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Francesco Alberoni

O Erotismo

CÍRCULO DO LIVRO

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Círculo do Livro S.A.
Caixa postal 7413
01051 São Paulo, Brasil

Edição integral
Título do original: “L’erotismo”
Copyright © 1986 Garzanti Editore s.p.a.
Tradução: Élia Edel
Capa: detalhe do óleo “Vênus, Cupido, Loucura e Tempo”, de
Bronzino — National Gallery, Londres.
Licença editorial para o Círculo do Livro
por cortesia da Editora Rocco Ltda.
Venda permitida apenas aos sócios do Círculo
Composto pela Linoart Ltda.
Impresso e encadernado pelo Círculo do Livro S.A.
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89 91 92 90 88

PDF original (jpg): Wilker
Ocerização: The Flash
Formatação e Correção: LAVRo

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Sumário
As diferenças ................................ 5
O sonho da mulher ..................... 17
O sonho do homem ...................... 47
Promiscuidade ............................ 89
Objetos de amor ........................ 118
Contradições ............................. 166
Convergências ........................... 189

 5  As diferenças .

havia demonstrado que as mulheres possuem uma sensibilidade tátil muito mais apurada que a dos homens 3. Essa ideia emerge quando observamos com atenção uma banca de jornais 1. afirmava que as mulheres possuem um extraordinário erotismo cutâneo. as revistas eróticas como Playboy e Penthouse. John Money defendera a tese de que as revistas True Confessions e True Love constituem a verdadeira pornografia feminina. 1983. Londres. Contemporary sexual behaviour: critical issues in 1970’s. desprezo e até de irritação. as sex shops. 3 Francis Galton: “The relative sensibility of men and women at the nape of the neck ’’. Já no século passado. entretanto. 1973. 6  1 O erotismo se apresenta sob o signo da diferença. São publicações que as mulheres não compram. O setor do erotismo feminino se estende também às revistas que trazem o “Correio sentimental”. Ao lado. autora de Endless rapture. O imaginário feminino cria outros mitos. Nas ruas das cidades da Itália existem bancas onde se vendem jornais. pelos perfumes. os livros pornográficos da Olympia Press. Ainda mais à vista. as histórias amorosas dos artistas. encontramos a pornografia hard-core. Retomando 1 O exemplo foi tirado da experiência italiana. alimenta-se de outras imagens e de outros acontecimentos fantásticos. colunas sociais O interesse das mulheres pelos cremes de beleza.. peles. revistas e livros. 4 Havelock Ellis: Sex and the marriage. e Money J. 2 Helen Hazel. de ginástica. A literatura água-com-açúcar. Nova York. um pouco mais visíveis. Não são difundidas. Do lado oposto da banca encontramos as publicações compradas e lidas exclusivamente por mulheres 2.. exagerada e misteriosa. Charles Scribner’s Sons. Sir Francis Galton. É o canto dedicado ao erotismo masculino. Greentvood Press. sedas. Uma diferença dramática. . Antes dela. Nature. os romances da editora Harlequin. seções de moda. tem um significado mais erótico que social. um pouco isolada e meio escondida. 1894. em seus estudos 4. Baltimore. de decoração. de Liala ou de Cartland. os livros dos Dellys da vida. Havelock Ellis. The John Hopkins University Press. de beleza. Rape romance e Female imagination. violenta. ver “Pornography in the home” in Zubin J. um primo de Darwin. 1977. Em um canto. não olham e com relação às quais experimentam um certo sentimento de desconforto.

auditivo. à música. apenas. do domínio masculino. as roupas íntimas delicadas. em seu conjunto. 1981. Mas nunca se ocuparam com a pele. propõem receitas sobre como superar esse provisório estado de coisas e como eliminar as diferenças que ainda persistem. Por isso se ocupa com o corpo. à nele. a pele. Beatrice Faust defende a tese de que os perfumes. livre de sentimentos. As indústrias cosméticas. mais tátil. fornecem-lhe os produtos. o erotismo masculino é mais visual. eroticamente. quer saber dos resultados finais e se imagina independente. aos sons. A mulher. na vida social é ativo. com suas loções. Esforçam-se. que são homens. as nádegas. Penguin Books. Nova York. fechada em casa. ao contato 6. Fawcett Comumbine. em demonstrar seu absurdo. são muito mais sensíveis ao ritmo. . não as levam a sério. Nova York. Ver também Susan Brownmiller: Feminity. Resumindo. Faz apenas algumas décadas que o relacionamento entre os dois sexos começou a mudar. espumas para banho. Hoje. fraca. Ibidem. empenhado em seu trabalho. A diversidade entre os dois sexos — segundo essa tese — expressa as mutilações que cada um deles sofreu por causa desse domínio. perfumes. Quase todos os autores que escrevem sobre o assunto. os saltos altos constituem. E os moralistas. O homem. porque jamais lhes passou pela cabeça que fosse exatamente a pele a zona erógena feminina por excelência. o púbis. voltam-se para esse erotismo. a beleza. 7  essas observações. um complexo de estímulos de altíssima carga auto-erótica 5. sempre se ocuparam com as zonas erógenas enfocadas pela óptica masculina: os seios. necessitada de apoio emocional por parte do homem. portanto. parece também que as mulheres. Mas é correto proceder dessa maneira? Certamente as diferenças entre homens e mulheres são o sedimento de milênios de história e de opressão. 1987. O feminino. massagens. destinados ao desaparecimento. Não as estudam. em particular. mais genital. O que hoje nos parece natural e perene um dia não 5 6 Beatrice Faust: Woman sex and pornography. imagina-se frágil. Mas esses seriam resíduos do passado. mais ligado aos odores. com muita frequência essas diferenças vêm sendo minimizadas como consequência da milenar divisão das tarefas entre os sexos e. muscular. dotado de uma infinita e insatisfeita potência sexual. bálsamos. os corpetes.

Ambos. a parte feminina do homem é chamada anima e a parte masculina da mulher. E a primeira vez. Ver Carl Gustav Jung: O eu e o inconsciente (L’io e l’inconscio). Nota-se isso perfeitamente na maneira de vestir. sensibilidades. os femininos (roupões. as mulheres usando os modelos masculinos (jaquetas. existe o enamoramento. com o aparecimento da moda unissex. porém. O ponto de partida não pode ser um exorcismo. Justamente por isso. 8  existirá mais. No momento atual. é importante deter-se sobre as diferenças. assumir o papel um do outro. não destruídos. mas um processo. vol. do jogo da troca de papéis. que mulheres e homens se observam a fundo para se compreenderem. as figuras que determinam a aprendizagem. entretanto. mas não totalmente diferente. Entretanto. Turim. e esperam dele coisas que não pode dar. por meio do qual cada um penetra nas fantasias eróticas do outro. A própria possibilidade do erotismo. Apesar disso. sobre o que cada um dos sexos possui de específico. Não é possível livrar-se das diferenças entre homem e mulher como se fossem apenas ilusões. O erotismo se apresenta. superando as diferenças. VII. serão reelaborados. os encontros acontecem. Para isso devem identificar-se. desejos e fantasias diferentes. calças) e os homens. seu aparecimento no Ocidente. comparada com a de hoje. à compreensão. sob o signo do equívoco e da contradição. in Opere. na história da humanidade. é o resultado dessa descoberta. cosméticos). existe a atração recíproca. amorosa e erótica das mulheres e dos homens dos próximos anos certamente será diversa. O vir-a-ser é sempre uma síntese entre o antigo e o novo. então. de peculiar. animus. nada desaparece sem deixar vestígios. 7 Na psicologia junguiana. Estudando o erotismo não descrevemos um estado. 1983. ao encanto do amor? É disso que trata este livro. Os arquétipos depositados na nossa cultura 7. Boringhieri. A vida sexual. mulheres e homens buscam o que os iguala. Como é possível? Qual é o caminho que conduz das diferenças ao entendimento. imaginam o outro como na realidade ele não é. . cedendo-lhe as suas. Possuem. com frequência.

para se masturbarem. onde a concupiscência não se arrisca jamais nem a ser reprimida nem a ser rechaçada. pelo cinema. ficam excitados com a nudez da mulher e fantasiam um relacionamento sexual com ela.. Os barbeiros tinham o hábito de presentear os clientes com pequenos calendários perfumados. Caminham por uma rua. aspirações. De um modo geral. Barbara Cartland respondeu: “Completamente vestido e. Garzanti. Era pouquíssimo. A pornografia ostenta um universo fabuloso “onde não se precisa mais seduzir para obter. mais recentemente. uma secretária se despe e. onde o momento do desejo se confunde com o da satisfação. Os homens. ou a reprodução das estátuas nuas da Antiguidade. mas suficiente para provocar excitação. sem uma única palavra. sem que necessariamente haja uma história. de preferência. ao contrário. O 8 Pascal Bruckner. de uniforme”. A um entrevistador de televisão que lhe perguntou qual a imagem de homem que considerava mais excitante.. Também as estátuas. antes da legitimação da pornografia. A pornografia. . Os protagonistas masculinos não precisam fazer nada. É a satisfação alucinatória de desejos. Alain Finkielkraut: II nuovo disordine amoroso. sempre serviram aos rapazes como material pornográfico. 1979. O que caracteriza o conto erótico masculino foi muito bem descrito por Pascal Bruckner e Alain Finkielkraut 8. inicia uma felação. é um suceder contínuo de atos sexuais. observam eles. ignorando com soberba a figura do Opositor. No escritório. Há alguns anos. secretamente. isso não as excita sexualmente. havia fotos e desenhos que os homens passavam de mão em mão. medos próprios deste século. 9  2 1. trad.. À excitação também pode ser provocada pela literatura e. mas que persistem até hoje e que ainda são ativos. antigos. com figuras de mulheres em roupas sumárias. necessidades. quase nada comparado ao furacão de estímulos de hoje. A pornografia é uma figura do imaginário masculino. As mulheres não se interessam particularmente em olhar a fotografia de um homem nu. Exigências e medos históricos. Milão. e uma mulher gostosa os leva para a cama.. ital.

9” As mulheres despertam o desejo antes mesmo que o homem tenha pensado em se aproximar delas. Não há troca. Milão. é sempre referente ao sexo. Tomemos Henry Miller. fácil. como exemplo 10. tímida. sem o pesadelo da carestia. mesmo nos grandes escritores. pp. trocas de cumprimentos. Ver especialmente Opus pistorum. Todos dão tudo e recebem tudo.. A pornografia imagina as mulheres dotadas dos mesmos impulsos masculinos. com uma mulher jamais vista antes. Da mulher nada mais interessa além do sexo. A imaginação erótica masculina pura livra-se de tudo o que lhe pode servir de obstáculo. salames e salsichas. E. Também para Miller o erotismo é sempre um relacionamento sexual repentino. no lugar dos frutos.. nenhum preâmbulo. É o equivalente erótico do Paese del Bengodi. Percebe-se isso claramente. de uma espera. desenfreado. 57-38. É um presente. nada de apresentações. as mulheres são imaginadas como seres fabulosamente sensuais. Duas pessoas quaisquer. reservada —. Não há nem 9 Ibidem. a fome da miséria. Se Miller acrescenta alguma particularidade — intelectual. uma da outra.. Nesse universo imaginário não há lugar para nenhum outro sentimento. atribuindo-lhes os mesmos desejos e as mesmas fantasias. Ele sonhava a satisfação instantânea de sua fome sem necessidade de canseiras. desejam a mesma coisa. trad. não um salário. Não existe procura nem oferta. a fantasia em que o faminto via correr rios de leite. do mesmo modo que os homens fantasiam comportar-se com elas. O desejo é sempre ardente e sempre satisfeito. além disso. Árvores que. Na pornografia (masculina). 10  relacionamento sexual não se situa ao término de uma maturação. ou conhecida há alguns instantes. Imagina. vinho e mel. devoradora. voraz. isto é. 1984. imaginava uma fome sempre viva. 10 . de trabalho. para nenhuma outra relação. ital. apesar da abundância ilimitada. Os heróis pornográficos estão milagrosamente isentos do dever de conquistar e de perder-se em prelúdios amorosos: basta um olhar e as mulheres ficam nuas e disponíveis. arrastadas por um impulso irresistível de atirar-se sobre o pênis. que os dois desejos se encontram sempre. É perfeito. Feltrinelli. de um trabalho. a qualquer momento. exibiam frangos assados. a primeira é a última vez.

Pela simples exibição do corpo. É ela que toma a iniciativa. uma potência irresistível. e depois seu comportamento no ato sexual: ávido. a encarnação da mulher famélica de sexo. judia ou negra. a educação. não porque estejam fascinadas por uma qualidade qualquer do homem. Porque a prostituta não sente o interesse erótico que demonstra. mas porque estão tremendamente desejosas de sexo. insaciáveis. Também o relacionamento com a prostituta. cheias de desejo. jamais uma recusa. prometendo prazeres extraordinários. de bonitão. loura ou ruiva. É um gesto mágico que não admite exceções. Comporta-se. Realiza a fantasia masculina de ter seduzido uma mulher alucinada pelo seu pênis. mas na vida real. a convide. A prostituta. na realidade. Mesmo que sua intenção seja a de seduzir. seduz o homem como ele gostaria de poder seduzir a mulher. na verdade. E topam. absolutamente todas. A única coisa que diz é a raça: em geral. molhadas. A prostituta age como a protagonista dos romances pornográficos masculinos. Há uma ligação entre essas fantasias e a prostituição. Será suficiente que expresse seus desejos. Passando a seu lado. Não espera que ele a procure. A razão. para vê-los satisfeitos. com seu corpo real. A mulher espera a iniciativa masculina. Dá-lhe uma piscadela. A prostituta é. que compreenda. Todas ficam excitadas. convida-o a acompanhá-la. um sorriso convidativo. e elas soltam todos os freios. Todas. faz-lhe um sinal de entendimento com a cabeça. Ele não terá de fazer nada. convidando-o. Faz o que. não convida abertamente o homem. Nunca um obstáculo. nenhuma mulher faz. no entanto. chama-o de gostoso. e de um modo simplíssimo e repentino. representada pela pornografia. desenfreado. Permanecerá completamente passivo. Espera que o outro decifre o gesto que é um convite. A prostituta “agarra” o cliente. não na fantasia. a civilidade. Finge para . a seduza. continua a ser uma viagem pelo fictício. ao contrário. Ele as toca. 11  ao menos a descrição do corpo. Também para Miller todas as mulheres “topam”. E tudo isso acontecerá. como se comportam as atrizes dos filmes hard-core. são frágeis barreiras que um simples toque faz desaparecer num instante. Não diz se é morena. É o encontro do macho com a cadela no cio. Finge.

Nos últimos 11 Em italiano temos a análise de Maria Pia Pozzato: II romanzo rosa. A história principal pode ser assim esquematizada: há uma heroína que se parece com uma mulher comum. ital. como a pornografia é uma manifestação típica do erotismo masculino. dos franceses Dellys e da anglo-americana Barbara Cartland. Marilyn French: The women’s room. a editora Harlequin vendeu. já que nada têm a ver com estes. 1976. honesta. Mas isso por um período limitado e por um preço previamente combinado. Somente esta última já vendeu mais de quatrocentos milhões de exemplares. Que ela aceita apenas por dinheiro. O gênero água-com-açúcar. Summit Books. 1975. como atividade explicitamente não-erótica.. Estes são uma manifestação típica do erotismo feminino. aceita seus ritmos. Que não a interessa. 188 milhões de exemplares nos Estados Unidos. É uma atriz e quer ser paga pela sua representação. Editori Europei Associati. "Espresso Strumenti”. desenvolveu-se independentemente em todos os países ocidentais. A estrutura do romance rosa foi amplamente estudada 11. Nina Baym: Women’s fiction. seus desejos eróticos. profissional. Por outro lado. se é bonita. onde encontramos os romances água-com-açúcar. Ver também Susan Koppelman Cornillon: Image of women in fiction. Ohio. que corresponde ao inglês romance. Ou então. Bowling Green. isto é. 1982. 1978. foram infelizes. Bowling Green Popular Press. mesmo que não os aprecie. Corresponde às fantasias sexuais masculinas. Nunca é belíssima. Nova York. Cornell University Press. Essa literatura é dirigida exclusivamente às mulheres e não desperta o menor interesse no público masculino. Milão. 12  ganhar dinheiro. 71-95. a boca grande demais. pp. Se as teve. águas passadas. ou cor-de-rosa. 1983. somente em 1980. trad. Milão. o rosto ligeiramente ossudo. 23 milhões na Franca e cerca de vinte milhões na Itália. trabalhadora. Rizzoli. Jeanne Cressanges: Tutto quello che le donne non hanno detto. e todas as pesquisas revelam que ela tem poucas variantes. É virgem ou não teve outras experiências amorosas. É inteligente. 2. Pornografia e prostituição nos mostram que há uma região do erotismo masculino totalmente estranha à mulher. Passemos agora ao outro lado da banca. Pensemos no incrível sucesso de venda da italiana Liala. tem algum pequeno defeito. Ithaca. os olhos distanciados. .

resiste. apaixonado amor. Por isso retrai-se novamente. admirado demais. Essa mulher. É bonito demais. selvagem. mestra na arte da sedução. A mulher sente-se perturbada porque ele lhe parece. vai . Está inserida em seu ambiente. um dom-juan dono de um poder perigoso. fascinante e inatingível. adorado demais pelas outras mulheres. o eleito. indomável. interessa-se por ela. faz uma cena. forte. por exemplo. perde o controle. torna a convidá-la. interessado. a um só tempo. A história. porém. que é capaz de suscitar um grande. rico demais. Uma mulher sem preconceitos. para que ela possa esperar ser notada. atencioso. mas teme entregar-se a esse pensamento. Acontece o improvável. é divorciada. pérfida. Que seja ele o predestinado. em determinado ponto da história. foge. desespera-se. Em geral. protege-se. com os fatos. 13  romances. de Acapulco. que a rival parta com o homem e depois lhe envie. encontra um homem extraordinário. ou então de uma aventura. frios. Muito pelo contrário. superior. está convencida de que não a ama. se ele a ama de verdade. Mas. por esse dom-juan que se interessa unicamente por ela. Mas o livro demonstrará. realiza-se o milagre. de hábitos livres. O homem. quanto a isso não há a menor dúvida. Por esse motivo desconfia. compreende-se imediatamente. ela mesma as desconhece. A mulher é percorrida por um frêmito de excitação. Aquele homem é um sedutor. É terno. Agora a heroína já está apaixonada por esse homem forte e gentil. cinzentos. Na maior parte das vezes possui olhos de aço. Já estamos no centro do acontecimento erótico. aqui. seu sucesso e a incrível distância do herói fazem com que a heroína se convença de tê-lo perdido. antes de ir embora. fica transtornada. A essa altura aparece. É alto. pode ter numerosas variantes. Se tem possibilidades. em geral. não é rica. Não sabe. distantes. contrariando todas as expectativas. Gostaria de poder acreditar que ele se interessa verdadeiramente por ela. o inaudito. Essa criatura distante. uma rival. que se trata apenas de simpatia. seguro de si. não sofre de solidão. A presença da rival. Pode acontecer. a participação de casamento. insiste. amizade. por esse aventureiro delicado. porém. Não se valoriza. olha para ela.

jamais cometeu nada de culpável. Sobretudo na literatura mais recente. Ambos estão apaixonados. a heroína faz amor de maneira alucinada. Sim. talvez a mais frequente. Ela vem a saber que ele é casado com uma mulher lindíssima e inescrupulosa. Tudo o que na vida real não passaria de mentira descarada mostra-se verdadeiro. apesar das aparências em contrário. a solução: não era culpado. Ele se comporta cruelmente com ela. Ou então ele a abandona em plena floresta. apesar das aparências. mal-entendido. obrigada à prostituição. entram no esquema geral da conquista do verdadeiro amor 12. que também os romances em que a heroína é estuprada. mas porque fora ferido e a mulher simplesmente estava inclinada sobre ele. são adversidades reais. físicas. Há. Ou que descubra os vestidos da outra em seu armário. Pode até acontecer de ela encontrá-lo na cama com a rival. O problema da mulher é saber se. No código do romance policial. O homem. No final. porém. Mas as emoções profundas que são o que há de especificamente 12 Helen Hazel: Endless rapture. No romance rosa. mas somente para poder salvá-la. Eu disse “apesar das aparências”. ilusão. Isso cria problemas para o homem. . que a heroína deve superar. Nos outros. Jamais se interessara pela rival e nunca fora casado. as peripécias são representadas pelos mal-entendidos e pelas dúvidas. um duplo mal-entendido. 14  embora. o homem a ama ou não. de fato estava na cama com uma mulher. mas a seguir insulta-a e manda-a embora. tudo depõe contra ele. Quanto aos vestidos no armário. vendida como escrava. mas ambos pensam não ter o amor retribuído. Abandonara-a na selva. porque estas são incrivelmente contrárias. acaso. A história se desenvolve como num romance policial. portanto. Esse erotismo não tem quase nada a ver com o sexo. estavam ali havia anos. Helen Hazel demonstrou. Esta é uma história típica. Tudo foi apenas obstáculo externo. na realidade. ou então equívoco. Protege-a. que — como se compreenderá somente no final — está verdadeira e profundamente apaixonado. Podem existir relacionamentos sexuais.

nesta indagação contínua. que. e sim da languidez. a heroína que se apaixona não possui vínculos. disponível. medo de não ser amada. liames. buquês de rosas. é dizer “não” com a ansiosa esperança de que o amado volte apesar daquele “não”. portanto. Recusado. Renuncia aos seus hábitos. de modo definitivo. Duas coisas inacreditáveis e impossíveis. Ao contrário. mas. como. na vida real. ao contrário. O erotismo aflora quando essa mulher comum. ou então gostaria de ser convidada para um cruzeiro ao Taiti. Os obstáculos são sempre e exclusivamente . Não encontra obstáculos interiores à realização de seu amor. pronta. Do outro lado há um homem bonito. marido. Da inquietação do ciúme. Ou não é casada. que nada tem a oferecer. procurada e mais procurada. manda-lhe cem cartas de amor. milionário. como no mito de Cinderela ou de todos os fracos a quem tudo é dado. ela é cheia de desejo. comete loucuras e pede que se case com ele. rechaçado. É necessidade de ser procurada. do arrepio causado pela emoção. O erotismo é também ansiedade. que. A pornografia masculina e os romances cor-de-rosa têm algo em comum. na pornografia. não lhe daria a menor confiança. Há uma outra correspondência sutil entre os dois gêneros. torna-se delicado. Depois lhe pediria que se casasse com ela. Da paixão que vem sem ser chamada e que aperta o coração. que faz sofrer. não lhe daria a menor confiança. No erotismo rosa. para os dois sexos. ou é divorciada ou. recusaria seus assédios. esperar. os livros de Jackie Collins ou de Erica Jong. sempre desiludida e sempre renascente: “Ele gosta de mim? me deseja? me ama?” Sujeitam-se também a essa regra inexorável obras que estão muito longe da literatura rosa. É recusa. Não tem dilemas. insiste. igualmente excitantes e igualmente incompreensíveis ao outro. por graça. na vida real. mas que. No primeiro caso há uma mulher belíssima. hospedar-se em hotéis de luxo e frequentar restaurantes refinados. é casada com o homem que ama. sente o olhar e o interesse do herói pousados nela ou quando acontece o inacreditável. famoso. doméstico. 3. espera. O erotismo atinge seu ponto alto nesta tensão. por exemplo. 15  erótico nessas histórias não derivam do relacionamento sexual.

A pornografia masculina elimina a resistência feminina. não tem problemas com os filhos. Também ele ou é livre. A única questão. 16  externos. jamais precisa enfrentar a delicada situação de amante. são eliminadas. a amiga-inimiga o rouba. a exigência de amor. Os dois são sempre livres. não tem dúvidas. por seu lado. eliminam os impedimentos. as dúvidas. . ou tudo não. A heroína jamais rouba o marido de uma mulher fiel. Ou é tudo sim. é a seguinte: “Ele me ama e me amará?” E para ele: “Eu a amo e a amarei?” Não se admite nenhum dilema. eliminando a realidade embaraçosa. ou não tem ninguém que lhe importe verdadeiramente. Ele não compreende. a necessidade de galanteios. as responsabilidades. Ambos os gêneros representam a satisfação imediata de um desejo. As dificuldades verdadeiras não existem. jamais abandona um noivo ou um marido que a ama. Se retribui o amor. em busca de uma nova vida. Não se admite o compromisso. não fazem mal a ninguém. para ela. desiludidos de um amor anterior. Os romances cor-de-rosa. não tem arrependimentos. ou é divorciado.

 17  O sonho da mulher .

a ternura. número como de orgasmos pessoa. exprime esse estado de realização feliz. Nos homens. a cortejava. 18  3 1. Ou como quando. desejava. fazer novamente amor. O que vem depois pode até ser útil. o desejo desaparece imediatamente. fora do hotel. e o homem gostaria de já se ver vestido. Não queria apenas seu corpo. reacende-se nele o desejo sexual e com este. Queria conversar com ela. Está apenas esboçado no homem apaixonado que abraça com força a amada. fora do quarto. como se não quisesse mais separar-se dela. Depois. enriquecido. aos poucos. muitas nuances. olhá-la. e concluir o encontro com o êxtase amoroso. mimava. É como largar um livro policial quando se revela o nome do criminoso. neste caso. bem longe. é como apenas um se ela corpo . suas pernas. de correr. “Heureka”. realizado. brincar antes do ato sexual. esse é o momento mais oportuno. o teor da relação podem vir mais tarde. Sente-se tratada como um alimento delicioso que provoca grande desejo antes de ser saboreado. Queria sentir seu desejo. resolve-se um difícil problema. mas não é mais essencial. A mulher interpreta esse comportamento como rejeição. há em geral um decréscimo desinteresse pela mulher É um fenômeno que tem muitas gradações. O grito de Arquimedes. seus seios. de sair. admirava sua inteligência. em que o homem perde o interesse momentaneamente. Para ele. A demonstração mais acurada. parte contente. que é também vontade de mexer-se. restando —. desinteresse. O homem. Depois do orgasmo — ou de um certo desaparecesse rejeitado. ler. de acariciá-la. seu sexo. Atinge seu ponto máximo no relacionamento com a prostituta porque. quando já se está saciado. Existem ainda as situações intermediárias. Num encontro amoroso o homem prefere falar. após o ato sexual. Só que ela não é um alimento. antes. fazer projetos. participar de sua vida. torna-se enjoativo. é uma pessoa. mais bonito por causa da separação. depois de um longo esforço. interessante. Depois do que. conhecer sua história. a vontade de ficar ao lado da mulher. mas que depois.

aspirando seu perfume. Ela tende à fusão e. eram apenas um meio para atingir um fim. acima de tudo. Há uma preferência profunda do feminino pelo contínuo e uma preferência profunda do masculino pelo descontínuo 13. trad. Rubin: Intimate strangers. antes que ela estivesse cansada. sensível da experiência. O desejo da mulher de permanecer ao lado do homem depois do orgasmo (ou orgasmos) é muito mais forte quando ela está apaixonada. diversa nos dois sexos. Essa experiência leva -a a experimentar um senso de continuidade com as pessoas que ama. permaneceria feliz a seu lado. rejeição. Rubin lembra que a mulher. Ficaria junto dela. Não se teria levantado. que ouvia. Era apenas para satisfazer seu desejo sexual que ele falava. . de modo diferente do homem. nem ao menos antes. A mulher é levada a pensar que na verdade o homem queria apenas descarregar sua tensão. sobre este assunto. 13 A explicação mais racional do fenômeno é a apresentada por Lillian B. Roma. O encontro intelectual e emotivo. e Silvia di Lorenzo: La donna e la sua ombra. Porque. interrompe essa continuidade. desde que aquele homem lhe agrade. a interrupção não pode significar outra coisa a não ser desinteresse. Emme Edizioni. Astrolabio. Indicam a necessidade de atenção amorosa prolongada. 1975. ital. a intimidade. Isso porque o orgasmo da mulher é mais prolongado. Quando as mulheres dizem que apreciam a ternura. E. Satisfeito o impulso sexual. de interesse contínuo com relação à sua pessoa. Estamos diante de uma estrutura temporal. duradouro. Newmann: La psicologia dei femminile. Harper Colophon. mas. A separação do homem lacera. 1980. teria continuado a desejá-la. Milão. que seu interesse por ela como um ser total não existia. e que por isso mesmo os preferem ao ato sexual. não se deve diferenciar do seu objetivo primário de amor e de identificação. Porém. A prevalência do tátil é somente uma manifestação dessa mais profunda prevalência do contínuo. De modo menos claro veja também. porque ela sente a necessidade de ser desejada. de agradar de modo contínuo. Nova York. que ê a mãe.. 1983. à confusão com o amado. às vezes. acariciando-a. ternamente abraçado. existe sempre. Uma vez que o prazer na mulher se manifesta como necessidade de continuidade. 19  Essa experiência de ser tratada como um corpo (rejeitado) é pré-datada. se ele a tivesse verdadeiramente desejado como pessoa. não se referem apenas ao aspecto tátil. Pelo menos. os carinhos.

Para o homem. que tende à fusão. de sim ou de não. erotismo. 1984. inclusive nos modos de pensar ou de descrever a experiência subjetiva. deus dos ventos e da chuva. Como o homem experimenta emoções diversas. às vezes. A outra é Ártemis. 15 . “Ti Amat é o ventre primordial eternamente jovem e fecundo. Daí a necessidade de uma severa atuação para pôr as coisas em ordem. Ver Silvia di Lorenzo: La donna e la sua ombra. não comparáveis. o faz em termos de aceitação ou de recusa.. As vezes. 20  A contraposição contínuo-descontínuo é ponto fundamental da diferença feminino-masculino. não de qualidade. inferiores. Tende a fazer um julgamento de valor. Stein and Day. Não passa do amor à rejeição. à participação mística com o homem. Também a diferença entre amizade e amor é mais tênue na mulher. é um mito antiqüíssimo. isso acontece com muito menor frequência. 1979. os vários estados emotivos são menos diferenciados que no homem. ela parece mais descontínua que o homem. A mulher sente como erótica tanto a emoção provocada pelo contato do corpo do filho como aquela provocada pelo contato com o corpo do amante. uma imagem é Afrodite. Para a mulher. juntos na mesma cama. é a confusão do pântano onde vapores infectos. e vice-versa. não tem necessidade de mudar rapidamente a sua orientação emocional. Nova York. não 14 Dorothy Tennov: Love and limerence. A mulher. Na mitologia babilônia. o logos masculino. Para o homem são experiências completamente diversas. A psicologia junguiana identificou melhor que a freudiana a tensão intrínseca do erotismo feminino. ao contrário. a ternura e a doçura combinam com o erotismo. recalcitrantes. Dorothy Tennov observou que as mulheres confundem mais facilmente a enfatuação erótica e a paixão 14. no próprio seio gera toda sorte de criaturas monstruosas. ao contrário. Milão. A confusão feminina. Daí decorre uma curiosa consequência. a virgem. i labirinti dell’Eros. No decorrer deste livro tornaremos a encontrá-la várias vezes em todos os relatos. admiração. da parte das forças masculinas”. Libreria delle donne. quando precisa estabelecer uma diferença. exatamente porque se move entre emoções semelhantes. gostaria de tê-los a seu lado juntos. Para a mulher. 27-28 de outubro. Ti Amat será então aprisionada por Marduk.. do não ao sim. Neste. amizade. Por isso. tende a acentuar as diferenças. anormais. Porque antes amava. Atas da Convenção de Florença. O homem. que o rejeita e vive para si mesma. águas doces e águas salgadas se misturam e se confundem. e depois. em contraste com a ordem. inserem-se nele harmoniosamente. quando acontece a rejeição. Gabriella Buzzatti: L’immagine intollerabile. Não possui nenhuma estabilidade. a separar as diversas emoções 15. sentia ternura.

ital. obsessiva. trad. a pele incandescente que adere à minha ou de mim se afasta. como um conto que justapõe num mosaico barroco muitos começos... geralmente mal tolerada no Ocidente por causa de sua estrutura repetitiva. uma única música se aproxima ou equivale ao gozo feminino. Milão. desabam juntas. o vertiginoso balé de pernas. Essa natureza contínua. Todas as emoções. no homem. o desejo de proximidade como desejo de orgasmo. porque não sou nada nos termos em que você pode compreender. são o rosto contraído que. a música oriental. me fala de mil coisas que não entendo e me repete somente isto: ‘Não estou onde você está. Pascal Bruckner e Alain Finkielkraut deram voz a essa emoção masculina escrevendo: “Os espasmos da amada não possuem a certeza rudimentar da ejaculação viril. A descontinuidade se apresenta como tudo ou nada. Masters e Virgínia E. como paixão transbordante. braços. 21  sente mais nada. já citado. 18 Ibidem. inquietude. o homem entende a continuidade como intensidade. de mim você não terá nem visão clara nem percepção exata. não me vê mais. A continuidade do erotismo feminino cria. princípio de desorganização 16 William H. impossível de ser contida. o rosto que não posso conter num olhar como durante o sono. Johnson: L’atto sessuale nell’uomo e nella donna. o erotismo difuso. sua experiência global é totalmente diferente. aparece claramente na excitação sexual feminina e na natureza diversa de seu orgasmo. aumenta se afastada de mim. me repele. 18” E mais adiante: “Orgasmos. muscular.. enquanto indiferenciadas.’ 17” E continuam: “Pelo que sabemos. beijos. Não está localizada num ponto. Porque se é verdade que a mulher pode ter orgasmos semelhantes aos masculinos 16. ao mesmo tempo. Feltrinelli. 17 Pascal Bruckner e Alain Finkielkraut.. que me aperta. perco o senso onde você não se altera. que jamais se repetem da mesma maneira. 1967. não persegue uma meta e não se exaure num ato. De fato. .. uma forte atração e. sob o efeito de uma insustentável devastação. se exaspera ao meu contato. muitos fins. no plural. 2. no tempo e no espaço. portanto. muitas intrigas e linearidades. cutâneo.

.. e a colocar-se na mesma situação. enquanto lê ou escreve. ao útero e à vulva. 3. mesmo sentado a seu lado. . “A essência”. Simone de Beauvoir escreveu páginas cáusticas sobre a necessidade da mulher de ter a seu lado. perda de identidade. escreve ela. Estejam em todos os lugares. por sua vez.. goza e é um gozo que circula sempre sem extinguir-se. Excitaa e. É um processo dialético entre contínuo e descontínuo. à passividade. 22  permanente no que se refere a uma carne que espera sempre apenas espasmos idênticos. Ela odeia seu sono. sente-se perdida. Mas a frustração. A sua única exigência é: tributem honra a todas as partes. a frustra. ao joelho e à delicada pele das pálpebras. a organização sexual masculina tem estrutura diversa.. O erotismo não é anulação total... sentem quase vergonha da simplicidade masculina.. Ela procura. já publicado no Brasil. a trai. Procura a fusão com ele para sair de sua maneira de ser incompleta. Bruckner e Finkielkraut. a mulher perde o senso onde o homem não o encontra. Simone de Beauvoir: O segundo sexo. grosseira da outra.” 20 Simone de Beauvoir e as feministas explicam esse comportamento com o fato de que a mulher é obrigada. obriga a mulher a focalizar o homem como objeto. produz a escansão da feminina. Somente o homem é ativo. contanto que esse gozo. não esteja mais em lugar nenhum” 19. que se afasta para olhar e ver.. Como se fosse uma modalidade empobrecida. fragmentação sem fim. “é sempre uma tortura. Mas esse estado de coisas — segundo Beauvoir — está destinado a desaparecer.se. porque sem ele não é nada. Quando ele parte. reabsorver. então. quando 19 20 Ibidem. pela sua condição social.. Ela jamais goza no sentido em que sua excitação terminou. produz desejo. Sim. quando a deixa.. englobar a atividade do homem para poder estar em seu mundo. Em vez disso. reage onde nem ele nem ela esperam uma resposta. é verdade. Mas é também verdade que a separação masculina. à boca e ao sexo. através do amor. o homem amado. Exatamente porque ela tem crescendos e finais. ao mesmo tempo. fisicamente. à orelha e ao ânus. ele a abandona. após terem intuído a natureza contínua da excitação sexual feminina.

quando não o suporta. da continuidade de seu interesse. que não teme o mundo. sentir o roçar do tecido . indefeso. a mulher olha com ternura o seu amado adormecido. Os traços de seu rosto já não estão mais tensos. o pensamento distante. vontade própria. a força doce e acolhedora de seu abraço. Mas a necessidade de aproximação. o furtivo tocar-se que renova a declaração de amor de maneira infinitamente melhor que quaisquer palavras. sentir as mãos dele sobre sua pele. A mulher quer sentir a presença física de seu homem. mesmo que o homem esteja longe. a força delicada de sua mão. Por outro lado. Quer perceber sobre si seu olhar apaixonado e cheio de admiração quando usa um vestido novo e. longe. Tudo isso é muito bonito para a mulher que ama. tornaram. os perfumes. a mistura dos cheiros que se torna perfume. mesmo que seja apenas com a mente. como se o tivesse nos braços ou dentro de si. não se sente arrasada se seu amado dorme ou viaja. neste ponto. Uma mulher com atividade própria. ao mesmo tempo. o peso de seu corpo. é o desinteresse. Existe uma estreita ligação entre o erotismo tátil. não tem razão em sua descrição. também a mulher ativa. Quer ouvir sua voz profunda a chamá-la. A mulher somente sente o sono como uma rejeição quando não ama o seu homem. seu cheiro. experimenta um sentimento de desapontamento quando percebe seu homem distraído. também a mulher que tem sucesso. La Beauvoir. de intimidade.se serenos como os de um adolescente ou de um menino. os sons e o prazer de ser desejada e amada de modo contínuo. o leve contato de entendimento entre seus dedos. de intimidade. não se sentirá mais vazia. Então. Porque também ela deseja. Naturalmente. O sono é uma consequência comovente de seu amor. O sono lhe dá um sentimento de aproximação. de continuidade prossegue. Sente-o terno. Não é o sono que separa. Depois de ter feito amor. com profissão definida. entre a capacidade de sentir os odores. a condição histórica da mulher tem um peso relevante na sua reação excessiva ao desinteresse do homem. muscular. 23  também a mulher tiver conquistado sua autonomia e sua atividade. também ela necessita de sua presença amorosa contínua. Quer sentir a aspereza de seus pêlos. o ir embora.

do espetáculo. a seguir. dos jornais que falam da vida particular do ator ou do cantor. da intriga coletiva 21. Os homens não se interessam pela vida privada dos astros. Continuidade do desejo. das sombras ao crepúsculo. O astro é o objeto escolhido da fofoca. À mulher. da excitação. mas coletiva. dos rostos. terminado o espetáculo. da ternura. carícias. um fenômeno feminino. E. em casa com a mulher ou com suas amantes. Milão. das peles. portanto. Nas publicações lidas principalmente pelas mulheres. Bompiani. as mesmas nuvens. da paixão. 4 1. 24  leve no bico dos seios. de ter a mesma vida. O fanatismo ou o culto pelos artistas é. de que se fala menos. mas não o que ele é na vida particular. Tudo isso acontece sob o registro da continuidade. 21 Francesco Alberoni: L’élite senza potere. A eles interessa o ator. O erotismo feminino tem uma segunda raiz. o mesmo mar. é exatamente isso o que interessa. palavras. Continuidade dos corpos. Ele é o produto. não participam de seus casos de amor. de seu corpo viril. desejo de estar junto. Uma raiz que não é pessoal. a onda excitante do perfume de mulher que se mistura ao dele. seus vizinhos. penetração. transformando-se umas nas outras. ao lado dos romances cor-de-rosa e das seções de moda e beleza. Quer sentir o cheiro das roupas dele. de participar das mesmas experiências. do cuidado. a mesma lua. Continuidade nas metamorfoses. Imenso mar em que as sensações se sucedem como ondas. 1973. de ver as mesmas coisas. Sentir-se desejada quando caminha. por outro. por um lado. ou de má vontade. de conviver. ao contrário. As mulheres chegam a identificar-se com as personagens do espetáculo como se fossem seus conhecidos. que é também mistura de emoções. estão as histórias dos artistas. o cantor. o seu desempenho como tal. da atenção. e que aquele desejo é provocado pelo meneio sensual de seus quadris. Continuidade de ternura. dos passos. dos músculos. individual. . sussurro. dos odores. de respirar o mesmo ar.

não 22 Albert Goldman: Elvis Presley. O homem adora o líder. insignificantes. em todas as seitas. choravam. particularmente os líderes carismáticos. não são ciumentos. que os homens da seita. Mas um comportamento análogo existe também fora da situação do espetáculo. Milão. as alemães. em todas as religiões. teria ido para a cama com ele. o asceta. trad. longe da excitação coletiva. e os homens comuns parecem-lhe totalmente sem qualidades. trad. Em todos os cultos. teria feito qualquer coisa por ele. O rapaz pode adorar uma cantora. Hitler. Garzanti. ao redor do líder sempre existiu uma corte de mulheres sexualmente disponíveis. trata-se de um verdadeiro amor. Milhares de adolescentes urravam. o pregador. É de notar. desejá-la. Stálin e as americanas. Sobre a atração amoroso-erótica dos artistas. ver Edgar Morin: I divi. vê na sua frent e apenas ele. Na mulher. 23 . ser tocadas. o relacionamento com o líder torna-se facilmente erótico. por outro lado. queriam ser possuídas por ele. ital. As italianas desejavam Mussolini. Tornou-se fenômeno de massa com Rodolfo Valentino e repetiu-se na nossa época por ocasião do sucesso de cantores como Elvis Presley 22. 1977. desejo. pode até se sentir excitado eroticamente por ela. imploravam para beijá-lo. queriam tocá-lo. A situação de entusiasmo coletivo orgiástico. Roosevelt ou John Kennedy. Não há nada semelhante no mundo masculino. O fenômeno já aconteceu no passado. Mas dificilmente perde a cabeça a ponto de desvalorizar todas as outras mulheres. Em todos os movimentos coletivos. o sacerdote. ao contrário. desmaiavam.. de sexualidade. o profeta está sempre cercado por um grupo de mulheres desejosas de contato. de amor. não esconde o fato de que cada uma das adolescentes desejava o cantor para si e de que. mas seu amor é totalmente deserotizado. as russas. ital. As fãs do astro continuam a amar e a desejar seu ídolo por anos e anos 23. sonoro.. de uma verdadeira paixão. se tivesse podido. ao contrário. antigos e modernos. 1981. antipatias reais. Quando as adolescentes começam a interessar-se pela música e nelas explode o fanatismo por um cantor. A mulher fanatizada pelo artista. Mondadori. O mesmo acontece com relação a personagens dotadas de poder. 25  Experimentam por elas sentimentos de amor. neste caso. o teatro. Milão. o guru. com o melodrama.

pelo reconhecimento social. O erotismo masculino é ativado pela forma do corpo. Se um homem tem de escolher entre fazer amor com uma atriz famosa mas feia. Nas revistas masculinas como Penthouse ou Playboy. da 24 Esse aspecto do erotismo feminino encaixa-se na tendência mulher à contiguidade-continuidade. pelo reconhecimento social. pela beleza física. nas revistas femininas vem sempre mencionado o status da personagem apresentada. não homens comuns. Escreve Milan Kundera: “As mulheres não procuram os homens bonitos. Essa diferença se transfere também para os comportamentos cotidianos. e com uma deliciosa garota desconhecida. 26  se sentem diminuídos com a preferência das mulheres pelo eleito. importantes. As mulheres procuram os homens que tiveram mulheres bonitas” 24. ficar ainda mais excitado com elas. Na mulher. é diferente. pelo fascínio. Se um homem pendura na parede de seu quarto uma fotografia de Marilyn Monroe nua é porque ela é uma belíssima mulher nua. não terá dúvidas em escolher a segunda. Que aquele seio pertença à presidente da General Motors ou à sua secretária é um fato completamente irrelevante. com quem é amado pelas outras mulheres. A mulher. aliás isso nem ao menos é mencionado. com um líder. Não é a sua celebridade que o atrai. a mulher quer encontrar homens célebres. a mais bela do mundo. Ao contrário. já traduzido no Brasil. com um artista famoso. por isso. pela classificação no elenco da vida. mas a sua beleza. pode pendurar fotografias de outras lindas mulheres nuas e. Estamos diante de uma diferença fundamental entre o erotismo masculino e o feminino. O erotismo feminino é profundamente influenciado pelo sucesso. Porque a sua escolha é baseada em critérios eróticos pessoais. Não pela posição social. . pelo aplauso. ou melhor. em certos casos. as lindas mulheres apresentadas não são interessantes pelo seu status social. No homem há Milan Kundera: O livro do riso e do esquecimento. pelo poder. Em Vogue Homem. Ao lado dela. O homem quer fazer amor com uma mulher bonita e sensual. com quem é respeitado pela sociedade. pela capacidade de sedução.

além disso. deve permanecer em defesa da casa e da comunidade. dizem elas. a fêmea. sensorial. as inumeráveis fantasias amorosas da mulher nos mostram claramente que ela está sempre em busca do . Na espécie humana. 27  separação entre Eros e política. 2. inimigos e dificuldades imprevisíveis. entre sexualidade e poder. o chefe. Deve. para ter dele o sêmen. Essa situação. que a mulher sente a necessidade exasperada de conservar ligado a si um homem comum. sendo absolutamente fiel a esse único homem. conseguia-se o máximo de probabilidade de receber um patrimônio genético valioso e de poder conservá-lo. no decorrer de milênios. O guerreiro não deve partir. está fadada a desaparecer com a igualdade entre os sexos. A mulher. Na realidade. assegura-se o patrimônio cromossômico desejado. responsável diante dos compromissos assumidos. Porque estamos diante de algo tão antigo quanto a própria humanidade. do grupo. deve ter uma natureza social. deve conservar a vida para si e para os filhos pequenos. o relacionamento tátil. As feministas explicam o fenômeno com o fato de que sempre foi o homem que mobilizou o poder. após ter atraído o guerreiro. enfrentando a fome. mas não será um processo rápido. no centro da comunidade. aventureiro e leal. Nessa situação primordial. Na mulher. não torna o homem polígamo e a mulher monógama. É somente quando a comunidade se reduz a um casal. ser capaz de amar. dos deveres da comunidade e carinhoso com a amada. aprendeu a erotizar a proteção do poderoso. que se livra dos rivais e domina o território. Dessa forma. erótico são uma maneira de participar da sociedade. A proximidade física. a fêmea se acopla com o macho. por conseguinte. precisa conservá-lo. Por isso. entretanto. domesticá-lo. estando ao lado do chefe. O fato de o homem sonhar relacionar-se com muitas mulheres e a mulher ter um amor verdadeiro e definitivo. É provável. de estar em seu centro. Entre os mamíferos superiores. A síntese dessas diversas exigências é o herói: forte e apaixonado. como na família monogâmica moderna. comunitária. continuidade.

Às vezes. mas que também significa proteção da comunidade. poder. A masculinidade é um atributo físico e social. como possuidor de qualidades masculinas. Em sua forma terrificante. a mulher fala de masculinidade. pensa num amor eterno. um aventureiro. que possui apetites viciosos e desenfreados. numa relação amorosa com o herói. O primeiro.. persistente. é um olhar e um gesto de comando. a masculinidade se apresenta no arquétipo do príncipe encantado. Mas também ele. supremacia sobre os outros e pelo fato de o homem ser desejado pelas outras mulheres. Milão. Já vimos que nos romances cor-de-rosa o herói é frio. é porque o que possui não a satisfaz plenamente. suave. Considera-se também um gesto. fiel que o homem. tem um aspecto temível. braços. que é 25 Ver também a análise feita por Bruno Bettelheim. São imagens e símbolos de uma masculinidade selvagem. Certamente a mulher é mais possessiva. Essa é uma sensação complexa em que entram a maneira de mover-se. o rosto duro. . 1977. Feltrinelli. como as masturbações solitárias do homem diante de fotografias pornográficas. O homem sonha com mulheres diversas. uma divisa. olha para seu interlocutor e se pergunta: “Este homem não é melhor do que eu?” Não apenas como corpo físico. a segunda. os odores. a mulher vive paixões com um homem absolutamente extraordinário. peito. ao contrário. defesa. de vez em quando. Em sua forma benévola. A masculinidade também é apreendida no fator riqueza. a verdade é que naquele momento ambos buscam algo eroticamente excitante. é um guerreiro. a fera é o homem. As histórias amorosas que vive por procuração nos romances água-com-açúcar são outros tantos adultérios. ital. terrível com os inimigos. um pirata. É uma sensação que a mulher pode ter até mesmo estendendo uma camisa. II mondo incantato. Se fantasia. um par de botas. é um odor e uma superioridade. Enfim. Na célebre fábula A bela e a fera escrita por Mme Le Prince de Beaumont 25. mas como fascínio. trad. Se o homem ama a variedade e a mulher. é representada pela fera. e persegue uma relação mais duradoura. é um modo de falar e um carro esporte. 28  eleito. segurança. pernas. quadris. distante. num corpo sensual.

 29 

violento e cruel. Que é terrível e perigoso, mas que pode,
porém, ser amansado, transformado pelo amor. Então a fera
deixa de ser ameaçadora e se torna doce, protetora. A literatura
cor-de-rosa satisfaz também essa necessidade profunda, dá
uma resposta ao medo suscitado pelo herói. Como exemplo
tomarei um romance de Rebecca Flanders, Suddenly love. Nele a
heroína é uma mulher já não muito jovem, uma farmacêutica.
Não tem amigos, vive isolada. Não é bonita. Certo dia encontra
um homem extraordinário. É um ator célebre, mas também um
campeão do automobilismo. É milionário, solteiro, inteligente,
gentil. É sincero e leal. Corteja-a, sem cessar, durante anos.
Mas ela está assustada, diz “não”, defende-se. Quando, em
Indianapolis,
numa
terrível
corrida,
ele
se
acidenta
gravemente, com risco de perder a vida, ela foge, porque
aquele tipo de vida a apavora. Porém, ele sobrevive, por
milagre. Durante meses a fio escreve-lhe cartas apaixonadas.
Manda-lhe todos os dias ramos de rosas vermelhas e imploralhe que se case com ele. Ela somente aceitará quando ele
abandonar o cinema, as corridas, sua vida faustosa, para
dedicar-se apenas a ela. Nesse livro aparece acentuado,
deformado, levado ao seu limite máximo o medo da fera. A
mulher
quer
ser
adorada,
mesmo
que
diga
“não”
continuamente, mesmo que nada conceda e pretenda tudo em
troca. Permanece imóvel, passiva, e não descansa enquanto o
herói não se tenha transformado, ele também, num homem
comum. A fera deve tornar-se domesticada, o rei deve ser
humilhado, o guerreiro transformado em manso cordeiro, para
então, finalmente, ser aceito.

3. O que a mocinha sente pelo cantor, o que a mulher sente
pelo ator famoso é enamoramento? É certamente uma paixão
erótica que se assemelha às suas fases iniciais. É seguramente
uma forma de amor, de adoração, de dedicação, que se
assemelha àquela que encontramos no enamoramento. No
entanto, existe uma profunda diferença que, em geral, passa
despercebida. No enamoramento o valor da pessoa se revela
independentemente dos valores sociais, do sucesso, da glória.
É a revelação de que aquela pessoa comum, que não tem nada
de excepcional, é para nós uma individualidade única e

 30 

insubstituível, dotada de valor absoluto. Se o enamoramento
dependesse das qualidades reconhecidamente sociais das
pessoas, todos os homens se apaixonariam unicamente pelas
mulheres belíssimas, e as mulheres unicamente pelos homens
poderosos e famosos. Mas isso não acontece. Há portanto,
aqui, uma oposição entre a atração erótica pelo líder e pelo
artista famoso, que se dirige a um objeto coletivamente
reconhecido, e o enamoramento, que escolhe a individualidade
por si mesma. O enamoramento subverte os valores sociais, as
hierarquias reconhecidas. Quando está apaixonada, a mulher
ama até a pequenez, as dores, as fraquezas, os defeitos, a
fragilidade do amado. Ama sua pobreza, sua falta de sorte.
Ama-o como ele é, não levando em consideração a opinião do
resto do mundo. Ao contrário, o amor pelo líder ou pelo artista
famoso inclina-se diante da opinião coletiva.
E, no entanto, coexistem na mulher esse dois tipos de
amor e de erotismo. Toda mulher procura também encontrar o
herói no homem amado.

4. Nos casos em que a mulher consegue penetrar na
intimidade do astro famoso, chegando a viver com ele, em
geral experimenta uma profunda desilusão. Porque julgava
conhecê-lo e, em vez disso, conhecia apenas o seu
comportamento em público, as fantasias coletivas orquestradas
pelos seus agentes. Por outro lado, o homem famoso, o político
poderoso, o artista adorado por milhões de mulheres torna-se
desconfiado com esse tipo de amor. Na realidade, quem essa
mulher ama? Seu sucesso, sua glória ou sua pessoa? Esse caso
lembra um pouco o da rica herdeira ou do milionário que
jamais sabem se são amados por si mesmos ou pelo seu
dinheiro. Existe, portanto, nessas relações um elemento de
ambiguidade. Nos romances cor-de-rosa, onde está em jogo o
componente coletivo do erotismo feminino, a mulher se
pergunta se o interesse do herói por ela é anônimo ou personalizado. Se ela é apenas mais uma mulher ou se é a eleita.
Muitos dos comportamentos cruéis, cínicos, dos grandes
astros podem ser interpretados como o resultado da frustração
de uma necessidade individual de amor sincero e profundo.
Porque as mulheres que o circundam e que brigam

 31 

desesperadamente para tocá-los, apenas admitidas na
intimidade do amor, passam a reprová-los por serem como são
e iniciam uma luta selvagem contra as rivais.

5. O correspondente feminino do poder é a grande beleza.
Também nela se oculta uma carga competitiva terrível. As
mulheres já notaram, com estupor e inquietude, que
frequentemente os homens parecem ter medo da beleza
feminina. A mulher muito bonita desperta desejo, mas também
desconfiança
e
temor.
Muitos
homens
inteligentes,
competentes, bonitos e, por todas essas qualidades, atraentes,
com muita frequência se casam com mulheres feias ou apenas
agradáveis. Em sua vida, muitas vezes depararam com a beleza,
mas
mantiveram-se
à
distância.
Como
se
tivessem
compreendido que não eram merecedores dela. Por fim o
próprio gosto não mudou, mas aprenderam a desejar algo mais
modesto, mais ao seu alcance.
A observação objetiva e sem preconceitos da realidade nos
mostra que existem apenas algumas categorias de homens que
possuem mulheres belíssimas: os líderes carismáticos, os
milionários, os astros famosos, os grandes atores, os grandes
diretores e os gângsteres.
A Beleza, a grande beleza é atraída inexoravelmente pelo
poder, e o poder tende, inexoravelmente, a monopolizá-la. É
esse liame profundo, ancestral, mas sempre vivo e renovado,
que torna os homens comuns prudentes. No poema de Goethe,
quando Fausto encontra a Beleza, Helena, é obrigado a
conquistar Esparta e a derrotar Menelau numa guerra. E o coro
o adverte dizendo-lhe que quem pretende a mais bela deve
estar sempre disposto a defendê-la pelas armas.

5
1. A sedução feminina tende a produzir uma emoção
erótica indelével. Mesmo quando sabe que se trata apenas de
um encontro, de uma aventura, mesmo quando sabe que o
homem é inatingível.

 32 

A sedução feminina faz funcionar a excitação erótica no
homem, provoca nele o desejo, acende-o como se acende uma
Tocha. Porém, sua meta última não é o ato sexual. Quer
produzir o enamoramento do homem, suscitar nele um desejo
que se renova, como espasmo, nostalgia, para sempre. A
sedução é um encantamento, deve despertar o desejo e fixá-lo
sobre si.
Eis por que o estímulo sexual deve ser, ao mesmo tempo,
recusa, obstáculo. O estímulo apressado em consumar a
satisfação sexual não é um encantamento. Porque aceita o fim,
o esquecimento, o desinteresse. E obscena a proposta que diz
“façamos amor e depois eu te esquecerei”.
O encantamento, isto é, o erótico, é o contrário do
obsceno. Para provocar o desejo sexual, é necessário bem
pouco. Basta levantar a saia, deixar que se entreveja o seio,
basta apertar-se contra o corpo do homem, tocar seu sexo,
sussurrar-lhe que o deseja, e o homem se acende, está pronto
para fazer amor.
A sedução feminina não é tão simples, exige algo mais.
Quer ser lembrada, fazer-se desejada. Age toda no presente,
mas tem os olhos no futuro.
Diz-se que a mulher, todas as mulheres, espera que o
príncipe encantado venha despertá-la. É uma verdade e uma
falsidade ao mesmo tempo. Seu verdadeiro propósito é que o
príncipe encantado a veja e a deseje. É a sua estupenda beleza
adormecida que o fascina, que o faz parar, que o distrai de seu
caminho. A história conta que a bela desperta com o beijo do
príncipe. Mas também o príncipe só começa a ver e a sentir na
presença da bela. É ela que o espera para mostrar-lhe uma
beleza que ele desconhecia e fazer com que ele experimente
desejo e paixão.

2. O macho, quando pensa na conquista, tem em mente a
relação sexual. A mulher, a emoção erótica que a faça recordar
e desejar para sempre. Principalmente nas mulheres mais
jovens, o desejo de deixar marcas no espírito do homem é
acompanhado, depois, de um temor de serem envolvidas num
relacionamento por demais comprometedor e não desejado. A

um amor. ao mesmo tempo. É um homem muito bonito. também ela deseja . Quer deixar uma marca permanente. O desejo de continuidade da mulher se manifesta de vários modos. a jovem tem diante de si uma escolha dramática. entregando-se a ele. será apenas a última de suas conquistas. Saber que esse amor dura. amada para sempre. e exatamente por causa dessa resistência. acaba por assumir. tranquila. as carícias. para que ele jamais possa tê-la. A jovem princesa. nenhuma mulher jamais lhe resistiu. E é isso o que a princesa faz. Naturalmente a mulher envolvida numa atividade profissional. Não apenas esporadicamente. ele acaba por apaixonar-se por ela. nos intervalos de tempo roubados a outras atividades. do idílio. deve afastar-se definitivamente. mas sabe que se ceder. mas suscitar um desejo. Porque não desejam uma relação amorosa concreta. deseja-o desesperadamente. O excelente romance que melhor exprime esse desejo feminino de ser amada e recordada é A princesa de Clèves. dão meiavolta. íntima. mas. que se realiza no trabalho. fascinante. 33  mulher tende ao erotismo contínuo. no mais profundo de seu íntimo. a mulher ama também as palavras amorosas. uma obra francesa do século XVIII. 3. mas por longuíssimos períodos. fazem de tudo para seduzir o homem e. uma postura masculina. Em geral. não se acaba. A essa altura. então. Essa é a lei da sociedade da corte onde vive. retirando-se para um convento. com o correr do tempo. flores. o interromper e o recomeçar. Está apaixonada. o maior dom-juan da França. Algumas mulheres. mas não no sentido de querer transformar em relação contínua cada encontro. como numa eterna lua-de-mel. mal percebem tê-lo conseguido. subtrair-se. Se quer continuar a ser amada por ele. Um telefonema. de apenas dezesseis anos. de Mme de La Fayette. A mulher aprecia os atos que significam a continuidade do interesse. saber que o homem pensa nelas e continuará a pensar por muitos anos. conhece o duque de Nemours. os abraços. que tem sempre pouquíssimo tempo livre e muitas coisas a fazer. um elogio. Porém. Está sempre à procura da compreensão amorosa. suave. Mas a princesa resiste. chegando muitas vezes a fugir definitivamente.

Julga que a descontinuidade do comportamento masculino depende de fatores externos. compacto. uma ereção prolongada. E reage com raiva. A realização. Porque o abraço amoroso e o êxtase da fusão dos corpos duram por um longo tempo. Dormindo na mesma cama. 34  poder abandonar-se a uma doçura prolongada. de inutilidade. pela descontinuidade. em que não existam tempo nem horário. da ternura. Porque significa que ele ficou excitado pela sua beleza. horas e horas. O homem acha que a mulher adora seu pênis ereto. um tempo amoroso. que a deseja de modo contínuo. seu prazer. de frustração e de apatia que esse distúrbio provoca no homem. não por si mesma. da paixão. Na erotização da continuidade temporal. é por esse motivo que a maior parte das mulheres deseja. Enfim. seu renovado esforço de sedução fica frustrado. São esses os alimentos que nutrem seu erotismo. e ela então experimenta uma sensação de vazio. no homem. e não são lacerados imediatamente pela interrupção. A mulher imagina que vivendo junto com o homem amado realizará a continuidade do erotismo. Como quando se deixa beijar pelo sol. de desespero. Na verdade. pensa ela. A ejaculação precoce é irritante. do abandono. de compromissos profissionais. comendo à mesma mesa. mas também porque o sol é como um amante que lhe dá prazer e ternura. Provavelmente. O tempo passado juntos é imaginado como um tempo erótico completo. que no homem acontece através do esplendor do encontro. esses impedimentos poderão ser removidos. próprio da masculinidade. desejada. fazendo juntos a primeira refeição matinal. aqui é procurada no prolongamento do encontro. Isso se verifica constantemente no casamento ou na convivência. duradouro. Vivendo sempre juntos. que seja a característica de seu desejo. Se a mulher não se sente amada. o deus Priapo. estendida na praia. no preenchimento erótico de toda a duração. Não consegue acreditar que seja um fator natural. . Como se não existisse mais. batendo papo à noite. o que ela deseja é a permanência do interesse amoroso. Porque lhe agrada ficar bronzeada e desejável. mas por representar um desinteresse masculino e pelo estado de agitação. de dificuldades materiais. haverá todo o tempo necessário para realizar a continuidade erótica.

 35 

4. Na vertente masculina do erotismo, ao contrário, o que
conta é a intensidade do encontro sexual. O encontro erótico é,
para ele, um tempo luminoso, subtraído da vida comum. Tem,
portanto, um princípio e um fim. Ele sabe que voltará à vida
rotineira. O encontro luminoso é como uma área liberada e
liberante,
uma
experiência
regeneradora
de
que
sai
enriquecido, reforçado, feliz, realizado. Reingressa no mundo
do dia-a-dia mais seguro, mais forte. Até mesmo no
enamoramento a relação amorosa é uma sequência de
encontros luminosos.
Além disso, o homem experimenta com mais frequência
que a mulher o instante de eternidade. Este não é um intervalo
temporal. E um estado particularíssimo, exterior ao tempo.
Quando o instante de eternidade desaparece, reaparece o
tempo. Mas o valor desse instante é superior ao tempo. A sua
lembrança (saudade) faz com que o tempo pareça apenas um
obstáculo, uma falha, uma distração de nossa verdadeira
natureza, que é viver no eterno. Exatamente como na
experiência do místico, para o qual Deus se revela somente em
gotas de eternidade.
O homem enamorado experimenta, às vezes, um
sentimento de profunda tristeza pensando que o divino
momento que vive está destinado a desaparecer, a perder-se no
tempo. Olha então para o céu azul, para as plantas ou pedras,
sabendo que aquela perfeição representa o eterno. No máximo,
lhe será concedido recordar aquela experiência divina. Mas
será como uma imagem desbotada.
Ao contrário do instante de eternidade, o encontro
luminoso é um fragmento de tempo, uma ilha de experiência
que pode ser recordada como um acontecimento, modificável
pela fantasia.

5. Também o homem enamorado continuará, durante a
separação, a pensar em sua amada. Às vezes, sentirá mesmo
um desejo lancinante. Se imagina tê-la perdido, sentirá uma
saudade dolorida. Em geral, porém, quando a cumprimenta,
mesmo que esteja emocionado, sente-se cheio de vida. O
encontro luminoso o torna mais audaz. Partindo, está certo de

 36 

tornar a encontrá-la e procura somente merecer seu amor. A
lembrança dela mora em seu coração, despertando-lhe arrojo,
coragem. Enquanto trabalha, pensa nela. Se a sente sua, ela lhe
faz companhia, lhe dá forças, alegra-o. No homem, a memória
preenche a descontinuidade da presença.
Se o homem não está enamorado, o desejo de rever aquela
mulher dependerá da beleza do encontro. Se este foi luminoso,
desejará encontrá-la outra vez. E, se o milagre se repete,
desejará encontrá-la ainda mais uma vez. Se o encontro não
acontece, se nele se insinuam problemas, rancores, a amargura
do cotidiano, diminui seu desejo de rever a mulher. Porque,
por mais profunda, luminosa e extasiante que tenha sido a
experiência erótica, não é suficiente para construir uma relação
permanente. Somente o toque maravilhoso do enamoramento
cria o irreversível. A sedução feminina tende a isso, mas o
enamoramento profundo é um acontecimento raro, improvável.
Além do mais, a mulher custa a reconhecê-lo com segurança.
Tende a confundir o apaixonamento com a continuidade
temporal física, coisa válida para ela, mas não para o homem.
Procura obtê-la então com súplicas, ou duplicando a sedução
erótica. Mas, assim fazendo, é obrigada a repetir seu esforço e
torna-se cada vez mais insegura. A sedução feminina deve
renovar-se para exorcizar o descontínuo que existe no homem.

6. O encantamento tem sobre o homem, em geral, duração
limitada, o que constitui, para as mulheres, perene fonte de
desilusão e reprovação. Os homens que não ficam prisioneiros
do amor, que não mergulham apaixonadamente na aventura,
parecem-lhes frios, desumanos, cruéis. No mito masculino,
entretanto, o herói resiste ao encantamento. Ulisses não
obedece às sereias, abandona Circe, deixa tanto Calipso quanto
Nausica. Rogério foge do castelo de Alcina. O encantamento,
por isso mesmo, deve ser repetido.
O homem se afasta. Afasta-se imediatamente após o ato
sexual. Adormece, vai embora. Em seu vagar pode estar ao lado
de outra mulher, cair em outro encantamento. Em Orlando
furioso, isso acontece até ao mais apaixonado dos amantes, ao
mais puro dos heróis. Existe sempre, em algum lugar, uma
fonte do esquecimento ou do amor. A mulher, por isso, vigia o

 37 

amado, seja ele marido ou amante. Não há nada de materno
nisso. É uma reação primária, que pertence inteiramente à
sedução e ao erotismo da sedução. Cada mulher cuida e
procura manter vivo o amor, nela ou no próprio homem.
Procura jamais romper aquele fio tênue que é a atração erótica.
A mulher é artífice de uma contínua transfiguração de si
mesma e da casa. Que haja sempre algo de novo, de agradável
para si e para o amado. Algo que o faça exclamar: “Que lindo,
muito bem, que maravilha!” Suscitar sempre novas emoções.
Cada dia, cada dia do ano uma nova emoção. Revitalizar o
desejo no mesmo homem. Aquele homem que gostaria de
esquecer-se dela, ou se esquece.
Quando a mulher inicia uma relação amorosa que lhe
agrada muito, despende uma energia incrível preparando a
casa, tornando-a atraente, confortável, acolhedora, de modo
que seu homem ali encontre alegria e vida. Se não possui uma
casa própria, pedirá uma a alguém emprestada, inventará
outros recursos. A casa, o ninho, é, de qualquer maneira, uma
de suas preocupações fundamentais. É verdadeiramente uma
extensão de si mesma, de seu corpo. Como seus móveis, como
o lençol florido da cama, como as cortinas e as janelas, as
cores das paredes, as plantas e flores de que se cerca. O
arranjo da casa faz parte integrante do ato de atração e
sedução. As revistas de decoração possuem um conteúdo
erótico tão grande quanto as de moda ou as dedicadas à beleza
e à maquiagem.
Do ponto de vista erótico, o ambiente apropriado
(feminino) tem uma grande importância para o homem. Não
devemos confundir as fantasias masculinas com seu
comportamento real. Mesmo quando fantasia ou quando
relembra, ele pensa principalmente no corpo; na realidade, fica
excitado e fascinado pela maneira de vestir, pelo perfume, pela
atmosfera da casa feminina. Diz-se que o homem pensa
somente em tirar a roupa. Mas para tirá-la é preciso que ela
exista, Até mesmo o strip-tease pressupõe as roupas e seu
erotismo. Existem, enfim, certas vestimentas que não se podem
tirar. O ninho, a casa ficam ali, em volta, e fazem parte do
total. O corpo feminino nu é sempre colocado dentro de uma
corola florida, sedutora, perfumada.

 38 

O ninho não é feito apenas de objetos, tecidos, cores,
atmosfera, luzes. É feito também de acolhimento. E também o
saber acolher é uma revelação. As gueixas japonesas baseiam
seu treinamento sobretudo na sensibilidade masculina ao
acolhimento. O máximo de prazer e proporcionado sob esse
aspecto, acolhendo, valorizando, interessando o homem,
tornando-o parte essencial de uma estrutura poética. Também
a cortesã ocidental possui uma bela casa e é mestra na arte de
acolher. A prostituta de rua não possui absolutamente essa
qualidade. Mas, por outro lado, seu objetivo não é segurar o
homem: o da cortesã, sim. A cortesã quer renovar o
encantamento que seduz o homem, mantê-lo ligado.

7. A fase negativa da sedução feminina é o temor de não
possuir fascínio suficiente, de não poder causar a emoção
profunda, indelével, de que já falamos. Sob esse aspecto, as
mulheres são extremamente diversas. Algumas, desde muito
jovens, estão certas da própria capacidade de seduzir,
orgulhosas de seu poder erótico sobre o homem. Outras, ao
contrário, são inseguras. Talvez porque se recusam a assumir o
papel feminino, não querem tornar-se mulheres fatais. Não
posso, aqui, entrar no problema da construção do papel
feminino. Limito-me a observar que quando a mulher se sente
insegura de si mesma, de sua capacidade sedutora, tende a
acentuar ainda mais sua necessidade de continuidade. Ela
permanecerá ligada a seu homem de modo quase obsessivo e
temerá ainda mais perdê-lo. Por ele estará disposta a renunciar
a todas as oportunidades da vida, à sua carreira, até mesmo a
ter um filho. Existem mulheres de grande valor que, por esse
motivo,
permaneceram
ligadas
a
homens
medíocres,
sacrificando-se por eles. E isso, apesar de suas convicções
políticas e ideológicas. Aconteceu até a feministas convictas.

6
1. A mulher é atraída pelo homem capaz de proporcionar
emoções violentas, amor apaixonado. É atraída pelo homem
capaz de sentir e de querer, pelo homem que se atira numa

de abandonar-se impulsivamente aos próprios desejos. assustados com a nova igualdade da mulher. Na realidade. Esse tipo de homem pratica atos perigosos a fim de demonstrar sua coragem física. El Viejo Topo. na . na aventura. 1981. Na religião. De tudo o que é superior à vida cotidiana. absorvidos pela própria profissão. monotonia e falta de sentido. Para ser admirado por todos. para indicar o homem que se vangloria das conquistas. ela participou apaixonadamente de novos cultos. no rito. E é nesse campo que se desenvolveu sua necessidade de transcendência e de utopia. 1980. Em época mais recente. A mulher deseja causar uma emoção erótica indelével em cada homem. que a mulher lhe é necessária. machismo. não é capaz de enfrentar com coragem a aventura do amor erótico e seus riscos. no curso da história. Barcelona. Envergonha-se de admitir que também tem necessidade de afeto. com sua banalidade. por isso. literário. estão pouco disponíveis para o que de heróico e arriscado existe no amor e no erotismo. Nos países de tradição hispânica há uma expressão. Valência. tanto os homens como as mulheres têm uma necessidade desesperada do que é extraordinário. . não está interessado na mulher e. que teme a solidão.guerra. fundou seitas religiosas. despreza a mulher. Daí a necessidade 26 Ver Joseph-Vincent Marquês: No és natural. pelo fator econômico. a marca das relações familiares permaneceu. sua energia criativa transbordou no terreno artístico. atemorizados pela própria beleza feminina. a mulher teve de viver no ambiente sagrado da família e da casa. Editorial Prometeo. Com muita frequência as mulheres têm a impressão de que os homens são incapazes de amar de modo apaixonado. científico. Esse desejo é o correspondente exato da fantasia de sedução. Por milênios e milênios. 39  aventura amorosa com decisão. dos quais teme a concorrência. gaba-se de uma incrível e imaginária potência sexual. Os homens. ¿Que hace el poder en tu cama?. buscaram contato com o Absoluto de várias maneiras. com os quais se confronta continuamente 26. com coragem. porém. No mais profundo de seu íntimo. Preocupados. somente a quem for capaz de corresponder de modo adequado. mas que se preocupa principalmente com os outros homens. Porém. mesmo que se entregue somente a quem merecer. Certo.

quando finalmente está livre do peso do cotidiano doméstico. Isso depende também do fato de. o eleito. nem mesmo as artimanhas mais sofisticadas da sedução podem reconquistar seu amor. Porém. Quando termina. O protesto feminino dos anos 70 foi também uma tentativa de sacudir os homens. são poucas as forças que conseguem extingui-lo. porque esses homens em geral são fascinados apenas pelo sucesso e pelo poder. O esforço que a mulher realiza para conseguir essa liberação é imenso para com o homem que escolheu. ela procura fazer explodir a riqueza que sente estar aprisionada em quem ama. habituadas a procurar em todas as coisas a continuidade. Onde tudo o que é vivo realiza integralmente sua natureza. e até melhor que eles. E isso as mulheres sabem muito bem. de abrir nele a porta que conduz a uma região diversa do ser. As mulheres sabem. serem levadas a confundir a enfatuação erótica. mas muito pouco dela pode ser convertido em erotismo e em amor. com o enamoramento. Onde as emoções são luzes fulgurantes e o erotismo. 2. da condição servil. A sedução feminina procura então evocar. comprimida. onde todas as coisas gritam sua alegria de viver. liberar quanto for possível essa força aprisionada. como se isso fosse possível. magnéticas. custam a admiti-lo e se comportam. ou falam. Mesmo que depois venha a se desiludir. o empenho da mulher para refazer tudo. Se um homem não está mais enamorado. antes de procurar em outro lugar. Quando existe. sufocada. Ainda hoje. antes de se render. para transfigurar o existente. de revelar a eles a riqueza dos sentimentos amorosos. fazê-lo germinar como no primeiro dia. Eles possuem inegavelmente uma enorme energia interior. nada é capaz de fazêlo ressurgir. embora sabendo. o grande desejo. como os homens. 40  desesperada de redimir o cotidiano. a negar as diferenças. O homem sabe distinguir . Antes de mudar. aquele que ama. que o enamoramento possui qualquer coisa de inelutável em seu decurso. um canto altíssimo. volta-se acima de tudo para o seu homem. É por isso que a mulher deseja encontrar o homem que saiba corresponder à sua demanda de grandes emoções e sente-se atraída por personalidades fortes. um contato duradouro com o ideal e a essência ultima das coisas.

Garzanti. ao engano. Na mulher há também o aspecto coletivo do erotismo e este se apresenta como conquista. isso é certo. mas o domínio. mas está disposta a mantê-lo prisioneiro contra a sua vontade. Seu objetivo não é o amor. Ao risco de amar preferem a certeza de ser amadas. se consegue mantêlo ao lado. usa indiferentemente todos os 27 Ludovico Ariosto: Orlando furioso. Quer manter o homem preso. Branca de Neve. Porque a face da sedução feminina é dupla. A segunda é a de feiticeira (Circe. O mito nos diz que Branca de Neve ou a Bela Adormecida estão enamoradas do príncipe. Em uma conversa dirão que amam seu homem. Esse tipo de sedução é relacionado ao filtro mágico. manipulação. Alcina) que prende o homem com um encanto. A de Bela Adormecida. domínio. Na mulher as duas experiências são mais difusas. ou conservar o que tem. Para consegui-lo. 41  perfeitamente se o que sente é um desejo sexual ou amor. que estão enamoradas dele e que o outro (o verdadeiro amor) era uma “ilusão”. Ou então se convencerão de que ele não as amava realmente. se consegue acender ainda uma vez em seu homem a paixão erótica. também chamam a isso amor. ao poder. Ela sabe que não é enamoramento. 1974. procura convencer-se de que ele a ama. que não havia nada a fazer. Cinderela. à manipulação. onde o homem é atraído pela beleza. entre o homem que amam e o homem que as ama. leva-a a aceitar como boa uma forma de amor que não é enamoramento. Porém. Por isso. Circe não está enamorada de Ulisses. se consegue fazê-lo com interesse. Não é também infrequente que as mulheres. acabem por escolher aquele que as ama. aceitá-lo assim. Ela o quer. . A necessidade de ser cortejada. Apaixona-se. É difícil para uma mulher aceitar a ideia de não conseguir conquistar o homem que deseja. Milão. 3. não analisar o fato. canto X. fazer com ele o que quer. Alcina encanta Rogério para impedi-lo de combater contra os sarracenos. Existem mesmo duas imagens arquetípicas da sedução feminina. e a mulher parte com ele. mas prefere não pensar nisso. desejada. de quem é aliada 27. amada.

na vida real se colocam lado a lado. sentem se. não cria um quadro de representação. no decorrer dos anos. por exemplo. se sobrepõem. Se a manipulação continua e se torna chantagem emocional. não amado. Ao contrário das mulheres. e é por esse 28 Na literatura amorosa italiana. No mito. E tem razão. E o homem. a adulação. torna-se rico. a feiticeira nunca está certa do amor do herói. que tomaram a iniciativa da conquista. poderoso e volta. na Carmen de Mérimée. a suplicar-lhe. Torna-se outro. É o exemplo de O grande Gatsby 29. Tornar-se-á insegura. não a “seduz”. Dom José. A mulher que age dessa maneira vencerá se o seu objetivo for o casamento. então há definitivamente a impressão de aprisionamento. incertas da relação. transfigurado. a personagem que vive o drama da feiticeira enamorada é Armida. O mesmo tema aparece no livro de Emily Bronté: O morro dos ventos uivantes. lembra-lhe o passado. Ulisses obriga Circe a libertar seus companheiros. inimiga dos cristãos e apaixonada por Rinaldo. quando tiver vencido a batalha se dará conta de não saber se o homem a ama verdadeiramente. inquieto. Uma relação começada como encantamento positivo pode prosseguir depois. os homens não confiam muito em sua capacidade de sedução. Mas não se veste de outra maneira. esse tipo de sedução exige uma indiferença emotiva e uma frieza incompatíveis com um amor apaixonado. 29 Francis Scott Fitzgerald: O grande Gatsby. o dinheiro. apaixonado. por sua vez. Mas se seu objetivo é o amor. limita-se a pedir-lhe. . Torquato Tasso. não se maquia. por meio de um sutil jogo de manipulações e a sábia instrumentação das fraquezas e dos sentimentos de culpa do outro 28. A psicóloga norueguesa Ellen Hartmann observa que as mulheres muito empreendedoras. Na realidade. tão diversas do ponto de vista emocional e lógico. Para ter sucesso. Existem também histórias em que o herói. 42  sentimentos: a excitação erótica. para conquistar e humilhar a mulher. pede a Carmen que volte para ele. ativas. Jerusalém libertada. Essas duas faces da sedução feminina. o sucesso ou o prestígio social. a mentira. já publicado no Brasil. O homem sofre uma metamorfose. se alternam. a frota de Alcina acaba destruída. Expõe-lhe seu amor. depois. sentese perturbado. Mas são colocadas totalmente no descontínuo. afasta-se. Pensemos. pelo menos em certos momentos. pois o herói se rebela contra a prisão e consegue sempre fugir dela. a chantagem. não se transforma. não faz nada.

não sabe querê-la. A mulher acendeu o desejo no homem. ela mesma. Ou então uma recusa brusca. muitas vezes. Ou de desprezo: “Nunca imaginei que fosse tão fraco”. desencaminhar. mas para isso teve de envolver-se. porém. para conduzi-lo em outra direção. entusiasmado. . então significa que a emoção não era forte. apaixonado. Os homens que comentam entre si sobre uma mulher que passa também a estão desvalorizando. Quer que a sexualidade seja dirigida à sua pessoa. Ou então que o homem não sabe aceitá-la. durante a sedução. Esse tipo de fantasia é masculina. seduzir. se renuncia. Se consegue despertar sua paixão. Mas porque estão longe. convidar o outro a ser caçador. Ou então as frases ingênuas e ofensivas ao mesmo tempo: “Precisa de permissão para sair à noite?”. um outro significado. sim. porque ele não corre para ela. Porque a mulher diz “não” ao pedido impessoal do homem. se deixa envolver no jogo da sedução. Frente a frente. porque não existe uma interação real. 4. livre. o limite. tornar-se presa. se a sedução deu certo. Também nesse caso. colocar em dificuldades. que colocam o homem numa posição infantil. totalmente disponível. O não tend e a excluir o aspecto anônimo do erotismo masculino. fazê-lo sentir-se infantil. Mas o faz porque vê na inércia do homem qualquer coisa de estúpido. como quando várias mulheres riem entre si. A mulher. total. Se o homem não insiste. então ela mesma fica excitada. é também recusa. a emoção. A sedução não é apenas convite. jamais o fariam. irrita-se com sua passividade. tem. O não. Tem o mesmo significado o comportamento feminino disposto a causar embaraço ao homem com perguntas impertinentes ou com olhares de compaixão. elogiar e desdenhar. não se oferece. 43  outro que a mulher se enamora. realmente provocada. Convidar e retrair-se. A mulher comporta-se assim apenas por vingança. Nesse caso ela tem absoluta necessidade de saber se a paixão foi realmente despertada. não é um corajoso. o tom argentino da voz que renova a disponibilidade e acaricia. logo seguida de um gesto conciliador de convite.

Não valia a pena. a agarra de modo possessivo. Sente-se impotente. Um sentimento de sufocação. porque a mulher tem medo dele e. com o calor da pele. torna-se forte e flexível. de destruiçãosufocação. Se o homem. É a mesma sensação que chega ao limite máximo na violência sexual. É penetrável pelo corpo feminino. com a vibração do corpo. para demonstrar que é corajoso. Esse desprezo anula o interesse erótico pelo homem. significa que não possui energia ou coragem. E possível comunicar-se com a psique através da pele. O corpo do homem torna-se mais macio. que leva à morte algumas mulheres violentadas por muitos homens. mas deixa transparecer a força e. Como se ele se tivesse tornado um corpo fluido. fisicamente. dessa forma. porém. o homem vestido (o fascínio pelos uniformes). Tem medo. Talvez a mulher. seu orgulho. A zombaria é também uma prova. . modificado favoravelmente com as sensações. A roupa esconde a crueza física. O primeiro passo da mulher na direção do homem é o desejo irresistível de refugiar-se em seus braços. ao mesmo tempo. o sentimento de segurança que tal força suscita. de afogamento. e teme sua força no relacionamento erótico. não podendo fazê-lo fisicamente. 5. Essa é uma das razões que leva a mulher a preferir. não apenas durante o relacionamento sexual. Durante o relacionamento sexual é mais fácil aceitá-lo. a mulher considera o fato como uma violência física e psíquica. como se agarrasse um objeto. Pelo abraço ela percebe se aceitará seu corpo nu a qualquer momento. ou então se retrai. É essa sensação de aniquilamento. e a mulher sente desprezo por ele. enquanto não possuiu seu corpo na totalidade. Impulsiona-o a agir sob o estímulo do desafio. quer penetrá-lo intensamente com as emoções. É um paradoxo. Porque se o homem não reage. com as emoções. o faça mentalmente. Existe na mulher uma estranha contradição. no estupro. A zombaria tem o intuito de fazer sobressair a dignidade do homem. brutal. A sedução fracassou porque o objetivo não merecia ser seduzido. ou se humilha. A queda das barreiras psicológicas e físicas levantadas pela mulher depende da maneira como o homem a abraça. Quer um homem forte. 44  A mulher tem necessidade de ser procurada pelo homem. leve.

Por isso algumas mulheres preferem homens delicados. De alguma forma. entre mulheres. animalescos. transformando-o em positivo. que muitas mulheres. Geralmente se confunde esse comportamento com o “amor materno”. Seu cheiro torna-se acre. vêem os homens como se fossem macacos. mas do odor acre. ambíguo. sutil. fisicamente frágeis. Acontece o contrário do que a mulher faz com os próprios filhos. Em geral. Admitindo a feiúra do filho. Tanto é verdade. mas não o admite. matá-lo. 45  A força física do homem atrai e aterroriza a mulher. realmente não são uma paisagem das melhores”. Reclama do seu ronco quando dorme. Para as mães. A aceitação do corpo do homem. quando ama . a idealização também de seus aspectos rudes. De fato. Seu aspecto agressivo e imponente pode ser maravilhoso. Irrita-a o seu ambiente-corpo. desarruma tudo. gostaria de fazê lo voltar ao útero. ouve-se falar com expressão decepcionada: “Os homens nus não são bonitos. mesmo que sejam gordos e sem graça. primeiramente de modo velado. Os lençóis já não ficam impregnados do perfume dos dois. é o primeiro sinal de amor. abertamente. mas também assustador. É difícil para uma mulher eliminar o aspecto animal. a mulher não admite ter parido uma criatura feia. como se diz. animalesco. para poder tratá-lo como um menino no plano físico e psíquico. Jamais admitirá que são feios e até mesmo se aborrecerá se alguém disser qualquer coisa nesse sentido. De modo geral. insuportável. Sabe disso. Para não ter medo de sua força. na praia. mas em grande parte é a rudeza física que os faz parecer feios aos olhos de uma mulher. os filhos são sempre bonitos. Por isso faz o contrário do que faria com o próprio homem. Depois. teria de confessar que uma parte de si mesma é aberrante. do seu modo de andar quando se agita pela casa. Em parte é objetivamente verdade. Como o desamor ou o não-amor a leva a rejeitá-lo. Na realidade. põe em evidência todos os seus aspectos grosseiros. Sufoca-o de cuidados. quando uma mulher já não ama um homem. são aquelas mulheres que querem enganar o marido também em outros planos da existência. do homem-intruso. Na verdade. A mulher supera esse aspecto inquietante do corpo do homem. “excesso de afeto”. quebra tudo. escondê-lo. atenções possessivas.

 46  profundamente. inocente. através do amor. mas a caçadora. Sente o perfume penetrar pelas narinas certa de estar em paz com a vida. do permanente. então. portanto. e sente-se recompensada. não é mais o animal predador que penetrou em seu corpo. ama também o corpo do homem como ama o seu próprio corpo. Seus odores se fundem. se ama o homem. que deve proteger. Da eternidade. gradualmente. Para qualquer mulher. indispensável. Então adormece ao lado daquele corpo relaxado. que jamais é repulsivo. Porque. O corpo do homem amado não está mais separado. Não é mais a vítima. . O homem amado. quente. o mesmo que tocar uma zona maravilhosa. Sente o orgulho de Diana que lançou sua flecha e agora olha sua vítima inerte. quieta. suave. então. sinuosamente acolhedor. Tocá-lo é. Ela está deitada. constituem um único odor. Seu hálito é como o ar. É como um menino que se entregou ao sono como se entregou ao amor. o próprio corpo. A mulher. é agradável. um único perfume. que se satisfez. reclinada em seus braços e aspira seu hálito. Está dentro dele e nele se sente bem. que dorme saciado. por efeito do seu amor. aceita o corpo do homem pouco a pouco. É a certeza do contínuo. mesmo quando a velhice já fez seus estragos.

 47  O sonho do homem .

no erotismo masculino. como o alimento. como a cama para quem tem sono. . Somente o prazer do outro enquanto prazer dele próprio. Se um homem casado sente atração erótica por uma mulher e faz amor com ela. Encontra sua nobreza na generosidade do amor. O erotismo masculino não possui essa dignidade. Mas ele é o resultado do relacionamento amoroso. O prazer da mulher é desejado em vista do próprio prazer. tudo pela fé. vamos encontrar a descontinuidade do prazer sexual. ital. compromissos. 1985. O grande sonho da sedução feminina é a continuidade do amor. assim como se apresenta nas fantasias que examinamos. O erotismo masculino. Bari. ao contrário. Cada um deles. uma nova família. é egoísta. O indivíduo loucamente apaixonado é como o convertido que deixa casa. Ou como o terrorista que mata. O amor é doação. dedicação. transcende o seu eu empírico. Até mesmo o amor insensato possui sua própria dignidade social. é meio. O prazer é tolerado em quem não possui vínculos. também no erotismo feminino existe o prazer. não para realizar um grande amor. entra no registro do amor e da virtude. Laterza. altruísmo. Tende a produzir a fusão dos dois indivíduos. O erotismo masculino é anseio egoístico de gozo. não há atenuantes. O objeto do desejo erótico masculino. trad. Ela não lhe é concedida. portanto. mas única e exclusivamente porque lhe agrada fazer amor. 48  7 1. filhos. mas por razões idealistas 30. além da permanência e do 30 Nitlas Luhman mostrou que a aceitação social do amor-paixão somente aconteceu no século XIX. Obviamente. Até mesmo a reciprocidade. antes de ser um meio para o meu prazer. O prazer não possui essa dignidade ética. É sempre vivido fora das instituições. Tudo o que serve para satisfazer uma necessidade é meio. em quem não fez acordos. ao contrário. Esta impõe que se considere o outro ser humano como fim e jamais como meio. como a água. é absolutamente o inverso da ética. não para construir um futuro. Ver Amore come passione. No centro do erotismo masculino. O prazer do amor é intrinsecamente moral. a sua mesquinhez egoísta.

mas inevitavelmente. . porém. 1980. dissociação. 1984. Capelli. como uma fraqueza. acontece a catástrofe. II tappeto da preghiera di carne 33. De fato. ital. perda do centro que resiste ao objeto e a ele se impõe. que pega o que puder. uma dissolução. esse erotismo é perigoso como o jogo de azar. porém. É acompanhar a linha de menor resistência. 1984. Le strategie fatali. a que ilude a escolha. impressionante encontrar estreita correspondência entre as fantasias eróticas masculinas ocidentais e as de alguns textos orientais. Milão. corre atrás de todas as coisas. E cair à mercê da atração. 1973. É. uma degradação. não podem passar sem ele. Também neste livro aparece o tema da irresistibilidade sexual do macho. como por exemplo. ital. sem refletir. fazer dessas forças uso moderado. Milão. Essa característica do erotismo não é exclusiva da tradição judeu-cristã. Isso acontece tanto no caso do jovem Sacerdote da Primeira Vigília como no do 31 Jean BaudriUard: Della seduzione. loucura. trad. que “se deixou levar”. Milão. O sujeito se perde no objeto. “O que constitui aos olhos dos gregos a negatividade por excelência.. no famoso livro do chinês Li Yu. Feltrinelli.. da sedução. A inconsistência moral do erotismo emerge violentamente das páginas de Henry Miller e do escritor italiano Vitaliano Brancati.. Bolonha. Feltrinelli.. As mulheres ficam fascinadas. portanto. tornam-se escravas de seu membro extraordinário. subjugadas pela sua potência viril. os afrodisíacos possuem na sua base uma energia que tende ao excesso. é o ser passivo diante dos prazeres. tanto é verdade que mais cedo ou mais tarde. trad. como a corrida automobilística. As recentes pesquisas de Michel Foucault mostraram que. diz-se que cedeu às “fraquezas da carne”. 32 Michel Foucault: L’uso dei piaceri. ital. É preciso. e isso somente é possível quando se é capaz de resistir-lhes. O homem erótico é possuído por desejos. quando está arruinado. na concepção grega. 32” É. trad.. ital. Bompiani.. É como a vertigem do jogo. como o macaco que não sabe propor-se um fim e ordenar os meios para atingir esse fim. O jogador só pára de jogar quando perdeu tudo. 33 Li Yu. 49  contrato. do objeto 31. Em linguagem popular. trad.

Manda então fazer para si um enorme membro. E é com ele que seduz Aroma e torna inofensivas todas as outras mulheres ciumentas e invejosas. Não existem nunca dores de amor. um assassino. não podem passar sem ele. não falam de outra coisa. o protagonista descuida de seus deveres. A diferença da pornografia ocidental é que. No livro Chin P’ing Mei. Hsi-Mei e Lótus de Ouro. Em ambos os casos. A dependência à droga acontece imediatamente. consegue tornar-se irresistível porque é perito na arte erótica. No livro II tappeto da preghiera di carne. leva à ruína e à morte as mulheres que o amam. a quem. nenhum dote. . As mulheres não conseguem absolutamente resistir ao prazer que esses homens superdotados lhes proporcionam. A mulher é má com todos. Mas depois. de ser descoberto como homicida. o perigo consiste em ser descoberto por qualquer marido e por qualquer outra mulher. tornam-se como que drogadas. porque ela já está drogada. Elas enlouquecem de desejo. 50  virtuoso Ch’uan. quando já está doente. Qualquer um está em condições de excitar uma mulher ávida de sexo. O desenfreamento do erotismo (não aparece nunca a palavra “enamoramento”) transborda. tudo se reduz ao sexo ou ao corpo. As pessoas não fazem outra coisa. sofrimentos de abstinência. nesta última. Aquele com respeito à primeira mulher. No livro de Li Yu. a mulher dá cantárida para excitá-lo sexualmente enquanto agoniza. Os dois amantes. não é necessária nenhuma habilidade. Quando está em perigo. nem um sofisticado conhecimento sexual. descobre ser inferior do ponto de vista físico. até mesmo a Hsi-Mei. à primeira experiência. faz mal. quando quer competir com o virtuoso Ch’ uan pela posse de Aroma. O erotismo tem um aspecto imoral também nas publicações chinesas. Outra característica constante é o perigo. É um longo discurso sobre o erotismo. no máximo. Uma vez experimentado o extraordinário pênis masculino. seduz aquela que o ameaça. no final. Em Chin P’ing Mei é. Quem cede aos prazeres sempre o faz correndo altos riscos. sem interferências. buscam o prazer acima de tudo e sem olhar os meios. assassina de maneira cruel o marido. Não é necessário possuir um supermembro. todavia. em qualquer momento. definitivamente.

nem chantagens. Não o terei preso a mim por causa de filhos. mas não se dá conta disso. A mulher que encarna a fantasia erótica desresponsabiliza o homem de seu desejo. os negócios. seu significado sexual”. O que não aconteceu com La Bardot. de mim não terá nem aborrecimentos. finalmente. Não pede ao prazer compensações éticas. nem dinheiro. Quanto a esse aspecto. No filme O pecado mora ao lado. 51  2. nem continuidade. esta é a sua mensagem. a fantasia erótica masculina é oposta à feminina. nem súplicas. os deveres. Também no livro antes citado de Li Yu. os filhos. não se tornaram símbolos sexuais. Se quiser ir embora. que é antagônico ao compromisso. Por isso mesmo. o compromisso. embora sendo belíssimas. Nem percebo suas intenções. todas as preocupações são mantidas afastadas da aventura erótica. nestes últimos anos. nem lamentações. “Se lhe agrado”. As mulheres procuram manter preso seu homem. a intimidade e a vida em comum. irmãos. os pais. parentes. tome-me. Marilyn oferece-se continuamente. Há algo nas fantasias eróticas masculinas. Veste-se com displicência. mãe. Nela o sinal da não periculosidade é um certo grau de desordem. frágil. “aqui estou. e seus cabelos são apenas parcialmente pintados. Não sou ciumenta. Marilyn Monroe não é uma heroína romântica. ingênua. nem compromisso. Parece dizer: “Eis-me aqui. As mulheres que representaram. E. nem casamento. a outra esforça-se por excluir o amor. a própria vida social. o ideal erótico masculino possuíam. pode-se deixá-la sem maiores consequências. nem queixas. Se esta procura a continuidade. .” Sophia Loren e Gina Lollobrigida não se inseriram nesse esquema. É uma mocinha fácil. como característica comum. se quiser voltar. Faça o que quiser. as cerimônias. de desleixo. sem freios. Nesse caso a imagem é a de uma adolescente sem inibições. excitável. mas ele faz tudo para conservar sua caprichosa liberdade. o fato de não criar laços e responsabilidades. aqui estou às suas ordens. Não preciso do seu dinheiro. simples. Não lhe peço nada. não guardo rancor. à responsabilidade. Tudo isso indica uma categoria social inferior.

como proteção de uma área secreta e pessoal em que nem mesmo o maior amor tem o direito de entrar e de inquirir. tem o sabor da liberdade caprichosa e desenfreada. amante. como o amor. recompensar quem lhe dá prazer e de poder descartar. Porém. Quer sempre ter o direito de poder escolher. 3. anti-social. Ele a trai para ser livre. coloca entre . Porque também uma pessoa má. a dissimulação devem ser vistas sob essa perspectiva. E então o homem deseja separar esse aspecto dos outros. Uma mulher pode resolver jantar com um homem porque ele é importante. É a negação de um componente extremamente importante na mentalidade masculina: a responsabilidade. No erotismo masculino existe um componente anárquico. Obviamente. seus aspectos odiosos e valorizar. um anseio inquieto de liberdade que os próprios homens custam a admitir. tampouco pelo gosto da conquista ou de aventura. A liberdade do erotismo masculino pretende. O tempo como justaposição de instantes separados. Mas isolada do resto. É a negação do impulso biológico que leva o macho a parar para cuidar da fêmea e dos filhos. O homem com frequência trai a esposa. conserva-a. 52  Falta de consequências. elevar a primeiro plano. Ficar apenas com a sexualidade. sem ligações um com o outro. os positivos. interrupção do relacionamento causa-efeito. Colocar entre parêntesis. compromisso. é o oposto do tempo da moral e da lei que recorda e não esquece. se há alguma coisa naquela pessoa que lhe agrada. ignóbil pode ser sexualmente atraente. pode também casar-se por dinheiro. A ética. Também a mentira. não porque esteja interessado em outra mulher. que irrita. tanto quanto possível. mais no terreno do interesse social e econômico. a mulher age de maneira semelhante. para poder iludir sua vigilância. perigosa. em tantas partes. Nesse caso. nessa área protegida por amores e deveres. recusar aquilo que é desagradável. de seu controle. Da irresponsabilidade. O erotismo. elogiar. deixar de lado quem não lhe dá. Daí a tentativa de separar o conjunto concreto da pessoa. é vínculo. ao contrário. com toda a sua complexidade e unidade. continuidade. Porém. que ofende. para sentir-se fora de sua possessividade amorosa.

Mas quase nunca por uma vantagem erótica. 4. Outra manifestação do erotismo descontínuo (masculino) é o refúgio. uma apreciação ditada pelo social. assim. Em geral. Do ponto de vista masculino. Mas o que atraía aquelas senhoras era muito mais a curiosidade. Erica Jong. Ato é muito pouco. 1983. a coisa é simplíssima. de Li Yu. ódio. Mas é preciso ter uma expressão particular para indicar essa interrupção temporal erótica. Milão. no livro Pára-quedas e beijos. Consola-se das culpas esquecendo-as. um intermezzo luminoso. a gruta de carne. o delírio do teatro e até mesmo um belíssimo iate. Basta que duas pessoas desejem fazê-lo. cura suas feridas. 53  parêntesis as qualidades negativas em troca de uma vantagem social. a mulher apenas fica excitada eroticamente se a pessoa lhe agrada de modo global. por analogia com II tappeto da preghiera di carne. sozinhos. É raro que procure num homem o desempenho sexual e deseje apenas isso. a competição com as outras mulheres. Era. Um célebre estadista francês tinha grande sucesso entre as senhoras de Paris por possuir um pênis superdotado. esse encantamento limitado. somente boa disposição. às vezes pode sentir-se atraída por qualquer qualidade erótica extraordinária. Não é preciso que haja nenhuma atração especial. não algo que a mulher escolhesse por conta própria. o castelo. musculoso ou viril que seja o corpo do homem. de outra forma. no ato sexual. Que nome dar a isso? Chamei de “encontro” aquele entre dois amigos 34. relação é muito. Garzanti. A unidade elementar desse erotismo é um intervalo. Nos braços de sua amada O homem está longe de todos os tumultos do mundo. . Se estão de acordo. e o que sente é raiva. e construir um jardim de rosas longe do mundo. ou não. O erotismo transforma-se na ilha que torna suportável uma vida que. essas férias do mundo. o fato de ele ser o presidente. 34 Francesco Alberoni: L’amicizia. não valeria a pena viver. para a mulher são igualmente eróticos os gritos do público. Por mais belo. mas não consegue. Podem depois retornar a ele. essa fusão momentânea que se realiza no abraço. Mas. tenta comportar-se assim com seus amantes ocasionais. claro. então pelo menos por poucas horas são capazes de criar um encantamento entre eles.

o erotismo como meditação (II tappeto da preghiera di carne) é tanto mais agradável quanto mais nos libera de uma frustração. envolvimentos externos desagradáveis. um baile. é preciso que haja um ato positivo de alheamento. É o lugar dos deveres institucionais. (Salvo o estado nascente. É a essa dimensão que pertence o amante. A dimensão do cotidiano é aquilo de que se fala e que é notório. o duplo. de liberação.) A amante existe paralelamente a uma relação institucional. mas o resultado de uma realização. em seguida. . Um tempo separado. 54  O erotismo pressupõe a ausência de preocupações com a pessoa com quem se está tendo relações. extraordinário. de uma aridez e de uma tristeza que pode apossar-se de nós. O idílio não é o produto natural da atração. analisar as tarefas. Tudo o que é diferente deve ter um princípio e um fim. férias. O idílio é possível somente por períodos limitados. Como na meditação. No início. tormento. um espetáculo teatral. O tempo limitado e separado é governável como uma festa. O enamoramento não quer ter fim. o paralelo. Ou então. a relação com o mundo é parcial. Tudo vai bem com o amante porque naquele tempo não há interferências. exatamente porque o seu tempo é limitado. Essa dimensão é mais serena. A concentração meditativa. A área liberada e iluminada pode então ser preenchida pelo erotismo. É o único tempo em que é possível o idílio. apenas perfeição erótica. Se existem problemas. Não é um espaço vazio. o tempo da paz. Nele é possível concentrar-se exclusivamente no prazer erótico e sua perfeição. quando ainda não houve a revelação da paixão e o dilema. um código para os relacionamentos internos e com o mundo. onde se podem enumerar os detalhes. O tempo da felicidade. Com um princípio e um fim. é um espaço esvaziado. Mas não é verdade. quando já se estabeleceu uma regra. que é o princípio do totalmente novo e não tem fim. Muita gente imagina o enamoramento como idílio. recortado do cotidiano. O enamoramento é também inquietação. Constitui uma outra dimensão em que a pessoa se refugia e de onde se retorna ao cotidiano. O tempo passado com o amante deve ser um tempo livre de toda e qualquer preocupação. A dimensão do amante é a separação.

mas um quer conservar o papel de amante para evitar que o amor invada toda a existência e crie um novo cotidiano. enganar o mundo. com o tempo. Wally Simpson pede o divórcio e quer ser hóspede do Castelo de Balmoral. Às vezes os dois estão apaixonados. gentis. ou parcialmente escondido. Estavam satisfeitos que a Simpson fosse casada. O fato de essa relação estar confinada com o erotismo dá-lhe um caráter fútil. Em vez disso. talvez mesmo o amor. que podem durar anos e anos. 55  Às vezes a figura do amante é escolhida por ambas as pessoas. Agem como dois cúmplices e cada um dá o melhor de si mesmo. Os dois não se encontram com muita frequência. Limite de tempo. relações entre amantes. Da mesma opinião era certamente a corte inglesa. porém. mesmo que não tenha esse nome. Isso significava tornar-se rainha da Inglaterra. assemelha-se ao modo com que a seita hebraica Dönhmeh resistia e se contrapunha ao mundo muçulmano: dissimulando. e durante o encontro não permitem a interferência de nenhum elemento cotidiano perturbador. Comportavam-se como muçulmanos. o seu romance com Wally Simpson. Colocado diante do dilema de casar com a mulher amada ou renunciar ao trono. na apresentação. não compromissado. iludir. obtida por subtração. na oficialidade. Principalmente quando ambos são casados. Eduardo decide abdicar. O mundo político e a opinião pública. não admitiam essa hipótese. Queria o casamento. Ou então para evitar ter de escolher. interessados apenas em dar-se prazer. até mesmo toda a vida. São carinhosos. . Não existe amante sem que haja limite. Não aceitava ser relegada à posição de amante. O amante pertence à busca da relação não ambivalente. se desenvolva um afeto sincero e profundo. O rei Eduardo. em segredo. praticavam o culto hebraico. da Inglaterra. outras apenas por uma. inicialmente teria preferido manter escondido. pública. torna-se casamento. Esse evitar. Não existe amante sem que haja segredo. Existem. com recolhimento. mas. porém. Quando uma relação é manifesta. porque isso significava que não aspirava casar-se com o rei. muda de natureza. Mesmo que.

ao contrário. a cabeça de Alan. Era como ver no vão da porta a cabeça de Marie-Claude. Uma simples linha no chão e que deve proteger do contato com tudo o que é impuro. O milagre da relação erótica masculina é o de uma total confiança e abandono endereçados somente ao prazer. De perto ou de longe. típicos da amizade. Só uma enorme discrição em 35 Ver Gershom Scholem: “The crypto-jewisb sect of the Dönhmeh”. o recolhimento. Nessa situação. Apenas sobreviver 35. certo dia.. Sabe que é vulnerabilíssimo. a discrição. todo mundo estaria olhando. compromisso ou coerção. a moderação. O amor tornado público ganhava peso e tornava-se um fardo. a cabeça de todas as pessoas que ela conhecia em Genebra. Sabina. O conflito é um esclarecimento. “Para Sabina foi como se Franz tivesse forçado a porta de sua intimidade. profano. ao único. confessa à mulher Marie-Claude a sua relação com Sabina.. no livro A insustentável leveza do ser. delimitação. é exatamente como a amizade. 36 Milan Kundera: A insustentável leveza do ser. o pintor. invasor. isso sim. É como o círculo mágico do exorcismo e do sacrifício. Schcken Books. por antecipação. a maneira de obter a paz erótica não é o aprofundamento intelectual. representar uma comédia diante de todo mundo. de uma maneira ou de outra. sem qualquer dever. É. Só de pensar nisso. e ele tomaria lugar a seu lado. era preciso. Seu amante Franz é obcecado pela necessidade de viver na verdade. Os Dönhmeh não faziam prosélitos. defendida de uma intrusão. Franz ia se divorciar.” 36 5. Nesse ponto. A sua liberdade é negativa. publicado no Brasil. não se erige em norma moral. num grande leito conjugal. pp. a revelação. O erotismo de que falamos não se propõe ser um modelo. é sempre parte. curvava-se. Esse erotismo. contaminador. a confiança. Por esse motivo. Nova York. a rival de uma mulher que lhe era totalmente indiferente. A escolha tende ao tudo. Porém. não queriam expandir-se. Milan Kundera exprime muito bem esse sentimento atribuindo-o a uma personagem feminina. a cabeça de Marie-Anne. 56  Possuíam os textos do Talmude escritos em livrinhos do tamanho de um dedal. sob o seu peso. . in Messianic idea in Judaism. 1971. dissimular é mais apropriado que combater. Ela ia tornar-se. 142-166. sem querer. o silêncio.

a exprimir-se em atos públicos. defendi minhas fronteiras. mostram-se. mas. É sempre feita para os outros. Isso é próprio dos movimentos e. a caminhar sob o sol. Coloca-os sobre o palco onde representam. entre as pessoas. trad. Por isso tende a tornar-se manifesto. à beira do mar. Mas em seu íntimo. a gritar sua beleza. Milão. O amor se sente perfeito. Ninguém pôde entrar. tem plena consciência de que a sociabilidade. no criar o microcosmo. Entretanto. Também o homem. Também o homem é orgulhoso. do enamoramento. na floresta. por isso. ao contrário. de igual para igual. de soberano a soberano. a exemplaridade. Há no homem um componente erótico muito forte que desdenha o externo e valoriza o interno. Não devo esperar reconhecimento algum. E a representação é sempre serviço. porque não dependo deles. ital. em relações sociais. autonomia. . 57  todos os outros campos consente o desenfreamento erótico. Fica eroticamente excitada quando caminha de mãos dadas com o seu homem por uma praça. por isso venci. exemplar. Conquistei minha liberdade sobre a opressão. Os namorados não se separam. age dessa maneira. Também o homem fica excitado se a mulher é bonita. salvei a minha pátria e o meu reino. porque ali não há nada que possa corromper. 37 Como afirma Georges Bataille: L'erotismo. seu erotismo se exprime mais completamente nos ambientes fechados. Repeli todos os ataques. independência. dão-se as mãos. em seu íntimo. não se escondem. 1969. Mondadori. O erotismo feminino tende a abrir-se para o mundo. triunfo social.. quando está enamorado. A vitória está no abrir mão. Pode gabar-se mais da mulher do que de uma conquista. A mulher sonha fazer amor sob o céu estrelado. Triunfei sobre o mundo porque a ele contrapus o meu mundo. É um erro pensar no erotismo masculino como revolta 37. onde a natureza é mais bela. ou quando entra numa festa de braços dados com ele. Nesse erotismo não se espera reconhecimento. ou quando está enamorado. glória. não para si mesmos. a mundanidade leva os indivíduos para fora de si mesmos. autarquia: abro mão.

com o abandono do erotismo. Mas não em resgatar a contingência. em geral. sempre. em refugiarse na felicidade. porém. quando a mulher proíbe o marido de olhar para outras mulheres. não pode ser tomado como essência da vida. 58  6. é fortíssima no homem essa necessidade de cortejar e. nos relacionamentos matrimoniais. o que é. em anular o tempo. até mesmo temeroso. Seduzir. dominar o tempo. . tímido. que ao homem não agrade o jogo da sedução por si mesmo. Entretanto. dominando-a: a decidir o que foi. significa ir para a cama. Depois de algum tempo o rapaz torna-se inibido. É absolutamente perfeito esquecendo-o. cai. não significa provocar uma emoção erótica indelével. no fim da vida. Pode-se observar isso nos grupos de adolescentes masculinos: quando um deles faz a corte a uma moça. E sem qualquer influência judeu-cristã. desenvolvendo-se um penoso sentimento de frustração e depressão. ao amor. Porque o erotismo masculino é apresentado. Sim. a Buda. Por isso. e o que será. como exemplo de vida depravada que não deve ser imitada. às vezes. é ridicularizado pelos outros. como puro desejo de agradar e de despertar prazer. 8 1. Isso não quer dizer. Aliás. Observa-se também. para o homem. É essa uma percepção hipócrita para enganar a censura ou existe algo de mais profundo? O significado é mais profundo. O erotismo consente em fugir à contingência. O erotismo é um refúgio com relação ao mundo externo. “fazer amor. da sedução sem objetivo. Não tende a impor o seu projeto sobre a vida. também o livro de Li Yu termina com o arrependimento. a sua capacidade de excitação erótica. o erotismo deve ceder lugar a quem domina o tempo: à sociedade. agredindo-o se ele o faz. O homem sente-se completamente mutilado em sua liberdade. A vida erótica acaba sendo considerada um período de erro. a Deus. experimenta uma sensação de constrangimento. se for inibido. esse erotismo é parte importantíssima da vida. Algo parecido ao sentimento experimentado pela mulher quando lhe proíbem cuidar do próprio corpo. de aprisionamento. porém não a exaure.

Ela pode decidir entregar-se sexualmente. recusa-lhe o essencial. em sua mentalidade está radicada a ideia de que se uma mulher lhe concede a sua sexualidade está lhe concedendo ela própria. Conseguir fazer amor é para o homem o ponto de chegada. Aquilo que para o homem é um ato descontínuo: ou sim ou não. Por isso. a intimidade. de ser procurada e de escolher. Pode envolver-se muito pouco. não podem bastar-lhe. tratando-a como se ela se tivesse tornado propriedade sua. nas gabolices entre rapazes destacam-se as conquistas realizadas. a finalidade última da corte masculina. essa fantasia torna-se desejo. todo homem sente irresistivelmente dentro de si o direito de procurar a mulher. vitórias conquistadas. como uma sequência de portas que ela abre somente ao homem que. depois um pouco mais. E quando a corte produz um encontro erótico. mas lhe recusa a sexualidade. é fazer amor. Em certos casos a mulher acentuará o convite. a fantasia que se esconde atrás do jogo. Porém. A roupa e a maquiagem têm sempre um duplo significado: de convite e de obstáculo. Vimos que. Mas o homem sente grande dificuldade em decifrá-lo. o merece. O caso limite á a prostituta que se entrega não dando nada e que simboliza o seu fechamento total jamais beijando o homem na boca. protegida. as carícias não lhe bastam. Aos olhos masculinos. para a mulher é uma gradação de aberturas. Como já dissemos. Por isso a mulher sente-se profundamente ofendida quando o homem com quem se relaciona sexualmente a considera uma conquista. No mais profundo da alma masculina. Se uma mulher aceita a relação erótica. se aquele homem lhe agrada. envolvendo-se com intensidades diversas. e a mulher. Por isso o homem que fez amor com uma mulher diz que a conquistou. se quer atraí -lo. O afeto. 59  fazer-se bela para agradar. a conclusão. ou ato sexual ou nada. aos seus olhos. a mulher vestida está distante. O número de mulheres que tiveram são como a quantidade de aviões abatidos. 2. inteiramente. bem . Duas forças que podem ser diversamente dosadas. O mesmo não acontece para a mulher. isso fora de uma finalidade sexual explícita. às vezes muito ou então completamente.

as roupas. A mulher que se faz ainda mais bonita para agradar pode. É esse o motivo pelo qual. é porque ela assim o decidiu e ele só pode sentir-se estupefato e feliz. quando a mulher vestida se despe. a sedução nunca é motivo de triunfo. São atraídos por ela. A mulher quer provocar essa emoção e essa perturbação. quando menos espera. A sedução. para ele. não se dá inteiramente. por isso mesmo. . mas sem compreender que esse não é um ponto de vista feminino. um teste. quanto mais elegantes. mas ao mesmo tempo a temem. a maior parte dos homens tem medo da beleza feminina. O homem não sabe que a mulher já o estudou. de um momento para outro torna-se uma amante apaixonada. 60  no íntimo. uma distância. é levado a acreditar numa grande paixão ao ver uma disponibilidade sem reservas. seus odores. um obstáculo. Maria Pia Pozzato: II romanzo rosa. 38 Maria Pia Pozzato já havia observado isso estudando o romance cor-de-rosa. como se estivesse apaixonada. O homem. dar ao homem a impressão de ser ainda mais inacessível. Mesmo o dom-juan mais cínico fica emocionado quando uma mulher desconhecida entrega-se a uma intimidade inimaginável poucos minutos antes. enquanto se entrega sexualmente. os homens se julgavam verdadeiros “rouba-corações”. abriu lentamente sua guarda e mesmo agora. seu esperma. refinadas. Nada causa maior admiração e espanto a um homem do que a transformação da mulher que se entrega 38. Jamais causa uma sensação de superioridade. Para o homem. que ignora essa gradação silenciosa tipicamente feminina. a grande senhora envolta em peles ou num vestido de noite. De repente. mais simbolizam uma diferença. Além disso. mas de encantamento. o pôs à prova. finas e femininas. na fantasia erótica masculina. o homem não acredita em sua capacidade de seduzir. Seduzir significa inverter essa situação. Como se fosse sua amante há longo tempo. tamanha avidez pelo seu corpo. é sempre um milagre. mas de reconhecimento. Quando acontece. uma profunda confiança íntima. principalmente no passado. Seduzir significa que essa linda desconhecida. mas masculino. um tal desenfreamento impudico. a secretária impecável atrás da escrivaninha. No íntimo. a desconhecida se comporta com ele como se tivesse amadurecido um longo relacionamento.

da paixão? . isso lhe pesa. que a mulher procura “fazer-se” continuamente diferente para conservar o interesse erótico de seu homem. sabe fazer muitíssimo bem. “vestida”. O homem deseja a onda emocional da mulher. ao mesmo tempo. E. Aliás. o prenda. o dom-juan procura mesmo é essa emoção. A mulher sabe dessas coisas. suscitar uma emoção irresistível. distante. ser desejado totalmente. ser apenas a “bela adormecida”. portanto. Afinal. distinguir essas atitudes do amor. 3. a grande prostituta. a mulher é obrigada a usar sempre a arte da sedução. Quer renová-la indefinidamente. Deve tornar a ser elegante. se dá a entender que nunca viu um membro tão excitante. na ocasião. Tem de impedir que a onda erótica da mulher o envolva. se lhe beija o sexo. Também a prostituta. tem de colocar-se em antagonismo com a paixão que suscitou. para que ele possa reencontrar a desconhecida. Como. excitação erótica. existe nele uma necessidade de descontinuidade. que o homem se afasta. motivo pelo qual a mulher deve renovar seu encanto. sentir a cada vez o êxtase do inacreditável. E isso. 61  A experiência de transformações inesperadas e maravilhosas deixa no homem uma impressão intensa. que a emoção provocada pela beleza feminina nunca é duradoura. Também dissemos. admiração. O fato de ela não beijá-lo na boca nada significa para o homem. Porque se se tornar continuidade o espanto maravilhoso da sedução se esvai. ser amado. Os símbolos da sedução feminina prometem esse delírio emotivo e sensual. uma vez combinado o preço. uma lembrança indelével. Mas também o homem deseja. simula interesse. então. É muito difícil para o homem saber se a metamorfose amorosa da mulher é sincera ou simulada. porém. se grita de prazer. mesmo quando gostaria de ser apenas “ela mesma”. falando da sedução feminina. mas. Para conseguir isso. Também ele busca na mulher uma paixão erótica sem freios. muitas vezes. se é produto do amor ou artifício da sedução. a cortesã de classe. A mulher deve então afastar-se para que possa novamente encontrá-la. já vimos. no íntimo. Para ele a mulher está eroticamente excitada se elogia seu corpo. De qualquer forma. torne-se continuidade.

O homem também pode equivocar-se a respeito do desejo feminino de continuidade. porque nele a ereção é uma prova que não se pode falsificar. Tudo isso faz parte de seu erotismo espontâneo. o homem é sensível sobretudo ao fascínio da mulher que usa racionalmente as artes da sedução. A Bela Adormecida tem motivos para temer o poder da feiticeira. Sente dentro de si um desejo sexual inexaurível. afinal. como na pornografia e na prostituição. o homem deseja todas as mulheres. atenções. continuamente. seu interesse . A ideia de que a excitação erótica possa ser simulada o inquieta. mostrar-se em público. e a cortesã consegue isso com perfeição. quando ela quer fazer amor com ele intensamente. ou por um motivo. Também aqui volta-se à imagem da cortesã que dá o seu sexo porque quer algo em troca. Deseja ser admirada ao lado dele nas festas. Porque conhece seus desejos. A expressão pejorativa “é uma puta” quer dizer. a continuidade erótica. gostaria de fazer amor com todas. 62  Por outro lado. que usa sua sexualidade com objetivos não eróticos. 4. isto é. Porque ele não pode fazer isso. quando a mulher se oferece a ele com insistência. o prazer sexual é um fim por si mesmo. Os perigos e as angústias de que falam os romances cor-de-rosa são perfeitamente justificados. Deseja. Em vez disso. Sua verdadeira intenção está em outro ponto. Sabe que ele não quer ser sufocado por afeto. que engana. Em suas fantasias. A mulher deseja estar com o homem que ama ou que lhe agrada. tem a impressão de que a ela não interessa o erotismo. Enquanto o homem. mas o mundanismo. quando a mulher lhe pede essas coisas. tem a impressão de que ela o faz por cálculo. para o macho. Outro fato paradoxal é que o homem. mulheres que se oferecem a ele continuamente. ver as mesmas coisas que ele vê. que ela finge. que não quer ser “amarrado”. Daí resulta um paradoxo. na situação real. Não nos esqueçamos de que. renascente. Essa dificuldade que o homem tem de compreender se a mulher age por amor ou por interesse suscita nele uma sensação de desconforto. quando uma mulher se entrega a ele com muita facilidade e de modo desabrido. que age como uma prostituta. o homem também deseja interromper o fluxo emocional. A ideia de que é usado com outra finalidade o perturba. Deseja viajar com ele.

Se a mulher pede o sexo como continuidade e repetição. toma a iniciativa. o homem que construiu sua vida fantasiosa sobre o pedir não sabe dizer não quando o papel se inverte. produz no homem um movimento inconsciente de desinteresse e de recusa. Se a mulher. na verdade. gesto esperado. mesmo que passe a noite fazendo amor com ela. não em estar num contínuo estado orgástico. Por Isso as mulheres dizem que o homem. Não consegue mais ter ereção. O homem sonha em fazer amor. sente-se impotente. tem medo da sexualidade feminina e que tem necessidade de contínuas. 63  decai e ele se retrai. a repetição. como já vimos. Cada vez será como se encontrasse a sua mulher pela primeira vez. Habituado a pedir. o dever. olfativo. porque lhe lembra o cotidiano. E é por isso que acende o desejo masculino. Mesmo que depois. se ela se comporta verdadeiramente como ele a imagina na pornografia. cutâneo. do diferente. então é ele que se fecha. como se a despisse pela primeira vez. se ela deseja mesmo uma sexualidade extraordinária. amoroso. tátil. Com a sexualidade descontínua. onde os orgasmos se sucedem de modo contínuo e o abraço erótico parece durar indefinidamente. passe dias inteiros abraçado à sua amada. Por isso tem horror do que lhe aparece como repetição. . assim também a impotência masculina é sintoma da falta de sedução por parte da mulher. que se transforma em impotência. o homem não pode aderir pontualmente a um erotismo difuso. para ele o tempo será constituído de vários inícios. Então é o seu organismo que se recusa. da surpresa. ou então não consegue mais ejacular. maravilhado com o milagre da sedução como da primeira vez. como se a visse nua pela primeira vez. hábito. a tendência a identificar o erotismo com o orgasmo ou pelo menos com a penetração. então. que fica com medo. patéticas reafirmações de sua virilidade. Como a frigidez feminina aparece quando falta sedução por parte do homem. A exigência sexual feminina o assusta e destrói seu erotismo. O descontínuo masculino vive dessa ilusão do início. na realidade. A sedução feminina. é contínua criação do encantamento do novo. da descoberta.

não são constituídas somente por um visual particular. mete. mais triunfal da experiência. as frases entrecortadas de seus orgasmos amorosos. É perfeitamente real. É como se de um filme de amor. ao contrário destas. mete”. Elas evocam. para lembrar com intensidade impressionante alguns momentos. Às vezes. não é uma reelaboração imaginária. onde a mulher é obrigada a se reconhecer. em que existem algumas fortes cenas erótico-amorosas. mais agradável. Cazzoni possui uma galeria de retratos de mulheres onde estão registrados seus gritos. como se fossem o símbolo. antes de tudo. uma rendição. o homem consegue recordar-se com grande nitidez de apenas alguns momentos eróticos. um evento. Mesmo que agora queira esquecer tudo o que aconteceu. elabora-a. isola a parte erótica. uma emoção completa. não se limitam apenas ao ato sexual. e montadas depois fora do contexto. o essencial da própria relação. O isolamento permite colocar em evidência e relembrar somente a parte mais bela para ele. É uma galeria de troféus. ao contrário. possuindo uma extraordinária força evocativa. anula. ao mesmo tempo. as emoções complexas. de uma relação amorosa. na maior parte das vezes. Ele a constrange a admitir que ela é exatamente aquela que gritava “Meu amor. tivessem sido cortadas apenas estas. O fenômeno é semelhante às “lembranças superficiais” descobertas pela psicanálise freudiana. por sentir que foi uma fraqueza. faz dela um caso onde se insere fantasticamente. Ele tende a esquecer completamente as etapas emotivas mais importantes do desenvolvimento da relação. As lembranças da mulher. porém. estertores. supradeterminada no nível simbólico. Para isso. mesmo que não queira. suspiros. Quase sempre essas lembranças masculinas são visuais e. algumas particularidades eróticas. No filme de Fellini. coloca entre parêntesis a história da relação. têm a ver com o início da relação erótica. o momento de entrega da mulher. A recordação erótica. 64  9 1. o extraordinário momento da “metamorfose”. mas é. o sr. Cidade das mulheres. Essa galeria faz com que a mulher recorde — através das frases durante o orgasmo — toda a sua .

Mas no mais profundo do ser a fusão permanece como destruição. No erotismo as duas operam. a excitação coletiva . violência. É como o saque após a conquista de uma cidade. à decomposição do indivíduo. invade todos os lugares sem encontrar mais qualquer resistência. portanto. Esta segunda força é a violência. conhece o peso emocional do real. Não por ser truculenta. Essa experiência tem algo a ver com Sade e o sadismo? Georges Bataille. existem na natureza duas forças. O erotismo é sempre. como desejaria ter de volta suas fotografias. à sua morte. exatamente quando faz essa fantasia. O guerreiro vitorioso profana tudo. e o indivíduo quer sobreviver. nem externa. também dela se recorda com prazer somente de uma parte. deu muita importância a Sade. a mulher burra que nem ao menos reconhece sua força sedutora e que tem memória fraca. como. mas não é sustentável. Por isso gostaria de recuperar aquele fragmento. Na cidade feminista a fantasia masculina tornou-se um pesadelo. Mas na elaboração fantasiosa trata-os como forças domadas sobre as quais triunfa a liberdade soberana do vencedor. ao contrário. fundir-se com outro. se já não esqueceu. morte. nem interna. O sr. transgressão. Uma que tende ao individualismo. violência. vontade de anular-se e de anular. Mas porque junta coisas heterogêneas. Sade não fez outra coisa — na opinião de Bataille — que exasperar esse pólo dialético do erotismo. Assim como conhece a história real de sua vida. quando o amor já acabou. o que não existe mais e que ela quer esquecer. em seu livro O erotismo. Para Bataille. responsabilidades. Sabe que havia o obstáculo. Outra que tende à fusão e. Cazzoni. a resistência e também o amor. O indivíduo quer permanecer ele mesmo e. definindo o erotismo como a presença da vida dentro da morte e a presença da morte dentro da vida. por exemplo. todavia. 2. profanação. 65  história amorosa. ou por ser expressão de uma concepção da sexualidade como pecado. Essa posição de Bataille teve muita aceitação. dessa maneira. Dissemos anteriormente que a personagem feminina mais erótica é aquela que não cria problemas. só quer recordar aquilo e lhe impõe sua lei. Agora sabemos que o homem.

 66 

da multidão, da orgia, o orgasmo sexual, o transe hipnótico e,
finalmente, o êxtase dos enamorados. Coisas demais. A fusão
amorosa do enamoramento, por exemplo, não é uma anulação
dos indivíduos do indistinto. É mais a aparição de algo
completamente novo em que os dois indivíduos se
transfiguraram. É um mutante que entra no mundo e procura
realizar-se nele. O casal enamorado é uma formação social
dotada de uma imensa energia que diz respeito criticamente a
seu passado e projeta seu futuro. Gera valores últimos, fins
últimos. Potencializa, não enfraquece a vontade. O estado
nascente nada tem a ver com a decomposição da morte. É um
renascimento. É o surgimento de uma nova forma de vida
capaz de esperar e de querer.
A embriaguez estática da orgia é algo completamente
diverso. Durante a excitação coletiva, os indivíduos não se
reconhecem mais, não conservam sua inconfundível unicidade.
É o contrário do enamoramento. Por outro lado, terminada a
orgia, cada um volta a ser como antes, um indivíduo isolado.
Na excitação coletiva da multidão, os indivíduos são ainda
mais anulados. Na orgia, procuram-se, encontram-se, procuram
dar-se prazer. Na multidão estão apenas juntos, espremidos,
gritando. Suas mentes estão alteradas, perderam a capacidade
de julgamento e, na realidade, não pensam mais. São
arrastados por emoções, por slogans. As criaturas assim
regredidas marcham juntas, ritmicamente, e se transformam
numa massa. Por que confundir esse estado idiota com a lúcida
tensão do amor?
Ainda mais diversa é a situação do transe hipnótico 39. Aqui
as características da multidão tornam-se exaltadas. Dentro de
um espaço definido e por um tempo determinado, os
indivíduos perdem sua individualidade e se sentem possuídos
por uma força ao mesmo tempo profundamente pessoal e
transcendente, uma força divina. Porém, o grupo não possui a
estupidez da multidão. A experiência extática tem um princípio
e um fim, e cada um, ao final do culto, reencontra a sua
personalidade, revigorada e enriquecida.

39 1

Georges Lapassade: Saggio sulla trance, trad. ital., Milão, Feltrinelli, 1980.

 67 

3. Sem a formação de uma coletividade e, portanto, sem os
deveres, responsabilidades e vínculos que o amor comporta, o
erotismo se dissolve completamente no ato porque é puro
prazer. Inútil como o jogo, não leva a nada. Quem não está
disposto a tomá-lo como fim em si mesmo enlouquece, pois
jamais poderá justificá-lo. É como atirar pedras num lago e
observar as ondas. Não é profundo, nem sublime. Não é
heróico, não provém das coisas e não as domina. Justapõe-se a
elas, coloca-se a seu lado. Pode ser um sorriso ou uma careta.
A sua imoralidade deriva do choque com os deveres
sociais, com as responsabilidades do trabalho. Sob esse
aspecto Bataille tem razão, como também tem razão quando
diz que esse erotismo profana, violenta a beleza. Mas não por
maldade. Faz isso por indiferença, porque quer o seu prazer.
Assim, choca-se frontalmente com a outra fonte do erotismo.
Aquele que descrevemos como sendo mais típico da mulher. O
erotismo que brota do amor, que tende ao contínuo, que se
quer eterno, que produz um projeto de vida.

Não existe apenas uma raiz do erotismo, mas duas. Uma é
mais profundamente presente nas mulheres e a outra, nos
homens. A primeira tende a produzir uma comunidade de vida,
unida pelo amor. A segunda, ao contrário, não tem projetos,
vive de fragmentos. Não é justo estabelecer se uma é superior
à outra ou se, no futuro, uma prevalecerá definitivamente
sobre a outra. Ninguém pode sabê-lo. Muito importante, isso
sim, é mantê-las logicamente distintas.
O erotismo a que se refere Bataille pertence ao filão
masculino. Sade leva ao extremo, até a loucura, a tendência à
fragmentação, às irresponsabilidades típicas do pólo masculino
do erotismo. Sade usa imagens cruéis de tortura, de morte, de
profanação, de esquartejamento, como símbolos de um
processo emotivo e mental de separação. Assim, tem-se a
impressão de que as vítimas não sofrem realmente. Devemos
ter presente que a agressividade causa prazer somente quando
se dirige a um objeto odiado. Se fazemos mal a quem amamos,
sofremos com isso. O princípio do prazer funciona somente
com a premissa de que a descarga de amor ou de ódio deve

 68 

atingir o objeto apropriado, não pode errar o alvo 40. Sade não é
um guerreiro que exulta sobre o corpo do inimigo assassinado.
Em seus livros não encontramos inimigos, não há tampouco
ódio. O que existe é pura violência gratuita, física e moral,
satisfeita consigo mesma e que não provoca sofrimento. Isso
significa que o ato é puramente simbólico. Que o que é
lacerado, violentado, não é na realidade um corpo, mas algo
diferente. Tendo como base a análise feita, esse algo diferente
é uma relação estruturada. É a relação amorosa e, em
particular, a forma específica do erotismo feminino.

4. Quase todo mundo teve a impressão de que A história de
O, de Pauline Réage, foi escrita por um homem. Porque é uma
fantasia (o mito) tipicamente masculina, precipitação histórica
de uma sociedade em que existe um abismo entre homens e
mulheres. Até muito recentemente, os dois sexos mantiveramse separados. Cada um tinha suas próprias tarefas, problemas,
dramas, fantasias diversas. Nessa sociedade os homens
imaginavam e desejavam uma mulher que não tinha desejos
sexuais, que não possuía seu próprio erotismo. Uma mulher
que era psiquicamente assexuada, pudica, frágil e passiva.
Somente o homem desejava o sexo. Desejava-o contínua e
obsessivamente. A mulher dizia não, sempre e somente não.
Para realizar seu desejo, o homem precisava obrigá-la a fazer
algo que ela, por si mesma, jamais teria imaginado.
Para chegar até aí, tinha dois caminhos a seguir. O
primeiro era a sedução. Seduzir significa dobrar sua vontade
reticente, forçando-a a dizer sim, a querer seu desejo. A força
sedutora mais poderosa é o amor. A mulher ama com amor
espiritual e, por amor, está disposta a fazer qualquer coisa.
Como O, que aceita ir a Roissy, despir-se, ficar de quatro, abrir
as pernas e depois deixar-se possuir por todos, seguidamente.
O outro caminho é a violência, o estupro. Em A história de
O aparecem ambas as coerções, passam-se continuamente de
uma para outra.

40

A exposição desse modelo teórico está no livro de Francesco Alberoni, Movimento e
istituzione, Bolonha, II Mulino, 1981, cap. IV.

 69 

Nesse tipo de fantasia, os homens são nobres, aristocratas,
guerreiros, e as mulheres, presas de guerra, cujo orgulho e
vontade própria foram totalmente pisoteados e apenas graças a
isso podem tornar-se objetos eróticos.
Antes de ser violentada, psíquica e fisicamente, a mulher
não é, na realidade, um objeto erótico. É uma mãe, uma irmã,
uma ama, uma noiva. Sempre vestida, sempre austera, sempre
pudica, sempre casta. A liberação do desregramento erótico
acontece profanando essas imagens, cancelando-as, fazendo
emergir a animalidade. O erotismo somente aparece com a
destruição dos outros papéis, outros liames sociais de que a
mulher é portadora e símbolo.
A violência do sadismo não é, portanto, dirigida contra as
pessoas, contra os corpos, mas contra os símbolos, os papéis
desempenhados. É por esse motivo que as mulheres, após
terem sido chicoteadas, acorrentadas, humilhadas de todas as
formas, continuam belas, bem dispostas, com a pele suave e
intacta. O erotismo sádico não toca os corpos. Estes são apenas
o símbolo de outra coisa: as instituições matrimoniais,
familiares, os laços amorosos contínuos do erotismo feminino
que o erotismo masculino devasta.
O fato de esse livro agradar até os dias de hoje mostra que
o erotismo ainda tem necessidade de rebelar-se para encontrar
sua expressão, isto é, que ainda estamos numa época bárbara.
Seria porém um erro imaginar que tudo isso esteja a ponto de
desaparecer. Aquém e além dos símbolos institucionais e
dessexualizados, continua intacto o choque do erotismo
masculino e feminino, do erotismo como fragmento e do
erotismo como continuidade amorosa. O componente sádico do
erotismo nasce da violência de sua luta interna, da dialética
entre suas duas polaridades.

10
1. Por que o estupro é tão traumatizante? Porque é nele
que a sexualidade masculina, como desejo impessoal,
descontínuo, irresponsável, se choca frontalmente com o

assim como se dá dinheiro. Em suas fantasias o homem se imagina passivo. Em suas fantasias ele imagina que. É um ato motivado. não exige vontade. mas o ato de abrir as pernas é decisão sua. entregando-se (ou não). não se vê. Também para elas é intolerável serem agarradas à força. de escolher. não significa querer. Para o homem. desejar. fisicamente. deve abrir-se. como entregar todo o seu dinheiro. 1984. Na realidade. No entanto é a vagina que toma. O homem não compreende a natureza do trauma. se dez mulheres o possuíssem. Está sempre pronto a dar-se. Mas a verdade é que as prostitutas sentem-se igualmente ofendidas. objetivando uma vantagem. É o mesmo que entregar uma riqueza. Dar-se significa querer. Acima de tudo. A ereção é involuntária. A prostituta se entrega. O direito de não se entregar. para a mulher. não há vantagem. não há troca. ele não compreende por que o estupro possa ser traumatizante para uma prostituta. É realmente “a bolsa ou a vida”. A vagina é fechada. do ponto de vista físico 41. Para o homem. é uma pessoa humana. A mulher. de acordo com sua vontade. de dizer sim ou não é a sua força. Em linguagem popular e vulgar diz-se que a mulher “dá”. nada é perdido. Somente um ato de vontade é capaz de fazê-la abrir-se.tanto. o derrubassem no chão. faz qualquer coisa com qualquer um. tem necessidade absoluta de escolher entre o sim e o não. decide sobre si mesma. Entregar-se sexualmente é. o estupro é uma fantasia erótica positiva. ter uma ereção. isso não seria verdadeiro. Faz isso por necessidade econômica. No estupro. Milão. O que é perdido então? O que é roubado da estuprada? Sua liberdade de decidir. algo nosso que 41 Elisabetta Leslie Leonelli: Al di la delle labbre. mas é ela quem decide. um beijo. o obrigassem a fazer o que quisessem. . contra sua vontade. mas o é na imaginação. por. Se a obrigam a entregar-se é porque não quer fazê-lo. ao contrário. Entregar-se é tão precioso como entregar a bolsa. lesadas pelo estupro. negativa. Rizolli. pois cupidez. tem um poder de autodeterminação. Entretanto. O pênis. Esse direito tornou-se constitutivo de sua identidade social. Por que então diz-se que a mulher “dá”? É que esse “dá” significa a liberdade de dar ou não. ao contrário. ele não se perturbaria nem um pouco. 70  desejo feminino. É ela que. ao contrário.

essa violação da vontade não pode acontecer com respeito ao sexo. no homem. desprezar. Pode-se dar em troca. abjurar tudo aquilo que para ela é o valor máximo. Retendo-o. No estupro a mulher não é mais livre para dar ou não dar. ou como um presente. nojo. Por exemplo. os esportes violentos. Não é possível obrigar um homem a ter uma ereção e um relacionamento sexual ativo com alguém (homem ou mulher) que não lhe agrade. a fonte de todo o valor. quando está em jogo uma crença. O estupro é uma dilaceração da vontade. Possui músculos mais fortes. Como obrigar um cristão a cuspir em uma cruz. dor. A única situação equivalente à do estupro. humilhação. O homem deve ser livre para pedir. sob pena da perdição de si mesmo. Ama a competição. Mas há um segundo motivo. mas a relação. No homem. Também no homem a vontade pode ser violentada. a mulher. pode somente ser dilacerada. A ereção no homem é involuntária. à mulher é pedido. a luta. Mantendo-o sempre perto. a pessoa é obrigada a recusar. como se fosse um prisioneiro ou um menino. obrigá-lo a deixar-se sodomizar. Durante milênios foi caçador e guerreiro. da danação. ele sente apenas repugnância. não o ato. Por exemplo. o desejo de poder andar com as mulheres que quer é o equivalente feminino da possibilidade de entregar-se somente ao homem que quer. 71  tem valor. que ele rejeita. A correspondência existe somente se examinamos. aprisionando-o. Sem . O exercício da vontade é o mesmo. Apenas o ponto de partida é diferente: o homem deve pedir. se não se abre. Se não o diz. nesse caso. A querer aquilo que a vontade não deveria querer. 2. Somente a mulher pode dizer “Tome-me”. não o deixando partir. é tomada à força. Nesse caso. No ato sexual não existe nada de semelhante. uma estrutura óssea mais robusta. Por isso mesmo é mais agressivo. é encontrada fora do campo erótico. No homem. em geral é mais alto. para obter qualquer coisa. Mas também. uma ideologia. para escolher. Claro que se pode obrigar o homem a fazer também algo sexualmente desagradável. O homem é fisicamente mais forte que a mulher.

se possível. Suponhamos que vemos um meteorito cair ou um deslumbrante disco luminoso cruzar o 42 Pascal Bruckner. significa que não tem nada a temer. não precisamos desculpar-nos. se lhe apontamos. queremos satisfazer uma necessidade nossa. mas o abraço deve ser acolhedor. mas. sente medo. Por isso a mulher precisa tanto de amor. Sou o vendedor de mim mesmo. cancelar a ilegalidade. A mulher deseja ser abraçada pelo homem. afasta para sempre o espectro da violência. ao mesmo tempo. primordial. A mão é como uma garra que a machuca e à qual não se pode subtrair. Quando procuramos entrar em contato com outra pessoa. e o seu retraimento em curiosidade” 42. Quando o homem a agarra com forca. Desencadeia um pânico biológico capaz de conduzir até a morte. A gentileza dos gestos indica a da alma. instintivamente. aquela violência não podem se voltar contra ela. E nem mesmo se nos chama a atenção algo que. e como um vendedor deve evitar que lhe batam com a porta na cara antes que tenha tido tempo de oferecer a mercadoria. principalmente aquele feito de ternura. O abraço lhe tira a respiração. Se. pela sua força. partimos do desejo do outro. Alain Finkielkrault: II nuovo disordine amoroso. por exemplo. . uma perturbação. a sufoca. A violência do homem evoca um temor antigo. Mas algo desse medo com relação à força e à violência do homem continua a existir em todos os momentos. assim também precisa usar filigranas de astúcia para transformar instantaneamente a careta do outro em sorriso. a mulher é atraída pelo corpo do homem. Que aquela força. isso constituiu sempre uma ruptura. amoroso. radicado na parte mais profunda da alma feminina. protetor. ao contrário. com brutalidade. O grande e forte corpo viril não mais é perigoso e nele a mulher pode refugiar-se com segurança. 3. um perigo. sente-se em seu poder. e lhe dizemos. sentimos que deve interessar a ele. Escrevem Bruckner e Finkielkrault: “É preciso justificar e. 72  dúvida. Isso acontece quando partimos do nosso desejo. porque somente o amor. É por isso que a gentileza tem tanta importância para a mulher.

Podemos pedir “por favor” para satisfazer um desejo nosso. O homem se sentiria orgulhoso. porque lhe agrada. nós o mostramos e basta. faça amor comigo. pode ser mostrada. como indivíduo único. uma mulher deve ser atraída. Seu sonho é encontrar uma mulher que lhe diga “Por favor. após as desculpas apropriadas. sentir excitação. Mas se ele está em jogo. A desculpa serve porque. após desculpar-se. porém. causa apenas repugnância. uma necessidade. O homem ficaria satisfeito. Algo que atinja ou evoque. A necessidade ou o desejo de um homem não são uma justificação. Mas se um homem pede a uma mulher que “por favor” faça amor com ele. Daí a desculpa. uma vontade louca. Até pelo contrário. particularmente quando o homem aborda uma mulher. Não pedimos desculpas. o interesse do outro: uma curiosidade sua. Pode também fazer isso por amizade. imediatamente. Repugna à mulher ser meio de detumescência. não pode continuar o relacionamento. Que ela foi escolhida como meio de detumescência. Porque queremos levar (seduzir) o outro a aceitar essa nossa necessidade. temos um objetivo próprio. uma necessidade nossa. Que divirta o outro. Para entregar-se. estou cheia de vontade. Desculpo-me porque introduzo o meu desejo e este não tem qualquer direito de ser introduzido se não consigo suscitar o desejo do outro. que torne interessante o que se segue. Entre ele e ela está o desejo sexual. uma necessidade sua. Entregarse. mas como aquele que lhe . na realidade. para tranquilizar o marido. o brigá-lo a fazer aquilo que não é um desejo seu. não como um fim. Se não consegue fazê-lo. Quem inicia uma conversação deve. dizer imediatamente algo que a torne desejável. Em todos os outros casos. Isso vale em todas as relações. mesmo que a mulher não se dirigisse a ele pessoalmente. Faz um mês que não faço amor”. 73  céu. recebe um não. então ambos sabem o que este realmente quer. é sempre um ato de vontade e necessita uma justificação. Pode fazê-lo também por dinheiro. A mulher se dá conta de que aquele homem poderia fazer o mesmo pedido a qualquer outra. o noivo. mesmo quando não está em jogo o erotismo. Torna-se simplesmente um importuno. um homem que pede “por favor” para fazer amor porque está com vontade.

Nesse caso ele já está em cena. inconfundíveis. Agora é a vez dele. uma pessoa diferente das outras. reservada a tarefa de agradar naquele momento. aliviar sua tensão. Ela se preparou para estimulá-lo. Não pode exibi-lo. sente repugnância. já o fez completamente. Aliás. de fazer a representação apropriada. A mulher não o quer. e a mulher grita. um cantor célebre. as roupas. pelas suas absolutas especificidades. com amor. a repugnância se transforma em medo. é também medo. a maneira de cruzar as pernas. como mulher. A mulher. para agradar. Porque a necessidade justifica a violência. Se o homem insiste na necessidade. o desejo do homem lhe causa nojo. e seja capaz de tornar-se agradável. Todos querem tornar-se agradáveis. Consequentemente. A mulher já está em cena. estou necessitado. Todos os homens sentem desejo sexual em relação a ela. as suas diferenças. O homem mostra o pênis intumescido para excitar. O que espera é que o outro consiga disfarçá-lo. Ao homem que a aborda está. Tem isso como certo. Se não é dirigido a ela individualmente. Fez-se interessante. Isso explica o exibicionismo masculino. agora é a sua interlocutora que tem o encargo de parecer interessante. já sabe que é isso que ele quer. já se tornou desejável. a preocupar-se com aquilo que interessa e agrada a ela. Por esse motivo obriga o marido a controlar seu desejo. Ela. parecem indivíduos únicos. Um tipo de relação desse gênero também se estabelece entre a mulher e o homem quando este é uma personagem famosa. Preciso. tornar-se. Se quer despertar interesse. e se não a excita com o mistério e o fascínio. com admiração. de fazer-se desejar. o homem deve dissimular seu desejo sexual. aos seus olhos. 74  pode dar prazer. um político. portanto. ao contrário. Já despertou o desejo do homem. Medo da violência. portanto. dê-me! Preciso. o olhar. mulher. desejáveis por suas qualidades individuais. desejável por meio de cuidados com o corpo. despertar seu interesse. O grito não é somente repugnância. a maquiagem. portanto a obrigo! No decorrer de milênios a mulher aprendeu a temer a necessidade masculina. um artista de cinema ou teatro. .

ser explicado somente com o medo. fala com elas como se fosse uma mulher. de graduação. Demonstra estar disposto a aceitar a opinião livre e expressa da mulher. É uma exigência mais profunda. Durante o namoro o homem demonstra não ser rude. o abraço carinhoso e forte. divertido. vinte anos. por essa razão. E isso o que faz o grande sedutor. Na mulher. O erotismo feminino tem necessidade de momentos suaves. O desejo do homem. A utilizar apenas meios que seduzam a mulher. seu ritmo. Evoca e 43 A exposição mais convincente é de Lillian B. A necessidade de gentileza. Ver Lillian B. funde-se com ele até desaparecer. O homem quer tudo e depressa. O grande sedutor. aquele que “encanta” as mulheres e libera seu erotismo. A mulher espera que as coisas se passem gradualmente. diretamente arraigada no erotismo feminino. a mulher enamorada continua a desejar de seu homem aquelas atenções. em sua natureza contínua. Digo “fala” porque a chave consiste exatamente nas palavras e na maneira como são ditas. Rubin. mas segundo seu tempo. Ela quer ser seduzida. O ritual de admissão. de mudanças graduais. 75  4. ela experimenta sempre com relação ao macho um sentimento de estranheza que deve ser superado. Diz somente o que uma mulher diria. as carícias. não pode. Como o primeiro objeto de amor da mulher é a mãe. mas cortês e emocionalmente disponível. persuasiva. diz Lillian Rubin. . mas age de maneira tranquilizante. A mulher teme a violência do homem. não a estuprem. Instala-se no âmago do espírito feminino. Que seja atencioso. quase invisíveis. Possui a segurança do pai e a compreensão da mãe. Quer ser envolvida pelas emoções. violenta. uma intrusão apressada. adere a ele. Fala do corpo feminino com a delicadeza da mulher 43. assim como se apresenta de "modo espontâneo. viril. excitada. Dessa forma o sedutor se comporta como uma mulher e estabelece uma ponte entre a feminilidade e a masculinidade. aqueles cuidados. aquela ternura que desejava no primeiro dia. são maneiras de reduzir ao mínimo a descontinuidade. segura. a negociação interna deve ser sempre triangular: ela mesma — uma mulher — o homem. A respeitar sua vontade. disfarce seu desejo. As regras do namoro que a mulher impôs ao homem pedemlhe que esconda. Após dez. Rubin: Intimate strangers. o ritual de admissão. Que se desculpe pela intrusão. O grande sedutor pode ter um aspecto forte. de forma harmoniosa. é sempre uma invasão.

ao mesmo tempo. Toca-a como a tocaria uma amiga. Ele é. identificase com ela. O grande sedutor faz com que a mulher se sinta como quando está diante do espelho. Sua voz hipnótica dá voz a seu desejo. Faz com que ela caia de joelhos diante da própria beleza e do próprio fascínio. dessa maneira. é tímido. O grande sedutor sabe sempre bater em retirada. Faz-lhe carícias e a excita com a naturalidade com que ela própria o faria. a do desejo e a da repressão. incapaz de tornar-se urgência do outro. sente sua necessidade como uma ameaça e tem medo. Faz com que sinta desejos impudicos contra os quais não se rebela por achar que partem exclusivamente dela. violenta. Jamais mostra desejo ou urgência. de entregar-se. Percebe. não uso de violência para com você. descobrindo-se. 76  fala de sensações de que somente uma mulher é capaz de falar. hipnótica. regular. O inexperiente. desastrado. Sua voz é persuasiva. de excitar-se. Que se abra aos elogios. sem graça. a mulher percebe também a violência que ele exerce contra si mesmo. sabe sempre adiar sua urgência. O sedutor conhece e interiorizou as fantasias femininas (como a cortesã interiorizou as fantasias masculinas). O grande sedutor tem paciência. Torna sua a necessidade da mulher. Pede-lhe que se relaxe e ouça. Quando se entrega nem mesmo sabe por que o fez. de fantasiar-se. uma violência dupla. às suas fantasias. Sugere-lhe o que ela mesma gostaria de pensar para excitar-se. dar um passo atrás. A cada instante faz à mulher a promessa que todas elas esperam: “Não lhe peço para mudar. Dá voz às suas fantasias mais secretas e a ajuda a criar outras. uma urgência explosiva. contra o seu desejo. No tímido. de encantar-se. admirando-se. . Porque o tímido é portador de uma urgência sem palavras. não quero nada para mim”. A mulher o sente diferente. a violência da repressão. dá-lhe tempo de preparar-se. A mulher tem medo do tímido. às palavras sussurradas. fantasiando. O gaguejar do tímido o revela. alegre e impaciente como a amiga adolescente. dissolve seus medos e a leva a realizar o que a fez fantasiar. tal a naturalidade com que tudo aconteceu. A urgência do tímido é nua. ao contrário. cúmplice como o espelho. às carícias. tranquilizador como os pais. O grande sedutor situa-se no extremo oposto.

como o mal-educado e o inábil. A obscenidade é um convite recusado. Mesmo abandonando a mulher. desnudar o que está encoberto. Mas muito poucos conseguem isso. ilustrá-las. Como se algo lhe fosse tirado. E então tomada de cólera contra si mesma. O erótico é. Os homens não compreendem. em outra situação é galanteio. A mulher perdoa somente a quem não se comporta como um assaltante. uma pornografia pessoal. 11 1. uma desilusão. Pode-se considerar como grande sedutor somente aquele que sabe conduzir o jogo até o final. A pornografia é obscena porque faz isso de maneira errada e no momento errado. enquanto o homem experimenta um sentimento de liberdade e de sucesso. Nenhuma forma de erotismo cutâneo. Consequentemente. elogio. sente-se espoliada. a maior parte dos homens quebra o encanto. cinestésico. nenhum tipo de . Para o homem o relacionamento sexual é uma coisa importante. a mulher vive uma experiência de perda. e a mulher desperta sozinha. como se tivesse se deixado enganar. De outra forma. então. em geral. Satisfeito seu desejo. a maior parte das vezes. deve deixar sempre uma boa recordação de si mesmo. Mas o que então é considerado obscenidade. Se é aceito. Também o galanteio erótico ocasional é geralmente obsceno. 77  O erotismo é uma fantasia de identificação com as partes eróticas do corpo. porque se deixou levar. Precisa falar delas. um sentimento de rancor para com ele e para consigo mesma. Por que são tão intolerantes com eles e tão indulgentes com o grande sedutor. portanto. É um texto cujos protagonistas somos nós mesmos e em que ambos nos reconhecemos. por que as mulheres se sentem tão atraídas pelos salafrários. muscular. E experimenta. A confidência erótica — estabelecida tão depressa quanto um ato de hipnotismo ou uma língua comum — consente que se transforme a obscenidade em convite. ele tem necessidade absoluta dele. o mesmo discurso consiste em representar a si mesmo e ao outro da maneira mais excitante. entregou-se a quem não a merecia.

Já vimos. . continua a ter um significado para o imaginário masculino. na vida. A castidade. Não nos devemos admirar. mas poucos estariam dispostos a casar-se se não estivessem certos de poder fazer amor. A. 78  intimidade amorosa. Como observou Kinsey 44. Ao dar-se. E incrível a capacidade de memória 44 . com uma mulher diferente. prefere não ter relações sexuais. na convivência. filhos. Também aos homens essas coisas interessam. o relacionamento sexual é uma necessidade cotidiana no casamento. e por esse motivo foi imposta pelo bárbaro meio da castração. nenhum carinho tipo maternal é capaz de substituí-lo e diminuir-lhe a urgência. Kinsey: II comportamento sessuale dell’uomo. Para o homem. obsessivas. no início. que a experiência com ela possa ter um significado. Não é verdade que o sentimento dominante seja o orgulho por ter conseguido seduzi-la ou por ter conseguido humilhá-la. não se lembrará mais da corte. livre de responsabilidades. pagando-a. mesmo temporária. na verdade. Claro. os homens casados continuam a procurar as prostitutas. mas não têm a importância da emoção erótica de que estou falando. No homem a experiência sexual é importante. bens materiais e segurança. porque querem uma casa. 1950. Com o tempo. portanto. Para o homem. renunciar ao sexo é tão difícil quanto renunciar a comer ou a beber. até mesmo por meses e anos. que a prostituta satisfaz certas fantasias eróticas masculinas. A mulher não tem esse tipo de necessidade. Na realidade. até mesmo com uma prostituta. As dificuldades encontradas pelos ascetas e anacoretas cristãos não provinham da fome ou da sede. Quase sempre o fato é justificado por alguma incapacidade ou defeito da mulher ou da amante. o encontro erótico puro. Ele se lembrará somente do ato erótico. Quase todas as pesquisas mostram que. Bompiani. mas das fantasias eróticas contínuas. é muito difícil para o homem. as mulheres se casam porque desejam uma relação afetiva duradoura e estável com uma única pessoa. C. mesmo nos países em que houve a revolução sexual. a mulher provoca nele uma forte emoção. mesmo que se trate de um relacionamento ocasional. consequências. esses sentimentos existem. Se não encontra o homem que lhe agrada. Nem da história. julgado por si mesmo. Não se lembrará mais do pagamento. Milão.

essas fantasias masculinas não têm absolutamente nada de agressivo. Não a beleza do vestido em si. o alheamento. o momento em que ele viu nela a beleza. Nova York. depreciativo. Por isso. O homem se masturba evocando e elaborando fragmentos de experiências eróticas do passado. a lembrança erótica masculina se apresenta tão nítida como da primeira vez. o perfume. colocando entre parênteses uma parte dela. Ao contrário. dável. mesmo dez anos depois. quando alegre. o abraço. Principalmente porque isolam um fragmento do tempo contínuo. a mão que busca. agressivo 45. acompanhado da revelação da beleza feminina. É a mulher que as vive dessa maneira porque tem a impressão de que a mutilam. A intimidade. serena. para emergirem. Para o homem. a fonte de sua alegria. Porque a rejeição aparece na fantasia e a interrompe. Exatamente como se estivesse tendo a experiência naquele momento. A fantasia é também. O encontro amoroso. A imaginação visual reativa cada detalhe do encontro em todo o seu esplendor. mas a beleza do corpo que o veste. o homem fica perturbado. por mais tênue que seja. essas fantasias necessitam de um liame com a realidade. Mas é certamente comparável à da mulher quando se trata de relações sentimentais. se a mulher o rejeitou. produz nele um sentimento de simpatia. Se não conseguiu produzir a emoção contínua do amor. roubado à trama contínua do acontecimento. de reconhecimento. 79  erótica do homem. Porque são feitas sem a participação de sua vontade. Harper Cólophon Books. sempre. certamente conseguiu produzir algo de indelével no descontínuo. amigável. Algumas feministas criticaram esse comportamento considerando-o negativo. Mas. o estremecimento. e o homem o reviverá até o orgasmo. E é isso que é recordado. Com o passar de anos ou decênios. 1982. o sorriso. A mulher sabe disso. Revivem um momento descontínuo. o gesto convidativo. a fusão. ao contrário. Tudo o que a mulher colocou em sua sedução se encontra intacto na lembrança masculina. fantasia de cumplicidade. a fantasia é agra-. . e se 45 Susan Griffin: Pornography and silence. que realça na fantasia. emocionante.

Porque. Procura destruir qualquer traço do passado. aos seus olhos. ao imaginar que o homem se lembre da relação amorosa. Na mulher expressa-se como rejeição. imprime-lhe sua rejeição na mente. ainda que somente na fantasia. Dificilmente uma mulher poderia ter um sonho semelhante. 2. Se recorda as emoções do namoro quer dizer que ainda está enamorado. em menino. ao contrário. vira dançar na praia. mantém com ela um relacionamento amigável. naquele momento. ou que ele amou. separado do tempo. não consegue revivê-la. 80  quer ferir o homem. Tudo mais é anulado. torturá-lo. porque para ela é importante a continuidade da relação. . mais dia menos dia. porque. As mulheres se enganam. é para fazê-lo sofrer. tinha a ver com o erotismo. porém. Sobretudo os sentimentos. Desde a ex-mulher até a prostituta que. O homem que se cansou de uma mulher limita-se a ignorá-la. Se a mulher se apaixona por outro homem. Justamente porque se lembra do que é fragmento descontínuo. se fica com ele. do sofrimento do enamoramento. A mulher reprova o homem que não lhe agrada e quer anular sua presença. O fim de uma paixão é expresso pelo homem como puro desinteresse. Se. estes ainda podem desejá-las. No filme Oito e meio. A memória masculina é a do encontro erótico e daquilo que. diz-lhe o seu não com todo o desprezo. Por isso as mulheres sentem ciúmes das ex-amantes ou das ex-mulheres do homem. se reúnem numa grande festa. não suporta sequer ouvir sua voz. Nesse ponto o homem é exatamente como elas. é culpado por tê-la desiludido. como acontece com o homem. Manda-o embora e. o homem aceita seu passado erótico e mantém bons relacionamentos com as mulheres de sua vida. O homem sabe que. Quem não está enamorado não se lembra mais da experiência amorosa. Fellini imagina que todas as mulheres que o atraíram eroticamente. poderá renascer nele o desejo. o importante é o instante de prazer. a mulher encontrada uma única vez e aquela com quem passou toda a vida. a lembrança é conservada. não suporta mais o primeiro. Se ela não se intromete em sua vida. A mulher que se cansou de um homem não quer mais vê-lo em casa.

o pudor ou a impudicícia. ofende-se com essa fragmentação de sua pessoa. Não são os seus sonhos. a doçura. lembrase de forma indelével daquela experiência que parecia tão superficial. 81  Essa particularidade está ligada ao descontínuo. Conhecendo seus gostos e desejos. às vezes se cansa. obsessivo. paixões. É sempre ela que vive na recordação do homem. porque pode evocá-la no esplendor do momento erótico. a que se dedica com o mesmo afinco que dedicava ao do amor. uma perenidade. Dela o homem se recorda do erotismo. Porém nele estão as suas perplexidades. É então tomada de irritação. A mulher. o arrebatamento. Não quer lembrar-se dele e não se lembra. de cólera. não a interessa e que não se deitaria com ele por nada deste mundo. deseja a continuidade. Conserva apenas a lembrança de certos momentos eróticos. deixam-no exasperado. ao contrário. quer ir embora. conflito. visto que agora aquele homem não lhe agrada mais. diante de um paradoxo. não sabe que será lembrada nos menores detalhes e que por toda a vida aquele homem pensará nela com prazer. como se esfregava no sexo do homem. O homem se afasta mais facilmente. vinga-se com gestos rotineiros que irritam o homem. essa convivência se torna vida cotidiana. que tivera a impressão de ter sido largada como um simples objeto impessoal. como gritava de prazer. É um ritual de ódio. . Encontramo-nos. ânsias que são relembrados. porém. Evade-se nas fantasias. Da pessoa amada o homem tende a esquecer tudo o que foi sofrimento. vexame. Poderá voltar-lhe à mente inúmeras vezes. Entretanto. quando não ama mais. atinge-o de modo contínuo. a ingenuidade. fazendoo revivê-la com a mesma intensidade. Repugna-lhe ser lembrada na maneira como fazia amor. o frêmito. Para obtê-lo pede uma convivência que imagina saturada de erotismo amoroso. uma parte inconfundível e autêntica de sua personalidade. Não suporta bem a separação. pois. A mulher. Gostaria de um encontro sem fim. não deseja prolongar o abraço erótico. Quando. sentimentos. A mulher. desilude-se. Ao mesmo tempo.

o passado perde o valor e seu erotismo tende a tornar-se contínuo. A partir daquele momento a mulher não mais será capaz de evocar os encontros eróticos em todo o seu esplendor. o mesmo esquema foi de grande valia para dominar as . a ruptura com o passado ocorre também sem o enamoramento. Se o interrompe. a ruptura é total. constituída de uma sucessão de relações monogâmicas intercaladas de fases promíscuas de procura. de sua memória. Seu erotismo exige sempre a compacidade temporal. É a capa sob a qual se esconde o que seria realmente uma situação de promiscuidade. etc. cria uma descontinuidade radical. nojo. a perenidade do negativo. quando ele se enamora. na mulher. É uma nova era. precipita-se no descontínuo. essa compacidade pode ser realizada somente ao preço de uma descontinuidade mais radical. mas isso não tem mais nada de erótico. A recordação pode aparecer somente sob a forma de um desejo atormentado de recomeçar. Então. Mas. Um fenômeno semelhante acontece também com o homem. Ou então como recusa. Não podendo realizar o tempo erótico contínuo. E se começa uma nova relação erótica. também para ele. esta será caracterizada por um recomeço do tempo. O star system adotou-o para tornar moralmente aceitável ao público — particularmente ao público feminino — a anarquia erótica do mundo do espetáculo. 82  Quando chega a romper o relacionamento. Assim como antes queria a continuidade absoluta. O esquema temporal da vida erótica. O que antes era desejado é brutalmente apagado de sua vida. foi imposto sobretudo pela mulher. como faz o homem. vingança. agora quer a descontinuidade absoluta. É o produto de sua emancipação. Agora. Com a liberação sexual e a emancipação feminina. Há decênios que as estrelas de Hollywood levam uma vida caracterizada pela sequência casamento-divórcio-novo casamento-novo divórcio. Nos Estados Unidos esse modelo foi antecipado pelo cinema hollywoodiano. renuncia a ele. Antes era a perenidade do positivo. Se o faz é porque ainda se sente atraída por aquele homem ou porque ainda está lutando para separar-se completamente. Paradoxalmente. A mulher deseja um tempo erótico contínuo.

Ao mesmo tempo. separando sexualidade e amor. nu. colocando em discussão radical a ordem dos papéis masculinos e femininos em seu conjunto. As feministas. convidaram o homem a tornar-se como a mulher. cresceu a automação doméstica. e viu-o como a uma estátua que não quisesse . material. A mudança ocorreu. aumentou a conscientização feminina. A revolta explodiu inicialmente entre os adolescentes. o erotismo somente agora está despontando. da qual recordarei apenas alguns momentos literários. Então. O verdadeiro erotismo somente é possível quando cada sexo procura compreender o outro. apareceu o feminismo. A partir daquele momento. por exemplo. Um dos temas recorrentes da literatura feminina é o desejo de ter as mesmas reações eróticas do homem. para gozar sem amor. ambos os sexos começaram a estudar-se e a conhecer-se. que derrubaram as divisões tradicionais dos papéis desempenhados pelo homem e pela mulher e as separações até mesmo físicas entre os dois sexos. Olhou para o estranho estendido a seu lado. antes. Os adolescentes se reuniram em grandes movimentos e festas coletivas. diminuiu a natalidade. e afirmou-se como modelo dominante após o feminismo. Em seu belíssimo livro Uma espiã na casa do amor. até os anos 60 os dois sexos desempenhavam papéis diversos e rígidos. 12 1. como um homem. com a evolução da transformação. Antes cada um procurava impor o seu modelo ao outro. no plano econômico. Por isso. Salvo raras exceções. consegue colocar-se em seu lugar. Quando. tornar suas as fantasias do outro. Depois. com o desenvolvimento econômico. porém. veio-lhe à mente o que ouvira dos homens: ‘Depois eu quero ir embora’. Sem palpitações do coração. no Ocidente. Essa é uma história longa e fascinante. encontrando ídolos e mitos comuns. Anais Nin escreve: “Ela abriu os olhos para contemplar a alegria penetrante de sua liberação: era livre. livre como um homem. conseguira gozar com um estranho. elas próprias adotavam modelos masculinos. 83  tendências promíscuas dos anos 60.

Exatamente no momento em que Anais Nin nos diz que desfrutou a liberdade masculina do prazer sem amor. Erica Jong: Pára-quedas e beijos. . 46 47 Anais Nin: Uma espiã na casa do amor. fraudada. Queria afastar-se dele de forma clara e rápida. A separação realizada pelo homem. fantasiou continuamente a “trepada inconsequente”. caralhos estranhos. já traduzido no Brasil. é alegre. Pára-quedas e beijos. No último.. Também Erica Jong em seus dois livros Medo de voar e Como salvar sua vida. enganada. Aprendeu que não apenas o príncipe muitas vezes não chega. Gostaria que o homem de plantão fosse removido da sua cama como por magia. sem complicações. de apagar o mínimo traço do acontecido. humores e perfumes do corpo” 46. profunda e radicalmente feminina. Alguns são rosados. absolutamente ninguém. peles. a não ser por poucos segundos. tão ofensivo. como convém a uma divorciada da Nova York de 1984. Isadora não consegue passar a noite toda com eles. 84  tocar de novo. lá pelas três da madrugada — e assim não permite que ninguém. quase o desejo de retomar a doação que havia feito de si. outros ainda amarelos. “Corpos desconhecidos. Isadora... Mas.. De bani-lo de seu corpo. mas que muitas vezes quando o faz não consegue ter ereção. lança-se numa série de aventuras sexuais. quer tomar de volta o que deu. experimenta o desejo de dissolver o que estivera unido de modo tão impróprio. tem-se a impressão de que experimenta apenas raiva e cólera.. embora diga estar excitada. e cresceu nela algo semelhante à raiva. Chegou mesmo a pôr homens para fora da porta de casa em plena madrugada”. 47 “E o que aprendeu Isadora sobre os fusos mágicos.. Aprendeu que os passarinhos variam enormemente. ao arrependimento. dá-nos uma descrição exclusiva. o ato sexual como o homem o realiza. outros arroxeados. permaneça com ela até a manhã. ao contrário. seus hálitos. roubada. essa busca torna-se obsessiva. nesse período de sua vida? Aprendeu que pouquíssimos conseguem dar magia ou até mesmo esquecimento. abandonada por seu jovem marido. como já vimos. A protagonista do romance. desembaraçar e separar aquilo que por um átimo estivera fundido. A mulher que teve um relacionamento sexual sem amor sente-se.

digno de amar e ser amado apaixonadamente. enamoramento é uma coisa que não existe. um alemão belíssimo. 2. Não há um único instante de verdadeiro erotismo. A cada vez uma nova encarnação. como um quebra-cabeça espalhado. 85  marrons ou negros. alguns gotejam antes de esguichar. o guerreiro. até viver uma miríade de vidas. O livro é um grito constante de raiva na busca do homem ideal. revivia o fascínio de Wagner e de Siegfried. Identificava-se em cada novo amante. percebe que está se desintegrando. após inúmeras identificações eróticas. como uma contínua orgia de sexo repugnante. apesar de todas essas diversidades. as ilhas tropicais. belo. E. Anais Nin brincava com o amor. não masculino. estudou-o intencionalmente para escrever suas histórias pornográficas.” 48 O livro de Erica Jong transcorre todo nesse tom. Foi amiga íntima de Henry Miller e de Lawrence Durrell e vizinha dos maiores escritores de sua época. No primeiro. Na tentativa de ser como um homem. jovem. Em John. Mas isso porque Anais Nin a cada vez deve identificar-se a fundo. Mas não é absolutamente verdade. no entanto. A única que conseguiu realmente descrever um erotismo ao mesmo tempo masculino e feminino foi Emmanuelle Arsan. Nos livros de Erica Tong. uma coisa permanece invariável: não se pode amar um passarinho se não se ama também seu proprietário. Mas no final. Anais Nin compreende profundamente o homem. Mas. 48 49 Ibidem. Anais Nin: Uma espiã na casa do amor. deve pôr em jogo uma parte essencial de si mesma. Em Mambo. a atração da guerra e da morte. de conquistar a liberdade do homem. Alguns são cheios de veias como mapas lunares. avança tanto que o seu eu se dissolve. E isso é feminino. outros lisos como porquinhos rosados de marzipã. outros se recusam definitivamente a esguichar. . do qual cada peça tivesse caído tão longe que parecesse irrecuperável” 49. No final do livro a autora diz que Isadora o encontra. Compreende isso olhando os quadros de Jai: “Duas figuras explodiam e se fragmentavam em constelações. de machos que causam nojo. a música afro-americana.

Agrada-lhe sentir na mão o pênis do homem. do ponto de vista feminino. H.. Não existe jamais um sentimento.. a autora nos oferece uma série de emoções eróticas tipicamente femininas. a obra-prima que Lawrence 50 realizou do ponto de vista masculino: sentir o mundo com a sensibilidade do outro sexo e. consegue realizar.. avalia-o detalhadamente. Logo as pálpebras se fecham. 86  Nos trechos mais felizes de seus livros. sem uma única palavra. O amante de Lady Chatterley. em geral algumas dezenas de páginas. Tudo nela é sedução. A saia os deixou descobertos. nos cabelos. Quando seu companheiro de viagem entra. a mulher “sente um prazer quase físico ao simples pensamento de que todos os olhares se voltam para ela”. aprecia sua elegância e o cheiro agradável de sua pasta de couro. “Os dedos apertados de Emmanuelle subiam e desciam menos tímidos à medida que a carícia se prolongava ao longo do grosso pau intumescido. duplicando de volume. e as experiências descritas em detalhes são de uma mulher.” 52 O ritmo do homem é o seu ritmo. ao entrar na luxuosa cabine de primeira classe. inflamava-se e a cada instante parecia prestes a explodir. nos seios. Lawrence: Filhos e amantes. no ventre nu. Os joelhos de Emmanuelle estão à mostra sob o foco dourado de luz que se projeta sobre eles. mais uma vez. mas inteiramente nua. a glande. Emmanuelle Arsan: Emmanuelle. e os olhos do homem não os abandonam. não mais em parte.. uma emoção que vá além do imediato prazer presente. ao mesmo tempo. “Emmanuelle recebeu com uma estranha exaltação ao longo dos braços. Emmanuelle sente depois uma ponta de ciúmes quando vê a aeromoça roçar propositalmente num passageiro. Mulheres apaixonadas.. e Emmanuelle pode ver-se. abandonada à tentação dessa contemplação diante da qual sabe que estará. o seu prazer. os longos esguichos brancos e tipicamente odorosos 50 D. 51 . Como num clássico romance cor-de-rosa. torná-lo compreensível ao seu mundo. na boca. completamente indefesa 51.. Desde o início. 52 Idem. No livro Emmanuelle. sabe que perturbação são capazes de provocar. Emmanuelle oferece-se ao homem a seu lado sem que ele a corteje. de Emmanuelle Arsan. O prazer do homem. E no entanto aquele encontro casual é fonte de extraordinário prazer.

Não existe sentimento de culpa. das crianças. ativa e gulosa como uma boca. assim como está enamorada do marido.. ninguém se protege do contato com uma outra pessoa. Pela primeira vez. não existem 53 Idem. timidez. Ninguém tem medo. ao colo de seu útero. Milão. os filhos.” 54 Fantasias indubitavelmente femininas. Masculina também é a sua total indiferença erótica ao status social. Emmanuelle tinha imaginação suficiente para gozar ao pensamento do líquido cremoso aspirado pela abertura oblonga de seu útero. nem à dominação. com o marido. dos gestos. desde que era muito pequena. Bompiani. ao primeiro olhar. 55 Idem. unido a ela. ital. trad.” 53 Ou então em seguida: “O homem se manteve o mais fundo possível em sua vagina. Com o homem do avião. Emmanuelle possui uma sensibilidade lésbica. as crianças 56. como aquela que esperara desde sempre. no fim do mundo. com Marie-Anne. Também isso é masculino. E é sempre prontamente retribuído. No entanto. lágrimas verdadeiras. compassadas sob seu ritmo. à fama dos homens que encontra. sobre o sexo masculino. 54 . Mas também para os amigos. Ninguém jamais tende ao exclusivismo sexual. apaixona-se: “Parecia-lhe ter vindo àquela região. Isso faz lembrar o erotismo masculino. somente para encontrá-la. prestígio. duradouros. classe. perfeitas. os amantes. em que as mulheres são sempre imaginadas belíssimas. Onde quer que descubra a beleza dos corpos. para os amores superficiais. dos olhares. 56 Emmanuelle Arsan: I figli di Emmanuelle. Emmanuelle Arsan: Emmanuelle.. das mulheres. copiosas lágrimas escorrem pelo seu rosto 55. Emmanuelle tem um erotismo promíscuo. Está sempre total e incondicionalmente pronta a dar e receber prazer. no centro de seu espasmo. Em seu mundo também há espaço para os amores profundos. para o marido e para aqueles que ela chama de maridos. Quando surge a belíssima Bee. No mundo de Emmanuelle não existe a mínima hesitação em se tomar a iniciativa. 1980.. mas construídas sobre o corpo. Está enamorada de Marie-Anne. 87  que o membro enfim satisfeito jorrava. E a reconhecera imediatamente. Está sempre fascinada pela beleza dos homens.

e a promiscuidade convive. O erotismo corre em todas as veias. Não existe proximidade ou distância exageradas. com os sentimentos profundos. . Não existe cansaço. No total. homens e mulheres. Arsan nos oferece uma fantasia bissexual em que o erotismo se entrelaça com qualquer outra forma de amor. de jovens e velhos. Não existe nojo ou rejeição. Isto é. 88  inimigos. uma utopia. adultos e crianças. sem problemas.

 89  Promiscuidade .

Já vimos que. anterior à organização social e familiar. ou para com alguém que já conhecemos. 90  13 1. No curso da história. os nossos afetos. a promiscuidade é sempre um produto coletivo. Na realidade. Se cada um pode obter o sim de todos. É uma instituição estanque. superação definitiva da exclusividade e da possessividade de cada pessoa. O fim da atração erótica se apresenta como repugnância. a repugnância. uma recusa. Ou então como promiscuidade utópica. Todos estão à disposição de todos. Como promiscuidade original. Cessa a possibilidade de exprimir uma preferência erótica. a repugnância é próxima da atração e se amplifica como ela. Mas não se pode escrever um livro sobre o erotismo. uma forma específica de sociedade . Na orgia as ligações de amor e de exclusividade são temporariamente abolidas. A orgia somente é possível porque todas as nossas idiossincrasias. Segundo ideia corrente. descrever a repugnância. os homens desejam fazer amor com muitas mulheres e sem muitas complicações sentimentais. Por outro lado. as nossas repugnâncias são temporariamente suprimidos. Na orgia essa repugnância deve ser esquecida. A situação orgiástica não é um estado originário que a seguir é interrompido pelo processo de individualização e de escolha. em suas fantasias. um transbordamento desse tipo de desejo masculino. na rua. as nossas preferências. Percebe-se isso abertamente na orgia. Somente dessa maneira pode realizar-se o comunismo erótico: “Cada um dá de acordo com suas possibilidades e recebe de acordo com suas necessidades”. Não é absolutamente comparável à amizade-inimizade. a manifestação de uma prevalência da comunidade sobre o indivíduo e o casal. a promiscuidade foi o ideal mais ou menos manifesto da revolução sexual. a promiscuidade é um desenvolvimento. sem falar. muitas e muitas vezes foi discutido o tema da promiscuidade. Nos anos 60. os nossos ciúmes. um excesso. No mundo do erotismo há também o negativo. por outro lado deve também dizer sempre sim. Pode-se escrever um livro sobre a amizade sem falar na inimizade. A repugnância para com uma pessoa que vemos pela primeira vez.

de que participavam também as mulheres. Saggio sulla trance. Paris. porém. fenômenos religioso-culturais mais antigos que explicam o caráter violento do sacrifício. de René Bastide. Jaca Book. trad. está presente. 1980. Situações de promiscuidade exaltada e orgiástica surgiram em muitos outros movimentos 59. 59 Ver os inúmeros exemplos dados por Norman Cohn: I fanatici dell’apocalipse. 1982. ital. Milão. O todo. Knox: Illuminati e carismatici. Méridien Anthropos. Princeton University Press. follia. Paris. trance. como a proibição de ter sentimentos eróticos privados. Princeton. Também a orgia. com um início e um fim pré-organizados. Isso provavelmente pode explicar o fato de que todos os movimentos. de modo geral. Sogno. Nos movimentos e nos cultos dionisíacos 58 a orgia assumia o significado de fusão dos crentes com o deus. a fraternidade. Consequentemente. prevista antecipadamente e tem um início e um fim. nas grandes festas rituais. o comunismo. L'erotismo. e que conferiu certa importância à orgia sacra. em sua fase inicial. Jeanmaire: Histoire du culte de Bacchus. Segundo a nossa interpretação. com os seus limites e os seus egoísmos. sempre houve na história movimentos religiosos ou políticos que conferiram um significado especial ao estado orgiástico. Comunità. A orgia está estreitamente ligada à festa 57. Uma instituição em que se suprimem as regras da vida cotidiana e onde se realiza um estado de excitação coletiva. 58 Ver H. Particularmente Michel Maffesoli.. No passado. ver Gershom Scholem: Sabbatai sevi the mystical Messiah. na maioria das vezes.. II Mulino. 91  em que se realiza — em prazo determinado — o comunismo erótico. trad. Feltrinelli. 57 Quem teve o mérito de esclarecer esse ponto foi sobretudo a escola sociológica francesa. Ver também Ronald A. Payot. Porém. ital. Para ele confluíram.. essa anulação do indivíduo. no início. trad. em À sombra de Dioniso. 1975. nessa fase ocorre a comunhão dos bens materiais. trad. das quais sobreviveram o carnaval do Rio de Janeiro e a Oktober Fest de Munique. uma tendência à promiscuidade em quase todos os movimentos. porém. Milão. o movimento dionisíaco foi um verdadeiro novo culto religioso. de apartar-se da comunidade sob forma de casal. ital. Georges Lapassade. procurou encontrar no estado de excitação orgiástico-dionisíaco a origem da criatividade social. a Georges Bataille. se desenvolve dentro de uma festa. ital. Bolonha. Quase sempre.. geram um forte impulso para a fusão. 1974. Com um ritual de entrada e outro de saída. Sobre fenômenos de promiscuidade orgiástica no franquismo. 1970. Milão. 1951. talvez de forma negativa. Mas também nas festas particulares a orgia é. . no estado nascente. O erro de todos esses autores é o de confundir um estado de exaltação e de fusão efêmera com o estado nascente do qual falaremos no capítulo 22 deste livro.

Os casais poderão reunir-se de dois em dois. O tema do amor livre era amplamente difundido nos círculos anárquicos europeus do século XIX. se tornará. É principalmente Fourier. 1973. em 1849. Uma segunda onda de movimentos utópicos aconteceu neste século. por isso. onde todos os sentimentos e todas as percepções são exaltados e não perdem o vigor com o passar do tempo. uma sociedade da voluptuosidade ilimitada para todos. Francês Wright fundou Nashoba. sob forma de instituição. principalmente nos Estados Unidos. embora não seja proibido. às mais velhas. em Oneida. que dá grande importância ao amor livre. de fusão amorosa. 92  2. da pornografia 60 Ver Charles Fourier: Vers la liberte en amour. uma comunidade agrícola nas cercanias de Memphis. Na Harmonia será encorajada a prática do amor coletivo. Todos deveriam ser educados de. Por volta de 1840 chegaram aos Estados Unidos forasteiros que deram origem a uma dezena de comunidades eróticas. . A reunião de um número maior "dê homens e mulheres produzirá a orgia. em sua Harmonia. sem impedimentos 60. Em 1826. Foram muitos os movimentos que pretendiam realizar o comunismo erótico. Gallimard. forma própria e verdadeira de comunhão coletiva. uma instituição secundária. formando sextetos. A experiência mais duradoura foi a iniciada por John Humphrey Noyes. Harmonia é portanto. as jovens. O casamento. aquilo que ele chama de orquestras passionais. formando um quadrângulo erótico. Ele imagina coletividades de entusiastas. no âmbito de um processo mais geral de liberação sexual. Tara Fourier a relação entre um casal parece egoísta. octetos. nos anos 60. Gay Talese ilustrou-o muito bem descrevendo o nascimento da revista Playboy. Fourier preocupa-se com que todos possam beneficiar-se da riqueza amorosa. e que durou cerca de trinta anos. Também a Harmonia de Fourier é uma hipóstase do estado nascente. quatro em quatro. a fantasia de perpetuar. Paris. Ou então de três em três. As pessoas mais bonitas deverão dar seu amor às mais feias. Os filhos serão educados pela comunidade. perto de Nova York. modo a desenvolver seu erotismo desde a infância. o amor extraordinário dos primórdios.

fundada por John Williamson 61. Como exemplos temos as fundadas na Califórnia por Victor Branco. longos cabelos louros esparramados sobre as almofadas. gritos de êxtase. Quem frequentava Sandstone? Casais desejosos de escapar ao tédio do leito conjugal. seios generosos. Suspiros. 3. a de Twin Oaks. mamilos. distinguiam-se vultos na sombra. Ibidem. sobre almofadas espalhadas pelo chão. a cabeça de uma mulher que se movia para cima e para baixo sobre um falo ereto. mulheres cheias de energia erótica e que não tinham coragem de abordar um homem na rua. costas suadas e ombros. Iniciada como promiscuidade entre casais de conhecidos. pernas e braços entrelaçados. a comunidade agrícola de Lama. umbigos. mãos que agarravam. desenvolveu-se como comunidade terapêutica e utópica graças à chegada de intelectuais e sexólogos como Alex Comfort. no Novo México. Graças a Talese conseguimos uma documentação mais detalhada da ideologia e da prática da comunidade de Sandstone. murmúrios. de Oz. a comuna anarquista de Red Clover e a reichiana de Bryn Athin. no mesmo período. a tentativa de realizar um excesso de sexo sem amor? Não. os visitantes entravam num amplo local semi-escuro onde. . já traduzido no Brasil. a comuna hippy. Em Sandstone. surgiram muitíssimas comunidades com diversos graus de promiscuidade erótica. A promiscuidade orgiástica deve ser considerada como uma manifestação das fantasias eróticas masculinas. música transmitida por um aparelho estereofônico” 62. Eis uma descrição: “Descendo a escada coberta por uma passadeira vermelha. redemoinhos de carne unidos na cópula. A 61 62 Gay Talese: A mulher do próximo. Também na Europa. feministas como Sally Binford e sexólogos como Alex Comfort. fortes braços negros que seguravam quadris macios e brancos. 93  hard-core e das numerosas comunidades utópicas que praticavam a promiscuidade. mulheres divorciadas ainda não preparadas para um novo casamento. iluminados pelo reflexo das chamas da lareira. todas as noites era praticada uma orgia com função liberalizante. nádegas em movimento. risos.

Mesmo os fenômenos coletivos mais superficiais. e o culto ritualizado. mas não identificam um processo especial como o estado nascente. Todos os seus membros vivem uma experiência de fraternidade. 64 Ver Donata e Grazia Francescato: Famiglia aperta: le comune. as paixões individuais são reabsorvi. por si só. comum a ambos os sexos. o estado nascente tem muito respeito pelas preferências e afetos de seus membros. em atos eróticos. Isso porque nos movimentos históricos concretos eles aparecem misturados. Essa experiência de solidariedade. Existe no estado nascente uma expectativa ansiosa de acontecimentos extraordinários e. são quase uma elaboração 63 Já declarei que essa confusão é comum aos sociólogos da escola francesa. ao contrário. como o transe e a tendência à fusão de grupo são propriedades gerais do sistema nervoso central humano e não de um único sexo. dão pouca importância às ligações privilegiadas entre amigos ou amantes. Feltrinelli. e que se realiza somente quando o grupo anula a separação dos indivíduos. Mas eles podem acontecer sob certo impulso ideológico. em geral. Michel Maffesoli. Estes sofrem uma conversão e confluem para um grupo social dotado de altíssima solidariedade. por isso. O estado nascente é (como veremos num próximo capítulo) consequência de uma profunda mutação interior dos indivíduos. de amor. 94  tendência a entrar em estado nascente dos movimentos não tem nada a ver com masculinidade ou feminilidade. por seu entusiasmo. Eles se deram conta de que há uma diferença entre a fase inicial dos movimentos. anarquistas. de unanimidade.das pela coletiva. De modo geral. Não que as desprezem. Dois enamorados. de igualdade. Milão. As comunidades utópicas fourieristas. Mas tende a dar mais importância aos objetivos do grupo. de fraternidade não se traduz. a grande mutação da mente e do coração. agem como um indivíduo único. . como Roger Bastide. a festa e o transe. em determinadas circunstâncias. Georges Lapassade. Quem. entra separado é dominado pelo erotismo difuso do grupo. Georges Bataille. os sociólogos e psicólogos sociais os confundem 63. A situação orgiástica é uma forma bastante particular de erotismo. como muitas “comunas” saídas de 1968 64. 1974. É muito importante distinguir o estado nascente dos movimentos de fenômenos mais superficiais como a multidão. E é por isso que. absorvidos pelo estado nascente de grupo são vistos como uma unidade. até. Eles se amam verdadeiramente.

O comunismo. as danças. a orgia e o transe. é impulsionado até o comunismo erótico. que repete mais ou menos as observações de Le Bon. do outro. As pessoas entram para uma organização pelos motivos mais disparatados e depois deixam-se arrastar pela embriaguez coletiva erótica. E eis que então são favorecidos os estados de excitação coletiva artificiais. Fayard. seus rituais. L’âge des foules. porém. cria a energia para constituir a comunidade utópica. 1970. os rituais. Desde Gustave Le Bon: La psicologia delle folie. Maffesoli e ignorando totalmente o aspecto criativo dos movimentos. A um certo ponto torna-se instituição. 95  ideológica do estado nascente no sentido pan-erótico. Eles servem para atrair um público novo e conservar nos antigos fiéis a impressão de uma continuação do estado nascente. de um lado o estado nascente e. o problema proposto por Bastide. trad. Qualquer pessoa. mas que não pretende substituí-las. é um fenômeno temporário. L’abraccio delia folia. Na maior parte das vezes. até a fusão físico-erótica. Bataille. um ambiente propício. até o recente livro de Serge Moscovici. porém. algo que se justapõe às outras experiências eróticas. a multidão. II Mulino. define suas regras. a chama revolucionaria e utópica do estado nascente se apaga. a orgia e o transe são muito mais superficiais 65. sem compreender. uma atmosfera social excitada e o exemplo. a orgia constitui uma experiência à parte. Basta um grupo acolhedor. O movimento não permanece por muito tempo no estado fluido. É somente o primeiro que funda o movimento. as festas. a multidão. Longanesi. O estado nascente. . há uma relação sociológica precisa. tem uma probabilidade elevada de se deixar envolver pela excitação erótica coletiva. Com respeito ao estado nascente. Bolonha. 1984. Muitos dos fenômenos descritos por Talese são dessa espécie. a festa. põe-no a funcionar.. Exatamente como acontece nos fenômenos de contágio da multidão. Pouco a pouco. de uma perene revitalização do tempo divino das origens. Angela Mucchi Faina publicou uma resenha desse filão sociológico. restando a prática do encontro erótico desprovido de 65 Também sobre a multidão e a psicologia da multidão. uma escolha irreparável. Lapassade. Para desencadeálas não é necessária uma mutação interior. muito escreveu a escola francesa. Entre os dois tipos de fenômeno. sempre presente. se inserida apropriadamente no grupo. ital. Paris. 1984. a festa. numa manifestação esportiva. os estados de transe. colocando em evidência os comportamentos fanáticos e irracionais. Milão.

Também as mulheres participam desses processos coletivos e em geral o fazem com um componente erótico mais acentuado. Thrupp: Millenial dream in action. No primeiro caso. entre os franquistas 67. in The Messianic idea in Judaism. até excluir as outras e 66 67 Sylvia L. . é monógama e. No terceiro capítulo vimos que existem dois tipos de erotismo feminino. para a união física e mística com o líder. possessiva e ciumenta. o homem continua a desejar muitas mulheres. a mulher. contanto que possa estar próxima dele. a mulher procura o amor de um único homem. entrar em contato. sua tendência é a de aproximar-se dele o mais possível. um único homem. a dividir o amor do líder com outras mulheres. Pouco importa que o movimento seja político. Nas situações coletivas. Participar. que possa unir-se a ele. Gershom Scholem: “Redemption through sin”. Existia no movimento do espírito livre na Boêmia 66. religioso ou cultural. na comunidade de Oneida. nos movimentos coletivos. em geral. No outro cas o. a prostituição. dessa forma. É por esse motivo que ainda hoje. 1970. Nova York. Já vimos que o erotismo feminino é do tipo contínuo e que tende a evitar as diferenciações qualitativas. Mesmo aceitando as outras mulheres do líder. e existe na empresa Playboy de Hugh Hefner. Um individual e outro coletivo. reduzido a espetáculo ou. para a mulher. 96  qualquer energia criativa. significa também sentir. ela se abandona ao grupo que a arrasta para o seu centro e. viver eroticamente. Nesse caso dispõe-se a fazer parte de um harém. o líder e seus sequazes diretos monopolizam todas as mulheres da comunidade. beatos. amar. na seita de Ron Hubbard e na de Bhagwan Shree Rajneesh. encontramos líderes carismáticos — políticos. gurus. mais acertadamente. 14 1. Schocken Books. Em alguns casos. O fenômeno não se modificou no decorrer dos séculos. intelectuais — cercados por um harém potencial de mulheres fascinadas e eroticamente disponíveis.

Sonzogno.. homens e mulheres não se podem amar porque as mulheres buscam um ideal que nenhum homem 68 69 Simone de Beauvoir: O segundo sexo. Fica indignada pelo fato em si.. no momento em que ele pousa os olhos em outra coisa que não seja ela. a ausência do amor é sempre uma tortura. divorciar -se e procura um outro homem. Pára então de acreditar no amor e se dedica ao feminismo militante. por um instante que seja. Milão. 2... Na tradição americana. No livro Mariti e no 69. Falando do exclusivismo feminino.. mas quando obtém o que deseja fica satisfeito. desilude-a.. A mentira significa que apesar das promessas ele continuará a ser mulherengo. torna-se ciumenta. Jackie Collins nos apresenta uma mulher belíssima que surpreende o marido fazendo amor com outra. Para ela. trad. a ausência e a infidelidade. Abandona-o e é atraída por um escritor célebre e fascinante. 1984. O ciúme é para a mulher uma tortura insuportável porque é uma contestação radical do amor: se a traição é certa.. Não há grande distância entre a traição. é o guarda do cárcere”. Irrita-se se os olhos do amado se voltam. Encontra um famoso astro de televisão e vai viver com ele em Los Angeles. Em qualquer harém há sempre uma forte competição entre as mulheres para monopolizar os favores do marido. este só gosta de moças muito jovens. Mas também ele tem o vício do ex-marido. .. É a mulher que tem a tendência a sempre pôr as coisas em termos de tudo ou nada. é preciso ou renunciar a fazer do amor uma religião ou renunciar àquele amor” 68. tudo o que ele olha o afasta dela.. Sua tirania é insaciável. porém mais ainda porque o marido mentiu.. ital. Infelizmente. Em muitíssimos livros de autoras contemporâneas.. Decide. para uma estranha. mesmo a mais leve infidelidade era razão suficiente para um divórcio. enquanto não existem limites à devoção cheia de exigências da mulher. Jackie Collins: Mariti e no. No momento em que se sente mal-amada. 97  tornar-se a única. Nada diferente do que ocorria nas cortes com relação ao rei. Simone de Beauvoir observa: “O homem apaixonado é autoritário. O aspecto individual e o coletivo do erotismo feminino são tão diversos que dão a impressão de confusão. E continua: “Sente-se sempre em perigo. portanto.

Nos grupos mais flexíveis e. de sua unidade e de sua permanência. O homem. Se um se retira. a mulher é de tal forma possessiva? Por que. Ponham em funcionamento. No casal não há centro. . Com uma única exceção: o líder. ambos são indispensáveis. No casal nenhum indivíduo é substituível. Se a mulher quer a unio mistica com a coletividade. Os dois indivíduos estão totalmente submetidos à vontade um do outro. a identidade coletiva. quando faz parte do casal deve querê-la com aquele único homem e tem necessidade de sua presença contínua. Os homens não estão à altura dos valores femininos. ao mesmo tempo. O líder é. é o mesmo tema dos filmes de Von Trotta ou de Fassbinder. uma experiência coletiva qualquer. nada? A explicação pode ser encontrada somente tendo presente que a plena satisfação emotiva e erótica pode ser realizada tanto no nível do casal. individual e coletivo. uma crença. em particular. Essa é a razão da monogamia. possui uma existência além do indivíduo. total. se divorcia? Por que não o divide com a outra numa tranquila bigamia? Por que. Por isso a mulher é obrigada a ir deixando. todos os homens que lhe agradam. num casal. da exclusividade. essa mesma mulher ciumentíssima aceita depois fazer parte de um harém e não sente mais nenhum ciúme. Aliás. uma seita. Casal e comunidade são duas comunidades auto-suficientes. ao contrário. a comunidade. quanto no nível coletivo. porque não sabem amá-la da maneira que ela desejaria. nobilíssimo. Na união com ele qualquer outra relação se torna destituída de essência. isso é feito com o outro indivíduo. no casal. O casal somente é completo se dele participam ambos os componentes. O grupo. se seu amante ou marido faz amor com outra. porém. não. finalmente. um movimento. não se perde com a saída de um membro ou de qualquer membro. desaparece. A mulher é capaz de um amor sublime. A mulher quer ser parte de um todo e o todo. ela perde a cabeça. Quem conseguir identificar-se com ele não necessita mais de nenhum indivíduo em particular. Por que. um após outro. 98  consegue realizar. Porque o líder é um símbolo da comunidade. nas comunidades utópicas. não há líder.

longe do homemdeus. No lugar da fusão com a totalidade social através de seu líder. no caso o chefe. A fusão com o centro fascina-a irresistivelmente. se o centro desaparece. por volta de 1870. A mesma jovenzinha que. como aparece no livro de Talese. ciumenta. Na comunidade de Oneida. o ator é o centro. mas dois esquemas intercambiáveis: um individual. Fora do harém. de entusiasmo. 99  artística. Se a coletividade se dissolve. a segurança econômica. genitais. contanto que isso aconteça numa comunidade onde haja elevado grau de fusão. o outro coletivo. e logo a mulher quererá fundir-se com o centro. aquelas mesmas mulheres que tinham sido felizes no harém do guru tornaramse monógamas. seios e pele. Todos os romances cor-de-rosa. A história de Hugh Hefner com Barbi Benton em Los Angeles e Karen Christy em Chicago. Dedicava-se inteiramente ao marido e exigia dele uma dedicação total. coisas que àquela altura já podiam ser conseguidas no casamento individual. quando se trata de um herói. A mulher aceita a poligamia e a promiscuidade. teatral. as mulheres que antes pertenciam a todos e faziam filhos com todos (mas principalmente com o líder). A mulher do próximo. se atiraria na cama de seu artista preferido não suporta que seu namorado olhe para outra mulher. Por isso devia excluir completamente aquela promiscuidade que antes era obrigatória. a mulher tornava-se exclusivista. quando as coisas começaram a andar mal. Então. o herói é o centro. apelam para essa dimensão coletiva do erotismo feminino. Não há portanto um esquema único. sentirá atração erótica por ela. Mas também o casal devia ser uma totalidade. religiosa. não suportava a infidelidade. torna a emergir a dimensão rigorosamente individual. até mesmo fisicamente. procuraram a fusão com um único companheiro. Dioniso não é apenas macho. mostra-nos um caso em que a poligamia não é mais aceita quando foi prometido um . se pudesse. O grupo já não lhes dava o abraço. E se no centro estiver uma mulher. pelo seu corpo. a certeza do futuro. o amor. começaram a querer se casar individualmente. de participação. O líder é o centro. política.

Ele só encontrou a paz deixando ambas e retornando ao antigo esquema poligâmico. ‘dom Juan’ 70. outros. O mecanismo é tão elementar que resulta incompreensível. trad. sem fazer mais exceções. Colette nos comunica essa impressão: “(As mulheres) o apontavam: é tudo o que posso dizer. de rainha. Milão. E no âmbito dos fenômenos coletivos que podemos encontrar explicação para o fascínio de dom Juan. São épocas aristocráticas. Milão. Colette: II puro e l’impuro. ao contrário. de esposa. Hefner teria podido deixar as duas mulheres junto com as outras no harém de Chicago. de favorita. 1980. exclusivos. 3. sabe como seduzi-las. Este conhece a arte de conquistar as mulheres. Entre Damien e as mulheres não havia o menor traço de diplomacia. ital. Não devemos porém confundir dom Juan com o Grande Sedutor. uma vez adquirido. 100  relacionamento privilegiado de casal... atraindoas somente com a sua presença. de vez em quando. amo somente a você”.. Dom Juan. Quando se tratava dele. trad. ital. foi considerado irrenunciável. travando uma luta mortal contra a outra para ser a única mulher. Adelphi. A essa categoria pertencem os papéis de rei. dá status. dando a impressão de magia. A posição de concubina. Hefner havia criado um papel exclusivo. o divino Hugh Hefner. Esse estado. Ambas teriam aceitado e considerado uma honra serem chamadas a dividir o leito do grande chefe. Alguns desses status são partilháveis. Adelphi. Mas este. conquista todas mesmo não fazendo nada. Foram aquelas mulheres que o indicaram a mim e sem elas não lhe teria dado seu verdadeiro nome. Era quando muito uma questão de ‘palavra mágica’” 71. a ponto de dar a impressão de que não o viam. Dissera a cada uma: “Você é a melhor. 1980. . comportara-se como monógamo. 70 71 Colette: II puro e l’impuro. ao contrário.. Começamos a compreender o que seja esta “palavra mágica” se recordamos que o mito e a figura de dom Juan pertencem aos séculos XVII e XVIII. As duas mulheres não quiseram mais abandoná-lo. Cada uma delas sentiu-se rainha. antes com uma e depois com a outra. de primeira mulher na poligamia e de mulher monogâmica no casal. logo tomavam um ar de sonâmbulas e se teriam ferido contra ele como contra um móvel. um homem a quem as mulheres não conseguem resistir.

do duque de Nemours 72. O segredo é o mesmo que funcionava no tempo da princesa de Clèves. Nas lésbicas. cit. ao contrário. Jean Cavailhes. 101  dominadas pela vida da corte. do melhor. o homem rico. é mais ligado ao sexo masculino. A palavra mágica é a fama. mas em público. Não em segredo. Por isso milhões de americanos o invejaram. atraente. Fez de si mesmo o perfeito playboy. A fama é a “palavra mágica” que Colette procura. em ter relacionamentos sexuais com muitas pessoas. ao contrário do primeiro. De fato vamos encontrá-lo com muito mais frequência nos homossexuais masculinos. os afetos são muito mais estáveis havendo possessividade e exclusividade muito maiores 74. A fama que anuncia. Persona. Choderlos de Laclos: As relações perigosas. F. E as mulheres são atraídas para ele como as mariposas para a luz. o dom Juan absoluto. naquele tempo. ou do visconde de Valmont 73: a fama. 73 . 15 1. mesmo que isso seja perigoso. Ed. famoso. Hugh Hefner captou o segredo. Existe um tipo de promiscuidade que não se realiza na orgia. A princesa de Clèves. que chama. do vencedor que gera o vórtice coletivo. 74 O fenômeno já fora constatado por Havelock Ellis e confirmado por pesquisas mais recentes. Mas seria um erro pensar que tenham sido atraídas apenas por um possível sucesso cinematográfico. que dá valor. pelas bisbilhotices e pela fama. No mundo moderno o equivalente de dom Juan é o playboy. porém. por isso milhões de mulheres se prontificaram a partilhar sua cama e aparecer em sua revista. Na sua revista mostrou nuas. todos os meses. que passa seu tempo conquistando mulheres. que torna irresistível seu portador e que se transmite à mulher que se une a ele. o escândalo possam ser mortais. mas que consiste na recusa de um único objeto de amor. a irresistível atração do primeiro. Mesmo que o risco. Esse tipo de promiscuidade sexual. as mulheres que faziam amor com ele. 72 Mme de La Fayette. na indistinção dos corpos. que. Paris. na facilidade de passar de um para outro. Pierre de A. tanto podia ser militar quanto erótica. 1984. Pierre Dutey: Rapporto gay.

. uma figura digna de ser invocada. em particular. ital. a exclusividade monogâmica. trad. Este assumiu a forma “de filiação a uma espécie de sociedade secreta. tenha sido de fato conseguido junto a jovens rapazes homossexuais” 76. W. cada sexo leva ao extremo algumas das próprias fantasias eróticas mais específicas. Mas nos tempos modernos os homossexuais masculinos constituem uma 75 "Scelta sessuale. em termos sociológicos. Peltrinelli. a propósito disso: “Há um bom motivo para se acreditar que o legendário número de conquistas de dom Juan. o afeto persistente. devemo-nos lembrar da célebre definição da homossexualidade dada por Roland Barthes: “Uma deusa. 1984. entre as lésbicas. Omosessualità. Larry David Nachman observa. no homossexualismo. 76 L. A consciência homossexual — observa ele — inclui o conhecimento de saberse membro de um grupo social particular. D. Nachman: Genet: dandy di piü profondi abissi. 102  Em uma recente entrevista Michel Foucault disse que a promiscuidade no homossexualismo masculino é o resultado da repressão do homossexualismo e. Não foi possível desenvolver uma cultura do namoro — observa — porque havia a necessidade de esconder e a urgência de concluir. ou ainda de pertencer a um bloco da humanidade ao mesmo tempo privilegiado e perseguido”. como com a prostituta. Omosessualità. sem namoro. Na mulher.. W. Milao. a sua entrevista nos indica também um caminho mais promissor. como na pornografia. em AA. ou de participação de uma raça maldita. . É uma imagem do mundo religioso e. segundo o preciso catálogo de Leporello. o erotismo imediato. com centenas de parceiras diferentes em um ano. Elas não têm cinco ou seis relações sexuais com parceiras diversas por dia. em AA. atto sessuale”. do coletivo. um caminho de intercessão”. Tem-se a impressão de que. Por outro lado. se a explicação dada por Foucault sobre a promiscuidade é inconsistente. Nos homens. No entanto. do namoro 75. entrevista de Michel Foucault a James 0’Higgins. No entanto. não existe essa promiscuidade. Talvez no passado não fosse assim. Talvez aqui deva ser buscado o significado da promiscuidade: como uma forma de fraternidade erótica dentro de uma comunidade dotada de valor.

Omosessualità. e sem ferir demais as regras de fraternidade. e o 77 78 Paul Robinson: “Caro Paul”. Ao contrário. deve ingressar na vida gay aceitando suas regras de promiscuidade. quando já estiver certo. o sexo vem antes do amor. No ensaio “Caro Paul”. O aluno. portanto. em geral. no mundo gay. No seu ensaio sobre Whitman. os gays se encontram com frequência no mundo literário. Talvez a promiscuidade gay seja apenas uma das formas do comunismo utópico. O aluno lhe diz que se apaixonara pelo companheiro de quarto e sofrerá uma grave desilusão. E lhe vem à mente a expressão “práticas solitárias”.. E é também obviamente possível o enamoramento exclusivo. em AA. coletiva. O chamado. o “chamado” homossexual. 103  comunidade em que se entra por revelação e iniciação. que se façam experiências eróticas quase impessoais. . a distribuição dos bens em comum caracterizam qualquer comunidade utópica. banal. De fato. para indicar suas atividades de pesquisa solitária. intelectual 78. a acolhida. os grandes metafísicos. em AA. que se frequentem determinados bares. George Steiner observa que os grandes matemáticos. onde surgem comunidades culturais. Essas observações nos trazem à mente de forma preponderante os processos coletivos. os artífices do contraponto não foram. romântico. Mas nesse caso o casal deve defender-se do comunismo de grupo. W. deve antes de mais nada reconhecer em si a vocação. W. de sua poesia. Depois. Somente depois de muito tempo poderá realizar também uma experiência de amor individual. Mas depois. Um comunismo requerido por uma comunidade sem hierarquias e sem qualquer outro objetivo além de dar e receber erotismo.. A estrutura da vida gay exige que se ponha de lado o romantismo. homossexuais. E este é também um mundo agitado por movimentos sociais. monogâmico. George Steiner: “Al posto de una prefazione”. Omosessualità. de Paul Robinson 77. julgada prosaica. grupos que se contrapõem à sociedade existente. O professor lhe explica que errou ao procurar imediatamente o amor. um professor leva um aluno a reconhecer a própria homossexualidade. É claro que nessa comunidade podem formar-se amizades exclusivas. Calvin Bedient sublinha a dimensão erótica difusa.

até chegar ao exclusivismo amoroso do enamoramento. Temos. do comunismo utópico do movimento. entre nós.. a atenção que cada uma dedica às outras pode perfeitamente substituir um relacionamento amoroso. porque o erotismo feminino é basicamente diferente e não põe à disposição de todos o que não deseja. mas. O líder masculino sente prazer em ser o único a ter relações amorosas com muitas mulheres. isso não acontece. 1984. mas apenas um primado afetivo. para uma vida passada inteiramente entre camaradas 79. Seuil. mais exatamente. Quanto ao lesbianismo.. delineiam-se as individualidades. Omosessualità. Falando de uma comunidade de Berlim. em AA. compreende-se sua presença na koinè grega e nos exércitos. . Ou. somente então. Paris. Por isso é difícil traçar uma fronteira entre o que pertence à amizade e o que pertence ao sexo. Tem-se a impressão de que nossos sentimentos e sensações se fundem uns nos outros. porém. com seu comunismo erótico e então. Diferentemente do que acontece nos relacionamentos heterossexuais. com a líder feminina. Essa ternura permitiu-me viver durante quatro anos sem ter uma relação de amor com uma mulher. uma ternura corporal. Se a promiscuidade homossexual masculina é uma manifestação do erotismo coletivo. W. as amizades profundas. E eu não sofria com isso. 104  chamado para o amor. de tipo masculino. não se consolida uma estrutura de harém. ao corpo. Aqui. do chefe sobre as outras mulheres. Uma parte do feminismo tornou-se movimento lésbico tout court. materno. No movimento lésbico. Evelyne Le Garrec: Des femmes qui s’aiment. uma líder indiscutível. quando há uma figura dominante. sua natureza de movimento é tão forte como o que tratamos. A irmandade lésbica desenvolveu-se mais sob forma de intimidade amorosa de pequenos grupos e de valorização do seu próprio caráter extraordinário e exemplaridade. O movimento se 79 80 Calvin Bedient: “Walt Whitman: sorvechiato”. uma mulher observa: “A ternura. em primeiro lugar está a solidariedade coletiva com seus direitos e deveres. Era uma doçura continuamente presente” 80. o comunismo utópico não se realizou na promiscuidade sexual orgástica.

O que não deu certo nas comunidades utópicas heterossexuais funcionou nos movimentos homossexuais. Valores que são comuns aos que pertencem às comunidades gay. Enquanto não se encontrar um medicamento capaz de debelar a AIDS . a partir da Playboy. a misturar erotismo e trabalho. as responsabilidades familiares. uma solidariedade gay como prática de vida. 105  estrutura na forma de pequenas comunidades do tipo descrito ou de casais monogâmicos. mais feliz. bairros gay. ameaça que poderá . depois se desintegravam. ela será uma ameaça ao próprio cerne do comunismo erótico. Porém. A ameaça surgiu com a difusão da AIDS . seitas ou escolas psicoterapêuticas contemporâneas são formações coletivas com grande permissividade erótica. espalhou-se em nome da liberação sexual como promessa de uma humanidade mais tranquila. foi tentado por numerosas formações coletivas. dessa forma. utopia operante. tanto no passado como em época recente. Essa forma de vida pareceu aos seus adeptos um ideal a ser proposto também aos outros. nasceu um modo de vida gay. ao compromisso de oferecer-se a todos porque todos se oferecem a nós. Muitíssimas comunidades. quase todas essas comunidades ou escolas. Nos anos 60-70. a facilitar todos os relacionamentos. A revolução sexual dos anos 60-70 realizou-se através de um certo número de movimentos. torná-los mais velozes. O desejo de variedade erótica conduz ao comunismo erótico. Não existe a tendência a procurar eroticamente o único. que se torna mais virulenta exatamente por intermédio dos relacionamentos promíscuos e que. o líder. tiveram vida breve. como vimos no capítulo precedente. Hoje a comunidade gay está sofrendo uma ameaça. A própria pornografia. erotismo e inteligência. o centro. Esta não podia brotar de nenhum fator social. O comunismo erótico. Duravam até que um líder masculino lhes dava uma estrutura de harém. Mas também no homossexualismo masculino a promiscuidade não produz o modelo harém. A nossa sociedade tende a reduzir a natalidade. sem necessidade nem mesmo de um grande aparato ideológico. põe em discussão o valor utópico-salvífico da promiscuidade.

Com a revolução . a sociedade americana era uma sociedade de casais. malvistos. Esse exemplo parece contradizer frontalmente nossa tese segundo a qual a promiscuidade só pode ocorrer dentro de uma comunidade onde haja uma forte ligação de solidariedade. os que preferiam viver sozinhos para serem mais livres. os bairros gay. Entre os gays esse liame formou-se na época em que eram discriminados e até mesmo perseguidos. o divorciado.sexual e a crise da família. profissionais liberais. e assim por diante. não eram convidados para jantares ou festas. Assim. mas não é assim. porto riquenhos. cresceu o número de separados. O solteiro. status social e pedindo-lhes que se associassem. a sociedade praticamente os obrigava a casar-se ou tornar a casar-se no menor prazo possível. A sociedade americana sempre controlou suas tensões internas mediante o mecanismo do isolamento. sempre tiveram de proteger-se de uma sociedade hostil. formou-se nesses últimos anos uma outra modalidade de promiscuidade heterossexual constituída de “sozinhos” (singles). isto é. À primeira vista. 2. a solteira. eram até temidos. Até os singles foram levados a juntar-se para se casarem entre si sem perturbar o sacrossanto lar dos outros. profissão. sem obrigações. A cidade americana é dividida em áreas sociais segregadas: os bairros negros. como os gays. homens e mulheres que vivem sós. bares. Mas onde encontrar um novo cônjuge numa sociedade formada exclusivamente de casais? Só havia duas alternativas: tirar o marido ou a mulher de outra pessoa ou casar-se entre si. Sua própria existência constituía uma ameaça aos casais oficiais. alguns com mais de um divórcio nas costas. Ele têm seus próprios locais de encontro. hoje os . divorciados. principalmente americanas. em geral. o caso dos singles é totalmente diferente. a desquitada eram indesejáveis. Aliás. discotecas. Com isso. estão certos de encontrar outras pessoas livres como eles. 106  fazer desmoronar todo o alicerce social sobre o qual ele foi construído. Nas grandes cidades. Também como comunidade utópica. italianos. onde. classificando as pessoas por grupo étnico. a cidade universitária. Até vinte anos atrás.

Têm locais de encontro determinados onde sabem que serão abordados para um relacionamento erótico e sabem que devem comportar. o caminho da felicidade e d a . Tanto uns como outros sempre conviveram normalmente com as outras pessoas. negros ou portoriquenhos.se segundo determinadas regras de etiqueta. elas constituem uma comunidade com códigos de comportamento próprios. Sobretudo onde ser uma pessoa só. Isso não significa que a moral européia seja mais rígida. Entre esses dois extremos existem todos os graus intermediários. Por esse motivo não desenvolveram um forte espírito de grupo. vivem sozinhas. No passado. Além disso. Na Europa. Principalmente nos Estados Unidos. uma pessoa não casada. mas não bairros gay. Ela é certamente menos uniforme. o mecanismo social da segregação jamais funcionou. Nas grandes cidades. Nos Estados Unidos. enquanto os solteiros e solteiras jamais foram considerados um perigo para os casados e jamais foram discriminados. Nas cidades européias. Existem comunidades gay. Nessa comunidade. Também a ética erótico-sexual dos singles não se tornou tão permissiva como aconteceu nos Estados Unidos. Significa mostrar o caminho aos outros. deve aceitar o nível de promiscuidade. Não há pressão social alguma que a constranja a adaptar-se a um padrão. divorciada ou solteira pode mudar seu comportamento. 107  “sozinhos” não são mais temidos como no passado. Há mesmo quem preveja que no futuro a sociedade será formada essencialmente de pessoas que. agir um pouco de um modo e depois de outro. as regras sexuais foram profundamente influenciadas pelo modelo da promiscuidade homossexual masculina. o número de separados e divorciados era irrelevante. a forma de sua organização traz ainda a marca da época em que eram discriminadas e obrigadas a formar um grupo entre si. um solteiro é obrigado a adequar-se às normas permissivas do grupo a que pertence. Também nas comunidades dos “sozinhos” a difusão da AIDS está provocando um pânico difuso e uma confusão cultural. e em particular na Itália. Ele pode decidir trocar de cama a cada noite ou ficar só até encontrar a pessoa que ama. livre sexualmente em uma sociedade promíscua significa pertencer à elite que prefigura o amanhã. não. Porém.

Em qualquer lugar domina a regra do custo. Numa transação econômica todos devem procurar ganhar. Cada novo recém-chegado não é mais um irmão a se conhecer sexualmente. cada opção. com o passar dos anos. motivo pelo qual o problema se resume apenas à forma de obtenção de tal coisa. Qualquer outro fim não pode nem ao menos ser levado em consideração. somente o meio o é. cada pensamento. o que está por trás de cada ação. a se iniciar nas alegrias da liberdade. ao erotismo. transforma num perigo o instrumento fundamental da redenção. No universo econômico o fim é claro: maximizar o lucro. No voluntarismo. o centro intelectual e erótico do movimento. um inimigo. é um modo de pensar. um princípio lógico que encontramos em quase todos os produtos da cultura americana. 108  liberação. É o dinheiro que torna comparáveis objetos. prazeres heterogêneos. o fim não é um problema. Ao se pretender aplicar o princípio da maximização. os empestados. tornou-se cada vez mais voluntarista. 16 A sociedade americana. é um perigo em potencial. aos sentimentos. A ideia central do voluntarismo provém da economia capitalista. o primeiro passo consiste em estabelecer o fim. Em economia o fim é determinado. serviços prestados. E os lideres do grupo.benefício. correm o risco de aparecer como a fonte máxima de contágio. A sociedade americana aplicou esse tipo de categorias econômicas a todos os âmbitos vitais. Ele parte do pressuposto de que as pessoas podem sempre definir claramente o que desejam. O voluntarismo não é uma filosofia . aqueles a quem se deve evitar com horror. Por isso o imperativo categórico da sociedade americana. Até às relações interpessoais. destrói a solidariedade da comunidade. . é irracional. é: fixe o fim. o dinheiro. Isso é possível porque existe uma medida comum do valor. estabeleça o que quer! Uma vez estabelecido o fim. A doença que se propaga justamente através da promiscuidade mina nas próprias raízes essa crença ideológica.

Basta saber o que se quer. os pares casados? Não ser ameaçados pelos solteiros. Então que se reúnam entre si! Que vivam no mesmo bairro. de mulheres. os não casados? Encontrar-se. 1975. não aceitar o modo de vida gay. assim poderão fazer amor até cansar. Como num grande. o que se quer. estar obcecado pelo 81 Um típico manual desse gênero é o escrito por Marie Edwards e Eleonor Hoover: The challenge of being single. O que desejam. segundo a qual nós jamais sabemos direito quais são os nossos fins. 109  predispõem-se os meios organizadores. New American Library. ler alguns livros apropriados 81 e esperar "pelo resultado. O que desejam. Isso é voluntarismo: determinar sempre. não obstante. Quer ser gay. Nova York. paixões divergentes. finalmente. No oposto do voluntarismo americano está a concepção européia. O verdadeiro problema surge. deverá procurar seu grupo. Mas uma pessoa pode sentir-se homossexual e. imenso supermercado. Por que deve fecharse num gueto e aceitar as regras gay? Sim. Muito bem. O que desejam eles? Fazer amor com outros homossexuais. casado ou solteiro? Quer ter um romance ou uma experiência orgiástica? Quer ser monógamo ou polígamo? Uma vez determinado o que realmente quer. Pode desejar a companhia de amigos casados. em vez disso. Pode gostar do bairro em que vive. . vai-se à seção adequada e se procura a melhor marca ao preço mais conveniente. Então que se unam aos outros solteiros e façam todas essas coisas. procurar a alma gêmea ou então fazer amor. não os convidem para suas festas. o ambiente humano e social tradicional. mas viver como gay. Apliquemos esse princípio aos homossexuais. técnicos e financeiros mais idôneos para atingi-lo. Então deixem-nos fora do seu ambiente. desde o início. Quer ser homossexual? Então vá viver numa comunidade gay. diz o voluntarismo. comportado e rico de sua cidade. pode detestar a promiscuidade. o estímulo da diferença. portanto. Deve haver bares onde procurar companheira por uma noite. pelos divorciados. ele se sente homossexual. Porque temos desejos conflitantes. no início. outros onde encontrar a alma gêmea.

de sonho e de amor. uma técnica de relações afetivas. Ou então. uma inquietação que nos faz procurar em cada pessoa que encontramos aquele ou aquela que mudará a nossa vida. a vontade se condena a não encontrar nada. não se pode aplicar o cálculo dos custos-benefícios. Somos casados. Porque aquilo era um sonho. Questione di giustizia. atores caracterizados sobretudo por poderem ter fins em geral. O fim não é algo de pacífico. espantados. mas sentimos. Eles se revelam durante as ações. A nossa razão não conhece as raízes dele. não por terem um fim determinado". que ajuda a ouvir e a ouvir-nos. que não queremos mais saber do amor. em determinado momento de nossa vida. não sabem exatamente o que querem. Se decidem maximizar algo. às quais não quer renunciar. devem fazer uma escolha arbitrária entre muitas coisas equivalentes. E que temos necessidade de liames profundos. Porque os benefícios não são mensuráveis e não podem ser confrontados. O fim é um problema 82. Não são um a piori com respeito ao qual todo o resto é meio. amamos nosso marido ou nossa mulher. Parma Pratiche. O teste não nos pode adiantar nada sobre quem procuramos. que a simples sexualidade. podemos até resolver. Não existe. Podemos partir em busca de uma aventura erótica sem nenhum envolvimento emocional. um saber que ajuda a compreender e a nos compreendermos. o contrário. Não existem fins pré-moldados antes das ações. 82 Salvatore Veca escreve: “Os seres humanos parecem ser. a repetição de encontros novos e superficiais nos desilude. Seguindo-o. 1985. de óbvio. no íntimo. no plano positivo. se procurarmos definir com um teste essa pessoa ideal. . No mundo dos afetos. 110  erotismo não é a única finalidade de sua vida. os misteriosos anseios do nosso coração. Segundo essa concepção da existência. mas no máximo um conhecimento. Ai de nós. portanto. Ai de nós se nos decidirmos a encontrá-la dentro de um ano e desposá-la imediatamente/Ai de nós se aplicarmos toda a nossa vontade para realizar esse sonho extraordinário com um método racional. Mas depois percebermos. os seres humanos não se conhecem. Não existe nem ao menos uma arte. deixando no coração um sentimento de vazio. Aparecem. porém. Existem outras.

submissão. 17 1. . tudo o que ela pouco a pouco vai se tornar e vai desejar. Os deveres de hoje são a sedimentação do que foi querido no passado. porém. seus desejos. ao mesmo tempo. o amor é conquista. dizemos que o amor é cego porque não enxergamos mais os defeitos da pessoa amada. um consumo enorme de energias. Também viver juntos é uma promessa porque leva a assumir as relações da outra pessoa como deveres. é também dedicação total. Eles se revelam aos poucos. assim como se revelam suas necessidades. de compromissos só se revela em seu crescimento. Prometer é empenhar o futuro. 111  A reflexão européia sobre o amor 83 tem por isso encontrado expressão através de paradoxos. no entanto. Todo o eu é dividido. Assim. É egoísmo. ao mesmo tempo. O paradoxo explode quando se quer aplicar ao mundo das qualidades uma ordem lógica que lhe é estranha. Como não é possível que tudo o que nos agradou continue a agradar-nos agora. É respeito. egoísmo desenfreado. Acabamos por extrair prazeres daquilo que fazemos. vê mais que os outros. mas não recusa diante do amado. Mas. subordiná-lo a uma exigência que deve ser reconstruída continuamente. cada uma delas incompatível. doença e saúde. felicidade. em suas consequências. Assim. Exige que se limite o futuro dentro do que foi decidido. prisão e liberdade. mas também martírio. de Nitlas Luhmann. O amor é um contínuo pedir. com as outras. Permanecer fiel a uma promessa com toda a intensidade do momento em que foi feita implica uma mutilação da existência. mas isso também acontece com boa parte dos pra zeres. significa que aprendemos a extrair prazer 83 A obra mais completa sobre esse tema é a já citada L’amore come passive. É temor. Ter um filho é uma promessa. mas também coragem. Toda a cadeira de consequências. é o resultado de muitas promessas. uma vigilância contínua. mas é também ansiosa espera. porque nota as qualidades e as belezas que eles não percebem.

do amor. O eu reconhece sua laceração interna somente quando esta lhe é lembrada por outra pessoa. aceitar a promessa como força vinculadora e tende a rebelar-se à memória social. Sozinhos. O mistério é um possível incomensurável.nos a esse alguém como membro de uma comunidade em uma prática”. é um avançar além de tudo o que é conhecido. Significa que aprendemos a dizer sim à sociedade que nos pergunta continuamente: “Por que não sente prazer se o desejou?” O homem contemporâneo procurou de todas as maneiras subtrair-se a esse controle. os compromissos e as próprias implicações. Mas também na mulher. por essa razão. exigido. ao contrário. está oculta a necessidade de que este amor seja continuamente livre. pode ter qualquer mistério. não fosse esse contínuo recordar dos outros. 112  do que temos. consente que o eu permaneça dividido. tem de amar. a pura ética da promessa. lembrado. Do livro Ragioni e pratiche. Se você se comprometeu a amar. Todos nós poderíamos levar existências paralelas. revelação e mistério. é produzida exclusivamente pela pressão social. a longo termo. mesmo o erotismo feminino. Somente o anonimato consente no esquecimento. tudo quanto é lembrado pelos outros. referimo. é novidade. mas na liberdade. Há no erotismo um elemento de revolta contra esse estado de coisas. que tende a recusar os deveres. É o recordar dos outros que nos impõe a síntese do nosso eu. Nada do que é observado. lembrança de um compromisso de amar que existiu no passado e que não é mais sentido hoje. É diante da lembrança dos outros que temos de exibir a nossa coerência. O cotidiano é social. O amor é ligação e dependência recíproca. também no desejo feminino de amor. A norma não existe para o indivíduo isolado 84. não pode. É um pensamento 84 Salvatore Veca recorda a solução de Saul Kripka ao paradoxo de Wittgenstein: “Quando dizemos que alguém segue uma regra. a ser publicado. esqueceremos as promessas como esquecemos nossas dívidas. Mas a sociedade não esquece. . o erotismo do amor. Também o erotismo feminino. A promessa. não admite a liberdade de mudar. O que foi prometido deve continuar a valer para sempre. Vimos isso mais amplamente no erotismo masculino. continuamente recriado e jamais se reduza a um dever de amar. O erotismo.

mulher ou filhos. busca a solidão. punido. Quando não possui o vigor do enamoramento. Quando é seguro de si. uma . Procura o esquecimento. em tempos passados. novidade. por que os monges teriam necessidade de celas. Antes do advento das sulfas e dos antibióticos. Necessita estar ausente para poder continuar vivo. sem atenuantes. É a alienação de nós mesmos que nos vem restituída como naturalidade. então. com a morte. Tende a rebelar-se ou esquivar-se a ele. voltou o medo do contágio sexual. uma aspiração ao “aqui e agora”. O erotismo tem horror do cotidiano social. como defesa. procuram encontros eróticos? O que as impele a correr um risco tão grande? Imaginamos que na base disso haja um motivo grave. a sífilis e a gonorréia eram doenças terríveis. revelação. recusa o passado. o segredo interior. 2. monta nas nossas costas e nos faz caminhar com ele. proclama-se acima do bem e do mal. O cotidiano é a chama dos homens. Hoje. porque é sempre também chegada. Procura os locais isolados como as celas dos monges. Por que. daquilo que nos foi destinado. desses esquecimentos. abertura. desafia o cotidiano. quando o fato comportava um risco gravíssimo? O adultério era um pecado mortal. dessas alusões. uma pessoa com marido. afasta as perguntas. como eterno. 113  alheio que nos impomos dizendo-o nosso. liberdade. epifania. a intimidade. homens e mulheres. como no enamoramento rebelde e exemplar. Isso não pode ser somente passado. Afinal. apesar de perigos tão graves. retrai-se. a buscar uma relação fora de casa. subtrai algo de si. as pessoas. O que levava. mesmo se o pensamos como contínuo. A liberdade é o direito de querer o eterno na hora. Mas o que se subtrai? O que é necessário subtrair? A nossa necessidade de ser mais do que somos. porque foi desejado por nós ou é consequência do que foi desejado por nós. Mas é sempre um comportamento alheio que nos penetra. com a AIDS . senão para defender-se dos outros monges? Procura acima de tudo o silêncio. promessa. O erotismo possui dentro de si. em seu âmago. O mundo moderno necessita desses silêncios. mas nós esperamos também a chamada dos deuses.

A procura dos fins é a nossa mais profunda natureza. Irrompendo na sexualidade. o desconhecido. enfim. o desespero. o sublime. Ou então também o diferente. Porque lhe parecia a forma mais dificilmente disciplinável. eles vão se revelando. Todos nós desejamos uma vida intensa com grandes alegrias e grandes desejos. A inquietude do erotismo é a inquietude do conhecer. o extraordinário. Queremos desejar mais intensamente e satisfazer os desejos mais intensos. o que não se havia notado. dominável de uma vez por todas. A sexualidade é apenas o terreno onde se manifesta essa inquietação transcendente. É essa tenacidade irracional. 114  profunda insatisfação no casamento. Somente no ser humano. no animal. Não é o amor louco ou heróico que provoca o desejo do encontro. mas porque não tem motivações. o mais altamente pessoal. porque é alimentada por uma inexaurível fantasia. é um motivo mais fútil. transforma-se em potência inquietante que desafia o risco. é uma força previsível. o emocionante. tomada erotismo. esse impulso misterioso que tanto fascinou Freud. esse princípio obscuro. nosso. 3. Não é a sexualidade a causa da inquietação da natureza humana. Todos nós desejamos novos encontros. canalizável. um prazer mais leve. É a sua esquivança que a torna indomável. Só no ser humano torna-se desmedida. É sempre uma personalíssima descoberta nossa. . Os nossos fins não são determinados como os dos animais. ou um grande amor apaixonado. o divino ou o demoníaco transformam-na em erotismo porque deixam entrever o maravilhoso. o pouco usual. esperamos sempre algo glorioso e maravilhoso. o desafio. alguma coisa que poderia ser chamada de insignificante. Não porque possua motivações elevadas. Conhecer é conhecer os nossos fins. a ponto de fazê-lo colocar a sexualidade na base de todas as coisas. o não dito. cotidiana. o insólito e. O que nos caracteriza como seres humanos é a contínua tendência a transcender-nos. ver novos países. E no entanto Freud não acertou no alvo. portanto. Não é isso. A verdade é sempre o que não se sabe. A sexualidade. unicamente nosso.

é a verdade somente porque fomos nós que a descobrimos. No enamoramento. o que não acrescenta nada e que subtrai. extraordinária e glorificante. Claro. Para chegarmos à verdade temos de resistir. uma relação extraordinária individual. o já dito. da vontade. Ele se alimenta do múltiplo. Mas cem pessoas são menos concretas. Deve ser notada entre as mil cores do mundo. se a revelação é como reconhecer um perfume entre mil outros. Mesmo quando aprendemos e dizemos: “É isso. Há na vida dos indivíduos longas fases de busca constelada de encontros com pessoas diversas. também o erotismo mais intenso deve ter uma ligação estreita com a pessoa. Se nos falta essa experiência. Somente a relação individual é capaz de produzir a identificação dos outros indivíduos. nós que a reconhecemos. 115  A verdade é pessoal. a vontade deve reconhecer sua meta. sua síntese e sua transcendência. ele tinha razão. o repetido. É uma ilusão. o erotismo é possível mesmo no relacionamento com diversas pessoas. Só os vemos se nossos olhos tiverem aprendido a enxergar através da experiência. Na promiscuidade não poderia haver erotismo se não se tivesse tido. isso acontece em seu grau máximo. Então esta se torna todas as outras. Deve ser sentido entre muitos. menos intensas do que as diversas aparições de uma mesma pessoa. ao menos uma vez na vida. do erotismo. Para se chegar à verdade há sempre um momento em que devemos rejeitar o que está sendo dito. esse múltiplo procura sua unidade e só pode encontrá-la em uma pessoa. é verdade”. Se a verdade é pessoal. Mas se a verdade é pessoal. Eis por que não podemos aceitar o que os outros dizem por franqueza. 4. A meta é como um perfume. nós que a assimilamos. menos vivas. a própria experiência do múltiplo precisa de unidade. Porém. Também os filmes a que assistimos. É como uma cor. consegue fazer deles objetos eróticos. Depois.nos a capacidade de enxergar o . em outra fase da vida. O resto é o óbvio. Isso é verdade principalmente no terreno dos sentimentos. alcançada com um indivíduo particular. do amor. Muitos afirmam que o máximo do erotismo é a promiscuidade orgiástica. falta. o já sabido. os livros que lemos são contatos eróticos múltiplos.

Tudo da pessoa amada é estupendo. e as bocas não sorriem. uma dialética profunda entre pluralidade e unidade. tem necessidade do múltiplo para enriquecer-se. 5. dever. e queremos essa diversidade. Queremos as duas justamente porque são diferentes. Porém. não pode haver erotismo. para poderem escolher o eleito. as mãos. Por isso as mulheres desejam agradar a todos os homens. no aprofundamento da relação com aquela única pessoa. Esta exige o múltiplo. sem a sedução. Esse é o milagre do amor erótico. transforma-se em tédio. Também na promiscuidade somos atraídos por particularidades individuais. Mas o triunfo do erotismo. cada particularidade dessa pessoa nos comove e exalta. um . Por isso os homens se sentem fascinados pela beleza que descobrem em cada mulher e gostariam de ter todas as mulheres do mundo. e são exatamente essas particularidades daquele indivíduo novo e inconfundível que nos agradam. Nesse interesse erótico difuso apreendemos as particularidades. o erotismo morre. têm necessidade de ser desejadas por todos. os seios. sua expansão soberana. mas as duas não se confundem de modo algum. ver. amontoados. todo o universo se reduz a uma única pessoa e a transcende. Cada indivíduo é diferente do outro. sem o extravasamento. nojo. a erotização do mundo acontece somente quando essa infinidade de múltiplos se concentra numa só pessoa. essa mesma beleza se revela a eles somente com o tempo. o que foi e o que é. entre promiscuidade e unicidade. Então. sem o possível. Há e haverá sempre. linfa. No amor erótico. Seus olhos não brilham. Se se torna repetição. como os mil estímulos visíveis no foco da retina. Se não há essa revelação da profundidade individual. abraçar aquela pessoa e depois aquela outra. os outros não passam de corpos amorfos. as costas. O múltiplo é alimento. Para ambos os sexos. o extraordinário individual que existe em tudo. no erotismo. Tudo. A pessoa torna-se então o uno e o múltiplo ao mesmo tempo. O objeto do interesse erótico é o indivíduo e somente o indivíduo. hábito. sangue do erotismo. disciplina. Tudo se dissolve na multiplicidade indiferenciada. os olhos. Desejamos tocar. 116  individual. Sem o múltiplo.

de todas as mulheres e de todos os homens com que podemos nos identificar. Todas as qualidades de uma pessoa. todas as palavras que possa dizer. de todos os amantes. todas as impressões. do que desejamos no passado. o movimento dos lábios. Tudo se torna precioso para nós. de todos os artistas famosos. Todas as lembranças. O nosso amado é a síntese de todos os encontros. todas as recordações que possa evocar são tantas outras sequências infinitas que convergem. mesmo as mais fugazes. Até mesmo a ausência. 117  olhar. O amor é um perene viajar nessa infinitude. . Nenhuma multiplicidade concreta jamais poderá ser comparável a essa infinidade de possíveis. o lugar onde nosso amado esteve. passando de maravilhamento a maravilhamento. Nada poderá jamais exaurir essa riqueza. a curva das sobrancelhas. de todos os desejos. todos os gestos. o olhar pensativo. de todas as fotografias. todas as particularidades de seu corpo. uma palavra. de todos os sonhos. todas as posições que possa assumir. Na pessoa amada estão concentradas todas as outras pessoas do mundo. à plenitude dos amores. com que podemos sonhar. todos os lugares onde possa estar.

 118  Objetos de amor .

Sabemos. como o amor pelo artista ou pelo líder. no livro Love and limerence. já que são capazes de atingir o orgasmo sexual (fora de uma relação emocional). Devemos então chegar à conclusão de que o homem se comporta ocasionalmente como as mulheres se comportam sempre? A mulher — segundo essa interpretação — seria capaz de um estado contínuo de enamoramento. Love and limerence. Desde a intenção da sedução até os movimentos coletivos. nas outras esferas. 119  18 Nas mulheres o erotismo funde-se com o amor. O homem. ao contrá rio. frio. A imagem do homem duro. sobretudo. com certeza absoluta. absorvido pelo trabalho e insaciável sexualmente é uma simples fantasia. As mulheres. aquela continuidade que descrevemos como tipicamente femininas. Mas essa tese. mas que não a faz vibrar de paixão. porém estar mais inclinadas a interpretar suas excitações eróticas como aspecto do enamoramento”. ainda que sugestiva. . No homem. que também os homens se enamoram. porém. pode haver excitação erótica sem que haja a necessidade de um envolvimento amoroso. o desejo sexual consegue separar-se do amor somente com a condição de ter. Existem longos períodos em que isso não acontece 85. afirma explicitamente que a experiência do enamoramento é idêntica para ambos os sexos. A diferença entre o erotismo feminino e o masculino reside no fato de que a mulher somente sente prazer sexual se gosta do homem em sua totalidade e. O que significa tudo isso? Que é apenas a mulher que ama? Que somente ela se enamora e mantém o homem ligado sexualmente? Que na relação homem-mulher há sempre e unicamente uma troca de sexualidade por amor? Não. uma grande segurança emocional. No homem. aquela ternura. se o ama com paixão. já citado. conseguem distinguir melhor o enamoramento da (simples) atração sexual. O que não significa que sinta 85 Dorothy Tennov escreve: "Os homens. ao contrário. tampouco é sustentável. sem nenhum respaldo na realidade. poderia viver essa experiência apenas ocasionalmente. de estabilidade afetiva. Nesse caso. Pode viver com um homem a quem queira. eles desejam aquela proximidade. Também o homem tem necessidade de amor. ao contrário. A mesma Tennov. Sabemos que também os homens sabem amar. de vez em quando. Ver o capítulo “Sex differences and sex roles”. Não vive continuamente enamorada. A experiência demonstra que também a mulher se enamora somente de vez em quando.

Todas as vezes diferente. a querer bem de modo duradouro a uma outra pessoa? Colocada a pergunta nesses termos. Ambos. quando nos enamoramos de alguém. ou imitou e adquiriu sua capacidade de amar. com sua experiência vital. Porque é como se o seu amor existisse antes de tudo e esperasse apenas uma voz que lhe dissesse: “Seu filho é aquele”. sempre pronto a ajudar-nos. Nós queremos bem. O amigo nos dá confiança. amor. Ajudanos a nos tornar nós mesmos. Sabemos que existe. Para sair desse labirinto de perguntas sem resposta. mas jamais estamos enamorados deles. Podemos dizer que “estamos enamorados” para sublinhar o aspecto passional do nosso amor. O tempo e a distância não contam. É incerto. Aparece e desaparece. vê-se imediatamente que o enamoramento não é o único caminho que conduz ao amor. Porém. o enamoramento abre caminho a duras penas na nossa mente e no coração. não podemos dizer que “estamos enamorados” de nosso pai ou de nossa mãe. 120  verdadeiramente essa paixão. já adultos. no entanto. também o homem se enamora e permanece enamorado por longos períodos. Quais são os mecanismos pelos quais nos ligamos de maneira estável a outra pessoa? O que nos leva a sentir afeto. Vai se formando pouco a pouco. nos enriquece. e mais semelhantes entre si. Mesmo a mãe jamais se enamorou do filho. E. . o nosso amor já existia quando éramos bebês. obsessivamente: “Eu o amo? Ele me ama?” Também o amor da amizade é diferente. Não. Ao contrário. devemos deixar provisoriamente de lado o erotismo no seu senso estrito e colocar-nos um outro problema. tornam-se diferentes do que eram antes. ao enamorar-se. Mas não porque tomou a mulher como modelo. também distinto do amor doloroso e resplandecente que sentimos. para dedicar-se toda a ele. Por outro lado. que está ao nosso lado. quando éramos adolescentes. não temos necessidade de estar sempre com ele. amamos os irmãos ou irmãs. quando éramos crianças. Mas é incorreto dizer que estamos enamorados deles. Nesse estado. através de encontros durante os quais sentimos que o outro. incrivelmente diferente. Pergunta contínua. Se quisermos respeitar o significado das palavras. sua maneira de sentir e sua experiência são muito semelhantes às da mulher enamorada.

dos nossos amigos. Esses mecanismos estão presentes tanto nos homens como nas mulheres. pois possui uma estrutura completamente diferente. desejados e protegidos contra uma ameaça. permanecer mais longamente com ele e retornar mais uma vez. a frustração a enfraquece. amante. O último mecanismo. Principalmente quando há uma ameaça externa. Esses mecanismos. O prazer reforça a ligação. Não deve ser confundido com os dois primeiros. Quais são eles. quando temos de emigrar. o estado nascente. e veremos como isso acontece. porém. são aqueles sobre os quais fizemos grandes investimentos afetivos. então? Nos próximos capítulos falaremos de três deles. Consiste no fato de a importância das pessoas somente nos aparecer de quando em quando. agem diversamente nos dois sexos. filhos. todos estes são objetos estáveis de amor. é. de perda ou de enamoramento. 121  Pai. aquele específico do enamoramento. ou quando temos de escolher entre duas alternativas. Não existe uma modalidade feminina e outra masculina de aprendizagem. mãe. Os nossos objetos de amor mais estáveis surgiram dessa maneira para nós e foram escolhidos. Os psicólogos behavioristas e os utilitaristas recorrem a ele para explicar todos os relacionamentos emotivos. Se alguém nos proporciona prazer. Mas os mecanismos que provocaram esse investimento não são os mesmos. sobre o prazer e o desprazer que o relacionamento com outra pessoa provoca em nós. Para dar um exemplo simples e intuitivo. O segundo mecanismo foi muito menos estudado e é certamente menos conhecido. irmãs. marido. Em termos psicanalíticos. mulher. a nossa tendência será a de voltar para ele. Esse mecanismo funciona na base dos reflexos condicionados da aprendizagem e corresponde à lei do efeito de Thorndike. O primeiro é fundamentado sobre a satisfação das nossas necessidades e desejos. particularmente prazer erótico. da importância da nossa cidade. . ao contrário. Quando corremos o risco de uma perda. nós nos apercebemos da importância da saúde quando estamos doentes. irmãos.

ao lado de uma pessoa. porque é a mãe que interpreta suas necessidades e as satisfaz. Se eu experimentei. quem nos trata mal. Acrescentemos o fato de que o ser humano é racional. Dessa maneira ocorre a transformação da libido narcisística em libido objetual. Se alguém nos proporciona um grande prazer erótico. As grandes satisfações. Por isso está em condições de criar as mais fortes ligações. mais racional. Cada experiência positiva. cada êxtase alcançado. O relacionamento primordial do bebê com sua mãe é desse tipo. um encontro perfeito. procuraremos encontrá-lo de novo. no seu complexo. procurando. O eu é como uma ameba que expulsa seus pseudópodes e vai para onde encontra alimento e prazer. enquanto evitamos. duas pessoas que tiveram encontros agradáveis podem estabelecer entre si uma ligação cada vez mais forte. procurarei ser-lhe agradável. pois desejo que ela me deseje e queira voltar para mi m. os prazeres intensos nos ligam às pessoas que no los proporcionaram. Perfeito não somente para mim. entre as duas pessoas se estabelecerá uma ligação duradoura. observa Freud. 122  19 1. Depois. . Desse modo. porque recebe alimento e vida da placenta. reforça a nossa necessidade do outros. mais lógico. além disso. é o maior dos prazeres. Resumindo. ou mesmo odiamos. a cada vez. capaz de resistir até mesmo a graves frustrações. O prazer sexual. Comecemos a nos ocupar do mecanismo baseado no prazer. Isso já antes do nascimento. depois mais e mais vezes. A psicanálise. Se essa pessoa. ele nos diz que — definitivamente — nós nos afeiçoamos a quem nos trata bem. Se a experiência de prazer renovado é bilateral. a quem nos dá alegria. mas também para ela. É o intuitivamente mais fácil. fazê-la feliz. me agrada. tende a colocar a fixação da libido como um produto de sua satisfação. tentarei evitar todas as situações desagradáveis. um grande prazer. Por esse motivo é capaz de procurar ativamente alguém que lhe proporcione prazer e comportar-se de modo apropriado com ele.

É verdade. exerce sobre o . nesse modelo explicativo. 2. além disso. Não obstante a sua lógica. essa teoria do amor é falsa. o mínimo denominador comum da psicoterapia contemporânea que se propõe a melhorar nossas relações afetivas. depois mais e mais vezes. Voltemos à afirmação de Freud segundo a qual o prazer erótico é o maior dos prazeres. cada êxtase alcançado. leva a conclusões absurdas. A vida cotidiana. 123  O relacionamento amoroso é visto nesse modelo como um desdobramento do relacionamento erótico. Se aplicada a fundo. Não é somente entre os pobres e ignorantes que as famílias se esfacelam. constituindo um capítulo e um instrumento. Não há também relação entre grau de instrução e capacidade de amar. mas nos homens o fenômeno é muitíssimo mais frequente. O leitor reconhecerá facilmente. dessa forma. visto que essa é a vulgarização e a popularização da psicoterapia. um amor estável. por si mesmo. Não explica nada. entre conhecimento psicológico e estabilidade do casal. o resíduo sólido do prazer que a pessoa experimentou. os casais se separam. Em vez disso. a arte erótica coloca-se a serviço da arte de amar. não obstante o crédito universal de que goza. leva à conclusão de que as pessoas mais inteligentes e cultas deveriam ter uma vida amorosa mais feliz do que as mais simples. Elas fazem parte da situação. Dessa forma. Por exemplo. A pessoa pode se cansar. Vejamos agora a seguinte afirmação: a pessoa que encontra em outra um grande prazer erótico procurará encontrá-la de novo. Isso acontece em ambos os sexos. não há nenhuma relação entre cultura e felicidade amorosa. O sujeito é convidado a aplicar. o pressuposto implícito nos manuais americanos sobre “como fazer”. a erotização do tempo que tanto agrada à mulher. Isso significa que as regras e receitas psicológicas não possuem nenhum poder sobre a situação. os relacionamentos entre os sexos são difíceis. Nele reconhecerá. Cada experiência positiva. reforça o relacionamento. as regras de ouro descobertas pelos psicólogos. a sedimentação de todas as suas experiências positivas. Que afinal se reduzem a uma: realizar o prazer recíproco e. Isso não é verdade. Graças à inteligência e à aprendizagem. o amor bilateral pode ser obtido através do erotismo e da satisfação recíproca.

Na amizade o encontro é sempre uma revelação. todos a desejam. publicado no Brasil. a confiança. todos a olham. a descoberta de algo de si mesmo e do mundo através do outro. belíssimos. mas que acaba terminando diante do primeiro obstáculo. mas ele não consegue de forma alguma afeiçoar-se a ela. mais profunda 87. não lhe diz nada. devemos ter presente que no homem há dissociação entre avaliação erótica e avaliação global da pessoa. No livro O complexo de Portnoy 86. É impressionante observar. tem uma estrutura granular. Cada encontro deixa um lastro de simpatia. em vez de reforçar o relacionamento. todos o invejam. o protagonista sente-se atraído por uma mulher belíssima. eroticamente. se estabelece através dos encontros. um corpo extraordinário. sob esse ponto de vista. de afeto. Porém. de continuar a conversa interrompida. veste-se vulgarmente. de confiança. . geralmente. de Philip Roth. os laços tornam-se mais sólidos. Ela lhe é dedicada. Francesco Alberoni: L’amicizia. ao passo que se sente bem com outra que. Um homem pode ter um caso plenamente satisfatório do ponto de vista erótico. Todos os encontros eróticos foram felizes. é ignorante. como o erotismo. que no entanto ele despreza. mas. e é provocante demais. 124  homem. mais a amizade é reforçada. quase por descuido. e no entanto não querer viver com ela. ou que o seu relacionamento está para terminar. gosta dele. já citado. de quem se envergonha. Um homem pode desejar uma mulher desesperadamente. produziram o hábito. adorar seu corpo. Essa mulher tem uma sexualidade transbordante. a diferença que existe entre o erotismo (masculino) e a amizade. Pode também sentir uma fortíssima atração erótica por uma mulher em que não confia. Cada grânulo de tempo se acrescenta aos outros. La Langur. Também a amizade. e quanto mais frequentes forem os encontros. um efeito que deprime o erotismo. Além disso. é sinal de que possuem muito pouco em comum. No encontro seguinte temos a impressão de ter deixado o amigo pouco antes. Quando duas pessoas dizem que só se dão bem na cama. 86 87 Philip Roth: O complexo de Portnoy. fazendo amor.

não julgamos o encontro. Cada encontro erótico pode ser ótimo ou péssimo. aquele que pode ser experimentado diretamente no presente. O cão reage ao mesmo estímulo. o suficiente para interromper o relacionamento. uma ligação mais forte? A possibilidade existe. ao contrário. Na amizade a alegria do passado conta de uma forma mais que proporcional. de uma relação erótica bem-sucedida nasça uma relação duradoura. mas como algo totalmente novo. A vida tem horror à repetição. não. se ele deve nascer exatamente dos encontros eróticos. Mas se não existe amor. O homem se ligará à mulher somente se na relação entre ambos ele tiver a experiência de um erotismo crescente. É a soma dos encontros positivos. algo mais do que imaginamos uma hora atrás. menos que proporcional. O mesmo estímulo. acontece como na amizade: as desilusões não contam. mas depende de que se realize um tipo de experiência particular. A amizade não quer julgar. Algo mais que ontem. 125  No erotismo (masculino) não acontece esse milagre. houve alguma incompreensão. Se nele alguma coisa não andou bem. à mesma carne. O prazer não pode ser uma repetição do prazer passado. Na amizade. necessitam de um reforço. Na espécie humana todos os estímulos funcionam como estímulos condicionados. Se já existe o amor. A intensidade da amizade não é o resultado da soma aritmética do julgamento de todas as vezes que os dois amigos se encontraram. A ligação amorosa é impossível se não existir uma forma qualquer de futuro. porque algumas desilusões são suficientes para criar irritação e desagrado. Haverá uma próxima vez. uma nova experiência. É paciente. O futuro mais simples. . é o algo mais. Não há então nenhuma possibilidade de que. então tudo está sempre em discussão. O homem. leva ao hábito. No erotismo (masculino). no erotismo (masculino). Cada novo encontro não é vivido como a continuação do precedente. no homem. não damos a isso muita atenção. esquecemos. A repetição do passado é somente tédio. os encontros são julgados independentemente e avaliados sem levar em consideração o passado. uma nova tentativa. está sempre sob julgamento. 3. em determinado momento.

a parte mais exterior. escorrega no “gostei muito”. para manter vivo o encontro. Ela leva em consideração a experiência passada. ao contrário. os diferentes dele. Vai do pior para o melhor. Os homens. A mulher. se enriquece. tem a impressão de que também ela “mergulhou”. Se a mulher se entrega a ele sexualmente. todo encontro está ligado ao passado. A última etapa dessa prótese erótica é o filme pornográfico onde o homem busca excitação no que os outros fazem. recorrem a fantasias eróticas. uma mulher do seu passado. crescimento. movimento. desaparece a espera do melhor. à sua alma. Mas isso não é verdade. então. quando a interessa. constituindo um crescimento harmônico. é sempre gradual. quando seu cheiro lhe agrada. como coisa acabada. cresce. 126  Algo mais que dizer avanço. dificilmente precisa ter numerosos encontros eróticos felizes com um homem para perceber. abandonou-se totalmente a ele. uma imagem. Desde o primeiro olhar experimenta sensações favoráveis ou negativas. enriquece o outro. A ligação erótica não permanece nem ao menos no presente. 4. uma palavra. Ou então que seja a sua mulher a fazer amor com um homem do seu passado com o qual se identificam. Já de longe examina o homem. Se o relacionamento continua é porque cada encontro conseguiu integrar-se aos encontros passados. com clareza. Á mulher jamais se entrega eroticamente de uma só vez. Mas não passa da primeira etapa. O homem concebe a experiência sexual como o salto do trampolim para mergulhar na piscina. da qual recordam um gesto. Deixa-se abordar somente quando o desconhecido lhe causou boa impressão. morta. enfim. Na mulher. À experiência vital toma uma direção. O acesso ao seu íntimo. Sua entrega é sempre gradual. Mesmo no encontro sexual a mulher dá somente uma pequena parte de si. Imaginam estar fazendo amor com outra mulher. Também no erotismo masculino desaparece essa diferença positiva. que ele não lhe agrada mais. Então o encontro torna-se revelação de que aconteceu algo de inesperado e de melhor. desaparece qualquer possibilidade de futuro. .

os cabelos. ela. O relacionamento da mulher com o homem é uma sucessão de impressões. Mas mesmo que a abra. no caso da mulher será mais certo imaginar uma casa. já citado. admitindo-o na parte mais pessoal. Para uma mulher que se mantivesse estranha ao ato.. do que lhe pode oferecer. H. Ele está feliz. continuará sua observação atenta. E é a partir daqueles gestos. a mulher precisa confiar 88. daquelas emoções que ela decidirá se abrirá ou não a porta. tem sensações. Rubin: Intimate strangers. E quase sentiu medo. Somente se passar nessas provas. São emoções corporais.. para abandonarse. emoções.. Gia Wilhelm Stekel havia demonstrado amplamente que quando uma mulher não se sente estimada. queria manter-se isolada. Pesquisas mais recentes confirmaram totalmente esse ponto de vista. .. avaliações e de contínuas aberturas de si mesma. O homem se aproxima e. Para abrir-se. sente-lhe o cheiro. deixa-o na sala de espera.. sem sentir nada. fecha-se. do que ambos são e podem ser juntos. realizado. se dará mais. 88 89 Lillian B. faz julgamentos sobre ele. E é somente aos poucos. mais íntima da sua casa. encontro após encontro. só pelo modo como o faz. a maneira como bate à porta. aquele impulso das nádegas do homem era certamente uma coisa muito ridícula” 89. para liberar seu erotismo mais profundo. Lawrence: O amante de Lady Chatterley.. Ela se abrirá. e o homem. para usar a expressão empregada anteriormente. a mulher forma impressões. mas também avaliações. observa suas mãos. amada. julgamentos. Observa então como pendura o casaco. Mas. Em O amante de Lady Chatterley. Emergir como uma nova nudez. torna-se frígida. seus gestos. D. no novo cômodo. 127  Se para o homem usamos a alegoria do mergulho. Somente na segunda vez começa a abrir-se: “No seu íntimo sentiu palpitar algo de novo. a primeira vez que a mulher faz amor com o guarda-caça é quase em sonho. Teria preferido que ele não a tivesse acariciado assim ao penetrá-la. Essa gradação está presente até mesmo na mulher enamorada. A mulher está dentro. não. sua avaliação do que ele é. admirada. esperou ainda. fora. a mulher abrirá para ele uma porta mais interna. se estiver à altura desses novos exames.

isso se deve ao fato de a mulher ter se fechado. Mulher e homem são. Foi ela que não o admitiu ao algo mais. estima e com quem quer viver. Ou egoísta. porque não o julgava à altura. para ela é escolha. um fato inesperado. O algo mais que o homem procura todas as vezes. estúpido ou arrogante. três vezes. é decisão. não o julgava digno. isso aconteceu também com a mulher. Porque não se sentia pronta. É como se. o tivesse deixado na sala de espera uma. portanto. e foi por isso que ele não a encontrou. Deve ter sentido uma insegurança. para estudar. No homem o algo mais é aquilo que no encontro erótico lhe causa surpresa. uma etapa de seu erotismo. 128  que chega ao prazer total. uma hesitação. por desinteresse. se refletirmos bem. O que para o homem constituem apenas encontros eróticos descontínuos. não importa — de que o homem não tinha classe. O que capta instantaneamente é a queda do nível erótico. à fusão amorosa com o homem que então já admira. O algo mais que ele percebe hoje. Então ela parou para refletir. porque não o sentia pronto. era grosseiro. geralmente é um abrir-se ulterior da mulher. nesse encontro. completamente diversos. em vez de deixá-lo seguir adiante. Antecipadamente. à sua intimidade. e sem o qual a relação não se solidifica. O que para ele é surpresa. após duas ou três dessas experiências decepcionantes. por medo. para a mulher são etapas. Mas. Para ele não aconteceu o algo mais. a impressão — certa ou errada. Com frequência. mas a estrutura de suas experiências é complementar. uma ulterior revelação de si. duas. Dificilmente o homem consegue compreender e reconstruir o processo emocional da mulher. ele as esquece. do fragmento de amor surgido então e que se transformou em deliciosa acolhida. em cada uma das quais exigiu do homem a superação de uma prova. é o resultado do julgamento por que passou na vez precedente. . Quando o homem percebe que o encontro erótico não o satisfez. que não têm nenhuma relação um com o outro. É uma outra porta aberta à sua interioridade. Mas para a mulher aquele algo mais significa somente que ela entregou um pouco mais de si mesma.

ser. Deseja aquele homem. que não haja intenção de sedução. de sua opacidade. falar. do mesmo time. . um arrepio. Depois será engolido. as pernas se roçam. o trabalho. “arrepio”. e os dois desejos recíprocos se manifestam um ao outro. o nascer espontâneo de uma cumplicidade. e nada mais lhe importa. e os dois compreendem. para indicar a atração dos elementos. Pelo que se determina uma vibração. mas não poderá ser destruído. uma hesitação. de que se originava a reação. Às vezes é suficiente um olhar. Se existem a intenção. O obstáculo pode ser interno ou externo. A tensão deve permanecer elevada para que se tenha uma dilatação da mente e do coração. Nesse momento a mulher compartilha a imoralidade do erotismo masculino. da maneira mais inesperada. Não amanhã. uma abertura para o extraordinário. é um instante. rituais. Todo o aparato social que separa os dois sexos. Criam uma área liberada que os separa dos outros. apresentam-se também a manipulação. desinserido da trama do que acontecia antes e acontecerá amanhã. desculpas (ninguém deve desculpar-se por existir. talvez uma timidez. imediatamente. na sua inteireza. não no futuro. Portanto. 129  5. quando não há necessidade de etiqueta. duas pessoas se dão conta — e se espantam com isso — de que se gostam. É o instante milagroso da revelação do desejo recíproco. porém. Essa lei vale também quando. a maldade. o tempo de encontro também é separado. um intenso olhar retribuído. se sentem atraídas uma pela outra e se querem. Refiro-me à descoberta inesperada da desnecessidade de defesas. é abolido. e então a situação muda. A alquimia usava essa expressão. É importante. da continuidade. Fora do mundo das proibições e do existente. a vontade de seduzir. uma compreensão tardia. As mãos se tocam. torna-os cúmplices. mas agora. de repente. qualquer coisa que impeça que essa atração se torne imediatamente um abraço sexual febril. o estado de excitação de um na presença do outro. uma bolha de tempo. desejar). e ponto final. porque seu desejo está fora do tempo. Isso permite manter suspenso tudo entre o possível e o existente. E é preciso que haja também um obstáculo. da repentina emergência de um entendimento.

grita que a experiência é extraordinária. é um aprofundamento. um enamoramento. 6. podendo até mesmo nascer uma relação erótica ou. é ao mesmo tempo incompleto. de descoberta. Dessa forma. O algo mais é conhecer aspectos e dimensões de nós mesmos e do outro que ignorávamos. na vez seguinte. em ambos a tendência é de encontrar-se novamente. Ou também poderá não haver mais nenhum encontro. descoberta. de julgamento. em ambos os sexos. um avançar no caminho do conhecimento. O feminino é mais impregnado de avaliações. Ou. O erotismo masculino grita que é belíssimo. falta-lhe a segurança de então. pode não acontecer mais nada. Basta que falte um elemento e todo o conjunto se torna diferente. em certos casos. de conhecimento. ao encontro pode seguir-se um novo encontro. Porque é sempre um entrever. A ligação amorosa nasce. é gnose. do que somos e podemos ser. adormecidas. Cada encontro sucessivo com a mesma pessoa é. O algo mais pertence a essa dimensão da experiência e nos revela a profunda ligação do erotismo com o conhecer. maravilha. No homem. da nossa natureza. Por outro lado. jamais um alcançar. 130  O que existe de específico nesse tipo de experiência é sua altíssima energia interna. de lenta aproximação. Ela própria não é mais aquela de antes. Sua mente foi atravessada por outros pensamentos. não utilizadas. De nós mesmos. de esperas. somente de um erotismo feito de revelação. Estruturou desejos ou impôs-lhes limites grandes demais. Mesmo se os dois têm possibilidade de separar-se. O algo mais não se realizou. dessa forma. exalta a outra e a si mesmo. Sabe muito ou muito pouco. que lhe permite permanecer na memória e pôr em movimento a ação. mesmo se têm um relacionamento sexual. embora sendo perfeito. A pessoa que nos parecia fascinante parece-nos agora desajeitada e banal. de abertura. portanto. Não é uma . grita de prazer. A complexa situação de desejo e de obstáculo — com aquelas emoções. de preparação. Louva. a revelação — não se reproduz totalmente. ativação de potencialidades latentes. desvendamento. a espera.

ou para justificar a nossa decisão de 90 Rosa Giannetta Trevico: Tempo mitico e tempo cotidiano. o que tem valor. um novo maravilhamento. o centésimo. O primeiro mecanismo era fundamentado em numerosos encontros eróticos emocionantes. Existem momentos. Milão. Porque sem ela. mas um percurso epifânico 90. ou então nem ao menos sabemos bem o que queremos. Gananti. Fazemos esses balanços para justificar a nós mesmos o nosso apego a uma pessoa. Há uma diferença entre desejar e sentir necessidade de alguma coisa. Com muita frequência queremos coisas opostas. aquele a que todo o resto deve ser subordinado. 1981. de modo algum erótico. O segundo mecanismo capaz de criar laços sólidos é o da perda 91. o quarto. Expus o mecanismo da perda no quadro da teoria geral dos movimentos e das instituições no livro Le ragioni dei bene e dei male. IULM. por si mesmo. sem repetir-se. sem exaurir-se. onde ocorre o arrepio e nos é revelado algo de nós mesmos e da outra pessoa. os objetos finais do nosso desejo e do nosso amor. Somente o conhecimento. 91 . fazendo uma soma aritmética do prazer e do desprazer que nos causaram. o conhecer tem essa possibilidade de crescer continuamente. pro manuscripto. o que é essencial. 20 1. Não podemos conhecer os nossos fins últimos. em que compreendemos — somos obrigados a compreender — que uma certa pessoa é essencial para nós. 1985. Ao contrário do primeiro. E assim o terceiro. deve tornar-se meio. Essencial é o fim último. 131  revelação feita logo no início. O segundo encontro produz uma nova emoção. todas as outras coisas perdem o valor. o segundo mecanismo não nasce de uma experiência erótica e não é. Entre ter necessidade e não poder passar sem ela. Não sabemos o que nos interessa realmente. Intervém no erotismo por ser um fator fundamental na edificação e na escolha dos nossos objetos de amor. aquilo que chamamos de algo mais. porém. Essencial é aquilo que dá valor às outras coisas.

E é desesperada também porque a nossa vida já se tornou um meio. Revelanos o que já deveríamos saber e que tínhamos esquecido. O fim último. passa mal e chora. durante um passeio pela montanha. Em outras palavras. Onde estará ele? O que lhe aconteceu? De repente aquele menino torna-se mais importante que qualquer outro. Nesse ponto é preciso fazer um esforço de imaginação. Vamos dar um exemplo. Já o espera. será porque ela o quis. é algo absoluto. já o deseja. ainda não o tem. Não é o resultado de uma reflexão intelectual. O objeto que procuramos tornou-se mais importante que nós. agora se torna algo que o esconde. Depois de nascido. mas como diferença abissal. terrível e real. que já o amava antes. Poderia não nascer. Se nascer. o objeto que é reconhecido na perda como objeto de amor constituiu-se exatamente através do processo de perda. E. um espaço desconhecido em que buscá-lo. quando olha para ele. a mãe já salvou o filho inúmeras vezes do nada. O menino. A certa altura. Também nesses momentos ela luta contra a potência do negativo. porque temos de arrancar o menino da potência do negativo. Revela-se a nós brutal e inesperadamente. arrebatou -o das forças negativas. 132  deixá-la. pelo contrário. Não se apresenta a nós como um descarte. A soma dos prazeres e dos sofrimentos nos diz o que é melhor ou o que é pior. Antes mesmo de seu nascimento. revelação de algo que já era essencial em precedência. O mundo tornou-se ameaçador e está lá. querendo-o. que antes existia ao lado de outras coisas. . ansiosa. o mundo. um cenário para nossas ações. Ou quando está com febre. portanto. não ser. Todo o resto será subordinado à sua busca. O que se desvenda na situação da perda é vivido como preexistente. mas não estava presente ou consciente. o processo se repete à noite. colocando o filho como fim último. comparativamente. Porém. E com ele. Pensemos na mãe antes que ela dê à luz o seu filho. adquire um estatuto ontológico superior. Mas não sabemos onde. objeto estável e total de amor. e teme que não esteja respirando. que antes era algo previsto. É naquele momento que me dou conta de que o menino já me era essencial antes. percebemos ter perdido um menino. A nossa busca tem um caráter desesperado.

então. Não se trata de enamoramento. Isso já é o suficiente para provocar um sentimento de perda e a subsequente pergunta: “Devo retê-lo? Merece que eu o prenda?” Não há nenhum elemento para decidir. A psicanálise mantém uma atitude de desconfiança em relação ao mecanismo da perda porque vê nela um estado patológico. amada. O que acontece se uma pessoa do primeiro tipo encontra uma do segundo? Viverá a interrupção. Que prefere imaginar-se não vinculado ao amor. a ânsia não é patológica. que necessita de intervalos de tempo. Somente aquilo que foi desejado desesperadamente. após o delírio e o êxtase. É a modalidade com que nos colocamos fins últimos e. a separação como perda. embora não seja. Esse mecanismo é extremamente importante. A psicologia behaviorista acredita apenas no reforço provocado pelo prazer-desprazer. torna-se um objeto de amor estável. feminina e masculina. conhecemos o que realmente tem valor para nós. Basta sua forma específica de desejo. do erotismo. dessa forma. mas da nossa vontade e da nossa paixão. se decide pelo sim. Ele não é apenas o resultado de sua capacidade de nos dar prazer. de viver juntos. por prendê-lo. de variedade. de respirar o mesmo ar. Após o longo abraço sensual. o tipo de ligação criado com o mecanismo da perda é extremamente mais frágil. 133  Amamos de maneira estável aquilo que subtraímos da perda colocando-o como fim último. Não é preciso imaginar que a pessoa esteja enamorada. ainda que por um instante. Tendo bem claro esse conceito em mente. Como a sua vida . livre para escolher os laços apenas feitos. de proximidade. se afasta. a necessidade de sentir-se continuamente procurada. 2. Na nossa perspectiva. pelo contrário. como ameaça de perda. inúmeras vezes. em geral. desejada. Mas. o outro se levanta. Do outro. deve colocá-lo diante de si mesma como absolutamente desejável. de intimidade. reconhecido. o desejo de continuidade. De um lado. o descontínuo. É a reação vital de um organismo inteligente. O prazer de estar abraçados. Isso todas as mulheres o sabem por intuição. voltemos agora às duas formas. A mulher pode fazer o que quer.

Produzindo a crise da perda. É esse mecanismo que na maior parte das vezes mantém unidos marido e mulher pelo resto da vida. de repente. Porém. olham para ele como se fosse a última vez. na espécie humana. O mecanismo da perda age também espontaneamente quando o outro parte de fato. É o caso do marido cansado do casamento. o esforço para segurar o objeto que se torna dessa forma objeto de desejo. Quando querem possuir um homem. divorcia-se e casa com a pessoa pela qual se “enamorou”. isto é. não se trata de enamoramento. Na realidade. decide viver com ela. Sentem um amor que se alimenta exatamente da gravidade e irreparabilidade da escolha. que a amava. O enamoramento não tem nada a ver com isso. há o temor da perda. não é uma força que une. o sujeito tem a impressão de estar irremediavelmente apaixonado. atira-se nos braços da mulher. O exemplo mais típico é o da mulher que descobre amar o marido somente quando este lhe diz estar apaixonado por outra. desconfiam de sua eficácia no tempo. a levar em conta a alternativa. Após alguns meses . estão dispostas a arriscar. Fantasia que sua mulher vá embora. que. aliás. provocar ciúme. O mecanismo da perda está na base de muitos divórcios seguidos de um novo casamento. julga-se enamorado. descobre o valor do que está escapando e sente renascer um amor que acreditava terminado. o centro de sua vida. percebe que na realidade era somente ela que lhe interessava. o puro condicionamento.). o hábito. desencadeiam no homem um idêntico processo. geralmente não conseguem subtrairse. principalmente. Então rompe com o passado. ou eu ou a outra. Além do condicionamento. 134  erótica está mais fundamentada nos mecanismos de perda (reagir por ciúme. Mas. Ou me ama ou não me ama. Então. sente que não a suporta mais. E ela luta desesperadamente para não perdê-lo. Mas é uma ilusão. ele volta a ser a coisa mais importante. Diante da perspectiva de perder a amante. etc. que sonha com sua liberdade ou tem uma amante. colocam-se na condição de desejar desesperadamente o homem. colocado diante da catástrofe da perda. no dia em que ela decide deixá-lo. Assim. No entanto. que “ainda estava enamorado”. Mas isso não é verdade. Esse cimento emocional é muitas vezes confundido com o hábito.

3. Seu aparecimento. mas acreditam não senti-lo. ambos descobrem. Também os homens sentem ciúme. Nessas fantasias femininas o ciúme desempenha o papel de estratagema crucial da sedução. cada vez mais . como no enamoramento. com horror. quando olha para outra. Em suas fantasias eróticas não necessitam dele. que é capaz de dar a impressão de um verdadeiro enamoramento. uma explosão de ira. uma crise em que as ideias ficam confusas e as palavras faltam. Porém. 135  de vida em comum. O resultado é uma ruptura que ela julga definitiva. de crise em crise. pode ser tão repentino e tão intenso. O ciúme é um dispositivo essencial do desejo. quando o espera e ele se atrasa. atos sucessivos de desapropriação. se observarmos atentamente. A fusão do enamoramento não aconteceu. uma mordida de ciúme que depois desaparece. com relação ao homem desejado. No romance cor-de-rosa. ao contrário do que se pensa comumente. poderemos perceber que na perda o investimento da libido é sempre constituído pouco a pouco. mas faz surgir um sentimento novo. de saber com certeza o que vale a pena sem o perigo de confundilo com o que não vale. Há. mas que possui — profundamente — o poder de aumentar o desejo. que nada têm em comum. a experiência de ver as coisas com olhos totalmente novos. E o homem utiliza -o com as duas. mas que deixa marcas. Às vezes a mulher o faz premeditadamente “para enciumar”. verão aumentar dia a dia a estranheza que sentem um pelo outro. A rival o usa. através de crises sucessivas. Nesses romances. sem preconceitos. não revela um sentimento preexistente. jamais acontecerá. O temor da perda. junto com o ciúme existe o mecanismo do abandono. mas na maior parte das vezes é um ato impulsivo. com uniões e separações seguidas de novas aproximações. a mocinha também. O desejo aparece sob forma de ciúme. desde o início aparece a rival sedutora. A mulher percebe que o homem lhe interessa somente quando ele se afasta. ao contrário das fantasias eróticas femininas em que ele está quase sempre presente. Unidos. irreparável. A descoberta do amor acontece assim. E o relacionamento entre as duas mulheres é de ciúme recíproco. temível.

não choram. em ambos os sexos é extremamente importante o antegozo do encontro. a dúvida. É mesmo o caso de perguntar-se se estas não são. Em certos casos. Não escrevem poesias. Mesmo chorando. 136  intensas. A vida erótica pode ser constituída amplamente de fantasias agradáveis. Roma. Na verdade. Smith: Gelosia. a olhar-se. até a apoteose final. enquanto o erotismo é saboreado com igual intensidade. Lynn G. não falam a linguagem dos mitos. Porque aqui a espera não pode ter o mesmo grau de certeza do encontro erótico. a procurar-se. não existe o amor recíproco à primeira vista. Revivê-lo e sentir prazer. Não correm a noite inteira num carro para estarem. trad. Antes do encontro. E principalmente depois que o sucesso é saboreado. contra a vontade. não desejam que o tempo se acabe e o instante se torne eterno. Nem ela nem ele são impelidos. A simples ausência não produz ciúme 92. mesmo antes. A revelação do enamoramento é como um clarão ofuscante que dobra a vontade e enche o coração de uma alegria infinita. É uma excitação feita de fantasias. semanas. Não a incerteza. Não cometem loucuras. na manhã seguinte. Aliás. Examinadas superficialmente. até por dias. o enamorado é feliz. . Savelli. substituídas pela certeza e a continuidade. 92 Sobre esse assunto consulte Gordon Clanton. Nem o sucesso ou o triunfo. não gritam. essas vicissitudes podem ser tomadas como típicas do enamoramento. como acontece com os enamorados na vida real. definitivamente. Não há nenhuma outra experiência que sirva tanto a um antegozo desse tipo. E após o encontro. 1978. a noite ou a manhã seguinte. até logo depois dele. mas o antegozo de tudo o que acontecerá com relativa certeza. meses. 21 1. Não quer renunciar a esse estado extraordinário e divino. diante da casa do amado. Mesmo que não saiba como seu amor irá terminar. Às vezes. em que as dúvidas deixam de existir. Não se embriagam. mais agradáveis que o próprio encontro. no romance cor-de-rosa o amor nunca é revelado de improviso.. mesmo não sabendo mais quem é e onde está. ital.

Já foi frisado várias vezes que as mulheres esperam. 137  No homem. do massagista ou do professor de ginástica. queremos que esse interesse não seja profissional. subalterna. além disso. não é típica do amor erótico. Nós a exigimos do médico. de acordo com suas conveniências. o homem que marca a hora do encontro. uma preferência. pensamos o tempo todo nela. choramos. emocionante. quando se dedica a um cliente lhe dá a impressão de estar interessada apenas nele. de sermos objetos de toda a atenção. ainda que se dê a todos. Por outro lado. é preciso que haja a preferência. na escolha do vestido. Mas quando se sente desejada. Também nos animais. como criaturas únicas em meio à massa anônima dos outros. faz parte integrante do encontro erótico. o amante infiel. Mas nasça de . do advogado. quando imagina que também ele esteja ansioso pela espera. e a mulher sabe extrair dele todo o prazer. A própria prostituta. E uma preparação incrivelmente mais longa que a do homem. A existência do antegozo explica o prazer da espera e da preparação. do empregado que está atrás do balcão ou do guichê. de desapontamento. preferidos. embora momentânea. Na mulher. o encontro erótico tende a inserir-se numa tensão contínua. desesperamo-nos. Para que o ciúme exista é necessária a presença de uma terceira pessoa. O amor erótico é sempre uma eleição. ainda que seja por pouco tempo. da qual a espera é um laço. Às vezes. um momento. O erótico é inseparável de sua preparação e do que se segue. É. 2. Se uma pessoa amada parte. o antegozo pode produzir um estado de excitação sonhadora contínua. não seja consequência de um dever. Daí o sentimento de frustração. É um ato erótico. uma consequência de sua posição inferior. que só termina com o orgasmo. essa longa preparação é inútil. ainda que momentânea. A necessidade de sermos escolhidos. São obrigadas a esperar o marido. o homem não compreende. da maquiagem. do nosso amado por essa pessoa. É a escolha de nós como indivíduos. sentimos dolorosamente a sua falta. emigra ou morre. a mulher se prepara. preparar-se é excitante. mas isso não é ciúme. o “namoro” é uma escolha. No amor erótico. diz-se.

que. talvez em todos os seres. A ameaça vem do exterior. mas também da pessoa amada. o amor. tratando-o. Cada filho. por um momento. porque a mãe necessita de todos os filhos. No ciúme tememos que ela prefira o outro a nós. não é anônima. inconfundível. Não sente ciúmes da mãe. . O filho sente ciúmes dos irmãos. e sim ao rival. 138  uma escolha pessoal feita livremente. Estamos. nesses casos. mas o ciúme não se dirige ao objeto de amor. no âmbito da situação de perda. o interesse não são coisas que se possam obter sem o consenso. Não existe. do pai. Por isso é sempre preciso que de quando em quanto a mãe lhe dê atenção exclusivamente. cada mãe ama de forma total cada filho. absolutamente única. a necessidade de ser preferido. O ciúme faz seu aparecimento na vida como uma competição com outro para apossar-se do amor de alguém de modo exclusivo ou para não perder sua exclusividade. que a mãe cuide dos irmãozinhos menores. “como se” fosse filho único. acredita ou espera ser o predileto. que o filho é “ciumento”. Por outro lado. que os encha de mimos. enquanto cada um deles necessita dela e poderia dispensar os outros. O objeto de amor é subtraído de uma forma ameaçadora. Existe no mais profundo do ser humano. mas pessoal. sem levar em consideração obrigações pessoais com relação a nós mesmos. Por isso dizemos que sentimos ciúme de quem amamos. Em cada um ama uma entidade individual específica. É um comportamento semelhante ao do animal que defende seu território. dando-lhe a impressão de que ele é tão essencial a ela como ela o é para ele. Não devemos apenas defender o nosso objeto de amor da força do negativo. Percebe-se isso no ciúme tanto entre animais quanto em crianças. Por outro lado. e cada um deles é igualmente importante para ela. O rival constitui uma ameaça somente se o nosso amado o aceita. No ciúme. sim. destruí-los. simetria. porém. a agressividade se dirige também contra a pessoa amada. porque ele próprio é cúmplice dessa força. Dizemos. no mais profundo do coração. é ele próprio essa força no momento em que escolhe o outro e não nos quer. O filho mais velho aceita. portanto. no entanto. subtrai-se ao nosso amor. portanto. revoltado. impessoal. O ciúme infantil apresenta-se como agressividade contra os irmãos para expulsá-los.

. No enamoramento bilateral e profundo há pouco espaço para o ciúme. continuamos a acreditar que. banais ou mesquinhas. se ele não nos quer ficamos desesperados. é como um pesadelo. 93 As pesquisas empíricas nesse campo não são convincentes. que não sabe o que faz. mais primordial de ciúme. mesmo sem o saber. perfeito. O enamoramento está baseado numa espécie de cisão da experiência. frio e sem esperança. se ela se conhecesse verdadeiramente. na realidade engana a si mesma e. Necessitamos continuamente de reconhecimentos para alimentar a nossa auto-estima. o nosso amor. Ver “L’amore romântico e la gelosia sessuale”. a agressividade com o rival) é a forma mais simples. O sofrimento do ciúme é o sofrimento típico da ambivalência. Por isso necessitamos absolutamente do reconhecimento de quem amamos. então. mas não destruídos moralmente. quando queremos ser amados livremente. 139  O ciúme do rival (isto é. estamos convencidos de ter intuído sua afinidade conosco. em Gordon Clanton. estamos convencidos também de que a outra pessoa é levada a nos amar porque assim é a sua natureza. pois identificam enamoramento e amor romântico. Mesmo que negue. porém. preferidos livremente. 3. No enamoramento. Ellen Berscheid e Jack Frei observaram empiricamente que “aqueles que vivem com plenitude um tempo de a mor parecem experimentar um forte sentimento de dependência sem necessariamente sofrerem forte insegurança. o existente. Por isso. se nos diz que não nos ama. Deixando-nos. O ciúme da pessoa amada aparece mais tarde. porque nos empurra para o mundo cotidiano. Se aparece. então não poderia deixar de nos amar. enamoramento e dependência. se torna ambivalência. O ciúme. O ciúme é uma desvalorização de si próprio. Porque sabemos que está enganado. de quem tem valor. Lynn G. as coisas como elas são. claro. De qualquer modo. do outro. condena a si mesmo. Quando estamos profundamente enamorados. cava a própria ruína. embora tendo absoluta necessidade do amado. porque há pouco espaço para a ambivalência. O ciúme não pode infiltrar-se nessa perfeição 93. De um lado. Smith: Gelosia. Se olha para outro. condena-se. se seguisse sua profunda vocação.

segundo esse autor. Um a um. As crianças. O desejo somente aparece quando há uma outra pessoa que deseja alguma coisa. ele continua a pensar que Lolita tenha sido levada por um engano. só aparece quando essa certeza entra em crise. quando perdemos a confiança de compreender o outro e nós mesmos. a estrutura elementar da inveja é bem diferente. Girard observa que o ser humano é mimético. Contudo. Paris. mas faz com que o amigo lhe pague por isso. Até que acontece justamente o que temia. 4. Nesse amor desesperado sente um ciúme louco.. Grasset. 1972. No entanto. no enamoramento. de outros rapazinhos. cercado por um verdadeiro harém. . No livro Lolita. Mas Tom reage fingindo que o trabalho é divertidíssimo. de filmes. Tom concorda. 94 René Girard. Mensonge romantique et verité romanesque. sujeito dissoluto. Milão. O autor que talvez melhor tenha compreendido a inveja foi René Girard 94. Comumente o ciúme é confundido com a inveja. La violenza e il sacro. 140  O ciúme. Tom Sawyer tem de pintar uma paliçada. Um companheiro passa por ali e põe-se a zombar dele. teme que todos possam levá-la. No célebre livro de Mark Twain. regido por outras leis e onde não existe mais uma ordem de justiça. coloca-se no lugar do outro e deseja o que o outro deseja. Matando o artista. Adelphi. isto é. um amor sem retribuição porque ela é uma menina. gosta de revistinhas. afirma as razões do amor autêntico contra a paixão e a cegueira despertadas por uma personalidade famosa. por não saber o que estava fazendo. todos os rapazes da cidade o enchem de presentes para que possam também experimentar o trabalho. o protagonista ama Lolita desesperadamente. ital. trad. isto é. também nesse caso. o protagonista julga estar cometendo um ato de justiça. quando despencamos da região dourada do amor radiante para o inferno da contingência. 1962. na pessoa de um comediante hollywoodiano. aprendem o que é desejável através da identificação com os pais e com as outras crianças de sua idade. Imediatamente o outro deseja pintar também. de Nabokov.

mas como este quer ter a mãe para si. Nesse caso. A inveja mimética é tanto mais forte quanto maior for a identificação. Com certeza existem homens que se excitam somente à ideia de sua mulher ser possuída por outro. Os mecanismos da inveja mimética não têm a importância que Girard lhes dá. sendo assim condenado a entrar em contato consigo próprio. Existe um número enorme de casos de homens que praticam a troca de casais. Porém. mas a identificação com o outro. Somente assim se põe em movimento o nosso desejo. no exato momento em que o adversário desaparece ou desaparece o seu desejo. No livro Um amor. o desejo do outro que age em nós. o protagonista se enamora de uma prostituta. seu amor acaba. Nem sempre os mecanismos miméticos provocam o aparecimento do ciúme. às vezes fazem com que ele desapareça. nada mais é que uma forma de inveja. e seu desejo por ela aumenta desvairadamente à medida que ela se relaciona com outros homens. O pai mais terno e carinhoso gera fora de si um outro si mesmo que quer exatamente as mesmas coisas que ele. temos de lutar contra ele. segundo Girard. procurar destruí-lo. porque era apenas um reflexo do outro. que a possua. Não é preciso nenhuma frustração para explicar o conflito. 5. Certamente não podem explicar o enamoramento. Explica por que nos agarramos e desejamos loucamente uma pessoa quando esta nos troca por outra. 141  Aplicando esse mecanismo à situação erótica. Como consequência. O ciúme. não tanto para ter relações com uma outra mulher. Girard explica o complexo de Édipo da seguinte maneira: o filho identifica-se com o pai. não é somente a perda que intensifica o nosso desejo. Temos ciúme da pessoa que amamos porque para amá-la necessitamos que seja possuída por outra. mas desempenham um papel considerável nos relacionamentos eróticos. o nosso também se esvai. mas porque ficam excitados quando sua mulher . invejando o outro. Quando afinal a mulher espera um filho e fica somente com ele. de Dino Buzzati. Necessitamos que exista outra que a queira. ele quer a mesma coisa. mas elucidam algumas paixões eróticas violentas em situações competitivas.

finalmente. 1976. Existe um segundo tipo de pessoas que. Gilmartin: "La gelosia fra gli swingers”. Existem pessoas cujo erotismo se alimenta do ciúme. 95 Renata Pisù: Maschio è brutto. e o fazem com a mais absoluta determinação. já citado. mesmo que depois venham a ser desejadas intensamente. mas a ela. sofrem. mas a ela.” Também a troca de casais geralmente é feita por iniciativa masculina 96. mas. quando são atingidas por ele. ao contrário. na maioria das vezes. “é porque não me ama. mas é ele que prevalece. toma o lugar do homem. Ele imagina vê-los enquanto fazem amor e depois. Bompiani. O fato de imaginar o amante ou a amante nos braços de outra ou outro os faz sofrer. Existem. Milão. Provavelmente porque para eles o relacionamento sexual tenha uma carga menor de significado amoroso. Lamentam-se. Muitas vezes com um ex-amante da mulher ou outro de quem ela lhe tenha falado. em Gordon Clanton. ao mesmo tempo. Isso acontece tanto com mulheres indiferentes como com a mulher por quem está enamorado. mas têm de ser convencidas. quando na realidade o rival não pode ser expulso. Esses comportamentos e fantasias são mais frequentes nos homens que nas mulheres. isto é. pois. pensam logo em abandonar quem as faz sofrer. Com muita frequência. porque atribui ao sexo um interesse amoroso que faz detonar o alarme do ciúme. 142  se relaciona com um terceiro 95. Não me quer. insensivelmente. Pode-se com certeza adiantar a hipótese de que o ciúme aparece somente quando essa substituição não pode acontecer. Ver Brian G. as que não suportam o ciúme de maneira alguma e que. Lynn G. pensa ela. porém o interesse pelo seu objeto de amor permanece. “Se faz amor assim”. aumenta seu desejo e prazer. Smith: Gelosia. 96 . não sentem prazer vendo seu homem fazer amor com outra mulher. As mulheres adaptam-se a ela. durante o ato sexual o homem cria fantasias em que se identifica com outro qualquer. coexistem com seu ciúme. brigam. A mulher não se excita imaginando seu homem a fazer amor com outra mulher. mas conseguem suportar o sofrimento. 6. São ciumentas.

são ciumentíssimos no princípio. imutável. pela intensidade do ato erótico. ao contrário. No caso de ser um amor à primeira vista. jamais haviam acreditado em sua possibilidade de continuar. mesmo que por breves instantes. cortam as relações porque. confiantes. No imaginário feminino. o desejo do homem é como uma corda estendida sobre a qual caminham juntos. não é ciumenta. pelos gestos. não parecem ciumentos porque cortam pela raiz qualquer relacionamento que possa fazer nascer neles esse sentimento. pensa que ele se dirigiu para outro objeto. ciumentíssimo). baseando-se na história de sua vida. a sua credibilidade. sedutora. Mas quando intui. exclusivo. Basta que a tensão da corda afrouxe. Ao conhecerem uma nova pessoa. Instintivamente reage. em geral. e ela se sente em perigo. então. Enquanto percebe que o desejo dele é intenso. que outra mulher entrou em cena. Pode pensar que o homem tenha até uma aventura sem maiores consequências. porque sabem que não precisam temer nada. é tomada pelo pânico. mesmo insignificantes. o suportam. porém. pelo calor do abraço. Ao sentir que esse desejo diminui. Abandonam-se ao ciúme. então começa. instintivamente. torna-se uma força. Está armazenada em seu inconsciente e reaparece sob a forma de certeza absoluta quando acontece algo. seu ciúme. se o homem se afasta. Os outros. uma . em silêncio. a mulher imagina que o homem tenha um desejo erótico constante. após o que ou interrompem o relacionamento ou o continuam. lutam com ele. faz-se mais bonita. na verdade. que o desejo não é o mesmo. mas ao segundo. No íntimo. Se o perigo real aumenta. sem a menor sombra de ciúme. que é capaz de precipitar ambos no abismo. sem hesitar. até terem elaborado a sua avaliação. de uma forma ou outra. Essa avaliação é. 143  As pessoas consideradas ciumentas não pertencem jamais a esse último tipo (na realidade. definitiva. volta a ser gentil. desesperamse. nos detalhes de comportamento. avaliam em primeiro lugar. confrontando as versões do mesmo fato ocorridas em momentos diversos. pode ter apenas suspeitas. a ser ciumenta. Então. 7. com extrema precisão. Na mulher o ciúme está ligado ao desejo do homem.

aparecendo então provas feitas ao acaso.. ideias. o pensamento gira em vão na matriz bloqueada como um ratinho na gaiola... técnicas já existentes” 97. põem-se a funcionar dentro de si mecanismos mais profundos. fornecem uma ligação com uma matriz completamente diversa. Após o que a matriz parece romper-se em “pedaços. Tudo a fim de manter unida aquela corda tensa. solta os freios de seu erotismo.. Depois. ou a intuição. a tal nível de complexidade. bate em retirada. e as duas matrizes se fundem numa só. Roma. temos de pensar nos processos criativos.. nós o atacamos de acordo com um código de regras que no passado nos tornou possível resolver problemas análogos.. combina. dizemos que a situação está bloqueada. O enamoramento é algo que acontece no indivíduo. Então. Nessa situação a mulher é capaz de lutar com selvageria. Uma vez exauridas todas as tentativas de resolver o problema com os métodos tradicionais.. Até que o acaso. . não saber absolutamente nada do que está 97 Arthur Koestler: L’atto della creazione.. mistura. é uma mudança de estado do indivíduo. 144  energia terrível. lentamente.. acompanhadas de momentos de nervosismo e ataques de desespero. o desejo de vingança. Ebaldini. procura pôr-se a salvo e. Arthur Koestler em seu livro O ato da criação. Quando isso acontece. Para compreender o que é o enamoramento. deixa escorregar a corda no abismo. 1975. A situação bloqueada aumenta a tensão de um desejo frustrado. que torna impossível a solução com as regras do jogo aplicadas às situações passadas. Mas a novidade pode chegar a tal ponto. capacidades. ital. sem pudor. trad. escreve: “Quando a vida nos propõe um problema.. destrutivos e autodes.trutivos. agora já reduzida a um fio. a renúncia.. 22 1. Está disposta a tudo. O objeto amado pode não entrar em nada. renuncia até mesmo à sua dignidade. sintetiza fatos. ultrapassado determinado ponto. até o cansaço.. em silêncio.. O ato criativo.

ao contrário. Mas qual é o problema cuja solução é o enamoramento? Ele pode ser definido da seguinte maneira: nós. Existe em nós a tendência de unir-nos a algo que nos transcende totalmente. . No enamoramento. Esse é um esquema social. desde a infância temos necessidade de objetos absolutos e totais de amor. até mesmo sua mínima desatenção nos magoa. tradicional. uma vez subvertidas as regras. enamora-se. o estado de graça beatificante. Os biólogos. A mãe. são limitados e com frequência tornam-se opressivos e frustrantes. O enamoramento é a solução individual de um problema vital insolúvel. no início. Os religiosos dizem que é o desejo de Deus. duvidar daqueles que seguem uma ordem imutável. A mulher 98 Ver Francesco Alberoni: Enamoramento e amor. logo depois. É sempre inesperado. Podemos permanecer enamorados de uma pessoa que jamais nos dedicou um olhar. a reciprocidade. depois divorcia-se e depois. Procuramos diminuí-la idealizando nossos objetos de amor. que é o impulso da evolução. pouco mal pode nos causar. Dizem os psicanalistas que esse algo é a lembrança da experiência da vida no líquido amniótico. ao contrário. É a resposta criativa do indivíduo quando já faliu qualquer outra solução costumeira. a terra prometida. tanto maior a sua possibilidade de decepcionar-nos. Primeiro briga. Se. uma regra. Exatamente como a solução de um problema insolúvel e obsediante 98. 145  acontecendo. a pátria. A ambivalência é confusão. é essencial para nós. desordem. aparece por revelação. O enamoramento não é um fato criativo. Inevitavelmente acabamos por experimentar sentimentos agressivos para com a pessoa que mais amamos. portanto. Daí a ambivalência. Todos os objetos concretos de amor. quanto mais importantes para nós. Deus. Devemos. É a tendência a transcender o existente e a buscar o paraíso. Se algo pouco nos interessa. não existe e pode continuar a não existir depois. seres humanos. Aliás. e o interessante livro de Dorotby Tennov: Love and limerence. Não importa. tomando sobre nós a culpa do que acontece ou atribuindo-a a causas externas. Deus. já citado. encontra a solução onde não teria jamais procurado. são entidades desse gênero. O marido sente-se culpado se a mulher está triste.

de entropia. Os impulsos vitais não sabem para onde endereçar se. E. Com os mecanismos tradicionais. filhos. São colocados num mito pessoal. Por isso as pessoas rompem com velhos amigos. remanejado para reduzir as tensões. enquanto na verdade tudo está profundamente mudado. Tem a impressão de que somente os outros são felizes. Após termos atingido uma meta. Mas esse trabalho contínuo de reparação. as relações entre os casais se deterioram. continuamente reelaborado. Durante a vida nós mudamos. Nem ao menos sabem o que querem. Surge então um sentimento de desespero. 146  procura justificar o mau humor do marido com o cansaço. partido. de ajustamento. onde tanto os mecanismos depressivos como os persecutórios falham. Vagam ao acaso. as preocupações. Ele os vê rir. Na psicanálise todos os mecanismos que nos fazem assumir a culpa do que não está bem no nosso objeto de amor são chamados depressivos. o problema é insolúvel. Igreja. de compromissos práticos e de revisões ideais em certos casos pode fracassar. Como se seus desejos mais profundos não pudessem . não conseguem mais idealizar os objetos de amor. os nossos objetos de amor (marido. de fracasso. o trabalho. divorciam-se. querem outras coisas. amante. Por esse motivo. Novas experiências provocam o surgimento de novas necessidades. para abaixar o nível de ambivalência. modificam-se também as pessoas que amamos. num mundo em contínua transformação. O indivíduo sofre a experiência de uma grande potencialidade vital desperdiçada. brigam com os filhos. Ou então continuam a fingir que tudo está como antes. Todos aqueles por meio dos quais descarregamos a responsabilidade sobre qualquer causa externa são chamados persecutórios. Por isso mesmo. mulher. e então o que era bom passa a não ser mais. Continuam a representar uma comédia onde não sabem mais o que é verdadeiro ou o que é falso. enfim qualquer coisa com a qual nos identificamos e que amamos) são sempre uma construção ideal. e sente uma inveja que o consome. Estes estão com sobrecarga. divertir-se. procuram novos caminhos. tornam-se diferentes. o resultado de uma elaboração. É essa a situação de desordem. apresentam-se a nós todos os desejos a que tivemos de renunciar.

O outro mecanismo. Existe pois um importante objeto de amor A positivo. Esta é a situação de equilíbrio porque continuamos a ter estima por nós mesmos. mas incapazes de dar a essa vida seus objetos e objetivos. Ou então pode acontecer uma conversão política. isto é. Passemos agora à segunda figura. Os sinais + indicam as cargas positivas (de amor) de que é investido. De repente dá-se conta de que todas as coisas que o faziam sofrer não valem nada. Pode ser uma conversão religiosa. sente no mundo desejos e paixões desmesurados. Percebe-os nos outros. o enamoramento. A solução desse problema é sempre uma redefinição de si mesmo e do mundo. Para ilustrar em que consiste o estado nascente usaremos três figuras. É assim que. Do outro lado da figura. que corresponde à seta projeção. Na primeira (na página seguinte) representamos o campo psíquico em condições de equilíbrio. geralmente. A seta depressão mostra o mecanismo que pega a agressividade voltada para o objeto de amor e a traz para nós. se encontram os adolescentes. Também aqui ele encontra o que é essencial e subordina o resto ao que realmente vale mais. Nela está representada a situação de desordem. e os sinais —. Na nova seita. a agressividade. Pode ser. projeta a . felicidades que lhe são proibidas. as cargas negativas. Há duas setas que indicam os mecanismos. 147  mais revelar-se diretamente a si mesmo. tudo se torna simples e claro. que os caminhos que seguia eram errados. 2. consideramos perfeitos os nossos objetos de amor e odiosos os nossos inimigos. enfim. Cheios de vida. há um objeto persecutório B. O momento em que o velho mundo desordenado e ambivalente perde o valor e aparece a nova solução é o momento do estado nascente. ou entropia. No deserto da ambivalência e da desordem. transformando-a em sentimento de culpa. Então a sua meta última torna-se uma pessoa porque é através dela que entrevê tudo o que é desejável e a perfeição do seu ser. na nova Igreja. S é o sujeito. completamente saturado de investimentos agressivos.

É isso a sobrecarga depressiva. O processo pode ser representado desta maneira: . a situação que precede o estado nascente. e os persecutórios pelo erotismo. Este a elimina graças a uma solução criativa e extraordinária que consiste em recombinar os elementos do campo de uma maneira nova. Através dessa reestruturação surge um novo objeto de amor não ambivalente e com o qual o sujeito se sente fundido. Os objetos de amor são invadidos pela agressividade. 148  agressividade no objeto persecutório. Os dois mecanismos já não conseguem controlar a ambivalência.

Até agora descrevemos o estado nascente como algo que acontece somente a uma pessoa. do primeiro. O outro é o da existência. Não os apaga. pobre. portanto. a pessoa amada. infeliz. mas também. o novo objeto não ambivalente de amor destaca-se como uma figura sobre o fundo dos outros objetos de amor do passado. da fusão. No estado nascente. O outro. não é uma pessoa qualquer investida de qualidades extraordinárias. é amado independentemente de seu desejo. principalmente. o objeto absoluto de amor não é um objeto entre outros. o caminho para a perfeição. A experiência específica do estado nascente é caracterizada por um desdobramento entre dois planos. e contemporaneamente. tira o seu valor. do amor. . Essas três figuras representam o campo psíquico de um único indivíduo. torna-os contingentes. Um é o da realidade. contraditória. Podemos agora compreender realmente o abismo que separa o processo de enamoramento daqueles descritos anteriormente e. 149  Como se vê. daquele que se enamora. do prazer. A pessoa amada. Ela é uma pessoa empírica. dois níveis. de sua resposta. o absoluto. do dever ser. da divisão. 3. o objeto de amor. sublimes.

Os dois permanecem um mistério. ital. que também o outro esteja numa condição de sobrecarga. Elas são feitas. portanto. que. Cada um tem a pretensão de conhecer a essência do outro melhor do que ele próprio a conhece.. Em geral. 99 Lou Andreas Salomè: La materia erotica. seres empíricos e transcendentes. o fim da separação do sujeito do objeto... Escrevia Dante: “Amor ch’a nullo amato amar perdona”. ver Roland Barthes: Fragmentos de um discurso amoroso. o êxtase absoluto. Pelo mesmo motivo são. vizinhas e infinitamente afastadas. . a pessoa amada nos ame? É preciso que um processo análogo ao descrito se realize também no outro e que os dois se reconheçam. Sobre o não conhecimento da pessoa amada. O enamoramento recíproco. 150  Como é possível. É preciso. sobrenome. algo que existe e algo que se torna. O enamoramento recíproco ê o reconhecimento de duas pessoas que entram em estado nascente e que reestruturam o próprio campo a partir do outro. Fundidas e separadas. ao mesmo tempo. rompendo seu estado de equilíbrio instável. portanto. basta saber que o outro o faz milagrosamente feliz. trad. endereço. o processo de estado nascente se inicia num dos dois e o desencadeia no segundo. um para o outro” 99. Mas o reconhecimento de duas pessoas num estado extraordinário. Gallimard. fraquezas. ao mesmo tempo. com nome. Do outro. de um lado criaturas de carne e osso. Como diz Lou Salomè: “No fundo o amante não se interessa pela maneira como é amado. Mas porque no estado nascente eles são. Alain Finkielkraut: La sagesse de 1’amour. necessidades. É uma força de sedução extraordinária. Roma. De que modo. com suas qualidades definidas. 1984. não é o reconhecimento de duas pessoas em condições normais. fragmentos da força criativa da vida. Cada um teve a revelação por conta própria. por sua vez. Editor i Riuniti. portanto. a perfeição. e possa entrar em estado nascente. o estado nascente. O estado nascente tem uma capacidade formidável de comunicar-se. não o sabe. uma para a outra. de entropia. Duas pessoas que entrevêm. 1985. isto é. Porque o amor existe em cada uma delas independente da existência empírica do outro. Paris. então. que ataca seu objeto e o arrasta consigo. forças transcendentes através das quais passa a vida na sua inteireza.

uma espécie de fusão místico-amorosa monogâmica. Pelo mesmo motivo. Sonya Friedman: O homem é a sobremesa. Penelope Russianoff: Why do I think I am nothing without a man?. As personalidades empíricas. a viver juntas. de paz. As duas vontades podem não coincidir no 100 A literatura psicológica sobre o amor romântico nos Estados Unidos está e xterminada. Recentemente algumas feministas atacaram violentamente o estado amoroso justamente como reação à idealização que dele havia sido feita. O amor romântico é descrito como um estado de contínua felicidade sem conflitos. se o outro o ama. Ver. já editado no Brasil. 151  4. O enamoramento é um processo no qual cada um é obrigado a mudar e em que cada um resiste à mudança. como já vimos. E não há motivo algum para estas coincidirem com as do homem amado. ao amor estável entre duas pessoas que aprenderam a conhecer se. o enamoramento. . Além do mais. O enamoramento constitui um poderoso impulso para a fusão dos dois indivíduos. difuso. Ann Arbor. a passagem do estado nascente do amor. Também a mulher. Posso apenas colocá-lo em guarda contra a identificação do enamoramento com o mito do amor romântico 100 propagado pela cultura americana contemporânea. A cultura de massa. o enamoramento não é um estado permanente de êxtase. 1982. Ele é também dúvida. Michigan. à instituição. busca e tormento. satisfez com esse mito as fantasias femininas de fusão total e contínua com o amado. O idílio é um momento de harmonia. que se verifica no enamoramento. nem ao menos sabem se estão verdadeiramente enamorados. mas não é pura fusão. Nova York. a respeitar-se. no enamoramento. mas que jamais dura por longo tempo. também ela apresenta uma fortíssima resistência a tornar-se como o homem a quer. as fantasias. Isto é. porém. EUA. sobretudo. ver Rubin Isaac Michael: The social psychology of romantic love. não desaparecem. Bantam Books. A mulher deseja o tempo erótico contínuo. e particularmente o cinema de Hollywood. Para uma atualização até 1969. luta para afirmar os desejos. Neste livro não posso expor novamente. os dois enamorados não se conhecem. Peço ao leitor que leia o que escrevi em Enamoramento e amor. University Microfilm International. Não se deve absolutamente confundir o enamoramento com o idílio. No enamoramento a reciprocidade deve ser averiguada. Na realidade. Cada um deles não sabe. com detalhes. as esperanças que alimentou no decurso de sua vida. por exemplo.

em sobrecarga. com relação às muitas outras formas de erotismo que descrevemos? No capítulo precedente dissemos que o enamoramento constitui a solução de uma solução bloqueada. A expressão “depressiva” dá uma ideia de tristeza. porque se abrem diante de nós novos caminhos. Então as nossas potencialidades vitais tendem a rebelar-se. os nossos velhos objetos de amor. que é toda sensualidade. Como perceber que aquilo que sentimos é um enamoramento verdadeiro ou uma paixão passageira? Como perceber que o nosso desejo não é devido ao temor da perda? Que características possui. 152  que chamei de pontos de não-retorno 101. Ou então quando vamos trabalhar no exterior. . desligando-nos do nosso passado. Nesse caso. até que não encontramos uma nova solução global. Conscientemente procuramos conservar os nossos velhos relacionamentos. o erotismo do enamoramento. Mas não é assim. conseguimos integrar-nos nele com mais facilidade. depressão.estar que sentimos e que provocamos nos outros. A imagem de uma mulher que ama totalmente. já citado. enquanto o nosso ambiente permaneceu o mesmo. Esta palavra pode suscitar ambiguidades. Mas podemos nos enamorar também quando sentimos possuir uma energia criativa que os outros não reconhecem. enfim. faz parte da idealização. atribuímonos a responsabilidade do mal. maravilha amorosa total. estão. por isso mesmo. incondicionalmente. a sobrecarga depressiva. O enamoramento é uma dessas soluções. Sobrecarga depressiva significa que os mecanismos depressivos não funcionam mais. enamorandonos de uma pessoa no novo país. O enamoramento nasce de um grande impulso vital que não consegue realizar-se na situação dada e recusa a depressão. 23 1. É portanto mais fácil nos enamorar quando estamos tendo sucesso. A recusa quando nós estamos mudados. 101 Francesco Alberoni: Enamoramento e amor.

basta uma música para nos comover. Às vezes. Ninguém se enamora voluntariamente. Não percebemos o desejo em nós mesmos. ao mesmo tempo. mas um sintoma 102. um sentimento de desconforto. Sentimos uma grande energia vital dentro de nós. de impotência. fazemos muitas tentativas de enamoramento. entrando num local cheio de gente. Tudo isso acontece porque estamos lutando contra os nossos desejos profundos e estamos à procura do que possa satisfazê-los. O estado nascente se inflama por um átimo. vemo-lo nos outros. os sonhos são carregados de evocações e de presságios. . e sentimos inveja. não o percebemos. Damo-nos conta de que o mundo está cheio de gente viva. queremos ser felizes e não o somos. até mesmo muito intensas. Um outro sintoma é o aparecimento angustiante do desejo não sabemos de quê. feliz. nos fazer chorar. As vezes entrando num trem. Mas a hora não é essa. Quando estamos para nos enamorar. E mesmo na vida cotidiana temos a impressão de que estão acontecendo coincidências insólitas. Por vezes. É um processo inconsciente. 2. misteriosas. Experimentamos uma súbita atração por quem arriscou a vida por um ideal ou por um valor. muitas explorações. Geralmente nas fases que precedem o enamoramento. mas. no homem. inicia uma reestruturação do campo. a inveja não é a causa do enamoramento. 153  Tudo isso. O choro. Queremos ser como essa gente e não o somos. a pessoa não é a adequada. outras vezes caminhando pela rua. Antes de nos enamorar da pessoa definitiva. Ao contrário do que é sustentado por Proust e por Girard. e então dizem que 102 René Girard: Mensonge romantique et verité romanesque. as nossas crenças mais sólidas parecem-nos sem sentido e nos sentimos próximos à rebeldia. ou a esperança de encontrar alguém por quem sempre esperamos e não sabemos quem é. não é um ato voluntário. ê quase sempre o sintoma seguro de um amor que nasce. por uma infinitésima fração de tempo temos a impressão ou a esperança de que ali há alguém para nós. porém. já citado. Essas explorações se apresentam como paixões repentinas. Algumas pessoas permanecem nesse estado por muito tempo.

a plenitude de vida e a proximidade da morte. retorna. um grito de revolta. sentimo-nos livres. é quase um sentimento de tristeza. E. porque o mundo habitual se torna estranho. mas o sintoma de que no enamoramento o significado da vida é posto em discussão. Mas como uma aventura em que fomos envolvidos e que podemos escolher ou recusar. O nosso passado volta-nos à mente e de tudo fazemos um julgamento. total. Ou então têm a impressão de estar enamoradas. Acima de tudo. assim. Mas no estado nascente percebemos quão inúteis elas são e como são vãs muitas das nossas . ao mesmo tempo. ao mesmo tempo. O estado nascente é também o dia do juízo e de sua condenação. frágeis. de diversas pessoas. a alegria e a angústia. Lentamente se estabelece na nossa consciência uma divisão entre o que é verdadeiramente importante e o que é supérfluo. é uma experiência de alegria. o enamoramento ainda não existe. Nós nos fazemos verdadeiramente a pergunta metafísica: quem somos? por que estamos aqui? que valor tem a nossa vida? Nossa existência não nos aparece mais como algo natural. O estado nascente é uma morte-renascimento. é como se a nossa liberdade somente se pudesse realizar fazendo aquilo para o que fomos chamados. deixando-nos. de. A imagem amada. Quando aparece. Outras vezes. Como a liberdade e o destino. Às vezes. mesmo as coisas mais tolas. que é assim porque assim é o mundo. se for expulsa. 154  se enamoraram como uma continuação. O fato de a literatura amorosa falar com tanta frequência de morte não é uma brincadeira macabra ou um sinal de neurose. o tormento e o êxtase. o total altruísmo e o total egoísmo. é inapelável. O estado nascente do amor aproxima com naturalidade categorias que a lógica abstrata considera incompatíveis. manifestam-se todas as outras características inconfundíveis do estado nascente. Na vida cotidiana tudo nos parece essencial. liberação. um espanto. terrivelmente próximos da morte. na maioria das vezes. porque as coisas a que estávamos tão ligados nos parecem sem nenhum valor. a força e a fraqueza. Enquanto se desenvolve o nosso amor. o relacionamento com a pessoa torna-se exclusivo. impõe-se. realizando o nosso destino. contingentes. mas ao mesmo tempo. Na verdade.

da pele. não alcançá-la. Não apenas a nossa mente. É a porta. sua proximidade tem o poder de nos transtornar. mesmo que os dois enamorados não se queiram. por isso. A pessoa . ao velho mundo. até a última célula. do mito. O enamoramento não pode ser acabado. Também a pessoa amada nos está. chorando. Dura muito tempo. Da pessoa amada amamos até os defeitos. os erros. que encontramos o ponto de contato com a fonte última das coisas. o fígado. de todo o organismo. com a natureza. Então a nossa linguagem habitual torna-se inadequada para exprimir essa realidade interior. Quem experimentou esse estado não consegue mais voltar a viver na nebulosidade inerte do passado. A força do estado nascente é uma força redentora que tudo transfigura. E através dela. Mesmo na pessoa mais cansada o amor é como um despertar. mas infinitamente distante. o sistema se toma estabilíssimo. Essa mesma pessoa é portadora de uma força extraordinária. mas a quem foi concedido apenas ver a Terra Prometida. que nos deixa maravilhados e que nos parece inacreditável. Pelo menos se confrontadas com o que se está tornando para nós o máximo bem. um dos maiores profetas. porém. Espontaneamente descobrimos a linguagem do presságio. A pessoa que descobrimos amar não é então somente bela e desejável. a única porta para penetrar nesse mundo novo. A única alternativa que nos é concedida é a de retornar. a vida nos aparece intensa e extraordinária. graças a ela. A emoção do enamoramento toma conta do corpo. que se deixem. Ao mesmo tempo. 155  preocupações. É a mais querida entre todas as pessoas. os rins. da poesia. Como no caso de Moisés. O mundo se revela maravilhoso. para ter acesso a essa vida mais intensa. Do outro lado de uma porta. é um entrever. de uma barreira. do estômago. com o cosmos. mesmo que se desencontrem. o próprio sentido da vida. os órgãos internos. não pode ser transferido para outra pessoa. o baço. O estado nascente não é jamais um chegar. Uma vez que aconteça o enamoramento. na presença dela. Como um sonho que se pode desvanecer. não se compreendam. com o absoluto. dos músculos. não pode ser modificado. infinitamente próxima.

é a descoberta do valor daquele indivíduo único e inconfundível. Apaga-se somente quando algo resiste a ela de todas as maneiras. A pessoa que amamos no enamoramento é única e inconfundível. O artista famoso. O milagre do enamoramento está exatamente nisso. no mesmo plano do que é nobre. o mais famoso. na paixão erótica. incessante. É um erro falar de idealização. em descobrir o valor de uma pessoa contra os valores socialmente reconhecidos. Mas há um motivo ainda mais sutil. No livro Orlando furioso. Do ponto de vista social. os seios. cotidianamente. sem valor algum. Orlando não resiste à revelação e enlouquece. 156  verdadeiramente enamorada gostaria de acariciá-los. Por isso é uma força revolucionária. uma redenção do que habitualmente é considerado inferior. já tem os olhos de todos voltados para ele. abandonará a primeira e ficará com a segunda. é uma revelação. socialmente desejado. Falando do aspecto coletivo do erotismo feminino. Podemos agora esclarecer por que a paixão erótica por um artista não é enamoramento. a pessoa que nos agrada pode ser substituída por outra do mesmo tipo. Precisa desse cotidiano para consumar-se. Essa força redentora só se apaga com o tempo. beijá-los como o faz com os lábios. se a experiência se restringe ao plano erótico. Não pode passar sem ela. o invencível. não pode ser substituída por nenhuma outra. Porém. dissemos que a mulher é atraída pelo centro. Angélica se enamora de Medoro. Ao descobrir esse amor. da inércia. ao contrário. repetida. atraente e desejável quanto aquela. o cansaço da inutilidade. é um escândalo. O que a fascina eroticamente não é uma única pessoa concreta. Não basta um ato pontual. como vimos. o desespero da indiferença. . Angélica ignora o rei e os príncipes que estão enamorados dela. um simples soldado. Até mesmo Orlando. Ao contrário. É uma transubstanciação. 3. Um homem pode estar eroticamente apaixonado por uma mulher. O que está escondido é levado à luz. é o tempo que leva. o sexo. Um valor que antes ninguém via e que se revela aos olhos enamorados. O amor acaba através de uma desilusão prolongada. cotidiana. mas a sua centralidade. quando encontra outra tão bonita. Este. já é admirado. continuamente.

total. . que a mulher dedica ao guru constitui um entrelaçamento com a sua conversão. Love and limerence. A mulher fica logo fascinada e esquece os amores precedentes. O amor apaixonado. No sexto ano teve uma paixonite aguda por Smith Adam. mas de paixão erótica. adorado por todas as moças. A seguir vieram outros em rápida sucessão. o erotismo feminino nos apresenta assim sua face frívola. 157  Pessoas com o mesmo tipo erótico são intercambiáveis. a pobre mulher. depois. Ibidem. tanto que a dor de um amor desaparecia com a chegada do novo” 103. o profeta). comparável à sexualidade masculina. volta à sala de projeção onde aconteceu o milagre. Mais típico ainda é o caso de Cynthia.. desiludida. em troca do novo. A mulher que se apaixona por um artista famoso está sempre disposta a substituí-lo por outro do mesmo tipo ou de tipo erótico mais forte. A rosa púrpura do Cairo. inconstante. Sob as aparências do amor. Diferente é o caso de uma mulher que se converte a uma religião e graças a essa conversão se enamora do chefe (o guru. seus objetos eróticos são todos instantaneamente substituíveis por outro do mesmo tipo. Em seu livro Love and limerence. Os artistas famosos também são intercambiáveis. falando do caso de Terry. Nesse caso. No novo filme está Fred Astaire dançando com Ginger Rogers. Quando. Desde as primeiras páginas. mas não. enamorada de Paul McCartney. Sublinhei a expressão “o rapaz mais popular da escola” porque significa que Smith Adam era o “gostosão” local. escreve: “Terry estava sempre enamorada de alguém.. Esse exemplo nos mostra claramente que não se trata d e enamoramento. o rapaz mais popular da escola. No filme de Woody Allen. “enamora-se” também dele. um ídolo do rock que jamais havia visto 104. chega o ator em carne e osso. Dorothy Tennov confunde esse tipo de experiência com o verdadeiro enamoramento. Maria Madalena estava enamorada de Jesus Cristo? A definição dada 103 104 Dorothy Tettttov. No momento em que tanto um como o outro se vão. a dona-de-casa se “enamora” do explorador que aparece na tela do cinema. A mulher acredita estar enamorada de uma pessoa única e inconfundível. estamos diante de um estado nascente.

O corpo. Constituem um percurso. pedem que pratiquem ações que contrastam totalmente com as regras morais. em escala incomparavelmente mais extensa. Por isso. O enamoramento consente o máximo do erotismo. os beijos. porém. Francesco Alberoni: Movimento e istituzione. Ver. mas. como uma experiência erótica intensa. intercambiáveis. muitíssimas mulheres. o erotismo é acompanhado de uma sensação inconfundível de ansiedade. . um caminho. no enamoramento são meios para se chegar a algo mais. Nas pequenas seitas. na seita. Acrescentando. Nesse caso. que se trata de enamoramento unilateral. para seguir mais adiante. prazer. O líder tem um relacionamento assimétrico com os seguidores. No enamoramento. menos ele. com muita frequência as solicitações do grupo e do líder vão além dos pontos de nãoretorno. o seguidor obedece. ao contrário. o contato da pele. quer tornar-se movimento coletivo a dois. As mulheres são as vítimas mais frequentes dessa fascinação amorosa e dessa escravidão. que transforma o seguidor num escravo e. Porém. com detalhes. Nesse tipo de enamoramento há algo de desesperado e de heróico. No movimento. E a escravização moral 105. a beleza. os valores da pessoa. existem muitíssimos fiéis. num sicário. uma relação começa como uma aventura. Desesperado porque o enamoramento aspira à reciprocidade. excitante. Pode continuar 105 O fenômeno da escravização moral é baseado no uso de certos mecanismos que aparecem com freqüência notável nos movimentos sociais e que são usados sistematicamente na edificação do totalitarismo. tudo o que no erotismo é realização. para um valor indizível. um meio. Às vezes. Todos são substituíveis. o abraço. para a essência da pessoa amada. deixa entrever sua superação. potencialmente. ao mesmo tempo. 4. porque o movimento exige uma dedicação total e sacrifícios que o simples indivíduo enamorado jamais teria a coragem de pedir. em torno do guru verificam-se os mesmos fenômenos que. é também um amor heróico. caracterizaram o stalinismo e o nazismo. o prazer sexual. sua capacidade de escolher entre o bem e o mal são destruídos. mas seu senso moral. 158  do enamoramento permite que se responda sim. finalidade.

de ouvi-la dizer-nos “te amo”. Então temos necessidade de vê-la. se a certa altura um dos dois. à vontade de chorar. Acreditávamos ter visto tudo e em vez disso não tínhamos visto nada. É medo de perder a nós mesmos. ocorre uma mudança profunda. Mas muitas vezes é também uma forma ilusória. A outra pessoa. ao estremecimento do corpo. de permanecermos unidos. superamos esse abismo. 159  assim até por muito tempo. Enquanto estamos com ela. Porém. de agarrar-nos a ele. Tudo isso não é ciúme. Esse desejo espasmódico geralmente assume a forma de desejo de estar sempre juntos. sua total improbabilidade e. uma porta para o absoluto. mas uma força transcendente. triunfal. de tocá-la. O gesto erótico seguro. o milagre do nosso encontro. tudo o que é agora e tudo o que teria podido ser todas as vezes. Daí o nosso desejo de segurá-lo. social de tornar estável o improvável. da vida em geral. à comoção. O amor nos revela a infinita complexidade. Cada vez como se fosse a primeira. que agora nos está mais próxima. Parece-nos ter conhecido dela somente o aspecto superficial. de casar. ao mesmo tempo. fundidos um no outro. nos menores detalhes. Porque percebemos dela tudo o que era. sentimos como se pudéssemos perder o caminho para reencontrá-la. se enamoram. O desejo sexual dá lugar a uma emoção total. tornou -se mais desejável e distante para nós. Olhamos para ela e parece que a vemos pela primeira vez. a infinita riqueza da outra pessoa. de lhe falar. porque os dois amantes encontram um no outro aquele algo mais que os atrai. de viver juntos. torna-se hesitante. enquanto a mantemos apertada nos braços. de morar na mesma casa. ou ambos. Mas apenas nos afastamos ou ela vai embora. É a modalidade mais simples. Seu corpo. seus olhos nos falam de uma infinidade desconhecida. desse modo. institucional. mas. o que poderá ser. consciência de que o ser é real e que o queremos. apenas estamos longe um do outro. O . O espanto maravilhado no amor é consciência da total precariedade do ser. O amor nos revela os infinitos possíveis de que é constituído o indivíduo. Porque aquilo de que estamos enamorados não é na realidade uma pessoa empírica. suas mãos. enquanto fazemos amor juntos. o sentido da nossa vida.

No enamoramento profundo. Rozzoli. ital. um gesto religioso 106. um calendário litúrgico que faz com que sejam lembrados e impõe a eles a lembrança dos momentos em que foram abençoados por entreverem a essência última. Depois aparece o desejo erótico. amor comunitário. Na verdade. mas também inatingível. primeiro. trad. primordial. Os enamorados têm a claríssima impressão de que fazer amor é algo de sagrado. improvável e espantosa da vida. Fazendo amor procuramos preencher a distância. Existem outras. também os locais do amor e os dias da revelação do amor ficam carregados de um significado divino e os dois enamorados constroem por si mesmos uma geografia sacra do mundo. 1973. 24 1. O católico De Rougemont sugere em seu lugar o ágape. O verdadeiro objeto de amor então é Deus. somente a intimidade erótica é 106 A relação entre enamoramento. atingir e fundir-nos permanentemente com a totalidade. E o microcosmos que realiza em si o macrocosmos. dos amantes enamorados. mas no qual as pessoas se encontram. Milão. O autor observou que a poesia de amor ocidental foi influenciada pela mística árabe. e entre elas também o enamoramento. e mística foi evidenciada por Denis de Rougemont em seu famoso L’amore e l’accidente. O enamoramento é. Um amor que não se apresenta como explosão inicial única entre dois desconhecidos. infinitamente precária. como se fosse a união do céu com a terra. no terreno delicado da estima e da confiança recíproca. com a natureza.. ao mesmo tempo. o amor místico por Deus é somente uma das formas em que se manifesta o estado nascente. A princípio. institucional dessa experiência profunda. o erotismo é apenas um acréscimo. Na realidade. 160  desejo da pessoa amada é o desejo desse absoluto entrevisto. uma ilusão e. A ideia do casamento como sacramento nada mais é que a transcrição ideológica. como quase sempre acontece num encontro entre homens e mulheres. . ou amor-paixão. algo de blasfemo. inatingível para uma criatura terrena. Existe também uma forma de amor que brota pouco a pouco do erotismo e da amizade. No estado nascente do amor o indivíduo se sente fundido com o cosmos. portanto. ou um desejo de conhecer melhor o outro.

Os valores da amizade limpam a nossa alma de tudo o que é exclusivista. atenção. elevou-as àquele nível de igualdade que torna possível a amizade. explosivo os enamorados não se conhecem. nenhuma necessidade de seduzir. Dá à mulher a segurança de uma continuidade de afetos. Algo que não se deve pedir sob pena de ruína total. até agora excepcional. respeito. simples sexualidade. o reconhecimento do limite que no amor explosivo se descobre com dor e tormento. fulgurante. A confiança gerada pela amizade permite um abandono tranquilo. conhecem cada vez mais a si mesmos e ao outro. assumia a forma explosiva do enamoramento. aprendizagem. É uma troca em que cada um compreende e torna suas as fantasias eróticas do outro. No enamoramento inicial. . revelação e inteligência. bilateral. respeitando sua liberdade. defende-a do medo da perda. adequando-se a elas espontaneamente. Apresentam -se sob a forma dramática dos pontos de não-retorno. por definição. na melhor das hipóteses. 161  capaz de revelar aspectos desconhecidos e profundos da pessoa. O erotismo. Não há nenhuma encenação. A amizade deixa ao homem suas fantasias de liberdade. preparação. Ao contrário. de aparecer. de poder interromper a relação a qualquer momento. no mesmo momento. Requer o desejo de agradar e de dar prazer ao outro. Suas realidades empíricas vão sendo reveladas aos poucos. Estamos diante de um novo tipo de relacionamento. Cada um se esforça espontaneamente para dar ao outro o que julga poder dar-lhe prazer. do existente. Esse tipo de erotismo requer propriedade de sentimentos. nem simples fantasia. se desenvolve com o tempo e é. isto é. aos desejos do estado nascente. na amizade. É atenção. Não é simples impulso. Homens e mulheres viviam separados. como uma resistência da matéria. egoístico e mesquinho. saber. já existe uma afinidade eletiva e também aquele respeito pela liberdade do outro. sua independência econômica. Seu encontro devia superar inumeráveis barreiras e por isso. Desse modo. O erotismo que aparece através de uma relação de amizade é. no relacionamento amoroso que nasce da amizade. A liberação das mulheres. ambos crescem em seu relacionamento.

O resultado é que na amizade amorosa a mulher geralmente representa um papel diferente do homem. A mulher deve tornar própria essa fantasia amorosa. e o homem. e se preocupa essencialmente com o prazer do amigo. estamos ambos contentes. Naturalmente os dois papéi s podem ser invertidos. Pronto. a virtude. exclusivo. a relação boa (perfeita. Seu resultado é uma construção. aventureiro. ainda que lentamente. não aparece perfeita no início e nem é imaginada. Não é necessário que o amigo esteja próximo. É reconhecida ao ser vivida. . já citado. É o percurso epifânico de que fala Rosa Giannetta Trevico 107. É reconhecida em seu fazer-se. se degradar. frequentemente precária. saber o que agrada. Nem é necessário desejar uma perfeição. em contato com a pele. pois o erotismo masculino é descontínuo e não quer ouvir falar do depois. mas a primeira situação é a mais frequente. A perfeição é descoberta em seu realizar-se. É o processo inverso: a edificação. Não é exclusiva. é boa. nem no fim. estou satisfeito. por isso mesmo. saber valorizar e dizer: “Pronto. Inserir o erotismo na amizade é. não importa quem ele procure. como no projeto-meta do voluntarismo. lenta ou rápida. Ela representa o pólo estável. nem no início. o pólo descontínuo. do que é melhor. É errado pensar num projeto e sua gradual realização. valorizar. mas o reconhecimento de uma temporalidade que cresce e é adquirida através da temperança (limite) e da prudência. 162  O amor que nasce dessa forma não é. A Gestalt. eu quero isto. 107 Rosa Giannetta Trevico: Tempo mitico e tempo cotidiano. sempre difícil. Basta distinguir o melhor do pior. algo que irrompe com força no início para depois. A amizade erótica é difícil. mais fácil para o homem. permanente. aceitar a autonomia do erótico masculino. melhor) vai se delineando durante o próprio processo. Não há uma situação perfeita. quero assim e não de outro modo”. isto é. No mundo das relações. Porque a amizade possui uma estrutura granular. por isso. portanto.

 163  2. Sabe que o outro sente por ele um afeto sincero. quer transformar em cotidiano o que para o outro é erotismo extraordinário. mas contente-se com o amor que lhe é dado e tome o erotismo como prova suficiente de amor. Esse tipo de amor assimétrico produz. livre. Só pode existir se o enamoramento se explica. Sabe que é leal. descontínua. Posto o dilema “ou me ama ou não me ama”. O enamorado por sua vez não se sente constrangido a decidir. Significa. o “arrepio” podem encontrar nela seu nicho. então. porém lhe assegura também algo de precioso: a duração. Desde que a pessoa enamorada não coloque imposição. governada pelo registro da amizade. O primeiro. adorado. mas que se sente amada desse modo. Se. Através desse tipo de erotismo. uma . inevitavelmente o equilíbrio se rompe. Num sistema voluntarístico onde ambos devem dizer “a verdade”. Porque mesmo a amizade é concedida para sempre. se quer o monopólio do tempo. um fortíssimo erotismo recíproco. A amizade erótica é. Fornece a ele somente um quadro descontínuo de expressão. O outro. O terreno da amizade. ao contrário. acima de tudo. Sente a amizade do outro como um refugio seguro. ao contrário. Ao rompimento. não faz perguntas. que enlouquece de desejo por ele. coações. amado. quem ama quer a certeza do enamoramento do outro e a procura através de provas de amor. acima de tudo. Ser amigo significa admitir a diversidade. ao contrário. portanto. ama apaixonadamente. Não está abandonado sem uma palavra. essa situação não poderia persistir. A palavra faz explodir o dilema e a laceração. possui um erotismo sacro. A pessoa que não está enamorada. tolerar uma separação entre os desejos recíprocos. permite seu desenvolvimento. sente-se. em geral. dilemas. ainda que resistindo-lhe docemente. O desenfreamento erótico. não sobrevive nem mesmo a amizade que existia antes. extraordinária. em geral. A amizade amorosa é possível também quando um dos dois está enamorado e o outro não. Abandona-se à própria paixão e fica feliz ao sentir que o outro experimenta prazer erótico. a relação deveria terminar. a “bolha de tempo”. Aceita o prazer do amor do outro. bem como sua adoração. não colocar alternativas.

tão precioso quanto o próprio estado nascente. envolvidos por aquele mistério que apenas o enamoramento é capaz de descobrir nos seres humanos. Ninguém seduziu ninguém. No dia do despertar. a amizade. o enamoramento deve conhecer também o que outra pessoa é empiricamente. Nós podemos nos enamorar . e o amigo ou amiga aparecem. os olhos da pessoa enamorada. Brota espontaneamente de necessidades interiores profundas. a longa e tranquila amizade. a reestruturar seu campo vital e assim produzir um estado nascente. no entanto. subitamente. O enamoramento que floresce de uma situação de profunda amizade é sempre revelação. lhe confere algo de precioso. Pode-se facilmente intuir. Para tornar. antes de mais nada. Numa relação desse gênero. com o passar dos meses ou dos anos. 164  pessoa enamorada pode viver as emoções eróticas mais intensas ao lado do objeto de seu amor. O erotismo possui uma regra de perfeição que une os seres humanos através do desejo de encontrar uma felicidade ainda maior. porém. reconhece-se o novo estado nascente no da pessoa que já está enamorada. por si só. Mas. Porque o enamoramento não é um ato. em sua estrutura e nas propriedades da experiência. é um processo.se amor. E. nem da amizade. em que um dos dois já está enamorado e o relacionamento erótico é feliz. ao que aparece entre dois desconhecidos. mesmo que o outro não esteja tão enamorado como ela. e isso. Mas uma relação de amizade amorosa. Esse enamoramento é absolutamente idêntico. que num relacionamento como esse. cada homem e cada mulher é obrigado a renovar-se interiormente. em que se busca o erotismo como uma perfeição. a pessoa que está para enamorar-se verá. É um suceder de revelações e de perguntas. À filigrana de encontros de amizade acrescenta-se a dos períodos esplendorosos. constitui o terreno propício para o reconhecimento. tende a criar um relacionamento duradouro. 3. das revelações eróticas. O estado nascente não surge do erotismo. O enamoramento permanece um fato imprevisto e imprevisível. o enamoramento de um se comunica quase seguramente com o outro. um suceder de angústia e de provas.

e o outro age da mesma forma conosco. temor. mas também suas virtudes. temos confiança nele. 165  de alguém que depois não corresponde àquilo com que sonhávamos. Se não fosse assim. A amizade possui uma essência moral. O amor continua sendo inquietação. emoção. desejo incrível de ter o nosso amado em nós. que nos engana e nos desilude. O amor que nasce da amizade já percorreu uma etapa desse caminho. através de provas. com essas silenciosas seguranças morais que o amor nascente pode contar. Nós conhecemos o amigo. portanto. Somente assim o amor se torna verdadeira consciência e não sonho. Tudo isso se descobre com o tempo. choro. O enamoramento que nasce através da amizade é. não se teria tornado nosso amigo. isto é. entrelaçada a eles. deve também se tornar confiança. É com esses conhecimentos. a amizade insere a confiança recíproca e o respeito à liberdade. em sua lealdade. através de experiências. seus limites. estima. Mas ao lado desses sentimentos. submetemo-lo a provas. Acima de tudo. mais límpido e mais sereno. adquirir algumas das propriedades da amizade. Como saber se o outro nos ama? Que o outro não mente? Fazemos perguntas. . Para durar.

 166  Contradições .

o mais atraente. O homem. deseje apenas aquele homem. Se a mulher quer o monopólio absoluto de um homem que agrada loucamente às outras mulheres. Recomenda-se a todo mundo: “Seduza. ser rico e educado. A mulher permanecerá indefinidamente indecisa entre esses dois pólos. somente aquela mulher”. oscilando de um para outro. porque todos foram convidados a desejar o que eles desejam. por seu lado. logo aprenderá que ou não deve fazêlo. Assim agindo. que não olha para elas. junto a si. Mas depois. quer uma contradição. Também o marido. alimenta-o. tanto o homem como a mulher querem ter o objeto amado somente para si. mesmo em tom de brincadeira. pelo menos em fantasia. sem vibração alguma. mas não irradiará a menor centelha de verdadeiro erotismo. seduza mais que todos. Seduza todos”. convidado a ser sedutor. Ao mesmo tempo. desejada por todos. Cada mulher quer que seu marido. O homem. que não toma conhecimento de sua existência. assim como o amante. Por prazer ele deve realmente trair. Consequentemente. ora o prenderá. Existem somente duas soluções: a renúncia ou a mentira. Um homem que não deseja outras mulheres. poderá ter apenas ou um homem que agrada às outras mulheres. . O desejo dos outros faz parte do nosso erotismo. ciumenta. 167  25 1. Quer que as mulheres o desejem. incentivado a ser desejável e assim desejar outras mulheres. mas bem pouco interessante para as outras. deseja que sua mulher seja sedutora. não pode ser sedutor. Pode estar vestido da maneira mais refinada. seja desejável eroticamente. são obrigados a lutar contra todos. ou então deve olhar para elas e mentir. se não comunica seu desejo ao homem. mas nesse caso ele olhará para elas. Para ser desejável é preciso desejar. A mulher não pode tornar-se sedutora se não quer seduzir. Ora incentivará seu homem a ser desejável. seu amante. As outras mulheres percebem imediatamente sua falta de disponibilidade erótica. Porque suas palavras serão mortas. seja o mais bonito. bonita. também se ensina: “Seja fiel. ou um homem obrigado a pensar obsessivamente somente nela. olhará e desejará outras mulheres.

A psicanálise gerou uma outra religião da verdade fazendo coincidir a mentira com a doença. Como se forma. esse desejo se tornará inconsciente. ou acaba por se entorpecer. toda a verdade. Os exercícios espirituais ensinavam a tomar nota dos menores desejos sexuais para discuti-los com o orientador espiritual. o enamoramento. à dissimulação. o sintoma? Calando. Sua alternativa não é. o erotismo. à discrição. o psicanalista. Como na religião. não dizendo a si mesmo. da imaginação e da dissimulação. ao não-dizer. Porque o olho do sacerdote era equiparado ao do próprio Deus. ainda que em fantasia. A religião da verdade certamente não é nova. 168  Por outro lado. De tal forma. os sacerdotes são obrigados . Em todos eles. sugere-se. perturbando-a. Ou trai seu homem. Não há então outro remédio senão recordar o que foi esquecido. por isso. radicalmente diferente. por menor que fosse. aos outros. não há uma única página dedicada à mentira. impõese que se diga a verdade. que pudesse ser considerado privado. na verdade. Nas centenas de livros americanos sobre o amor. A primeira é construída sobre a égide da verdade e da renúncia. deve dar aos outros homens a impressão de poder ser uma presa. E de fato existem no mundo duas culturas eróticas totalmente diversas. recomenda-se. mesmo os mais recônditos. e do inconsciente (como do inferno da religião) se insinuará na vida consciente. Também ela. A contradição intrínseca do erotismo abre somente dois caminhos: o da renúncia e o da dissimulação. o sexo. Dessa forma a confissão permanece particular. ao abrigo dos olhos indiscretos. Não havia um recanto da alma. embrutecer. Nos países católicos o confessor tinha o dever de extrair da alma do penitente todos os pensamentos. secreta. também a mulher deve ser ao mesmo tempo desejável e fiel. Nos países onde existe o sacramento da confissão. tem de enfrentar duas alternativas. sem nada esconder. confessar o que não foi confessado. ao silêncio. também na psicanálise a confissão deve ser feita a um indivíduo específico. destruindo-a. A segunda. Mas para ser desejável precisa evocar fantasias masculinas. pois. o que se pensa e quer. dizer o que não foi dito.

dado um sentimento qualqu er. fizeram dela uma arte de relação interpessoal. 169  a manter um rigorosíssimo segredo psicanalistas. Essa capacidade. que encontrou seu momento culminante na teoria da intimidade. numa cultura voluntarista. e este o convidará imediatamente a discuti-los para remover a causa. Os americanos. a irritação. o mau humor. sintomas perfeitamente corrigíveis. Se todos revelam tudo. já citado. Uma empresa não deve espalhar seus projetos a torto e a direito. a intimidade é o desejo de conhecer cada fato particular da vida interior do outro e a capacidade de comunicar-lhe os seus 108. são considerados distúrbios passíveis de ser eliminados. Não ocorreu. confessional. a agressividade. Os Porém. a força terapêutica da verdade foi generalizada. até mesmo os pensamentos mais fugazes. ao contrário. não pode distribuir suas patentes aos concorrentes. . por exemplo. como o ódio. a cólera. A economia continua a ser um setor onde cada um tem o direito de manter reservados os próprios negócios. Convenceram-se de que as relações interpessoais serão tanto mais harmônicas quanto mais verdadeiras forem. Está autorizada a manter o segredo em todos os níveis que julgar oportunos. Obviamente. esse postulado não foi estendido a todos os campos. um segredo profissional. Para a cultura voluntarista. Rubin. Isso é possível porque. com a popularização da psicanálise. Na formulação de Lillian B. devem comunicar também as coisas mais desagradáveis. seria muito difundida entre as mulheres e escassa entre os homens. estendida a todas as outras relações sociais. o desprezo. aplicá-lo às transações econômicas e à política externa. Pode-se mesmo falar de uma religião da verdade. existe sempre uma técnica capaz de modificá-lo no sentido 108 Lillian B. introduziu-se a regra da verdade total. segundo a autora. Rubin: Intimate strangers. e particularmente nas relações eróticas e amorosas. A religião da intimidade e da verdade total é inconcebível sem uma concepção voluntarista da vida. Fora da esfera econômica. Quem os experimenta irá a um psicanalista. o desejo de matar. principalmente.

Muito menos preocupar-se com a mentira. o ódio em amor. ao contrário. Nesse estado. impor a fidelidade a alguns e a promiscuidade a outros. Milão. por fazer parte da comunidade dos solteiros. Aliás. 1983. Num sistema cultural voluntarista os sentimentos são objeto da vontade. Existe sempre uma técnica capaz de transformar o desprazer em prazer.. Há um caso apenas. Se alguém quer continuar a seduzir deve divorciar-se. 170  desejado. ital. estruturalmente. uma contradição. Se o erotismo possui em si. a contradição do erotismo encontra soluções somente através da renúncia. é o mais belo do mundo. será obrigado a fazê-lo continuadamente. a todas as outras mulheres para com isso homenagear a sua. A antiga sociedade puritana era coerente. Se quer. a sociedade que procura anulá-la. a mais bela do mundo. viver sozinho. e então a moral lhe permitirá ter relações sexuais com quem quiser. a mulher enamorada vai querer ser bela. consequentemente. a aversão em atração. 2. aos seus olhos. Uma sociedade voluntarista não pode ser uma sociedade com forte carga erótica. porém. E o homem enamorado vai querer agradar a todos. para agradar àquele que. fazê-la desaparecer é obrigada a criar duas morais. a ser espontâneo” 109. uma ligação estável. Não dizia: “Seduza o maior número possível de homens e de mulheres”. trad. negá-la. Feltrinelli. Porque é uma sociedade do tudo ou nada. em que o imperativo da sedução não é contraditório: o enamoramento. deve renunciar à vida de solteiro e. Numa cultura voluntarista vale o imperativo: “Aprenda a ser autêntico. em Istruzioni per rendersi infelici. portanto. renunciar também à sedução. Até mesmo a autenticidade do desejo é apresentada como fim. que pode ter todas. em meio a inumeráveis outros. redobrando a repressão. mas renuncia a 109 Paul Waltzlawick. de que ela forma a base de toda a cultura psiquiátrica e psicológica americana contemporânea. zomba cortesmente da mentalidade voluntarista sem dar-se conta. que é amado por todas as mulheres de seu reino. Devem ser transformados em fins a serem alcançados com técnicas adequadas. Mas deve renunciar a uma ligação estável. . Como um rei. Não precisava. Nesse tipo de cultura em que domina a religião da verdade.

Porque. É como se quisesse seduzir o ar. Ambos são tomados da necessidade de se dizerem tudo para entrelaçar sua vida passada. No estado nascente as dificuldades insolúveis desaparecem. após tê-la tocado. mesmo que o seu canto seja dirigido a uma só pessoa. uma fonte que os transcende. para fundir seus desejos. a mulher lhe causa um estremecimento. Então entre os dois não há segredo. Quer todas porque quer somente ela. Não há áreas protegidas para serem guardadas pelo ciúme. Dá às outras mulheres a impressão de estar fascinado. Eles incorporam a transcendência. mas que também é. se aproxima somente da sua. O homem enamorado tem um olhar ardente. fazê-las exultar pelo seu amor. é através delas que ele a vê. apaixonado. Detém-se realmente sobre o rosto. Quem . tanto os homens como as mulheres estão animados por uma energia extraordinária. torná-las acolhedoras para seu amado. cheio de vida. de fato. fingimento. O homem. Seduzir significa despertar todas as coisas para a alegria. solar. no estado nascente do amor. Por isso não são comparáveis a nenhuma criatura existente. transbordante. encarnava algo dela. Nenhuma delas percebe que tudo isso não é para ela. Isso acontece também com a mulher no estado nascente do amor. que talvez nem o ouça. torná-la própria. as plantas. a água. E mesmo que olhe para as outras. Sentem estar em contato com uma energia imensa. O amado ou a amada alcançam essa fonte. mais. pois o canto é livre. Para descobrir onde são diferentes e amar essa diferença. é sedutor. 171  esse poder como presente à única que em si resume todas: a eleita. quanto mais o homem deseja as outras mulheres. os seios. esplendorosa. enquanto mulher. lânguido. No estado nascente do amor. O mundo lhes parece luminoso. Porém. vai em frente. Não há mais engano. mesmo que seus olhos brilhem de prazer e de desejo. Deteve-se nela por aquilo que em sua feminilidade lhe fazia lembrar a amada. E toda mulher. tem algo da amada. Como o poeta que canta e desperta os sentimentos de todos. Por isso o homem enamorado ama a todas. o sol. são essa fonte. Por isso a contradição é superada. passional. É vibrante. Ela entra no mundo por prazer. na realidade.

No estado nascente do amor. Porque são ordens dadas à vontade. seu destino. Por isso seduz todos para seduzir somente o amado. é vivida como uma necessidade interior e um ato de liberdade soberano no estado nascente. seu chamado. quando há a infiltração da escolha. as contradições explodem totalmente e não admitem mediações porque os sentimentos desejados são unicamente instituição. A revelação da verdade. Quem se ama. Mas a contradição somente desaparece no estado nascente. verdadeira. As pessoas dizem a verdade porque lhes agrada. mais a relação se torna normal. caso queira uma relação perfeita. portanto. Por isso. num sistema voluntarista. regulada pelo útil. Por essa razão. 172  ama está ao mesmo tempo livre e aprisionado. porque se realizam com ela. E. aqueles que se amam verdadeiramente. isso quer dizer que seu amor não é completo. “ame só a mim”. De fato — dizem os sacerdotes dessa religião —. paradoxalmente. E quanto mais nos afastamos do ardor do estado nascente. então só se pode ser de um modo ou de outro. em que quem ama se sente livre somente seguindo sua vocação. porque tudo é prazer. No regime voluntarista. canta a beleza do amado. cotidiana. Quando este acaba. Não porque seja um dever e um fim. Quem ama é totalmente altruísta e egoísta porque quer o objeto de amor todo para si. pelos deveres sociais. a ordem “vá e seduza” entra em contradição com outra ordem. O estado nascente não obedece a ninguém. as pessoas enamoradas. isto é. a confissão recíproca. Mas isso é o contrário absoluto do enamoramento. dizem. a instituição. com a paixão. Ou melhor. no entanto. Este não reconhece nenhum dever para com seu interior.se a verdade. tudo é dever. no estado nascente . agrada ao outro. cantando sua beleza. pela conveniência pessoal. o enamorado se identifica com o cosmos e. Se não o fazem. é exatamente a experiência exaltante do enamoramento que é chamada para justificar a religião da verdade. deve dizer a verdade. Agradando ao cosmos. No regime voluntarista uma pessoa só é totalmente livre se puder amar o que decidiu amar. Porque o dever coincide com o impulso. Esse silogismo é um exemplo típico de transformação voluntarista dos sentimentos. mais as contradições se tornam incompatíveis.

de náusea. torna-a rígida. tendo bem claro na mente o fim: iniciar uma . fingir que se está. pelo simples fato de se dizerem a verdade. 3. E é a mesma coisa. a soma de tudo. tende a tornar-se instituição ou hábito. ou que não se amam suficientemente. os casais aplicarão as técnicas adequadas para realizarem o enamoramento padrão. mas depois confessam a mentira. O momento entusiasta e criativo é limitado no tempo. excepcional. e se a encontra em outra relação conclui então que nesta há enamoramento. Percebendo que não se amam. Com o propósito de obter a verdade contínua. identifica sua qualidade. Existem milhares de manuais terapêuticos que ensinam a amar de forma madura. faz dela uma virtude. por não ter conseguido realizar a felicidade do amor. loucamente? Ou ir a um psicanalista para curar. E como o enamoramento é um acontecimento. De fato. O enamoramento é um estado que. quando o encantamento se toma cotidiano? Confessálo e divorciar-se porque percebeu que já não ama totalmente. Porém.se. algumas vezes se mentem. até que sentem ganas de gritar de cansaço. colocá-lo em cena. O sistema voluntarista toma o enamoramento. Ao tentar realizar um perfeito estado de enamoramento. profunda ou romântica. prescrito. apaixonadamente. o sistema voluntarista produz constantemente mentira. Dois cônjuges. para reencontrar a paixão perdida? No primeiro caso os casais se desintegrariam imediatamente. 173  os enamorados poderiam muito bem mentir e nada mudaria. Ou então se calam. Porque somente pode ensinar a fingir que existe o enamoramento. a sociedade acabaria por ser formada quase que exclusivamente de gente divorciada. O voluntarista se encontra agora diante deste dilema: o que fazer quando a paixão se extingue. por sua natureza instável. deveriam ser mais enamorados” do que dois que não a dizem. As pessoas os lêem e os aplicam até o momento em que não aguentam mais. Resta então o outro caminho: aprender a estar continuamente enamorado. o sistema voluntarista acaba sempre por destruí-lo. E então se divorciam. obrigar-se a isso.

de abertura e reserva. como a respiração. recusando as regras. Tanto as mulheres como os homens aprendem muito cedo. mais popular. 174  nova experiência amorosa perene e feliz. transformar o não em sim. Por isso o rapaz enamorado verá com muita frequência sua namorada preferir outro mais brilhante. de . os critérios. não temos nem aos menos coragem de tocá-la com a mão. ao árduo trabalho de estarem enamoradas. que o amor puro. sincero não basta para despertar o interesse do amado. quando consegue mentir a ponto de não saber mais que mente. ou amor. Se nos diz não. muitas vezes no fim da infância. No erotismo há conflito entre espontaneidade e artifício. os testes. O erotismo é feito de palavras e silêncios. e fenece sob o domínio frio do pensamento e o látego da vontade. ficamos paralisados. capaz de fazê-la rir. os julgamentos que vêm do exterior. A sociedade voluntarista quer toda a verdade. Como todo ser vivente tem seus ritmos próprios. recatadas. Admitindo que no início esses casais estiveram enamorados (coisa que realmente não aconteceu). suas hesitações. E deve fazê-lo até mesmo no estado extraordinário do enamoramento. O erotismo somente é possível quando se engana o imperativo totalitário. o que é chamado de felicidade. 26 1. Os adolescentes descobrem que a mocinha pela qual estão apaixonados se aborrece completamente com seu amor. Mas como em geral esta também não dá certo. Só tem sucesso quando consegue autoenganar-se completamente. até a cegueira total. A arte de amar é um curso de arte dramática em cujo término a pessoa não sabe mais o que está representando. É encenação. não conseguimos superar a resistência. as imposições. desinteressado. entre amor e sedução. voltam de novo ao trabalho. ou “estar enamorado”. isto é. seus suspiros. Adoramos a pessoa amada. numa sociedade voluntarista é o resultado do esforço voluntário. O enamoramento torna as pessoas tímidas. de energia e prostração. mas depois é obrigada a representar um estado de enamoramento que de fato não sente.

não valha a pena. Mais ainda do que os homens. ama. o amor sincero. No mais profundo da alma feminina está o temor lacerante de que o amor verdadeiro. mas que o quer somente para divertir-se. As mulheres têm uma experiência do mesmo gênero. à manipulação feminina. puro. Depois desse tipo de experiência. que o homem que ama deseja uma prostituta vestida escandalosamente. estarrecida. simples. mas conhece as técnicas da sedução. não. com um orgasmo qualquer. a capacidade de fazer-se notar. Percebem que os homens mais inteligentes. o fascínio. Aprenderá a decifrar a linguagem do convite feminino. é sincera. Não têm um desejo sexual que possam satisfazer com um homem qualquer. Por isso parece-lhe que ele é ao mesmo tempo forte e idiota. São jogos que ela sabe fazer. percebem quanto é importante a aparência. 175  diverti-la. enquanto são altamente sensíveis. o rapaz procurará aprender a tratar as mulheres apropriadamente. A rival. não. manipular por uma mulher que não o ama nem um pouco. mas também ávido como um animal selvagem. Geralmente alguém que não a ama. já que o homem é sensível somente ao artifício. fraco. não ficará hesitante diante de uma recusa. Faz parte integrante de suas fantasias eróticas. Para elas o amor. diante do fascínio da riqueza e o cinismo do sedutor. ou se deixa iludir. Não as irritará com sua timidez e seus pudores. ficam na realidade desarmados diante de dengos. provocações. total. E ele não se dá conta de como são elementares. Várias vezes. galanteios de mulheres medíocres e sem preconceitos. é muito mais importante. A heroína está enamorada. Porém ficará com a impressão de que as mulheres não sabem apreciar o verdadeiro amor. infantis. que qualquer menina conhece. dos sentimentos sinceros. os truques empregados pela mulher. mas extremamente mais intensa. desarmadas. durante a sua vida. a mulher se encontrará diante do dilema: que caminho seguir? O caminho ingênuo. ou o outro. enredar. da manipulação? Esse dilema constitui o tema constante dos romances corde-rosa. admirar. desejar. . mas o homem. A moça enamorada descobre. sincero. Alguém que tenha um carro do ano ou que seja um ídolo do esporte. mais fortes. desprevenido.

sabe que uma rival esperta pode roubar-lhe o amado. O problema colocado desde o inicio pelo romance cor-de-rosa é dramático. Uma mulher enamorada usa de modo canhesto a arte da sedução. Na realidade. a rival que o rouba dela o leva somente para a cama. Por outro lado. vestida “casualmente” como acha que ele gostaria. em particular. doce. A mulher. A mulher custa a entender que o homem é atraído para o encontro sexual sem implicações emocionais. 176  A rival quer o seu homem por orgulho. É tímida. no íntimo. O amado. os lugares que frequenta. ir para a cama e amar são a mesma coisa. se estiver de fato enamorada. dessa encenação. porque o amor verdadeiro exige que o outro escolha livremente. Não sabe escapar das manobras de uma mulher inteligente e sem escrúpulos. a Bela . para casar-se. Se o vir falar com outra mulher. Então age também com inteligência. o resultado de um perfeito cálculo por espontaneidade improvisada. não se empenhará em fazer mais que isso. dá um jeito de encontrar-se “casualmente” em seu caminho. incapaz até de usar sua arte de sedução. O romance cor-de-rosa respeita essa fantasia. naquele momento quer seduzir desesperadamente a pessoa amada. Se há alguma coisa que ela consegue fazer bem é ficar bonita. será tomada de uma crise de desconforto. não com o instinto. Mas ela vive essa experiência como uma perda total porque. com o sentimento. e usa todas as artes da sedução. Quem sabe seduzir vence sempre. A pessoa enamorada fica paralisada pelo seu próprio amor. pois o homem não sabe distinguir entre sinceridade e engano. Tenhamos presente que o significado do encontro erótico é diferente nos dois sexos. Jamais. Sabe que há uma diferença. agradável. com a inteligência. Estuda seus gostos. Disso o homem não se dá conta. Das duas figuras arquetípicas. O amor verdadeiro desarma. mas percebe esse fato com a reflexão. Mas apesar desses cálculos. O sucesso erótico da rival é vivido como sucesso amoroso tout court. por capricho. O amado jamais fará amor com a rival. nem ao menos uma vez. Ele toma o artifício por ação sincera. Por outro lado. 2. estará altamente vulnerável. se o surpreender distraído.

essa hesitação faz com que a mulher enamorada assista outras vezes. sem nem ao menos poder prevenir seu amado. A feiticeira Circe e a feiticeira Alcina criam um encantamento infalível que aprisionará o herói. Na mulher. o líder. o guru. mas é arrastada pela tendência coletiva.” O homem não acreditaria. diz que a bruxa não pode se apaixonar. com James Stewart e Kim Novak. sobretudo pelas outras mulheres. atrair sua atenção./Quem quiser fazer-se notar. Na polaridade coletiva a mulher é atraída pelo homem que se encontra no centro da coletividade. adorado por todos. Mas podem fazer isso justamente porque não estão enamoradas. é preciso aproximar-se dele. não tem a menor possibilidade de ser vista. concreta: o ator de teatro. Uma antiga lenda. Se isso acontece. Gostaria de esperar de olhos fechados. Para tê-lo é necessário emergir da multidão anônima. o conflito entre o desejo de ser amada pelo que é e a necessidade de manipulação é muito violento por um segundo motivo. A Bela Adormecida. 3. uma individual e outra coletiva. deseja eroticamente o que é admirado. o que lhe dizer? “Cuidado com ela. . que inspirou o filme Sortilégio de amor. à perigosa aproximação da rival. está sentado em seu trono. Sobretudo daquelas onde há interação direta. com suas intrigas. amado. Deve fazer com que sua diferença se destaque como um valor. o herói é desejado por muitas. imóvel. Passividade e atividade correspondem em parte a essa polaridade individual-coletiva. na situação coletiva. O príncipe não passa a cavalo. iria acusá-la de estar com ciúme. o líder carismático em qualquer de suas formas. fazer-se notar. o cantor de rock. como já lhe aconteceu quando era mocinha. ser apreciado como indivíduo tem de criar uma diferença entre si e os outros. O astro famoso. que o amado a beijasse e a levasse com ele. Sem poder fazer nada. tendo diante de si a massa de súditos que o acalmam. Vimos que seu erotismo se move ao longo de duas polaridades. 177  Adormecida e a Feiticeira. Esse desejo de passividade. a mulher enamorada identifica-se com a primeira. Em todos esses casos ela não faz uma escolha pessoal. Aliás. ela perde seus poderes.

Usam-nos para objetivos torpes. para que não se tornassem perigosos. até de revolta. como vingar-se de alguém ou simplesmente porque fizeram uma aposta. nas sociedades aristocráticas como a França do século XVIII. artifício. Dos amantes afortunados. deixá-la curiosa. Quem fica pairado. Enquanto isso. Nas cortes. diverti-la. sob pretexto da minha fingida timidez. interessá-la. Numa carta ao visconde de Valmont. o sedutor não pode ter sentimentos sinceros. precisa sempre fingir. para poder ameaçá-los e . e desfrutam o poder do amor. Eles dedicam todo o seu tempo manipulando os sentimentos dos outros para torná-los escravos ou levá-los à ruína. Os protagonistas são dois “libertinos”. a marquesa de Merteuil. e um homem. Em ambos os casos é necessário inteligência. Serviam-me para obter as honras da resistência. Existe uma estreita ligação entre a raiz coletiva do erotismo feminino e a sedução como manipulação e intriga. Choderlos de Laclos: As ligações perigosas. por mais virtudes que tenha. Uma das obras mais fascinantes sobre a sedução foi escrita nesse período por Pierre A. 178  A situação é análoga à de homens diante de uma mulher de extraordinária beleza. abandonava-me sem medo ao amante preferido. F. uma mulher. Esse tipo de jogo é particularmente difícil para a mulher que tem de seduzir. Porque consegue falar-lhe. procurava obter sempre algum segredo. a sedução era um meio poderoso de afirmação social. mas ao mesmo tempo deve conservar sua reputação de senhora irrepreensível e virtuosa. sonhador. vivacidade. Na disputa por sua atenção vence somente aquele que é capaz de afirmar sua diferença. a marquesa de Merteuil escreve: “Meu primeiro cuidado foi conquistar somente as atenções dos homens que não me agradavam. de prestígio. Para atingir seus objetivos. o visconde de Valmont. Mas como a este. os olhos de todos estavam sempre fixos no infeliz amante”. que se deixou cair na armadilha. Tudo o que é coletivo é inextricavelmente ligado ao poder e à luta pelo poder. jamais permiti que me acompanhasse em sociedade. Sabem usar os mais sofisticados jogos psicológicos para que outros se enamorem deles. encantado. porque consegue comunicar-lhe seu status e seu poder. não tem a menor probabilidade de sucesso. A mulher bela o ignorará. e a corte poderá então rir nas costas do ingênuo.

levei meu zelo ao ponto de sentir dores voluntárias. Empreguei os mesmos cuidados para reprimir os sintomas de uma alegria inesperada. esse é um conhecimento que o deixa espantado. Menos cínico. em geral. não obstante o feminismo e uma igualdade maior. os mecanismos da sedução e da manipulação. . A todos dava a impressão de ter sido seu único amor. como lhe fez a corte. Destes. Mas um olho atento sabe reconhecê-lo no mexerico confidencial. Assim consegui ter absoluto domínio da minha expressão fisionômica. segundo meus gostos. quando se encontraram. os erros cometidos. as intenções dela. que vestido ela usava quando se viram pela primeira vez. Sabem que fulano tem uma amante. Nenhum homem perde a reputação se uma mulher o rejeita. nenhuma mulher se arruína socialmente se se entrega a um libertino. correções. devo ter sabido inventar métodos antes desconhecidos!” 4. tornados meus escravos. devereis forçosamente concluir que. nascida para vingar meu sexo e dominar o vosso. para poder assumir nesse meio tempo a expressão do prazer. “procurava assumir uma atitude serena e alegre. Porém.. continua a ser um instrumento de luta e de defesa feminina. Os homens ficam aturdidos quando ouvem as mulheres falar da vida particular de amigos e conhecidos comuns. Mas o que o deixa realmente estupefato é a descrição de todas essas relações em termos de artifícios: as intenções dele.” E conclui orgulhosamente: “Se consegui. aristocrático do século XVIII desapareceu. de vez em quando prender ou afastar de mim esses tiranos desentronizados. o estudo frio dos sentimentos alheios para compreender suas ações e tirar partido deles ainda subsiste. onde se encontraram.. enquanto as mulheres conhecem com detalhes o comportamento íntimo. onde costumavam comer. Para o homem. eles conhecem apenas o comportamento profissional. menos cruel. 179  chantageá-los. e se mostrava escandalizada somente ao pensamento de que alguém pudesse duvidar dela. e até mais escondido.. que gafes ele ou ela cometeram.. coisa que tanto vos surpreendeu. os cálculos. as manobras. acrescenta. Este. O mundo. Tudo isso exigiu uma férrea disciplina interior: “Se sentia qualquer desagrado”.

tornaram-se famosas no mundo inteiro. O romance cor-de-rosa situa-se do lado oposto do mexerico confidencial. Nele a manipulação não recompensa. Seu desdobramento demonstra que esses medos são inexistentes. todos são manipuladores ou manipulados. 180  Há mulheres capazes de descrever dessa forma a vida amorosa de uma cidade. a pessoa sinceramente enamorada. que não quer seduzir e que. mas no final perde a guerra. explicar - . Luz! Câmera! Ação! Diante dessa análise implacável. Algumas dessas especialistas em mexericos. todos os homens mais famosos se revelam miseráveis. O mexerico confidencial dá sempre a impressão de promiscuidade. mas de que são. Porém. perde sempre. os medos da mulher diante do amor. paralisante. Como exemplo temos o romance de Jacke Collins. por isso. vivem definitivamente no interior de uma grande comunidade erótica promíscua. são muitas as escritoras que em seus romances reconstroem os ambientes sociais de modo análogo. que quer a felicidade da pessoa amada. que podem ser vencidos. como Elza Maxwell. que ouvem as confidências de todos. Na verdade as mulheres que conhecem os amores e atividades sexuais de todos. De uma promiscuidade velada e hipócrita que condenam. vítimas de mulheres espertas que calculadamente haviam preparado as armadilhas. No romance cor-de-rosa. No romance cor-de-rosa. Como vimos. essa angústia aparece nas crises em que a mulher gostaria de falar. o romance cor-de-rosa não descreve um processo de enamoramento. A vida erótica e sentimental desses seres humanos torna-se um museu dos horrores. que não sabe seduzir. Num universo onde tudo é manipulação. que não aceita mentir e não sabe fazê-lo. sempre. 5. está em poder da rival e da incompreensão do homem. A rival — que seduz e manipula sem escrúpulos — pode vencer cem batalhas. Uma situação extremamente angustiante. No mexerico confidencial. cúmplices. inexoravelmente. Aqui a mulher pode se identificar com a enamorada que não seduz. não. mas as ânsias. todos os sentimentos mais nobres parecem ingênuos. entretanto. inaptos e impotentes.

a mulher se defronta continuamente com o abismo da perda. Darei um exemplo. É preciso ser muito corajoso para ser sincero. Dessa forma. Apesar disso. entre responsabilidade e jogo. o silêncio. O romance cor-de-rosa dá. da chantagem. dessa forma. Escolhendo o caminho do não-artifício. sem palavras. coloca-o frequentemente num beco sem saída. 181  se. mesmo quando gosta dela. quando precisa dela. A separação. precisa de segurança emocional. entre fidelidade e promiscuidade. e seu desejo erótico desaparece. até mesmo quando está profundamente apaixonado. a simplicidade. sublime. sem artifícios e pela sua força interior. Mas não é uma vi tória fácil. Não luta. mas perde o controle. Mas para encontrar o verdadeiro amor é preciso possuir um coração puro. 27 1. Sem ela. Vence a boa fé. é o não-artifício que vence. um certo tipo de erotismo . o romance cor-de-rosa descreve uma situação amorosa competitiva em que a mulher renuncia à competição e mesmo assim vence. O homem sente uma profunda necessidade de amor. Durante todo o livro o artifício leva vantagem continuamente. A presença dos filhos em casa frequentemente mata. resistir à tentação da manipulação. O romance cor-de-rosa põe em cena o dilema da mulher. fica sem palavras. O amor consegue prevalecer por si mesmo. prevenir o homem. No homem há uma tensão entre amor e sexualidade. é tomado de angústia. No final. renuncia à competição. A situação nunca deixa de ser perigosa. no homem. o bem. No homem não existe o dilema da sedução que caracteriza a mulher. O perigo é gravíssimo. o dúplice e contraditório imperativo que a lacera: usar o artifício ou não usá-lo. foge. entre sexualidade e amor. uma indicação moral. do poder. é sempre muito difícil para ele canalizar todo o seu erotismo para uma única pessoa. sempre possível. mas o prêmio. derrotando a sedução e a intriga.

da pelve. com este. o marido seja cavalheiresco. a mulher e os pequenos desarmados e fracos. do crescimento. em que a mulher exprime toda a sua feminilidade fazendo filhos. Para muitas mulheres o nascimento do filho completa o amor dos dois. 182  louco. Afeto. 1984. estabelecer horários. como caçador e guerreiro. trad. Porque não pode explodir. a educação. com o filho. de especificidade. lembre-se de lhe enviar flores. Algumas se sentem plenamente enamoradas somente quando se tornam mães 110. esconder-se. o frenesi e o mistério. La Tartaruga. os olhos indiscretos. ternura. Destrói sobretudo a distância. "La fattrice”. a fusão total e exclusiva com a mulher. porque deve calar-se. Esperam que ele admire sua nova beleza de gestante e sofrem se isso não acontece. dirigido exclusivamente a ele. é muito menor. acariciá-lo. sem que haja nada nem ninguém entre eles. A convivência cotidiana. de responsabilidade. . quando. a etiqueta. nenhuma semelhança com o desejo que sente pelo corpo excitado da fêmea. O erotismo masculino é descontínuo. Também o homem fica emocionado ao contato com o corpo macio do filho. Milão. o que torna o erotismo para o homem erotismo. Tudo se desenvolve no nível do contínuo. mas essa emoção não tem nenhuma relação. O relacionamento com a mulher. ao acordar. mas no intervalo luminoso é total. 110 Há um conto divertido de Patricia Highsmith. tudo isso destrói a área separada. não admite contaminações. emotividade e erotismo caminham juntos. apertá-lo contra o peito. Na mulher essa exigência de separação. Depois espera que. pelos espasmos do ventre.. até que o marido enlouquece. não pode realizar no espaço doméstico o excesso dionisíaco. e não outra coisa. Algo que o macho da espécie humana aprendeu nos milhões de anos de sua humanização. Nem se dá conta de que o marido teria desejado um outro tipo de erotismo. Mata-o porque deve controlar-se. É um amor compenetrado de dever. Para muitas mulheres a gravidez é um enriquecimento do amor em relação ao marido. a diferença. típico dos enamorados e dos amantes. no livro Piccole storie di misoginia. o paraíso de êxtases. ital. tinha que defender o território e. aumenta-lhe uma outra forma de amor. Para demonstrar ao marido um amor maior. a mãe acha natural levar o filho para a cama.

e que o lacera. Esse tipo de amor cresce continuamente com o passar dos anos d o casamento. É um amor que se manifesta em ações. alguém que lhe é indispensável. Pode considerar preciosos seus conselhos. No entanto. ou então o faz por dever. Assim. Desse modo. Então pode fazer amor com todas as outras mulheres do mundo. a sede. por obrigação. táteis. como se dizia antigamente. sobretudo. ou viaja. tão profundo. não pode evitar confrontos entre ela e as outras. É um amor que não se importa com a distância. sobretudo. Porém. Aquele homem pode dizer que ama aquela mulher. pode não ter absolutamente nada de erótico. e quanto mais olha para as outras. fora do campo. mas não possui suas virtudes sensoriais. sente-se culpado. pelo fato de terem lutado juntos contra as adversidades. na noite. feito de cuidados. que não tem necessidade da proximidade física. É um amor que se exprime na defesa contra os perigos externos. mas dissimulado. 183  É um amor que se assemelha ao amor materno. cujo símbolo mais adequado é a sentinela que vigia. de lhe fazer qualquer mal. cresce com o nascimento dos filhos. mais a sua lhe parece feia. viajar de boa vontade com ela. Mas isso ocorre sem que estejam em jogo a estima. mas com relação a quem não sente nenhuma atração erótica e. a generosidade. de atenções. o reconhecimento. sente até certa repugnância. . ela lhe é eroticamente estranha. esse amor tão verdadeiro. o afeto que sente por ela. e sofre pela própria indiferença. a coragem. É um amor vigilante. não tem nada de erótico. o espírito de sacrifício. não em carícias. menos com ela. do contato. Pode continuar a apreciar suas extraordinárias qualidades intelectuais e morais. o homem pode encontrar-se amando profundamente uma pessoa. Esse conjunto de sentimentos certamente pertence à área do amor. em muitos casos. a mulher se torna para o homem a outra “metade”. É entrelaçado de intimidade intelectual e espiritual. cinestésicas. e. Envergonha-se dela. Uma necessidade que permanece intacta como a fome. Quando frequenta a sociedade. Não gostaria. É um amor cimentado por recordações compartilhadas. cresce com a vida em comum. do hábito do diálogo. não pode mais satisfazer sua necessidade de erotismo.

uma carícia. já citado. Então nem querem vê-lo. que a mulher se torna frígida quando não se sente amada. que. as flores não são erotismo. . esplendorosa e atormentada. apreciada. O drama específico do homem é. do apreço sexual da mulher. erotismo e amor são gêmeos. portanto. a gentileza não é erotismo. desde o início do século. Do governo de si mesmos. uma atenção amorosa. loucamente enamorado. tem necessidade de ter fantasias eróticas em que comparecem outras mulheres ou a sua fazendo amor com outro. objeto de atenção. O cavalheirismo não é erotismo. seus cuidados e deveres. que aparece e desaparece continuamente como uma miragem. sempre desejada e sempre fugidia. 2. Já tínhamos visto e tornamos a ver agora: na mulher. pois não é isso que lhe é pedido. Culpa não expiável. mas que é verdadeira. o amam. Quando sente que não agrada ou é rejeitada. mas a união de duas coisas que nele se dividem caprichosamente. No enamoramento essas fantasias têm o significado de fazer convergir sobre a amada recordações. seu desejo diminui com a repetição e requer um alimento de diversidade. a carícia não é erotismo. Essa é uma regra geral que todos os homens estão prontos a negar para agradar à mulher amada. é erotismo. para o homem. não. Porém. O erotismo. então continuam a esperar dele um gesto romântico. pecado original que ele procura remediar aumentando suas responsabilidades. por si mesma. é uma região distinta. uma vez ou outra. Se perdem todo o interesse erótico pelo marido é porque não o amam mais. Se ao contrário. Para elas. 184  As mulheres não experimentam esse tipo de laceração. o de amar uma pessoa desejando outra. É esse conflito a causa da autodisciplina que os homens sempre se impuseram desde a Antiguidade. necessita do desejo. Também o homem tem necessidade de ser estimulado eroticamente. para elas. no homem. da repressão sexual que sempre consideraram meritória. e encarar esse sentimento como culpa. Mas em vão. o homem. Mesmo com a mulher de quem está enamorado. Wilhelm Steckel 111 demonstrou. erotismo e moral concordam. um abraço. emoções 111 Wilhelm Steckel: La donna frigida.

Isso . Seu erotismo até aumenta. Ao contrário. Se é casada. deseja divorciar-se. carícias. ao contrário. significa que se sente atraída emocionalmente. Se a mulher. Se a relação se transforma numa ligação erótico-amorosa mais profunda. ela se torna todas as mulheres do mundo. 3. Sabe que para ela seu comportamento é uma traição amorosa. quer ter dele exclusividade. mesmo que para ele o encontro erótico seja confinado ao campo sexual e não tenha implicações emocionais. tem necessidade principalmente de ternura. monopólio. O drama específico do homem se manifesta sob a forma de sentimento de culpa. 185  separadas. no casamento ou na convivência amorosa. e não suporta mais as ligações precedentes. Desse modo. Por isso ele tem sempre a impressão de enganá-la. que sente ou começa a sentir um pouco de amor. e ao mesmo tempo. Pois se isso acontece. então quer ter aquele homem todo para si. de concentrar nela uma energia erótica fixada noutro lugar. Mesmo que o sexo não a interesse. e não quer que ele tenha relações sexuais com outras. ele se torna todos os homens que ela já teve. Se a causa mais frequente da frigidez feminina é a insensibilidade e a brutalidade do homem. abraços. Daí decorre uma consequência não indiferente. se se sente cercada de atenções. de amorosa exclusividade. O homem. e após a separação procura reduzir ao mínimo os contatos com o ex-marido. até a náusea. se sente amada de modo terno e gentil. Mas esses mesmos estímulos não excitam o homem. um mundo feito de ternura. No começo porque. de fazê-la sofrer. Contudo. uma causa frequente da impotência masculina é a possesividade amorosa da mulher. de tranquilidade habitual pode tornar-se para ele uma verdadeira prisão que liquida todo o seu erotismo. até a impotência. de cuidados. sabe que para a mulher não é assim. não experimenta remorsos. Quando uma mulher resolve ter uma relação erótica com outro homem. Mesmo que sua mulher não dê grande importância ao relacionamento sexual. afeto. galanteria. experimenta sentimento de culpa do começo ao fim. está eroticamente satisfeita. de modo geral não experimenta remorsos.

Sua moral lhe diz: “Se ama alguém. No homem. É errado ver nesse comportamento uma particular competitividade feminina com relação ao próprio sexo. É sempre a mulher que o força a deixar a outra. Se os satisfaz. o amor se autolegitima. mesmo nesse caso. a mulher respeitou todos os seus compromissos morais. Em vez disso. Algo que pode obter com a mulher ou com as concubinas ou as escravas. que o leva a assumir a responsabilidade do bem-estar das pessoas que ama. os filhos. Partindo com quem ama. no homem. aprendeu que seu primei ro dever é para com a comunidade. continua a agir. experimenta sentimento de culpa. Quando as mulheres afirmam que os homens são mais hesitantes. não deixará de se preocupar com a pessoa que deixa. Só que. o único modo de tranquilizar a mulher é não agir. pelo sim ou pelo não. a outra moral. Mas tudo isso não deve interferir em seus deveres primários. dizem a verdade. sente-se responsável pelo seu sofrimento. a moral da responsabilidade. Mas. para o homem. não fazer nada. que aliás tem o dever de fazê-lo. vá com ele”. que não são eróticos. Mas. não têm posições intermediárias. produz parcial legitimação do amor. a família. o erotismo pertence ao domínio do prazer. Elas. Portanto o homem. cuide daqueles que dependem de você. nesse caso. Só recentemente. Na mulher. não faça sofrer os que o amam e que você ama”. É sempre ela que lhe explica que tem o direito de fazê-lo. Interiormente ele sente ter o direito de seguir seu amor. porque ficando com a outra sem amá-la só lhe poderá fazer mal. por milhares e milhares de anos. 186  está em contraste total com sua vocação moral. que pode obter até com a guerra e o saque. a mulher. irresponsável. incertos nas coisas do amor. É como uma explosão que subverte as regras morais correntes. Somente o enamoramento. A mulher simplesmente acha que quando se ama alguém deve-se amar somente a ele e que não existem outros compromissos éticos a respeitar. ao contrário. com o . mesmo enamorado. renunciar aos seus desejos. Ainda mais forte é o sentimento de culpa se sua relação se torna amorosa. Sua moral lhe diz: “Seja fiel aos pactos. e que o erotismo é algo a mais. esse modo de pensar foi por milênios profundamente imoral. o homem.

Enquanto até os anos 50 os grandes astros de Hollywood se atinham. saiba resistir às paixões suscitadas pelas outras. também na mulher há uma inércia dos velhos comportamentos. Sobre os homens. o ator célebre. não foge com a primeira bailarina de pernas irresistíveis. 187  desaparecimento do patriarcado. é senhor de suas emoções. até o heroísmo. toma sobre si a responsabilidade até o sacrifício. pois exibem uma modalidade erótica totalmente . Os novos ídolos representam uma fantasia de liberação das responsabilidades para todos os homens com eles identificados. e o homem já está sentindo sua incerteza. Somente uma personagem não se enquadra nessa obsessão moral feminina: o astro famoso. em cujos braços pode se refugiar. depois de tê-la escolhido. eles exercem uma atração erótica direta. irresponsável. O mundo do espetáculo é o grande templo desse tipo de erotismo e um modelo de referência para os homens das últimas gerações. não se casa mais. não como virtude. Se ama. mas como uma fraqueza culpável. usa drogas. é fraco. que renuncia à exclusividade. Ainda uma vez e. produzem um efeito euforizante. O que resta é um hábito mental. como sentimento de culpa. ama profundamente. adorado por todas as mulheres que se aproximam dele. vive cercado por um harém geralmente bissexual. pouco a pouco. põe-se em ação o outro componente do erotismo feminino. com a independência feminina. Primeiro os Beatles. imoral. A mulher espera que o homem. nesse caso. O herói é capaz de vencer os obstáculos interiores e exteriores. o coletivo. Se cede. Por isso mesmo o modelo feminino tende sempre a prevalecer. depois os Rolling Stones e depois. Por outro lado. fidedigno. a um tipo de moralidade sexual convencional. paradoxalmente. com o controle da natalidade. Porque. idolatrado pela multidão. pelo menos formalmente. o cantor. hoje todos os nossos astros se apresentam como transgressores. O “verdadeiro homem” não se enamora da primeira ninfeta que encontra. os pesos tradicionais da responsabilidade masculina foram se atenuando. A mulher é atraída eroticamente pelo homem forte. sua indecisão. até o último cantor de rock. recusa todos os deveres e responsabilidades do homem casado comum. Sobre as mulheres. o novo ídolo. com a assistência social. uma espécie de sensibilidade moral que não tem mais uma justificação objetiva.

Desse modo. . Poder chegar. além do bem e do mal. um modelo ideal que muitos sonham poder realizar um dia. apesar disso. graças ao sucesso. apreciada pelo outro sexo. à região do arbítrio absoluto. 188  indiferente ao sentimento de culpa e.

 189  Convergências .

quando. mas se apresenta com grandes variações. ao contrário. a partir do famoso Relatório Kinsey. mas sobretudo quando se enamoram. prognosticava-se as mais horríveis doenças. mostram que o tempo dedicado à atividade amorosa é extremamente curto. a riqueza erótica se manifesta somente em alguns momentos da vida. ao erotismo como fato central da existência. tempo. aos rapazes que se masturbavam. segundo as quais no relacionamento sexual ocorre uma perda de forças vitais. mas ao contrário se sentem felizes. o erotismo não é constante. Depois. Nessas pessoas. Essa concepção não existe na medicina oriental. não se sentem cansadas. O que não significa que não tenham interesses. Não estou me referindo àquele interesse erótico que sempre pode ser despertado com estímulo suficiente. Os resultados de todas as pesquisas sobre a sexualidade humana. parecem quase não possuí-lo. como se lhes faltasse o ar ou o alimento. entretanto. Em determinado período da adolescência. que lhe dá sentido. desejo de fazer amor por horas e horas com a pessoa que amam. no taoísmo pensa-se que os relacionamentos sexuais longos e . de acordo com o provérbio latino que diz (( Post coitum animo triste”. sem o que se extinguem. Na maior parte dos casos. em última análise. Todos os sexólogos confirmam que são bem poucas as pessoas que têm vontade. toma seu lugar a vida cotidiana e o erotismo passa em surdina comparado a outros interesses e preocupações. Aliás. renovadas. aborrecidas ou tris tes. Outras. Pessoas em que o erotismo é um elemento essencial da vida. a paixão. Existem pessoas dotadas de forte carga erótica. São poucas aquelas que. serenas. Michel Foucault demonstrou em suas últimas pesquisas que essa concepção deriva da medicina grega e romana. São esses os tempos do erotismo extraordinário. é como se não possuíssem esse tipo particular de sensibilidade vital. Uma ideia depois retomada pelo cristianismo e que sobreviveu até alguns decênios passados. 190  28 1. Refiro-me ao grande erotismo. passado o grande amor. as estações do amor. A maioria das pessoas está. por exemplo. após o ato sexual.

sentem necessidade de ver-se. daquela pele. Temos novamente necessidade daquela boca. E não conseguem adormecer de novo se não imaginam vê-lo. segurar-lhe a mão. Então ambos se desejam. quando finalmente se apertam contra ele. Quando finalmente o encontram de novo. Isso porque o homem se enriquece com o princípio feminino yin e a mulher. Fazendo amor longamente. Aparecem os sintomas da depressão. não importa. sentem diminuir em si a energia vital. sua pele. Sentimos então um cansaço. desesperadamente. Até de enfrentar uma separação. o único que nos pode transmitir a energia que se esvai. voraz só acontece quando aparece o enamoramento individual. Cada um dos dois sexos deve procurar extrair do outro o mais possível do princípio complementar. o sono. Acordam pela manhã. após um certo período. daquele corpo. Perdem o apetite. trabalhar. mais forte. abraçar-se. É somente fazendo amor. Nessa situação. suas células. homem ou mulher. suspendê-la definitivamente. quando estão longe um do outro. Porém. As pessoas enamoradas. e chegando a uma certa idade. o único no mundo que a possui. A reviravolta completa dessa impostação conservadora. predatória. tocar-se. 191  frequentes (melhor ainda se com parceiros diversos) aumentam as forças vitais e prolongam a vida. Quando aquela pessoa se torna única e insubstituível. O que a pessoa amada nos dá. é como se seu organismo se recarregasse de energia vital. Como se do outro emanasse um fluido vivificador que lhes renovasse as forças. torna-se cada vez mais vivo. é como se a energia acumulada se descarregasse. dando-nos totalmente que . a ideia de que fazer amor enfraquece é um absurdo. uma sensação de peso. uma fraqueza dolorosa. fazer amor. capazes de nos levantar. Na prática taoísta o homem é instado a reduzir a ejaculação. e a primeira coisa que sentem é a doloro sa falta do corpo amado. É como se seu organismo. seus humores. dando o mínimo de si. Depois. são nutrientes que nos robustecem a ponto de nos sentirmos de novo fortes. o corpo se carrega como uma bateria elétrica. dar-se completamente. tivessem necessidade do contato físico com o outro. partir. abraçá-lo. com o princípio masculino yang. beijar-se. mesmo no taoísmo permanece o medo do empobrecimento. seus beijos.

sensual. reage muito pouco. de quem descobre todos os aspectos. sua segurança. Adivinha o mais tênue convite de sedução. com a novidade. os odores. E nós somos o mesmo para eles. mesmo se é velado. aos sinais mais fracos. identifica imediatamente o homem que lhe agrada e fica feliz se consegue ser notada prontamente. O ato amoroso. novos corpos. quando o separa da massa dos outros. A mulher se abandona ao prazer da sedução e de ser seduzida. concentra-se nele. Se é homem. e a ele responde prontamente. Se bem que. o olfato. Não tem necessidade de fixar-se num objeto. quando o vê. Não tem os sentidos sempre alerta e prontos a captar o mais leve sinal de sedução. sua energia. encontra algo de belo e excitante em todas as mulheres. estreitamente ligado ao enamoramento e à paixão. Responde aos mais leves estímulos. Esse tipo de erotismo nem é necessariamente muito fiel. Nosso amado é nosso alimento. Quando escolhe um objeto. excita-se sempre com novas formas. Sua força reside na concentração. para revelar-se completamente. em geral. nosso ar. em geral. Por isso faz desabrochar o erotismo à sua volta porque o reconhece. Porém. não está disponível para todos os estímulos. nutrindo-o. dá-lhe seu sorriso. 192  encontramos de novo a nossa força. a maneira pela qual. os sabores. amam o prazer em todas as suas manifestações. mais recebem. Aliás. As sensações que o primeiro tipo de erotismo recolhia do mundo. em geral. mas também o tato. Se é mulher. a audição. esse erotismo generoso pode apresentar-se em certos casos também de forma leve. todas as nuances. cutânea. a sensibilidad e muscular. Porém. Está baseado numa grande excitabilidade de todos os sentidos: a visão. esse erotismo encontra numa única pessoa. Não é necessário que no início exista enamoramento. as infinitas formas . seu entusiasmo. chegando mesmo a parecer obtuso. nossa bebida. Somente então seus sentidos despertam. individualiza-o. o erotismo tem necessidade de um objeto único onde descobrir todas as potencialidades. alegre. As pessoas desse tipo amam a vida. nos nutrimos. Quanto mais dão. O primeiro envolve a mulher com seu desejo até fazê-la vibrar. As pessoas dotadas de forte carga erótica vivem a sexualidade dessa maneira.

Encarrega-se de todas as necessidades do amado: da alimentação. síntese dos dois. sofrem com eles e se dedicam totalmente a eliminá-las. O grande erotismo é o oposto da avareza. cristã e islâmica. que o cristianismo chama “caridade”. Vela por seu sono. antes que a temperatura fique altíssima e as vibrações. É. divertimentos. assim. cuida dele e o guia como faria uma mãe. esquecendo-se de si mesmas. capazes de dedicação total a uma outra pessoa. Ainda mais afastado do erotismo é aquele amor pelos outros. os sentimentos. atinjam o calor branco da sensualidade e da fusão.se. Na caridade o amor não se restringe ao filho ou ao amado. Naturalmente pode haver generosidade sem erotismo. Nunca pensam no próprio prazer. já citado. egoístas. 193  possíveis. Os que são capazes desse altruísmo não sentem mais as próprias dores. Pensemos nas mulheres com forte componente maternal. as próprias preocupações. O erotismo é uma forma de interesse por outras pessoas. fechadas. e o amor apaixonado. Existe uma ampla relação entre a grande mística ocidental. de abandonar-se. essa dedicação pode ter pouca ou mesmo nada de erótico. A poesia de Ibn al-Dja112 Colette: Il puro e l’impuro. Entretanto. num turbilhão de fantasias que se concentram todas no mesmo ponto. o erotismo está infinitamente longe de seus pensamentos. ou então as consideram de pouca importância. transborda. . e. altruísmo e egoísmo. frias. capacidade de dar. de dedicar-se. Mas o verdadeiro erotismo implica também um envolvimento real de si mesmo. do próprio prazer. 2. Entretanto. os brilhantismos. cobiçosas. É generosidade intelectual e emocional. da mesquinhez. da prudência. e seu grito é como um canto agudíssimo que faz feliz seu jovem amante 112. todos os outros. roupas. a um só tempo. Chega mesmo a simular excitação erótica como no conto de Colette em que uma mulher enamorada — mas totalmente frígida — finge um orgasmo que não sente. Como os raios de sol através de uma lente. são mais semelhantes às pessoas capazes de forte erotismo do que as pessoas avaras. Participam das dores dos outros.

Nas origens da mística alemã está o movimento erótico-religioso das beguinas 115. adorável para todos. A poesia amorosa e erótica está destinada a provocar amor e prazer erótico no exterior. de nostalgia e de fé. fascinado ou enamorado por sua mulher. no Antigo Testamento: O Cântico dos Cânticos. Brigitte Bardot.. 1983. transmiti-lo a ponto de produzir nos outros. 115 Herbert Grundman: Movimenti religiosi nel medioevo. para o outro.mans. o próprio e o da outra pessoa. Paris. 114 Rumi (Mawlawi Jalal ad Din): Poesie mistiche. Foi Von Sternberg que descobriu em Mar lene Dietrich um fascínio erótico que talvez nem mesmo ela soubesse possuir. O artista. no mundo. Descobriu porque estava enamorado dela e conseguiu potencializá-lo. Tinha um contato estético com o corpo da mulher. Um dos mais belos cantos erótico-amorosos faz parte da Bíblia. a identific ar a beleza. ital. de São Francisco a Santa Teresa d’Ávila encontramos dedicação altruística. estava habituado a ver. Milão. Como fotógrafo. ital. isso foi muito bem expresso na pintura e na escultura. é o resultado do amor e da paixão de Roger Vadim. No passado. Na época moderna esse processo transferiu-se para a fotografia e o cinema. porém. . 113 Ver antologia de René Khawam: Propos d’amour des mystiques musul. O grande poema de Rumi 114 é um edulcorado canto de amor e de esperança. assistente de Allegret e enamorado de Brigitte Bardot.. objetivá-lo. Édition de l’Orante. 1974. até buscar o prazer para os outros. Também na poesia italiana de Dante e Petrarca há arrebatamento amoroso pela mulher e pela divindade. Em Bardot viu a beleza e a transmitiu aos outros. aquela mesma paixão que sentia dentro de si. transfiguravaa numa madona e a tornava bela. Esse impulso altruístico torna-se erótico quando passa através do corpo. e um forte componente amoroso se encontra também no relacionamento entre São Francisco e Santa Clara. Em muitos santos cristãos. até transbordar. 1960. trad. em todos os outros. Um dos maiores mitos eróticos do nosso século. trad. Vadim era um simples fotógrafo. 194  bari 113 é ao mesmo tempo religiosa e erótica. Isso vale para qualquer forma artística. e busca no corpo o prazer para si. II Mulino. Rizzoli. amor divino e carga passional. Bolonha.

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Nesse ponto, ocorre um esclarecimento. Os homens são
fascinados pela beleza feminina. Mas a vêem com o olho
erótico, não com o estético. Não se importam em analisá-la. Ou
têm uma visão global, ou então são atraídos por um detalhe do
corpo. O olhar erótico é fetichista. Por isso, quando um homem
vê uma mulher nua, parece-lhe ter visto tudo. “Eu a vi nua”,
diz, e acha que nada mais tem a descobrir. A mulher, ao
contrário, olha outra mulher somente com olho estético.
Percebe que tem a ossatura perfeita, as costas largas, a cintura
fina, os quadris redondos, as pernas perfeitas. Repara se os
cílios são longos. Se o porte é ereto, se as nádegas são roliças e
com covinhas. Se tem a pele sedosa, sem pêlos, cor de âmbar.
Ou então, se possui cintura grossa, os quadris largos demais e
as coxas desproporcionais. A mulher aprende muito cedo a
entrever na adolescente a mulher madura. O homem, não.
Quando está excitado eroticamente não enxerga os defeitos.
Estes lhe aparecem confusamente depois, podendo provocar
então uma certa repulsa e até a separação. Mais se está
enamorado, valoriza sua mulher de ponta a ponta, porque
transfigura a realidade.

Somente quem tem uma formação artística, como um
fotógrafo, um diretor de cinema ou teatro, um pintor, sabe ver
e analisar a beleza, que (pelo menos em certa época) é a mesma
para todos. Vadim possuía essa capacidade. Viu que a mulher
por quem estava apaixonado era bonita no sentido universal.
Mas sua beleza era ainda matéria bruta. Tinha que ser animada
pelo sonho. A pessoa enamorada tende a transformar a pessoa
amada de modo que ela se torne ainda mais desejável. As
mulheres compram roupas para seus homens, e os homens
influenciam, com seu gosto exótico, a maneira de a mulher se
vestir. Porque cada um quer agradar ao outro e está pronto a
moldar-se ao seu gosto. Vadim projetou sobre a jovem mulher
todos os seus sonhos, suas fantasias eróticas, seus delírios e
levou-a a realizar-se. Disse-lhe como vestir, falar, olhar,
movimentar-se, sentar-se, aceitar, recusar. A personagem que
aparece em ... E Deus criou a mulher é o resultado desse sonho
amoroso. No cinema, mostra a mulher da maneira como a
imaginou para que fosse infinitamente desejável. Seu gênio o

 196 

fez perceber o que as pessoas de seu tempo desejavam, o que
esperavam. O filme realiza em carne e osso esse sonho
coletivo. Daí nasce o mito 116.

3. Muitas vezes as mulheres queixam-se dos homens por
não saberem captar seus sentimentos, adivinhar os mais tênues
impulsos da alma, lidar com eles. Abraçando seu homem, é
como se a mulher quisesse penetrá-lo, abraçar a essência
íntima. A mulher procura essa “intimidade” também com
palavras, que são usadas para descrever, descobrir, decifrar. O
homem sente-se fascinado pela forma do corpo, pelo olhar, por
um detalhe visual, a que dá o nome de beleza. A mulher sabe
disso e aceita, tanto que se “faz bonita” para agradar, mas
parece-lhe uma maneira mais fútil, superficial de encontrá-lo.
Nem sempre, porém, isso é verdade. Há ocasiões em que a
visão do homem é muito mais que um simples observar,
porque tem o poder de transfigurar a realidade cotidiana ou de
enxergar além. Então, o homem, fascinado, vê uma realidade
estupenda.
Muitos pesquisadores realizaram experimentos com
diversos tipos de droga, mas quase todos chegaram à mesma
conclusão: há um modo de enxergar a realidade completamente
diferente. Gostaria de citar aqui uma passagem do livro de
Aldous Huxley: “... Astgkeit: não era esta a palavra que Mestre
Eckhart gostava de usar? Essência. O Ser da filosofia platônica,
só que Platão cometera o erro de separar o ser do vir-a-ser. É...
uma braçada de flores brilhantes de luz interior palpitando sob
a pressão do significado de que estavam impregnadas. É... a
transitoriedade que apesar de tudo era vida eterna, a perpétua
deterioração que era, ao mesmo tempo, puro Ser... Palavras
como Graça e Transfiguração vieram-me à mente” 117. Não é uma
experiência descritível com palavras corriqueiras, mas somente
através de símbolos e mitos, da mesma forma que Platão havia
feito.
116

Ver Milena Gabanelli e Alessandra Mattirolo: Brigitte Bardot, Roma, Cremese Editore, 1983.
Marco Giovannini e Vicenzo Mollica: Brigitte, Roma, Lato Side, 1983. E, particularmente; Rosa
Giannetta Trevico: Regime ma non ancora un mito”, II Giorno, 6 de setembro de 1983.
117
Aldous Huxley: As portas da percepção, já editado no Brasil. Em sua experiência, Huxley usa
mescalina. Mas outros obtiveram resultados análogos com drogas completamente diversas como
o LSD. Ver, por exemplo, George Leonard: The end of sex, Nova York, Bantam Books, 1983.

 197 

Essa experiência se apresenta com muita frequência no
homem enamorado, ou quando é arrastado pelo encanto
feminino. Já falei a propósito do instante da eternidade. A
forma percebida pelo homem é, portanto, extraordinariamente
aproximada daquela que a mulher chama de alma e que ela
atinge através de outros estímulos, como odores, sons,
sensações, palavras. Todavia, é forma, é beleza. Em ambos os
casos atinge-se uma essência, ao mesmo tempo fonte de
estupefação e meta.

29
1. O erotismo é uma forma de conhecimento, um
conhecimento do corpo. Do nosso corpo, do corpo do outro,
um conhecimento adquirido através do corpo. Nosso corpo
torna-se um objeto erótico quando queremos agradar aos
outros. É o desejo dos outros que põe em movimento o nosso
conhecimento. As religiões ascéticas que combatem o erotismo
escondem o corpo, impedem que as pessoas cuidem dele, não
ligam para ele, não o lavam. Então todos os sentidos se
embotam: o tato, a sensibilidade cinestésica, o olfato.
Encontra-se sempre nas pessoas, nos ambientes, nos locais
habitados por membros das religiões ascéticas, no vestuário,
nos refeitórios, nos conventos algo de esquálido, de mau
gosto, aliado ao mau cheiro. Na Europa foram os aristocratas,
os mercadores e o grande clero que criaram um espaço para a
beleza, o refinamento da vida, para a poesia, das roupas
coloridas, dos perfumes, da curiosidade, do estudo da natureza
e do corpo humano, da medicina. O Renascimento italiano, que
deu origem ao mundo moderno, é uma descoberta do corpo, de
sua harmonia, de sua beleza.
Mas há também um conhecer através do corpo. Todos nós,
quando entramos em contato com uma outra pessoa, somos
profundamente influenciados por suas expressões corporais.
Em primeiro lugar, percebemos a linguagem não verbal de seu
corpo. Mas as mulheres são mais conscientes disso. O primeiro
aspecto explorado pela mulher no corpo do homem, o primeiro
que ela percebe é o cheiro. O cheiro é determinante. Quase

 198 

sempre baseada no cheiro ela decide se continua a ver aquele
homem ou se o evita. Evita-o porque ele é desagradável, porque
lhe dá náuseas. Sente-lhe o cheiro à distância, basta ele estar
sentado ao lado, no trem, no avião, no carro, no restaurante,
numa sala ou no elevador. Mais determinante ainda é o hálito
do homem, porque se o cheiro pode ser modificado por meio
de desodorantes e perfumes, o hálito, não. A mulher, quase
instintivamente, faz de tudo para senti-lo. Para descobrir,
basta aproximar-se. Às vezes, ela o faz de propósito, aproximase o mais possível como quando, por exemplo, tenta ajustar-lhe
a gravata. Os homens apreciam esse gesto, esse tipo de
atenção.
O cheiro do corpo e do hálito são uma condição sine qua
non para o prosseguimento da relação. Se o cheiro é bom, ela
pode continuar. A mulher experiente sabe também intuir, pelo
cheiro do corpo e do hálito, o cheiro do sexo. O sexo do
homem, mesmo após um banho, conserva sempre um cheiro
particular, individual, ainda que sempre masculino. A relação
entre corpos e odores é uma ciência cultivada pelos criadores
de perfume. A arte de criar perfumes é uma arte erótica. Nasce
da profunda consciência da psique feminina e das
metamorfoses do odor natural do corpo da mulher misturado
ao perfume. O mesmo perfume assume fragrâncias diversas em
mulheres diferentes. Os perfumistas são grandes cultores do
corpo feminino. O conhecimento sobre perfume masculino, ao
contrário, ainda está incipiente. Talvez porque as mulheres
ainda não se tenham empenhado em criar perfumes masculinos
ou talvez porque muitas delas prefiram o natural.
Explorado o cheiro, a mulher passa aos sabores. Esse ato
cognitivo necessita de um início erótico, o beijo. No homem, ao
contrário, é com o beijo que começa a exploração, porque antes
não conseguia perceber o cheiro da mulher, mas apenas seu
perfume artificial. Com o beijo, sente seu hálito e, às vezes,
uma reação de desagrado. O homem, porém, não dá a essa
sensação a mesma importância que a mulher. Se está excitado
eroticamente, deixa de sentir o cheiro desagradável. No homem
o hálito é apenas um obstáculo, jamais uma barreira.
Para a mulher o sabor da boca é tão determinante quanto o
cheiro, ou mais ainda. O beijo é uma maneira de começar a

As palavras são ambíguas e instrumentais. Pelo conhecimento do corpo do homem. Ouvindo uma mulher falar. É mais autêntico. Percebe. fará amor com ele. que poderia ser julgado obsceno. A maneira como o faz. É um saber antigo. mais que a razão. e ela sabe disso muito bem. é um ladrão de prazer. principalmente quando está cansado ou quando o homem está triste. que a expressão “te amo”. de adiar o próprio orgasmo. As palavras são controláveis. sabe se está enamorada ou não. iniciático. É um iniciar a beber o corpo do homem. o modo de suspirar. Se é generoso e capaz de dar-se ou se. nesse campo. as atitudes que toma. Assim como jamais falaria de erotismo com um rapaz. uma mulher sabe também avaliar as outras mulheres. a mulher confia mais em um “te amo” dito com o corpo num momento qualquer. transmite sempre algo do que sente. a hesitação. até aquela que é incapaz de amar e de dar-se possui. que requer cumplicidade. Até a mulher mais ingênua. Para a mulher é sempre mais importante o que o homem faz por ela. do que o que diz ou promete. o corpo. se no ato sexual é capaz de esperar longamente. para explorar o homem. o abandono. Sabe se o seu é um verdadeiro e grande amor ou apenas um sentimento de posse. de proteção ou de prevaricação. por exemplo. guarda-a para si. As pulsações do corpo são autênticas. Conta mais um abraço. porém. o calor da pele. Confia mais nas sensações que no raciocínio ou no que ele lhe diz. do que no “te amo” vindo da mente e transmitido por palavras. observando-lhe as mínimas atitudes. Não o dirá jamais. reserva. Por particularidades insignificantes. sua vibração. ao contrário. Se quiser transmitir-lhe algum saber. uma sabedoria natural . principalmente a quem não compreenderia. Pelo modo de beijar. 199  oferecer algo do próprio corpo e de tomar alguma coisa. Num beijo a mulher descobre muitas outras características do homem. Uma mulher não falará dessas coisas a uma jovem que jamais tenha estado profundamente enamorada. A outra etapa é o conhecimento do corpo do homem usando o próprio corpo. ou então se tem ejaculação precoce. como por exemplo se é inteligente e sensível. não. A mulher usa o próprio corpo. a mulher experiente deduz o caráter do homem. sabe se aceitou o corpo do seu homem ou não. não o diz.

Usam-no para controlar suas reações. fica sabendo algo dele que ele próprio desconhece. virtudes que se revelam somente através do corpo. Um dia seu corpo está vibrante. Num relacionamento profissional com um superior. 200  superior à do homem. mas dos quais não estão mais enamoradas ou que odeiam. para atingir sua psique. no outro desleixada. Substancialmente. Nesse plano. Por exemplo. geralmente aquela parte da psique que o próprio homem não conhece. só porque o homem o deseja. Às vezes descobre também qualidades escondidas. se comporta dessa maneira. as razões de sua agressividade. nas relações profissionais. coloca em discussão seus valores éticos. O homem fica. Ainda hoje. a mulher mais simples supera o homem mais sensível e culto. Usa-o para conhecer o outro. no outro indiferente. chega a compreender suas fraquezas. seus mecanismos de defesa e assim defender-se. através daquele relacionamento. Também isso a mulher faz mais com o corpo que através de palavras. então. dominá-lo. que lhe impõem respeitar a palavra dada. alternando o desejo e a recusa. dizendo e não fazendo. no outro. a mulher usa seu corpo para transcender o do homem. Um dia aparece elegante. é considerado imoral do ponto de vista social. Desse modo cria na mente do homem uma confusão que ele somente é capaz de criar através da palavra. O corpo não é razão — diz a si . Usando seu corpo e a volubilidade de seu corpo. mas ela. um dia mostra-se apaixonada. Se o homem. Consegue compreender seus desejos. porém. a mulher aprendeu a usar esse saber com um objetivo: vencer o homem. Além disso. É esse tipo de conhecimento que as mulheres usam com respeito aos homens com quem vivem. o objeto maldito. Durante os milênios em que ficou confinada em casa e foi esmagada pelo poder masculino. seus temores. principalmente quando está em jogo algo essencial. prometendo e faltando ao compromisso. a mulher não se limita a ceder seu corpo. para dominá-lo. suas reticências. incitá-lo a fazer o que ela quer. ser coerente. para destruir a confiança que eles têm em si mesmos. de comportamentos que antes lhe escapavam. a mulher se subtrai a qualquer crítica moral. orgulhoso de sua conquista. Chega a iluminar uma parte obscura de seu caráter. frio como aço.

o poder. essa sua força. Mas reduzindo o tempo de contato. readquirindo. O grande sedutor sabe. logo depois. controlar. um modo de frear esse poder. A volubilidade do erotismo masculino é um subterfúgio. ao ato sexual. Entre eles ocorrem com muita frequência relacionamentos semelhantes aos da mulher com o homem . Nos homossexuais. é preciso que haja uma necessidade antiga. O homem não possui o mesmo conhecimento de seu corpo e do corpo feminino. Sem se trair na contínua vigilância. não é culpada. principalmente masculinos. A descontinuidade do homem é sua maneira de não se deixar prender. ancestral de conhecer. pela maneira como a mulher se aproxima. cada movimento involuntário seu. no decurso de milênios. se está disponível para ele. Interessa-lhe fazer amor com ela. Seu conhecimento visa esse fim. Porque também os homens aprenderam. porém. a própria autonomia. porque é muito importante. a mulher precisou observar por muito tempo cada gesto do homem padrão. Somente os homossexuais revelaram capacidade análoga. cruza as pernas. o erotismo está mais estreitamente entrelaçado com a profissão. como se senta. Em geral. como corresponde ao seu olhar. como o menino que foge da escola para não ser interrogado. como olha para ele. 201  mesma e aos outros —. Nos dias de hoje. para defender-se do poder masculino. Para alcançar a capacidade feminina de conhecimento através do corpo. Para realizar seus desejos. Não renunciando à mulher. não lhe interessa o mais profundo de sua alma. O grande sedutor conhece todos os pontos eróticos da psique e do corpo da mulher. reage instintivamente. mas ele não se deixará encontrar. por intuição. 2. o sucesso. a duração do encontro. um artifício para subtrair-se ao julgamento. A mulher poderá controlar todas as suas reações com atenção minuciosa. conhecer. Reencontramos assim a sobrecarga moral típica do homem dessa época e da qual já tratamos longamente. e sabe como tocá-los. como provocar suas reações. essa extraordinária importância do corpo feminino para julgar. deixa-a vulnerável. Por isso não pode ser acusada.

tão diferente do seu. Não tem. É que na excitação erótica o homem gosta de tudo. . Porém. por essa intimidade exclusiva. se tem seios fartos ou apenas esboçados. 202  poderoso que lhes pode assegurar um emprego. ao contrário. A mulher conserva. Da próxima vez. No mundo intelectual. é exatamente como o despertar de um sonho. Já sabe antes se aquele homem lhe agrada ou não. por esse saber iniciático reservado aos adeptos. faz amor com outra mulher. quando a excitação desaparece. Os homossexuais tendem a formar uma comunidade também por essa capacidade de conhecer-se. de apreender aspectos de sua personalidade de outra forma inacessíveis. e ficam espantados. necessidade de sentir nojo. O homem. incrivelmente pequeno. Fica dominado por uma única emoção e não está mais em condições de dizer se aquela mulher é feia ou bonita. Encontram-se ao lado de um corpo estranho. e agora está estupefato pela escolha feita. a seu olhos. 3. raramente se deixará envolver com qualquer outro homem. a capacidade de percepção e avaliação. não tinha avaliado nada. se comportará da mesma maneira. em todos os instantes de sua relação amorosa. por isso mesmo. é muito feia. não. assim como se lhe apresenta. levado por uma atração erótica momentânea. O estupor é filho do não-saber e do esquecimento. quando está excitado eroticamente. ou incrivelmente gordo. As mulheres ficam espantadas e perturbadas quando ouvem dizer que seu homem teve relações com uma mulher que. até mesmo repugnante. O homem. Mas a estupefação não lhe dá experiência. Qualidades e nuances que o heterossexual está condenado a ignorar. desaparece também a impressão de beleza. perde ainda o pouco de perspicácia que possui. a sensibilidade do outro. Na mulher isso acontece com menos facilidade. pois ela faz uma avaliação prévia. gorda ou magra. logo depois se sente sujo e custa a livrar-se dessa impressão desagradável. Se está enamorada. carreira ou mesmo riqueza. o conhecimento do corpo e através do corpo torna-se também uma forma de conhecer intimamente o modo de pensar. Para alguns homens. Quando o homem está enamorado e.

do sorriso. e lhe veio à mente que jamais conseguiria fazer sexo com seu marido (que amava). uma beleza capaz de provocar novamente o desejo. Porque o homem não possui memória duradoura do nojo. em qualquer uma. das costas arredondadas. na mulher. retorcia-se e vomitava” 118. o nojo nunca é mais forte que a ternura. depois de muito tempo. e diante dos olhos via o escroto. da maneira como cruza as pernas. Não é nem ao menos mais forte que o desejo. meu Deus. dos olhos. “A essa altura. Isso não quer dizer que o homem somente se sinta excitado por mulheres bonitas. É seu corpo que reage. que a lembrança do nojo é mais forte que a da ternura (Ah! sim. os colhões. mas somente do prazer erótico. uma terrível repugnância tomou conta de Tamina”. tomada de cólera e nojo de si mesma. o corpo torcia-se como que sacudido por soluços. O olho erótico extrairá beleza de seus gestos. ele conseguirá descobrir a beleza. ao contrário do homem. “Levantou-se da cadeira de um salto e correu para o banheiro. com relação à complementação dos sexos. Felizmente no homem. mas que. mesmo daquela em que sentiu nojo e repugnância. 203  Quando a mulher erra na avaliação e se entrega a alguém que depois lhe causa repugnância. é. . De qualquer experiência erótica. o membro. 30 1. escreve Kundera. consegue sempre destilar um aspecto excitante. o erotismo é profundamente ligado à beleza do corpo feminino. do relevo do 118 Milan Kundera: O livro do riso e do esquecimento. um detalhe inquietante ou atraente. os pêlos daquele indivíduo e sentia o hálito acre que vinha de sua boca. mesmo daquela em que se espantou por encontrar-se ao lado de uma mulher feia. e vomitava. No homem. sua memória. Estava com o estômago embrulhado. da curva dos quadris. ajoelhou-se diante do vaso para vomitar. a lembrança do nojo é mais forte que a lembrança da ternura!) e que em sua pobre cabeça nada mais restaria que aquele indivíduo de hálito fedorento. da cavidade das virilhas.

elas sabem muito melhor avaliar o aspecto estético da beleza feminina. da variedade de tonalidades à noite e pela manhã. arrebatado. o penteado é original. mas onde se imagina e se entrevê o corpo nu que aparece-desaparece. A beleza erótica do corpo da mulher é. viram-se na rua para admirá-la. de beber-lhe a beleza. os homens pagam para ver as go-go girls dançarem sem parar diante deles. O homem tem necessidade de ver o corpo feminino. fonte de contínua maravilha. No amor o milagre se repete uma segunda vez. as capas das revistas estão cheias de mulheres nuas. porque a mulher é agradável. da cor da pele. no início. assim como a mulher precisa da atenção. nos Estados Unidos. como o mundo. De repente vê. da admiração. captam seu terrível poder de atração. 204  monte de Vênus. Por isso o homem gostaria de ter todas as mulheres. cada vez a desconcertante experiência da perfeição. não se deixam perturbar por ela. para o homem. o desenvolvimento de um relacionamento amoroso coincide com a progressiva. mas porque gosta daquele vestido. depois a cada encontro. Sentem orgulho de sua beleza e são mordidas pelo ciúme quando vêem outra mulher mais bela e elegante. Aliás. Para o homem. A admiração do homem pela mulher bonita vista ocasionalmente é. das sombras. Também a mulher sente essa emoção olhando seu homem. da corte do homem. A beleza nunca aparece em sua totalidade. Na maioria das vezes os homens não são profundamente atingidos pela particular beleza de uma mulher. É no desenvolvimento da relação erótica que o homem descobre em sua mulher a perturbação provocada pela beleza. em geral. do brilho dos cabelos. mas é também volúvel. Claro que não poupam elogios. da sua mulher. O olhar erótico é facilmente excitável. mas . Por isso os espetáculos musicais de televisão estão sempre cheios de belíssimas bailarinas vestidas de strass e plumas. Deixa-o encantado. quando não havia visto antes. É uma comoção poética que lhe provoca um grito maravilhado e de reconhecimento. Por esse motivo. como a natureza. Por isso. Cada vez um detalhe. Os homens ficam sensibilizados ao ver uma mulher. efêmera. maravilhosa descoberta da beleza daquela mulher especial. Mas isso também acontece com as mulheres. depois uma terceira.

aos olhos do homem. de fato. pelo menos enquanto ela estiver enamorada. E. depois cresce até tornar-se enorme. suscita a mesma ternura. está assustada. até um sentimento de fusão. encantada. na memória. Participa de todas as nuanças antes. quer estar com ele. ao mesmo tempo. E quando está pequeno ela jamais consegue firmar. . fremente. Assemelha-se à maravilha do reconhecimento de uma mãe. Às vezes finge que em sua casa existem somente poucos cômodos. de afogagamento. sente-se de repente atraída por determinado homem. quando o artífice da ereção é sua boca. vive uma situação de encantamento. a beleza da mulher amada sempre se assemelhou. para revelar as potencialidades de seu corpo. olha o filho de dois anos. essa surpresa da metamorfose leva-a a acariciá-lo. Também a mulher necessita de tempo para conhecer seu homem. sua forma de quando está ereto. Assustada com suas sensações. a acariciá-lo de novo. Esse esquecimento. nua. Esse não sofre desgaste. O estupor provocado pela ereção torna-se uma sensação de desfalecimento. sem ser esperado. mas para levá-lo além. Para prosseguir nessa viagem a mulher pretende apreender cada pulsação do corpo do homem. depois abandonada a ele. sobre a língua. necessita de tempo. É pequeno. Fica com ele somente num deles. durante e depois do ato sexual. 205  a experiência do homem é mais violenta. É como se aquele homem. 2. para dar-se a ele. e todavia causasse uma agradável surpresa. No enamoramento. mas. porém não o conduz de imediato aos inumeráveis cômodos de que são construídos seu corpo e sua alma. às das crianças. porque é ela o artífice da metamorfose da matéria. arrombando a porta. Porque o sente crescer entre os lábios. separada. distante. mesmo que desejasse levá-lo a conhecer todos. mesmo que nem ao menos saiba quantos cômodos possui. tivesse entrado à força em sua casa. O homem (como já vimos) está assustado com a metamorfose da mulher. É grata a ele. que. até não evocar mais o estado inicial. Nunca se cansa — se ama seu homem — de conseguir realizar o milagre. É o espanto da criação. antes vestida. A mulher está assustada sobretudo com a metamorfose do sexo do homem.

para superar a cólera e a náusea. Quanto há harmonia o homem não agarra nem com força nem com raiva. Porque nesse caso ela se torna o objeto a agarrar. tão ansioso está por atingir o orgasmo. em suas mãos e não tende apenas a enfiar-se entre suas coxas e a penetrá-la com rapidez e com raiva. Toma cuidado com sua fragilidade. mais ela se enrijece. defendendo-se. Para acelerar o coito está até mesmo disposta a fazer carícias. de onde ele extorque a possibilidade de arrancar prazer. Cuidadosamente se estende sobre ela. Aceita passivamente. Então ela odeia o homem e sua força. Não a sufoca. sua vontade de arrancar prazer sem saber dá-lo. entretanto. para depois abandonar. a vagina. Não a esmaga. generosa. e o sentimento que experimenta é de laceração. se coloca em seus braços. Às vezes. admirada com o mistério da ereção. obriga-se a não sentir repulsa e nojo pelo corpo detestável e o deixa continuar. Contudo que ele termine logo e não queira recomeçar. é como se seu corpo se tornasse macio. seu arrancar para pegar. o objeto maldito. quanto mais se atira sobre ela com violência. os braços do amado e seu corpo são constituídos de uma substância a um só tempo sólida e fluida. tão logo atingido o objetivo. . os gestos. para ela. Odeia aquele homem. esperando que tudo termine logo. O homem não sabe o que agarrar com mais força. esmagandoa com seu peso. sentir-lhe o calor fluido. a dizer palavras excitantes. Gostaria de beijarlhe todos os órgãos. Então. mas também a si mesma. uma flor delicada. Então se realiza o que ela sempre busca: que os corpos se fundam de maneira harmônica. a vagina se fecha. despreza-se por ter aceitado uma relação que não deseja. A mente recua. flexíveis. mas com o desejo de beijar o corpo do amado tanto exterior como interiormente. Mas tudo é diferente. o cheiro. arraigando-se a ele sem constrangê-lo. tirando-lhe a respiração. navegar nos líquidos. Esconder-se num canto de seu corpo. fazer vibrar seu corpo. E a coisa milagrosa é que o corpo do amado se oferece. 206  A mulher não fica somente assustada. aperta-a contra si. infinitamente diferente se ama e é amada. e ela. quanto mais procura o objeto maldito. Seu corpo fica inteiramente teso. se contrai. Essa fluidez do corpo do homem lhe permite relaxar-se. oferecer-se.

como se também fosse líquido. de infinita fraqueza e fragilidade. Existem momentos fundamentais no plano da experiência. livre para fremir. Um corpo que jaz em substâncias líquidas. o impulso nervoso. Quando se abandona é como se todo o seu sexo. até mesmo física. É o correspondente da ejaculação masculina. Momentos em que apreende em sua mulher algo universal. Porque sabe que então pode dar ao amado o máximo. em que o homem consegue compreender. de conhecê-lo em sua essência. se tornasse um longo corredor constituído não mais de substância flexível. uma essência que é diferente da sua. como estar numa corda bamba. 207  Enquanto o corpo do homem passa de estados de grande energia a um profundo relaxamento após o orgasmo. ao contrário. de vibração liquefeita em que escorrega. O que torna o corpo frágil e vulnerável é o estado de excitação. seu dom mais belo. as portas. sente-se atraída. Mas é também um modo de abraçar a alma do amado. mas de essências fluidas. a fechar-se. num estado de contínuo orgasmo. quando também o homem se dissolve num fluido. É uma emoção-desvanecimento. A mulher deseja que o amado a abrace porque se sente naufragar. ao mesmo tempo. Tem a sensação de flutuar no ar com a psique: percebe o próprio corpo como que separado de si mesma e não mais tem controle sobre ele. é o êxtase. 3. porque naquele momento também ele está envolvido emocionalmente e de maneira tão profunda que não pode mentir. É sair de si. de enorme energia e força. . do qual ela sente medo e pelo qual. A primeira. do conhecimento e do relacionamento. porque os três corredores tornam a separar-se. Na mulher esse fluido parece soltar-se da psique. que ela sente como que formado por três segmentos separados por divisores. Invadido pelo erotismo feminino. Mas no homem isso dura um instante. E a mente não consegue dar a ordem. como se a qualquer momento pudesse cair no abismo e deixar o próprio corpo sobre a corda. Nenhuma linguagem é mais sincera do que essa linguagem do corpo enamorado. entrever a natureza do erotismo feminino. O segundo estado é. mas os braços do amado têm de ser macios como a água. o da mulher vibra entre duas polaridades diversas. mas que se torna transparente.

No Oriente. a curva dos seios. mais total. No Ocidente. e sabe que essa é a forma corpórea do amor feminino por ele. como Lacan. Sente o útero ser impulsionado e abrir a boca para encontrar a da glande como num beijo. daquele corpo que permanece num abraço de que jamais se cansa. Não há nenhum mito. lisa. os místicos tendem a transcender o desejo e a própria beleza. nem mesmo mentalmente. Porque não existe mais paixão. mais íntima. 208  consegue apreender a feminilidade em sua absoluta diversidade e especificidade. dos lábios frios. como emoção. mas aquela mais específica. na maciez infinita do seio que roça sua pele. como uma orquídea que se cobre de orvalho à sua entrada. mais amorosa. Existem momentos em que o homem. aquela perfeição não tivesse mais que desaparecer. escrevendo sobre o enamoramento e o amor. Então vê e compreende o significado do rosto acalorado. que o acaricia. Goethe já havia sublinhado a necessidade contínua de transcendência do ser humano. Que se abrem para acolhê-lo numa parte mais profunda. daquela pele que estremece ao ser tocada. “fêmea”. porque sente seu valor. de seu amor. Quanto mais avançado. Sente que a feminilidade é uma sucessão de portas que se abrem para ele. Gostaria que aquela beleza divina. Apreende a natureza do abraço feminino. Que aquele abrir-se dentro do abrir-se é uma acolhida de amor. ou os olhos. e fica surpreso e comovido. gostaria de fazer parar o tempo. vibrante que adere ao seu corpo. a forma da boca. insistiram no fato de que o amor é sempre “ainda não”. como os ombros. Sente que em seus braços é a fêmea que o ama. pára. Então não usa mais. Não como ideia abstrata. Porque não existe mais desejo de . Compreende o amor erótico na pele sedosa. Muitos. Mas como corpo. és belo”. a palavra “mulher”. e quer acolhê-lo. que conte esse desejo de beleza e de eternidade. E esse valor é a diferença insubstituível. Sente-o no abrir-se da vagina. nem no Oriente nem no Ocidente. o único estado de graça beatificante sempre foi procurado em Deus. motivo pelo qual não poderá jamais dizer “Instante. como sentidos. geralmente um detalhe. ao olhar o corpo de sua mulher. preciosa. 4. Mas essa experiência existe e talvez constitua o auge da felicidade erótica. única.

como o homem. que é constituído de inúmeras variações. eternamente. Tanto no homem como na mulher o erotismo. O erotismo masculino tende. 209  qualquer outra coisa. o objetivo último do encontro erótico é a contemplação beatífica. um som. ao .” São essas as frases femininas em que a necessidade de continuidade e de contiguidade da mulher se aproximam do desejo de parar o tempo do homem. diz. dá-ma”. “Gostaria que nunca fosse embora”. como a música oriental. ao contrário. Não quero ver nada além disso. Talvez realmente as duas experiências sejam a mesma coisa. sem mudar nada. um abraço. “Gostaria de ficar abraçada a você para sempre. vai além do sexo. nesses instantes de eternidade. Que por toda a eternidade eu possa contemplar essa pungente beleza. que tem um início e um fim. um olhar de amor. O sexo é sempre um fazer. e somente as palavras. sem aparições de diversidade absoluta. O objeto do nosso desejo está entre nossos braços ou diante de nossos olhos. Mas uma sensação tátil. que enche o coração e a mente. Ou então como o jazz. eternamente recorrente. Vemos e sentimos a perfeição do instante. cíclica. Não visual. não existe mais espera. diferentes. um cheiro. Deveria haver um mito em que o ser humano pedisse a Zeus para satisfazer este desejo: “Zeus. está sempre no tempo. a beatitude que te imploro. essa. experimentar outro sentimento além deste. refere-se a esse tipo de experiência. 31 Existe uma conclusão geral a que possamos chegar? O erotismo feminino por si só tende a uma estrutura contínua. que é mais profunda que o mais profundo orgasmo. A aspiração última. Não é um detalhe do corpo que a fascinará. mas sem uma mutação brusca. Geralmente quando a mulher diz que não há necessidade de relacionamento sexual para viver o amor do modo mais intenso. Essa é a eternidade que te peço. fora do tempo. faze com que tudo fique como está. porque dentro de um instante se desvanecerá no tempo. Também a mulher vive esse mesmo tipo de experiência. radical. Meu desejo é que não se desvaneça. Pungente porque precária.

É um erro imaginar o erotismo como uma forma de troca onde cada um concede algo ao outro para receber dele o que lhe agrada. a convivência. Isso acontece também com o homem. Resta ainda a diversidade. magras ou gordas. sozinha. o homem é atingido e fascinado pela diversidade. se empobrece até desaparecer. A arte erótica não é a arte de dar prazer para recebê-lo em troca. a continuidade. a necessidade de diversidade. perde a capacidade de separar o erotismo sexual de outras formas de prazer totalmente diversas. capacidade de prendê-lo a si. aceita a renovação. O homem. a busca de uma perfeição na descoberta. o contato. Abandonada a si mesma. não obstante. Quando cada um faz exatamente o que lhe agrada e. é incompleta. com a barriga rija ou flácida. levada às últimas consequências. todas podem suscitar seu interesse e seu desejo. o grande erotismo aparece somente quando esse milagre acontece. o homem. Se essas duas forças se unem o resultado é a continuidade. Exatamente por aquela diferença que permite entrever um prazer diverso. faz o que agrada ao outro. a busca de uma perfeição na fusão. Cada mulher. Qualquer uma dessas formas de erotismo. deve ser retomada. reatados os fios. à revelação do diverso. Se a mulher se abandona de modo completo ao indistinto. na diversificação. O erotismo sublime é a expansão do próprio erotismo e. que busca de modo obsessivo a diversidade em cada mulher. e. o grande erotismo é o que se realiza entre uma mulher e um homem no relacionamento erótico-amoroso individual. A mulher. O dom-juan. 210  descontínuo. Para que exista a continuidade. o tempo. cada encontro é uma revelação para o homem. Em cada mulher. mas ela . mas sempre marcada por pausas. não chega a saborear o prazer profundo. Na praia. interrupções. Cada um dá sua contribuição única e insubstituível. as mil mulheres que desfilam diante dele em traje de banho. com seios redondos ou pontudos. ao mesmo tempo. No íntimo ele espera que lhe seja revelado o totalmente novo. altas. de revelação. de novidade. assim. não experimentado. perde a capacidade erótica propriamente dita. A mulher. O verdadeiro. baixas. do totalmente novo. No entanto esses dois erotismos tão diversos podem encontrar-se. O verdadeiro. identificação com o erotismo do outro.

sua respiração. Aquilo que num capítulo precedente . comportase como ele. perceptivas. A mulher. essa ereção prolongada. fazem com que retorne a ação. Tem-se então a sucessão contínua das revelações. a acariciá-lo. que a ereção do homem não é algo involuntário. mas identificase com o homem. mas. sempre esperado e não esperado. E sabe que esse prodígio é obra sua. o prazer que experimenta é. a observar sua pele. admira-o nos detalhes. mantendo-o intumescido de desejo. ereto. Então. Mas é o homem que a faz sobressaltar-se. a respirar seu cheiro. cores. Olha o corpo do homem como ele olha o seu. encantado. Mas o faz com o ritmo lento da mulher. espantada. E quando o tem dentro de si e o acolhe do mesmo modo. abre-lhe docemente os pequenos lábios e depois. sons. E sabe. O grande erotismo é possível somente entre um único homem e uma única mulher que levam ao extremo o que é específico do próprio sexo e do sexo do outro. mas também o prazer do seu homem porque ela é autora da ereção. o que leva homem a desejar um amor que não termine mais. repentinamente. 211  deve ser encontrada na própria pessoa graças à multiplicação das capacidades sensoriais. com a riqueza da sensibilidade feminina pelos odores. seu ressonar. Sem envergonhar-se mais. Ela o acaricia. então. sabores. ao mesmo tempo. então. Tem-se então a interminável aparição do novo. interminável. compartilha com ele as exigências. sente que ele gosta de estar com o membro grande. não é senão seu erotismo contínuo que ela lhe transmitiu. perturbam essa paz. como ele admira o seu. quando de repente muda de posição. Pode ficar horas e horas a olhá-lo. mas algo provocado por ela. sua atividade. afasta-se. intelectuais. O despertar do homem. Porque é o erotismo feminino. a inunda. sente que cresce. olha para ela. invade-a e lhe impõe seu ritmo. ainda. Eis que ele está novamente disponível. A mulher que ama eroticamente pode ficar horas e horas aconchegada ao corpo de seu homem. torna sua a admiração visual do homem. o seu prazer de mulher preenchida pelo sexo de seu homem. contínuo. o membro se endurece entre seus dedos. e de súbito. não se abandona exclusivamente ao ritmo monótono e obsessivo da musicalidade erótica. ouvindo as batidas de seu coração.

o que tem duração e continuidade pode aumentar. cíclico. O novo torna-se então um acréscimo. . É a união do contínuo com o descontínuo que cria a identidade e. recorrente. a possibilidade de crescimento. a tensão para o alto. A mulher jamais encontraria o algo mais sozinha. O algo mais é a revelação do novo no contínuo. um enriquecimento. O homem não encontraria nunca o algo mais sozinho. assim. mas apenas o diverso. Só o que existe. em direção à perfeição. no que já é. comparado. 212  chamamos de algo mais. tornar-se maior. Mas somente o que é descontínuo pode ser confrontado. recordado. mas apenas um êxtase contínuo.