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dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo nível."

ESTA EDIÇÃO DE JOSÉ, A PRIMEIRA EM QUE O CONJUNTO
DE POEMAS APARECIDO EM 1942 É PUBLICADO NUM
VOLUME ISOLADO — E NÃO ACOMPANHANDO OUTROS
TÍTULOS DA OBRA DE CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE —,
FOI PRODUZIDA ESPECIALMENTE PARA CELEBRAR
A ESCOLHA DO POETA MINEIRO COMO O AUTOR
HOMENAGEADO DA 10A EDIÇÃO DA FESTA LITERÁRIA
INTERNACIONAL DE PARATY (FLIP).

sumário A BRUXA O BOI PALAVRAS NO MAR EDIFÍCIO ESPLENDOR O LUTADOR TRISTEZA NO CÉU RUA DO OLHAR OS ROSTOS IMÓVEIS JOSÉ NOTURNO OPRIMIDO A MÃO SUJA VIAGEM NA FAMÍLIA posfácio JOSÉ E ALGUMAS DE SUAS HISTÓRIAS júlio castañon guimarães Cronologia .

a bruxa A EMIL FARHAT Nesta cidade do Rio. distantes. De dois milhões de habitantes! E nem precisava tanto. no amor. estou sozinho na América. na carne. mas é vida. Estarei mesmo sozinho? Ainda há pouco um ruído anunciou vida a meu lado. Em dois milhões de habitantes. desses calados. recebesse este carinho.. quantas mulheres prováveis interrogam-se no espelho medindo o tempo perdido até que venha a manhã trazer leite. de dois milhões de habitantes. Certo não é vida humana.. salvasse do aniquilamento um minuto e um carinho loucos que tenho para oferecer. que leem verso de Horácio mas secretamente influem na vida. . e a essa hora tardia como procurar amigo? E nem precisava tanto. jornal e calma. estou sozinho no quarto. não tenho amigo. E sinto a bruxa presa na zona de luz. Estou só. Precisava de um amigo. Precisava de mulher que entrasse neste minuto.

É antes a confidência exalando-se de um homem. sei os beijos mais violentos. aprendi. o que há é apenas a noite e uma espantosa solidão. de mãos. escutai-me! Essa presença agitada querendo romper a noite não é simplesmente a bruxa.Porém a essa hora vazia como descobrir mulher? Esta cidade do Rio! Tenho tanta palavra meiga. . Mas se tento comunicar-me. conheço vozes de bichos. viajei. Companheiros. afetos. Estou cercado de olhos. briguei. procuras.

ó solidão do homem na rua! Entre carros. Mas o tempo é firme. é indiferente. entre gritos. O boi é só. ó milhões sofrendo sem praga! Se há noite ou sol. . Ó solidão do boi no campo! O navio-fantasma passa em silêncio na rua cheia. telefones. Ó solidão do boi no campo. a escuridão rompe com o dia. trens.o boi Ó solidão do boi no campo. homens torcendo-se calados! A cidade é inexplicável e as casas não têm sentido algum. Se uma tempestade de amor caísse! As mãos unidas. Ó solidão do boi no campo... a vida salva. No campo imenso a torre de petróleo. o ermo profundo.

tudo passa rápido e os peixes devoram e a memória apaga e somente um palor de lua embruxada fica pervagando no mar condenado. Há também tesouros que se derramaram e cartas de amor circulando frias por entre medusas. O último hipocampo deixa-se prender num receptáculo de coral e lágrimas — do Oceano Atlântico ou de tua boca. .palavras no mar Escrita nas ondas a palavra Encanto balança os naúfragos. triste por acaso. merencórios prantos. Lá dentro. Verdes solidões. A palavra Encanto recolhe-se ao livro. os navios são algas e pedras em total olvido. entre mil palavras inertes à espera. queixumes de outrora. embala os suicidas. por demais amarga.

tristeza. [viagens. desesperar. .. uivar. Os corpos se unem e bruscamente se separam. Era bom amar. um espinho no coração. No cimento. Há um retrato na parede. desamar. era bom mentir e sofrer. O elevador sem ternura expele. Ficaram apenas tristes moradores. Salta o edifício da areia da praia. O copo de uísque e o blue destilam ópios de emergência. morder. As famílias se fecham em células estanques. uma fruta sobre o piano e um vento marítimo com cheiro de peixe. nem traço da pena dos homens. ii A vida secreta da chave.. absorve num ranger monótono substância humana.edifício esplendor i Na areia da praia Oscar risca o projeto. Entretanto há muito se acabaram os homens.

iv As complicadas instalações do gás. em momentos de carne lassa. o terraço onde camisas tremem. talvez nuas. O retrato cofiava o bigode. sub-reptício. o mundo murchava e brotava a cada espiral de abraço. E tinha também fantasmas. Goiás. chora. que importa? Os móveis riam. mortos sem extrema-unção. branca. . Era lenta. retrato. certo remorso de Goiás. E vinha mesmo. calma. como depois descobrimos.Que importa a chuva no mar? a chuva no mundo? o fogo? Os pés andando.. úteis para suicídio. a extinta pureza. não me lembro. bodoques e grandes tachos de doce e grandes cismas de amor.. vinha a noite. iii Oh que saudades não tenho de minha casa paterna. anjos da guarda. tinha vastos corredores e nas suas trinta portas trinta crioulas sorrindo. Vai crescer a tua barba neste medonho edifício de onde surge tua infância como um copo de veneno. Chora.

aquele que eu fiz de leite. A vida jogada fora voltava pelas janelas. Nas cortinas. onde o corpo esmorece na lascívia frouxa da dissolução prévia. que será do corpo? Meu único corpo. calcei com borracha. Ah. tratei? Meu coitado corpo tão desamparado entre nuvens. Doce.. meu corpo. Do cassino subiam músicas e até o rumor de fichas. Meu pai. o estupendo banheiro de mil cores árabes. meu avô.. que eu vesti de negro. embalei.também convite à morte. de carne. neste aéreo living! v Os tapetes envelheciam pisados por outros pés. ventos. o corpo. a brisa pousava. de bege. cobri com chapéu. Todos os mortos presentes. de branco. cerquei de defesas. de madrugada. Alberto. . o pavor do caixão em pé no elevador. de água. de ar.

As dívidas amontoavam-se.Já não acendem a luz com suas mãos entrevadas. meu Deus! diziam os ratos. E começavam a roer o edifício. era superfície neutra. — Que século. Os mortos olham e calam-se. O retrato descoloria-se. A chuva caiu vinte anos. . Surgiram costumes loucos e mesmo outros sentimentos. Fumar ou beber: proibido.

Busco persuadi-las. Insisto. Guardarei sigilo de nosso comércio.o lutador Lutar com palavras é a luta mais vã. Algumas. Lutar com palavras parece sem fruto. tão fortes como um javali. Mas lúcido e frio apareço e tento apanhar algumas para meu sustento num dia de vida. Entretanto. Sem me ouvir deslizam. solerte.. Ser-lhes-ei escravo de rara humildade. Deixam-se enlaçar. teria poder de encantá-las. tontas à carícia e súbito fogem e não há ameaça e nem há sevícia que as traga de novo ao centro da praça. . Não têm carne e sangue. Se o fosse.. São muitas. eu pouco. luto. Não me julgo louco. nenhum travo de zanga ou desgosto. Entanto lutamos mal rompe a manhã. perpassam levíssimas e viram-me o rosto. Na voz.

o sutil queixume. Mas ai! é o instante . luto todo o tempo.Palavra. Quisera possuir-te neste descampado. Preferes o amor de uma posse impura e que venha o gozo da maior tortura. esta me ofertando seu velho calor. e um sapiente amor me ensina a fruir de cada palavra a essência captada. outra seu desdém. palavra (digo exasperado). outra seu ciúme. sem maior proveito que o da caça ao vento. se me desafias. é fluido inimigo que me dobra os músculos e ri-se das normas da boa peleja. pressinto que a entrega se consumará. outra sua glória feita de mistério. Luto corpo a corpo. Iludo-me às vezes. sem roteiro de unha ou marca de dente nessa pele clara. Não encontro vestes. Já vejo palavras em coro submisso. aceito o combate. não seguro formas.

esplende na curva da noite que toda me envolve.de entreabrir os olhos: entre beijo e boca. Tamanha paixão e nenhum pecúlio. . O teu rosto belo. ó palavra. Cerradas as portas. O ciclo do dia ora se conclui e o inútil duelo jamais se resolve. a luta prossegue nas ruas do sono. tudo se evapora.

Hora difícil. o amor caem. Por que fiz o mundo? Deus se pergunta e se responde: Não sei. em que a dúvida penetra as almas. Os anjos olham-no com reprovação. o céu se desfaz.tristeza no céu No céu também há uma hora melancólica. Tão manso. e plumas caem. são plumas. Outra pluma. nenhum fragor denuncia o momento entre tudo e nada. . a tristeza de Deus. a eternidade. Todas as hipóteses: a graça. ou seja.

. em Paris.. a fitar os homens que voltam cansados. Imagino um olho calmo. devassando a roupa. percorrendo o corpo. a vaga pestana desse olho imóvel oscilam nas coisas (são apenas coisas mas também respiram). de lento conselho e cumplicidade.rua do olhar Entre tantas ruas que passam no mundo. caladas no chão. a Rua do Olhar. Pela noite abaixo uma vida surda embebe o silêncio. Rua do Olhar: as casas não contam. na tarde.. solitário. O brilho sem brilho. Só conta esse olho triste. Olhar de perdão para os desvarios. A luz que se acende não te ilumina. me toca. nem contam as pedras.

como frio no ar. Olhar de uma rua a quem quer que passe. cabe num olhar. Sinto que o drama já não interessa. amor perdidos na bruma. no menor dos bens de ti. Que funda esperança perfura o desgosto. Compreensão. no queixo. abre um longo túnel e sorri na boca! E sorri nas mãos. quem luta. Quem ama. Na praia estou eu. quem que se diverte ou apenas fuma ou apenas corre? Uma rua — um olho aberto em Paris olha sobre o mar. quem bebe veneno? Quem chora no escuro. na rosa. farol tímido. Vem. dizer-nos que o mundo de fato é restrito. meu irmão! .

amigo morto. Bom dia! Está mais forte (como se fora vivo). Ar morto. Luzes acesas. Inimigo morto. Mal um se despede. O tempo nele entra e sai sem conta. outro te cutuca.os rostos imóveis A OTTO MARIA CARPEAUX Pai morto. enseada morta. já não há pegá-los. Primos mortos. Esperança. Chefe de trem morto. Homem morto. laranjeiras mortas. Noiva morta. mãe morta (mãos brancas. amigas mortas. olhos. morto secreto. irmão nascido morto. Sabe imitar fome. [grão de poeira nos olhos). Roseira morta. entra pela porta. passarinho morto. Morto sem notícia. e como anda bem. E como insiste em andar. Trabalha à noite. paciência. Avô morto. Acordei e vi a cidade: eram mortos mecânicos. namorada morta. Tia morta. sono. . e como finge amor. Sua mão pálida diz adeus à Rússia. como se fora vivo. professora morta. Conhecidos mortos. Os mortos passam rápidos. passageiro morto. Irreconhecível corpo morto: será homem? bicho? Cão morto. retrato sempre inclinado na parede. Podia cortar casas. mover de mão: [mortos.

pés amarrados. ondas desfalecidas. não há depois nem antes. Sentir-me tão claro entre vós. não posso ficar sozinho. no escuro. pobre. O mau cheiro zumbia em tudo. Olho tudo e faço a conta. depois. Dormi e fui à cidade: toda se queimava. mas não posso entrar na roda.. beijar-vos e nenhuma [poeira em boca ou rosto. boca seca.. Sonhei e volto à cidade. no ar. Estavam todos mortos...eram casas de mortos. de montes fragílimos lá embaixo. em minha família que veio de brumas sem corte de sol . O próprio corregedor morrera há anos. logo crispada. Mais frio ainda. Mas já não era a cidade. quero [detê-la. estou pobre. e um frio central. Paz de finas árvores.. de ribeiras tímidas. a todos beijarei na testa. mas sua mão [continuava implacável. Uma brancura que paga bem nossas antigas cóleras [e amargos. Desta varanda sem parapeito contemplo os dois crepúsculos. Frio há por todos os lados. mais branco ainda. [pobre. moscas entre eles [circulam. o corregedor-geral verificava [etiquetas nos cadáveres. flores úmidas esparzirei. Doce paz em mim. [de gestos que já não podem mais irritar. Contemplo minha vida fugindo a passo de lobo. como cresceram. nada sobrou. peito exausto cheirando a lírios. serei mordido? Olho meus pés. estalar de bambus.. doce paz sem olhos.

e por estradas subterrâneas regressa às suas ilhas. na minha cidade natal. na vida de todos. . no meu tempo — afinal — conciliado. no meu quarto alugado. na minha rua. na minha vida. na suave e profunda [morte de mim e de todos.

sua gula e jejum. seu terno de vidro. e agora. e agora. sua lavra de ouro. está sem discurso. o riso não veio. você que faz versos. a luz apagou. cuspir já não pode. protesta? e agora. sua biblioteca.josé E agora. José? e agora. o dia não veio. já não pode fumar. seu ódio — e agora? . está sem carinho. a noite esfriou. já não pode beber. que ama. José? Sua doce palavra. José? E agora. que zomba dos outros. não veio a utopia e tudo acabou e tudo fugiu e tudo mofou. seu instante de febre. o povo sumiu. a noite esfriou. o bonde não veio. você? você que é sem nome. José? A festa acabou. sua incoerência. José? Está sem mulher.

você marcha. quer morrer no mar. sem cavalo preto que fuja a galope. mas o mar secou. José! José. você é duro.. quer ir para Minas. se você gemesse. se você cansasse. José. sem teogonia. se você tocasse a valsa vienense. José! Sozinho no escuro qual bicho do mato. Minas não há mais. e agora? Se você gritasse. sem parede nua para se encostar. não existe porta.Com a chave na mão quer abrir a porta.. se você morresse. Mas você não morre. para onde? . se você dormisse.

mas a água parte-se. com uma dor! A casa não dorme. os livros. irreparável. Oh vamos nos precipitar no rio espesso que derrubou a última parede entre os sapatos. indo até os cofres. sinistra. a água protesta. estupefata. as gargantas. E sobre nossos corpos se avoluma o lago negro de não sei que infusão.noturno oprimido A água cai na caixa com uma força. o horror da água batendo nos espelhos. Ela molha toda a noite com sua queixa feroz. seu alarido. É o sentimento de uma coisa selvagem. Mas não é o medo da morte do afogado. Os móveis continuam prisioneiros de sua matéria pobre. . lamentosa. as cruzes e os peixes cegos do tempo.

Nem ensaboar. O sabão é ruim. Eu seguia. que se pode pegar e levar à boca ou prender à nossa num desses momentos em que dois se confessam sem dizer palavra. Preciso cortá-la. Ai. suja há muitos anos.. poli-a. A mão está suja. O nojo era um só. por fim. Cristal ou diamante. escovei-a. quem o saberia? Gente me chamava na ponta do gesto. por maior contraste. . ou mesmo. quantas noites no fundo da casa lavei essa mão. duro. mão limpa de homem. Não adianta lavar. uma simples mão branca. A água está podre. quisera torná-la. A princípio oculta no bolso da calça. E vi que era igual usá-la ou guardá-la.a mão suja Minha mão está suja.. A mão escondida no corpo espalhava seu escuro rastro.

a esperança e seus maquinismos. Não era sujo preto — o preto tão puro numa coisa branca. E era um sujo vil. casca de ferida. Era um triste sujo feito de doença e de mortal desgosto na pele enfarada. sujo de carvão. cardo. suor na camisa de quem trabalhou. não sujo de terra.A mão incurável abre dedos sujos. Inútil reter a ignóbil mão suja posta sobre a mesa. Era sujo pardo. pardo. fazê-la em pedaços e jogá-la ao mar! Com o tempo. cortá-la. . outra mão virá pura — transparente — colar-se a meu braço. Depressa. tardo.

Não era dia nem noite. Aqui havia uma casa. Tantos mortos amontoados. F. No deserto de Itabira as coisas voltam a existir. Suspiro? Voo de pássaro? Porém nada dizia. O mercado de desejos expõe seus tristes tesouros. Pisando livros e cartas. Tanto tempo perdido. Porém nada dizia. Há um abrir de baús e de lembranças violentas. Suas histórias de amor. Sua roupa. Seus papéis de circunstância. meu anseio de fugir.viagem na família No deserto de Itabira a sombra de meu pai tomou-me pela mão. remorso. A rua que atravessava a cavalo. viajamos na família. o tempo roendo os mortos. de galope. Porém nada dizia. umidade. Longamente caminhamos. A montanha era maior. Porém nada dizia. irrespiráveis e súbitas. Porém nada dizia. DE ANDRADE . A RODRIGO M. Seu relógio. mulheres nuas. E nas casas em ruína desprezo frio.

A sombra prosseguia devagar aquela viagem patética através do reino perdido. incompreensão e mais de uma velha revolta a dividir-nos no escuro. rangendo sedas na alcova. o prato que me negaram. Puxava pelo casaco que se desfazia em barro. Gritei-lhe: Fala! Minha voz vibrou no ar um momento. Porém nada dizia. Pelas mãos. recusa em pedir perdão.Casamentos. Porém ficava calada. Fala fala fala fala. obscuro instinto movia sua mão pálida sutilmente nos empurrando pelo tempo e pelos lugares defendidos? Olhei-o nos olhos brancos. Que cruel. Porém nada dizia. pelas botinas prendia a sombra severa e a sombra se desprendia sem fuga nem reação. minha avó traída com as escravas. Vi mágoa. Terror noturno. E eram distintos silêncios . a tia louca. bateu nas pedras. Porém nada dizia. os primos tuberculosos. Orgulho. hipotecas. A mão que eu não quis beijar.

de pungente amor. a sua falta de beijos. Só hoje nos conhecermos! Óculos. Era meu avô já surdo querendo escutar as aves pintadas no céu da igreja.que se entranhavam no seu. para lá de setenta anos. memórias. e nesse abraço diáfano é como se eu me queimasse todo. retratos fluem no rio do sangue. a minha falta de amigos. a família. Senti que me perdoava porém nada dizia. A pequena área da vida me aperta contra o seu vulto. As águas cobrem o bigode. .. tudo.. As águas já não permitem distinguir seu rosto longe. Itabira. eram nossas difíceis vidas e uma grande separação na pequena área do quarto.

posfácio josé e algumas de suas histórias JÚLIO CASTAÑON GUIMARÃES .

constavam os títulos dos quatro livros. Ao mesmo tempo. intitulada Poesias. apareceu de forma bastante reservada. além de uma pequena ilustração de autoria do próprio capista). contudo.1 José seria regularmente identificado como o pequeno livro situado entre Sentimento do mundo e A rosa do povo. Fazendeiro do ar (publicado no volume Fazendeiro do ar & Poesia até agora. tivera uma tiragem de apenas 150 exemplares. em que ainda relata que apanhou uma gripe na época do trabalho e que o pequeno pagamento recebido foi tristemente providencial — “o dinheirinho chegou na hora: paguei com ele o médico e a farmácia”. Independentemente dessas circunstâncias. e que depois se integrariam a Lição de coisas) e Viola de bolso II. distribuídos pelo autor aos amigos. que tinha despojada capa de autoria de Santa Rosa (em azul-pálido. de 1954) e A vida passada a limpo (publicado em Poemas. de suas dimensões. E no ano mesmo de Poesias. José & outros reunia ainda alguns livros que também não haviam tido edição autônoma — Novos poemas (publicado no volume Poesia até agora. quando de sua primeira edição. é uma das mais belas joias do lirismo moderno em português. uma etapa decisiva na obra drummondiana — uma ruptura com a . observações de dois críticos — bem distintas. como ele próprio disse num depoimento. não se mencionando assim “livro”. O novo livro compunha-se de apenas doze poemas. ainda que por oposição aos outros dois livros. a importante editora em que ele publicaria ao longo de mais de quarenta anos. Poesias constituía a entrada de Drummond na José Olympio. Drummond traduz Thérèse Desqueyroux (Uma gota de veneno). Sentimento do mundo. de François Mauriac. Esse volume reunia os livros anteriores já publicados — Alguma poesia. mas como parte da primeira reunião da obra poética de Carlos Drummond de Andrade até então. Brejo das almas e Sentimento do mundo — e o inédito José. Mas há de certo modo um outro lado. agrupados ao final do pequeno volume. como se verá). representa. mas apenas aqueles poemas que eram acrescentados ao conjunto já existente. de modo sumário. paralelamente ao recato de José (relativo. com frequência foi tentador sua caracterização como um livro que. Assim. além de 4 poemas (anteriormente publicados na Antologia poética. Nas abordagens de José. Da folha de rosto. a publicação na grande editora assinalava significativa etapa no reconhecimento da atuação do poeta mineiro — já instalado na capital federal desde 1934 como chefe de gabinete do ministro da educação e saúde. E essa situação editorial não está inteiramente desligada da leitura do livro. pois não saiu como livro autônomo. No entanto. “movido por necessidade do vil metal”. de 1940. mas que interessam aqui até por isso mesmo — podem constituir excelentes aproximações a José. em 1942. de 1948). o título e o nome da editora. E se compreende o fato de não ter edição autônoma em função. o livro imediatamente anterior. Tendo apenas doze poemas. isso como que acarreta a necessidade de enfatizar sua individualidade e suas características próprias.1 Já foi observado várias vezes que o livro José. José Guilherme Merquior diz que “o quarto livro de Carlos Drummond de Andrade. Só em 1967 veio a ter uma edição em que aparecia como título do volume — José & outros. provavelmente. de 1959). José (1942). e na orelha se referia que aquele volume incluía “mais doze poemas novos”. traz as marcas do anterior e anuncia o seguinte. lançada em 1962.

outros ainda se dividem em estrofes regulares. da harmonia. o que é um tanto diferente.3 Na verdade.4 Aí se está no plano da fatura dos poemas. no entanto. Sobretudo. trabalho do qual. é na verdade em outra direção que vai sua abordagem. por meio daquilo com que ele rompe. o uso de ritmos constantes e até uma sobriedade linguística (relativa). a tensão. estimula a lembrança da proposição feita por um outro crítico. mas por enquanto. aqui. essa perspectiva pode ser relativizada. para reativar o “estilo mesclado”. o que. Esse aspecto. por meio de uma qualificação que pode ter a ver com sua pouca extensão — uma joia —. e uma parte considerável é constituída por poemas um pouco maiores. do classicismo. De fato. onde todas as tensões se resolvem dentro da harmonia total”. há em todos os planos entre “Áporo” e “Carta a Stalingrado”. pelo menos em parte. salienta-se seu caráter. Não há diferenças enormes entre eles. um momento do equilíbrio e perfeição clássicos. outros a algum tipo de metro. No conjunto. E é a identificação desse ponto de ruptura que permite a Merquior avançar em sua compreensão de José. sobretudo.6 Seria possível coadunar essa mescla e a percepção da sobriedade. assim visto. ao considerar que essa ruptura não ocorre no nível temático. Diversos poemas recorrem a um verso curto. o que não impede que ele detecte “aspectos importantes do conjunto da produção drummondiana e traços gerais da fisionomia do poeta”. também curto. não pode dar conta da particularidade da sua poesia. da proposição contida no comentário de Merquior. Como adiante se verá. que não se oporia tanto à percepção da “tensão” na perspectiva da abordagem de Merquior. da perfeição? De início. não há níveis muito diferentes de linguagem — “sobriedade linguística (relativa)”. como é o caso de certos temas. vai em sentido oposto: “Por causa da confiança e do controle tão claramente evidenciados nestes poemas. se poderia entender que ocorre em situações de outros níveis. nem de sua evolução ao longo dos anos”. pelo menos de início. Gledson refere “o domínio das formas mais longas. mas o fato é que aí não parece haver mudanças e oposições tão significativas. a mescla deveria ser procurada no nível linguístico. e que essa tensão poderia ser vista entre os elementos do estilo mesclado. por meio do termo “tensão” que John Gledson salienta a peculiaridade do livro. se .5 Observa Arrigucci que essa mescla implica “usos variáveis da linguagem” e que pede um exame detalhado dos textos. por exemplo. todos aproximadamente da mesma extensão e não muito longos (como se irá encontrar a seguir em A rosa do povo). todos apontam para este ideal”. Merquior não se ocupa. como diz Gledson. de modo a universalizar o que antes se dava numa dimensão individualista e. é possível depreender. em A rosa do povo. é tentador para o crítico concluir que José é uma realização sui generis. levaria então a indagar em que nível estaria a mescla a que se refere Merquior como característica explicativa desse momento da poesia drummondiana. do equilíbrio. Extraída de Erich Auerbach e aplicada abstratamente a fases e modalidades da linguagem de Drummond. do modo como. está no âmbito do equilíbrio. da perfeição.evolução coroada por Sentimento do mundo”. Partem de pontos de vista distintos e adotam distintos procedimentos — mas nem tanto. segundo ele. mas no de um estilo que diminui as “tonalidades românticas” presentes no lirismo social de Sentimento do mundo. pelo menos à primeira vista. Embora se possa considerar que é. que. É a esse propósito que Davi Arrigucci adverte: “não parece aceitável a visão esquemática da mistura de estilos.2 Referindo a qualidade do livro. salvo engano. aqui. em especial no tocante a José. embora não chegue a ser o oposto.

no contexto paródico destes versos do “Edifício Esplendor”: “Oh que saudades não tenho/ de minha casa paterna”. “caos lírico”. de qualquer modo as relações entre os diversos livros mostram. para sustentar a proposição de Merquior./ Um homem pequenino à beira de um rio”). Novos poemas. nos termos propostos por Gledson. E preservam também o contato com o “meu coração não é maior que o mundo” de “Mundo grande” (Sentimento do mundo). estaria também nas relações entre esses livros e no processo de sua sucessão. a par da “unidade estruturada” de cada um deles. em A rosa do povo. e que constitui outro elemento de tensão do livro. vale a pena relembrar as qualificações de Mário de Andrade a propósito de Sentimento do mundo em carta a Drummond de 15 de agosto de 1942: “dor paroxística”. certas constantes compositivas. a organização. dois grandes poemas — “Consideração do poema” e “Procura da poesia”.” — como preanunciadores discretos dos poemas sociais e políticos que fariam parte de A rosa do povo (lembre-se o início de “América”: “Sou apenas um homem.”) no poema “Viagem na família”. José também incorpora outras linhas temáticas. que. a visão apresentada por Gledson. e também um volume pequeno. de um todo dotado de certa organicidade ou regularidade. mas entre dois momentos bem distintos da poética de Drummond. embora seu núcleo seja o indivíduo. faz o trânsito não só entre dois livros./ de dois milhões de habitantes. a ela se refere para enfaticamente ressaltar que não se pode deixar de ver os Novos poemas como “unidade estruturada”. tal como vista por Mário de Andrade. surgindo de modo mais evidente em “Noturno oprimido”./ estou sozinho no quarto. com alguma cautela. é possível lembrar a situação de Novos poemas. . Em José. mas também de um poema como “Palavras no mar”. Para ter noção do impacto de José. para além de cada um dos livros.mesmo uma tentativa de análise em detalhe talvez não chegue a fornecer material suficiente. de A rosa do povo. o livro que se segue a A rosa do povo. Talvez sua pequena extensão favoreça isso (embora não obrigatoriamente). no que se pode compreender como a resolução de tensões de que Gledson fala. como deixa entrever Arrigucci. No entanto. num caso como noutro. Essa linha propiciará. Diante desses casos em que se identificam contatos entre um livro e outro./ estou sozinho na América. No limitado conjunto de poemas. como a da história familiar (“No deserto de Itabira/ a sombra de meu pai/ tomou-me pela mão. Na elaboração da poesia drummondiana. ao contrário. é possível ler os primeiros versos iniciais do poema “A bruxa” — “Nesta cidade do Rio.7 É grande a oposição entre essa lírica exaltada. “desespero paroxístico”. e a sobriedade assinalada por Gledson. imprime-se um controle e uma orientação de natureza diversa tanto a novos temas quanto àqueles provenientes de etapas anteriores. por exemplo. com coincidentemente o mesmo número de poemas. “impressionante estado lírico”. o que tem a ver com uma certa unidade já referida. Outra linha temática é a da consideração sobre o fazer poético — é o caso em especial do poema “O lutador”. Este se encontra com frequência diante de obscura ameaça que o aflige. A situação foi abordada por Vagner Camilo. porém. parece dar conta mais eficazmente da articulação dos componentes do livro. mas se poderia pensar também que. a par de sua autonomia. Tendo se seguido a ele Claro enigma. uma espécie de recuperação crítica que constitui como que a grande abertura da exploração da memória na obra do poeta. essa linha desponta também.8 É similar a situação de José.

Nele se faz uma defesa da mineiridade. O outro verso. saído em A Manhã de 12 de dezembro de 1941. Num artigo intitulado “Recado ao poeta”. tornou-se praticamente expressão corrente da língua. foram publicados anteriormente na imprensa. supondo definir um estado de alma personalíssimo. E não só isso. mesmo em sua brevidade. é consonante com boa parte das tentativas de interpretá-lo. apesar da discrição de José. José?”. aí se tem o início da recepção do poema. De qualquer modo. o artigo em sua maior parte constitui na verdade um comentário a partir justamente do verso “Minas não há mais”. Têm. Um é “Minas não há mais”. somando-se à recepção antecipada. aspecto forte na poética de Drummond. me visita”. como de resto ocorreu com boa parte dos poemas de todos os livros de Drummond. o que viria a acontecer pouco depois em Autores e Livros em 11 de janeiro de 1942. tornando-se verdadeiras sentenças. versos que entraram em circulação independentemente dos poemas a que pertencem. tornaram-se expressões correntes. pois constituem como que uma suma do trabalho de escrita ou da prática literária. sinalizando todo o interesse que viria a despertar. como que sinaliza o destino do poema. Trata-se claramente de uma situação no âmbito da legenda em torno da mineiridade. É o caso de “O lutador”. que oscilou entre a constatação desalentadora do verso “Itabira é apenas uma fotografia na parede” (do poema “Confidência do itabirano”. Desse modo. 11 de agosto de 1942. o poeta. esses dois poemas. por meio de uma espécie de contra-argumentação em que se chama a atenção do poeta para aspectos a partir dos quais se poderia discordar da declaração feita pelo poema. como sempre. É claro que é carregando com ele todo o contexto do poema que o verso alcança essa situação. A área de circulação desses versos seguramente é mais limitada que a do outro caso. Datada do Rio de Janeiro. sua fortuna crítica poderia ter tido início antes da publicação do livro — poderia ter começado com a publicação na imprensa. Se José saiu abrigado numa edição de conjunto da obra. Afonso Arinos de Melo Franco faz comentários ao poema. de fato. A posição de angustiosa expectativa diante de um mundo que se esboroa à nossa roda. de fato o mais conhecido. em termos . está. metáfora para toda situação de derrocada. no caso especificamente de “José”. seus doze poemas isoladamente. porém. Trata-se de um episódio que permite também avaliar a repercussão do poema e que. uma carta de Villa-Lobos enviada a Drummond. “José”. Todavia. Sentimento do mundo) e a imprecação em “Prece de mineiro no Rio” (A vida passada a limpo) — “Espírito de Minas. pois provavelmente é sobretudo a do próprio universo literário. numerosas vezes. Na verdade.2 No entanto. “E agora. traduzindo na língua incisiva e desdenhosa do verso uma posição que é de quase todos nós. Essa compreensão do poema. Já terão sido usados como epígrafe. começa até antes. e assim do livro. o autor do artigo faz um bom sumário inicial de um poema que viria a ter tanta repercussão e a ser objeto de tantas análises: “Nele. por exemplo.9 saudava o volume Poesias. Dois de seus versos. Há ainda pelo menos uma interpretação de outra natureza. Referindo-se à “plenitude” do poeta. sem que possamos intervir eficazmente em nada”. cujos primeiros versos dizem: “Lutar com palavras/ é a luta mais vã”. aí mencionado como inédito e prestes a ser publicado. pelo menos. O outro caso é justamente o do poema que dá título ao livro. frases feitas. pelo menos dois de seus poemas estão entre os mais conhecidos de Drummond.

para canto e piano. a louça quebrou. na época da peça de Villa-Lobos se tratava também. havia composto uma peça com o poema “Cantiga de viúvo”. ainda não havia sido publicado na imprensa. o garfo entortou. mas recebi as mais sólidas ‘ações’ de uma alma de aço bom e duradouro”. e “José”. a voz que propõe a indagação. a mão bobeou. 3 . em 1943. Com o texto do primeiro compôs uma peça intitulada “Poema de Itabira”. Em 1926. o próprio autor contribuiu. já com o texto do segundo compôs “José (quadrilha caipira humorística)”. mas o que vem ao caso é que a “imaginação de artista” de fato foi tocada pelo menos por dois poemas. José? Por bem ou por mal. a pergunta do poema ocorre algumas vezes de modo jocoso. num tom em que o poema entra como elemento jocoso. para cuja fortuna. o texto começa com uma referência ao poema que pressupõe ser este amplamente conhecido e como que escrito por outrem: “No alto da escada metálica. em crônicas de Drummond muito posteriores ao livro de 1942. para lembrar o comentário do talvez primeiro crítico do poema. vai me dizer que horas são?”. para coro masculino a capela. 22 de abril de 1975). a primeira vez que Villa-Lobos musicava texto de Drummond. pois o resto se esfuma. Esse tom de humor acompanhará de vez em quando o poema. entretanto. Até parece continuação daquele poema ‘José’”. como a fortuna do poema mostrará. Será esta apenas uma entre muitas possibilidades. em especial no caso do poema “No meio do caminho”. Já na crônica “Uri Geller e o garfo” (Jornal do Brasil. além disso. É certo que há uma grande distância entre o tom desse poema de reflexão reavaliadora e o tom ligeiro das crônicas citadas. portanto. De forma similar a esse tratamento. As duas crônicas abordam fatos do cotidiano. em 1944. No campo de sua poesia. o prato caiu. E ainda vale atentar para a qualificação da peça — “quadrilha caipira humorística”. pois pouco depois o compositor os poria em música — “Viagem na família”. e aí a música dá grande ênfase ao verso célebre. a recepção dos dois poemas se faz de modos diferentes./ uma pedra que havia em meio do caminho”. que introduz um matiz forte. termina de modo indagador: “E agora. numa autoparódia frequente em Drummond. Logo a seguir o compositor como que anunciava: “Sou feliz por isto e a minha imaginação de artista vai saborear alguns dos teus pensamentos”. de Claro enigma: “De tudo quanto foi meu passo caprichoso/ na vida. Assim.drummondianos: “Não ganhei um presente de ‘minérios’. já na década de 1970. Lembrando que o poema viria a fazer parte em 1930 de Alguma poesia. Essa peça foi dedicada ao coral norte-americano Yale Glee Club. para voz e orquestra. que se apresentara no Brasil e que tinha em seu repertório peças de Villa-Lobos. não afasta a gravidade da proposição. seja coletiva — é como se um indivíduo a que se propõe a indagação ouvisse toda uma coletividade confrontá-lo com o esboroamento do mundo. restará. o qual. No caso de “José”. Não era. parece. pode-se considerar que o fato de se tratar de uma composição para coro implica uma certa leitura do poema. banalidades. de poema inédito em livro e que. 17 de julho de 1976). A crônica intitulada “O homem é um animal que pergunta” (Jornal do Brasil. ele fez algumas vezes citações de seus próprios textos. que é referido de modo explícito em “Legado”. Implica pelo menos que a voz do poema. A carta mencionava também o caráter “modesto” do título do livro. porém. nessa perspectiva. tendo como subtítulo “Viagem na família”.

esse material é constituído por ataques e pilhérias. a recepção do poema foi recolhida pelo autor num volume organizado por ele próprio. Todavia. “No esporte”. como este é especialmente representativo do movimento. ingenuidade e provincianismo que nortearam os debates de parte a parte”. o livro tem o subtítulo Biografia de um poema. desse livro pode ser aproximado um outro. inclusive de “José”: “Outro motivo da repercussão do poema terá residido no fato de ele sintetizar num só verso. “Na política” e assim por diante —.16 Murilo Mendes só não sinaliza que não é de modo algum da mesma maneira que os dois poemas perduram na memória das pessoas. reúne a recepção imediata da Semana. Numa espécie de biblioteca da recepção do modernismo. Como diz a organizadora de 22 por 22. “pela leitura desses artigos percebe-se que não houve discussões aprofundadas sobre arte moderna”. material de imprensa publicado no ano de sua realização. O desconhecimento da obra do autor se amplia graças à repercussão negativa do poema. aproxima-o de outros casos. mas.13 Se esse livro expõe a incompreensão no nível do movimento. 22 por 22. que tratam do poema às vezes de modo mais extenso. às vezes numa simples menção. José?’ do próprio Drummond e o ‘Vou-me embora pra Pasárgada’ de Bandeira. como ‘E agora. de Carlos Drummond. Intitulado Uma pedra no meio do caminho. Entre uma repercussão positiva e outra negativa. como no caso deste trecho de Fernando Sabino: “Carlos Drummond de Andrade. ainda que em . sendo objeto de ataques e ironias. em sua maioria saídos na imprensa. ficou tanto quanto o ‘I-Juca-Pirama’”. mas que apenas o citam nos mais diversos contextos — “Na administração pública”. Também avaliando sua repercussão. o que se vê no conjunto dos dois livros é um longo percurso de resistência à inovação. “Das incompreensões”.15 O comentário não é negativo em relação ao poema de Drummond. ao elencar motivos da repercussão do “poema da pedra”. Está organizado em seções com títulos que procuram identificar o tipo de material ali reunido: “Reação pelo ridículo”. o de Drummond o faz no nível mais delimitado de um texto. mas evidentemente negativo em relação à recepção. Há também uma seção em que se reúnem textos que não tratam do poema. Murilo Mendes o compara com outro caso: “E essa história de que ninguém se recorda dos poemas modernistas não é verdadeira.17 Talvez outros exemplos pudessem ser acrescentados. Organizado por Maria Eugenia Boaventura. num livro como noutro. “Na arte”. que tem como subtítulo A Semana de Arte Moderna vista pelos seus contemporâneos. haverá numerosos matizes. toda uma situação-limite”. o que atesta sua ampla circulação. “Popularidade mesmo negativa” e assim por diante. O poema foi regular e insistentemente ridicularizado.No caso de “No meio do caminho”. que além disso sinalizam a ampla difusão do poema. A pedra no meio do caminho.14 De fato. na “biografia” de “No meio do caminho” há alguns comentários não negativos. os comentários em sua maioria ficam no nível da reação imediata. “Muita gente irritada”. entre a galhofa e a irritação. continua sendo para grande parte do público brasileiro apenas o autor do poema da pedra no meio do caminho”.10 Em seu texto de apresentação. depois de vinte anos de domínio do verso e de evolução poética. “Na moda”.12 O livro reúne textos. Arnaldo Saraiva. No geral. A organizadora aponta que o material “mostra o grau de preconceito. o crítico literário português Arnaldo Saraiva refere-se ao poema como “pomo da discórdia modernista-antimodernista” 11 e à “popularização polêmica do poema de Drummond”.

diferentes atividades. assim como lembra que o poema passou a ser ridicularizado sobretudo a partir da década de 1940. e que seria possível escrever uma história do poema segundo essa perspectiva. Um simples passar de olhos por esses títulos levanta a suspeita de que há algo de diferente entre os dois livros. sua adoção é obviamente sua aprovação. justamente na área da educação. o do segundo livro. No primeiro caso. também apenas reúne e organiza um conjunto de dados. Na verdade.níveis ligeiramente distintos. essa recepção foi quase exclusivamente negativa. quando Drummond ocupava um importante cargo na administração federal. a proposição simples e a repetição — não deviam parecer elementos próprios do que se considerava poesia segundo os padrões tradicionais. Do mesmo modo.18 Divide-se também em várias seções. o poeta passar a ser conhecido. mas o uso que se passa a fazer da indagação do poema é suficientemente significativa. como diz a folha de rosto. um instante de franco deboche. pelo menos em termos. que tem como título E agora. sua compreensão. a todo momento e a qualquer propósito. de modo bem claro. tem uma pretensão maior. que de fato se realiza como apenas uma soma de dados sobre o poema. não seria uma solução” do “Poema de sete faces” (Alguma poesia). indica que o livro constituiria um relato. para a compreensão de textos tão diferentes como todos esses mencionados. porém. e que. outro dado. os elementos que possibilitariam a posterior elaboração de uma “história social” do poema. a construção direta. 4 A repercussão de “E agora. no de “José” não se encontra esse tipo de reação. com a publicação em 1942 . ao fato de que o percurso do poema passa por diferentes áreas da sociedade. O que nesses poemas os tornavam especialmente provocadores de tais reações? No caso de “No meio do caminho” se poderia pensar que a reação estivesse no âmbito da resposta ao modernismo — o que parece pelo menos em parte plausível. “elementos para a história social de um poema”. José” levou Drummond a realizar um trabalho similar ao que havia realizado com “No meio do caminho”. os dois poemas tiveram recepção muito distinta. Com essa expressão provavelmente se estaria referindo. a citação do poema era. cujos títulos identificam o material nelas reunido. porém. além disso. contando com explicações específicas e às vezes bem diferentes para sua repercussão. Certos elementos de sua constituição — as palavras correntes. podem contribuir. Organizou um livro composto com textos que mostram tanto as reações ao poema quanto os usos a que o poema se prestou. Há. Além das diferenças na perspectiva de abordagem dos dois poemas que se verifica na recolha de sua fortuna. Se no caso de “No meio do caminho”. Trata-se de um conjunto de cerca de 170 laudas datilografadas ou com recortes nelas colados preservado no arquivo do poeta na Fundação Casa de Rui Barbosa e até hoje inédito. José? e como subtítulo Elementos para a história social de um poema. como do próprio Drummond os versos “se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima. “uma biografia”. Cada um desses casos tem aspectos próprios. os subtítulos são bastante diferentes. Enquanto o do primeiro livro. pelo menos de início e de forma imediata. que é o fato de. por essa época. Talvez não se encontre uma manifestação claramente positiva em relação ao poema (fora do âmbito da crítica literária). Arnaldo Saraiva fala desse aspecto. em retorno. Trata-se de uma “montagem de textos”. há o fato anterior de que.

Respondi a um e a outro que infelizmente o poema de José não figura em nenhum de meus livros”. O poema chegou a funcionar como modelo para peças publicitárias. de modo que os dois poemas passam a provocar simultaneamente reações distintas. período em que muitos outros livros de Drummond haviam sido publicados. como bom garçom. que o poema e sua história acabam por constituir em personagem. seu tio. cerca de vinte anos passados da publicação inicial do poema. este informa que o jornalista José Guilherme Mendes pensava que o verso “E agora. quando a orquestra tocou. a reação ao cargo e à notoriedade do poeta só explicaria parcialmente a situação. até então seus livros haviam saído em pequenas edições — a publicação de “No meio do caminho” na Revista de Antropofagia e em Alguma poesia provavelmente não o tornaria amplamente conhecido. do julgamento por assassinato. ontem. acumulada dentro da pia. num bar da praça Tiradentes. de Décio . entre reconhecimento truncado de autoria e reconhecimento suficiente para que a paródia funcione como propaganda. José?’ [sic]. Mas pensou errado.das poesias reunidas. José terá que botar a coisa em pratos limpos. Todavia. Foi depositar 3 mil cruzeiros no banco. Viu que um homem corria na sua direção: “É um assalto” — pensou. munido de um revólver. não atrasa. está a própria identidade do nome José. E agora? O tempo devia parar quando você sorriu. O policial Juarez julgou que José era um ladrão e acabou baleado. E mandou bala. Juarez está fora de perigo e José. um personagem ao qual se poderia atribuir uma biografia banal. Nesses casos. Não para. quando o amor existiu. mas houve uma situação em que esteve realmente associado a um episódio que ocupou as páginas policiais dos jornais sensacionalistas da época. Ocorre que essa década de 1940 é também a época da publicação de “José”. em plena avenida Presidente Wilson. Esta é uma passagem de crônica originalmente publicada no Jornal do Brasil. Como nos filmes. José? como “equívocos de autoria”. José de Tal. Mas o tempo é inexorável. em 1954. de muitos dias. Já uma vez. há o que o próprio Drummond registrou nos originais de E agora. Igualzinho ao Seiko Eletrônico. também. Diz uma delas: Foi preso. Aí se encontram notícias variadas sobre situações do cotidiano envolvendo pessoas chamadas José. inclusive edições de poesias reunidas. José?” fosse de autoria de Murilo Mendes. “José” aparece no relato dos fatos. em 27 de julho de 1960. Assim. surpreso. pois não se tratava de publicações com larga circulação. ou a biografia de todo mundo. o amor se achegou e o tempo não passou. O relógio que funciona com uma bateria que só se troca de ano em ano. Num trecho de Fernando Sabino. por parte do próprio autor. No Distrito. em Belo Horizonte. Uma delas anuncia um relógio: A surdina tocou. que lavava louça com água suja. como se vê em algumas incluídas na seção “José circula entre anúncios”. um transeunte me deteve para fazer a mesma pergunta. Além disso. está na seção “A vária sorte dos Josés”. Outra diz: José Paula Pimentel. ou seja. Um indício de sua compreensão nesse sentido. não adianta. Trata-se. Também Manuel Bandeira relata episódio de atribuição equivocada: “Apareceu às tantas um rapaz perguntando a Glauce em que livro meu estava o poema ‘E agora. não teria como responder à pergunta de Drummond de Andrade. a luz ofuscou.

Raimundo?”. Em algumas edições posteriores. mas dirigida a outro personagem: “e agora. Na primeira edição em livro. No poema de Murilo. “teorizava” sobre a relação entre o cotidiano recolhido pela imprensa e a poesia — o fait divers e a poesia unidos pelos linotipos. há alguns outros casos de personagens que se tornaram conhecidos. vê-se. Quem ouvir a peça de Villa- . Para quem não tem nome. se teria um exemplo de como a poesia poderia ser insuflada na vida. no seu “Poema tirado de uma notícia de jornal”. prosaica. tendo sido recolhido por Drummond em duas seções de seu livro — em “José perante a justiça” e em “Equívocos de autoria”. Anos antes. meu amigo?” ou “E agora. dos braços. no caso. Irene é descrita. nesse caso do “José”. este era seguido por interrogação similar. Um fator importante para a situação de “José” é sem dúvida. Quando no meio da primeira estrofe aparece pela segunda vez o verso “e agora. heterogênea e fugaz como a matéria jornalística”. a propósito de qualquer protagonista. Na poesia brasileira. da Irene do poema “Irene no céu” de Manuel Bandeira (em Libertinagem). Raimundo?”. mas a propósito de algo que não é próprio dele. que ela pode circular fora de um certo âmbito próprio e até ser apropriada pelos meios de comunicação. diz Arrigucci: “Pressupõe que a poesia possa ser tirada de algo. a indagação é dirigida a José. por exemplo. como referido por Arnaldo Saraiva. ficaram duas interrogações: “e agora. surge para compor uma sequência de três interrogações uma outra que se dirige a um terceiro personagem: “e agora. Agora. em qualquer contexto. não tanto como elementos de uma descrição. o poema sendo incorporado pela vida. Drummond. a eficácia de sua criação sendo relida pelo fait divers. José?/ e agora. a pergunta se torna geral. A indagação “E agora?” pode ser considerada a parte nuclear do verso. pois um jornalista atribuiu o poema ao próprio Décio Escobar. tem-se como que um caminho inverso — a notoriedade de seu poema. Irene está integrada a uma ação. O episódio foi muito noticiado. É o caso. “Poema do jornal”. como um ready made um tanto às avessas. Com isso. diplomata e poeta. é todo mundo. corrente. Podem-se imaginar muitos modos mais ou menos plausíveis de compreender a formulação — a indagação é dirigida a José. Joaquim?”. porém. Joaquim?/ e agora. numa retomada do nome notório do “Poema de sete faces” (Alguma poesia). o poema e o mundo giram à volta de Jandira. não é ninguém. graças a sua precisa caracterização. A prática mais notória encontra-se na obra de Manuel Bandeira. Sobre ele. José não precisa ser caracterizado. de uma coisa tão cotidiana. num poema de Alguma poesia.19 Seria muito provavelmente um exagero pensar que. ou da Jandira do poema homônimo de Murilo Mendes (de O visionário). minha gente?”. o nome corrente é adequado para essa função — “E agora. a propósito dele próprio. ao recolher essas notícias. José?/ e agora. inesperadamente. aplicável a qualquer situação. Houve algumas modificações nas diferentes edições do poema que podem ser relacionadas com sua compreensão. mas. é qualquer um. sua característica é essa falta. Permite-se até mesmo um deslizamento entre uma perspectiva angustiosa de impasse e uma simples dúvida jocosa. Na brevidade do poema de Bandeira.Escobar. ao contrário. mas como componentes de sua presença demiúrgica. dos seios. o nome “José” é o elemento que encaminha uma certa formulação para pergunta. como diz o poema. em especial com a da figura de José. José é só uma fórmula. dos olhos de Jandira. ou melhor. José?”. que ao sair do julgamento recitou o “José” de Drummond. a síntese realizada pelo verso que se tornou corrente.

mostra a insistência na busca de generalizar a situação de desamparo exposta ao longo do poema. Raimundo ainda aparecia. juntamente com Joaquim. imediatamente lhe ocorre que seria mais válido tratar do mundo. 5 É este também um dos raros casos em que a referência a “José” se dá numa dimensão sombria. nele. por mais díspares que às vezes possam parecer e mesmo que aqui e ali não passem de mera curiosidade. Ela faria então parte de uma estratégia em outro sentido? Se poderia falar numa dessubjetivação para a criação desse personagem que é qualquer um? Em geral as referências feitas ao personagem José se dão na perspectiva do caráter geral da situação e do sujeito que perde a individualidade. será como resultado de algo anormal.21 É provável que seja mesmo assim no poema. Nessa seção se encontra um trecho de Franklin de Oliveira. de uma crise. Carlos. assim como José aparecia — ao lado de Helena. porém. ou da aproximação entre o individual e o coletivo. “Não se mate” (Brejo das almas). com dois outros nomes já presentes em outros poemas e que desaparecem na versão final de “José”. Tanto que deu a uma das seções de sua coletânea sobre “José” o título de “Crises de subjetivismo em José”. como o rosto de alguém que fosse morrer. usou essa versão — versão que assim persiste graças à música de Villa-Lobos. São elementos das tensões que percorrem o livro. o “Quadrilha” (Alguma poesia). não importa saber até que ponto autobiográfica”.Lobos irá notar que Raimundo e Joaquim ali ficaram definitivamente integrados à música. José?’”. tendo composto sua peça pouco após a primeira edição do livro. em outro poema. as “inquietudes”. “O passarinho dela” (Brejo da almas). Sebastião e Artur — em “Aurora” (de Brejo das almas). Merquior observa: “Não é à toa que no poema ‘José’ a apresentação do eu (bem variada. um livro com algumas sombras. publicado originalmente na revista O Cruzeiro de 31 de agosto de 1946: “A face solitária da noite. são como que espécies de fragmentos de leitura do poema. se . É provável que também o autor visse a coisa assim. como vimos) escolhe enfim o emprego da persona: ‘José’ é a máscara de um eu tornado genérico. Há. imediatamente identificável ao homem da rua”. Concentrando-se num único nome. na formulação de Antonio Candido: “se aborda o ser. “Os últimos dias” (A rosa do povo). como a do pai em “Viagem na família” e a do entardecer em “Tristeza no céu”. de uso de outros nomes. pois o compositor. Essa oscilação. volta-se para mim e interroga citando Carlos Drummond de Andrade: ‘E agora. prática bastante rara que. essa outra situação. Cita então “Poema de sete faces” (Alguma poesia). Vários elementos da recepção do poema “José”. Referindo-se a uma “subjetividade tirânica. também frequente.20 Antonio Candido lembra que Drummond “usa várias vezes o seu nome. talvez seja devida ao exemplo de Mário de Andrade”. se ocorre de haver subjetivismo. que por sua vez podem sobretudo conectar-se numa ou noutra direção com diferentes fragmentos de leitura do conjunto do livro. pois o que está mais claro é o mundo à volta em derrocada. no que não se está muito distante do conjunto do livro. “Carrego comigo” (A rosa do povo). para indicar o personagem dos poemas. Associando um lado e outro. o poema provavelmente ganhou em incisividade. Ou seja. É assim o caso dessa “face solitária da noite” tão distante daquela “quadrilha humorística”.

13 BOAVENTURA. p. seria possível dizer.. 22 “Inquietudes na poesia de Drummond”. Rio de Janeiro: Editora do Autor. 52. 12. 7 FROTA. 1990. A reescrita de “José” referida acima. ainda que lateralmente. que melhor fora limitar-se ao modo de ser”. 8. p. até a melancolia. pode. 16 Ibid. tanto nas crônicas de sabor ligeiro quanto ao recolher a recepção e ao comentá-la em certos momentos com alguma irrisão.. Marly de Oliveira. 2. Vagner. 113. p. Coração partido. A poesia de Manuel Bandeira. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi. de componentes circunstanciais. p. Lélia Coelho (org.. ed. Biografia de um poema. Uma pedra no meio do caminho. 1967. na sua concisão. p. 1995. uma visita: exposição comemorativa do centenário de Carlos Drummond de Andrade”. p. p. mesmo depois da publicação do poema — e reescrita não de detalhes. Uma análise da poesia reflexiva de Drummond. uma visita”. José Guilherme. 6 Ibid. 19. 2002. Correspondência completa entre Carlos Drummond de Andrade (inédita) e Mário de Andrade. José é assim também um claro exemplo da realização poética drummondiana na unidade de cada texto. 10 ANDRADE. p. 2168. 1976. São Paulo: Cosac Naify. “Inquietudes na poesia de Drummond”. Poesia e poética de Carlos Drummond de Andrade. 17. “Drummond. 2001. 2002. É notável a conformação desses elementos na unidade do livro José — a harmonia a que se refere Gledson — e mesmo. p. Drummond: da rosa do povo à rosa das trevas. e montagem). De modo mais ou menos explícito. p. 1981. Carlos & Mário. A Semana de Arte Moderna vista pelos seus contemporâneos. 58. 22 por 22. ser aproximada da retomada que Drummond faz de seu livro. 5 ARRIGUCCI JR. In: ———. 12 Ibid. 18 Cf. pp. 52. . passando pela ironia. paixão e morte. 480-1. 159. 89. 4 Ibid. Vários escritos. 2000. p.aborda o mundo. 18. 19 ARRIGUCCI JR. São Paulo: Duas Cidades. São Paulo: Duas Cidades. São Paulo: Companhia das Letras. “Drummond. 3. 57. 1998. p. na concatenação do conjunto de poemas e na articulação dos sucessivos livros.. e Inventário do arquivo Carlos Drummond de Andrade. São Paulo: Edusp. 112. Antonio...). Arnaldo Saraiva. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa. 20 CANDIDO. 14 Ibid. John. 17 Ibid. Humildade. v.). Apres. mas de um aspecto central —. Cotia: Ateliê. Verso universo em Drummond. e ampl. Rio de Janeiro: José Olympio. p. Trad.22 Para não falar das gradações de tonalidade — do humor. p. p. 11 Ibid. 60. 100. o poema é reescrito e relido pelo poeta no desenrolar do conjunto de sua produção. p. 2 MERQUIOR. 12. 9 Depositada no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa (RJ). 30. Maria Eugenia (org. Rio de Janeiro: Fundação Casa de Rui Barbosa. 21 Verso universo em Drummond. p. rev. Davi. ed. p. 15 Uma pedra no meio do caminho. 8 CAMILO. 2002. Davi. 461. 3 GLEDSON. 1 Cf.. Carlos Drummond de (sel.

de François Mauriac. 1917 De volta a Itabira. ocupa o posto de redator e depois redator-chefe do Diário de Minas.. da Secretaria de Educação. que morre meia hora depois de vir ao mundo. Conhece Gustavo Capanema e Afonso Arinos de Melo Franco. de Simões dos Reis. Volta a Belo Horizonte e. nono filho de Carlos de Paula Andrade. 1929 Deixa o Diário de Minas e passa a trabalhar no Minas Gerais. 1934 Volta às redações: Minas Gerais. Emílio Moura. 1943 Sua tradução de Thérèse Desqueyroux. Mário Casassanta. passa a lecionar geografia e português em Itabira. Emílio Moura e Gregoriano Canedo — do lançamento de A Revista. 1916 É matriculado como aluno interno no Colégio Arnaldo. no Rio de Janeiro. secretário do Interior. habitués da Livraria Alves e do Café Estrela. 1933 Redator de A Tribuna. na prestigiosa Editora José Olympio. 1910 Inicia o curso primário no Grupo Escolar Dr. Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral. 1919 É expulso do colégio em consequência de incidente com o professor de português. 1931 Morre seu pai. Interrompe os estudos por motivo de saúde. Frequenta a vida literária de Belo Horizonte. o irmão Altivo publica o seu poema em prosa “Onda”. 1935 Responde pelo expediente da Diretoria-Geral de Educação e é membro da Comissão de Eficiência do Ministério da Educação.. Aníbal Machado. 1928 Nascimento de sua filha. 1937 Colabora na Revista Acadêmica. Motivo: “insubordinação mental”.. 1927 Nasce em 22 de março seu filho. Carvalho Brito. como auxiliar de redação e. Batista Santiago. e não se adaptando à vida rural. Amizade com Milton Campos. 1941 Mantém na revista Euclides. Mário de Andrade. 1925 Casa-se com Dolores Dutra de Morais. órgão oficial do estado.. cujo curso concluíra no ano anterior. Publica Brejo das almas (duzentos exemplares) pela cooperativa Os Amigos do Livro. 1924 Conhece. 1922 Seu conto “Joaquim do Telhado” vence o concurso da Novela Mineira. fazendeiro. que publica seus trabalhos. pouco depois. 1926 Sem interesse pela profissão de farmacêutico. 1940 Publica Sentimento do mundo. Transfere-se para o Rio de Janeiro como chefe de gabinete de Gustavo Capanema. Heitor de Sousa e João Pinheiro Filho. Publica “No meio do caminho” na Revista de Antropofagia. Torna-se auxiliar na redação da Revista do Ensino. Trava contato com Álvaro Moreyra. Participa — juntamente com Martins de Almeida. novo ministro da Educação e Saúde Pública. no Grande Hotel de Belo Horizonte. colabora na Aurora Colegial. Alberto Campos. Diário da Tarde. de Itabira. João Alphonsus. Carlos Flávio. . vem a lume sob o título Uma gota de veneno. assinada por “O Observador Literário”. sai com quinhentos exemplares sob o selo imaginário de Edições Pindorama. distribuindo entre amigos e escritores os 150 exemplares da tiragem. seu livro de estreia. de Murilo Miranda. Villa-Lobos compõe uma seresta sobre o poema “Cantiga de viúvo” (que iria integrar Alguma poesia. por iniciativa de Alberto Campos. em 31 de outubro. na cidade de Itabira do Mato Dentro (MG). 1920 Acompanha sua família em mudança para Belo Horizonte. 1923 Ingressa na Escola de Odontologia e Farmácia de Belo Horizonte. Pedro Nava. e Ilustração Brasileira. 1944 Publica Confissões de Minas. Estado de Minas. Gabriel Passos. em Nova Friburgo. Blaise Cendrars. que regressam de excursão às cidades históricas de Minas Gerais. 1918 Aluno interno do Colégio Anchieta da Companhia de Jesus. 1921 Publica seus primeiros trabalhos no Diário de Minas.. Maria Julieta. Assume o cargo de auxiliar de gabinete de Cristiano Machado. de Eduardo Frieiro. redator. a seção “Conversa de Livraria”. 1942 Publica Poesias. dando início à carreira escandalosa do poema. Colabora no suplemento literário de A Manhã. 1930 Alguma poesia. Acompanha Gustavo Capanema durante os três meses em que este foi interventor federal em Minas. simultaneamente. Passa a oficial de gabinete quando seu amigo Gustavo Capanema assume o cargo. Abgar Renault. toma aulas particulares com o professor Emílio Magalhães.cronologia 1902 Nasce Carlos Drummond de Andrade. No único exemplar do jornalzinho Maio. e Julieta Augusta Drummond de Andrade. diretor de Para Todos. em Belo Horizonte. de São Paulo. seu livro de estreia).

1958 Uma pequena seleção de seus poemas é publicada na Argentina. de Molière. José & outros. após 35 anos de serviço público. Na mesma hora. pela Aguilar. Na capital portenha aparece o volume Dos poemas. recebendo por esta novamente o Prêmio Padre Ventura. vasto mundo (Buenos Aires) e Fyzika Strachu (Praga). Contos de aprendiz e A mesa. e Les fourberies de Scapin. Colabora em Política e Letras. de Marcel Proust. na Divisão de Estudos e Tombamento. desliga-se da sociedade por causa de atritos com o grupo esquerdista. Trabalha na Diretoria do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (DPHAN). 1949 Volta a escrever no Minas Gerais. Acompanha o enterro de sua mãe. Sua filha. de Balzac. Uma pedra no meio do caminho: biografia de um poema. da Rádio Ministério da Educação. onde mais tarde se tornará chefe da Seção de História. Aparecem as traduções de L’oiseau bleu. no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. É publicada sua tradução de Les paysans. 1948 Publica Poesia até agora. 1953 Exonera-se do cargo de redator do Minas Gerais ao ser estabilizada sua situação de funcionário da DPHAN. à biblioteca de Plínio Doyle. pela qual recebe o Prêmio Padre Ventura. mantida até 1969. O livreiro Carlos Ribeiro publica edição fora de comércio do Soneto da buquinagem. 1946 Recebe o Prêmio de Conjunto de Obra. Sai sua tradução de Albertine disparue. casa-se com o escritor e advogado argentino Manuel Graña Etcheverry e vai morar em Buenos Aires. da Sociedade Felipe d’Oliveira. na Rádio Ministério da Educação. 1951 Publica Claro enigma. Nasce em Buenos Aires seu neto Pedro Augusto. Dá início à série de crônicas “Imagens”. 1955 Publica Viola de bolso novamente encordoada. 1966 Publicação de Cadeira de balanço e de Natten och Rosen (Suécia). pelo livro Lição de coisas. 1954 Publica Fazendeiro do ar & Poesia até agora. em diálogo com Lia Cavalcanti. Contudo. de Maeterlinck. de Villa-Lobos. 1965 Publicação de Antologia poética (Portugal). 1960 É publicada a sua tradução de Oiseaux-Mouches Ornithorynques du Brésil. Afasta-se meses depois por discordar da orientação do jornal. Aposenta-se como chefe de seção da DPHAN. Carlos Manuel. Ganha os palcos a sua tradução de Doña Rosita la Soltera. amendoeira e Ciclo. 1952 Publica Passeios na ilha e Viola de bolso. Recebe. Sai em Cuba a edição de Poemas. figura como codiretor do diário comunista Tribuna Popular. da União Brasileira de Escritores. de Laclos. a partir do seu poema “Viagem na família”. os prêmios Fernando Chinaglia. Colabora no suplemento literário do Correio da Manhã e na Folha Carioca. Inicia o programa Cadeira de Balanço. 1959 Publica Poemas. 1972 Publica O poder ultrajovem. Poesie (Alemanha). Deixa a chefia do gabinete de Capanema e. Publica Reunião (dez livros de poesia). de Descourtilz. 1968 Publica Boitempo & A falta que ama. e Luísa Cláudio de Sousa. 1961 Colabora no programa Quadrante.1945 Publica A rosa do povo e O gerente. 1971 Publica Seleta em prosa e verso. Morre seu irmão Altivo. a convite de Luís Carlos Prestes. . terra e alma). 1957 Publica Fala. de García Lorca. juntamente com outros companheiros. Com Manuel Bandeira. A série de palestras “Quase memórias”. 1956 Publica Cinquenta poemas escolhidos pelo autor. 1962 Publica Lição de coisas. é executado o “Poema de Itabira”. 1970 Publica Caminhos de João Brandão. edita Rio de Janeiro em prosa & verso. Vai a Buenos Aires para o nascimento do seu neto Luis Mauricio. Mundo. no Correio da Manhã. Início das visitas. In the middle of the road (Estados Unidos). Suas sete décadas de vida são celebradas em suplementos pelos maiores jornais brasileiros. 1950 Viaja a Buenos Aires para acompanhar o nascimento do primeiro neto. O volume Poemas é publicado em Madri. Colabora em Pulso. de Knut Hamsun. Antologia poética e A bolsa & a vida. Minas Gerais (Brasil. do pen Clube do Brasil. Colabora em Mundo Ilustrado. 1967 Publica Versiprosa. 1964 Publicação da Obra completa. Participa do movimento pela escolha de uma diretoria apolítica na Associação Brasileira de Escritores. em Itabira. aos sábados. Maria Julieta. ou La fugitive. evento mais tarde batizado de “Sabadoyle”. 1969 Passa a colaborar no Jornal do Brasil. 1963 Aparece a sua tradução de Sult (Fome). é veiculada pela Rádio Ministério da Educação. 1947 É publicada a sua tradução de Les liaisons dangereuses.

Recusa por motivo de consciência o Prêmio Brasília de Literatura. Muito abalado. Encerra sua carreira de cronista regular após 64 anos dedicados ao jornalismo. La bolsa y la vida (Buenos Aires) e Réunion (Paris). Publicação de Fran Oxen Tid (Suécia). A PolyGram lança dois LPs com 38 poemas lidos pelo autor. Recebe o título de doutor honoris causa pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte. pela Estação Primeira de Mangueira. 1983 Declina do Troféu Juca Pato. sinal estranho (edição de arte).1973 Publica As impurezas do branco. 1982 Aniversário de oitenta anos. lança O pipoqueiro da esquina. É publicada na Bulgária uma antologia intitulada Sentimento do mundo. Lançamento comercial de Contos plausíveis. 1975 Publica Amor. reunião de pequenas histórias selecionadas em seus livros de crônicas. Sai também seu livro Esquecer para lembrar. em edição fora de comércio.. Sofrendo de insuficiência cardíaca. Poemas (Holanda) e Fleur. Publica O marginal Clorindo Gato e 70 historinhas. O observador no escritório. e Morgado Mateus (Portugal). 1987 É homenageado com o samba-enredo “O reino das palavras”. No dia 5 de agosto morre sua filha. Sai a edição inglesa de The minus sign. morre em 17 de agosto. Discurso de primavera e Os dias lindos. que se sagra campeã do Carnaval. revista e atualizada. 1974 Recebe o Prêmio de Poesia da Associação Paulista de Críticos Literários. pela Editora Nova Aguilar. 1978 A Editora José Olympio publica a segunda edição (corrigida e aumentada) de Discurso de primavera e algumas sombras. 1980 Recebe os prêmios Estácio de Sá. 1979 Publica Poesia e prosa. 1984 Publica Boca de luar e Corpo. vítima de câncer. 1985 Publica Amar se aprende amando. vida. 1981 Publica. . Publicação de A paixão medida. Edição inglesa de Travelling in the family. Com Ziraldo. A Biblioteca Nacional e a Casa de Rui Barbosa promovem exposições comemorativas. Recebe o Prêmio Nacional Walmap de Literatura. passa catorze dias hospitalizado. Contos plausíveis. poesia. da Fundação Cultural do Distrito Federal. de poesia. téléphone et jeune fille. Sai no México a edição de Poemas. Publica A lição do amigo. 1986 Publica Tempo. Amar-Amargo e El poder ultrajoven saem na Argentina. Menino antigo. (França). 1977 Publica A visita. Publica Nova reunião e o infantil O elefante. amores. En Rost at Folket (Suécia). História de dois amores (infantil) e Amor. Maria Julieta. de jornalismo. The minus sign (Estados Unidos)..

com.blogdacompanhia. cj. que entrou em vigor no Brasil em 2009.com.carlosdrummond.com.br Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa de 1990. Rua Bandeira Paulista.A.Carlos Drummond de Andrade © Graña Drummond www.br www. 32 04532-002 — São Paulo — SP Telefone (11) 3707-3500 Fax (11) 3707-3501 www.companhiadasletras. 702.br . CAPA E PROJETO GRÁFICO warrakloureiro ESTABELECIMENTO DE TEXTO Antonio Carlos Secchin PREPARAÇÃO Léo Rubens REVISÃO Huendel Viana Jane Pessoa ISBN 978-85-8086-320-8 Todos os direitos desta edição reservados à EDITORA SCHWARCZ S.