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Manuela Carneiro da Cunha

Eduardo Viveiros de Castro

Vingança e temporalidade: os Tupinamba
In: Journal de la Société des Américanistes. Tome 71, 1985. pp. 191-208.

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Carneiro da Cunha Manuela, Viveiros de Castro Eduardo. Vingança e temporalidade: os Tupinamba. In: Journal de la Société
des Américanistes. Tome 71, 1985. pp. 191-208.
doi : 10.3406/jsa.1985.2262
http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/jsa_0037-9174_1985_num_71_1_2262

Abstract
Revenge and time : the Tupinamba. At the heart of Tupinamba society, there is revenge, say the
authors. Cannibalism is part of a logic of absolute revenge, where anthropophagie consumption is but
the association of all to the process of revenge. Revenge can be exerted beyond the historical dispa
rition of cannibalism per se, because it is more fundamental than the latter. It is indeed the guarantee of
social memory, articulating the dead of the past to the dead of the future through the living. The authors
then sketchily compare this society geared onto temporality with the Gê and Tukano (Vaupés) societies,
and end up by a reflection on the place of historicity in this society.
Resumen
Los autores afirman que en el corazón de la sociedad tupinamba del siglo XVI se encuentra la
venganza. El canibalismo es un aspecto de la lógica de la venganza absoluta en la que el consumo
antropófago es la asociación de todos los procesos de venganza. Ésta puede ejercerse aún después
de la desaparición histórica del canibalismo propiamente dicho pues la venganza es más fundamental
que el canibalismo. La venganza es en realidad la garantia de la memoria social articulando los
muertos del pasado con los muertos del futuro por intermedio de los vivos. Los autores esbozan una
comparación entre la sociedad tupinamba, centrada sobre la temporalidad, y las sociedades gê y
tukano de Vaupés y terminan coa una reflexion general sobre el lugar de la historicidad en la sociedad
tupinamba.
Résumé
Vengeance et temporalité : les Tupinamba. Au cœur de la société tupinamba du XVIe, disent les
auteurs, il y a la vengeance. Le cannibalisme relève d'une logique de la vengeance absolue, où la
consommation anthropophage n'est que l'association de tous au processus vindicatoire. La vengeance
peut continuer à s'exercer, au-delà de la disparition historique du cannibalisme proprement dit, parce
qu'elle est plus fondamentale que celui-ci. Elle est en fait la garantie de la mémoire sociale, articulant
les morts passés aux morts futurs par l'intermédiaire des vivants. Les auteurs esquissent une
comparaison de cette société axée sur la temporalité avec les sociétés gê et tukano du Vaupés, et
concluent par une réflexion générale sur la place de l'historicité dans cette société.

El canibalismo es un aspecto de la logica de la venganza absoluta en la que el consumo antropófago es la asociación de todos los procesos de venganza.VINGANÇA E TEMPORALIDADE : OS TUPINAMBA * Manuela L. onde se incorporam materiais Tupi-Guarani contemporâneos. seus antepassados. centrada sobre la temporalidad. ** Departamento de Antropologia. em preparaçâo. y las sociedades gê y tukano de Vaupés y terminan coa una reflexion general sobre el lugar de la historicidad en la sociedad tupinamba.P. CARNEIRO DA CUNHA ** et Eduardo B. se por um lado nuo prova bons dotes de coraçào. no 45° Congreso Internacional de Americanistas (Bogota. Los autores esbozan una comparación entre la sociedad tupinamba. Universidade de Suo Paulo *** (et) P. Revenge and time : the Tupinamba. say the authors. Revenge can be exerted beyond the historical dispa* Este trabalho foi apresentado no simpósio « Etnohistoria del Amazonas ». sobre a guerra e о canibalismo Tupi-Guarani.A. VIVEIROS DE CASTRO *** « A vingança. os Araweté. descobre que estes povos. tinham idéias superiores as do instinto brutal dos gozos puramente positivos do présente ». ou antes. Esta puede ejercerse aun después de la desaparición histórica del canibalismo propiamente dicho pues la venganza es más fundamental que el canibalismo. La venganza es en realidad la garantia de la memoria social articulando los muertos del pasado con los muertos del futuro por intermedio de los vivos. there is revenge. Cannibalism is part of a logic of absolute revenge.G. a conexâo guerra escatologia e a articulaçâo entre os autores surgiu a partir da necessidade de desenvolvermos e consolidarmos observaçôes feitas por um de nos entre um grupo Tupi-Guarani contemporâneo. where anthropophagie consumption is but the association of all to the process of revenge. Universidade federal do Rio de Janeiro . e onde sâo tratados em detalhe aspectos aqui brevemente mencionados. cuja cosmologia apresenta um parentesco direto com os fatos Tupinamba (Castro 1984). como o estatuto dos prisioneiros de guerra. Museu Nacionál. ainda além dos umbrais da eternidade.S. Ele é parte de um ensaio bastante mais extenso. ou mesmo omitidos. 1-7 de julho de 1985). (Varnhagen) Los autores afirman que en el corazón de la sociedad tupinamba del siglo xvi se encuentra la venganza. At the heart of Tupinamba society.

il y a la vengeance. ni pérdida spiritual ni temporal suia. articulant les morts passés aux morts futurs par l'intermédiaire des vivants. Quanto à guerra propriamente dita. ni que les dure . CPJB II : 382). mas tampouco a perseverar : « com hum anzol que Ihes de. y ansi sus contriciones. todo es tan remisso. 10 de junho de 1557. nessa plasticidade social dos Tupinamba : a vingança. Inácio de Loyola. I Dóceis. CPJB II : 320). Contra a morte cerimonial do cativo de guerra e o canibalismo aliaram-se os jesuítas e os governadores gérais do Brasil. os Tupinamba ' convertiam-se à fé dos jesuítas. nâo séria mais a mesma guerra. Uma única obstinaçâo nessa indiferença. Les auteurs esquissent une comparaison de cette société axée sur la temporalité avec les sociétés gê et tukano du Vaupés. decerto. Vengeance et temporalité : les Tupinamba. disent les auteurs. où la consommation anthropophage n'est que l'association de tous au processus vindicatoire. mudava de forma essencial. inimigos que serviam tanto quanto eram servidos (já que eram alimentados pělo grupo e pouco deviam a seu captor) e que só com muita relutância eram vendidos aos Portugueses. Bahia. au-delà de la disparition historique du cannibalisme proprement dit. nâo se os dévia matar e comer. 8 de junho de 1556. queixavam-se os padres : « lo que yo tengo por maior obstáculo para la gente de todas estas naciones es su propria condicion. ordenava о governador Duarte da Costa. Dóceis.192 SOCIÉTÉ DES AMÉRICANISTES rition of cannibalism per se. Sujeita ao governador. Inácio de Loyola. The authors then sketchily compare this society geared onto temporality with the Gê and Tukano (Vaupés) societies. e com outro os tornarei a desconverter » . Le cannibalisme relève d'une logique de la vengeance absolue. ser mortos no campo de batalha « como soem fazer todas as outras naçôes ». de ninguna cosa tienen sentimento mui sensible. (Diálogo da Conversào do Gentio. Inversâo radical da guerra india. os converterei a todos. Luis da Grâ a Pe. et concluent par une réflexion générale sur la place de l'historicité dans cette société. Os Carij ós-Guaranis da Missâo dos Patos chegavam a preferir vender seus parentes em escravidâo a céder seus cativos (Relaçâo de Jerônimo Rodrigues in HCJB II : 39. mas inconstantes. que nâo procurava matar senâo apresar inimigos. Piratininga. and end up by a reflection on the place of historicity in this society. mas escravizá-los e vendêlos (Ir. articulating the dead of the past to the dead of the future through the living. sus deseos de seren buenos. estimulada por ser fonte de escravos pelos moradores.. because it is more fundamental than the latter. CPJB II : 294).. Au cœur de la société tupinamba du xvie. que no se puede hombre certificar de él » (Pe. La vengeance peut continuer à s'exercer. It is indeed the guarantee of social memory. parce qu'elle est plus fondamentale que celui-ci. e quando aprisionados. que ninguna cosa sienten mucho. Uma mesma inconstância nâo os incitava a resistir à conversâo. Antonio Blázquez a Pe. e Relaçâo in HCJB VI : . Elle est en fait la garantie de la mémoire sociale. mantida por motivos estratégicos pelos religiosos e pela administraçâo colonial. Os inimigos deveriam.

travava com seu matador. Vicente do Salvador 1982 : 87). por Lévy. e se « nâo se tinham рог vingados com os matar senâo com os corner » (Blázquez a Loyola. Podia-se fazè-lo nas cabeças de mulheres cativas que. do « triste ». como lhe chama Cardim. Seu executor retirar-se-ia para um prolongado e rigoroso resguardo. enquanto ele cairia. e poder chegar a todos » (Fr. os Tupinambá foram renunciando à antropofagia. a carne era assada (ou moqueada para ser consumida em novas restas ou por convivas ausentes). Mas havia também formas abreviadas deste complexo ritual. Ou entâo. podia-se fazer um caldo de um pé ou de uma mâo. 1557. prática muito corrente. por Cardim. após ter vivido alguns meses ou até alguns anos entre seus captores. se matar e corner os « contrários » era um processo único. em que um prisioneiro. aliados. amigos. « Em morrendo este preso. e reparte-se a carne por todas as casas e pelos hóspedes que vieram a esta matança. Havia formas crescentemente perfeitas de realizar a vingança. Com muita relutância e fortemente coagidos. durante о quai se lhe fariam escarificaçôes comemorativas e tomaria um novo nome. A estas. que mal lavadas cozem para corner. Decorado de plumas e pintado. e do caldo fazem grandes alguidares de migase papas de farinha de carimâ. poupadas por se terem casado com homens do grupo. crianças. a que chamam moquém. desenterrar mortos inimigos e lhes esfacelar о crânio. Podia-se também ganhar nomes nas cabeças das onças. Indigno de verdadeiros guerreiros era se libertarem prisioneiros a troco de resgate (A. pera depois renovarem seu ódio e fazerem outras restas. deviam participar do festim. Se fose escassa a carne para tanta gente. face contra a terra. também paramentado. mas nâo comidas. filhos portanto de mâes locais e de pais inimigos.VINGANÇA E TEMPORALIDADE 193 513 n. mulheres. homens. elaborada sequência descrita com certo deleite macabro por Thevet. todos. logo as velhas о despedaçam e lhe tiram as tripas e forçura. morriam de sua morte natural. na quai о matador « ganhava nomes na cabeça de seus contrários ». iam-se desenterrar os inimi- . sacrificadas com todas as honras no terreiro. A vingança por excelência era a morte cerimonial no terreiro. Thevet 1978 (1556) : 135). CPJB II : 383). contrários que podiam ser mulheres e crianças aprisionadas ou mesmo os filhos de prisioneiros havidos com mulheres que se lhes dava. a « espada » de' madeira que lhe dévia esfacelar о crânio. quebrava-se о crânio. Preso por grossas cordas amarradas à cintura. Para « ganhar nomes ». 12). о comer parecia vicário em relaçâo ao matar. depois de mortas. metida em novelos de fio de algodào e posta nos caniços ao fumo. parentes. As visceras eram cozidas e destinadas as crianças. diálogos cheios de arrogância sobre os quais tornaremos a falar. para suprir na falta de carne. muita assada e mirrada. era abatido em praça publica. Essa era a forma plena da morte em terreiro. com a exceçâo única e forte do matador. Duas regras presidiam a refeiçào canibal : nada do morto dévia ser perdido . bastava também matar os inimigos no campo de batalha — desde que se lhes quebrasse devidamente a cabeça — ou mesmo. Mas o canibalismo foi abandonado com relativa facilidade se comparado à morte em terreiro. Maior horror e maior empenho dos jesuitas e governador em abolir о canibalismo 2 ? Na verdade. e delà comem logo assada e cozida e guardam alguma. deveria idealmente ser morto com uma única pancada da ibirapema. Muitos convivas vindos de diyersas aldeias aliadas partilhavam da carne do morto.

. Como diz Léry. « Verdade é ». eles e seus filhos. « nào têm por valor o matar se nâo quebram as cabeças./ afin de les inciter et acharner d'autant plus. como o nâo matou corn о quebrar a cabeça. Diogo Laines. de forma essencial. ou com tâo poderosos golpes que o parta pelo meio. O feito guerreiro é a fonte do prestigio politico e permite por decorrência a poligamia. A mâe besunta os seios de sangue do inimigo para que a criança о prove. Os catecumenos das aldeias jesuiticas podiam assim resignarse a nâo comerem seus cativos. Jàcome Monteiro HCJB VIII : 409. » (Frei Vicente do Salvador 1982 : 85). e tê-lo aprisionado em luta é a melhor forma de о obter. trata-se de entender о que constitui. Quando Ihe per fur arem o lábio sera « para que se torne um guerreiro valente e prestigiado » (Y. primeira paternidade (F. nem poderá tomar nome nem riscar-se » (A. diz Léry. A vingança confere « honra ». Viotti : 173) 3. éd. mas nâo a única. etiam os que sabiam 1er e escrever. « il y a une façon de parler de ce payslà que les Français avaient déjà dans la bouche : alors que les soldats et ceux qui se querellent chez nous se disent maintenant l'un à l'autre : « Je te crèverai ». e voltaremos a comentála. no sentido. » (Léry. Assim. Brandâo 1943 (1618) : 286) . Viotti : 434). Nâo se dizia a um desafeto : « vou-te corner ». on dit à celui auquel on en veut : « Je te casserai la tête. que de diver sas outras partes vêm e sâo convocados para as restas » (Anchieta a Pe. dois inimigos. na morte aos Tupis. a um verdadeiro casamento. Na verdade. este morto nâo é ainda suficiente : « posto que este gentio pelo campo mate о inimigo as estocadas. se nâo os comem. S. primeiro acesso a uma mulher fértil. Sâo Vicente. » (Léry. Enfim. e que serviam assim duplamente : em vida aos portugues. 1957/1578/ : 314). Paulo de Piratininga. A antropofagia. primeira renomeaçâo. e as mulheres recusavam-se a quem nâo houvesse matado. Um homem nasce como futuro vingador. « ces barbares frottent le corps. О inimigo morto é peça fundamental. como vimos. mas « que bro-te a cabeça ». invertendo causas e . os indios de S. logo hâo que о morto nâo é morto. dâo-nos a corner a outros seus parentes. bebendo grandes vinhos. in Cartas éd. os padres louvaram-se que os tivessem mortos e sepultados à maneira cristâ (Anchieta a Loyola. Paulo de Piratininga atacaram um outro grupo e tomaram prisioneiros. a quebra do crânio do primeiro inimigo Ihe permitira aceder à condiçào plena de homem : primeira vingança. 1957 /1578/ : 315). Mais tarde.. em 1554. Necessário. Cartas. Como se vê. como antes costumavam e. a vingança. « que ainda fazem grandes restas na matança de seus inimigos. um deles morto. Cardim 1980 : 144 . Átomo da vingança. a quebra dos crânios era perseguida com muito maior afinco que a antropofagia. nem o matador pode jactar-se de Ihe haver dado a morte. les cuisses et les jambes de leurs enfants avec le sang de leurs ennemis /. A vida social é posta a serviço da produçâo deste par e deste ato elementar... Todo filho era filho de um matador. torna-a compléta. Quando. CPJB II : 109). Г de setembro de 1554. Anchieta. d'Evreux 1874 : 129) 4. ainda que seja dos mortos pelos outros. 30 de julho de 1561. mas dificilmente deixariam de matá-los segundo os modos prescritos.194 SOCIÉTÉ DES AMÉRICANISTES gos vendidos como escravos aos moradores. F. indignase Anchieta sete anos mais tarde. outro que Ihe esfacelou о crânio. о ciclo de vida e o destino póstumo organizam-se ambos em torno da vingança.

o sinal de ostentaçâo do grande guerreiro : « j'ai vu un homme qui avait huit femmes. Esquecer a vingança é о avesso da condiçâo tupinambâ de acesso ao paraiso. au contraire celles des efféminés et des gens de néant. О guerreiro nâo acumula apenas mulheres : a cada morte que inflige. e nisso Léry nâo se engana. disent-ils. a ultima porém era inexequível : « Et encore quand Toupan lui commanderait de ne le faire. ex. Quanto aos que nunca se vingaram.). esse lugar a que as mulheres chegam — quando chegam — com tantas dificuldades. 138 . Pindobuçu e Thevet concordam quanto à existência de uma vida eterna. 348-9). A. ni que Cesar Germanicus. Thevet 1978 (1556) : 135).. incessamment tourmentées par lui. Ils tiennent aussi fermement que les âmes de ceux qui ont vertueusement vécu. A poliginia era. qui n'ont pas tenu compte de défendre la patrie. Pindobuçu roga ao francês que intercéda por ele junto a Deus (esse Deus que os cristâos chamam de Tupâ) e obtenha sua cura. ni sur l'airain. qui se sont bien vengés et ont beaucoup mangé d'ennemis. non sur le . cit.. na verdade. quando morrer./. il pouvait faire gloire de vingt-quatre noms comme d'autant de titres d'honneur et marques de vingt-quatre rencontres où il s'était trouvé et avait bien fait /. son visage. 1953 /1575/ : 86.. il mériterait mourir de honte. dont il faisait ordinairement des contes à sa louange. e inverte intencionalmente. morte pela vingança e que anuncia vinganças. d'Evreux 1864 : 127.. sobretudo pelas mâos de renomado guerreiro (p..) Honrada também entre todas é a morte em terreiro. » (Claude ď Abbeville. Thevet 1953 (1575) : 85) : « Ils croient à l'immortalité des âmes. e Thevet lhe afirma que Tupâ lhe mandou a doença. Ao vingador enfim sào reservados honras e privilégios póstumos : é ele quem saberá encontrar. responde significativamente Pindobuçu./ Ses noms étaient accompagnés de leurs éloges et comme épigrammes écrites.) : Cunhambebe teria treze mulheres. son ventre et ses deux cuisses toutes entières étaient le marbre et le porphyre sur lesquels il avait fait graver sa vie avec des caractères et figures si nouvelles que vous eussiez pris le cuir de sa chair pour une cuirasse damasquinée. vai somando os nomes que toma e vai desenhando no próprio corpo um riscado que lhe estalha a pele. Thevet lhe impôe condiçôes : recebido o batismo. mais sur sa propre chair . о lugar delicioso das aimas. s'en vont derrière les hautes montagnes où elles dansent dans de beaux jardins avec celles de leurs grand-pères /. nâo só ficará restabelecido mas. О principal Pindobuçu estava doente. « ceux qui en ont le plus grand nombre sont estimés plus vaillants et plus hardis » (Léry. feita de infindâveis alegrias.. destino « dos que nào se vingam da injuria de seus inimigos ». A renomeaçâo é também renome : « /le Tabajara Rayry/ il avait acquis des nouveaux noms et renoms : si que plus glorieux que Scipion l'Africain. Amendua trinta e quatro (A. obstáculo as primeiras condiçôes. os requisitos par essa vida eterna. selon eux. Nâo havia. » (Thevet. ficarâo com Anhang (Y. c'est-à-dire.VINGANÇA E TEMPORALIDADE 195 efeitos. assegura-lhe. il ne le saurait accorder : ou si par cas fortuit il l'accordait. 1963 /1614/ : 348-348 v. » (Léry. sua aima ira para o ceu. Thevet 1953 (1575) : 135-6). Mas Thevet inverte. depois de morto. vont avec Aygnan (ainsi nomment-ils le Diable en leur langage) et ces âmes sont.papier. ni sur l'écorce d'un arbre. 1957 /1578/ : 328-9). esse parai so que . 1957 /1558/ : 348. A. Feito isso. que deixe de crer nos feiticeiros e profetas e que abandone vingança e antropofagia. » (op.

homens. contestatários apenas na medida em que todo fundamentalista о é. Nâo nos parece. intensificando a guerra. os Tupinambá parecem se preocupar em dilatar a identificaçâo de vingadores até torná-la coextensiva a todos seus aliados.. mulheres. О festim canibal que exige a participaçâo de todos e envolve técnicas de conservaçâo da carne para que aliados distantes possam prová-la é também uma maneira de qualificar todos os devoradores.. supôe também.) Essa qualificaçào pode ser imediata se se defrontarem dois homens diretamente inimizados por uma morte : o pai que mata aquele que matou a seu filho. como percebe com extrema acuidade Hélène Clastres (1975 : 36 ss. Se. aboie regras de casamento (que já em si eram tenues).. A vingança é assim a instituiçào рог excelência da sociedade tupinambá. » (Claude d'Abbeville. de grands amis et alliés qu'ils étaient dès lors ils devinrent si grands ennemis et se divisèrent tellement les uns des autres. mas pelo seu ponto de chegada — essa Terra sem Mal onde os homens sâo também deuses — о profetismo. Ao contrario. néanmoins le Diable les a tellement animés les uns contre les autres qu'ils en sont venus jusqu'à s 'entremanger. como possíveis vítimas da próxima matança. Mas esta nâo é a regra. O discurso profético aboie о trabalho. a religiâo Tupinambá se define nâo pelo seu ponto de partida. as vésperas da chegada dos europeus. a saber. profetismo até. s'entr'appellent les uns les autres du nom de Tobaiares /tabajara/ qui veut dire grands ennemis. É certamente a comensalidade antropofágica que délimita as unidades bélicas e que assim de uma čerta maneira forma ou confirma as unidades sociais. e é portanto sinal de lealdade ultima : « Et quand ils nous présentaient à man- . tudo nâo só se articula mas como que se subsume na vingança. Qualificaçào nem sempře évidente na medida em que os aliados de ontem podem ser os inimigos de hoje. exacerba — a vingança e o canibalismo 5. um demiurgo de pouca importância. para о quai se mobiliza a sociedade Tupinambá. em presença. tabajara. que о profetismo Tupi. ou pour mieux dire selon l'étymologie du mot. chefia. nela.). A antropofagia que « confirma nos ódios » aparece como um modo de produzir « inimigos mutuos ». Os indios do Maranhâo « . Casamento. com efeito. a façanha guerreira.196 SOCIÉTÉ DES AMÉRICANISTES privilegia os vingadores. a saber. nâo teriamos ao contrario aqui uma atençâo exclusiva para aquilo que. tu es mon ennemi et je suis le tien : et quoi qu'ils soient tous de même nation et qu'ils se qualifient tous Topinamba. II О esfacelamento dos crânios. a vingança ? Os profetas seriam assim nâo tanto revolucionários quanto fundamentalistas. crianças. é fundamental. 1963 (1614) : 261 v. que du depuis ils se sont toujours fait la guerre. Mas longe de ser uma negaçâo dos fundamentos da sociedade tupinambá. dois inimigos que é preciso qualificar como tais. apenas se concentra no modo de acesso à Terra sem Mal. contrariamente à interpretaçâo que lhe dá Hélène Clastres (1975 : 58).. A religiâo do perdâo opôe a religiào da vingança. xamanismo. e só préserva — na realidade. negue radicalmente os principios da sociedade normal ou ponha em causa um eventual Estado nascente.

seu filho a enforca e enterra. escreve Anchieta da atitude da vitima. « que ele estava para matar os outros que para ser morto » (Cartas éd. porque assim soem vingar os semelhantes homicidios. Depois disto é abatido 6. A iniciativa passa ao prisioneiro que déclara : « Meus parentes me vingarâo ». nem lhe falou uma só palavra.) É esse precisamente um dos aspectos do diálogo. ils la mettront de colère en cent mille pièces. uma vez tornáda. ao contrario da outra. que podia durar um dia inteiro.. mas que. No dia seguinte. « Um dos principais lhe diz que nâo é ele só o que morre. que cancela a agressâo. afirma-se que a vingança sera vingada : a morte présente sera a razâo de mortes futuras. Há dois modos tupinambá de se agir diante de uma agressâo.. 1957 /1578/ : 319. arrancadas do corpo e quebradas furiosamente (J.). nous avons mangé vos parents.VINGANÇA E TEMPORALIDADE 197 ger de cette chair humaine de leurs prisonniers. » (Léry. eram. da quai voltaremos a falar. » (Thevet. Esta vingança. que permite à vingança. Certeza antecipada de vingança que dá o tom inconfundivel de desafio à morte em terreiro e que о combate. em pleno campo de batalha. Peixoto : 224). perpétua a vingança : opçâo que parece derivar. ce que je dois dire pour la vérité. Segundo momento do diálogo. qui nous est ennemie ? Et n'as-tu pas toi-même tué et mangé de nos parents et amis ? Lui plus assuré que jamais répond /. que relata o episódio.. gerar a vingança futura e que coloca assim em uma relaçâo permanente de hostilidade os grupos envolvidos. A este primeiro modo. em larga medida. mas . quando se trata de agressâo dentro de um grupo que nâo prétende se cindir. comenta : « nenhum de todo о povo lho impediu. E Anchieta. 1983 : 83. Uma mulher mata um rapaz que se interpunha numa discussâo. vide também J. caracteriza aos inimigos como permanentes e a vingança como interminável. já prenunciava. por mais que parecesse um simulacro. Davantage. je suis très fort et j'en ai vraiment assommé et mangé plusieurs. » (Léry./) il leur semble que nous ne sommes pas assez loyaux. aplicada aos nâo-humanos. de Léry 1957 (1578) : 306). pour se venger des poux et puces ils les prennent à belles dents. contrapôe-se aquele que. qualificou-se a matança iminente como uma vingança por mortes passadas. « Mais parecia ». comme si la chose était sensible. une pierre les blesse. » (Thevet. Monteiro 1949 (1610) : 413). О que se entrevê aqui é uma čerta cumplicidade. porque nâo façam guerra os parentes do morto e se comam uns aos outros » (Anchieta 1984 : 119 . 1983 : 90. que parece procéder à qualificaçào da vitima : « N'es-tu pas de la nation nommée Margaias. mais je ne le puis sans vergogne. a partir delà.) Quanto as fléchas. aussi vous mangerons-nous. de consideraçôes estratégicas. Pode-se cancelá-la através de uma retaliaçâo imediata e pode-se ao contrario mantê-la por mecanismos que cuidadosamente a perpetuem. chose plus brutale que raisonnable. 1957 /1578/ : 312). no outro extremo.. A. si nous en faisions refus (comme moi et beaucoup d'autres l'avons toujours fait /. Mas há mais do que isto nestes diálogos. Esta vingança imediata e conclusiva... fruto de vingança. ficará para sempře inconclusa : « Nous sommes vaillants (disent-ils).. reencontra-se. deitando em cima delà о cadaver daquele a quem ela havia morto. Sabe-se que os vingativos Tupinambá estendiam о esfacelamento a tudo o que os ferisse : « Si une épine les pique../ : Oui. Em um primeiro momento. no terreiro. da vitima com seus captores.

sâo à primeira vista. que pôe em conexâo os que já viveram (e morreram) e os que . É о que Thevet percebe quando escreve (ao arrepio de certos fatos. A mulher lança-se sobre ele e morde-lhe a espádua. e a conclusâo das pazes nâo о desmente 7. as que se darâo e entre as quais a morte iminente nâo é senâo a transiçâo. É ela.. como fez Montaigne. ela é uma retaliaçâo 8. Pigafetta. « J'ai mangé ton père /. ela é também sem começo : ou melhor. os inimigos entâo decidiram da mesma forma (A. opôe-se aqui uma dispersâo mâxima. Nào cremos que se devam ir buscar outros temas. O prisioneiro escapa e conta aos seus que os inimigos haviam tentado devorá-lo vivo : decidiram que assim fariam no futuro./ j'ai en général tant mangé d'hommes et de femmes. seu ponto de partida é puramente virtual.. manifesta no cancelamento imediato da contenda. é о que insinua о mito de origem do canibalismo. 1957 /1578/ : 311. requentados. Et au reste.. Ou seja. » (Thevet. ser o de que о primeiro canibalismo real é uma retaliaçâo a um canibalismo imaginário. 1800 : 18 apud A. voire des enfants de vous autres Toiioupinambaoults pris en guerre. e somente ela. mas fala de forma essencial. Se a vingança nâo tem fim. É nesse sentido que. graças a banquetes com carnes de inimigos de conserva. Seu matador é capturado.. À dispersâo minima da vingança. Nenhuma transcendência se révéla através deles. О canibalismo é assim a condiçâo de perpetuaçâo do sistema : nâo diziam outra coisa os Tupinambá quando faziam dele o instrumentů da « perpetuaçâo dos ódios ». Monteiro 1949 (1610) : 411). Sucessâo de respostas. pobres. que a antropofagia se encarrega de realizar e que désigna a todos como vítimas possíveis das proximas matanças. do passado e do futuro. a qualificaçâo de « inimigo » em escala suficiente para que a vingança possa continuar. todos poderâo literalmente dizer : « sim. » (Léry. a antropofagia nâo tem propriamente um motor primeiro : de saida. comeriam os prisioneiros .) Quais sâo os temas ? Outras vinganças. j'ai assomé et boucané tes frères . a antropofagia é essencial para garantir esta forma permanente da vingança : sem ela. desenroladas a partir de um início imaginário. e afirmado como tal. 1983 : 80). divida de velhas mortes e pretexto de mortes futuras. no entanto. a vingança tupinambá ? Os diálogos no terreiro. nuo se produz. ficam nos ódios confirmados » (Gandavo 1980 : 55). ne doutez pas que pour venger ma mort. e que muitos mais hâo de matar e corner » (J. atrás dos que sâo evocados explicitamente : a vingança tupinambá fala apenas. « Depois que comem a carne desses contrarios. embora vicária à primeira vista em relaçâo ao matar. entâo. que delà falam. mas intuindo о essencial) : « une chose étrange est que ces Amériques ne font jamais entre eux aucune trêve ni pacte. que je ne saurais en dire le nombre. As explicaçôes aparentemente super fluas que iniciam o mito indicam que se esta em um sistema de vingança em andamento. Métraux 1967 : 68).198 SOCIÉTÉ DES AMÉRICANISTES que já tem mortos muitos de seus parentes. parece. Chegado о momento. as que já se deram. como fez também Florestan Fernandes./. Esta vingança nâo pode ser cancelada : como tal é concebida enquanto dure. outras devoraçôes. Uma mâe tinha um filho único que havia sido morto na guerra. à falta de novas vítimas. no que chamamos acima o átomo da vingança. eu comi muitos dos vossos ». /. О que é. les Margaias de la nation d'où je suis n'en mangent encore plus tard autant qu'ils en pourront attraper. О ponto principal.

ao contrario. deparando-se-lhes morte tâo gloriosa. vingança e cauinagens. inversamente. Soares de Souza. Tudo indica. ressalta a singularidade da instituiçâo da vingança. afora Anchieta (1984 : 75) e Cabeza de Vaca para os Guaranis. pois dizem que é próprio de ânimo tímido e impróprio para a guerra morrer de maneira que tenham de suportar na sepultura o peso da terra.. Ainda que fosse seu nome que deixasse о morto. о esfacelamento do crânio. contentavam-se com quatro ou cinco inimigos aprisionados. escreve Anchieta.. na morte em terreiro. О que há nessa « morte gloriosa » ? Sua forma particular. Viotti. in Anchieta 1984 : 90). « De fato quando estâo mais bêbados. dando por finda a expediçâo. nem regras positivas de casamento. Piratininga. a vitima que se porta à altura deixa de si memória : « se valente e esforçado ». « todos os seus fundamentos sâo como farâo guerra aos seus contrários » (1971 (1587) : 320).VINGANÇA E TEMPORALIDADE 199 viverâo. ninguém sugere que sej a о nome do morto. nâo se trata. éd. e procura deixar de ti memória » (J. 1555. Mas que memória é essa ? Embora о cronista possa falar no desejo de uma velha destinada ao sacrificio de « deixar о nome » (Pe. que fabricam com raizes. que nâo seja. dir-lhe-ia о matador. pensar о « nome » que о morto deixa como sua memória pessoal parece fazer violência aos textos de que se dispôe. Estas associaçôes podiam estar présentes. Até os cativos julgam que lhes sucede coisa nobre e digna. nem grupos cerimoniais. até mais de 300 milhas quando iam à guerra. Sâo Vicente. Numa dessas cauinagens. que explicita uma continuidade que nâo é dada em nenhuma outra instância. que encontraria imediatamente о caminho da Terra sem Mal : a quebra do crânio de Maira-Monan séria seu paradigma (F. os Tupinambá se lembraram de um grupo de Maracajá submetido vinte anos antes aos franceses e que viviam em paz na ilha Grande : « Un jour en buvant et caouinant. A fluidez dessa sociedade que nâo conta. e toda vida se gloriam daquela egrégia vitória. О que ressaltam os cronistas é que. que julgam ser muito grande » (Anchieta a Loyola. 1984 : 73-74). registrava G. Joâo de Souza Ferreira 1894 : 130). « Sem cuidarem de mais nada. regressam para com grandes vozearias e restas e copiosissimos vinhos. Fernandes 1970 (1952) : 314). « nâo mor ras como mesquinho./ que c'étaient des gens issus de . o matador toma nome no crânio da vitima mas. « Como os Tupinambá sâo muito belicosos ». com nenhuma instituiçâo forte. renova-se a memória dos maies passados. Métraux chega alias a sugerir que o novo nome do matador seja. nem linhagens propriamente ditas. Singularidade essa que era realçada pela aparente desproporçâo entre meios e fins : esses indios que percorriam. Decerto. a nosso ver. de maneira que nâo perdem nem sequer a menor unha. como eles julgam. ils s'encouragèrent l'un l'autre et alléguèrent /. о que deixa a vitima ? Os textos falam reiteradamente de très temas que vêm associados : memória. mas nâo sâo as que os relatos enfatizam. séria necessário provař que о nome marcava uma identidade pessoal entre os Tupinambá. poderia sugerir uma liberaçâo rápida da aima. uma camuflagem destinada a eludir a vingança da aima da vitima (A. e começando a vangloriar-se deles logo ardem no desejo de matar inimigos e na fome de carne humana » (Anchieta a Loyola. Mas se nâo é seu nome. sua memôria pessoal. além da vingança. Monteiro 1949 (1610) : 412). os comerem. de um nome pessoal. 1554. Métraux 1967). Na realidade.

a vontade de se vingar. grupos que. um lugar virtual que só é preenchido pela morte do inimigo. produzida pelo tempo. Рог isso essa é a morte gloriosa por excelência. Monteiro 1949 [1610] : 410). 1957 /1578/ : 320. Ils délibérèrent donc de tout saccager. vide também J. Assim. Mas se a fama é a mesma. mas espiral ou pêndulo.. A memória de cada grupo.. contestou. mas é ao contrario fabricaçâo de uma identidade que se dá no tempo. Nâo há círculo da vendetta. entre matadores et vitimas. para uma continuidade que só os inimigos podem garantir. A centralidade da vingança. A guerra de vingança tupinambá nâo nos parece ser instrumente de algo anterior a ela. Há aqui uma circulaçâo perpétua da memória entre grupos que se entre-vingam. aparentemente. Há uma imortalidade prometida pelo canibalismo. Voltando : о que é transmitido de uma geraçâo a outra pelos Tupinambá ? Nomes nâo . expressa-a no entanto em termos Portugueses. Para tanto. /. postulou um culto dos ancestrais que os relatos dos cronistas nâo sustentam e que Métraux (1967 : 70). levado talvez por suas premissas teóricas. o futuro de cada grupo. isto é. parecem contar com os outros. É a gloria. acabou fazendo da guerra o instrumentů da religiào. mediterrâneos : « prometelhes (o principal) vitória contra seus inimigos. Na verdade. com acerto. A vítima realiza-se plenamente enquanto ser social na medida em que através delà se dá a passagem e a uniâo entre о que foi e о que esta por vir. Esta ao contrario é a morte que dará novo impulso à espiral interminável das vinganças. mas no de um meio para a restauraçâo da integridade de uma sociedade ferida pela morte de seus membros. além da memória da vingança. Aqui tampouco. Mas. mesma a gloria. nenhuma transcendência. Donde a cumplicidade. se dá рог inimigos interpostos. e que nâo aponta para o início dos tempos mas para seu fim. Florestan Fernandes já a havia pro vado magistralmente (1970 (1952)). a fama. Na verdade./ ils en firent un tel carnage et une telle boucherie que c'était une pitié non pareille de les entendre crier. na ausência de mecanismos internos de constituiçâo. a memória nâo é resgate de uma origem ou de uma identidade que о tempo corroeu. Compreende-se assim que o túmulo honrado entre todos sej a о estômago do inimigo. a vitima passa a ser objeto de uma rememoraçào e de uma projeçuo no futuro que nada parece ter de personalizado : rememoraçào e prospecçào das relaçôes devoradoras entre dois grupos inimigos. produzida pela vingança e apontando para a vingança. dos que věncem e dos que sâo abatidos em terreiro ? Quai é entâo o conteúdo dessa memória ? Nada. que deixou perplexos os cronistas. a memória dos mortos na guerra. posiçôes cerimoniais nâo.200 SOCIÉTÉ DES AMÉRICANISTES leurs ennemis mortels. a morte social : as outras sâo mortes naturais. Nesse sentido.. consciente da associaçâo entre memória e vingança. nâo no sentido que evocamos acima. de que ficará deles memória para os que após eles vierem cantar em seus louvores » (1971 (1587) : 320). em vez de nos perguntarmos o papel da vingança . о que se herda é uma promessa. seus contrários. a identidade dos inimigos que devem ser guerreados.. о renome. Apenas a memória da vingança. circulaçâo garantida pelo fato de que uma morte jamais quita morte anterior. о partilhar da gloria. Gabriel Soares de Sousa. Isto é. (Léry. Herda-se uma memória. sua ligaçâo com a sociedade parece-nos antes ser uma relaçâo fundante.

ou melhor. Nâo se trata. que ela se pensa a si mesma como constituida no tempo e pelo tempo. Os inimigos passam a ser indispensáveis para a continuidade do grupo. Dependente do que lhe é exterior. mas a persistência de uma relaçào com os inimigos. mas é mobilizada para a produçâo de um future A vingança é a herança deixada pelos antepassados. Com isso. um motor. e a memória do grupo (inserita nos nomes que se tomou.) A memória aparece portanto nâo como um fim em si mesma — lembrar os mortos — mas como um meio. Memória que nâo é. Nâo se trata de haver vingança porque as pessoas morrem e precisam ser resgatadas do fluxo destruidor do tempo . nos cantos e discursos em que se recapitulam quantos se matou e se comeu) é uma memória dos inimigos. mas memória cujo único conteúdo é a vingança de que a vitima é o resultado mas também о penhor. ela garante a existência do grupo que о dévora. P. de pensar uma sociedade primeira que a guerra se encarregaria de manter indivisa. nous ne mangeons pas la moitié de nos ennemis. A vingança é uma mnemotéenica. nâo combate contra a morte. » (Léry. Mas em ambos aspectos e para ambos os grupos. a do grupo a que pertence. que se pensam. nâo é о resgate da memória dos mortos do grupo que esta em jogo. e assim haver future Forma de pôr a morte a serviço da vida. e por isso abandonar a vingança é romper com o passado . memória e tempo se confundem. nas carnes tatuadas. para novas vinganças. 1957 /1578/ : 309. um Tupinambá comenta : « Je ne sais dorénavant ce qui se passera : depuis que Pay Cola (entendez Villegagnon) est venu par-deçà. os mortos do passado e os mortos por vir ou. a sociedade tupinambá existe no e através do inimigo. Cremos que é preciso inverter os termos : nâo se trata para os Tupinambá de negar ou transcender a morte para recolocar uma continuidade vivos-mortos que garantisse a permanência da sociedade : a vingança nâo é uma re-ligaçâo dos vivos com seus mortos ou uma recuperaçào de substância. о que dá no mesmo.VINGANÇA E TEMPORALIDADE 201 na sociedade. Vernant 1982 e 1983). Nada mais contrastante com essas sociedades Tupi que habitam о tempo do que as sociedades de lingua Je. o inimigo tornase о guardiâo da memória do grupo . Mas a vingança nào é outra coisa senâo um elo entre о que foi e о que sera. como vimos. imortalidade constituida pela fama entre os homens (J. como faz Pierre Clastres (1977). Reencontra-se aqui a cumplicidade evocada acima. os vivos pretéritos e os vivos futuros. trata-se de morrer para haver vingança. Trata-se ao contrario de perceber em que medida a vingança produz uma sociedade que nâo existe senâo por ela. séria necessârio procurar о que é uma sociedade fundada sobre a vingança. sob a espécie da espaciali- . Assim. Dizer que seu nexo é a vingança é portanto dizer da sociedade tupinambâ que ela existe na temporalidade. a imortalidade pessoal que о heroi grego alcança pela morte gloriosa. elas. a sociedade tupinambá faz da morte em terreiro e com devoraçâo a morte honrosa por excelência : é ela quem garante a memória. a vingança é o fio que une о passado e о futuro e nesse sentido vingança. Resumindo : о nexo da sociedade tupinambá é a vingança. mas é também e sobretudo nâo ter mais futuro : pressionado pelos franceses a vender em escravidào seus prisioneiros de guerra. enquanto penhor de novas vinganças. Enquanto resultado de vinganças anteriores.

talvez a leste. as metades se posicionam ontem como hoje. seu modo normal de produçâo . рог exemplo. tudo é lugar (M. Schultz 1954 : 155-6). da Cunha 1973 : 24). Melatti 1977). ligados as mulheres. é a conclusâo de um mito krahó (H. parecem querer rebater e encerrar о mundo passado. ele é apropriado de vários modos : о conceito de « estrangeiro » tem seu lugar alocado na estrutura cerimonial. J. . Os Timbira orientais. Os nomes se transmitem. as Utopias das sociedades tupi (que se pensam segundo о modo temporal) seriam dadas no espaço. C. assumen uma forma milenarista consistente com sociedades que se apresentam espaciais : seu advento é da ordem do evento. Confirmaçâo indireta desses dois modos de pensar a existência da sociedade — materializada no tempo ou substanciada no espaço — seriam as Utopias características dessas sociedades. H. esta pago já ! ». Crocker 1963. é preciso procurar a Terra sem Mal no espaço. e da batalha ao encerramento da vingança. Vidal 1977 : 239. рог exemplo. Em suma. tudo tem seu lugar. e Tupis e Guaranis perambulam à sua procura. da Cunha 1978 : 23. « Confirmaçâo nos ódios » entre os Tupinambá. Azanha 1984 : 44) sâo membros da propria aldeia. como um evento a ser esperado no tempo. as relaçôes com os inimigos. Se para os Tupinambá. o chefe honorário dos Apinayé na aldeia Krahó sera um Krahó. iniciada e terminada sem necessária referência ao passado e ao futuro. cancelam-se as relaçôes com esses inimigos pela simples apropriaçâo de seus cantos ou de seus rituals. entre vários grupos de lingua Je. talvez a oeste. Sâo inversos de embaixadores. 35 ss. de Castro 1984). corresponde entre os tupi-guaranis uma forma « tópica » : nâo se espéra o advento da Terra sem Mal sob a forma. já que é о nome dado a um dos grupos de praça (C. a vingança é aqui prontamente cancelada. 251. présente. Como nos Tupi. futuro.202 SOCIÉTÉ DES AMÉRICANISTES dade e da reiteraçuo. monstro demoníaco ou animal). organizam-se segundo um esquema simples que vai do encontro à batalha. na medida em que sào externos aos grupos que representam. diriamos até. Os chefes honorários que « representam » outros grupos étnicos (vide G. mas diferentemente dos Tupi. Schultz 1954 : 156). о que séria negar a evidência. Nesse espaço. no espaço circunscrito da aldeia. é sim que uma batalha é sempře uma nova empresa.) e esse lugar imutável exorciza о tempo. as histórias sobre gente estranha (que pode ser tambám uma espécie estranha. a vingança é propriamente interminável. as Utopias das sociedades je (que se pensam segundo о modo espacial) seriam dadas no tempo. Quanto aos messianismos je conhecidos (W. Inconclusa por definiçâo entre os Tupinambá. С. Nimuendaju 1946). Mas sâo eles que fazem da aldeia o microcosmo que ela é : introjetam na aldeia a totalidade do mundo exterior (M. esse é о esquema clássico do mito de origem de uma cantiga ou de um rituál novo (E. do « milênio ». 241. Entre Xikrin e Krahó. 253 . eventualmente através de um massacre definitivo (ao quai os Tupinambá nào parecem ter recorrido) (L. nestas sociedades. para nos familiar. sâo ao contrario pensadas como algo que clama por conclusâo. Quanto ao exterior. a guerra Je prevê ao contrario uma quitaçâo : « Esta bem. distinguidos para marcar (ao mesmo tempo que abrigar) os de fora : ou seja. С. como o chefe honorário krahó no Rio de Janeiro sera um carioca. tempo que é. os segmentos residenciais permanecem. A forma « crônica » das Utopias je. О que queremos dizer com isto nâo é que os grupos Je nâo tenham sido guerreiros. V.

Estas sociedades nâo se contentam com a afirmaçâo de um laço metonimico ininterrupto (à moda linhageira) com a ancestralidade. Haveria que introduzir ai. no ritual xamanístico.Jones 1979). trata-se de saber se o esvaziamento ou neutralizaçâo da dimensâo temporal. de um futuro e nâo de um passado. a questâo de se determinarem os eixos e principios pelos quais se assegura a continuidade social passa a ser fundamental. a memória estará a serviço de um destino. por exemplo. O intento espresso no mito. com um passado a ser recuperado. é a aboliçâo do hiato temporal entre о présente e uma origem. Sociedades-ioiôs. sob a forma da conjuraçâo. Toda a cosmologia destes povos parece fundada numa luta contra a entropia. de modo imediato. é de outra ordem que para os Jê-Bororo : há uma aparência de aceitaçâo do tempo. Elas sugerem. a relaçâo com о tempo se dá. em troca de um privilégio concedido à espacialidade. e a exclusâo da temporalidade se manifestaria. aqui. Em outras palavras. a cada duas geraçôes. é a propria temporalidade que se torna retorno do Mesmo. as transporta as origens — elas mesmas concebidas (mas aqui trata-se de metafora) sob a espécie de uma alternância geracional ciclica e de um afastamento face a um começo espaciotemporal absoluto (C.VINGANÇA E TEMPORALIDADE 203 О contraste dos Tupinambá com certos grupos Je nâo quer ser uma tipologia : tem рог única funçâo ressaltar certas caracteristicas daquelas sociedades que vinhamos sugerindo. Sinteses récentes pareceriam militar em favor de tal interpretaçâo. retrospecçâo. Já nos Tupi. basta para dar conta dos modos de continuidade social sul-americanos. é de fato um invariante cosmo-sociologico forte na America indigena. e tampouco quer esgotar os contrastes possiveis. A afinidade — a aliança matrimonial e politica — séria um referente central desse conceito de diferença . reproduçâo. ademais. nem . mascaramento) ou de domesticaçào (interiorizaçâo) da diferença. para os numerosos povos da America indigena onde nâo vigoram nem as formaçôes politicas centralizadas. ou melhor. récusa de um devir histórico (como resume LéviStrauss 1973 : 375-6) — se essa imagem. A reiteraçào. Nestes. nas cerimônias do « Jurupari ». Nelas. trama social interna elaborada. o caso dos povos do Vaupés-Negro. о sentido da memória se aproxima bem mais da aletheia grega : a memória é retorno. sempře posta em risco. na « escala temporal restrita » em que se movem as sociedades do continente. nâo de uma origem. mas se reasseguram de sua propria identidade através de um curto-circuito que. que nâo se desprendem de seu momento iniciál. A reiteraçâo se faz aqui no elemento da temporalidade. na afirmaçâo de uma identidade. conquanto instigante e nâo-trivial. mas que nâo passa de aparência. literalmente. Afinidade problematizada ou mascarada : descendência neutralizada pela amnésia genealógica e por um tempo sem espessura : como se vê. III О problema etnológico gérai que nos intéressa é о de saber se a clássica representaçâo da sociedade primitiva como « sociedade fria ». Hugh. que esse esvaziamento da temporalidade vai de par com uma atitude de denegaçào (expulsâo. tipo onde se acham associados très traços cruciais — pequena abertura para о exterior.

da de Hegel. Se todas as sociedades têm portanto história. nem as formas canônicas da aliança matrimonial perpétua e totalizante. e é disto que Lévi-Strauss esta falando. e a mesma questâo de fundo. о importante é que essas sociedades sào récalcitrantes ao evento : nelas. caçadores de cabeça filipinos. О que sugerimos é que estas formas « frias » nâo só nâo esgotam о campo das sociedades primitivas (termo vago. o que équivale a dizer. Ora. Talvec. e о estruturalismo nas sociedades de tipo reiterativo. para dar conta de sociedades cognáticas e « nâo-reiterativas » (vide ainda Rosaldo. que torna tudo outro 9 ? Nào nos parece que assim sej a. Se recusamos para os Tupinambá o qualificativo de « sociedade fria ». Queremos assim por em causa a associaçâo que costumeiramente se faz entre sociedades primitivas e sociedades « frias » ou « estagnantes ». que sociedades históricas sâo as que têm consciência de sua história e lhe conferem um papel central na sua auto-inteligibilidade : formulaçâo nâo tâo diferente. trata-se de saber se esta guerra é um dispositivo de « perseveraçâo no próprio ser » da sociedade em causa : se é uma luta contra о devir e a diferença. em que о acontecimento passa a ser elemento de um debate que se réfère ao passado para antecipar sobre o futuro. nesse sentido. afinal. os grupos da bacia do Vaupés-Negro. Talvez о recorte possa ser outro : se o funcionalismo encontrou seu terreno de predileçâo — embora nâo seus limites — nas sociedades de linhagens. 1980). a história foi reintroduzida.204 SOCIÉTÉ DES AMÉRICANISTES os « paradigmas africanos » da unilinearidade corporada. contra a quai Lefort se insurge. e nâo cremos que fortuitamente. Dumont 1966). ou ainda que atribuem a um viés teórico acoplado a uma miopia metodológica (a limitaçâo a estudos « sincrônicos ») a representaçâo de um tipo de sociedade fria. Vimos que dificilmente os fatos Tupinambá se inserem ai : dificilmente podem ser postos em continuidade. que recusam ativamente a dimensâo da temporalidade e que se concebem como fora de qualquer História. Por impotência ou por opçâo. note-se. E em ultima análise. as sociedades do escudo da Guiana.g. о mesmo desconforto face à diferença. Quanto a isso da « perseveraçâo no próprio ser » — célèbre mote spinozista evocado por Lévi-Strauss e ecoado por P. ao contrario. introduzidos no grupo de transformaçôes que eventualmente conferiria uma inteligibilidade comum a formas sociais tào diversas como os povos Jê-Bororo do Brasil Central. em prol de um Mesmo temporal e identitário. Sociedades quentes ou históricas. о caso da India (L. e com о tempo. é certo) como tampouco Ihes sâo exclusivas — e. Pois nào é menos indubitável que existem estruturas sociais e atitudes cosmológicas. a história nào sej a mais do que a forma de consciência de si mesmas de tais sociedades. nem todas sào históricas. nào nos inscrevemos entretanto entre aqueles que martelam o óbvio e dizem que toda a sociedade « esta na história » . о acontecimento é digerido sem que se converta em questâo. nos termos de Lefort em que estamos agora discutindo (1978) seriam aquelas. assim nâo é. A guerra Tupinambá é о problema. na medida em que todas sào fruto de transformaçôes. Teriamos em nosso caso о mesmo recalque do tempo. Clastres — dá-se . diversamente solucionade : о que fazer com os outros. Rosaldo (1980) a propósito do caso dos Ilongot. das quais o conjunto JêBororo é о locus classicus. como recentemente R.

o alhures e о além : para a morte como positividade necessária. como memória dos inimigos. e na costa oriental do Brasil até o Rio de Janeiro. seu sucessor. escrevia Nóbrega nào era respeitada. o etnônimo que maior fama alcançou. 2. mas uma técnica singular : processo de circulaçâo perpétua da memória entre os grupos inimigos. classificaçâo e origem). perseverar. cara tanto á Florestan Fernandes (1970) como á Pierre Clastres (1977) parece-nos errar no essencial. É abertura para o alheio. ela nâo é « funcional » para a autonomia (o equilíbrio. é ao contrario uma máquina de tempo. um modo de fabricaçâo do future NOTAS 1. mas da ordem da criaçâo e da produçâo : é instituinte. nào é chamada : « só destes se nào fez caso. que a memória aparecerá como о meio e о lugar por excelência de efetuaçâo do social. abrangendo todos os grupos de lingua Tupi da costa. A memória tupinambá é memória da vingança : a vingança é a forma e o conteúdo dessa memória. que nuo existe. vindo a constituir a forma tupinambá integralmente nessa dimensâo. no Maranhâo. a rigor. A guerra tupinambá nâo se presta a uma reduçâo instrumentalista. Tupinambá. Piratininga. Bahia. Mem de Sá. reûnem-se muitas aldeias para a guerra. É por isso. Ele sera usado aqui em sentido lato. ela se define. e em particular os Tupiniquins. invertem a relaçâo meios/fins — se tal relaçâo tem algum sentido. é quem impôe aos indios da Bahia. assim. longe de remeter àquelas máquinas de suprimir о tempo que povoam a fábrica social primitiva (mito e rito. por essa subordinaçâo da espacialidade à temporalidade na morfogênese tupinambá. portanto. É. E foi assim que Florestan precisou reduzir a guerra a peça de um inexistente culto de ancestrais. habitada por neófitos cristâos. Ambos os autores. nâo é retorno a uma Origem. a « reproduçào ») da sociedade. CPJB II : 450). como substância anteposta que se valesse do instrumento da guerra para se refletir e. E assim. 3. nào instituida ou reconstituinte. A guerra de vingança tupinambá é uma técnica da memória. Por isso a noçâo de uma « funçâo sociológica da guerra ». esforço de restauraçâo de um Ser contra os assaltos corrosivos de um Devir exterior. em vários sentidos. movida a tempo e produtora de tempo. totem e linhagem. Quando o soube o principal . enfim. e que Clastres expulsou os Tupis do paraiso primitivo : essa guerra era excessiva dentro do universo morno das funçôes e da regulaçâo social. 8 de maio de 1558. mas sua autoridade. Em inicio de 1555. Nâo é da ordem de uma recuperaçâo e de uma « reproduçâo » social. Duarte da Costa havia feito da antropofagia crime passivel de morte. recobria uma quantidade de grupos locais no Amazonas. о abandono do canibalismo (HCJB II : 39-41) e reserva para si o poder de autorizar guerras entre grupos indígenas (Nóbrega. a partir de 1558. antes ou fora da memoria-vingança. Ou mais que um meio-a memória é о social tupinambá. como se já nâo fossem homens senâo mulheres. em um caso onde guerra e sociedade sâo coextensivas. autonomia essa que séria o telos da sociedade primitiva.VINGANÇA E TEMPORALIDADE 205 que a vingança tupinambá. E portanto nâo se inscreve entre as figuras da reminiscência e da aletheia. é a perseveraçâo da forma que se pôe como instrumental para a vingança : a sociedade é um meio para fins guerreiros. por nos obedecerem a nos e quererem adotar os nossos costumes.

com tornáda de nome (Cardim 1980 : 26). é trazida para о terreiro e paramentada « como um prisioneiro que irá ser comido ». ser morta em terreiro. 4. de braço. terei muitos amigos que saberào vingar-me » (H. que sabia do que estava falando : (Diz о matador). que procuram esboçar generalizaçôes comparativas sobre as estruturas sociais e cosmológicas sul-americanas. a onça podia. e como tais devem ser entendidos. Leonardo do Vale. na medida em que se devoravam cunhados. mas a mâe responde « qu'elle espérait que. mas a paráfrase nâo deixa de ser excessiva : um canhào para um tico-tico. re retemando о velho nome e sacudindo о de Martim Affonso. HCJB 1937-1949... descritos em termos semelhantes por vários cronistas. Léry havia resgatado uma mulher e seu filho. Cartas éd. pois tua gente também matou e comeu muitos dos meus amigos ». Staden 1974 (1556) : 182. « Pedaço de mim ». 1984) e de Peter Rivière (1984). Veja-se Staden. Manifesta sua intençâo de levar о menino para a França. prisioneiros dos Tupinambá. Rio de Janeiro. 1954. de dente. em 1562. como um inimigo. protetor dos jesuítas e de Martim Affonso de Souza que lhe deu seu nome cristào).) 5. devenu grand. Serafim 3 vols. em 1563. il pourrait s'échapper et se retirer avec des Margaias pour se venger. 7. aqui estou eu. consistente com a indiferenciaçào interna do corpo social tupinambá. depois de morta a onça presa na armadilha. parte a cabeça de um contrario ao defender os padres de um ataque inimigo a Piratininga (Anchieta. Os dois chefes inimigos chamam-se mutuamente de esposa.) Cartas dos Primeiros Jesuítas do Brasil. Estes diálogos. Sâo Paulo. Pede-se-lhe que desculpe uma morte que nào foi realmente intencional. quero matar-te. « Sim. » (Léry. E é com évidente prazer que. as sociedades mais bem estudadas da America tropical.. se dispôe a matar um prisioneiro « à moda gentilica » diante dos próprios catecûmenos. Responde-lhe о prisioneiro : « Quando estiver morto.. Cardim (1980 : 99). Viotti : 9192).. diríamos. 6. parece-nos um tanto abusive Decerto « os Tupi eram gente muito complicada » (H. Discurso do esquecimento que éo avesso do discurso da vingança e que acompanha uma abstençâo significativa : a onça nâo é devorada. Imprensa Nacionál. que a esqueça e a nào queira vingar sobre os homens. Ver os trabalhos de Joanna Overing Kaplan (1981. deu mostras de brilhar nele a admira vel graça de Deus. A onça ocupa no sistema Tupinambá uma posiçào singular.206 SOCIÉTÉ DES AMÉRICANISTES desta aldeia (trata-se de Martim Affonso Tibiriça. partindo de niveis estratêgicos diferentes. 9. » Et Léry commente : « Cette nation a la vengeance enracinée au cœur. Há ai a ideia de um corpo ûnico. Cartas éd. Clastres 1972 : 82). seriam provavelmente esterótipos rituais. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Fontes primárias Abreviaçôes. Endereça-se entâo à onça um discurso que é о in verso do diálogo do cativo. Mas um trecho de Thevet (1953 (1575) : 156) conta como. Ver também A. (CPJB III : 478). » (Anchieta. A associaçâo entre vingança perpetuada e devoraçào parece ser corroborada pelos relatos de morte de onças. em março já tem de amargar a « inconstância » de Tibiriça que.. CPJB 4° Centenário. ibidem : 191-192). . e que para tanto enfrenta os padres a brados (Anchieta. 8. . 1). O único ritual de conclusào de paz entre dois grupos inimigos é relatado pelo Pe. Tibiriça. Viotti : 101).) Historia da companhia de Jesus no Brasil. como quer Hélène Clastres (1975 : 58 e n. Serafim Leite (org. Que a preservaçào da guerra e da antropofagia no discurso profético seja uma paráfrase da negaçào da aliança. Contou-nos isso о nosso principal sem lhe dar maior atençâo. e lançando mào do mesmo universo comparativo : os Jê-Bororo e os Tukano. Caribes). Leite (org. Se em Janeiro Anchieta se félicita da indiferença do principal a essa afronta. Thevet 1953 (1575) : 280 e F. com a ibirapema numa mào e a bandeira cristà na outra. Diz Jácome Monteiro que se pensava que houvesse sido gente em outros tempos (1949 (1610) : 418) e é famosa a frase de Cunhambebe : « eu sou uma onça ». 1957 /1578/ : 309. mas de uma mesma perspectiva etnográfica (Guiana : Piaroa.

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