Faculdade Guairacá – Disciplina Neuroanatomia e Neurofisiologia - Professor Carlos Eduardo Buss O MAGNETISMO NOS "SERES VIVOS" Algumas pessoas

estão acostumadas com a idéia de que magnetismo é um fenômeno puro da natureza inanimada e está presente apenas no meio ambiente, como nos imãs e na Terra, e em materiais do nosso cotidiano, como computadores e motores elétricos. O que muitos de nós não sabemos é que o magnetismo é um fenômeno também presente nos seres vivos. Em algumas espécies ele chega a ser um meio de sobrevivência e adaptação ao meio. O que fez de alguns pombos bons “mensageiros” para agentes em território ocupado na Segunda Guerra Mundial era a capacidade desses pássaros de voltar a um determinado local levando mensagens importantes. Atualmente, sabemos que isso é possível para esses pássaros, pois eles voam sob as linhas do campo magnético da Terra, o campo geomagnético, e conseguem se orientar por meio delas. Mas não são apenas os pombos que possuem essa capacidade de se guiar pelo campo magnético terrestre. Cientistas estão aos poucos descobrindo que essa capacidade também se apresenta em outros seres vivos. Algumas bactérias aquáticas, abelhas, moscas, borboletas, salamandras, peixes, baleias, golfinhos e tartarugas são influenciados pelos campos geomagnéticos. Essas descobertas fizerem nascer uma nova área de pesquisa, a Magnetobiologia, responsável por investigar os efeitos que os campos magnéticos podem produzir sobre os seres vivos. O 'MAGNETISMO' DAS MOSCAS Estudo acrescenta peça importante para explicar a sensibilidade de organismos a campos magnéticos Nos últimos 50 anos, muito foi revelado sobre a sensibilidade de organismos a campos magnéticos, tendo como caso clássico o dos pombos-correios, que, orientados pelo campo terrestre, podem voltar, muito tempo depois, ao lugar de onde migraram. No entanto, muitas perguntas continuam sem resposta nessa área. Haveria, em alguns organismos, um sistema de recepção do campo magnético e de tradução dessa informação para o sistema nervoso? Agora, um estudo feito com moscas-das-frutas coloca mais uma peça importante nesse cenário complexo: uma proteína sensível a certas freqüências da luz tem papel-chave na sensibilidade desse inseto ao campo magnético. O artigo foi publicado na revista Nature. O estudo do comportamento de organismos frente a campos magnéticos tem sido feito intensamente desde meados do século passado. Assim, verificou-se, por exemplo, que os pombos-correios podem se orientar pelo campo da Terra e que as trutas têm partículas do mineral magnético magnetita na região próxima ao bulbo olfativo. Entretanto, a descoberta das bactérias magnéticas, em 1975, foi o único caso em que um receptor de campo magnético (ou magnetorreceptor) foi identificado, e seu efeito na orientação dos microrganismos comprovado inequivocamente. Bactérias magnéticas vivem em ambientes aquáticos, e seu movimento sofre efeito direto de um campo magnético. No interior delas, existe uma cadeia linear de cristais nanométricos de magnetita, responsáveis por sua orientação, agindo como se fossem a agulha de uma bússola. Mesmo quando a bactéria está morta, é possível orientá-la com um ímã, embora ela não possa mais nadar. Os casos do pombo-correio e da truta enquadram-se no estudo da migração em grandes distâncias ou volta ao ambiente de onde o organismo partiu, mesmo após um tempo longo. A orientação passiva a um campo magnético aplicado não seria possível para animais com porte maior que o das bactérias, pois a inércia do organismo impediria essa orientação. A busca, portanto, de um sistema magnetorreceptor continua em aberto, assim como a de um mecanismo magnetotransdutor, ou seja, capaz de traduzir a informação contida no campo para uma forma que possa ser ‘entendida’ pelo sistema nervoso do animal, gerando no organismo uma ação (orientação, navegação etc.) correlacionada a alguma característica do campo (por exemplo, direção, sentido ou intensidade). DETECÇÃO DO CAMPO MAGNÉTICO Atualmente, existem três modelos que buscam explicar a detecção de um campo magnético por organismos, baseados em: i) no fenômeno da indução eletromagnética, ou seja, o campo magnético do ambiente geraria no organismo uma pequena corrente elétrica, como é o caso do peixe elétrico, o poraquê (Electrophorus electricus); ii) na presença de partículas magnéticas (como as das bactérias) que mudariam de orientação na presença de campos magnéticos, gerando impulsos em células nervosas (neurônios) presentes na região próxima aos cristais; iii) em reações químicas que são moduladas por campos magnéticos e envolvem receptores de luz (fotorreceptores). Neste comentário, nosso interesse recai sobre este último tópico. Um modelo químico de sensibilidade ao campo magnético propõe que a informação magnética é transmitida ao sistema nervoso por meio dos produtos resultantes de

reações químicas sensíveis a campos magnéticos que ocorrem em fotorreceptores especializados. Um desses fotorreceptores seria a proteína chamada Cryptochrome (abreviada como Cry). Ela tem sido apontada como capaz de gerar, em reações químicas induzidas pela luz, pares de moléculas (radicais) que, por sua vez, possibilitariam ao organismo detectar campos magnéticos. Robert Gegear e colaboradores, do Departamento de Neurobiologia da Universidade de Massachusetts (Estados Unidos), comprovaram que, na mosca-das-frutas (Drosophila melanogaster), o fotorreceptor Cry é necessário para que, na presença de certas freqüências de luz, ocorra a sensibilidade desses insetos ao campo magnético. A Drosophila foi considerada um modelo ideal para estudo do papel da Cry como magnetorreceptor, pois essas moscas (diferentemente de outros organismos) só têm essa proteína sensível à luz na faixa ultravioleta/azul, o que permitiu desenhar experimentos usando filtros de luz. A resposta mais intensa da Cry à luz se dá na faixa do ultravioleta A. Primeiramente, os autores testaram a resposta das moscas ao campo magnético em duas situações: i) no estado ‘natural’, ou seja, sem interferência alguma; ii) após treinarem os insetos a associar o campo a uma recompensa do tipo ‘acesso a um açúcar’. DIFERENTES FREQÜÊNCIAS DE LUZ Os autores mostraram que as mosquinhas, quando sob o efeito da luz visível, apresentavam tanto a resposta ‘natural’ quanto a ‘treinada’ para um campo magnético. Mas, quando as freqüências de luz que vão do azul ao ultravioleta A eram bloqueadas com a ajuda de filtros, as moscas não respondiam ao campo. Além disso, as moscas que tiveram a Cry ‘desligada’ não mostraram nem resposta natural, nem treinada a um campo magnético sob a luz visível. Ou seja, perderam a sensibilidade ao campo. Os autores também verificaram que, quando freqüências acima do azul eram bloqueadas, as moscas não mostravam nenhuma resposta (natural ou treinada) ao campo. Quando apenas a faixa do azul era permitida, a resposta ao campo magnético era parcialmente restaurada. Essa recuperação parcial é consistente com o espectro de ação da Cry na Drosophila, que, como foi dito, atinge o azul, mas tem seu pico no ultravioleta A. Proteínas do tipo Cry, além de funcionarem como fotorreceptores, também sincronizam os ritmos internos do organismo, os chamados relógios circadianos. Então, como último controle para seus experimentos, os autores usaram o fato de que essa proteína, ativada por luz, interage com outra, do relógio circadiano. Testaram, então, se o sistema circadiano da Drosophila teria que estar intacto para que as respostas de sensibilidade ao campo magnético fossem normais. Concluíram que, apesar de oferecerem luz continuamente às mosquinhas por pelo menos cinco dias (e elas já começarem a apresentar comportamento locomotor arrítmico), as respostas comportamentais dos dois tipos (natural e treinada) ao campo magnético ainda foram observadas, o que comprovou o papel da Cryptochrome na sensibilidade a esses campos na Drosophila. Autor: Marcos Farina Laboratório de biomineralização, Instituto de Ciências Biomédicas, Universidade Federal do Rio de Janeiro. Fonte: Revista Ciência Hoje.

OS CAMPOS MAGNÉTICOS NO HOMEM No final do século XVIII esse fenômeno passou a ser utilizado por Franz Anton Mesmer como cura medicinal. Até ser considerado um charlatão, Mesmer realizou curas inacreditáveis. Segundo consta em alguns relatos históricos, para fazer com que o paciente ficasse “magnetizado”, Mesmer os fazia tomar um líquido contendo minúsculos fragmentos de imã. Entretanto, hoje sabemos que não existem evidências de cura ou efeitos relevantes devido à ação de campos magnéticos de baixa intensidade em seres humanos. Mal sabia Mesmer que o próprio corpo humano possui, de fato, materiais magnéticos e que diversos processos do organismo geram campos magnéticos. Essa descoberta deu início a uma nova área de pesquisa: o Biomagnetismo – estudo dos campos magnéticos gerados pelo corpo humano. O avanço nas pesquisas possibilitou descobrir como esses campos magnéticos são gerados no corpo humano. No caso de alguns órgãos, eles são produtos das próprias correntes elétricas que resultam da sua atividade natural. No cérebro e no

coração é assim. Cada contração que o coração realiza para bombear o sangue para o corpo gera uma corrente elétrica. O mesmo ocorre com o estômago, que está em constante movimento de contração, mesmo que não haja alimento para ser digerido. Essa corrente, como toda corrente elétrica, gera um campo magnético, efeito que é conhecido como a Lei de Ampère. O nosso cérebro gera constantemente correntes elétricas, e como conseqüência, campos magnéticos. Essas variações de corrente resultam da despolarização das células (que será explicada nos textos seguintes). Segundo o professor Oswaldo Baffa, da Universidade de São Paulo, campus Ribeirão Preto (USP/RP), o nosso corpo está repleto de partículas magnéticas. “As moléculas de hemoglobina do sangue têm átomos de ferro. Diversas enzimas possuem metais no seu centro ativo para fazer a catálise e, portanto, possuem ferro e manganês”. Mas nosso corpo produz diferentes graus de magnetismo. O fígado, por exemplo, apresenta propriedades paramagnéticas por causa da presença de compostos de ferritina. O baço e o coração apresentam essa mesma propriedade. Isso significa que, ao aplicar neles um campo magnético, os íons de ferro tendem a se alinhar e reforçar, um pouco, esse campo. “Esse *o paramagnetismo+ é um fenômeno comum no nosso corpo”, explica Baffa. Quando em excesso, como no caso da hemocromatose, temos uma situação patológica que necessita de tratamento. Essa capacidade de reforçar o campo não está presente em todo o corpo. A maior parte dos tecidos biológicos possui água em abundância, e essa substância é diamagnética, ou seja, ela reage ao campo magnético de forma a gerar um campo em oposição ao aplicado. Há também substâncias no corpo que são chamadas de ferromagnéticas, que se orientam preferencialmente na direção do campo aplicado. Também possuem ferromagnetismo pessoas que ficaram expostas a alguma agressão externa, como, por exemplo, pessoas que trabalham em locais onde há partículas ferromagnéticas dispersas no ar, como os trabalhadores de minas. Geralmente essas pessoas inalam diariamente uma grande quantidade de ferro, que, com o tempo, se acumula no pulmão e pode levar a uma insuficiência pulmonar. Até mesmo em casos de ferromagnetismo detectar esse material magnético requer equipamentos dotados de dispositivos especiais. Isso ocorre porque os campos magnéticos gerados por essas substâncias são relativamente baixos, se comparados aos demais campos magnéticos externos ao corpo, por exemplo: o campo da Terra e das torres de transmissão. Entre os dispositivos capazes de medir esse tênue campo está o SQUID (Dispositivo Supercondutor de Interferência Quântica). Esse dispositivo, em particular, é capaz de medir os fluxos magnéticos mais sensíveis que existem, como os do coração do feto, dentro da barriga da mãe (saiba mais). Eles têm uma vasta aplicação na física, como em experimentos para detectar ondas gravitacionais e na pesquisa de matérias magnéticos. Ao mesmo tempo que eles são indispensáveis no biomagnetismo, os SQUIDs são os grandes responsáveis por encarecer os diagnósticos e os possíveis tratamentos que a medicina busca desenvolver nessa área. Segundo o pesquisador Oswaldo Baffa, os utilizados hoje em biomagnetismo são à base de nióbio (metal com extensas reservas no Brasil) com titânio. O problema está no fato de tais materiais só adquirem supercondutividade, fenômeno indispensável para medir os campos magnéticos, em temperaturas muito baixas. Para alcançar essas temperaturas, eles precisam ser resfriados através da imersão em hélio líquido, o que encarece o custo de operação desses equipamentos. Algumas universidades no Brasil possuem esses equipamentos para estudos na área de biomagnetismo. Segundo Baffa, as áreas que estão sendo estudadas atualmente, no Brasil e no exterior – no último com maior investimento –, e que apresentam maior potencial para pesquisa são o neuromagnetismo, o cardiomagnetismo, o gastromagnetismo, o pneumamagnetismo e a biossucesptibilidade magnética. Com relação aos investimentos, o neuromagnetimo e cardiomagnetismo despontam na frente em função da incidência de doenças nesses órgãos. Entretanto, as pesquisas na área biomagnética não exploram apenas os campos magnéticos gerados pelo corpo. Os médicos têm utilizado marcadores magnéticos como forma de estudar o comportamento de alguns órgãos ou conhecer alguns mecanismos do corpo, como o da digestão. Esses marcadores são materiais carregados magneticamente, que não têm prejuízo para o homem. Os pesquisadores acreditam que com o avanço nas descobertas de técnicas que permitem medir campos magnéticos cada vez menos intensos e com o uso de modelos computacionais para conseguir simulações cada vez mais próximas da realidade, a biomagnética estará, dentro de alguns anos, disponível nos hospitais brasileiros. Autor: Samira Manfrinato Fonte: http://www.via6.com/topico.php?tid=104385

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