilson. “Concentragao e desconcentracdo econdmica regional no Brasil”. Economia ¢ Sociedade. Campinas: Unicamp, n? 8, 1997, pp. 101-141. to Cadernos de Pesquisa, 18, margo de 2003 A REESTRUTURAGAO DA INDUSTRIA PAULISTA EO ABC nyestimentos industriais mediante a outorga de diversos incentivos — a chamada guerra fiscal” — promoveu alteragdes no quadro da distribuigao espacial da industria no territério brasileiro Entretanto, nao houve uma desconcentragao significativa em termos de Valor Adicionado (VA), como pareciam supor as tendéncias apontadas pela literatura na década de 1980°, Afinal, como mostra estudo do Departamento de Industria do IBGE, ao comparar os dados da Pesquisa Industrial Anual de 1996 a 1998 com o Censo Industrial de 1985, a participagdo da indastria paulista no Valor da Transformagao Industrial (VT1) nacional ficou praticamente estavel nesse periodo, passando de 47,8% em 1985 para 49.4% em 1996. Se for considerada somente a indistria de transformagao (ou seja, excluindo-se a industria extrativa), essas participagdes chegam a 51,9% e 51,2%, respectivamente (Tabela /). Em termos de pessoal ocupado (PO), contudo, a participagio de Sao Paulo, que era de 47% em 1985, caiu para 39,6% em 1998. Tabela 1 Participagao da industria paulista na industria brasileira, segundo setor industrial Estado de Sao Paulo 1985-98 Em porcentagem Setor Participagao da indistria paulista na brasileira industrial 1985 1996 1997 1998 Indistria total 418 494 499 494 Indistria de transformagao 519 31,0 514 512 Fonte: IBGE. Tabulagdo especial do Censo Industrial de 1985 e Pesquisa Industrial Anual de 1996, 1997 € 1998. Entre os setores industriais que sofreram perdas expressivas de participagao estiveram os de fumo (16% em 1985 e 4% em 1998), calgados (30% ¢ 16%), metalurgia basica (37% e 27%), produtos de metal (63% e 56%), maquinas e equipamentos (69% € 63%), veiculos automotores (82% e 72%) e méveis e industrias diversas (59% e 45%). A redugao de participagao foi expressiva também naqueles setores que registraram crescimento, com destaque para os de edigdo, impressdo e reprodugdo de gravagdes (49% € 59%) e de equipamentos de informatica (49% e 64%). A indiistria de material eletrénico, apés uma queda no periodo 1985-96, registrou uma franca recuperagao, aumentando sua participagdo de 56% para 64%, enquanto a divisio de outros equipamentos de transporte, gracas 4 crescente participagdo da Embraer no mercado de aeronaves, saltou de 43% para 51%. Entre os demais setores da industria as variagdes no VTI nacional foram pouco expressivas, até mesmo em setores tradicionalmente importantes como o alimenticio ¢ o quimico. 3. Embora as informagGes econdmicas mais recentes indiquem a manutengdo da importancia da indiistria paulista no cendrio nacional, alguns setores sofreram os efeitos desse proceso com maior intensidade, sobretudo aqueles intensivos em mao-de-obra Cadernos de Pesquisa, n28, margo de 2003 u ECONOMIA REGIONAL E NEGOCIAGOES COLETIVAS NO ABC PAULISTA No que se refere ao PO na indasstria paulista, apenas quatro setores registraram crescimento dessa varidvel no mesmo periodo (edigdo e impressio, minerais ndo-metali- cos, equipamentos de informatica e veiculos automotores), ¢ ainda assim discretos, enquanto nos demais setores houve queda, por vezes acentuada, Esses dados parecem confirmar os resultados das pesquisas sobre evolugaio do emprego na indistria paulista na década de 1990 (por exemplo, a Pesquisa de Emprego e Desemprego da Fundagio Seade e Dieese e 0 Indice de Ocupagao da Fiesp), que apontaram o impacto negativo sobre o emprego, sobretudo industrial, da combinagao de recessio prolongada com reestruturago produtiva e estimulo 4 internacionalizacao da economia brasileira. Parece cada vez mais inadequado, assim, medir 0 nivel de atividade econdmica por meio da variag&o do emprego, sobretudo o industrial. O grande incremento de ocupagées do setor terciario, tido como indice de queda da atividade industrial, deve ser visto também com extrema cautela, jé que muitas das atividades desenvolvidas por esse setor derivam de processos de terceirizagao de atividades antes realizadas no interior das fabricas. Da mesma forma, deve-se refletir sobre ocupagées no terciario avangado que dependem intrinsecamente da atividade industrial, tais como as relacio- nadas as empresas de servigos de informatica, de automagao de processos, de logistica e distribuigdo e de selegdo de pessoal', Situado no coragao produtivo do estado de Sao Paulo, 0 ABC ¢ local privilegiado do agugamento desses processos, tanto em épocas de crescimento econdmico quanto de recessio. Do ponto de vista da distribuigao regional no Estado, verifica-se que a participagao da RMSP na indastria brasileira se alterou muito pouco no periodo 1985-98 (Tabela 2), apresentando queda relativamente pequena, causada sobretudo pela diminuigao da participagdo da indistria da Capital (Tabela 3). Ao se considerar porém a participagio da industria da RMSP exceto a da Capital (Tabela 4), nota-se a manutengao dos seus indices de participagdo na industria bra: Tabela2 Participagao da industria da RMSP na industria brasileira, segundo setor industrial Regidio Metropolitana de Sao Paulo 1985-98 Em porcentagem Participagao da RMSP na industria brasileira 1985 1996 1997 1998 Industria total 26,8 26,5 26,7 25.0 Industria de transformagao 29,2 27,4 27.6 26.0 Fonte: IBGE. Tabulagdo especial do Censo Industrial de 1985 € Pesquisa Industrial Anual de 1996, 1997 ¢ 1998, 4. Cf. Veltz, Pierre. Mondialisation, villes e territoires: I'economie d'archipel. Paris: PUF, 1996. 12 Cadernos de Pesquisa, nt 8, marco de 2003 A REESTRUTURAGAO DA INDUSTRIA PAULISTA E. 0 ABC Tabela 3 Participagio da indastria da Capital na indastria brasileira, segundo setor industrial Municipio de Sao Paulo 1985-98 Em porcentagem Setor Participagao da Capital na industria na brasileira mara 1985 1996 1997 1998 Industria total 138 12,4 123 12 Indastria de transformagao 150 129 12,7 116 Fonte: IBGE. Tabulagdo especial do Censo Industrial de 1985 e Pesquisa Industrial Anual de 1996, 1997 ¢ 1998 Tabela 4 inddstria da RMSP, exceto Capital, na industria brasileira, segundo setor industrial RMSP, exceto Municipio de S40 Paulo 1985-98 Participagao d Em porcentagem Participagao da RMSP, exceto Capital, con rl ha indastria brasileira incustria 1985 1996 1997 1998 Indastria total 13,0 14,1 144 13,8 Indistria de transformagao 14,1 14,6 14,8 14,4 Fonte: IBGE. Tabulagdo especial do Censo Industrial de 1985 e Pesquisa Industrial Anual de 1996, 1997 1998 Pode-se deduzir desses dados que a participagao relativa da regio do ABC na inddstria brasileira se mantém ao longo do periodo considerado, j4 que a queda da participagao da RMSP se deve & diminuigao da participagio do municipio de Sao Paulo Pode ter havido queda de participagiio do ABC e crescimento de Guarulhos, Osasco, Barueri e demais municipios industrializados da RMSP, mas é improvavel que tal crescimento, por mais expressivo que tenha sido, sustentasse a participagaio da RMSP no total do Brasil. Ademais, os dados sobre Valor Adicionado fiscal, apresentados na segao subseqtiente, corroboram que a participagao da industria do ABC mantém a mesma intensidade. A regio do ABC Localizado a sudeste da Regidio Metropolitana, o ABC compreende sete municipios — Santo André, Sao Bernardo do Campo, Sao Caetano do Sul, Diadema, Maud, Ribeirao Pires e Rio Grande da Serra — numa area de 841 km*, e em 2000 concentrava 2,34 milhdes de habitantes, Antes ainda do surto provocado pela indiistria automobilistica, Cadernos de Pesquisa, n®8, marco de 2003 a ECONOMIA REGIONAL E NEGOCIAGOES COLETIVAS NO ABC PAULISTA nos anos 1940, a regidio j4 contava com um consideriivel nimero de indiistrias moveleiras e de tecelagem, introduzidas por mao-de-obra imigrante (sobretudo italiana). Datam dessa época, dentre as mais importantes, as fabricas da Francisco Matarazzo, da Moinho Santista e da Pirelli, todas produtoras de fios de seda’ Essa industrializacao € resultado da transi¢o do modelo agroexportador para um novo padrio de acumulagao iniciado no comego do século e maturado durante os anos 1930 e 40, ainda que de forma tardia e incompleta. Nesse processo, a cidade de Sao Paulo passa a integrar 0 mercado nacional e, do ponto de vista espacial, inicia-se a evolugao do espago regional metropolitano. © Plano de Metas de 1956, que visava um padrio de acumulagiio endégeno para o pais, da o impulso final para a consolidagao da industrializagao no ABC e para o processo de metropolizacdo de Sao Paulo. Implantam- se na regido a indistria automobilistica e, conseqiientemente, as de metalurgia e de maquinas e equipamentos, com forte apoio governamental e investimento estrangeiro (bem como tecnologia). Até os anos 1970 a industria da regido recebe investimentos estatais e privados de vulto, transformando a sua estrutura industrial em uma intrincada rede de empresas de varios setores integrados. A abertura da via Anchieta, em 1947, facilita a comunicagaio com a metrdpole e dela com o porto de Santos (conferindo ainda maior importancia ao municipio de Sao Bernardo, em vez de Santo André e Sao Caetano, as margens da ferrovia). A abertura da refinaria de Capuava, em 1972, permite a implantagdo de uma forte indastria petroquimica, além de desenvolver um setor de plasticos que se integra cada vez mais intensamente industria automobilistica, A abertura da rodovia Imigrantes, na década de 1970, intensifica a priorizagao do transporte rodoviario, consolidando a posigdo de lideranga de Sdo Bernardo na regio A partir do final dos anos 1970, com os investimentos direcionados as demais regides do pais, de acordo com as diretrizes do Il PND, a RMSP passa a ver diminuida sua importincia relativa na industria nacional’, e a regio do ABC, integrada a metropole, no poderia seguir caminho diferente. Nos anos 1980, além dos resultados da maturago dos investimentos do II PND, a economia brasileira entra em periodo recessivo ¢ € impelida a gerar saldos positivos na balanga de pagamentos, incrementando suas exportagdes (principalmente de produtos primarios) e diminuindo suas importagdes, o que afeta sobremaneira a produgiio da indastria de bens de capital, Ao final dos anos 1980, ao mesmo tempo que a industria brasileira passa por um processo de reestruturago produtiva, o sistema estatistico nacional passa por uma zona de sombra, de modo que as analises do periodo se apsiam em varidveis buscadas no passado e projetadas pelos indicadores entao disponiveis. Novas informagdes produ- zidas no final dos anos 1990 mostram contudo que a inddstria da RMSP é um setor que Cf, Schoereder, Vivian E. “Grande ABC: desindustrializagao ou crise de emprego?”. In: Santos, Adriana V. dos e outros (orgs.). Anos 90: um othar sobre as politicas de industrializagdo no estado de Sao Paulo, S40 Paulo: Humanitas/FFLCH-USP, 2001 (col. Primeiros Estudos); Klink, Jeroen J. A cidade-regiao, Regionalismo ¢ reestruturagao no Grande ABC paulista. Rio de Janeiro: DP&A, 2001, p. 95. 6. Vale lembrar que a RMSP perde posigao refativa, uma vez que determinados estados em que nao havia atividade industrial recebem pesados investimentos e passam a contar com essa atividade, melhorando sua posigao relativa. Isso nao significa porém que tenha havido esvaziamento da atividade industrial tanto na RMSP como no ABC ry Cadernos de Pesquisa, nt 8, margo de 2003 A REESTRUTURACAO DA INDUSTRIA PAULISTA E 0 ABC. teima em crescer— malgrado as condicionantes macroecondmicas —, que se transforma continuamente ¢ confere dinamismo 4 economia estadual e nacional: propicia ao Estado deter metade da produgao industrial do pais ¢ concentra 60% da produgao industrial estadual (a Capital, um tergo), enquanto a regido do ABC mantém a mesma participagao na indiistria paulista hd quinze anos De fato, dados da Secretaria da Fazenda do Estado de Sao Paulo mostram que a participagao do Valor Adicionado” da indistria dos municipios da regido do ABC na RMSP e no Estado se mantém praticamente inalterada desde 1985 (Grdfico 1). Nota-se que a participagio da industria do ABC no Estado se mantém em torno de 15% (ressalvadas as variagdes conjunturais), que a queda da participagdo da RMSP é acompanhada pela queda da participagao da Capital e que a participagaio do ABC na RMSP se mantém constante. Grifico 1 Evolugdo da participagao do Valor Adicionado da indistria ABC, Capital, RMSP e Estado de Sao Paulo 1985-99 —+raconuse = MuNsPiRse Fonte: Secretaria dos Negécios da Fazenda do Fstado de So Paulo; Fundago Seade. 7. Esse indicador apresenta muitas vantagens mas alguns inconvenientes: embora leve o nome de “Valor Adicionado” (como o indicador do IBGE), tem uma forma de célculo que nao leva em consideragao todas as despesas incorridas pela empresa que nao as diretamente ligadas produgdo (como as de propaganda, pagamentos de royalties, registro de patentes, leasing etc.), limitando-se a calcular a diferenca entre a compra de insumos ¢ a receita obtida, com a finalidade de calcular o ICMS a ser pago. Como sua base ¢ municipal, pode-se desagregar os dados até esse nivel, 0 que ¢ muito dificil pelas outras bases de dados existentes. No entanto, por ser um valor com base fiscal, sua variabilidade de um ano a outro reflete todos os aspectos conjunturais das instabilidades macroeconémicas. Para uma utilizagdio menos problematica dessa informagao ¢ interessante observar tendéncias de longo prazo e cotejé-las com as variagdes do VT! do IBGE, ja que 0 calculo dessa varidvel é mais proximo do VA fiscal do que o deste como VA. 7 Cadernos de Pesquisa, n* 8, marco de 2003 s ECONOMIA REGIONAL E NEGOCIAGOES COLETIVAS NO ABC PAULISTA Se é verdade que a participagio industrial da RMSP no Brasil praticamente nfo se alterou e a regitio do ABC se mantém ha quinze anos com a mesma participagao no Estado (e até aumenta a participag’io na RMSP), ent&o nada mudou? Seriam ilusdrias aquelas percepgdes sobre o esvaziamento da industria, o desemprego, o deslocamento de empresas para o interior do Estado? Somente em parte. De fato, segundo dados mais recentes, nao ocorreu em absoluto uma “desindustrializagao” do ABC (ou mesmo da RMSP), mas o desemprego, tal como medido pela Pesquisa de Emprego e Desemprego, é sensivelmente maior na regido do que no restante do Estado a mudanga de grandes plantas industriais da regido do ABC € um fato inquestionavel. O que ocorre na regido é um fendmeno decorrente das novas formas de produzir da indistria, sobretudo no proprio ABC. Dadas as novas tecnologias introduzidas, o crescimento industrial ali € poupador de mao-de-obra, o que pode induzir ao entendimento de que a atividade industrial est diminuindo, quando na verdade o que cai é 0 emprego industrial, enquanto a atividade em si continua pujante como nos iiltimos quinze anos. Sobre a articulago do setor industrial com o tercidrio, a Pesquisa da Atividade do Setor de Servigos Empresariais do Grande ABC de 2001, da Agéncia de Desenvolvimento Econémico do Grande ABC, traz resultados reveladores: 0 grupo “transporte rodoviario de carga” e a divisdo “servigos prestados principalmente as empresas” respondiam por 62% do numero de estabelecimentos, por 54% do faturamento e 74% do PO. Nessa divisdo destacavam-se as atividades de selegao, agenciamento e locagio de mio-de-obra, de investigagao, vigilancia e seguranga e de limpeza e higienizagao. Trata-se de servigos intrinsicamente ligados & atividade empresarial — no caso do ‘ABC, aquela industrial, que confere a forca da sua atividade econdmica. Prova disso 6a informagao dessa mesma pesquisa sobre o motivo da constituigdo da empresa de servigos: 61% atribuiram-no a iniciativa propria, mas 27% apontaram a terceirizagio de atividades das empresas industriais*. Ou seja, a industria do ABC no se reestrutura apenas sob o ponto de vista da inovagao ou da utilizagdo de automagao industrial, mas também focando suas fungdes no essencial de sua atividade — aquilo que pode ser externalizado é realizado por terceiros. Nao ¢ de espantar, portanto, que haja um crescimento do emprego no setor tercidrio, as custas de uma diminuigao do emprego industrial. Os dados da Pesquisa da Atividade Econémica Paulista Os resultados dessa pesquisa mostram que a indistria paulista apresentava em 1996 uma estrutura complexa, cujas principais divisdes eram as de produtos quimicos, de alimentos, automobilistica (inclusive autopegas), de maquinas e equipamentos e de edigo, impressao e gravagdes, responsaveis por 55% do VA e 42% do PO da industria no estado de Sao Paulo’. 8. Cf. Pamplona, Jodo B. ¢ Miadaira, Paulo L. Primeira andilise dos resultados da Pesquisa da Atividade do Setor de Servigos Empresariais do Grande ABC. Santo André: Agéncia de Desenvolvimento Econdmico do Grande ABC, 2001 9. Uma andlise da estrutura da economia paulista pode ser encontrada em Araujo, Maria de Fatima I. “Mapa da estrutura industrial e comercial do Estado de Sdo Paulo”. Sao Paulo em Perspectiva. Sao Paulo: Fundagao Seade, vol. 13, n’ 1-2, 1999, pp. 40-52 16 Cadernos de Pesquisa, nt8, marco de 2003 A REESTRUTURAGAO DA INDUSTRIA PAULISTA E 0 ABC A composigao da estrutura industrial paulista em 1996 (Tabela 5) ndo apresentava alteragdes substanciais em relacdo a revelada por antigas pesquisas do IBGE, a excecao da industria editorial e grafica, que se tornou uma das cinco maiores do Estado em VA. O complexo metal-mecdnico tem mantido lugar importante no conjunto da economia paulista, sobretudo em termos de VA, apesar dos impactos negativos da trajetoria errética da economia sobre a divisdio de mquinas e equipamentos. As divisdes de quimica e de alimentos — a primeira com maior grau de concentragao na Metrépoie e entorno ea segunda valendo-se da integragao com a agropecuéria, no interior — respondem por mais de um quarto do VA e por quase um quinto dos empregos do Estado. Jé as indistrias de produtos de metal, téxtil e de vestudrio tém pequena expresso em termos de VA, embora seja expressiva sua participagao no numero de unidades e de PO Tabela 5 Distribuigdo do naimero de unidades, do PO ¢ do VA da indastria, segundo divisdes industriais Estado de Sao Paulo 1996 Em porcentagem Divisdes da industria Namero de unidades PO VA Produtos quimicos Sh 7M 14,1 Alimentos e bebidas 12,1 12,4 12,9 Automobi ica 26 83 14 Maquinas e equipamentos 6.6 94 99 Edigdo, impressio, gravagées 59 44 69 Borracha e plastico 6,1 66 5,7 Produtos de metal (exclusive maquinas e equipamentos) 95 15 5.2 Textil 50 68 44 Minerais naio-metalicos 64 49 4,0 Metalurgia basica 29 3,7 39 Material eletrénico e equipamentos de comunicagao Lt 20 3,7 Papel e celulose 23 33 36 Materiais elétricos 27 36 34 Vestuario e acessérios 14,0 66 24 Moveis e industrias diversas 8,0 48 2,2 Refino de petrdleo e alcool 03 14 12 Equipamentos médicos, éticos, de automagao e precisio 13 1 Ul Couro e calcados 34 30 1,0 Fumo 0,0 01 0,9 Outros equipamentos de transporte 0S 08 0,7 Indistria extrativa 16 08 06 Madeira 2.2 11 0,5 Maquinas de escritério e equipamentos de informatica 03 03 05 Total 100,0 100,0 100,0 Fonte: Fundagao Seade. Pesquisa da Atividade Econémica Paulista (Paep), Cadernos de Pesquisa, n*8, marco de 2003 " ECONOMIA REGIONAL E NEGOCIAGOES COLETIVAS NO ABC PAULISTA E interessante notar a pequena participagiio das divisdes industriais tidas como fundamentais no novo paradigma tecnolégico, chamadas de “intensivas em conheciment ou seja, a de material elétrico e telecomunicagdes, de material eletrénico, de equipamentos médicos, dticos, de preciso e automagao e de maquinas de escritério e equipamentos de informatica, que, somadas, representam 7% do PO e 9% do VA da industria paulista. Essas divisdes tém pequena relevancia econémica na estrutura industrial do Estado, mas so estrategicamente importantes para a inser¢o num novo paradigma tecnolégico € concentram mais da metade da produgiio brasileira no setor, de acordo com os dados da Pesquisa Industrial Anual de 1996. O dinamismo da estrutura industrial do estado de So Paulo, visto pelo angulo do porte de suas unidades (Tabela 6), mostra-se fortemente concentrado na grande industria: 83% do VA da atividade industrial paulista é produzido nas unidades com mais de cem pessoas ocupadas e 58% naquelas com mais de quinhentos empregados. Essa concentragao ¢ ligeiramente atenuada quando se analisa 0 PO e inverte-se quando se analisa o niimero de unidades locais, das quais 82% possuem menos de cem pessoas ocupadas”. Tabela 6 Distribuigdo do niimero de unidades, do PO e do VA da indistria, segundo faixas de PO Estado de Sao Paulo 1996 Em porcentagem Faixas de PO Unidades locais___ PO VA 5429 649 170 16 30a 99 17,3 16,7 98 100 a 249 7,0 15,4 12 250 a 499 34 12,5 121 500 € mais 1A 383 58,2 Total 100,0 10,0 100,0 Fonte: Fundagio Seade, Pesquisa da Atividade Econdmica Paulista (Paep) A interiorizagao do desenvolvimento'', em consonancia com o que ja vinha acontecendo nas décadas anteriores, concentra-se cada vez mais num raio de aproximadamente 150 km a partir do centro de Sao Paulo, abrangendo as regides administrativas de Campinas, Sao José dos Campos, Santos e Sorocaba, que em conjunto com a RMSP representam 82% do total de unidades industriais, 85% do PO e 90% do VA industrial do Estado (Tabela 7) 10, Uma andlise da diferenciagao das empresas com portes diversos pode ser encontrada em Fun- daco Seade. Cadernos do Férum Século XXI. So Paulo: Assembléia Legislativa do Estado de Sao Paulo, n? 11, (“Industria”), 1999 14. Cf, Pamplona, Jodo B. € Miadaira, Paulo L. Andlise da dindmica locacional e das estraté- gias de gestdo das unidades industriais da regido do Grande ABC. Santo André: Agéncia de Desenvolvimento Econdmico do Grande ABC, junho de 2001 (Caderno de Pesquisa n23) 15, Ibidem, p. 17. Cadernos de Pesquisa, nt 8, marco de 2003 23 ECONOMIA REGIONAL E NEGOCIACOES COLETIVAS NO ABC PAULISTA Nem Sao Paulo perde participagao na industria brasileira, nem a RMSP perde participa go na indistria estadual, nem 0 ABC sofre um processo inexoravel de desindustria- lizagao, Ocorre, sim, uma mudanga substancial nos processos produtivos (sobretudo 6s industriais) que promove um ganho de produtividade as custas de uma forte compressio na ocupagao. Os indicadores de adogao de tecnologias na indastria do ABC, assim como os de estratégias de gestdo ativas, como vimos, mostram-se bastante superiores aos da média estadual, inclusive para os segmentos de baixa intensidade tecnoldgica. Se isso parece indicar maior competitividade das empresas locais, significa também um menor niimero de pessoas ocupadas: como o desempenho inovativo esta centrado nas grandes empresas, que detém os postos de trabalho de melhor qualidade, ha uma diminuigao desses postos € um crescimento daqueles mais precarios, sobretudo no setor de servigos. Esses dados, aliados aos da complexa estrutura da regio, indicam que a que: central da industria do ABC nao esta centrada na auséncia de ganhos de competitividade ¢, conseqiientemente, de crescimento econdmico, mas na incapacidade da atividade industrial de gerar empregos, sobretudo os de qualidade. Segundo os dados da Fundagao Seade sobre investimentos industriais no estado de Sdo Paulo entre 1995 e julho de 2001, a regido do ABC recebeu 13% desses investimentos, proporgao equivalente sua participagao no total da industria paulista em 1996, de acordo com a Paep. Assim, enfrentar a questo do desemprego nao passa apenas por promover o crescimento econdmico das empresas. Desde 1985 a economia da regidio vem apresentando as mesmas participagdes na industria paulista e mesmo assim o desemprego continua aumentando, o que mostra que as fungdes de crescimento econdmico e de emprego possuem evolugdes distintas, ao contrario do que ocorria antes dos anos 1990, quando crescer significava automaticamente empregar mais pessoas. Salientar esse fato é importante para que as politicas locais possam ser mais bem direcionadas. A crise que se abateu sobre o ABC entre final dos anos 1980 e inicio dos 90 ulagdo de organismos de planejamento — como 0 Consércio Inter municipal, © Forum da Cidadania, a Camara Regional e a Agéncia de Desenvolvimento Econémico — visando 0 desenvolvimento socioeconémico regional mediante uma “sinergia dos poderes piiblico e privado e da sociedade civil”. A reestruturagao produtiva ocorrida nas indiistrias do ABC parece ter provocado uma verdadeira reengenharia institucional articulada no seio da sociedade civil, premida, acima de tudo, pelo desemprego galopante. O grande risco, porém, é que as solugdes baseadas em teorias de desenvolvimento endégeno privilegiem apenas a saiide das empresas, imaginando que o seu bem-estar implica automaticamente o bem-estar dos cidadaos”. Desenvolver politicas de emprega- bilidade que tenham em conta a posig’o do ABC na Regitio Metropolitana (0 que pressupoe novas institucionalidades, que transcendam 0 espago local) ¢ 0 atual estdgio atingido pelas empresas do ABC num amplo processo de reestruturago produtiva é 0 grande desafio a ser enfrentado pela sociedade local suas instituigdes. 16. Miranda, Idenilza M. de. “Inovagdes institucionais e desenvolvimento no ABC”. In: Santos ¢ outros (orgs.), op. cit. 17. Evidentemente, ndo se advoga aqui que ndo se cuide da satide das empresas, mas que essa condig&o é necessdria mas nao suficiente para o bem-estar da comunidade. 24 Cadernos de Pesquisa, nt 8, marco de 2003