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. ⁄ .⁄ .

●  ●  , º  ● -



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Experimento interdisciplinar no ensino de arquitetura:
percepção, interpretação e o
projeto de uma (polêmica) alegoria
  *

Resumo ● A importância de experimentar a interdisciplinaridade no ensino para formação de arquitetosurbanistas é o objeto de análise deste artigo. O tema é instigante na medida em que envolve a procura do
“novo” como fonte de investigação e pode surpreender as expectativas nos resultados obtidos. Estabelecer
“conexões” entre os novos conhecimentos que estamos transmitindo e a “realidade” de experiências que
o aluno, ingressante na universidade, traz consigo, tem mostrado eficácia em resolver a dificuldade inicial
de abstração para o aprendizado de conceitos mais complexos, como o de “espaço” ou o de “vazio”. A
experiência do Carnaval inspirou um caminho para responder à questão: por onde e como começar?
Palavras-chave ● Arquitetura e urbanismo. Ensino e aprendizado interdisciplinar. Alegoria do Carnaval
Title ● An Interdisciplinary Experiment in the Teaching of Architecture: Perception, Interpretation, and the
Project of a (Polemic) Allegory
Abstract ● The importance of experimenting interdisciplinarity in the formation of architects-urbanists
is the subject of this article. The theme is challenging in the sense that it involves the search for the ‘new’
as a source of investigation, and it can surprise the expectations concerning the obtained results. The
act of setting up ‘connections’ between the new knowledge we are transmitting and the ‘reality’ of the
experiences the students entering the university brings with him has proved to be efficient in the solving
of an initial difficulty in the learning of more complex concepts, such as ‘space’ or ‘emptiness’. The
Carnival experience inspired an answer to the question: Where and how to start?
Keywords ● Architecture and Urbanism, teaching and interdisciplinary learning, Carnival allegory

. 
O conteúdo deste artigo apresenta um relato e
uma proposta de discussão sobre o que poderia
caracterizar um experimento interdisciplinar de
ensino, ocorrido em 2006, mais precisamente em
uma das disciplinas que compõem o currículo do
curso de Arquitetura e Urbanismo da USJT: Projeto de Arquitetura 1 (Proja-1), desenvolvido para
alunos recém ingressados naquele ano.
O universo desconhecido do “outro que chega” é sempre um mistério a ser desvendado no
relacionamento de um cotidiano que desafia o
professor, porque a questão a ser resolvida não
está na existência, a priori, de uma ementa da dis-

Data de recebimento: 13/06/2008.
Data de aceitação: 27/06/2008.
* Doutor pela FAU-USP, professor-pesquisador no Programa
de Pós-Graduação Stricto Sensu em Arquitetura e Urbanismo
(mestrado) da USJT. Linha de pesquisa: Percepção e Representação
do Espaço Habitado.
E-mail: prof.lipai@usjt.br.

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ciplina que expressa um desejo e uma intenção
teórica de obtenção de resultados; ou de um roteiro programado de conteúdos que vão sendo
ministrados na tentativa de construir conhecimentos, mas sim em como estes conhecimentos
vão se somar ou se situar ao lado de conteúdos e
conhecimentos de outras disciplinas que estarão
sendo ministradas horizontal e simultaneamente.
O aprofundamento do conteúdo ministrado
(conceitos teóricos e sua aplicação numa prática)
vai sendo construído no fazer das aulas com diferentes graus de complexidade variando em função do tempo disponível, sempre muito restrito
para todos. A estrutura desses conteúdos deve
perpassar os domínios das ciências exatas, sociais
e humanas através de suas três grandes vertentes:
a ciência, a técnica e a arte. E uma visão mais simplista da questão poderia definir esta formação
como de caráter multidisciplinar com algum grau
de complexidade na elaboração de um currículo
que permita abranger as três vertentes inicialmente apresentadas.

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Uma enquete inicial realizada como forma de aproximação e de conhecimento desse universo arquitetura 2. Esta informação instaurou um alerta quanto a um diferencial que deveria ser considerado no processo de ensino e confirmou a constatação de que não há turmas iguais a cada ano e que uma ementa. invariavelmente. tipologias de exercícios de projeto devem conter flexibilidade de mudanças. Mas as grandes dificuldades concentram-se em compreender e trabalhar com conceitos que exijam um grau mais aprofundado de abstração. desenho. Estes problemas referem-se com frequência a conceitos elementares de geometria. A tendência para esse tipo de procedimento é a construção. não ocorre como um processo simples e. para amadurecer como método. A principal característica desse momento é o ingresso de grande número de alunos muito jovens. como os de espaço e de vazio. em seguida. que estes espaços possam ser habitados não somente como um confortável abrigo utilitário (obrigatório). São Paulo). submetidas a um vestibular não mais seletivo e que pressupõe.indd 214  ● Ensino de Arquitetura tem mostrado sistematicamente que a maioria desses alunos lê pouco. mas que sejam percebidos por meio da emoção captada com a sensação produzida pela dimensão simbólica sempre recorrente. e em diferentes graus de complexidade no transcorrer do curso como um todo. a ausência de repertório não somente de linguagem. no qual se torna difícil estabelecer interações através de conexões que poderiam gerar produção de conhecimento novo. neste início de ano (2006). A síntese interdisciplinar2 proposta como essência do desenvolvimento do TFG. demonstram alto grau de imaturidade para enfrentamento de uma postura responsável e consciente do ambiente universitário. ainda. entretanto. de um conhecimento fragmentado. um programa. pelo desenho e finalmente materializados quando fisicamente construídos! Uma vez construídos. além de diferentes graus de conhecimento e de experiências de vida. seja cultural ou da arquitetura da cidade (neste caso. considerando que em anos anteriores este percentual era irrisório. os alunos apresentam. assimiladas com alguma profundidade. por sua vez. um universo muito heterogêneo no perfil dos alunos que chegam à universidade. sem interação – característica comum de uma grande parte dos currículos aplicados em cursos de Arquitetura – significa um numeroso elenco de disciplinas que não cumpre seu objetivo pelo fato de essas matérias estruturarem-se em ementas teóricas estanques. mas de vivências do contexto que habitam. no papel. deve estar presente para os alunos desde o 1º ano. Outra característica detectada com frequência é que. Essa parece ser a prática corrente que caracteriza a maioria dos cursos superiores de uma forma geral e os de Arquitetura e Urbanismo não são exceção. recém-saídos do Ensino Médio (grande parte sem ter passado por algum curso preparatório para vestibulares)3. um método ou. que já deveriam estar resolvidos pelo Ensino Médio. que se configura mal estruturada e mostra. a enquete mostrou ainda. essências de uma das definições do que seja arquitetura e que. de antemão. matemática simples. porém da qual nem sempre o arquiteto que os 20/5/2009 15:39:21 . proporcionam a liberdade de projetar para atingir o grande objetivo do aprendizado e da formação de um arquiteto-urbanista: materializar fisicamente os espaços idealizados na mente. pelos alunos. criam autonomia em sua aplicação e apresentam-se como barreira às necessárias conexões que conduziriam às salutares sínteses por parte dos alunos. entre outros. que aproximadamente 37% dos alunos fizeram curso preparatório para vestibular! Um dado importante. na prática. estrutura da nossa língua. Um reflexo desta estrutura fica extremamente claro quando os alunos atingem o último ano e encontram-se diante da grande síntese interdisciplinar representada pelo Trabalho Final de Graduação (TFG) para Arquitetura1 e Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) para os demais cursos. atualização e ajustes às realidades de cada ano letivo. A visão interdisciplinar tem seu início crítico exatamente no momento em que novas turmas são recebidas no curso. problemas significativos com a representação e a expressão de conteúdos de aprendizado pelas diferentes linguagens da escrita e do desenho. e este aspecto fica muito presente em sua escrita. Referimo-nos a conteúdos abrangentemente vagos na teoria de apresentação da ementa e que.214  Multidisciplinaridade.

   A partir desse panorama. também presença obrigatória.⁄ .indd 215 215 melhor o universo dos alunos recém-chegados quanto aos conhecimentos que já possuíam e que poderiam indicar caminhos mais adequados. vislumbradas por sistemas de representação por meio do desenho. os novos alunos são estimulados a observar. que por natureza procura discutir e ensaiar conceitos de percepção. num segundo estágio. mas como fazê-lo? Essa foi a questão que se apresentou para os professores que ministraram a disciplina Projeto de Arquitetura 1. ●  ●  . ensino de massa”. . o tempo. paladar e equilíbrio cinestésico)7. ao final das jornadas. procura desenvolver e aprofundar a visão espacial necessária à formação de experiência projetiva do arquiteto.. A consciência da quarta dimensão. Esta dimensão. olfato. diria o senso comum. em substituição ao antigo e polêmico trote. concepção e representação do espaço habitado. . em 20064. Retornando à questão inicialmente formulada. Neste caso. porque traz em seu bojo a carga de relações intersubjetivas inerentes a qualquer atividade humana de interação com o espaço habitado. Trata-se de um acontecimento inesperado. prepara repertório a ser trabalhado 20/5/2009 15:39:21 . Inicialmente a ênfase na apresentação destes conceitos estrutura-se em sínteses de conhecimentos múltiplos extraídos do imaginário acumulado pelas experiências do aluno. ou seja. Estes instrumentos consolidam conhecimentos quando se materializam pela aplicação de processos construtivos e pelo uso de materiais na construção de espaços que permitem sua utilização em escala real como ocorre. a questão que se impõe é por onde começar? Começar pelo começo. perceber. ou. na experiência de produção de um espaço habitacional em forma de mock-up5. da fotografia. noutro extremo. mas que a prática mostrava que não estavam! Há uma prática de recepção do aluno-calouro que já se vem consolidando. ⁄ . é a dimensão simbólica de um espaço que sintetiza a essência principal do que seja projetar ambientes e seu significado para a arquitetura. no curso de Arquitetura e que favorece esta investigação inicial: na primeira semana de início das aulas alunos veteranos e alguns professores organizam o evento de recepção chamado de Jornadas Culturais. eles avaliam e discutem os resultados em sala de aula. tato. e. Visão espacial que se consolida com experimentos sugeridos pelas formas oriundas da geometria. e ensaia-se o conhecimento do filtro da realidade pelos nossos seis sentidos (visão. os conteúdos elementares demais poderiam ser desmotivadores. Em resumo. audição. Iniciar sem conhecer estes dados poderia provocar bloqueios inibidores por complexidade de conteúdos ministrados. que cria impacto pela surpresa que causa nos alunos ao serem convidados a criar material para uso em experimentos espontâneos em espaços públicos durante as jornadas de visitas a lugares da cidade. surgiu para os professores da disciplina a necessidade de investigar arquitetura 2. oficinas de expressão e pela pesquisa para elaboração de textos. visando o aprimoramento da percepção por meio da consciência do uso dos sentidos e da construção de significados pelo desenvolvimento da visão espacial tão necessária à formação do arquiteto. ano após ano. de modelos reduzidos (maquetes). capturar pelo desenho e pela fotografia a arquitetura e a vida da cidade de São Paulo6. a do “por onde e como começar”. A imaginação e a criatividade são exercitadas com o método de observação de fenômenos da realidade que o cerca. O caminho inicial sugeriu investigar quais habilidades e competências já estariam presentes nos grupos e quais ainda requeriam uma revisão de conceitos que “teoricamente” já deveriam estar incorporados no Ensino Médio.    Inicia-se a discussão de conceitos de percepção de espaço. º  ● -  projetou está consciente. constitui o grande desafio de todos os professores envolvidos na construção de conteúdos do currículo como um todo. Cabe lembrar que estamos discutindo aspectos que requerem uma visão mais atenta para a escala de ensino que se apresenta como “ensino para um grande número de alunos. . Acompanhados por veteranos e alguns professores.

durante apenas 60 minutos! Estudado por sociólogos. Nossa procura de conexões com a realidade dos alunos era fundamental e conduziu-nos ao assunto (Carnaval). satisfazer a sexta dimensão. características de um fenômeno social ímpar! No caso brasileiro. no projeto de maior alcance. planejamento. cineastas. mais atento e curioso. filósofos e por que não?. antropólogos. que oferecem suporte para que a quarta dimensão. quase impossível. de um esforço coletivo perfeito de motivação – de. o tema da alegoria. nem à platéia presente que assiste a tudo. nem ao público que acompanha pela 20/5/2009 15:39:21 . . assim. projeto. sempre possível a cada 365 dias. na quarta dimensão. materializado em infinitas imagens e sons para. atue com possibilidades plenas de liberdade para viabilizar a quinta dimensão. pode ser considerado um exemplo de experiência completa que está além do caráter interdisciplinar do primeiro momento. produção. Os temas nesse início têm sempre o caráter experimental e conduzem os alunos a vivenciar sensações ligadas a questões do dia-a-dia. por agregar pessoas de diferentes níveis sociais. é sempre um sucesso. projeto e execução de “sonhos”. para. após a recepção das Jornadas Culturais. a disciplina desenvolvia pequenos exercícios básicos de preparação para esse tema maior como tentativa de suprir necessidades de repertório imediato de linguagem e representação pelo desenho. estabelecer “conexões” entre os novos conhecimentos que estamos transmitindo e a “realidade” de experiências que o aluno traz. por arquitetos-urbanistas.      O fenômeno do Carnaval constitui um projeto perfeito que pode ser compreendido e explicado por meio da presença de. pelo menos. Nos anos anteriores. diferentes níveis de interesse e objetivos pessoais. psicólogos. pelos resultados que obtém como produto. ser apresentado como produto de uma experiência que simboliza um sonho coletivo.indd 216  ● Ensino de Arquitetura idealização. que se realiza. estes fatores são impressionantemente neutralizados pela contribuição voluntária e a dedicação de cada participante. que é o desejo de realização psicológica tanto social quanto pessoal de cada indivíduo presente na experiência. o fenômeno “Carnaval” apresenta-se como exemplar amostra de uma superprodução em escala interdisciplinar. espera-se. que passa a ser incorporado na produção e expressão de linguagens de projeto. tem mostrado eficácia em resolver a dificuldade inicial de abstração para aprendizados mais complexos. entretanto. houve uma interrupção das aulas no período letivo para a comemoração do Carnaval. Este indivíduo presente constitui um coletivo social que não se resume ao figurante que participa do desfile. com diferentes tempos de duração.    O Carnaval. envolvendo a compreensão de um conceito mais complexo: o de partido arquitetônico8. por fim. excetuando o viés do risco de fracasso (como em qualquer empreendimento humano). no mínimo. concepção. trabalhado pelos professores nas avaliações coletivas com a classe ao término de cada exercício. criatividade. finalmente. para serem experimentados uma única vez. surgindo. aliado à junção de imaginação. escritores. aprimorando um “novo olhar”.216  mais à frente. Imbuídos de uma sinergia total. ensaio. Naquele ano (2006). durante 60 minutos. que é o tempo regulamentar de percurso para apresentação. administração. ainda muito presente no reinício das aulas como um fato de realidade próxima de todos. que será suporte para entendimento do exercício mais denso: a concepção de um espaço habitacional. Nessa etapa inicial. em princípio. Quase uma utopia. apesar de alterado em seu espírito original. seus trabalhos devem estar concluídos em 364 dias. a cultura. tornou-se um evento fortemente incorporado à cultura nacional e assumiu. planejamento. a existência de conflitos. organização.000 componentes –. que. ao longo de sua história. arquitetura 2. podendo ser interpretado como um experimento de síntese transdisciplinar! . 3. o tempo. que se desenvolve ao longo de fases intensas. ou não. seis dimensões do “pensar um projeto”: as três primeiras dimensões da construção geométrica do espaço físico pelos sistemas construtivos e materiais. que inspira a pesquisa e a produção do tema-enredo construtor da alegoria.

A dúvida primeira de um professor talvez devesse ser: os alunos estarão compreendendo o significado das palavras do vocabulário que estou utilizando? • o atuar em equipe: outro aspecto importante para o processo ocorre pela livre escolha de colegas para formarem equipes de 6 alunos. prosseguindo com o processo de integração desejável. aplicado a um exercício de “aquecimento” preparatório para a introdução do conceito de partido a ser adotado para idealizar um projeto. O tema da “Alegoria de Carnaval” mostrou-se. procurando mostrar aos alunos que “o pensar projeto” está presente em qualquer situação que exija o planejamento de uma ação que procurará soluções criativas para qualquer que seja o problema apresentado. simultaneamente.. constatou-se que a não compreensão de um conceito que está sendo ensinado pode estar ligada ao desconhecimento do significado das palavras. entre os principais condicionantes). ideal para ensaiar a interdisciplinaridade no entendimento do significado e da importância do termo “partido de um projeto”. naquele momento. Em termos didáticos. Foram considerados subsídios da realidade 20/5/2009 15:39:21 . ressaltando aspectos de projeto que deveriam ser considerados. que em outras circunstâncias pode demorar mais tempo para acontecer.⁄ . considerado um ótimo instrumento de observação da realidade. o significado da forma. o sistema construtivo e os materiais. considerou: • o significado das palavras: compreendido o significado de Alegoria (definido em conjunto: pelos alunos e no dicionário que faz parte da bibliografia básica)9. realizar reflexões sobre um fato da vivência cotidiana dos alunos auxilia-nos a “desmontar” preconceitos e tornar consciente a necessidade de planejar e arquitetura 2. Arriscaremos defini-lo como uma experiência vivenciada. ●  ●  . os custos. o clima. mas a um conjunto de participantes que pode atingir uma escala planetária. lembrando que neste momento eles eram recém-chegados ao ambiente universitário.indd 217 217 projetar em qualquer situação que envolva o conceito de espaço (abstrato para um primeiranista). iniciou-se o processo para idealização do tema que orientaria a produção total. quase estranhos uns aos outros e necessitando integrarem-se para trabalhar em conjunto! Foi uma forma de consolidar o trabalho iniciado pelo corpo de professores nas Jornadas Culturais dos primeiros dias de aula. • o programa para conceituar o projeto deveria inspirar-se nos mesmos critérios utilizados para julgamento das escolas que se apresentam no Carnaval (reduzidos a apenas alguns itens extraídos do total de 9 quesitos)11. transdisciplinarmente. º  ● -  televisão. o conteúdo simbólico e a estética. Um trecho de filme extraído do desfile de Carnaval daquele ano foi mostrado com a apresentação de uma escola de samba. O tema previa que o aluno utilizasse a metodologia apresentada para aplicá-la na concepção de uma “Alegoria de Carnaval” e percebesse a complexidade de atividades de projeto e de diferentes conhecimentos necessários para viabilizar uma proposta como esta. os significados de partido e condicionantes do partido. discutida e defendida para a equipe decidir por uma delas10. Traçamos um paralelo entre partido de projeto para a Alegoria e partido de projeto para a Arquitetura ao estudar um espaço habitacional mostrando pontos em comum relacionados com a concepção de espaços para ambos os propósitos. Foram discutidos e comparados. • o contato inicial com o tema teve como referência o cinema. Iniciou com a discussão do conceito de “partido de projeto” (um conceito inicial bastante abstrato para os alunos). o lugar. porém. ⁄ . introdutório para a discussão do significado de “partido arquitetônico” em arquitetura. “Alegoria de Carnaval”. Cada membro da equipe deveria “dar asas à imaginação” e propor sua idéia a ser apresentada. Compreender este conceito de projeto pressupôs a necessidade de discutir um método para pensar um projeto. O tema proposto. tanto para a alegoria quanto para o espaço habitacional (o programa. de felicidade coletiva! Qual seria uma forma de aplicar a análise desse modelo ao ensino de projeto em arquitetura? O diferencial apresentado pelas turmas de estudantes estimulou a proposta desse tema.

entre outros). exigiram dos alunos algum cálculo aritmético e conceitos simples de geometria para que elas fossem distribuídas em cada ala. desenvolvimento preliminar de estudos e croquis. texto de pesquisas. para dar significado às formas utilizadas no projeto. mulheres e a cultura japonesa). no período de 60 min. ou. divididas pelas alas. no formato A-3. usando mais a intuição que o conhecimento a respeito. e a alegoria assume apenas um papel circunstancial no processo. do esoterismo. os títulos das alegorias apontaram também para diversidade de repertórios e de imaginário dos grupos (os mistérios e o exotismo do Egito. 2. o tempo (quarta dimensão): deveriam ter incorporado como consciência de que tudo deve acontecer. Este caderno contém peças gráficas de representação da idéia e do projeto e não limitava. sob o risco de a escola perder classificação! (Este tópico era um condicionante apenas “virtual” de projeto). o espaço físico deveria considerar as características do contexto do Sambódromo (escala.. influenciando na proposta dos materiais. as Copas do Mundo. sistemas construtivos. Implantação geral no espaço físico do percurso (planta ensaiando proporções em escala reduzida) com indicação do conjunto de todos os setores que compunham o enredo em sequência lógica. das 7 maravilhas do mundo antigo. circunstâncias de o desfile ocorrer à noite ou de dia. o número mínimo de pessoas: 3. a pesquisa da forma e do conteúdo simbólico da Alegoria efetuada por meio de pesquisa histórica para definir os temas a serem desenvolvidos pelas equipes (a exemplo de Mitologia grega. o clima e a possibilidade de chuva (quase sempre chove!). fornecido pelos professores. a qualidade da luz. entre outros itens. Adoniran Barbosa. E ele é apresentado para a avaliação dos professores. poderiam ocupar a largura e a extensão da avenida. que. uso das cores. Egito. 218 • • • • • arquitetura 2. Ficou patente para os alunos a diferença de qualidade no resultado final dos projetos apresentados por equipes que dedicaram tempo maior à pesquisa inicial do tema antes de iniciar o  ● Ensino de Arquitetura projeto (caso dos que trabalharam com o tema de Adoniran Barbosa). mas já conscientes do processo.000 (pelo regulamento). dimensões. registrou todo o processo desde o início. para criar o hábito de documentar todas as atividades discutidas em sala de aula: conceitos. Copas do Mundo. A pesquisa. As 7 maravilhas do mundo antigo. disposição da platéia em termos de posição e visibilidade). como em Os 7 Pecados Capitais. ao lado de realidades mais próximas como a política. As 7 Maravilhas do Mundo Antigo. O estado de Pernambuco. temperatura ambiental. um item problemático do repertório!) (Figura 1). para que se dimensionasse a formatação dos blocos. teoricamente. na evolução. A cidade de São Paulo. definições. São Tomé cidade mística. • sistemas construtivos e materiais: nem todas. a vida da cidade de São Paulo e a música de Adoniran Barbosa. um caderno memória do projeto.indd 218 do projeto apenas os quesitos que tinham relação direta com os principais conceitos que permitiam estabelecer comparações e referências entre a experiência de projeto em arquitetura e uma experiência para um projeto qualquer extraído da realidade dos alunos. pois era preciso contar uma história (cada carro deveria 20/5/2009 15:39:21 . mas várias equipes chegaram a propor materiais e alguns sistemas construtivos quando projetaram o “carro alegórico”. mas minimizava o conteúdo para: 1. produção final de projetos. Os 7 pecados capitais. A sinopse (memorial descritivo) justificando a escolha do tema e das características gerais de seu desenvolvimento e o registro de conteúdo de pesquisa realizada para alimentar a idealização do tema (com o objetivo de fazê-los utilizar a linguagem escrita. em alguns casos conduziu a preocupações com o simbolismo das cores. O produto final. considerando o limite de pessoas que. São Tomé das Letras.

das cores que caracterizariam as respectivas alas) (Figura 2).. materiais. com descrição de número de carros. apesar de discutido. elevações em escala ampliada). Modelo reduzido (maquete) do carro projetado. do jeito que soubessem fazer (Figura 3. procurando mostrar dimensões. ainda precário para a maioria dos alunos. Implantação geral do conjunto na extensão do “sambódromo”. porém.1 e Figura 3. com preferência pela visualização da idéia por meio de uma perspectiva.⁄ . características de uso de formas. de pessoas por bloco. o uso de materiais básicos para execução de maquetes com diferentes tipos de papéis. purpurinas. de temas de desenvolvimento do enredo.2). questionável (mas inevitável neste momento) quanto à forma. zando a linguagem do desenho técnico. ●  ●  . a) Pesquisa para o tema “Mitologia grega” representar um símbolo da narrativa do enredo da alegoria com especificações descritivas de conceitos das fantasias. ⁄ . etc. elementos de sucatas de embalagens.1. 4.indd 219 20/5/2009 15:39:22 . º  ● -  Figura 1.. Linguagem de representação: a) em planta e elevações de um carro alegórico e b) modelo reduzido (maquete) para o tema das “Copas do Mundo” arquitetura 2. de blocos. em aula. apresentaram na produção inicial um repertório de representação e linguagem Figura 2. Ocorreu o uso de materiais inadequados para expressar um trabalho de arquitetura de nível universitário: papéis brilhantes. fruto de modelos utilizados no Ensino Fundamental e que no decorrer do tempo Figura 3. Projeto de um dos carros alegóricos (planta. cores e resultado simbólico da proposta. utili- 219 b) Memorial descritivo/Sinopse da proposta do tema “Política” volumetria. 3. os alunos. conteúdo simbólico.

. Figura 4.2. de início. representado pela linguagem do desenho e b) Modelo reduzido (maquete) de materialização do estudo e “caderno memória do projeto” devem ser alterados pelo contato com outras referências mais adequadas como meios de representação e linguagem (Figura 4. quando nas assessorias percebeu-se que havia grande entusiasmo nas atividades. tanto para os professores quanto para os alunos. a) Estudo de volumetria resultante da forma do carro alegórico para o tema de “Adoniran”. Desenhos e modelos reduzidos (maquetes) de alguns temas apresentados com problemas de inadequação de linguagens no uso de materiais (detectados para serem trabalhados com base no experimento) arquitetura 2. b) Modelo reduzido (maquete) de materialização do estudo. superando de longe as expectativas iniciais quanto aos resultados. que surpreendeu. que iniciam com poucas noções da linguagem do desenho e do modelo.   Um tema que representou. a) Estudo de volumetria resultante da forma do carro alegórico para o tema da “Política”. era a primeira vez que se introduzia esse assunto.2.indd 220 20/5/2009 15:39:25 . afinal. A presença de um domínio de repertório já desenvolvido torna-se uma referência natural de aprendizado para a maioria dos alunos.1 e Figura 4. 220  ● Ensino de Arquitetura Figura 3.2). representado pela linguagem do desenho.1. apenas uma circunstância de ilustração para um método de pensar o partido para um projeto foi assimilado com tal profundidade pelos alunos. Mitologia Grega O estado de Pernambuco Egito Figura 4. e “o risco” em relação à motivação pelo tema logo se desfez.

o solicitado era apenas que descrevessem características simbólicas. uma vez que o objetivo era apenas aplicar arquitetura 2. que neste estágio de imaturidade também se constituem um problema difícil para o professor. a maquete. A experiência descrita resume uma possibilidade de investigação de um tema (polêmico) e do potencial de uma classe de alunos que foi limitada a apenas uma disciplina (Proja-1). ●  ●  . entretanto. Uma proposta mais completa de visão interdisciplinar pode. Enquanto esperávamos apenas ensaiar conceitos de percepção. aplicado a uma ação concreta: intervenção em elementos de uma realidade como forma de ensaiar o conceito de partido arquitetônico de um projeto. os alunos foram além. Estes. a verbalização na apresentação do projeto para a classe). significados do uso de cores. iniciando a compreensão do método proposto. motivando a necessidade de busca de sensações mais completas para o resultado dos projetos (Figura 5). As equipes dispuseram-se voluntariamente a projetar figurinos completos para as “fantasias” ou. imaginação e criatividade que pudessem ser traduzidos em desenhos de representação e expressão gráfica. A intuição do processo sugeriu ousar na proposta do tema. complementadas pelas discussões 221 levantadas durante as avaliações coletivas com os professores. ⁄ . culminam com desistências ao longo do curso. porém. despertado também nos alunos de outros anos. A sua importância é. O exercício permitiu que os alunos ensaiassem “o imaginário” em diferentes formas de linguagens de expressão e representação do espaço (a pesquisa de conteúdo histórico em bibliotecas físicas ou virtuais.⁄ . em conhecer os resultados obtidos com o tema (apareciam para acompanhar as avaliações coletivas!). como forma de desenvolvimento de linguagens e repertório básico. Poderia Figura 5. Foram atividades extras que espontaneamente geraram produtos além do que foi solicitado. por envolver a disponibilidade de tempo e a vontade do corpo docente como um todo. A dificuldade de uma proposta desse teor na prática é quase intransponível. o desenho. O aprimoramento do processo de integração de conhecimentos permite que os ensaios de sínteses parciais tornem-se mais complexos quando realizados transversalmente como diálogos tanto horizontais quanto verticais. acreditando em sua qualidade de estímulo motivador. sem o enorme dispêndio de energia pela grande sobrecarga de trabalhos individualizados. Observou-se por ocasião das avaliações gerais com a classe o interesse. desenvolvidos para os temas “A cidade de São Paulo” e “São Tomé das Letras – cidade mística”. em alguns casos. º  ● -  Questões de disciplina. ficou caracterizado o quanto o tema estimulou a imaginação.indd 221 20/5/2009 15:39:26 .. foram atenuados com o desenvolvimento do trabalho. a escrita. materiais ou formas. inegável quando permite objetivamente estabelecer oportunidades de sínteses mais profundas pelo corpo discente. compuseram criativos versos para representar o “samba-enredo” da Alegoria proposta. considerando o patamar diferenciado em que esta turma se apresentava. ser sugerida por meio do diálogo horizontal entre professores que compõem o elenco de disciplinas em cada ano do curso. Ao final do experimento. ainda. além de não ultrapassarem o estágio de anteprojeto preliminar. As experiências de aprendizado quanto ao trabalho em equipe também contribuíram para disseminar diferentes habilidades e competências trazidas ou desenvolvidas durante o fazer entre todos os alunos. Trechos de alguns sambas-enredo. incluindo um estandarte. Existiu desde o início um potencial nos alunos que nos estimulou a investir com maior profundidade.

5. Os 7 pecados capitais • 2. Allegoria): 1. Obra de pintura ou escultura que representa uma idéia abstrata por meio de formas que a tornam compreensível. quase sempre com determinada intenção plástica. Gilberto Machado Rizzi. para atender a necessidades imediatas ou a expectativas programadas por aquilo que chamamos de partido. sim. o processo revelou caminhos que foram acelerados diferentemente das formas tradicionais. O que é arquitetura. 2. não há “certezas absolutas” de propostas e resultados. BASARAB. 2 Em nossa concepção. A cidade de São Paulo • 11. Educação possui o caráter transdisciplinar em sua essência. contidos nas dimensões limites de 4. por sua vez. no labirinto. e talvez a busca dessa essência seja o caminho desafiador do novo. 10 São estes os temas das alegorias surgidos espontaneamente das equipes: • 1. Esta interação pode abrir caminhos que vão além e poderá atingir níveis de transdisciplinaridade. Mitologia grega • 12. Política • 4. Notas 1 Antigo Trabalho de Graduação Interdisciplinar (TGI). mas algumas certezas podem surgir com maior clareza e intensidade quando nos dispomos a experimentar o novo! Referências bibliográficas COSTA. Como conclusão final. nome que consideramos mais apropriado. Sequência de metáforas que significam uma coisa nas palavras e outra no sentido. 2003): conceituado a partir da definição de arquitetura como “qualquer intervenção no meio ambiente criando novos espaços. 7 Normalmente há surpresa dos alunos quando se fala em seis sentidos. criado inicialmente pelo arquiteto e professor Hélio de Queiroz Duarte. sabemos que.0 x 4. os alunos o constroem em escala real (1:1). Egito • 6. 3. 8 O conceito de partido arquitetônico. envolve a referida interação. percebido pelo ouvido interno. por volta de 1971. Partido seria uma consequência formal derivada de uma série de condicionantes ou determinantes. uma vez que aprenderam no ensino médio que são cinco os sentidos. aferindo e aprofundando a relação de transferência da intenção idealizada no desenho para o espaço construído. 3 Cabe aqui um esclarecimento: não se está defendendo a existência e utilidade dos cursinhos. São Tomé das Letras (cidade mística) • 3. Arquitetura. segundo o arquitetourbanista Lúcio Costa (citado em LEMOS. alguns dos significados de “alegoria”: (grego. e que referencia a posição de nosso corpo no espaço. em processos de ensino e aprendizado. A consciência deste sentido é importante no desenvolvimento da visão espacial. quando participou da estruturação do TGI. O estado de Pernambuco • 9. Após o projeto desenvolvido em desenhos e maquetes. L. Exposição de um pensamento sob forma figurada. Está sendo introduzido a eles o “quase desconhecido” sentido de equilíbrio. C. LEMOS. 4 O autor deste texto juntamente com o prof. Simbolismo concreto que abrange o conjunto de toda uma narrativa ou quadro. São Paulo: Brasiliense. 9 Eis. higiene. Mulheres • 13. em forma de “mock-up” (protótipo utilizando madeira e placas de papel corrugado). a Avenida Paulista e o bairro da Luz. 4. trabalho/estudo (eventual). Nicoleus. 2003. 1999. habilidade e competência. seria o resultado físico da intervenção sugerida”. porém. multidisciplinaridade não envolve necessariamente interação entre disciplinas. o bairro de Higienópolis. Misticismo e esoterismo • 10. No produto gerado pelas equipes ficou configurada a eficiência do trabalho em grupo. como coordenador do 5º ano na FAU-USP. em razão da contribuição de cada membro com o que possuía de melhor em conhecimento. Manifesto da transdisciplinaridade. lazer.indd 222  ● Ensino de Arquitetura necessários para a realização de todas as atividades que caracterizam as funções principais do “habitar”: repousar. que permite experienciar sensações reais do uso do espaço projetado. 6 São programadas visitas com os alunos durante três dias a áreas emblemáticas na configuração da cidade: o Centro antigo e expandido.0 metros. de acordo com Aurélio Buarque de Hollanda. Rio de Janeiro: José Olympio. que levariam um tempo maior para emergir. um conceito ainda recente e não desgastado como outros em uso no discurso acadêmico. 5 Espaço Habitacional – proposta para exercício de projeto de uma habitação mínima que deve conter espaços arquitetura 2. que seriam desnecessários se o Ensino Médio cumprisse seu papel formador para o ingresso na universidade. Adoniran (Adoniran Barbosa) • 7. A partir deste ponto. o projeto da Alegoria de Carnaval foi circunstancial e adequado para aquele momento. Ficção que representa uma coisa para dar idéia de outra. A cultura japonesa 20/5/2009 15:39:27 . A confirmação do experimento na prática refletiu-se na resposta da classe. O termo TFG atual surgiu com a Portaria 1770/94 do MEC.222  ter sido utilizado qualquer outro fato da vivência dos alunos. 2006. Allegoría. As 7 maravilhas do mundo antigo e os 7 pecados capitais • 8. São Paulo: Triom. Copas do mundo • 5. interdisciplinaridade.0 x 4. latim. alimentar.

⁄ . Folclore maranhense 11 Os quesitos foram extraídos de consulta ao regulamento utilizado em São Paulo. 20/5/2009 15:39:27 . evolução. bateria. ⁄ . que adota 9 quesitos. A diferença refere-se somente ao quesito sambaenredo. diferentemente do Rio de Janeiro. ●  ●  . enredo. Os 9 quesitos usados em São Paulo são: comissão de frente. fantasia e alegoria (Fonte: Agência Estado: 09/12/2007). que conta com 10 (Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (Liesa). que no Rio de Janeiro subdivide-se em letra e arquitetura 2.indd 223 223 melodia. º  ● -  • 14.. sambaenredo. harmonia. mestre-sala e porta-bandeira.

indd 224   ● Ensino de Arquitetura 20/5/2009 15:39:27 .224 arquitetura 2.