You are on page 1of 4

26/09/2015

Notícias STF :: STF ­ Supremo Tribunal Federal

Quinta­feira, 18 de setembro de 2003
Notícias STF
Discurso do presidente do Senado por ocasião do lançamento de obras da "Coleção História Constitucional Brasileira" nos 175 anos
da Supremo Corte (atualizada)

História Constitucional Brasileira
 

É com grande honra que, em nome do Senado Federal, participo desta solenidade em que se comemoram os 175 anos do
Supremo Tribunal Federal, com a criação, a 18 de setembro de 1828, na Capital do Império, do Supremo Tribunal de Justiça,
que marcou um momento decisivo do direito no Brasil.

A primeira forma desta casa, como bem explicitou no seu brilhante discurso o nosso ministro Carlos Velloso, está ligada a
Bernardo Pereira de Vasconcelos, como a casa atual está ligada à de Rui Barbosa. Sua inteligência extraordinária estava
atenta a todos os problemas nacionais. Bernardo Pereira de Vasconcelos justificara seu projeto, em agosto de 1826, dizendo
que o Desembargo do Paço exercia suas atribuições "com grande vexame público"; mas criou uma instituição que vem
assumindo, ao longo destes anos, este papel central no equilíbrio de poderes, na harmonia da Nação.

O parlamentar Bernardo Pereira de Vasconcelos foi talvez para o 1o Império, sobretudo para o direito do 1o Império, o que Rui
foi para a transição republicana. Preocupado com a dimensão tutelar do Estado, formulou o Ato Adicional, o Código Criminal de
1830, o primeiro da América Latina,  os cursos jurídicos, entre tantas leis, e nos deixou uma lição extraordinária.

O grande mineiro fora liberal e "incendiário" na Constituinte, ao lado de Antônio Carlos, de José Bonifácio, de Cairú e de 
tantos outros que marcaram profundamente o pensamento constitucional brasileiro naquele instante inaugural das nossas
Constituições. Fora defensor do direito de convocar os Ministros, uma das questões centrais na crise entre a Assembléia
Constituinte e o Imperador:

"Qual de nós se curvará a um Ministro de Estado? Qual de nós não elevará sua voz (voz poderosa porque é a
da Nação) para interrogar, refutar e argüir os Ministros de Estado?"

Quando criou o partido conservador, o partido "regressista", se explicou:

"Fui liberal; então a liberdade era nova em meu país. Estava nas aspirações de todos, mas não nas leis, não
nas idéias práticas; o poder era tudo; fui liberal. […] Como então quis, quero hoje servi­la, a Pátria, quero
salvá­la e, por isso, sou regressista."

Quando, no centenário da instituição do Supremo Tribunal Federal da República — quero aqui tornar a recordar Bernardo
Pereira de Vasconcelos; ele foi uma figura tão importante, com uma auréola de grandeza, de inteligência e grande formulador
das instituições políticas que  naquele instante faziam começar o Brasil, que o Senado do Império concedeu­lhe a faculdade de
falar sentado, e ele falava sentado, cercado por uma auréola, como eu disse, respeitado por todo o Senado, que ouvia em
silêncio o grande tribuno e o grande pensador da Constituinte — quando, no cenário da instituição do Supremo Tribunal Federal
pela República, fiz a saudação a esta casa em nome do Senado Federal, comecei lembrando a nova realidade que
enfrentávamos juntos, o Brasil, o Supremo e o Senado. Esta realidade em que temos que fazer o grande entendimento que
permitirá à Nação obedecer ao seu destino de paz e justiça social.

Senado e Supremo são casas muito próximas. Próximas pelos laços formais, por estarem os membros de uma casa sujeitos
ao exame da outra; mas mais próxima pelos vínculos não escritos, pela idéia que está apenas insinuada nas qualificações
constitucionais para os cargos: a da ponderação, a da responsabilidade, a da maturidade. Ambas as casas representam, na
tradição do Estado brasileiro, os princípios permanentes, a estabilidade institucional, a superação dos conflitos contingentes, a
segurança final dos direitos.  

O Supremo Tribunal Federal e o Senado Federal têm também, em comum, a preocupação com a lei, e, em especial, com a
Constituição. Por isto estamos reunidos, hoje, na apresentação de mais três títulos da coleção de obras clássicas da História
Constitucional Brasileira. Como os anteriores, trata­se de livros que estão esgotados, de difícil acesso, e que colocamos à
disposição de juristas, legisladores, historiadores e todos os interessados na história do nosso Direito Constitucional.
http://www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=61308

1/4

 livre de qualquer constrangimento e assegurada a sua liberdade individual. ficção em que o Senado seria substituído por um Conselho Federal. Inocêncio Mártires Coelho. no outro livro aqui lançado. João Albino. composto de representantes dos Estados nomeados pelo Presidente da República. o estudo Do Poder Judiciário. reconhecido presidente do Estado do Rio de Janeiro por uma minoria da Assembléia: ". na sua casa no Maranhão. ele escreveu um manual sob um regime que feria a própria Carta. a câmara corporativa.jus. foi a magistratura brasileira decisiva na restauração do Estado democrático. chegando o golpe do Estado Novo. e com o Manifesto dos Mineiros. cercado de uma respeitabilidade imensa dentro do estado. Lessa é considerado um dos maiores nomes — talvez todo o dia citado e lembrado — desta Casa de tantos filhos ilustres. Waldemar Ferreira. uma referência obrigatória. Ministro de 1907 a 1921. com a publicação da entrevista de José Américo. O conheci menino. fazendo comentários sobre sua pertinência e viabilidade. Ele estudara a Constituição de 1934. numa grande austeridade em que vivia e em que era tido em todo estado do Maranhão. Trata­se. e guardo indelevelmente — eu tinha seis anos de idade — a figura do homem que era juiz federal. onde eu nasci. por isto.  e transcrevendo. enfatiza "a irrealização do organismo político plasmado na carta de 1937" por ser "destituída de sinceridade". e exercer suas funções de presidente. Assim.asp?idConteudo=61308 2/4 . sob a vigência. parágrafo 5o —. Embora datado de 1915. de tão curta duração. e a violenta outorga da Constituição de 1937. no palácio da presidência do Estado do Rio de Janeiro. da carta de 1891..stf. História do Direito Constitucional Brasileiro.. para ilustrar a relação do instrumento com a liberdade individual. inicialmente. com a colocação do "estado de emergência". Àquele tempo ele já trabalhava nos livros sobre as constituições. em que dos atos do Presidente não poderiam conhecer os juízes e tribunais. feita heroicamente pelo Correio da Manhã e por O Globo. autor do terceiro livro lançado hoje. talvez não adaptada àquele tempo. que não discute o mérito político e jurídico de seus artigos. na minha infância. Pedro Lessa estudou longamente o habeas corpus. em dezembro de 1944 e abril de 1945. penetrar. e que teria que ouvir o Conselho de Economia Nacional. A matéria política não era alheia também a Pedro Lessa. a grande Constituição liberal. de obra marcada pela análise técnica. Conhecer os caminhos usados pela tentação autoritária para torcer a lei é um passo importante para evitá­los. de Araújo Castro. O exame por Araújo Castro da Constituição de 1937 me toca. História do Direito Constitucional Brasileiro. concede a ordem impetrada para que o paciente possa.. Entre os grandes temas desta Corte.. Junto com a liberdade de imprensa. pois. como acentua o prof. de Waldemar Martins Ferreira. Logo depois. sem dúvida alguma. ultrapassada no abuso de poder do ditador.26/09/2015 Notícias STF :: STF ­ Supremo Tribunal Federal Estes três volumes são A Constituição de 1937. como sabemos.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe. é com atenção especial que lemos os capítulos sobre o poder Legislativo. seu livro é um importante ensaio sobre este poder e. aqui presente. Coloco no condicional. Lembremos que um dos eventos que levou ao fim do regime Vargas foi a posição do Supremo Tribunal Federal na concessão dos habeas corpus — instituído ao tempo de Bernardo Pereira de Vasconcelos e consagrado por Rui Barbosa — impetrados por Maria Rita Soares de Andrade e pelo próprio professor Waldemar Ferreira. título 78. e Do Poder Judiciário. portanto. no dia 31 de dezembro. de Pedro Lessa." http://www. seu voto vencido no exame do impetrado por Nilo Peçanha. por uma circunstância particular:  Araújo Castro era filho do meu tio­bisavô. O estudo daquele projeto ­ pois ele nunca foi submetido ao plebiscito que o validaria como Constituição ­ é importante para entender as idéias dominantes em todo o mundo na exacerbação concentracionária daquele triste momento da História. o legislativo do Estado Novo jamais se reuniu. indo descobrir seus traços nas Ordenações do Reino de Portugal — livro 3o. E menciono uma outra coisa também muito particular: foi Araújo Castro que indicou meu pai para ser promotor público em Pinheiro. A intenção manifesta de fazer um regime de arbítrio passou também pelo que chamou de "anti­judiciarismo".

 ele me fez uma solicitação: de que. o Senado editasse a revista de jurisprudência do Supremo Tribunal Federal. Outras vezes tivemos comemorações nas quais o Supremo Tribunal Federal sentia na sua própria carne restrições ao número de seus membros e intervenções O Brasil sempre foi. mas nunca nenhum brasileiro. mas só tem uma cláusula ao final que diz que as divergências sobre o nosso convênio serão decididas por um juiz arbitral. O presidente Vargas. como passamos do pensamento dos direitos da propriedade absoluta. estamos comemorando 175 anos do Supremo Tribunal Federal.jus. lançando o livro em que Dom Pedro I fazia anotações sobre a Constituição de 1924. o que é o cumprimento de um dever e de uma grande honra. juntamente com o Supremo Tribunal Federal. pensou em fechar o Supremo Tribunal Federal. nenhum homem. O mesmo não aconteceu com o Congresso Nacional.stf. no Senado Federal. que na sucessão veio se transformando no Supremo Tribunal Federal. em uma solenidade que fazíamos. essa oportunidade de comemorar grandes datas em situações como esta. e destes para os direitos sociais. nós já estamos trazendo hoje o convênio. o seu presidente. na evolução desta Corte. mesmo nos momentos de maior autoritarismo. anulara uma sentença do Supremo Tribunal Federal e substituíra. Sou levado também a fazer alguns comentários — me perdoe o Supremo Tribunal Federal — motivados pelas palavras do ministro Carlos Velloso. Vossa Excelência. para os direitos individuais. seguidamente adotados por esta Casa. nos considerandos ele dizia que aquele tribunal se destinava a defender os direitos de propriedade. que algumas vezes foi fechado. realiza­se em um momento em que o Brasil está em uma plenitude do Estado de  direito. em nome do poder Executivo. dos 175 anos da instalação daquela primeira Corte de Justiça. O Supremo Tribunal Federal não teve. E hoje. Campos Salles. porque considerava a propriedade o fundamento da vida dos homens daquele tempo. diz que o Supremo Tribunal Federal é feito para guardar os direitos individuais. Pedro Lessa estudava também o que chamava "as questões políticas". A gente vê. Este é um dos princípios que.  Pois bem. há poucos dias. criando um corpo de jurisprudência das relações entre os poderes. nos 50 anos do Supremo Tribunal Federal.26/09/2015 Notícias STF :: STF ­ Supremo Tribunal Federal O ministro Velloso bem ressaltou a importância do poder político que passou a ser exercido pelos tribunais e na cópia do que foi a Corte Suprema dos Estados Unidos. Quero trazer uma surpresa ao senhor ministro Maurício Corrêa. na evolução desse tempo. que é jurista e juiz. nós vivíamos sob uma ditadura. E da guarda permanente destes direitos sociais está incumbido o Supremo Tribunal Federal. valioso e fundamental repositório jurídico brasileiro. têm assegurado o adequado equilíbrio dos poderes e o funcionamento de nossa democracia. Recordo que em 1941. em alguns momentos da sua história. nós estamos trazendo o Senado para participar da edição do mais importante. isto é. as que dizem respeito ao poder discricionário do Executivo ou do Legislativo.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe. Ele. Eu quero sobretudo ressaltar que a comemoração de hoje. Quando veio o Supremo Tribunal Federal. mas eu quero também dizer que. de 10 de maio de 1808. naturalmente vai examinar o convênio. por um decreto. ministro Maurício Corrêa. Pois bem. quando ele criava a Casa de Apelação do Rio para que não se precisasse levar as causas até o Tribunal de Suplicação de Lisboa. Sua conclusão foi de que só estariam alheias ao tribunal as "questões exclusivamente políticas". Na cópia que temos do modelo americano. em que todos nós caminhamos sem olhar sombras sobre as instituições do país. quando estamos dedicados a resguardar os direitos sociais. quando pegamos no decreto de Dom João VI de 1808.asp?idConteudo=61308 3/4 . na sua exposição de motivos. em sua admissibilidade ou não ao exame do Supremo Tribunal Federal. um país que teve problemas e atos institucionais. na colocação do Supremo Tribunal Federal como o pilar http://www. ao longo do tempo. Assim.

Eu vejo isso não para aproximar o Senado. Não falava em condições específicas. de colocar­se. dirimindo todos os conflitos de uma sociedade democrática. eu procuro e verifico que.asp?idConteudo=61308 Enviar esta notícia para um amigo 4/4 .br/portal/cms/verNoticiaDetalhe. mas para dizer que àquele tempo o poder moderador. numa sociedade inviável sob o ponto de vista de conflitos. como fiadora da Constituição e de colocar a Constituição como fiadora do pacto que nos faz ser um Estado de direito. o decreto dizia que para exercer o cargo de ministro os cidadãos deviam ter as condições de elegibilidade dos senadores da República. nesses 175 anos. mais do que nunca. Muito obrigado. essa nova função que lhe é entregue pelos tempos modernos. no começo da República. mas vinculava o Senado aos senadores. a Justiça é aquela que tem a condição de estabelecer o equilíbrio dentro da sociedade. que constituiu o equilíbrio durante todo o Império.jus. mas da nossa pátria. numa sociedade de conflitos. é talvez a função principal do poder Judiciário nas democracias. como o poder da moderação.stf. Hoje. assim eu renovo esses votos. quando também  nós começamos a instituir o Supremo Tribunal Federal. Com a fundação da República. o poder do equilíbrio. era exercido pelo Imperador e também pelo Senado. repetindo Rui que disse que o Supremo Tribunal Federal era a Casa guardiã.   << Voltar   http://www. que era tido como uma casa conservadora. que ajudava ao equilíbrio das instituições e que assegurava a estabilidade do país. em uma imagem que talvez não caberia. na certeza de que o Supremo Tribunal Federal saberá manter — e manterá —. acima de tudo. de responsável pelo equilíbrio nacional. Assim eu renovo aqui. de harmonizar os conflitos.26/09/2015 Notícias STF :: STF ­ Supremo Tribunal Federal mestre de todas as nossas instituições. essa transposição da noção do poder moderador a que aqui aludiu o ministro Carlos Velloso. não somente da Constituição.