Umuarama, domingo, 28 de fevereiro de 2010

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PARTE VI – Corpo Desacostumado
Por Caroline Guimarães Gil

Benjamim deixou-se cair sobre a poltrona; controlar ou refrear sua lástima de solidão era o que cogitava conseguir; os pensamentos induzidos por Ignácio começaram a obter força desproporcional aos seus reais pensamentos e valores já radicados, a tal ponto que, principiaram a criar raízes em sua cabeça; seus olhos lacrimejantes se apertavam em direção à janela. Como poderia se esquecer para poder viver? Só um animal não necessita refletir sobre aquilo o que faz e sua própria natureza de ser no mundo, nada tem que ver com conhecer/reconhecer, distinguir ou fazer juízo. Um animal - discorria Benjamim - faz o que faz, por ser o suficiênte para sua sobrevivência. Já o homem – concluía – para continuar a viver, nada tem que ver com caçadas propriamente ditas. Ele elabora formas mais diversificadas, de se obter o sustento. E mais, suas necessidades são distintas. Um animal, não precisa ler um livro, conhecer as ciências do mundo, saber decodificar, ler ou escrever. Pois não é da sua natureza discorrer sobre obras artísticas ou sobre cultura, filosofia. Para sobreviver no mundo, ele não precisa desses artifícios para ser. Seu admirável organismo e complexo já o são, de forma que, ele possua interesse nas coisas que para ele o é de extrema necessidade e importância. Sobretudo, o homem, em sua natureza de existir, fez-se necessário traduzir-se ao mundo, sentiu a necessidade de comunicar-se. Não bastava ser quem se é, se não fosse enquanto o outro o também não o fosse. Ora, não haveria casa se não houvesse pessoas dentro dela, ou seja, uma coisa não é, de fato, em toda a sua essência, se não realizar o seu papel. E para Benjamim, a posto do homem, é de conhecer, apreender, compreender, e aplicar de forma que - esta aplicação mesmo que, sobretudo, não possa igualar-se a realidade das coisas, que já o são por sua própria natureza de o ser – estas se tornem referência, e chão. No final da conversa com seu pai Ignácio, Benjamim, poderia optar perder-se em meio a pensamentos aturdidos que se remetem a sua infância, o qual acreditava que as circunstancias vividas – na época - premeditavam sua forma de ser no mundo; todo pequenino, imperceptível, sem voz ainda, sem conhecimento e maturidade, seus instrumentos de defender-se e argumentar eram escassos – agredir ou fugir - necessitava de possibilidades de respostas mais abrangentes, de portas de saídas muito mais elaboradas, do que outrora o foram. Quando criança, devido sua falta de conhecimento natural, decorrente do processo de qualquer indivíduo – carecia de um ambiente intérprete, que o acolhesse e o revelasse - transformando sua comunicação primitiva, em uma comunicação de fácil acessibilidade, decodificando-o - para si mesmo e para o mundo: quem era, o que desejava e necessitava. Mas, esse ambiente, nunca o decodificara de forma adequada. Ser – refletia – implica em ser para: sou para mim, para o mundo, para a família, para a cidade e etc.. E quando se argumenta isso, sugere o respeito do que o que está ao lado, o limite de cada coisa, seu fluxo e refluxo, suas alvoradas, sua forma de dançar. E para que isso calhe, é mister que se negocie com os diversos ambientes a volta, que se adapte, se relacione. Respirou densamente, com alívio, ao realizar essas constatações. - Edna! A doméstica entrou em seu aposento toda desajeitada, a secar as mãos molhadas no avental que jazia na sua cintura. - O que foi?! Ora, que susto senhor Benjamim! – com as mãos sobre o coração, para acalmar sua respiração acelerada. - Vamos ao teatro esta noite? Quantas deliberações do senhor Benjamim! O restante? No próximo domingo!

Foto por Thiago Casoni

MULHER FEIA?
Quando John Lennon morreu eu tinha 11anos. Assisti tudo o que foi noticiado sobre a morte do ex Beatle sem entender muita coisa. Eu não sabia nada sobre ele até então e me lembro de ver no Jornal Nacional fãs pelo mundo afora chorando desesperadamente. De tudo que vi e ouvi duas coisas ficaram como lembrança daquele trágico acontecimento: os Beatles nunca mais voltariam a tocar juntos e a culpa da separação deles era de uma mulher chamada Yoko Ono. Quando a vi fiquei horrorizada. Acabei concordando com aqueles que diziam não entender como Lennon podia ter deixado tudo por ela. Ela era o pivô da separação do grupo mais famoso de todos os tempos e ainda tinha mais um agravante, era uma mulher feia! Aos treze anos ganhei uma fita cassete com músicas de Lennon. Posso dizer que aquela fita foi uma grande companheira em meus momentos de‘deprê’ adolescente. Desde aquela fita cassete virei fã e John passou fazer parte da trilha sonora da minha vida. Naquela fita tinha a música Woman. É nela que ele declara que a mulher que a imprensa inglesa chamava de feia era a dona do coração dele e ponto final Ela era feia aos olhos do mundo, mas aos dele era linda. Por quê? Minha avó diria que quem ama o feio, bonito lhe parece e que beleza não se põe na mesa, porém não creio que seja só isso. O que faz uma mulher ser feia? A falta de cuidado? Nem um pingo de maquiagem? Maquiagem exagerada? Cabelo com a raiz branca aparecendo? Roupa fora de moda? Rugas? Gordura? Magreza? No conceito de alguns, dotados de visão parcial, pode até ser, entretanto, para quem enxerga bem e vê a real beleza é bem diferente disso. Pode ser feia uma mulher que acorda de madrugada para trabalhar e quando sai deixa o almoço pronto e a roupa lavada no varal? Pode ser considerada feia uma mulher que após passar a noite sem dormir vai de madrugada para a fila do posto de saúde pegar a guia para consultar o filho febril? Pode-se chamar de feia a mulher que está do lado de quem ama na alegria e na tristeza,

Por Ângela Russi

na saúde e na doença, amando e respeitando? Como dizer que uma mulher que trabalha fora e dentro de casa cumprindo mais que as horas permitidas por lei é feia? Aquela que limpa, compra, vende, ensina, opera, atende, defende e realiza ainda tantos outros afazeres é feia? É possível chamar de feia quem faz mercado, compara preços, organiza o orçamento, multiplica o salário de tal forma que nem economista formado conseguir explicar como? Como imaginar que é feia a mulher que põe o filho para dormir, espera que adormeça, acorda-o no dia seguinte, alimenta-o, leva para a escola, busca na escola, sabe todas as suas notas, conversa com a professora, estuda junto, dá bronca quando vê preguiça e ainda faz o jantar? De que maneira uma mulher é considerada feia mesmo se cuidando, passando cremes, pintando o cabelo, escondendo a gordurinha indesejada, se perfumando, tirando a sobrancelha e o buço, fazendo chapinha, enrolando o cabelo? Será que é feia uma mulher que chora com quem chora, ri com quem ri, se emociona assistindo à novela, xinga ao ver injustiça, admirase com as novidades das vitrines e para usá-las jura nunca mais comer doce nem beber coca-cola? Impossível. Não pode ser feia quem é assim. O que o John enxergou na Yoko foi além do corpo, da aparência. Só ele poderia dizer o que foi. Em algumas entrevistas ele afirmou, após ficar separado por quatorze meses, não sobreviver sem ela e realmente não precisou. Será que ela era uma mulher feia? Eu penso que além de ser apaixonado, John encontrou nela a cumplicidade que torna o relacionamento gostoso. O que ela tinha demais? Tinha o que para o mundo todo era de menos. Ela tinha mais do que a embalagem mostrava. Ela tinha conteúdo. O que faz uma mulher ser linda? A beleza que tem dentro de si e que gratuitamente doa àqueles que sonham um dia se tornarem tão belos quanto ela. Para todas essas mulheres lindas desejo um Feliz Dia Internacional da Mulher.