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Sobre identidade e diferença emHeidegger

Roberto S. Kahlmeyer-Mertens [1]
Resumo: A proposta do ensaio é pensar a implicação ontológica entre ser e identidade na
filosofia de Heidegger. Temos o objetivo de abordar o conceito de identidade, buscando acenar
como esta estaria relacionada com a diferença ontológica entre ser e ente, atrelado ao ser-aí e sua
compreensão de ser (estes entendidos como experiências constitutivas da existência). Presumimos
que a identidade pode ser pensada, neste contexto, como a co-originariedade do ser-aí com o ser,
bem como a co-originariedade do ser em geral. O exercício empreendido aqui busca estofo na
conferência O princípio de identidade(1957), partindo da interpretação de diversas passagens de
texto, buscando aproximações às temáticas da obra Ser e tempo (1927).
Palavras-chave: Heidegger, Ser e tempo, principio de identidade, diferença ontológica.
Nosso exercício de interpretação começa a partir da seguinte proposição de Heidegger:
O apelo da identidade fala desde o ser do ente. Onde porém, o ser do ente no pensamento
ocidental chega propriamente à palavra, à saber, em Parmênides (…) “O mesmo, pois, tanto é
apreender (pensar) como também ser”. Neste caso, coisas diferentes, pensar e ser são pensados
como o mesmo. Que quer isso dizer? Algo absolutamente diverso em comparação com aquilo que
ordinariamente conhecemos como a doutrina da metafísica, que a identidade faz parte do ser.
Parmênides diz: “O ser faz parte da identidade” (HEIDEGGER, 1973, p. 378).
O ser vem à luz no ente. Ente que podemos apontar como aquilo que é. Nesse modo de
enunciação, delineia-se o que os gregos vêm apontar com “o mesmo”(tó autó). Assim, o ente é à
medida que ele mesmo é. Nessa proposição, não vemos mais que a apresentação de um ente que se
confirma como ente (Seindes) ao ser (Sein). Essa formulação indica não só uma mesmidade,
quando a lemos inteira, mas redunda numa indicação quando analisamos essa oração por partes.
Daí dizermos: um ente que, uma vez sendo… Compreendemos, assim, o ente como um modo de o
ser se dar. Destarte, podemos afirmar que todo ente é ao ser, ou, apenas, que todo ente é.
Em outra parte da proposição grifada, dizemos que esse ente: (…) confirma-se como ente ao
ser. Confirmar-se ou “co-afirmar-se” é grifar o caráter de mesmo que há no ente que é. É também
firmar que ente é o que se desdobrou à superfície do fenômeno. É o ser que se geminou em ente
mediante um apelo, mediante uma evocação. Daí Heidegger afirmar que: “O apelo da identidade
fala desde o ser do ente” (HEIDEGGER, 1973). Perguntamos: não seria este desdobrar, esse
geminar, isso que Heidegger chama de identidade? Não teríamos, a partir da identidade, a
possibilidade de olhar para essas duas partes geminadas e apontar o mesmo? Isto é, não poderíamos
olhar para essas “coisas diferentes” e reconhecer nelas uma co-pertinência, a ponto de, mesmo

pois. no pensamento de Heidegger. esse momento na história da filosofia deu a colaborar com questões que ecoam até hoje. pois. Entretanto. assim. aqui demonstrada. quando vai à questão. Ocorre que a modernidade. em última instância. sem. vê-se outra de co-pertinência. sim. de “quem pensa” sobre o ser que “é pensado”. Dizem-se problemáticas. em boa medida. Dois modos de interpretação são possíveis e próprios a essa sentença: O primeiro privilegia o aspecto de unidade expresso pela identidade que vimos tematizando. ou que A é A (ou que B é B). na qual a identidade faz parte do ser” (HEIDEGGER. tanto é pensar como também ser” (PARMÊNIDESapud HEIDEGGER. que também é B. com isso. conclui-se que o A. Assim. Pode-se. 1973). e. pois ela acaba sendo lida como identidade. Donde. podendo ser interpretada como a relação entre ser e ente tratada no parágrafo acima. . Dizendo de maneira radical. remonta a identidade. senão o de uma categoria. Assim. o foco do questionamento da identidade desviou-se para investigações das estruturas transcendentais de um sujeito que seria responsável por esse pensar que promoveria o ser. por apontar o ser como aquilo que é determinado pelo pensamento. Com essa menção à modernidade. mas como uma relação de causalidade. fazendo que apreendamos que A é o mesmo que B. já lê na sentença de Parmênides o pensar com uma anterioridade sobre o ser. vemos o pensar (noein) ser apresentado como o mesmo que ser. Aqui. Explicaremos: naquela. o múltiplo torna a ser pensado como unidade. fica claro que a modernidade interpreta o fenômeno da identidade não como uma co-pertinência. é “algo absolutamente diverso daquilo que ordinariamente conhecemos como a doutrina da metafísica. tal como vemos expresso na experiência do pensamento antigo. Desde modo. Mas seria isso apenas igualdade? Não. apontarmos a mesmidade? Certamente. é A como também B. Isso tornou possível interpretações problemáticas como as que vemos na modernidade. mais que a relação de identidade entre duas coisas supostamente distintas. nossa certeza legitima-se na proposição de Parmênides quando este traz à palavra tal experiência originária: “O mesmo. mesmo essa expressão formal. teríamos: O mesmo. mas apenas valendo-nos do recurso de visualização que ela nos proporciona. assim. Por esse pensamento. o problema da identidade. 1973). coisas tidas como diferentes são pensadas como o mesmo. como também em Tales de Mileto. observar que. Essa interpretação permite que transponhamos tais proposições para a linguagem abstrata da lógica. remetemo-nos ainda à primeira citação de nosso texto. é o mesmo que A. onde os dois objetos estão subordinados a uma idéia de igualdade através do termo “o mesmo”. nos modos conceituais dessa doutrina metafísica. ou o pensamento como lugar do ser. Assim. preparou o solo para a abordagem da questão da identidade tal qual se vê hoje. reduzi-la a um princípio formal de identidade.manifestando-se diferentemente. a identidade de que falamos não ocupou outro lugar. O segundo modo de interpretar a sentença busca investigar a relação de conteúdo que Parmênides propõe.

tomados por uma experiência que. Tal disparidade parece sugerir que a forma de lidar com a experiência da identidade poderia passar ora pela condição de sujeito ora pela de predicado. desde sempre na lida com o ser do ente (que somente através de uma relação de identidade é possível) somos interpelados. vemos o pensamento grego antigo dizer “o ser faz parte da identidade”. num primeiro instante. ora. a identidade seria uma propriedade do ser. a co-pertinência que lhe é determinante. Para os modernos (e leia-se aqui toda a porção final da metafísica ocidental até Hegel) “a identidade faz parte do ser”. Em resposta às perguntas que ficaram pendentes acima. a questão não se resolve com uma opção arbitrária. seria aquilo que promove o ser. abordados. somos interpelados pela identidade” (HEIDEGGER. onde quer que mantenhamos relação com qualquer tipo de ente. é afirmar que é o modo com o que esse ente é. ou seja. Esse desacordo. Afirmamos. Antes. deste modo. Em toda parte. parecer inconsistentes. além de ministrar conceitos como o de diferença ontológica. podemos afirmar que. Isto é. Não nos cabe aqui estabelecer um primado de um termo sobre o outro (talvez nem nos seja possível). Mas será que uma investigação sobre a questão da identidade se resolve com uma “tomada de partido”? Seria a atitude mais própria deixarmo-nos seduzir pelo conforto de adotar a primeira ou a segunda alternativa? Essas duas perguntas podem ser respondidas com facilidade se rememorarmos que. Ademais. Com isso. inicialmente. predicada e “re-arranjada” ao sabor das conveniências da ontologia. certamente. a experiência do ser dá-se como unidade e. Constituir um traço fundamental não significa dizer que identidade é parte do ser do ente. em seu modo constitutivo. num e noutro o modo de formular. Em contrapartida. Assim. reiteramos a unidade da experiência da identidade e do ser. Asseveramos . embora o exame que empreendamos nos ponha diante de uma encruzilhada nitidamente marcada por uma petição de princípios. Daí afirmar-se que o ser apenas se confirma como ente através da identidade. Um breve balanço de nosso argumento até então vem demonstrar a necessidade de uma maior explicitação de alguns aspectos que podem. é enquanto ser na identidade. que o ser teria geminado em ente mediante um apelo. o que seria promovido por ele. parece sugerir-nos que devemos nos enveredar para uma das duas propostas. daí Heidegger afirmar: “(…) a unidade da identidade constitui um traço fundamental do ser do ente. 1973). Deste modo. que nasce de uma leitura dicotômica do problema. Parece que nos é cobrada a definição por uma opção entre uma das partes desse problema. capaz de ser determinada. resta-nos apontar. demonstramos a unidade do ser e da identidade. ainda na citação. também respondemos à segunda pergunta pendente.Nessa podemos encontrar a distinção fundamental entre as duas formas de interpretar a relação entre identidade e ser. uma fração ou categoria desse ser. a identidade é também uma. Ou melhor: ora. como diz a citação. não exprime anterioridades.

Tendo esclarecido as três primeiras perguntas. proporemos algumas perguntas: 1. A confirmação disso vem com a seguinte citação do texto de Heidegger: Interpretamos a mesmidade como comum-pertencer (copertinência). pois o ser é uno. vem mais longe que a identidade metafísica. como traço dessa identidade(…) A mesmidade do pensar e ser. o que apontamos como “geminação” são dois modos do mesmo mostrar-se. ser e ente desde os quais se infere uma dimensão de “ser-identidade”. 1973. Facilmente se representa este comum-pertencer no sentido da identidade. operando num registro binário. buscando ler formalmente a questão e desprezando assim seu caráter fenomenal. 379). mas que permanecem enigmáticos? As três primeiras perguntas denotam uma preocupação lógica com o nosso discurso. Assim. “chamado”. Isso é o que podemos apontar como copertinência. Portanto. Como poderia o ser ter se duplicado e ainda assim ser uno? 2. na esfera ôntica. A saber. como “apelo”. . Assim. chamado.também que a relação de identidade é una. 3. O que poderíamos entender. Tal invocar é um modo de agir. pensada mais tarde e universalmente conhecida (…) O ser é determinado a partir de uma identidade. que emerge do ser e é determinada como traço dele (HEIDEGGER. sendo ela no seu âmbito ontológico o modo dessa geminação ou. isso que chamamos de “diferença ontológica” entre ser e ente é. Heidegger (1973) diz: “o apelo da identidade fala desde o ser do ente”. Sabemos que uma co-pertinência é uma relação entre duas ou mais coisas. que tem seu interesse voltado ao conteúdo conceitual da questão tratada. Como seria possível manter a idéia de diferença sem comprometer a interpretação da unidade entre identidade e ser? (artifício que visa a afastar a leitura eivada dos caracteres metafísicos da tradição. p. no fundo. uma invocação. poderíamos afirmar a unidade da identidade já que ela é co-pertinência?. então. “fala” e outros tantos termos que se referem à identidade. que fala na proposição de Parmênides. 4. o que torna possível a experiência da identidade e o que possibilita a asserção desse fenômeno e sua afirmação como unidade. partamos agora para a quarta. Como. que já enxerga. nessa relação. O que poderíamos entender por apelo? Todo apelo é um chamado. Ela pergunta pelo significado de termos como apelo. aqui. uma causalidade) e. que consiste no esclarecimento do sentido da terminologia aplicada. a expressão de dois modos possíveis do mesmo mostrar-se. finalmente. Podem ser respondidas numa única manobra. fala que reincidem na citação do autor e no nosso trabalho. requerem o rigor e a coerência de uma não-contradição.

a de ser que.[2] ser-aí que. a identidade das coisas que são à medida que são o que são. O aspecto existencial que marca o tom desse argumento sobre a identidade encontra legitimação na seguinte passagem do texto heideggeriano: “Em toda parte. ainda utilizando uma terminologia hegeliana. parte em direção a outro ponto que. finalmente. Assim. É uma manifestação de exigência. um em direção à…. ou: “consigo mesmo é cada A (ente) ele mesmo o mesmo” (HEIDEGGER. como o ente. 1973). utilizando um termo que já nos é conhecido. somos interpelados pela identidade” (HEIDEGGER. distintamente da conceituação heideggeriana. Entretanto. desde uma compreensão. Destarte. é o mesmo que fazer referência a esse “local” desde o qual é possível não só uma compreensão de ser.“auf”é a preposição que nos aponta um para. precisamente. ou que a identidade é apelada. de reclamação. deste. dizer que “o ser fala”. Essa voz que age se dirigindo a algo que é alvo da evocação. da própria identidade. podemos dizer que o apelo à identidade requer uma resposta. de requerimento ou. pois só somos interpelados pela identidade. onde quer que mantenhamos qualquer tipo de relação com qualquer tipo de ente. logo. “facticidade” e a “linguagem”. O que. identidade nasce nessa relação entre dois pólos. infere a identidade. como existencial que reúne o ser em um “ethos” desde o qual é possível a compreensão deste ser enquanto um ser-situado-aí em um mundo. em “auffordern” (termo utilizado pelo nosso autor para referir-se a essa interpretação). O “aí” (Da) do termo ser-aí é um indicativo desse deslocamento. Uma análise mais detida na etimologia deste no alemão nos passa a idéia de identidade como aquilo que é conjugado entre o ser e a sua compreensão. no qual entre existenciais como “mundanidade”. Para a determinação de um ser situado por um arcabouço existencial. O verbo “fordern” expressa bem o caráter dessa relação. à medida que existe. O ser (sein) enquanto ser-aí (Dasein) tem compreensão de si e dos outros entes que lhe vêm ao encontro. é capaz de compreender o que é enquanto ente efetivo e mesmo o que significa “ser” em sua compreensão mais abstrata. através desse processo. qualquer ente efetivamente é.uma ação com a voz. sempre. por sermos capazes de ter uma compreensão do ser e. mas uma de identidade. Destarte. poderíamos entender como o deslocamento do ser (sein) para o ser-aí (Dasein). aponta para uma dimensão mundana desse ser. donde presume-se que lidamos com um ponto desde o qual a compreensão do ser tem lugar. tomando por referência. desse “deslocare”. o “aí” faz mais que definir uma dimensão espaciolocativa. é tomada pelo sentido disso que se faz como ser-identidade. reposta. 1973). algo do qual se espera reação. o deslocamento do ser em sua condição de em-si e para-si à sua condição de para-o-outro. que se caracteriza como aquilo que chamamos desdobramento ou deslocamento. Essa indicação é o que temos por meio do próprio termo “interpelar” ou “interpelação”. O ser-aí reconhece. Donde se conclui que esta interpelação já é. . Assim.

é sempre interpelado pela identidade nessa . não poderíamos tratá-la como tal). ou. corresponde à preposição alemã “auf”. Ora. que sempre e a cada vez somos. tomado pelo sentido disso que se faz como face conjugada do ser compreendido. tendo por intuito primordial indicar o modo com o que essa cooriginariedade se dá. O corpo do argumento subseqüente compor-se-á do exercício de demonstração desses três pontos. do ponto de vista do ser. “interpelar” (adotado como tradução para “auffordern”). Vejamos: o prefixo latino “inter”. enquanto relação. mediante o ente. Entretanto. ou. dizendo respeito a qualquer parte. durante toda essa argumentação. teríamos que esse ser estaria vigente na totalidade. pois abarca tudo que de algum modo é. Duas conseqüências são avistadas desde as presentes afirmações: a) A possibilidade de pensarmos ser e identidade como o mesmo. O mesmo “apelar”. onde quer que haja totalidade. este seria unidade absoluta incapaz de dissociar-se em partes. “qualquer tipo de ente”. mesmo no termo da língua portuguesa. Entretanto. Assim. à medida que existe. mesmo. Diz. essa interpretação etimológica vigora. o verbo apelar. ele diz. conclui-se que esta interpelação já é compreensão de ser. ente ou relação que se manifeste em uma dimensão de ser. Acima. O período marca. entre ser e ser-aí. somos interpelados pela identidade. Ipso facto. somos interpelados pela identidade. A compreensão de um ser que é. menciona a relação que se dá no intervalo desses dois pólos. É isso que chamamos de conjugação entre ser e um ente capaz de ter compreensão de ser. Por outro lado. onde quer que mantenhamos qualquer tipo de relação com qualquer tipo de ente. é também um verbo. respeito ao ser que se abre como totalidade. o ser-aí é um ente. A interpretação do ser em sua identidade apontou que o ser enquanto ser-aí possui compreensão do seu ser e dos outros entes que lhe vêm ao encontro. somos interpelados pela identidade”. pois. esse em vez de referir-se ao deslocamento de um pólo ao outro. “qualquer tipo de relação”. é nisso que consiste a co-pertinência ou co-originariedade entre seridentidade. é também um ente que integra a mesma totalidade. Do ponto de vista dos entes. podemos afirmar (com base na reflexão acima): na totalidade. Aquela oração diz: “Em toda parte (…) somos interpelados pela identidade”. a idéia de totalidade. esteve em questão. na unidade. “em toda parte”.apelação. a identidade. por caracterizar o modo com o qual a identidade é inferida de uma relação entre ser e sua compreensão. que. deparamo-nos com a seguinte citação de Heidegger (1973): “Em toda parte. podemos afirmar que: o ser-aí. É importante observar que. O outro termo que compõeinterpelar. Assim. um ente que não poderia deixar de integrar essa totalidade (caso contrário. A idéia de totalidade aqui nos é importante. b) A revelação do modo com que a identidade (ou diferença) ontológica é capaz de apontar a co-originariedade de que tratamos. correspondente à palavra alemã “fordern”. Daí a totalidade expressa na citação analisada pode ser perfeitamente lida como unidade.

pois isso seria nivelar todos os entes “por baixo”. que sempre e a cada vez somos. pois permite que apontemos que. compreensão do ser dos entes que são simplesmente dados. Entendemos essa leitura uma desconsideração do caráter fenomenal do ser-aí tal qual vemos tematizado em Ser e tempo. o ser. como também um ente simplesmente dado. o ser-aí é. ao existir. como o ente dotado de compreensão de ser. O aposto. tem compreensão de si e dos outros entes que lhe vêm ao encontro. compreender o ser-aí. desse ente que tem compreensão de ser. 1996). Mas qual seria o propósito dessa ressalva referente ao existir do ser-aí? Ela é importante. acha-se reunido em si mesmo por si mesmo e se mantêm nessa reunião” (HEIDEGGER. Não se trata disso. Afirmamos que esta compreensão pertence a um ser que é à medida que existe e que. 1973). enquanto ser-aí. o que nos devolveria para o registro metafísico tradicional. Cremos que não há porque discordar de que o que Heidegger descreve na citação é a co-pertinência do ser da totalidade (phýsis) e do ser-aí. Assim. deve sempre dizer compreensão de ser. compreensão. Ter compreensão de si e dos demais entes integrantes da totalidade é compreender o ser em sua unidade. o fenômeno se manifesta a um ente específico. por isso. A formulação a qual chegamos parece deixar nítido que a identidade diz respeito à constituição de todos os fenômenos (HEIDEGGER. em qualquer ente. Entretanto. compreensão do ser que se é enquanto ser-aí. o ente que somos (daí Heidegger afirmar na citação “somos interpelados”). compreensão das estruturas e relações que determinam esse ser enquanto ser-aí. o que é consistente e estável. Assim. como possuidor do modo de ser de “coisa”. enquanto esforçamo-nos por mantermo-nos no exercício de ser. na unidade do ser. à medida que esse enquanto unidade como o ser. a identidade aponta para o ser que irrompe no ente. Dizer respeito à constituição de todos os entes não quer dizer compor uma dimensão essencial desses entes. somente sendo. ao mesmo tempo: o que é ente. é tomado pelo sentido disso que se faz como ser-identidade. não apenas grifa que somos. é interpelado pelo ser ser-identidade? . pode ser interpelado pela identidade.unidade. de “essencializar-nos”). Entretanto. Pois não ficaria aqui explícito o que vimos tratando durante todo este trabalho como co-originariedade? Não ficaria claro nessa citação que o papel do ser como identidade frente ao ser-aí. Heidegger nos certifica dessa proposição na seguinte passagem: “Phýsis e lógos são a mesma coisa. o ser-aí se deixa tomar pela apelação da identidade. Assim. isto é. mas que só somos enquanto existimos (isto é. Unidade marcada pelo ser desse ser-aí. essa irrupção não se dá fora do registro de compreensão. Lógos caracteriza o ser de um ponto de vista novo e antigo. somente existindo. constituinte da experiência homem. A compreensão do ser é sempre a do ser de um ente. bem quanto seu modo de existir. aqui. é capaz de compreender o que é ente e mesmo ser em sentido abstrato.

podemos afirmar que a identidade revela a co-originariedade na forma da copertinência ao ser da totalidade com o ser-aí quando torna possível pensar ser e ser-aí como o mesmo. que pode ser sintetizado assim: a) o ser que se abre na identidade é unidade.Ora. temos a mesmidade ligada ao ente que se acha reunido em si mesmo. como a necessária junção de um com o outro (HEIDEGGER. “co-originariedade”. instalado na unidade de algo “múltiplo”. por si mesmo. portanto. c) o ser-aí é com o ser que se abre na unidade. essa é a mesmidade do ser e do pensar. b) o ser-aí é (e só pode ser na medida em que é ser). o sentido do pertencer é determinado a partir da comunidade. Na citação imediatamente acima. por si mesmo. como unidade. Isso pode também ser dito da seguinte forma: o ente é. e se mantém nessa reunião. a demonstração da co-originariedade desde a identidade consiste em um argumento muito simples. se acha unido em si mesmo. então como já se mostra a ênfase dada à primeira parte da expressão. Do ponto de vista do pertencer. por si mesmo. não seria exatamente isso que Heidegger (1973) diz com: “o ente que é (…) acha-se reunido em si mesmo e por si mesmo e se mantêm nessa reunião”? Por enquanto. a própria unidade originária de ser e pensar. Encontramos a legitimação dessas afirmações na análise do seguinte documento: Se pensarmos o comum-pertencer (co-pertinência) como de costume. Co-pertinência diz respeito à comunidade (ou a uma “comum-unidade”) a algo que pode ser pensado como-um. Co-pertinência diz pertinência do ente com si mesmo. e se mantém nessa unidade. Foi dito que o ente é e acha-se reunido em si mesmo. a partir da sua unidade. 380). 1973. Essa mesmidade é pensada como reunião. Para esse autor. como vemos nessa outra citação: Se compreendermos o pensar como a característica do . e se mantêm nessa reunião. como nos diz a citação. como o conjunto de uma totalidade. A análise da citação privilegiará a noção de comum da co-pertinência. p. na unidade em que é com seu ser. quer dizer. por si mesmo. A co-originariedade pode também ser pensada desde o pertencer dessa co-pertinência.[3] Isto posto. Heidegger parece ser mais explícito. Assim. o sentido desse pertencer do ente é marcado por essa unidade. Nesse caso “pertencer”(pertinência) significa integrado. inserido na ordem de uma comunidade. Já vimos Heidegger interpretar essa mesmidade da identidade como co-pertinência. em última análise. é comunhão. reunido para a unidade do sistema mediado pelo centro unificador de uma adequada síntese: a filosofia representa esse comum-pertencer como nexus e connexio.

grifando o caráter de pertinência entre ambos. p. Heidegger faz referência ao homem e ao ser. mas a co-pertinência originária do modo de ser do homem (na condição existencial de ser-aí) com o ser. mas o conceber que esse suposto particular pertence. Explicando: pensar não é introduzir um particular que estava “de fora” no interior de um universal que o comportaria. inclusive. Antes. assumindo por objetivo mostrar como a identidade se apresenta ao homem através de um apelo mediado por uma compreensão de ser. podemos afirmar a co-pertinência como a co-originariedade de “ser-pensar”. 1973. Ao propor o pensar como característica do homem (ser-aí). A hipótese que se buscou validar é a de que a identidade viria suprir a falta de um chão em que pudéssemos decidir algo . nem o integrar do homem no ser da totalidade. Diferença que também aponta indiretamente à identidade do ser consigo próprio e à co-pertinência entre o homem ser-aí e o ser de todas as coisas. Entretanto. objetivouse apontar o homem como o único ente possuidor do privilégio ontológico de compreender o ser em seu sentido. é o modo de ser de algo que pensa. enquanto questionamos desta maneira ficamos presos à tentativa de representar a comunidade do homem e ser como uma integração e de dispor esta ou a partir do homem ou a partir do ser e assim explicitá-la. 380). 1973). O ensaio buscou pensar as noções de identidade e diferença tais quais tratadas no universo conceitual do pensamento de Heidegger. pois. algo que ele chama de co-pertinência. podendo. pensar a natureza desta apelação e estabelecendo a diferença ontológica entre ser e ente. Contudo. Nosso autor alude a certa tendência a representar a “comunidade de homem como uma integração e de dispor desta ou a partir de homem ou a partir do ser” (HEIDEGGER. pelo menos do modo com que Heidegger se refere aqui.homem então refletimos sobre um comum-pertencer que se refere ao homem e ser. sem a suficiente resposta a essas perguntas faltanos o chão em que possamos decidir algo seguro sobre o comum-pertencer de homem e ser. o pensar ou a co-pertinência não oscila entre dois pólos. No mesmo instante nos surge a questão: que significa ser? Quem ou o que é o Homem? Qualquer um vê facilmente que. a esse universal. Teve como propósito uma apresentação dos termos da questão e suas implicações mútuas. pensar não é uma característica de um sujeito. e sempre pertenceu. Nisto os conceitos tradicionais de homem e ser formam pontos para a integração de ambos (HEIDEGGER. Interpretar o pensar como característica do homem não significa falar de uma atividade discursiva promovida por uma faculdade intelectual. Assim. Especificamente.

Col. Autor de Filosofia Primeira – Estudos sobre Heidegger e outros autores. Textes. Paris: L’Herne. In Cahier de l’Herne. Martin Heidegger. Martin. 1976. 13a ed. Rio de Janeiro: Abril. Trad. _________. 1953. [3] As expressões presentes na passagem: “integrado”. 1973). Joan Stambaugh. Tübingen: Max Niemeyer Verlag. tal qual formulada por nosso autor. [1] Doutorando em Filosofia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro/UERJ. “instalado na unidade”. Bibliografia: HEIDEGGER. Einfürung in die Metaphysik. . _________. 1996. New York: State University of New York Press.O princípio de identidade. “inserido na ordem de uma comunidade”. Trad. Max Niemeyer Verlag. _________. Albany. Ernildo Stein. _________. tarefa que se norteou em todo momento pelo problema: “Em que constelação de homem e ser estamos nós?”(HEIDEGGER. 1983. Sein und Zeit. Being and time. Os Pensadores. In.sobre a co-pertinência entre ser-aí e ser. 1973. Tübingen. Professor na Faculdade de Formação de Professores da UERJ e da Professor da Universidade Cândido Mendes/UCAM. [2] Guardando as devidas diferenças conceituais entre os dois autores. “reunido para a unidade” e “centro unificador. só vêm confirmar essa unidade”.