5 de Outubro de 1910

ANTECEDENTES

1910 A monarquia está refém das questiúnculas dos partidos, da rápida sucessão de governos e dos escândalos em que se afundam os seus dirigentes e a Corte. Os republicanos alargam a sua influência. A Maçonaria e a Carbonária preparam o derrube do regime: “O único herdeiro do trono é o Povo”. Terça-feira, 1 de Fevereiro de 1910
Guardas municipais armados vigiam uma urna de voto nas eleições de 5 de Abril de 1908, em que os republicanos alcançaram a vitória em mais de 70% das freguesias da cidade de Lisboa. As eleições foram acompanhadas em Lisboa por violentos confrontos entre a guarda municipal e manifestantes republicanos, que reclamavam a fiscalização das urnas eleitorais, registando-se 14 mortos.

Gravura alusiva à proclamação da República, no Porto, aquando da abortada revolta republicana de 31 de Janeiro de 1891.

Representação do fabrico de uma bomba artesanal.

Como habitualmente, muita gente dirige-se às campas dos regicidas, depondo flores e prestando homenagem aos que haviam atentado contra a vida da família real dois anos antes. Março-Abril de 1910 Afonso Costa levanta no Parlamento a questão Hinton, relacionada com a indemnização de 673.000 libras pedida por um súbdito inglês que obtivera o estabelecimento, em 1903, na Madeira, de um verdadeiro monopólio de transformação do açúcar em álcool. O governo tenta impedir a discussão, registando-se diversas sessões tumultuosas no Parlamento. Afonso Costa apresenta cartas comprometedoras de D. Fernando de Serpa, ajudante de campo de D. Carlos e de D. Manuel e comandante do iate real “Amélia”, O rei acaba por encerrar o Parlamento, colocando as tropas de prevenção, enquanto o juíz de Instrução enche as prisões de suspeitos de pertencerem à Carbonária.

Representação, de autor anónimo, do regicídio, vendo-se, em primeiro plano, as efígies de Manuel Buiça e Alfredo Costa.

Romagem às campas dos regicídas (Alfredo Costa e Manuel Buiça) no cemitério do Alto de S. João.

Dr. Francisco Maria da Veiga, “O Juiz Veiga”, primeiro juiz de instrução criminal. Reprodução de uma capa da <<Ilustração Portuguesa”, de 2 de Dezembro de 1907, da autoria de Rafael Bordalo Pinheiro.

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5 de Outubro de 1910
A PROPAGANDA

Sexta-feira, 29 de Abril de 1910 Realiza-se, no Porto, nos dias 29 e 30 de Abril, o 11º congresso anual do Partido Republicano, tendo como pano de fundo os preparativos revolucionários em marcha para a implantação da República, elegendo mesmo uma comissão para sondar os governos das principais potências europeias sobre a matéria. Junho-Julho de 1910
A manifestação promovida pela Junta Liberal descendo a Rua do Alecrim, Agosto de 1909 (Fotografia Joshua Benoliel). O padre Matos e o jornal católico ultramontano “Portugal”. Reprodução de um postal satírico de propaganda republicana.

A missão eleita no Congresso do Partido Republicano do Porto, desloca-se a Paris e Londres. Dela fizeram parte José Relvas, Alves da Veiga (apenas a Paris) e Sebastião de Magalhães Lima. Sábado, 7 de Maio de 1910 D. Manuel II parte para Londres para assistir aos funerais do rei Eduardo VII. Sábado, 4 de Junho de 1910 Reúne-se a assembleia geral dos accionistas do Crédito Predial, cuja falência fora anunciada a 1 de Maio. A polícia impede a entrada a uma multidão de mais de 1.000 pequenos obrigacionistas, levados à miséria por esta falência. O governo Veiga Beirão é arrastado no escândalo, que envolve alguns dos nomes mais sonantes da política, da magistratura e das finanças destes últimos tempos da monarquia.

Reprodução de um cartaz de propaganda republicana para as eleições legislativas de Agosto de 1910.

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5 de Outubro de 1910
A DECISÃO

Terça-feira, 14 de Junho de 1910 Reúne-se no Grémio Lusitano o “Povo Maçónico” de Lisboa para “resolver tudo o que tivesse por conveniente com respeito às leis de excepção que têm levado alguns dos nosso Irmãos a serem perseguidos e nomeadamente dos decretos e leis respeitantes ao Juízo de Instrucção Criminal.” “Com grande entusiasmo e por unanimidade”, a assembleia aprovou uma proposta que delega no Grão-Mestre a nomeação de cinco maçons para constituírem uma “Comissão de Resistência”, com plenos poderes para “velar pela segurança dos Irmãos, defender a maçonaria dos ataques da reacção política e religiosa, guiando o trabalho dos Obreiros no mundo profano no interesse superior da Pátria e da segurança dos cidadãos”. A 5 de Agosto, por convocatória de José de Castro, Grão-Mestre Adjunto da Maçonaria, reúnemse no Palácio Maçónico, “todos os Veneráveis Mestres, ou seus delegados, das Oficinas do Vale de Lisboa”. Domingo, 26 de Junho de 1910 Teixeira de Sousa, que, nos finais do ano anterior, sucedera a Júlio de Vilhena na direcção do Partido Regenerador, forma um novo governo, após a arrastada crise em que mergulhara o anterior governo de Veiga Beirão, maioritariamente progressista, levado com a falência do Crédito Predial.

Convocatória de José de Castro, Grão-Mestre Adjunto do Grande Oriente Lusitano Unido, de 3 de Agosto, para que se reunam no Palácio Maçónico “todos os Veneráveis Mestres” de Lisboa, para assunto que se prende “com a reunião plenária que se realizou em 14 de Junho último”.

Primeira página da circular sobre a criação pela Maçonaria, em 14 de Junho de 1910, da “Comissão de Resistência”.

Símbolo da Loja maçónica “Montanha”. Credencial de Cândido dos Reis (com o nome simbólico de Marceau) como inspector da Carbonária Portuguesa.

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5 de Outubro de 1910
PREPARATIVOS

Sábado, 2 de Julho de 1910 Sebastião de Magalhães Lima, Grão-Mestre da Maçonaria, regressado de Londres, onde estivera em missão exploratória relacionada com a eventual implantação da República em Portugal, escreve de Paris uma carta a Simões Raposo, então professor na Casa Pia, em que lhe comunica que o resultado das suas diligências em Inglaterra “foi admirável”. Interroga-se, no entanto, para que servem “todas estas diligências e toda esta despesa, se aí não correspondem”. Quinta-feira, 14 de Julho de 1910
Fotografia de Sebastião de Magalhães Lima, envergando insígnias de Grão-Mestre da Maçonaria.

Telegrama cifrado dirigido por João de Deus Ramos ao padre Elísio Campos, comunicando que Guerra Junqueiro e Sampaio Bruno já concluíram os trabalhos de redacção da Proclamação de implantação da República.

O padre Elísio Campos recebe nas “Escolas Móveis” um telegrama do seguinte teor: “Sim vou rápido tarde = João”. Com esta mensagem, João de Deus Ramos comunica que Guerra Junqueiro e Sampaio Bruno já concluíram a redacção da Proclamação de implantação da República. Quinta-feira, 14 de Julho de 1910 Cândido dos Reis, Machado Santos, José Afonso Pala e o capitão de fragata Fontes Pereira de Melo reúnem-se para decidir uma eventual “vinda da Revolução para a rua”, mas adiam o movimento, que esteve marcado para o dia 16 de Julho. Entretanto, a Comissão de Resistência da Maçonaria organizou um novo plano para a acção civil, que foi sancionado pelo Directório do Partido Republicano, faltando apenas marcar a data.

Carta de Sebastião Magalhães Lima para Simões Raposo, datada de Paris, 2 de Setembro de 1910.

Primeira página da “Proclamação” redigida por Guerra Junqueiro e Sampaio Bruno.

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5 de Outubro de 1910
A SITUAÇÃO

Quarta-feira, 20 de Julho de 1910 Uma greve dos tecelões alastrou a todo o Vale do Ave, lutando por reivindicações salariais e de horários. Domingo, 7 de Agosto de 1910 Realiza-se em Lisboa um grande comício republicano. Domingo, 28 de Agosto de 1910 Após a dissolução da Câmara dos Deputados, realizaram-se as eleições legislativas, de que resultou a eleição de 87 deputados regeneradores (ortodoxos), 23 progressistas, 14 republicanos, 8 regeneradores dissidentes, 5 franquistas, 3 nacionalistas e 3 governamentais. Quarta-feira, 31 de Agosto de 1910
Bilhete de Miguel Bombarda para Simões Raposo, 31 de Agosto de 1910.

Os candidatos à vereação municipal no comício realizado na antiga Avenida D. Amélia, distinguindo-se, entre outros: Ventura Terra, Cunha e Costa, Aurélio da Costa Ferreira, Alberto Marques, Miranda do Vale e Tomás Carreira (Fotografia Joshua Benoliel).

Miguel Bombarda escreve a Simões Raposo um bilhete cifrado em que lhe comunica que se vai ausentar para Abrantes e, por isso, lhe pede toda a “diligência para tratarmos do negócio dos exames na 6.ª feira”. Setembro de 1910 Cresce o movimento grevista, que gira designadamente em torno dos operários corticeiros da margem Sul do Tejo e dos trabalhadores da cortiça do Alentejo e do Algarve.

Feio Terenas, Teófilo Braga, Agostinho Fortes e Bernardino Machado num comício de propaganda republicana.

Aspecto de uma fábrica têxtil da época.

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5 de Outubro de 1910
PROTAGONISTAS

Sábado, 10 de Setembro de 1910 O governo ordenou um inquérito à residência da Companhia de Jesus no Quelhas, para verificar se estava em conformidade com o decreto de 18 de Abril de 1901. Segunda-feira, 12 de Setembro de 1910 O governo, ao abrigo da legislação de 1901 sobre as congregações, determina a dissolução da comunidade religiosa de Aldeia da Ponte, no concelho de Sabugal.
Brito Camacho João Chagas Afonso Costa Anselmo Braancamp Freire Guerra Junqueiro

António José de Almeida

Miguel Bombarda

Alexandre Braga

Teófilo Braga

Sampaio Bruno

Sexta-feira, 23 de Setembro de 1910 Na abertura das Cortes, o rei lê o seu último discurso da Coroa, em que sublinha os “princípios acentuadamente liberais, como convém a uma monarquia democrática” e anuncia a reforma de artigos da Carta Constitucional, a reorganização da Câmara dos Pares e a reforma do Código Administrativo”. As Cortes são seguidamente adiadas. Terça-feira, 27 de Setembro de 1910 Realizam-se no Buçaco as comemorações da vitória anglo-lusa sobre as forças francesas em 1810. Foi organizada uma parada militar e D. Manuel II recebeu demonstrações de lealdade. Esteve presente o duque de Wellington, em representação do seu antepassado.

Bernardino Machado

Ana de Castro Osório

Afonso Pala

Consiglieri Pedroso

Simões Raposo

Cândido dos Reis

José Relvas

Heliodoro Salgado

Machado Santos

Angelina Vidal

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5 de Outubro de 1910
ORDEM GERAL

Quinta-feira, 29 de Setembro de 1910 Na sede do Directório do Partido Republicano Português reúnem alguns dos mais importantes conspiradores do Partido Republicano, da Maçonaria e da Carbonária: Simões Raposo, Machado Santos, José Cordeiro Júnior, António Maria da Silva, José Barbosa, Inocêncio Camacho, Cândido dos Reis, Manuel Martins Cardoso, Eusébio Leão, José Relvas e Miguel Bombarda – esta reunião terá representado o momento decisivo do arranque do movimento revolucionário. Sábado, 1 de Outubro de 1910 O Presidente eleito do Brasil, Marechal Hermes Rodrigues da Fonseca, chega a Lisboa. Domingo, 2 de Outubro de 1910 Realiza-se uma nova reunião, em que é definitivamente marcada a eclosão do movimento revolucionário para a 1 hora da manhã do dia 4. Machado Santos entrega a um marinheiro do “Adamastor” as bandeiras republicanas que deveriam ser hasteadas nos navios revoltosos. Domingo, 2 de Outubro de 1910 A Comissão de Resistência aprova a Ordem Geral do Comité Civil com instruções para a actuação dos grupos civis revolucionários, que foi distribuída com o símbolo da Venda Jovem Portugal da Carbonária Portuguesa.

Teixeira de Sousa, Presidente do último Ministério da Monarquia, recebe no Arsenal de Marinha, a 1 de Outubro de 1910, o Presidente eleito do Brasil, Marechal Hermes da Fonseca, que partirá já com a República implantada.

Esquema da reunião de 29 de Setembro de 1910 (excerto), com identificação dos participantes.

Avental do grau 18 do Rito Escocês Antigo e Aceito - Soberano Príncipe Rosa Cruz, pintado sobre seda.

Sala de Visitas do Dr. José de Castro, onde reuniu pela primeira vez a Comissão de Resistência da Maçonaria.

Ordem Geral do Comité Civil (Carbonária Portuguesa), com instruções para actuação dos grupos revolucionários civis.

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5 de Outubro de 1910
3 de Outubro

Segunda-feira, 3 de Outubro de 1910 «O Dr. Miguel Bombarda foi alvejado a tiros de revólver por um louco que hoje o procurou em Rilhafoles, tendo recolhido ao Hospital de S. José em estado grave. O povo de Lisboa está convencido de que o assassínio foi obra dos clericais» - assim foi anunciado o homicídio do famoso médico alienista e dirigente republicano. Registaram-se incidentes na Baixa, em que populares, soldados e marinheiros perseguiram e tentaram agredir alguns padres. O jantar no Palácio de Belém, que o Presidente do Brasil, Hermes da Fonseca, oferecia nessa noite ao rei, foi apressado sob a suspeita de que a revolução ia rebentar... Reunião da Rua da Esperança No 3.º andar do n.º 106 da Rua da Esperança, tem lugar uma reunião plenária dos principais implicados militares. O almirante Cândido dos Reis afronta o parecer geral negativo dos elementos militares e faz prevalecer a decisão de avançar para a insurreição. Neste mesmo dia, Cândido dos Reis transmite a Machado Santos e aos restantes chefes militares a senha da revolução: “Mandoume procurar? - Passe cidadão!” Machado Santos prepara assalto a Infantaria 16 Às 8 da noite, Machado Santos reúne no jardim de Campo de Ourique com as praças do regimento de Infantaria 16, combinando os detalhes do assalto ao quartel. Encontra-se depois com sargentos de marinha e passa pelo Grémio Lusitano (sede da Maçonaria). Segue para o Centro Republicano de Santa Isabel, em Campo de Ourique, onde enverga a farda de gala e prepara a tomada do quartel.

Fotografia do gabinete do Dr. Miguel Bombarda no Hospital de Rilhafoles, tal como ficou depois do seu assassinato pelo tenente Rebelo, antigo aluno dos colégios da Companhia de Jesus, distinguindo-se, do lado esquerdo da imagem, a pistola com que foi morto.

“Três Varões Assinalados”, Luz de Almeida, Machado Santos e António Maria da Silva. Desenho de Francisco Valença, publicado em Novembro de 1910 no jornal de caricaturas “Varões Assinalados”.

Transportado para o Hospital de S. José, Miguel Bombarda foi operado, “depois de ter mandado queimar à vista uma carta que trazia na carteira” e falado com Brito Camacho, mas não resistiu à operação, entrou em coma e faleceu cerca das 6 da tarde.

No 3º andar do nº 106 da Rua da Esperança, prédio da mãe de Inocêncio Camacho, tem lugar a última reunião dos principais implicados militares e de alguns dirigentes civis. O almirante Cândido dos Reis faz prevalecer a decisão de avançar para a insurreição, apesar da prevenção das tropas ordenada pelo governo.

No dia 2, Cândido dos Reis reúne com oficiais da Marinha no escritório de Eusébio Leão. Aí comunica a Machado Santos que “a revolução viria para a rua à uma hora da madrugada do dia 4”. Nessa noite, após reunião da Comissão de Resistência, Machado Santos entrega a um marinheiro do “Adamastor” as bandeiras republicanas que deverão ser hasteadas nos navios revoltosos (vermelha junto ao mastro e a parte maior verde, com esfera armilar de ouro sobre fundo azul, encimada por uma estrela de cinco pontas em prata com resplendor de ouro, similar à utilizada no símbolo da Carbonária Portuguesa).

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5 de Outubro de 1910
PASSE, CIDADÃO!

Segunda-feira, 3 de Outubro de 1910 Na noite de 3 para 4 de Outubro, o estado-maior da revolta republicana reúne-se nos Banhos de S. Paulo. Para aí convergem, designadamente, José Relvas, Eusébio Leão, Inocêncio Camacho, Afonso Costa, José Barbosa, António José de Almeida, João Chagas, Ricardo Durão, Celestino Stefanina, Malva do Vale, Marinha de Campos, Soares Guedes e Alfredo Leal. Conferência de Magalhães Lima em Paris Sebastião de Magalhães Lima realiza em Paris, nos salões do café Globe, uma conferência sobre Portugal republicano. Passada a escrito foi enviada a vários jornais e revistas internacionais, afirmando que “a monarquia cai por si própria”.
Elementos da “Barraca Buiça” (Carbonária) que participaram no ataque ao Museu de Artilharia, de onde recolheram armamento. Caricatura de Sebastião de Magalhães Lima, Grão-Mestre da Maçonaria, da autoria de Alfredo Cândido.

Civis que participaram no assalto ao quartel de Artilharia 1, na noite de 3 de Outubro de 1910.

Terça-feira, 4 de Outubro de 1910 Às 00.45 horas, civis armados, comandados por Machado Santos, saem do Centro Republicano de Santa Isabel, em Campo de Ourique, e tomam o quartel de Infantaria 16. Dominado este, a coluna revoltosa, composta por cerca de 200 homens, dirige-se para Artilharia 1, em Campolide. Apesar da resistência de alguns militares, os insurrectos republicanos assaltam os paióis e apoderaram-se de armamento pesado. Entretanto, é também dominado por militares e civis o Quartel de Marinheiros, em Alcântara. A Guarda Municipal tenta controlar os acontecimentos mas não consegue impedir que a coluna saída de Artilharia 1 se dirija para a Rotunda.

Esquema feito a partir do mapa de Lisboa (editado pelo jornal “O Século”) utilizado para preparar o movimento revolucionário.

Fachada do Centro Republicano de Santa Isabel, em Campo de Ourique, de onde sairam os revoltosos que tomaram Infantaria 16.

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5 de Outubro de 1910
A ROTUNDA

Barricadas na Rotunda, ao cimo da Avenida da Liberdade (Fotografia Joshua Benoliel).

Barricadas improvisadas na Rotunda (Fotografia Joshua Benoliel).

Forças revolucionárias no acampamento da Rotunda (Fotografia Joshua Benoliel).

Grupo de militares e populares armados, na Rotunda, posando com uma bandeira com a inscrição “Carbonária Portuguesa/Justiça e Liberdade” (Fotografia de J.J. Ferreira, oferecida a Bernardino Machado).

Ordem manuscrita enviada do quartel dos marinheiros, em Alcântara, para o cruzador Adamastor: “Tome posição conveniente e bombardeie imediatamente Palácio Necessidades. Nós ficamos aguardando chegada das tropas revolucionárias que estão a Este e mantemos reducto quartel. Cuidado com pontarias.”Assinada por António Ladislau Parreira, José Carlos da Maia e José Mendes Cabeçadas. Esta ordem fez com que os navios revoltosos tomassem posição frente a Alcântara e iniciassem o bombardeamento do palácio real, levando á fuga do rei.

Suicídio de Cândido dos Reis O almirante Cândido dos Reis suicida-se na madrugada do dia 4 de Outubro, após ter considerado perdida a revolução, de que era o principal responsável militar e cujos primeiros tiros já se ouviam. Vem a aparecer morto na Azinhaga das Freiras. Suicídio ou, como se suspeitou, assassínio? O certo é que, vencido Cândido dos Reis, só Machado Santos se manterá firme na Rotunda. Bombardear o Palácio das Necessidades Os revoltosos que se haviam apoderado do Quartel dos Marinheiros, em Alcântara, enviam uma ordem manuscrita para o cruzador “Adamastor”, já sob o comando do tenente Cabeçadas: “Tome posição conveniente e bombardeie imediatamente Palácio Necessidades. Nós ficamos aguardando chegada das tropas revolucionárias que estão a Este e mantemos reducto quartel. Cuidado com pontarias”. Forças revoltosas concentram-se na Rotunda Elementos civis armados, quase todos da Carbonária, comandados por Alberto Meireles, e militares republicanos convergem para a Rotunda (actual Praça Marquês de Pombal) e levantam improvisadas barricadas. Pouco passa das três da manhã. Machado Santos assume o comando, mas as notícias que vão chegando não são muito animadoras, falhada a adesão de diversas unidades militares e conhecido o suicídio de Cândido dos Reis. Os oficiais do Exército abandonam a Rotunda. Apenas aí ficam nove sargentos carbonários, alguns cadetes da Escola do Exército e oito peças de artilharia.

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5 de Outubro de 1910
O REI EM FUGA

Estragos causados no Palácio das Necessidades pelos bombardeamentos efectuados pelos navios revoltosos.

Representação do bombardeamento do Palácio das Necessidades pelos navios revoltosos, publicada no semanário britânico “Graphic”.

Postal alusivo ao embarque na Ericeira, com o título “A família real batendo em retirada”.

Duas enfermeiras, uma portuguesa e uma espanhola, que prestaram assitência aos feridos.

Revolucionários civis e militares na Rotunda.

Bandeira republicana existente no Museu Maçónico Português, similar às referenciadas em diversas fotografias dos acontecimentos de 5 de Outubro de 1910.

Bombardeado o Palácio das Necessidades Os cruzadores “Adamastor” e “S. Rafael”, já controlados pelos republicanos, tomam posição frente a Alcântara, de onde, cerca das onze da manhã, disparam mais de quarenta granadas sobre o palácio real, atingindo a cornija da capela das Necessidades e o próprio quarto de D. Manuel, além de terem conseguido cortar o mastro onde estava hasteado o pavilhão real... Esta acção provoca a fuga do rei e lança a confusão nas tropas que defendiam o palácio real, ao mesmo tempo que alivia a pressão sobre o quartel de Alcântara, onde os insurrectos estavam entrincheirados. O rei foge para Mafra Quando os cruzadores “S. Rafael” e “Adamastor” tomam posição frente ao Palácio das Necessidades, o pânico apodera-se de quantos aí se encontravam. D. Manuel refugia-se na tapada, no pavilhão mandado construir por seu pai, “o atelier onde D. Carlos pintava e recebia as visitas patuscas”. Cerca das duas da tarde, acaba por fugir pelas traseiras, dirigindo-se para Mafra, de automóvel. Ao mesmo tempo, avisa a mãe e a avó, que se encontravam no Palácio de Sintra, para se lhe juntarem em Mafra. Hospital de sangue na Rotunda Junto à Rotunda, é instalado um hospital de sangue na cocheira do palácio do conde de Sabroza, que “cedeu o primeiro andar e pôs às ordens do improvisado hospital os seus criados”, prestando “óptimos serviços na ambulância” diversas senhoras.

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5 de Outubro de 1910
4 DE OUTUBRO

Oficiais da Marinha que participaram na revolução republicana. Sentados, da esquerda para a direita: Vasconcelos e Sá, Sousa Dias, Ladislau Parreira, Tito de Morais e Costa Gomes; de pé: José Mendes Cabeçadas Júnior, Mariano Martins, João Fiel Stokler, Carlos da Maia e Silva Araújo.

Feio Terenas com dois companheiros republicanos da margem sul.

O artilheiro de 1.ª classe, Joaquim Primo António, à esquerda, mostra a Mendes Cabeçadas, ao centro, o canhão do “Adamastor” que abriu fogo contra o Palácio das Necessidades e com que apeou o pavilhão real que estava hasteado no mastro daquele palácio.

Marinheiros e populares, no dia da revolução republicana (Fotografia de J.J. Ferreira, oferecida a Bernardino Machado). Desenho de Georges Scott publicado nas revistas <<The Illustraded London News>> e <<Illustration>>, representando os combates registados a bordo do cruzador <<D. Carlos>> (“os últimos defensores da monarquia”).

Loures, Almada e Moita Em Loures, é proclamada a República, que em Lisboa ainda está por decidir. Ao chegarem notícias dos combates em Lisboa, republicanos constituem uma Junta Revolucionária e ocupam os Paços do Concelho, hasteando uma bandeira verde e vermelha. Também em Almada, republicanos idos de Lisboa proclamam a República, enquanto os operários abandonam as fábricas e percorrem as ruas com bandeiras dos centros republicanos, ao som da Marselhesa e da Portuguesa, e é instituída uma Junta Revolucionária. Entretanto, chega a Cacilhas, vindo de Setúbal, o deputado republicano Feio Terenas. Também a Moita proclamou a República a 4 de Outubro. Armada bombardeia o Rossio Cerca das 16 horas, os navios fundeados no Tejo deslocam-se para a frente do Terreiro do Paço e bombardeiam o Rossio, onde estavam concentradas tropas monárquicas, pondo em fuga a Guarda Municipal ali estacionada. A posição dos navios da Armada impede o prosseguimento dos ataques à Rotunda. “D. Carlos” passa-se para os republicanos Pelas 10 horas da noite, o cruzador “D. Carlos”, que permanecia sob comando monárquico, é abordado por marinheiros e civis revoltosos, sob a direcção do 2.º tenente José Carlos da Maia, a partir do “S. Rafael”. A equipagem alinha também pela República, travando-se combates a bordo com a oficialidade monárquica, de que resultaram diversos feridos, morrendo o comandante do navio, Álvaro Ferreira.

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5 de Outubro de 1910

OS ÚLTIMOS COMBATES

Estragos provocados na porta de armas do Quartel de Artilharia Um durante a revolução republicana.

Artilharia colocada numa das ruas de acesso à Rotunda, onde estavam concentrados as forças revolucionárias.

Soldados revoltosos do Regimento de Infantaria 16 em formatura na Rotunda, Lisboa, no dia da revolução republicana (Fotografia de J.J. Ferreira, oferecida a Bernardino Machado).

A noite de 4 para 5 de Outubro O bombardeamento do Palácio das Necessidades e do Rossio, bem como a fuga do rei e a iminência de um desembarque dos marinheiros na Baixa, lançam a confusão nas tropas fiéis à monarquia. Ainda assim, perto das duas da manhã, o QuartelGeneral ordena a Paiva Couceiro que instale uma das suas peças de artilharia no pátio do Torel, de modo a apoiar uma ofensiva que se prevê desencadear ao romper do dia 5 sobre o Parque Eduardo VII e a Rotunda, onde Machado Santos continua entrincheirado. Durante a noite, os tiros de artilharia trocados entre os dois lados atingem o prédio n.º 222 da Av. da Liberdade. Quarta-feira, 5 de Outubro de 1910 Ao romper do dia, a peça de artilharia que Paiva Couceiro instalara no Torel dispara sobre a Rotunda e o Parque Eduardo VII, lançando a confusão nas hostes republicanas. Entretanto, todos os navios fundeados no Tejo colocam-se do lado republicano, ameaçando fazer fogo ao longo das ruas Augusta e do Ouro e bombardear o Rossio, onde se concentram as tropas ainda fiéis à monarquia, que, no entanto, dão sinais de debandada – esperam, em vão, a chegada de reforços, vindos de Santarém, mas as linhas férreas e algumas estradas foram sabotadas. Ao mesmo tempo, anuncia-se iminente o desembarque de marinheiros. No Castelo de S. Jorge, é hasteada uma bandeira republicana. E a Guarda Municipal, aquartelada no Carmo, não consegue intervir de modo decisivo.

Aspecto do prédio da Av. da Liberdade n.º 222, em Lisboa, incendiado pelos tiros de artilharia na noite de 4 para 5 de Outubro (Fotografia de J.J. Ferreira, oferecida a Bernardino Machado).

Civil revolucionário de guarda à porta da Câmara Municipal de Lisboa ( Fotografia Joshua Benoliel).

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5 de Outubro de 1910
A PROCLAMAÇÃO

A primeira bandeira republicana na Rotunda, 5 de Outubro de 1910 (Fotografia Franco).

A primeira bandeira republicana içada nos navios de guerra.

Populares aclamam a República no Largo de S. Domingos, frente ao Palácio da Independência, onde estivera instalado o Quartel-General monárquico, (Fotografia de J.J. Ferreira, oferecida a Bernardino Machado).

Aspecto da multidão na Praça do Município, em 5 de Outubro de 1910, quando foi proclamada a República (Fotografia Joshua Benoliel).

José Relvas proclama a República da varanda da Câmara Municipal de Lisboa (Fotografia Joshua Benoliel).

Encarregado de negócios da Alemanha pede armistício e precipita a vitória republicana O Encarregado de Negócios da Alemanha pede um armistício de uma hora, para que os cidadãos estrangeiros possam abandonar a cidade. O quartel-general monárquico aceita a proposta, na suposição de que assim poderia receber os esperados reforços de Santarém. Concedido o armistício, sai do quartel-general uma ordenança a cavalo com uma bandeira branca que é suposta acompanhar o diplomata até à Rotunda para conferenciar com Machado Santos. Muitos julgam tratar-se da rendição monárquica e saúdam a República... Machado Santos arranca às 8.35 da Rotunda à frente de muitos populares e desce a Avenida a cavalo, sendo depois levado aos ombros até ao quartel-general monárquico, instalado no Palácio da Independência, onde acaba por obter a rendição Proclamação da República nos Paços do Concelho e anúncio do Governo Provisório José Relvas, acompanhado por Eusébio Leão e Inocêncio Camacho, proclama a República, às 11 da manhã, da varanda dos Paços do Concellho: “Unidos todos numa mesma aspiração ideal, o Povo, o Exército e a Armada acabou de, em Portugal, proclamar a República”. Inocêncio Camacho lê ao povo a lista dos membros do Governo Provisório. O telégrafo levou a notícia da Implantação da República e da constituição do Governo Provisório a todo o país e às colónias, provocando a gradual adesão generalizada, quase sem resistência.

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5 de Outubro de 1910

O GOVERNO PROVISÓRIO

Edital do governador civil de Lisboa, Eusébio Leão, de 5 de Outubro, afirmando que “Ordem e trabalho é a divisa da Pátria libertada pela República”.

O membro do Directório do Partido Republicano, Inocêncio Camacho, lendo ao povo os nomes dos membros do Governo Provisório, da janela da Câmara Municipal de Lisboa, na manhã de 5 de Outubro de 1910, após a proclamação da República feita por José Relvas que está na fotografia à sua esquerda.

Postal com a fotografia dos Ministros do Governo Provisório. Em cima, da esquerda para a direita: Bernardino Machado, António José de Almeida, Azevedo Gomes, Correia Barreto e António Luís Gomes; em baixo, da esquerda para a direita: Afonso Costa, Teófilo Braga e José Relvas.

Diário do Governo com a composição do Governo Provisório da República.

Edital do Governador Civil de Lisboa Anunciado o Governo Provisório, Eusébio Leão, entretanto nomeado Governador Civil de Lisboa, publica no próprio dia 5 de Outubro um Edital ao povo da capital afirmando que “Ordem e trabalho é a divisa da Pátria libertada pela República”. Na revolução do 5 de Outubro haviam-se registado 78 feridos, dos quais 14 morreram no Hospital de S. José. Proclamação ao Povo Português Escassas horas após a Proclamação da República, o jornal “O Mundo” publica, por sua vez, uma Proclamação ao Povo Português, da autoria de António José de Almeida: “Cidadãos! O povo, o exército e a armada acabam de proclamar a República. A dinastia de Bragança, maléfica e perturbadora consciente da paz social, acaba de ser para sempre proscrita de Portugal. (...) Consolidai com amor e sacrifício a obra que surge da República Portuguesa!” D. Manuel de Bragança parte para o exílio Tendo fugido para Mafra, D. Manuel de Bragança, D. Amélia de Orleans, D. Maria Pia e alguns cortesãos dirigem-se para a praia da Ericeira, onde embarcam no iate Amélia que, depois de algumas hesitações, acaba por rumar à colónia britânica de Gibraltar. Na Ericeira, a população festeja a República. A partida para o exílio da família real consuma a abdicação.

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5 de Outubro de 1910
ORDEM E PAZ

Quinta-feira, 6 de Outubro de 1910 Eusébio Leão, governador civil de Lisboa, entregou às comissões paroquiais republicanas o policiamento da cidade. “Os agentes da ordem da República ostentam no braço uma divisa vermelha. Cada comissão comanda o policiamento da sua freguesia, auxiliada por soldados e estudantes, civis e militares.”

Cartaz intitulado “Os Heróis da Revolução Portuguesa”, edição de J.J. Dos Santos.

Alterações na toponímia da cidade de Lisboa Em Reunião na Câmara Municipal de Lisboa, presidida por Anselmo Braamcamp Freire, Nunes Loureiro apresenta uma proposta aprovada por aclamação. A Avenida Ressano Garcia passou a denominar-se Avenida da República e a Rua António Maria de Avelar passou a designar-se Avenida Cinco de Outubro. Sexta-feira, 7 de Outubro de 1910
Um grupo de revolucionários saudados pela multidão no Rossio, destacando-se, entre outros, o Comandante Serejo, o Visconde da Ribeira Brava e o Dr. Artur Leitão. Revolucionários num trem, no Largo das Duas Igrejas, esquina da Rua Nova da Trindade (Fotografia Joshua Benoliel).

Restabelecida em todo o País a circulação ferroviária, que fora seriamente afectada em numerosas linhas por cortes de via e derrube de postos telegráficos.

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5 de Outubro de 1910
OS HERÓIS

Cabeçalho do jornal “O Mundo”, de 7 de Outubro de 1910.

Os féretros do Almirante Cândido dos Reis e do Dr. Miguel Bombarda saindo da Câmara Municipal de Lisboa (Fotografia Joshua Benoliel).

Funerais de Cândido dos Reis e Miguel Bombarda Os funerais do vice-almirante Cândido dos Reis e do Dr. Miguel Bombarda são organizados com toda a solenidade, saindo dos Paços do Concelho. Conselho de Ministros O Conselho de Ministros do Governo Provisório aprova a amnistia para os crimes políticos e de imprensa, a supressão do “juízo de instrução criminal”, a revogação das leis de imprensa franquistas, a adopção do novo formulário de posse dos funcionários públicos, a dissolução das guardas municipais, que serão substituídas pela Guarda Nacional Republicana, a dissolução da “polícia civil de Lisboa” e a reposição em vigor das leis de Pombal, Aguiar e Braancamp sobre jesuítas e ordens religiosas. Governo e as manifestações O Governo Provisório emite um comunicado, apelando a que “cessem imediatamente todas as manifestações na rua que possam dar a impressão de que há alteração da ordem”, “para se restabelecer imediatamente a vida normal da cidade, todas as suas transacções do comércio e da indústria e a circulação pública”. Novos governadores civis O Governo Provisório nomeia os novos governadores civis, reforçando assim o controlo da situação em todo o país. Entrega das armas O Governo Provisório convida os grupos revolucionários e forças populares não militarizadas a entregar as armas.

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5 de Outubro de 1910

A EXPULSÃO DAS CONGREGAÇÕES

Um padre jesuíta, alegado autor de tiros feitos a partir do Convento de Campolide, é retirado sob protecção de forças do Exército e da Marinha, escapando à ira popular.

Tiroteio no convento do Quelhas Cerca das 8 da noite, uma força de marinheiros que patrulhava a rua do Quelhas foi atacada a tiro e com bombas de dinamite “de dentro do coio” dos jesuítas, estabelecendo-se de seguida intenso tiroteio. O ministro do Interior, António José de Almeida, deslocou-se pessoalmente ao local, mandando evacuar a população que ali se aglomerava, “conservando-se apenas a força pública em defesa”. Na madrugada seguinte, o convento do Quelhas foi tomada pelas forças revolucionárias e presos os respectivos ocupantes. Sábado, 8 de Outubro de 1910

Caricatura de Afonso Costa, da autoria de Alfredo Cândido, satirizando o seu combate anti-clerical.

Jesuítas expulsos de Portugal, à sua passagem pela Praça do Município, a caminho da estação de caminhos de ferro.

Expulsão dos jesuítas e de outras congregações religiosas O Governo Provisório da República publica um diploma, elaborado pelo ministro da Justiça, Afonso Costa, que repõe em vigor a lei pombalina de 3 de Setembro de 1759, “pela qual os jesuítas foram havidos por desnaturalizados e proscritos” e “expulsos de todo o país e seus domínios para neles mais não poderem entrar”, e a lei de 28 de Agosto de 1787, que determina a expulsão imediata da Companhia de Jesus, assim como o decreto de 28 de Maio de 1834, da autoria de Joaquim António de Aguiar, que extinguiu todos os conventos, mosteiros, colégios, hospícios e casas de religiosos de todas as ordens regulares.

Desenho satírico, da autoria de Charles Léandre, publicado pelo jornal francês “Le Rire”, de 19 de Novembro de 1910. Sob o título “A Jovem República Portuguesa e os seus Papás”, representa a República, de barrete frígio, empurrando um frade, enquanro o rei já foi atirado fora, e rodeada por Bernardino Machado, Teófilo Braga e pelo coronel Correia Barreto, com a seguinte legenda: “O que ser· quando tiver dentes!”

Embarque de padres jesuítas na estação de Campolide (Fotografia Joshua Benoliel).

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5 de Outubro de 1910
A CELEBRAÇÃO

Domingo, 9 de Outubro de 1910 O Ministro dos Negócios Estrangeiros, Bernardino Machado, que na véspera apresentara cumprimentos de despedida ao Presidente eleito do Brasil, marechal Hermes da Fonseca, comunica aos Representantes Diplomáticos em Portugal, que o Governo Provisório honraria todos os compromissos internacionais, estabelecidos em boa ordem. Cumpre o que a “embaixada” republicana do Verão de 1910 afirmara em Paris e Londres. Editais do governador civil de Lisboa O governador civil de Lisboa, Eusébio Leão, publica um edital, encimado pela divisa “Pátria e Liberdade”: “Previne-se o público contra boatos malévolos sobre a existência de frades em casas particulares. A casa do cidadão é inviolável. (...) As autoridades competentes estão procedendo com segurança e energia para resolver a questão religiosa”. Já três dias antes mandara publicar um outro edital apelando ao “respeito pelas pessoas dos polícias, dos soldados municipais e dos padres”. O Governo Provisório visita a Rotunda Pouco passava das três horas e meia da tarde, quando pelo acampamento da Rotunda corre a notícia de que para ali se dirigem os membros do governo provisório, sendo esperados por grande multidão. Machado Santos assume o comando da guarda de honra aos membros do governo. Bernardino Machado, António José de Almeida e Afonso Costa proferem saudações aos heróis da Rotunda.

“Pela República”. Litografia em que figuram os membros mais destacados do Partido Republicano.

Membros do Governo Provisório visitam o acampamento da Rotunda, após a proclamação da República. Distinguem-se, da esquerda para a direita: general Teles da Silveira, Bernardino Machado, Machado Santos e Afonso Costa (Fotografia Joshua Benoliel).

O comandante Ladislau Parreira, oficial revolucionário da Armada, é vitoriado na Rotunda por António José de Almeida e Malva do Vale.

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5 de Outubro de 1910

A REPÚBLICA IMPLANTADA EM TODO O PAÍS

Domingo, 9 de Outubro de 1910 Cortejo no Porto Realiza-se no Porto um grandioso cortejo que soleniza a proclamação da República. A República fora proclamada no dia 6. A guarnição aderira assim que recebera a notícia dos acontecimentos de Lisboa. Paulo Falcão toma conta do Governo Civil. Prisão e interrogatório do patriarca resignatário de Lisboa Às 10 da noite, na estação do Cacém, foi preso o patriarca resignatário de Lisboa, cardeal D. José Neto, de imediato conduzido para o Quartel-General. Cerca das três horas da madrugada, após a reunião do Conselho de Ministros, Afonso Costa informa a imprensa que se vai deslocar ao quartel-general para interrogar o cardeal Neto, “como delegado do governo”. Findo o interrogatório, em que o cardeal Neto afirma que se deu “sempre bem com todos os governos”, fica a aguardar o comboio da manhã, para nele partir para Leiria, de onde seguirá para Espanha “passar algum tempo”, não tendo regressado a Portugal. Ao mesmo tempo, Afonso Costa dá ordem às forças policiais para deter os padres que andassem na rua, de modo a “evitar abusos” e situações controversas, dada a reacção popular anti-clerical. De facto, haviam sido assaltados por civis vários conventos e colégios, nomeadamente o Quelhas, as Trinas, o de Arroios e o colégio de Campolide, registando-se trocas de tiros entre religiosos e civis e militares republicanos. Na sequência destes incidentes, forças da Marinha e do Exército mantêm sob custódia os religiosos que aguardam a execução da ordem de expulsão, decorrente do diploma de 8 de Outubro: 82 religiosos são detidos em Caxias e 48 no Limoeiro, enquanto 233

freiras são conduzidas para o Arsenal de Marinha. Outros religiosos, nomeadamente jesuítas, foram de imediato mandados seguir para o estrangeiro. Segunda-feira, 10 de Outubro de 1910 É publicado o decreto do Governo Provisório que revoga toda a legislação de excepção e a lei de imprensa, publicada por João Franco em 11 de Abril de 1907. São também revogadas as leis de excepção, que submetam quaisquer indivíduos a juízos criminais excepcionais e é extinto o Juízo de Instrução Criminal. Assalto popular aos jornais “Liberal” e “Portugal” Populares assaltam os jornais “Liberal” (ex-progressista) e “Portugal” (católico ultramontano). Regresso do iate “Amélia”de Gibraltar O governo britânico determina o regresso do iate “Amélia”, propriedade do Estado, que havia transportado a família real até Gibraltar. Recorde-se que o iate passara para a propriedade do Estado na sequência da solução que João Franco apresentara às Cortes para a questão dos adiantamentos à família real. No dia 12, o Governo britânico comunicará ao Governo Provisório que o ex-rei D. Manuel de Bragança será recebido no Reino Unido como simples particular, apesar do tradicional relacionamento com a família real inglesa. Proclamação da República em Macau a 10 de Outubro Prossegue a proclamação da República em todo o país e nas colónias, ficando o novo regime definitivamente implantado no dia 12 de Outubro de 1910.

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