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Disciplina: Português

Professora: Iêda Barra de Moura Galvão

LEITURA E ANÁLISE DE TEXTOS
ASPECTOS LINGUÍSTICOS E EXTRALINGUÍSTICOS
1 ABAIXO O DICIONÁRIO?
Não é bem assim! Mas colocá-lo como o responsável pela compreensão é desconsiderar o
texto como um todo significativo.
Contudo, se o contexto linguístico não esclarecer o significado daquela palavra ou expressão,
o leitor poderá ativar em sua memória outros tipos de conhecimento que ajudarão a esclarecer
possíveis falhas momentâneas no processo da compreensão.
Observe a seguinte informação:
“Assim foi. O touro mais forte, à força de marradas, encurralou no brejo o mais fraco, e as
rãzinhas tiveram de dizer adeus ao sossego.” (LOBATO, Monteiro. Fábulas e histórias diversas. São
Paulo: Brasiliense, 1960).
Considerando agora não só o conhecimento Linguístico do leitor, mas também o seu
conhecimento de mundo, se ele já viu na vida, na televisão, ou em algum livro uma briga de touros,
terá a idéia de que marradas no texto está relacionada com os chifres do touro.
Enfocando a compreensão a partir da interação de aspectos tanto linguísticos quanto
extralinguísticos, é necessário considerar também algumas estratégias, estabelecidas por
Hosenfeld, que conduzem o leitor a uma leitura eficiente.
1- Retenção do significado do texto enquanto lê;
2- Leitura em grandes blocos;
3- Uso de fontes de informações variadas: ilustrações, sinais gráficos, etc;
4- Inferências1 a partir do título, subtítulo, etc;
5- Adivinhação do significado das palavras a partir do contexto;
6- Avaliação de suas próprias adivinhações;
7- Utilização do dicionário como último recurso;
8- Utilização do seu conhecimento de mundo na decodificação do significado de palavras,
frases e expressões;
9- Conceito positivo de si enquanto leitor.
2 ASPECTOS EXTRALINGUÍSTICOS
2.1 CONHECIMENTO DE MUNDO
“A leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura
desta implica a continuidade da leitura daquele.”
Paulo Freire
Como vimos anteriormente, não basta entender os vocábulos e frases de um texto para que o
processo da compreensão se realize.
Existe outro aspecto também importante na compreensão textual chamado CONHECIMENTO
DE MUNDO, que está diretamente relacionado ao leitor do que ao texto propriamente dito.

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Inferir algo pode ser definido como o processo de raciocínio segundo o qual se conclui alguma coisa a partir
de outra conhecida.

se a partir dos conhecimentos linguísticos. 1990. Agora leia o seguinte poema de Oswald de Andrade: ERRO DE PORTUGUÊS Quando o português chegou Debaixo duma bruta chuva Vestiu o índio Que pena! Fosse uma manhã de sol O índio tinha despido O português Sem o conhecimento do contexto referente à colonização portuguesa no Brasil. Agora. Um exemplo que deixa bem evidenciada a necessidade da contextualização da informação é a seguinte manchete de um jornal paulista (KOCH. Entretanto. Por isso. o leitor não conseguir perceber o sentido do texto. isto é. Contudo. de mundo e contextual a compreensão do texto não se realizar. 2. NA ARÁBIA. dificilmente o leitor compreenderá a mensagem que Oswald de Andrade quis passar. pois segundo Eni Orlandi “todo discurso nasce em outro (sua matéria prima) e aponta para outro (seu futuro discursivo). na realidade. universidades. (Ler texto complementar) Num primeiro momento. Se uma informação não estiver inserida num contexto. econômico. os conhecimentos podem ser adquiridos através de estabelecimentos especializados como: escolas. passam a ter significados precisos devido a identificação do referente. contextualizando as inferências. Se esta manchete estivesse no caderno de cultura. há uma mudança significativa na compreensão. 16): “DEPOIS DO TANGO. seja social. pois as informações do texto. Assim. ao tresler o título. o leitor faria. 1993). leia atentamente o título “Os Sori-el-isarb” e. os leitores ativam novamente o conhecimento de mundo.Este conhecimento pode ser adquirido de maneira informal. pois o referente “povo brasileiro” é identificado. a própria vida se encarrega de formar o repertório de cada indivíduo. p. não se trata nunca de um discurso. a partir do seu conhecimento de mundo. que apenas deixavam impressões. quanto de maneira formal. político ou cultural. tente descobrir que povo é esse.3 – CONHECIMENTO INTERTEXTUAL Muitas vezes o leitor pode não estar compreendendo o texto porque falta-lhe o intertexto. bibliotecas. se mesmo com a identificação do referente. poderá recorrer aos fatores de CONTEXTUALIZAÇÃO. falta-lhe o estabelecimento de relação entre o texto presente e aqueles que estão ao seu redor. Discurso e leitura. 2. a partir dos conhecimentos linguísticos e de mundo. isto é. os leitores acham que este é um povo estranho. em ausência.” Em que caderno esta reportagem apareceu? Será que foi no caderno de esportes ou cultural? O fato de esta manchete estar na seção de esportes é muito importante para o estabelecimento do sentido.2 – CONHECIMENTO DO CONTEXTO O CONTEXTO é geralmente um dos aspectos fundamentais na compreensão textual. com hábitos totalmente diferentes das pessoas ditas “civilizadas”. São Paulo: Cortez. Entretanto. dificilmente o leitor perceberá o significado do texto. CHEGOU A VEZ DO FADO. etc. E. com certeza. o leitor poderá recorrer ao conhecimento INTERTEXTUAL. mas de um CONTINUUM” (ORLANDI. inferências totalmente diversas. porque contextualiza as inferências do leitor. .

O leitor deve ter consciência de que a palavra é dialógica. bonito). embora. . Esses elementos podem dizer respeito ao conteúdo. 1996. assim somos obrigados a admitir que existe sempre um argumentatividade subjacente ao uso da linguagem. convicções. matei-o com um objeto direto na cabeça. não se tem indicação da fonte. reais ou imaginários (SILVA. etc. No entanto. quando se diz algo num texto esse algo é dito em resposta a outro algo que já foi dito em outros textos. ironia. p. 1995. segundo uma perspectiva dada. Segundo Maurício da Silva “os substantivos. Um dia. porque os primeiros situam referentes apreensíveis no mundo circundante (sociedade. do contrário. perspectivas. à forma. quando um deles faz referência a elementos existentes no outro. No primeiro caso. 2 Intertextualidade: é a relação que se estabelece entre dois textos. isoladas. como nas citações e referências nos textos técnicos.” Se o leitor não conhece a metalinguagem referente aos conceitos gramaticais da língua portuguesa. é deixado subentendido. o texto contém a indicação da fonte. pois o mundo é recriado no texto através da mediação de nossas crenças. não perceberá o porquê deste professor de língua portuguesa ter sido caracterizado a partir dessa nomenclatura gramatical. é apenas sugerido. regular como um paradigma da 1a conjugação. Assim. Observe a seguinte intertextualidade explícita: Segundo Paulo Freire “ler é um ato revolucionário”. mesmo. estudados isoladamente. Não deu. Acharam um artigo indefinido em sua bagagem. científicos e informativos. Um pleonasmo. ao contrário. Já no caso da intertextualidade implícita. Um texto é sempre decorrente de outros textos. comer. ele não tinha dúvidas: sempre achava um jeito assindético de nos torturar com um aposto. Observe o seguinte texto de Paulo Leminski onde a intertextualidade se realiza de forma implícita: “Meu professor de análise sintática era o tipo do sujeito inexistente. não será capaz de captar a significação implícita que o autor pretende passar. A intertextualidade2 pode ocorrer de maneira explícita ou implícita 3. sejam esses escritos. preposições e conjunções. os operadores argumentativos (até. Foi feliz. causam a impressão de serem semanticamente mais “fortes” do que. enfim. propósitos. parecem ser vazias de significação. Entre uma oração subordinada e um adjunto adverbial. e que este não é jamais uma “cópia” do mundo real. E ela era bitransitiva. isto é. “até”. por exemplo. “para”. todos os vocábulos têm importância para o estabelecimento dos sentidos textuais. aliás. Casou-se com uma regência. 3 Implícito: é algo que está envolvido naquele contexto. 32). Tentou ir para os EUA. postura perante as questões tratadas no texto. E. 45). p. mas. inseridos no texto. ou mesmo à forma ou o conteúdo. ao contrário do que faz sugerir a prática tradicional. Já palavras tais como “mas”. mas que não é revelado. Era possessivo como um pronome. A interjeição do bigode declinava partículas expletivas. adjetivos. Inserido neste contexto intertextual.” (SILVA. conectivos e agente da passiva o tempo todo. 1993). etc) (KOCH. o receptor deverá ter os conhecimentos necessários para recuperá-la. A argumentatividade manifesta-se nos textos por meio de um série de marcas ou pistas que vão orientar os seus enunciados no sentido de determinadas conclusões. palavras como “até”. “mas” e outras podem contribuir para revelar aspectos significativos da entrelinha textual: intenções do autor. verbos. Entre essas marcas encontram-se os tempos verbais. orais. ideologia. o principal predicado da sua vida. que vão determinarlhes a orientação argumentativa. o leitor deve observar que há sempre alguma intenção ou objetivo da parte de quem produz um texto.

ê José Não tem mais construção – ê João Não tem mais brincadeira – ê José Não tem mais confusão – ê João Gilberto Gil 1 Qual a história contada pela letra da música? 2 O que é possível inferir com relação à morte de João e Juliana? 3 Qual a importância do sorvete e da rosa para a construção das inferências acerca do texto? 4 É possível inferir que José matou Juliana e João porque foi traído? . b. 3. foi que ele viu Foi que ele viu Juliana na roda com João Uma rosa e um sorvete na mão Juliana seu sonho. oi girando Oi na roda gigante.Observe as seguintes informações: 1. 2.ê José Outro corpo caído – ê José Seu amigo João – ê José Amanhã não tem feira . O Brasil conquistou apenas 15 medalhas em Atlanta.a. Domingo no parque O rei da brincadeira – ê José O rei da confusão – ê João Um trabalhador na feira – ê José Outro na construção – ê João A semana passada No fim de semana João resolveu não brigar No domingo de tarde Saiu apressado E não foi pra Ribeira jogar Capoeira. Assim. Qual a importância do conhecimento desta abordagem para o usuário da língua? Extrapolar a leitura meramente literal. os leitores podem perceber que os textos não são neutros. As americanas castigaram as brasileiras por 98 a 76. O governador visitou o local da tragédia. Diante de todas essas reflexões. não foi pra lá Pra Ribeira. b. foi namorar O José como sempre no fim de semana Guardou a barraca e sumiu Foi fazer no domingo um passeio no parque Lá perto da boca do rio Foi lá no parque que ele avistou Juliana. parecia gravemente preocupado e disse que faria uma declaração dentro de poucos dias após cuidadoso exame dos fatos. transformando o leitor passivo “mero recipiente de informações” em leitor ativo “disseminador das informações compreendidas”. O leitor que está alerta para este fato. Pontos: EUA: 98.a.a. aquela que considera o texto um mero barril de informações que deve ser esvaziado sem crítica ou interpretação. Brasil: 76. girando – olha a faca Olha o sangue na mão – ê José Juliana no chão . b. __________________________________________________________________________ TAREFA PROPOSTA A letra de música transcrita abaixo deve servir como referência para você responder às perguntas de 1 a 4. oi girando O sorvete é morango – é vermelho E a rosa é vermelha – é vermelha Oi girando. O Brasil conseguiu conquistar 15 medalhas em Atlanta. o processo da leitura deve ser enfocado a partir da interação de todos esses fatores. O governador apenas compareceu ao local. uma ilusão Juliana e o amigo João O espinho da rosa feriu Zé E o sorvete gelou seu coração O sorvete e a rosa – ê José A rosa e o sorvete – ê José Ô dançando no peito – ê José Do José brincalhão – ê José Juliana girando. já está dando um passo na direção da tão importante leitura crítica. para que a compreensão seja realmente alcançada.

Precisamos. Leia o texto abaixo: NO MEIO DO CAMINHO TINHA UMA PEDRA. soletur IBAMA A propaganda acima foi veiculada para a divulgação de um projeto de educação ambiental. o que permite a construção de um terceiro sentido para o texto desencadeador da intertextualidade. Ao estabelecer uma relação de intertextualidade. portanto. Leia o texto original: No meio do caminho No meio do caminho tinha uma pedra Nunca me esquecerei que no meio do tinha uma pedra no meio do caminho caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho tinha uma pedra. a) A propaganda vale-se do discurso da intertextualidade para indicar a poluição das praias. patrocinado pela empresa de turismo Soletur e orientado pelo Ibama. E ATÉ CACOS DE VIDRO. A que o texto faz referência? Transcreva o trecho que estabelece a relação intertextual. b) Qual a imagem recuperada do texto original? c) O sentido atribuído a essa imagem é o mesmo nos dois textos (o original e a propaganda)? Justifique sua resposta. o autor provoca uma interação entre o sentido dos dois textos.. E UMA PONTA DE CIGARRO.. na vida de minhas retinas fatigadas.5. tinha uma pedra no meio do caminho Nunca me esquecerei desse acontecimento no meio do caminho tinha uma pedra. E UMA LATA E UM SACO PLÁSTICO. Carlos Drummond de Andrade . dispor de um conjunto de referências de leitura que permitam a identificação dessas relações. 6.