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04/09/2015

Intoxicado de ofertas | piauí_108 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais

Edição 108 > _diário > Setembro de 2015

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Intoxicado de ofertas
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Intoxicado de ofertas | piauí_108 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais

Pesquisador visita congresso médico, tenta sobreviver ao marketing da indústria farmacêutica
e sai com uma parafernália de brindes 
por OLAVO AMARAL

29 DE ABRIL, QUARTA­FEIRA_Na escuridão de sua cela, Paula espera por mim. Para salvá­la,
atravesso os corredores da prisão, permeados de objetos ameaçadores criados por computação
gráfica. Desvendo enigmas, cujas respostas são indicadas por letras em negrito, e escolho as portas
que me levarão a seu cativeiro: a cela da depressão. Quando a encontro, Paula está de costas e não
nota minha presença. Mas não há mais charadas. Só resta uma saída para despertá­la.
O representante do laboratório Libbsme sussurra o desfecho. “Doutor, agora basta um gesto para
libertar a paciente.” Ele aponta a caixa de Reconter® (escitalopram 10 mg) sobre a mesa. Apanho a
embalagem, passando­a em frente a uma câmera. Em segundos a cela desaparece e surge um campo
verdejante. Ainda que o rosto computadorizado de Paula não seja tão atraente como parecia na foto
mostrada no início do jogo, sei que meu gesto a salvou, e isso basta. Ou quase.
A tela escurece e uma menina sorridente cola um adesivo verde atrás do meu crachá. Contente,
agradeço e vou buscar minha garrafa térmica como recompensa.
A ideia desse diário me ocorreu cinco anos atrás, em Gramado, na serra gaúcha, no 6º Congresso
Brasileiro de Cérebro, Comportamento e Emoções de 2010, do qual participei com minha namorada
da época. Bem mais jovem que eu, ela vivia o drama de ajudar a família a pagar o que hoje equivaleria
a 1 500 reais por mês por dois comprimidos diários de Zyprexa® (olanzapina 10 mg), prescritos para
o tratamento de seu pai, incapacitado por uma forma rara de demência.
Quando chegamos ao evento (meu primeiro congresso para médicos depois de ter desertado da
clínica para a pesquisa básica, alguns anos antes), achei graça no fato de que tínhamos crachás
diferentes: no meu, de médico, estava escrito “prescritor”; no dela, de estudante, “não prescritor”.
Num surto de ingenuidade, pensei que a medida servisse para de alguma forma proteger a mim, o
“prescritor”, do bombardeio de marketing da indústria farmacêutica.
A ilusão duraria pouco. Em minutos estávamos na área de exposição, cercados por representantes de
laboratório que disputavam minha atenção em troca de café expresso. O primeiro comentário que fiz
foi: “Opa, vamos recuperar a grana da olanzapina em cafezinho.” Minha namorada não gostou da
piada, e viria a nutrir uma antipatia pela indústria farmacêutica que dura até hoje. Já eu passei a
acalentar um projeto: prometi a mim mesmo que um dia iria a um congresso com o propósito
explícito de aceitar todos os brindes, petiscos e informações que a indústria tivesse para me oferecer.
Não porque precisasse deles, mas para tentar aprender algo no processo.
 
TARDE_Ao entrar no centro de convenções da Federação das Indústrias do Estado do Rio Grande
do Sul, o espaço de exposições mais prestigiado de Porto Alegre, para a abertura do World Congress
on Brain Behavior and Emotions de 2015 – agora um evento internacional –, não estou muito seguro
de que queira levar adiante esse registro, ainda que já tivesse desembolsado 1 200 reais pela inscrição
que dava direito ao crachá de “prescritor”, 400 reais mais cara que a cobrada da categoria “outros
profissionais”.
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A distinção entre prescritores e não prescritores é fruto da regulamentação da publicidade de
medicamentos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a Anvisa. Em vigor desde 2009, a
norma determina que, em eventos científicos, as propagandas de medicamentos de venda
controlada sejam distribuídas apenas a profissionais habilitados a receitá­los. Na prática, tornou­se
uma forma conveniente de coibir o desperdício da indústria com quem não é médico.
Quando estudante de medicina, antes da vigência da lei, um de meus passatempos favoritos no
hospital era “brincar de ser invisível” com meus colegas. Munido do crachá amarelo de estudante, eu
passava em frente a um representante de laboratório repetidas vezes, apenas para constatar que ele
sequer piscava. No momento em que surgia alguém com o crachá verde de médico, a atenção era
imediata.
Alguns médicos lamentam que, depois da regulamentação da Anvisa, os congressos nunca mais
foram os mesmos. Um amigo psiquiatra me contou sobre os “bons tempos” em que, ao som de
música eletrônica, dançarinos divulgavam antidepressivos e médicos embarcavam num trem
fantasma que culminava na apresentação de medicamentos para a síndrome do pânico.Por outro
lado, um primo meu confessou ter feito um passeio de helicóptero num congresso de oftalmologia
em pleno 2011. Ainda assim, tenho um certo temor de que minha pauta possa se encontrar meio
datada.
Ao entrar na área de exposição, minhas dúvidas logo se dissipam. De cara topo com o fondue de
chocolate servido no estande da Sanofi, sob um grande rótulo do indutor de sono Stilnox®
CR(hemitartarato de zolpidem 10 mg). Logo descubro, porém, a nêmesis que me acompanhará nos
próximos dias: a fila. Pelo menos vinte pessoas esperam pelo fondue. Resolvo voltar mais tarde e me
concentro em brindes menos disputados: pipoca no estande da Nova Químicae café expresso com
Ovomaltine no da Lundbeck.
 No estande da Apsen, avisto uma Harley­Davidson e uma moto de rali. Pergunto ao atendente por
que elas estão lá, e ele responde que é uma analogia com o Donaren® (cloridrato de trazodona 50
mg), que tanto pode ser um antidepressivo como um indutor de sono. “Ambas são motos, mas para
condições diferentes, entende?” Constrangido com a metáfora, agradeço e vou saindo, mas ele
pergunta: “O senhor não quer nosso carimbo, doutor?” Percebendo minha ignorância, ele conta que
posso concorrer a uma viagem para a próxima edição do congresso, em Buenos Aires, se juntar os
carimbos de todos os expositores. Na bolsa com o material do congresso, encontro uma ficha com 22
quadradinhos, que entrego pra ele carimbar. A brincadeira vai ser divertida.
Com meu crachá de prescritor orgulhosamente exposto, recebo convites para lançamentos de livros
com exemplares grátis, para palestras com almoço fornecido pelo McDonald’s e para ter momentos
da minha vida desenhados por cartunistas. E vou acumulando brindes, material “informativo” e
petiscos – porque as filas dos lanches mais disputados, como sorvete e crepes, são gigantescas. Aos
poucos perco o medo dos representantes de laboratório e convenço meu lado sociofóbico de que não
serei mal recebido se pedir informações. Como um adolescente endinheirado que adentrasse um
prostíbulo pela primeira vez, a angústia da rejeição vai sendo substituída pela confiança. Os
simpáticos atendentes ao meu redor conhecem boa parte dos médicos, os chamam pelo nome e
fazem perguntas sobre sua vida pessoal. Como no sexo pago, a relação comercial não exime o
prestador de serviços de demonstrar intimidade – pelo contrário, é o vínculo, mais do que os
brindes, que é usado como moeda de barganha.
Das experiências da tarde, nenhuma supera o resgate de Paula das garras da depressão. O jogo
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eletrônico é um entre os muitos que se espalham pelos estandes. Conhecimento ou habilidade é o
que menos importa: os games servem para garantir que o médico se exponha por alguns minutos à
marca do patrocinador, em vez de apanhar os brindes e sair às pressas. As respostas corretas em
negrito ao teste de múltipla escolha me eximem de pensar. Tudo o que preciso é de alguns cliques e
do “gesto que liberta” para alcançar a felicidade e conquistar mais um brinde.
 
NOITE_Ao fim da tarde, já acumulei quatro sacolas de badulaques e folhetos. O peso começa a me
incomodar, e vou até o estacionamento deixar o espólio no porta­malas. Na volta, a área de
exposição já não está tão cheia, e o público se dirige ao Teatro do Sesi, cujos 1 800lugares costumam
atrair os shows mais concorridos de Porto Alegre. Hoje, porém, o palco é ocupado por Jean Decety,
pesquisador francês radicado nos Estados Unidos. Para discorrer sobre o senso de justiça no
cérebro, ele dá início a sua apresentação com um filme do Batman.
A palestra mostra bem o tom do congresso, que traz o apelo pop da neurociência para um público
predominantemente constituído de profissionais da saúde. O evento cresceu ao longo de suas onze
edições até alcançar 3 300 participantes este ano, e boa parte da popularidade se deve a uma
publicidade competente, alinhada com a estética contemporânea de eventos como os TED Talks, o
ciclo Fronteiras do Pensamento e as palestras de gurus domundo empresarial: destaque para os
nomes e rostos dos palestrantes no programa, títulos espertos e um sofá no centro do palco.
Ao final do primeiro dia, na cerimônia de abertura, o moderador, o presidente do congresso e o
diretor do instituto que organiza o evento fazem pronunciamentos curtos e cedem a palavra à
diretora de marketing da Lundbeck, companhia dinamarquesa especializada em medicamentos para
doenças do sistema nervoso. É ela que fará a entrega dos prêmios aos melhores trabalhos inscritos
no congresso, o que não a impede de se alongar sobre a história e a missão do laboratório, bem como
do braço sem fins lucrativos que financia eventos e educação médica.
A apresentação culmina com um filme publicitário caprichado, em que imagens de pacientes se
alternam com as de uma metrópole movimentada e cheia de luzes, enquanto a legenda “Imagine ter
de encontrar a única lâmpada com defeito” faz uma analogia com a empreitada de procurar uma
causa para as doenças do cérebro. Por alguns instantes, a publicidade chega a me envolver. Quando o
vídeo termina, no entanto, me dou conta de que o maior espaço de tempo na abertura do congresso
coube a um diretor de marketing.
 
30 DE ABRIL, QUINTA­FEIRA, MANHÃ_Acordo atrasado e meio grogue por ter dormido
pouco, mas logo me animo com as oportunidades do café da manhã. Antes da primeira palestra,
recolho atabalhoadamente biscoitos, cupcakes e pães de queijo, sob o olhar complacente de garçons
e representantes de laboratório. A mesa de discussão – sobre biomarcadores em psiquiatria – é
interessante, mas a plateia não parece particularmente envolvida. A maior parte do público,
composto de profissionais da saúde, parece dar preferência a palestras com enfoque clínico, em
detrimento de dados de pesquisa. É difícil culpá­los: ser médico dá trabalho, e avaliar criticamente
evidências científicas talvez seja coisa para acadêmicos como eu, que têm tempo para tanto. Isso,
porém, é o que deixa a porta aberta para a indústria ocupar o espaço.
Segundo dados levantados pela BBC no ano passado, as dez maiores empresas farmacêuticas globais
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gastaram em 2013 cerca de 98,3 bilhões de dólares em vendas e marketing – quase 5% a mais do que
o PIB do Equador no mesmo ano. Boa parte da verba vai para o que a indústria chama de “educação
médica”, o que inclui patrocínio de congressos, palestras de especialistas e material distribuído por
representantes de laboratório. Além de subvencionar os eventos, com frequência a indústria banca o
transporte e a hospedagem dosparticipantes: uma pesquisa do Conselho Regional de Medicina do
Estado de São Paulo (Cremesp), em 2010, revelou que um em cada dez médicos havia viajado para
congressos com despesas pagas por laboratórios no ano anterior, e mais de um quarto participara de
eventos patrocinados pela indústria no mesmo período.
Os estandes estão cheios de “material educativo”. Os mais óbvios são anúncios, com o slogan do
produto, informações publicitárias e a bula. O que mais me chama a atenção, porém, é a presença de
artigos científicos – traduzidos na íntegra – sem menção explícita do patrocinador. Para encontrá­
lo, é preciso ler até o fim e procurar entre as letras miúdas da seção de conflitos de interesse. Apanho
a esmo um dos artigos no estande da Shire: dos sete autores, cinco são funcionários do laboratório.
Os dois outros são psiquiatras acadêmicos, um dos quais recebe fundos de pesquisa de cinco
laboratórios e é consultor de três. O segundo recebe subsídio de 44 laboratórios diferentes, atua
como consultor em 23, como palestrante em 22 e possui ações de quatro.
Embora tal situação possa assustar um leigo, ela é corriqueira na pesquisa clínica. Por causa disso,
artigos científicos nos estandes me incomodam mais do que anúncios publicitários: eles são a
demonstração prática de quão tênue é a linha entre ciência e marketing. Os artigos apresentam
pesquisas financiadas pela indústria, desenvolvidas por funcionários e acionistas da indústria,
publicadas em revistas que lucram vendendo exemplares para a indústria – que os oferece ao lado de
lanches e brindes em congressos pagos pela indústria, para médicos que viajaram a convite da
indústria. E é difícil até para o mais ingênuo e idealista dos seres acreditar que uma atividade
educacional desse tipo possa ser isenta.
O mais assustador é que não é preciso burlar nenhuma regra para que a informação disponível
favoreça o patrocinador. Em um mundo com milhares de pesquisas realizadas todos os anos, cujos
resultados podem ser influenciados por inúmeros vieses no desenho e na análise dosexperimentos,
ou mesmo por força do acaso, é praticamente garantido que algumas delas mostrarão a eficácia de
um medicamento. E serão geralmente essas que acabarão publicadas e divulgadas, enquanto
resultados negativos são rotineiramente engavetados. Com isso, simplesmente escolher os
resultados que interessam e torná­los visíveis aos médicos já é um investimento que vale a pena – e
que produz uma informação inevitavelmente comprometida.
 
MEIO­DIA_A hora do almoço reserva dois simpósios­satélite da indústria farmacêutica: o da
Apsen, sobre o uso da trazodona 150 mg no tratamento da depressão, e o da Janssen, sobre melhoras
no prognóstico da esquizofrenia com o tratamento de longa ação. Tais eventos, comuns em
congressos médicos, são restritos a prescritores e em geral consistem em palestras de médicos
contratados pelo patrocinador. Conforme divulgado pelo Wall Street Journal em 2005, um estudo
interno da Merck sugeriu que o retorno desse tipo de publicidade é quase duas vezes maior que o de
um encontro com um representante. Para estimular os médicos, ambos os simpósios prometem
almoço: lanches do McDonald’s no da Apsen e um lunch box no da Janssen.
Encontro uma amiga que atua como neurologista no interior do estado e a convido para me
acompanhar. Como boa parte dos participantes, ela teve sua inscrição paga por um laboratório. Ela
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me diz que, se eu convencer os representantes de que sou um pesquisador de peso, posso conseguir
qualquer coisa. Ao passarmos por um dos estandes, um deles põe a mão no ombro dela e exclama:
“Doutora, preciso saber da sua vida!” Contrariada, ela o ignora.
Entro no simpósio da Apsen com expectativa. Nas cadeiras, pastas com blocos de anotações e
material promocional da trazodona 150 mg aguardam os prescritores que surgem com seus Big
Macs. Em quinze minutos a sala está quase lotada. A palestra, ministrada por um professor da
Universidade Federal de São Paulo, parece relativamente nos conformes, exceto pelo foco no
medicamento do patrocinador. Todos os estudos apresentados mostram que a eficácia da trazodona
é comparável à de outros antidepressivos – resultado comum numa área em que quase todos os
medicamentos se equivalem nesse quesito. Daí a importância do marketing: basta fazer de um
medicamento assunto de palestra para proporcionar uma vantagem competitiva.
O conferencista menciona inúmeras vezes um certo David Sheehan, autor de vários dos estudos
citados. Graças ao wi­fi providenciado pela AstraZeneca (com a senha “Eficácia”), dou uma espiada
no Google. Abro um artigo aleatório e constato, na seção de conflitos de interesse, que o sujeito está
ligado a 62 laboratórios. A plateia parece minguar à medida que o apetite pelos Big Macs cede lugar à
preguiça pós­prandial. Minha amiga cochicha que o medicamento do patrocinador não funciona
muito bem como antidepressivo, mas dá um sono legal. Um pouco como a palestra.
Na saída, dou um pulo no simpósio da Janssen, numa sala em que caixas daPizza Hut e sacolas de
uma loja de café se espalham pelo chão. A palestra já está na fase das perguntas, e o representante do
laboratório toma a iniciativa de estimular a plateia a se manifestar, sem muito sucesso. Os
conferencistas começam a debater entre si, e um deles menciona um paciente com esquizofrenia
que se formou em direito e considerava ingressar na pós­graduação. Previsivelmente, ele fazia uso do
medicamento do patrocinador, o Invega® Sustenna TM (palmitato de paliperidona). O
representante abre um sorriso. Pouco depois, alguém pergunta sobre a síndrome neuroléptica
maligna, uma complicação rara do uso de antipsicóticos. O psiquiatra diz que já viu um caso. O
sorriso do representante desaparece, mas logo ressurge quando o médico acrescenta que o paciente
evoluiu bem.
 
TARDE_De volta à área de exposição, me dou conta de que perdi a ficha com os carimbos dos
patrocinadores. Consigo uma nova no balcão de inscrições, mas preciso recomeçar do zero. Nos
intervalos das palestras da tarde, corro em busca dos carimbos perdidos. No estande do Cogmed, um
programa de treinamento cognitivo computadorizado da Pearson, leio um cartaz: “Seja aplicador do
treinamento que possui 80% de eficácia e está presente em mais de vinte países.” Curioso, dirijo à
atendente a pergunta óbvia: “80% de eficácia para quê?” Ela me diz: “Ah, isso quer dizer que 80%
dos pacientes terminam o tratamento.” Penso em argumentar que a definição de “eficácia” não é
essa, mas me sinto constrangido. No fundo, simpatizo com os representantes, e com a fragilidade do
papel que desempenham ao discutir temas sobre os quais sua formação frequentemente se limita a
alguns dias de treinamento de vendas. Mais uma vez, meu coração mole me impede de ser um
verdadeiro jornalista investigativo.
No intervalo do meio da tarde, as filas dos lanches aumentam a olhos vistos. Conto trinta pessoas
esperando por um crepe com sorvete, calda de chocolate e m&m’s. Sem paciência, sigo até a Torrent
Pharma e entro numa fila para responder a um teste sobre os remédios da marca. Enquanto aguardo,
alguém espalha que na Aché estão distribuindo uma sacola colorida. De graça e sem nenhum teste.
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Logo, porém, chega a notícia de que já acabou. A moça à minha frente, preocupada com sua mala de
viagem, pergunta ao representante se o guarda­chuva pode ser levado como bagagem de mão.
Quando chega a minha vez, descubro que o teste se resume a ligar rótulos de produtos a afirmações
sobre sua eficácia. Termino em vinte segundos e ganho minha primeira sombrinha do dia.
Volto ao laboratório Libbs para jogar novamente o jogo do prisioneiro. Dessa vez escolho outro
paciente, mas as perguntas são semelhantes e as respostas continuam em negrito. O “gesto que
liberta” também segue igual, mas o brinde – aleluia! – é diferente: ganho uma bolsa térmica. Em
outro estande da Libbs, dedicado inteiramente ao Sumaxpro® (sumatriptana 50 mg + naproxeno
sódico 500 mg), seleciono eventos importantes da minha vida numa tela e digito uma palavra que
descreva cada um deles, enquanto o representante informa que a associação de substâncias do
comprimido é a mais vendida nos Estados Unidos – nada como um apelo ao mundo desenvolvido.
No final, uma animação gráfica insossa sobrepõe minhas palavras a cenas da vida profissional de um
médico, terminando com o slogan do medicamento (“Viva sem interrupções”). Ganho uma bateria
acessória para celular, até agora o brinde mais útil que recebi.
Lá pelas quatro da tarde, depois de guardar os presentes no carro, me dirijo à última palestra do dia,
ministrada pelo canadense Moshe Szyf, um dos papas da epigenética (estudo da regulação da
expressão dos genes) em psiquiatria. Ele usa um quipá e fala sobre o “novo lamarckismo”. A palestra
é boa, ainda que algo exagerada – num determinado momento ele aventa a possibilidade de “reverter
a pobreza por uma abordagem epigenética”. Como ex­marido de uma psicóloga social, conheço
pessoas ligadas às ciências humanas que teriam convulsões ao ouvir isso. Mas a plateia não reage, e o
segundo dia de congresso termina. Em casa, lembro de pesar o patrimônio amealhado: 5 quilos e
meio até agora.
 
1º DE MAIO, SEXTA­FEIRA, MADRUGADA_Acordo às quatro da manhã com o vizinho de
cima, que, de volta do Monsters Tour, bota um metal pra tocar a todo volume. Troco de quarto e
ponho tampões de ouvido, mas quando o ambiente enfim silencia já não tenho sono. Na falta do que
fazer, ligo o computador e reviro sites que documentam a influência do marketing laboratorial sobre
a prescrição médica. Ainda que tais dados sejam quase inexistentes no Brasil, uma literatura
relativamente extensa vem abordando o tema nos Estados Unidos nas últimas duas décadas,
resultando em regulamentações por parte das associações médicas e na criação de movimentos de
resistência à onipresença da indústria.
Lançado em 2000 nos Estados Unidos, o site do No Free Lunch compila diversos estudos sobre
marketing farmacêutico e comportamento médico. O grupo ganhou alguma visibilidade em meados
da década passada, ao propor campanhas como a “Anistia de Canetas” (“Troque suas canetas com
logos de laboratório por outras comuns!”). No entanto, a julgar pelo design – e pela mensagem: “Best
viewed on Internet Explorer or Netscape Navigator 7” –, o site não vê uma atualização há tempos.
Ao contrário do Just Medicine, liderado pela Associação Americana de Estudantes de Medicina, que
parece a todo vapor: dentre os recursos disponíveis, há uma tabela que ranqueia as escolas de
medicina em relação às políticas para regular conflitos de interesse de estudantes e professores com
a indústria, além de propostas de mudanças no currículo para lidar com a questão.
É evidente que nas últimas duas décadas a discussão sobre conflitos de interesse avançou em vários
países, inclusive na esfera legal. Numa iniciativa por mais transparência, a lei norte­americana
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conhecida como Physician Payments Sunshine Act [Lei de Esclarecimento de Pagamentos a
Médicos], de 2010, determinou que se listasse num site mantido pelo governo qualquer pagamento
de mais de 10 dólares que a indústria tenha feito a médicos e hospitais. Procuro o nome de uma
amiga radiologista em Washington e descubro que ela recebeu 134,21 dólares em alimentação e
bebidas da General Electric em 2013.
No Brasil, o que mais se assemelha a uma regulamentação – além das normas de publicidade da
Anvisa – é um acordo de 2012 entre o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Interfarma
(Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa, na época presidida por Antônio Britto,ex­
governador do Rio Grande do Sul), especificando práticas aceitáveis por parte da indústria. Na época,
o Cremesp fez duras críticas ao acordo, argumentando que a tarefa do CFM não era negociar com a
indústria, mas determinar os deveres éticos dos médicos nessas questões. A despeito dos protestos,
nada mudou desde então, e a discussão parece ter abrandado.
 
MANHÃ_Atrasado pelo tempo gasto na internet, chego para a última palestra da mesa “Amor, ódio
e paixão: os neuromistérios do coração”. O título lembra um de meus verbetes favoritos do Urban
Dictionary, neurofication (neuroficação): “O ato de engrandecer artificialmente qualquer área de
atividade científica ou não científica com o mistério, a legitimidade e a nobreza da verdadeira
neurociência simplesmente adicionando o prefixo ‘neuro­’ a um termo qualquer.” Ao que tudo
indica, funciona: é feriado, são oito da manhã e o auditório está cheio. A palestra, porém, transita
entre alguns estudos relevantes de psicologia e um humor meio lugar­comum. Termina com dois
textos virais de internet, um deles atribuído a Luis Fernando Verissimo (o que praticamente garante
que seja apócrifo). A plateia aplaude efusivamente. Agradar o público, no fim das contas, não requer
muita ciência.
Fujo da discussão final e corro atrás do café da manhã, na tentativa de me antecipar à multidão. É
tarde: um mero pão na chapa já provoca congestionamento. Por sorte, descubro um bolo de cenoura
sem uma marcação tão cerrada. Cortesia da GlaxoSmithKline, que tem a reputação dúbia de ter sido
alvo do maior processo da história contra um laboratório: um acordo judicial de 2012 determinou
que a empresa pagasse 3 bilhões de dólares por promover usos não aprovados dos antidepressivos
Paxil e Wellbutrin, além de ocultar dados sobre o risco cardiovascular do Avandia, um medicamento
para diabetes. Coincidência ou não, desde então o laboratório tem se esforçado para assumir uma
imagem de transparência, tendo sido o primeiro, dentre os grandes, a comprometer­se a
disponibilizar publicamente os resultados de todos os seusestudos clínicos. Mas no momento nada
disso importa tanto quanto o bolo de cenoura sem fila, sob a efígie do Wellbutrin® XL (cloridrato de
bupropiona 150 e 300 mg) colada à parede do estande.
No intervalo seguinte, encontro uma ex­aluna minha, terapeuta ocupacional, com um crachá de
prescritora que lhe deram por engano. “Fez a maior diferença”, ela comenta. Pergunto se ela
aproveitou a palestra do McDonald’s da véspera. “Não, a gente foi na da Pizza Hut.” Branding é tudo.
Observando as filas, um amigo psiquiatra comenta que os tempos áureos de brindes ficaram para
trás depois da legislação da Anvisa, e que a atual dificuldade para pegar uma caneca ou um guarda­
chuva seria a desforra dos representantes de laboratório. “Eles passam os dias fazendo fila em
consultórios médicos, aposto que riem por dentro quando chegam aqui.”
O tempo dispendido por esses empregados não é pouco: a pesquisa de 2010 do Cremesp aponta que
80% dos médicos paulistas recebem representantes, e cada um deles costuma visitar de dez a vinte
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consultórios por dia. Tal estratégia pode parecer obsoleta num mundo com informação médica
disponível a alguns cliques. Ainda assim, as despesas com o marketing corpo a corpo representam a
maior parte do custo de publicidade da indústria nos Estados Unidos, tendo alcançado quase 15
bilhões de dólares em 2012.
 Os representantes costumam fazer visitas periódicas aos mesmos profissionais por anos a fio,
construindo um vínculo que inclui distribuição de amostras grátis, pequenos brindes e a eventual
oferta de palestras com jantares ou financiamento de congressos. Ainda que nenhuma demanda seja
feita, boa parte dos médicos acredita que os representantes sabem o que eles vêm prescrevendo
(provavelmente por meio das farmácias, em uma prática irregular repetidamente denunciada pela
mídia), e que isso pode ser determinante em sua generosidade.
 No estande da Mantecorp, quinze pessoas esperam para concorrer ao sorteio de um tablet. Decido
adiar minha inscrição e, após apanhar uma revista chamada Sinapses &Sinopses na Novartis, entro
na fila de um jogo eletrônico do laboratório Servier. Passando o dedo sobre uma caixa do
antidepressivo Valdoxan® (agomelatina 25 mg), lanço flechas que estouram balões cujas legendas
são sintomas da depressão, no lugar dos quais sobem outros, coloridos, com rótulos como
“produtividade” e “expressão de sentimentos”. Três não prescritores competem ferozmente pela
pontuação maior – uma espécie de prêmio de consolação para os portadores do crachá que não dá
brindes.
Dentro do estande, cerca de dez médicos ouvem com atenção um representante que projeta dados
numa tela, citando repetidamente o trabalho de um certo “dr. Stahl”. O sujeito faz perguntas de
múltipla escolha sobre o Valdoxan®, que a plateia deve responder levantando placas com as letras A,
B, C e D. Infiltrado no grupo, acerto três de quatro respostas. Já faz vinte minutos que as palestras
começaram, mas nenhum dos presentes sai antes que o representante abra uma cortina e apanhe
uns bloquinhos para distribuir. Sinto no ar certo desapontamento, e a médica a meu lado diz: “Puxa,
não é mais o abridor de vinho.”
Terminado o congresso, descubro que Stephen Stahl é um psicofarmacologista da Universidade da
Califórnia em San Diego, fundador do Neuroscience Education Institute. Numa postagem polêmica
de 2011 no blog do instituto, Stahl acusou os críticos da indústria farmacêutica de tê­la afastado de
congressos, da educação médica e dos hospitais, e impedido mesmo atividades legais sancionadas
pelo órgão regulador americano, como jantares, envio de representantes ou brindes (“Nem café ou
água mineral são permitidos em Massachusetts, o que dizer de um livro?”). Num salto algo ousado,
ele conclui que isso levou ao fechamento dos laboratórios de pesquisa em saúde mental da
AstraZeneca, GSK e Pfizer, e que saíram vitoriosos “os antipsiquiatras” – gente que não acredita em
doença mental ou na eficácia dos fármacos. A lógica de atrelar a crítica ao marketing à “descrença na
doença mental” parece estranha – tanto quanto a naturalidade em aceitar que a viabilidade de um
laboratório de pesquisa dependa diretamente da publicidade.
Polêmico, o post foi retirado do ar em seu endereço original, embora sobreviva nas páginas de
críticos. É um bom exemplo do argumento normalmente invocado para defender a onipresença da
indústria na ciência médica: o de que a inovação farmacológica dependeria dela, já que o dinheiro
arrecadado com vendas de medicamentos é revertido em pesquisa. O debate é complexo, mas os
números são elucidativos: em 2013, o investimento em pesquisa das dez maiores companhias
farmacêuticas do mundo foi de 65,8 bilhões de dólares – em torno de 33% a menos do que os já
mencionados 98,3 bilhões em “vendas e marketing”. Já os lucros das mesmas empresas, no mesmo
período, chegam a 89,8 bilhões de dólares. Críticos do sistema, que vão do Partido Pirata sueco ao
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Nobel de Economia Joseph Stiglitz, alegam que, para cada dólar investido na ciência, a indústria
gasta um valor maior do que isso em ações de publicidade para distorcê­la. E que, se tivéssemos
deixado a pesquisa farmacêutica em domínio público, sem patentes, lucros exorbitantes ou despesas
de marketing, poderíamos ter mais pesquisa pelo mesmo custo e medicamentos a um preço menor.
 
MEIO­DIA_Saio da palestra seguinte mais cedo e consigo a proeza de ser um dos primeiros a se
servir do almoço. Na Aspen Pharma, agarro um estrogonofe de frango, que traço em pé enquanto
espero na fila de inscrição para o sorteio do tablet da Mantecorp. Num golpe de sorte, assisto à
deserção de três estudantes a minha frente, depois de descobrirem que não podem se cadastrar sem
o crachá de prescritor. Me lembro de meus tempos de crachá amarelo e me solidarizo com eles, ainda
que avançar três casas na fila seja tão bom quanto ganhar brindes. Na saída do estande, avisto um
bacalhau à Gomes de Sá na Medley, mas a fila me intimida e guardo minha fome para o que promete
ser o evento mais interessante do dia.
A “Arena TDAH” – palestra patrocinada pela Shire sobre transtorno de déficit de atenção e
hiperatividade em adultos – vem sendo promovida desde o início do congresso. Sobre um ringue em
estilo ufc, o cartaz anuncia o “combate” entre Luis Augusto Rohde e André Palmini, acompanhado
de lanches do Subway. Médicos dos mais prestigiados do Rio Grande do Sul, ambos pertencem a uma
geração que se sobressai não só pela atividade clínica, mas por uma carreira sólida como
pesquisador. Rohde é presidente da Federação Mundial de Transtorno de Déficit de Atenção e
Hiperatividade (TDAH), e foi o único psiquiatra brasileiro a integrar a força­tarefa que elaborou a
última versão do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais da Associação
Americana de Psiquiatria, o DSM­5. Palmini tem contribuições importantes de pesquisa no campo
das epilepsias e é um dos idealizadores do congresso. E, ainda que não conste em seu currículo,
também é neurologista do meu avô.
Palmini e Rohde são exemplos do que a indústria farmacêutica chama de “líderes de opinião”:
médicos conceituados, capazes de influenciar colegas e frequentemente recrutados por laboratórios
como consultores e palestrantes. Na condição de pesquisadores ativos, tais profissionais costumam
ter interesses em verbas de pesquisa e parcerias com a indústria que vão muito além de canetas e
bloquinhos. Na declaração de conflitos de interesse disponível no programa do congresso, Rohde e
Palmini mencionam ligações com cerca de quatro laboratórios cada um, entre palestras,
consultorias e verbas de pesquisa – café pequeno diante dos currículos de psiquiatras norte­
americanos.
O marketing algo apelativo do cartaz parece surtir efeito, e uma fila gigantesca em espiral se forma na
porta. Quando enfim consigo entrar, meus piores temores se realizam: os lanches do Subway
acabaram, e me dou por feliz ao sentar numa das últimas cadeiras disponíveis.
O representante da indústria anuncia que serão quatro temas, com réplica e tréplica, e que os
debatedores “vão assumir posições contrárias entre si, que não representam necessariamente as suas
próprias” – pelo jeito, eles de fato apostam no conceito de luta marcial. O debate, porém, segue um
curso amistoso. Os dois palestrantes são eloquentes e geralmente acabam por convergir em suas
visões. Me divirto com uma pergunta sobre o “TDAH de alto funcionamento” – o indivíduo bem­
sucedido que consegue cumprir seus compromissos, mas negligencia sua casa em desordem e
ageladeira que jamais é limpa. Eu mesmo estou sem água no refrigerador há cinco dias.
Curiosamente, o debate se encerra quase sem menção ao produto do patrocinador, o Venvanse
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Intoxicado de ofertas | piauí_108 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais

(dimesilato de lisdexanfetamina). Um desavisado poderia pensar que o esforço do fabricante foi para
o ralo. Mas o importante nem sempre é vender a medicação: por vezes o investimento está em
vender a doença.
Num artigo de 2003 para a revista Medical Marketing & Media, o publicitário Vince Parry discorre
sobre o que chama de condition branding, processo que consiste em transformar um quadro clínico
em marca. “Se puder definir entre médicos e pacientes uma condição particular e seus sintomas
associados, você também poderá prescrever o melhor tratamento para essa condição”, ensina o
autor. Parry segue descrevendo exemplos bem­sucedidos – a propagação do conceito de “halitose”
como uma condição médica na década de 20, quando a Warner­Lambert quis expandir o mercado
do Listerine (“Aumentar a importância de uma condição existente”); a redefinição da impotência
como “disfunção erétil” no final da década de 90, quando a Pfizer lançou o Viagra (“Redefinir uma
condição existente para reduzir o estigma”); e a criação do conceito do “transtorno do pânico” como
um diagnóstico específico nos anos 70, financiada em parte pela Upjohn, fabricante do Xanax
(“Desenvolver uma nova condição para construir reconhecimento de uma necessidade não satisfeita
do mercado”).
A expansão do diagnóstico médico não é necessariamente ruim: um paciente com sintomas e
sofrimentos até então sem causa pode buscar tratamento e melhorar sua vida. Mas ao ver um
publicitário debater o conceito em termos tão cândidos, é difícil acreditar que algo não esteja errado.
Na psiquiatria, provavelmente nenhuma doença tem sido tão controversa quanto o TDAH, cujo
reconhecimento e medicação cresceram de modo astronômico ao longo das últimas duas décadas. A
produção do medicamento mais comumente usado, o metilfenidato (mais conhecido pelo nome
comercial de Ritalina®), aumentou cerca de trinta vezes nos Estados Unidos entre 1990 e 2012,
mesmo que a evidência disponível (parte da qual publicada pelo grupo de Luis Augusto Rohde) sugira
que a prevalência dos sintomas tenha se mantido relativamente estável. Defensores da relevância do
transtorno argumentam que, ainda que o problema de diagnóstico exagerado possa existir, os
números refletem em parte o reconhecimento de uma condição antes não percebida. Isso não
impede que o TDAH tenha se transformado no alvo preferencial dos críticos de uma
“supermedicalização” da sociedade.
Ao contrário do que boa parte do público tende a pensar, o debate sobre a identificação de um
transtorno mental pouco tem de biológico – em última análise, o ponto em que um comportamento
deixa de ser uma variação da normalidade para ser considerado patológico é inevitavelmente uma
convenção clínica. O manual da Associação Americana de Psiquiatria propõe critérios objetivos para
a definição do TDAH: a presença de seis entre nove sintomas de desatenção e seis entre nove
sintomas de hiperatividade antes dos 12 anos de idade, em mais de um ambiente ou circunstância,
com prejuízo de funcionamento social, acadêmico ou ocupacional, sem que isso seja explicado por
outro transtorno.
É óbvio, no entanto, que tais “receitas de bolo” não são aplicadas rigidamente, e que a prevalência de
um diagnóstico acaba sendo definida pela visão subjetiva dos médicos, dos pacientes e de seu
entorno. Nesse sentido, o investimento realizado pela Shire parece endossar a ideia de que o TDAH
em adultos é relevante e tratável. Ao lado do anúncio da palestra, um cartaz informa que “O TDAH
também pode acometer adultos e normalmente encontra­se associado a outras comorbidades”, e
que, “apesar de 5,8% dos adultos possuírem a doença, muitos são subdiagnosticados e poucos são
tratados”. Essa é a mensagem que precisa ser veiculada – e associar especialistas de peso como Rohde
e Palmini a ela parece valer a pena, mesmo que eles sequer mencionem o medicamento do
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Intoxicado de ofertas | piauí_108 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais

patrocinador.
 
TARDE E NOITE_A tarde prossegue com uma palestra sobre videogames, outrora vilões, hoje
ferramentas de treinamento cognitivo para neurocientistas e alguns psiquiatras. Cansado pela noite
maldormida e aborrecido por ter perdido o lanche do Subway, saio no intervalo e a multidão
sequiosa de brindes já não me diverte. No centro da área de exposição forma­se uma fila colossal: o
estande da Nova Química promove o lançamento do livro Integrando Psicoterapia e
Psicofarmacologia, de Irismar Reis, Thomas Schwartz e Stephen Stahl (o mesmo do post polêmico
na internet), prometendo 300 exemplares gratuitos. O dr. Reis está autografando o livro, e a fila,
com pelo menos 200 pessoas, anda a passos de tartaruga. Pergunto a uma moça no pelotão da frente
quanto tempo ela esperou para chegar até ali. “Pelo menosuma hora”, ela responde. E acrescenta que
as senhas já devem ter se esgotado. Jogo a toalha.
Compenso o livro perdido com três Danoninhos, surrupiados no estande da Danone, que anuncia o
suplemento vitamínico Souvenaid®. Assoberbado pela confusão, saio da área de exposição para a
rua e descubro que a poucos passos da luz fluorescente há um agradável dia de sol. Na ausência de
bancos, sento no meio­fio para tomar os Danoninhos e acabo me deitando na grama. Vencido pelo
cansaço, vou embora mais cedo. Em casa, peso os brindes e descubro que acumulei outros 3,3 quilos
de espólio. Ao todo, já são quase 9 quilos de bugigangas.
À noite dou um pulo na festa do congresso, que fecha o Bar Opinião, tradicional casa noturna de
Porto Alegre. Lá, estabeleço uma improvável amizade com Duda, uma menina de 17 anos, ainda no
ensino médio, filha de uma afluente família mato­grossense. Fascinada pelo cérebro, ela se inscreveu
no congresso e veio até Porto Alegre para participar dele. Parece entusiasmada com a festa,
enquanto eu, desprovido de energia, me despeço com um tchau conformado em direção ao sono que
me falta.
 
2 DE MAIO, SÁBADO_Acordo com fome. De lanche em lanche, há dias não faço uma refeição
normal. Sem palestras que me atraiam no primeiro horário, encaro uma tigela de cereal em casa
e chego ao congresso já no intervalo. A área de exposição está mais vazia, e talvez seja a hora de ter
minha vida ilustrada pelo cartunista da Libbs. Quando me aproximo, porém, ainda há filas ali. Parece
um paradoxo: se eu, que me inscrevi no congresso com o objetivo de angariar os brindes, não
encontro tempo para esperar, como alguém que veio para assistir às palestras consegue se dar ao
luxo de ficar na fila?
Frustrado, vou até o estande da Medley, mas a representante me diz que tanto as bolsas quanto os
carimbos personalizados acabaram. Pergunto de quantos carimbos eles dispunham, e ela diz que
haviam preparado 4 mil. Como foram cerca de 3 300 inscritos (e 140 palestrantes), a única
alternativa plausível é que diversas pessoas tenham abocanhado mais de um. Não só me sinto
injustiçado, como um tanto incompetente como recolhedor de brindes. A moça se desculpa e me
convida para o festival de sanduíches do almoço.
Os lanches também começam a rarear, e os representantes se mostram mais relapsos. No estante do
Sumaxpro®, um deles diz que os prescritores não precisam se submeter à atividade no computador
para levar o brinde, mas que têm de esperar um pouco para que ele possa “passar um ou dois
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conceitos sobre o medicamento” – inclusive a indefectível afirmação de que é a associação mais
prescrita nos Estados Unidos. Um médico se aproxima para reclamar que a bateria acessória de
celular que eles distribuíram não funciona direito. O representante sugere, sem muita convicção,
que ele tente carregá­la no computador e não na tomada.
Quando o intervalo termina, penso que é o momento de encarar um dos cartunistas. Espero dez
minutos na fila, ao longo dos quais reparo nas fotos dispostas nas paredes do estande, com famílias
cheias da mesma felicidade doméstica estampada em anúncios de lojas de roupas, supermercados ou
margarinas. Quando por fim sento em frente ao artista – um argentino radicado no Brasil, com uma
expressão que revela o cansaço das dez horas de trabalho praticamente ininterruptas por dia –, tenho
a impressão de que estar no congresso deve ser mais duro para ele do que para mim.
Na saída, encontro meu amigo Diogo Lara, escalado como moderador em algumas palestras.
Reclamo das filas na área de exposição, e ele comenta que, considerando o preço da hora dos
médicos, não faz nenhum sentido que eles percam vinte minutos em troca de um pratinho de
comida em vez de pagar 30 e poucos reais pelo bufê. Ele define isso como um
“bug neuroeconômico”, e eu acho graça, mas o argumento faz sentido.
Um dos maiores especialistas no campo da neuroeconomia, o controverso Dan Ariely, costuma dizer
que “Grátis!” é uma categoria de preço diferente de qualquer outra – talvez por evocar uma decisão
em que aparentemente não há nada a se perder. Ariely cita inúmeros estudos que mostram que,
confrontadas com algo oferecido de graça, as pessoas abandonam a lógica econômica racional que
utilizam em transações pagas em prol do apelo do custo zero. Isso talvez explique parte da eficácia de
uma estratégia de marketing tão rasa quanto distribuir canetas e bloquinhos.
Um presente, por questões inerentes ao senso de reciprocidade, tem um impacto que transcende a
lógica econômica. Por mais que a maior parte dos médicos acredite que, ao contrário de bens
valiosos, ninharias não sejam capazes de favorecer um determinado laboratório ou medicamento,
antropólogos e psicólogos sociais argumentam que a dívida inconsciente – criada por um presente
ou pela palavra amigável de um representante – pode ser suficiente para direcionar a prescrição.
E a estratégia, no fim das contas, parece funcionar, ainda que as evidências disponíveis sobre o tema
sejam fragmentárias. Um estudo norte­americano comparou médicos que haviam solicitado a adição
de medicamentos de um laboratório específico aos formulários de um hospital com seus colegas que
não haviam feito o mesmo. No primeiro grupo, a proporção de médicos visitados por representantes
da companhia em questão era sete vezes maior. Outro estudo, realizado após três cursos de
atualização sobre drogas para hipertensão de laboratórios distintos, verificou que a prescrição do
medicamento do patrocinador pelos médicos participantes aumentou em todos os casos. Uma
terceira pesquisa analisou um par de cursos em resorts com despesas pagas e concluiu que os eventos
aumentavam a prescrição da droga do patrocinador em quase três vezes – mesmo que apenas um
entre vinte médicos participantes declarasse acreditar que a mordomia poderia influir em suas
práticas.
Um crítico poderia argumentar que os dados são meras correlações, e que nunca foi realizado um
experimento controlado sobre o tema, como recomendaria o protocolo da ciência médica. Na
prática, porém, se a indústria gasta dezenas de bilhões anuais em marketing, seria difícil acreditar
que ela não possui evidência ainda mais convincente de que a coisa funciona.
 
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MEIO­DIA_As opções para o almoço incluem espetinhos na Aspen, hambúrgueres na EMS, crepes
na Nova Química, saladas em potinhos na Lundbeck, polenta com ragu na Torrent Pharma e
o festival de sanduíches na Medley. Seguindo a lógica das filas menores, apanho um potinho de
salada de macarrão, um espetinho de linguiça e um resto de molho de ragu com queijo, já sem
polenta, que sobrou do ataque coletivo ao bufê da Torrent. Entre um lanche e outro, encontro Duda,
minha amiga da festa da véspera, que reclama das filas e do tratamento que recebe com seu crachá de
não prescritor. Uma ideia me ocorre.
Levo Duda ao estande da Libbs e pergunto à representante se a garota pode jogar o game do
prisioneiro, sob minha responsabilidade. A moça concorda, e a menina já está colocando os fones de
ouvido quando outro funcionário vem nos informar que infelizmente isso não é possível, pois eles
poderiam ser multados pela Anvisa. Decepcionado, pego os fones e digo que eu mesmo vou jogar,
mas que as perguntas serão respondidas por Duda. Ela se intimida, dizendo que não saberá
responder, mas eu explico que as respostas corretas aparecem em negrito. “Ah, assim é fácil”, ela
comenta. E continua, encarando o representante: “Por que vocês não dão o brinde logo? Já vi que
esse jogo é só para fazer ele ficar olhando para esse comprimidinho aí.” Ele responde, constrangido:
“É, é mais ou menos isso.” Às vezes é preciso uma criança para dizer que o rei está nu.
 
TARDE E NOITE_Fico até o fim do congresso para assistir à última mesa do dia, que reúne Diogo
Lara e Iván Izquierdo, meu ex­orientador de doutorado, ambos da PUC­RS. Mas a verdade é que
estou exaurido. Na saída, já é noite e os estandes que frequentei durante a maior parte dos últimos
dias vão sendo removidos a toque de caixa. Amanhã o espaço provavelmente será ocupado por outra
exposição comercial: de tratores, telefones ou produtos de beleza. A mim, resta ir embora, imerso
em reflexões. E levando no porta­malas seis sacolas, duas bolsas térmicas, dois carregadores de
celular, uma caneca, doze canetas, duas amostras de vitamina D, duas caixas de lenços, uma pasta,
quatro bloquinhos, um nécessaire, três cadernos, um boné, uma garrafa térmica, dois guarda­chuvas
e três caricaturas.
O que aprendi? Que essa parece ser uma história sem vilões óbvios, à qual as habituais teorias da
conspiração não se aplicam. Quase todos os implicados, vários deles amigos meus ou profissionais
que admiro, podem justificar seu envolvimento com a indústria de maneira legítima. Os
organizadores podem argumentar que seria impossível realizar um congresso desse porte sem verbas
da indústria. Além disso, mesmo que não houvesse patrocínio oficial, o conflito de interesse não
desapareceria, já que boa parte dos palestrantes continuaria possuindo vínculos com laboratórios.
Palestrantes subsidiados pela indústria podem alegar que essa proximidade, além da renda extra,
abre portas e oportunidades de financiamento e divulgação para suas pesquisas. Médicos que
recebem representantes de laboratório frequentemente invocam como razão legítima a obtenção de
amostras grátis para repassar a pacientes com dificuldades financeiras. E os representantes de
laboratório, por fim, têm o argumento mais convincente de todos para participar do circo: essa é a
profissão deles, da qual dependem para pagar suas contas. Como é o caso dos próprios laboratórios,
que evidentemente visam ao lucro para poder prestar contas aos acionistas.
Além disso, descontados alguns excessos, o conteúdo das palestras não foi escancaradamente
publicitário, o material distribuído era, em boa medida, constituído de artigos científicos, por vezes
sem slogans, e o conteúdo do congresso, no que diz respeito à pesquisa básica, foi melhor do que eu
esperava. E mesmo sem a presença da indústria, a ciência estaria de qualquer forma sujeita a uma
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variedade enorme de conflito de interesses. Ainda que sem patrocínios, patentes ou participação nos
lucros, pesquisadores da área biomédica são tentados a superfaturar dados e inflar conclusões para
publicar artigos, obter financiamentos e progredir na carreira. A competição e outros aspectos do
capitalismo estão entranhados na academia e na sociedade, e nem todas as regulamentações ou
declarações de conflito de interesses serão capazes de trazer isenção.
Dito isso, o fato é que o mundo está cheio dessas feiras de exposição em que médicos ganham Big
Macs e fondues de chocolate, se empanturram de brindes, gastam horas ouvindo discursos
publicitários, recebem afagos psicológicos de aduladores profissionais, perdem tempo ao manter os
olhos fixos em telas que mostram um desfile de rótulos de medicamentos e brincam com
embalagens que salvam pacientes virtuais. E mesmo uma adolescente de 17 anos é capaz de se dar
conta de que algo parece errado nisso.
Ainda assim, Duda só enxerga a ponta mais óbvia do iceberg. Sob a superfície, existe um imenso
polvo com braços de centenas de bilhões de dólares – que financia a pesquisa de novos
medicamentos, a testagem clínica dos mesmos, os órgãos que regulam sua aprovação, os legisladores
que regulamentam o processo, as revistas que publicam os resultados de pesquisa, os eventos que os
divulgam, as sociedades que produzem diretrizes clínicas, o acesso dos médicos ao conhecimento, e
mesmo as entidades que representam os pacientes.
“Não existe almoço grátis”, diz o ditado. E, se eu e mais de 3 mil congressistas comemos de graça nos
últimos dias, é porque alguém pagou a conta. Não se trata de caridade da indústria farmacêutica, que
acumula margens de lucros maiores do que quase qualquer outro empreendimento lícito no mundo
ao longo das últimas décadas. Quem sustenta o circo são pessoas comuns que, para tomar decisões
sobre sua saúde, dependem dos indivíduos que perambulam pela área de exposição com seus crachás
de prescritores.
Como um político com seus eleitores, um médico tem com seus pacientes uma relação fiduciária que
o obriga, do ponto de vista ético e legal, a representar de forma isenta os interesses dessas pessoas ao
atendê­las. Mesmo assim, um estudo de 1980 mostrou que 85% de um grupo de estudantes de
medicina americanos considerava errado que um político aceitasse um presente de 50 dólares de um
lobista, mas que somente 46% consideravam problemático que um médico aceitasse um brinde
semelhante de um laboratório. Mais sintomaticamente ainda, 61% de um grupo de residentes
respondeu que suas relações com a indústria eram incapazes de afetar suas próprias práticas de
prescrição, mas apenas 16% afirmariam o mesmo sobre seus colegas. Por mais que eu tente, não
consigo enxergar como a conta possa fechar. Mas talvez eu já não consiga pensar direito, depois de
quatro dias trabalhando como agente duplo.
 
Pouco depois do Cérebro, Comportamento e Emoções de 2010, eu resolveria o problema do pai de
minha então namorada ligando para um de meus muitos colegas de profissão que recebem
representantes de laboratório, vários dos quais me ajudaram na preparação deste diário. Sem
grandes escrúpulos, pedi um par de caixas de amostras grátis de Zyprexa® que ele havia recebido dos
representantes da Eli Lilly. Isso deu conta do tratamento do meu ex­sogro por um mês, além de
aumentar consideravelmente meu status junto à família. Algum tempo depois, a promissória
passaria para o Sistema Único de Saúde, que atualmente fornece a versão genérica do medicamento.
No fim das contas, os braços do polvo somos todos nós. E o alimento dele também.
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04/09/2015

Intoxicado de ofertas | piauí_108 [revista piauí] pra quem tem um clique a mais

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