VOLTAIRE E A CRÍTICA DA RAZÃO OTIMISTA1 Valéria Moura Venturella2 Cândido, ou o Otimismo, é o mais famoso trabalho de Voltaire, o escritor francês

considerado por muitos a personificação do Iluminismo. Um interessante romance satírico escrito em 1759, e ambientado principalmente na Europa dos meados do século XVIII, o livro narra, em um estilo exagerado, a fantástica viagem que Cândido faz ao redor do mundo. Cândido é o filho ilegítimo da irmã de um poderoso barão da Westphalia. “Um jovem rapaz ao qual a natureza concedera as virtudes mais doces. [...] Tinha um juízo assaz reto e um espírito dos mais simples” (p. 5). Cândido foi criado no castelo do barão ao lado dos primos: a bela Cunegunda, por quem ele sempre foi apaixonado, e seu irmão, o filho do barão. Os três jovens eram cuidadosamente educados por Pangloss, “o maior filósofo da província e, por conseqüência, de toda a Terra” (p. 7). Pangloss ensinava-lhes “a matafísico-téologo-cosmolonigologia” (p. 6) segundo a qual não há efeito sem causa e que vivemos no melhor dos mundos possíveis. O sábio tentava convencer a todos com quem falava que aqueles que não acreditavam que tudo estava bem estavam errados, já que as coisas do mundo ocorriam sempre do melhor modo possível. Certa noite após o jantar, ao ser flagrado pelo barão aos beijos com Cunegunda atrás de um biombo, Cândido é expulso do castelo aos pontapés, e é assim que sua aventura tem início. Ao longo da história, Cândido percorre o mundo sempre acompanhado de um ou dois outros companheiros de viagem e, ao longo dessa aventura, nos mostra um pouco da realidade mundial da época. O nome Cândido deriva da palavra latina candidus – que significa “branco” – e pode ser interpretada como puro, livre de maldade e corrupção. Inexperiente a respeito do mundo, e convicto sobre as idéias que lhe haviam sido transmitidas por Pangloss, Cândido parece inicialmente incapaz de compreender o mal que encontra nas pessoas com quem tem contato em sua jornada. Aos poucos, porém, em seu esforço para sobreviver e retornar à companhia de sua amada Cunegunda, ele vai tomando um conhecimento mais real do mundo e sendo forçado a questionar inúmeras vezes seu otimismo a respeito do mundo e das pessoas.

Texto produzido como pré-requisito para a aprovação na disciplina Sociedade, Cultura e Educação, ministrada pela Profa. Dra. Maria Helena Câmara Bastos no Mestrado do Programa de PósGraduação em Educação da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Porto Alegre – de março a julho de 2004. 2 Mestranda em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Porto Alegre; Professora do curso de Pedagogia da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – Uruguaiana.
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Cândido é recrutado pelo exército búlgaro, deserta, leva surras, é perdoado, sobrevive à Inquisição, a batalhas, fome, cansaço, sacrifícios humanos, terremotos, naufrágios, enriquece e empobrece novamente. Quando sua fé na bondade do mundo parece aniquilada, ela é reativada por algum evento benigno, como quando algum desconhecido lhe demonstra cortesia, quando alguém que lhe fez mal enfrenta um destino trágico, ou quando miraculosamente volta a se encontrar com sua amada Cunegunda, com o filho do barão e com seus amigos Pangloss e Cacambo. Cândido pode ser considerado um bom homem: ele tem bom coração, é honesto e generoso, mas é também capaz de cometer assassinatos violentos se e quando premido pela situação. “Educado para nunca julgar nada por si próprio” (p. 129), ele é, porém, altamente suscetível à influência de personalidades mais fortes e despreparado para formar suas próprias opiniões e mesmo para aprender a partir de suas experiências. “Entreguemos nosso destino à providência” (p. 74), diz ele isentando-se de planejar seus atos e contentando-se em lidar com as situações à medida que elas se tornavam prementes. Cândido termina sua viagem reunindo-se a sua amada – já muito envelhecida e desprovida de sua beleza devido aos sofrimentos por que passou – e seus companheiros de aventuras em uma pequena chácara na Turquia. Embora frustrados com seu destino, cansados e decepcionados com o mundo, decidem ali residir e dedicar sua vida ao cultivo de seu próprio alimento – seu “jardim” (p. 156). Apesar do tom bem-humorado que perpassa toda a história, Cândido mostra com uma clareza que chega a ser crua os horrores vividos pelas pessoas comuns da época: guerras civis e religiosas, fome e doenças. Mesclando pessoas e eventos reais com os personagens e os acontecimentos do conto, Voltaire denuncia também a escravidão, a dominação exercida por governantes despóticos, o cruel processo de colonização do novo mundo e a punição arbitrárias de pessoas inocentes, entre outros barbarismos. Realizando uma censura severa ao ambiente degenerado e imoral que prevalecia na Europa no século XVIII, Voltaire dispara, em Cândido, críticas à educação, à ciência, e a muitos tipos de doutrina: religião, filosofia, política. Nada parece escapar de sua pena afiada. É possível, por exemplo, extrair da personalidade de Cândido e de sua maneira de viver e agir uma grave crítica à educação tradicional, que tende a formar pessoas como nosso herói: instruídas e cultas, porém crédulas sobre as idéias que lhes foram ensinadas e incapazes de um posicionamento crítico em relação ao mundo. Mas essa não é a sátira mais ácida na história. Em certa altura, Cândido chega, por acaso, a uma bela terra chamada Eldorado, uma antiga pátria inca. Um país pacífico e sereno, Eldorado era governado por um homem sensato e generoso, e povoado por pessoas saudáveis e felizes, que viviam em abundância. Lá a lama era ouro, e os cascalhos das ruas eram pedras preciosas, mas ninguém atribuía a essas riquezas qualquer importância. O país, cercado por altos rochedos e precipícios, havia permanecido, como

explicou um ancião “até hoje ao abrigo da rapacidade das nações da Europa, que têm um furor inconcebível pelas pedras e pela lama de nossa terra e que seriam capazes, para obtê-las, de matar até o último de nós” (p. 80). Cândido e seu companheiro de viagem foram tratados em Eldorado como visitantes ilustres. Foram alimentados e vestidos, e convidados a permanecer lá. Mas ele decidiu abandonar o país porque esperava re-encontrar Cunegunda, e também porque, mesmo admirando o estilo de vida de Eldorado, Cândido queria voltar para a Europa com os tesouros que encontrou lá. “Se continuarmos aqui, seremos como os outros. Ao passo que, retornando a nosso mundo apenas com doze carneiros carregados com calhaus do Eldorado, seremos mais ricos que todos os reis juntos” (p. 84). Nessa passagem, Voltaire parece sugerir que, mesmo que se tornasse real, a esperança utópica de um mundo igualitário de paz, fartura e felicidade não serviria para os europeus, por esses valorizarem mais o ouro que a serenidade. Voltaire faz troça também da ciência da época em pequenos detalhes da história. Quando Cândido doa seu carneiro de lã vermelha – presente do governante de Eldorado – à Academia de Ciência de Bordeaux, essa propôs como tema do prêmio daquele ano descobrir o mistério por trás da cor vermelha do animal. Finalmente, o prêmio foi concedido ao sábio que “demonstrou por A mais B, menos C, dividido por Z, que o carneiro devia ser vermelho e morrer de sarna” (p. 102). Quando Cândido cai gravemente doente, vários médicos vêm atendê-lo, utilizando medicamentos e sangrias que só o faziam piorar. Ele só se recuperou quando os médicos deixaram de atormentá-lo. Mas o escárnio mais direto que Voltaire tece em Cândido – através do personagem Pangloss.– é o ataque à chamada “filosofia do otimismo”, segundo a qual nós vivemos no melhor dos mundos possíveis e cujo maior defensor foi Gottfried Wilhelm von Leibinitz. Considerado um dos maiores pensadores do século XVII, Leibniz acreditava em um “harmonia pré-estabelecida” entre a matéria e o espírito, e concebeu uma filosofia racionalista que reconciliava a existência da matéria com a existência de Deus (LEIBNIZ, 1987). Ele defendia a doutrina de que um Deus bom, poderoso e perfeito criou o mundo, e que tudo no mundo é, em última instância, perfeito como o Criador. Ao ser questionado sobre como Deus, sendo perfeito, havia criado o mal no mundo, Leibniz replicou que, dentre todas as possibilidades, Deus havia criado a melhor dos mundos possíveis, do qual o mal faz parte. E aquilo que os seres humanos percebem como imperfeições faz parte de um plano maior de Deus que, devido a nossas limitações, não podemos compreender. “Se pudéssemos compreender a ordem do universo suficientemente bem, descobriríamos que ela ultrapassa todos os desejos do mais sábio de nós, e que é impossível que ela seja melhor do que é [...]” (LEIBNIZ, 1987, p. 37).

Voltaire fez de Pangloss uma espécie de caricatura de Leibniz, um personagem patético e obcecado por suas crenças, que não é capaz de rever suas posições em face às evidências, continuando a advogar o otimismo mesmo enquanto vivencia os maiores horrores. Pangloss, cujo nome pode ser traduzido por “bufão” - uma pessoa que bravateia mas permanece na inação – prega uma filosofia que conduz a uma atitude passiva e condescendente em relação ao sofrimento e às mazelas ao seu redor. Afinal, se vivemos no melhor dos mundos possíveis, não há nada que possamos fazer para mudar o que percebemos como errado ou ruim. Em certo ponto da história, por exemplo, quando Jacques, um bom homem que havia salvado a vida de Cândido e de Pangloss, está se afogando na baía de Lisboa, Pangoss impede Cândido de se jogar ao mar para tentar ajudá-lo, “provando-lhe que a enseada de Lisboa havia sido formada expressamente para que aquele anabatista nela se afogasse. Enquanto provava o a priori, o navio partiu-se e tudo foi tragado [...]” (p. 23). Já em Lisboa, quando Cândido perecia preso entre os escombros do terremoto e lhe implorava por um pouco de água e vinho, Pangloss racionalizava e relativizava, quase permitindo que Cândido morresse. Por outro lado, Martinho é um homem experiente e sábio que Cândido conhece em sua passagem pelo Suriname, e que se torna seu amigo e companheiro até o final de suas viagens. Martinho é um contraste a Pangloss: cético e pessimista, afirma continuamente que o mundo não tem rumo e está impregnado de maldade, imoralidade e infelicidade. “Passando os olhos sobre esse mundo,” afirma ele, “[...] penso que Deus o abandonou a um ser daninho” (p. 96). Quando Cândido lhe pergunta se ele acredita que tudo no mundo ocorre da melhor maneira possível. Martinho responde: “Eu não penso nada disso: acho que tudo vai aos trancos conosco. Que ninguém sabe nem mesmo qual é seu lugar, nem sua tarefa, em o que faz, nem o que deve fazer [...]” (p. 110). Em seu modo de ver o mundo, Martinho também se entrega ao imobilismo, por acreditar que não há esperança de felicidade possível. “Martinho conclui que o homem nascera para viver nas convulsões da inquietude ou na letargia do tédio” (p. 152), e, por isso, nada podemos fazer para melhorar nossa condição. Ao contrastar esses dois personagens e nos mostrar o quão ineptos ambos são para realizar as necessárias mudanças em suas circunstâncias e encontrar alguma felicidade, Voltaire parece estar se colocando contra doutrinas filosóficas abstratas, rígidas e dogmáticas como o otimismo ou o pessimismo/ceticismo e nos aconselhando a observar a realidade para tirarmos dela nossas próprias conclusões. No tom caótico da história, as especulações filosóficas se mostram por vezes inúteis e por vezes destrutivas, pois impedem os personagens de realizar uma avaliação realista de suas vivências e de planejar suas ações futuras com o objetivo de evitar as adversidades.

O autor, porém, demonstra sua fé na natureza humana através do personagem Cacambo, que se tornou criado de Cândido em Cádiz. “Gostava muito de seu mestre, pois ele era um homem bom” (p. 57). Ao longo da história, Cacambo demonstra lealdade, inteligência e dinamismo. Enviado por Cândido a Buenos Aires – por ser mais hábil – carregado com diamantes para recuperar Cunegunda, Cacambo se mantém fiel a seu mestre. Sua honestidade desafia o pessimismo e o ceticismo de Martinho, que havia recomendado a Cândido que se esquecesse dele. “O senhor é muito ingênuo ao imaginar que um criado mestiço, que tem cinco ou seis milhões em seus bolsos, irá procurar sua amante no fim do mundo e levá-la a Veneza” (p. 119 e 120). Ao mesmo tempo, Voltaire parece homenagear, em seu Cândido, a resiliência humana. Outro personagem da história, chamado simplesmente “a velha”, é um exemplo dessa qualidade que Voltaire parece admirar. Após narrar para Cândido e Cunegunda os horrores que presenciou e viveu, a velha confessa: “Cem vezes desejei me matar, mas ainda amava a vida. Esta fraqueza ridícula é talvez uma de nossas tendências mais funestas” (p. 52). Ao finalmente se reunir a seus amigos e a Cunegunda, para se estabelecerem na Turquia, Cândido conhece um velhinho do local, que lhe pareceu feliz e satisfeito com a vida. Acreditando que o velho é rico, ele lhe pergunta se suas terras são vastas. O velho responde que sua terra é pequena, e que ele a cultiva com a ajuda de seus filhos. “O trabalho afasta de nós três grandes males: o tédio, o vício e a necessidade” (p. 156), afirma ele. Após profundas reflexões, Cândido conclui que o velho havia conquistado melhor destino que os reis com quem haviam ceado na Europa. À primeira vista, o final do livro parece sugerir que trabalho árduo, esforço e dedicação são as melhores maneiras de se levar a vida, de agüentar suas durezas e mazelas, e que nossa verdadeira missão não é ser feliz, mas sobreviver. “Trabalhemos sem raciocinar. É o único meio de tornar a vida suportável” diz Martinho (p. 157), para ser contradito por Pangloss, que continua a afirmar que “todos os acontecimentos são encadeados da melhor forma possível” (p. 157), mesmo admitindo que tem dificuldades para acreditar nessa máxima. Diante dessas posições tão divergentes, Cândido, incapaz – como sempre – de formar sua própria opinião, afirma: “Está bem dito, mas é preciso cultivar nosso jardim” (p. 157). O jardim da história parece representar, além da força produtiva do trabalho, a celebração final da vida e da esperança de um futuro mais tranqüilo e farto que os personagens decidem abraçar a despeito das inseguranças e das incertezas. Nesse sentido, o autor de Cândido parece concordar com Edgar Morin, que em Os Sete Saberes Necessários para a Educação do Futuro, afirma que “a renúncia do melhor dos mundos não é, de maneira alguma, a renúncia de um mundo melhor” (MORIN, 2002, p. 92).

François-Marie Arouet, mais conhecido por seu pseudônimo Voltaire, é considerado um dos maiores escritores da história da literatura, a ponto de muitos críticos literários se referirem ao século XVIII como “a era de Voltaire”. Arouet nasceu em Paris em 1694, em uma família de classe média, e foi educado em uma escola jesuíta onde seu humor inteligente, crítico e sarcástico desde muito cedo irritou seus professores. Naquela época, a maior parte do povo francês vivia em uma irremediável pobreza, e os monarcas déspotas governavam a França com mão de ferro, enquanto os pensadores iluministas difundiam idéias sobre igualdade, direitos civis e sobre a importância da razão e da objetividade científica. Arouet muitas vezes escreveu contra a tirania, a intolerância e a perseguição tanto no campo da política quanto da religião que eram comuns na Europa de seu tempo, o que lhe rendeu muitos inimigos poderosos. Sua audácia e agressividade inteligente, manifesta através de críticas ácidas e de uma ironia grave, geralmente beirando o sarcasmo, por sua vez, lhe renderam inúmeros rivais intelectuais. Como conseqüência, Arouet foi condenado tanto à prisão quanto ao exílio antes de seu 24o aniversário. Foi durante sua primeira estada na prisão, ele assumiu o pseudônimo Voltaire, como ele passou a ser conhecido. Muitos acontecimentos influenciaram a composição de Cândido. Voltaire se surpreendia com os a injustiça e o desastre a seu redor, que culminaram com a dominação jesuítica na América do Sul ao longo do século, o terremoto em Lisboa, em 1755, a eclosão da Guerra dos Sete Anos nos estados alemães em 1756, a execução do almirante inglês John Byng em 1757. Todos esses eventos reais são aludidos ao longo da história de Cândido. Apesar de Cândido ser considerado sua obra-prima, Voltaire nunca chegou a assumir sua autoria. A página inicial do livro diz: “Traduzido do alemão pelo Senhor Doutor Ralph” e esclarece que acréscimos à história foram encontrados nos bolsos da roupa do doutor quando da sua morte, em 1759, mesmo ano da publicação simultânea da obra em quatro cidades diferentes: Paris, Londres, Amsterdã e Genebra. O livro foi censurado em Paris e em Genebra imediatamente após sua publicação. Em Genebra, todas as cópias foram condenadas a serem queimadas. Naquela época, muitos escritos que atacavam a igreja ou o governo eram atribuídos a Voltaire, que, provavelmente já melindrado por ter tido obras condenadas pela censura e receoso de ser condenado novamente à prisão ou ao exílio, talvez tenha achado melhor não assumir Cândido como sua obra. Embora escrito também para divertir, Cândido ataca impiedosamente a nobreza, a filosofia e as doutrinas religiosas da época. Apesar de ser considerada uma obra representativa do Século das Luzes, o romance em muitas passagens contradiz as doutrinas filosóficas mais representativas da época – como a crença no poder da razão e no progresso social como conseqüência natural do pensamento racional, além do otimismo

filosófico – o que demonstra que o Iluminismo não foi um movimento unânime entre os pensadores europeus da época. Voltaire já havia criticado o otimismo filosófico em um poema sobre o terremoto em Lisboa, ocorrido em 1756, e continuou criticando a doutrina do “tudo vai bem” mesmo depois de Cândido. Em seu Dicionário Filosófico, publicado pela primeira vez em 1764, há o artigo denominado “Tudo está Bem” que contém, apesar do tom bem-humorado, duras críticas às idéias de Leibniz e de outros filósofos iluministas. No mesmo ano da publicação de Cândido, Voltaire comprou uma propriedade na fronteira da França com a Suíça, de onde poderia facilmente escapar no caso de ser perseguido pelas autoridades francesas. Seu prestígio como pensador era tamanho que o lugar, chamado Ferney, logo se tornou um importante reduto de intelectuais europeus. Lá, ele continuou se envolvendo em campanhas pela justiça social e política. Quando finalmente voltou a Paris, aos 83 anos de idade, foi aclamado nas ruas como um herói popular. Voltaire morreu em 1778 e foi enterrado em um cemitério religioso em Romilly-onSeine. Em 1791, a Assembléia Nacional da França determinou que seu corpo fosse colocado ao lado do de René Descartes de outros grandes pensadores franceses no Panteon de Paris. Em 1814, porém, fundamentalistas religiosos roubaram seus restos mortais, junto com os de Jean-Jacques Rousseau e os jogaram em uma cova de cal, em uma cerimônia reservada apenas para os indivíduos mais odiados pela igreja. Voltaire, com seu espírito sagaz e irônico, talvez tivesse apreciado a ironia de ter recebido tal “homenagem” junto a um de seus mais ferrenhos rivais intelectuais. Embora muitas das atrocidades descritas no romance nos pareçam muito atuais ainda hoje, Cândido está imerso nas controvérsias sociais, políticas e filosóficas de meados do século XVIII, o que pode tornar sua leitura difícil para um leitor do século XXI que não esteja familiarizado com a história e a filosofia da época. Assim, a leitura dessa obra-prima pode ser enriquecida pela leitura complementar de materiais sobre o Iluminismo, a biografia de Voltaire e escritos de Rousseau e Leibinitz.

REFERÊNCIAS: Francois-Marie Arouet Voltaire. In: The literature network. [On line]. Disponível: http://www.online-literature.com/voltaire/ [Junho, 2004]. LEIBNIZ, Gottfried Wilhelm. Princípios de filosofia ou Monadologia. Lisboa: Casa da Moeda, 1987. MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários para a educação no futuro. Rio de Janeiro: Cortez, 2002. MOTTA-ROTH, Désirée. Redação acadêmica: princípios básicos. Santa Maria: Imprensa Universitária, 2001.

VOLTAIRE. Cândido, ou o otimismo. Porto Alegre: L&PM, 1998. VOLTAIRE. Dicionário filosófico. São Paulo: Abril, 1973.