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Umuarama, domingo, 14 de março de 2010

ALARMES
Tenho passado momentos difíceis. Sem mais nem menos um barulho me pega de surpresa, me assusta, me amedronta e depois me irrita. Acabar com ele não depende de mim, por isso uma pergunta me ronda dia e noite: qual é a função de um alarme? Moro perto de escolas, casas, comércios. Todos com alarmes. É uma sinfonia desafinada que quando dispara perturba demais. Primeiro porque quando escuto um alarme disparado imagino que há um invasor e o medo é grande, depois, quando percebo que o problema deve-se a um pequeno invasor como, por exemplo, um pássaro, ou há somente um problema técnico, dá uma raiva tremenda ter me assustado por nada. É assim. O mundo moderno é assim. Acostume-se quem puder. A primeira cerca elétrica que vi me causou um sentimento muito ruim. Lembrou-me um campo de concentração daqueles filmes vistos sobre o holocausto. Sentimento de prisão. Com o tempo a gente se acostuma. O ser humano é um ser adaptável. Hoje é tão comum que nem percebo mais os arames eletrificados sobre os muros altos das casas. Somos uma população necessitada de proteção. Somos, na maioria, pessoas desconfiadas. Nada mais. Cercas, muros, rosto a lá D. Casmurro não me perturbam, porém, os alarmes quando disparados e descontrolados me irritam demais. Eles invadem o meu espaço auditivo e como orelha não tem pálpebra não dá tempo de evitá-los. O mundo contemporâneo tem medo e por isso protegemos nossa propriedade com muros altos, cercas elétricas, cara pouco amistosa e alarmes. Proteção exagerada? É necessidade mesmo. Da mesma forma que os proprietários protegem o que lhes pertence cada pessoa tem seus próprios meios de se proteger. Não falo só da integridade física, falo da individualidade e é difícil protegê-la também. Há pessoas que são invasivas demais e contra elas é bom ter o alarme afinado A afinação pode representar sensatez ou insensatez. Esses alarmes humanos internos soam ao

Por ÂNGELA rUSSI

deparar-se com algo desconhecido que represente perigo e foram instalados durante a infância, naqueles momentos em que fomos educados para reconhecer o certo e o errado. O problema é que quem educa o faz segundo os seus critérios de certo e errado. Critérios rígidos demais dispararão o alarme todo momento, impedindo mais do que deveria Critérios relaxados demais não dispararão nem quando necessário, permitindo demais. Alarme descontrolado só dá dor de cabeça. Só o alarme não espanta se quem quiser entrar quiser de verdade. Permitir ou não é outra etapa. Cada um deve conhecer-se a ponto de posicionar-se diante disso. Entretanto, se o conhecimento for pequeno e o medo grande talvez seja hora de procurar ajuda. Quem procura o autoconhecimento certamente descobrirá como identificar o seu alarme e assim defender-se de invasores inoportunos, pois reconhecerá aqueles que realmente são. O objetivo principal dele é avisar e é o que faz, apenas avisa. A atitude do avisado é por conta dele. Há alarmes que soam como limite e outros como convites. Correr ou enfrentar? A escolha depende de quão grande é o desejo do explorador do espaço alheio e do dono do espaço em aceitar ou não o invasor. Como já disse, o alarmado é que tomará a atitude. O alarme só avisa. De qual alarme estou falando afinal no final dessa crônica? Dos dois. Alarme pessoal e também o protetor de propriedade. Acabam misturando-se sob o prisma da proteção extrema que buscamos. Porém, o que me incomoda demais são os alarmes próximos da minha casa que disparam sempre numa harmonia desarmonizada a qualquer hora do dia ou da madrugada. Haja ouvidos e paciência para aguentar. Para que servem os alarmes mesmo? Para quem não tem controle sobre eles só servem para irritar.

Foto por Thiago Casoni

PARTE VI Corpo Desacostumado
Por Caroline Guimarães Gil

O Vizinho Barulhento
por Tiago Lobão Essa história é verídica, aconteceu com um conhecido meu, há tempos atrás, quando ele ainda era um garotinho de apenas uma década de vida e ainda morava com seus pais na Rua Aquidaban, perto do Ginásio de Esportes e do Cemitério, em Umuarama. Estavam reformando a casa. Era uma reforma grande, portanto, os quatro membros de sua família tiveram que passar aquele mês morando na edícula, nos fundos do quintal. A edícula era “parede com parede” com a casa do vizinho dos fundos. Tudo transcorreu tranquilamente durante os primeiros dias, até que, em uma noite, já durante alta madrugada, os vizinhos resolveram mudar a arrumação do quarto. Era uma barulheira de móveis sendo arrastados de um canto para o outro que seguiu até quase o sol nascer, destruindo qualquer esperança de um sono tranqüilo e revigorante para a família. Se fosse apenas por uma noite, não haveria mal algum. Porém, o barulho da arrastação de móveis e sonoplastias diversas começou a ficar rotineiro e atrapalhar demais a paz e o sono daquela família, que já tinha que conviver com o barulho e poeira da reforma de sua casa durante o dia todo. Depois de vários dias cultivando olheiras, já cansada com indecisão dos vizinhos com a nova arrumação do quarto que parecia não terminar nunca, a mãe do meu amigo aproveitou uma tarde mais livre nos afazeres e foi lá pedir alguma providência. Ao chegar em frente ao portão do vizinho barulhento, percebeu que ali não morava ninguém, era a sede da ACESF, uma autarquia do município de Umuarama cuja sigla significa Administração de Cemitérios e Serviços Funerários, e não deixa mistério sobre suas funções. Naquele tempo, a ACESF era na mesma Avenida Gov. Parigot de Souza, mas numa casinha pequena e branca, com uma lua em alto relevo sobre a porta da frente. Lá, no quarto dos fundos, era o lugar onde se estocava os caixões vazios e se preparavam os cadáveres que chegavam do IML para que pudessem ser velados e enterrados no Cemitério Municipal, do outro lado da rua. “Tudo bem que serviço funerário não tem hora pra acontecer, mas pelo menos deviam fazer menos barulho pela

- O que estava pensando, senhor Benjamim? – Edna colocou as mãos na cintura, intrigada. Bem sabia Edna, que todas as vezes que o rapaz a convidava para assistir a uma peça teatral, antes refletia sobre algumas coisas que o estava a atormentar. - O que te afligi? Benjamim sorriu sutilmente, e logo perguntou: - Entregaste a carta que te dei? - Sim. Aflita, como toda mãe ao ver um filho preocupado, Edna, sentou-se na borda na cama e pediu para que Benjamim contasse do que se tratava a carta. - Quem é Adélia? - Edna, não posso lhe falar sobre estas particularidades. - Por que não? Eu sou uma segunda mãe para ti. Na verdade, a única, de certa forma. Eu fico preocupada contigo quando se senta nesta cadeira próxima a estante, e começa a refletir. Embora confie, com segurança, que teu amadurecimento, só lhe dará grandes reflexões, tenho notado, nos derradeiros dias, que sua aparência tem mudado.

O jovem estreitou seus olhos, fazendo com que sua testa se franzisse por alguns segundos, como quem estivera tentando buscar formas diferentes de poder demonstrar o que estivera pensando. Porém, logo em seguida, sorriu, levantou de imediato, deu um beijo na testa de Edna, com todo o carinho e lhe disse: - Obrigado Edna, por ter sido tão atenciosa nos últimos dias. E sei que o faz sem denotar uma cortesia, muito pelo contrário, tenho conhecimento de que parte do seu amor pela minha mãe se volta também para a minha pessoa e partilhamos juntos, mancos, desta afeição. Contudo, no momento, a respeito de Adélia, não posso lhe expor. O que poderia estar lhe contando é que, nunca seu filho - ainda que agora tão atormentado - tenha estado tão afortunado! Edna! - Ah! Pois vou ter um filho casado?! Diga-me de uma só vez! Benjamim desfez o olhar prazenteiro e notou pela vidraça que o vento forte começou a assolar as árvores de forma que suas folhas se desprendiam facilmente. - Edna! Entenda comigo, do mesmo modo que as folhas se desprendem das árvores,

sem bel-prazer aparente, há coisas que não possuo controle algum, mas que se faz necessário aguardar. - Não compreendo. - Eu ao mesmo tempo Edna! Eis ai, episódios que não podemos apreender na sua totalidade. O que poderei improvisar? Eu não quero improvisar! Improviso é para os desgraçados, tolos, desesperados. Eu não me acho em desesperação. Estou só aguardando, como um fruto que espera seu tempo de se doar. É preciso tentar alcançar a passos como as coisas caminham. - Mas, senhor Benjamim... - Edna! Está chovendo... Ambos constataram pela janela, surpresos, a tempestade que se iniciava de modo violento. O rapaz correu para fora do quarto, e Edna, fechou a janela, notando que por cima da escrivaninha, havia mais ou menos umas dez cartas com o remetente de Adélia, todas encharcadas pela chuva. Sorriu, sobretudo uma lágrima lhe caiu, utilizou um pedaço de seu avental para secar as cartas com delicadeza. E o restante? Cadê? Cadê? Confira, no próximo domingo, só aqui no Culturanja!

madrugada!” – pensou consigo a mãe do amigo. E assim que foi atendida pelo funcionário desabafou polidamente: - Oi, eu sou sua vizinha dos fundos e nosso quarto divide a mesma parede com o quarto dos fundos de vocês. Sei que não tem hora pra se morrer e nem pra vocês trabalharem, mas o pessoal que vem pro turno da noite tem feito muito barulho durante a madrugada... arrastando coisas pra lá e pra cá. Isso tem atrapalhado muito o sono da minha família. O funcionário, meio espantado, porém, bastante solícito, respondeu: - Senhora, peço desculpas pelo barulho, mas infelizmente não podemos fazer muita coisa. Não existe turno da noite, nós só trabalhamos até as 18 horas.

ERRATA No domingo (07/02) a novela “Corpo desacostumado” estava como “VI parte”, note que, segundo a seqüência o correto é “V parte”. Portanto hoje (14/03) será a “VI parte”. Desculpe os transtornos!