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Arnoldo Wald
Advogado e Professor Catedrático de Direito Civil da UERJ.

2
20.ª edição
com a colaboração dos Professores
SEMY GLANZ
ANA ELIZABETH LAPA WANDERLEY CAVALCANTI e
LILIANA MINARDI PAESANI

2011

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ISBN 978-85-02-07000-4  obra completa
volume 2
ISBN 978-85-02-13234-4 
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Filiais

Wald, Arnoldo, 1932Direito civil : direito das obrigações e teoria geral dos
contratos, 2 / Arnoldo Wald ; com a colaboração dos professores
Semy Glanz, Ana Elizabeth Lapa Wanderley Cavalcanti e Liliana
Minardi Paesani. – 20. ed. – São Paulo : Saraiva, 2011.

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1. Contratos - Brasil 2. Obrigações (Direito) - Brasil I.
Glanz, Semy. II. Cavalcanti, Ana Elizabeth Lapa Wanderley.
III. Paesani, Liliana Minardi. IV. Título.

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1. Brasil : Direito das obrigações : Direito civil 347.4(81)
2. Brasil : Obrigações e contratos : Direito civil 347.4(81)

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Data de fechamento da edição: 20-4-2011
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PRINCIPAIS TRABALHOS
JURÍDICOS DO AUTOR

Rui Barbosa e a Administração Pública, monografia classificada em concurso do
DASP, Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1950.
A evolução do direito e a absorção da administração privada pela Administração
Pública, Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1953.
A influência do direito francês sobre o direito brasileiro no domínio da responsabi­
lidade civil, obra premiada pelo governo francês, com carta-prefácio do Prof.
J. P. Niboyet, Rio de Janeiro, 1953.
O mandado de segurança, publicação do DASP, com prefácio do Min. Cunha Vasconcelos, Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1955.
La evolución de la teoría de los derechos de vecindad, Cuadernos de Derecho Fran­
cés, 1955.
La responsabilidad civil del patrón por actos de sus dependientes en el derecho
brasileño y en el derecho comparado, Boletín del Instituto de Derecho Compa­
rado de México, maio 1956.
A adoção e as suas transformações no direito civil contemporâneo, Rio de Janeiro,
1957.
A cláusula de escala móvel, São Paulo: Max Limonad, 1956; 2. ed., Rio de Janeiro:
Ed. Nacional de Direito, 1959.
Aplicação da teoria das dívidas de valor às pensões, decorrentes de atos ilícitos,
Rio de Janeiro: Ed. Nacional de Direito, 1959.
Do desquite, Rio de Janeiro: Ed. Nacional de Direito, 1959.
Desenvolvimento, revolução e democracia, Rio de Janeiro: Fundo de Cultura,
1966.
Imposto de Circulação de Mercadorias, Rio de Janeiro: Forense, 1967.
O mandado de segurança na prática judiciária, 2. ed., Rio de Janeiro: Ed. Nacional
de Direito, 1958; 3. ed., Rio de Janeiro: Forense, 1968; 4. ed., Rio de Janeiro:
Forense, 2003.
Correção monetária, em colaboração com Mário Henrique Simonsen e Julien Chacel, Rio de Janeiro: APEC, 1970.
Estudos e pareceres de direito comercial, 1.ª série, São Paulo: Revista dos Tribunais,
1972; 2.ª série, São Paulo: Revista dos Tribunais, 1978.
A OAB e o Projeto de Código Civil no Senado Federal, publicação do Conselho
Federal da OAB, 1984.
A proteção jurídica do “software”, em colaboração com Orlando Gomes e outros,
Rio de Janeiro: Forense, 1985.

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A empresa no terceiro milênio: aspectos jurídicos. Milão: CEDAM. São Paulo: Ed. 2. 1990.º Ciclo de Direito Econômico. Neutralidade dos planos econômicos para os agentes financeiros. 19. ed. Direito civil: contratos em espécie.. 2010. ed. 2005. São Paulo: Saraiva. v.. v. Direito Civil . em coautoria com Hely Lopes Meirelles e Gilmar Ferreira Mendes. Aspectos polêmicos da ação civil pública. O novo direito monetário. coordenação do Autor. ed. Direito das concessões. Comentários ao novo Código Civil: do direito de empresa. em coautoria com Bénédicte Fauvarque-Cosson. Direito civil: introdução e parte geral. Direito civil: direito das sucessões. publicação da ABECIP. São Paulo: Saraiva. 3 v. O direito de parceria e a nova lei de concessões. in Aspectos Jurí­ dicos e Econômicos do Crédito Imobiliário e da Poupança (Seminário). 2002. São Paulo: Revista dos Tribunais. 5. siècle: aspects de droit comparé. 2. v. in Il diritto dei nuovi mondi. 4. 2004. 2007. ed. 1996... 3. A atividade de crédito imobiliário e poupança: aspectos jurídicos. 1994. 2010. 13. 2. Escola Nacional da Magistratura. 2010. 14.001-020. Rio de Janeiro: Forense. v. Mandado de segurança e ações constitucionais. 1997. vários estudos em colaboração com Ives Gandra Martins e outros. L’arbitrage en France et en Amérique Latine à l’aube du XXIe. São Paulo: Saraiva. 18. 2005. 2. São Paulo: Saraiva... Belém: Cejup. 6. Direito civil: direito de família. d’aujourd’hui et de demain. ed. ed. 1. 12.). São Paulo: Malheiros. com prefácio do Presidente da República Fernando Henrique Cardoso.. 2010. ed. 538p. 1993.. 33.. 1. 2010.indd 6 25/4/2011 15:16:50 . publicação da ABECIP. 1994. ed. 1999. São Paulo: Saraiva. 2005. São Paulo: Saraiva. 2010. em colaboração com Camille Jauffret-Spinosi (dir. v. Belo Horizonte: Ciência Jurídica. Paris: Société de Législation Comparée. São Paulo: Saraiva. 1996. Le droit brésilien d’hier. 2008. São Paulo: Saraiva.6 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Questões de responsabilidade civil. v. 2004. São Paulo: América Jurídica. (Série Grandes Pareceristas). 2010. O Plano Collor e a evolução da jurisprudência. Direito civil: direito das obrigações e teoria geral dos contratos. Juarez de Oliveira. ed.Direito das Obrigacoes . v. Direito civil: direito das coisas. publicação do IBCB. ed. 19. Il diritto dell’economia e il diritto dello sviluppo in Brasile.. Paris: Société de Législation Comparée. São Paulo: Malheiros. 19.

À minha mulher. magistrados.Dedico este curso. que espero.Direito das Obrigacoes .ª edição. MARC e BELA WALD. presença constante. JÚLIA CARLOS JOÃO PEDRO ARNOLDO RAFAEL JOSÉ ANTONIO JOSÉ LUIZ ALEXANDRE DANIEL RAUL Aos meus colegas.001-020. ALEXANDRE ARNOLDO FILHO MARIA AMÉLIA HELOISA e aos meus netos. sem a qual este livro não teria sido escrito.indd 7 25/4/2011 15:16:50 . que me transmitiram o amor pela justiça e me ensinaram a lutar pelo Direito. um dia. que há meio século passou a fazer parte integrante da minha vida. para os quais redigi e atualizei o Curso e que me deram a alegria e satisfação de lê-lo e de aplicar as suas lições na vida e na militância forense. estudantes e leitores em geral. carinhosa e construtiva. advogados. professores. que fizeram com que este livro chegasse à sua 20. à memória dos meus pais. HELOISA. Aos meus filhos. Direito Civil . possam vir a lê-lo.

Direito das Obrigacoes .indd 8 25/4/2011 15:16:50 .001-020.Direito Civil .

para que. porque é obra simples. não se afastem da vida. despretensioso. a cria.001-020. Tem as qualidades de que falamos acima. Além disso. sem a mecânica repetição dos textos legais e sem exibição de fundo erudito.Direito das Obrigacoes . O Curso há de ser breve. O Direito serve à vida: é regramento da vida. o livro do professor há de ser preciso. Pontes de Miranda Direito Civil . claro. leva os alunos ao exame de acórdãos. Por outro lado. estudantes ou não. Os cinco volumes do Curso de Direito Civil Brasileiro. com os livros. de certo modo.indd 9 25/4/2011 15:16:50 . É criado por ela e.CARTA-PREFÁCIO DE PONTES DE MIRANDA Para os estudantes. são obra útil e eficiente para todos os leitores. com ressalvante logicidade e convicção. há de atender a que os que vão ler não podem dispensar informes que seriam supérfluos em obras para discussão de doutrina em aprofundantes monografias. mas uniforme para que a exposição ocorra. de Arnoldo Wald.

Direito Civil .indd 10 25/4/2011 15:16:50 .Direito das Obrigacoes .001-020.

atualizando a obra e sedimentando a doutrina já existente na matéria.Direito das Obrigacoes . que entendemos merecer uma obra à parte. não estaria completa. portanto. doutrinária e jurisprudencial. Essa cisão teve como escopo a melhor adequação do volume à prática acadêmica de separação das matérias.NOTA À 20. passados mais de cinco anos de vigência do Código Civil. se não tratasse dela. mais recentemente.ª edição aprofundamos o estudo das linhas gerais do direito obrigacional e contratual.ª EDIÇÃO Esta edição do nosso Curso está reformulada. dada sua importância. Dois volumes adicionais estão sendo elaborados: um sobre a Responsabilidade Civil. fizemos algumas alterações de forma e metodologia. e. Além da atualização legislativa. Não poderíamos ter realizado este trabalho sem a colaboração que já tínhamos e continuaremos a ter do Professor e Desembargador Semy Glanz. e outro sobre o Direito de Empresa.indd 11 25/4/2011 15:16:50 .001-020. tendo sido dividido o antigo volume de Obrigações e Contratos. uma vez que a matéria foi incluída no Código Civil e. das Professoras Liliana Minardi Paesani e Ana Elizabeth Lapa Wanderley Cavalcanti da FMU. O presente volume é específico sobre a Teoria Geral das Obrigações e dos Contratos. Um exemplo dessas alterações foi a inclusão de um quadro-resumo ao final de cada capítulo. nossa coleção. Realizamos essa atualização e reformulação com a colaboração de jovens professores cuja boa experiência prática e didática muito contribuiu para o resultado final. que Direito Civil . visando tornar a obra mais eficiente para a consulta de profissionais e de acesso mais fácil aos estudantes de direito. Nesta 20. por semestre. bem como facilitar o manuseio da obra por estudantes e profissionais.

Diretor da Faculdade de Direito da FMU. tivemos o apoio decisivo do Professor Paulo Hamilton Siqueira Jr.12 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS nos apresentaram os quadros sinóticos e sugestões interessantes.indd 12 25/4/2011 15:16:50 . em grande parte. a atualização construtiva da obra. às quais devemos.001-020. Direito Civil . Na reorganização da coleção. Na revisão das provas.Direito das Obrigacoes .. contamos com o apoio constante e construtivo da equipe da Saraiva.

.......................................................1.... Vínculo obrigacional........................................... Carta-Prefácio de Pontes de Miranda .......................... 3......... 4......... Débito e responsabilidade............................ Acepções da obrigação........ 7..... Posição do direito das obrigações na sistemática do di reito privado...............SUMÁRIO Principais trabalhos jurídicos do autor .........................................indd 13 36 36 36 38 25/4/2011 15:16:50 ........ 6......... Unificação do direito das obrigações pelo novo Código Civil............ 5 9 11 Teoria Geral das Obrigações Capítulo 1 CONCEITO DE OBRIGAÇÃO 1.........................................2......................................................................................... Conceito e elementos..ª edição ................................ ................................................ 2..................................... Nota à 20................. 2..................................... 23 23 25 26 27 27 29 Capítulo 2 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES 1....................... Evolução histórica............. 2... Obrigações naturais...001-020.. 2................................. Unificação.........................Direito das Obrigacoes ..... Características.................................................................. Crédito e débito................... 5.. Direito Civil ............................. Importância e características.......

............ 3...... Solidariedade passiva.................................... 1................................................. Obrigações conjuntivas e alternativas............ 8.... Obrigações positivas e negativas.................. Características da prestação............................................. 6. 9.............................. Obrigações de não fazer.................................. 2................ Sujeitos da obrigação: credor e devedor......................................Direito das Obrigacoes ..2...............1.................. Obrigações de dar coisa certa e coisa incerta...... Importância do estudo das fontes ou causas das obrigações. O “Plano Real” ... 3...... 5.... Obrigações com faculdade de substituição.................... Fontes ou causas das obrigações no direito romano e no direito estrangeiro............ Obrigações conjuntas... 9. Obrigações de dar e de fazer... Direito Civil ...... 7........ Solidariedade ativa.................................. 9...................3.................................................................................. 9.. 75 76 77 78 79 81 83 Capítulo 5 FONTES DAS OBRIGAÇÕES 1............ 4.....................1............................................................. 2. Dívidas de valor........ 42 44 44 50 54 55 58 59 62 64 65 68 71 Capítulo 4 CLASSIFICAÇÃO DAS OBRIGAÇÕES PELOS SUJEITOS 1............. Obrigações propter rem ou reais.. Obrigações solidárias... 2......................................... O combate à inflação e os planos monetários........ Pluralidade de credores e devedores............................................................... 6....... 5.... Obrigações ambulatórias.............................001-020.................indd 14 91 91 25/4/2011 15:16:50 ........................ Cobrança de débitos em juízo..........................................4........... Obrigações em dinheiro e dívidas de valor........ 9........... Obrigações divisíveis e indivisíveis.........14 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Capítulo 3 CLASSIFICAÇÃO DAS OBRIGAÇÕES PELO OBJETO 1.......... 4.........

............ 2............ 3..3.. 5.. Mora do credor.............................. 1....................... 6.............. Capacidade para pagar e receber.... Consignar é faculdade.................1..................... 1............... 334 a 345 do CC e 890 a 900 do CPC)...................... 4.................1..... Casos de consignação...................................1.......... Purgação da mora......... 5.... 6........ 100 102 103 103 106 108 110 110 112 113 114 115 117 117 118 Capítulo 7 MODALIDADES DE PAGAMENTO E OUTROS MEIOS DE EXTINÇÃO DAS OBRIGAÇÕES 1.......... Consignação de coisa certa ou corpo certo...................... 5........... Pagamento em consignação (arts............... Mora do devedor.indd 15 124 124 125 129 130 131 131 132 132 25/4/2011 15:16:50 . não dever........ Lugar e tempo do pagamento....................... 1.. 1..................................1............ 6....... Lugar do pagamento...1.......................... 1..................2..... 1.....1..................................................... Capacidade para pagar...1.................. Objeto do pagamento e sua prova.......................................... Vencimento antecipado........................................... Consignações de prestações periódicas...3.....................3. Regras sobre levantamento.1.......................2.... 1........ 6............................... Execução da obrigação............... Conceito...............4. Dúvida quanto ao credor...............2.................................... Direito Civil ...........5.......... Casos especiais................... 6..........7.. 3..................... Fontes das obrigações no direito brasileiro .6..Direito das Obrigacoes ..............4.......... 15 95 Capítulo 6 EXECUÇÃO DA OBRIGAÇÃO: PAGAMENTO 1.......................... Tempo do pagamento......................... Inadimplemento e mora... Escolha de coisa indeterminada pelo credor. 1............ Capacidade para receber......... Moeda...............................1.......1....... 5.. Pagamento total e parcial...2..... 3.......................................001-020..SUMÁRIO 3..................1.........1...

....... 368 a 380)...................... ...... 1.... Noções gerais....... 385 a 388)........................ Preferência.................................................... 2..................Direito das Obrigacoes .. 10........................................... Imputação do pagamento (arts................. Pagamento com sub-rogação (arts......... Elementos..................... Sub-rogação pessoal..... Casos de culpa presumida............................ 7............1.....indd 16 169 171 172 173 25/4/2011 15:16:50 .... 133 133 134 134 134 134 136 136 137 137 137 137 138 138 139 139 140 140 141 142 144 145 146 150 Capítulo 8 DA INEXECUÇÃO DAS OBRIGAÇÕES 1........ Conceito......... Conceito (arts..........1.................................. 5....................... Sub-rogação real.......... 8. Compensação..........5......................... 2.. Direito Civil ................................................................. 2............ Da inexecução das obrigações........................................ Conceito.............. 2........................2.......4.............. 6....... Espécies............... 1.........4.......................... 840 a 850)....3. 2...........3........ 5...............................001-020............ Espécies... Conceito (arts....... 5..................................................................... Sucedâneos de pagamento........ 381 a 384).......... 3.................... 3................... 2..........2. 5................... Remissão de dívida (arts........................... 5..................... Confusão (arts......................... 2............2.. Mora intercorrente na consignação em pagamento............... Da convenção de arbitragem: cláusula compromissória e compromisso arbitral ......... 4....................................................... Limites................................. Responsabilidade contra tual..... Responsabilidade civil...........1............ Transação (arts.......... 352 a 355)..................1........ 4....................1..8..............2......... 2.............1............ Dação em pagamento (arts............... 2....... Efeitos... 9..1... 360 a 367)........ 346 a 351 do CC) ....................... 356 a 359)....... 2........................................... Caso fortuito e força maior..................... Revelia ou recebimento pelo credor........ Conceito................2.. Novação..1....................16 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 1.........2.............

............. 6........................................................................... 5........................................ 4.....1.......... Juros......... Privilégios..................001-020... História................................ Cessão de crédito......... Conceito....................................................... Responsabilidade objetiva.................... 4.................... Direito Civil .................... 4. 5........................................................................... Espécies....... Revogação dos atos praticados em fraude contra credores...........................SUMÁRIO 2......4.......... Casos especiais....... Cláusula penal....... Evolução legislativa ....... Direito de retenção.......... 2......... 5........ 5........... 2............. 2..... 6.................... 2..................................... 2.............................. Natureza jurídica da cessão de crédito e da assunção de dívida......... Perdas e danos..indd 17 212 213 214 215 217 218 25/4/2011 15:16:50 ............................................. Espécies: moratória e compensatória (art... Distinções.............. Classificação......................... 3................. Bens intransmissíveis.............................................................................2........................... 6..............)............ 2..3.................................. 191 192 193 194 194 195 196 199 202 205 207 Capítulo 10 TRANSMISSÃO DAS OBRIGAÇÕES 1.......................................................... ........................2..... Caso especial de proteção do crédito .......................................................................... Constituição de 1988............................1....... Dano patrimonial e moral....... 5.................................................................... 3.................... conservatórias e meios de execução.......1. 5....... Efeitos e limites. 3............Direito das Obrigacoes ......................................3..... 5......................... 409)......... 417 e s........ Arras ou sinal (arts. Tutela do crédito: medidas preventivas.... Formas e efeitos da cessão... Responsabilidade do cedente........................................................................4...2........... 17 174 175 178 181 181 182 182 183 Capítulo 9 GARANTIAS DO CRÉDITO 1..........

.. A evolução do contrato e o Código Civil ............. 227 229 231 235 236 239 240 Capítulo 12 ELEMENTOS DO CONTRATO 1.......... A internacionalização do contrato..................... 271 2..................................1........................................................... ......... Elementos essenciais: capacidade. 2. 3...... Forma e prova dos contratos........... 2....................... Interpretação dos contratos.................... Contratos unilaterais......... Do lugar da formação dos contratos.......... Noção de contrato e evolução histórica...................... objeto e consentimento.............. obrigatoriedade dos contratos e a boa-fé...... 2............. Contratos entre ausentes. Policitação e efeitos. supremacia da ordem pública.......... Princípios básicos do direito contratual: autonomia da vontade............ O princípio da boa-fé......... Assunção de dívida ou cessão de débito .... 275 Direito Civil .3......................001-020.................indd 18 25/4/2011 15:16:50 .. 2.......1............. Interferência do Estado nos contratos................ 219 Teoria Geral dos Contratos Capítulo 11 O CONTRATO — GENERALIDADES 1...... Diversidade de critérios para a classificação dos contratos...................................2...1.... Interpretação e direito do consumidor . 2........ 5...... 4. Contratos gratuitos e onerosos...18 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 6..................... 272 3............................... Formação do contrato: proposta e aceitação.... 255 258 259 260 262 262 263 267 Capítulo 13 CLASSIFICAÇÃO DOS CONTRATOS 1....... 2....................... 4... Concepção clássica do contrato.......1.......................... 4............2. bilaterais e plurilaterais... 3..... Teorias.........Direito das Obrigacoes ......... 2..

. 8............................. 10.... Contrato consigo mesmo ou autocontrato....... Contrato com pessoa a declarar ..... 12...... Direito Civil ........ 4. Contratos preliminares....1. Contratos conexos....... 4............3........................ 4.....................2................ formais e consensuais.... 8...... Contrato obrigatório................................... Contratos instantâneos.......... 19 278 282 283 284 285 287 289 290 291 295 299 300 300 300 301 301 Capítulo 14 EFEITOS DOS CONTRATOS 1.... 313 314 315 318 318 Capítulo 15 A TEORIA DA IMPREVISÃO E A REVISÃO CONTRATUAL 1............................... 11...... Contratos civis e comerciais e a unificação do direito das obrigações..................... 12..................... 12....................6............ A cláusula rebus sic stantibus no direito estrangeiro...............................5....... 7. Contratos reais.. continuados e diferidos......................... ..................... 12. Efeitos dos contratos quanto a terceiros.................... A teoria da imprevisão no direito brasileiro............................ Teoria da imprevisão e dívidas de valor....indd 19 320 324 328 337 25/4/2011 15:16:50 ........... Contratos evolutivos....... Contratos concluídos por terceiros...... Subcontrato.. 3.............1..........................001-020........ Evolução doutrinária do contrato........... Contratos por tempo determinado e indeterminado.. Estipulação em favor de terceiro...... 2..........SUMÁRIO 4................................ 12.................... 2................................... 5......................... grupos de contratos e contrato quadro................4.............. Contratos de massa........................... atípicos e mistos........... 12................1........ Contratos de consumo................. 12............. Contratos típicos.........Direito das Obrigacoes ................................................ Promessa pelo fato de terceiro........... Contratos individuais e coletivos................... 9....................... Contratos de adesão.............. Contratos eletrônicos .............................................. 6... 3...................

............... 5.........................Direito das Obrigacoes .......................... Alteração................... ............. Conceito e histórico.....................3............ Regulamentação no direito civil brasileiro........ Ineficácia em sentido estrito.................................20 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 5.... .............................................. 361 364 365 371 Capítulo 18 ALTERAÇÃO.................... 3......... 3.............1...................................................... Responsabilidade pela evicção. 3.... Prazos do Código Civil............................................................................ Extinção dos contratos.......001-020. 3.......... INEFICÁCIA E EXTINÇÃO DOS CONTRATOS 1................. 2........................... Classificação................ 3..........indd 20 373 374 374 376 376 25/4/2011 15:16:50 ....................... Ineficácia.......... 2........ Ineficácia em sentido amplo............... A proteção do consumidor..............1................ Prazos de decadência e prescrição no Código de Defesa do Consumidor ............. 2.............................................................. Conceito................................ 3.... 3............... 339 Capítulo 16 DOS VÍCIOS REDIBITÓRIOS 1......................... 343 346 352 353 355 357 Capítulo 17 DA EVICÇÃO 1........................................ 4............... Direito Civil ......................................... As modificações da estrutura do contrato .... Jurisprudência .......... Problemas processuais..........................2................

021-381.indd 21 25/4/2011 15:18:42 .tEORIA GERAL DAS OBRIGAÇÕES Direito Civil .Direito das Obrigacoes .

Direito Civil .Direito das Obrigacoes .021-381.indd 22 25/4/2011 15:18:42 .

6. Conceito e elementos. assim. 3. 2. 2. Acepções da obrigação. Crédito e débito. os juristas utilizam. por oposição ao direito real. 1. religioso ou jurídico. ou direitos de crédito. algumas vezes. Estes últimos. Direito Civil . Acepções da obrigação Em sentido lato. podem importar numa relação jurídica em que o sujeito ativo exerce um poder de sujeição sobre uma coisa. por sua vez. a obrigação se identifica com qualquer espécie de dever moral. exigindo o respeito de todos os outros membros da coletividade (direitos reais).Capítulo 1 CONCEITO DE OBRIGAÇÃO Sumário: 1.Direito das Obrigacoes .021-381. 5. Mesmo no campo do direito. Vínculo obrigacional.indd 23 25/4/2011 15:18:42 . Evolução histórica. 7. a palavra “obrigação” como sinônimo de dever jurídico. Débito e responsabilidade. ou podem conceder ao sujeito ativo o direito de exigir de determinada pessoa ou de certo grupo de pessoas a prática de um ato ou uma abstenção (direitos obrigacionais). da qual decorreu a correspondente divisão dos direitos até hoje admitida. Obrigações naturais. 4. olvidando a sua significação técnica e dogmática. Os direitos podem ser exercidos sobre a própria pessoa do titular (direitos da personalidade) ou sobre um bem exterior de valor econômico (direitos patrimoniais). os direitos relativos de caráter patrimonial. Data do direito romano a distinção das ações em pessoais e reais. social. São direitos obrigacionais. Conceito e elementos O conceito de obrigação surge.

Elementos — São os sujeitos. o objeto e o vínculo jurídico. abrangem situações complexas. se não for satisfeita espontaneamente. Por outras palavras: Obrigação é o vínculo jurídico temporário pelo qual a parte credora (uma ou mais pessoas) pode exigir da parte devedora (uma ou mais pessoas) uma prestação patrimonial e agir judicialmente ou mediante instauração de juízo arbitral sobre o seu patrimônio. e o direito moderno construiu o conceito de obrigação atendendo à natureza relativa do direito e ao conteúdo econômico da prestação. uma prestação de caráter patrimonial.Direito das Obrigacoes .24 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Já o direito romano definia a obrigação como vínculo jurídico em virtude do qual alguém devia fazer uma prestação em favor de outrem. em favor de outra ou de outras. Obrigação é a relação jurídica em virtude da qual uma ou mais pessoas determinadas devem. fazer ou não fazer alguma coisa). Os sujeitos são a parte credora (uma ou mais pessoas físicas ou jurídicas) e a parte devedora (uma ou mais pessoas físicas ou jurídicas). A prestação deve ter conteúdo patrimonial e ser lícita.indd 24 25/4/2011 15:18:42 . O objeto é a prestação (dar. os direitos reais e os direitos obrigacionais. Temos assim o seguinte quadro: DIREITOS Direitos absolutos (sujeito passivo indeterminado) Direitos relativos (sujeito passivo determinado) Direitos da personalidade (sobre a pessoa do titular) Direitos reais (sobre bens exteriores) Direitos obrigacionais Observação: os direitos de família e das sucessões. que incluem os direitos da personalidade. possível e determinada ou determinável.021-381. Direito Civil . que são regulados no Código Civil e em outras leis.

por parte do sujeito ativo.indd 25 25/4/2011 15:18:42 . pois. Se o dever jurídico não pode ser convertido numa indenização. Não há dúvida de que qualquer espécie de interesse justifica a existência da obrigação. não é obrigação. tal sendo o ponto de vista de Jhering. criando uma multa ou pena convencional. obrigação nominativa de sociedade anônima (debênture). o interesse moral. por não ter valor econômico. não se confundiam os conceitos de obrigação e de débito. que as partes. uma sujeição pessoal. A obligatio surgia em virtude de um contrato especial. Windscheid e Saleilles.CONCEITO DE OBRIGAÇÃO 25 Exemplos — O dever jurídico do comprador de pagar o preço constitui uma obrigação. quando não cumprido. havendo autores que entendiam ser suficiente. o nexum. Sentido figurado — Usa-se obrigação significando o próprio instrumento ou documento comprovador do direito ou título de crédito. a obrigação é a sua conversibilidade num valor patrimonial. Sentido global — A palavra “obrigação” é utilizada tanto para englobar toda a relação jurídica obrigacional como para indicar o seu aspecto ativo ou crédito (obrigação ativa) ou o passivo ou débito (obrigação passiva). todavia. sendo mais generalizada a identificação da obrigação com o aspecto passivo.021-381. apenas para poder merecer tal conceituação técnica. que submetia a pessoa do devedor ao credor. no caso de não ser feito o pagamento na forma estipulada.Direito das Obrigacoes . pelo fato de recair em pessoa determinada e apresentar um conteúdo econômico. assim. O direito do vendedor de receber o preço e o direito do comprador de receber a coisa são também obrigações. obrigações do tesouro etc. o dever jurídico de caráter obrigacional. 3. penhorando-se a liberdade do devedor a fim Direito Civil . Havia. O que caracteriza. deve ser suscetível de transformar-se num valor econômico que o sujeito ativo exige do sujeito passivo. Conteúdo — Discutiu-se muito na doutrina a necessidade do conteúdo econômico da prestação. Nada impede. Exemplos — Obrigação de guerra. Evolução histórica No direito romano primitivo. deem conteúdo econômico a um dever que normalmente não tem.

no caso de inadimplemento. ed. As fontes das obrigações só podiam ser legais.021-381. substituindo-se a manus injectio pela pignoris capio e executando-se não mais a pessoa do devedor. e a fiança. e em certos contratos em que não ocorria o nexum. e. os primeiros casos de obrigação no campo civil no direito romano. finalmente. da rapina. Com a Lex Poetelia. tradução da 8. do dano e da injúria. O crédito é o direito visto sob o prisma do sujeito ativo da relação jurídica. a execução perdeu o seu caráter pessoal. O obligatus era aquele que. como os pactos. na forma da sponsio. p. 1 Direito Civil . Nada impedia. estabeleceu-se no direito romano a perfeita identidade entre o débito e a obrigação. Madrid: Reus.Direito das Obrigacoes . O direito alemão conserva expressões distintas para indicar a relação de débito — Schuldverhältnis — e os direitos de crédito — Forderungsrechte. garantia o pagamento da dívida. Nas convenções que não tinham as características de contratos. Instituciones de derecho romano. com sua própria pessoa. em virtude da qual o credor podia vender o devedor como escravo. A execução.. 4. que recai sobre o sujeito passivo da relação jurídica. ed. como empréstimo. surgindo também a obrigação. sem que houvesse obligatio.. Pedro Bonfante. na sua obra de criação da jurisprudência. 465 e 375 e s.indd 26 25/4/2011 15:18:42 . 1951. de reconhecer novas causas para os débitos. débitos e obrigações se confundiram no direito da época de Justiniano. era pessoal. podendo ser tanto o devedor como o fiador.26 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS de garantir o pagamento do seu débito. realizando-se pela manus injectio. esp. 2. Foram o nexum. criava-se um débito. Crédito e débito Em toda obrigação há um lado positivo — o crédito — e um lado negativo — o débito. A garantia na obrigação tendo deixado de ser pessoal para se tornar essencialmente patrimonial. em virtude do furto. no plano penal. todavia. pois inexistia a ameaça de constrangimento pessoal do devedor. devendo derivar da lei. o pretor. O débito é o dever jurídico de pagar. it. mas os seus bens1. ou utilizar diretamente a sua força de trabalho.

num mútuo sem juros. citam-se o dever de sigilo das partes que negociam um contrato e os deveres de lealdade e de sigilo do funcionário de uma empresa. ao contrário. num contrato de compra e venda. para uma ou para as diferentes partes interessadas.indd 27 25/4/2011 15:18:42 . na forma estabelecida pelas cláusulas contratuais. independentemente de disposição contratual. a ação judicial sobre o patrimônio surge da responsabilidade ou da garantia. afirmar que a unidade da relação jurídica ou do vínculo jurídico não implica necessariamente a unidade das obrigações decorrentes para as partes. O comprador deve pagar o preço. que vê a “obrigação como processo”. na feliz imagem de San Tiago Dantas. admitindo-se também que da relação jurídica unitária provenha uma pluralidade de obrigações. Assim. Já. Sob essa perspectiva. que é a de devolver a quantia emprestada. Direito Civil .021-381. e um fim secundário: sujeitar o patrimônio do devedor que não a satisfaz. que persistem mesmo após o término da relação empregatícia. Do princípio da boa-fé objetiva emanam deveres acessórios para os contratantes. a relação jurídica existente cria apenas uma obrigação para o mutuário. existem várias obrigações de ambas as partes. o nosso ordenamento jurídico expressamente exige que as partes. 6. assim. Débito e responsabilidade A obrigação tem um fim primário: a prestação. observem a função social do contrato e atuem conforme a regra da boa-fé. Ademais. vínculos obrigacionais que se limitam a criar uma obrigação e outros que criam diversas obrigações derivadas do mesmo negócio jurídico. Como exemplo. O vendedor deve entregar a coisa e responder no caso de evicção. pois.CONCEITO DE OBRIGAÇÃO 27 5. como galhos e ramos de um mesmo tronco. Vínculo obrigacional Um vínculo obrigacional pode criar uma ou diversas obrigações. O dever de prestar surge do débito. esclarecedora é a expressão de Clóvis Couto e Silva. Podemos.Direito das Obrigacoes . existentes desde as tratativas até momento posterior à extinção da obrigação. Há.

Não ocorrendo o pagamento voluntário. na relação obrigacional. da indenização pelos prejuízos causados em virtude do inadimplemento da obrigação originária na forma previamente estabelecida. sobre os bens do devedor. constituindo a violação ou o descumprimento de um dever jurídico. ou seja. por intermédio do Estado ou mediante instauração de juízo arbitral. ou recorrer à máquina judiciária do Estado. implica a criação de uma relação jurídica secundária ou derivada.021-381. Como exemplo do primeiro caso. na qual se faculta ao credor atacar e executar o patrimônio do devedor a fim de obter o pagamento devido ou uma quantia equivalente acrescida das perdas e danos. dois momentos distintos: o do débito (Schuld). consistindo na obrigação de realizar a prestação e dependente de ação ou omissão do devedor. e o credor pode ir a juízo. mas que. e o da responsabilidade (Haftung). que discriminou. surge a responsabilidade. após a condenação. a questão poderá ser resolvida por arbitragem. e se.indd 28 25/4/2011 15:18:43 . para obter a condenação do devedor ao pagamento. que denominamos responsabilidade. não dão margem à repetição do indébito. costumam-se citar as obrigações naturais.28 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS O inadimplemento da obrigação. uma vez pagas. recaindo sobre pessoa determinada (direito relativo) e de caráter patrimonial. Ademais. ao contrário. embora os dois conceitos — obrigação e responsabilidade — estejam normalmente ligados. desde que estabelecida cláusula compromissória entre as partes. responsabilidade sem Direito Civil . por ser dever jurídico. que não são exigíveis judicialmente. Enquanto a obrigação é originária e depende de ato do devedor para a sua extinção. Os autores alemães que se dedicaram ao estudo da matéria reconhecem que. com as mesmas características da obrigação. a responsabilidade é derivada do inadimplemento de dever jurídico e autoriza a ação do credor. nada impede que haja uma obrigação sem responsabilidade ou uma responsabilidade sem obrigação. A distinção entre obrigação e responsabilidade foi feita por Brinz na Alemanha. pode pedir ao juiz que execute tantos bens do devedor quantos forem necessários para a satisfação do seu débito. Há. não pagar ou já tendo o credor um título. como ocorre em relação às dívidas de jogo e aos débitos prescritos pagos após o decurso do prazo prescricional.Direito das Obrigacoes .

ou cumprir obrigação natural”. Rel. 2 Em sentido diferente. porque a dívida (débito = debitum) permanece. v. embora lhe dando o mesmo sentido que Clóvis atribuíra ao dever moral2. 882.indd 29 25/4/2011 15:18:43 . surgindo o seu dever jurídico. mas a comissão revisora preferiu voltar à expressão tradicional. seguindo a orientação alemã e suíça. afirma que não são os créditos que prescrevem. e ninguém dirá que quem cumpre um dever moral efetua um pagamento” (Do direito das obrigações. 7.CONCEITO DE OBRIGAÇÃO 29 obrigação no caso de fiança. No direito brasileiro. Tito Fulgêncio considerava as obrigações naturais como constituindo uma categoria intermediária entre as obrigações civis e os deveres morais. dívida prescrita. Obrigações naturais Conceito — São as que não podem ser reclamadas em juízo. p. Por isso.º. embora lícitas.021-381. 7. 2002. 970 do Código Civil de 1916 determinava que “Não se pode repetir o que se pagou para solver dívida prescrita. 3 STF. in Manual de Paulo de Lacerda. com o inadimplemento do afiançado em relação à obrigação originária por ele assumida. O Ministro Moreira Alves. esclarecendo que “o cumprimento da obrigação natural é assim pelo Código um pagamento verdadeiro irrepetível. 1928. e pagamento de gorjeta. ao decidir caso que envolvia prescrição de créditos trabalhistas aposta no art. AgRg/RS. Min. 5 abr. No atual Código Civil as obrigações naturais são tratadas principalmente no art. 1. DJ. Moreira Alves. AI 357. a chamada dívida prescrita é também judicialmente inexigível. 10. A rigor. 24). referia-se ao dever moral e não à obrigação natural.. se o devedor quiser pagar. sem ter dívida.729. o credor pode receber e dar quitação. O anteprojeto de Clóvis Beviláqua. sendo que estes “persistem como direitos subjetivos enfraquecidos a que correspondem a obrigações naturais”3. apenas a pretensão ou a exigibilidade prescreve. da CF. XXIX. Exemplos: dívida de jogo não regulado.ª T. embora declarada a prescrição por sentença passada em julgado. o pagamento não poderá ser recobrado. Direito Civil .Direito das Obrigacoes . Convém esclarecer que dívida prescrita é expressão elíptica. Rio de Janeiro: Jacinto Ribeiro dos Santos. em que o fiador é responsável. alimentos prestados por alguém não obrigado. o Des. o art.

t. 397 e s. 1930. A explicação das obrigações naturais. it. em virtude de obrigação natural. por exemplo. oriunda do ius civile. não podendo ser exigidas judicialmente. Da mesma maneira que existiam. como. Constituíam casos indiscutíveis de obrigações naturais. as contraídas pelo escravo em relação ao seu patrão.. cit. p. Bernhard Windscheid. Pedro Bonfante.. Instituciones. baseada na equitas e na naturalis ratio. p. um modo civil e um modo natural de adquirir a propriedade.30 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS O direito romano conheceu. a outro escravo ou a uma pessoa livre.indd 30 25/4/2011 15:18:43 .Direito das Obrigacoes . uma família civil e uma família natural. ao lado da obrigação civil. ao lado das obrigações civis. Alguns romanistas definem a obrigação natural como aquela baseada no ius gentium e não reprovada pelo ius civile. Instituciones de derecho civil. 124 e s. 1944. Direito Civil . atendendo-se à incapacidade do contratante. 1. Embora privadas da ação. pois a lei autorizava o credor à soluti retentio (retenção do pagamento). no direito romano. Madrid: Reus. tradução anotada das Pandectas feita por Fadda e Bensa. se fizesse a compensação como débito civil. e as contraídas por pessoas sujeitas ao pátrio poder (poder familiar). está vinculada à existência de diversos planos jurídicos paralelos. também se justificava a existência da obrigação natural. e que denominou obrigações naturais. 2. podendo haver novação e ser dada garantia válida para o cumprimento da obrigação. outras que tinham eficácia mais reduzida.. uma vez cumprida a obrigação natural. 21. discutindo a doutrina se se enquadravam ou não nas obrigações naturais as obrigações civis prescritas pelo não uso da ação em tempo oportuno e as obrigações oriundas de pactos ou convenções realizadas sem as solenidades exigidas por lei4. ed. 2. 4 Roberto de Ruggiero. Estas tinham características próprias. p. as obrigações naturais ensejavam para o credor o direito de reter o pagamento feito (soluti retentio). permitindo ainda que. no direito romano. tradução da 4. Torino. v.021-381. o devedor não podia exigir a devolução do pagamento. havendo relações jurídicas sujeitas ao ius civile e outras ao ius gentium. fiança ou hipoteca. no direito romano. porque. v.

em virtude dos quais é mantido o necessário equilíbrio dinâmico entre o sistema jurídico e os imperativos morais e sociais5. por parte do devedor. na jurisprudência e na legislação é no sentido da equiparação da obrigação natural ao dever de consciência.021-381. Obligaciones naturales. para atenuar o rigorismo do ius civile e proteger a boa-fé das partes. 1. Assim.Direito das Obrigacoes . 1959. Giorgi Del Vecchio. assim. a sua proteção a ponto de serem judicialmente exigíveis. mas. uma vez cumpridas. 1927.CONCEITO DE OBRIGAÇÃO 31 O direito moderno não mais conhece as razões históricas que deram origem às obrigações naturais em Roma. n. mas o instituto perdurou. na feliz expressão de Del Vecchio. A única consequência jurídica que o direito moderno reconhece às obrigações naturais é a impossibilidade para o devedor de reaver o pagamento feito. Sulle obbligazioni naturali in iustitia. Os positivistas entendem que as obrigações naturais são aquelas que. limitando-se a estabelecer o princípio geral de que não é admissível a repetição do pagamento em relação às obrigações naturais voluntariamente cumpridas. no direito romano. no direito moderno. constitui a obrigação natural um dos conceitos amortecedores. não admitem. Do mesmo modo que. O Código Civil francês não deu o conceito de obrigações naturais. no ius gentium. não merecem. mas todos os deveres morais ou de consciência. conceitos-válvula ou órgãos de adequação. não podem ser judicialmente exigidas. V. ainda interessante estudo feito sob os auspícios da Faculdade de Direito de Buenos Aires sob a direção do Prof. a obrigação natural surgiu. enquadrando-se nessas obrigações não mais aquelas específicas do direito romano. à doutrina e à jurisprudência elaborar o conceito atual de obrigação natural a fim de interpretar o art. Direito Civil .235 do Código Napoleão. Buenos Aires. todavia. Torino./mar.indd 31 25/4/2011 15:18:43 . como também os pagamentos feitos 5 V. em virtude de lei. jan. não contrariando a lei. A tendência moderna dominante na doutrina. a possibilidade de reaver o que pagou em virtude de um dever por ele reconhecido. Coube. que. a jurisprudência francesa tem entendido que os gastos de assistência médica feitos em favor da concubina constituem obrigação natural. passando a exercer outras funções. 1.

Direito das Obrigacoes . § 3.32 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS pelos herdeiros aos legatários em virtude de testamento nulo por vício de forma. não mais se pode. O novo Código Civil. A ideia de obrigação imperfeita ou natural também é válida para as dívidas de jogo e de aposta. 1. 226. Les modalités de cette aide sont fixées par le pacte”. como na França. no capítulo sobre enriquecimento sem causa. além de fazer referência a alguns casos específicos de obrigação natural (dívida prescrita. quando a prestação corresponde a um dever moral ou a um motivo de conveniência. cujo cumprimento não é judicialmente exigível.278. Havendo o pacto. firma. alterando o Código Civil.477 do Código Civil de 1916. 814 do CC de 2002. qualquer que seja o sexo. mas corresponde a um dever de justiça”. o qual pode ser celebrado entre companheiros (ou parceiros) vivendo juntos. no caso do “Pacs”. 1. de 10-5-1996. o princípio geral em virtude do qual não pode ser repetido o pagamento feito. agora tratadas no art. e jogo ou aposta. Sendo os alimentos e a assistência moral e material recíproca garantidos expressamente pelo nosso sistema jurídico. 8. 99. No Brasil. Eis o texto: “Art. em 15-11-1999. de 29-12-1994. e a Lei n. os companheiros ficam obrigados a uma “ajuda mútua e material”. O mesmo princípio é encontrado no art. em seu art.971. § 767). 402. O Código Civil português. em seu art. Les partenaires liés par un pacte civil de solidarité s’apportent une aide mutuelle et matérielle. estendendo-se também aos contratos que reconheçam tal dívida ou repre- Direito Civil . que entrou em vigor em 1900. a Lei n. relativa ao “pacto civil de solidariedade”. 63 do Código suíço das Obrigações. no Brasil. também previu o direito dos companheiros de pedir alimentos.944. cuja sigla é “Pacs”. 515-4 do Código). ante o art. 9. O Código Civil alemão (BGB). se for o caso de “união estável”. corretagem matrimonial. foi editada. da Constituição. Mas. que regula o direito dos companheiros a alimentos e à sucessão. que regula esse artigo.º. conforme nele fixada (art. foram editadas duas leis: a Lei n. quando se funda em mero dever de ordem moral e social. § 656. 515-4. § 222. correspondente ao art. classificar tais obrigações como naturais.indd 32 25/4/2011 15:18:43 . na França.694.021-381. conceitua a obrigação natural da seguinte forma: “A obrigação diz-se natural.

j. acórdão na íntegra em Semy Glanz. Digno de nota o acórdão unânime da 4. o participante de boa-fé tinha direito ao prêmio8. Entendeu a Câmara que. para prestação de alimentos.ª Câm. 7 A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal sobre a matéria consta na RTJ. 50/403 e 59/482. Por unanimidade. de 16-3-1982. 72/310).. Osny Duarte. após cessado o convívio. na qual se prometia sortear um automóvel. Rel. Juiz Lauro Bracarense. O legislador ressalvou. 208. 6 Direito Civil . Reformada a sentença..021-381. 10. Essa orientação é a dominante no direito contemporâneo e explica a fecundidade e a importância da noção de obrigação natural em nossos tempos. que. A ação pretendia o pagamento das pensões convencionadas. 35.768/71. Tratava-se de rifa por empresa organizadora de formatura de estudantes. V. 5. relator o Des. na Ap. Ac.832/1999. 0306860. 6. entendeu ser obrigação natural. a existência da obrigação de pagar dívidas decorrentes de jogos e apostas legalmente permitidos e de prêmios devidos em virtude de competição de natureza desportiva.967. pois a rifa não fora autorizada. Caso mais raro foi o do contrato entre companheiros. que. entretanto. 1984. intelectual ou artística (§§ 2.º Grupo de Câmaras.º do art. na forma da Lei n. por maioria da 4. Rel. Ademais. atualização da obra de Carvalho Santos. adotando o voto vencido. 19. TAMG. Des.Direito das Obrigacoes . Cív. 11-5-2000. o Supremo Tribunal Federal não conheceu do recurso extraordinário (RTJ.º do art. Cív. 49/352. a noção de obrigação natural e moral pode ser percebida em decisão do TJRJ. embora sendo contravenção da empresa. A obrigação natural confere hoje juridicidade à obrigação moral e ao dever de consciência reconhecidos e cumpridos pelo devedor. Ap. 814)6. não pode reaver o pagamento feito conscientemente7. essa orientação não foi mantida pelo 3. Luiz Fux. posteriormente. mas foi julgada improcedente em 1. p.ª Câm.º grau. 7. Freitas Bastos. A jurisprudência já vinha reconhecendo a obrigação de pagar dívida de jogos autorizados. que considerou regra moral e não obrigação jurídica a concessão de cestas básicas aos funcionários (TJRJ.indd 33 25/4/2011 15:18:43 . 8 V.ª Câmara Cível do TJRJ. 16-9-2000). 814).CONCEITO DE OBRIGAÇÃO 33 sentem a sua novação ou fiança (§ 1.ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro. v. 49/206.º e 3. j. Suplemento X do Código Civil brasileiro interpretado.

Evolução histórica No direito romano primitivo. que recai sobre o sujeito passivo (devedor). sem que houvesse obligatio. objeto (prestação) e vínculo jurídico. No campo jurídico. é muito comum os juristas utilizarem a palavra “obrigação” como sinônimo de dever jurídico. 5. social. que submetia a pessoa do devedor ao credor. uma prestação de caráter patrimonial. pois inexistia a ameaça de constrangimento pessoal do devedor. Acepções da obriga. no caso de não ser feito o pagamento na forma estipulada. A obligatio surgia em virtude de um contrato especial. Vínculo obrigacio. Havia uma sujeição pessoal penhorando-se a liberdade do devedor a fim de garantir o pagamento do seu débito.Obrigação é a relação jurídica em virtude da qual tos uma ou mais pessoas determinadas devem. e em certos contratos em que não ocorria o nexum.indd 34 25/4/2011 15:18:43 . O crédito é o direito visto sob o prisma do sujeito ativo (credor) da relação jurídica. O débito é o dever jurídico de pagar. Direito Civil .Em sentido lato. como os pactos. a obrigação se identifica com ção qualquer espécie de dever moral. em favor de outra ou de outras. 4. não se confundia o conceito de obrigação e de débito. 2.Direito das Obrigacoes . Elementos da obrigação: sujeitos (ativo e passivo). religioso ou jurídico.34 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS SÍNTESE 1 — CONCEITO DE OBRIGAÇÃO 1. 3. Nas convenções que não tinham as características de contratos. criava-se um débito.O vínculo obrigacional faz criar uma ou diversas nal obrigações para uma ou para as diferentes partes interessadas. Conceito e elemen. o nexum. Crédito e débito Em toda obrigação há um lado positivo (ativo) — crédito — e um lado negativo (passivo) — débito.021-381.

CONCEITO DE OBRIGAÇÃO

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6. Débito e responsabi- A obrigação tem um fim primário — a prestação
lidade
— e um fim secundário — sujeitar o patrimônio
do devedor que não a satisfaz. O dever de prestar
surge do débito; a ação judicial sobre o patrimônio surge da responsabilidade ou da garantia.
Enquanto a obrigação é originária e depende de
ato do devedor para a sua extinção, a responsabilidade é derivada do inadimplemento de dever
jurídico e autoriza a ação do credor, por intermédio do Estado ou mediante instauração de juízo
arbitral, sobre os bens do devedor.
7. Obrigações naturais São as que não podem ser reclamadas em juízo, embora lícitas. Exemplos: dívida de jogo
não regulado; dívida prescrita; alimentos prestados por alguém não obrigado; pagamento de
gorjeta.

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Capítulo 2
DIREITO DAS OBRIGAÇÕES
Sumário: 1. Posição do direito das obrigações na sistemática do
direito privado. 2. Importância e características. Unificação do
direito das obrigações pelo novo Código Civil. 2.1. Unificação.
2.2. Características.

1. Posição do direito das obrigações na sistemática do direito privado
O direito das obrigações trata dos direitos relativos de caráter
patrimonial e, no Código Civil, constitui a matéria do primeiro livro
da parte especial.
O legislador do atual Código seguiu a sistematização de outras
legislações, como a alemã, nas quais as obrigações são objeto de
regulamentação logo após a parte geral, pois o conhecimento e o
manejo de sua técnica é essencial e imprescindível para a compreensão tanto do direito das coisas como do direito sucessório e do
direito de família.

2. Importância e características. Unificação do direito das
obrigações pelo novo Código Civil
2.1. Unificação
O direito das obrigações, impregnado da autonomia da vontade,
constitui a parte mais teórica, racional e abstrata dos Códigos Civis,
apresentando-se como campo fecundo para os esforços de uniformização e de unificação legislativa, como o anteprojeto franco-italiano

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de Código das Obrigações. É um direito menos influenciado pelos
fatores locais, caracterizando-se por grande capacidade de adaptação
e evoluindo rapidamente em virtude de alterações sofridas pelas
condições econômicas e sociais.
É no campo das obrigações que mais facilmente se realiza a
unificação do direito civil com o direito comercial, tendo diversos
países elaborado uma legislação única na matéria, como ocorre com
a Suíça, a Itália, a Polônia e, com o advento do Código Civil de 2002,
o Brasil.
A ideia de unificação do direito obrigacional brasileiro vem de
longa data. Tivemos a respeito interessante Anteprojeto de Código
das Obrigações, de autoria dos Ministros Philadelpho Azevedo,
Orosimbo Nonato e Hahnemann Guimarães. Na reformulação legislativa de 1964, cogitou-se, também, de elaborar um Código das
Obrigações destacado do Código Civil. Aliás, Sylvio Marcondes, na
Exposição de Motivos Complementar ao Anteprojeto que desembocou no texto final do Código Civil de 2002, antes de descrever a
evolução dos projetos legislativos desde o de Teixeira de Freitas em
1867 até o Projeto de Código das Obrigações de 1965 da Comissão
constituída por Orosimbo Nonato, Caio Mário da Silva Pereira,
Theophilo de Azeredo Santos, Sylvio Marcondes, Orlando Gomes
e Nehemias Gueiros, assim afirmou: “Essa unidade tradicional, do
direito escrito, constitui verdadeira vocação da doutrina pátria, na
busca incansável e ininterrupta de aperfeiçoamento, através do instrumento da codificação”1.
Mesmo com a existência de dois sistemas diversos, um mercantil e outro civil, as ideias, o desenvolvimento, as questões e os estudos
do direito comercial sempre trouxeram importantes subsídios na
evolução da teoria geral das obrigações, permitindo a sua melhor
adequação às necessidades práticas. Ressalta-se que, em muitos casos,
a não unidade da disciplina das obrigações mercantis e civis antes
dispostas, respectivamente, no Código Comercial de 1850 e no Có-

Sylvio Marcondes, Exposição de Motivos complementar do Prof. Sylvio Marcondes; parte especial, Livro II do Atividade Negocial, in Anteprojeto do Código Civil,
2. ed., 1973.
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digo Civil de 1916 decorria simplesmente das épocas diversas em
que ambos os diplomas foram elaborados.
Apenas agora, com o atual Código Civil, unificou-se o direito
das obrigações, atendendo à necessidade de aplicação indiscriminada de iguais regras a todas as relações obrigacionais, e ao interesse da própria segurança nas relações jurídicas. Sobre o Código
unificado e a intenção de tal obra, vale transcrever os esclarecimentos de Sylvio Marcondes, na Exposição Complementar de Motivos
do Anteprojeto:
“A discutida dicotomia daquele ramo do direito não constitui
embaraço a fórmulas de unificação. As razões da famosa retratação
de Vivante continuam válidas, como substrato metodológico e econômico da especialização técnica e científica do direito comercial,
mas nem por isso excluem a coordenação unitária de atos jurídicos
concernentes ao fenômeno econômico. Fonte sistemática de institutos
adequados ao desenvolvimento deste, o direito comercial pode conviver com o direito civil, num código unificado, tal como convive
com o direito penal, nas leis de repressão aos delitos comerciais, com
o direito judiciário, nos processos peculiares à atividade mercantil,
com o direito administrativo, na fortuna do mar. Um código não
necessita ser polêmico para regular, na unidade de um direito objetivo, as diversificações de faculdades subjetivas.
O propósito unificador, que ora se manifesta na elaboração legislativa brasileira, é coerente com a tradição evolutiva do nosso direito positivo, no campo das relações privadas. (...)”2.
2.2. Características
O direito das obrigações, na sua estrutura básica, ainda mantém
os princípios da Pandectas, tendo sofrido mais diretamente a influência exercida pelo direito romano sobre as leis atuais. Tanto o
Código Civil alemão, que diretamente inspirou o nosso, como o
Código Civil francês, baseado nas lições de Pothier, acataram os

2

Sylvio Marcondes, Anteprojeto do Código Civil, cit.

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ensinamentos dos romanistas, embora tivessem liberado o direito
moderno do formalismo rígido dos tempos primitivos. O caráter
universal e abstrato do direito das obrigações explica a permanência
da influência romanista até os nossos dias, embora algumas legislações tenham dado à vontade individual um poder que o direito
romano não lhe reconhecia. Assim, por exemplo, os romanistas
distinguiam os atos geradores de obrigações e os constitutivos de
direitos reais, não bastando o simples acordo de vontade para transferir a propriedade. Também no direito feudal, ao lado do contrato
propriamente dito, havia necessidade da vestidura para transferir a
propriedade. Os autores alemães estudaram a cessão judiciária, ou
Auflassung, como solenidade pública necessária para a concretização da alienação; atualmente, enquanto certos sistemas, como o
nosso e o alemão, só admitem a transferência da propriedade pela
tradição, quanto aos móveis, e pela transcrição no registro competente, para os imóveis, outras legislações, como a francesa e a italiana, reconhecem no contrato um meio hábil de transferir a propriedade, ao menos entre as partes.
Por outro lado, o aspecto personalíssimo e intransferível da
obrigação romana foi ultrapassado, regulando o direito moderno a
transferência das obrigações e tendo, finalmente, a socialização do
direito modificado completamente a função de numerosos institutos
do direito das obrigações3.
BIBLIOGRAFIA: No direito brasileiro, a teoria geral das obrigações
foi estudada por Lacerda de Almeida (Obrigações, 2. ed., Rio de Janeiro,
1916), Clóvis Beviláqua (Direito das obrigações, 1986), Manuel Inácio
Carvalho de Mendonça (Doutrina e prática das obrigações ou tratado geral
dos direitos de créditos, 4. ed., Rio de Janeiro, 1956) e Orosimbo Nonato
(Curso das obrigações, Rio de Janeiro: Forense, 1959, v. 1); existindo ainda os estudos, em obras gerais sobre direito civil, da parte de obrigações,

V. Lacerda de Almeida, Obrigações, 2. ed., Rio de Janeiro, 1916, p. XVII a XXIX;
Orozimbo Nonato, Curso das obrigações, Rio de Janeiro: Forense, 1959, v. 1, p. 55
e s.; Saleilles, Étude sur la théorie générale de l’obligation, 3. ed., 1914, p. 1 e s.;
San Tiago Dantas, RF, 139/5.
3

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como as de Pontes de Miranda (Tratado de direito privado, 2. ed., Borsoi,
1958, v. 22 e s.) e os v. 10 e 16/1 a 16/4 referentes às modalidades das obrigações, às declarações unilaterais de vontade e às obrigações decorrentes
de atos ilícitos do Manual do Código Civil brasileiro dirigido por Paulo de
Lacerda (Rio de Janeiro: Jacinto Ribeiro dos Santos 1921/1928), além de
numerosas monografias.
No exterior, além dos tratados e instituições de Planiol-Ripert, Enneccerus, Kipp e Wolff, Baudry-Lacantinerie, De Page, Pacifici-Mazzoni,
Louis Josserand, Ruggiero, Messineo e Bernhard Windscheid, destacamse os estudos especialmente feitos sobre as obrigações por René Demogue
(Traité des obligations en général), Raymond Saleilles (Étude sur la théorie générale de l’obligation, 3. ed., 1914), E. Gaudemet (Théorie générale des obligations), René Savatier (La théorie des obligations) e Jean
Carbonnier (Théorie des obligations). Mais recentemente, na França, foram
editadas obras de Jacques Ghestin (coordenador de Traité de droit civil,
que escreveu os volumes “Le contrat” e “Les effets du contrat”, atualizados por Christophe Jamin e Marc Billiau); na mesma coleção, três volumes
sobre responsabilidade civil são de Geneviève Viney, Philippe le Tourneau e Loïc Cadiet (Droit de la responsabilité, que corresponde à modernização do antigo tratado de Henri Lalou — Dalloz, 1998). Temos ainda
Giorgio Giorgi (Delle obbligazioni) e Vittorio Polacco (Obbligazione), na
Itália, Von Tuhr (Obrigações), na Suíça, Karl Larenz, na Alemanha, Boffi
Boggero e Marcelo Urbano Salerno, na Argentina, e Antunes Varela, em
Portugal e no Brasil.
Quanto aos contratos e à responsabilidade civil, também existe ampla
bibliografia nacional e estrangeira, destacando-se sobre o assunto os trabalhos clássicos de Manuel Inácio Carvalho de Mendonça (Contratos no direito civil brasileiro), José de Aguiar Dias (Da responsabilidade civil),
Antonio Chaves (Responsabilidade precontratual) e Agostinho Alvim (Da
inexecução das obrigações).
No tocante aos contratos especiais, merecem ser mencionados os trabalhos de Darcy Bessone de Oliveira Andrade (Da compra e venda e da
troca, Rio de Janeiro: Forense, 1961), Sebastião de Souza (Da compra e
venda, 2. ed., Rio de Janeiro: Forense, 1956), Agostinho Alvim (Da doação,
São Paulo: Revista dos Tribunais, 1963), E. V. de Miranda Carvalho (Contrato de empreitada, Rio de Janeiro: Freitas Bastos, 1953) e Alfredo de
Almeida Paiva (Aspectos dos contratos de empreitada, Rio de Janeiro:
Forense, 1955).

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SÍNTESE
2 — Direito das obrigações
1. Posição do direito das O direito das obrigações trata dos direitos
obrigações na sistemática relativos de caráter patrimonial.
do direito privado
2. Importância e características. Unificação do direito
das obrigações pelo novo
Código Civil

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É no campo das obrigações que mais facilmente se realiza a unificação do direito
civil com o direito comercial, tendo diversos países elaborado uma legislação única
na matéria, como ocorre com a Suíça, a
Itália, a Polônia e, com o advento do Código Civil, o Brasil.

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1. absoluta e objetiva ou relativa e subjetiva. física e legalmente. determinada ou determinável e possuindo expressão econômica. Características da prestação Definida a obrigação em sentido técnico como um vínculo jurídico de caráter patrimonial que recai sobre uma pessoa em benefício de outra relativamente a um bem (coisa ou serviço) que se encontra no patrimônio do devedor. 1. Deve ela ser possível. Direito Civil . 4. Dívidas de valor.2. lícita. 9. Características da prestação. 6. O combate à inflação e os planos monetários. 9. pois já afirmavam os romanos que ad impossibilia nemo tenetur1.Direito das Obrigacoes .4. Cobrança de débitos em juízo. Obrigações positivas e negativas. Obrigações em dinheiro e dívidas de valor. A impossibilidade pode ser física ou jurídica. 8. originária ou superveniente. O “Plano Real”. Obrigações conjuntivas e alternativas. Obrigações de não fazer. Obrigações divisíveis e indivisíveis.Capítulo 3 CLASSIFICAÇÃO DAS OBRIGAÇÕES PELO OBJETO Sumário: 1. 5. Obrigações de dar coisa certa e coisa incerta.021-381.3. Obrigações de dar e de fazer. 7. Obrigações com faculdade de substituição. A prestação é o comportamento do devedor que aproveita ao credor e por este pode ser exigida. 9. 9.indd 42 25/4/2011 15:18:43 . podemos afirmar que o conteúdo da obrigação deve ser uma prestação possível. 9. 2. 1 Ninguém é obrigado a fazer coisas impossíveis. 3.

pois a prestação poderia ser irrisória. p. e não para todas as pessoas. Manual de Paulo de Lacerda. Importa o dever. excluindo-se pois a sua responsabilidade. para o inadimplente. sem culpa dele. atualmente. 36. é preciso destacar o caso em que houve mora do devedor. Admite-se. qualquer lesão de direito pode ser avaliada em dinheiro3.021-381. o dever de entregar pão ou vinho sem que se estabeleça um mínimo quantitativo. Direito Civil .. a impossibilidade relativa e subjetiva é a que só ocorre para o sujeito passivo da relação jurídica. por motivos físicos ou em virtude de lei. Ao contrário. assim. A prestação deve ser determinada ou determinável. ou um critério para fixar o quantum devido.Direito das Obrigacoes . ao preço do dia em determinada praça ou ao arbitramento de terceiro. fixados em dinheiro. entregando-se. V. por outro lado. Não se considera. uma vez que não se considera obrigação o dever jurídico que. g.. Nada impede. Tal impossibilidade importa em nulidade da obrigação. por exemplo. que a quantia fique a critério de terceiro. a obrigação se tornou impossível ou ilícita. condicionada por certas necessidades (v. n. Embora a doutrina entenda imprescindível o conteúdo econômico.classificação das obrigações pelo objeto 43 É objetiva e absoluta quando existe para todos os membros da coletividade. como obrigação. os tijolos necessários para a construção de um prédio de tantos andares. no caso de inadimplemento. de ressarcir os danos decorrentes do não cumprimento da obrigação assumida.. com a aceitação do dano material ou moral. tendo cada um a metragem quadrada de. 2 3 Tito Fulgêncio. na acepção jurídica. Quando a impossibilidade objetiva é superveniente ou posterior à relação jurídica. algumas gotas de vinho2.indd 43 25/4/2011 15:18:44 . Capítulo 8. todavia. 4. cit.). não podendo ficar ao exclusivo arbítrio do devedor. hipótese na qual ele responde pelas perdas e danos. que o preço de uma mercadoria fique sujeito às flutuações da Bolsa. cabe notar que. e os casos fortuitos ou de força maior em que.. não se possa resolver em perdas e danos. ou seja.

g. Para a distinção entre obrigações de dar e de fazer. não construir além de certo gabarito. obrigação de restituir um livro autografado. à primeira vista. assim. 3. ou seja. e Súmula 500 do STF. são da responsabilidade do locatário4. que ainda é feita pelo atual Código Civil brasileiro. 209. 4 Direito Civil . O Código Civil esclarece que o credor de coisa certa não pode ser obrigado a receber outra. em virtude de contrato. v.44 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 2.. 34. se são obrigações de dar ou de fazer a de lavrar escritura definitiva de um imóvel e a de justificar o pagamento de certos impostos que. ou que fora dado em comodato. g. cit. p. Obrigações de dar coisa certa e coisa incerta A obrigação de dar pode abranger coisa certa ou coisa incerta. consulte-se RTJ. cit. 313) ou Tito Fulgêncio. havendo autores que condenam a distinção. enquanto a obrigação de fazer importa na realização de atos ou serviços no interesse do credor. 1.indd 44 25/4/2011 15:18:44 . É tradicional a distinção entre obrigações de dar. p. Indaga-se.Direito das Obrigacoes . v. v. Manual de Paulo de Lacerda.. ainda que mais valiosa (art.. A obrigação negativa importa numa abstenção. 61/247. fazer e não fazer. A obrigação de dar consiste em transferir a posse ou transmitir a propriedade de um objeto ao credor. Embora. em muitos casos surgem dúvidas quanto à natureza da obrigação. em não praticar algum ato. e Orosimbo Nonato. os contornos de cada uma sejam perfeitamente definidos. 5 RTJ.021-381. A obrigação de dar coisa certa surge quando a prestação é de objeto específico e individualizado.. Obrigações positivas e negativas As obrigações são positivas quando a prestação do devedor implica dar ou fazer alguma coisa e negativas quando importam numa abstenção. Curso das obrigações. 43/263. A importância prática da classificação decorre da regulamentação legal tradicionalmente diferente com referência às obrigações de fazer e às obrigações de dar5.

direta e imediatamente. Em caso de deterioração do objeto. mesmo na hipótese de destruição ou perda do objeto em virtude de caso fortuito ou força maior.classificação das obrigações pelo objeto 45 mesmo de valor inferior. V. abatendo do seu preço o valor que perdeu. 92 a 97. parte final. 402 e 403 do CC).257). antes da tradição e sem culpa do devedor. É o princípio romano que encontramos em sentença de Paulo. o credor pode exigir o equivalente em dinheiro ou aceitar o objeto com abatimento do preço. pois.indd 45 25/4/2011 15:18:44 . tem o credor uma opção entre solver a obrigação ou aceitar a coisa. Nada impede que as partes convencionem a obrigação do devedor de ressarcir os danos. todos os riscos correm por conta do tradens8 que tem a propriedade do bem. que só ocorre havendo consentimento de ambas as partes. a modalidade do pagamento não pode ser alterada sem o consentimento das partes. A responsabilidade visa colocar o credor na posição em que estaria se a obrigação tivesse sido cumprida. abrangendo.222 e 1. 1.253 a 1. com direito a reclamar. 6 7 Direito Civil . Até a tradição.021-381. e 627 do CPC). em ambos os casos. indenização pelas perdas e danos (art.Direito das Obrigacoes . Havendo culpa do devedor. extinguindo-se todos os seus efeitos. denominada novação objetiva (do objeto). A entrega de objeto diverso do prometido importa em modificação da obrigação. 233)7. Por outro lado. o credor dele poderá exigir o valor em dinheiro do objeto acrescido das perdas e danos (arts. 236). 234 do CC. salvo convenção em contrário das partes (art. sem culpa do devedor. de acordo com o qual aliud pro alio invito creditore solvi non potest6. e as perdas e danos só incluem os prejuízos e lucros resultantes.214 a 1. A coisa deve ser entregue com os seus acessórios. contra a vontade do credor. 8 Transmitente. No campo contratual. Se a perda ou destruição da coisa for oriunda de culpa do devedor. frutos e benfeitorias (arts. Se a coisa certa devida se perder. a obrigação se resolve para os interessados. Não se pode pagar uma coisa por outra. o lucro cessante representa o montante que a parte razoavelmente deixou de lucrar. a Parte Geral e em particular os artigos do Código Civil de 2002 referentes aos acessórios. o ressarcimento do dano causado (damnum emergens) e do lucro cessante (lucrum cessans). da inexecução da obrigação (arts.

devendo o inadimplente provar que não houve culpa de sua parte. o n. passando os frutos pendentes à propriedade do credor (art. antepuser este a salvação dos seus. 237). Como diziam os antigos. o princípio básico aplicável é o da responsabilidade decorrente de culpa.2 deste Capítulo. resolvendo a obrigação se o credor não anuir (art. na obrigação Quanto aos débitos reclamados em juízo. pois o inadimplemento da obrigação implica presunção de culpa do devedor. a qual transmite a do imóvel. 9 Direito Civil . As perdas e danos podem ser liquidadas mediante cláusula penal. v. A responsabilidade do devedor permanece até a tradição. trata da obrigação de restituir (arts. o n. até a tradição ou a transcrição. por não ter havido a diligência especial a que está obrigado o comodatário. 583). embora haja diferença na situação do credor nos dois casos. o devedor poderá exigir um aumento do preço. 237. salvo se provar que a destruição ou deterioração ocorreria mesmo se não estivesse em mora (art. o Código Civil de 2002. correndo risco o objeto do comodato (empréstimo da coisa infungível) juntamente com outros do comodatário. responderá ele.Direito das Obrigacoes . 238 e s. A responsabilidade surge. Entre as obrigações de dar coisa certa. ou ainda em virtude de disposições legais.indd 46 25/4/2011 15:18:44 . ao devedor. 404) ou judicialmente. tratando-se de obrigação de pagamento em dinheiro (art. Dando a coisa frutos antes da tradição. a propriedade do bem pertence. seguindo a sistemática do Código de 1916. v. Se a coisa sofrer melhoramentos ou passar a ter acrescidos até a tradição. Também há responsabilidade independentemente de culpa específica quando. abandonando o do comodante.46 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS No silêncio das partes. embora o dano tenha sido causado por força maior ou caso fortuito (art. no caso. Quanto à cláusula penal. cabem estes ao devedor. enquanto. mesmo na hipótese de força maior ou caso fortuito. parágrafo único).021-381. Havendo mora do devedor. 9. res perit domino (a coisa perece para o dono). 399).). 2 do Capítulo 9. que transfere a propriedade da coisa móvel ou a transcrição. cabendo ao magistrado apreciar os prejuízos e lucros cessantes decorrentes do inadimplemento9. por avaliação antecipada das partes. Na obrigação de dar.

238). todavia. todavia. cabe o prejuízo ao credor em virtude do direito real que sobre a coisa exercia e resolve-se a obrigação (art. seja a um dos contratantes. em virtude do qual a deterioração e também os acréscimos ou melhoramentos sofridos pela coisa fortuitamente. de acordo com os princípios aplicáveis em matéria de benfeitorias necessárias. existe uma norma supletiva. sem que surja o dever de indenizar pelos melhoramentos ou acréscimos (art.classificação das obrigações pelo objeto 47 de restituir. Efetivamente. aliás. Quem se compromete a entregar cem quilos de arroz. c/c os arts. nem sendo obrigado a dar as melhores unidades (art.Direito das Obrigacoes . A aplicação do princípio res perit domino. como o comodato. 3). Nas obrigações de dar coisa incerta.219) (v. Se antes da tradição houver aumento fortuito da coisa.021-381. no caso. o benefício também será do credor. prejudicam ou beneficiam o proprietário. mas determinação genericamente feita. 242. A razão pela qual a lei Direito Civil . As partes têm a mais ampla liberdade de atribuir. o primeiro problema que surge é o referente à escolha das unidades a serem entregues. de acordo com a terminologia aceita no mercado local. 241). sem culpa alheia. implica. em virtude da qual a escolha caberá ao devedor. 85) (v.219 a 1. n. Se. a escolha dos exemplares que deverão ser fornecidos. O próprio contrato pode. n. úteis e voluptuárias (arts. o credor tem direito real sobre o bem que está legalmente em poder do devedor. A obrigação de dar coisa incerta consiste em fornecer certa quantidade de unidades de determinado gênero e não uma coisa especificada. 1. terá este direito a uma indenização. não lhe sendo lícito. antes da tradição. seja a terceiro. Na falta de cláusula contratual. 1.indd 47 25/4/2011 15:18:44 . soluções diferentes daquelas aceitas nas obrigações de dar coisa certa. 584). O direito à indenização é garantido pela retenção. A incerteza da coisa não significa indeterminação. escolher a pior qualidade. no qual o devedor não pode exigir tal indenização (art. em virtude da qual o devedor pode sustar a entrega do bem até o recebimento do pagamento devido (art. dar indicações quanto ao tipo ou qualidade da mercadoria. 244). 4) ou dez mil metros de certo tipo de tecido assume uma obrigação de dar coisa incerta ou fungível. cem mil reais (art. Cap. salvo no caso excepcional de ato gratuito.222). se a coisa for deteriorada ou destruída sem culpa do devedor. 9. o melhoramento ou aumento for devido à atividade do devedor.

na obrigação de dar coisa incerta o devedor se compromete a fornecer coisa fungível (um cavalo de raça tal. sendo determinada quantidade de unidades de certa espécie. ou de destinação de certos bens para serem utilizados na efetuação do pagamento.indd 48 25/4/2011 15:18:44 . Direito Civil . já afirmavam os juristas romanos10. Enquanto na obrigação de dar coisa certa a obrigação pode ser cumprida desde logo. Enquanto a coisa certa pode ser destruída ou deteriorada sem culpa do devedor. ainda que por força maior ou caso fortuito”. Esse artigo deve ser entendido em termos. a coisa incerta. Essa escolha é denominada concentração. jamais pode perecer. o cavalo que ganhou o primeiro prêmio na última corrida do ano).Direito das Obrigacoes . só se admitindo a impossibilidade quando inexistir a coisa no mercado. não devendo ser agravada quando.021-381. 246 do CC esclarece que.48 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS atribuiu. Por outro lado. tantos metros de fazenda etc. é o ato pelo qual as unidades saem do patrimônio do devedor e são postas à disposição do credor. não poderá o devedor alegar perda ou deterioração da coisa. as partes deixarem sem solução o modo de proceder ao pagamento. O art. “Antes da escolha. Genus nunquam perit. A importância básica da distinção é devida ao fato de ser imperecível o gênero.). ficando sujeita às normas legais já indicadas. no silêncio das partes. na coisa incerta existe um ato preparatório individualizante do objeto que precede o pagamento. pois a escolha a que a lei se refere não é apenas o ato subjetivo de separação. no acordo de vontade. não podendo o devedor fraudar os seus compromissos entregando o pior e não sendo obrigado. e é em virtude dela que a coisa incerta se transforma em coisa certa. Enquanto a obrigação de dar coisa certa consiste em entregar coisa infungível (a casa da rua tal. exigiu-se que a mercadoria fosse de tipo médio. na falta de cláusula contratual. a entregar a melhor mercadoria. atendendo à equidade. a competência ao devedor para individualizar os bens ou mercadorias prometidas explica-se pelo princípio jurídico de acordo com o qual toda obrigação deve ser interpretada em favor do devedor. com ciência 10 O gênero nunca perece. resolvendo-se a obrigação.

após o credor ter sido cientificado da escolha dos bens. e. e que já tiverem sido postas à disposição do comprador. faça a escolha das sacas de café que pretende mandar ao credor para que se apliquem ao caso as normas sobre obrigações de dar coisa certa. em seu armazém. tal princípio sofre atenuação pela aplicação da teoria dos vícios da vontade. o inadimplemento importa sempre em responsabilidade.classificação das obrigações pelo objeto 49 e conhecimento deste.indd 49 25/4/2011 15:18:44 . Exposição de Motivos do Anteprojeto do Código Civil. todavia. Se. “a obrigação de dar coisa incerta passa por uma metamorfose. na hipótese. os riscos corridos pela mercadoria afetarão não mais o devedor. 492. do CC.021-381. que o devedor. medindo ou assinalando. podendo ser alegado o erro de um dos contratantes ou a ocorrência de caso fortuito. A disciplina do atual Código Civil veio consagrar esse entendimento. 245 determina a aplicação das regras sobre obrigação de dar coisa certa. as sacas à disposição do credor e em nome e por conta deste. Em virtude do estabelecido pelo art. Seria o caso da obrigação de entregar um número elevado de exemplares de um livro esgotado. correrão por conta deste. na Exposição de Motivos do Anteprojeto do Código Civil. ou uma quantia de determinado minério superior à existente na Terra. 11 Agostinho Alvim. pois. Se. os casos fortuitos ocorrentes no ato de contar. os riscos correrão por conta do vendedor. após a escolha. se ainda não tiverem sido postas à disposição do comprador. em tese. na medida em que o seu art. Por outro lado. Em sentido contrário. a convenção entre as partes estabeleceu que o devedor devia deixar. § 1. Pode surgir uma impossibilidade objetiva de entregar coisa incerta. o devedor continuará com a obrigação de fornecer as sacas prometidas. a partir do referido momento. Direito Civil . as sacas de café forem deterioradas por uma inundação ou destruídas por um incêndio. transformando-se em obrigação de dar coisa certa”11. Se.Direito das Obrigacoes . pesando. a obrigação será considerada cumprida com o depósito no local determinado.º. mas o credor. não tendo havido culpa do devedor. em determinado armazém-geral. Como bem afirmou Agostinho Alvim. normalmente não estará sujeito ao pagamento de uma indenização. marcar ou assinalar coisas que comumente se recebem contando. Não basta.

Nessas hipóteses. Obrigações de dar e de fazer A própria distinção entre obrigações de dar e de fazer sofre restrições na doutrina contemporânea. 894 do CPC. o devedor poderá citá-lo para fazer a escolha no prazo de cinco dias ou no contratualmente fixado. cem cabeças de gado do meu rebanho). que é insubstituível. caiba ao credor a escolha das unidades da coisa indeterminada. tendo sido abandonada por diversos códigos. algumas das obrigações de fazer dependem de uma atuação personalíssima do devedor. limita a autoridade do magistrado. Por exemplo. a distinção entre dar e fazer nem sempre é fácil. ou seja.Direito das Obrigacoes . A razão tradicional da diferença de tratamento entre as obrigações de dar e de fazer é que. Na realidade. admite-se a extinção do gênero como impossibilidade absoluta que. Por outro lado. Na realidade. pelo contrato. a liberdade individual. 4. sob pena de passar ao devedor o direito de escolha. nas obrigações de entregar coisa oriunda de determinada origem (entregar cem quilos de batatas de minha fazenda. como garantia constitucional e projeção da personalidade. em virtude das suas qualidades pessoais.indd 50 25/4/2011 15:18:44 . enquanto na segunda o credor pretende obter a realização de um serviço. e não seja exercido o seu direito no prazo estabelecido. na primeira.50 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Nas obrigações genéricas delimitadas. o inadimplemento nas Direito Civil . não havendo culpa do devedor. dar não deixa de ser fazer alguma coisa. na compra e venda. depositando-se a coisa judicialmente na forma do art. embora por intermédio dela pretenda o adquirente obter o recebimento do bem comprado. a obrigação de lavrar a escritura definitiva por instrumento público é obrigação de fazer. na de fazer com caráter personalíssimo. Como ninguém pode ser obrigado a fazer alguma coisa contra a sua vontade. Na empreitada de mão de obra e de materiais existem duas obrigações distintas: a de dar o material e a de fazer o serviço. Caso. enquanto na obrigação de dar o juiz pode condenar o devedor a entregar a coisa certa ou incerta. resolve a obrigação sem criar qualquer espécie de responsabilidade. visa-se geralmente a entrega de uma coisa.021-381.

o credor pode pleitear em juízo tutela específica para que sejam assegurados resultados equivalentes ao do adimplemento (art. citado o réu para.º. 461 do CPC). 461.Direito das Obrigacoes . Por essas razões. e b) as obrigações personalíssimas de fazer. bem como não assegurar o juízo e oferecer embargos. ou mandado de busca e apreensão. do CPC). Ademais.º. no prazo de dez dias. Enquanto as obrigações de dar e as de fazer que não são personalíssimas se transmitem por sucessão hereditária. o inadimplemento do devedor importaria necessariamente em resolver a obrigação em perdas e danos. c/c os arts. nos casos em que o cumprimento da obrigação de fazer não depende necessariamente de atuação pessoal do devedor. as obrigações de fazer personalíssimas extinguem-se de pleno direito com a morte do devedor.021-381. 621 e 625 do CPC). necessariamente. para saber se admite a execução específica ou se. A lei processual garante que a obrigação de fazer apenas se converterá em perdas e danos se o credor assim pretender ou se for impossível a substituição da vontade do devedor e a obtenção do resultado prático correspondente for inviável (art.indd 51 25/4/2011 15:18:44 . se o bem for móvel (arts. na execução da obrigação de dar coisa certa. 633 e 638. para melhor compreender o sistema jurídico. expedir-se-á mandado para a imissão do exequente na posse. a caracterização da obrigação como sendo de dar ou de fazer só adquire importância na fase de execução. Nesse sentido dispõe o Código Civil ao determinar que o devedor obriga-se a indenizar o credor quando se recusar a cumprir obrigação somente por ele exequível (art. teríamos a possibilidade de execução específica.classificação das obrigações pelo objeto 51 obrigações personalíssimas de fazer se resolve em perdas e danos (art. 247). se não obedecer. parágrafo único. entendemos ser mais ilustrativo fazer a distinção das obrigações em dois grupos: a) as obrigações de dar e de fazer que não são personalíssimas (obrigações fungíveis). 389 do CC. Para as primeiras. que constituiriam um primeiro grupo. Além disso. fazer a entrega da coisa. formando um segundo grupo (obrigações infungíveis). criadas com a finalidade de realização por pessoa certa do serviço contratado. Direito Civil . § 1. para as segundas. se resolve em perdas e danos. Ao contrário. do CPC). 461. § 1. pois nemo praecise cogi potest ad factum (ninguém pode ser coagido a praticar um ato). tratando-se de imóvel.

A obrigação pode ser personalíssima ou infungível em virtude de convenção das partes ou pela própria natureza do negócio realizado. O Código Civil de 1916 bem esclarecia que: “Na obrigação de fazer. como ocorre quando resulta da situação particular das partes ou dos usos e costumes locais. é aconselhável nos contratos de prestação de serviços que conste cláusula em que o locador de serviços ou o empreiteiro se obrigue a realizar o trabalho por si ou por terceiros.Direito das Obrigacoes . não admitindo uma pintura feita por outrem. assim. A fim de evitar possíveis confusões. 247). numa das cláusulas contratuais. Desse modo. pois nelas o devedor não pode ser substituído por outrem. final). 248. nas quais o importante é o recebimento do objeto ou a realização do serviço de acordo com as especificações. distinguir as prestações contratadas com caráter personalíssimo. O atual Código Civil não repete essa redação. 878). Direito Civil . das prestações de dar ou de fazer de caráter fungível. a convenção pode ser explícita ou tácita. extingue-se a obrigação (art. quem contrata a pintura de um quadro com renomado artista tem o direito de exigir que o quadro seja da autoria do artista. Como já vimos. por culpa do devedor.indd 52 25/4/2011 15:18:44 . permitindo assim que seja utilizada a colaboração de outra pessoa para a realização do serviço. 248. Se a impossibilidade decorre de caso fortuito. tenha-se comprometido a fazer pessoalmente a defesa oral do constituinte na audiência de instrução e julgamento. pouco importando a pessoa que dê a coisa ou preste o serviço. mas traz a mesma ideia ao determinar o dever de indenizar ao devedor que não cumpre obrigação só a ele imposta ou apenas por ele exequível (art. primeira parte). nesse caso o magistrado deve examinar as circunstâncias peculiares da hipótese. Podemos assinalar outro exemplo num contrato de prestação de serviços por advogado em que o causídico. o credor não é obrigado a aceitar de terceiro a prestação.021-381. Algumas vezes pode haver dúvida quanto à natureza fungível ou infungível da obrigação. a que denominamos prestações infungíveis. quando for convencionado que o devedor a faça pessoalmente” (art.52 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Podemos. Tratando-se de obrigação personalíssima ou infungível e havendo impossibilidade do seu cumprimento. resolve-se a obrigação em perdas e danos (art.

na forma do art. parágrafo único. 638. 249). o Código Civil. ocorrem duas hipóteses: ou o contrato preliminar preenche as condições de validade do contrato definitivo. Eventualmente.Direito das Obrigacoes . Execução específica de obrigações de contratar e de prestar declaração de vontade. 639 a 641. se o credor não preferir desistir desde logo da prestação exigível e pedir. No Código de Processo Civil. ou. poderá. sem prejuízo da indenização cabível (art. Ver ainda Sydney Sanches. e o credor tem a alternativa de exigir a complementação ou formalização do contrato pelo devedor ou uma quantia em dinheiro como indenização. far-se-á a liquidação. 644 e 645 do CPC). 12 Direito Civil . a promessa de contratar não preenche tais requisitos. que pode revestir a forma de multa diária ou mensal (arts. São Paulo: Revista dos Tribunais. 634 do CPC. especificou que. arts. ele será ressarcido dos gastos. o credor pode requerer ao juiz que ordene ao devedor executar o serviço dentro de determinado prazo. independentemente de autorização judicial. é permitido ao credor executar ou mandar executar o fato.021-381. em ação ordinária.indd 53 25/4/2011 15:18:44 .classificação das obrigações pelo objeto 53 Se o fato for executável por terceiro e o devedor não cumprir a prestação estabelecida. prosseguindo-se como na execução por quantia certa (art. o credor tem a opção de resolver a obrigação em perdas e danos ou de mandar fazer o serviço por terceiro. para que seja feita à custa do executado mediante concorrência pública. Além disso. posteriormente. 1978. 633 do CPC). em seu art. e o juiz poderá substituir-se ao devedor. Nessa hipótese. as perdas e danos decorrentes do inadimplemento). cobrando o preço da execução do devedor inadimplente. requerer ao juiz a avaliação da obra ou serviço. Consistindo a obrigação de fazer em emitir uma declaração de vontade. se não ficar configurada a urgência e optando o credor pela realização de obra ou serviço por terceiro. ao contrário. sob pena de cominação pecuniária. Preferindo o credor exigir perdas e danos. enunciando-a na sentença12. em execução de sentença. se recusar a prestá-la ou atrasar na realização do serviço. em casos de urgência. Tratando-se de obrigação personalíssima ou infungível. 249.

5. Direito Civil . Pacto de não concorrência. uma pessoa. Obrigações de não fazer As obrigações ainda podem ser omissivas. Uma inovação do atual Código é permitir ao credor. por contrariarem a mais elementar liberdade do homem e os princípios morais dominantes em nossa sociedade. RT. 250). a abstenção se torna impossível. se a sua natureza permitir (art. os condôminos renunciam a dividir a coisa comum por um prazo inferior a cinco anos. o sócio que se retira de determinada empresa se obriga a não continuar no mesmo ramo de negócio ou o proprietário de um imóvel se obriga a não vendê-lo durante determinado prazo. 251). Em certos casos.indd 54 25/4/2011 15:18:44 . infringe a obrigação de não fazer e pratica o ato vedado. No segundo. embora nada impeça o cerceamento parcial da atividade. Assim. em casos de urgência. 552/32. parecer. independentemente de autorização judicial. Somente contrariam o direito as obrigações de não fazer que cerceiam a liberdade individual de tal modo que venham a infringir a ordem pública. obrigando o devedor a pagar o prejuízo causado e o lucro cessante. podendo ainda este exigir que o devedor desfaça à sua custa o ato praticado. Por exemplo. Se. restringindo a sua própria liberdade e os direitos que a lei lhe assegura. ou de condições impostas em ato unilateral. a condenação será de pagamento de multa periódica enquanto não for cumprida a obrigação. a sentença comporá o dano. desfazer ou mandar desfazer. Se o devedor. São obrigações de não fazer que a lei reconhece como válidas e lícitas. sem culpa do devedor. são inválidos os atos em virtude dos quais uma pessoa se obriga a não trabalhar ou a não casar.Direito das Obrigacoes . em virtude de cláusulas contratuais. num non facere. extingue-se a obrigação (art. devendo ser posteriormente ressarcido do devi- 13 Arnoldo Wald e outro.54 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS primeiro caso. sendo válida a obrigação de não trabalhar em determinado ramo de negócio durante certo tempo13. culposamente. obriga-se a deixar de praticar algum ato. deve ressarcir o dano causado ao credor.021-381. importando numa abstenção.

Ex. sob pena de pagar a multa de R$ 200. fixar uma multa que o devedor será obrigado a pagar enquanto infringir a obrigação por ele assumida (arts. g. que também é a ação própria para exigir o desfazimento do ato praticado em violação da obrigação assumida. A ação própria para impedir a violação continuada da obrigação de não fazer era a ação cominatória14. em virtude de cláusulas contratuais. As perdas e danos podem ser apurados em ação ordinária. Tal medida importaria certamente numa grande economia de ordem processual. o réu. no caput e parágrafo único do art. o credor pode exigir do devedor que desfaça a construção levantada além do mencionado gabarito e pague as perdas e danos. mediante ação própria.00 por dia. o credor não pode desfazer as vendas realizadas. para não praticá-lo. Se a obrigação consiste em não vender determinados artigos. Se o devedor se recusar. 251. sob as cominações da sentença. o vendedor se obriga a entregar ao comprador o livro vendido.classificação das obrigações pelo objeto 55 do (art. é denominada composta ou complexa.Direito das Obrigacoes . O autor pleiteia que o juiz fixe certa multa. Cominar é ameaçar.indd 55 25/4/2011 15:18:44 . Quando a obrigação abrange uma única prestação.. condenado a abster-se da prática de qualquer ato. Contravindo o executado à proibição. 189. Quando. é considerada simples — v. Obrigações conjuntivas e alternativas A obrigação pode ter um ou vários objetos. mas pode pedir uma indenização e.: cesse a construção ilegal. tratando-se de obrigações de não construir além de certo gabarito. caso o réu não atenda ao dever ou à ordem judicial. a pena lhe será imposta. parágrafo único). será citado. Cominação é ameaça. por conta do devedor. a obrigação contém mais de uma prestação. Na execução de sentença. Assim. o credor pode mandar destruir a obra.021-381. ao contrário. 642 a 645 do CPC). 14 Direito Civil . 6. O antigo Código da Propriedade Industrial já admitia a cumulação de dois pedidos de modo explícito. Discute-se a possibilidade de acumular numa ação única o pedido cominatório e o de indenização pelos prejuízos já sofridos.

A obrigação alternativa. 252. O negócio jurídico indica normalmente. deve ser realizada no prazo estabelecido pela convenção.021-381. art. todavia. todas as prestações abrangidas pela obrigação devem ser executadas. existe pluralidade de pretensões. enquanto nestas (alternativas) uma exclui a outra e as prestações são ligadas pela conjunção alternativa ou (darei o livro ou mil reais). § 1. que concede o direito de escolha ao devedor.º. obrigar o credor a receber parte de uma prestação e parte de outra (art. Nas obrigações alternativas. 252.Direito das Obrigacoes . por uma prestação única escolhida na forma do contrato ou da lei (plures res sunt in obligatione. una autem in solutione). O devedor não pode.º). salvo se se tratar de prestações periódicas nas quais se admite a renovação da opção para cada período (entrega mensal alternativa de determinados alimentos ou de certa quantia em dinheiro). no caso de obrigações alternativas. Não existindo prazo. a concentração. na execução.indd 56 25/4/2011 15:18:44 . Aquelas (conjuntivas) se acrescentam umas às outras. vinculadas pela conjunção aproximativa e (entregarei um livro e mil reais). Direito Civil . a quem cabe escolher a prestação a ser executada (in solutione) entre as diversas possíveis (in obligatione). Rio de Janeiro. A escolha da prestação que será cumprida. 1970. aumentando as garantias e as perspectivas de cumprimento da obrigação para o credor15. § 2. enquanto nas segundas a pluralidade das prestações existentes na obrigação é substituída. aplica-se a norma supletiva existente no Código Civil. 252. cabendo ao devedor cumpri-las conjuntamente (obrigações conjuntivas ou cumulativas) ou alternativamente (obrigações alternativas). ou seja. o credor ou o devedor a quem couber a escolha deverá ser notificado a fim de incorrer em mora pela ausência de esco- 15 Consulte-se a respeito a tese de Ricardo César Pereira Lira. A finalidade da prestação alternativa é dar maior liberdade de escolha ao devedor. No silêncio das partes. nos termos do art. A sua opção deve ser total. Nas primeiras. existem duas ou mais formas pelas quais a obrigação pode ser satisfeita. e o cumprimento de uma única prestação extingue a obrigação.56 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Nas obrigações compostas.

Se. mas não o consenso entre eles sobre a escolha dentro de determinado prazo. Cap. não sendo isso possível. passa aquela ao devedor. É o que ocorre no caso. a obrigação. transforma-se em obri- Direito Civil .º. Nada impede que a escolha da prestação fique ao arbítrio de terceiro. Assim sendo. do CC). alternativamente. Se a mora em escolher for do devedor.Direito das Obrigacoes . Se a opção couber a terceiro e este não a fizer. é obrigado a cumprir a prestação remanescente. e. Se uma das prestações contratadas é impossível física ou juridicamente. pela lei brasileira. § 3. 252. o juiz deverá decidir o impasse (art.021-381. depois da opção.indd 57 25/4/2011 15:18:44 . 6. Discute-se na doutrina nacional e estrangeira o momento em que a concentração se torna irrevogável. Cabendo a opção ao credor. 6. que. de incorporação de uma sociedade por outra. e antes do seu cumprimento. mas a escolha anterior à execução do dever jurídico. a prestação escolhida se tornar impossível. se modificar a escolha. consideramos que a opção se torna irreversível depois do cumprimento da prestação. responderá por perdas e danos. 894 do CPC). caberá ao juiz a referida escolha (art. A alternatividade da obrigação não decorre apenas da vontade individual. em virtude de caso fortuito. o credor poderá propor ação judicial própria. exigindo. de alternativa que era. Conforme o Código Civil.2). resultando em alguns casos das próprias disposições legais. que. entendemos que o devedor. vincula o optante. § 4. indicado pelas partes. ou dependa da realização de alguma condição. na qual os acionistas dissidentes têm o direito de retirar-se da companhia mediante pagamento do reembolso ou então de receber ações da incorporadora. por exemplo. n. por ter havido mora do credor (v. por uma questão de coerência. quando comunicada à outra parte contratante. se houver a pluralidade de optantes. que poderá consignar judicialmente a prestação por ele escolhida (art. 252. uma ou outra prestação à escolha do devedor. todavia.º). A maioria dos autores considera que a escolha feita por quem de direito se torna irrevogável quando comunicada à outra parte contratante. citado. não exerceu o direito de escolha no prazo de cinco dias ou no prazo estabelecido no contrato.classificação das obrigações pelo objeto 57 lha. as partes deverão chegar a um acordo.

Direito das Obrigacoes . este terá direito de exigir a prestação subsistente ou o valor da outra com perdas e danos (art.indd 58 25/4/2011 15:18:45 . enquanto na obrigação com faculdade de solução ou de substituição a obrigação é de prestar determinado fato ou entregar certa coisa.021-381. 254). mas o devedor se desonera cumprindo a prestação facultativa. Não poderia haver obrigações facultativas. a impossibilidade em Direito Civil . subsistirá a outra (art. havendo uma possibilidade de substituição para o devedor. 256). Na obrigação alternativa. pois o que é facultativo não é obrigatório e o que é obrigatório não é facultativo. A distinção com as obrigações alternativas se faz atendendo ao fato de nestas haver diversas prestações na obrigação. Obrigações com faculdade de substituição Têm uma estrutura parecida com as obrigações alternativas as obrigações com faculdade de solução ou com faculdade de substituição. Se. 255). 253). Se um dos objetos perecer por culpa e o outro sem culpa. cabendo-lhe a escolha. pelo valor da que por último se impossibilitou com perdas e danos. acrescida da indenização pelas perdas e danos (art. extingue-se a obrigação (art. se lhe couber a escolha. Na obrigação com faculdade de solução. Existem obrigações com uma prestação única. ambas as prestações se tornarem inexequíveis e couber a escolha ao devedor. acrescida das perdas e danos (art. este prestará a remanescente. Caso todas as obrigações se tornem impossíveis de ser cumpridas e inexistindo culpa do devedor.58 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS gação simples. por culpa do devedor. 7. este pagará o valor da prestação que por último se impossibilitou. uma das obrigações se tornar inexequível. Se. Se a impossibilidade de uma prestação for superveniente ou posterior ao contrato. a impossibilidade em relação a uma das prestações importa em obrigação de cumprir a outra. O credor só pode exigir a prestação obrigatória. responderá o devedor. Sendo a opção do credor. por culpa do devedor. nas quais a lei ou o ato jurídico autoriza o devedor a substituir a prestação exigível por outra. Se a opção for do credor. erradamente chamadas obrigações facultativas. 255). poderá pedir o valor de qualquer das duas prestações.

classificação das obrigações pelo objeto 59 relação à prestação principal extingue o vínculo jurídico. É a faculdade de solução ou substituição. atendem a importantes necessidades práticas. possibilitando. mas tal ideia foi excluída do Código Civil.021-381. Obrigações divisíveis e indivisíveis As obrigações são divisíveis ou indivisíveis. em vez de pagar o que deve. o proprietário pode.234 estabelece. Assim. A importância dessa distinção está vinculada à possibilidade de pagamentos divididos no tempo em prestações sucessivas e à pluralidade de credores ou devedores. todavia. a quem a achou. o certo é dizer “renunciar”. embora tenha feito referência ao instituto em diversos dos seus artigos. e a renúncia deve ser declarada (é sempre expressa). num contrato se convencione que o devedor faça certo pagamento em época determinada. O Código Civil de 1916 não tratava especificamente das obrigações com faculdade de solução.indd 59 25/4/2011 15:18:45 . É possível que. O Anteprojeto de Código das Obrigações regulamentou-as. e. o art. O mesmo artigo admite. assim. a oportunidade de. 8.Direito das Obrigacoes . porque o abandono resulta de um comportamento indicativo (é tácito). entregar um objeto a fim de se exonerar da obrigação. não podendo o credor exigir a prestação facultativa. 1. abandonar16 o objeto. o abandono da coisa perdida. que não prevê expressamente o tema. a obrigação de pagar. 16 Direito Civil . muitas vezes. Embora a lei diga “abandonar”. A própria lei apresenta casos de obrigações com faculdade de solução. que as partes não possam pactuar tais obrigações. uma recompensa mínima de cinco por cento e indenização pelas despesas que houver feito com a conservação e transporte da coisa. pois não infringem a ordem pública e. É a prestação que o descobridor da coisa pode exigir. de modo algum. se preferir. conforme possam ou não ser fracionadas em prestações parciais homogêneas. Ocorre que a ausência de normas legais sobre a matéria no direito vigente não significa. todavia. para o proprietário da coisa perdida.

Existem coisas e direitos indivisíveis.021-381. por convenção. em dinheiro. 257). A própria lei pode considerar um bem indivisível. Uma área de terra. sub-rogando-se nos direitos do credor. A indivisibilidade pode decorrer da natureza da prestação. transação. transformar um objeto divisível em indivisível. 261). Se a pluralidade for de credores. 259). os outros exigirão dele. Se a prestação não for divisível e houver pluralidade de devedores. dois devedores de uma quantia global podem convencionar com o credor a indivisibilidade do seu débito. 314 estabelece uma presunção de indivisibilidade da prestação no tempo quando afirma: “Ainda que a obrigação tenha por objeto prestação divisível. 6. de determinações legais. Uma casa. um livro são indivisíveis. dando este caução de ratificação dos outros (art. Por outro lado. O problema da divisibilidade das prestações reveste maior importância quando há pluralidade de credores ou de devedores. 258). da vontade das partes. não pode o credor ser obrigado a receber. um animal. em relação aos outros. Nos casos de remissão.Direito das Obrigacoes . nem o devedor a pagar. naturalmente divisível. mediante acordo de vontades. Se um dos credores receber a prestação inteira. Direito Civil . desde que o objeto seja divisível (art. pode. como ocorre com relação à ação das sociedades anônimas. Do mesmo modo. a parte que lhes couber (art.404. a lei presume a divisão da obrigação. como também o são os direitos de servidão e de hipoteca. Num negócio jurídico. cada um deles será obrigado pela dívida total.60 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS O art. que para a companhia é considerada indivisível ex vi do art. por partes. se assim não se ajustou”. havendo pluralidade de credores ou de devedores. tornar-se indivisível por certo prazo não superior a cinco anos. 28 da Lei n. 260). mas o devedor ou os devedores só se desobrigam pagando a todos conjuntamente ou a um dos credores. cada um destes pode exigir a dívida inteira. de motivos de ordem econômica ou dada a razão determinante do negócio jurídico (art.indd 60 25/4/2011 15:18:45 . o que tiver pago a dívida (art. as partes podem. de 15-121976 (Lei das Sociedades Anônimas).

263. Desde o direito romano. salvo quando em virtude de lei ou de convenção houver indivisibilidade. as obrigações de dar são consideradas divisíveis. quando fungíveis (bater à máquina cem cópias de um trabalho). Se na mesma hipótese de coisa divisível houver unidade de devedor e pluralidade de credores. Na solidariedade existe um vínculo jurídico unitário. Havendo pluralidade de credores e de devedores. enquanto.Direito das Obrigacoes . são divisíveis. Sendo a culpa de um só. § 2. confusão etc. cinco pessoas devem dez mil reais a dois credores. cada um dos devedores só responde pela sua quota e cada um dos credores só tem direito a receber a fração do montante Direito Civil .021-381. a obrigação não fica extinta em relação aos outros credores. enquanto na indivisibilidade a unidade é do objeto da relação jurídica. Não cumprida a obrigação. salvo se outro modo de divisão tiver sido estabelecido. existia certa confusão entre as obrigações indivisíveis e as obrigações solidárias. deixando a prestação de ser indivisível por se ter transformado no valor monetário da indenização. tanto assim que na solidariedade as partes continuam conjuntamente vinculadas no caso de inadimplemento da obrigação e de surgimento da responsabilidade. seja por ser divisível o seu objeto.classificação das obrigações pelo objeto 61 novação. (art. sendo cada um dos devedores responsável apenas pela sua quota.º). seja por admitir a divisão deste em quotas ideais. Assim. As obrigações de fazer. no caso de indivisibilidade. uma ligação entre os sujeitos ativos ou passivos da relação jurídica. descontada a quota do credor que perdoou a dívida ou em relação ao qual ocorreu a transação. cada devedor paga a sua quota. cada um destes paga a sua quota em parcelas iguais a cada um daqueles. que poderão exigir a prestação. entende-se ser a divisão igualitária. atendendo-se a critérios práticos. surge a responsabilidade que reveste a forma de indenização em dinheiro. 262). Se a coisa for divisível e houver pluralidade de devedores e unidade de credor. Não constando a fração de crédito ou débito dos interessados. Em geral. confusão ou compensação da dívida por parte de um dos credores. Cada um dos devedores pagará mil reais a cada um dos credores. o devedor paga a cada um dos credores a sua quota.indd 61 25/4/2011 15:18:45 . este responderá pelas perdas e danos (art.

seguindo o exemplo de outros países. que se estipulasse o pagamento em moeda estrangeira ou em certa espécie de moeda (moedas de ouro. Posteriormente. independentemente de qualquer referência ao valor do ouro ou do câmbio (arts. 6. 263. 9.258 do CC de 1916 e 431 do CCom de 1850). n. como. e cada um dos devedores só será responsável pela metade da indenização. sem prejuízo da ação regressiva contra o codevedor. permitiram que fossem convencionadas em moeda estrangeira as importações de mercadoria do estrangeiro e as obrigações contraídas no exterior para serem executadas no Brasil. embora. todavia. 857.Direito das Obrigacoes . de 119-1969.indd 62 25/4/2011 15:18:45 . vedar. a Lei n. nos contratos internos. a matéria se rege pelo Decreto-Lei n. cada um responderia pela totalidade da indenização. por culpa dos devedores. de prata etc. e ainda nos casos de contratos internos. nada impedia. na sistemática do Código Civil de 1916.501. 23. que admite a cláusula de pagamento em moeda estrangeira em todos os contratos internacionais. Em relação às obrigações pecuniárias em geral. A inflação e o desequilíbrio cambial obrigaram o Governo Provisório de 1930 a. surgirá a responsabilidade. 28. se a obrigação fosse solidária. Imaginemos dois devedores que se obrigam a entregar um animal específico ao credor. de 29-6-1944.650. Trata-se de obrigação indivisível.021-381. 947 e 1. O credor pode exigir o animal de qualquer dos devedores. o pagamento devesse ser feito em moeda corrente no lugar do cumprimento da obrigação. de 27-11-1933). Se perecer. O fim da indivisibilidade em virtude da resolução da obrigação em perdas e danos está expressamente previsto no caput do art.62 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS total que lhe cabe. e o Decreto-Lei n.). No entanto. Obrigações em dinheiro e dívidas de valor As obrigações finalmente podem ser obrigações pecuniárias (ou obrigações em dinheiro) e obrigações de valor. as estipulações de pagamento em ouro ou em determinada espécie de moeda (Dec. decorrentes ou vinculados a contratos internacionais. Atualmente. Direito Civil . na falta de estipulação. de 15-2-1935.

parágrafo único. desde que o índice escolhido não fosse o valor do ouro ou das moedas estrangeiras. em muitos casos. reconheceu ostensivamente a validade das cláusulas de reajustamento. em que uma das partes tenha domicílio no exterior. II — contratos de financiamento ou de prestação de garantias.º. 65/446.indd 63 25/4/2011 15:18:45 . RTJ 59/89. V — contratos em que se transfiram as obrigações do item IV.classificação das obrigações pelo objeto 63 por exemplo.021-381. afastado a aplicação do Decreto n. que não os proibiu explicitamente e. de 26-11-1956. Cambial em moeda estrangeira. III — contratos de câmbio. 57/883. IV — empréstimos e outras obrigações. de ser o devedor ou o credor da obrigação pessoa física ou jurídica residente ou domiciliada no exterior. considera válidos os pagamentos em moeda estrangeira no País em casos de: I — contratos e títulos referentes a importação ou exportação de mercadorias. pois. 27 da Lei n.º foi mantida tanto no art. 9. nos termos desse decreto-lei. Os outros índices de revalorização dos débitos.501 nas operações realizadas pelo Banco Nacional do Desenvolvimento Econômico (BNDE). no sentido de admitir as cláusulas de reajustamento nos débitos de dinheiro. e Mauro Brandão Lopes. também denominadas cláusulas de escala móvel. 2. 2. I. 2. às Obrigações Reajustáveis do Tesouro Nacional e aos BTNs emitidos pela União Federal e às vendas de imóveis a prestações dentro do sistema nacional de habitação (acabaram os BTNs e as ORTNs).Direito das Obrigacoes . A posição do direito brasileiro era. tendo aliás a Lei n. O art.192/2001. São Paulo: Revista dos Tribunais. exceto locação de imóveis situados no Brasil.973.º do Decreto-Lei n. 1977. 65/157. 10. 857/69 abre várias exceções. na exportação de produtos nacionais vendidos a crédito.069/95 quanto no art. A ressalva do referido art. os casos de repasse de empréstimo externo em moeda estrangeira. da Lei n. 67/769 e 69/736. 1. 23. são todavia admitidos pelo nosso direito. como ocorreu em relação aos aluguéis. O aspecto internacional do contrato decorre. mesmo que ambas as partes sejam domiciliadas no Brasil17. em virtude da diminuição do poder aquisitivo da moeda. 61/104. isto é. 17 Direito Civil . Sobre as obrigações em moeda estrangeira.

mas do pagamento de uma soma correspondente a certo valor. 3. n. a Lei n. Consulte-se Arnoldo Wald. Inicialmente.423. a não ser nos contratos de trabalho. especialmente no caso de empreitada. 561 e 562. Simonsen e Wald (Corre­ção monetária. tir. só permitiu que a indexação se fizesse de acordo com as ORTNs (posteriormente substituídas pelos BTN e hoje pela TR). 2. impossibilitando a execução do contrato nos termos em que tinha sido inicialmente aceito (art. assim como Chacel.4). A moeda. nesse caso. as operações realizadas por instituições financeiras e os contratos de fornecimento futuro de bens ou serviços19. 317 do CC). V. ver os acórdãos do Supremo Tribunal Federal publicados na RTJ.1. 53/378. 32/81. não constitui o V. de 29-4-1975. A cláusula da escala móvel. e Aplicação da teoria das dívidas de valor.021-381. com algumas modificações das quais tratamos no fim deste capítulo (n. sempre que se modifiquem as condições básicas do mercado de modo imprevisível para as partes. ed. e as Súmulas 475. 18 19 Direito Civil .. 9.64 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Independentemente de qualquer cláusula.indd 64 25/4/2011 15:18:45 . 20 Sobre a jurisprudência no tocante às dívidas de valor. 2 a 4. a respeito nosso parecer na Revista da Procuradoria-Geral do Estado do Rio de Janeiro. 490.Direito das Obrigacoes . em virtude da qual os juízes têm reajustado as prestações dos contratantes. A Lei n. 1959. várias medidas legislativas restringiram a liberdade de escolha de índice de reajustamento pelas partes. de 17-6-1977. A partir de 1975. Capítulo 15. proibiu que se fizesse a correção monetária de acordo com as variações do salário mínimo. Dívidas de valor 20 Diferem das obrigações pecuniárias ou obrigações de dinheiro as chamadas dívidas de dinheiro em que o débito não é de certo número de unidades monetárias. 9. Rio de Janeiro: Editora Nacional de Direito. 6.. 1976). 1959.205. excluindo dessa proibição os reajustamentos salariais. os débitos também podem sofrer reajustamento por decisão judicial. princípios que também encontramos na legislação posterior. 69/266. 82/284 e 431 e 84/1038. desenvolvimento da cláusula rebus sic stantibus18. Rio de Janeiro: Apec. Aplica-se a teoria da imprevisão. 6.

Os julgados. foi publicada a Lei n. A dívida é de um quid e não de um quantum. a fim de permitir que a indenização. inclusive sobre custas e honorários advocatícios” (art. ou outro índice. por exemplo.Direito das Obrigacoes .º). para a família da vítima. A própria lei determina a revisão das pensões alimentares.2. a correção será calculada a contar do respectivo vencimento” (art.899. quando. Na obrigação de reparar o dano causado ou de fornecer alimentos. que diminuiu o poder aquisitivo da moeda.021-381. dúvidas persistiam sobre a correção das dívidas pecuniárias. Em 9-4-1981.classificação das obrigações pelo objeto 65 objeto da dívida. 9.º. um valor econômico igual à contribuição que a vítima daria aos seus familiares se não tivesse sofrido acidente. represente. representando valor correspondente a um bem determinado e não certo número de unidades monetárias. A evolução da jurisprudência brasileira e da nossa doutrina é no sentido de reconhecer as dívidas de valor. § 1. mas simples medida de valor. 86.º. o seu valor se modificou em virtude da inflação. que disciplina a aplicação da correção monetária nos débitos oriundos de decisão judicial e foi regulamentada pelo Decreto n. de 25-11-1981. o cálculo far-se-á a partir do ajuizamento da ação” (art. Nos casos de indenização por desapropriação ou por dano causado em virtude de ato ilícito.indd 65 25/4/2011 15:18:45 .º). 1. o credor tem direito a uma quantia igual ao valor da coisa destruída ou ao valor necessário para que o beneficiário da pensão alimentar possa levar certo tipo de vida de acordo com as suas necessidades e as possibilidades do devedor. Com relação ao termo inicial para o cálculo da correção monetária. concedem aos dependentes da vítima de acidente uma pensão variável com o salário mínimo.649. despachos e sentenças Direito Civil . 1. § 2. 1. A palavra decisão tem sentido amplo: abarca decisões interlocutórias. 6. por meio de pensão. a lei estabelece dois critérios: a) “nas execuções de títulos de dívida líquida e certa. indo mais longe na tendência de proteger o credor contra a inflação. desde o início do processo até o momento do pagamento. Cobrança de débitos em juízo Não obstante aceita pela jurisprudência a correção monetária das dívidas de valor. A lei manda corrigir “qualquer débito resultante de decisão judicial. os julgados já admitem a atualização da avaliação daquela.º). e b) “nos demais casos.

b) Súmula 14. embora houvesse regras específicas do Decreto-Lei n. e) Súmula 30. “Incide correção monetária sobre as prestações pagas. cabe a atualização monetária. g) Súmula 36. 1990. de 10. 23 O STJ vem uniformizando a jurisprudência sobre correção monetária em sucessivas Súmulas. a correção monetária incide a partir do respectivo ajuizamento”. h) Súmula 43. em virtude da retirada ou exclusão do participante de plano de consórcio”. 21 Direito Civil . 121/803). não excetuou os de falências e concordatas. O art. “Aplica-se a correção monetária aos créditos habilitados em concordata preventiva.2. “Arbitrados os honorários advocatícios em percentual sobre o valor da causa.66 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS condenatórias. 7. “A legislação ordinária sobre crédito rural não veda a incidência da correção monetária”. “A comissão de permanência e a correção monetária são inacumuláveis”.283. Idêntica é a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça23. 114/855.-lei 2. 120/815 e 850 e 125/1334. de 27. e até em falências. como se vê nas RTJ. “No pagamento em juízo para elidir falência.274. 11.Direito das Obrigacoes . “Incide correção monetária sobre dívida por ato ilícito a partir da data do efetivo prejuízo”.12. juros e honorários de advogado”. 17521 e seus parágrafos da antiga Lei de Falências22. o Supremo Tribunal passou a admitir a correção monetária em concordatas. d) Súmula 29.021-381. i) Súmula 67. 22 Sobre o assunto.indd 66 25/4/2011 15:18:45 . requerida em concordata ou falência”. em caso de garantia real (RTJ. “Os honorários de advogado em desapropriação direta são calculados sobre a diferença entre a indenização e a oferta.84. em caso de adiantamento de câmbio. salvo durante o período compreendido entre as datas de vigência da Lei 7. j) Súmula 141. 175 não encontra correspondência na nova Lei de Falências (Lei n. ainda que por mais de uma vez. Aliás. e do Dec. de 9-2-2005). que alterou o art. c) Súmula 16. Correção monetária dos créditos quirografários na concordata preventiva. são devidos correção monetária.274.101. que passamos a transcrever: a) Súmula 8. corrigidas monetariamente”. independente do decurso de prazo superior a um ano entre o cálculo e o efetivo pagamento da indenização”. “A correção monetária integra o valor da restituição. ver Jorge Lobo. 109/768. f) Súmula 35. mesmo após a decretação. de 10-12-1984. quando de sua restituição. Rio de Janeiro: Lumen Juris. Dizendo a lei “qualquer débito”.86”. e depois complementado pela Lei n. 858/69. “Na desapropriação.

6. para fixar a dívida antes da cobrança (arts. 81/315.72% (IPC) quanto às perdas de janeiro de 1989 e 44. as indenizações e os alimentos. responde pelo pagamento da correção monetária relativa aos valores recolhidos”. vale dizer. Lembre-se o ato ilícito. são corrigidos em 42.021-381. l) Súmula 162. de acordo com o entendimento do STF (RE 226. nos demais casos. de 5. o que é absurdo. m) Súmula 179. fazendo incidir a correção a contar do vencimento.classificação das obrigações pelo objeto 67 A Lei n. pela legislação infracons­ titucional. porém. ou até com o protocolo da entrega da inicial. vencidos e cobrados em juízo após a vigência da Lei n. a correção monetária incide a partir do pagamento indevido”. ainda. 81/232. Direito Civil . Aduz. “Os saldos das contas do FGTS. será mais bem corrigida que a de alimentos ou indenização. Se assim for. É preciso distinguir. do CPC). a dívida de dinheiro. a correção incide a partir do ajuizamento.00% (TR) para fevereiro de 1991. Pode haver produção antecipada de prova. k) Súmula 148. não é certo incidir a correção a partir do ajuizamento. havendo mais de uma vara (art. “Na repetição de indébito tributário. 83/604.855-7-RS)”. em depósito judicial.02% (LBC) quanto as perdas de junho de 1987. acolhidos pelo STJ os índices de 18. n) Súmula 252. devem ser corrigidos monetariamente na forma prevista nesse diploma legal”.899/81. O Supremo Tribunal Federal admite correção em liquidação de sentença (art. 263 do CPC).indd 67 25/4/2011 15:18:45 .80% (IPC) quanto às de abril de 1990. Em ambos os casos. que. Cap. sem clareza.Direito das Obrigacoes . com o despacho da petição inicial ou com a distribuição. “Os débitos relativos a benefício previdenciário. dependendo a correção do momento indicado no laudo: este pode fixar o débito na data do fato (quando ocorreu) ou fixá-lo na data do laudo (quando se apura o valor).899/81 menciona a dívida líquida e certa. 84/564 e 100/773. 603 do CPC). 6. conforme acórdãos na RTJ.38% (BTN) para maio de 1990 e 7. no qual o devedor incorre em mora no momento em que o pratica (art. não havendo juiz ou distribuição no dia. em que a dívida não é líquida e o ajuizamento é sempre posterior ao início do débito. como a de um empréstimo com nota promissória. 398 do CC — v. “O estabelecimento de crédito que recebe dinheiro. 6). 846 e s. O ajuizamento pode ser entendido como propositura.

68 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS A lei faz incidir a correção nas causas pendentes de julgamento.00 = Cr$ 1.283. Min. um cruzado igual a mil cruzeiros (Cz$ 1. Cláudio Santos: “A indenização pelo prejuízo causado pela prática de ato ilícito deve ser completa. e os créditos da Fazenda têm regras próprias. Seção I. em lugar do cruzeiro. 126/436.00) de 1986. e Súmula 43 do STJ. acórdão do REsp 9. acórdão do STF em RTJ.021-381. Foi o chamado “Plano Cruzado”. instituiu nova moeda — o cruzado. Como já ocorrera com o cruzeiro velho. sendo seus valores corrigidos monetariamente a partir do evento danoso. O credor é que tem direito adquirido de não receber menos do que lhe cabia. Direito Civil . mas o regulamento restringiu-a a partir da vigência da lei (9-4-1981). 24 V. transcrita na nota anterior). passaram a sofrer correções diárias (dividem-se por um fator progressivo de 1.3. a correção se fará a partir da lesão de direito. 4 nov. A correção não aumenta o débito. conforme jurisprudência mansa e pacífica24. ou seja. 1991. Rel. no STJ.899/81” (DJ. com vencimentos posteriores ao decreto-lei. A lei só não pode retroagir se fere direito adquirido. apenas procura evitar que ele diminua demais. em 1967. tenta recompô-lo. já aceitas no atual Código Civil). Quanto às dívidas de valor. a nova moeda passou a valer mil vezes mais que o cruzeiro. 2. ainda que anterior à vigência da Lei 6. salvo culpa do credor. Já as custas se corrigem desde o pagamento.0045). a fim de restabelecer a situação em que o lesado estaria se não tivesse ocorrido a violação do seu direito (restitutio in integrum).605/SP. pagando o devedor o que devia e recebendo o credor o que lhe cabia. p.Direito das Obrigacoes . o devedor só tem direito adquirido se pagar quando deve. embora não se deva entender a lei como retroativa. As dívidas em cruzeiros. O mesmo decreto-lei instituiu a Obrigação do Tesouro Nacional (OTN) em lugar da Obrigação Reajustável do Tesouro Nacional (ORTN). 15682. de 27-2-1986. 9.000. O combate à inflação e os planos monetários O Decreto-Lei n. ante a inflação acentuada. consoante tabelas que foram publicadas (as “Tablitas”). Conclusão: a lei só abrange as dívidas de dinheiro (não as de valor. entretanto.indd 68 25/4/2011 15:18:45 .

º do Decreto-Lei n. entre 1. especialmente após a regulamentação do Decreto n. Após as eleições de 15-11-1986.º3-1987.284. soldos. fixou novo salário mínimo e reajustes anuais para vencimentos. mercado de capitais.º-3-1987. Fundo de Garantia de Tempo de Serviço e o chamado PIS/PASEP sofressem reajustes pelo IPC (Índice de Preços ao Consumidor). cujo texto manteve o valor da OTN até 282-1987.º do decreto-lei anterior. Surgiram questões de direito intertemporal. 92. com correções e aperfeiçoamentos do anterior. como a diferença de cálculo de aluguéis residenciais e não residenciais.º-3-1987 a inflação foi agravada. Vedou-se o reajuste até 1.º-3-1987. sem controlar os preços.289.º-12-1986 e 1. será reajustado. Dez dias após era editado o Decreto-Lei n. alterou-se o art. de 10-3-1986. 2. Já as obrigações e contratos de prazo igual ou superior a doze meses poderiam ter cláusula de reajuste. 6. Desde 1.021-381.592. o qual regulou a atualização pro rata (proporcional) e o modo de converter em cruzados várias obrigações previstas no De- Direito Civil . Novo choque foi tentado com o Decreto-Lei n. para obrigações com mais de doze meses. 7. Em 10-9-1986 foi publicado o Decreto-Lei n. de 9-9-1986. 2. 2. computando-se as variações do IPC até 30-11-1986 e o rendimento das Letras do Banco Central. conforme fosse regulamentado. além de abrir vários créditos. 7.Direito das Obrigacoes . Foi mantida a vedação de escala móvel em contratos de prazo menor de um ano (art. com o que se chamou de “Plano Cruzado II”. aluguéis. congelando-se os preços por 90 dias. 2. Sucessivos decretos-leis introduziram alterações. mas. republicado em 15-9-1986.º). imposto de renda e editou tabelas para conversão e reajustes. pelos quais se alterou o sistema. editaram-se novos decretos-leis. de 25-4-1986. mas o parágrafo único diz que o valor nominal da OTN.290. admitiu-se o reajuste com vinculação a índices setoriais de custos ou à OTN. de 12-6-1987. 2. Pelo Decreto-Lei n. salários e proventos. de 21-11-1986.classificação das obrigações pelo objeto 69 O decreto-lei admitiu que os saldos de cadernetas de poupança. a partir de 1. reformulou o art. o qual. Criou o seguro-desemprego e fixou o prazo de trinta dias para a sua regulamentação.284.335.indd 69 25/4/2011 15:18:45 . Cuidou ainda de juros.

A Medida Provisória n. 7. de 14-61989 (depois Lei n. em alguns casos. Com a exacerbação da inflação no final de 1988. 2. voltou a instituir o “deflator” (“tablita”) para as obrigações assumidas antes do choque sem cláusula de correção monetária e instituindo várias outras medidas. 7. Em 8-3-1989.70 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS creto-Lei n. a Medida Provisória n. mandou aplicar a variação da Letra Financeira do Tesouro (LFT).º. especialmente o seu art. É que os aluguéis residenciais foram expressamente regulados no art. cujo valor nominal. surgindo divergência de julgados. 2. regulou os aluguéis residenciais. 68.indd 70 25/4/2011 15:18:45 . 32. A Lei n. de 19-6-1989. proibindo qualquer tipo de correção nos contratos por prazo inferior a noventa dias.730. e a Medida Provisória n. Direito Civil .284. Por ela instituiu o “cruzado novo”. novamente o governo. 10 do Decreto-Lei n.799/89). 7. 9. Tal valor passou a ser corrigido mensalmente. Mas o decreto regulamentador não fez distinção e os tribunais tiveram de resolver. criou o BTN (Bônus do Tesouro Nacional). Outros problemas também ocuparam a atenção dos tribunais.Direito das Obrigacoes . em fevereiro/89. congelou preços e salários por tempo indeterminado.730/89 extinguiu a OTN e. repetiu o choque na economia (o chamado “Plano Verão”). de 10-3-1986. Acelerou-se a inflação. de 31-1-1989. extinguiu a OTN.021-381. de 22-5-1989 (depois convertida na Lei n. 57. obrigações indexadas (aluguéis em ORTN. permitindo a indexação pelo Índice de Preços ao Consumidor (IPC) depois do término do congelamento.284/86. notas promissórias em ORTN. 40 mandou aplicar o IPC em lugar da extinta OTN. posteriormente convertida na Lei n. foi de NCz$ 1. instituiu o BTN fiscal “como referencial de indexação de tributos e contribuições de competência da União”. 7. pela qual se deflacionavam os débitos supostamente contendo ágio ou inflação embutida). pois os devedores pretendiam que se lhes aplicasse o fator de depreciação (a chamada “tablita”.00.º. Assim. tentando desmantelar a “indexação” da economia. substituídas por OTN). concluindo-se que os aluguéis não residenciais seriam incluídos no art. através da Medida Provisória n.777. 9. de 15-1-1989.

o combate à inflação. 434.classificação das obrigações pelo objeto 71 A Lei n. 7. cuja aplicação foi regulada pela Lei n. criou a URV (Unidade Real de Valor). O Supremo Tribunal Federal. 8. aplicável também às demais unidades extintas. Por sua vez.8621. de 18-10-1989. após reeditada duas vezes. enfim. que foram.Direito das Obrigacoes . para adaptação ao novo índice. em Ação de Inconstitucionalidade. além de várias regras de direito intertemporal.177. Direito Civil . que. para as obrigações com cláusula de correção monetária vinculada à OTN fiscal. 9. indiretamente. celebrados ainda pelas OTNs.774. de 27-2-1994. pela sua origem e estrutura. 7. fixou regras para os contratos em curso. a reforma fiscal e administrativa e as medidas de desestatização da economia. o cruzado novo foi substituído pelo cruzeiro. A mesma medida extinguiu também o MVR (Maior Valor de Referência) e demais unidades de conta assemelhadas. a Lei n. de 1. assumindo a Presidência da República Fernando Collor. substituídos pela TR (Taxa Referencial de Juros) e pela TRD (Taxa Referencial Diária). considerou que a Taxa Referencial.021-381. continuando em curso as duas moedas por um curto período e estabelecendo-se medidas temporárias de congelamento e de reajuste com a finalidade de assegurar a manutenção do poder aquisitivo da nova moeda.º-2-1991. A partir de 1. Em 15-3-1990. e passou-se a atualizar tal valor pela TR.843. e substituiu o salário mínimo de referência pelo equivalente a 40 BTNs. fixou regras de conver­ são dos antigos reajustes para os novos índices e modificou a fórmula matemática antes indicada pela Lei n. de 8-6-1989. 8. foram baixadas as medidas provisórias que constituem o “Plano Brasil Novo”.4.660. ficaram extintos os BTNs. Fixou-se o último BTN em Cr$ 126. não podia funcionar como indexador (ADIn 493 DF). No tocante à moeda. referente ao Programa de Estabilização Econômica e ao Sistema Monetário Nacional.indd 71 25/4/2011 15:18:45 . de 28-5-1993. abrangendo a reforma monetária. extinguiu a TRD e fixou novos critérios para o cálculo da TR. O “Plano Real” A Medida Provisória n.º-3-1991.

069. a medida foi convertida na Lei n. 4. dispôs sobre o chamado “Plano Real”. 9. Obrigações de dar coisa A obrigação de dar pode abranger coisa certa e coisa incerta certa ou coisa incerta. mas determinação genericamente feita.72 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS foi convertida na Lei n. de 27-5-1994. Já a obrigação de dar coisa incerta consiste em fornecer certa quantidade de unidades de determinado gênero e não uma coisa especificada. Características da presta.A prestação é o comportamento do devedor ção que aproveita ao credor e por este pode ser exigido. A moeda continuou sendo o cruzeiro. 542. 3.880. determinada ou determinável e possuir expressão econômica. enquanto na de fazer o credor pretende obter a realização de um serviço.indd 72 25/4/2011 15:18:45 . de 30-6-1994. SÍNTESE 3 — Classificação das obrigações pelo objeto 1. em relação à moeda anterior.021-381. de 29-6-1995. Obrigações positivas e As obrigações são positivas quando a presnegativas tação do devedor implica dar ou fazer alguma coisa e negativas quando importam numa abstenção. não significa indeterminação. 8. Várias vezes reeditada. oscilando a inflação entre 1% e 3% ao mês. A prestação deve ser possível. o que. 2. Durante vários meses ficaram quase estáveis os preços e salários. representou notável progresso. Obrigações de dar e de Na obrigação de dar visa-se geralmente a fazer entrega de uma coisa. lícita. entretanto.Direito das Obrigacoes . A obrigação de dar coisa certa surge quando a prestação é de objeto específico e individualizado. em relação a contratos anteriores. introduzindo a nova moeda. mas a Medida Provisória n. A incerteza da coisa. Direito Civil . chamada REAL.

quando. 6.classificação das obrigações pelo objeto 5. As obrigações pecuniárias ou de didívidas de valor nheiro são aquelas que possuem como objeto da prestação a própria moeda. mas o devedor se desonera cumprindo a prestação facultativa. Obrigações em dinheiro e As obrigações podem ser pecuniárias ou de valor. Nas obrigações conjuntivas o devedor deve cumprir todas as prestações e não apenas uma delas. 7. um non facere.indd 73 25/4/2011 15:18:45 . Direito Civil . a obrigação contém mais de uma prestação. ao contrário. só se aceitam as obrigações que são consideradas lícitas. é denominada composta ou complexa. é considerada simples. está relacionada à divisibilidade do objeto da obrigação e à pluralidade de credores ou devedores. 9. Obrigações conjuntivas e A obrigação pode ter um ou vários objetos. mas existe apenas uma única prestação que de de substituição autoriza o devedor a substituir a prestação devida por outra. existem duas ou mais formas pelas quais a obrigação pode ser satisfeita e o cumprimento de uma única prestação extingue a obrigação. ou seja. 8. Nas obrigações de valor a moeda apenas representa o valor da prestação. Assim. o credor só pode exigir a prestação obrigatória. Obrigações divisíveis e As obrigações são divisíveis ou indivisíveis conforme possam ou não ser fracionadas indivisíveis em prestações parciais homogêneas.São semelhantes às obrigações alternativas. Nas obrigações alternativas. Quando a obrigação abrange uma única alternativas prestação.021-381. Contudo. Portanto. Obrigações de não fazer 73 As obrigações de não fazer envolvem uma abstenção. a pessoa deve deixar de praticar algum ato.Direito das Obrigacoes . Obrigações com faculda. que não contrariam a liberdade individual de tal modo que venham a infringir a ordem pública.

9. O “Plano Real” Direito Civil . 6.3. 542/94 (Lei n.1.069/95). Cobrança de débitos em A correção monetária sobre débitos resuljuízo tante de decisão judicial é fundamentada na Lei n. 7. 434/94 (Lei n.Direito das Obrigacoes .indd 74 Medida Provisória n.283/86 (“Plano Cruzado”).880/94). 25/4/2011 15:18:46 . a reforma fiscal e administrativa e as medidas de desestatização da economia. por meio do “Plano Verão” (Lei n.2. 2. que abrangeu a reforma monetária.649/81. posteriormente regulamentada pelo Decreto n. 9.899/81. podemos citar a instituição do cruzado em lugar do cruzeiro pelo Decreto-Lei n. Medida Provisória n. o combate à inflação. 9.021-381. Dívidas de valor Nas dívidas de valor.730/89). Na mesma época a moeda foi novamente alterada de cruzado novo para cruzeiro. a fim de restabelecer a situação em que o lesado estaria se não tivesse ocorrido a violação do seu direito. e o “Plano Brasil Novo” em 1990. a instituição do cruzado novo em lugar do cruzado.4.74 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 9. 9. 8. a moeda não é o objeto da dívida. A correção monetária nas dívidas de valor se fará a partir da lesão de direito. O combate à inflação e Dentre as principais alterações na moeda e os planos monetários inflação brasileira. 86. mas simples medida de valor.

Sujeitos da obrigação: credor e devedor. Obrigações ambulatórias. 6. Pode ocorrer que haja uma única obrigação.indd 75 25/4/2011 15:18:46 .Direito das Obrigacoes .Capítulo 4 CLASSIFICAÇÃO DAS OBRIGAÇÕES PELOS SUJEITOS Sumário: 1. credor: o vendedor) e outras. É ele o devedor. 4. Obrigações propter rem ou reais. conforme o caso. credor: o comprador). que sejam múltiplas e recíprocas as obrigações. enquanto os estranhos a esta são denominados terceiros. Num contrato de compra e venda surgem diversas obrigações: a de entregar a coisa (devedor: o vendedor. sobre os quais recai o débito. ou. No contrato de mútuo gratuito. Os credores e devedores são considerados partes na obrigação. só existe a obrigação. Solidariedade ativa. Sujeitos da obrigação: credor e devedor Em toda obrigação temos um ou vários sujeitos ativos (credores). a de pagar o preço (devedor: o comprador.1. 1. Obrigações solidárias. 5. Terceiro em relação a determinada obrigação é quem não é parte nela.021-381. 2. seja de devedor. e um ou vários sujeitos passivos (devedores). 1. de devolver a quantia que lhe foi emprestada. e o mutuante é o credor. 3. ao contrário. que. titulares dos direitos. Solidariedade passiva. Pluralidade de credores e devedores. embora possa ter um interesse indireto em seu cumprimento. que incumbe ao mutuário. Direito Civil . variando a posição do comprador e do vendedor. têm a situação seja de credor. Obrigações conjuntas.

Assim. podendo. ao contrário do que ocorre nos direitos absolutos. São exemplos os títulos ao portador. sendo o credor. opondo-se o direito contra todos (erga omnes).Direito das Obrigacoes . como acontece nos títulos ao portador e nas ofertas ao público por meio de anúncios nos quais se conhece desde logo o devedor. teatro. ou titular do crédito. que estão vinculadas a quem esteja em certo momento na posse ou no exercício da propriedade de certo objeto. um período durante o qual um dos sujeitos de relação jurídica é determinável. eventualmente. A indeterminação relativa também pode ocorrer em relação ao sujeito ativo da obrigação. cujo sujeito passivo é indeterminado. fichas de bar etc. Obrigações ambulatórias. Há assim uma vacatio. Mas tais obrigações “andam” de um a outro titular. nem sempre o crédito e o débito surgem no mesmo momento. Direito Civil . se forem perdidos ou subtraídos. trem. quem se apresenta com uma letra de câmbio ao portador tem o direito de receber. Quando alguém promete uma recompensa ou oferece um produto à venda. decorrer certo prazo até que se apresente o credor da obrigação. mas só decorrida a vacatio é que haverá determinação do credor da obrigação. O sujeito passivo é relativamente indeterminado nas chamadas obrigações ambulatórias e nas obrigações propter rem. mas ainda não é determinado.1. Assim. o sujeito ativo. os títulos de legitimação (bilhetes de cinema. só aparece no momento em que exerce o seu direito. todavia. Na relação jurídica obrigacional. ou seja. anulados ou reivindicados. o sujeito passivo é determinado ou determinável. assume uma obrigação (de pagar o prêmio ou de entregar a mercadoria de acordo com uma tabela de preços). a de reparar o muro limítrofe etc. Verdade é que os títulos ao portador podem ser. São obrigações desse tipo a de pagar os impostos referentes a certo imóvel.76 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Nas obrigações. 1. passando de um titular a outro. Obrigações “propter rem” ou reais Chamam-se obrigações ambulatórias (de ambulare = andar) aquelas que podem ser transferidas sem formalidades.indd 76 25/4/2011 15:18:46 .).021-381.

em virtude da qual os diversos herdeiros se substituem ao falecido nos seus direitos e nas suas obrigações. Pluralidade de credores e devedores Quando há mais de um credor ou devedor numa relação jurídica.indd 77 25/4/2011 15:18:46 .Direito das Obrigacoes . As obrigações reais. de modo que trataremos agora das obrigações conjuntas e das obrigações solidárias. sobre os quais incidem ônus reais (imposto imobiliário. conservação de divisas etc. a obrigação é simplesmente conjunta ou fracionária. não tendo um patrimônio suficiente para adquirir certo bem. Nas obrigações conjuntas ou fracionárias. A pluralidade também resulta de fato natural involuntário.021-381. foro etc. cada um dos devedores responde por uma parte do débito. sabe-se quem é o devedor. distinguem as obrigações reais das ambulatórias. 2. passam a pesar sobre quem se torne titular da coisa. Logo. a natureza Direito Civil .classificação das obrigações pelos sujeitos 77 Já as obrigações reais (de res = coisa. seguro obrigatório. quando posterior à criação da obrigação. como quando uma pessoa. porque nestas só se descobre o titular quando este se apresenta. Nas obrigações indivisíveis. Já estudamos a obrigação indivisível (n. 8). compra-o conjuntamente com outras pessoas. sabendo-se quem é o titular. ou propter rem. costumamos dizer que há pluralidade de sujeitos. em virtude da natureza da prestação ou de convenção entre as partes. em outros é indivisível. Chamam-se também obrigações propter rem ou ob rem. Os efeitos da pluralidade de sujeitos nem sempre são os mesmos. quando surge no momento da constituição da relação jurídica.). decorrendo de ato inter vivos ou de sucessão mortis causa. e cada um dos credores só pode exigir a sua quota no crédito. Pode a pluralidade ser originária. Alguns autores. Em certos casos. Tal pluralidade resulta algumas vezes da vontade dos contratantes. ou subsequente. como a morte. por isso. Já na obrigação real basta saber quem é o titular do direito sobre a coisa.). bem como deveres decorrentes da necessidade de manter a coisa (despesas de condomínio. em latim) são as que derivam da vinculação de alguém a certos bens. em outras ainda é solidária.

esta presume-se dividida em tantas obrigações. Quando o título não estabelece o modo de divisão. 8). Perecendo o objeto indivisível e transformando-se a obrigação em responsabilidade.Direito das Obrigacoes . ou uma pluralidade de credores. e todo devedor é obrigado a pagar uma quota do débito. até prova em contrário. cada credor tem direito a uma fração do crédito. a solidariedade passiva e a solidariedade ativa. quantos os credores ou devedores”. Nas obrigações solidárias. aplicando-se princípios especiais que já foram indicados (n. 3. presume-se juris tantum. o benefício da divisão. cada credor só pode exigir do devedor a parte que lhe couber. que os créditos e débitos se dividam igualmente entre os sujeitos ativos ou passivos. É o que esclarece o art. existe uma pluralidade de devedores. respondendo cada qual pela dívida inteira.78 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS do objeto impede a divisão. por diversas pessoas. Direito Civil . respectivamente. Nessa obrigação. A obrigação conjunta é aquela em que cada um dos titulares tem um direito ou um dever autônomo em relação à parte determinada do crédito ou do débito. iguais e distintas. ensejando. A obrigação conjunta resulta do ato de vontade entre vivos ou de sucessão hereditária.021-381. ela se decompõe em tantas obrigações autônomas quantos forem os sujeitos. em seu favor. Na obrigação conjunta ou fracionária. Obrigações conjuntas Quando uma obrigação é contraída. e o sujeito passivo da relação jurídica é autorizado a alegar. 257 do Código Civil de 2002 (que manteve a redação do art. 890 do CC de 1916): “Havendo mais de um devedor ou mais de um credor em obrigação divisível. passiva ou ativamente. conforme o caso. aplicam-se as normas sobre obrigações conjuntas.indd 78 25/4/2011 15:18:46 . podendo qualquer deles exigir a totalidade do crédito. O inadimplemento. a nulidade ou a anulabilidade de uma das obrigações nenhum efeito têm sobre a outra.

O problema data do direito romano. é mista. 1.indd 79 25/4/2011 15:18:46 . e a solidariedade imperfeita. resultando da lei ou da vontade das partes. em virtude da contestatio litis. determinando que só fosse extinta a obrigação solidária. Alguns autores tentam distinguir entre a solidariedade perfeita. entendendo alguns que havia um vínculo único. pois alguns juristas. em virtude do pagamento efetivo (perceptio). Obrigações solidárias Obrigações solidárias são aquelas com pluralidade de credores ou devedores. a confusão na matéria. esclarecido que tais deduções se baseiam em textos interpolados. ensejando. a solidariedade é ativa. para todos os devedores. sem que tal distinção apresente qualquer utilidade prática. Houve. ou seja. resultante da letra da lei. art. examinando os textos da época de Justiniano. decorrente da vontade das partes. A doutrina francesa. pois Justiniano aboliu o efeito extintivo da contestatio litis em relação às obrigações solidárias.021-381. da ação movida contra um dos devedores. é passiva. enquanto outros defendiam a tese da pluralidade das obrigações ligadas umas às outras. sendo de devedores.Direito das Obrigacoes .classificação das obrigações pelos sujeitos 79 4. direito alemão. BGB. Sendo a pluralidade de credores. assim. cada um com um direito ou obrigado ao total. uma tentativa de distinguir entre obrigações solidárias unitárias e obrigações solidárias plurais. a solidariedade nunca se presume (art. como se houvesse um só credor ou devedor. outras obrigações solidárias só se extinguiam para todos os devedores com o pagamento efetivo do débito por um deles. embora reconhecendo que a obrigação solidá- Direito Civil . assim. No direito civil brasileiro. Discutiu-se também a natureza unitária ou plural das obrigações solidárias. todavia. enquanto certas obrigações solidárias perdiam esse caráter. chegaram à conclusão de que. tendo a doutrina. e direito italiano. ao contrário do que acontece em outras legislações que admitem a presunção de solidariedade (v. Sendo de credores e devedores. enquanto outros mantiveram a redação antiga. italiana e brasileira se manifesta favorável à unidade do vínculo. art. Alguns textos foram atualizados de acordo com a norma modificativa de Justiniano. 427. 265).294 do Código Civil vigente).

aquele que pagou o débito tem a faculdade de exigir o reembolso das quotas devidas pelos coobrigados. e condicional. seja em virtude do fim comum almejado pelas partes. Natureza — A natureza da solidariedade também tem sido objeto de várias teorias que explicam a vinculação entre os devedores ou credores solidários. ou pagável em lugar diferente. e o credor que recebeu o pagamento total tem o dever de pagar aos seus cocredores as quotas que lhes cabem. desde que se reconheça que para cada sujeito podem apresentar aspectos e características peculiares. 266. admite a unidade da obrigação solidária. Na relação interna. posteriormente. Origem — A solidariedade caracteriza-se pela multiplicidade dos sujeitos ativos ou passivos da relação jurídica. ou a prazo. O atual Código Civil brasileiro. em aditamento.80 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS ria única possa revestir-se de características próprias em relação aos diversos sujeitos. funcionando com a mesma estrutura. seja pela representação recíproca. Relação externa e interna — Nos casos de solidariedade existe uma relação jurídica externa entre o grupo devedor e o grupo credor e uma relação jurídica interna entre os diversos membros do mesmo grupo (cocredores ou coobrigados). inclina-se pela teoria da pluralidade das obrigações solidárias. Na realidade é difícil encontrar um fundamento único para todos os casos de solidariedade convencional e legal. não vemos qual a diferença entre afirmar a pluralidade ou a unidade da relação. respondem a necessidades sociais diversas. pois. se algumas pessoas fazem uma confissão de dívida a um credor. pode. estabelecer-se entre elas um vínculo de solidariedade em relação Direito Civil . Na realidade. para o outro”. confirmando a disciplina já adotada pelo Código de 1916. no mesmo texto ou em documento diverso. no art. Pode surgir com a obrigação ou posteriormente. ao contrário. qualquer credor pode exigir o pagamento total de qualquer devedor. Na relação externa.021-381. ressalvando que ela: “pode ser pura e simples para um dos cocredores ou codevedores.indd 80 25/4/2011 15:18:46 . seja pelo mandato ou pela sociedade. A doutrina alemã. pela unidade da prestação e pela corresponsabilidade existente entre os interessados. podendo extinguir-se em relação a um dos sujeitos e continuar em vigor para os outros. Assim.Direito das Obrigacoes .

classificação das obrigações pelos sujeitos 81 ao débito reconhecido. Silva Franco. na hipótese de falecimento de um dos correntistas. 7 jun. alguém avalize o título. Câmara de Férias. 9. 1 Direito Civil . O problema criado para a jurisprudência consiste em saber se. ACrim 118. p. com maiores garantias.778. 6-1-1983. 4. mantém-se atualmente com a finalidade de permitir o não pagamento do tributo de transmissão mortis causa por ocasião do falecimento de um dos credores. 2002. que é alcançada. Instituto decadente. a jurisprudência é controvertida em relação ao limite das obrigações de cada um2. discutindo-se. Tem importância diminuta. assim.indd 81 25/4/2011 15:18:46 . TJSP. Rel. tempos depois. 1..944/2002. Marco César. tendo havido oscilações nas decisões da Justiça brasileira1. 12. São exemplos de solidariedade ativa as contas bancárias conjuntas e os depósitos conjuntos em caixas-fortes. pelo mandato que um credor pode outorgar a outro. caso o que recebeu não tenha patrimônio suficiente para responder pelas quotas alheias. solidário em relação ao emitente do título. O Superior Tribunal de Justiça.ª Reg. podendo qualquer dos credores movimentar a conta ou utilizar a caixa-forte. Luiz Otávio Linhares Renault. 3.. é lícito ao outro sacar o valor constante na conta. Rel.846-4/0. AC 214. já se O antigo TACrimSP decidiu que. ainda. 5. RT. a respeito da existência de presunção de acordo com a qual caberia a cada um dos credores ou titulares um valor idêntico. os seus haveres na conta conjunta ou na caixa-forte conjunta devem ou não ser computados no inventário.ª Câmara de Direito Privado. DJMG. Rel. Ainda em relação aos titulares conjuntos de conta-corrente.021-381. Acresce que a solidariedade ativa. em virtude da existência de solidariedade ativa (ex-TACrimSP. Emitida uma nota promissória. pode prejudicar os outros. j.ª T. 572/331). Des. tornando-se. pois visa permitir a representação recíproca dos credores. Des.Direito das Obrigacoes . Solidariedade ativa Solidariedade ativa é a de vários credores. sobre a questão. 2 Há decisões nas quais se entende persistir a relação de solidariedade em relação a terceiros portadores dos cheques emitidos por um dos correntistas (TRT. Ap. com o pagamento integral do débito a um dos credores. nada impede que. falecendo um dos credores.

Athos Carneiro. basta a citação de apenas um dos credores em ação consignatória5. 269). Cív.ª T.Direito das Obrigacoes . Min. mas não existe a responsabilidade solidária por cheques sem fundos emitidos por um dos correntistas (TJPR. Fontes de Alencar.ª Câm. 0299280-5. Min. Rel. j.536/SP. Cada um dos credores solidários tem o direito de exigir do devedor o cumprimento da prestação por inteiro. 267). 7-3-1990. 383).. 16-2-2000). pois. AC 0100255-7. Também se configura como solidariedade ativa quando mais de um advogado são constituídos em um mesmo mandato4.. 268).indd 82 25/4/2011 15:18:46 . a qualquer daqueles poderá este pagar (art. O pagamento total do débito a um dos credores extingue a obrigação (art. Enquanto alguns dos credores solidários não demandarem o devedor comum. Rel.079-4. j.. 26 mar. os cotitulares não são devedores solidários perante o portador de cheque emitido por qualquer um deles sem suficiente provisão de fundos”3.680/SP. A incapacidade de um dos cocredores não prejudica os direitos dos outros. 4. independentemente de autorização dos outros credores ou de caução (art. ainda que marido e mulher. quando existir solidariedade ativa. Rel. 5. credores solidários perante o banco. 770/260.ª Câm. j. Todavia. 4. 765/223.. Em relação ao aspecto processual sob a perspectiva dos credores solidários. 4. 631/203. Direito Civil . são.ª Câm.82 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS posicionou da seguinte forma: “A solidariedade decorrente da abertura de conta bancária conjunta é solidariedade ativa. ver ex-1. RSTJ. j. pois cada um dos titulares está autorizado a movimentar livremente a conta.021-381. 15-9-1992). 4. REsp 2. 4-12-2001) e outras que entendem que a solidariedade é perante o banco. 617/102. Fleury Fernandes. DJPR. Ap. Sobre essa matéria ver ainda decisões publicadas na RT.. Cív. o Superior Tribunal de Justiça já decidiu que.º TASP. No caso da confusão só se extingue a parte do crédito ou do débito pertencente ao credor ou devedor solidário (art. AI 438. 2001. Rel. Des. 81/270.ª T. 4 Sobre a existência de solidariedade ativa para a cobrança dos honorários quando há um único mandato. 5 STJ. constituir o devedor em mora e interromper a prescrição. Rel. 3 LEXSTJ. podendo promover as medidas assecuratórias do seu direito. Juiz Paulo César Dias. ex-TAMG. 42/165 (REsp 13. Juiz Octaviano Lobo.

O Código estabeleceu. Direito Civil . ressalvando o direito à ação regressiva. Falecendo um dos credores solidários. 271). 56/348. desde que não se fundamente em exceção pessoal ao credor que a obteve (art. 46/605. quando. Convertendo-se a prestação em perdas e danos. compensação ou transação responde. 273). ainda. que o devedor não pode opor a todos os credores as exceções pessoais referentes a um deles (art. RTJ. perante os outros. Se a finalidade da solidariedade ativa consiste em permitir a representação dos credores uns pelos outros. cada um dos seus herdeiros só terá direito a exigir a quota do crédito correspondente ao seu quinhão hereditário. inclusive para fins do pagamento de juros de mora e demais encargos dela decorrentes (art. em virtude de uma espécie de prevenção. A mora accipiendi por parte de um dos credores prejudica a todos os outros. subsiste a solidariedade para todos os efeitos. salvo sendo indivisível a prestação (art. 274). 64/260 e 70/270. Sobre o tema. 272). o legislador advertiu. na falta de disposições diversas no título. a solidarie- 6 V. impondo-se o rateio quando recebido o montante do total do débito ou uma parte dele. Na nova disciplina aposta no Código Civil. entretanto. 51/111. Há assim o direito de regresso em virtude do qual cada um dos credores recebe a sua quota.Direito das Obrigacoes . havendo multiplicidade de devedores.classificação das obrigações pelos sujeitos 83 O direito de escolha que cabe ao devedor se mantém até o momento em que se inicia o processo de cobrança. Solidariedade passiva6 Ocorre solidariedade passiva quando. o pagamento tem de ser feito ao autor da ação. 6. presumindo-se juris tantum. 142/346.021-381. ver ainda RSTJ. que a divisão seja igual. que o julgamento contrário a um dos credores solidários não atinge os demais. mas todos são beneficiados da decisão judicial favorável. pela parte que lhes cabe (art.indd 83 25/4/2011 15:18:46 . o credor pode exigir de qualquer destes o pagamento integral do débito. O credor que recebe o pagamento ou faz a remissão da dívida ou que a extingue em virtude de novação. 138/313 e 128/355. 270).

por exemplo. na relação interna. respondem solidariamente o contratante e o terceiro coator pelas perdas e danos (art. exerce coação. Na relação externa. 104 da Lei n. tendo executado os bens de alguns devedores. Uma vez feito o pagamento por um dos devedores. ao prever que “não importará em renúncia da solidariedade a propositura de ação pelo credor contra um ou alguns dos devedores” (art. deixando herdeiros. Essa noção está bem clara no Código Civil. no caso de venda de obra impressa de modo fraudulento. nem limitar o seu pagamento à quota do débito total que lhe cabe. a responsabilidade solidária entre os comodatários da mesma coisa em relação ao comodante (art. parágrafo único). Assim. poderá exigir dos demais devedores o saldo. Sendo o pagamento parcial. Inúmeros são os casos de solidariedade passiva oriunda da lei. Cada um deles não será obrigado a pagar senão a quota que corresponder ao Direito Civil . nem mesmo exigir que sejam acionados. subsiste a solidariedade. a lei lhe assegura o direito ao reembolso das quotas alheias pagas. sendo feito o rateio na relação jurídica interna. multiplicando o número de patrimônios que respondem pela dívida. não recebeu o débito total. e. são responsáveis solidariamente o editor e o vendedor (art. 942. quando um terceiro. Falecendo um dos devedores solidários. mediante o exercício da ação regressiva. ainda. os demais coobrigados. o crédito se extingue na relação externa. no caso de prática de ato ilícito (arts. Se o credor. e. A solidariedade passiva resulta de disposições legais ou de declaração de vontade das partes interessadas. Na obrigação solidária. O devedor acionado não pode alegar o benefício da divisão. no mesmo processo ou em outro. 154). 585 do CC). entre os coautores e os que respondem por fato de outrem. e 932). “bois atrelados ao mesmo carro”. ocorre. parcial ou totalmente. com ciência da parte contratante. portanto.indd 84 25/4/2011 15:18:46 .Direito das Obrigacoes . mas não solidária. a dívida comum. o credor tem o direito de exigir e receber de um ou alguns dos devedores.610. a obrigação entre os herdeiros é conjunta. pode acionar os outros a fim de receber o saldo. sendo os coobrigados. de 19-2-1998). cada devedor é obrigado pela totalidade da dívida. numa imagem já consagrada pela doutrina. aumenta a segurança do credor.84 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS dade passiva. 275.021-381. 9. parágrafo único.

§§ 1. salvo sendo indivisível a obrigação. cada um dos coobrigados deve pagar o valor da coisa ou da prestação (aestimatio rei). na relação interna. Quanto ao credor. Em relação aos demais devedores. salvo se provar a isenção de culpa ou que o dano sobreviria ainda se a obrigação fosse oportunamente executada (art. descontada a parte do devedor que obteve remissão.indd 85 25/4/2011 15:18:46 . na relação jurídica externa. todos os devedores respondem pelos juros de mora. responde pelos danos dela decorrentes. A remissão concedida a um dos coobrigados extingue a dívida na parte a ele correspondente. ainda que a ação tenha sido proposta somente contra um. a obrigação se extingue. não podendo. já lhes não pode cobrar o débito sem dedução da parte remitida (art. mantido o dever solidário dos coobrigados pelo total do montante do débito. respondendo pelas perdas e danos o devedor culpado (art. de modo que. Se um dos devedores já estava em mora quando a impossibilidade se verificou. A interrupção operada contra um dos herdeiros do devedor solidário não prejudica os outros herdeiros ou devedores senão quando se trate de obrigações e direitos indivisíveis (art.Direito das Obrigacoes .º e 2. Quanto à indenização pelas perdas e danos. 280). 278). 276). Sendo liberalidade a remissão.classificação das obrigações pelos sujeitos 85 seu quinhão hereditário. os herdeiros serão considerados como um devedor solidário (art. é interpretada restritivamente. Qualquer dos devedores solidários pode estipular condições especiais para o pagamento do seu débito. 399). aplicando-se tão somente à quota do devedor. todavia. No caso de impossibilidade de cumprir a obrigação decorrente de força maior. mas o culpado responde perante os outros. mesmo na hipótese de força maior ou de caso fortuito. agravar a posição dos coobrigados sem consentimento destes (art. 388). 204. o Direito Civil .º).021-381. 280). A interrupção da prescrição efetuada contra o devedor solidário ou o reconhecimento da dívida por este envolve os demais coobrigados e seus herdeiros. pela obrigação acrescida (art. Se houver culpa de um dos devedores. ainda reservando o credor a solidariedade contra os outros. Os princípios aplicados em relação às perdas e danos e aos juros não são os mesmos.

pelo total do débito.indd 86 25/4/2011 15:18:46 . Quanto aos juros. se um deles for insolvente (art. 7 Direito Civil . só responde cada devedor pela sua quota. Assim. transação e outras) ou processual (incompetência do juízo. 304 do CPC). embora este tenha ação regressiva contra o culpado. novação. compensação. O credor pode renunciar à solidariedade em favor de um.Direito das Obrigacoes . em vez de responder. ou seja. e os que continuarem como coobrigados solidários só responderão pelo total da dívida. ainda que ele simplesmente especifique: “Se o credor exonerar da solidariedade um ou mais devedores. subsistirá a dos demais” (art. Pode ser material (prescrição. as defesas ou exceções comuns a todos os devedores. os vícios de con- Exceção é uma defesa indireta.86 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS credor só pode cobrá-la do devedor culpado. na qual. a extinção da dívida por pagamento já feito. 284). por exemplo. todavia. O devedor demandado pelo credor pode opor as exceções7 comuns a todos os devedores e as exceções que lhe forem pessoais. impedimento ou suspeição – art. assim. a exclusão ou renúncia à solidariedade em relação a um ou vários devedores. Se. o credor renunciar à solidariedade em relação a um ou alguns dos credores. 282). da obrigação de contribuir no rateio do débito entre codevedores. São consideradas exceções pessoais as que só podem ser alegadas pelo interessado. qualquer devedor pode alegar a ilicitude do objeto. não afasta o devedor. 282. além de implicar a dedução de suas quotas do montante global exigível dos devedores remanescentes solidários. transformar a obrigação solidária em obrigação conjunta ou fracionária. Essa regra se mantém no Código Civil. Pode. são exigíveis de qualquer coobrigado. ele não pode agravar a situação dos outros. excluído da solidariedade pelo credor. deduzidas as quotas referentes àqueles em relação aos quais o credor renunciou à solidariedade. Partindo-se da premissa de que o credor não pode agravar a situação dos devedores solidários. É princípio idêntico ao aplicável em matéria de remissão de dívida de um dos coobrigados. não lhe aproveitando porém as pessoais de outro codevedor. na relação externa.021-381. parágrafo único). de alguns ou de todos os devedores (art.

classificação das obrigações pelos sujeitos 87 sentimento e as causas de anulabilidade dos negócios jurídicos em geral (arts. podendo o codevedor que foi demandado chamar ao processo os demais devedores solidários. Ocorre. 383). Com a morte do credor e a confusão entre o patrimônio de E e o de A. 844. 283).000. subsistindo quanto ao mais a solidariedade (art. Na relação interna. B e C são devedores solidários de R$ 3. todos os devedores solidários devem ser notificados (art. mas não o erro em que incidiu um dos coobrigados. sendo o litisconsórcio8. R$ 2. 290)9. exonera os devedores solidários de qualquer responsabilidade (art. deixando por testamento toda a sua fortuna a A. Todavia. na mesma sentença.021-381. 77 e 78 do CPC). 171 e 177). Havendo cessão do crédito. o devedor pode alegar o vício de sua vontade. A ação julgada em relação a um dos coobrigados não vincula os outros. Este falece. 70/816.00 a A. modificando o conteúdo da obrigação originária.indd 87 25/4/2011 15:18:46 . é res inter alios acta. a 8 9 Litisconsórcio é pluralidade de litigantes (arts. RTJ. ela só extingue a obrigação até a concorrência da respectiva parte na dívida. como sucessor de E. pois. pois a coisa julgada só alcança as partes no processo. A. 46 a 49 do CPC). Quanto à confusão da qualidade de credor e devedor na mesma pessoa. deduzida a parcela de A em relação à qual houve confusão. o montante total. 365 do CC). as responsabilidades dos obrigados (arts. meramente facultativo. A transação não aproveita nem prejudica as partes que nela não intervieram. A novação entre um dos devedores e o credor. presumindo-se juris tantum a igualdade das partes dos codevedores (art.Direito das Obrigacoes . a fim de que o juiz declare. no caso. Direito Civil . pois.00 de E. assegura-se ao devedor que pagou o débito o direito regressivo contra os coobrigados. no caso. B e C devem. os devedores solidários B e C passam a dever a A. § 3.000.º). a transação entre um devedor solidário e seu credor extingue a dívida em relação aos coobrigados (art. Assim. para elas.

quando há simultaneamente solidariedade entre credores e devedores. em relação à quota do coobrigado que pagou. pagamentos dos aluguéis pelo fiador. responderá este por toda ela para com aquele que pagar (art. até mesmo entre aqueles que o credor tenha excluído unilateralmente da solidariedade. é no sentido de interessar o cumprimento da obrigação a todos os obrigados solidários.021-381. 346. Na solidariedade mista. 285 do CC). a situação do credor. ao contrário do que ocorre nos direitos absolutos. o sujeito passivo é determinado ou determinável. intentando o devedor que pagou a execução de sentença a fim de receber as quotas dos coobrigados. SÍNTESE 4 — Classificação das obrigações pelos sujeitos 1. aplicam-se os princípios da solidariedade ativa e da solidariedade passiva. A presunção. a sua quota será dividida entre os outros. cujo sujeito passivo é indeterminado. O sujeito passivo é relativamente indeterminado nas chamadas obrigações ambulatórias e nas obrigações propter rem. Nas obrigações. Se um dos devedores for insolvente. g. Têm entendido alguns acórdãos que essa ação regressiva pode ser movida nos autos do processo em que os devedores foram condenados. na forma do art. baseada no título ou até nas próprias circunstâncias do negócio (v. III. até prova contrária.. Direito Civil . no interesse exclusivo do locatário).88 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS sub-rogação legal. assumindo o devedor. A sub-rogação se realiza de pleno direito.Direito das Obrigacoes . que estão vinculadas a quem esteja em certo momento na posse ou no exercício da propriedade de determinado objeto. Sujeitos da obrigação: Em toda obrigação temos um ou vários sucredor e devedor jeitos ativos (credores) titulares dos direitos e um ou vários sujeitos passivos (devedores) sobre os quais recai o débito. opondo-se o direito contra todos (erga omnes). Se a dívida solidária interessar exclusivamente a um dos devedores.indd 88 25/4/2011 15:18:46 . ou seja. Mas é admissível prova em contrário.

é mista. São exemplos os títulos ao portador. cada um com um direito ou obrigado ao total. Tal pluralidade pode resultar da vontade dos contratantes ou de fato natural involuntário. passiva ou ativamente.indd 89 25/4/2011 15:18:46 . sobre os quais incidem ônus reais. Obrigações prop. bem como deveres decorrentes da necessidade de manter a coisa.021-381.classificação das obrigações pelos sujeitos 89 1. em regra.las que podem ser transferidas sem formater rem ou reais lidades. costumamos dizer que há pluralidade de sujeitos. cada credor tem direito a uma fração do crédito. Obrigações conjuntas Quando uma obrigação é contraída. por diversas pessoas e o objeto é divisível. a solidariedade é ativa.Chamam-se obrigações ambulatórias aquerias. é passiva. Obrigações solidárias Obrigações solidárias são aquelas com pluralidade de credores ou devedores. Direito Civil . Na obrigação conjunta fracionária. como se houvesse um só credor ou devedor. 2. 3. Obrigações propter rem ou reais são as que derivam da vinculação de alguém a certos bens. Sendo de credores e devedores.Direito das Obrigacoes .1. 4. passando de um titular a outro. Pluralidade de credores e Quando há mais de um credor ou devedor devedores numa relação jurídica. sendo de devedores. Sendo a pluralidade de credores. Assim. resultando da lei ou da vontade das partes. Obrigações ambulató. a solidariedade nunca se presume. a pluralidade pode ser originária ou subsequente (decorrente de ato inter vivos ou mortis causa). No direito civil brasileiro. e todo devedor é obrigado a pagar uma quota do débito. ela se decompõe. em tantas obrigações autônomas quantos forem os sujeitos.

Se a finalidade da solidariedade ativa consiste em permitir a representação dos credores uns pelos outros. na obrigação solidária passiva. parcial ou totalmente. pode exigir dos demais devedores o saldo. Solidariedade ativa Solidariedade ativa é a de vários credores. a obrigação se extingue para o devedor.021-381. havendo multiplicidade de devedores.indd 90 25/4/2011 15:18:47 . multiplicando o número de patrimônios que respondem pela dívida. Solidariedade passiva Ocorre solidariedade passiva quando. Sendo o pagamento parcial. o credor tem o direito de exigir e receber de um ou alguns dos devedores. com o pagamento integral do débito a um dos credores. 6. a solidariedade passiva. o credor pode exigir de qualquer destes o pagamento integral do débito. Assim. Na solidariedade ativa. aumenta a segurança do credor. pois visa permitir a representação recíproca dos credores. sendo todos os devedores coobrigados entre si. Direito Civil . a dívida comum.90 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 5. Tem importância diminuta.Direito das Obrigacoes .

pois houve tempo em que os direitos se enquadravam no campo obrigacional de acordo com a sua origem. 3. sendo certo que a matéria apresenta interesse histórico. a responsabilidade penal dos delitos foi a primeira a surgir. embora mantivessem importância para fins doutrinários. Importância do estudo das fontes ou causas das obrigações Fonte ou causa da obrigação é o elemento gerador da relação obrigacional. Já atualmente caracterizamos a obrigação não mais por decorrer de certos fatos. Os autores discutem sobre a importância do estudo das fontes das obrigações.indd 91 25/4/2011 15:18:47 .021-381. Fontes ou causas das obrigações no direito romano e no direito estrangeiro. 2.Direito das Obrigacoes . Fontes das obrigações no direito brasileiro. Importância do estudo das fontes ou causas das obrigações. as polêmicas travadas a esse respeito perderam grande parte do seu interesse prático. 2.Capítulo 5 FONTES DAS OBRIGAÇÕES Sumário: 1. sofrendo modificações sucessivas nas diversas legislações. mas pela sua estrutura própria que o direito hodierno define. Por esse motivo. Fontes ou causas das obrigações no direito romano e no direito estrangeiro No direito romano. que tem variado na história do direito. 1. seguindo-se-lhe o dever de indenizar o dano cau- Direito Civil .

como o furto. abrangendo quatro espécies de figuras classificadas segundo as obrigações assumidas pelas partes em do ut des. a primeira afirmação de Gaio de acordo com a qual a obrigação surge do contrato ou do eleito. a injúria e o dano. como a enfiteuse. nos termos da Lex Aquilia. em que a pena é imposta em favor da vítima.indd 92 25/4/2011 15:18:47 . mesmo na época de Justiniano. embora os grandes juristas clássicos do século II já tivessem assinalado que o consenso das partes era um dos elementos básicos do contrato. Certos direitos reais. o roubo. o legado era chamado de contrato. podendo ocorrer independentemente de qualquer declaração das partes interessadas. todavia. Havia.Direito das Obrigacoes . os romanos estudaram as outras fontes das obrigações. o contrato inominado. locação. em Roma. Os romanistas esclarecem que. respondendo o causador do prejuízo pela sua culpa. Ainda no direito romano. não se encontrava nos chamados contratos dos romanos qualquer manifestação de consentimento. e. pois. Uma vez estabelecido que não podia haver contrato sem consenso.021-381. E é o próprio Gaio que ensina também: Obligaciones aut ex contractu nascuntur aut ex maleficits aut proprio Direito Civil . depósito. reconhece-se a criação das obrigações pelos contratos. podendo surgir em virtude da gestão de negócios alheios não previamente convencionada. Esse fato é demonstrado pela existência na época. como fonte das obrigações é o delito. Os contratos também podiam ser verbais (verbis contrahitur obligatio) como a promessa de dote. numa primeira fase do direito romano. mesmo quando levíssima. A primeira figura que aparece. penhor e fidúcia). muitas vezes. Encontramos. ainda. sociedade e mandato). ao lado dos delitos públicos. Posteriormente. da tutela e de outras causas. verificou-se que os delitos e os contratos não abrangiam todas as fontes das obrigações. o contrato não significa o acordo bilateral de vontade. ao lado dos contratos reais (mútuo. os denominados delitos privados. Conhece o direito romano.92 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS sado por quem violou a lei civil. assim. comodato. eram incluídos entre os contratos. facio ut des e facio ut facias. dos contratos consensuais (compra e venda. do ut facias. cuja pena é imposta em favor da coletividade. Torna-se necessário esclarecer que.

A valorização do elemento moral é uma constante no desenvolvimento do direito primitivo. não enquadradas nos delitos e nos contratos. peculiar aos contratos. quando o beneficiário não cumpriu a sua obrigação em virtude de culpa e recebeu a contraprestação. salientando o legislador que assim se denominam por não haver. no caso. os bens alheios.fontes das obrigações 93 quodam juris ex variis causarum figuris1. g. a condictio sine causa. A própria Lei de Talião. e a condictio ob causam datorum.021-381. aumenta o seu patrimônio. 1 Tradução livre: “As obrigações nascem ou do contrato ou do ato ilícito ou de várias figuras (espécies) de causas”. É nas Institutas que encontramos (3.indd 93 25/4/2011 15:18:47 .. limitando a responsabilidade do dano causado. Direito Civil . As várias causas de obrigações. Finalmente. quando não tem origem voluntária (v. importava numa gestão de negócios. característica dos delitos. nem a violação da lei.Direito das Obrigacoes . sem constituir um contrato. foi a gestão de negócios. as obrigações podem surgir no caso do enriquecimento injusto. nem nos contratos. As várias figuras são as fontes das obrigações que não são enquadradas nem nos delitos. surgindo obrigações entre o proprietário dos bens administrados e o gestor de negócios. dando margem às condictiones sine causa. a condictio ob turpem vel iniustam causam. o mesmo ocorrendo com a curatela. foram reunidas sob o título de quase contratos. quando o pagamento é feito atendendo a uma relação jurídica qualquer inexistente ou que já tenha cassado. no caso de pagamento indevido. por sua vez. o consenso entre as partes. A tutela. quando o pagamento é exigido para evitar que seja praticado um ato imoral ou ilegal. sem procuração. locupletando-se com o trabalho ou os bens alheios. Conheceu o direito romano a condictio indebiti. comunhão entre herdeiros de uma mesma pessoa). embora mais diretamente ligada ao direito da família. Coube à escola bizantina definir uma quarta fonte das obrigações: os quase delitos. A primeira. A communio incidens ou comunhão incidente entre os vários condôminos de um mesmo bem cria obrigações entre as partes. na qual alguém administra. destacada pelos romanistas. 27) a regulamentação dos quase contratos. sem motivo. quando alguém. já constituiu uma primeira barreira às vinganças e lutas internas nos grupos.

Chegamos assim à quadripartição das fontes das obrigações dominante na época de Justiniano. O delito assumiu. em virtude da qual o ocupante do imóvel era responsável pelos danos causados pelos objetos colocados ou suspensos no imóvel que caíssem na via pública. que certas figuras vinculadas aos delitos não tinham como pressuposto a vontade de causar o dano. 938). Como se vê. interpolado ou não. decorrem do parentesco (obrigação alimentar entre descendentes e ascendentes) ou da relação de vizinhança (direitos de vizinhança). em virtude da lei. o dano causado a outrem voluntariamente é delito. Direito Civil . e o provocado de modo involuntário é quase delito. catalogadas no direito romano. Ocorria. denominaríamos objetiva. uma responsabilidade que. uma feição moral própria. Situações relativamente análogas. completado o quadro das fontes das obrigações com a inclusão da lei como fonte suplementar. O consenso caracteriza o contrato. impõe-se o princípio da responsabilidade individual baseada na culpa. As cinco fontes das obrigações já são encontradas em Pothier e no Código Napoleão. delitos e quase delitos. pois. 932.indd 94 25/4/2011 15:18:47 . assim. E é ainda Gaio que num texto. sem consenso prévio. implicando. Era o caso da actio de positis et suspensis. o critério da distinção é a existência ou não de vontade. ao contrário. delitos. importa na criação de um quase contrato.94 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Posteriormente. Mais recentemente os juristas apontaram determinadas fontes das obrigações que não constituem contratos. sob o título de quase delitos. hospedarias ou navios (art. e que serviu de base para os estudos e as codificações posteriores. a atividade lícita.021-381. afirma serem as obrigações originárias aut ex contractu aut quasi ex contractu aut ex maleficio aut quasi ex maleficio. porém. que estabelecia igual responsabilidade em relação às coisas atiradas do imóvel na via pública (art. Certas obrigações. Ficou. que seguiu a sua orientação. hoje. como também no Código Civil italiano de 1865. IV). quase contratos. como também o caso da actio de effusis et dejectis. eram oriundas de sentença errônea do juiz ou de responsabilidade do comitente ou patrão por atos do seu preposto praticados em hotéis. Quatro passam a ser as fontes das obrigações: contratos.Direito das Obrigacoes . quase contratos nem quase delitos.

fontes das obrigações

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Os estudos feitos pelos romanistas alemães do século XIX modificaram, todavia, o panorama já aceito mansa e pacificamente pela
doutrina anterior. Por um lado, separando os critérios dominantes
no direito civil e no direito penal, desprezou-se a distinção entre
delitos e quase delitos no direito privado. Todo homem que, culposa
ou dolosamente, causa dano a outrem e viola a lei tem o dever de
ressarcir os danos causados. Aos delitos e quase delitos substituiu-se
o conceito genérico de ato ilícito, que encontramos no art. 186 do
Código Civil de 2002; anteriormente estava no art. 159 do Código
Civil de 1916.
Aliás, os conceitos de delito e quase delito deram margem a
confusões. Para alguns, o quase delito era o ato culposo, enquanto o
delito era doloso. Para outros, havia delito quando a culpa era própria
e direta e quase delito quando a responsabilidade decorria de culpa
alheia, como quando o comitente respondia pelo ato do preposto. A
própria doutrina francesa tem criticado a distinção oriunda do direito romano, que hoje não tem mais qualquer justificação.
O Código Civil alemão, no qual se inspirou o nosso, preferiu,
pois, tratar, como fontes das obrigações, dos atos jurídicos e dos atos
ilícitos, referindo-se ainda a outras causas, às quais não deu designação específica (v. g., enriquecimento sem causa).
Por outro lado, o Código Civil alemão (BGB), como o brasileiro,
não considerou o contrato como único ato jurídico gerador de obrigações. Também a declaração unilateral da vontade foi classificada,
em determinadas condições, como fonte das obrigações. Os autores
assinalaram, no velho direito germânico, e até no direito romano,
alguns exemplos de declarações unilaterais da vontade gerando obrigações. Assim, o votum, voto condicional feito em favor de certas
divindades, e as pollicitationes (ofertas) em benefício das cidades,
regulamentadas pelo direito sacro e pelo direito público, foram encaradas como declarações de vontade geradoras de obrigações ainda
no direito romano.

3. Fontes das obrigações no direito brasileiro
O Código Civil brasileiro intitula “Dos atos unilaterais” o Título VII do Livro Primeiro da Parte Especial, tratando da promessa de

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recompensa, da gestão de negócios, do pagamento indevido e do
enriquecimento sem causa. Ademais, dispõe sobre títulos ao portador
quando disciplina os títulos de crédito. Um pouco diversa era a sistemática do Código de 1916, que disciplinava apenas os títulos ao
portador e a promessa de recompensa na parte denominada “Das
obrigações por declaração unilateral da vontade”. Por outro lado,
veremos como a proposta feita por tempo certo, ou de acordo com
os usos e costumes locais, vincula o proponente (arts. 427 e s. do
CC de 2002).
A seguir, o Código abre um novo título — Título VIII — para
cuidar dos títulos de crédito, cujo primeiro capítulo contém as disposições gerais, o segundo regula os títulos ao portador, o terceiro o
título à ordem e o último trata do título nominativo.
Efetivamente, o primeiro a tratar da declaração unilateral como
fonte de obrigação foi o Código Civil alemão, cujo entendimento foi
adotado pelo nosso Código Civil de 1916.
Determinados atos são considerados unilaterais2, pois a declaração de vontade de uma só pessoa é suficiente para torná-los válidos.
É preciso ressaltar que também existem outros negócios unilaterais
que não são tratados no direito das obrigações, como, por exemplo,
o testamento, regulado pelo direito das sucessões.
Por outro lado, alterando o Código de 1916, por orientação da
Comissão Elaboradora e Revisora, em especial pela influência de um
dos seus integrantes, o Ministro José Carlos Moreira Alves, o Código,
na Parte Geral, “substituiu a expressão genérica ato jurídico, que se
encontra no Código antigo, pela designação específica negócio jurídico, pois é a este, e não necessariamente àquele, que se aplicam
todos os conceitos ali constantes. E, no tocante aos atos lícitos que
não são negócios jurídicos, abriu-lhes um título, com artigo único,
em que se determina que se lhes apliquem, no que couber, as disposições disciplinadoras do negócio jurídico”3.

V. capítulo sobre “atos unilaterais” em outro volume deste Curso.
José Carlos Moreira Alves, A Parte Geral do Projeto do Código Civil brasileiro,
São Paulo: Saraiva, 1986, p. 97 e s.
2
3

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fontes das obrigações

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Temos, pois, atualmente, como fonte das obrigações, no direito
civil brasileiro, os negócios jurídicos (unilaterais e bilaterais), os
atos jurídicos lícitos, os atos ilícitos, que abrangem o ato ilícito
propriamente dito que gera a responsabilidade civil e o abuso de
direito, e a lei.
Negócio jurídico “é o ato pelo qual o indivíduo regula, por si, os
seus interesses nas relações com outros (ato de autonomia privada)”4.
Os exemplos mais comuns são os contratos relacionados com o cotidiano (compra e venda, locação e outros) e os negócios jurídicos
unilaterais (testamento etc.).
O negócio jurídico é a declaração de vontade que pode revestir a
forma unilateral (título ao portador, proposta com tempo certo, promessa de recompensa), bilateral ou plurilateral (contratos em geral).
Há, porém, atos que não são negócios jurídicos, e o Código de
2002 abre um Título II, com a rubrica “Dos atos jurídicos lícitos”,
com um só artigo (art. 185). São exemplos: a construção feita por
alguém em seu terreno, a posse de uma coisa, a pesca. Há quem os
denomine “ato jurídico em sentido estrito”5.
O ato ilícito que substituiu os delitos e quase delitos é a violação,
culposa ou dolosa, da lei, que causa dano e impõe o dever de ressarcir o prejuízo. Pouco importa que haja culpa ou dolo, que a atividade
do responsável tenha sido direta ou indireta. Ademais, o Código Civil
expressamente prevê a figura do abuso de direito como o exercício
de um direito de forma a exceder “manifestamente os limites impostos pelo seu fim econômico ou social, pela boa-fé ou pelos bons
costumes” (art. 187).
A lei, finalmente, gera obrigações entre parentes, entre vizinhos
e entre pessoas de algum modo relacionadas. Assim, entre parentes
em linha reta (ascendentes e descendentes) e entre irmãos há o dever
de alimentos. A relação de vizinhança produz deveres de abstenção
(não incomodar o vizinho pelo uso nocivo da propriedade, pela po-

4
Emilio Betti, Teoria geral do negócio jurídico, Coimbra: Coimbra Ed., 1969, t. 1,
Cap. 1, n. 3, p. 107.
5
Luigi Cariota Ferrara, El negocio jurídico, Madrid: Aguilar, 1956, Cap. III, n. 11.

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luição sonora, atmosférica, química e outras, pelas construções que
prejudicam o imóvel vizinho etc.).
Antigas leis impunham ao empregador o dever de responder
objetivamente pelos acidentes de trabalho sofridos pelo empregado,
fundando-se na teoria do risco profissional, pela qual, se o patrão tem
as vantagens, deve suportar os ônus. Mas desde a Lei n. 5.316/67,
substituída pela Lei n. 6.367, de 19-10-1976, evoluiu-se para a teoria
do risco social, agora já consagrada pela Constituição de 1988, a qual
impõe ao empregador o dever de manter seguro contra acidentes de
trabalho, “sem excluir a indenização a que este está obrigado, quando incorrer em dolo ou culpa” (art. 7.º, XXVIII).
Assim, certos autores acrescentam às fontes das obrigações o
risco profissional. Entendemos que se trata de obrigação estabelecida
pela lei, como faz o art. 927, parágrafo único, do CC, em que o risco
profissional é apenas o fundamento sociológico da obrigação alimentar, e a solidariedade familiar é o fundamento metajurídico do dever,
sendo, em ambos os casos, a lei a fonte formal, embora jamais possamos dissociar a norma legal das razões sociais, econômicas e políticas que a inspiram.
Em resumo, o direito brasileiro vigente conhece como fontes das
obrigações os negócios jurídicos, os atos jurídicos lícitos, os atos
ilícitos e a lei.
SÍNTESE
5 — Fontes das obrigações
1. Importância do estudo das Fonte ou causa da obrigação é o elemento
fontes ou causas das obri- gerador da relação obrigacional.
gações
2. Fontes ou causas das obri- No direito romano a primeira figura que
gações no direito romano aparece como fonte das obrigações é o
delito. Posteriormente reconhece-se a
e no direito estrangeiro
criação das obrigações pelos contratos. Os
romanos também consideraram como
fonte das obrigações os quase contratos e
finalmente os quase delitos.

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fontes das obrigações

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O critério da distinção é a existência ou
não de vontade. O consenso caracteriza o
contrato; a atividade lícita, sem consenso
prévio, importa na criação de um quase
contrato; o dano causado a outrem voluntariamente é delito, e o provocado de modo
involuntário é quase delito.
3. Fontes das obrigações no Temos, atualmente, como fonte das obridireito brasileiro
gações, no direito civil brasileiro, os negócios jurídicos (unilaterais e bilaterais), os
atos jurídicos lícitos; os atos ilícitos, que
abrangem o ato ilícito propriamente dito
que gera a responsabilidade civil e o abuso de direito; e a lei.

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Capítulo 6
EXECUÇÃO DA OBRIGAÇÃO: PAGAMENTO
Sumário: 1. Execução da obrigação. 2. Pagamento total e parcial.
3. Capacidade para pagar e receber. 3.1. Capacidade para pagar.
3.2. Capacidade para receber. 4. Objeto do pagamento e sua
prova. Moeda. 5. Lugar e tempo do pagamento. 5.1. Lugar do
pagamento. 5.2. Tempo do pagamento. 5.3. Vencimento antecipado. 6. Inadimplemento e mora. 6.1. Mora do devedor. 6.2. Mora
do credor. 6.3. Purgação da mora. 6.4. Casos especiais.

1. Execução da obrigação
O dever jurídico imposto ao devedor, em favor do credor, na
relação obrigacional pode ser cumprido direta ou indiretamente,
voluntária ou involuntariamente.
O estudo da execução das obrigações abrange a análise das formas de cumprimento do dever jurídico, das consequências do inadimplemento (responsabilidade) e das garantias concedidas ao sujeito
ativo da relação jurídica para a defesa dos seus interesses (garantias
e tutela do crédito).
O cumprimento da obrigação, também denominado pagamento
ou solução do débito, é a execução da prestação pelo devedor na
forma estabelecida no ato jurídico ou na lei, de acordo com as normas
fixadas quanto ao modo, tempo e lugar de sua realização1.

Pagamento é termo genérico. Usa-se também adimplemento, que Orlando Gomes
entendeu expressar a execução satisfatória, mas que o Código Civil italiano usa como
gênero (em italiano adempimento). O termo “cumprimento” é também usado como
1

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execução da obrigação: pagamento

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O pagamento pressupõe a existência de uma dívida e a vontade
de extingui-la (animus solvendi), devendo em tese ser feito pelo devedor ao credor. Na falta de uma relação jurídica, o pagamento configura-se como indevido, dando margem a uma ação do devedor para
reaver o que pagou sem justo motivo (arts. 876 e s. do CC de 2002;
arts. 964 e s. do CC de 1916).
O pagamento é direto quando ocorre a execução voluntária da
obrigação e indireto quando a obrigação não se extingue pela forma
previamente estabelecida, mas por dação em pagamento (entrega de
objeto diferente do prometido), novação (modificação objetiva ou
subjetiva da relação jurídica originária), compensação (extinção do
débito do devedor em favor do credor em virtude da existência de
outro do credor em favor do devedor), transação (acordo entre as
partes para a liquidação das obrigações), confusão (quando as situações de credor e de devedor se confundem na mesma pessoa) ou pela
remissão ou perdão da dívida.
A obrigação se extingue independentemente de pagamento no
caso de realização de condição resolutiva ou advento de termo extintivo. A impossibilidade de cumprimento do dever jurídico em virtude
de caso fortuito ou força maior constitui outra hipótese de extinção
da obrigação.
No caso de inadimplemento injustificado, o credor pode recorrer
ao procedimento judicial ou arbitral para exigir a execução forçada
da obrigação. A sentença garante ao credor o que lhe era devido
(idem), acrescido das perdas e danos pelo atraso, ou o equivalente (id
quod interest), abrangendo o ressarcimento do dano causado e do
lucro não auferido (damnum emergens e lucrum cessans).
Estudaremos, pois, sucessivamente: 1.º) o pagamento; 2.º) os
meios indiretos de pagamento; e 3.º) o inadimplemento.
A natureza jurídica do pagamento é muito discutida pela doutrina, entendendo a lei e os autores que se trata, na realidade, de negó-

gênero, especialmente em Portugal. Entre nós também se usam os termos “execução
e solução” (em latim solutio = pagamento). O não cumprimento é chamado, em geral,
de inadimplemento. Por uma adaptação do termo, surge a palavra “inadimplência”.
O não pagador é chamado de inadimplente. V., adiante, o n. 6 deste Capítulo.

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O dever de cumprir a obrigação incumbe ao devedor e aos seus herdeiros.. juridicamente falando. Discutiu-se qual o valor da cláusula incluída em contrato dessa espé- Direito Civil . O conceito de obrigação personalíssima foi estruturado pela jurisprudência.021-381. é pagamento todo cumprimento de obrigação. g. o pagamento implique a entrega de certa quantia em dinheiro. dever de não construir além de certo gabarito).102 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS cio jurídico para o qual se exige a capacidade de direito e de fato. Assim. Os sucessores se substituem ao falecido em todas as vantagens e deveres de caráter patrimonial que tenha.indd 102 25/4/2011 15:18:47 . a interveniência do credor poderá ser necessária para a aceitação da coisa prometida e a decorrente extinção da obrigação assumida. Pagamento total e parcial Conceito de pagamento: embora. salvo se existir um vínculo de intuito pessoal. por exemplo. os herdeiros de eminente pintor que se comprometera a fazer determinado quadro não estão sujeitos ao cumprimento dessa obrigação. O pagamento é feito na forma estipulada. De acordo com o princípio citado. 836). como na substituição do devedor por seus herdeiros. ao contrário. salvo em casos especiais previstos pela lei. na realidade. que só são responsáveis pelo débito na proporção dos seus quinhões (art. O aspecto unilateral ou bilateral do pagamento depende do modo de ser executada a obrigação. se o débito não for personalíssimo. 1. o pagamento ou cumprimento certamente independerá de qualquer interferência do credor (v. considerando-se que a morte de uma das partes extingue as obrigações de um contrato de corretagem ou de mediação. a responsabilidade pela fiança limita-se ao tempo. Desse modo. assim como a livre manifestação de vontade por parte dos interessados. decorrido até a morte do fiador (art. importando em dar. fazer ou não fazer. que foi contraída atendendo-se às condições especiais do falecido. de caso de locação de serviços. Se.997). Se esta consiste em não fazer alguma coisa. na terminologia comum. contendo um dever de abstenção. 2. a lei estabelece limites a certas responsabilidades. o dever jurídico for de dar alguma coisa. não podendo o credor ser obrigado a receber parcialmente o débito.Direito das Obrigacoes . em virtude de se tratar.

alegando-se que os contratos feitos pelo falecido não podiam tolher a liberdade de disposição por parte dos herdeiros. distingue: o pagamento pode ser feito por terceiro interessado ou por terceiro não interessado. por exemplo. quem se comprometeu pelo seu ato deve indenizar os prejuízos decorrentes do inadimplemento. fiador. sub-rogando-se no direito do credor. 439). 346 do CC. herdeiro do devedor. seguindo a posição do Código de 1916. Se o terceiro não cumprir a obrigação assumida. no instrumento de promessa de venda. O termo interessado aí tem sentido técnico: é aquele que pode ser responsabilizado pelo débito. Em virtude do estabelecido no art. ocorre a sub-rogação de pleno direito em favor: “I — do credor que paga a dívida do devedor comum.Direito das Obrigacoes . também pode pagar. A promessa de venda de objeto alheio como sendo próprio do promitente é crime e constitui ato ilícito. bem como do terceiro que efetiva o pagamento para não ser privado de direito sobre imóvel. ensejando também o direito. seus herdeiros e sucessores. de obter a indenização das perdas e danos. no todo ou em parte”. que o bem em questão pertence a outrem. II — do adquirente do imóvel hipotecado que paga a credor hipotecário. A obrigação extingue-se pelo pagamento da dívida por qualquer interessado (devedor. para a outra parte contratante. Mas o atual Código Civil. Capacidade para pagar e receber 3. No entanto. Alguém pode prometer vender bem alheio. sua ou de outrem. se alguém é parente ou amigo do devedor e deseja auxiliá-lo. responde pelas perdas e danos (art. Capacidade para pagar Qualquer pessoa pode pagar uma dívida. Direito Civil . como. 3.021-381. desde que mencione. A parte que promete fato de terceiro.indd 103 25/4/2011 15:18:47 . no caso de inadimplemento.execução da obrigação: pagamento 103 cie que obriga as partes. adquirente do imóvel hipotecado) a quem é lícito fazê-lo em nome próprio. coobrigado. o avalista ou um terceiro garantidor da dívida. mas os efeitos são diversos.1. que paga a dívida pela qual era ou podia ser obrigado. III — do terceiro interessado.

305. 304 e seu parágrafo único). O princípio básico do nosso direito é. parágrafo único). A diferença de tratamento no caso de pagamento por terceiro interessado ou não interessado explica-se pela situação do pagador no tocante à relação jurídica. Havendo oposição do devedor ao pagamento do seu débito por outrem ou não tendo conhecimento da ação de terceiro. se o devedor tinha meios para ilidir a ação (art. que pagou. Não lhe é. ao contrário.Direito das Obrigacoes . eventualmente. o terceiro não interessado. este não terá direito ao reembolso do que pagou. Assim. lícito exigir qualquer vantagem do devedor. o terceiro. desde que o faça em nome do devedor (art. O fundamento da sua ação contra o sujeito passivo da relação jurídica deve ser o enriquecimento sem causa. mas não se sub-roga nos direitos do credor (art. o terceiro pode tão somente obter o reembolso do que pagou. a política e a vontade de tirar vantagem de dificuldades alheias. todavia. O terceiro interessado que paga está defendendo direta ou indiretamente o seu patrimônio. O terceiro não interessado. O terceiro não interessado pagou porque quis. ou melhor. só poderá exigir do devedor o pagamento da quantia não sujeita à compensação. e é justo que a lei lhe assegure a ação regressiva contra o devedor. movido por razões ou sentimentos que variam desde a filantropia e a solidariedade até. Pratica um ato imiscuindose na vida alheia. O devedor deve indenizar o pagador não interessado dentro dos limites do proveito próprio Direito Civil . O devedor não se pode opor ao pagamento por terceiros. pois. somente após este poderá exigir do devedor o reembolso da quantia despendida (art. sabendo que a dívida não lhe podia ser cobrada.104 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS O pagamento também pode ser feito por terceiro não interessado.indd 104 25/4/2011 15:18:47 . sendo facultado ao terceiro interessado o pagamento em seu próprio nome. se pagar o débito antes do vencimento. a sua oposição não invalida ou impede o pagamento. importando apenas em restringir os direitos do pagador contra ele. Se o devedor tinha a possibilidade de compensar débito e crédito com o credor. interfere em relação jurídica que não tem incidência alguma sobre o seu patrimônio. com sub-rogação nos direitos do credor contra o devedor. 305). pois. que qualquer pessoa pode pagar. 306).021-381. Se fizer em nome próprio. piorar a posição do devedor. Não pode.

O pagador deve ter capacidade de fato e ser proprietário da coisa com a qual faz o pagamento. 1. feita por quem não é proprietário. o adquirente estiver de boa-fé e o alienante vier a adquirir depois o domínio da coisa. todavia. desde o momento em que ocorreu a tradição (art.Direito das Obrigacoes . pois. Só terá eficácia o pagamento que importar em transmissão de propriedade quando feito por quem possa alienar o objeto vendido (art. São restrições que a lei estabelece ao princípio geral segundo o qual o pagador deve ser proprietário da coisa entregue em pagamento. 1. podendo na hipótese a defesa ser feita por qualquer dos componentes do escritório.021-381. por falta de legitimação ativa. recorrer-se-á aos usos e costumes locais. salvo tratando-se de obrigação de fazer na qual se tenha atendido às condições pessoais do devedor. um cirurgião de proceder a uma operação.execução da obrigação: pagamento 105 decorrente do pagamento e até no máximo o valor deste. por exemplo. quer seja feito diretamente pelo devedor. pois não se admite que o terceiro não interessado venha a auferir lucro pagando dívida alheia e sub-rogando-se nos direitos do credor para exigir do devedor mais do que o credor estava pedindo.268. não poderá. mas. havendo boa-fé do credor. não devendo. A obrigação de fazer tem caráter personalíssimo quando se incumbe um artista de realizar determinada obra. haver Direito Civil . salvo consentimento do cliente. a tradição não transfere a propriedade (art.268).º). todavia. Se o terceiro não interessado tem possibilidade de pagar em nome do devedor. quer seja por terceiro interessado ou não. embora ao terceiro interessado seja dado usar tal ação. 307. atendendo à boa-fé do credor e visando evitar fraudes após a realização do pagamento. um advogado de defender certo processo. com um escritório de advocacia. o terceiro proprietário da coisa não poderá reavê-la se o credor a consumiu (art. parágrafo único). § 1. 307). a transferência será considerada revalidada. usar dos meios conducentes à exoneração do devedor no caso de recusa do credor em receber o pagamento (ação de consignação em pagamento). O credor não pode recusar o pagamento realizado nas condições fixadas pela lei ou pelo negócio jurídico. Existe uma situação distinta quando o contrato de prestação de serviços é feito não com uma pessoa física. Se o pagamento for de coisa fungível. Se.indd 105 25/4/2011 15:18:47 . Se o negócio jurídico não contiver disposições a esse respeito.

Capacidade para receber O pagamento deve ser feito ao credor. incumbe ao devedor consignar judicialmente o pagamento. desde que. A incapacidade pode ser geral. se não preferir requerer a alienação judicial do direito penhorado. O falido não pode receber pagamento. o exequente será havido como sub-rogado até a concorrência do seu crédito no direito do executado (art.2. 895 do CPC). como ocorre quando se trata de incapacidade absoluta ou relativa.indd 106 25/4/2011 15:18:48 . o credor não é obrigado a aceitar a prestação de terceiro quando for convencionado que o devedor o faça pessoalmente. Para que a penhora. entenda-se que a obrigação de fazer tem caráter personalíssimo. 673 do CPC). pode ser legal. incapacidade específica em virtude da qual ao falido não é lícito dar quitação dos créditos existentes em seu favor. existindo. na obrigação de fazer. no caso. em que o pagamento deverá ser feito respectivamente ao representante do credor ou a este último devidamente assistido. decorrendo das qualidades pessoais do devedor. em virtude da natureza da relação jurídica. aos seus sucessores ou ao seu representante legal. correntemente. 3. o pagamento deverá ser feito a quem de direito. judicial ou convencional. Tal noção se aplica mesmo na falta de convenção explícita. notificar-se-á este para que não pague ao executado. do CPC).Direito das Obrigacoes .021-381. o arresto. como já vimos. devendo o pagamento ser feito ao depositário judicial. só se exonerando da obrigação depois de depositada a quantia devida (arts. pois. Nos casos de incapacidade do credor.106 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS substabelecimento para outro escritório de nível diferente. pois a massa é representada pelo síndico. Direito Civil . passando o devedor a ser considerado como depositário para todos os efeitos legais. A representação do credor. Feita a penhora em dinheiro e ação do devedor. 671 e s. judicial ou convencional. e de incapacidade para o fim específico de receber o crédito. quando este está penhorado. ou o sequestro recaiam em dinheiro existente em mão de terceiro. arrestado ou sequestrado. Havendo dúvida de quem pode receber. cabendo ao juiz finalmente decidir a quem deverá ser feito (art.

protegendo as aparências e a boa-fé do credor. Entendemos que inexiste tal necessidade. de autorização do juiz. o síndico. ou seja. o síndico de um edifício que foi eleito. o caixa de um banco ou de uma loja. torna-se indispensável a autorização judicial. mas não para receber créditos do incapaz. em virtude da qual os absolutamente incapazes são representados na vida civil pelos seus pais. àquele que tem todas as características de credor. Direito Civil . o depositário judicial são nomeados. mesmo se depois vier a ser anulada a assembleia por qualquer vício de forma. A lei. é a assistência. se for relativamente incapaz. embora posteriormente seja o mesmo julgado nulo. em certos casos especiais. desde que não haja transação. como. conforme ata da assembleia geral. embora não o seja. A representação convencional advém do mandato. embora necessitando. está autorizado a receber as contribuições do condomínio. Pode ser tácito quando é portador da quitação ou quando se encontra na situação aparente de representante ou preposto do credor. pelo juiz para praticar certos atos. 309 do CC.021-381. Se o credor for absolutamente incapaz. será feito ao credor devidamente assistido. Assim. considera válido o pagamento feito ao credor putativo. para os relativamente incapazes. no art. devendo zelar pela proteção dos interesses dos credores.indd 107 25/4/2011 15:18:48 . É credor putativo aquele que se apresenta com um título aparentemente válido.Direito das Obrigacoes . por exemplo. Para transigir. mas com poderes muito mais limitados. Função simétrica à do síndico. tendo capacidade para receber e dar quitação. tutores ou curadores. na forma da lei. Alguns autores entendem que o representante legal do incapaz necessita de autorização do juiz para receber o capital pertencente ao interdito. o pagamento deverá ser feito ao representante legal. exerce o comissário na concordata. pelo qual o mandatário passa a representar o mandante. O instituto correspondente. O mandato pode ser explícito quando o mandatário se apresenta com procuração do mandante para receber os seus créditos. A representação judicial é fruto de nomeação pelo magistrado. representante do espólio. sendo considerado tal pagamento válido. O inventariante.execução da obrigação: pagamento 107 Representação legal é a decorrente da própria lei. representante da massa falida.

O credor não é obrigado a receber prestação diversa da que é devida. O devedor poderá. à prova do pagamento feito. sem incorrer em mora. Assim. A redação do art. 401 do CPC). visados ou não. só valerá nos limites em que reverteu em favor do beneficiado (art. devendo conter o valor e a espécie da dívida quitada. ou seja. ainda que mais valiosa. tendo o devedor ciência dessa incapacidade.) e da vedação do enriquecimento sem causa. Quem paga mal paga duas vezes.indd 108 25/4/2011 15:18:48 . 320 do CC expressamente ressalta que a quitação pode ser dada por instrumento particular. o tempo e o lugar do pagamento e a assinatura do credor ou de seu representante. Objeto do pagamento e sua prova. reaver daquele a quem pagou indevidamente o montante pago. ficando ao seu exclusivo critério aceitar ou não ordem de pagamento ou cheques.108 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Se o pagamento é feito ao credor incapaz de quitar. o pagamento deve ser feito ao credor ou aos seus representantes. O pagamento feito indevidamente obriga o devedor a pagar novamente. todavia.021-381. só valendo o pagamento feito ao incapaz quando ratificado pelo credor após a recuperação da sua capacidade ou dentro dos limites em que ele realmente se beneficiou com o pagamento ou em que este reverteu em seu proveito. fundamentando-se nas regras sobre pagamento indevido (arts. O pagamento é feito na forma estabelecida pela lei ou pelo negócio jurídico e. o nome do devedor ou de quem por este pagou. tratando-se de obrigações pecuniárias. enquanto lhe for recusada a quitação (art. Em resumo. Moeda O devedor que paga tem direito à quitação regular. 319). agora expressamente previsto no art.Direito das Obrigacoes . Ademais. 884. 876 e s. 310). considerando-se válido e bem feito o pagamento ao credor putativo. podendo reter o pagamento. A quitação admite qualquer forma. 4. far-se-á em moeda corrente no lugar do cumprimento da obrigação (art. 315). também não está obrigado o credor a receber pagamento que não seja em moeda corrente. o parágrafo Direito Civil . devendo ser escrita desde que o montante da dívida seja superior ao décuplo do maior salário mínimo (art. havendo boa-fé do devedor.

todavia.021-381. podendo. declaração do credor que inutilize o título desaparecido (art. no prazo de sessenta dias. É o que se dá na hipótese de pagamento de aluguéis na locação e das duplicatas sucessivas na venda de um objeto em prestações. retendo o pagamento. A prova em contrário pode ser feita mediante apresentação de depósito bancário ou de fotocópia de cheque pelo qual foi feito o pagamento. a prova contrária. A posse do título pelo credor implica presunção juris tantum (admitindo prova em contrário) de que o título não foi pago. g. tendo a quitação sido obtida pelo devedor fraudulentamente (art. mencionando ainda se houve ou não a cobrança de juros ou de qualquer espécie de despesas. Nos débitos. Tal presun- Direito Civil . se de seus termos ou das circunstâncias resultar haver sido paga a dívida”. o credor pode reter o título.execução da obrigação: pagamento 109 único do referido art. valendo como quitação a sentença judicial que julgar procedente a ação. a quitação ser impugnada. Admite-se. é aconselhável que a quitação esclareça qual o documento ou o fato que originou a dívida. sem ressalva. que pode consistir na ressalva existente no próprio recibo ou em outros documentos ou mesmo na correspondência entre as partes (art. Se o credor se recusar a dar quitação.indd 109 25/4/2011 15:18:48 . não podendo dele abrir mão o credor antes do pagamento de todos os débitos pelos devedores.Direito das Obrigacoes . Salvo convenção em contrário. cuja quitação consiste na devolução do título (v. presume-se juris tantum que o recebimento do pagamento da prestação posterior implique a quitação das prestações anteriores. nota promissória). o processo de recuperação é feito na forma dos arts. 323). A entrega do título ao devedor firma a presunção juris tantum de pagamento. presume-se que corram por conta do devedor as despesas com o pagamento e a quitação. 321). Assim ocorre quando o mesmo título cria obrigações para diversos devedores em favor do credor. que não ocorreu o pagamento. faz presumir o pagamento dos juros (art.. perdido este. cabe ao devedor consignar judicialmente o pagamento. 324). 322 do CC). Havendo pagamentos periódicos. todavia. 320 estabelece: “Ainda sem os requisitos estabelecidos neste artigo valerá a quitação. 907 e s. A quitação do capital. Em casos especiais. do CPC. pode o devedor exigir. Mesmo assim. Perdido o título ao portador. desde que o credor prove.

indd 110 25/4/2011 15:18:48 . n.021-381. diz Pontes de Miranda) quando devem ser pagas no domicílio do credor ou onde ele indicar. 318.Direito das Obrigacoes . nos quais é garantida ao devedor a opção entre o pagamento na espécie designada e o seu equivalente em moeda nacional corrente.069/95.-Lei n. São quérables ou quesíveis (de ir buscar. ver acórdãos do STJ proferidos nos REsps 164. 326). 23. Lugar e tempo do pagamento 5. enquanto nas segundas a mora depende de recusa do devedor em pagar o débito quando o credor manda recebê-lo.238. fazendo ressalva. 325). desde que outra coisa não tivessem estipulado (art. no lugar da prestação. Nessas hipóteses. o credor pode optar por um deles não se havendo estipulado câmbio fixo. ressalvados os casos de contratos internacionais. Lugar do pagamento As dívidas são portables ou portáveis (de ir. n. a mora surge em virtude de omissão do devedor. 5. substituído pelo Dec. 2 Direito Civil . Revista de Direito Bancário. por não ter mandado o pagamento ao lugar estabelecido. ao câmbio do dia. A consequência prática da disSobre a possibilidade de utilização de moeda estrangeira como indexador.110 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS ção extingue-se.192/2001)2. 857/69. caso em que a despesa acrescida será por conta do credor (art.1.765 e 239. diz Pontes de Miranda) quando pagáveis no domicílio do devedor. O Código Civil de 2002. se ocorrer aumento por fato do credor. a referência à saca de café ou ao alqueire de terra deverá ser entendida de acordo com os usos e costumes dominantes no local da execução. 10. 9. todavia. Em relação às primeiras. Assim. havendo mora do devedor e tendo o ágio variado entre o dia do vencimento e o do pagamento. em seu art. Lei n. Se o pagamento se fizer por medida ou peso. 151 e 161.501/33. reafirma a vedação de convenção de pagamento em moeda estrangeira. A estipulação de pagamento em certa espécie de moeda ou em moeda estrangeira. às permissões previstas na legislação especial. entender-se-á que as partes aceitaram as medidas do lugar da execução. todavia. foi vedada pela legislação subsequente (Dec. p. 10. do Mercado de Capitais e da Arbitragem. permitida pelo Código Civil de 1916. e Lei n.

execução da obrigação: pagamento 111 tinção é que. pois o credor terá de fazer a prova de que mandou receber e de que o devedor se recusou a efetuar o pagamento. O Código Civil de 2002 introduziu ainda duas novas regras referentes ao lugar do pagamento. se houver motivo grave que impeça a realização do pagamento no lugar acordado. 327 do CC de 2002. da natureza das obrigações. estabelecida no art. que não seja o domicílio do devedor. desde que não haja prejuízo para o credor. por exemplo.Direito das Obrigacoes . para evitar a mora. 327. das circunstâncias ou de convenção entre as partes. considera. A segunda inovação está aposta em seu art. pode ser pago noutro lugar. 950 do Código de 1916.indd 111 25/4/2011 15:18:48 . com o pagamento reiterado em outro local. no imóvel desta é que as aulas deverão ser ministradas. salvo convenção em contrário. é evidente que esta deve ser feita no terreno que as partes indicaram para tal fim. enquanto tal providência não é básica se a dívida for quesível. que seguiu o disposto no art. A palavra “prestações” significa algo que deva ser feito no imóvel: consertos. Pode a natureza da obrigação implicar o pagamento do débito em determinado lugar. Se uma das partes se obriga a fazer a construção de um prédio. A norma geral. 3 Direito Civil . Se o objeto do pagamento for a transferência de um imóvel ou abranger prestações relativas a ele. A primeira está prevista em seu art. o devedor poderá fazê-lo em outro local.021-381. 330 ao prever que. aconselha-se ao devedor de débito portável a consigná-lo. far-se-á o pagamento no lugar onde está situado o bem (art. Existem várias exceções ao princípio fixado no referido art. cabe a opção ao credor. Se um professor se obriga a dar aulas numa faculdade. presume-se que o credor renunciou ao lugar previamente acordado no contrato. decorrentes da própria lei. 329 e estabelece que. no momento do vencimento da obrigação. Havendo pluralidade de domicílios ou mais de um lugar indicado para o pagamento. que o pagamento deve ser feito no domicílio do devedor. benfeitorias etc. 328)3. O aluguel.

caberá ao juiz fixar o prazo razoável para o cumprimento da obrigação.2. o negócio jurídico criador da obrigação estabelece a época do pagamento. Em cada caso concreto. casos em que o prazo será fixado de acordo com os usos e costumes locais. No contrato de depósito. com um chofer de táxi. não se tendo convencionado prazo. e de nada lhe serve que o carro venha buscá-lo um dia depois ou um dia antes. e por esse motivo contrata. É essencial quando a prestação só apresenta interesse econômico para o credor desde que cumprida em determinado momento. O prazo no caso é essencial. No caso do mútuo. estabelece a lei que. o vencimento não ocorrerá antes de trinta dias (art.Direito das Obrigacoes . Assim. Se. salvo se a execução tiver de ser feita em lugar diverso (mandar para o exterior certa mercadoria). 629). No caso de comodato sem prazo. recebê-la tanto num dia como no outro. Os prazos visam beneficiar. adiante. o depositário é obrigado a devolver a coisa depositada logo que exigida (art. No caso de silêncio das partes e desde que não exista disposição legal em sentido contrário.021-381. O prazo numa obrigação pode ser essencial ou acidental. só tem interesse na condução no momento fixado.112 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 5. o credor pode exigir o pagamento imediatamente (art. cabendo ao credor a prova de que o devedor teve ciência do advento da mesma (art. o devedor ou o credor.indd 112 25/4/2011 15:18:48 . 581). O beneficiado com o prazo a ele pode renunciar. por Direito Civil . 134). 331). o mesmo ocorrendo quando tal prazo ficou ao arbítrio exclusivo do devedor. desde que acrescida dos juros combinados (ver. o mutuante que exige a devolução da quantia mutuada pode. Ao contrário. em tese. sendo de dinheiro. 332). Mora). quem necessita tomar um trem em determinado horário. o seu transporte até a estação em certa hora. o comodatário tem obrigação idêntica desde que tenha sido ultrapassado o tempo necessário para atender ao uso ao qual o objeto se destinava (art. 592). As obrigações condicionais cumprem-se na data do implemento da condição. dependendo de notificação prévia feita pelo credor ao devedor. na falta de estipulação das partes. ou exigir tempo (construir um edifício) (art. Tempo do pagamento Normalmente. para assistir numa outra cidade a uma conferência. conforme a hipótese.

fidejussórias. que só será obrigado a armazenar determinada quantia de sacas de café. nada impede que faça o pagamento anteriormente. 78/813. ou reais. ao contrário. até prova em contrário. Neste caso. Também são causas de vencimento antecipado dos débitos as hipóteses elencadas no art. a deterioração e o perecimento da coisa dada em garantia (incisos I e IV.indd 113 25/4/2011 15:18:48 . 1. pois o devedor não pode piorar a situação do credor. ou de concurso de credores. 4 RTJ.º). se houver solidariedade passiva entre os devedores. ou se se tornarem insuficientes.execução da obrigação: pagamento 113 exemplo. hipotecados ou empenhados. e o devedor.3. Se. no próximo dia 1. se negar a reforçá-las”.021-381. as garantias do débito. Direito Civil . que existe em favor do devedor4. salvo acordo em contrário entre as partes. parágrafo único). por exemplo.º de janeiro. onerando-o com despesas de armazenagem por um prazo não previsto na relação contratual. 333: “I — no caso de falência do devedor. que revelam a insolvência do devedor. o prazo foi estabelecido em favor do credor. a antecipação de vencimento relativa a um dos devedores não importa em vencimento do débito dos coobrigados solidários (art. presumindo-se então.Direito das Obrigacoes . como as mencionadas no art.º e 2. 5. Algumas vezes não se sabe em favor de quem o prazo foi estabelecido. §§ 1. o devedor só pode entregar a mercadoria prometida na data marcada. Vencimento antecipado A lei concede ao credor o direito de cobrar a dívida antes do seu vencimento em algumas hipóteses especiais.425 do Código Civil vigente. II — se os bens. forem penhorados em execução por outro credor. III — se cessarem. intimado. 333. foi dado o prazo de seis meses ao devedor para pagar uma dívida pecuniária. que são.

77 da Lei n. importam em impedir de modo definitivo o cumprimento da obrigação. as de não fazer. 51 e s.021-381. ter havido um simples atraso no adimplemento da obrigação. enquanto no inadimplemento absoluto o devedor está na Agostinho Alvim. quer por parte do credor (mora creditoris ou mora accipiendi). ainda há possibilidade de ser cumprida a prestação. cabal e definitivo pode ser fortuito ou culposo. A destruição da coisa e a ilicitude do negócio jurídico. Esse atraso ou retardamento importa num inadim­plemento temporário. 6. O inadimplemento total. 1972. Em certo tipo de obrigações. por exemplo. 11. 5 Direito Civil .101. ensejando. não se admite a mora. como. salientando o professor paulista que. 4. com rara felicidade. a decretação da liquidação extrajudicial de instituições financeiras e seguradoras tem como um dos seus efeitos o vencimento antecipado das obrigações da liquidanda (art.024. Inadimplemento e mora O inadimplemento ou não cumprimento da obrigação na maneira estipulada pode revestir formas diversas. São Paulo.indd 114 25/4/2011 15:18:48 . por Agostinho Alvim5. Do mesmo modo. na última hipótese. Torna-se. Pode. em virtude de lei nova. mas o foi posteriormente..Direito das Obrigacoes . na mora. ed. com a decretação da falência da empresa. que pode exigir a satisfação das perdas e danos. de 13-3-1974. p. de acordo com a Lei n. necessário distinguir o inadimplemento propriamente dito da simples mora. de 9-22005 (Lei Falimentar) estipula que. quando o prazo é essencial à relação jurídica. pois qualquer violação de dever de abstenção importa necessariamente no inadimplemento. o atraso torna a prestação inútil ao credor. diversamente. 18. Da inexecução das obrigações e suas consequências. Além disso. b). que não foi cumprida no tempo fixado. pois. as dívidas terão seu vencimento antecipado. A distinção entre mora e inadimplemento foi feita entre nós. quer por parte do devedor (mora debitoris ou mora solvendi). por serem diferentes os efeitos de ambas as situações. a responsabilidade do inadimplente. 6.114 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Ressalta-se que o disposto no art.

devido à mora. 395. e a mora surge também de ato ilícito. O Código Civil. No campo dos negócios jurídicos. não há mora. quando a prestação ainda é útil para o credor. A nova disciplina traz configuração da mora quando não for respeitado o tempo. não há mora se a dívida não for líquida.021-381. Agostinho Alvim bem defendeu a substituição do termo convencionados por devidos.indd 115 25/4/2011 15:18:48 . Assim. certa quanto à sua existência. ou se não for vencida. se tornar inútil ao credor.Direito das Obrigacoes . e adita ao tempo o lugar e a forma convencionados ou estabelecidos em lei (art. mas ao atraso. este poderá enjeitá-la. Em vista disso.1. dependendo de termo ou de condição. e ao seu valor. Mora do devedor A mora debitoris pressupõe uma dívida líquida e certa. entendemos que a pequena modificação configura-se como uma correção. a fábrica entrega produtos de Natal depois da época. O antigo Código apenas mencionava a mora quando não fosse observado o convencionado. 6.execução da obrigação: pagamento 115 impossibilidade de cumprir a obrigação porque esta se tornou inútil para o credor6. O elemento culpa para caracterizar a mora está explícito no capítulo do Código Civil que regula a maté- 6 Ex.: a entrega do vestido de noiva após o casamento. pois nem sempre há convenção. ou seja. no parágrafo único do art. mas inadimplemento absoluto. o lugar ou a forma que a lei ou a convenção estabelecer. Ocorre que não é devido à mora. vencida e não paga em virtude de culpa do devedor. que se torna inútil a prestação. o costureiro entrega uma fantasia para o carnaval depois do carnaval. e exigir a satisfação das perdas e danos”. Direito Civil . Dessa forma. 394 do CC). nos casos em que o ator ou cantor comparece ao teatro após o horário e os espectadores foram dispensados. Mora é o retardamento culposo no cumprimento da obrigação. dispõe que: “Se a prestação. Mas o Código Civil não se contenta com o elemento tempo.

A constituição em mora se realiza.indd 116 25/4/2011 15:18:48 . o devedor é considerado em mora desde o momento em que foi cometido o ato ilícito (art. 398 do Código Civil). que não tem correspondente na nova disciplina). não há mais diferença de regime jurídico para as obrigações comerciais e civis. parágrafo único. Se a obrigação não é positiva (de dar ou fazer) e ao mesmo tempo líquida (certa quanto à existência e determinada quanto ao objeto – art. ou seja. o devedor responde também pela impossibilidade da prestação resultante de caso fortuito ou força maior. para a constituição do devedor em mora. em virtude do atraso. 138 do CCom. o que fixa o seu valor. portanto. mesmo vencendo-se a obrigação em data. se 7 Chama-se mora ex re (éks ré). Nas obrigações oriundas de delito. É efeito da mora a responsabilidade do devedor pelas perdas e danos.021-381. 397. É o princípio dies interpellat pro homine (art. descumprimento de obrigação de não fazer). depende de interpelação e chama-se mora ex persona. para que o devedor esteja em mora (art. sem necessidade de qualquer interpelação judicial7. do CC). salvo se provar a isenção de culpa ou que o dano ainda sobreviria se a obrigação fosse oportunamente desempenhada. ato ilícito. É a perpetuação da obrigação. Não havendo vencimento para a obrigação. ou imediata. 397). o tratamento diferenciado com relação à mora. judicial ou extrajudicial. o Código Comercial exigia a notificação do devedor. Uma vez que haja mora. na legislação civil brasileira. embora sendo ainda a responsabilidade ilíquida. de pleno direito. Com a unificação do direito obrigacional.533 do Código de 1916. ou seja. Anteriormente. termo ou prazos certos (art.116 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS ria: “Não havendo fato ou omissão imputável ao devedor. 396 do Código Civil).). não incorre este em mora” (art. nos casos de responsabilidade por ato ilícito. deixando de existir. pois o seu montante só se torna certo com a sentença transitada em julgado. 399 do Código Civil). pelo simples advento do termo ou decurso do prazo.Direito das Obrigacoes . Direito Civil . 1. decorrente do fato que lhe dá origem (vencimento. Se o credor provar que a prestação. torna-se imprescindível a notificação. havendo culpa do devedor pela mora (art.

de culpa deste. 395 do CC). pois. Mora do credor Há mora do credor quando este se recusa a receber o que lhe é devido. limpar. todavia. embora seja a dívida portable. se for o caso (art. para garantir a plena restituição do credor à situação anterior à lesão de direito. A ocorrência de mora enseja também a incidência de juros mais correção monetária do débito. o curso dos juros (art. obrigação de consignar. entendendo a maioria dos autores que a simples recusa não justificada implica mora. I). salvo provando que tais danos também ocorreriam se não tivesse havido mora.indd 117 25/4/2011 15:18:48 . o devedor responde até pelos danos decorrentes de caso fortuito. se este oscilar entre o tempo do vencimento e o do pagamento. O devedor purga a mora oferecendo a prestação acrescida da importância dos prejuízos até a data da oferta (art. na forma contratual ou legal (art. pagável no domicílio do credor.execução da obrigação: pagamento 117 tornou inútil para ele. Não há. isto é. Diz-se também emendar a mora. 6. a mora passará a ser equiparada ao inadim­ plemento. A doutrina brasileira discute se a mora do credor necessita ou não.2. Purgação da mora O termo purgar significa purificar. interrompendo. 394).3. 401. como se tradição tivesse havido. 400). O devedor tem a faculdade de consignar ou depositar judicialmente a coisa no caso de mora do credor.021-381. 6. em caso de mora. para a sua configuração. devendo o credor ressarcir o devedor pelas despesas que teve. depois da mora. Já vimos que. outrossim. a fim de evitar a posterior alegação da infração contratual por não ter sido o pagamento feito na forma e prazo estabelecidos. Se se Direito Civil . independentemente da prova de culpa do credor.Direito das Obrigacoes . é aconselhável fazer a consignação em pagamento ou uma justificação comprobatória da recusa do credor em receber o que lhe era devido. e honorários de advogado. pela conservação do bem e sujeitando-se ainda a recebê-lo pelo seu maior valor. Os efeitos da mora creditoris importam em transferir a responsabilidade pela conservação da coisa ao credor.

o cumprimento 25/4/2011 15:18:48 . 58 firmou. Execução da obrigação Direito Civil . mesmo havendo data certa para o cumprimento da prestação (art. havendo ação judicial. Também denominado pagamento. 18. aplicável a todos os institutos desde que a prestação não se tenha tornado inútil para o credor. que a mora depende de notificação do devedor pelo oficial do registro de imóveis. Se a mora for do credor. mas os tribunais e. SÍNTESE 6 — EXECUÇÃO DA OBRIGAÇÃO: PAGAMENTO 1. de 10-12-1937. os prejuízos abrangerão os juros fixados. a própria lei entenderam que devia haver notificação prévia para que se pudesse aplicar a cláusula resolutória expressa (v.245. um princípio de exceção insuscetível de aplicação analógica ou extensiva a outras hipóteses. discutiu-se a aplicação analógica do mesmo princípio às promessas de compra e venda de imóveis não loteados.Direito das Obrigacoes . 58. Cap. II).118 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS tratar de dívida em dinheiro.º). 8. o Decreto-Lei n. como a de locação de imóveis (Lei n. a correção monetária e. sendo a jurisprudência dominante favorável à aplicação do texto especial contido na Lei dos Loteamentos.4.indd 118 O dever jurídico imposto ao devedor em favor do credor na relação obrigacional pode ser cumprido direta ou indiretamente. § 1. determinando o Decreto-Lei n. Casos especiais Em determinados casos surgiram dúvidas quanto ao momento em que ocorre a mora. 401. voluntária ou involuntariamente. 14. 101). este receberá o pagamento sujeitando-se aos efeitos da mora até a mesma data (art. as custas do processo e os honorários de advogado. As leis civis conhecem alguns casos especiais de aplicação da purgação de mora. Trata-se de um instituto genérico de direito civil. no caso. 6. Na realidade. de 18-10-1991). Assim. posteriormente.021-381. n.

346). Capacidade para pagar e Qualquer pessoa pode pagar uma dívida receber sua ou de outrem. 3. este não terá direito ao reembolso do que pagou. Pagamento pressupõe a existência de uma dívida e a vontade de extingui-la. Havendo oposição do devedor ao pagamento do seu débito por terceiro não interessado. A diferença de tratamento no caso de pagamento por terceiro interessado ou não interessado explica-se pela situação do pagador no tocante à relação jurídica. nem mesmo de forma parcial. O credor não é obrigado a receber de forma diferente do que foi estipulado. pode tão somente obter o reembolso do que pagou. mas não se sub-roga nos direitos do credor.execução da obrigação: pagamento 119 da obrigação é a execução da prestação pelo devedor na forma estabelecida no ato jurídico ou lei e de acordo com as normas fixadas quanto ao modo.indd 119 A obrigação extingue-se pelo pagamento da dívida por qualquer interessado.021-381. tempo e lugar de sua realização. se fizer em nome próprio. em tese. Pagamento total e parcial Pagamento é todo cumprimento de obrigação. caso o devedor demonstre que tinha meios para ilidir a ação. fazer ou não fazer. 25/4/2011 15:18:48 .1. salvo nos casos previstos em lei. Terceiro interessado é aquele que pode ser responsabilizado pelo débito. 3. devendo. quando quem paga a obrigação é um terceiro não interessado. Mas é sempre necessário verificar se esse terceiro é interessado ou não. ser feito pelo devedor ao credor. 2. importando em um dar. sendo que o terceiro interessado que cumpre a obrigação se sub-roga nos direitos do credor (art.Direito das Obrigacoes . Capacidade para pagar Direito Civil . Por outro lado.

o nome do devedor ou de quem está por ele pagando. ao contrário. judicial ou convencional. incumbe ao devedor consignar judicialmente o pagamento. Nos casos de incapacidade do credor. O pagamento feito indevidamente obriga o devedor a pagar novamente.indd 120 25/4/2011 15:18:48 . 3. 309).O pagamento deve ser feito ao credor. A prova da quitação se faz preferencialmente pela forma escrita. aos ber seus sucessores ou ao seu representante legal. Quando em dinheiro. Quem paga mal paga duas vezes. a espécie de dívida. 4. regular. a lei protege a boa-fé do credor.021-381. deve ser feito em moeda corrente no lugar do cumprimento da obrigação. O pagamento deve ser feito na forma convencionada ou conforme determina a lei. Pratica um ato imiscuindo-se na vida alheia. o pagamento deverá ser feito a quem de direito. Havendo dúvida de quem pode receber. considerando válido o pagamento feito a credor putativo (art. O credor não é obrigado a receber coisa diversa da devida.Direito das Obrigacoes . Contudo. ou seja. além da assinatura do credor Direito Civil . O terceiro não interessado. Capacidade para rece. e é justo que a lei lhe assegure a ação regressiva contra o devedor. à prova do pagamento feito. o tempo e o lugar do pagamento.2. Objeto do pagamento e O devedor que paga tem direito à quitação sua prova. interfere em relação jurídica que não tem incidência alguma sobre o seu patrimônio.120 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS O terceiro interessado que paga está defendendo direta ou indiretamente o seu patrimônio. podendo reter o pagamento sem incorrer em mora. enquanto lhe for recusada a quitação. Moeda. ainda que mais valiosa. devendo conter informações sobre o valor.

Contudo. Nos débitos cuja quitação consiste na devolução do título. Contudo. por indicação legal. pode o devedor exigir declaração do credor de que recebeu o pagamento.021-381. Salvo convenção em contrário. 327) permitindo-se o pagamento em lugares diversos. No silêncio das partes e desde que não exista disposição legal em contrário. presumese que corram por conta do devedor as despesas com o pagamento e a quitação (art. observando-se os limites da lei (art. o credor pode exigir o pagamento imediatamente.1.Quanto ao lugar do pagamento as dívidas mento podem ser portables (portáveis — pagas 5. Vencimento antecipado A lei concede ao credor o direito de cobrar a dívida antes do seu vencimento em algumas hipóteses especiais que revelam a insolvência do devedor (art.3. Lugar do pagamento no domicílio do credor ou onde ele indicar) ou quérables (quesíveis — pagas no domicílio do devedor). da natureza da obrigação e por vontade das partes. 5. Tempo do pagamento Normalmente o negócio jurídico criador da obrigação estabelece a época do pagamento. Nesse Direito Civil . podem haver exceções ao princípio da lei (art. Lugar e tempo do paga. c) na quitação do principal sem ressalvas.2. perdido este. 5.execução da obrigação: pagamento 121 ou seu representante. 333).Direito das Obrigacoes . fazendo presumir o pagamento dos juros. presume-se o pagamento (presunção juris tantum) nas seguintes situações: a) na posse do título pelo credor. A regra geral do Código Civil é a dívida quérable. 5. b) no pagamento da prestação posterior em dívidas periódicas implicando a presunção do pagamento das anteriores. 325). 331).indd 121 25/4/2011 15:18:49 .

6. temos o inadimplemento da obrigação.Direito das Obrigacoes .021-381. Mora do credor A mora do credor. e quando é temporário. Mora do devedor A mora do devedor.1. Inadimplemento e mora O não cumprimento da obrigação pode ser total ou temporário. lugar e forma) quando a prestação ainda for útil para o credor. pressupõe uma dívida líquida e certa. Nesses casos.2.indd 122 25/4/2011 15:18:49 . É efeito da mora a responsabilidade do devedor pelas perdas e danos. Os efeitos da mora do credor importam em transferir a responsabilidade pela conservação da coisa ao credor. Quando é total. também conhecida como mora debitoris. ocorre quando o credor se recusa a receber o que lhe é devido. estabelece o art. também conhecida como mora creditoris. este poderá enjeitá-la e exigir satisfação das perdas e danos. vencida e não paga em virtude de culpa do devedor.3. Purgação da mora O termo “purgar” significa purificar. se houver solidariedade passiva entre os devedores. 6. devido à mora. o devedor poderá consignar em juízo o pagamento da obrigação. 6. a antecipação de vencimento relativa a um devedor não importa no vencimento do débito dos coobrigados solidários.122 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS caso. tornar-se inútil ao credor. limpar ou mesmo emendar a mora. Assim. temos a mora (atraso ou retardamento no cumprimento). podemos conceituar a mora como o retardamento culposo no cumprimento da obrigação (tempo. como se houvesse a tradição. 6. O devedor pode purgar a mora oferecendo a prestação acrescida da importância correspondente Direito Civil . 395 do Código que se a prestação. Porém.

25/4/2011 15:18:49 . se a mora for do credor. que serão aplicadas às promessas de compra e venda de imóveis (loteados ou não) a notificação prévia da mora. tanto pelas decisões dos tribunais como pela lei.4. 6.execução da obrigação: pagamento 123 ao prejuízo causado. este receberá o pagamento sujeitando-se aos efeitos daquela. Por outro lado.Direito das Obrigacoes . convalidou. Casos especiais Direito Civil .021-381.indd 123 O Decreto-Lei n. 58/37.

1. 1.1.4. Casos de consignação. 2. Noções gerais.1. Escolha de coisa indeterminada pelo credor. Transação (arts.2. 1. Efeitos. Espécies.2. 2. 334 a 345 do CC e 890 a 900 do CPC) 1. 1. 10. Conceito Pagamento em consignação é o depósito judicial da coisa devida ou depósito em estabelecimento bancário. 360 a 367).3. 2.2. 3. Espécies. 1. Conceito. 334 a 345 do CC e 890 a 900 do CPC). 1. se for débito em dinheiro. 1. Conceito. 385 a 388).6. Consignações de prestações periódicas.2. 381 a 384). 2. nos casos legais (art. 368 a 380). para liberar o devedor.3. 840 a 850). Conceito. 3.1. Sucedâneos de pagamento. Consignação de coisa certa ou corpo certo.1. 5. 2. 334).indd 124 25/4/2011 15:18:49 . 2. Pagamento em consignação (arts. Consignar é faculdade. Dação em pagamento (arts.7. Conceito (arts.4. 346 a 351 do CC).1. 4. 5. Novação.021-381. 356 a 359). 1.5. 1. 9.8. 2. Conceito (arts.1.1. Sub-rogação real. 2. Da convenção de arbitragem: cláusula compromissória e compromisso arbitral. Preferência. Dúvida quanto ao credor. Pagamento com sub-rogação (arts. 1.4.1. Confusão (arts.1. Elementos. Mora intercorrente na consignação em pagamento. 352 a 355). não dever. Remissão de dívida (arts.Capítulo 7 MODALIDADES DE PAGAMENTO E OUTROS MEIOS DE EXTINÇÃO DAS OBRIGAÇÕES Sumário: 1.1. Pagamento em consignação (arts. 5. 5. Direito Civil .Direito das Obrigacoes . Sub-rogação pessoal.1. 4. 6. 8. Imputação do pagamento (arts. Regras sobre levantamento.5. 7.1.2. 5.1.1.2. 1.1. Conceito.2. Limites.3. Revelia ou recebimento pelo credor. Compensação.1.

334 a 345 e no Código de Processo Civil nos arts. todavia. mas provar que o devedor não consegue pagar ou obter a quitação e o julgamento favorável. o pagamento. 334 do CC). É preciso fazê-lo de acordo com a lei. ou seja. que o credor deve ir buscar ou mandar receber.modalidades de pagamento 125 O conceito de consignação ilude à primeira vista. Casos de consignação O Código Civil prevê os seguintes casos de pagamento em consignação: 1) se o credor não puder.indd 125 25/4/2011 15:18:49 . A consignação é regulada pelo atual Código Civil nos arts. Direito Civil . recusar receber o pagamento. É preciso não só depositar. Ocorrendo. a morte natural da obrigação. este é o caso das chamadas dívidas portáveis. ou pagáveis no endereço do credor. judicialmente ou em estabelecimento bancário (se for dinheiro). o devedor deve voltar com testemunha e tentar pagar. só não cabendo tal ação na hipótese de obrigação de fazer ou de não fazer.Direito das Obrigacoes . Se ocorrer a recusa. sem justa causa. Normalmente a obrigação se extingue pelo seu cumprimento. A consignação em pagamento se aplica a todos os casos de obrigação de dar coisa certa ou incerta. Só depois poderá mover a consignação. nos casos e forma legais (art. mas deve existir antes de ser movida a ação. constituindo. na palavra de um dos nossos autores.021-381.1. e considerando-se pagamento o depósito judicial ou em estabelecimento bancário da coisa devida. liberando-se assim da obrigação. a coisa devida. dúvida quanto à pessoa do credor ou recusa deste em receber o pagamento na forma convencionada. ou dar quitação na devida forma. o devedor tem a faculdade de depositar. Não basta o depósito da coisa. A prova não é o depósito. a recusa de dar quitação (recibo) é o mesmo que recusar o pagamento. ou.1. e mesmo assim só se terá pagamento se houver sentença favorável passada em julgado. móvel ou imóvel. 890 a 900. tempo e condição devidos. 1. Geral­mente é testemunhal. este é o caso das dívidas quesíveis. 2) se o credor não for nem mandar receber a coisa no lugar.

cessionário etc. 8) se pender litígio sobre o objeto do pagamento. porque. nesta parte.Direito das Obrigacoes . cabe dizer que deve ser menor ou doente mental e sem ter alguém que o represente ou assista.º Tratando-se de obrigação em dinheiro. situado no lugar do pagamento. de 13-12-1994. o juiz nomeia curador aos seus bens e interesses e o curador pode e deverá receber. onde houver. se o curador recusa. em Direito Civil . cujo nome não indicou. em estabelecimento bancário oficial. além da incapacidade. não se sabendo quem é o herdeiro). é preciso que não tenha quem o represente ou quem o assista (se for relativamente incapaz. ou pode ter falecido. O art. 7) se ocorrer dúvida sobre quem deva legitimamente receber o objeto do pagamento.021-381. em lugar incerto é claro que não poderá o devedor mandar pagar. Quanto a ser incapaz. se tiver pai. temos hoje certos morros ou bairros longínquos. o incapaz poderá receber. se declarado ausente em juízo. por exemplo). O Código de Processo Civil. 8. 5) se o credor estiver ausente.. porque. para não correr o risco de pagar mal. que impedem a aproximação de estranhos. pode o devedor pagar por consignação. o Código diz “estiver declarado ausente”.indd 126 25/4/2011 15:18:49 . tem-se o primeiro caso acima. não é sabido o sucessor do credor originário (o primitivo pode ter cedido o crédito a terceiro.126 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 3) se o credor for incapaz de receber — situação muito rara. sem justa causa. por exemplo. quando aparece alguém estranho que se diz herdeiro. Ex. mas com razão observa Carvalho Santos que não é o caso. poderá o devedor ou terceiro optar pelo depósito da quantia devida. isto é. 890 a 900. como ocorre nas favelas dominadas por criminosos.951. 6) se o credor residir em lugar incerto ou de acesso perigoso ou difícil.: duas pessoas se apresentam como sendo credoras do mesmo devedor e ambas pretendem receber. lugar de acesso perigoso. foi alterado. que regula a matéria nos arts. 890 teve aditados os seguintes parágrafos: “§ 1. pode haver incapacidade superveniente em virtude de doença. 4) se o credor for desconhecido. pela Lei n. cabendo ao credor vir receber. é o caso de sucessão no crédito. tutor ou curador.

o devedor ou terceiro poderá propor. a ação de consignação. II — a citação do réu para levantar o depósito ou oferecer resposta”. Ora. A redação do art. cientificando-se o credor por carta com aviso de recepção. sem a manifestação de recusa. Com a atual disciplina do Código de Processo Civil. § 2. faz-se o depósito e o prazo de cinco dias parece até longo. Nos termos do art. ressalvada a hipótese do § 3. em evidente prejuízo para o credor. devendo depositar em cinco dias após o deferimento.modalidades de pagamento 127 conta com correção monetária. Antes. § 4. a ser efetivado no prazo de cinco dias contados do deferimento. na petição inicial. reputar-se-á o devedor liberado da obrigação. o autor. o autor pedia que o juiz marcasse dia e hora para que o réu viesse receber em juízo a quantia em dinheiro ou a coisa (fato mais raro. se for considerado que o autor já tem o dinheiro ou Direito Civil . 893 do CPC resolve a questão da chicana e dos depósitos maliciosos. de que falaremos ainda). ou ajuíza logo a consignatória. ou o devedor deposita em banco oficial e. como isso dependia de citação por oficial de justiça (agora se faz pelo correio. o cartório designava um dia longínquo (por exemplo.021-381. o juiz não designava diretamente. para um ou dois meses após). de preferência). manifestada por escrito ao estabelecimento bancário. move a ação. § 3. o autor ficava especulando com o dinheiro. instruindo a inicial com a prova do depósito e da recusa.º do art. Mas.º Decorrido o prazo referido no parágrafo anterior.º Ocorrendo a recusa. 890. havendo recusa. o despacho dizia: designe o cartório dia e hora. em período de alta inflação.indd 127 25/4/2011 15:18:49 . requererá: “I — o depósito da quantia ou da coisa devida. dentro de trinta dias. em geral.Direito das Obrigacoes . ficará sem efeito o depósito. Não se designa mais dia e hora para receber. continuando já depositado o dinheiro. assinado o prazo de dez dias para a manifestação de recusa.º Não proposta a ação no prazo do parágrafo anterior. ficando à disposição do credor a quantia depositada. salvo a recusa de receber imóvel. podendo levantá-lo o depositante”. e. 893 do CPC.

obtida a guia num dia e demorando o devedor alguns dias para depositar. O prazo de dez dias é contado da intimação da contestação. deve dizer por quê. O Código de Processo Civil indica as seguintes matérias que poderão ser alegadas na contestação: I — inexistência de recusa ou mora em receber a quantia ou coisa devida. devendo o réu indicar o montante que entende devido. IV — o depósito não é integral. O art. IV. se o pedido for contestado. também se disser que foi justa a recusa significa que não incorreu em mora (mora do credor. Assim. dentro em dez dias. que só pode ser contado após o depósito. III — o depósito não se efetuou no prazo ou no lugar do pagamento. conforme o art. salvo se corresponder a prestação. O art. Depende de ser aceita pelo credor ou das provas trazidas pelo autor. 267.Direito das Obrigacoes . Mas se o réu diz que não há mora. 6 do Cap. como o caso de não ser feito no prazo ou no lugar do pagamento ou não ser integral. 899 do CPC permite que se complete o depósito quando se alega a insuficiência: “(. faltando o depósito. Só se não houver funcionamento do banco é que se admite depósito posterior.021-381. e. pena de ser atribuída a ele a mora (mora do devedor).) é lícito ao autor completá-lo. dita mora accipiendi. extingue-se o processo sem exame do mérito.. mas os índices variam. Direito Civil . em que a dívida deve ser corrigida. do CPC). Essa situação é frequente nos casos de inflação. pois não pode ser indicado outro valor por mero capricho do réu. que regula os casos de contestação. Tudo isso cabe ao autor justificar.128 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS coisa devida. que justifique.indd 128 25/4/2011 15:18:49 . 6). não diz o prazo. A consignação não é simples depósito. 896 do CPC. Não havendo depósito. falta um dos pressupostos do processo (a ação é de depósito com força de pagamento. cujo inadimplemento acarrete a rescisão do contrato” (ver Inadimplemento e mora no n.. ou mora em aceitar). a nosso ver. já está depositando menos que o devido (o banco só começa a corrigir a partir do depósito). devendo incidir o prazo comum de quinze dias. porque antes não pode ter conhecimento. II — foi justa a recusa.

º A sentença que concluir pela insuficiência do depósito determinará. facultado ao credor promover-lhe a execução nos mesmos autos”. poderá o réu levantar. 891. Assim. 1. a quantia ou a coisa depositada. § 2. 891. Requerer-se-á a consignação no lugar do pagamento. que repete o disposto no art. em processo diverso. cessando para o devedor. pode mover a execução nos mesmos autos. a execução deveria ser movida pelo credor. o montante devido.1. Quando a coisa devida for corpo que deva ser entregue no lugar em que está. salvo se for julgada improcedente. sempre que possível. 328 e 341 do CC.021-381.Direito das Obrigacoes . Consignação de coisa certa ou corpo certo O Código de Processo Civil. Lembrese que a ação foi movida pelo devedor. 328. O texto está de acordo com os arts. Parágrafo único. Mas como já se discutiu o valor. far-se-á no lugar onde situado o bem”. os juros e os riscos. Realmente. 899 dispõem: “§ 1.2. com a consequente liberação parcial do autor.modalidades de pagamento 129 Ademais. como transportar um imóvel? Ou mercadorias depositadas em armazém-geral e outros bens localizados? O art.º Alegada a insuficiência do depósito. neste caso. passando em julgado a sentença. é possível o levantamento da parte não controversa e a fixação da parte devida. com a execução nos mesmos autos.indd 129 25/4/2011 15:18:49 . os parágrafos do referido art. valerá como título executivo. desde logo. poderá o devedor requerer a consignação no foro em que ela se encontra”. 951 do antigo Código. a rigor. dispõe: “Art. Se o pagamento consistir na tradição de um imóvel. desde que o credor pague as custas e as taxas devidas. 328. prosseguindo o processo quanto à parcela controvertida. com simples aperfeiçoamento da redação. o que representa economia processual. em seu art. é claro: far-se-á no lugar onde o Direito Civil . ou em prestações relativas a imóvel. e. tanto que se efetue o depósito. valendo recordar o primeiro: “Art.

entregando as chaves ao advogado do réu. “julgado procedente o depósito. Assim. No sentido figurado. 340 do CC prevê caso raro: o do credor que. pagando as respectivas despesas.Direito das Obrigacoes .indd 130 25/4/2011 15:18:49 . embora o credor consinta. depois. que significa entrega simbólica de um imóvel. O art. e o depósito não mais pertence ao devedor. num envelope. para consignar um imóvel: entrega das chaves. perde o credor a preferência e a garantia e desobriga os codevedores e fiadores (se houver). nos termos do art. Evidente que não pode ser feita tal entrega em cartório.130 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS imóvel se acha. Direito Civil . poderá o devedor requerer o levantamento. Menos ainda a juntada. Chave é instrumento para abrir fechadura de porta. o devedor já não poderá levantá-lo. Como diz Carvalho Santos. ou não o impugnar. se estiver de acordo com o débito. deve ser entregue a própria coisa. valendo-se de expressão figurada. pelo art. Os advogados costumam contornar a situação. devem ser ouvidos. e subsistindo a obrigação para todas as consequências de direito”. haveria novação. Isto não é possível. que poderiam ser atingidos. como qualquer cláusula contratual. 339. Regras sobre levantamento O Código Civil contém algumas regras sobre levantamento do depósito. Temos ainda no Código a transmissão da posse pelo constituto possessório.1. autoriza o devedor a levantar. Assim. mas. e. “enquanto o credor não declarar que aceita o depósito. Mas. temos a expressão “entrega das chaves”.021-381. por algum outro motivo. deve ser acordada. após contestar. para consignar. como fazem certos advogados. A verdadeira entrega deve ser do imóvel (ou da coisa). senão de acordo com os outros devedores e fiadores”. cabe marcar dia e hora para que o credor compareça ao local onde está. a sentença vale como quitação. não mais encontrou o carro. ali examine a coisa e a receba. em lugar de entregar um símbolo (os romanos pesavam um saquinho com terra para simbolizar a entrega de um terreno). Mas isso só é possível se o credor confia no devedor. aceitando as chaves sem examinar o imóvel. de pequenas chaves. 338. Assim. o qual. 1. Se o credor consente no levantamento. havendo outros devedores ou garantidores.3. Houve caso em que alguém consignou um carro.

1. embora seja esta uma medida de cautela. ao despachar a petição inicial. Escolha de coisa indeterminada pelo credor Pelo art. devendo o juiz. pagável no domicílio ou lugar indicado pelo credor. ou seja. muitas vezes o credor intenta uma ação ordinária ou uma ação de despejo (tratando-se de aluguéis) e o devedor. todavia. somente podendo depender de prova da qualidade do credor por parte de quem pretende receber o pagamento. o devedor fará a prova de que mandou tempestivamente fazer o pagamento e que este não foi aceito. A consignação deve ser efetiva. Já o art. o autor o risco da improcedência se o valor depositado for julgado insuficiente. não há obrigação do devedor de consignar judicialmente. Sendo portável. sendo a dívida quesível.4. todavia. correndo. ingressa com uma ação de consignação em pagamento.021-381.Direito das Obrigacoes .1. sob pena de depósito”. se outro prazo não constar de lei ou do contrato. 894 do CPC diz que o credor será citado para escolher em “cinco dias. ou para aceitar que o devedor o faça. pois ocorre. Se a consignação for feita depois do vencimento do prazo do débito. fixar lugar. É.modalidades de pagamento 131 1. “nas coisas determinadas pelo gênero e pela quantidade. Falta indicar o prazo. Havendo divergência entre credor e devedor sobre o valor do débito. Desde que se comprove a mora do credor. não dever Tratando-se de dívida que o credor se recusou a receber ou não mandou receber. sob pena de ser depositada a coisa escolhida pelo devedor. caberá ao credor fazer a prova de que mandou receber e que o devedor não pagou. 244 do CC. Direito Civil . recomendável que se faça na data do vencimento do débito ou no dia seguinte. no caso. 1. por dependência. 342 desse mesmo Código manda em tal caso citar o credor para escolher. dia e hora em que se fará a entrega. O art. não importa que a consignação tenha sido intentada após o vencimento do débito. uma simples faculdade e não um dever jurídico por parte do devedor. completa e incondicional.indd 131 25/4/2011 15:18:49 . se o contrário não resultar do título da obrigação”. a escolha pertence ao devedor. caso não conste do contrato.5. Consignar é faculdade.

que. débitos bancários em parcelas.Direito das Obrigacoes . “tratando-se de prestações periódicas. podem ser consignados em continuação. as que se forem vencendo. deve ser feita a consignação. pode também preencher as do depósito. embora possa haver abertura de inventário. Isto está de acordo com o art. despesas de condomínio. Consignações de prestações periódicas Pelo art. 1. significando que os depósitos podem ser feitos sem novo pedido.indd 132 25/4/2011 15:18:49 . 290 desse Código. nes- Direito Civil . uma vez consignada a primeira. que manda incluir as prestações seguintes. Mora intercorrente na consignação em pagamento. No primeiro caso. que pode receber. significando que. se for declarada a ausência. no mesmo processo e sem mais formalidades. e devem os depósitos ser feitos. Para não arriscar pagar mal. aliás. prestações imobiliárias sucessivas.6. 892 do CPC. às vezes este se retarda. ou não se nomeia logo um inventariante. deve o cartório ou a secretaria do tribunal expedir a guia.7. 1. Por outro lado. Assim. contados da data do vencimento”.1. enquanto o processo aguarda o julgamento do recurso. Ver. ou ainda assim os herdeiros discutem. o problema será dele ou da parte que nele confia. o que é desnecessário e só serve para retardar e aumentar o trabalho do juiz. Mas a burocracia exige que os advogados requeiram ao juiz a expedição de guia. Dúvida quanto ao credor O Código Civil prevê a hipótese de dúvida sobre quem seja o verdadeiro credor. aluguéis. No segundo. Dizer que o juiz já proferiu a sentença e não se refere esta aos depósitos posteriores é esquecer da regra. o juiz nomeia curador. enquanto estiver em andamento o processo. Mas. Se o preenchimento for errado.1. A entrega pelo cartório só serve para pagar custas e outras despesas aos cartórios. no n.132 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 1. pode o devedor continuar a consignar.021-381. desde que os depósitos sejam efetuados até cinco dias. para ser preenchida pelo advogado. se o advogado preenche outras guias. Ora. deveria ser simplificada e entregue ao interessado pelo banco oficial.2. quando se diz “no mesmo processo” significa que. O texto ainda diz: “no mesmo processo”. Note-se que o texto diz: “sem mais formalidades”. pode a guia ser extraída. Isto pode ocorrer em caso de ausência ou falecimento do credor.

comparecendo mais de um. Ocorre que. em 1982. continuando o processo a correr entre os credores. por vezes. 892 do CPC). o juiz declarará efetuado o depósito e extinta a obrigação (do autor). de um contra o outro. não há recusa. com razão. Revelia ou recebimento pelo credor O Código de Processo Civil é expresso: não havendo contestação no prazo (revelia).2. caso em que se observará o procedimento ordinário. tais depósitos são efetuados com atraso.modalidades de pagamento 133 te caso. 897). se provada a razão do autor. Foi esta a conclusão dos juízes reunidos no V Encontro dos Tribunais de Alçada do Brasil.1.indd 133 25/4/2011 15:18:49 . com fundamento na chamada mora intercorrente (no curso do processo). poderá pedir que o réu justifique o seu crédito ou sua qualidade. deve o autor depositar as prestações sucessivas (quando devidas) até cinco dias após o vencimento (art. não pode eventual atraso nos depósitos gerar a improcedência de todo o pedido. comparecendo apenas um. realizado no Rio de Janeiro. citandose os interessados. e.8. Certos autores. 898: o credor deve logo depositar a coisa ou a quantia.021-381. aprovando a seguinte proposição: Direito Civil . Admite-se nova contestação entre os réus. O Código de Processo Civil prevê o caso no art. 1. o juiz julga procedente o pedido. como se houvesse ação e reconvenção. se tiver elementos para decidir). converte-se o depósito em arrecadação de bens de ausentes. Proceder-se-á do mesmo modo se o réu comparecer e der quitação (parágrafo único). salvo quando se faz a citação por edital). acarretando a improcedência do pedido. Surgem três situações: ninguém comparece (isso raramente ocorre. declara extinta a obrigação e condena o réu no pagamento das custas e honorários (art. 1.Direito das Obrigacoes . Mora intercorrente na consignação em pagamento Movendo a ação consignatória. o juiz decide de plano (naturalmente. entendem que a mora que dá origem à consignação é a do credor.

transferindo-se a quem pagou todos os direitos e garantias anteriormente pertencentes ao credor.021-381. A falta de depósito oportuno das prestações subsequentes não afeta os depósitos feitos em tempo. também da novação. Sub-rogação pessoal Sub-rogação pessoal pode ser: a) por força de lei. Intempes­ tividade de um depósito. enquanto no caso da sub-rogação mantém-se a relação jurídica obrigacional originária. 2. Distingue-se. a transferência do Direito Civil .1.Direito das Obrigacoes . em que surge uma nova relação obrigacional. 2.indd 134 25/4/2011 15:18:49 . não ocorrendo a extinção da obrigação nem a liberação do devedor. Embora apresente certa analogia com o beneficium cedendarum actionum dos romanos.134 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS “Consignação em pagamento. mas simplesmente uma substituição de credor. a transferência do crédito ao pagador de dívida alheia (casos do art. pois surge em virtude do pagamento do débito por um terceiro que se substituiu ao devedor. Conceito A sub-rogação é a substituição de uma pessoa ou de uma coisa por outra pessoa ou coisa numa relação jurídica. transferindo-lhe os direitos do credor. É pessoal quando há substituição de pessoas e real quando a substituição é de coisas. Mantendo certos traços da cessão de crédito. Relativamente às prestações que o autor da consignatória deixa de depositar no curso do processo e no prazo legal.2. não incide ele em mora” (Juízes Adroaldo Furtado Fabrício — RS e Narciso Pinto — RJ). para substituir a antiga. b) por força de contrato ou de recibo com tal fim. Prestações periódicas. a sub-rogação na sua atual estrutura tem as raízes no direito intermediário e no direito canônico. a sub-rogação não é a simples transferência dos direitos decorrentes de uma relação obrigacional.1. Espécies 2. pelo qual quem pagava tornava-se cessionário da ação do credor contra o devedor. 346 do CC). assim. 346 a 351 do CC) 2.2. Pagamento com sub-rogação (arts. A sub-rogação pessoal visa garantir o terceiro que pagou a dívida alheia.

Direito das Obrigacoes . É legal quando independe do consentimento do devedor ou do credor. a) Os casos de sub-rogação legal são aqueles em que o pagamento é feito por um terceiro interessado na relação jurídica. que efetua o pagamento ou empresta o dinheiro necessário para tal fim. O terceiro não interessado pode pagar em nome e por conta do devedor ou em seu próprio nome. porque esta se faz antes do pagamento e a sub-rogação se faz por causa do pagamento. A sub-rogação pode ser legal (de pleno direito) ou convencional. sendo a prestação indivisível. Por outras palavras.modalidades de pagamento 135 crédito próprio ou alheio. em geral. em parte ou no todo. a sub-rogação legal em favor do terceiro que paga letra de câmbio ou do segurador que indeniza o dano causado à pessoa ou coisa segurada2. pelo pagamento (art. ele continua devendo. a fim de conservar o patrimônio do devedor como garantia dos seus débitos. e convencional quando ocorre explicitamente a transferência dos direitos de devedor ou do credor ao terceiro. que paga ao credor hipotecário.021-381. no caso de dívida solidária. nos limites do valor respectivo. mas ao terceiro que pagou a ela. V.indd 135 25/4/2011 15:18:49 . Se o terceiro que paga não for pessoa interessada na relação jurídica. Se alguém adquire um imóvel hipotecado à Caixa Econômica e paga a esta a dívida hipotecária. que paga a dívida do devedor comum ao credor privilegiado. O novo Código Civil. 1 2 Direito Civil . 347). o mesmo ocorrendo no caso de prestação divisível. não mais à Caixa. É a hipótese do credor quirografário1. Distingue-se da cessão de crédito. do terceiro interessado que paga dívida pela qual podia ser obrigado. e. Assim o coobrigado que paga. do adquirente do imóvel hipotecado. salvo se o primitivo devedor já pagou antes (em geral os contratos de financiamento são cedidos com desconto do débito hipotecário). fica sendo credor do anterior devedor em lugar da Caixa Econômica. Capítulo 6. não se dá a sub-rogação legal. dispõe: “Paga a indenização. também. ou seja. Ocorre. n. sub-roga-se nos direitos do credor contra os outros devedores. em seu art. nos direitos e ações que competirem ao segurado contra o autor do dano”. 786. 6. sub-roga-se.1. o segurador sub-roga-se.

de valor semelhante.021-381. ações. ou mantiver depósito em poupança vinculada. O terceiro sem vinculação com a relação jurídica não é beneficiado pela sua intervenção. para quem a relação jurídica se extinguiu com o pagamento do débito. enquanto no segundo uma pessoa se coloca em situação idêntica à do credor. O sub-rogado assume assim a posição do sub-rogante. 349). Exemplo: um bem da herança gravada com cláusula de inalienabilidade não pode ser vendido. Somente o interessado se pode enquadrar. que é substituído pelo outro ou pelos títulos ou pela caderneta vinculada (art. sob a condição expressa de ficar o mutuante sub-rogado nos direitos do credor satisfeito. sem o consentimento e muitas vezes sem o conhecimento deste. 2.Direito das Obrigacoes . Direito Civil . 6.911.136 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS tendo direito ao reembolso do que gastou. 2. Mas se o herdeiro indicar outro bem. b) A sub-rogação convencional se dá por cessão do credor ou do devedor. A sub-rogação por acordo com o devedor ocorre quando terceira pessoa empresta ao devedor a quantia necessária para solver a dívida. Sub-rogação real Sub-rogação real é a substituição de uma coisa gravada por outra. poderá vender o imóvel. parágrafo único — passando a ser exigida autorização judicial —. privilégios e garantias do primitivo em relação à dívida contra o devedor principal e os fiadores (art.3. mas não se sub-roga.777. só tendo direito ao reembolso em virtude dos princípios gerais referentes ao enriquecimento sem causa. há uma verdadeira cessão do crédito. Efeitos A sub-rogação transfere ao novo credor todos os direitos. que fica em lugar daquela. em virtude do interesse que tem na relação jurídica. com todas as suas características e atributos. mediante transferência dos direitos que o credor tinha contra o devedor. de 8-8-1944).2. O terceiro se sub-roga nos direitos do credor quando paga o débito. e Dec.2. No primeiro caso.indd 136 25/4/2011 15:18:49 . pelo pagamento. ou títulos da dívida pública.-Lei n. de valor equivalente. 1. na situação legal do credor.

A contrario sensu. que não vê justificativa para a diversidade de tratamento entre o credor originário e o sub-rogado. a lei estabelece preferência do credor originário sobre o sub-rogado para receber o pagamento do devedor (art. 990 do CC de 1916. Limites Na sub-rogação legal.1. 351).4. o sub-rogado só pode exercer os direitos e ações do credor até a soma que tiver desembolsado para desobrigar o devedor. Quando o devedor tem vários débitos em relação ao mesmo credor e paga quantia insuficiente para a liquidação de todos. garante a lei ao devedor o direito de indicar quais os débitos que pretende pagar (art. 2. 350). Havendo diversos débitos. ou seja.Direito das Obrigacoes . 352 a 355) 3. o problema que surge é o de saber quais os débitos que devem ser considerados pagos. tem merecido críticas severas por parte da doutrina. Conceito Imputação é a escolha da parcela a ser quitada num pagamento parcial do devedor que tem vários débitos em relação a um só credor. 3. que já estava prevista no art.021-381. Imputação do pagamento (arts. A imputação pode decorrer de acordo entre os interessados ou de determinações legais.indd 137 25/4/2011 15:18:49 . na sub-rogação convencional. não mais poderá apresentar recla- Direito Civil . a fim de evitar o enriquecimento sem causa (art.modalidades de pagamento 137 2. Não declarando o devedor qual das dívidas pretende pagar e aceitando a quitação de uma delas. Preferência No caso de haver sub-rogação parcial. substituindo-se o sub-rogado ao sub-rogante em todos os seus direitos. 352). com relação a que débitos o pagamento deve ser imputado. pouco importa a quantia desembolsada. Essa preferência.5. todos líquidos e vencidos.

a existência de uma dívida e o pagamento desta pela entrega de uma coisa diferente da prometida. 354). na falta de declaração do devedor. na falta de declaração de vontade dos interessados. 356 a 359) 4. salvo provando a existência de dolo ou violência (art. a imputação será feita em primeiro lugar nas mais onerosas (art. Conceito Embora o credor não possa ser obrigado a receber em pagamento coisa diferente da prestação devida. havendo dívidas líquidas e vencidas e outras que não sejam. no silêncio das partes. Quando o credor consente em receber coisa diversa da que lhe é devida. A entrega da coisa trans- Direito Civil . se venceu. 356). deve ser imputado primeiramente nos juros e depois no capital (art. o pagamento. 313). assim entendidas aquelas que rendem juros maiores ou que oferecem maiores garantias reais ou fidejussórias para o credor. pois. fica ao arbítrio do credor imputar o pagamento da maneira que preferir. 355).1. com assentimento do credor e visando à extinção da obrigação.Direito das Obrigacoes . em substituição à prestação devida (art.021-381. ocorre a datio in solutum ou dação em pagamento.138 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS mação posterior contra a imputação. havendo capital e juros. assim entendida aquela que em primeiro lugar. o legislador estabeleceu um sistema de preferência considerando que.indd 138 25/4/2011 15:18:50 . Se todas as dívidas forem líquidas e vencidas. Supletivamente. Trata-se de modalidade indireta ou supletiva de pagamento em que o credor não recebe o que lhe era devido. A dação em pagamento extingue a obrigação. nada impede que credor e devedor cheguem a um acordo para que o pagamento seja feito mediante prestação diversa. Assim sendo. ou seja. satisfazendo-se todavia com uma prestação diferente. 4. a imputação será feita primeiramente naquelas. mesmo quando mais valiosa (art. Se forem igualmente onerosas as dívidas. Dação em pagamento (arts. Os elementos necessários da dação em pagamento são. ou há mais tempo. pouco importando que a coisa dada tenha valor maior ou menor do que a prestação originariamente devida. Do mesmo modo. a imputação será feita na mais antiga. 353).

passando o credor a ser o seu proprietário. ou seja. Se a coisa dada em pagamento for um título de crédito. os autores brasileiros lembram que a nossa jurisprudência tem considerado como sendo nula a dação em pagamento de todos os bens do devedor. pois atendem aos interesses do credor. a novação. 359). Havendo evicção. 357). haverá cessão deste ao credor (art. ficando sem efeito a quitação dada. Existem outras causas de extinção das obrigações denominadas satisfatórias. 358). Também se extinguem certas obrigações com a morte do devedor ou do credor (obrigação alimentar. prestação de serviços personalíssima) ou em virtude de realização de condição resolutória ou do advento do termo extintivo (prazo de trinta dias. pois desobrigam o devedor sem recebimento da prestação pelo credor. como a compensação e a confusão. as relações entre as partes regular-se-ão pelas normas do contrato de compra e venda” (art. ressalvados os direitos de terceiros (art. pelo pagamento com sub-rogação e pela dação em pagamento. esclarece a lei que. Por esse motivo. no seu art. se for bem móvel.021-381.1. “Salvo convenção em contrário. o antigo anteprojeto do Código das Obrigações.Direito das Obrigacoes . reintegrando-se terceiro na propriedade da coisa dada em pagamento ao credor. 303. a evicção da coisa recebida em pagamento não importa restabelecer-se a obrigação primitiva”. “determinado o preço da coisa dada em pagamento. sem o consentimento dos outros descendentes.modalidades de pagamento 139 fere a sua propriedade. Noções gerais As obrigações extinguem-se pelo pagamento feito diretamente ao credor e por este aceito e ainda pela consignação em pagamento. e Direito Civil . e outras não satisfatórias. 5. Em sentido diverso. a prescrição e a impossibilidade superveniente fortuita. entendia que. determina o Código que se restabelece a obrigação primitiva. Aplicando os princípios referentes à compra e venda.indd 139 25/4/2011 15:18:50 . Sucedâneos de pagamento 5. a feita por ascendentes e descendentes. como a remissão. e realizada em período suspeito de falência ou em fraude contra credores.

para exercício da actio quanti minoris em relação ao bem entregue com vício redibitório — art. permitindo a cessão e a sub-rogação dos direitos obrigacionais.2. 361).021-381. A lei não presume a novação. condicional ou anulável. No direito romano.140 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS de um ano. se for bem imóvel. Novação. quando a transmissão do débito ou do crédito era difícil.indd 140 25/4/2011 15:18:50 . 3. 360 do CC define a novação como a substituição de dívida anterior por dívida nova. 445)3. 360 a 367) A novação é a transformação de uma obrigação em outra. Conceito (arts. e d) capacidade das partes para novar e para dispor. c) a vontade de realizar novação (animus novandi) extinguindo a obrigação anterior em virtude da criação da obrigação nova. a novatio exerceu importante função. Aqui houve extensão do prazo pelo atual Código Civil. a extinção de uma obrigação mediante a constituição de uma obrigação nova que se substitui à anterior. embora possa ser simples obrigação natural. seja pelo valor ou natureza da prestação. seja por modificação do credor ou do devedor. 178. 5.Direito das Obrigacoes . Quanto a prazos. seja do credor ou do devedor. ou melhor. do Código de 1916 estabelecia o prazo de quinze dias para os bens móveis e de seis meses para os bens imóveis.3. são elementos necessários: a) uma obrigação anterior. Elementos Para que haja novação. § 2. entendendo que. 5. a segunda obrigação confirma simplesmente a primeira (art. ver n. 3 Direito Civil . pois o art.º. mas sempre deverá ser inequívoca.3 do Capítulo 16. b) uma obrigação nova que extingue a anterior. distinguindo-se a prestação antiga da nova. contado da entrega efetiva do bem. não havendo ânimo de novar. O art. O legislador tornou claro que a intenção de novar pode ser tanto expressa como tácita. havendo modificação seja da prestação.

364 a 366).modalidades de pagamento 141 Salvo estipulação em contrário. Já vimos que pode haver novação de obrigações anuláveis e de obrigações condicionais. ficando exonerado da responsabilidade o antigo. Se a obrigação era de construir uma casa e. ou quando o credor primitivo é substituído por outro. Assim. Capítulo 10. por essa razão. 362).indd 141 25/4/2011 15:18:50 . sendo necessária uma substituição do objeto da obrigação (prestação) ou da causa debendi. novação quando a prestação se modifica na sua natureza ou no seu valor ou quando a causa jurídica do negócio se transforma.4. quando a novação se realiza independentemente do consentimento do devedor originário. desonerando os coobrigados que nela não intervieram (arts.Direito das Obrigacoes . n. por vontade das partes. Não caracteriza a novação a simples modificação das modalidades (condições. ao contrário. não constitui novação a divisão do débito em parcelas ou a garantia hipotecária concedida ao credor. por acordo entre o credor e um novo devedor. extinguindo-se a dívida do devedor para com o primeiro e mantendo-se para com o novo credor. ou da expromissão.1. termo ou encargo) ou das garantias dadas ao credor. 5. 6. ocorre novação. A novação deriva de delegação quando há consentimento de todos os interessados e extinção do débito para o substituído.021-381. ou se o devedor da quantia mutuada se torna depositário dela. transforma-se em dever de pagar determinada quantia. a novação extingue os acessó­rios e garantias da dívida primitiva. entendendo também que não são suscetíveis 4 V. A novação decorre da extinção do débito para o devedor substituído ou do crédito para o credor substituído4. que assume a obrigação do anterior (art. Direito Civil . que não deixa de ser uma espécie de novação. A novação é subjetiva quando o antigo devedor é substituído por um devedor novo. diversas legislações regulam a novação no capítulo referente à dação em pagamento. Espécies A novação é objetiva ou real quando há modificação da prestação e subjetiva quando ocorre mudança do credor ou do devedor. Ocorre.

6. não tem o credor que o aceitou ação regressiva contra o primeiro. por não se concretizar a novação. Se a nova obrigação for nula. Assim sendo. são credora e devedora uma da outra até o limite da existência do crédito recíproco (art. a novação entre um credor e o devedor extingue a obrigação. n. respondendo. Se forem vários os devedores e houver novação do credor comum com um deles. Direito Civil . ao mesmo tempo.021-381. 368). Nas obrigações solidárias passivas. anulável ou condicional e a condição para sua realização não for cumprida. a novação realizada por um dos credores não extingue a dívida para com os outros. 262). mas estes só a poderão exigir descontada a quota do credor que novou (art. Entende-se que tais títulos têm valor meramente confirmatório da primeira obrigação. valendo pro solvendo e não pro soluto (art. embora haja opiniões em contrário na doutrina nacional e estrangeira5. a novação do credor com um dos coobrigados extingue a dívida. salvo se este obteve por má-fé a substituição (art. É um instituto baseado na equidade e que se reveste de especial importância econômica em nossos dias. Capítulo 1. Conceito (arts. 272). É de ressaltar que a simples emissão de título de crédito não é considerada novação.142 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS de novação as obrigações naturais. Compensação. perdura a obrigação anterior. extingue-se a dívida.indd 142 25/4/2011 15:18:50 .Direito das Obrigacoes . o credor que fez a novação aos outros pela parte que lhes caiba (art. 361). 368 a 380) A compensação é meio de extinguir as dívidas de pessoas que. salvo convenção em contrário das partes. todavia. Se a obrigação for indivisível. A novação extingue a obrigação primitiva. 7. que não poderá ressuscitar se a obrigação nova não for cumprida. 363). se o novo devedor for insolvente. Nas obrigações solidárias ativas. especialmente no campo do 5 V.

021-381. Somente as dívidas líquidas. pois. ou parcial. Não se admite. judicial. quando os créditos são de valor diverso. ou seja. a não ser em virtude de lei específica (art. furto ou roubo. pela compensação realizada entre os estabelecimentos de crédito por intermédio das clearing houses. Mesmo as coisas fungíveis só se compensam quando forem da mesma qualidade. mas o fiador pode compensar a sua dívida com aquela que o credor tem em relação ao afiançado (art. quando depende de decisão do magistrado. O terceiro não interessado no débito pode pagar em nome e por conta do devedor. finalmente. a compensação em prejuízo de terceiros (art. 373). de 25-10- Direito Civil . em sentido contrário.modalidades de pagamento 143 direito bancário. independentemente de qualquer alegação das partes. mas não pode compensar o débito com um crédito que tenha contra o credor. havendo reciprocidade entre os créditos e débitos.Direito das Obrigacoes . 369). 5. A compensação só se efetua entre dívidas líquidas. desde que estejam vencidas. O devedor somente pode compensar com o credor o que este lhe deve. No direito romano. os quais foram depois generalizados na época de Justiniano. 371). quando a compensação passou a operar de pleno direito. extinguindo-se um e mantendo-se o outro na parte excedente ao crédito compensado. depósito ou alimentos ou se uma dívida for de coisa insuscetível de penhora (art. certas quanto à sua existência e ao seu montante. vencidas e de coisas fungíveis (art. 170 da Lei n. é que são suscetíveis de compensação. a compensação era admitida como exceção que o devedor podia alegar contra o credor em alguns casos específicos. Também não se admite a compensação nas dívidas fiscais. quando decorre de declaração de vontade das partes interessadas. Não se admite.172. com a extinção de ambas as dívidas. 380). comodato. a compensação quando um dos créditos é condicional ou dependente de termo ou encargo. Não impede a compensação a diferença de causa nas dívidas. ou convencional. salvo se um dos créditos decorrer de esbulho. A compensação pode ser automática ou de pleno direito.indd 143 25/4/2011 15:18:50 . podendo ainda ser total.

A era devedor de B. aplicamse os princípios referentes à imputação em pagamento (art. mediante o aproveitamento de tributo.indd 144 25/4/2011 15:18:50 . admitindo a lei processual que seja apresentada mesmo em execução. Ocorre que tal artigo foi revogado pela Lei n. A compensação pode ser alegada tanto na contestação quanto na reconvenção. Quando as duas dívidas não são pagáveis no mesmo lugar.144 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 1966 — CTN). As partes podem renunciar à compensação ou excluí-la por mútuo acordo (art. A compensação judicial é aquela realizada pelo juiz em virtude da liquidação judicial de um crédito anteriormente ilíquido. 378).021-381. objeto de contestação judicial pelo sujeito passivo. Confusão (arts. em virtude da morte deste. 7. 379). se torna herdeiro universal de todos os bens de B e até mesmo do crédito que B tinha contra A. por exemplo. 375). É vedada ainda a compensação. Ocorre. 374. pois A se torna credor de si mesmo. de 11-1-2001.677/2003. 381). antes do trânsito em julgado da respectiva decisão judicial. sem que existam os requisitos estabelecidos pela lei para a compensação de pleno direito. em seu art. então. 10. não se podem compensar sem dedução das despesas necessárias à operação (art. extinguindo-se assim a obrigação. mas. a confusão. O Código Civil. nos termos do art. determinava que a compensação relacionada com dívidas fiscais ou parafiscais era regida pela disciplina nele aposta. Surge em virtude de herança ou de legado quando o herdeiro ou legatário era. 381 a 384) A confusão é a extinção da obrigação decorrente da identificação numa mesma pessoa das qualidades de credor e devedor (art. É também denominada compensação facultativa. 170-A dessa lei. Direito Civil . credor do de cujus. com a redação dada pela Lei Complementar n. A compensação é voluntária quando as partes a realizam em virtude de convenção.Direito das Obrigacoes . Havendo compensação e sendo um dos devedores responsável pelo pagamento de diversos débitos sem que haja indicação da vontade das partes em relação ao crédito compensado. 104.

384). a confusão será parcial.021-381. a confusão operada na pessoa do credor ou do devedor solidário só extingue a obrigação até a concorrência da respectiva quota no crédito ou no débito. a título individual. o devedor poderia consignar judicialmente o pagamento. A confusão pode ser parcial ou total (art. Alguns autores brasileiros entendem que há necessidade de convenção entre as partes para que possa haver a remissão. 385 a 388) Remissão das dívidas é a renúncia do credor ao crédito que existe em seu favor. dois herdeiros B e C. 6 Direito Civil . a solidariedade (art. a confusão só pode ser alegada entre credor e devedor. para se tornar irrevogável. se A é devedor. caso contrário. pois a pessoa física de A não se pode identificar com a pessoa jurídica da sociedade B. 382). no caso. Remissão de dívida6 (arts. em virtude da morte deste. há confusão total. Se B é herdeiro universal do seu credor A.Direito das Obrigacoes . subsistindo. devendo a ação ser julgada procedente.modalidades de pagamento 145 Assim como a compensação.indd 145 25/4/2011 15:18:50 . necessitando. o acordo de vontades do credor e do devedor. É total quando importa na extinção da obrigação. Não confundir com remição (com ç). Se houver. remissão corresponde a remitir = perdoar. pois B terá de pagar a metade do seu débito ao herdeiro C. Assim. 383). tal fato não importa em confusão. 8. de determinada soma à sociedade B e se torna diretor dessa sociedade. sendo apenas um de seus órgãos. que vem de remir = resgatar. mas pode ser revogada até o momento em que o devedor aceita a remissão. A confusão extingue a obrigação principal e as obrigações acessórias. A simples declaração do credor importa em extinção da dívida. mas a confusão na obrigação acessória (confusão do fiador e do credor) não importa em extinção da obrigação principal (art. É parcial quando tão somente uma parte do crédito se extingue pela confusão. No caso de solidariedade. quanto ao excedente. pois.

ocorre não propriamente a remissão. esclarece que: “Art. Por outro lado. 385. todavia. A remissão. É tácita quando o credor devolve ao devedor o título comprobatório do débito. Em sentido restrito. para dirimir a dúvida e seguindo orientação jurisprudencial. o legislador demonstrou preocupação com a proteção de terceiros credores do devedor que pretende remir a dívida. podendo ser um ato inter vivos ou mortis causa. só podendo o credor cobrar dos coobrigados solidários o débito remanescente. todavia. Se a obrigação for indivisível e um dos credores fizer a remissão da dívida. mas uma verdadeira transação.Direito das Obrigacoes . de acordo com a nova disciplina. é o negócio jurídico bilateral pelo qual os Direito Civil . para que se perfaça a remissão deve esta ser proposta pelo credor e aceita pelo devedor. pois. significa qualquer espécie de negócio. Se a dívida for solidária. possível a renúncia à garantia sem remissão do crédito. que. 387). fazendo presumir juris tantum a renúncia ao crédito. 840 a 850) A palavra “transação” é utilizada em sentidos diversos. 262). extingue a obrigação. quando se torna onerosa para o devedor. mas sem prejuízo de terceiro”. Assim. mas não a extinção da dívida (art. Assim esclarece a lei que a restituição voluntária do objeto empenhado prova a renúncia do credor à garantia real. a obrigação não se extingue para os outros. aos acessórios e às garantias do crédito. aceita pelo devedor. só poderão exigi-la descontada a parte correspondente ao credor que perdoou a dívida (art. Na acepção mais ampla e menos técnica.021-381. descontando a quota que for objeto da remissão (art. É.146 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS O Código Civil. 388). implica a renúncia ao principal. extinguindo a dívida. Geralmente a remissão é gratuita.indd 146 25/4/2011 15:18:50 . A remissão pode ser expressa ou tácita. Transação (arts. A remissão pode ser feita em testamento. apresentando então a forma de legado. a remissão feita a um dos devedores extingue a dívida na parte a ele correspondente. A remissão da dívida. 9. que concede ao credor uma outra vantagem para que desista do crédito. porquanto previu que tal ato não pode prejudicar os direitos daqueles.

1. evitam ou terminam um litígio (art. poderá ser feita por termo nos autos.indd 147 25/4/2011 15:18:50 . atualmente.774 e 1. as partes extinguem obrigações. há sempre uma dúvida ou um litígio que as partes pretendem eliminar a fim de obter maior segurança nas suas relações jurídicas. Discutia-se a natureza contratual da transação. A transação exige a capacidade geral necessária à prática dos negócios jurídicos. O pródigo não pode transigir (art. O Código Civil não permite mais que a transação seja realizada por instrumento particular. c/c os arts. conforme vise a terminar um processo ou evitar o seu início.021-381. sob o título “Dos Efeitos das Obrigações”.modalidades de pagamento 147 interessados. vindo após o contrato de fiança. ou por instrumento particular (art. por concessões mútuas.748. havendo ainda restrições especiais em virtude das quais se limita o poder do representante e do assistente para transigir. quando o seu objeto estiver sendo discutido em juízo. não as substituindo normalmente por outras. Cabe dizer que o Código Civil de 1916 regulava a transação na parte geral das obrigações. nas obrigações nas quais a lei exige. seja perdoando uma dívida. seja lhe trazendo uma doação. No primeiro caso. o acordo pode ser feito por escritura pública. aplicando-se-lhe todas as normas que incidem na relação contratual. Quando se transige. Mas. Pela transação. 1. o marido e a mulher também não podem transigir. alegando-se que ela não cria necessariamente obrigações. III. A transação também se distingue do ato de liberalidade em que uma das partes quer beneficiar a outra.781).Direito das Obrigacoes . um sem a autorização do outro. tendo a jurisprudência aplicado princípio idêntico aos pais em relação aos interesses dos seus filhos menores. assinado pelos transigentes e devidamente homologado pelo juiz ou por escritura pública. 842). limitando-se em alguns casos a extingui-las. Não estando a questão em juízo. inclusive as referentes à rescisão. como ocorre na novação. 1. o Código Civil a enquadra como contrato. Assim. os tutores e curadores necessitam de autorização judicial para transigir em nome dos tutelados e curatelados (art. mas o Código Civil de 2002 incluiu a transação entre os contratos.782). Pode ser judicial ou extrajudicial. 840). quando a tran- Direito Civil .

9. do CC e 38 do CPC) e os representantes do Ministério Público7. introduziu nova forma de transação (arts. embora possa haver transação no tocante ao quantum dos alimentos e ao modo de pagamento destes.099.Direito das Obrigacoes . 842 do CC. No entanto. cabe observar que a Lei n.148 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS sação importa na alienação ou oneração de imóveis. 1959. M. os mandatários sem poderes especiais (arts. Doutrina e prática das obrigações. os alimentos baseados na relação de parentesco). I.. 11. V. 72 a 89). salientando-se que a transação referente à liquidação das perdas e danos decorrentes de débito não é causa de extinção da ação penal. Não pode haver transação para que alguém reconheça um filho.101. a transação se limita às relações de caráter puramente patrimonial. nas obrigações em que a lei o exige. a transação far-se-á por escritura pública. 22. permitindo discutir a composição do dano em processo penal. de 26-9-1995. somente não podendo ser discutido num deles os fatos que foram provados no outro (art. 646. 841 do CC). todavia.º. § 3. Nos termos do art.indd 148 25/4/2011 15:18:50 . 846. Carvalho de Mendonça. se recair sobre direitos contestados em juízo.021-381. ed. a existência de transação sobre elementos patrimoniais decorrentes de uma situação de direito de família. o administrador judicial da massa falida sem autorização do juiz e após ouvidos o Comitê e o devedor (art. da nova Lei de Falências — Lei n. c/c o art. 4.º. será feita por escritura pública ou por termo nos autos. 661. pois existe independência entre o processo civil e o penal. ou por instrumento particular. A própria lei esclarece a esse respeito que “só quanto a direitos patrimoniais de caráter privado se permite a transação” (art. de 9-2-2005). não podendo abranger por exemplo o estado da pessoa e o direito de família. Os direitos irrenunciáveis não podem estar sujeitos à transação quanto à sua existência (por exemplo. Em tese. assinado pelos transigentes e homologado pelo juiz. a transação para partilhar os bens no desquite. assim. Forense. Admite-se. 935 do CC). Nada impede. § 1. 7 Direito Civil . ou adote uma criança. como também o sócio que não tiver a administração da socie­dade. p. nas em que ela o admite.

não cumprindo o acordo feito. termina esta. É. Na hipótese há necessidade de ser intentada nova ação. reconhecendo ou declarando as partes direitos que pretendiam ter anteriormente (art. III. O atual Código Civil não alude mais à força de coisa julgada. grande utilidade para que as concessões feitas por um dos transigentes não levem o outro contratante a se aproveitar da situação. permitindo a anulação por vício da vontade. do CPC). 269. caso em que continua em relação aos problemas ainda não resolvidos. usando o verbo “anular” e aditando um parágrafo para excluir o erro de direito como base de anulação. 584. a menos que a transação não tenha abrangido todas as questões suscitadas. todavia. 849. do CPC).Direito das Obrigacoes . que é processo de execução da sentença homologatória (art. nas quais os interessados fixam de antemão as perdas e danos exigíveis no caso de mora ou de inadimplemento.modalidades de pagamento 149 Homologada a transação ou lavrada a respectiva escritura pública e junta aos autos. algumas vezes. Eis o texto: “Art. não podendo ser renovada a instância no mesmo processo no caso de não cumprimento das cláusulas da transação por uma das partes. extingue-se o processo (art. A transação só se anula por dolo. A transação se interpreta restritivamente. ou erro essencial quanto à pessoa ou coisa controversa. aconselhável que as partes explicitem no contrato que o inadimplemento importará de pleno direito em reconstituição da relação jurídica anterior à transação. O inadimplemento das obrigações constantes da transação importa em renascimento das obrigações anteriores. coação. Parágrafo único. A transação não se anula por erro de direito a respeito das questões que foram objeto de controvérsia entre as partes”. Com a transação referente à ação judicial. O Código Civil de 1916 dava à transação o efeito de coisa julgada. 843).021-381. Direito Civil . mas utilizando o verbo “rescindir”. Nada impede também a introdução na transação de cláusulas penais. Tal cláusula apresenta. Da sentença que homologa a transação cabe recurso de apelação. III.indd 149 25/4/2011 15:18:50 . permitindo a cobrança executiva de multa a fim de evitar a demora de uma liquidação judicial.

845). concluindo-se: “a transação celebrada entre o credor e um dos devedores solidários. REsp 140. RSTJ. § 1. verificar-se que nenhum deles tinha direito sobre o objeto da transação (art. A transação concluída entre o credor e o devedor desobriga o fiador. por título ulteriormente descoberto. Direito Civil . 10.º). Esse princípio é um corolário do artigo que admite a anulação da transação em caso de erro essencial quanto à pessoa ou coisa controversa. Min. podendo então não prevalecer em relação a algum deles e ser válida quanto aos outros (art. a dívida se extingue para os codevedores solidários (art. 844. Barros Monteiro. se dela não tinha ciência algum dos transatores. 128/355.ª T. mas o evicto pode reclamar. perdas e danos em virtude do prejuízo causado (art. com quitação parcial. quitando explicitamente apenas metade do débito.021-381. 4. 850).indd 150 25/4/2011 15:18:50 . em virtude de pertencer a terceiro. Se a coisa renunciada por um dos transigentes ou por ele atribuída ao outro sofrer evicção. 844.º). salvo se a transação versar sobre direitos diversos e independentes entre si. podendo ser de duas espécies: cláusula compromissória ou compromisso arbitral. § 3. ou quando. Rel. 848). como aliás ocorre em matéria de novação (art. 8 STJ. O Superior Tribunal de Justiça decidiu caso no qual houve pagamento por um dos devedores solidários.Direito das Obrigacoes . do outro transigente.150 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS A nulidade de qualquer das cláusulas da transação importa em nulidade de todo o acordo feito. não ressuscita a obrigação extinta pela transação.. permite ao credor cobrar o restante do seu crédito dos demais devedores solidários”8. e não a sua totalidade. É nula a transação a respeito de litígio decidido por sentença passada em julgado.150/SC. Se houver transação entre um dos devedores solidários e o credor. Da convenção de arbitragem: cláusula compromissória e compromisso arbitral Convenção de arbitragem é o pacto mediante o qual as partes submetem a solução de seus litígios ao juízo arbitral.

º de seu art. Nesse caso. a London Court of Arbitration etc. com a assinatura ou visto especialmente para essa cláusula”. a forma convencionada para a sua instituição (art.º). às regras de algum órgão arbitral institucional ou entidade especializada9. na cláusula compro­mis­ sória. Só podem firmá-la as pessoas que tenham capacidade geral e especial para transigir. a Lei de Arbitragem previu. reportar-se. que a cláusula compromissória. 9.021-381. as partes estabelecer.modalidades de pagamento 151 Cláusula compromissória — É a convenção pela qual as partes se obrigam a submeter à decisão de um juízo arbitral todas as divergências que entre elas possam surgir em relação a determinado negócio. no § 2. 9. a arbitragem será instituída e processada de acordo com tais regras. Objetivando proteger o aderente. havia dúvi- Por exemplo. 4. igualmente.indd 151 25/4/2011 15:18:50 .307/96). Na realidade. expressamente. 9 Direito Civil . ainda. pois o compromisso não deixa de ser uma renúncia à justiça comum para aceitar a decisão de árbitros.Direito das Obrigacoes . ela é um compromisso condicional em que as partes podem ou não indicar. os árbitros que vão funcionar no caso e o modo pelo qual poderão dirimir o litígio. Entendia a jurisprudência que a simples cláusula compromissória não impedia o recurso à justiça comum. podendo estar inserta no próprio contrato ou em documento apartado que a ela se refira” (Lei n. As partes poderão. Mesmo assim. desde logo. a American Arbitration Association (AAA). cláusula nesse sentido. podendo. desde que por escrito em documento anexo ou em negrito. no acordo das partes. A cláusula compromissória é promessa de sujeição ao juízo arbitral. de 23-9-1996 — Lei de Arbitragem — art.º da Lei n. § 1.º. nos contratos de adesão.307. “só terá eficácia se o aderente tomar a iniciativa de instituir a arbitragem ou concordar. salvo se existisse. a Câmara de Comércio Internacional de Paris (CCI). o Tribunal Arbitral da Câmara de Comércio Brasil-Canadá. “A cláusula compromissória deve ser estipulada por escrito. na própria cláusula.º. a Câmara de Mediação e Arbitragem de São Paulo. com a sua instituição. 4. 5. ou em outro documento.

Código de Processo Civil comentado. juntamente com o compromisso arbitral. A constitucionalidade da nova Lei de Arbitragem.307/96 não institui arbitragem compulsória.021-381. dentre outros). em princípio. 3. valendo a sentença que julgar procedente o pedido como compromisso arbitral. 10 Direito Civil . XXXV. contida na cláusula compromissória. 9. impedindo. A arbitragem e o art. que consta na parte final do presente volume. através do procedimento previsto no art. Revista de Informação Legislativa. Revista de Direito Renovar. da Constituição Federal. Ajuris 69/369.º da Lei n.152 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS da quanto à legalidade de tal cláusula.º. 3. entendendo parte da doutrina que. 4/65. São Paulo: Revista dos Tribunais. 9. do CPC. 9. não obstante a cláusula excludente de sua competência no caso concreto. da Constituição de 1988. 9. que permite. 33 e parágrafos). 267. Assim. c/c o art. o recurso à justiça comum10. 5. tanto em ação própria como nos embargos do devedor (art. mas o juiz poderia conhecer do conflito. poderá ser exigida e cumprida judicialmente. Além disso. como defendem alguns autores (Antônio Souza Prudente. Nelson Nery Junior e Rosa Maria Andrade Nery. Inconstitucionalidade da justiça privada na nova Lei de Arbitragem. no caso das chamadas cláusulas compromissórias vazias. A intervenção do Estado na arbitragem. XXXV. 6/1. 1295. 5. a obrigação de celebrar o compromisso arbitral. A partir da promulgação da Lei n. 17/44. ed.º da Lei n. 7. Oswaldo Othon de Pontes Saraiva Filho. tal como têm entendido os seguintes doutrinadores: Luiz Felipe Azevedo Gomes. Revista Dialética de Direito Tributário. a cláusula compromissória.307/96. 7. 132/49.indd 152 25/4/2011 15:18:50 .206-Espanha (AgRg)]. se as partes estabeleceram uma multa no caso de recurso ao Poder Judiciário.º. A arbitragem no sistema jurídico brasileiro.307/96). a Lei de Arbitragem possibilita a decretação da nulidade da sentença arbitral pelo Poder Judiciário nos casos nela previstos. que não contêm previsão do modo de so- O fato de a convenção de arbitragem impedir o recurso à justiça comum não implica violação ao art. tal multa poderia ser cobrada.307/96.Direito das Obrigacoes . decorrente de projeto do então Deputado Marco Maciel. Além disso. 9. entre outros. Revista de Direito Renovar. Na realidade. 1997. Pedro Antonio Batista Martins. e a Procuradoria-Geral da República em parecer [SE n. p. ou em branco.. VII. a Lei n. facultando às partes a escolha entre o juízo arbitral e a justiça comum. parece-nos que a Lei n. Sálvio de Figueiredo Teixeira. Foi suscitada a inconstitucionalidade do art.307/96 é constitucional. 5.º da Lei de Arbitragem. passou a ser causa de extinção do processo judicial sem julgamento do mérito (art.

p. pelo qual as partes nomeiam árbitros para resolver as divergências. São Paulo. 8. conforme voto do Ministro Nelson Jobim. pela qual as partes se obrigam a submeter-se à decisão de um juízo arbitral. 411 e s. 11.). a nulidade da cláusula compromissória. que. de tal sorte que a nulidade deste não implica. sendo a introdução da matéria no direito civil devida a Coelho Rodrigues e a Clóvis Beviláqua.indd 153 25/4/2011 15:18:50 .021-381. enquanto outras tratam do compromisso arbitral no quadro do direito material. não poderia ser suprida pelo juiz por se tratar de cláusulas essenciais do negócio jurídico. decidiu pela sua constitucionalidade11. Também está publicado o voto da Min. o compromisso foi por longo tempo questão processual.º da Lei n. 391-394. Compromisso arbitral — Devemos distinguir a cláusula compromissória. as questões acerca da existência. os questionamentos acerca da constitu­ cionalidade da Lei de Arbitragem foram resolvidos pelo Supremo Tribunal Federal. entendendo algumas legislações e parte da doutrina que constitui matéria processual. a intervenção judicial para determinar qual o regime que deveria ser aplicável. de Mercado de Capitais e da Arbitragem.modalidades de pagamento 153 lução do conflito pela via arbitral. O voto do Min. acompanhado pela maioria dos integrantes do Excelso Pretório. no entender de alguns magistrados. que. 361-74. tendo todavia o juízo arbitral sido regulado pelo Código Comercial (arts. 11 Direito Civil .307/96). O fundamento para discutir a validade do mencionado artigo é a falta de manifestação clara da vontade das partes quanto ao modo de realização da arbitragem. ou por provocação das partes. de Mercado de Capitais e da Arbitragem. 13. São Paulo. Ellen Gracie. necessariamente. p. n. No Brasil. validade e eficácia da convenção de arbitragem e do contrato que contenha a cláusula compromissória (art. podendo até mesmo o juiz nomear o árbitro ou o presidente do tribunal. n.Direito das Obrigacoes . Revista de Direito Bancário. Recentemente. cabendo ao árbitro decidir de ofício. 9. no entanto. A cláusula compromissória é autônoma em relação ao contrato em que estiver inserta. Nelson Jobim está publicado na Revista de Direito Bancário. Discute-se qual o ramo do direito que deve regular o compromisso. do compromisso arbitral.

154 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Até a edição da Lei n.072 a 1. tanto o compromisso arbitral como o juízo arbitral são disciplinados pela Lei n. só são contratos os atos jurídicos bilaterais que criam. e. Do mesmo modo que a transação. na transação ou no compromisso. 852. pois visa a dirimir controvérsias mediante a instituição de juízo arbitral. O Código Civil introduz o Capítulo XX. na forma prevista na lei especial. O valor prático da arbitragem tem sido apreciado de modo diferente.021-381. e o juízo arbitral. a decisão das partes ou dos árbitros alcance direitos não obrigacionais. ao estabelecer que: “É vedado compromisso para solução de questões de estado. modificam ou extinguem obrigações. Embora o Código Civil brasileiro e a doutrina dominante entendam que o compromisso e a transação são meios de extinguir obrigações e. é admitido o compromisso judicial ou extrajudicial para resolver litígios entre pessoas que podem contratar e a cláusula compromissória. opinamos no sentido de excluir tais atos jurídicos bilaterais da categoria dos contratos. não sendo necessariamente os direitos em litígio de natureza obrigacional. na maioria dos casos.Direito das Obrigacoes . em seguida. exigindo a capacidade das partes e o acordo de vontades. 851 a 853). No direito romano. assim ocorre. Como é possível que.indd 154 25/4/2011 15:18:51 . o compromisso é um meio de extinguir obrigações. Nesses artigos.048). Para outros.037 a 1. o compromisso era regulado pelo Código Civil (arts. 1. 1. pelo Código de Processo Civil (arts. Para alguns. entretanto. Os autores modernos preferem não enquadrar o compromisso na categoria dos contratos.307/96. com o próprio contrato. Hoje.307/96. traz um limite para a utilização desse instrumento em seu art. na parte que trata das espécies de contrato. com a rubrica “Do compromisso” (arts. 9. O Código. de direito pessoal de família e de outras que não tenham caráter estritamente patrimonial”. é um instituto Direito Civil .102). 9. entendemos que são institutos que podem extinguir obrigações e determinados direitos não obrigacionais. corresponde o juízo arbitral a uma fase já superada da solução facultativa dos conflitos de interesses entre os indivíduos por árbitros escolhidos pelas partes. Como já vimos. a forma estabelecida pela lei e um objeto lícito. confundiu-se o compromisso com o pacto. inicialmente.

Direito Civil . uma respeitada Corte de Arbitragem. ratificada pelo Brasil e promulgada pelo Decreto n. submeter qualquer conflito ao arbitramento dessas câmaras. 9. Existem assim juízos arbitrais internacionais. tal como ocorre em outros países. cujo texto foi 12 Decreto n. foi originária de um anteprojeto apresentado à ONU pela Câmara de Comércio Internacional de Paris (CCI). e em particular nos conflitos decorrentes de contratos internacionais.indd 155 25/4/2011 15:18:51 . o “Protocolo relativo às cláusulas de arbitragem”. que. a “Convenção para a execução de sentenças arbitrais estrangeiras”. a utilização da arbitragem seja disseminada.modalidades de pagamento 155 fecundo em virtude do qual as partes podem resolver rapidamente os litígios. especialmente nos litígios comerciais.311/2002. revogando os Tratados anteriores de Genebra. de 9-5-1996. Devemos salientar que no direito brasileiro não tem funcionado com muita frequência. e em diversas câmaras de comércio há árbitros designados para julgar conflitos. podendo as partes. sem a demora e a onerosidade da justiça. Vale ainda mencionar a “Convenção Interamericana sobre arbitragem comercial internacional” (Panamá. em 1923.287/32. Em 1958 foi aprovada a “Convenção de Nova York para o reconhecimento e execução de sentenças arbitrais estrangeiras”. 1979). A Convenção de Nova York. e. 1. com a edição da Lei n.021-381. como o Protocolo e a Convenção de Genebra e outros tratados internacionais mais recentes. ratificado pelo Brasil e promulgado pelo Decreto n. tendo o Brasil inclusive a aderido recentemente12. em 1927. nos seus contratos. e a “Convenção interamericana sobre eficácia extraterritorial das sentenças e laudos arbitrais estrangeiros” (Montevidéu. A matéria é também regulada por convenções internacionais. entidade ativa que mantém. 4. em Genebra. 1975).902. Espera-se.Direito das Obrigacoes . em que a instituição de juízo arbitral é frequente. todavia. que introduziu importantes inovações na legislação brasileira. inclusive.307/96. 21. Foram firmados. que tem grande aceitação internacional. solucionando grande parte dos problemas que desestimulavam a adoção da arbitragem como meio extrajudicial de solução de conflitos.

52/172 e 68/411. a indicação da lei nacional ou das regras corporativas aplicáveis à arbitragem. e tendo expirado o prazo a que se refere o art. expressamente. Fixando as partes os honorários do árbitro. assinado pelas partes e por duas testemunhas. o compromisso arbitral pode ser judicial ou extrajudicial. instituindo-se o primeiro por termo nos autos. se for o caso. 1955. ainda. a respeito.Direito das Obrigacoes . 1966. e ainda Luiz Gastão Paes de Barros Leães. onde se desenvolverá a arbitragem. 54/714. 60/28. que os fixe por sentença (Lei n. antes de aceitar a nomeação. 13 14 Direito Civil . obrigatoriamente.411. ou dos árbitros. ou locais.156 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS aprovado pelo Decreto Legislativo n. não aceitar substituto. 9. falecendo ou ficando impossibilitado de dar seu voto algum dos árbitros. jurisprudência sobre arbitragem em RTJ. a declaração da responsabilidade pelo pagamento dos honorários e das despesas com a arbitragem. desde que a parte V.. expressamente.indd 156 25/4/2011 15:18:51 . e o segundo por escritura pública ou instrumento particular. e Frédéric Edouard Klein. profissão e domicílio do árbitro. de 1995. não aceitar substituto. 11. Bale. a identificação da entidade à qual as partes delegaram a indicação de árbitros. desde que as partes declarem. e promulgado pelo Decreto n. ou dos árbitros. o compromisso arbitral conter local. no compromisso arbitral. este constituirá título executivo extrajudicial. originariamente. a causa. 68/382. a autorização para que o árbitro ou os árbitros julguem por equidade. o prazo para apresentação da sentença arbitral. ou dos árbitros. 10 e 11). não havendo tal estipulação. e o lugar em que será proferida a sentença arbitral. Ensaio sobre arbitragens comerciais. arts. São Paulo. o árbitro requererá ao órgão do Poder Judiciário que seria competente para julgar. RTJ. a matéria que será objeto da arbitragem. III. profissão.021-381. se assim for convencionado pelas partes. Assim como a transação. Extingue-se o compromisso arbitral escusando-se qualquer dos árbitros.307/96. Considérations sur l’arbitrage en droit international privé. Constarão. por onde corre a demanda. da lei. de 2-12-199713 e 14. ou. desde que as partes tenham declarado. V. o nome. perante o juízo ou tribunal. 93. podendo. 2. quando assim convencionarem as partes. e a fixação dos honorários do árbitro. estado civil e domicílio das partes. do compromisso arbitral o nome.

as regras de direito que serão aplicadas. A arbitragem considera-se instituída a partir do momento em que é aceita a nomeação pelo árbitro. 18 da Lei n. 9. em que se estabelece o modo de funcionamento do procedimento arbitral. da arbitragem ou juízo arbitral.021-381. decorrência da convenção. art. com exceção daquelas que tenham. livremente. Arbitragem ou juízo arbitral — Arbitragem ou juízo arbitral é um meio extrajudicial de solução de conflitos. um pressuposto e uma condição da existência da arbitragem. ou por todos. Segundo o art. concedendo-lhe o prazo de dez dias para a prolação e apresentação da sentença arbitral (Lei n. 9.307/96. embora possa haver uma convenção sem que o juízo arbitral chegue a funcionar. com base em convenção de arbitragem pactuada entre as partes. desde que não haja violação aos bons costumes e à ordem pública. o que constitui uma das mais importantes inovações introduzidas pela lei.307/96. nos usos e costumes e nas regras internacionais de comércio. Qualquer pessoa capaz e que tenha a confiança das partes poderá ser árbitro. 12). pelo qual árbitros resolvem divergências relativas a direitos patrimoniais disponíveis. pela qual as partes podem nomear árbitros por instrumento escrito a fim de resolver as suas pendências judiciais ou extrajudiciais.Direito das Obrigacoes . previstos nos arts.modalidades de pagamento 157 interessada tenha notificado o árbitro. podendo as partes escolher. algumas das relações que caracterizam os casos de impedimento ou suspeição de juízes. a arbitragem poderá ser de direito ou de equidade.º da Lei n. o árbitro é juiz de fato e de direito. ou o presidente do tribunal arbitral. Se preferirem. por não surgir o litígio que as partes nela pretendiam dirimir. pois. as partes poderão convencionar que a arbitragem se realize com base nos princípios gerais de direito. que é matéria de direito substantivo. e a sentença que proferir não fica sujeita a recurso ou a homologação pelo Poder Judiciário. Direito Civil . 134 e 135 do CPC.indd 157 25/4/2011 15:18:51 .307/96. se forem vários. 2. Atualmente distinguimos a convenção de arbitragem (cláusula compromissória ou compromisso arbitral). Segundo o art. 9. com as partes ou com o litígio que lhes for submetido. que é considerada matéria processual. A convenção de arbitragem é. se for único.

Poderá o árbitro ou o tribunal arbitral tomar o depoimento das partes. bem como a nulidade. prevalecendo o voto do presidente do tribunal arbitral se Direito Civil . o árbitro será substituído nos termos do art. da igualdade das partes. invalidade ou ineficácia da convenção de arbitragem. da Lei n. respeitada. que poderá reportar-se às regras de um órgão arbitral institucional ou entidade especializada. ouvir testemunhas e determinar a realização de perícias ou outras provas que julgar necessárias. respeitados os princípios do contraditório. se for reconhecida a incompetência do árbitro ou do tribunal arbitral. ainda. tentar a conciliação das partes (art. Não havendo estipulação acerca do procedimento.Direito das Obrigacoes . sempre. 9. 22. às partes delegar ao próprio árbitro. as partes serão remetidas à Justiça comum.158 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS A arguição de questões relativas a competência. bem como a nulidade. 21 e parágrafos da Lei n. sendo. caput. Se a arguição de suspeição ou impedimento for acolhida. não sendo acolhida nenhuma das arguições. caberá ao árbitro ou ao tribunal arbitral discipliná-lo.307/96). a arbitragem terá prosseguimento normal. em qualquer caso. da imparcialidade do árbitro e de seu livre convencimento.021-381. facultando-se. suspeição ou impedimento dos árbitros. Caso contrário. A arbitragem obedecerá ao procedimento estabelecido pelas partes na convenção de arbitragem. no início do procedimento. deverá ser feita na primeira oportunidade que a parte tiver de se manifestar. As partes poderão postular por intermédio de advogado. Quando forem vários os árbitros.307/96). a faculdade de designar quem as represente ou assista no procedimento arbitral. de comum acordo. A decisão do árbitro ou dos árbitros será expressa em documento escrito. Por sua vez. regular o procedimento. invalidade ou ineficácia da convenção de arbitragem. ou ao tribunal arbitral. mediante requerimento das partes ou de ofício (art. O prazo poderá ser prorrogado pelas partes e pelos árbitros. se nada tiver sido convencionado. ainda. após a instituição do juízo arbitral. A sentença arbitral deverá ser proferida no prazo estipulado pelas partes. competindo ao árbitro ou ao tribunal arbitral.indd 158 25/4/2011 15:18:51 . a decisão será tomada por maioria. 9. ou em seis meses. 16 da Lei de Arbitragem.

26 da lei (relatório. p. 10. 24 e parágrafos da Lei n. Edoardo F. observando-se as disposições da convenção de arbitragem. que conterá os nomes das partes e um resumo do litígio. querendo. as partes chegarem a um acordo quanto ao litígio. ou não. dependerá o julgamento. o dispositivo. Sobrevindo no curso da arbitragem controvérsia acerca de direitos indisponíveis e verificando-se que de sua existência. 15 Direito Civil . 9. terá normal seguimento a arbitragem (art. Resolvida a questão prejudicial e juntada aos autos a sentença ou acórdão transitado em julgado.307/96). certificar tal fato (art. O árbitro que divergir da maioria poderá. 9. declarar tal fato mediante sentença arbitral. 28 da Lei n. 25 da Lei n. 9. declarar seu voto em separado (art. os fundamentos da decisão. na hipótese de um ou alguns não poder ou não querer assinar a sentença. 26 da Lei n. 9.Direito das Obrigacoes . e a data e o lugar em que foi proferida.307/96. data e lugar em que foi proferida e assinatura dos árbitros) (art. se for o caso. São requisitos obrigatórios da sentença arbitral o relatório. 9. se for o caso. expressamente. do Mercado de Capitais e da Arbitragem.modalidades de pagamento 159 não houver acordo majoritário. será decidida pela sentença arbitral. Ricci em Revista de Direito Bancário.021-381. cabendo ao presidente do tribunal arbitral.307/96). fundamentos da decisão. em que os árbitros resolverão as questões que lhes forem submetidas e estabelecerão o prazo para o cumprimento da decisão. mencionando-se. no decurso da arbitragem. suspendendo o procedimento arbitral. que conterá os requisitos do art.307/96). A sentença arbitral será assinada pelo árbitro ou por todos os árbitros. dispositivo.307/96)15. o árbitro ou o tribunal arbitral poderá. Sobre a interpretação do art. em que serão analisadas as questões de fato e de direito. se os árbitros julgaram por equidade.indd 159 25/4/2011 15:18:51 . 25 da Lei n. a pedido das partes. n. se houver. ver estudo do Prof. Se. A responsabilidade pelas custas e despesas com a arbitragem e pela verba decorrente de litigância de má-fé. o árbitro ou o tribunal arbitral remeterá as partes à autoridade competente do Poder Judiciário. 366.

entre as partes e seus sucessores. A sentença arbitral produz. III. Direito Civil . concussão ou corrupção passiva. da igualdade das partes. sendo condenatória. do CPC. o esclarecimento de alguma obscuridade. fora do prazo ou em desrespeito aos princípios do contraditório. dá-se por finda a arbitragem. contado a partir de sua notificação ou de seu aditamento. a sentença judicial que julgar procedente o pedido decretará a nulidade da sentença arbitral. concussão ou corrupção passiva. 9. VII e VIII do art.021-381. a contar do recebimento da notificação ou da ciência pessoal da sentença arbitral. for proferida por prevaricação. 32 da Lei de Arbitragem (nulidade do compromisso arbitral. e. 584. 12. não contiver o relatório. mediante comunicação à outra parte. os fundamentos da decisão.Direito das Obrigacoes . constitui título executivo (art. extrapolar os limites da convenção de arbitragem. da imparcialidade do árbitro e de seu livre convencimento). enviar cópia da decisão às partes. no prazo de dez dias.307/96). da imparcialidade do árbitro e de seu livre convencimento. No prazo de cinco dias.160 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Proferida a sentença arbitral. ou o pronunciamento sobre ponto omitido a respeito do qual devia manifestar-se a decisão. dentro do prazo de noventa dias. na forma do art. 9. a data e o lugar em que foi proferida e a assinatura dos árbitros. os mesmos efeitos da sentença proferida pelos órgãos do Poder Judiciário. a parte interessada. sentença arbitral emanada de quem não podia ser árbitro ou proferida por prevaricação. 31 da Lei n. VI. respeitado o disposto no art. ou o presidente do tribunal arbitral. O árbitro ou o tribunal arbitral decidirá. 9. 29 e 30 da Lei n. emanar de quem não podia ser árbitro.indd 160 25/4/2011 15:18:51 . e forem desrespeitados os princípios do contraditório. por meio de ação que seguirá o procedimento comum previsto no Código de Processo Civil. devendo o árbitro. A parte interessada poderá pleitear judicialmente a decretação da nulidade da sentença arbitral nos casos previstos na Lei n. for proferida fora do prazo. da igualdade das partes. da lei.307/96. Nas hipóteses dos incisos I. não decidir todo o litígio submetido ao juízo arbitral. o dispositivo. aditando a sentença arbitral e notificando as partes (arts.307/96). Nula é a sentença proferida na arbitragem quando o compromisso arbitral for nulo. II. III. poderá solicitar a correção de qualquer erro material da sentença arbitral. dúvida ou contradição.

Sentença Estrangeira Contestada n.378-1. 8. 282 do CPC e ser instruída. do CPC. a qual deverá conter os requisitos do art.modalidades de pagamento 161 Nos demais casos (sentença arbitral que não contém o relatório. na grande maioria dos países. Revista de Direito Bancário. 35. do Mercado de Capitais e da Arbitragem. n. ainda. e 5. 34 da Lei n. ou seja. nos termos do Decreto n. a sentença determinará que o árbitro ou o tribunal arbitral profira novo laudo. n. a homologação de sentenças arbitrais pelo Poder Judiciário local. estritamente de acordo com os termos dessa lei. 16 Direito Civil .609/4317. 9. A homologação de sentença arbitral estrangeira será requerida por meio de petição inicial. na sua ausência. 7. já que. 160/161. Quanto às sentenças arbitrais estrangeiras. ver acórdão do STF nas Sentenças Estrangeiras Contestadas n. p. 13. 4. 5. o dispositivo. p. Nesse sentido. 741 e s. que extrapola os limites da convenção de arbitragem e que não decide todo o litígio submetido ao juízo arbitral). Revista de Direito Bancário. 17 Sobre a desnecessidade de caução. 391. introduz outra importante inovação.Direito das Obrigacoes . Não existe. na forma dos arts. estabelecendo que a sentença arbitral estrangeira. A nova lei possibilita. RTJ. necessariamente. está sujeita. para ser reconhecida ou executada no Brasil. em seu art. Esse fato praticamente impossibilitava o reconhecimento ou a execução de laudos arbitrais estrangeiros.indd 161 25/4/2011 15:18:51 . do Mercado de Capitais e da Arbitragem. com o original da sentença arbitral e da convenção de arbitragem ou uma cópia devidamente certificada. a decretação da nulidade da sentença arbitral na ação de embargos do devedor. o sistema anterior exigia a prévia homologação judicial no país de origem16.021-381. acórdão do STF de 27-4-1994. as proferidas fora do território nacional. a data e o lugar em que foi proferida e a assinatura dos árbitros.307/96 que elas serão reconhecidas ou executadas no Brasil de conformidade com os tratados internacionais com eficácia no ordenamento interno e.847-1. os fundamentos da decisão. a Lei de Arbitragem. para tanto. dispõe o art. 354. à homologação do Supremo Tribunal Federal. unicamente. autenticada pelo consulado brasileiro e acompanhada de tradução oficial.724. se for executada judicialmente.

ou tenha sido violado o princípio do contraditório. tenha sido anulada.307/96). Salvador: Nova Alvorada Edições. na falta de indicação. René David. 1982. ou. o disposto nos arts. 9. a convenção de arbitragem não era válida segundo a lei à qual as partes a submeteram. São Paulo.162 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Somente poderá ser negada a homologação para o reconhecimento ou execução de sentença arbitral estrangeira quando o réu demonstrar que as partes na convenção de arbitragem eram incapazes.307/96) e a praxe internacional. v. ainda. tornado obrigatória para as partes. e não foi possível separar a parte excedente daquela submetida à arbitragem. 9. p. do Mercado de Capitais e da Arbitragem. ou. a sentença arbitral não se tenha. Revista de Direito Bancário. A denegação da homologação para reconhecimento ou execução de sentença arbitral estrangeira por vícios formais não obsta a que a parte interessada renove o pedido. Aplica-se à homologação para reconhecimento ou execução de sentença arbitral estrangeira. 1995. 9. nov. L’arbitrage dans le commerce international. BIBLIOGRAFIA: Maristela Basso.). ano 85. 733. Juízo arbitral. v. ano 3. Paulo Furtado. 36 da Lei n.307/96). 1996. 10. no que couber. 1997. tenha sido suspensa por órgão judicial do país onde a sentença arbitral for prolatada. Arbitragem internacional entre Estado e particular. 483 e 484 do CPC (art.307/96). Também será denegada a homologação para o reconhecimento ou execução da sentença arbitral estrangeira se o Supremo Tribunal Federal constatar que o objeto do litígio não é suscetível de ser resolvido por arbitragem segundo a lei brasileira e a decisão ofende a ordem pública (arts. uma vez sanados os vícios apresentados (art. Paulo Borba Casella (coord. p. a instituição da arbitragem não está de acordo com o compromisso arbitral ou cláusula compromissória. ainda. a sentença arbitral foi proferida fora dos limites da convenção de arbitragem.307/96. José Maria Rossani Garcez. RT.indd 162 25/4/2011 15:18:51 . Paris: Economica. 348. São Paulo: Direito Civil . impossibilitando a ampla defesa. 40 da Lei n. Lei nova revitaliza a arbitragem no Brasil como método alternativo-extrajudicial de solução de conflitos de interesses. São Paulo. 11-23. São Paulo: LTr. em virtude da lei do país onde a sentença arbitral foi proferida. Arbitragem: a nova lei brasileira (9.Direito das Obrigacoes .021-381. 38 e 39 da Lei n. Constitucionalidade da Lei 9. não foi notificado da designação do árbitro ou do procedimento de arbitragem. José Carlos de Magalhães.

1-13. São Paulo. 85. RP. SÍNTESE 7 — MODALIDADES DE PAGAMENTO E OUTROS MEIOS DE EXTINÇÃO DAS OBRIGAÇÕES 1. Conceito Pagamento em consignação é o depósito judicial da coisa devida ou depósito em estabelecimento bancário. nos casos legais (art. 7.1. Arbitragem comercial. 1993. Rio de Janeiro: Freitas Bastos. A arbitragem.Direito das Obrigacoes . Arnoldo Wald. 1986.307/96.O Código Civil prevê os casos de consigção nação no art. 323-34. ano 2. ou em prestações relativas a este.021-381. Revista de Direito Renovar. Consignação de coisa Se o pagamento consistir na tradição de um certa ou corpo certo imóvel. Da constitucionalidade da Lei 9. 1. far-se-á no lugar onde situado o bem (art. judicialmente ou em estabelecimento bancário (se for dinheiro). 1996. José Alexandre Tavares Guerreiro. p. p.1. 1997. v. 200-11.2. Casos de consigna. do Mercado de Capitais e da Arbitragem. Arbitragem no sistema jurídico brasileiro. 890 a 900 do CPC. v.. set. 328 do CC). Francisco Cláudio de Almeida Santos. v. São Paulo.indd 163 25/4/2011 15:18:51 . 1997. Le droit français de l’arbitrage. 335 e o procedimento da ação de consignação em pagamento nos arts.1. p. 15 e s. para liberar o devedor. v. p. 334 a 345 do CC e 890 a 900 do CPC) 1. João Carlos Pestana de Aguiar Silva. jan. Fundamentos da arbitragem do comércio internacional. Considerações gerais sobre a arbitragem e seu reordenamento. Rio de Janeiro. ano 22. a coisa devida. 1. Sálvio de Figueiredo Teixeira. José Carlos de Magalhães & Luiz Olavo Baptista. Paris: Juridictionnaires Joly. 1983. 334 do CC). Direito Civil .modalidades de pagamento 163 s. se for débito em dinheiro. ed.. Ocorrendo dúvida quanto à pessoa do credor ou recusa deste em receber o pagamento na forma convencionada./dez. ano 3. Pagamento em consignação (arts. São Paulo: Saraiva. 31. Revista de Direito Bancário. 6. 1983 (tese).1. Gide Loyrette Nouel./mar. o devedor tem a faculdade de depositar. Rio de Janeiro. Revista de Direito do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro.

não há obrigação do devedor de consignar judicialmente. Desde que se comprove a mora do credor. embora seja esta uma medida de cautela. “tratando-se de prestações periódicas prestações periódicas.Tratando-se de dívida que o credor se recude. nos termos do art. se o contrário não resultar do título da obrigação”. Isso pode ocorrer em caso de ausência ou falecimento do credor. Consignar é faculda. 244 do CC.3.nadas pelo gênero e pela quantidade. não importa que a consignação tenha sido intentada após o vencimento do débito.164 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 1.1.4. 338 do CC.1. 25/4/2011 15:18:51 . 1. 892 do CPC.7.Direito das Obrigacoes . “enquanto o credor não mento declarar que aceita o depósito. também caberá a consignação em pagamento. Regras sobre levanta. Nessas hipóteses. Consignações de Pelo art. no mesmo processo e sem mais formalidades. pagando as respectivas despesas. a esdor colha pertence ao devedor. 339. 1.1. “nas coisas determiterminada pelo cre.5. 1. desde que os depósitos sejam efetuados até cinco dias. as que se forem vencendo.1. ou não o impugnar. senão de acordo com os outros devedores e fiadores”. embora o credor consinta. Mas.1. mas é recomendável que se faça na data do vencimento do débito ou no dia seguinte.Pelo art. Escolha de coisa inde.021-381. Dúvida quanto ao credor Direito Civil . poderá o devedor requerer o levantamento. pode o devedor continuar a consignar. “julgado procedente o depósito.6. uma vez consignada a primeira. 1. não dever sou a receber ou não mandou receber.Pelo art.indd 164 O Código Civil prevê a hipótese de dúvida sobre quem seja o verdadeiro credor. o devedor já não poderá levantá-lo. contados da data do vencimento”. e subsistindo a obrigação para todas as consequências de direito”. apesar de não haver recusa no recebimento.

Revelia ou recebi.2. 346 do CC) ou convencional (ocorre explicitamente a transferência dos direitos de devedor ou do credor ao terceiro. o juiz julga procedente o pedido. numa relação jurídica. Sub-rogação pessoal A sub-rogação pode ser legal (independe do consentimento do devedor ou do credor — casos do art.2. Pagamento com sub-rogação (arts. 2. Direito Civil .2. tais depósitos são efetuados com atraso. acarretando a improcedência do pedido.1. mas simplesmente uma substituição de credor. Mantém-se a relação jurídica obrigacional originária.depositar as prestações sucessivas. 1. 2. É pessoal quando há substituição de pessoas e real quando a substituição é de coisas. que fica em lugar daquela. declara extinta a obrigação e condena o réu no pagamento das custas e honorários (art.2.1.021-381.indd 165 25/4/2011 15:18:51 .modalidades de pagamento 165 1. por vezes. Mora intercorrente na Movendo a ação consignatória.O Código de Processo Civil é expresso: não mento pelo credor havendo contestação no prazo.2. deve o autor consignação em paga. 347). 897). não ocorrendo a extinção da obrigação nem a liberação do devedor.8. Sub-rogação real Sub-rogação real é a substituição de uma coisa gravada por outra. Ocorre que.Direito das Obrigacoes . até cinmento co dias após o vencimento (art. Conceito A sub-rogação é a substituição de uma pessoa ou de uma coisa por outra pessoa ou coisa.1. 892 do CPC). transferindo-se a quem pagou todos os direitos e garantias anteriormente pertencentes ao credor. 346 a 351 do CC) 2. 2. com fundamento na chamada mora intercorrente (no curso do processo). que efetua o pagamento ou empresta o dinheiro necessário para tal fim — art. Espécies 2.

satisfazendo-se. substituindo-se o sub-rogado ao sub-rogante em todos os seus direitos.3. 3.Existem causas de extinção das obrigato ções denominadas satisfatórias. Efeitos A sub-rogação transfere ao novo credor todos os direitos. a novação. a lei estabelece preferência do credor originário sobre o sub-rogado para receber o pagamento do devedor (art. Trata-se de modalidade indireta ou supletiva de pagamento em que o credor não recebe o que lhe era devido. como a remissão.021-381. todavia.1. Preferência No caso de haver sub-rogação parcial. como a compensação e a confusão.Direito das Obrigacoes . Dação em pagamento (arts. ações. Noções gerais atendem aos interesses do credor. a prescrição e a impossibilidade superveniente fortuita.166 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 2.1. privilégios e garantias do primitivo em relação à dívida contra o devedor principal e os fiadores.1. 351). Imputação do pagamento Imputação é a escolha da parcela a ser (arts.4. Limites Na sub-rogação legal. 4. o sub-rogado só pode exercer os direitos e ações do credor até a soma que tiver desembolsado para desobrigar o devedor. e outras não satisfatórias. Conceito Quando o credor consente em receber coisa diversa da que lhe é devida. Na sub-rogação convencional pouco importa a quantia desembolsada. 2. 5. Sucedâneos de pagamen. pois 5. 356 a 359) 4. 2.5.indd 166 25/4/2011 15:18:51 . pois desobrigam o devedor sem recebimento da prestação pelo credor. Conceito que tem vários débitos em relação a um só credor. com uma prestação diferente. 352 a 355) quitada num pagamento parcial do devedor 3. ocorre a datio in solutum ou dação em pagamento. Direito Civil .

necessitando. é o negócio jurídico bilateral pelo qual os interessados. 850) significa qualquer espécie de negócio.modalidades de pagamento 167 Também se extinguem certas obrigações com a morte do devedor ou do credor ou em virtude de realização de condição resolutória ou do advento do termo extintivo. a capacidade das partes para novar e para dispor. Compensação.021-381. 362). o acordo de vontades do credor e do devedor. Direito Civil . 368). Conceito A compensação é meio de extinguir as (arts. Elementos Elementos necessários: uma obrigação anterior. 381). por concessões mútuas. a vontade de realizar novação. Confusão (arts. A novação deriva de delegação ou da expromissão (art. Remissão da dívida é a renúncia do credor 385 a 388) ao crédito que existe em seu favor. Novação.2. a extinção de uma obrigação mediante a constituição de uma obrigação nova que se substitui à anterior. ou melhor. são credora e devedora uma da outra até o limite da existência do crédito recíproco (art. 381 a 384) A confusão é a extinção da obrigação decorrente da identificação numa mesma pessoa das qualidades de credor e devedor (art. evitam ou terminam um litígio (art. 360 a 367) A novação é a transformação de uma obrigação em outra. ao mesmo tempo.3. 6. para se tornar irrevogável. Conceito (arts. 8. 5.indd 167 25/4/2011 15:18:51 . 840).Direito das Obrigacoes . 9. Transação (arts. 368 a 380) dívidas de pessoas que. Espécies A novação é objetiva ou real (modificação da prestação) e subjetiva (mudança do credor ou do devedor). uma obrigação nova que extingue a anterior. 5. Em sentido restrito. 5. Remissão de dívida (arts.4. 7. 840 a Na acepção mais ampla e menos técnica.

25/4/2011 15:18:51 . Forte corrente doutrinária prefere assim enquadrar a transação entre os meios de extinção das obrigações. sem atribuir-lhe natureza contratual. alegando-se que ela não cria necessariamente obrigações. Da convenção de arbitragem: cláusula compromissória e compromisso arbitral Direito Civil . podendo ser de duas espécies: cláusula compromissória (as partes se obrigam a submeter-se à decisão de um juízo arbitral) ou compromisso arbitral (as partes nomeiam árbitros para resolver as divergências). 10.168 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Discute-se a natureza contratual da transação.021-381.Direito das Obrigacoes . limitando-se em alguns casos a extingui-las.indd 168 Convenção de arbitragem é o pacto mediante o qual as partes submetem a solução de seus litígios ao juízo arbitral.

2. Casos de culpa presumida. conforme o caso. Evolução legislativa. 5.1. Da inexecução das obrigações. 4. 5. embora admitindo exceções decorrentes de situações especiais em que se agrava ou se atenua o dever jurídico. determinando o ressarcimento do dano causado pelo inadimplente. Quanto à terminologia: v.Direito das Obrigacoes .3. Espécies. importa em lesão de direito. Responsabilidade contratual A obrigação se extingue pelos meios diretos ou indiretos de pagamento. pode. por decadência e por impossibilidade absoluta super­ ve­niente.021-381. Caso fortuito e força maior. enquanto a inexecução justificada por força maior ou caso fortuito implica a extinção da obrigação. 5. 3. 2. 5.4. Responsabilidade contratual. 1. O não cumprimento da obrigação na forma. Da inexecução das obrigações.1. Perdas e danos. Constituição de 1988.Capítulo 8 DA INEXECUÇÃO DAS OBRIGAÇÕES Sumário: 1. É esse o princípio geral que domina o direito pátrio. Responsabilidade objetiva. Dano patrimonial e moral. 1 e 6. O inadimplemento culposo ou doloso é fonte de responsabilidade. 2. quando injustificado. O não cumprimento da obrigação. Responsabilidade civil. História. Capítulo 6. Juros. sem dever de ressarcir as eventuais perdas e danos.2. modo e tempo estabelecidos pela lei. ou pelo contrato. 5.indd 169 25/4/2011 15:18:52 .1. Direito Civil . Conceito. apresentar-se sob a forma de simples atraso (mora) ou de inadimplemento parcial ou total. n.2. 1.

em matéria de transporte e nas relações profissionais. enquanto em relação à responsabilidade legal cabe ao autor provar não apenas o dano e a sua causa. Vale lembrar que. e a própria jurisprudência brasileira.Direito das Obrigacoes . A distinção se baseia na origem do dever jurídico e tem alcance prático no direito pátrio.indd 170 25/4/2011 15:18:52 . a obrigação de incolumidade. tem recorrido ora aos princípios da responsabilidade contratual. o desenvolvimento das presunções de culpa do contratante inadimplente e fez com que se admitisse progressivamente a responsabilidade decorrente do risco assumido. a doutrina moderna tende a unificar as duas responsabilidades (contratual ou extracontratual). fazendo surgir uma responsabilidade legal. mas ainda a culpa do réu. delitual ou aquiliana. e contratual. O importante papel histórico desempenhado pela responsabilidade contratual explica-se pela inclusão. Enquanto para a responsabilidade contratual só se admite como válido o ato do maior ou do menor assistido ou representado. no campo contratual. b) os responsáveis por ele dispuserem de meios para tanto. Direito Civil . como. no transporte. de obrigações implícitas. Assim é que. extracontratual. ou c) a indenização resultar na privação do necessário ao incapaz. o legislador previu três exceções. há um dever determinado aceito pelas partes e a quebra do contrato implica. 928 do CC). no primeiro caso. ou seja. salvo nos casos em que a própria lei presume juris tantum (até prova em contrário) ou juris et de jure (não admitindo prova em contrário) a ocorrência de culpa. nos termos do art. 156 do CC de 1916. A capacidade do agente também é definida pela lei. o incapaz responde pelos prejuízos a que der causa em decorrência da prática de atos ilícitos (art. ora às normas reguladoras da responsabilidade delitual. no entanto. a de levar a mercadoria ou o passageiro ao lugar do seu destino nas mesmas condições e no mesmo estado em que foram recebidos pelo transportador ou iniciaram a viagem. a culpa presumida em virtude do inadimplemento (culpa in contrahendo). A essa regra. por si só.021-381. Na realidade. A responsabilidade contratual permitiu. eximindo a responsabilidade do incapaz quando: a) os responsáveis por ele tiverem a obrigação de arcar com os danos causados. no segundo. assim. no regime anterior. por exemplo.170 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS A obrigação violada pode ser legal ou contratual. nos contratos. a responsabilidade delitual começava aos dezesseis anos.

nos quais só há obrigações para uma das partes (v. O Código Civil esclarece que o inadimplemento importa no pagamento de perdas e danos.indd 171 25/4/2011 15:18:52 . Os elementos da responsabilidade são normalmente a lesão do direito alheio. Nos primeiros. em virtude da inexecução de um dever jurídico de natureza legal ou contratual que o agente devia conhecer e observar. mais juros e atualização e honorá­rios de advogados (art. ao contrário. Distingue. tanto por culpa propriamente dita (negligência. Quanto à classificação dos contratos (unilaterais. imprudência. abrangendo o dolo (vontade de causar o dano) e a culpa (erro. com obrigações para ambos os contratantes (locação. v. negligência ou imperícia)1. todavia.da inexecução das obrigações 171 A própria responsabilidade profissional tem. dos onerosos (chamados de bilaterais no Código de 1916). 389). 1. cada uma das partes responde por culpa em sentido amplo. Capítulo 13. em virtude do não cumprimento do dever jurídico. Tal distinção se explica pelas vantagens que decorrem do contrato para as partes interessadas. Nos contratos onerosos.. compra e venda). Responsabilidade civil A responsabilidade conceitua-se como sendo a obrigação que incumbe a alguém de ressarcir o dano causado a outrem. salvo as exceções previstas em lei (art. enquanto o contratante favorecido responderá tanto por culpa quanto em virtude de dolo.021-381. não responde por simples culpa. ou seja. os contratos que denomina benéficos (anteriormente chamados de unilaterais. g. conforme os diversos sistemas jurídicos. bilaterais. benéficos). 392 do CC). mas tão somente por dolo. e a imputabilidade do agente. ignorância. no Códi­go de 1916). na definição de René Savatier. imperícia e imprudência) como por dolo (vontade de causar o dano). ver sobre a responsabilidade civil em outro volume deste curso.1. não se justificando que quem pre- Quanto aos demais conceitos. o contratante a quem o contrato não favorece (doador). 1 Direito Civil .Direito das Obrigacoes . sido compreendida como de ordem contratual ou delitual. doação).

ato do governo). 591 do CPC). o inadimplente responderá pelos danos decorrentes de caso fortuito ou força maior. na segunda. No direito brasileiro. A ausência de culpa prova-se 2 O termo “necessário” significa inevitável. 399). Na primeira hipótese. cujos efeitos não era possível evitar. O Código Civil conceitua o caso fortuito ou força maior como “fato necessário2. 391 do CC. Nas disposições gerais sobre o inadimplemento das obrigações. quando na realidade são critérios distintos para a exoneração de responsabilidade. art. Tal definição abrange tanto os fatos naturais (incêndio. tanto implica responsabilidade a atitude culposa como a dolosa. 393). todavia. ou impedir” (parágrafo único do art. salvo se puder provar que estes ocorreriam mesmo não tendo havido mora ou culpa de sua parte (art. Caso fortuito e força maior Salvo convenção em contrário ou determinação específica da lei. que deve ser feita por quem o alega. desde que caracterizados pela inevitabilidade e irresistibilidade.021-381. Alguns autores confundem o caso fortuito e a força maior com a ausência de culpa. pela qual o devedor responde com todos os seus bens pelo não cumprimento das obrigações (art. da existência de dois elementos: um objetivo — a inevitabilidade do evento — e o outro subjetivo — a ausência de culpa. o atual Código Civil explicitou uma regra já aposta no Código de Processo Civil. 393 do CC). Direito Civil .172 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS tende beneficiar outrem seja tratado com o mesmo rigor que o beneficiado pelo contrato. o devedor não responde pelos prejuízos decorrentes de caso fortuito ou força maior (art.Direito das Obrigacoes . para a sua prova. inundação) como os fatos de terceiros ou do Poder Público (guerra. o caso fortuito e a força maior necessitam. 2.indd 172 25/4/2011 15:18:52 . em mora. Já estando. só há responsabilidade no caso de dolo.

O problema é de densidade maior ou menor no controle exercido pelo juiz por ocasião da apreciação do critério para exonerar alguém de uma responsabilidade. é. esta ocorrer sem que haja caso fortuito ou força maior. ou a força maior. Pode realmente haver. dá-lhes tratamento idêntico. em que. para nós. salvo se for feita a prova da ocorrência do caso fortuito ou força maior. enquanto o caso fortuito. que. podendo. sendo presumida a culpa. que tem interesse em legislações estrangeiras.Direito das Obrigacoes . a doutrina brasileira dominante considera como sinônimos perfeitos o caso fortuito e a força maior.. são equiparados pela lei. mas a matéria. É o que acontece com a responsabilidade do hospedeiro ou estalajadeiro em relação às bagagens dos viajantes (art. podendo afirmar-se que tal ausência é gênero do qual o caso fortuito é espécie. todavia. Também se discutiu a distinção entre caso fortuito e força maior. Casos de culpa presumida Há determinados casos. que levou ao racionamento da eletricidade). Assim. 650). que confunde. considerado como caso fortuito ou força maior (v. O direito brasileiro. uma inundação ou até a completa falta de chuvas. toda hipótese de caso fortuito ou força maior pressupõe necessariamente a ausência de culpa. para os seus efeitos e consequências. 2. caracterizando os autores o primeiro pela sua imprevisibilidade e a segunda pela sua inevitabilidade. que dão tratamento jurídico distinto aos dois institutos. por esse motivo. podendo um fato ser previsível mas irresistível e ser. apresentando-se a força maior com traços de irresistibilidade mais ostensivos que o caso fortuito. deve apresentar-se como fato irresistível. e com a do Direito Civil .da inexecução das obrigações 173 pela diligência normal do causador do dano. entre ambos. É preciso salientar que a imprevisibilidade não é requisito necessário da força maior e do caso fortuito. meramente acadêmica.indd 173 25/4/2011 15:18:52 . ambas as situações. uma diferença de grau. aliás. no direito brasileiro.021-381. g.1. o primeiro como fato humano e a segunda como fato natural. Assim. a sua ausência não exonera de responsabilidade.

927. VIII) e 26 do Decreto n. não exonerando. consagrando que Direito Civil . o Código Brasileiro da Aeronáutica (Lei n. 2. 931. a prova do caso fortuito ou da força maior. 938). respectivamente. de 7-12-1912.681. art.565. enquanto a primeira exonerava de responsabilidade o empregador quando não agravada pelas instalações do estabelecimento ou pela natureza do serviço. 933. a lei admite a responsabilidade independentemente da ocorrência de culpa. No mesmo sentido. 227. o contrato em que um dos contratantes responde mesmo na hipótese de força maior e de caso fortuito (art. 34. Tal responsabilidade pode decorrer de lei (art. substituído pelo Decreto-Lei n.985. do antigo Código de Minas (Dec. 932.Direito das Obrigacoes . 393).-Lei n. de 29-1-1940. determinando. XV.367. surgir em virtude de convenção das partes ou mesmo pela natureza da atividade.021-381. A responsabilidade civil independentemente da culpa do agente é também consagrada pelo Código Civil nos seus arts. desde que não haja culpa da vítima.036/44) já havia uma distinção entre a responsabilidade pela força maior e pelo caso fortuito. pelo minerador a terceiros e pelas companhias de estradas de ferro aos proprietários marginais. 1. 937 e 938. 2. respectivamente.2. de 19-10-1976. 47.-Lei n. regulava o seguro obrigatório de acidentes do trabalho. Responsabilidade objetiva Em outras hipóteses. o caso fortuito sob a forma de atos de terceiros não exonerava o empregador da responsabilidade pelos danos sofridos pelo empregado (arts. o agente. A Lei n. 927. 7. pois. de 28-2-1967. 7.174 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS ocupante de uma casa pelos danos provenientes de coisas que delas caíram ou foram lançadas em lugar indevido (art. 6. para os danos causados.º e 5.indd 174 25/4/2011 15:18:52 . uma responsabilidade objetiva foi consagrada nos arts. 7. ainda. parágrafo único). por exemplo. Devemos reconhecer que na antiga Lei de Acidentes do Trabalho (Dec. de 19-12-1986) estabelece a responsabilidade da empresa aérea por qualquer dano causado pela aeronave a pessoas ou bens que se encontrem na superfície do solo. sem considerar culpa e dolo.º dessa lei). parágrafo único. Por outro lado.

Direito Civil . Rio de Janeiro. temos casos de responsabilidade por culpa presumida nos quais o agente se exonera provando a ausência de culpa.da inexecução das obrigações 175 a responsabilidade seja objetiva3 e 4. na Revista ATA – Arquivos dos Tribunais de Alçada-RJ. 33. sendo representada sempre por um valor em dinheiro. 5. XXVIII da Constituição de 1988”. em que nenhum fato pode excluir a sua responsabilidade. no caso de inadimplemento ou mora (simples atraso). só ocorria responsabilidade na lesão do direito exclusivamente patrimonial. 59/575 e 78/810). pois. em virtude da inexecução da obrigação. o pagamento das perdas e danos que visam colocar o credor no statu quo ante. p. outros em que necessita provar a existência de caso fortuito ou de força maior e outros. v.º. A indenização é compensatória. ao lado da responsabilidade baseada na culpa. Hoje. 8. 7. 3. O inadimplemento obriga o contratante ou aquele que não executou as suas obrigações a indenizar a outra parte. a matéria é disciplinada pela Lei n. Perdas e danos Conceituamos como perdas e danos o valor do prejuízo sofrido e do lucro cessante. Podemos.Direito das Obrigacoes . superada a Súmula do STF. proposição aprovada unanimemente no VII Encontro Nacional dos Tribunais de Alçada. Antigamente. arts. denominado id quod interest. afirmar que no direito brasileiro.021-381. cabe indenização suplementar. n. repondo-a na situação econômica em que se encontraria se a prestação tivesse sido tempestivamente cumprida. de 24-7-1991. enfim. 1959. 19 e s.. assim. ed.indd 175 25/4/2011 15:18:52 . Arnoldo Medeiros da Fonseca. do Juiz Caetano José da Fonseca Costa: “provada a culpa do empregador. aplicando-se o princípio consagrado pelo art. Caso fortuito e teoria da imprevisão. 4 Ver. A inexecução determina.213. não se admitindo a possibilidade de 3 O Supremo Tribunal Federal também considera objetiva e baseada no risco a responsabilidade civil do proprietário de automóvel (RTJ. na situação jurídica que existiria se não tivesse havido a lesão de direito. 3. 5 Sobre o assunto. que permanece mesmo quando decorre de caso fortuito ou força maior5.

repondo a parte na situação em que se encontraria se lesão não tivesse havido. da saúde ou da honra da vítima.176 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS ressarcimento de violação da integridade física. não somente ao dano emergente. Direito Civil . ou. pois. verossímil. Nas obrigações contratuais. na forma do art. a aplicação do critério objetivo é mais fácil no cálculo do dano emergente do que no lucro cessante. O lucro cessante. a do direito civil. deve ser comprovado pelos dados anteriores. mas não a do direito privado. não se indenizando o prejuízo ou o lucro cessante eventual. é que surgiu. atendendo-se. o autor deve provar a violação da obrigação legal ou contratual. Assim sendo e não havendo cláusula penal em virtude da qual antecipadamente as partes tenham fixado o montante da indenização. Só mais recentemente. na sua defesa. com a criação da categoria especial de direitos da personalidade (arts. podendo ainda recorrer ao auxílio de peritos. alegar a ausência de dano ou de relação de causalidade.021-381. 402 do Código. que assim não deve ser necessariamente provada pelo autor. As perdas e danos abrangem o que efetivamente foi perdido pela parte lesada e o que ela deixou de ganhar de acordo com o curso ordinário dos acontecimentos. plausível. 11 a 21 do CC). ao valor afetivo dos bens perdidos.Direito das Obrigacoes . o seu valor será fixado de acordo com os prejuízos e os lucros cessantes comprovados pela vítima ou pela parte lesada. a inexistência de violação de dever jurídico ou de culpa ou dolo. visando ressarcir o dano causado. mas também ao lucro cessante. nos termos os mais amplos possíveis. devendo ser concedida certa liberdade ao juiz para atender a todas as circunstâncias de fato no cálculo da indenização. Na ação de responsabilidade. por sua vez. a ocorrência de caso fortuito ou de força maior. podendo este. sem atender. o dano ou lucro cessante decorrente e. O dano deve ser real e efetivo.indd 176 25/4/2011 15:18:52 . o inadimplemento faz presumir a culpa do devedor. conforme o caso. objetivamente calculado. hipotético ou apenas provável. Evidentemente. No direito romano. salvo nos casos especialmente previstos por lei. finalmente. a existência de culpa ou dolo do réu. paralelamente à proteção do direito penal. os direitos da personalidade só mereciam a proteção do direito público e em particular do direito penal.

404 da Lei Civil: “As perdas e danos. mediante a inclusão. 4 do Cap. As perdas podem fixar previamente o valor da indenização. artística ou científica. conforme o caso. parágrafo único: “Não se conhecendo o número de exemplares que constituem a edição fraudulenta.610. cabe ao juiz fazer o arbitramento. no art. valendo. serão pagas com atualização monetária segundo índices oficiais regularmente estabelecidos. no ato jurídico. de uma cláusula penal compensatória ou moratória. em outras obrigações. determina o art. Na reprodução fraudulenta de obra literária. Direito Civil . A liquidação das perdas e danos é feita. 940 do CC). no caso de inadimplemento ou de mora. além dos apreendidos”. pagará o transgressor o valor de três mil exemplares. custas e honorários de advogados. de 19-12-1998 (Lei dos Direitos Autorais). então. quem demanda por dívida já paga total ou parcialmente. caberia ao réu) (v. sem ressalva das quantias anteriormente recebidas. fazer um quadro) resolve-se sempre em perdas e danos.Direito das Obrigacoes . desde logo exigindo perdas e danos. normalmente. o juiz pode substituir-se ao devedor. sem prejuízo da pena convencional”. o credor pode optar entre mandar fazer a obra por terceiro e cobrar o preço do devedor ou rescindir o contrato. nas obrigações de pagamento em dinheiro. enquanto. é obrigado a pagar ao devedor o dobro do que houver cobrado (art. há uma opção do credor entre a execução compulsória ou específica da obrigação e a rescisão com o pagamento de perdas e danos pelo inadimplente. Tratando-se de obrigação de fazer em que o contrato não foi realizado com o intuito pessoal. Na falta de cláusula penal.indd 177 25/4/2011 15:18:52 . abrangendo juros.021-381. 9. Quando a obrigação consiste em emitir uma declaração. pelas próprias partes ou pelo juiz. Do mesmo modo. de acordo com a lei. a sentença proferida como manifestação de vontade (que. diz a Lei n. 3). 103. A lei fixa o modo de liquidação da indenização em determinados casos específicos.da inexecução das obrigações 177 O inadimplemento em determinadas obrigações de caráter personalíssimo (escrever um livro. n. Tratando-se de dívida de dinheiro. liquidando as perdas e danos de acordo com as provas apresentadas pelas partes.

o que seria “extravagância do espírito” (Lafayette). injúria ou calúnia). no entanto. 773). havendo assim presunção do seu valor. 4. todavia. Parte da doutrina entendia que não há como reduzir o sofrimento a um valor pecuniário. sabendo que a coisa segurada não mais corre perigo.indd 178 25/4/2011 15:18:52 . Dano patrimonial e moral. em valor monetário. sofre uma diminuição de sua capacidade de trabalho ou necessita fazer uma viagem ou tirar férias para se refazer completamente. Constituição de 1988 A indenização. amplamente a possibilidade e a necessidade de indenizar as consequências patrimoniais do dano moral que ocorrem quando alguém.Direito das Obrigacoes . todavia. protesto indevido de um título. para ser completa. normalmente limitado ao valor do dano material ou dos reflexos econômicos do dano moral. mas no momento do julgamento. com correção monetária até o dia do efetivo pagamento (Súmulas 314 e 562 do STF). ou seja. que. mas também as violações de direitos da personalidade. dores e sofrimentos. deve pagar em dobro o valor do prêmio estipulado (art. o segurador que recebe prêmio de seguro. Reconheceu-se. levantaram-se objeções quanto à possibilidade de avaliar. não mais prevalece numa época como a nossa. no primeiro caso. na segunda hipótese.178 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Finalmente. O direito moderno ampliou a proteção civil a fim de mandar indenizar não apenas as lesões de caráter material. em virtude de um abalo moral (morte de um filho. São sanções previstas pela lei a fim de evitar que o prejudicado tenha de fazer a prova do quantum do dano. beneficiando dependentes econômicos ou familiares da vítima. No passado. Direito Civil . O ressarcimento era.021-381. deve abranger tanto o dano material como o dano moral. e a própria vítima. em dinheiro. onde o seguro de vida funciona exatamente como uma compensação econômica pela morte ou pelo acidente sofrido. A avaliação do dano e do lucro cessante deve ser feita não no momento em que o dano foi causado. A ideia de que a dor humana não pode ser traduzida em algarismos matemáticos. não procedem.

548). como veremos na análise de cada caso concreto. vendo parte da doutrina. O Código Civil de 1916 consagrou como condição para o exercício da ação a existência de um interesse material ou moral (art. embora a lei e a doutrina acentuassem a necessidade de ser a indenização a mais ampla possível (Código Criminal de 1830. Consolidação das Leis de Teixeira de Freitas). Código Civil italiano de 1942) ou limitando o número de pessoas que possam pedir tal ressarcimento ou ainda estabelecendo um gabarito máximo para o valor da indenização. nos casos mencionados ocorre a indenização do reflexo econômico do dano moral ou até de dano material presumido. O Código Civil de 2002 aditou a difamação (art. Na realidade. O direito brasileiro anterior à codificação de 1916 não se preocupou com o problema.da inexecução das obrigações 179 As legislações estrangeiras têm admitido a ressarcibilidade do dano moral.550). Direito Civil .538. não ser possível confundir o interesse que legitima a ação com a lesão de direito suscetível de indenização. de injúria ou calúnia (art. V e X. o princípio geral da ressarcibilidade do dano moral.547). 1. no estudo da responsabilidade civil.Direito das Obrigacoes .021-381. admite e garante expressamente o ressarcimento do dano moral. de indenização de objetos usurpados. 953).543) e de constrangimento ilegal (art. no mencionado artigo. 1.indd 179 25/4/2011 15:18:52 . 951). 5. embora com certas reservas. pelo seu valor afetivo (art. Eram casos de lesão ou deformação. 1. todavia. de sedução de mulher virgem ou honesta (art. A jurisprudência e alguns autores assinalam. 954). Aditou também um artigo sobre indenização por atividade profissional (art. 76).º. estabelecendo casos específicos em que a indenização deve abranger o dano moral (Código Civil alemão. Na Parte Especial do antigo Código havia referência a casos especiais nos quais o legislador contempla de modo explícito a indenização do dano moral. divergindo a doutrina quanto ao ressarcimento do dano moral. indenização de objetos usurpados pelo seu valor afetivo (art. excluído por Lafayette e Lacerda de Almeida e defendido por Manuel Inácio Carvalho de Mendonça. 1. no art.º). 1. Acresce que a Constituição de 1988. que poderiam impedir o casamento de mulher solteira ou viúva (art. § 2. 952) e de constrangimento ilegal (art.

sem justo fundamento. 1991. “Além do que for devido pelo prejuízo patrimonial. seguindo a orientação do direito suíço. DJ.021-381. tendo o Supremo Tribunal Federal contemplado poucos casos em que se pleiteava tal ressarcimento. Orosimbo Nonato). cabe a reparação pelo dano moral.177/SP. 65/555. 5 ago. 62/102). e REsp 11. 6 O Supremo Tribunal Federal tem determinado a indenização do dano moral nos casos de homicídio (RTJ. v. DJ. Pontes de Miranda. 115/1383 e 116/861. A doutrina moderna dominante tem defendido a ampla e completa ressarcibilidade do dano moral em todos os casos (Philadelpho Azevedo. que fixa o princípio geral da responsabilidade pelo dano moral. que não pode haver cumulação da indenização pelo dano moral com o ressarcimento do dano material. 15691. 181 que. REsp 3. cabendo ao prudente critério jurisprudencial fixar as bases e os limites da indenização em cada caso concreto. moderadamente arbitrada”. e o STJ consagra em todas as hipóteses. RTJ. tem entendido o Superior Tribunal de Justiça. Seção 1. 108/912. DJ.229/RJ.180 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Uma parte da doutrina considera. como se vê de vários acórdãos: REsp 4. p. que haja moderação no arbitra­ mento. 9995. embora houvesse uma tendência de lege ferenda no sentido de permitir tal indenização6 e 7. 62/255) e de usurpação de nome de autor de fotografia (RTJ. sobre a possibilidade de cumular a indenização do dano material e moral em certos casos. 67/837). 4 nov.Direito das Obrigacoes . 1991. 1991. 108/646). de lesão à saúde (RTJ. aliás. Entendemos que foi feliz a redação do mencionado anteprojeto. admitido o ressarcimento do primeiro.º jul. pois não deve servir o texto de lei para abusos e fraudes. 1. p. 7 O STF admite a cumulação do dano moral quando postulado pela vítima direta do dano (RTJ. Seção 1. e nesse sentido é a recente jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça.236/RJ. determinando. Quanto às dúvidas que existiam no passado. p. 9190. evitando as dúvidas existentes na legislação atual e permitindo expressamente a indenização cumulativa dos dois danos (material e moral). determinou no seu art. 108/646. Direito Civil . Entendemos que.indd 180 25/4/2011 15:18:52 . como. outrossim. A matéria tornou-se pacífica com a edição da Súmula 37 do STJ. mas a jurisprudência opunha reservas à tese. não há como condicioná-lo à ausência do segundo. O antigo Anteprojeto do Código das Obrigações de 10-2-1941. Seção 1.

Dano moral na Internet e Dano moral indenizável. 241. Rio de Janeiro. São Paulo: Revista dos Tribunais. Alcino de Paula Salazar. Rodstein Éditeur. “ainda que exclusivamente moral”. História Os juros surgiram entre os povos da Antiguidade. Patrícia Guerrieri Barbosa Viana. v. 8 Starck. Ivo Waisberg. BIBLIOGRAFIA: Sobre a matéria. Ávio Brasil. mas constituindo. Essai d’une théorie générale de la responsabilité civile considerée en sa double fonction de garantie et de peine privée. como compensação pelo uso do capital alheio. Guilherme Couto de Castro. Arnoldo Medeiros da Fonseca. al. Dano moral. Regis Fichtner Pereira. Programa de responsabilidade civil. v. A finalidade da indenização do dano moral já é hoje encarada como visando não apenas a compensação da vítima ou dos seus parentes. Antonio Chaves. O dano moral no direito brasileiro. São Paulo: Revista dos Tribunais. 186. expressamente estabelece a obrigação de indenizar os danos causados a outrem. v. Dano moral à pessoa jurídica. ou seja.Direito das Obrigacoes . Wilson Melo da Silva. Da inexecução das obrigações e suas consequências. A cobrança dos juros. O dano moral e sua reparação. Responsabilidade civil nas relações de consumo.da inexecução das obrigações 181 O Código Civil. Tratado de direito civil. não foi admitida na maioria das legislações europeias anteriores à Revolução Francesa. uma expiação para o culpado. em seu art. uma pena privada.. Antonio Jeová Santos. 3. Direito Civil .indd 181 25/4/2011 15:18:52 . p. Sergio Cavalieri Filho. de Carvalho Santos et. A responsabilidade civil objetiva no direito brasileiro. Responsabilidade civil em debate. Responsabilidade civil dos administradores de bancos comerciais. Elementos de responsabilidade civil. José de Aguiar Dias. in Repertório enciclopédico do direito brasileiro. Luiz Roldão de Freitas Gomes. 14.021-381. Ressarcimento de danos. A responsabilidade civil pré-contratual. 193 e s. Paris: L. p. condenada pelos concílios de acordo com a doutrina da Igreja. Juros 5. Roberto Senise Lisboa. Agostinho Alvim. também. Antônio Lindbergh Montenegro.1. no entender da doutrina8 e da jurisprudência norte-americana. Teresa Ancona Lopes de Magalhães. Reparação do dano moral. O dano estético. 5.. Rio de Janeiro: Forense. 1947.

e os economistas e filósofos franceses do século XVIII.3. laissez-passer. fixando o princípio do laissez-faire. e moratórios. os autores protestantes.021-381. distinguindo do mútuo gratuito. quando decorrem de convenção. assim. pois foenus em latim significa juro. quando se originam na própria lei. quando visam a compensação pela utilização do capital.2. Espécies Os juros podem ser devidos no empréstimo de coisas fungíveis. 5. O Estado Moderno. só admitindo a cobrança de juros até determinado limite e combatendo a agiotagem e a usura. desde que estabelecida em bases moderadas e não configurando a usura.indd 182 25/4/2011 15:18:52 . preço locativo ou aluguel do dinheiro. inspirando-se na lição de Calvino. tanto no plano econômico como no campo social. Denominamos mútuo feneratício o empréstimo com juros. de um lado.Direito das Obrigacoes . legais. numerosas legislações do século XIX e algumas do início do século XX não fixaram limites máximos para os juros. liderados por Montesquieu. Conceito O juro é conceituado como rendimento do capital. afirmou. constituindo certa percentagem do capital mutuado. ne pas trop gouverner. considerado o juro como coisa acessória em relação ao capital (art. Os fisiocratas entendiam que o Estado não devia interferir nas relações comerciais entre os indivíduos. considerando-as até como figuras típicas de direito penal. de outro. cabendo aos economistas o estudo de sua incidência. sua intervenção ampla. 95). da taxa normal em determinada situação e de suas repercussões na vida do País. prêmio pelo risco corrido decorrente do empréstimo. 5. preço do seu uso. trata-se de um fruto civil. Direito Civil . compensatórios. na sua feição social inspirada na Constituição de Weimar. Para o jurista. Classificamos os juros em convencionais. todavia. e. consideraram cabível a compensação pela utilização do capital alheio.182 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Em reação.

estará esta sujeita ao pagamento de juros moratórios. Direito Civil .626/33). 2441-2.º. limitava no seu art. § 3. 30 maio 2003). Seção 1. o art. ou o forem sem taxa estipulada. ou seja. 40/2003 foi dada nova redação ao art. 1993. 12637). esclarecendo-se que o art.Direito das Obrigacoes . 192. A Constituição vigente. modificada pelo Decreto-Lei n. 192. tendo sido revogado pela Emenda Constitucional n. de 1988. que. presumem-se devidos juros. que fixou o máximo legal de juros no dobro da taxa legal. 182/38. p. passando a ser de natureza infraconstitucional9. 406 do Código Civil dispõe: “Quando os juros moratórios não forem convencionados. ou quando provierem de determinação da lei. ainda inspirada pelo liberalismo do século XIX. deixou de tratar do assunto. de 12 mar. de 29-5-2003 (DOU. 2003. Ocorrendo a mora de uma das partes. revogada a Lei de Usura. assegurando-se a mais ampla liberdade das partes contratantes. o art. p. tendo sido revogada pelo Código Civil de 2002. assim. Além disso. 5. 406. 192 os juros reais a 12% ao ano.021-381. V. permitida a capitalização anual”.da inexecução das obrigações 183 quando constituem uma indenização pelo atraso no cumprimento das obrigações (mora). consubstanciada na Lei de Usura (Dec. não havia limite máximo estabelecido para os juros convencionais. 26 jun.4. 22. se outra sanção não for prevista. A Emenda Constitucional n. Foi a legislação subsequente. no tocante à interpretação da norma constitucional.indd 183 25/4/2011 15:18:52 . Evolução legislativa Na sistemática do Código Civil de 1916. da Constituição de 1988 foi considerado como não sendo autoexecutável na ADIn 4 julgada pelo STF (DJ. Ficou. os quais. outro volume deste curso. assim. a respeito Arnoldo Wald. n. Sobre os juros moratórios. que deveriam ser regulamentados por lei complementar. 9 V. e de 25 jun. artigo publicado no jornal Valor Econômico. sob pena de redução. Pela Emenda Constitucional n. não poderão exceder a taxa a que se refere o art. 1991. em 12% ao ano. serão fixados segundo a taxa que estiver em vigor para a mora do pagamento de impostos devidos à Fazenda Nacional”. 591 determina: “Destinando-se o mútuo a fins econômicos. 40. 40.

sendo calculados sobre a quantia apurada judicialmente. todavia. mas a sua liquidação não se efetuou por culpa do devedor. o legislador não fixou o percentual da taxa de juros no Código de 2002. sendo calculada a partir da taxa de financiamento diário dos títulos federais. 404 do CC)10. são devidos os juros desde que a mora se refira à obrigação em dinheiro ou a obrigação de outra natureza cujo valor foi fixado pecuniariamente. por entender que a falta de indenização importa em mora do devedor (art. nos parece descabida. Na desapropriação indireta. mas. a constitucionalidade da aplicação da taxa SELIC. Desse modo. 398) (Súmula 54 do STJ). também são devidos os juros moratórios. o devedor paga os juros moratórios legais ou convencionais. até mesmo. que funcionou como máximo legal. Se for ilíquida. a qual. Em relação às instituições financeiras. 398). independentemente da prova de qualquer prejuízo por parte do credor.065/95. a partir da mora. quando há mora referente à obrigação de débito pecuniário.184 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Assim. conforme o caso. em virtude do que dispõem a Lei n. Na forma do art. 406. a jurisprudência do Supremo Tri- 10 V.595 e a Súmula 596 do STF. aplica-se o art.Direito das Obrigacoes . sendo a obrigação líquida.021-381. Direito Civil . Ocorre que houve divergência doutrinária. no silêncio destas ou quando decorrentes da lei. e as operações que não forem bancárias se vinculam ao índice utilizado para a mora dos tributos. 407 do CC. No caso de responsabilidade por ato ilícito. 4. ou seja. Os juros moratórios são exigíveis. sobre os tributos devidos à Fazenda Nacional incide a taxa SELIC. os juros correm a partir do momento em que foi praticado (art. de débito pagável em dinheiro.indd 184 25/4/2011 15:18:52 . cabe ao Conselho Monetário Nacional (CMN) e ao Banco Central a fixação dos limites dos juros. nos termos da Lei n. sobre a quantia finalmente apurada. nota 6. independentemente e sem prejuízo da cláusula penal convencionada e da correção monetária (se já não estiver embutida nos juros — art. e fixados livremente pelas partes. Em princípio. sobre a legalidade e. 9.

Os tribunais reconhecem a licitude das comissões bancárias sobre empréstimos cobrados simultaneamente com os juros dentro dos limites eventualmente fixados pelo Banco Central. ainda. os juros compensatórios são devidos desde a antecipada imissão na posse e. que também pode manter a liberdade contratual das partes11. contam-se os juros desde a citação inicial. 295 e s.indd 185 25/4/2011 15:18:52 . considerando-se o valor atual nela atribuído ao imóvel (Súmula 345 do STF). o interessado deve entrar com embargos de declaração a fim de obter uma 11 Ver ainda. abrangendo juros. entretanto. que foi objeto das Súmulas 69 e 70. compreendendo-se. p. no seu art.021-381. tendo o Código de Processo Civil dirimido tal dúvida. a partir da efetiva ocupação do imóvel”. 404). que. e Súmula 70: “Os juros moratórios. Atualmente. 404 do CC. a sentença for omissa quanto aos juros. 93. embora certas. contam-se desde o trânsito em julgado da sentença”.Direito das Obrigacoes . todavia. Nas obrigações ilíquidas. Direito Civil . a lei passa a dar poderes para o juiz conceder ao credor indenização suplementar (parágrafo único do art. custas e honorários de advogados. n. Alguns problemas processuais surgiram com referência à possibilidade de conceder ao credor juros não pedidos na inicial. Do regime jurídico dos encargos monetários no sistema financeiro. se os juros de mora não cobrirem os prejuízos e não havendo pena convencional. Se. a primeira tratando dos juros compensatórios e a segunda dos juros moratórios. no principal os juros legais”. nos seguintes termos: Súmula 69: “Na desapropriação direta. na desapropriação indireta. 293.da inexecução das obrigações 185 bunal Federal entendia que os juros compensatórios eram devidos a partir da perícia. o Superior Tribunal de Justiça decidiu a matéria. Revista de Informação Legislativa. Acrescenta-se. ao estabelecer que as perdas e danos nas obrigações de pagamento em dinheiro devem ser pagas com atualização monetária. Nesse sentido é o disposto no art. Arnoldo Wald. A legislação e a jurisprudência têm admitido a possibilidade de acumular os juros com a correção monetária. a respeito. com o seguinte teor: “Os pedidos são interpretados restritivamente. na desapropriação direta ou indireta.

I. da Lei n. de 31-12-1908 — sobre letra de câmbio e notas promissórias —.840/80.º (Cédula de Crédito Comercial e Produto Rural). 44. importa em lesão de direito. por decadência e por impossibilidade absoluta superveniencontratual te. art. 413/69. 167/67. 5. art. 3. O não cumprimento da obrigação. Permissão da capitalização nas Cédulas de Crédito Rural. A admissibilidade de juros convencionais e moratórios nos títulos de crédito suscitou divergências doutrinárias e jurisprudenciais.indd 186 25/4/2011 15:18:53 . 11. 38. art. Ademais. c) Decreto-lei n. permitindo todavia alguns acórdãos e parte da doutrina a inclusão de cláusula referente aos juros moratórios. 591 do CC permite expressamente a capitalização anual dos juros. I.021-381.Direito das Obrigacoes . 2. 6. Assim. Proibindo o art. SÍNTESE 8 — DA INEXECUÇÃO DAS OBRIGAÇÕES 1. que veda a capitalização de juros em período inferior ao anual. correndo eles a partir do dia do vencimento do título.186 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS complementação da decisão. Da inexecução das obri. modo Direito Civil . a cláusula de juro. da lei citada).A obrigação extingue-se pelos meios diretos gações. quando injustificado. ainda que convencionado. Responsabilidade ou indiretos de pagamento.004. há outras hipóteses no nosso sistema jurídico nas quais já é permitida a capitalização dos juros: a) Súmula 93 do STJ. determinando o ressarcimento do dano causado pelo inadimplente. 5. O não cumprimento da obrigação na forma. Aliás.º (Cédula de Crédito Rural). art. Comercial e Industrial. 6. a própria lei cambial admite a cobrança de juros moratórios na hipótese de ressaque (art. d) Lei n. b) Decreto-Lei n. sob pena de não serem incluídos os juros no cálculo final do débito (Súmula 254). O art. entendeu-se que devia ser considerada como não escrita a cláusula de juros compensatórios.313/75. § 2. que é encontradiça nas promissórias de determinados bancos. esse Código confirmou o especificado na Súmula 121. e e) Lei n.º (Crédito à Exportação).º (Cédula de Crédito Industrial).

no direito brasileiro. Caso fortuito e força maior Salvo convenção em contrário ou determinação específica da lei.021-381. enquanto a inexecução justificada por força maior ou caso fortuito implica a extinção da obrigação. 2. de dois elementos: um objetivo (a inevitabilidade do evento) e outro subjetivo (a ausência de culpa). pode. 3. Perdas e danos Direito Civil . Responsabilidade obje. 393).2. em virtude da inexecução de um dever jurídico de natureza legal ou contratual que o agente devia conhecer e observar.1. Tal respontiva sabilidade pode decorrer de lei em virtude de convenção das partes e pela natureza da atividade (art. sem dever de ressarcir as eventuais perdas e danos.Há determinados casos.Direito das Obrigacoes . Casos de culpa presu. conforme o caso.A lei admite a responsabilidade independentemente da ocorrência de culpa. 2. ou pelo contrato.1. sendo presumida a culpa. para a sua prova. 1. o inadimplemento culposo ou doloso é fonte de responsabilidade. salvo se for feita a prova da ocorrência do caso fortuito ou força maior. o devedor não responde pelos prejuízos decorrentes de caso fortuito ou força maior (art. 2. parágrafo único).indd 187 Conceitua-se como valor do prejuízo sofrido e do lucro cessante. 927. apresentar-se sob a forma de simples atraso (mora) ou de inadimplemento parcial ou total. a sua mida ausência não exonera de responsabilidade. Responsabilidade civil Conceitua-se como sendo a obrigação que incumbe a alguém de ressarcir o dano causado a outrem. 25/4/2011 15:18:53 . O caso fortuito e a força maior necessitam.da inexecução das obrigações 187 e tempo estabelecido pela lei. em virtude da inexecução da obrigação. Em regra. em que.

Lei n.1. 192.101/2005 (Lei Falimentar). 2. Lei n. O direito moderno ampliou a proteção civil a fim de mandar indenizar não apeConstituição de 1988 nas as lesões de caráter material.Direito das Obrigacoes . § 3. Constituição de 1988. A finalidade da indenização do dano moral já é hoje encarada não apenas como uma compensação da vítima. 26 (Lei sobre Crimes contra a Economia Popular). sua intervenção ampla. art.indd 188 25/4/2011 15:18:53 . 11. e Emenda Constitucional n. 186.021-381. mas também como uma pena privada. 4. 1. 40/2003.626/33 (Lei de Usura) e Decreto-Lei n. 182/38. 406 e 407 do CC. 4. só admitindo a cobrança de juros até determinado limite e combatendo a agiotagem e a usura. História Os juros surgiram entre os povos da Antiguidade como compensação pelo uso do capital alheio.188 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS As perdas e danos abrangem o que efetivamente foi perdido pela parte lesada (dano emergente) e o que ela deixou de ganhar (lucro cessante). Dano patrimonial e moral. art. Lei n. todavia. O dano deve ser real e efetivo. Juros Legislação: arts. Medida Provisória n.172/2001. Direito Civil . “ainda que exclusivamente moral”. expressamente estabelece a obrigação de indenizar os danos causados a outrem. 5. tanto no plano econômico como no campo social. 5.º. 22. O Estado Moderno afirmou.521/51.595/64. em seu art. O Código Civil. considerando-as até como figuras típicas de direito penal. Decreto n. mas também as violações de direitos da personalidade.

que deveriam ser regulamentados por lei complementar. Em relação às instituições financeiras.626/33).Direito das Obrigacoes . legais. Ocorrendo a mora de uma das partes. Os juros podem ser também devidos no empréstimo de coisas fungíveis (mútuo feneratício). prêmio pelo risco corrido decorrente do empréstimo. 22. Espécies Classificamos os juros em convencionais. 4.indd 189 25/4/2011 15:18:53 . Além disso. Evolução legislativa A Constituição vigente limitava no seu art. preço do seu uso. que funciona como máximo legal. 40/2003 deu nova redação a esse artigo e o assunto passou a ser de natureza infraconstitucional. Trata-se de um fruto civil. 5. diferindo-se do mútuo gratuito. o art 591 do CC.4. 406 do CC. Direito Civil .595/64 e Súmula 596 do STF). preço locativo ou aluguel do dinheiro. e as operações que não forem bancárias vinculam-se ao índice utilizado para a mora dos tributos. Conceito Rendimento do capital. A Emenda Constitucional n. cabe ao Conselho Monetário Nacional e ao Banco Central a fixação dos limites dos juros (Lei n. 5. considerado o juro como coisa acessória em relação ao capital.da inexecução das obrigações 189 5. compensatórios e moratórios. n.2.3.021-381. ao permitir expressamente a capitalização anual. constituindo certa percentagem do capital mutuado. estará ela sujeita ao pagamento dos juros moratórios do art. O legislador não fixou o percentual da taxa de juros no Código Civil de 2002. 192 os juros reais a 12% ao ano. se outra sanção não for prevista. revoga a Lei de Usura (Dec.

ainda que pactuado pelas partes. Direito Civil .190 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Sobre os tributos devidos à Fazenda Nacional incide a taxa SELIC (Lei n.021-381.065/95).indd 190 25/4/2011 15:18:53 . O Código de 2002 confirmou o especificado na Súmula 121. 9. que veda a capitalização de juros em período inferior ao anual.Direito das Obrigacoes .

).1. Efeitos e limites. 417 e s. ou admitindo desde logo multa contratual no caso de inadimplemento (cláusula penal). Arras ou sinal (arts. 5. no momento da convenção.Direito das Obrigacoes .4. conservatórias e meios de execução. 409). As garantias podem ser agrupadas. o devedor concede ao credor. um reforço de garantia. Espécies: moratória e compensatória (art. Distinções. 2. 1. Caso especial de proteção do crédito. Cláusula penal. permitindo assim que a execução futura e eventual venha a recair sobre determinados bens específicos ou sobre o patrimônio de outra pessoa.3. Direito de retenção.1. 2. conforme a finalidade visada. 2. Direito Civil . Privilégios. As medidas de garantia podem. 4. 2.2. Em virtude das primeiras. 6. 3. Tutela do crédito: medidas preventivas. conservatórias e meios de execução Embora o problema da proteção judicial do credor seja de natureza judiciária e assim do âmbito do direito processual. 6. que se torna corresponsável pelo débito. em medidas que reforçam o vínculo obrigacional. 2. cabe ao civilista examinar o esquema geral das medidas acautelatórias que o direito oferece na hipótese de inadimplemento do devedor ou desfalque do seu patrimônio. Casos especiais. voluntariamente ou de acordo com as determinações legais.021-381.indd 191 25/4/2011 15:18:53 . Tutela do crédito: medidas preventivas. Revogação dos atos praticados em fraude contra credores. medidas simplesmente conservatórias e medidas de execução.Capítulo 9 GARANTIAS DO CRÉDITO Sumário: 1.

Cláusula penal A cláusula penal é um pacto acessório. e ensejando a anulação das alienações anteriores do devedor feitas fraudulentamente. São medidas conservatórias o sequestro da coisa litigiosa. obrigando então o juiz a estabelecer um critério para o rateio entre os diversos credores. Direito Civil .Direito das Obrigacoes . hoje regulado pelo art. 476 do CC) e sob a forma ativa (falência. por convenção expressa. que autorizam o credor a não devolver certo bem (retenção) ou a deixar de cumprir determinada prestação (exceptio non adimpleti contractus) enquanto o devedor não pagar o débito.192 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS pois. 408 a 416). o arresto dos bens do devedor. As medidas passivas são as meramente defensivas. submetem o devedor que descumprir a obrigação a uma pena ou multa no caso de mora (cláusula penal moratória) ou de inadimplemento (cláusula penal compensatória). As medidas conservatórias visam evitar o desaparecimento ou o desvio de certos bens encontrados no patrimônio do devedor e são reguladas pelo Código de Processo Civil. As ativas são aquelas pelas quais o credor investe contra o patrimônio do devedor. 2. pois se destinam a garantir a possibilidade futura de execução da condenação numa ação principal. penhor). provocando a venda em leilão dos bens do réu para a sua satisfação.indd 192 25/4/2011 15:18:53 . ser pessoais (fiança. anulação dos atos praticados em fraude contra credores pela ação pauliana). recorrendo-se para esse fim à ação pauliana. exceptio non adimpleti contractus — exceção de contrato não cumprido. decretando a falência quando o devedor é empresário ou instaurando o concurso de credores quando não empresário. As medidas pelas quais a lei garante a execução da sentença e a satisfação do credor podem apresentar-se sob a forma passiva (direito de retenção. anticrese. surgindo a dificuldade quando os bens existentes não bastam para o pagamento do crédito. pelo qual as partes. ocorrendo a rescisão pelo inadimplemento do comprador etc. por intermédio do Estado. concurso de credores. regulamentado pela lei civil (arts. aval) ou reais (hipoteca. a busca e apreensão da coisa vendida com reserva de domínio. como medidas preparató­rias.021-381.

A multa é convencionada no momento da realização do ato jurídico ou posteriormente.. obra beneficente). enquanto a multa contratual só se torna exigível na hipótese de inadimplemento ou de mora.021-381. parágrafo único. Para essa hipótese. a multa será de 10% dos prejuízos verificados em virtude da infração contratual).. Distinções A cláusula penal constitui medida coercitiva ou intimidativa. lícito afirmar que as arras penitenciais funcionam como verdadeira cláusula penal paga por antecipação. excluindo prova em contrário (art. É. que muitas vezes implica demora. admitindo-se todavia a cláusula cujo conteúdo seja a prática de ato ou mesmo uma abstenção por parte do inadimplente (v.indd 193 25/4/2011 15:18:53 . Distingue-se assim a cláusula penal das perdas e danos. o que importa numa prefixação convencional das perdas e danos e evita. revertendo em favor da parte inocente ou de terceiro (v. g. A cláusula também não se confunde com as arras ou sinal. recorrendo-se eventualmente a vários fatores para a fixação definitiva do seu montante (v. Este é pago antecipadamente. g. A cláusula penal apresenta-se geralmente sob a forma de pagamento de determinada quantia em dinheiro.. enquanto não entregar a mercadoria não poderá ausentar-se do País. v. 416. Algumas vezes. todavia.garantias do crédito 193 Embora mais comum nos contratos. os prejuízos decorrentes do inadimplemento ou da infração contratual são superiores ao montante estabelecido pela cláusula penal. a sua liquidação judicial.Direito das Obrigacoes . se o prejuízo decorrente do inadimplemento ou da mora exceder o mon- Direito Civil . o Código Civil. g. 416). funcionando também como prefixação dos prejuízos independentemente da prova que deles for apresentada.1. presumida juris et de jure. em seu art. se não construir a casa dentro do prazo convencionado o empreiteiro deverá fazer mais um quarto). pois a primeira é prefixada. a cláusula penal também pode ser introduzida nos tratos unilaterais (testamentos. enquanto as perdas e danos devem ser provadas.). exigindo a prova pelo lesado dos prejuízos por ele sofridos. g. O valor da multa deve ser determinável. salvo estipulação em contrário. estabeleceu que. 2. assim.

Efeitos e limites Em certas hipóteses. a título de multa. competindo ao credor demonstrar o prejuízo que supera o previamente estipulado (art. 10% sobre ele. seguindo o diploma anterior (art. Nesse caso. entende-se que no caso de inadimplemento. seja obrigado a pagar. 2. 2.º da Lei n. 4. e não de mora. o locatário abandona o prédio antes do termo fixado e existe no contrato uma multa na hipótese de infração contratual. a cláusula penal é compensatória e não representa um acréscimo às perdas e danos. O primeiro é o art. não devendo mais nada (art. o credor não poderá exigir a indenização suplementar. 409) A cláusula penal é moratória quando se aplica em virtude de mora do devedor e sem prejuízo da exigência da prestação principal. veda ter a cláusula penal valor superior Direito Civil . multa convencionalmente fixada.245/91).194 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS tante da cláusula penal. parágrafo único. para determinada infração. num contrato de locação.3. se prevista a possibilidade de o credor optar pela solução que lhe for mais favorável — cláusula penal ou apuração das perdas e danos —. No silêncio do contrato. como complemento pela infração contratual. a existência de cláusula penal faz suscitar dúvida quanto à possibilidade de considerar o contrato rescindido em virtude de infração contratual.indd 194 25/4/2011 15:18:53 . Discute-se. 8. parte final). a pena vale como um mínimo indenizável. Assim. Por exemplo. a pena constitui um limite máximo ou teto para a indenização. que. O Código Civil tem dois artigos que impõem limites para a estipulação da cláusula penal. atrasado no pagamento dos aluguéis. 416. além do débito. Espécies: moratória e compensatória (art. podendo então substituir-se às perdas e danos. num contrato de locação por tempo determinado. O locatário pode pagar a multa. ou acrescer-se a elas. 920). assim.2. Por outro lado.021-381. a cláusula penal se aplica no caso de infração do contrato. funcionando como verdadeira cláusula compensatória. Outras vezes. se o credor pode optar pela cláusula resolutiva tácita quando o contrato impõe. 412.Direito das Obrigacoes . existe cláusula penal determinando que o locatário.

se estiver em mora (art. ou ex persona. não há como cobrar a cláusula penal.indd 195 25/4/2011 15:18:53 . Casos especiais É entendimento da jurisprudência majoritária que a cobrança de cláusula penal não exclui a de honorários de advogado1. A nulidade da obrigação principal importa. cabendo o pagamento da multa proporcionalmente à sua obrigação. 414). fixava um limite máximo de 10% para a cláusula penal nos contratos. A cláusula penal moratória torna-se exigível a partir da mora do devedor. não podendo ser cobrada sem que tenha havido procedimento judicial (arts. dependente de intimação do devedor. reputando a multa estabelecida para atender a despesas judiciais e honorários de advogado. n. Se a obrigação for divisível. só havendo culpa de um dos devedores.626/33). na hipótese de inexistir data ou prazo para a realização da prestação devida.4. resguardada a ação regressiva que os não culpados terão contra o culpado (art.Direito das Obrigacoes . pelo simples decurso do prazo. 8.garantias do crédito 195 ao da obrigação principal. o legislador atribui ao juiz o dever de reduzir a cláusula equitativamente. a pena pode ser exigida integralmente deste ou ser cobrada de todos de acordo com as respectivas quotas. 2.º e 9. Por outro lado. havendo data marcada para a realização da prestação. resolvida a obrigação principal sem culpa. 22. quando a obrigação tiver sido parcialmente cumprida ou na hipótese de a penalidade ser manifestamente excessiva. 408). em nulidade de cláusula penal. Ressalta-se ainda que a Lei de Usura (Dec. tendo em vista a natureza e a finalidade do negócio (art. 413). ocorrendo. outrossim.º dessa lei). e Súmula 616 do STF. que pressupõe mora ou inadimplemento culposo (art. 1 RTJ. que foi revogada pelo atual Código Civil. O Código Civil deixa claro que. Quando a obrigação é indivisível. cada um responderá pela sua parte. na forma estabelecida pelo direito comercial e mesmo no direito civil.021-381. ex re. 70/567. 415). Direito Civil .

pois. 156. 632 e 189 do CCom).196 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 3. Ao lado da norma genérica.433. 216. cabendo direito igual ao côn- Direito Civil . arts. o credor pignoratício retém a coisa até o pagamento das despesas feitas com o objeto empenhado (art. 1. garantindo-o tão somente àqueles que tivessem a qualidade de depositário ou de mandatário em relação aos créditos devidos em virtude de mandato ou de depósito. 96). 242 do CC). em que não o favorecia o direito estrito. O Código Comercial brasileiro de 1850 não firmava o princípio geral. As Ordenações Filipinas (Livro IV. (v. em que se concedia ao credor uma proteção baseada na equidade e na boa-fé. de acordo com a qual todo possuidor de boa-fé pode reter a coisa até o pagamento da indenização pelas benfeitorias necessárias e úteis. nos casos previstos por lei ou pela convenção entre as partes. a possibilidade legal de retê-lo até o pagamento do débito. que possui determinado bem do devedor. permitindo ao comissário que retivesse os bens do comitente etc. em casos especiais. aplicando-se princípio idêntico nas obrigações de restituir coisa certa (art. Título 54. em artigos esparsos. A ideia básica é. Assim. 1. Direito de retenção O direito de retenção assegura ao credor.219.021-381. garantia a retenção pelo dono do armazém-geral das mercadorias depositadas (art. conhece o nosso direito casos específicos contemplados pelo Código Civil e pelas leis especiais em que se consagra o direito de retenção. evitar o enriquecimento sem causa e conceder uma garantia ao credor em relação ao objeto no qual investiu o seu dinheiro. O Código Civil estruturou uma norma geral que encontramos no art. 681). 644 e 708). § 1. As origens do direito de retenção remontam à exceptio doli do direito pretoriano. o mandatário retém o objeto do mandato até o reembolso das despesas (art.º) mantiveram o caráter excepcional do direito de retenção.indd 196 25/4/2011 15:18:53 . mas. o depositário retém o objeto depositado até o pagamento do valor líquido das despesas ou dos prejuízos que teve (arts.Direito das Obrigacoes . II). 116.

A nova Lei Falimentar (Lei n. (. 2 Sobre o problema da natureza jurídica. 83. Torna-se necessário distinguir o direito de retenção de certas outras medidas com as quais tem afinidade. admitindo-o no caso do arrendatário de imóveis rurais.. que são elementos básicos para o exercício do direito de retenção a posse pelo credor de um bem do devedor e a existência de um débito ainda não pago. a compensação e a exceção de não cumprimento de prestação do outro contratante. Arnoldo Medeiros da Fonseca. ed. por valer erga omnes. devendo ocorrer conexão entre o débito e a posse do objeto. Direito Civil . ao locatário em relação ao valor das benfeitorias realizadas com o consentimento do locador (art.021-381. 249 e 274. enquanto outros preferem dar-lhe natureza pessoal2.indd 197 25/4/2011 15:18:53 . Direito de retenção.652). parágrafo único). que passou a ser o art. IV.. 3. por extensão. A retenção pode decorrer das disposições legais ou de cláusulas contratuais. tem construído. o direito de retenção. 1. afirmando que têm privilégio especial “aqueles a cujos titulares a lei confira o direito de retenção sobre a coisa dada em garantia. no seu art.219 do Código de 2002.Direito das Obrigacoes . e consagrando ainda. A jurisprudência. c. 516 do Código de 1916.)”. Vemos.. uma estrutura nova do direito de retenção. 571. entendem alguns que se trata de direito real.101/2005). mesmo no campo civil. mecânicos ou artistas até o pagamento do trabalho por eles realizado na fabricação ou no conserto e até a retenção do empreiteiro quando fornece mão de obra e material e não recebe o pagamento. 1957. Quanto à sua natureza jurídica. 11. assim. e enquanto não for ressarcido das perdas e danos resultantes do término do contrato antes do prazo (art. a dos fabricantes.garantias do crédito 197 juge que possuir bens particulares do outro (art. consagra. o privilégio. do comprador evicto que construiu no imóvel do qual era possuidor de boa-fé. p. em termos gerais. 1. a retenção por honorários devidos no mandato. v. 578). como o penhor legal ou convencional. ainda baseada no art.

seja pela antecipação de sua exigibilidade em virtude da decretação da falência ou pela ocorrência de um outro motivo para tanto previsto pelo Código Civil. dar uma garantia maior ou menor ao credor. mas por uma defesa ou exceção que ele pode opor ao devedor. O privilégio. Por outro lado. A compensação só ocorre quando há débitos líquidos.021-381. seja pelo decurso do prazo. mas sobre o seu valor venal. Não há. No caso do penhor convencional ou legal. podendo a lei e as partes. 3 V. enquanto no direito de retenção é preciso que o devedor não tenha pago débito já vencido. sem que um dos contratantes possua bem alheio. conforme cada caso concreto.Direito das Obrigacoes . sendo. permitindo que o credor execute o débito. seja mediante um direito de penhor ou um direito de retenção. ao mesmo tempo. Finalmente. como credoras e devedoras. embora o princípio que rege ambos os institutos seja o mesmo e se possa explicar o direito de retenção como aplicação de exceptio non adimpleti no caso de possuir uma das partes bem pertencente à outra. o caso de direito de retenção. recusando-se a devolver um bem que a este pertence. mas a correlação entre dois débitos. não exige detenção prévia e se exerce não sobre a coisa em si.indd 198 25/4/2011 15:18:53 . fungíveis. pois.. exigindo-se. Direito Civil . não se confunde o direito de retenção com a exceção do contrato não cumprido3. mas de densidade diferente. enquanto o direito de retenção tem apenas um aspecto passivo. identificação entre os dois institutos. não sendo. funcionando ambas as partes. todavia. 2. garantindo um direito de crédito não mediante uma ação que possa ser praticada pelo credor. pois pode ocorrer a exceção. o penhor apresenta um indiscutível aspecto ativo. por sua vez. pedindo a alienação pelo Estado do bem empenhado.198 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS O que caracteriza o direito de retenção é o seu aspecto acessório e passivo. da mesma espécie e vencidos. não apenas um débito. institutos de finalidades análogas. pois. Capítulo 13. assim. o mesmo ocorrendo com a hipoteca em virtude da qual o bem dado em garantia continua nas mãos do devedor. n. há uma garantia pignoratícia dada desde o momento em que o débito surge. adiante.

em seguida. pagamento inicial de uma quantia cujo abandono autoriza a parte pagadora a não prosseguir no contrato. Arras ou sinal (arts.Direito das Obrigacoes . ou seja. desde que devolvesse as arras em dobro. constituindo verdadeira prova da existência do contrato. o simples fato de terem sido dadas arras não tornava revogável o negócio nem autorizava o arrependimento das partes. em garantia da conclusão de um contrato. Posteriormente. das perdas e danos. Tinham as arras inicialmente função confirmatória. entregando uma parte à outra um anel e. cabia ao credor tornou-se. As arras (ou sinal) surgiram no direito romano como ato pelo qual as partes demonstravam a sua intenção firme e inabalável de cumprir o contrato. com escolha de prestação pelo devedor. se as recebeu. certa quantia em dinheiro. apanágio do devedor. salvo estipulação em contrário. distinguindo-se as arras confirmatórias. Essa orientação aceita pelo Código Napoleão foi a do nosso direito anterior ao Código Civil. pois. constituindo ora uma simples prova do contrato. rompeu com a tradição que presumia o caráter penitencial das arras. 417 e s. inspirando-se no Código Civil alemão. ora um início de pagamento da quantia contratualmente fixada e ainda uma avaliação à forfait. que. posteriormente. salvo se houvesse cláusula expressa nesse Direito Civil .021-381. As legislações deram maior ou menor importância aos dois aspectos das arras. Assim sendo. A escolha entre as duas prestações que. transformou a obrigação com arras em obrigação alternativa. prefixada. as arras exerceram funções diferentes. que. se foi quem as deu. considerando-as ao contrário como confirmatórias. passaram a funcionar como fixação de um quantum em virtude do qual a parte inadimplente podia desistir de executar a sua prestação. inicialmente. o contrato com arras tornou-se fonte de uma obrigação alternativa: cumprimento da prestação principal ou perda do valor das arras. Vemos. ou as perdesse. permitindo-se a este que não cumprisse a prestação principal. através da história. probatórias da realização do negócio e valendo como início de pagamento.) As arras constituem quantia ou coisa móvel dada por uma das partes à outra. na hipótese de inadimplemento. Em geral. das penitenciais.indd 199 25/4/2011 15:18:53 . salvo estipulação em contrário. O nosso Código Civil de 1916.garantias do crédito 199 4.

devem ser devolvidas quando o contrato é executado ou desfeito independentemente de culpa. Nas últimas. há promessa de pagamento. todavia. Funcionando ambos os institutos como limitações da indenização na hipótese de inadimplemento. nas arras penitenciais o pagamento é prévio.indd 200 25/4/2011 15:18:53 . nesta. enquanto na cláusula penal a parte inadimplente se compromete condicionalmente (na hipótese de inadimplemento ou de mora) a pagar certa quantia previamente fixada. as arras são consideradas penitenciais e terão função unicamente indenizatórias.096. O legislador determinou. se as arras não constituem início do pagamento. Ressalta-se que. O Código Civil de 1916. Assim também faz o Código de 2002. haverá restituição do equivalente ao valor dado como arras. se o arrependimento for da outra parte. A melhor interpretação é no sentido de conceituar a “conclusão do contrato” como simples acordo de vontades e não propriamente como concretização ou execução do contrato. o sinal poderá ser restituído ou computado como parte do pagamento do devido (art. 417. embora a estrutura de ambas seja semelhante. 417 do CC). 420 do Código Civil. O Código de 2002. pois. se as partes convencionam a possibilidade de arrependimento. tornando obrigatório o contrato. independentemente de qualquer infração. referia-se à devolução das arras no momento da conclusão do contrato. Nos termos do art.021-381. não faz mais menção a essa presunção do sinal como a realização do acordo final. as arras seriam devolvidas no mesmo momento em que fossem dadas. em seu art. Se houver a execução do contrato. por antecipação mediante entrega real da quantia. 1. As arras também não se confundem com as obrigações alternativas. em seu art. no momento da celebração do contrato. As arras se distinguem da cláusula penal pois. ainda. que não poderá ser exigida indenização suplementar. As arras podem ser em dinheiro ou em outros bens fungíveis. enquanto naquela o pagamento é feito desde logo.Direito das Obrigacoes . não haverá a restituição do sinal para aquele que o deu ou. A nova disciplina apenas trata da possível retenção ou devolução do sinal na hipótese de não ocorrer o negócio. Nessa hipótese. caso contrário. existem duas prestações principais.200 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS sentido. enquanto nas arras penitenciais Direito Civil .

garantias do crédito 201 uma prestação é a principal e a outra é acessória. as arras tornam-se um valor mínimo a receber. sob a égide do Código de 1916. de condição resolutória ou de culpa de ambas as partes. com pagamento das perdas e danos. Direito Civil . Sendo as arras penitenciais. Se a não execução se der por vontade ou culpa de quem as deu. havendo compensação das culpas. pois asseguram a realização do negócio. Nesse caso. as arras também podem ser pagas antes. desde que as partes explicitamente assim tivessem convencionado4. as arras terão função indenizatória e não haverá direito à indenização suplementar (art. O legislador do Código de 2002 estabeleceu consequências diversas para duas hipóteses: a) quando há cláusula de arrependimento. Assim. e b) quando a inexecução se dá em virtude do comportamento de uma das partes e o contrato não dispõe sobre a possibilidade de arrepender-se. de caso fortuito ou força maior. sendo então denominadas arras assecuratórias. havendo cláusula de arrependimento. nas confirmatórias as arras constituem o início do pagamento da prestação principal. as arras presumem-se penitenciais (Súmula 412).021-381. a outra parte poderá retê-las.Direito das Obrigacoes . Embora geralmente entregues no momento da conclusão do contrato. era possível cobrar simultaneamente perdas e danos. quando o distrato decorre de acordo entre as partes. pois há o dever de pagar diferença com relação ao dano a maior que for demonstrado. se a não realização do contrato for imputável à parte que recebeu as arras. Já o art. mais juros e honorários de advogado. o outro contratante poderá entender o contrato como desfeito e exigir a devolução do equivalente devidamente corrigido. 4 A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal entende que. a parte inocente tem direito a pleitear indenização suplementar ou a execução do contrato.indd 201 25/4/2011 15:18:54 . 420). 418 desse Código disciplina a questão quando há inexecução do contrato. Quando for estipulado o direito de arrependimento. com a devolução das arras a quem as deu sem nenhuma espécie de penalidade. Ocorre a dissolução simples do negócio.

chamando a hipótese apenas de insolvência. não se extinguindo pelo concurso e pelo pagamento parcial a existência do saldo remanescente do débito5. o atual Código segue quase que completamente a disciplina já adotada no Código de 1916. a insolvência apresenta-se sob formas diferentes no direito civil e no direito empresarial. mas entre os pertencentes à mesma classe. a denominação “Do concurso de credores” para chamar “Das preferências e privilégios creditórios”. que são os privilégios e os direitos reais. 748 e s.661/45.101/2005) e do direito judiciário civil (arts. entretanto. A preferência significa a vantagem de alguns credores de receber antes de outros. levando assim o juiz ao exame dos chamados “títulos legais de preferência”. 958).021-381. Já a insolvência no direito empresário é regulada pela Lei n. abandonando. no entanto. que revogou a antiga Lei de Falências. que deve ocorrer não entre todos os credores.indd 202 25/4/2011 15:18:54 . em que a totalidade dos bens do devedor é penhorada e vendida em leilão para satisfação plena ou parcial dos credores.Direito das Obrigacoes . deixou de se reportar ao concurso de credores. e tal vantagem decorre dos privilégios e direitos reais (art.202 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 5. A insolvência civil — do não empresário —resolve-se pelo concurso de credores.101/2005. Na realidade. Privilégios Com esse título o Código Civil disciplina os casos em que diversos credores disputam o crédito contra um devedor tornado insolvente. 955 a 965). 11. O Código Civil. A insolvência leva ao exame da situação do devedor em relação aos seus diversos credores. Nesta matéria. problema que é simultaneamente da alçada do direito civil (arts. 11. 774 do Código de Processo Civil. 5 Art. do CPC). A nova Lei Falimentar disciplina a recuperação judicial e extrajudicial e a falência do empresário e da sociedade empresária. Direito Civil . do direito empresarial (Lei Falimentar — Lei n. 7. o Decreto-Lei n. A tese genérica em matéria de situação dos credores é a da igualdade.

O crédito quirografário é o crédito pessoal não privilegiado (do latim chirographus = escrito a mão e do grego cheir. Direito Civil . concordata. 187. c) o crédito privilegiado prefere ao crédito simples (art. a sua posição também evoluiu no sentido de preferir os demais encargos. privilégio geral é o que recai sobre todos os bens do devedor. b) o crédito privilegiado especial prefere ao crédito privilegiado geral. caput.172. os decorrentes de despesa com funeral e com luto.Direito das Obrigacoes .garantias do crédito 203 Numa síntese. que. Gozam de privilégio geral os créditos mencionados no art. ao contrário. entre os diversos créditos haverá rateio. Cada série prefere à outra. 965. em tese. inventário ou arrolamento” (art. 5. referentes a reconstrução ou edificação. na sistemática do atual Código Civil: a) o crédito real (penhor. o Código Tributário Nacional modificou a situação do crédito fiscal. 961). de 25-10-1966) e que “são encargos da massa falida. esclarecendo que “a cobrança judicial do crédito tributário não é sujeita a concurso de credores ou habilitação em falência. cheiros = mão + grafos = escrever). Constituem privilégios especiais os mencionados no art. os créditos da Fazenda etc.021-381. Entre os encargos da massa. ou serviços.indd 203 25/4/2011 15:18:54 . 964 e os têm os credores de despesas e custas judiciais. hipoteca. salvo em relação à remuneração devida ao trabalhador rural. 4. só se paga o crédito da série posterior após o pagamento integral dos créditos da série anterior. respeitada tão somente a prioridade do credor trabalhista (Lei n. da Lei n. podemos afirmar.). as custas judiciais com a arrecadação ou liquidação da massa. Havendo. Posteriormente. pagáveis preferencialmente a quaisquer outros e às dívidas da massa. havendo débitos da mesma série sem possibilidade de pagamento total. anticrese) prefere ao crédito pessoal (dívida contratual etc. Privilégio especial é o que recai sobre determinado bem específico.829. de 18-11-1965). ou seja. de despesas de materiais. débitos de séries diferentes. de despesas de beneficiamento da coisa.

6. reduziu as dimensões dadas ao privilégio dos credores trabalhistas. O Decreto-Lei n. caput. implicando a solução apresentada no § 3. 188 passou a estabelecer que “São extraconcursais os créditos Direito Civil .indd 204 25/4/2011 15:18:54 . e o art.-Lei n. com as modificações posteriores. § 1. estendeu o privilégio à totalidade da indenização. 187 e 188 do CTN. concordata.º. 192. inventário ou arrolamento”. fiança ou aval. sem prejuízo. 188 do CTN). porém. Prevalecia o critério do art. a posição dos credores passou a ser a seguinte: a) credores trabalhistas. Sendo assim. 2. 187.º da Lei n.021-381. d) credores com garantias reais e privilégios especiais e gerais. hipoteca. da Consolidação das Leis do Trabalho. 118/2005 alterou a redação dos arts. que revogou o referido decreto-lei e deu nova redação ao art. de 19-2-1969. se necessário. de 14-10-1977. b) credores tributários. recuperação judicial. diz que “A cobrança judicial do crédito tributário não é sujeita a concurso de credores ou habilitação em falência. incluindo na dívida ativa os créditos das pessoas jurídicas de direito público ou de suas agências financeiras decorrentes de contratos e operações de financiamento ou de sub-rogação de garantia. 124 da antiga Lei de Falências (Dec. o art. fazendo-se rateio. em cada classe. 449. e) credores quirografários.449. c) demais encargos da massa.Direito das Obrigacoes .726. ampliou o conceito de crédito fiscal. 7. Atualmente. mantendo seus direitos quanto aos salários. mas a Lei n. dos créditos de natureza trabalhista (e fiscais)”.204 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS os créditos tributários vencidos e vincendos. 3. 474. exigíveis no decurso do processo de falência” (art.º do art. que tinha a seguinte redação: “Não bastando os bens da massa para o pagamento de todos os seus credores. Após a promulgação do Código Tributário. de 24-2-1967. de 11-2-1960.661/45) pelo diploma legislativo acima citado. O Decreto-Lei n. em 1966. mas limitando a preferência absoluta a 1/3 da indenização devida. serão pagos os encargos antes das dívidas. a Lei Complementar n. de acordo com a sua nova redação.

Título I.indd 205 25/4/2011 15:18:54 . Destaca-se que as sociedades não empresárias não estão sujeitas ao regime da nova Lei de Falências. cujas origens remontam a um edito do Pretor Paulo encontrado no Digesto. 99 desta lei. o que fez com que alguns autores incluíssem a fraude contra credores entre os vícios da vontade. conforme a técnica feliz do Código Civil. 150 da nova Lei de Falências. Não se pode alegar que quem fez uma liberalidade a um parente para evitar que seus credores encontrem bens no seu patrimônio tenha praticado um ato em que a sua vontade tives- Ver adiante o capítulo sobre alteração. 83 e 84 da atual Lei Falimentar (Lei n. ineficácia e extinção dos contratos (Cap. a fraude contra credores é um defeito do negócio jurídico. serão pagas pelo administrador judicial com os recursos disponíveis no caixa”. 124 do Decreto-Lei n. A ação própria para obter tal revogação de atos fraudulentos é a ação pauliana. muitas vezes os credores são obrigados a anular atos praticados pelo devedor. inclusive na hipótese de continuação provisória das atividades previstas no inciso XI do caput do art. Livro III. que diz: “As despesas cujo pagamento antecipado seja indispensável à administração da falência. Revogação dos atos praticados em fraude contra credores Na hipótese de insolvência. 11. mas não constitui um vício da vontade.Direito das Obrigacoes .021-381. Capítulo IV). 18). Seguindo a sistemática do Código de 1916. também modernamente denominada ação revocatória6. a fraude contra credores é regulada no atual Código Civil no capítulo intitulado “Dos Defeitos do Negócio Jurídico” (Parte Geral. Na realidade.garantias do crédito 205 tributários decorrentes de fatos geradores ocorridos no curso do processo de falência”. 6 Direito Civil . Os atos fraudulentos são ineficazes quanto aos credores (ou inoponíveis a eles). ao dolo e à coação.101/2005) estabelece nova classificação dos créditos na falência. 7. Além disso.661/45 (revogado) foi substituído pelo art. equiparando-a assim ao erro. Ressalta-se que os arts. o § 3. 6. os quais visam desfalcar o seu patrimônio e frustrar o pagamento devido.º do art.

O Código Civil acrescentou nova regra. no caso. a insolvência e o consi- 7 O conluio da fraude ou a intenção de fraudar. com seus acessórios e frutos.indd 206 25/4/2011 15:18:54 . para garantir o pagamento dos créditos existentes contra ele. o Código Civil considera anulável o negócio de transmissão gratuita feito por quem era insolvente ou por quem. Direito Civil . 160. por motivos especiais que deverão ser provados pelos credores. sendo assim anulável em virtude do fim fraudulento visado pela parte. se o valor for inferior. pois.Direito das Obrigacoes . correspon­dendo à vontade do agente. 158 e seguintes (correspondentes aos arts. depositando o valor que deve ao alienante insolvente e citando os interessados. sendo também anuláveis os negócios de transmissão onerosa realizados quando a insolvência do alienante for objetivamente notória (títulos protestados. para conservar os bens. Ao contrário. Não há. ao patrimônio do devedor alienante. A ação pauliana ou revocatória é intentada contra o terceiro adquirente a fim de que restitua a coisa. vício da vontade e apenas um ato defeituoso.206 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS se sido viciada. ou a garantia que lhe foi dada em detrimento dos outros credores. era do conhecimento do adquirente. insolvente se tornou. São requisitos para a ação pauliana a anterioridade do crédito em relação à alienação feita pelo devedor. 106 e seguintes do Código de 1916). Se o adquirente ainda não pagou o preço dos bens na hipótese referida e esse preço é o corrente na praça. exonera-se ele de qualquer responsabilidade e transforma o negócio de venda em negócio perfeitamente válido. em virtude da transmissão. mas na finalidade almejada pelo agente. o adquirente. havendo assim uma presunção de consilium fraudis ou de animus fraudandi7. pensado e firmemente realizado. poderá depositar o preço que lhes corresponda ao valor real (art. o ato praticado foi desejado. parágrafo único). não na constituição do acordo.021-381. especificando que. A lei também considera como sendo fraudatório dos interesses dos demais credores o pagamento antecipado feito a um dos quirografários. Nos arts. ações executivas ajuizadas) ou quando tal situação.

1. 1.Direito das Obrigacoes . não impede a ação pauliana. O benefício obtido com a anulação não é em favor do credor que intentou a ação. Embora tido como um caso especial de proteção ao crédito e até de fraude contra credores. estes exercem perante o juiz do inventário a faculdade de aceitar a herança renunciada. Mas a ineficácia nem sempre é total: pagas as dívidas e havendo sobras.813. Também não se exige a ação pauliana. prevalece a renúncia quanto ao remanescente. caso haja. não se exige que o herdeiro proceda com dolo: basta que a renúncia o mantenha insolvente. poderão eles. Direito Civil . aceitá-la em nome do renunciante”. estas passam aos outros herdeiros. No § 2. provar a existência dos três elementos indispensáveis para a procedência do pedido.021-381. Caso especial de proteção do crédito Pelo art. real ou presumido. 1.º diz o mesmo artigo: “Pagas as dívidas do renunciante. Além disso. mas aumenta a massa dos bens do devedor com a qual os credores poderão obter o pagamento dos débitos existentes. no caso específico do herdeiro insolvente. que será devolvido aos demais herdeiros”. o Código de 2002 estabeleceu nova regra com prazo para a manifestação dos credores: “A habilitação dos credores se fará no prazo de trinta dias seguintes ao conhecimento do fato” (art.indd 207 25/4/2011 15:18:54 . que pode ser qualquer credor quirografário. Tal faculdade. se já não for possível a aceitação prevista no artigo acima.garantias do crédito 207 lium fraudis. renunciando à herança.813 do CC “Quando o herdeiro prejudicar os seus credores. Provado o prejuízo dos credores. § 1. sendo a aquisição a título oneroso. valendo e produzindo efeitos jurídicos para o excesso. com o que se torna ineficaz a renúncia.º). A ineficácia limita-se ao direito dos credores. que prejudica os credores com a renúncia. 6. com autorização do juiz. cabe ao autor da ação. decorrente da natureza da operação (quando é gratuita) ou do conhecimento objetivo e geral ou subjetivo e particular da situação de insolvência do alienante que tinha ou devia ter o adquirente. prejudicando os credores.

conservatórias e meios de execução As garantias na hipótese de inadimplemento do devedor podem ser agrupadas. pelo qual as partes. Cláusula penal Cláusula penal é um pacto acessório. submetem o devedor que descumprir a obrigação a uma pena ou multa no caso de mora (cláusula penal moratória) ou de inadimplemento (cláusula penal compensatória). medidas simplesmente conservatórias e medidas de execução.208 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS SÍNTESE 9 — GARANTIAS DO CRÉDITO 1. Distingue-se das perdas e danos. Este é pago antecipadamente. As medidas pelas preventivas são apresentadas pelo devedor ao credor no momento da convenção.021-381. As medidas de execução são aquelas em que a lei garante a execução da sentença e a satisfação do credor e podem apresentar-se sob a forma passiva e ativa. enquanto as perdas e danos devem ser provadas. 2.Direito das Obrigacoes . por convenção expressa. pois a primeira é prefixada. 416 do CC).1. excluindo prova em contrário (art. Distinções A cláusula penal constitui medida coercitiva ou intimidativa. 2. em medidas que reforçam o vínculo obrigacional. enquanto a multa contratual só se torna exigível na hipótese de inadimplemento ou de mora. conforme a finalidade visada.indd 208 25/4/2011 15:18:54 . As medidas conservatórias visam evitar o desaparecimento ou o desvio de certos bens encontrados no patrimônio do devedor. Tutela do crédito: medidas preventivas. Direito Civil . Também não se confunde com as arras ou sinal.

414). Quando a obrigação é indivisível.2. 415). podendo substituir as perdas e danos.3.4. A cláusula compensatória ocorre com o inadimplemento da obrigação. Espécies: moratória e A cláusula penal é moratória quando se com­pensatória (art. 409) aplica em virtude de mora do devedor e sem prejuízo da exigência da prestação principal.Direito das Obrigacoes . A nulidade da obrigação principal importa em nulidade da cláusula penal.garantias do crédito 209 2. O legislador atribui ao juiz o dever de reduzir a cláusula equitativamente. Se a obrigação for divisível. 408). 413). Direito Civil . ou ex persona. Casos especiais Resolvida a obrigação principal sem culpa. pelo simples decurso do prazo. cabendo o pagamento da multa proporcionalmente à sua obrigação. cada um responderá pela sua parte.021-381. quando a obrigação tiver sido parcialmente cumprida ou na hipótese de a penalidade ser manifestamente excessiva (art. dependente de intimação do devedor. a pena poderá ser exigida integralmente deste ou ser cobrada de todos de acordo com as respectivas quotas (art. Efeitos e limites O art. ex re. 2.indd 209 25/4/2011 15:18:54 . A cláusula penal moratória torna-se exigível a partir da mora do devedor. na hipótese de inexistir data ou prazo para a realização da prestação devida. ocorrendo. se estiver em mora (art. 412 veda ter a cláusula penal valor superior ao da obrigação principal. 2. havendo data marcada para a realização da prestação. não há como cobrar a cláusula penal que pressupõe mora ou inadimplemento culposo (art. só havendo culpa de um dos devedores.

indd 210 25/4/2011 15:18:54 . 4. nos casos previstos por lei ou pela convenção entre as partes. parte final). as arras também podem ser pagas antes (arras assecuratórias). o privilégio. Distingue-se. a compensação e a exceção de não cumprimento de prestação do outro contratante.210 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 3. que possui determinado bem do devedor. Privilégio especial é o que recai sobre determinado bem específico. Se houver a execução do contrato. Se as partes convencionarem a possibilidade de arrependimento. Embora geralmente entregues no momento da conclusão do contrato. como o penhor legal ou convencional. 420). 417. O que o caracteriza é o seu aspecto acessório e passivo. as arras serão consideradas penitenciais e terão função unicamente indenizatória (art. e tal vantagem decorre dos privilégios e direitos reais (art.) As arras constituem quantia ou coisa móvel dada por uma das partes à outra em garantia da conclusão de um contrato. a possibilidade legal de retê-lo até o pagamento do débito. Direito de retenção O direito de retenção assegura ao credor. 417 e s. 958). o sinal poderá ser restituído ou computado como parte do pagamento do devido (art. privilégio geral é o que recai sobre todos os bens do devedor.021-381. Podem ser elas em dinheiro ou em outros bens fungíveis. o direito de retenção. Direito Civil . Privilégios A preferência significa a vantagem de alguns credores de receber antes de outros.Direito das Obrigacoes . A retenção pode decorrer das disposições legais ou de cláusulas contratuais. 5. de outras medidas com as quais tem afinidade. Arras ou sinal (arts.

021-381. com seus acessórios e frutos. a insolvência e o consilium fraudis. estes exercem perante o juiz do inventário a faculdade de aceitar a herança renunciada.De acordo com o art.indd 211 25/4/2011 15:18:54 . Provado o prejuízo dos credores. Caso especial de prote. para garantir o pagamento dos créditos existentes contra ele. 1. Revogação dos atos prati. ao patrimônio do devedor alienante. com autorização do juiz.813 do Código Civil. com o que se torna ineficaz a renúncia (pagas as dívidas e havendo sobras. mas não constitui vício da vontade. real ou presumido. “Quando o herdeiro prejudicar os ção do crédito seus credores.garantias do crédito 211 6. poderão eles.A fraude contra credores é um defeito do cados em fraude contra negócio jurídico.Direito das Obrigacoes .1. estas passam aos outros herdeiros). 6. aceitála em nome do renunciante”. renunciando à herança. credores A ação pauliana ou revocatória é intentada contra o terceiro adquirente a fim de que restitua a coisa. Direito Civil . São requisitos para a ação pauliana: a anterioridade do crédito em relação à alienação feita pelo devedor.

5.1. podendo ser a título universal. 3. 4. sem necessidade de prestar contas deste. abrindo mão de um direito seu. inicialmente. 6. Cessão de crédito A cessão de crédito é o ato pelo qual um credor transmite seu crédito a outrem. que se transfere ao novo credor gratuita ou onerosamente.021-381. 2.Capítulo 10 TRANSMISSÃO DAS OBRIGAÇÕES Sumário: 1. 1. quando só se refere a um crédito específico (v. mediante a representação em causa própria. ou a título singular. A transmissão das obrigações pode apresentar-se sob a forma ativa (cessão de crédito) ou passiva (assunção de dívida ou cessão de débito). Assunção de dívida ou cessão de débito. quando abrange todos ou uma fração da totalidade dos bens do cedente (como ocorre em relação ao herdeiro). Formas e efeitos da cessão. um crédito contratual. entre pessoas vivas (inter vivos) ou em virtude de falecimento (mortis causa). Bens intransmissíveis. g. Classificação. Natureza jurídica da cessão de crédito e da assunção de dívida. A transmissão se realizou. que foi cedido). 6.indd 212 25/4/2011 15:18:54 . O direito romano primitivo considerava o vínculo obrigacional tão pessoal e ligado às pessoas do credor e do devedor que não admitia a transmissão de obrigações a não ser mortis causa.. Responsabilidade do cedente. admitindo-se posteriormente não a cessão do direito. Ela só foi consagrada no direito em virtude de necessidades práticas. mas a da ação própria Direito Civil .Direito das Obrigacoes . Cessão de crédito. pela qual o cedente dava ao cessionário um mandato para receber um crédito.

A natureza jurídica de cessão pro solvendo é objeto da análise de juristas. No tocante à forma. quando surge em virtude de lei (no caso de sub-rogação estabelecida pelo art. 299 a 303). a ideia de cessão de crédito estava contida na representação. ainda admite classificação quanto à sua forma e à responsabilidade do cedente pela boa ou má liquidação do crédito. além de ser ativa (cessão de crédito) ou passiva (cessão de débito). A doutrina salienta que. No Capítulo II trouxe novas regras sobre a assunção de dívida que não encontram correspondência no Código de 1916 (arts.Direito das Obrigacoes .021-381. na hipótese de não pagamento do crédito. gratuita (representando uma liberalidade). Classificação A transmissão das obrigações. podendo ver-se nela uma espécie de mandato com Direito Civil . correndo os riscos desta por conta do cessionário. que. cessão contratual de um crédito). 286 a 298). E pro solvendo quando. e judicial. em qualquer hipótese. disciplinando no Capítulo I a cessão de crédito (arts.. que se torna assim corresponsável pelo débito. não se obriga pela sua boa ou má liquidação. A cessão é pro soluto quando o cedente. revestindo a forma de um mandato sui generis. constituindo verdadeira compra e venda. o cessionário pode exigi-lo do cedente. a cessão de crédito é convencional. quando decorrente de acordo de vontades entre o cedente e o cessionário (v. ao menos até o limite do que recebeu do cessionário. O Código Civil brasileiro dedicou o Título II — “Da Transmissão das Obrigações” — do Livro I — “Do Direito das Obrigações” à transmissão das obrigações. até o Código Civil francês.transmissão das obrigações 213 para cobrar a dívida. g. 346). 2. em causa própria. quando se apresenta como consequência necessária de uma sentença judicial. nada mais terá a reclamar do cedente. que pode ter sido homologatória de uma partilha (atribuindo a herdeiro ou legatário determinado crédito do falecido) ou adjudicatória ao autor de um crédito existente em favor do réu. a título universal ou singular. inter vivos ou mortis causa. embora garantindo a existência do crédito. ou onerosa (feita mediante o pagamento de um preço).indd 213 25/4/2011 15:18:54 . legal.

245/91) e a do mandato (art. Na hipótese de não pagamento pelo devedor. 682. 605).indd 214 25/4/2011 15:18:55 . do CC). Carvalho de Mendonça considera que somente a natureza da obrigação ou a lei pode ser Direito Civil .214 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS direito do cessionário a compensar o crédito recebido com o débito que o cedente tem para com ele. Nem aquele a quem os serviços são prestados pode transferir a outrem o direito aos serviços ajustados. todos os créditos ou direitos obrigacionais são transmissíveis. No silêncio das partes. 8. É a lei que proíbe. 297). Acontece. 247).. a própria natureza da obrigação. o poder familiar) e as obrigações que existem intuitu personae (direito aos alimentos. Também são intransmissíveis o direito de preferência (art. São intransmissíveis. Assim. as determinações legais ou a convenção existente entre as partes excluem a transmissão. acrescido de juros e custas ou despesas referentes à cobrança (art. todavia. é aconselhável que as partes mencionem sempre na cessão se há ou não responsabilidade do cedente pela solvência do devedor. os direitos que não têm conteúdo exclusivamente patrimonial e por esse motivo não criam obrigações (v. Bens intransmissíveis Em tese. 13 da Lei n. mesmo que de modo expresso assuma tal responsabilidade. dar substituto que os preste (art. nem o prestador de serviços. entende-se que o cedente não responde pela solvência do devedor (art. Para evitar dúvidas. sem aprazimento de outra parte. a lei determina que só deve devolver ao cessionário o que dele recebeu. e. 3. II. em relação a alguns deles. ou seja. 296). obrigando o cedente a pagá-lo. salvo convenção em contrário. por sua natureza. ou seja. a cessão de locação imobiliária (art. que. Discute-se na doutrina a possibilidade de tornar as obrigações indisponíveis em virtude de convenção. que está na zona limítrofe entre o direito obrigacional e o de família). pela boa ou má liquidação do crédito. g.Direito das Obrigacoes . 520) e as obrigações infungíveis.021-381. o cessionário exige o pagamento devido. aquelas que devem ser prestadas pelo devedor e não podem ser delegadas a terceiros (art.

654. Para ter eficácia perante terceiros. jamais a vontade das partes1. 4. consenso e objeto lícito. o que é perfeitamente lícito diante do texto do Código Civil. exige pessoas capazes (cedente e cessionário). 6. p.)”.Direito das Obrigacoes . tendo em vista a proteção da boa-fé.indd 215 25/4/2011 15:18:55 .. a data e especificar o seu objeto. se a isso não se opuser a natureza da obrigação. Efetivamente. § 9. 103. como também era na vigência do antigo Código. se não constar do instrumento da obrigação”.021-381. o ato deve revestir-se das formalidades exigidas para o mandato apostas no art. 4. ed.. 1956. 286 do CC. atual.. § 1. A redação do atual Código. isto é. no caso de a transmissão dar-se por instrumento particular. t.º. Algumas vezes. Formas e efeitos da cessão A cessão é consensual. da Lei n. A capacidade deve ser 1 Carvalho de Mendonça. a lei. Conforme a regra do Código Civil. A cessão. sem exigir para a sua validade entre as partes qualquer espécie de solenidade. como qualquer contrato. todavia. em especial com a redação do art. 2.º. diz o referido artigo: “O credor pode ceder o seu crédito. que se refere expressamente à possibilidade de exclusão pelo contrato de transmissibilidade das obrigações. a cessão exige a assinatura de um instrumento público ou particular (arts. a qualificação das partes. as relações pessoais entre devedor e credor e a possibilidade de compensação de débitos entre ambos ou de apresentação de exceções pessoais só oponíveis ao credor originário levam as partes contratantes a afirmar. 221 e 288 do CC e 129. acrescenta ainda: “(. Direito Civil . O problema deixou de ter maior interesse diante do texto explícito do art.. a intransmissibilidade da obrigação sem prévio acordo do devedor.015/73). dependendo tão somente do acordo de vontades entre cedente e cessionário.transmissão das obrigações 215 causa de intransmissibilidade. Doutrina e prática das obrigações. ou a convenção com o devedor (. o instrumento deve indicar o lugar. na própria convenção. 286 já citado..) a cláusula proibitiva da cessão não poderá ser oposta ao cessionário de boa-fé.

Se houver várias cessões sucessivas feitas pelo mesmo cedente a diversos cessionários. Se isso não ocorrer. Direito Civil . A declaração particular ou por instrumento público do devedor de que tem ciência da cessão dispensa a notificação (art. Ademais. importa ela em impedir que o devedor venha a fazer o pagamento ao cedente. havendo autores que dão preferência a quem em primeiro lugar notificou o devedor. em relação ao crédito hipotecário. Determinados direitos exigem para a sua transferência formas especiais. 292 estabelece que. 291 do CC). 290). Após a notificação. 289 do CC). a lei garante o direito daquele que em primeiro lugar inscreveu a cessão no Registro de Imóveis (art. terá pago mal.Direito das Obrigacoes . Tratando-se de dívida com garantia hipotecária. o da obrigação cedida”. A notificação pode ser judicial ou extrajudicial. se o devedor fizer o pagamento do débito ao cedente. 290). ressalvadas as exceções previstas pelo Plano Nacional de Habitação. Assim. com título de cessão. independe da assinatura de instrumento público ou particular. quando o crédito é representado por título. no caso de ter sido notificada mais de uma cessão. o devedor fica desobrigado quando “paga ao cessionário que lhe apresenta. as opiniões divergem. admitindo-se que seja feita por carta endereçada ao devedor por intermédio do oficial do Registro de Títulos e Documentos. abrangendo a de alienar e ultrapassando os poderes de simples administração. mas contra este somente passa a ter eficácia depois de ter sido ele notificado (art. aquela em que houve tradição do título representativo do crédito (art. Quando a cessão é legal ou judicial. por ser evidente a sua má-fé. assim. realizar cessão de direito sem autorização judicial expressa para tanto o curador no tocante a crédito do curatelado. Embora a notificação não seja indispensável para a realização da cessão. Na cessão de crédito não se exige o consentimento do devedor. entende-se que prevalece. e assim pagará uma segunda vez ao cessionário. o art. não se tratando de título de crédito.216 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS ampla.indd 216 25/4/2011 15:18:55 . a sua cessão deve sempre ser por instrumento público. não podendo.021-381.

apresentar as exceções. também. não responde o cedente pela solvência do devedor (art. A cessão de crédito abrange. 295).transmissão das obrigações 217 A cessão do título ao portador. O cessionário se substitui ao cedente em todos os seus direitos contra o devedor. a de títulos nominativos (cheque nominativo. como o cheque de pequeno valor. realiza-se mediante simples tradição. o que abrange não apenas o fato de haver crédito como também o de ser o cedente titular dele. Ao contrário.indd 217 25/4/2011 15:18:55 . Mesmo na hipó- 2 Exceção corresponde à defesa indireta. que pode ser material ou processual. salvo convenção expressa das partes.Direito das Obrigacoes . 293. o cedente é responsável perante o cessionário pela existência real do crédito. nenhuma oposição apresenta. o cessionário pode exercer todos os atos conservatórios do direito cedido. Há a responsabilidade pela existência do crédito em toda cessão onerosa. notificado da cessão. 294). e. a assinatura do cedente no verso do título. 296). em relação ao cedente. assim como o das ações nominativas. Direito Civil . não pode em seguida alegar compensação com o cedente com a finalidade de não pagar o cessionário. independentemente de o devedor ter conhecimento da cessão. O devedor pode opor ao cessionário todas as exceções2 que lhe competirem. ou seja. em certos casos. em que as partes manifestem desde logo o conhecimento do caráter litigioso do crédito. salvo convenção em contrário. nota promissória) exige o endosso. e na cessão gratuita estando o cedente de má-fé (art. 5. O devedor que. Responsabilidade do cedente Salvo convenção em contrário. os seus acessórios e as suas garantias (art. e. que tinha no momento em que veio a ter conhecimento da cessão (art. nos termos do art. a assinatura de termo em livro próprio da sociedade anônima. não tendo havido entre este e o devedor compensação ou pagamento anteriormente à cessão.021-381. Pode. 287).

antes de notificado da penhora.021-381. assim como os juros do capital investido (art. em que. uma modificação da pessoa do credor. não se aplicando aos casos de cessão legal ou judicial. na forma do art. na relação jurídica. num título de crédito. todavia. mas somente o que este gastou para obter a cessão do crédito e tentar cobrá-lo do devedor. pouco importando o que tenha pago anteriormente ao cedente e as despesas de cobrança que tenha tido (art. a modificação da pessoa do credor pode ser realizada. na qual se substitui uma obrigação antiga por uma nova. entre o credor e o devedor com a quitação do antigo credor ao devedor e a criação de novo crédito em favor de um novo credor. Direito Civil . a disposição legal existente na matéria que as partes convencionem de modo diferente. Se assim mesmo for feita a cessão e o devedor pagar ao cessionário. caso em que o cessionário (endossatário) poderá exigir o pagamento do valor do título. Poder-se-ia caracterizar a cessão de crédito como uma novação subjetiva ativa. ou seja. o cedente não será obrigado a pagar ao cessionário o valor nominal do crédito. o cedente (endossante) ao mesmo tempo como avalista do devedor. 6. Há diferença. funcionando. pois a novação supõe acordo entre as partes contratantes. 360. como vimos. Não impede.218 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS tese de ser o devedor insolvente. contra a vontade do devedor. desde que dela não tenha sido notificado. 298). todavia. O crédito penhorado não pode ser transferido pelo credor ciente da penhora. Natureza jurídica da cessão de crédito e da assunção de dívida A cessão de crédito tem certa analogia com a novação. poderá pagar ao cedente após a cessão. entre os dois institutos. que. o credor pignoratício só poderá agir contra o cedente. por exemplo. 297).Direito das Obrigacoes .indd 218 25/4/2011 15:18:55 . ao contrário. Não é o que ocorre na cessão de crédito. III. independentemente de qualquer interferência deste. As garantias quanto à existência do crédito e sua solvência só existem evidentemente na hipótese de cessão convencional.

afirmar a semelhança entre as duas estruturas.998. surgindo outro com total independência e traços novos.021-381.transmissão das obrigações 219 Podemos. REsp 118. o negócio é feito com o credor. Assunção de dívida ou cessão de débito3 O Código Civil trouxe a disciplina sobre a assunção de dívida no Capítulo II do Título que trata da transmissão das obrigações. 350). Barros Monteiro.ª T.611/AM.. Min.ª T. com regulamentação própria no novo Código Civil. DJ. Sobre decisões do STJ a respeito de assunção de dívida. Rel. 4. DJ. Espécies — A assunção de dívida é um negócio jurídico pelo qual um terceiro assume a dívida em lugar do devedor. com ou sem aceite deste. ocorre um acordo entre o devedor originário e a pessoa que vai substituí-lo na relação jurídica. 29 jun. 299 a 303.ª T. avisando-se o credor. Min. mas estruturas distintas. que têm funções análogas. Na sub-rogação. 13 dez. enquanto na novação o direito inicial desaparece. anteriores ao novo Código Civil.830/BA. 1999. Em geral. 3 V. A assunção de dívida e sua estrutura negocial. Direito Civil . A assunção de dívida pode revestir a forma de expromissão e de delegação. especificamente em seus arts. 1982. o cessionário pode exigir ainda os juros e as despesas que teve para a cobrança. REsp 160.indd 219 25/4/2011 15:18:55 . 6. Rio de Janeiro: Liber Juris.1. Na primeira. Ruy Rosado de Aguiar. há um acordo entre o credor e o novo devedor. Também na sub-rogação ocorre a extinção do direito de crédito e a criação de um direito novo. que poderá concordar ou não. mantendo-se na cessão todos os acessórios e as garantias do direito cedido. Min. enquanto na cessão.. o credor só tem direito à quantia que desembolsou (art. Demócrito Reinaldo. na hipótese de não ser pago o crédito. Na delegação. distinta da existente em relação à cessão. pois o credor aceita a responsabilidade do novo devedor pelo pagamento da dívida. 4. mas pode ser feito com o devedor.Direito das Obrigacoes . 1998. 1. Rel. 12 abr. 1999.. estudo exaustivo de Luiz Roldão de Freitas Gomes. Rel. não havendo necessidade de comparecimento do devedor antigo. DJ. assim. ver: ROMS 9.

admite expressamente a assunção de dívida nos arts.021-381. O Código Civil. 299 e seguintes tornando inequívoco que “É facultado a terceiro assumir a obrigação do devedor. enquanto na delegação há necessidade do seu comparecimento. entende-se que. exonerar-se de sua responsabilidade pelo pagamento de débito na hipótese de concordar. no caso. o que caracteriza a novação. O novo devedor tem a possibilidade de alegar contra o credor todas as exceções do devedor antigo. o acordo em relação ao credor se este não se opuser à substituição.220 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS assumindo a sua obrigação. porque continua o débito antigo. Na novação. res inter alios acta4.Direito das Obrigacoes . pois a obrigação que surge não é nova e independe da anterior. Sem ela. de interferência do devedor originário. Também nessa situação não ocorre propriamente novação. por ser. a expromissão se equiparava à novação. Somente com a confirmação do credor é que a cessão de débito se torna perfeita e válida. Direito Civil . não havendo extinção de uma obrigação e criação de obrigação nova. No direito vigente. é simples obrigação entre as partes que não obriga terceiro. necessária se tornaria a presença do devedor originário. ficando o acordo dependente da aceitação por parte do credor. com o consentimento expresso do credor. ocorre uma espécie de estipulação em favor de terceiro na qual o cessionário se compromete com o cedente a pagar determinado montante ao credor. expressa ou tacitamente. para ele. por haver modificação da pessoa do devedor. embora seja outro o devedor. na expromissão. regulando a matéria. A diferença entre os dois institutos é a ausência. todavia. só valerá. menos as que lhe forem personalíssimas. e assim não obriga o credor. ficando exonerado o devedor primi- 4 Coisa entre outros feita. não ocorre novação. No direito romano. o credor com a substituição realizada. todavia. O devedor originário só pode. embora alguns autores indiquem distinções entre ambos os institutos. A segunda hipótese lembra a delegatio do direito romano.indd 220 25/4/2011 15:18:55 . Quando o devedor originário transfere o seu débito a terceiro que o assume.

SÍNTESE 10 — TRANSMISSÃO DAS OBRIGAÇÕES 1. 299). poderá pagar. 303. Além disso. o Código Civil se refere ao caso do adquirente do imóvel hipotecado que se responsabiliza pelo pagamento do débito hipotecário. não podendo o novo devedor opor ao credor as exceções personalíssimas que competiam ao devedor primitivo (art. salvo as prestadas por terceiros que não tinham conhecimento do respectivo vício (art. deve impugnar a transferência em trinta dias. 299 trata da manifestação do credor sobre o negócio realizado e determina que pode ficar estipulado um prazo para que ele consinta na assunção da dívida. que se transfere ao novo credor gratuita ou onerosamente (arts. O instituto da assunção de dívida apresenta assim aspectos práticos da mais alta relevância. a permanência das garantias do crédito dadas pelo devedor primitivo depende da manifestação expressa da sua vontade (art. pois concede crédito a alguém que. O Código diz que o credor. A anulação da assunção de dívida importa em restaurar o débito do devedor originário com todas as suas garantias. Como aplicações específicas da assunção de dívida. o parágrafo único do art. salvo se aquele. conforme o seu art. abrindo mão de um direito seu. e. Cessão de crédito Direito Civil . sendo notificado. ao tempo da assunção. 286 a 298) 25/4/2011 15:18:55 . o banco não é obrigado a aceitar qualquer devedor.indd 221 A cessão de crédito é o ato pelo qual um credor transmite seu crédito a outrem. Nesse caso. emprego e outros fatores. dependendo dos rendimentos. caso não faça. em princípio.transmissão das obrigações 221 tivo. se não o faz. 302). o silêncio será interpretado como a reprovação da respectiva cessão de débito. era insolvente e o credor o ignorava” (art.Direito das Obrigacoes .021-381. 301). 300). “entender-se-á dado o assentimento”. sendo que foi apropriada a sua regulamentação expressa pelo estatuto civil. De acordo com a disciplina do Código Civil.

o cessionário poderá exigi-lo do cedente.Direito das Obrigacoes . Classificação A transmissão das obrigações pode apresentar-se sob a seguinte forma: ativa ou passiva. 4. 6. não se obriga pela sua boa ou má liquidação.021-381.º. independe da assinatura de instrumento público ou particular. Formas e efeitos da ces. 3. a título universal ou a título singular. gratuita ou onerosa. A cessão é pro soluto quando o cedente. No tocante à forma: convencional.A cessão é consensual. O credor pode ceder o seu crédito se a isso não se opuser a natureza da obrigação. na hipótese de não pagamento do crédito. Direito Civil . 221 e 288 do CC e 129. legal e judicial.222 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 2. todavia. inter vivos ou mortis causa. e pro solvendo. Bens intransmissíveis São intransmissíveis. embora garantindo a existência do crédito. 290). Quando a cessão é legal ou judicial. a cessão exige a assinatura de um instrumento público ou de instrumento particular (arts. mas contra este somente passa a ter eficácia depois de ter sido ele notificado (art. § 9. consenso e objeto lícito. Para ter eficácia perante terceiros. A cessão exige pessoas capazes. por sua natureza. quando.indd 222 25/4/2011 15:18:55 . da Lei n. Na cessão de crédito não se exige o consentimento do devedor. 286).015/73). os direitos que não têm conteúdo exclusivamente patrimonial e por esse motivo não criam obrigações e as obrigações que existem intuitu personae. a lei ou a convenção com o devedor (art. dependendo tão são somente do acordo de vontades entre cedente e cessionário.

na relação jurídica.Salvo convenção em contrário em que as dente partes manifestem desde logo o conhecimento do caráter litigioso do crédito. todos os acessórios e as garantias do direito cedido são mantidos. salvo convenção expressa das partes. ção de dívida uma modificação da pessoa do credor. enquanto na novação o direito inicial desaparece. 360. na forma do art.1. 6. Direito Civil . Natureza jurídica da ces. Na cessão.021-381.Direito das Obrigacoes . 299 e seguintes.como uma novação subjetiva ativa. Há a responsabilidade pela existência do crédito em toda cessão onerosa e na cessão gratuita estando o cedente de má-fé (art.transmissão das obrigações 223 A cessão de crédito abrange.indd 223 25/4/2011 15:18:55 . III. surgindo outro com total independência e traços novos. Responsabilidade do ce. pela solvência do devedor. ou seja. com ou sem aceite deste. 5. Ela pode revestir a forma de expromissão e de delegação. o cedente é responsável perante o cessionário pela existência real do crédito. 6. As garantias quanto à existência do crédito e sua solvência só existem na hipótese de cessão convencional.Pode-se caracterizar a cessão de crédito são de crédito e da assun. não se aplicando aos casos de cessão legal ou judicial. os seus acessórios e as suas garantias (art. Assunção de dívida ou A assunção de dívida é um negócio jurídicessão de débito co pelo qual um terceiro assume a dívida em lugar do devedor. 295). 287). O Código Civil admite expressamente a assunção de dívida nos arts. Não responde o cedente. salvo convenção em contrário.

Direito das Obrigacoes .indd 224 25/4/2011 15:18:55 .021-381.Direito Civil .

indd 225 25/4/2011 15:18:55 .021-381.Teoria Geral dos Contratos Direito Civil .Direito das Obrigacoes .

Direito das Obrigacoes .Direito Civil .indd 226 25/4/2011 15:18:55 .021-381.

seguindo. aplicam-se. 3. Ademais. 2. as disposições do Título anterior”. A evolução do contrato e o Código Civil. dos atos jurídicos lícitos. 4. 1.Direito das Obrigacoes . não distinguindo ato jurídico de negócio jurídico.). Interferência do Estado nos contratos. com um só artigo. no Título I. com base no sistema germânico. e no Título II. do negócio jurídico (arts. adotou a corrente que diferencia o ato jurídico lícito do negócio jurídico. 5. que diz: “Art. que não sejam negócios jurídicos. 104 e s. no que couber. obrigatoriedade dos contratos e a boa-fé.2. Noção de contrato e evolução histórica. nesse ponto. com três artigos. falando. A internacionalização do contrato. Já o Código de 2002. De fato. 2.indd 227 25/4/2011 15:18:55 . sobre a definição de negócio jurídico há duas correntes: a voluntarista e a objetivista. o Código de 2002 cuida. Finalmente. Concepção clássica do contrato. Ao contrário do velho. trata dos atos ilícitos (arts. 217 e 295). dos fatos jurídicos. Aos atos jurídicos lícitos. A primeira defende que o negócio jurídico é um “ato de vontade autorizado pelo ordenamen- Direito Civil . supremacia da ordem pública. 2. o Título III. 185. na sua Parte Geral. o Código Civil de 2002 não conceitua o negócio jurídico. no Livro III. o Código Civil português de 1967 (arts. Noção de contrato e evolução histórica O Código Civil de 1916 seguiu o modelo francês. também chamado unitário. 186 a 188).Capítulo 11 O CONTRATO — GENERALIDADES Sumário: 1.021-381. Princípios básicos do direito contratual: autonomia da vontade. O princípio da boa-fé.1.

p. modificar ou extinguir obrigações (direitos relativos de conteúdo patrimonial). 5 Jean Jacques Rousseau. ou pode ser classificado como bilateral. a que o direito liga o nascimento. em determinadas legislações. t. 1 Direito Civil . Madrid.indd 228 25/4/2011 15:18:55 . 1969. ou de várias delas. 20. n. São os jusnaturalistas que levam o contratualismo ao seu apogeu. 9. à própria lei. Seja a manifestação da vontade. 1956. ed. o Francesco Santoro-Passarelli. Do contrato social. 26. São Paulo: Nova Cultura. Napoli. é concebido como um acto de autonomia privada. 58. 1. tendo em conta a responsabilidade do ou dos sujeitos e a confiança dos demais”2. 2 Luigi Cariota Ferrara. 1981. 98. Teoria geral do negócio jurídico. e “A manifestação precípua desta autonomia é o negócio jurídico. o contrato se firmou. O contrato é um negócio jurídico bilateral. quando basta a de uma só pessoa (testamento). El negocio jurídico. Coimbra. chamado de plurilateral (contrato de sociedade). num clima de formalismo. p. assegurando à vontade humana a possibilidade de criar direitos e obrigações.021-381. Surge assim o princípio pacta sunt servanda4. n. A corrente objetivista entende que o direito reconhece a autonomia privada. a teoria da autonomia da vontade foi desenvolvida pelos enciclopedistas filósofos e juristas que precederam a Revolução Francesa e afirmaram a obrigatoriedade das convenções. Surgido no direito romano. precisamente. pois depende de no mínimo duas declarações de vontade. tradução portuguesa de Fernando Miranda. 4 Os pactos devem ser observados. Dottrine generali del diritto civile.. no direito canônico. seja a da autonomia privada. 2. 1999. Oriunda dos canonistas. visando criar. o qual. tradução espanhola. quando se forma por manifestação de duas pessoas (o casamento). É o que afirma Emilio Betti3. de inspiração religiosa. equiparando-as. 1. a modificação ou a extinção de relações jurídicas entre particulares”. 3 Emilio Betti. baseando num contrato a própria estrutura estatal5 e fazendo com que.228 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS to a perseguir um fim seu”1 ou “negócio jurídico é manifestação da vontade dirigida a um fim prático que a ordem jurídica tutela. n. o negócio pode ser unilateral.Direito das Obrigacoes . Cap. para as partes contratantes.

o contrato só cria obrigações. o contrato opera a transferência dos direitos reais.Direito das Obrigacoes . Princípios básicos do direito contratual: autonomia da vontade. assim. durante a Idade Média. industriais e comerciais. O individualismo do século XIX. transferindo-se a propriedade em virtude da tradição para os móveis e do registro imobiliário para os imóveis. em seguida. permitindo. na realidade. garantindo amplamente o direito de propriedade e a faculdade de contratar com todas as pessoas nas condições e de acordo com as cláusulas que as partes determinassem. ao contrário. Direito Civil . assim. o postulado da liberdade dos homens no plano contratual.indd 229 25/4/2011 15:18:56 . inspirou-se na fórmula liberal dos fisiocratas. que só por si mesma. modificar ou extinguir qualquer direito. deixando-se ao arbítrio de cada um a decisão de todas as questões econômicas. 1. que exige a criação de grandes unidades financeiras. 2. do qual o Código Napoleão foi o maior monumento legislativo. inclusive os direitos reais. Constituiu. abrindo amplas perspectivas de liberdade à vontade humana. a estrutura das sociedades anônimas as grandes concentrações de capitais necessárias para o desenvolvimento da nossa economia em virtude do progresso técnico. podendo criar. de acordo com o qual “as convenções têm valor de lei entre as partes”. enquanto na tradição romanista mantida pelo direito alemão e pelo direito brasileiro. uma mística contratual.o contrato — generalidades 229 contrato não mais se limite a criar obrigações. em virtude das obrigações contraídas. supremacia da ordem pública. Houve.021-381. No sistema jurídico franco-italiano. que reduziram ao mínimo a interferência estatal.134 do Código Civil francês. poderia sofrer restrições ou limitações. sem qualquer interferência por parte da sociedade. o contrato o instrumento eficaz da economia capitalista na sua primeira fase. obrigatoriedade dos contratos e a boa-fé A autonomia da vontade inspirou o art. A reação do liberalismo individualista do século XIX contra as limitações impostas pelo Estado. admitia-se a onipotência do cidadão na administração e na disponibilidade de todos os bens. consagrou. Dentro do espírito dominante.

expandindo-se a 6 7 V. 4. ou seja. ou de norma imperativa. podendo revestir o aspecto de liberdade de contratar e da liberdade contratual. importando na possibilidade para as partes contratantes de derrogar as normas supletivas ou dispositivas. todavia. Quanto aos outros contratos.indd 230 25/4/2011 15:18:56 . Liberdade de contratar é a faculdade de realizar ou não determinado contrato. a liberdade contratual só sofre restrições em virtude da ordem pública. defende os bons costumes e a estrutura social.021-381. pois muitos deles são hoje verdadeiros contratos de adesão. Quanto à liberdade de contratar. enquanto a segunda importa na fixação das modalidades de sua realização.230 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS A autonomia da vontade apresenta-se sob duas formas distintas. Direito cogente. a ingerência da ordem pública em relação aos contratos se fazia sentir pelo combate à usura.Direito das Obrigacoes . As ideias solidaristas e socialistas e a hipertrofia do Estado levaram. até o século XIX. não especificamente regulamentados pelo direito vigente. o direito ao dirigismo contratual. por considerar o sistema legislativo vigente tais omissões como contrárias à ordem econômica e social estabelecida. cujo texto depende de aprovação prévia de organismos governamentais. o direito imperativo. Capítulo 13. proibindo as leis medievais as diversas formas de agiotagem. tem sofrido amplas restrições. econômica e política da comunidade. na lição dos dogmatistas modernos. especialmente no tocante à faculdade de fixar o conteúdo do contrato (liberdade contratual). tem sido mantida em termos gerais. enquanto a liberdade contratual é a possibilidade de estabelecer o conteúdo do contrato. possa constituir infração à lei a pessoa deixar de vender determinado artigo. no plano contratual. embora. que representa a projeção do interesse social nas relações interindividuais. A liberdade. n. Em tese. em determinados casos. Em determinada fase. O ius cogens7. A primeira se refere à possibilidade de realizar ou não um negócio. Direito Civil . dando um conteúdo próprio e autônomo ao instrumento lavrado. não havia maiores limitações. A liberdade contratual permite a criação de contratos atípicos6.

decorrente da lei. e permitiu.indd 231 25/4/2011 15:18:56 . ou seja. no caso de haver tais transformações. também tal obrigatoriedade. uma revisão ou um reajustamento dos termos do contrato (v. enquanto as situações das partes não sofrerem modificações substanciais.021-381. uma das importantes alterações trazidas pelo Código Civil foi a menção. tanto na conclusão do contrato quanto na sua execução. O contrato passou assim a ter um conteúdo de direito público. definida por Georges Ripert como “um ato legislativo. A obrigatoriedade dos contratos constitui. em virtude da elaboração de uma série de normas legislativas. o inquilino. e o consumidor. Temos então uma convenção-lei. Cap. uma projeção no tempo da liberdade contratual. com a legislação de emergência sobre locações.o contrato — generalidades 231 área das normas de ordem pública destinadas a proteger os elementos economicamente fracos. O princípio da boa-fé Em matéria contratual. todavia. Direito Civil .Direito das Obrigacoes . As partes são obrigadas a realizar as prestações decorrentes do contrato. da obrigatoriedade de os contratantes atuarem conforme a cláusula geral de boa-fé. interpretando-a rebus sic stantibus8. podendo alcançar até pessoas que nele não foram partes. pela criação do direito do trabalho. O direito contemporâneo limitou. en- 8 V. fixando princípios mínimos que os contratos não podem afastar (salário mínimo. 15). 422. elaborado por via convencional”. fixação de percentagens de juros).1. por sua vez. favorecendo o empregado. 2. O dirigismo contratual diminuiu e restringiu a autonomia da vontade. Introduziu-se expressamente no Código Civil um dos princípios norteadores de todas as relações obrigacionais e relevantes para a leitura dos negócios jurídicos. em seu art. também denominada pela doutrina boa-fé objetiva. por uma legislação específica em seu favor. como ocorre na convenção coletiva de trabalho. tabelamento de gênero. pronúncia e tradução no Capítulo 15.

e também no estabelecimento das consequências nas hipóteses de violação caso a caso. entendida como boa-fé. De fato.232 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS volvendo a valoração dos usos do tráfego ao considerar a ética e a boa conduta das partes desde as tratativas até a execução completa das obrigações. acarretando sua não aplicação diante do dinamismo e das mudanças sociais. A cláusula geral de boa-fé exige não apenas que a lei seja interpretada. o Código francês diz que as convenções devem ser executadas de boa-fé. O conteúdo dessa norma é preenchido por valores que não estão afirmados na lei. Direito Civil . e o controle do seu conteúdo é feito pelos próprios tribunais. ocasionalmente. A decisão do caso concreto está no empirismo. estabelecendo que se deve fazer com lealdade e confiança. corresponde a uma técnica legislativa que busca garantir a relação entre o direito e a realidade social. 1. de 1942. a cláusula geral fornece um ponto de partida para alcançar resultados justos e adequados.337. sendo extralegais os critérios utilizados. corrigida com base na interpretação contínua da jurisprudência. A regra da boa-fé objetiva configura-se como cláusula geral e. Já no Código alemão. o § 157 cuida da interpretação dos contratos. mas também completada e. a cláusula geral da boa-fé presta-se a atingir o fim de flexibilização do direito privado. o § 242 do BGB manda cumprir a prestação com “lealdade e confiança” (no original Treu und Glauben). Assim.021-381.Direito das Obrigacoes . no desenvolvimento das tratativas e na formação do contrato. Pretendeu-se afastar a rigidez do conteúdo das normas que impossibilita a sua adaptação às necessidades das situações concretas. na medida em que permite a participação da jurisprudência no preenchimento do conteúdo dos conceitos apostos nas normas. De fato. possibilitando a existência de um sistema jurídico aberto com constantes adaptações das normas legais às exigências do mundo de relações e da alteração dos seus valores com o tempo. observados os usos de relacionamento. Da mesma forma. em seu art. conforme o caso concreto. devem comportar-se conforme a boa-fé. portanto. O Código italiano. prescreve.indd 232 25/4/2011 15:18:56 . Constata-se que esta é a tendência no direito comparado. A cláusula geral de boa-fé configura-se como técnica legislativa que dá flexibilidade ao ordenamento jurídico. que as partes.

agindo com culpa ou falta de cuidado grave. Direito Civil . embora não o fosse. É chamado ainda de conceito negativo. Foi protegido o terceiro de boa-fé. ocultando a cláusula que não tinha sido registrada. Relaciona-se com fatores do sujeito e com os cuidados que deve ter nas suas relações com terceiros. O conceito ético da boa-fé subjetiva. Assim. ou o obstáculo que impede a aquisição da coisa”.indd 233 25/4/2011 15:18:56 . que adquiriu coisa livre. se o possuidor ignora o vício. 25-4-2001. Na boa-fé subjetiva. a pessoa age mal. 6. Já na boa-fé objetiva busca-se a proteção da confiança. do patrimônio desta. a correlativa proteção da expectativa que nasce em uma pessoa. não tentando se apropriar. Em outro caso. Cív. Des. que implica um estado de conhecimento do sujeito. por outro. isto é. É o caso do art.059. Em vários casos. AC 701. 76/862).201 do CC. 9 TJRS. o mesmo Tribunal Supremo entendeu oponível a boa-fé do terceiro. de modo que. levando em conta os deveres de diligência que se espera de um homem mediano. Representa. pois não havia registro. 490 do Código de 1916: “É de boa-fé a posse. exigindo-se que as partes atuem de acordo com os padrões usuais.ª Câm. não podendo alegar boa-fé.o contrato — generalidades 233 É preciso ressaltar. 74/872). os tribunais consideram a boa-fé como importante. não se limita à ignorância. que não se iguala ao sentido dado à boa-fé subjetiva. o dever de lealdade. em lance de esperteza. se deve fazê-lo. que só foi feito depois (RTJ. Rel.. Nesse sentido é o acórdão do Tribunal de Justiça do Estado de Rio Grande do Sul: “O imperativo da boa-fé exigia da demandada conduta que respeitasse a parceria. e. Carlos Alberto Álvaro de Oliveira.Direito das Obrigacoes . entretanto. mas não para eximir alguém dos cuidados necessários. correspondente ao art.641. representa algo psicológico que presume a ignorância da real situação jurídica. iludindo sua confiança e assim tornando inviável a continuação do contrato”9. o Supremo Tribunal Federal entendeu: “Não basta a alegação de boa-fé do comprador para afastar o direito real do financiador sobre a garantia” (RTJ. analisa-se o conhecimento ou a ignorância de determinada situação.021-381. j. Tratava-se de venda de automóvel que o vendedor adquirira com reserva de domínio. por um lado. ainda. 1.

Já o mesmo dicionário traz 10 Aurélio Buarque de Holanda. Nesse sentido. aplicando-se no direito brasileiro.indd 234 25/4/2011 15:18:56 . existem deveres secundários (Nebenpflicht) para ambos os contratantes que decorrem da regra geral da boa-fé. por sua vez. uma vez que a sua observância independe da vontade das partes. a norma do § 242 do Código Civil alemão. Por outro lado. a boa-fé tem natureza supletiva e função instrumental. especialmente nos contratos de longo prazo. Com a cláusula geral. que. para não frustrar o fim do contrato e agravar a vinculação do devedor. que devem observar os deveres secundários.Direito das Obrigacoes . no caso de situações imprevistas que venham a ocorrer. Aliás. todavia. de comum acordo. Ressalta-se. é difícil conceituar e explicar a boa-fé. que o significado da cláusula geral da boafé é vago. o Supremo Tribunal Federal já afirmou que a boa-fé deve presidir o comportamento das partes nos contratos e justifica a existência da correção monetária. ed. Direito Civil . além dos direitos e das obrigações principais estabelecidos nos contratos. Exige-se que a atuação de uma parte não cause danos à esfera jurídica da outra. devendo o seu conteúdo ser preenchido em conformidade com as práticas do mercado e com os usos do tráfico. ganhando o julgador um papel mais ativo. como princípio geral. antes mesmo da entrada em vigor do atual Código Civil. denominada na doutrina italiana dever de corretezza e na alemã Treu und Glauben.021-381. Ademais. Curitiba: Positivo. abandona-se a concepção do juiz como mero aplicador da lei e o seu dever de agir no limite da estrita legalidade. Probidade é termo que o dicionário explica como integridade de caráter e honradez. e a intensidade desses deveres secundários é verificada de acordo com o fim do negócio jurídico.234 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS A partir da regra da boa-fé nascem deveres acessórios de proteção (informação e lealdade) que não derivam da vontade das partes contratantes. obriga os contratantes a agir de boa-fé e com lealdade uns em relação aos outros. 2004. Dessa forma. Novo dicionário Aurélio. Exige-se a concretização dos escopos visados pelos contratantes. recentes decisões arbitrais entendem que a boa-fé obriga as partes a encontrar soluções equitativas. reduz a margem de autonomia privada. como se vê no Novo dicionário Aurélio10. 2.

12 Ripert. 13 Jacques Ghestin.134 do Código Civil francês: “As convenções legalmen- 11 Sherman L. Todos citam o famoso art. Jerusalém.2. conferência num congresso internacional sobre a boa-fé. devia sujeitar-se. Concepção clássica do contrato Funda-se o contrato clássico na autonomia da vontade. v. Ausência de intenção dolosa. “é um estado de espírito caracterizado pela honestidade de propósito. tal direito dizia que ele contratou porque quis. honesta intenção de abster-se de obter vantagem inconsciente de outrem. estando as partes em igualdade jurídica. fazendo presumir que o contrato. A regra moral nas obrigações civis. se um camponês aceitava trabalhar para um senhor feudal em troca de alimentação. Traité de droit civil. lisura”. o conceito deriva da equidade. 157. uma dizendo quanto quer receber e outra dizendo quanto quer ou pode pagar. n. expressão que parece cunhada por Charles du Moulin (1500-1566). se alguém precisa de combustível para o inverno e pode obtê-lo de um comerciante. ou seja. Paris. e. passando a ser servo da gleba com sua família. É o sentido mais corrente. preço este que as partes acordam livremente.Direito das Obrigacoes . em que uma das partes se obriga a entregar a mercadoria e a outra a pagar o preço acertado em dinheiro. Sherman L. no século XVI. Para Ripert. falta de intenção de ser injusto ou de fraudar. da Universidade de Paris I. 1. ou sem ofensa a ela. Cohn. Assim. sendo fiel ao dever ou obrigação”11. 184 a 187. que consagra uma exigência geral de lealdade nas relações contratuais. concluído por indivíduos livres e responsáveis. 1984. No direito angloamericano. Good faith and legal ethics. Igualmente.o contrato — generalidades 235 “boa-fé” (com traço de união) com sentido de “Certeza de agir com o amparo da lei. 2.indd 235 25/4/2011 15:18:56 . Jacques Ghestin. E para o Prof. Sinceridade. 2. logo. 1980. São Paulo: Saraiva. Baseia-se na prevalência da vontade livre.021-381. Direito Civil . 1937. n. está conforme à justiça13. que se supõe possa ser exercida por qualquer pessoa. a boa-fé é uma noção jurídica enquanto princípio geral de direito. Cohn. fará um contrato de compra e venda. segundo o Prof. “a boa-fé é um dos meios utilizados pelo legislador e pelos tribunais para fazer penetrar a regra moral no Direito Positivo”12.

para proteger a juventude e fiscalizar-lhe a educação.Direito das Obrigacoes .236 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS te formadas têm força de lei para aqueles que as fizeram. a Espanha e a Argentina pretenderam integrar no sistema estatal as grandes forças econômicas nacio- Direito Civil . fixando os princípios básicos da legislação trabalhista e adotando uma política nacionalista no tocante às minas. Nos Estados Unidos o New Deal de Roosevelt e na França a política do Front Populaire tendem a aumentar a intervenção do Estado na vida econômica e social do país. e de Napoleão III na França. 3. por sua vez. Devem ser executadas de boa-fé”. A propriedade privada já sofre restrições na Constituição mexicana. A Constituição de Weimar assegura a intervenção estatal na família. O corporativismo italiano e português garantiu. Tais princípios impregnam todas as constituições posteriores à Guerra de 1914. 1967. As ideias do governo provisório francês de 1848 repercutiram profundamente na política social de Bismarck na Alemanha com o socialismo de Estado. a partir de 1848 surgem novas pretensões que posteriormente se apresentariam sob a forma de direitos econômicos e sociais. a representação política das diversas profissões. 1969 e 1988 contêm referências especiais à função do Estado na ordem econômica e social. Depois da Guerra Mundial de 1939-1945. A Inglaterra começou as suas nacionalizações. merecedores da proteção estatal. Se as Constituições francesas de 1791 e 1793 se limitaram a assegurar os direitos políticos do homem. que também combate os monopólios. o intervencionismo alcançou os últimos redutos do liberalismo tradicional. 1946. Não podem ser revogadas senão por mútuo consenso ou por causas que a lei autorize.021-381. num sistema que em parte adotamos na Constituição de 1934.indd 236 25/4/2011 15:18:56 . Esta a chamada “força obrigatória do contrato”. à energia hidráulica e aos bancos. As Constituições brasileiras de 1934. Interferência do Estado nos contratos O estudo da evolução do direito constitucional nos revela uma profunda transformação na função estatal. e na empresa para harmonizar as relações entre empregados e empregadores. A intervenção estatal passou a ser considerada como a melhor técnica de combate às ideias socialistas.

Harold J. o contrato forçado.indd 237 25/4/2011 15:18:56 . a fim de atender às suas novas responsabilidades. 1946. constatando-se de modo inequívoco a falência do liberalismo econômico e procurando-se uma conciliação do liberalismo político com o dirigismo econômico. Mater et Magistra. Pelo equacionamento nacional dos problemas. A necessidade de maiores recursos para o Estado. expressa nos textos das Encíclicas Rerum Novarum. aumentar o controle da economia nacional e das medidas contra os trustes e monopólios. Populorum Progressio. Pacem in Terris. que encontra base de apoio na melhor doutrina da Igreja. Quadragesimo Anno. A intervenção do Estado tornou-se assim. na palavra autorizada de Harold Laski. o contrato dirigido. “ou a democracia política deve dominar o monopólio econômico. pois. a necessidade de impedir o aparecimento de interesses privados que pudessem entrar em choque com o interesse público exigiram do Estado uma interferência cada vez maior na vida nacional. ocorreram numerosas nacio­ nalizações de grandes empresas. os países balcânicos sofreram uma socialização crescente. a proteção dos elementos fracos. 14 Direito Civil . Na França. a defesa nacional no plano econômico.021-381. um meio de assegurar a manutenção do regime democrático. Reflexões sobre a revolução de nossa época. o Fair Deal de Truman pretendia intensificar a legislação trabalhista. São Paulo: Companhia Editora Nacional. ou o monopólio econômico dominará a democracia política”14. a defesa da moeda.Direito das Obrigacoes . Uma superestrutura ideológica veio justificar a nova atitude assumida pelo Estado. destacando-se a função industrial e comercial do Estado por intermédio de sociedades de economia mista e de empresas públicas. na realidade. fazendo surgir o contrato publicidade. pela instauração de seu curso legal e de seu curso forçado. 367-368. revogando a legislação restritiva da liberdade sindical. Nos Estados Unidos. Lasky. a economia foi sendo planificada.o contrato — generalidades 237 nais. os contratos de adesão e o contrato evolutivo. p.

A estatização crescente refletiu. nos contratos de seguros (IRB e SUSEP). Jurídica. Banco do Brasil. mas uma modificação de caráter qualitativo que assegure a todos melhores condições de vida15. Trata-se de transformar o dirigismo num planejamento dialogado que deve decorrer dos entendimentos entre a iniciativa privada e a administração. Direito Civil . na indústria (Companhia Siderúrgica Nacional. na criação de autarquias. BNDES. com atuação nos setores mais variados desde a previdência social até a vida bancária (Banco Central. a partir de 1930.Direito das Obrigacoes . 103/669687. um superdimensionamento ou uma hipertrofia do Estado. empresas públicas. a concentração econômica e o desenvolvimento tecnológico. abrangendo a interferência dos órgãos públicos nas importações e exportações.021-381. no mundo inteiro. nas décadas anteriores. na área habitacional e no desenvolvimento de regiões (SUDENE).indd 238 25/4/2011 15:18:56 . A meta a ser alcançada não é o simples processo econômico de caráter quantitativo. 15 Arnoldo Wald. mas também como operador. na organização da produção./dez. consagrando-se. Nuclebrás). Na realidade. em conciliar a democracia política com as aspirações sociais. Rio de Janeiro. assim. fundações e sociedades de economia mista. onerando os cofres públicos com uma gestão que nem sempre foi a mais econômica. a democracia tanto no plano econômico como no político e garantindo-se os direitos individuais e sociais. basicamente. ou da renda per capita. Petrobras). no mercado de capitais (Comissão de Valores Mobiliários). que constituem a condição indispensável do desenvolvimento de qualquer sociedade. no tabelamento de preços. 1968. O direito do desenvolvimento. na geração da energia (Eletrobrás e subsidiárias. não somente como regulador. um movimento no sentido da privatização da economia. out.238 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS O desafio da nossa geração consiste. bancos públicos estaduais e regionais). redefinindo-se a posição do Estado e atribuindo-lhe tão somente as funções que não podem ser exercidas pela iniciativa privada. A partir de 1980 consolidou-se. houve. que passou a atuar em todos os campos da economia. representado pelo aumento do produto nacional bruto.

Em algumas delas o Poder Público manteve um direito de veto em matérias específicas. que veio a ensejar a criação de um direito próprio. concebendo-se. eram controladas pelo Estado. o que se denominou o modelo tripartite. a sofrer modificação em virtude da política de privatização.indd 239 25/4/2011 15:18:56 . ensejando a transferência para o setor privado de importantes empresas que. agora. assim. e as sociedades multinacionais. a Alemanha e o Japão. que alguns autores chegaram a denominar lex mercatoria. o progresso tecnológico e a necessidade de maio­ res recursos para os grandes empreendimentos. nos seus Planos Nacionais de Desenvolvimento. tentou consagrar um sistema de associações (joint venture) entre o capital público (empresas públicas e sociedades de economia mista) e a iniciativa privada nacional. 4. em virtude de uma ação especial que foi criada pela legislação referente à desestatização. com reflexos no direito. ensejou um substancial aumento do comércio internacional de bens. serviços e tecnologias e uma progressão geométrica dos investimentos realizados no exterior. No Brasil. Desde 1970. o movimento de privatização. que ocorreu após a última Guerra Mundial. A internacionalização do contrato O extraordinário desenvolvimento dos transportes e das comunicações. implicando a importância crescente atribuída aos contratos internacionais. desenvolveu-se nos dois últimos governos. a Inglaterra. inicialmente em países como a França. o Governo brasileiro. as grandes empresas estatais foram privatizadas.o contrato — generalidades 239 Assim. constituindo-se verdadeiras megaempresas de caráter e atuação multinacional. em todos os países. de um lado. generalizando-se esse movimento após a queda do Muro de Berlim e alcançado os antigos países comunistas. inclusive no campo da pesquisa. anteriormente. de outro. que chegou a predominar na indústria petroquímica e está. exercendo um papel cada vez mais importante na economia mundial. maior concentração empresarial. Direito Civil . Por outro lado. Essas sociedades passaram a ter a estrutura e as dimensões de verdadeiros Estados.021-381. embora já discutido anteriormente. fizeram com que houvesse.Direito das Obrigacoes .

pois refletiam um ato de liberdade individual. O contrato nasceu formalista e típico. Paris: LGDJ. mas que. por decorrer de um acordo de vontades.Direito das Obrigacoes . RF. como ocorreu em relação a Itaipu. C. o Governo Federal decidiu alterar a política nacionalista que imperava no País desde o Estado Novo. na concepção dos enciclopedistas que inspiraram a Revolução Francesa e o Código Napoleão. pela sua própria natureza. aguardando regulamentação específica. A evolução do contrato e o Código Civil Poucos institutos sobreviveram por tanto tempo e se desenvolveram sob formas tão diversas quanto o contrato. em consequência. Os tratados especiais com a Argentina e demais países do Mercosul ensejaram a criação das binacionais. no mundo capitalista e no próprio regime comunista16. 328. devia ser considerado justo e.indd 240 25/4/2011 15:18:56 . no direito romano. que fazia o papel da lei entre as partes. que. que se adaptou a sociedades com estruturas e escalas de valores tão distintas quanto as que existiam na Antiguidade.021-381. um instrumento vinculatório. no passado. 16 Direito Civil . assim. F. 5. O contrato. somente existiam no plano público. Evolução contemporânea do direito contratual. 1950.240 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Mais recentemente. Por longo tempo entendeu-se que os pactos deviam ser respeitados religiosamente (pacta sunt servanda). Traité élémentaire de droit comparé. atualmente. para transformar-se num instrumento cuja validade e eficácia decorria do fato de ser uma manifestação de vontade do indivíduo e. e abriu a economia para permitir amplamente os investimentos estrangeiros. p. multiplicando-se. liberando-os das restrições administrativas e fiscais que existiram até agora. de San Tiago Dantas. As empresas brasileiras passaram também a exportar mais e a investir no exterior. podem ser criadas no campo do direito privado. e René David. os problemas de direito internacional decorrentes dessas atividades. 139/5-13. na Idade Média.

Podendo transferir a propriedade no sistema franco-italiano. os contratantes passaram a ser Direito Civil . em todos eles. as limitações tanto à liberdade de contratar. o legislador. à fixação do conteúdo do contrato. a existência de uma affectio — a affectio contractus. e. ou não podendo fazê-lo no direito alemão e na legislação brasileira. sem que. Nos últimos anos. com a possibilidade de criação dos mais variados contratos inominados. como regra geral. inicialmente nos contratos de longo prazo. chegando os autores e a própria jurisprudência a admitir. ou seja. custasse o que custasse. devendo ser executado. Em vez de adversários. todavia. em seguida. e da Constituição de Weimar. deixou-se de conceber o contrato como decorrente ou representativo de interesses antagônicos. que existem tanto no direito privado quanto no direito público. na Alemanha. atípicos e mistos. Embora se mantivesse. e só recentemente é que a doutrina foi admitindo a importância crescente dos chamados contratos de colaboração.o contrato — generalidades 241 consequentemente. o contrato perdesse a sua função e utilidade. a onipotência da vontade individual. na maioria dos casos. quanto à liberdade contratual. de acordo com a intenção das partes.indd 241 25/4/2011 15:18:56 . era intangível. ou de não contratar.Direito das Obrigacoes . o grande instrumento jurídico do capitalismo incipiente que dominou o mundo até o fim da Primeira Guerra Mundial. o contrato compunha interesses divergentes. a mística contratual sedimentada pelo Código Napoleão. na Rússia. com alguma semelhança com outras formas de colaboração.021-381. Surgiram. certamente. aos poucos. Com o advento do comunismo. o sopro do socialismo. ampliando a área da ordem pública econômica. foi restringindo o conteúdo da autonomia da vontade. Os contratos que constituem liberalidades são relativamente menos importantes. o contrato foi. abalou. ressalvada tão somente a ocorrência da força maior e do caso fortuito. Durante muito tempo considerou-se que. da empreitada etc. em parte. que nele encontravam uma forma de solução. da locação. de cooperação e de organização. sob as suas diversas formas e com densidades distintas. como acontece nos casos da compra e venda. como a affectio societatis ou o próprio vínculo conjugal.

O direito de parceria e a nova lei das concessões.indd 242 25/4/2011 15:18:56 . para vislumbrar no contrato um ponto de equilíbrio necessário. inspirada no direito administrativo. o contrato permitia às partes evitar todos os riscos futuros. Já no início do século XX. uma obra de confiança mútua”.021-381. Luiza Rangel de Moraes e Alexandre de Mendonça Wald. um com o outro. no momento tanto da celebração do contrato como da sua execução. sacrificando-se alguns eventuais benefícios ao interesse social e ao interesse comum das partes. pretendeu-se que o contrato. mas ganhou em flexibilidade. uma relação equilibrada e igualitária. Mais recentemente outros autores franceses desenvolveram a tese da equação contratual. após termos abandonado a conceituação do contrato como manifestação ilimitada da liberdade individual. 2004. São Paulo: Saraiva. Hoje. no passado. ver Arnoldo Wald. referiam-se ao contrato como sendo “uma união de interesses equilibrados. uma evolução na qual. ou deve preponderar.242 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS caracterizados como parceiros17. o consenso que entre eles se formou.Direito das Obrigacoes . que pretendem ter. um instrumento de colaboração entre os contratantes. 17 Direito Civil . pois. garantindo-lhes a imutabilidade das prestações convenci­ onadas e a sobrevivência da convenção diante de fatos imprevistos. alguns autores. o contrato perdeu essa perenidade. Atualmente. um instrumento de cooperação leal. damos-lhe uma nova conceituação em que prepondera. independente. sobre a vontade individual de cada um dos contratantes. como René Demogue. Há. tendo em vista uma maior fraternidade e justiça. o contrato se transformou num bloco de direitos e obrigações de ambas as partes. alheia aos acontecimentos e prevalecendo sobre as eventuais modificações fáticas e legislativas. mesmo quando alteravam substancialmente a equação contratual. sem que seja lícito a qualquer deles tirar uma vantagem maior do que a racionalmente aceitável. Em recente estudo. era uma espécie de bolha ou uma ilha. no interesse de ambos e da própria sociedade. que devem manter o seu Sobre uma nova visão do direito na qual os conflitos de interesses de ontem são substituídos pelo novo direito de parceria. No passado.

conhecemos um contrato dinâmico e flexível. num vínculo ou até numa entidade. 76/618 e 77/884. e no qual. na qual todos os esforços são válidos e necessários para fazer subsistir o vínculo entre os contratantes. que evolui como a vida. que as partes querem e devem adaptar para que ele possa sobreviver. como vínculo que pode ter um conteúdo variável. os direitos individuais. as dificuldades encontradas no decorrer da sua existência. por ser obra comum destas. Um novo direito para a nova economia: a evolução dos contratos e o Código Civil. a relação que se estabelece entre contratos conexos e subordinados uns aos outros. de acordo com as circunstâncias que condicionam a atividade dos contratantes18. fixo.Direito das Obrigacoes . pelo eventual sacrifício de alguns dos interesses das partes. jul. 14/23-40. inclusive com a eventual substituição de cláusulas e a mitigação das sanções. por árbitros ou até pelo Poder Judiciário. fazendo com que os interesses divergentes do passado sejam agora convertidos numa verdadeira parceria. Assim.021-381. 18 Direito Civil .o contrato — generalidades 243 equilíbrio inicial. superando. a eventual nulidade ou substituição de uma cláusula não põe necessariamente em perigo toda a estrutura da relação jurídica. em vez do contrato irrevogável. cristalizado de ontem. respeitados. Vínculo entre as partes. a cessão do contrato e a assunção da posição contratual. Dentro desse conceito de parceria. A plasticidade do contrato transforma a sua própria natureza. a sua resolução ou a sua revisão em virtude da excessiva onerosidade. Essas modificações Arnoldo Wald. Rio de Janeiro. O Supremo Tribunal Federal chegou a admitir que determinados contratos estavam tão ligados uns com os outros que poderiam ser considerados como verdadeiros “irmãos siameses”19./dez. e entidade.indd 243 25/4/2011 15:18:56 . já agora como ente vivo. Revista do Ministério Público. evidentemente. 2001. Trata-se de uma verdadeira nova concepção do contrato. a oponibilidade das cláusulas contratuais a terceiros não contratantes. admite-se a anulação do contrato por lesão. ao contrário do que acontecia no passado. faculdades. 19 RTJ. obrigações e outros deveres. complementado pelas partes. constituída por um conjunto dinâmico de direitos.

de encontrar uma solução para os eventuais impasses que possam surgir. fazendo com que as partes adotem determinados critérios para definir os seus direitos. constitui uma verdadeira novidade para os juristas clássicos. aderiu ao relativismo. mas decorre de um imperativo categórico do mundo de hoje. ao contrário. com direitos e obrigações relativas.021-381. mas determináveis no momento de sua execução. na jurisprudência e. assim como a inspiração de certos ramos mais recentes da ciência jurídica. o contrato. destacando aquelas sem a presença das quais o contrato não teria sido assinado das que foram consideradas inicialmente como meramente complementares ou acessórias. forma de parceria. significando um dever. as modificações surgidas no contexto tornam imperativas a sua resolução. em virtude da incerteza generalizada. caracterizado pelos economistas como sendo o da descon­ tinuidade. em virtude do trabalho doutrinário realizado pela extensão do conceito de boa-fé e pelas obrigações implícitas de leal execução do contrato. imposto às partes.244 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS surgiram. também está vinculada à inflação e às rápidas mudanças tecnológicas. realidade viva. Num mundo em que nada mais é absoluto. da incerteza e da mudança. que se tornou condição sine qua non da sua sobrevivência no tempo. que era inconcebível no passado.Direito das Obrigacoes . a eventual necessidade de substituir certas cláusulas contratuais sem afetar as bases da equação contratual obrigou os contratantes e os juristas a realizarem uma verdadeira sintonia para distinguir as cláusulas principais ou essenciais das demais. Por outro lado. para subsistir. aceitando prestações indeterminadas no momento da celebração do contrato. A indeterminação das prestações contratuais. da globalização da economia e da imprevisão institucionalizada. em parte. em parte.indd 244 25/4/2011 15:18:57 . cabe-lhes verificar se as eventuais mutações sofridas pelas cláusulas principais permitem manter a equação contratual inicial ou se. Por outro lado. como o direito do consumidor e o desenvolvimento que passou a ter a equação contratual no direito administrativo. Por outro lado. Assim. autores recentes puderam afirmar que as regras do direito dos contratos se tornaram rela- Direito Civil . também exerceram importante influência sobre a nova conceituação do contrato as normas extravagantes e as chamadas leis de emergência. O contrato.

Revue Trimestrielle de Droit Civil. que exige uma reformulação dogmática. dela extraindo as consequências necessárias. Trata-se de passar do absoluto para o relativo.indd 245 25/4/2011 15:18:57 .021-381. pois “o contrato é mais ou menos obrigatório. 1997. Já no início do terceiro milênio. Aynes. o número de exceções à aplicação dos princípios gerais do contrato clássico já alcança um nível que não mais permite fazer com que prevaleçam as regras gerais. Libres propos sur la transformation du droit des contrats. as leis. Em certo sentido. A generalização das exceções está exigindo uma reformulação do regime jurídico do contrato. De fato. exerce importante função social e. 2. uma parte dessa evolução já tinha ocorrido. Por longo tempo. p. é preciso reconhecer que o contrato. 421). aos poucos. os juristas da época ainda podiam admitir que as modificações e os remendos necessários eram de pequena monta. foi essa revolução dogmática que encontramos em vários dos artigos do Código Civil de 2002. que é indispensável ao desenvolvimento da sociedade. do mesmo modo que a propriedade. dotando de maior relevância o conceito de boa-fé. sob pena de ensejar o predomínio da ficção sobre a realidade. exige que se lhe dê uma função social e uma nova estrutura. mais ou menos oponível. considerando como exceções as regras que. há meio século. nessa linha. fazem com que se exija dos contratantes um dever de lealdade na execução do contrato. Malaurie e L.Direito das Obrigacoes . estavam alterando a escala de valores em que se fundamentou. pois não houve tão somente modificações técnicas. Efetivamente. sem perder um mínimo de segurança. por exemplo. Se. mas uma verdadeira mudança de concepção. n. limitando a liberdade de contratar em razão desta. Assim. manteve-se a estrutura tradicional do contrato. o legislador. a Constituição. 20 Direito Civil . para sobreviver.o contrato — generalidades 245 tivas. citados por Cathérine Ghibierge-Guelfucci. mais ou menos sinalagmático ou mais ou menos aleatório e uma nulidade ou uma resolução é mais ou menos extensa”20. inspirado no texto constitucional. atribui expressamente ao contrato uma função social (art. a doutrina e a jurisprudência reconhecem que o contrato. admitindo soluções cosméticas. 357-385 (nota 45). ao mesmo tempo em que considera a lesão P.

Com essa interpretação.indd 246 25/4/2011 15:18:57 . ponderar que a função social do contrato não deve afastar a sua função individual. por si mesma.246 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS como causa de anulação dos negócios jurídicos e admite a resolução ou a revisão do contrato por excessiva onerosidade. os direitos contratuais.º. Efetivamente. o Poder Judiciário reconheceu que também o aderente a um contrato de adesão do qual participam numerosas outras pessoas deve aceitar certos Direito Civil . assim. cabendo conciliar os interesses das partes e da sociedade. não pode exercer plenamente a sua liberdade contratual. por elas definido em todos os seus aspectos. constituem direitos adquiridos (art.Direito das Obrigacoes . Quanto à atribuição de uma função social do contrato. 5.º. XXXVI) e gozam. LIV). 5. É preciso salientar que a função social do contrato não deve ser interpretada como proteção especial do legislador em relação à parte economicamente mais fraca. Deve-se. em virtude do qual ninguém pode ser privado dos seus bens — e dos seus direitos.º. 5. em determinados casos. pode-se considerar que o Código Civil explicitou uma norma constitucional e ratificou tanto a legislação anterior quanto a construção jurisprudencial. trata-se de decisão oportuna do legislador. a inovação do Código de 2002 não põe em risco a sobrevivência do contrato. tendo a palavra “propriedade” uma conceituação ampla. que. Em recente decisão.021-381. que já repelia o abuso de direito. o mesmo princípio haveria de ser aplicado aos contratos. com base na construção jurisprudencial e na norma constitucional. Significa a manutenção do equilíbrio contratual e o atendimento dos interesses superiores da sociedade. podem não coincidir com a do contratante que aderiu ao contrato e que. como manifestação da vontade individual e acordo entre partes interessadas para alcançar determinado objetivo. entretanto. a partir do momento em que o direito constitucional brasileiro considerou que a propriedade tinha uma função social (art. que. que também se incluem entre os bens — sem o devido processo legal. do devido processo legal substantivo (art. seguindo o exemplo do Codice Civile italiano. em nada altera o respectivo regime jurídico. nos termos da Constituição. XXIII). Assim. Assim. em termos gerais. que é a única aceitável em nosso regime constitucional. à primeira vista. embora exercendo uma função social. entretanto.

479). pois os dois artigos que tratam da matéria devem ser interpretados construtiva e sistematicamente. a relação inicialmente estabelecida entre as partes. que incide sobre um dos contratantes. permitindo. o dinamismo dos contratos fez com que o legislador admitisse a resolução dos contratos por excessiva onerosidade e a revisão dos contratos unilaterais pelo mesmo motivo. o Código Civil de 2002 considera que só se justifica a resolução por onerosidade excessiva. 480). Na realidade. o Código Civil não chega a inovar radicalmente. e ela se refere à legislação de economia popular. pudesse convencionar-se o afastamento da teoria da imprevisão. especialmente nos contratos aleatórios. quando também ocorre uma extrema vantagem para o outro (art.021-381. poderá esta pleitear a redução de sua prestação ou a alteração do modo de execução. Nos contratos nos quais as obrigações couberem a apenas uma das partes.Direito das Obrigacoes . o Código admite a anulação do negócio jurídico em virtude da lesão. ao intérprete considerar que é uma condição necessária da revisão. que. Nesta última disposição. na ação de resolução. modificar equitativamente as condições do contrato (art. seja de um dos contratantes. A ideia básica é assim o entendimento dos interesses. cabendo. a fim de evitar a onerosidade excessiva (art. se o réu. por já existir a revisão legalmente prevista em deter- Direito Civil . Finalmente. seja da própria sociedade. seguindo o modelo italiano. Também em relação à imprevisão. todavia. ou seja. diante de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis. admitindo que haja revisão do contrato.o contrato — generalidades 247 sacrifícios para que os demais interessados não tenham um prejuízo maior. seja de um maior grupo de interessados. não há referência à extrema vantagem do outro contratante. É preciso lembrar que. O Código Civil de 2002 caracteriza a lesão como um dos vícios da vontade que enseja a anulação dos atos jurídicos em geral e dos contratos em particular.indd 247 25/4/2011 15:18:57 . pela própria natureza e finalidade do negócio jurídico. 478). Trata-se de determinação legal que já constava do direito brasileiro anterior ao Código Civil de 1916. melhor seria admitir simplesmente que se mantivesse a equação contratual. outrossim. Por outro lado. que não pode sofrer as consequências de um comportamento abusivo do outro.

no fundo. em verdadeiro princípio geral do direito. da publicização do contrato de direito privado. e ter sido ela generalizada pela jurisprudência no tocante ao contrato de empreitada. set. que são. Direito Civil . que é tecnicamente mais perfeito.021-381. Os arts. a transformação de uma norma. Um projeto especial da Editora Brasil 21 e da revista IstoÉ. quer no tocante à sua forma. p. 423 e 424) complementam um quadro de renovação do contrato. 422) e o regime de favorecimento do contratante mais fraco no caso dos contratos de adesão (arts. o Código Civil de Quebec e a reforma do Código Civil alemão também dão maior ênfase à boa-fé e apresentam uma nova visão do contrato. 2001. Verificamos que a transformação do contrato se realiza nos seus mais diversos aspectos. Houve. entre outros. com o intuito de evitar a resolução em virtude da onerosidade excessiva. o novo Código Civil holandês. que já foi considerada excepcional. seu suporte e suas dimensões. Assim.indd 248 25/4/2011 15:18:57 . deflui da própria vedação do enriquecimento sem causa. já se admite hoje um movimen- 21 Miguel Reale. 8.248 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS minados contratos. há algum tempo. que. no caso. inspirado na ética e desempenhando importante função social. Efetivamente. tanto no campo do direito privado como na área do direito administrativo. como os de locação comercial. refletem-se no regime legal do contrato. As referências à boa-fé na celebração e execução do contrato (art. a evolução realizada pelo Código Civil corresponde a um movimento de caráter internacional que se reflete na maioria das legislações elaboradas recentemente. na palavra do Professor Miguel Reale.Direito das Obrigacoes . Os princípios básicos que orientaram a nova legislação brasileira. Na realidade. 478 a 480 regulam a resolução de contratos de execução continuada ou diferida quando acarretam extrema vantagem para a outra parte. enquanto se falava. dando-lhe o caráter dinâmico ao qual já aludimos. quer no tocante ao seu conteúdo. o aprimoramento técnico. No entanto. quer em relação às suas categorias básicas. abre-se a possibilidade de operar alteração contratual de maneira equitativa. O sentido do novo Código Civil. a eticidade e a sociabilidade21.

o fim da liberdade contratual23. A doutrina mais recente admite a importância crescente de alguns princípios de direito privado. e a Lex Mercatoria nos indica a presença de um contrato no qual as partes escolhem a lei aplicável e o foro competente. alguns eminentes juristas diagnosticavam “o declínio do direito”24.. Paris: LGDJ. The death of contract. 24 Georges Ripert. 1995. 1979. caracterizou a estrutura contratual. o âmbito de aplicação da ordem pública internacional. Também não cabe ver no contrato um instrumento ultrapassado. reduzindo-se. Cabe salientar que. alguns autores chegam a reconhecer a morte do contrato22 ou. P. The rise and fall of freedom of contract. que se multiplicam no plano interno e internacional. Le déclin du droit. em certos casos. Diante de todas essas modificações. A aplicação do direito uniforme.. 22 23 Direito Civil . nas várias formas de parceria. nos quais se abandona o suporte de papel que. 2. ed. por sua vez.Direito das Obrigacoes . durante tantos anos. que se aplicam aos contratos públicos. 25 Grant Gilmore. É. nas relações internacionais. o Poder Público da sua soberania para atuar como se fosse um particular. todavia. do mesmo modo que.o contrato — generalidades 249 to pela privatização do contrato de direito administrativo. tem ensejado grandes transformações que mereceriam ser analisadas em profundidade. Oxford: Clarendon Press. 1949. cit. 112. há cerca de meio século. também modifica alguns dos aspectos da manifestação de vontade das partes. a liberdade contratual está sendo ampliada. A utilização crescente dos contratos eletrônicos.021-381. Ohio State University. Atiyah. cada vez mais.indd 249 25/4/2011 15:18:57 . p. eventualmente substituído pelo juízo arbitral. The death of contract. provocando novas regras de interpretação que decorrem das peculiaridades dos novos meios de transmissão. Grant Gilmore. interessante que mesmo aqueles que dão ao contrato o atestado de óbito reconhecem que poderá ressuscitar das suas próprias cinzas25. despojando-se. Ao contrário. que perdeu a sua importância na sociedade de massa. S. ao menos.

Clóvis Paulo da Rocha. René Savatier. exigindo a construção de novos modelos jurídicos. Aspectos do conceito dogmático do contrato. p. a justificar a elaboração de uma nova estrutura que a dogmática teria de lhe dar26. 19 e s. A evolução do direito e absorção da administração privada pela Administração Pública. Ferrara. como fazia René Savatier. Darcy Bessone de Oliveira Andrade. ed. Pierre de Harven. Galvão Telles. Messineo. Arnoldo Wald. mais adequado nos parece admitir. V. Revista Forense. ainda os estudos de Paul Esmein. v. Teoria dei contratti. Gaston Morin. Maurice Picard. É o que fez o Código Civil de 2002.. Dei contratti in generale. na medida em que ela se torna mais complexa e sofisticada. 1952. adquirindo novas dimensões e referindo-se ao éclatement do contrato. Evolução contemporânea do direito contratual. 2. Paris: Dalloz. André Trasbot e André 26 René Savatier. André Tunc. Sobre a evolução do contrato. Du droit privé au public e Les métamorphoses économiques et sociales du droit civil d’aujourd’hui. que tem permitido o desenvolvimento racional e pacífico das relações entre os homens. Contratos no direito civil brasileiro. logo após a Segunda Guerra Mundial. A polivalência do contrato e a sua vinculação à importância que a civilização ocidental reconhece à palavra dada e ao consenso ao qual chegaram as partes justificam tanto a sobrevivência quanto a adaptação ao contexto existente no terceiro milênio desse instrumento tão rico e flexível.021-381.250 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS trata-se de instrumento cada vez mais importante na sociedade contemporânea. que o conceito tradicional de contrato tenha estourado ou explodido. v. San Tiago Dantas.Direito das Obrigacoes . Le déclin du droit. Les métamorphoses économiques et sociales du droit civil d’aujourd’hui. Aspects juridiques du capitalisme moderne. Assim sendo. Georges Ripert. 139. La révolte du droit contre le code. Mouvements généraux du droit belge contemporain. Direito Civil . René Morel. Le régime démocratique et le droit moderne. Dos contratos em geral. Marcel Waline. Manuel Inácio Carvalho de Mendonça.indd 250 25/4/2011 15:18:57 . Dottrina generale del contratto. Do contrato. L’individualisme et le droit. BIBLIOGRAFIA: Sobre contratos em geral: Pacchioni.

2001. Noção de contrato e evo. O Código Civil de 1916 seguiu o modelo francês ou unitário não distinguindo ato jurídico de negócio jurídico.Direito das Obrigacoes . 1992.O contrato é um negócio jurídico bilateral. A respeito da internacionalização dos contratos. Le droit privé français au milieu du XXe siècle. São Paulo: Revista dos Tribunais. consulte-se René David. Direito e negócios internacionais. Hazard. A vida dos contratos internacionais. No tocante à função do contrato na economia socialista. equiparando-as à própria lei. Problemas e limites do dirigismo contratual. Filósofos e juristas que precederam a Revolução Francesa afirmaram a obrigatoriedade das convenções. Hilário de Oliveira. René David e John N. Luiz Olavo Baptista. Transactions entre l’est et l’ouest. Contratos internacionais de comércio. Traité élémentaire de droit comparé. lução histórica pois depende de no mínimo duas declarações de vontade. O individualismo do século XIX. modificar ou extinguir obrigações (direitos relativos de conteúdo patrimonial). le cadre commercial et juridique.º volume da obra em homenagem a Georges Ripert. Surge assim o princípio pacta sunt servanda. do qual o Código de Napoleão foi o maior monumento legislativo. e Milton Fernandes. São Paulo. visando criar.021-381. Del Rey. reduziu ao mínimo a interferência estatal e abriu amplas perspectivas de liberdade à vontade humana.o contrato — generalidades 251 Besson no 2. Le droit soviétique e Samuel Pisar. assegurando à vontade humana a possibilidade de criar direitos e obrigações.indd 251 25/4/2011 15:18:57 . Síntese 11 — O CONTRATO — GENERALIDADES 1. 1986. firmou-se no direito canônico. consulte-se Irineu Strenger. Surgido no direito romano. Direito Civil .

A liberdade contratual permite a criação de contratos atípicos mas tem sofrido amplas restrições em virtude da ordem pública que representa a projeção do interesse social nas relações interindividuais. obrigatoriedade dos contratos e a boa-fé. Princípios básicos do direito contratual: autonomia da vontade. 1. Na lição dos dogmatistas modernos.134 do Código Civil francês determina que “as convenções têm valor de lei entre as partes”.021-381. com base no sistema germânico. em seu art. a autonomia da vontade se apresenta sob duas formas distintas: a liberdade de contratar (faculdade de realizar ou não determinado contrato) e a liberdade contratual (possibilidade de estabelecer o conteúdo do contrato). O princípio da boa-fé Introduziu-se expressamente no Código Civil.indd 252 25/4/2011 15:18:57 .1. adotou a corrente que diferencia o ato jurídico lícito do negócio jurídico.252 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS O Código de 2002. envolvendo a valoração dos usos do tráfego ao considerar a ética e a boa conduta das partes desde as tratativas até a execução completa das obrigações.Direito das Obrigacoes . A autonomia da vontade que inspirou o art. um dos princípios norteadores de todas as relações obrigacionais e relevante para a leitura dos negócios jurídicos. 422. Direito Civil . O direto contemporâneo limitou a obrigatoriedade do contrato permitindo a sua revisão no caso de onerosidade excessiva e nos termos do art. 478 do CC. 2. O dirigismo contratual restringiu a autonomia da vontade em virtude da elaboração de normas legislativas que fixam princípios mínimos que os contratos não podem afastar. supremacia da ordem pública. 2.

Concepção clássica do Funda-se o contrato clássico na autonomia contrato da vontade. a democracia no plano econômico e político e garantindo-se os direitos individuais e sociais como condição do desenvolvimento da sociedade. A evolução do contrato e O contrato nasceu formalista e típico. que se supõe possa ser exercida por qualquer pessoa. que fazia lei entre as partes (pacta sunt servanda). Baseia-se na prevalência da vontade livre. todavia. direito romano. sua função e utilidade. consagrando-se. assim. no o Código Civil. Direito Civil . 3. A internacionalização do O desenvolvimento dos transportes e das contrato comunicações propiciou um aumento do comércio internacional de bens. sem perder.o contrato — generalidades 253 2. estando as partes em igualdade jurídica. implicando uma importância crescente aos contratos internacionais e ensejando a criação de um direito próprio.Direito das Obrigacoes . Interferência do Estado A interferência do Estado nos contratos se nos contratos apresenta como um desafio para a nossa geração que procura transformar o dirigismo num planejamento dialogado que deve decorrer dos entendimentos entre a iniciativa privada e a administração. denominado lex mercatoria.indd 253 25/4/2011 15:18:57 .2. em parte. Foi o grande instrumento jurídico do capitalismo incipiente que dominou o mundo até o fim da Primeira Guerra Mundial. 5. para transformar-se num instrumento vinculatório. serviços e tecnologias. a mística contratual sedimentada pelo Código Napoleão.021-381. O legislador foi restringindo o conteúdo da autonomia da vontade e ampliando a área da ordem pública econômica (dirigismo contratual) como projeção do interesse social nas relações interindividuais. O sopro do socialismo abalou. 4.

021-381. em vez do contrato irrevogável.254 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Assim. surge um contrato dinâmico e flexível.indd 254 25/4/2011 15:18:57 . Direito Civil . a sua resolução ou revisão em virtude da excessiva onerosidade. fixo.Direito das Obrigacoes . em que se admite a anulação do contrato por lesão. Trata-se de uma nova concepção do contrato que corresponde a um movimento de caráter internacional e que se reflete na maioria das legislações recentes.

ainda que em hasta pública. Formação do contrato: proposta e aceitação. 1. Para determinados contratos específicos. sendo um negócio jurídico bilateral. objeto e consentimento O contrato. importando a incapacidade relativa em anulabilidade do negócio e a incapacidade absoluta em nulidade deste. objeto lícito. é anulável a venda de ascendente a descendente.1. e consentimento válido.2.indd 255 25/4/2011 15:18:57 .3.021-381. 104). Policitação e efeitos. Do lugar da formação dos contratos. Direito Civil . Interpretação e direito do consumidor. 2. é exigida uma legitimação. 2. testamenteiros e administradores não podem comprar. 3. os bens confiados à sua guarda ou administração (arts. além da capacidade genérica. 2. como a compra e venda. Elementos essenciais: capacidade. além da forma prescrita ou não vedada em lei (art. por exemplo. curadores. tutores. 4. a menos que os outros descendentes e o cônjuge do alienante tenham consentido expressamente. possível. Interpretação dos contratos. Elementos essenciais: capacidade.Direito das Obrigacoes . Contratos entre ausentes. Forma e prova dos contratos. Assim. reconhecendo a lei que será anulável ou poderá padecer de nulidade o contrato diante da existência de determinadas relações jurídicas entre os contratantes. 496 e 497). 4. objeto e consentimento. Teorias. determinado ou determinável.1. 2. A capacidade de fato dos contratantes é condição imprescindível para a validade do contrato.Capítulo 12 ELEMENTOS DO CONTRATO Sumário: 1. exige agentes capazes.

No entanto. como o lance feito em leilão. o formalismo. para a validade dos negócios jurídicos que visem constituição. certos contratos exigem forma especial. O contrato em que se promete transferir coisa alheia. 4. com a redação que lhe deu o art.Direito das Obrigacoes . determinado ou determinável e suscetível de apreciação econômica. o mesmo ocorre quando alguém promete prestação de terceiro. quando não é de pequeno valor. 5. da Lei n. é válido.380. 1. no pagamento das perdas e danos. declarando que pertence a outrem. § 5. consoante dispõe o art. Assim.indd 256 25/4/2011 15:18:57 . cuidando do ne- Direito Civil . podendo ser expresso (escrito ou verbal) ou tácito. desde que a lei não disponha em contrário. modificação ou renúncia de direitos reais sobre imóveis acima de certo valor (30 vezes o maior salário mínimo vigente no País). 61. mantendo-se a mesma regra dos chamados contratos a distância (art.º. 1. possível. 108 do CC. 426) e a venda do bem de família (art. Forma — Embora o direito contemporâneo tenha abandonado. provando assim a sua intenção de cumpri-lo.256 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS O objeto do contrato deve ser lícito. que independem de escritura pública (art. de um gesto. público ou particular (art. 541 do CC). mas o atual não repete a norma.021-381. transferência. ressalvadas as alienações feitas dentro das normas do Decreto-Lei n. resolvendo-se. todavia. A inalienabilidade decorrente de convenção ou de testamento também implica nulidade do contrato de venda dos bens inalienáveis. na hipótese de inadimplemento. não podendo haver exigência de execução específica.º da Lei n. 1. 432). de 29-6-1966). a escritura pública é essencial. O consenso é o acordo de vontades entre os contratantes.049. especialmente no campo obrigacional. deve ser feita por documento escrito. Por sua vez.079 do CC de 1916 esclarecia que a manifestação de vontade pode ser tácita quando a lei não exigir que seja expressa. a doação. A ilicitude do objeto ou a impossibilidade absoluta de realização da prestação no momento em que é convencionada importam em nulidade do contrato. e do Sistema Nacional da Habitação. decorrendo de palavras ou do silêncio da parte. A lei veda os pactos sucessórios (art. ou de uma atitude pela qual o contratante dá início à execução do contrato. 58. de 21-8-1964. de 1937 (terrenos loteados).717). indicada a seguir. O art.

nos negócios em que não seja costume haver aceitação expressa ou quando o proponente a tiver dispensado. 140).021-381. 110. 110 e 111 as seguintes regras: “Art. presumindo a concordância do outro contratante com a proposta que lhe foi feita. e “Art. os contratos devem ser transcritos no Registro de Títulos e Documentos. o Código de 2002 contém nos arts. o contrato se reputa concluído. salvo manifestação de vontade contrária por parte daquele a quem a proposta foi feita (art. e não for necessária a declaração de vontade expressa”. A manifestação de vontade subiste ainda que o seu autor haja feito a reserva mental de não querer o que manifestou. com ou sem reserva de domínio. após proposta do mandante (art. O falso motivo só vicia o contrato quando expresso como razão determinante do negócio (art. 6. os contratos de locação e de fiança feitos na mesma forma. salvo se dela o destinatário tinha conhecimento”. A interpretação do silêncio como manifestação de vontade decorre do texto legal ou de costumes ou praxes comerciais ou finalmente da própria convenção existente entre as partes.015/73). Para eficácia contra terceiros. Assim. 111. quando as circunstâncias ou os usos o autorizarem. quando não sujeita a encargo. a lei considera o mandato tacitamente aceito quando o mandatário inicia a execução do contrato. “O silêncio importa anuência. Por sua vez. 111. Nos termos do art. Desse modo. 539).elementos do contrato 257 gócio jurídico. dispensa aceitação expressa (art. Os vícios da vontade autorizam a anulação dos contratos nos casos em que são anuláveis os negócios jurídicos em geral. os contratos de venda de automóveis e as alienações fiduciárias (arts. É o que ocorre no tocante ao mandato e à doação em determinadas situações especiais.indd 257 25/4/2011 15:18:57 . quando as circunstâncias ou os usos o autorizarem. a doação. 127 a 131 da Lei n. 659). Em certos casos a lei dispensa a aceitação expressa.Direito das Obrigacoes . sendo tal providência exigida para os contratos por instrumento particular de parceria agrícola ou pecuária. 432). Os contratos de locação com cláusula de vigência no caso de alienação da coisa locada e de promessa de compra e venda de imó- Direito Civil . e não for necessária a declaração de vontade expressa”. O silêncio importa anuência. os contratos de compra e venda em prestações.

Rio de Janeiro: Forense. diretor de pessoa jurídica. O problema da conclusão do contrato suscita o da culpa in contrahendo. e. 1 Direito Civil . 2.Direito das Obrigacoes .indd 258 25/4/2011 15:18:57 . não se admitindo entre nós o chamado contrato consigo mesmo (autocontrato ou Selbstvertrag). Existe uma literatura jurídica de monografias que abordam o assunto. 497 do CC e 154. importantes restrições na legislação em vigor (arts. 1959. feita por uma das partes — o policitante ou V. ou seja. como acordo de vontades. Ocorre que o vendedor. salientando as suas dificuldades e apresentando as soluções oferecidas pela jurisprudência1. existem. embora estivessem ambas manifestadas pelo mesmo agente. que pode causar prejuízos ao contratante não culpado. a não ser na hipótese em que uma pessoa contrate figurando uma vez em nome próprio e outra como representante. Em relação ao contrato consigo mesmo. Formação do contrato: proposta e aceitação O contrato. por motivos fiscais ou por falta das certidões negativas. denominada policitação. coação) ou de danos decorrentes da não conclusão do contrato. É preciso a esse respeito salientar a hipótese de determinada pessoa figurar como mandatária em causa própria. não pode. tendo recebido o preço de um imóvel. pressupõe uma proposta. pois o vício de vontade importa em anulação do contrato. admite-se a existência do contrato por haver duas vontades distintas. prefere nomear o próprio comprador como procurador seu para. procurador de pessoa física distinta ou administrador. e 156 da Lei das Sociedades Anônimas). 155. Responsabilidade pré-contratual. 167 da Lei de Registros Públicos). I. Nessas hipóteses. § 2. lavrar a escritura definitiva.021-381. todavia. Discute-se a natureza contratual ou legal dessa responsabilidade. Antonio Chaves.º.258 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS veis devem ser registrados no Registro de Imóveis (art. em qualquer tempo. lavrar o documento necessário para a transferência dos direitos. O contrato necessita da intervenção de no mínimo duas pessoas. da responsabilidade na hipótese de anulação do contrato por vício de vontade (dolo. não tendo mais nada a receber.

uma das partes pode pretender apenas obter informações. se uma das partes age culposamente (a culpa in contrahendo acima referida). deixando. causando prejuízo à outra parte. 2 V. p. se uma parte agiu de forma a fazer acreditar que o contrato seria efetivamente realizado.. 1960. Curso de direito civil. Direito Civil . todavia. Deixa também de obrigar o proponente a policitação quando.1. se o contrário não resultar dos seus termos. apontamentos. antes ou simultaneamente com ela. em análise às peculiaridades do caso concreto. Discute-se qual a situação criada se. Isto significa dizer que. como toda declaração unilateral de vontade. Rio de Janeiro. 79. Do contrato.indd 259 25/4/2011 15:18:58 . Essa responsabilidade está relacionada com o dever dos contratantes de atuar conforme o princípio da boa-fé objetiva. 2. Quando há aceitação. após a proposta e antes da aceitação.elementos do contrato 259 proponente — à outra — o oblato ou solicitado. para saber se interessa ou não o contrato. entendendo a doutrina dominante que perdura a proposta perfeitamente válida. o oblato torna-se aceitante. o proponente falecer ou se tornar incapaz. 422 do CC. não for aceita imediatamente ou. prevista no art. Assim. Negociações preliminares — Antes de aceitar.Direito das Obrigacoes . 176 e s. a respeito. pode responder pelos danos provenientes da quebra na formação da relação contratual. chegar ao conhecimento da outra parte a retratação daquele (arts. a policitação de ser vinculatória se feita sem prazo a pessoa presente. troca de cartas para esclarecimentos não vinculam as partes. esta não responder dentro do prazo estipulado ou de prazo razoável. se feita a pessoa ausente. Responsabilidade pré-contratual é a que surge eventualmente das negociações preliminares. indagações. Serpa Lopes.021-381. p. 427 e 428). e Darcy Bessone de Oliveira Andrade. minutas. Os dois elementos imprescindíveis para a formação do contrato são a solicitação ou proposta e a aceitação. v. O contrato poderá ou não se realizar. visitas. vinculando a parte e seus sucessores. 3. contas. Policitação e efeitos A proposta de contrato obriga o proponente. não obstante existir pensamento divergente2. da natureza do negócio ou das circunstâncias do caso.

Entretanto. Contratos entre ausentes. todavia. permitindo ao proponente que. salvo quando a proposta é apresentada como válida para determinado prazo. Nos primeiros. Para os adeptos da teoria da declaração. Teorias Nos contratos entre ausentes.2. 2. por perdas e danos se tiver causado algum prejuízo ao outro contratante. o contrato se realiza quando o aceitante declara aceitar a proposta. Como contrato entre presentes.Direito das Obrigacoes . para verificar o momento exato da formação do contrato é preciso distinguir os contratos entre presentes e entre ausentes. 429). Conforme a teoria da informação. O Código Civil estabeleceu regra específica para a oferta destinada ao público em geral. salvo manifestação de vontade em contrário. enfrentamse os partidários das teorias da informação. De acordo com o seu art.021-381. Quanto às demais formas de contratar. telegramas. recados telefônicos orais ou escritos ou Internet). revogue a proposta. da expedição e da recepção. entende-se não apenas o realizado por pessoas que estejam juntas como também os realizados por representantes ou procuradores ou mediante acordo telefônico ou por meio de comunicação semelhante. a oferta ao público equivale à proposta. desde que a própria oferta mencione essa faculdade (parágrafo único do art. porque normalmente a aceitação segue imediatamente a proposta e a falta de aceitação imediata desvincula o policitante. se contiver todos os requisitos essenciais do contrato e desde que as circunstâncias e os usos não estabeleçam o contrário. ela pode ser revogada pela mesma via da sua divulgação.260 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS A doutrina distingue entre a obrigatoriedade da proposta e a sua irrevogabilidade. da declaração. 429. O antigo Código Civil Direito Civil . respondendo. também denominados contratos por correspondência (efetuados por cartas.indd 260 25/4/2011 15:18:58 . mensageiros. o acordo só se torna perfeito quando o proponente toma conhecimento da aceitação por parte do outro contratante. não há maior dificuldade para fixar o momento da criação do vínculo contratual. fax.

salvo algumas exceções em relação às quais se aplica a teoria da recepção. Direito Civil . assim como à praxe existente entre as partes. pois dependem de fatos de prova difícil. a teoria da expedição situa o contrato no momento em que o aceitante expede a sua declaração confirmando a aceitação da proposta. o novo. 430). a recepção da notícia é a projeção objetiva da teoria da informação e a teoria da expedição é a objetivação da teoria declaratória. atendendo às circunstâncias locais e às peculiaridades de cada caso concreto. que o legislador brasileiro admitiu a tese da expedição. como a ciência da aceitação ou a decisão de aceitar. como pode ocorrer na aplicação das teorias da expedição e da recepção. valendo como proposta nova a aceitação intempestiva ou aquela que for apresentada com emendas. adições. com a aplicação da teoria da recepção. e a teoria da recepção exige o recebimento pelo proponente da comunicação do aceitante. O prazo normal para a resposta é fixado pelo juiz. corrigindo-a. ante o progresso eletrônico e a Internet.indd 261 25/4/2011 15:18:58 . Já se afirmou ser a teoria da informação a mais lógica. aditou: contrata por telefone ou por meio de comunicações semelhantes (art. o solicitante deverá comunicar o atraso no recebimento ao aceitante (art. como princípio geral. por não ser admissível que um dos contratantes possa ficar vinculado por um contrato sem saber da aceitação da outra parte. Se a resposta vier fora do prazo convencionado. Vemos.Direito das Obrigacoes . o da fixação do vínculo contratual no momento da expedição da aceitação. A objetivação crescente do direito e a vontade do legislador de evitar litígios fez com que se adotasse no direito brasileiro. De modo mais objetivo.021-381. 428. restrições ou modificações (art. Ambas as teorias são subjetivas. pois. não chegando esta tempestivamente (teoria da recepção) (v. Assim. 433 e 434 do CC). I). em casos excepcionais. 431).elementos do contrato 261 dizia que se considera presente a pessoa que contrata por telefone. o art. 434 do Código de 2002 afirma que os contratos entre ausentes tornam-se perfeitos desde que a aceitação é expedida. salvo se antes dele vier retratação do aceitante (teoria da recepção) ou se as partes convencionarem prazo para o recebimento da resposta pelo proponente. Na realidade. arts.

todavia. O problema se reveste da maior importância em direito privado. pois.Direito das Obrigacoes . Mesmo tratando-se de um contrato verbal. um contrato verbal de locação pode ser provado pelo recibo dado pelo locador ao locatário (documento escrito). mediante confissão.-Lei n. admitindo-se a prova de contratos não sujeitos a forma especial. autorização para sublocar na sistemática da Lei do Inquilinato). equiparando-se-lhe a aceitação condicional. testemunha. realizando-se por documento particular ou público. nada impede que a prova seja feita mediante a apresentação de um documento que denominamos “começo de prova por escrito”.º da LICC — Dec. Havendo contraproposta. Assim.indd 262 25/4/2011 15:18:58 . a prova do instrumento particular pode suprir-se pelas outras de caráter legal. Quando. aplicar-se-á a lei do país em que se constituírem”. Aplica-se à prova dos contratos o disposto em relação aos negócios jurídicos em geral. 9. “para qualificar e reger as obrigações. 435). de 29-4-1975). documento. no fundo. constitui nova proposta.3.205. pode o contrato tanto ser verbal como escrito. 3. algumas vezes há necessidade de escritura pública (venda de imóvel de valor superior a certa quantia). de 4-9-1942). Assim. 6.262 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 2. Do lugar da formação dos contratos Quanto ao lugar. Forma e prova dos contratos Já vimos que.021-381. passando a ser o instrumento público essencial para a validade do negócio jurídico (art. será considerado o lugar em que foi feita. Embora no nosso direito o valor da prova testemunhal seja limitado aos contratos cujo valor não ultrapasse o décuplo do maior valor de referência do salário mínimo (art. é admissível a prova testemunhal em ne- Direito Civil . pelo qual se completa a prova testemunhal. ou de documento escrito (doação que não seja de pequeno valor. e “a obrigação resultante do contrato reputa-se constituída no lugar em que residir o proponente” (art. 109). na forma dos arts. reputa-se celebrado o contrato onde foi proposto (art. embora geralmente os contratos não tenham formas solenes.º e § 2.657. não há exigência legal quanto à forma. presunção. 4. que. 212 e 221 do CC. 401 do CPC e Lei n.

parecer intitulado ITBI – Sisa – Não incidência do imposto sobre transmissão de bens imóveis na operação de sale-sale back (Revista de Direito Tributário. v. o que ocorre ainda com mais frequência atendendo-se à falta de técnica com a qual são feitos os contratos. ocorre uma inversão do ônus da prova. 29-30/85). e prova. e pelo magistrado. Do mesmo modo que a lei. a prova da existência da relação jurídica decorre da prova do pagamento dos aluguéis (art. mediante cheque nominal em favor do locador. exige interpretação do juiz para que seja aplicada. 3 Sobre os princípios gerais da interpretação em matéria contratual. Arnoldo Wald. que os pagamentos foram recebidos. Se o locatário faz mensalmente o pagamento do aluguel. as situações que previu e os efeitos que pretende ter. existindo começo de prova por escrito. Interpretação dos contratos3 Toda manifestação de vontade necessita de interpretação para que se saiba o seu significado e o seu alcance. nas suas relações jurídicas. não prescinde do trabalho de hermenêutica realizado pelas próprias partes. ou seja. Direito Civil .Direito das Obrigacoes . para ter efeitos concretos. Num contrato de locação. 4. mediante fotocópias dos cheques fornecidas pelo banco contra os quais foram emitidos. havendo certos indícios ou provas complementares que façam presumir a existência do contrato ou do pagamento alegado. O problema assume ampla importância prática pelo número de pleitos que se originam de divergências na interpretação contratual. Há assim uma complementação da prova testemunhal pelo começo de prova por escrito.indd 263 25/4/2011 15:18:58 . por exemplo. na hipótese de conflito de interesse.021-381. cabendo ao locador provar que as quantias recebidas correspondem a qualquer outro negócio existente entre as partes.elementos do contrato 263 gócios jurídicos de maior valor. apresentando contradições ou deixando pontos essenciais sem a regulamentação adequada. a vontade contratual. 402 do CPC). ato de vontade do Estado.

Madrid. Os processos e as técnicas de fixação do sentido da lei. fixou alguns princípios de hermenêutica contratual que os Códigos do século XIX.021-381. sistemático e lógico. no qual o mestre francês aconselha que se atenda mais à vontade das partes do que às palavras por elas empregadas. como os processos literal. nos negócios jurídicos e de modo específico nos contratos. desde os grandes jurisconsultos anteriores ao Código Napoleão. incorporaram aos seus textos. Milano. esp. às circunstâncias peculiares do caso. todavia.indd 264 25/4/2011 15:18:58 . que. 1949. preferindo deixar os juízes decidirem os conflitos que vierem a surgir em cada caso. sociológico. normas próprias de herme­ nêutica. As doze regras de Pothier constituem hoje um documento clássico. Os princípios gerais da interpretação da lei são aplicáveis aos negócios jurídicos. como Domat e Pothier. não obstante a complexidade crescente dos contratos decorrentes do desenvolvimento da técnica moderna. não deve a interpretação ser. de acordo com os princípios gerais. Direito Civil . cuja existência se explica pelo caráter concreto e pela finalidade distinta da manifestação de vontade dos particulares. na interpretação contratual. trad. são utilizados. 4 5 La interpretación de los negocios jurídicos. 1931. destacando-se as obras de E. procurando-se uma interpretação das cláusulas que permita dar sentido ao contrato assegurando a sua execução. além de outros.. Danz4 e de Emilio Betti5. a doutrina. especialmente o francês e o italiano. esclarecendo-se as ambiguidades do contrato pelas cláusulas mais claras. independentemente da terminologia utilizada. O problema preocupa. havendo. contrária aos interesses daquele que se obrigou. aos usos sociais e locais e à equidade. em que também se atende à finalidade econômica da operação. Interpretazione della legge e degli atti giuridici. ao conteúdo real do ato. à boa-fé presumida e ao comportamento passado das partes.264 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Uma bibliografia especializada já trata do assunto.Direito das Obrigacoes . histórico. todavia. Os Códigos mais modernos não dedicam um grande número de artigos a essa matéria. na dúvida. interpretando as cláusulas de acordo com os usos do país.

que deveriam prevalecer sobre a rigorosa e restrita significação das palavras. devendo o contrato ser interpretado de acordo com o próprio comportamento das partes. 130). em seguida. embora. 421 e 422. bem como nos princípios da função social do contrato. encontrávamos tão somente o princípio do respeito à intenção das partes (art. ao que objetivamente pretenderam fazer. não pode. mas estabelecem uma remuneração para o comodante.483). por lei. Tal conduta é a melhor manifestação do modo pelo qual os contratantes entenderam as suas obrigações e o modo de cumpri-las. 1. tais princípios podem ser aplicados pelos juristas. a esta deverá atender o juiz. estabelecendo que se obedecesse aos princípios da boa-fé e ao verdadeiro espírito e natureza do contrato (art. 1.090) e da fiança em particular (art. se as partes denominam um contrato “comodato”. Direito Civil . 131. Os textos determinam que se atenda à vontade real das partes. 114 e 819.Direito das Obrigacoes . 113. a dívida fosse quérable. Assim. o Código Civil fixa princípios de hermenêutica contratual em seus arts. da probidade e da boa-fé. destinando-se tanto aos contratantes quanto aos magistrados.elementos do contrato 265 Embora somente alguns deles se encontrem explicitamente na lei pátria. pois constituem verdadeiros princípios gerais do direito. à sua vontade comum. uma das partes alterar a interpretação que ela própria deu ao texto contratual. Já o Código Comercial mandava atender aos costumes locais (art. é evidente que deverá ser desprezada a terminologia adotada.indd 265 25/4/2011 15:18:58 . Se durante a vigência do contrato. podendo ser afastadas pela vontade das partes. numa espécie de interpretação autêntica. na qual o juiz examina a conduta das partes na execução do contrato até o momento do litígio. criou-se a praxe de esta ser paga no domicílio do credor (portable). por ser necessariamente o comodato um contrato gratuito. No Código Civil de 1916. apreciando-se o contrato em questão como locação de coisas. I). pagável no endereço do devedor. 112. No direito brasileiro. Divergindo as palavras da realidade do negócio.021-381. previstos expressamente em seus arts. As regras de hermenêutica não têm conteúdo imperativo. 85) e da interpretação restritiva dos contratos benéficos em geral (art.

Havendo modificação ou aditamento contratual e pretendendo o juiz esclarecer quais as disposições do contrato original que continuaram ou não em vigor. entendia-se a aplicação analógica das regras do Código Comercial aos contratos de direito civil. acrescentou dois princípios que devem ser considerados pelo intérprete: a) função social do contrato. na dúvida. ou seja.021-381. é fator de grande importância na determinação do sentido das manifestações de vontade das partes. Quando determinada interpretação leva ao absurdo.indd 266 25/4/2011 15:18:58 . a causa do contrato. na denominação do Código Civil de 1916) e a renúncia devem ser interpretados restritivamente (art. a cláusula deve ser entendida no sentido que for menos oneroso para o devedor. Assim. 112) e a interpretação conforme a boa-fé e os usos e costumes (art. impondo-se uma interpretação restritiva das cláusulas que criam obrigações. deve ele ser interpretado de tal modo que possa prevalecer e ser exequível. o Código Civil de 2002. É uma aplicação jurídica da teoria matemática da prova pelo absurdo. se a fazenda vendida está localizada em Minas. com base no art. O fim econômico.º da Lei de Introdução ao Código Civil. que têm dimensões distintas em Minas Gerais e em São Paulo. 4. isto é. Havendo dúvida quanto à natureza de um peso ou de uma medida. é preciso saber se o pagamento importou em modificação do contrato. A interpretação não deve agravar a situação do devedor. que ensejou tal multa. 113). impossibilita a execução do contrato. seguindo a ideia do Código Civil de 1916. se o locatário pagou multa. Assim. pois. uma sublocação proibida —. que se revela pelo estudo das circunstâncias especiais em que foi realizado. 114). O Código Civil. manda atender aos usos e costumes no lugar da celebração do contrato (art. 113) e determinar que os negócios jurídicos benéficos (unilaterais. na hipótese de uma infração contratual — por exemplo. além de estabelecer a busca da intenção das partes (art. entender-se-á que os al- Direito Civil . e b) princípio da boa-fé objetiva. deverá analisar as razões e os fatos que levaram os contratantes a assinar o aditamento.Direito das Obrigacoes .266 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Devido à sua amplitude. correspondendo à occasio legis na interpretação da lei. como ocorre em relação aos alqueires. passando o locador a autorizar ou não a sublocação.

Faltando cláusulas necessárias para a complementação do sentido do contrato. o juiz poderá suprir as falhas existentes recorrendo à prática existente no comércio.Direito das Obrigacoes . Assim. o vendedor estabelece que determinado pagamento será financiado sem mencionar a data a partir da qual deverão ser pagas as prestações financiadas. com a rubrica “Disposições gerais”. 4.078. a Lei n. três seções: a primeira contendo regras sobre interpretação. e. Rio de Janeiro e Goiás).elementos do contrato 267 queires são mineiros. 6 Direito Civil . pois integra novos elementos no contrato. cuja rubrica é “Da proteção contratual”. se situada em São Paulo. na falta destas. o juiz atenderá aos princípios de equidade. numa escritura de venda de quota de terreno e de construção de apartamento. Essa interpretação complementar do contrato é denominada por alguns autores interpretação integrativa. embora já houvesse a base doutrinária acima indicada. Na sua função de completar o contrato. a partir da intimação do comprador ou da entrega do apartamento com “habite-se”. as dimensões serão compreendidas como alqueires paulistas6. desde que compatível com o espírito e as demais cláusulas do contrato. e a terceira cuidando “Dos contratos de adesão”. O art. 8.021-381. novas regras foram incorporadas ao nosso direito. A interpretação integrativa só pode ocorrer em relação aos elementos secundários (não essen­ciais) do contrato. contém no Capítulo VI. aplicando normas supletivas ou. entende-se que correrão elas.200 m2. Interpretação e direito do consumidor Com a edição do Código de Defesa do Consumidor.1. Se. 46 do Código de Defesa do Consumidor impõe a ineficácia para os contratos não comunicados previamente ao consumidor 1 alqueire paulista = 24.indd 267 25/4/2011 15:18:58 . a norma que estabeleceria se fosse legislador (arts. os demais valem o dobro (Minas Gerais. a segunda intitulada “Das cláusulas abusivas”. 126 e 127 do CPC vigente). de 11-9-1990 (Código de Defesa do Consumidor). conforme o caso e as cláusulas contratuais.

como acordo de vontades. Segundo Eduardo Arruda Alvim. Código do Consumidor comentado. são aqueles anuláveis (serão nulos.021-381. As cláusulas contratuais serão interpretadas de maneira mais favorável ao consumidor”.104). proposta e aceitação pressupõe dois elementos essenciais para a sua formação: uma proposta ou policitação (feita pelo proponente ou policitante) e uma aceitação (feita pelo oblato ou solicitado). 13). 1. ou se os respectivos instrumentos forem redigidos de modo a dificultar a compreensão de seu sentido e alcance”. caput (arts. “É uma regra que excepciona o sistema do Código Civil [de 1916].. 2. independentemente dos requisitos deste art. determinado ou determinável. SÍNTESE 12 — ELEMENTOS DO CONTRATO 1. p.indd 268 25/4/2011 15:18:58 . 47. Elementos essenciais: ca.O contrato. somente havendo vício de vontade. Formação do contrato: O contrato. timento possível. Momento da formação do contrato: no contrato entre presentes a aceitação segue 7 Arruda Alvim et al. objeto e consen. além de forma prescrita ou não defesa em lei (art.ral. como negócio jurídico bilatepacidade. se não lhes for dada a oportunidade de tomar conhecimento prévio de seu conteúdo.268 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS ou redigidos de modo obscuro.091).079 a 1. Direito Civil . É o que se vê da redação do artigo: “Os contratos que regulam as relações de consumo não obrigarão os consumidores. que consagra incondicionalmente a força obrigatória dos contratos. n. Aí temos a regra consagrada do que já vinha sendo aplicado aos chamados contratos de adesão (v. São Paulo: Revista dos Tribunais. 106. exige agentes capazes. 1991. objeto lícito. 46. se houver coação física ou vis absoluta)”7.Direito das Obrigacoes . Mas o artigo seguinte é mais incisivo: “Art. segundo a qual. e consentimento válido. 8 do Cap.

Do lugar da formação Quanto ao lugar. fax tes. no art. senão quando a lei expressamente o exigir. O Código Civil.2. Forma e prova dos contra. da natureza do negócio ou das circunstâncias do caso (arts. dos contratos 3.1. Aplica-se à prova dos contratos o disposto em relação aos negócios jurídicos em geral (arts. 427 e 428). 429. determina tos que nas declarações de vontade se atenderá mais à intenção nelas consubstanciadas do que ao sentido literal da linguagem e fixa princípios de hermenêutica contratual nos seguintes artigos: 113. Direito Civil .3. excepcionalmente. tos não depende de forma especial. telegramas.021-381. reputa-se celebrado o contrato onde foi proposto (art. 114 e 819 e outros. Policitação e efeitos A proposta de contrato obriga o proponente.elementos do contrato 269 imediatamente a proposta feita pessoalmente. a teoria da recepção ou cognição nos arts. 434. adota. Teorias e meios informáticos). Os contratos entre ausentes são aqueles realizados por correspondência. se o contrário não resultar dos seus termos. Interpretação dos contra. Contratos entre ausen.O contrato. como todo negócio jurídico.Direito das Obrigacoes . no art. a oferta ao público equivale à proposta. por telefone ou outro meio de comunicação semelhante (art. da declaração. da expedição e da recepção. 2. 428. 4. 433 e 434. 2.O Código Civil. como regra geral. 435).indd 269 25/4/2011 15:18:58 . De acordo com o art. I). 212 e 221). enfrentam-se os partidários das teorias da informação. 112. 2.Nos contratos entre ausentes ou por correspondência (cartas. a teoria da expedição e.

estabelecendo que nos contratos de adesão as cláusulas ambíguas ou contraditórias serão interpretadas a favor do aderente e serão nulas as cláusulas que estipulem a renúncia antecipada do aderente a direito resultante da natureza do negócio.1. 423 e 424.021-381. Direito Civil . Interpretação e direito O Código Civil incorporou os princípios do Código de Defesa do Consumidor nos do consumidor arts.270 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 4.indd 270 25/4/2011 15:18:58 .Direito das Obrigacoes .

4.indd 271 25/4/2011 15:18:58 .Capítulo 13 CLASSIFICAÇÃO DOS CONTRATOS Sumário: 1. Contrato consigo mesmo ou autocontrato. 2. 8. seja de acordo com o número de partes sobre as quais recaem as obrigações. literais e consensuais e conhecendo-se regime jurídico distinto para os contratos propriamente ditos e para os pactos. Contratos civis e comerciais e a unificação do direito das obrigações.021-381. Contratos de massa.Direito das Obrigacoes . Contratos preliminares. atende-se a vários critérios para classificar os contratos. Contratos por tempo determinado e indeterminado. distinguindo-se então. Contratos típicos. atípicos e mistos. 6. Diversidade de critérios para a classificação dos contratos Embora apresentando-se. Contrato obrigatório. continuados e diferidos. 12.2. Contratos instantâneos. grupos de contratos e contrato quadro. a classificação obedeceu a fatores formais. seja com base na existência ou não de libe- Direito Civil . Contratos individuais e coletivos. os contratos reais. verbais. 9. 1. 12. Contratos evolutivos. 5. Contratos unilaterais. Contratos de consumo. Contratos de adesão. No direito moderno.1. No direito romano.3. Subcontrato. 12. 8. como questão essencialmente teórica. 7. 11.1. Contratos eletrônicos. bilaterais e plurilaterais. 10. Contratos reais. a classificação dos contratos se reveste de importância prática pelas consequências legais próprias a cada tipo de contrato. formais e consensuais. Diversidade de critérios para a classificação dos contratos. à primeira vista.6. Contratos conexos. Contratos gratuitos e onerosos.5. 12. 12. 12.4. como vimos oportunamente. 3. 12.

na compra e venda. à regulamentação específica contida na lei. que se caracterizam não só pela multiplicidade das partes (mais de dois contratantes) como também pela identidade das obrigações e das finalidades almejadas por todos os contratantes (v. o testamento. bilaterais e plurilaterais Os contratos são bilaterais quando criam deveres jurídicos para ambos os contratantes e são unilaterais quando impõem deveres tão somente a uma das partes. vindo do direito romano ou dos autores medievais. Enquanto a classificação em unilaterais e bilaterais atende ao número de declarações de vontade. Ato jurídico unilateral é. seja atendendo à transferência da posse de bens. o contrato de sociedade). Ao contrário. Quando ocorre mais de uma declaração de vontade o ato é bilateral. extingue ou modifica obrigações (de conteúdo exclusivamente patrimonial). a classificação correspondente Direito Civil . por faltar-lhes conteúdo exclusivamente econômico.021-381. Entre os contratos bilaterais. pois o dever de fidelidade decorrente do matrimônio e o dever de assistência moral e de educação oriundo da adoção não são obrigações no sentido técnico-jurídico da palavra. Outras são mais modernas e algumas simplesmente de caráter acadêmico. não se enquadrando entre os contratos. a promessa de recompensa). não é contrato quando cria. 2. conhecem-se os contratos plurilaterais. à forma solene. O negócio jurídico bilateral é contrato quando cria.272 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS ralidade. ao lado de outros de caráter obrigacional. Não devemos confundir o ato jurídico unilateral com o contrato unilateral. à maior ou menor liberdade que têm as partes de discutir e fixar o conteúdo do contrato.Direito das Obrigacoes . Algumas distinções são clássicas. no mandato. assim.indd 272 25/4/2011 15:18:58 . podendo ou não ter natureza contratual. como acontece na locação. pois a matéria é em grande parte subjetiva e cada autor pode enunciar uma classificação própria dos contratos.. O casamento e a adoção criam deveres jurídicos sem conteúdo patrimonial. g. modifica ou extingue direitos ou deveres sem natureza obrigacional. atendendo a critérios por ele fixados. aquele em que só há uma única declaração de vontade (v. g.. ou ao lado deles. Contratos unilaterais.

/mar. A respeito dos contratos plurilaterais.Direito das Obrigacoes . pois somente está obrigado o mutuário e não o mutuante. vencimentos ou honorários) e muitos outros. A unilateralidade do contrato não significa que só possa existir uma obrigação. tendo recebido quantia determinada do mutuante. RDM. v. não havendo mais. é condição legal de sua existência. o mutuário é a única parte no contrato que tem obrigações. tenha de pagar juros ou despesas referentes ao mútuo. o contrato será bilateral. qualquer obrigação do mutuante. São contratos bilaterais o de compra e venda (o comprador deve pagar o preço e o vendedor deve entregar a coisa). 1991. É contrato plurilateral o de sociedade com mais de dois só1 cios . sobre todas elas recaírem as obrigações. o de prestação de serviços (o prestador realiza determinado trabalho e a outra parte. jan.021-381. Uma vez celebrado o contrato. este será unilateral. Se ambas as partes tiverem deveres jurídicos. havendo mais de duas partes no contrato. paga os seus salários. 1 Direito Civil . É também unilateral o contrato de mútuo. o locatário.classificação dos contratos 273 dos contratos. Se. além do dever de devolver a quantia recebida ao mutuante. O contrato continuará sendo unilateral. inexistindo qualquer obrigação por parte do donatário. 81/15-21. pois só se realiza no momento da tradição dos bens fungíveis. devendo entregar ao donatário a coisa doada. mas que somente uma das partes é sujeito passivo de obrigação. Pode ocorrer que o mutuário. o contrato será plurilateral.indd 273 25/4/2011 15:18:58 . baseia-se no número de partes contratantes sobre as quais recai o dever jurídico. São Paulo. É unilateral o contrato de doação. Do descabimento de denúncia unilateral de pacto parassocial que estrutura o grupo societário. de modo que. Arnoldo Wald. que sempre são negócios jurídicos bilaterais ou plurilaterais. pois nele somente o doador se obriga. só o mutuário é que tem obrigações. Se somente um dos contratantes tiver dever jurídico em virtude do contrato. o de locação de coisas (o locador entrega a posse do objeto e o locatário paga o aluguel). A obrigação do mutuante — de entregar as coisas fungíveis — coincide com a realização do contrato. após a realização do contrato.

mas não nas modalidades previstas ou na forma contratualmente estabelecida. A condição resolutória tácita consagrada no art. 475 do CC (anteriormente constante do art. que pode ser alegada quando o outro contratante cumpriu as suas obrigações. importa na transformação do contrato em bilateral. pois o vendedor não é obrigado a cumprir a sua obrigação enquanto o comprador não apresentar o pagamento. em qualquer dos casos. consagrada no art. fazer uma estátua. se não preferir exigir-lhe o cumprimento. A exceção apresenta também outra modalidade. cabendo. Essa defesa decorre da correlação e da reciprocidade das prestações.indd 274 25/4/2011 15:18:58 . A exceptio tem como corolário a possibilidade para um dos contratantes de pedir novas garantias quando a situação econômica do outro se alterou substancialmente (art. 1. constituindo uma categoria intermediária entre os unilaterais e os bilaterais. A distinção entre as duas espécies de contratos tem grande alcance prático. A exceção de inadimplemento (exceptio non adimpleti contractus). O exemplo fundamenta a possibilidade de converter o contrato normalmente unilateral em bilateral. admite-se a exceptio non adimpleti contractus e a condição resolutiva tácita. São contratos unilaterais imperfeitos aqueles que.274 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Alguns autores se referem ainda aos contratos unilaterais imperfeitos. indenização por perdas e danos. quando o contrato estabelecer prestações contemporâneas (trait pour trait). no contrato de doação — contrato unilateral por excelência — a criação de um encargo para o donatário. Assim. permite. que uma das partes não cumpra a sua obrigação enquanto a outra não tiver cumprido os seus deveres. obrigando-o a escrever um livro.. 476 do CC e que anteriormente estava prevista no art. 1.Direito das Obrigacoes . nos contratos bilaterais.092 do Código de 1916. o comprador não pode exigir a entrega da coisa sem oferta real do pagamento do preço. pois. nos contratos bilaterais. Tratando- Direito Civil .092 do Código de 1916) autoriza a parte lesada pelo inadimplemento do outro contratante a pedir a resolução do contrato. que é a exceptio non rite adimpleti contractus. tornam-se bilaterais em virtude de modalidade ou cláusula contratual introduzida pelas partes.021-381. construir um monumento etc. Numa venda a vista. sendo naturalmente unilaterais. 477).

Essa matéria passou a ser disciplinada no art. O contrato oneroso é aquele no qual as partes transferem certos direitos. Desse modo. na forma do art.indd 275 25/4/2011 15:18:59 . mas. 3. Podem ser. ao contrário do que ocorre com a cláusula resolutiva expressa. independentemente de qualquer atuação da parte contratante. sem nenhuma possibilidade ou intenção de conseguir algum benefício e sem assumir qualquer risco. o contrato não é considerado gratuito.classificação dos contratos 275 -se de cláusula resolutiva tácita. 392. num contrato de seguro. São contratos gratuitos a doação e o comodato. Enquanto no contrato unilateral responde por simples culpa o contratante favore­ cido e só por dolo aquele a quem o contrato não favorece. e o pagamento do segurado visou compensar o risco assumido. que opera de pleno direito.Direito das Obrigacoes . Também em relação à responsabilidade nos contratantes. 474. sendo aparentemente gratuito o contrato para a companhia seguradora. é necessário que haja interpelação do outro contratante. faltando o espírito de liberalidade. mediante determinada compensação. conforme a convenção das partes. Ato gratuito é aquele pelo qual alguém transfere um bem ou presta um serviço sem qualquer espécie de compensação. Algumas vezes somente uma das partes tem prestações a cumprir. onerosos ou gratuitos o mútuo e o mandato. nos contratos bilaterais. ou seja. a compra e venda. de contratos onerosos. São contratos onerosos a empreitada. cada uma das partes responde tanto por culpa como por dolo. somente o segurado terá feito pagamentos. passando a chamar os contratos aqui denominados unilaterais de contratos benéficos. e contratos bilaterais. a locação de serviços. serviços ou vantagens uma à outra. pois a companhia seguradora assumiu um risco. o caso não é de gratuidade. é diferente o tratamento existente nas duas espécies de contrato. De fato. Direito Civil . importando na redução do patrimônio de um dos contratantes em benefício do outro. não ocorrendo o evento danoso dentro do prazo contratual.021-381. a locação de coisas. no qual se fez alteração da denominação. Contratos gratuitos e onerosos O contrato gratuito é o que encerra uma liberalidade.

Em outros contratos aleatórios. O contrato comutativo caracteriza-se pela equivalência presumida das prestações dos contratantes. locação). mas existente. a operação não se reveste do caráter de liberalidade.indd 276 25/4/2011 15:18:59 . gratuito (doação) ou oneroso (mútuo com pagamento de juros pelo mutuário ao mutuante).Direito das Obrigacoes . Os contratos onerosos se subdividem em comutativos e aleatórios. ao contrário. pois importa numa cessão do uso e gozo de coisa fungível por determinado tempo ou por tempo indeterminado. mesmo quando. compra e venda. O mútuo com pagamento de juros é considerado contrato oneroso. Assim sendo. O contrato aleatório é o contrato oneroso. conforme o caso e a convenção existente entre as partes.: jogo de loteria e aposta. Direito Civil . é o de seguro. a dúvida surge em re- 2 Ex. Se realmente todo contrato bilateral tem natureza onerosa (v. o aluguel representa o valor locativo de um bem ou de um serviço. o contrato unilateral pode ser. nenhuma obrigação surge para o segurador.276 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Alguns autores pretendem identificar o contrato bilateral com o contrato oneroso e o unilateral com o gratuito. apresentando-se como contrato oneroso. seja ao seu valor. No contrato de seguro. não se realizando o sinistro. A incerteza pode referir-se seja à própria existência da prestação. Na locação.. Contrato aleatório. em que a prestação do segurado é certa e a do segurador é incerta. g. mediante compensação dada pelo mutuário ao mutuante. pois o negócio jurídico tem como fundamento a constituição para o segurado de uma garantia contra o infortúnio. dependendo da realização de uma condição que denominamos “sinistro”. As prestações de ambos os contratantes devem ser certas e compensar-se umas com as outras. por excelência. É o caso da compra e venda. não sendo o pagamento do prêmio um ato de liberalidade.021-381. o contrato de seguro não é gratuito. por haver uma contraprestação hipotética ou eventual. que é o pagamento dos juros. Como vimos. o risco se refere à exigibilidade ou não da prestação. em que o preço deve corresponder em tese ao valor da coisa vendida. em que uma ou ambas as prestações são incertas2.

a venda é emptio rei speratae. embora possam variar o seu conteúdo e o seu valor. 459 à emptio rei speratae e os arts. 441). o vendedor recebe o preço independentemente da existência ou não do objeto vendido. sem que as partes soubes- 3 4 Tradução linhas adiante. em que a realização da venda depende de existência do objeto. pressupondo-se para a realização do negócio a necessidade de existência do objeto. não cabendo ao comprador o direito de reaver o preço pago. o risco só se refere ao valor ou quantitativo. ignora-se qual possa ser o seu valor real. Na segunda.) não houver safra”. o caso é de emptio spei. a venda de objeto futuro. no outro.indd 277 25/4/2011 15:18:59 . Direito Civil . presumindo a existência da safra. não admitindo reajustamento do preço em virtude de ser maior ou menor a produção alienada. Tradução linhas adiante.021-381. No plano prático. o art. mas não os decorrentes de sua própria existência. o risco assumido pelo comprador é quanto à própria existência do objeto. pois os riscos do seu valor correm por conta do comprador. mas independe do valor desta.Direito das Obrigacoes . Num caso. 458 a 461 do CC. A venda de coisa futura se apresenta sob dois aspectos: emptio spei3. Os contratos aleatórios encontram regulamentação própria nos arts.classificação dos contratos 277 lação ao valor da prestação. Quando alguém vende a sua safra declarando que “a venda ficará perfeita e acabada haja ou não safra. Se a venda é condicionada à existência da safra. referindo-se o primeiro dos mencionados artigos à emptio spei. 460 e 461 à venda de coisas sujeitas a riscos. mas não podendo avaliá-la. embora possa variar o seu valor. Na primeira hipótese. se por razões de força maior (geada etc. devendo ser pago o preço venha ou não a existir o objeto. Quando uma pessoa vende a safra futura de uma das suas fazendas. precisamos salientar que os vícios redibitórios só autorizam o exercício da ação rescisória ou estimatória (de redução de preço) nos contratos comutativos e nas doações onerosas (art. e a emptio rei speratae4. ou seja. referente à emptio spei (compra da esperança). torna-se necessário para a emptio rei speratae (compra da coisa esperada) que haja objeto.

definição e estrutura provenientes da lei. é possível que o comprador pague uma prestação fixa e. que têm nomen iuris. do mesmo modo que os contratantes podiam afastar a aplicação das normas dispositivas. sem regulamentação legal prévia. 4. entendendo-se que. Conhecemos. os contratos atípicos ou inominados não têm estrutura fixada pela lei e dependem exclusivamente da convenção das partes para assentar os direitos e as obrigações deles decorrentes.indd 278 25/4/2011 15:18:59 . Tal situação não altera a comutatividade essencial no negócio. no nexum e em outros contratos da época.021-381. havendo uma parcela de uma das prestações cujo valor depende de condição. durante determinado período. com amplitude. O direito primitivo em geral e o direito romano em particular não admitiam. Direito Civil . Ao contrário. sem regulamentação legal apropriada.Direito das Obrigacoes . uma quota-parte dos lucros do negócio. Tais contratos se regulam pelos princípios gerais dos contratos comutativos quando o princípio básico do negócio é a equivalência das prestações. sendo anulável por dolo do vendedor. a não ser quando defendendo alguns princípios básicos de ordem pública. atípicos e mistos Os contratos típicos ou nominados são aqueles que têm uma estrutura legalmente definida. São regulamentados nos seus principais aspectos por textos legais. e os contratos inominados ou atípicos. Numa venda de estabelecimento. o contrato alienatório perde as suas características. pois. duas espécies de contratos: os contratos nominados ou típicos. a autonomia da vontade das partes. entendendo que somente a vontade das partes não podia obrigá-las. hoje. no nosso direito. nada impedia que criassem novas figuras contratuais. sendo necessário recorrer a fórmulas sacramentais que encontramos na stipulatio. que prevalece sobre a álea. Contratos típicos. À medida que o liberalismo foi impondo suas ideias. Alguns contratos são relativamente aleatórios. ou seja. Na hipótese de saber o alienante que a coisa já desapareceu.278 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS sem no momento do contrato se ainda existiam ou não. as normas legais referentes aos contratos passaram a ter função geralmente supletiva.

Da invalidade da cláusula penal destinada a impedir a entrada no mercado de empresa concorrente. nov. o comodato etc. O Código conhece e regulamenta vinte contratos nominados. 77/884 e 77/997. O contrato misto distingue-se do atípico. pois utiliza a regulamentação e a estrutura de contratos nominados. 425 do CC expressamente declara que é lícito às partes estipular contrato atípico./dez. mas apresenta elementos do depósito.Direito das Obrigacoes . o contrato de locação de caixas-fortes não se limita a ser um contrato de locação. a locação. por não encontrarem regulamentação específica na legislação brasileira. Assim. Digesto Econômico. mas realiza uma fusão de diversos figurinos ou moldes num contrato só5. os contratos de incorporação. 76/618. RTJ. Até 1964. Vinculada ao critério de distinção entre contratos típicos e atípicos. a doação. a respeito do contrato misto. excluir ou agravar responsabilidade. o mútuo. pois o banco que os aluga tem V. de promessa de cessão e de promessa de compra e venda também eram atípicos.. São Paulo. ou inominados. mesmo nesses contratos típicos ou nominados. 240. As partes podem. criados pelas partes com a utilização simultânea de elementos de diversos contratos nominados. v. exigir reforço de garantia. nada impede que as partes afastem a aplicação das normas supletivas existentes na legislação pátria ou incluam cláusulas ou condições não previstas pela lei brasileira. Tanto assim que o art.021-381. pois tudo que não for proibido e não atentar contra a nossa ordem pública e os nossos bons costumes é lícito.indd 279 25/4/2011 15:18:59 . surge a classe dos contratos mistos. mas sempre observando as regras gerais nele estabelecidas. todavia. Mesmo em relação ao contrato nominado. Existem no direito brasileiro inúmeros contratos atípicos. 5 Direito Civil . entre os quais podemos citar a cessão de clientela e a abertura de crédito.classificação dos contratos 279 A tendência do direito se manifesta no sentido de permitir às partes a criação de número ilimitado de contratos atípicos ou inominados que somente se regulam pelos princípios gerais referentes aos contratos e. transformando os institutos de acordo com os seus interesses e com a finalidade econômica do negócio que pretendem fazer. como a compra e venda. e Arnoldo Wald. por normas jurídicas referentes a algum contrato típico análogo. a empreitada. supletivamente. 1974.

Direito Civil . entendendo alguns julgados que a sua posição é de possuidor de boa-fé. mas que pela fusão dos seus elementos dão margem a um contrato misto6. que tem. Trata-se. as partes podem convencionar que. Do mesmo modo. 6 Sobre o assunto. com as responsabilidades agravadas que a lei civil e penal estabelece na hipótese de depósito. decorrente da fusão da compra e venda com reserva de domínio com o depósito. além de simples candidato a proprietário do objeto vendido. na venda com reserva de domínio (contrato nominado com cláusula prevista em lei). Surge assim um contrato misto.Direito das Obrigacoes . pois. Essa modalidade de contrato que surgiu no Brasil em relação às máquinas de costura importava numa locação simulada em que as prestações da venda eram consideradas como aluguel e. funcione também como depositário deste. não é fácil esclarecer o enquadramento jurídico do comprador antes do pagamento total. o mesmo não ocorre com o contrato de locação com opção para a compra. ver outro volume deste Curso. A fraude no caso consistia em não haver qualquer ressarcimento para o comprador se deixasse de pagar alguma das prestações e independentemente de tudo já tivesse anteriormente pago ao vendedor simulado em locador. ambos contratos nominados. a jurisprudência vacila quanto à situação jurídica exata do comprador com cláusula de reserva de domínio. de um contrato misto em que há elementos da locação e outros do depósito voluntário. finalidade diversa. Na falta de tal cláusula.021-381. também denominado leasing. o locatário tinha uma opção para adquirir por preço irrisório o objeto que realmente já tinha pago. enquanto outros o equiparam ao comodatário. o comprador. até o pagamento total do preço. pois. Atualmente já se admite o arrendamento mercantil. importando a reserva de domínio em conservar o vendedor a propriedade do objeto alienado até pagamento final. Se o contrato misto de reserva de domínio com depósito é perfeitamente lícito. todavia.indd 280 25/4/2011 15:18:59 .280 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS função de guarda em relação aos objetos depositados. após a locação por determinado prazo. sistema engenhoso pelo qual os vendedores quiseram evitar a proteção ao comprador assegurada no caso da venda com reserva de domínio.

operações não denominadas e atípicas. Por essa mesma razão é que se estabeleceu a legislação especial sobre vendas de imóveis. abusos e verdadeiros casos de usura decorrentes de contratos leoninos. pois assistíamos a uma série de irregularidades. a venda com reserva de domínio.classificação dos contratos 281 A atual tendência do direito para maior interferência nos contratos visa a ampla proteção para o elemento economicamente fraco. São Paulo.Direito das Obrigacoes . Por essa razão é que o legislador interveio. a usura. complementada pela Lei de Incorporações (Lei n. fraudes. não previstas por lei e que muitas vezes deixavam o adquirente sem qualquer espécie de proteção jurídica. corretagem (arts. É o que aconteceu com a promessa de compra e venda e com o arrendamento mercantil. O que a lei pretende estabelecer são condições mínimas de ordem pública em relação a todos os contratos a fim de evitar o enriquecimento sem causa. regulamentando. e posteriores alterações). V. 1975. que foi fruto de um movimento para uma regulamentação mais severa e rígida das operações imobiliárias. No Código Civil encontramos novos contratos típicos. Álvaro Villaça Azevedo.indd 281 25/4/2011 15:18:59 . 4. 710 a 712). Tal liberdade só encontra limitações quando a finalidade real das partes consiste em burlar a lei ou em locupletamento à custa de outrem. mas em evitar os abusos e as fraudes. e na estruturação do Plano Habitacional (Lei n. v. todavia. de 10-12-1937. 722 a 729) e contrato estimatório (arts. 534 a 537)7. 4. e posteriores alterações). de 21-8-1964. que até agora não eram previstos pela nossa legislação.380. não pretendendo. 16-12-1964.021-381.591. na Lei n. 649. Contratos inominados ou atípicos. Com o decorrer do tempo contratos atípicos se transformam em contratos típicos. O problema do legislador não consiste em proteger os contratos nominados. reduzir ou limitar o número de contratos inominados e a liberdade que os contratantes têm de criar novos tipos de contratos. no Código de Processo Civil e nas leis de economia popular. 7 Sobre o assunto. neste volume os citados contratos. de 11-3-1949. 58. Direito Civil . constantes no Decreto-Lei n. a coação econômica. como os de agência e distribuição (arts.

Diante da desigualdade econômica existente entre empregado e empregador. o chamado contrato coletivo ou convenção coletiva. o princípio de acordo com o qual o contrato é res inter alios acta para os terceiros já está superado. na locação de coisas ou de serviços. mudando a própria substância e transformando-o num ato-regra para uma categoria econômica. no mandato e no depósito. todavia. fixando-se princípios para evitar a concorrência desleal ou a luta de preços. em virtude de extensão a todos os membros de determinada categoria profissional das vantagens pleiteadas por um sindicato. que revolucionou o esquema tradicional do contrato. Muitas vezes ocorrem entendimentos entre diversas indústrias ou diferentes firmas comerciais. Para facilitar a aceitação das reivindicações operárias. Ao lado do contrato individual. O contrato coletivo apresenta-se assim como um acordo não de indivíduos isolados na defesa dos seus interesses. surgiu. que poderia levar à ruína os produtores e os comerciantes. tais conversações muitas vezes são feitas entre sindicatos patronais e operários.282 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 5. Contratos individuais e coletivos O contrato é individual quando estabelece uma relação entre pessoas. no direito do trabalho. fizeram com que um acordo de vontades pudesse ser aplicado a pessoas que nele não tivessem sido partes. especialmente no campo do direito do trabalho. Hoje. A convenção coletiva de trabalho e o dissídio coletivo. apenas nas relações entre empregados e empregadores que surgem os contratos coletivos. com importância crescente.indd 282 25/4/2011 15:18:59 . os operários pretenderam substituir as relações interindividuais por relações sociais ou de grupos entre sindicatos patronais e sindicatos de empregados.021-381. no fim do século XIX e início do século XX. organizou-se um sistema sindical para a discussão das condições de trabalho com os empregadores. regulamentado pelo direito do trabalho. Podemos assim afirmar que. como acontece na compra e venda. para a produção. Trata-se de importante conquista humana do direito do trabalho. Não é.Direito das Obrigacoes . mas de sindicatos ou grupos econômicos. Não é só o fim ilícito de organizar que leva os interessados ao con- Direito Civil . a compra ou a venda de determinados artigos.

A compra e venda de um objeto com pagamento a vista é evidentemente um contrato instantâneo em que uma das partes entrega a coisa e a outra paga o preço.Direito das Obrigacoes . o seguro de grupo. perdurando as obrigações das partes contratantes. Arnoldo Wald. fixando modalidades gerais de trabalho e zona de atividade de cada um num documento de caráter mais estatutário do que contratual. são os que demoram certo tempo.classificação dos contratos 283 trato coletivo. São também denominados contratos sucessivos. 47. é um acordo que se torna necessário para atender a determinado mercado. 1982. 8 Direito Civil . Situação análoga surge nos chamados contratos grupais.indd 283 25/4/2011 15:18:59 . Contratos instantâneos. Os acordos de comercialização no direito brasileiro. a certas modalidades de vendas. Os contratos continuados ou continuativos./set. jul. a fim de evitar a concorrência entre eles. O problema da importância dos contratos coletivos no direito contemporâneo tem provocado estudos monográficos de autores que procuram enquadrá-los dentro do âmbito contratual. no contrato de seguro. como. por exemplo. nos contratos de fornecimento em geral. Importam na realização de prestações periódicas e contínuas. à realização de determinadas pesquisas. continuados e diferidos Os contratos instantâneos são aqueles que se realizam e executam num único momento. também denominados de execução continuada ou de trato sucessivo. RDM. fixando-se as bases da cooperação de diversos grupos econômicos para fabricar ou comercializar o produto8. v. Muitas vezes. 6. Estabelecemse assim as quotas de cada um. a compra e venda por consórcios e a oferta pública de ações. como acontece em matéria de locação de coisa ou de certos serviços. não apresentando maior duração.021-381. a possibilidade ou não de transferi-las e o modo de operar em geral etc. não obstante as divergências existentes entre a nova figura e o contrato clássico. Muitas vezes o fabricante faz um contrato coletivo com os diversos revendedores.

Se a lei exige contrato escrito. Contratos reais. que. formais e consensuais Essa distinção continua tendo importância prática. mas de modo contínuo ou periódico. como os negócios jurídicos. pois caracteriza a existência do contrato e o momento no qual este se formou e passou a produzir efeitos jurídicos. mesmo por instrumento particular. poderá valer com outra 9 V. 7. só são válidos quando realizados por escritura pública9. ao contrário. 108 e 1. Sem a entrega da coisa mutuada. n. Caracterizam-se os contratos sucessivos ou continuados pelo fato de não ser executada a prestação de uma vez só. não se torna perfeito e acabado o contrato. necessariamente. e o pacto antenupcial. O contrato não solene é. O contrato solene. da resolução do contrato e ainda nos casos de força maior. O contrato definitivo depende. não se confundindo. 1. na forma dos arts.Direito das Obrigacoes . dada em comodato ou depositada. que podem ser tanto instantâneos como de trato sucessivo. como ocorre no mútuo. com os contratos de execução diferida. no comodato e no depósito.284 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS A distinção apresenta importância prática no campo da aplicação da exceptio non adimpleti contractus. de acordo ainda com a lição dos romanistas. aquele cuja realização depende da entrega de certo objeto. de falência ou de imprevisão. Capítulo 12. Contrato real é. que é assim imprescindível. modificação ou renúncia de direitos reais sobre imóveis de valor superior a certa quantia.021-381. e finalmente quanto aos prazos prescricionais. aquele que não necessita de forma especial para a sua validade. transferência. quando realizado sem a forma estabelecida por lei. Contratos formais ou solenes são os que exigem forma especial para a sua celebração. todavia. justificando o caráter real do contrato. Direito Civil .indd 284 25/4/2011 15:18:59 . que visem à constituição. Poderá valer quando muito como promessa de mútuo (abertura de crédito) ou de comodato ou de depósito.653 do CC. este é formal. da entrega do objeto.

Assim. que deverá ser dada pelos órgãos competentes. na qual uma das partes impõe o conteúdo do contrato à outra.classificação dos contratos 285 finalidade. podendo apenas aceitá-lo ou recusá-lo. não havendo dúvida de que se trata de um contrato sui gene- Direito Civil . atendendo-se à sua própria natureza ou a determinações legais que fixam as condições dos contratos de certo tipo. mas não atenderá à sua função precípua.indd 285 25/4/2011 15:18:59 . 8. ou seja. Trata-se de uma estandardização do contrato.Direito das Obrigacoes . geralmente com a prévia aprovação das autoridades competentes. empreitada. A doutrina tem discutido o caráter contratual do contrato de adesão. doação de objetos de pequeno valor etc. O contrato de adesão decorre seja da técnica amplamente desenvolvida do nosso tempo em que as grandes empresas fixam modelos de contratos que apresentam ao público. São contratos consensuais os de locação.021-381. sem que tal policitação admita qualquer aditamento. independendo. Contratos de adesão É aquele em que um dos contratantes ou ambos não têm a liberdade contratual para discutir os seus termos. mas devendo um deles aderir à proposta feita pelo outro. pois. ressalvadas as situações especiais enquadradas no sistema nacional de habilitação ou as hipóteses de imóveis loteados e sem prejuízo de justificar a ação judicial própria para obtenção de sentença suscetível de registro. seja da interferência do Estado na economia nacional determinando que certos modelos de contratos só possam ser utilizados após a aprovação governamental. a venda de imóvel por instrumento particular não constitui título hábil para ser apresentado no Registro de Imóveis para obter a transferência da propriedade. O contrato consensual necessita tão somente do consenso. não havendo entre os contratantes a igualdade jurídica. modificação ou contraproposta. de forma especial ou da entrega de certos bens. mas não tem a faculdade de discutir as condições contratuais. As passagens aéreas e as apólices de seguro constituem exemplos de contratos em que o passageiro ou o segurado pode viajar ou não. realizar ou não o seguro. do mútuo acordo das partes.

fixado princípios próprios de interpretação para os contratos de adesão. permitindo sua imediata e fácil compreensão. 54.Direito das Obrigacoes . 423) e (ii) outro determinando a nulidade da cláusula que estipule a renúncia do aderente a direito próprio da natureza do negócio (art. o Poder Público controla os contratos de adesão. A importância do contrato de adesão. fixando ou fiscalizando as suas cláusulas. Seguindo essa linha. decorre das situações respectivas entre os contratantes. estando o outro contratante praticamente obrigado a contratar nas condições fixadas pela empresa dominante em determinada área de atividade (seguros. dando preferência às cláusulas manuscritas ou datilografadas sobre as impressas e interpretando o contrato em geral em favor daquele que se obrigou por adesão.021-381. definindo-o como aquele cujas cláusulas tenham sido aprovadas pela autoridade competente ou estabelecidas unilateralmente pelo fornecedor do produto ou do serviço. sem que o consumidor possa discutir ou modificar. mas que nem por isso perdeu a sua natureza contratual. Direito Civil .286 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS ris. financiamento ao consumidor etc. fornecimento de telefone. quando um deles exerce um monopólio de fato ou de direito em relação a serviços essenciais existentes na sociedade.). 8. de um contrato original. pleiteando a doutrina uma regulamentação mais minuciosa da matéria para assegurar a proteção legal do contratante que deve aderir à minuta que lhe é apresentada. substancialmente. A doutrina e a jurisprudência têm. nas disposições gerais dos contratos. aliás. Geralmente. admitindo-se a cláusula resolutória quando alternativa. em nossa época. dedicou dois artigos à interpretação dos contratos de adesão: (i) um estabelecendo que a interpretação das cláusulas ambíguas sempre será de forma mais favorável ao aderente (art.078/90) trata do contrato de adesão no seu art. o atual Código Civil. transportes. Determina o legislador que as cláusulas que limitam direito sejam redigidas com destaque.indd 286 25/4/2011 15:18:59 . O Código do Consumidor (Lei n. luz e gás. 424). mas a introdução de normas especiais referentes à interpretação daqueles nos Códigos é interessante e oportuna. o seu con­ teúdo. O Código Civil de 1916 não tinha dado a necessária atenção aos contratos de adesão.

indd 287 25/4/2011 15:18:59 . 8. contendo cláusulas gerais ou padronizadas e celebrados com a simples adesão da outra parte.078. que se limitam a aderir. em outro volume sobre a responsabilidade civil do produtor. embora só se aplicando aos contratos de consumo10. e garantindo. individualmente ou a título coletivo (art. e os serviços públicos ou particulares. Contratos de massa A indústria moderna. aplicando-se a todos os contratos celebrados com V. além de cuidar-se de contratos de adesão. Mas. 8. de 11-9-1990. ainda. em vigor a partir de 11-3-1991). 8. passaram a redigir contratos impostos à generalidade das pessoas. limitada em parágrafo do art.classificação dos contratos 287 cabendo a escolha ao devedor. São exemplos os casos de seguro obrigatório de responsabilidade civil dos proprietários de veículos e outros seguros obrigatórios. Trata-se de uma primeira regulamentação dos contratos de adesão. quanto à sua formulação e efeitos.078/90) passou a admitir a defesa dos interesses. que ensejará uma construção pretoriana. agora expressamente enfocada pelo Código de Proteção e Defesa do Consumidor (Lei n. Em consequência de tal modo de defesa. do gás. cujas condições gerais são registradas em Cartório de Títulos e Documentos. 81 desse Código. Os casos de energia elétrica.021-381. prestando serviços homogêneos a grande número de pessoas. 81). do transporte urbano etc. do telefone. recebem o nome de contratos de massa. são exemplos. em que se faz referência à proteção contratual.Direito das Obrigacoes . O Código de Defesa do Consumidor (Lei n. dentro de certos limites. concebem-se também os contratos preparados de modo uniforme para os consumidores. que normalmente não perderá tudo que pagou.1. como outros celebrados com grande número de consumidores. o seguro tem as mesmas bases e cláusulas. de certo modo aceitos pela Superintendência de Seguros Privados (SUSEP). 10 Direito Civil . no sentido de multidão de contratantes. nesse caso. os contratos de cartão de crédito. em qualquer seguradora.. Contratos de massa são os destinados a um número elevado ou indeterminado de contratantes. fabricando produtos em série.

(Acrescido pela MP n. 2000. Assim.)” 11 Contratos difusos e coletivos. mas não se caracterizam como “operações de consumo”. (Acrescido pela Lei n.) V — por infração da ordem econômica e da economia popular. III — a bens e direitos de valor artístico. de 24-8-2001. de 24-7-1985. 1. ou não. enfim. de 24-8-2001. f) a eficácia concreta dependente de integração. são outros exemplos de contratos de massa. 7. estético. turístico e paisagístico. e g) a adesão. 54. 8. 2. 1. por exemplo. como pela chamada Lei Antitruste (Lei n. os depósitos e os empréstimos bancários são contratos de adesão. quando celebrados de modo uniforme. os contratos de consumo. Cap. aplicáveis a uma coletividade. (Redação dada pela MP n.288 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS os usuários. de 11-6-1994). I — ao meio ambiente. 2. as ações de responsabilidade por danos morais e patrimoniais causados: (Redação dada pela Lei n. Roberto Senise Lisboa indica as “características marcantes: a) a predisposição unilateral.Direito das Obrigacoes . como alguns contratos de prestação de serviços bancários e os de seguro-saúde. chamada Lei da Ação Civil Pública.884.347. Direito Civil .078. 2. que dispõe sobre o controle de contratos no art. de 11-6-1994). d) a abstração. 2. os contratos de massa podem ser considerados.º diz: “Art.180-35.021-381.. IV — a qualquer outro interesse difuso ou coletivo. Dissertando a respeito. Conforme o caso. de 11-9-1990. sem prejuízo da ação popular. 157. Outros contratos. e) a inalterabilidade. Igualmente pela Lei n. II — ao consumidor. são também controlados pelo Poder Público.180-35.indd 288 25/4/2011 15:18:59 . ed. c) a uniformidade. cujo art. p. histórico. Atualmente. São Paulo: Revista dos Tribunais.884.º Regem-se pelas disposições desta Lei. 8. 8. b) a generalidade. por parte do indivíduo”11.) VI — à ordem urbanística. sujeitos ao Código de Defesa do Consumidor.

em relação à prestação de serviços. A condição — evento futuro e incerto — pode ser suspensiva. de execução futura ou de execução sucessiva.classificação dos contratos 289 Temos aí dois itens de nosso interesse: item II. causarem à outra parte. embora possa não sê-lo quanto ao momento em que deve ocorrer. enquanto um contrato válido até o casamento de Caio (condição) ou até o falecimento de Tício (termo certus an mas incertos quando) é por tempo indeterminado.Direito das Obrigacoes . na hipótese do contrato por tempo indeterminado. um aviso prévio. mas distinguindo-se o termo da condição. A distinção básica entre as duas espécies de contrato consiste na possibilidade de denúncia do contrato por qualquer das partes interessadas em qualquer tempo. de força maior ou caso fortuito. Contrato por tempo determinado é aquele que está a vigorar por prazo certo. de um elemento acidental do contrato que se apresenta sob a forma de condição ou termo. por ser evento futuro e certo quanto à sua realização. não se ad- Direito Civil . até o advento de um termo certus an e certus quando.021-381. ou seja. mas incertos quando. A lei estabelece certos prazos máximos para determinados tipos de contratos. podendo depender seja de uma condição. nos contratos por tempo determinado. referente ao consumidor. Contratos por tempo determinado e indeterminado Os contratos podem ser de execução imediata. ocorrendo distinção simétrica entre o termo inicial e o termo final. Um contrato válido pelo prazo de dois anos é realizado por tempo determinado. enquanto.indd 289 25/4/2011 15:18:59 . ao contrário. Contrato por prazo indeterminado é aquele que não tem duração certa. 9. as partes só se podem desvincular na hipótese de infração contratual do outro contratante. e o momento da realização da prestação neles depende de uma modalidade. ou então indenizando os prejuízos que. Assim. referente a qualquer outro interesse difuso ou coletivo. Os dois últimos se projetam para o futuro. costumando as partes estabelecer. em virtude da rescisão intempestiva. quando dela depende o início do contrato. de justa causa. seja de um termo certus an. todavia. quando importa em cessação do contrato. ou resolutiva. e item IV.

se apresentassem como atos de comércio definidos pelo Regulamento n. Os contratos eram tidos como comerciais quando. Os contratos eram considerados civis quando não regulados pelo direito comercial.290 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS mite prazo contratual superior a quatro anos. após. disciplina diferenciada para os contratos civis e os empresariais ou comerciais. que prorroga por tempo indeterminado os contratos de locação residencial com prazo inferior a trinta meses. por razões históricas. quando. como o art. Direito Civil . merece louvor a escolha pela unificação. realizados entre comerciantes. Nas locações residenciais com o mínimo de trinta meses. no direito brasileiro. as partes continuam a comportar-se como se estivesse ainda em vigor. da mesma Lei de Locações). sem oposição do locador. respectivamente. prorroga-se a locação por tempo indeterminado (art. ou realizada mediante termo aditivo a ele. praticados entre não comerciantes ou não visando fim lucrativo. findo o contrato. 46. se. O contrato pode ser prorrogado pela vontade das partes ou em virtude de lei. Contratos civis e comerciais e a unificação do direito das obrigações O Código Civil unificou o direito das obrigações. deixando de existir.º. ou tácita. A prorrogação legal decorre de textos especiais. do direito das obrigações. Em vista dos difíceis conflitos existentes no regime anterior para a configuração de um contrato como civil ou mercantil e a aplicação. assim como é no direito italiano. porém. ou outras regras específicas. no direito brasileiro. da disciplina aposta no Código Civil ou no Código Comercial. de 1850. A prorrogação convencional pode ser expressa. passamos a diferenciar quais seriam os critérios para a identificação do contrato comercial e do civil.Direito das Obrigacoes . § 1. salvo o caso de denúncia de um dos contratantes. de 18-10-1991. e tivessem finalidade lucrativa. prevista no contrato anterior. o locatário continuar no imóvel. 8. o contrato fica extinto ao fim do prazo. 737. 598 do CC. 47 da Lei n. em virtude do disposto no art.245.indd 290 25/4/2011 15:18:59 . Ainda assim. 10.021-381.

o mútuo.Direito das Obrigacoes . Se for verdade 12 Tratado de direito comercial. conforme o caso. A aplicação geral dos princípios que regulam os acessórios sofre todavia algumas limitações no campo dos contratos. e outros exclusivamente como civis. subordinados ou conexos com outros. o mandato. grupos de contratos e contrato quadro A conexidade no plano contratual corresponde à acessão nas relações entre os bens. determinados contratos são dependentes. a compra e venda de imóveis. a empreitada. que lamentou a falta de critério seguro na matéria. 2.021-381. Contratos conexos. Do mesmo modo que certos bens são acessórios em relação a outros. em vista da aplicação da disciplina legal própria. X. perde a importância tal distinção. v. na medida em que o regime jurídico é uniforme e aplicável a todas as relações obrigacionais. 1930. § 302. Com a unificação do direito obrigacional. em que as partes distinguiram a venda da quota do terreno e a construção das acessões. Direito Civil .classificação dos contratos 291 A dificuldade da distinção entre as duas espécies de contratos foi salientada pelos comercialistas liderados por J. a edição. 11. todavia. Carvalho de Mendonça12. A conexão surge entre dois contratos independentes ou entre um contrato principal e outro acessório. a conta-corrente e a comissão. como ocorria com a compra e venda de móveis. como a abertura de crédito.indd 291 25/4/2011 15:18:59 . 492.. como o contrato antenupcial. Muitos contratos podiam. a troca. a locação e o depósito. ser civis ou comerciais. a parceria rural e a representação dramática. há conexão entre o contrato de locação (principal) e o contrato de fiança (acessório) ou numa venda de imóvel na planta. Somente numa análise minuciosa das circunstâncias especiais de cada caso o juiz encontrava os elementos necessários para a caracterização civil ou comercial do contrato. 1. Desse modo. ed. p. entre os contratos de venda do solo e de empreitada (em relação ao apartamento ou casa a ser construída). Alguns contratos eram caracterizados necessariamente como comerciais.

292 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS que a nulidade. termina o de fiança). pois o vendedor não pretende desfazer-se da loja sem Direito Civil . É comum nos contratos locativos uma cláusula resolutória baseada no falecimento. a fiança não admitem ampliação ou interpretação extensiva (art. a rescisão ou a caducidade do contrato principal importa em ineficácia do acessório (terminando o contrato de locação. realizando-se sob duas formas distintas e complementares. até a realização desta. sendo a fiança dada até a efetiva entrega das chaves. São dois negócios distintos. o ato de liberalidade e. pois a solução contrária implicaria prejuízo para o locador. Assim. na falência ou na interdição do fiador. qualquer que seja o motivo. Algumas vezes um negócio global pode ser desmembrado para fins técnicos.Direito das Obrigacoes . 819). O problema tem sido discutido na jurisprudência em relação aos contratos legalmente prorrogados em virtude de legislação de emergência. divergindo julgados e doutrina quanto ao alcance da fiança quando dada em contrato por tempo determinado. mas complementares e interdependentes ou conexos. mesmo em virtude de prorrogação legal.indd 292 25/4/2011 15:19:00 . A importância de conexidade dos contratos consiste no fato de que o inadimplemento da parte num deles tem reflexo no outro. não é menos certo que as partes podem convencionar a extinção do contrato principal em virtude do desaparecimento do acessório. implica continuação da garantia fidejussória. salvo se o locatário dentro de certo prazo apresentar outro fiador idôneo a critério do locador. continua necessariamente a existência da garantia. Ao contrário. Também existem contratos conexos sem que entre eles haja a relação de acessório e principal. Assim a venda de uma loja com o seu fundo de comércio. por não admitir a mesma interpretação extensiva. por ter o fiador assumido o risco da locação até a entrega das chaves. o fato de o locatário não entregar a chave.021-381. A tese dominante em relação aos contratos com fiança concedida por certo período é no sentido de extinguir-se a garantia por ocasião da prorrogação legal do contrato. e o seu estoque de mercadoria revestem a forma de cessão do contrato de locação e de venda de mercadorias. em particular. atualmente denominado estabelecimento no atual Código Civil. em razão da unidade econômica ou da simbiose entre ambos existente. mas. se o seu prazo depende de condição resolutiva.

Em primeiro lugar. que todavia têm a natureza de contratos porque neles existem algumas condições e cláusulas essenciais de especificação. em oposição ao aspecto geral e mais amplo do contrato quadro. exigindo-se o consentimento das partes contratantes tanto no contrato básico como em cada um dos contratos dele decorrentes. o contrato básico se distingue tanto dos pré-contratos como dos contratos preliminares. embora tenha elementos de vários deles. o direito comercial. 13 Arnoldo Wald e outros. estabelecendo um standard. nele devem existir tanto a affectio cooperandi quanto a affectio modulus. que lhes dão uma certa autonomia. assim como das promessas de contratar e dos contratos continuados ou de execução diferida ou sucessiva. O direito de parceria e a nova Lei de Concessões. São Paulo: Saraiva.classificação dos contratos 293 entregar também a mercadoria. Destacando-o. como se os contratos específicos fossem meros termos aditivos de especificação. também chamados contratos específicos.. ed. que temos assinalado como sendo uma característica do direito mais recente13. Por outro lado. Duas são as características principais do contrato quadro ou básico.indd 293 25/4/2011 15:19:00 . A affectio cooperandi significa a intenção das partes de cooperar em vários negócios. Na realidade.Direito das Obrigacoes . numa mesma operação econômica de venda imobiliária. Trata-se de acordo entre as partes que se caracteriza por dominar e condicionar os contratos de aplicação. tem definido o chamado contrato quadro ou contrato básico. A affectio modulus consiste na vontade das partes de padronizar os contratos futuros. embora estejam vinculados à matriz. dentro da moderna teoria dos grupos de contratos e distinguindo-o dos contratos conexos propriamente ditos. havendo um certo sentido de parceria para alcançar objetivos comuns. 2.021-381. O mesmo acontece quando. dentro de um condicionamento previamente estabelecido. nas suas análises mais recentes. Direito Civil . 2004. ou de execução. há a necessidade de um duplo consenso. o vendedor transfere a propriedade de um imóvel e financia a venda sob a forma de hipoteca sobre o prédio alienado. uma minuta padrão. que fixa a estrutura e estabelece as condições dos demais.

Alguns autores têm salientado que existe um certo paradoxo no contrato quadro que vincula as partes.021-381. mas ainda não definidos. no qual o jurista deve manter a segurança nas relações entre as partes. é. dois professores franceses enfatizaram a originalidade da concepção do contrato quadro. de um instrumento que consegue conciliar adequadamente a necessidade de permanência nas regras aplicáveis.Direito das Obrigacoes . que flexibiliza o Direito Civil . ou seja. também chamado contrato básico. mas evitar a rigidez.indd 294 25/4/2011 15:19:00 . de outro. Em monografia sobre a matéria. ao mesmo tempo. Trata-se da vontade das partes de criar um molde ou padrão único. à qual já fizemos referência e que corresponde à affectio societatis nas relações entre os sócios. Na realidade. A consequência é a criação da chamada affectio modulus. devem obedecer às regras da matriz. O contrato quadro. as deixa livres. Essas modificações do contexto implicam na autonomia relativa que devem ter os contratos específicos. Esses contratos futuros são chamados contratos de aplicação. de detalhar o objetivo dos contratantes. mas. Sua originalidade decorre do fato de deixar a outros contratos a preocupação de realizar finalmente. dentro dos limites em que nele estão contidos os pactos decorrentes. Ocorre no caso a voluntas de creare unus unicus modulus. não se limitam a simples medidas de aplicação mas. a arterioesclerose. nas relações entre as partes. podemos dizer que se a conexão caracteriza determinados contratos ligados uns aos outros sem que um incorpore o conteúdo do outro. nas quais todos os elementos podem ser estimados. de um lado. Trata-se. de acordo com a melhor doutrina. a continência é a característica básica do contrato quadro. na verdade. ou seja. Trata-se de superar uma das dificuldades do mundo contemporâneo.294 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Se formos aplicar a terminologia do direito processual. um contrato flexível utilizado no caso de situações contratuais complexas. contrato guarda-chuva ou contrato comercial. submetendo as suas relações a um regime que consta no contrato quadro. que. e a imperativa adaptação do contrato à evolução econômica e tecnológica. na medida em que confirmam a tendência dos negócios estabelecida pelo acordo inicial de vontades. especialmente nos contratos de longo prazo. a causa e o objeto são os mesmos no contrato quadro e nos contratos de aplicação.

pacto pelo qual as partes se obrigavam a firmar um contrato. 14 Direito Civil . relegando para um plano secundário os pactos. realizar um contrato definitivo. Na realidade. e surgiu assim o pactum de contrahendo. pois o mesmo já consta no contrato quadro./juin 1996. n. ou seja. avr. pelo qual assume a obrigação de contratar em certo momento e em determinadas condições. a liberdade contratual. Posteriormente. em parte. que o pacto pudesse obrigar as partes.classificação dos contratos 295 direito das obrigações. que obedeciam às formalidades legais. também denominado impropriamente compromisso. a de fixar o regime jurídico aplicável a cada contrato específico. todavia. que vincula as partes. O que incumbe ao pré-contratante é assinar o contrato definitivo. quaisquer que sejam os deveres e direitos deste decorrentes. sem fazer com que perca a sua segurança. 2. tanto os definitivos como os preliminares. sob pena de aplicação de sanções específicas. Paris: Revue Trimestrelle de Droit Commercial. pré-contrato ou promessa de contrato. permitindo que o direito seja ao mesmo tempo revolucionário na concepção e conservador nos efeitos obtidos14. o contrato básico mantém a liberdade das partes de contratar ou de não contratar. é um contrato autônomo pelo qual uma das partes ou ambas se obrigam a. É o pactum de contrahendo. Le contrat-cadre par Delà les Paradoxes. facultando-lhes discutir condições específicas de cada operação. a liberdade de contratar importou na possibilidade de realizar todas as espécies de contratos. criando o contrato preliminar uma ou várias obrigações de fazer. O direito romano reconhecia uma eficácia jurídica mais ampla aos contratos. Contratos preliminares O contrato preliminar.021-381. mas lhes retira.indd 295 25/4/2011 15:19:00 . consagrada a teoria da autonomia da vontade. p. oportunamente. 179-210. 12. mesmo quando o contrato definitivo origina obrigações de dar. que só criavam obrigações naturais. Admitiu-se. Frédéric Pollaud-Dulian e Alain Ronzano.Direito das Obrigacoes .

O Código Civil passou a disciplinar de maneira expressa o contrato preliminar em seus arts. com exceção da forma. tendo dado margem a uma ampla bibliografia de artigos e arrazoados. 462 a 466. por sua vez. por falta de dados essenciais. pois. todos os elementos necessários para formação do contrato definitivo. Parte da doutrina entende que a forma do contrato preliminar deveria ser a mesma do definitivo. mas predomina o ponto de vista contrário. 1. todavia.indd 296 25/4/2011 15:19:00 .021-381. O problema da forma já vinha sendo discutido. tendo sido apresentadas soluções diferentes.Direito das Obrigacoes . lorsqu’il y a consentiment réciproque des deux parties sur la chose et sur le prix” (art. todavia. o que. Alegou-se também não haver necessidade de considerar o contrato preliminar como figura autônoma. A convenção abrangendo o consensus sobre res e pretium tornava-se assim necessariamente definitiva.589). apresentou o seguinte dilema: ou o contrato preliminar atende a todas as condições do definitivo e com este se confunde. limitar-se-ia muito a própria utilidade do contrato preliminar. A matéria tem sido especialmente discutida em relação à promessa de compra e venda de imóveis de valor superior a certa quantia. autonomia ao contrato preliminar. ainda que por Direito Civil . que defende a validade do précontrato mesmo quando não se observou a forma exigida para o contrato definitivo. que ficam sujeitos a novo acordo de vontade entre os contratantes. pois os seus efeitos podem ser conseguidos pelo contrato condicional. A nova disciplina claramente exige que o contrato preliminar contenha todos os requisitos essenciais ao contrato a ser celebrado. isto é. A doutrina. ou não apresenta os elementos imprescindíveis e então não pode obrigar as partes à assinatura do contrato definitivo. A recente jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça tem admitido a adjudicação compulsória mesmo em favor do promitente comprador cujo título. pois nada impede a existência simultânea de técnicas distintas para alcançar fins análogos.296 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS A doutrina e a legislação negaram. “La promesse de vente vaut vente. não é razão para excluir o primeiro. caso contrário. afirmando o Código Napoleão que promessa de venda que tivesse todos os elementos necessários valia como venda.

006. com cláusula de arrependimento. 463. se substituísse ao réu. na hipótese de inadimplemento. afastando a aplicação do princípio nemo precise cogi potest ad factum. a execução específica. a proteção dos interesses econômicos das partes levou inicialmente a jurisprudência e. sob o nome de contratos preliminares. Direito Civil . em termos amplos. ao contrário. no art. justifica-se apenas pela comodidade das partes.021-381. Quando o contrato preliminar não autoriza a execução específica. 58/37. 1. o pagamento do imposto de transmissão inter vivos exigido na compra e venda). Para tanto. De fato. tendo cada uma a sua estrutura própria. concede a qualquer das partes o direito de exigir da outra a realização do contrato definitivo. o Código Civil. ou seja. coativa e compulsória. contenha os elementos essenciais deste. nos arts. funciona como um contrato. g. 345 a 349 e. Na realidade. Admitindo. Assim. desde que o acordo preliminar contenha todos os elementos essenciais e não tenha sido prevista cláusula de arrependimento.Direito das Obrigacoes . e o Código de Processo Civil de 1939. evitando a necessidade desde logo de obedecer a certas formalidades demoradas (como. desde que o outro contratante tenha cumprido as suas obrigações e o contrato preliminar preencha as condições de validade do contrato definitivo. em que um dos contratantes tem uma opção entre cumprir a obrigação ou indenizar as perdas e danos. a parte interessada deverá estabelecer um prazo para que seja fechado o negócio final. permitindo ao magistrado que. em seu art. pronunciando em seu nome a declaração de vontade à qual se obrigara. renovaram o nosso direito nessa matéria. em seguida. figuras distintas.indd 297 25/4/2011 15:19:00 .. de acordo com o qual a obrigação de fazer resolvia-se necessariamente em perdas e danos. 462). referente a vendas de lotes. não esteja registrado no Ofício do Registro de Imóveis. na sua sentença. v. Já o Decreto-Lei n. existem. a própria legislação a admitirem a execução específica dos contratos preliminares e das obrigações de fazer em geral. o Código Civil adotou a posição da doutrina majoritária e da jurisprudência desse tribunal ao permitir que a forma do contrato preliminar não seja necessariamente a mesma da exigida para o contrato definitivo (art. Mesmo antes do Código Civil.classificação dos contratos 297 instrumento particular.

se. A promessa de venda pode ser unilateral. sendo este casado. Direito Civil .Direito das Obrigacoes . em que o vendedor se compromete a vender ao comprador determinado bem em certas condições.298 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS O Código de Processo Civil vigente assegura a execução específica das obrigações de fazer que consistem em proferir declaração de vontade nos arts. o interessado poderá pedir ao juiz que supra a vontade do contratante inadimplente. transcorrido o prazo para a realização do negócio definitivo. Em tal promessa.. g. 461 do CPC). 465). A execução específica foi reforçada na nova disciplina do Código Civil. sendo o contrato vinculatório tão somente para o vendedor. no caso. dependendo exclusivamente o negócio da vontade do comprador. a outra parte poderá tê-lo como desfeito. 466). cujas consequências amplas nem sempre foram reconhecidas pela jurisprudência e pela doutrina. transformando o contrato preliminar em definitivo.021-381. A capacidade exigida para o contrato preliminar é a mesma necessária para o contrato definitivo: na promessa de compra e venda de imóvel deve necessariamente intervir a mulher do vendedor. promessa de fazer doação) ou bilateral (criando obrigações para ambos os contratantes: promessa de compra e venda. com direito a pleitear perdas e danos (art. pelo contrário. o Código Civil estabelece que o credor deverá manifestar-se no prazo estipulado ou em prazo razoavelmente estabelecido pelo devedor. Esse mecanismo processual é reforçado com o instituto da tutela específica assecuratória da obrigação de fazer. assumindo a forma de opção. o caráter unilateral se afirma por inexistir qualquer obrigação por parte do comprador. De fato. promessa de mútuo com juros ou abertura de crédito). não houver manifestação da outra parte.indd 298 25/4/2011 15:19:00 . 464 prevê que. 639 a 641. A promessa de contratar pode ser unilateral (quando só cria obrigações para uma das partes: v. se houver recusa da execução do contrato preliminar. é considerado sem efeito o contrato preliminar (art. Nessa hipótese. o art. na hipótese de haver fundado receio de ineficácia da decisão final (art. a sentença à declaração de vontade não proferida pelo devedor. Ademais. que poderá ser concedida liminarmente. desde que a própria natureza da obrigação não impeça essa substituição da vontade. Trata-se de importante conquista legislativa. substituindo-se o juiz ao devedor e equivalendo.

14748. mas aí decorrente de vontade anterior. preferindo a outra pedir as perdas e danos ou sendo a isso obrigada pela existência de arras penitenciais.417 e 1. é o devido a um contrato preliminar. RSTJ. de decurso de prazo ou realização de condição. e do atual Código Civil. constitui direito real na legislação brasileira. Outro caso de contrato obrigatório. 21 out. A resolução do contrato preliminar pode decorrer de inadimplemento de uma das partes. um dos princípios clássicos é a liberdade de contratar. mesmo no caso de título representado por instrumento particular que ainda não esteja transcrito no Ofício do Registro de Imóveis15. Seção I. 1991. nov. arts. 58/37. em virtude das disposições do Decreto-Lei n. 15 REsp 30-DF. A promessa irretratável e irrevogável de compra e venda de imóvel loteado ou não. 1. p. 73. A única liberdade (e às vezes nem isso. 12.021-381. de perecimento do objeto ou de distrato. instituído pelo art. da Lei n. DJ. 1043-1056. ou mutuário de empréstimos com bens dados em garantia e nos demais casos (são onze) previstos no indicado artigo. porque é a parte mais forte quem o indica no contrato de adesão) é a de escolher a companhia seguradora. Exemplo. 649. quando devidamente inscrita no Registro de Imóveis. sem modalidade ou dependendo de condição ou termo. de 21-11-1966.1. que haverá seguro obrigatório.418. basta ser proprietário de qualquer veículo. ou de unidade autônoma de edifícios em condomínio. entre nós. Mas a intervenção estatal é tão acentuada que já há quem classifique alguns contratos como obrigatórios. item anterior). Contrato obrigatório Como vimos. Direito Civil . a faculdade de realizar ou não um contrato. Assim. de 11-3-1949. em que as partes assumem o dever de contratar (v. p.indd 299 25/4/2011 15:19:00 . é o seguro obrigatório. 20 do Decreto-Lei n. e REsp 810/SP./1989. A jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça tem admitido a adjudicação compulsória em favor do promitente comprador.Direito das Obrigacoes .classificação dos contratos 299 A promessa pode ser revogável ou irrevogável. onerosa ou gratuita.

que têm uma disci- Direito Civil . compensando-se as eventuais modificações sofridas pelo contrato em virtude da manutenção da relação entre direitos e deveres de cada uma das partes.indd 300 25/4/2011 15:19:00 .078/90). os do Sistema Financeiro de Habitação. de tal modo que a equação inicial seja mantida.4. uma parte das cláusulas rege-se pela vontade das partes e outra obedece a normas legais que evoluem no tempo e cujas alterações modificam o contrato. e de cláusulas legais. n. no campo do direito privado.300 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 12. embora mantida a equação contratual. por outro lado. Contrato consigo mesmo ou autocontrato V. que são estáticas. que podemos denominar contratos de consumo. Em tais hipóteses. admite-se que. Assim. que abrangem simultaneamente um relacionamento entre o mutuário e o mutuante e.021-381. passaram a existir. contratos específicos. São evolutivos os contratos administrativos em geral como também alguns contratos mistos. a/b seja igual a a’/b’. 12. mas tão somente a manutenção da chamada equação econômico-financeira do contrato que representa o relacionamento entre os direitos e obrigações de um dos contratantes e os do outro. que são dinâmicas.Direito das Obrigacoes . 12. como.2. a assunção de uma parte do débito por um fundo administrado pela Caixa Econômica. pois. o contrato evolutivo é a existência de cláusulas propriamente contratuais. a intangibilidade do contrato não significa a imutabilidade de suas cláusulas. O que caracteriza. Se o valor de a for modificado para a’. ou seja. ou seja. por exemplo. Contratos evolutivos Nos contratos de direito público e nos de direito privado a eles vinculados ou equiparados.3. 8. se consideramos como sendo os valores a e b correspondentes inicialmente aos direitos contratuais respectivamente do primeiro e do segundo contratante. o de b deve sofrer alteração idêntica. Contratos de consumo Com o Código de Defesa do Consumidor (Lei n. a relação entre deveres e obrigações dos contratantes. passando a ser b’. podemos afirmar que a equação contratual é a/b. 1 do Capítulo 12.

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plina legal própria. A lei, no seu art. 2.º, define o consumidor como
sendo “toda pessoa física ou jurídica que adquire ou utiliza produto
ou serviço como destinatário final”. Os contratos de consumo são,
pois, aqueles dos quais participa o destinatário final que adquire ou
utiliza produtos ou serviços, passando a incidir sobre eles, ao lado
das normas de direito civil, as que decorrem da legislação de proteção
ao consumidor.
12.5. Subcontrato
O subcontrato é um contrato derivado de outro, cuja existência
dele depende e pelo qual o usuário de um bem ou o fornecedor de
um serviço pode permitir a sua utilização ou atribuir uma parte do
fornecimento a terceiro, obedecidas as cláusulas do contrato principal.
Entre os principais subcontratos destacam-se a sublocação, a subempreitada e a subconcessão. Embora o subcontrato tenha normas
próprias, devem ser compatíveis com as do contrato principal, e a
extinção deste enseja normalmente a do contrato dele derivado, embora, em certas hipóteses, se admita, excepcionalmente, que o sublocatário possa substituir-se ao locatário. Em princípio, não há direito
do sublocatário ou do subempreiteiro em relação ao locador ou ao
dono da obra, mas, em determinadas situações especiais, pode haver
repercussões do subcontrato sobre o contratante principal que não
participar da subcontratação, questões que serão examinadas na ocasião do estudo dos contratos específicos.
12.6. Contratos eletrônicos
Quando alguém utiliza o computador e se conecta à Internet ou
qualquer outra rede de computadores, quase que instantaneamente
recebe diversas informações sobre produtos ou serviços que estão à
sua disposição. Basta pesquisar o assunto que lhe interessa e, se
concordar com as condições estabelecidas, poderá adquiri-lo. Há
ofertas de produtos pela Internet, bastando que se indique um deles
com o mouse para que seja selecionado. Indicado o preço, é só escolher a forma de pagamento e aguardar a remessa. O Código Civil
adotou redação mais ampla quanto à prova dos negócios jurídicos,

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falando expressamente em reproduções mecânicas ou eletrônicas de
fatos ou de coisas. Tal preceito está no art. 225, com a seguinte redação: “As reproduções fotográficas, cinematográficas, os registros
fonográficos e, em geral, quaisquer outras reproduções mecânicas ou
eletrônicas de fatos ou de coisas fazem prova plena destes, se a parte,
contra quem forem exibidos, não lhes impugnar a exatidão”.
Verificou-se no trâmite acima a realização de um contrato eletrônico. Assim como os contratos tradicionais, os eletrônicos nada
mais são do que a realização de um acordo de vontades com a intenção de obter um efeito jurídico, portanto obrigando as partes, o que
ficou perfeitamente identificável, ressalvando algumas características
peculiares dessa espécie de contrato, tais como meio e lugar de sua
efetivação, as quais não o inutilizam. Ademais, já existem algumas
definições que buscam adequar-se ao seu caráter, e, dentre elas, a do
Desembargador Semy Glanz16, que entende como “aquele contrato
celebrado por meio de programas de computador ou aparelhos com
tais programas”.
Dizem Jean Calais-Auloy e Frank Steinmetz: “Por muito tempo,
a única forma de venda a distância foi a venda por correspondência:
o vendedor faz suas ofertas por meio de catálogos, prospectos ou
anúncios, e o comprador encomenda por via postal. A venda por
correspondência existe desde o século 19, e continua sendo usada,
mas não é mais a única forma de venda a distância. Desde os anos
1980, processos de telecomunicação são utilizados para contatar os
clientes: telefones, telecópia, televisão notadamente”17.
Existem, de longa data, vendas por meio de máquinas, algumas
operadas por processos eletrônicos. Eram chamadas de máquinas
vendedoras (vending-machines ou vendors). Mas, em verdade, a
venda é feita pela empresa, através da máquina, sendo comuns as
máquinas de refrigerantes, biscoitos, selos, fichas de telefone etc. Tais
vendas são feitas diretamente ao adquirente. Cuida-se, no caso, de

Semy Glanz, Internet e contrato eletrônico, RT, 757/70-5, nov. 1998, especialmente p. 72.
17
Droit de la consommation, 4. ed., Paris: Dalloz, 1996, n. 88, p. 82.
16

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simples contrato de compra e venda de mercadorias ou de prestação
de serviços.
No entanto, recentemente, desenvolveu-se novo ramo do chamado comércio eletrônico, estimulado pela Internet. Segundo Thierry
Piette-Coudol e André Bertrand, os americanos tentaram definir o
chamado comércio eletrônico duas vezes. A primeira, num documento oficial de 22-2-1993, intitulado Technology for America’s Economic Growth — A New Direction to Build Economic Strength, preparado pelo Vice-Presidente Al Gore e assinado pelo Presidente Bill
Clinton, diz que as vias de informação constituem instrumento essencial para o futuro do comércio e da sociedade americana. O segundo documento, preparado pelo Federal Electronic Commerce
Acquisition Team, de 29-4-1994, intitulado Streamlining Procurement
Through Electronic Commerce, relaciona as autovias de informação
ao comércio eletrônico, que é definido como “utilização combinada
e otimizada de todas as tecnologias de comunicação disponíveis para
desenvolver o comércio de empresa”. As tecnologias são várias:
“Troca de Dados Informatizada, o núcleo central, mensageiro eletrônico, repertório ou anuário eletrônico X 500, bancos de dados, transferência eletrônica de pagamento (TEP) etc.”18.
Observam os autores que há distinções a fazer. Assim, há pesquisa de informações num banco de dados, e os contatos iniciais se
fazem por mensagem eletrônica; aceita a proposta, o contrato prossegue pela troca de dados eletrônicos; o pagamento é feito por
sistemas eletrônicos. Ainda há que distinguir o uso da Internet para
a promoção de produtos ou serviços, que são entregues ou postos à
disposição pela entrega ou serviço tradicional, e a oferta de bens
culturais (filmes pagos — pay per view —, músicas ou livros que
são teledescarregados etc.). No primeiro caso, assemelha-se à venda a distância, mas no segundo, aos serviços telemáticos ou telefônicos. No plano jurídico, o comércio eletrônico se distingue da
venda a distância tradicional (por correspondência, por telecompra
ou telemarketing), porque na maioria das vezes não há solicitação
ativa dos clientes potenciais; da troca de dados informatizada, que
se refere aos negócios entre sistemas de informações de profissio18

Internet et la loi, Paris: Dalloz, 1997, p. 178.

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nais. Cabe lembrar que o Code de la Consommation francês (consolidado pela Lei n. 93.949, de 26-7-1993) contém uma seção com
cinco artigos (arts. 121-16 a 121-20) regulando as “Vendas a distância”. Segundo Alain Bensoussan, incluem-se entre as técnicas
de comunicação a distância, entre outros, “a telemática, o telefone,
a videotransmissão, a via postal ou a distribuição de impressos”.
Os pontos interativos multimídia, assim como os catálogos eletrônicos em suporte do tipo disco óptico compacto ou difundidos em
rede, constituem tais técnicas, diz o mesmo autor19. Mas observa o
Professor Jerôme Huet que os contratos não são apenas entre o
comerciante e o consumidor, porque também há contratos entre
comerciantes, já se tendo formado verdadeiros “centros comerciais
virtuais”, aos quais aderem cada vez mais pequenos comerciantes,
que buscam colocar os seus produtos ou serviços, com a vantagem
de que tais vias funcionam 24 horas por dia20. É o que já lembrava
o jurista americano Lance Rose, descrevendo “O sistema on-line
como centro comercial”21 Também Olivier Iteanu22 já havia observado que estava formada “uma economia eletrônica mundializada”,
que antes fora regulada por tratados, como o caso do GATT (Convenção Geral sobre Tarifas e Comércio), e que mais recentemente
chegou à Organização Mundial do Comércio (tratado assinado em
Marrakech em 15-4-1994). Surgem, com toda essa evolução, problemas dos mais diversos, como o da evasão fiscal, pois há comerciantes que se centralizam nos chamados “paraísos fiscais” e outros
que passam a emitir sua propaganda de países mais tolerantes, fugindo não só aos impostos devidos, mas às vedações de transmissão
de pornografia ou de programas impróprios para menores.
Tudo isso lembra que haverá, no caso de contratos interna­cionais,
aplicação de regras de direito internacional privado (ou de normas
sobre conflitos de leis), mas que dependem da adesão de cada país.
Internet – Aspects juridiques, Hermes, 1997, Cap. 4, p. 61.
Commerce électronique: contrats et responsabilités, in Internet saisi par le droit,
Paris: Editions des Parques, 1997, p. 51 e s.
21
The on-line system as a shopping mall, in Netlaw, Osborne McGraw-Hill, 1995,
p. 58.
22
Internet et le droit, Paris: Eyrolles, 1996.
19
20

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Prova do contrato eletrônico — Para certos contratos do dia a
dia, nem sempre se exige a prova, mas o simples recibo ou nota de
venda, geralmente fornecido pelas máquinas. Hoje, tais máquinas são
ligadas ao computador da empresa, que registra a operação, até mesmo pela leitura ótica das mercadorias, que trazem um código de
barras ou de tinta magnética. Mas, no caso da Internet, há elementos
que facilitam a prova, se não houver fraude. Assim, cada parte deve
ter elementos de identificação ou endereço eletrônico (e-mail), conhecido pela sigla URL (Uniform Resource Locator) para os casos
da Web (World Wide Web ou “www”, que significa teia mundial). O
provedor (a empresa que é autorizada a funcionar no país para fornecer o serviço aos consumidores) tem o seu código, que inicia com
“http://www”. Logo após vem o nome ou sigla do provedor ou inscrito e o país, este expresso por duas letras. Por sua vez, o consumidor deve ter endereço semelhante, que pode ser acessado por outros.
Note-se que devem ser evitados endereços que possam induzir em
erro ou que sejam semelhantes a outros existentes.
Negócios bancários — Os bancos admitem hoje acesso eletrônico, por computador, por meio de modem (modulador-demodulador,
placa que converte dados transmitidos por linha telefônica e Internet).
Há também senhas usadas em determinados negócios. No caso do
banco, o cliente deve ter uma senha, que só ele deve conhecer. Mesmo assim, tem sido noticiado que há falsificações (indivíduos conhecidos como hackers descobrem meios de violar sigilos e transferem
fundos de contas bancárias, mas agora o sistema vem sendo aperfeiçoado de modo a garantir a inviolabilidade desses acessos). No
Brasil, existem fraudes em que se emitem duplicatas de cartões bancá­
rios e os fraudadores descobrem a senha da vítima, sacando fundos
em contas correntes e até em investimentos.
Contratos “on-line” — De todo modo, admite-se que se pague por
cartões eletrônicos, como o caso de supermercados e postos de gasolina, em que o cartão bancário permite seja transferido eletronicamente
o débito do cliente para a conta do comerciante. Nem sempre, aí, se
pede a assinatura do cliente, valendo, portanto, a chamada assinatura
eletrônica (senha da conta). Também os saques feitos em máquinas,
pelo chamado “banco 24 horas” ou máquinas automáticas, são operações
bancárias, sempre, porém, dependendo de senha. Mas há saques até em

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outros países, com os chamados cartões de crédito, em que nem sempre
se atribui senha ao usuário. Assim, nos casos de perda ou furto dos
cartões, cabe ao usuário comunicar à empresa emissora.
Combate à fraude — Para evitar fraudes foi criada e já está sendo usada uma assinatura codificada, que é constituída por um conjunto de caracteres alfanuméricos, resultante de operações matemáticas de criptografia, a qual, segundo a lei francesa de 29-12-1990
(que regula as telecomunicações), é a transformação de informações
claras por meio de convenções secretas, já que é garantidora da integridade da mensagem. Segundo Lance Rose, tal sistema é mais
confiável que pena e tinta, porque se criou um sistema de verificação
pública, em que a outra parte pode verificar a autenticidade, embora
não possa descobrir como é a assinatura. Usa-se um decodificador
que apenas informa se o dado fornecido é ou não verdadeiro. Fala-se,
ainda, num sistema de leitura sensível por máquinas ou caixas eletrônicas, até da impressão digital, previamente registrada. Assim, a
pessoa só poderá sacar dinheiro através da impressão digital, que,
como se sabe, difere em cada pessoa. Em lugar de um código numérico, que pode ser descoberto, a senha será a impressão digital, que
é lida pelo computador. Sem dúvida, a tecnologia está mudando o
mundo rapidamente, a ponto de causar um “Choque do futuro”, segundo Alvin Toffler.
Perigos do contrato eletrônico — O contrato eletrônico tem sido
frequente e tende a aumentar. Mas apresenta perigos como o que foi
narrado na revista francesa INFOPC, sob o título “Menace sur le
commerce électronique”23. Narra-se que houve um assalto diante das
câmaras de televisão na Alemanha. Nenhum fuzil ou ameaça foram
usados, diz a revista. Apenas um microcomputador, um modem, o
Internet Explorer da Microsoft e um software de finanças pessoais
chamado Quicken de Intuit. É que o Chaos Computer Club, que tem
adeptos em toda a Alemanha, descarregou um pequeno utilitário, tipo
ActiveX, num micro, a partir da Internet. O programa contém ordens
de pagamento e, quando experimentado, debitou a conta do usuário
em favor do autor do código. Concluiu-se que é fácil penetrar nas
contas do vizinho.

23

Menace sur le commerce életronique, INFOPC, n. 135, p. 20, abr. 1997.

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Mais recentemente, a Microsoft lançou na Internet um esclarecimento. Quando alguém manda uma informação de um ponto A para
um ponto B, qualquer computador no caminho pode receptar o que
está sendo enviado, e aí surge um problema de segurança, especialmente se alguém quer comprar algo e remete o número de seu cartão
de crédito, porque confia no vendedor. Mas, se no caminho há um
criminoso à espreita, pode captar o número. Muitos sites da Internet
estão munidos de segurança, apoiados pelo Internet Explorer (aparece um ícone com um símbolo de cadeado ou fechadura na barra de
status). O Internet Explorer pode também avisar quando há algum
perigo em mandar o número do cartão de crédito.
A assinatura eletrônica — Outro grande problema quanto aos
contratos realizados na Internet é a chamada assinatura. Como provar
que alguém se obrigou, já que não há papel assinado? Poderá uma
pessoa dizer que um terceiro, usando de seu nome, teria aceito um
contrato pela Internet. O antigo Código Civil francês, editado em
1804, só previa a assinatura em papel. Por isso, foi aprovada nova lei,
em 13-3-2000, alterando esse dispositivo. A Inglaterra também adotou nova lei no ano 2000.
No Brasil a matéria é regulada por decretos e recentemente por
medida provisória. O Projeto de Lei n. 1.589/99, oriundo da OAB
de São Paulo, que “Dispõe sobre o comércio eletrônico, a validade
jurídica do documento eletrônico e a assinatura digital e dá outras
providências”, foi apensado ao Projeto de Lei n. 4.906/2001, que
“Dispõe sobre o comércio eletrônico”, de autoria do Deputado Hélio
de Oliveira Santos, e aguarda pela votação em plenário. O Decreto
n. 3.587, de 5-9-2000 (revogado pelo Dec. n. 3.996/2001), baixado
pelo Presidente Fernando Henrique Cardoso, “Estabelece normas
para a Infraestrutura de Chaves Públicas do Poder Executivo Federal
— ICP-Gov, e dá outras providências”. Pelo art. 2.º, adota-se a
“criptografia assimétrica para relacionar um certificado digital a um
indivíduo ou a uma entidade”. Esse decreto traz no Anexo II um
glossário explicando o que é autenticação, autoridade certificadora,
assinatura digital, cifração, criptografia, chave pública, e muitos
outros conceitos. Em 3-1-2001, o Presidente da República editou
novo decreto, o de n. 3.714, que “Dispõe sobre a remessa por meio

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de 29 de janeiro de 1999. Pontes de Miranda. Darcy Bessone de Oliveira Andrade. 1972. 1997. Da execução direta das obrigações de prestar declaração de vontade.200. Les groupes de contrats. Diz a ementa: “Institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira — ICP-Brasil. coord.Direito das Obrigacoes . Da compra e venda. Eyrolles. Eduardo Espínola. mas foi duramente criticada por especialistas. e dá outras providências”. Tratado de direito predial. Rio de Janeiro. Foi mais uma vez reeditada. in Direito processual civil. 1. bem como a realização de transações eletrônicas seguras”. Internet et le droit. 1960. v. 57-A do Decreto n.º Fica instituída a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira — ICP-Brasil. que nela viram uma forma de interferência na atividade privada pela Internet. Thierry Piette-Coudol e André Bertrand. 1996. Para os contratos coletivos. Dos contratos nominados no direito civil brasileiro. Hermes. Responsabilidade precontratual. Olivier Iteanu..954. No tocante ao contrato de adesão. Rio de Janeiro. 1975. 1965. transforma o Instituto Na­cional de Tecnologia da Informação em autarquia. O loteamento e a venda de terrenos em prestações. e dá outras providências”.308 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS eletrônico de documentos a que se refere o art. destinada a dar segurança jurídica ao comércio e à assinatura eletrônica. e ainda Luiz Eulálio de Bueno Vidigal. foi editada a Medida Provisória n. Xavier Linant de Belle- Direito Civil . porém a rubrica e o conteúdo foram alterados. 1998. para garantir a autenticidade. Orlando Gomes. Quanto aos contratos eletrônicos: na França: Alain Bensoussan. 1. 2. v. das aplicações de suporte e das aplicações habilitadas que utilizem certificados digitais. ed. vide: Waldemar Ferreira. Paris: LGDJ. Internet: aspects juridiques. São Paulo. Internet et la loi. 2. Bibliografia: Sobre o problema dos contratos preliminares no direito brasileiro. em 24-8-2001.º há uma preocupação em autenticar atos praticados por meios eletrônicos: “Art. Pelo seu art. v. Bernard Teyssie. Já em 28-6-2001. v. 3. Essa medida foi reeditada em 27-7-2001 e “Institui a Infraestrutura de Chaves Públicas Brasileira — ICP-Brasil. 2. Antônio Chaves. 1948. São Paulo: Saraiva. a integridade e a validade jurídica de documentos em forma eletrônica. Dalloz. Sobre contratos nominados. e dá outras providências”. São Paulo: Revista dos Tribunais. 1953. Belo Horizonte. Contrato de adesão.021-381. 1938. Internet saisi par le droit.indd 308 25/4/2011 15:19:01 .

Mauad. 1995. O direito na era digital. Internet et protection des donnés personnelles. 2000. SÍNTESE 13 — CLASSIFICAÇÃO DOS CONTRATOS 1. 2002. Newton de Lucca e Adalberto Simão Filho e dezenove autores. Internet e direito. Os contratos são unilaterais quando impõem bilaterais e plurilaterais deveres tão somente a uma das partes. Edipro — IBCI. São plurilaterais os contratos com multiplicidade das partes e identidade de situações. b) O contrato aleatório é o contrato oneroso em que uma ou ambas as prestações são incertas.classificação dos contratos 309 fonds. Marie-Pierre Fenoll-Trousseau et Gérard Haas.). Saraiva. e Direito de informática.: contrato de sociedade com mais de dois sócios. 1997. A comunidade cibernética e o direito. Erica Brandini Barbagalo. Litec. Mauad. nos Estados Unidos: Netlaw — Lance Rose. Liliana Minardi Paesani. Sandra Gouveia. Lumen Juris. Atlas. importando na redução do patrimônio de um dos contratantes em benefício do outro. 2007. 2008. Direito e Internet. Contratos eletrônicos. 2000. Revista dos Tribunais. Editions des Parques. Dialética. Contratos eletrônicos. Direito Civil . Diversidade de critérios A classificação dos contratos se reveste de para a classificação dos caráter acadêmico e importância prática contratos pelas consequências legais próprias de cada tipo de contrato. Saraiva. 1997.021-381. Patrícia Peck. 3. São bilaterais quando criam deveres jurídicos para ambos os contratantes. entre nós: Direito & Internet. Contratos unilaterais. a) O contrato oneroso comutativo caracteriza-se pela equivalência presumida das prestações dos contratantes. 2003.indd 309 25/4/2011 15:19:01 . Miriam Junqueira. Atlas. Direito digital. 2000. Contratos gratuitos e Contrato gratuito é o que encerra uma liberaonerosos lidade. Ex. 2001. 1997.Direito das Obrigacoes . Osborne McGraw-Hill. Marco Aurélio Greco. coord. Conflitos sobre nomes de domínio. 1997. Contrato oneroso é aquele que traz vantagens e sacrifícios patrimoniais equivalentes para as duas partes contratantes. Ronaldo Lemos e Ivo Waisberg (org. 2. Patrícia Scorzelli.

Contratos mistos são os criados pelas partes com a utilização simultânea de elementos de diversos contratos nominados. 6. uma das partes estabelece cláusulas e condições e a outra parte adere ou não. 9.les que vigoram por prazo certo.Contratos típicos ou nominados são aqueles cos e mistos que têm uma estrutura legalmente defi­nida. 8.Direito das Obrigacoes . Os contratos atípicos ou inominados não têm estrutura fixada pela lei e dependem das convenções das partes para assentar os direitos e as obrigações deles decorrentes.310 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 4. mas em momento futuro. É coletivo quando resulta de um acordo entre sindicatos ou grupos econômicos. Contratos formais ou solenes são os que exigem forma especial para sua celebração. 7. Contratos consensuais são os que necessitam tão somente do consenso. Os contratos de execução diferida devem ser cumpridos num só ato. Contratos típicos. Contratos instantâneos. Contratos por tempo Contratos por tempo determinado são aquedeterminado e indeter. formais Contratos reais são aqueles cuja realização e consensuais depende da entrega de certo objeto. Contratos de adesão No contrato de adesão ou de massa. 5. minado Contratos por tempo indeterminado são os que têm duração certa e permitem a denúncia por qualquer uma das partes e a qualquer tempo. Contratos reais. Contratos individuais e O contrato é individual quando estabelece coletivos uma relação entre pessoas. Direito Civil .021-381. Contratos continuados ou de trato sucessivo caracterizam-se pela execução de prestações continuadas ou periódicas. atípi. Contratos instantâneos são aqueles que se continuados e diferidos realizam e executam num único momento.indd 310 25/4/2011 15:19:01 .

todavia. Contratos civis e comerciais e a unificação do direito das obrigações O Código Civil de 2002 unificou o direito das obrigações. Contrato obrigatório Em alguns casos a liberdade de contratar sofre a intervenção do estado de maneira tão acentuada que os contratos passam a ser classificados como obrigatórios. 12.indd 311 25/4/2011 15:19:01 . um tratamento em conjunto.Direito das Obrigacoes . O Código Civil disciplina o contrato preliminar em seus arts.021-381. O que ocorre é a existência de duas partes. ambas atuando por uma só pessoa. para evitar o risco do enriquecimento indevido. criando-se um regime jurídico uniforme e aplicável a todas as relações obrigacionais. Também existem contratos conexos sem que entre eles haja a relação de acessório e principal. grupos de contratos e contrato quadro A conexão surge entre dois contratos independentes ou entre um contrato principal e outro acessório. agindo trato por si e pelo representado. 12. salvo disposições em contrário. Contrato consigo Denomina-se contrato consigo mesmo o nemesmo ou autocon. em seguida. justificando.classificação dos contratos 311 10. considera anulável o negócio jurídico que o representante celebra consigo mesmo.: seguro obrigatório. No autocontrato não há qualquer proibição expressa.2.1. 11. serão aplicadas aos contratos de execução. promessa de contrato ou compromisso é um contrato autônomo pelo qual uma das partes se obriga a. Ex. realizar um contrato definitivo. O art. 117 do CC. Contratos conexos.gócio jurídico feito pelo representante. pré-contrato. Direito Civil . Já o contrato quadro ou contrato básico é acordo entre as partes que se caracteriza por estabelecer as regras gerais que. oportunamente. 12. 462 a 466. Contratos preliminares O contrato preliminar. deixando de existir disciplina diferenciada para os contratos civis e os empresariais.

O contrato evolutivo é composto pela junção de cláusulas contratuais estáticas e cláusulas legais dinâmicas. sujeitos à legislação de proteção ao consumidor. Direito Civil . Contratos de consumo São aqueles realizados entre consumidor e fornecedor — como definidos no CDC — em meio a uma relação de consumo. É dotado de normas próprias.4.3.021-381. Subcontrato O subcontrato é um contrato derivado de outro. Contratos eletrônicos Contratos eletrônicos são aqueles realizados por reprodução fotográfica. mas compatíveis com as do contrato principal. 12.indd 312 25/4/2011 15:19:01 . cinematográfica.312 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 12. cuja existência dele depende.Direito das Obrigacoes .6. 12. 12. registro fonográfico e quaisquer reproduções mecânicas ou eletrônicas.5. necessárias para manter a sua equação econômico-social. Contratos evolutivos São contratos de direito público e de direito privado a eles vinculados.

em decorrência da própria natureza pessoal da obrigação. 1. 928 do Código Civil de 1916 explicitava essa regra sobre obrigações personalíssimas. 2. relação jurídica entre as partes contratantes. Contratos concluídos por terceiros. as obrigações não personalíssimas. operar um doente).indd 313 25/4/2011 15:19:01 .Capítulo 14 EFEITOS DOS CONTRATOS Sumário: 1. e finalmente certos contratos que criam de- O art. assim como seus sucessores (herdeiros. Promessa pelo fato de terceiro.021-381. Efeitos dos contratos quanto a terceiros Os contratos alcançam as partes interessadas. O preceito não foi expressamente mantido. 1 Direito Civil . 4. não há como negar a sua intransmissibilidade. não se transmitindo aos seus sucessores1. mas. que obrigam as partes e seus sucessores (pagar um débito em dinheiro. Estipulação em favor de terceiro. 4. Contrato com pessoa a declarar. todavia. que são os sujeitos ativos e passivos da relação jurídica. que só vinculam as partes. Para o não contratante que não sucede ao contratante. prejudicar ou beneficiar terceiros sem declaração de vontade por parte destes de que aceitam os efeitos contratuais sobre o seu patrimônio.Direito das Obrigacoes . Podemos distinguir três situações distintas no campo das obrigações: as obrigações personalíssimas (escrever um livro.1. 3. entregar um bem móvel ou imóvel). sem nenhum efeito sobre o patrimônio do terceiro. não podendo. o contrato é res inter alios acta. cessionários). Efeitos dos contratos quanto a terceiros.

independentemente de sua vontade. aponta-se o caso do locatário com contrato válido contra terceiros devidamente registrado no Registro de Imóveis.021-381.Direito das Obrigacoes . qual seja quando o terceiro for o cônjuge do promi- Direito Civil . 439 para especificar a hipótese na qual não existe a responsabilidade por fato de outrem. na hipótese de inadimplemento. afirmar-se como figura com traços de verdadeiro direito real. Surgem. abrangendo tanto o dano emergente como o lucro cessante. 2. Nessa hipótese. extravasando para. em determinados casos. da limitação dos seus efeitos aos contratantes. Promessa pelo fato de terceiro O art. O Código Civil acrescentou um parágrafo único ao seu art. a indenização deve ser ampla. na hipótese de falta dessa aceitação. que. dependendo todavia. certos efeitos do contrato de sublocação em relação ao locador. que o contrato de locação não se mantém apenas no plano obrigacional. por exemplo. O princípio da relatividade dos contratos. executando o seu crédito. que pode passar a ter novo locatário. algumas vezes. Devemos salientar que é por motivo dessas exceções ao princípio geral que a doutrina tem assinalado. a sua eficácia em relação ao terceiro da aceitação deste e. Nos campos do direito do trabalho e do direito do consumidor. pela lei. adquire o imóvel em leilão. valendo erga omnes e tendo efeitos em relação a terceiros. Não é muito distinta a situação do sublocatário que. contrato este que continua prevalecendo contra o credor hipotecário. Mesmo na legislação brasileira. 439 do CC admite explicitamente a possibilidade de ser prometido fato de terceiro. resolvendo-se no plano patrimonial em perdas e danos devidos pelos contratantes. com ou sem conhecimento ou consentimento deste. A promessa não vincula.314 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS veres ou direitos para terceiros. todavia. tem sofrido algumas críticas na doutrina contemporânea. assim. existem outras exceções ao princípio da relatividade dos contratos. resolvendo-se em perdas e danos que o promitente deverá pagar ao outro contratante. ou seja.indd 314 25/4/2011 15:19:01 . salvo declaração de vontade deste. é autorizado a purgar a mora na locação quando o locatário não paga oportunamente os aluguéis. o terceiro. integrando-se assim na relação locativa da qual não era parte.

Estipulação em favor de terceiro A estipulação em favor de terceiro é o contrato pelo qual se cria. pois. pois o primeiro agiu por autorização do segundo. Na estipulação existem três sujeitos: dois certos e um condicional. No primeiro caso. sem ciência deste. sendo o estipulante. sem que tenha qualquer promessa nesse sentido da transportadora. em favor de quem a prestação deve ser executada. É evidente que. dependendo da sua anuência o ato a ser praticado. como ocorre quando alguém garante a outrem que conseguira em determinada companhia de transporte uma passagem gratuita. Exemplo: seguro de vida. se o negócio não se realiza por culpa do vendedor. um direito novo e próprio.Direito das Obrigacoes . o promitente fez promessa em relação ao fato de terceiro. e finalmente o terceiro. a integração do terceiro na relação jurídica depende de declaração de vontade deste. em que este se torna um sujeito passivo eventual e.efeitos dos contratos 315 tente. no caso. certa simetria entre a promessa de fato de terceiro. em ambos os casos. que estipula em favor de terceiro. e desde que a indenização venha a recair sobre os seus bens. Existe.indd 315 25/4/2011 15:19:01 . por extensão. É evidente que a responsabilidade pelo inadimplemento só poderá ser. e a estipulação em favor de terceiro. do promitente. para este. que se obriga a realizar a prestação em favor de terceiro. uma espécie de sujeito ativo eventual ou condicional. ou seja. após ter-se obrigado. terá o comprador ação tanto contra o corretor como contra o proprietário. integra-se na relação jurídica. pessoa determinada ou determinável (o primeiro aluno da turma do 1. Assim.021-381. Direito Civil . 440). realizando o intermediário acordo com um adquirente para efetuar a venda. assim. o promitente. em virtude do regime de casamento. não cumpre com o acordado (art. 3. o proprietário de um imóvel dá uma opção a um corretor para alienar um prédio em determinadas condições. No outro caso. Exclui-se também a responsabilidade daquele que se comprometeu por fato de terceiro quando esse terceiro.º ano da Faculdade de Direito de 1991). na qual este se torna beneficiário de um direito. distinguem-se as hipóteses de haver ciência e consentimento do terceiro e de não havê-los.

enquanto outras mais recentes consagram a estipulação em favor de terceiro como figura autônoma. nos arts. como a chamada estipulação dotal. por ocasião do casamento.indd 316 25/4/2011 15:19:01 . dissolvida a sociedade conjugal.100. que se apresenta como figura típica de estipulação em favor de terceiro. A doutrina também encontrou dificuldades para fundamentar a obrigatoriedade da estipulação na qual não intervém o terceiro interessado. No direito comparado. todavia. no campo do direito de família e no tocante às liberalidades. Desde que se admitiu a obrigatoriedade de declaração unilateral de vontade. entendendo-se. pela qual o sogro entregava bens ao genro. tendo sido mantida essa disciplina pelo Código Civil. com regulamentação própria. entendemos que a estipulação é um contrato em que as partes criam Direito Civil .316 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS No direito romano o princípio da relatividade dos contratos não admitia. este fosse executado em favor de terceiro. fossem devolvidos à mulher do donatário (filha do doador) ou aos filhos do casal.021-381. permitindo-se outrossim que. de qualquer modo. 1. aproximando alguns ao instituto da gestão de negócios. que res inter alios acta nec prodest nec nocet (o contrato feito entre as partes não beneficia nem prejudica os terceiros).098 e 1. o problema se tornou mais fácil. 436 e 438. mas. que consistia numa projeção da personalidade do cidadão romano. em seus arts. passando assim a funcionar como verdadeira estipulação. enquanto outros assinalavam a natureza condicional da estipulação. Afirmava-se então que alteri nemo stipulari potest (ninguém pode estipular em favor de terceiro). exceções. para que. outrossim. tanto mais que os problemas patrimoniais não se destacavam da pessoa do titular. admitiram-se algumas exceções. No direito romano. Neste último sentido já se tinha manifestado o Código Civil brasileiro de 1916. na doação com encargo.Direito das Obrigacoes . algumas legislações só admitem a estipulação em favor de terceiro quando constitui condição de contrato entre as partes. importando o fato de contratar numa faculdade exclusiva e intransmissível. O problema adquiriu especial relevância no direito contemporâneo com a importância econômica crescente do contrato de seguro de vida. inspirando-se nos modelos suíço e alemão. em tese.

a faculdade de substituição concedida ao estipulante independe. admitindo-se que o interesse no contrato seja material ou moral. O direito civil brasileiro distingue entre a estipulação em favor da pessoa certa e insubstituível. 438). uma vez que o terceiro tenha manifestado a sua aceitação. de qualquer consentimento de terceiro. há obrigatoriedade desta. não poderão os contratantes fazer o distrato sem intervenção do terceiro. aceita tal modalidade pelo credor. Pode haver então uma estipulação em favor de terceiro em que Caio promete a Tício pagar a Flávio a quantia devida. mas. mesmo não sendo beneficiário um dos contratantes. cabendo ao terceiro exigir o cumprimento da prestação. não poderá o estipulante exonerar o promitente sem o consentimento do terceiro beneficiário. Vamos imaginar que Caio deve a Tício mil reais e este tenha débito igual para com Flávio. Na primeira hipótese.efeitos dos contratos 317 deveres e direitos que decorrem da vontade contratual. em que o segurado. que o real beneficiário da prestação seja um terceiro. como ocorre no contrato de seguro de vida. É evidente que.indd 317 25/4/2011 15:19:01 . em que a prestação pode ser exigida tanto pelo estipulante como pelo terceiro beneficiário (art. que é o verdadeiro interessado no cumprimento da prestação. pode modificar o nome do beneficiário. 436). para o seu exercício. e a estipulação na qual o direito de substituir o terceiro independe da sua anuência e da do outro contratante. nem poderão. em qualquer tempo. dependendo todavia esta segunda modalidade de cláusulas expressas ou de praxe existente em relação a determinados contratos (art.Direito das Obrigacoes . podendo ser do próprio contratante ou de terceiro. Enquanto o terceiro não aceita os efeitos da estipulação. Os direitos e deveres oriundos da estipulação surgem independentemente da aceitação do terceiro. pois o devedor (promitente) é obrigado a executá-la em virtude do contrato. Direito Civil . nada impedindo.021-381. mas as partes podem alterar a convenção de comum acordo. pois. em certos casos. Na segunda hipótese. não pode o estipulante exonerar Caio do débito sem o acordo de Flávio. modificar a identidade do beneficiário ou as modalidades da prestação. sem o seu consentimento.

Havendo poderes explícitos concedidos ao representante.021-381. desde o momento em que foi celebrado (arts. cujas regras estão nos arts. Entende-se que uma pessoa adquire um bem para si ou para terceiro. mas não era regulado no Código Civil de 1916. o qual venha a indicar. Segundo o Professor Luiz Roldão de Freitas Gomes. a qual os revende por conta do cliente. uma das partes tem a faculdade de.Direito das Obrigacoes . que defendeu tese sobre a matéria. sob a forma de representação. ocorre a gestão de negócios. o contrato somente produzirá efeitos entre os contratantes originários (arts. Entretanto. nos termos estipulados no instrumento contratual ou na lei. 470 e 471). não os havendo.1.indd 318 25/4/2011 15:19:01 . Se o primitivo contratante chega a Direito Civil . realizados por agência de automóveis. indicar outra pessoa que irá adquirir direitos ou assumir obrigações nele previstas. Contratos concluídos por terceiros A conclusão dos contratos por terceiros é amplamente admitida no direito moderno. Contrato com pessoa a declarar O contrato com pessoa a declarar é modalidade que sempre existiu.318 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS A substituição do beneficiário não exige forma especial. exclui-se o adquirente inicial. caso não haja indicação de terceira pessoa ou a indicação não seja aceita por ela. tendo sido incluído no Código atual. em que o adquirente declara que caberá ao promitente vendedor outorgar a venda definitiva ao adquirente “ou à pessoa que for por este indicada”. sendo aceito pelo indicado. Nesse tipo de contrato. 467 a 469). ou. ainda. esse contrato é regulado por várias leis estrangeiras. O caso mais flagrante é o das promessas de venda de imóveis. 4. permitindo a lei que se faça por ato inter vivos ou mortis causa (testamento). o caso é de mandato. passando a ser titular o terceiro indicado. se a pessoa indicada for insolvente ou incapaz no momento da indicação. com ou sem procuração do interessado. 4. Ambos serão estudados no volume referente aos contratos em espécie. e. e. Exemplos entre nós são os contratos de compra e venda de carros usados. 467 a 471.

com ou sem procuração do interessado. para terceiro.indd 319 25/4/2011 15:19:01 .Direito das Obrigacoes . dura até que o terceiro ingresse no contrato. Luiz Roldão de Freitas Gomes. Diogo Leite de Campos. 4. ou quanto a terceiros seja. BIBLIOGRAFIA: Sobre contratos a favor de terceiros e com pessoa a declarar. Efeitos dos contratos O princípio da relatividade dos contratos. v.: seguro de vida. 439 admite a possibilidade da promesterceiro sa pelo fato de terceiro. p. mandato e gestão de negócios. 467 a 471). Ex. Arnoldo Wald. ou seja. esta é resolúvel. A promessa não vincula o terceiro na hipótese de inadimplemento. jul. 1980. Les contrats pour le compte d’autrui. 4. um direito novo e próprio. Guy Flattet. Contratos concluídos O direito moderno admite a conclusão dos por terceiros contratos por terceiros sob a forma de representação. Contrato a favor de terceiros. submete-se a algumas exceções assinaladas pela doutrina dominante. O contrato com pessoa a declarar e o direito fiscal. Contrato com pessoa Nesse contrato. da limitação dos seus efeitos aos contratantes. Estipulação em favor de A estipulação em favor de terceiro é o conterceiro trato pelo qual as partes contratantes criam. dade de indicar outra pessoa que irá adquirir direitos ou assumir obrigações (arts. Coimbra: Almedina. 1950. Paris: Librairie du Recueil Sirey. 1952.021-381. Direito Civil . Contrato com pessoa a declarar. SÍNTESE 14 — EFEITOS DOS CONTRATOS 1. 2. 100. Ex. mas se resolve em perdas e danos que o promitente deverá pagar ao outro contratante. 1994. 3. Revista do Servidor Público. Rio de Janeiro: Renovar.efeitoS dos contratos 319 adquirir a propriedade. Promessa pelo fato de O art. uma das partes tem a facula declarar.1.

vínculo pessoal que abrangia a própria personalidade do devedor sobre o corpo do qual poderia recair a sanção. Distinguia-se então o contrato. à influência germânica e ao Cristianismo. As modificações da estrutura do contrato. que só tinha consequências de ordem patrimonial.indd 320 25/4/2011 15:19:01 . depois. 2. posteriormente. cuja influência no direito romano é assinalada por Troplong. do qual decorria o débito. libertando o contrato de seu formalismo primitivo. Coube. 3. formalista foi o contrato no direito romano. ressaltar a importância da palavra dada. surge a ideia de que.Direito das Obrigacoes .Capítulo 15 A TEORIA DA IMPREVISÃO E A REVISÃO CONTRATUAL Sumário: 1. do pacto. atendendo-se à boa-fé. Evolução doutrinária do contrato O formalismo sempre foi considerado uma das características do direito primitivo. Teoria da imprevisão e dívidas de valor. 4. A cláusula rebus sic stantibus no direito estrangeiro. 1. Direito Civil . mas ainda por forma escrita e pela entrega da coisa (respectivamente contratos literais e reais) e. e nos comentários de glosadores e pós-glosadores. como Perozzi e Bonfante. Evolução doutrinária do contrato. que se realiza pelo nexum e. passou a se constituir não apenas pelas palavras solenes (contratos verbais). esclarecem-nos sobre o caráter da evolução do contrato primitivo. fonte da obligatio.021-381. Os romanistas. Nas leis bárbaras. 5. enfim. do juramento feito. A teoria da imprevisão no direito brasileiro. pelo consenso (contratos consensuais). como o Edito de Rotário e a legislação de Liutprand.

já naquela época dominante. A marcha do mundo para o individualismo. Contrato era o casamento.a teoria da imprevisão e a revisão contratual 321 o contrato é obrigatório entre as partes. tudo isso como reação aos privilégios reais e à economia medieval das corporações. contrato era a adoção.indd 321 25/4/2011 15:19:01 . Georges Sorel. reconhece que houve um tempo em que se considerava o direito comercial — que unia os povos — como uma espécie de direito natural. basta lembrar que tudo naquela época era contrato. em vez da tradição ou da transcrição. Não é necessário lembrar a esse respeito as ideias de Grócio. Para avaliar a importância do contrato no Código Napoleão. Dominava o pensamento dos juristas da época a liberdade concebida como liberdade econômica e política. tinha poderes tão amplos que transferia a propriedade. a que se refere Georges Ripert. Todo o movimento ideológico foi afinal resumido e consolidado pelos robustes praticiens2.021-381. sob a influência do direito alemão. Em francês. como se lei fosse.Direito das Obrigacoes . Direito Civil . ao contrário do que ocorria no direito romano e do que. pelo qual os indivíduos abdicavam de certos direitos naturais para encontrar maior segurança na vida organizada da sociedade em que outros direitos lhes eram reconhecidos. liberdade comercial e de produção. Para os enciclopedistas do século XVIII. monumento da classe burguesa impregnado de liberalismo. É a Beaumanoir que se atribui a ideia. O contrato. Significa “profissionais competentes”. que finalmente elaboraram o Código Napoleão. O jusnaturalismo levaria o contrato à sua máxima expressão. levou os homens à divinização do contrato. Pacta sunt servanda1. o contrato social de Jean-Jacques Rousseau é o sintoma da mentalidade de homens para os quais a própria sociedade derivava de um contrato. de que a convenção é lei entre as partes. Resumindo uma fase do pensamento humano. nos seus estudos sobre o pragmatismo. 1 2 Os pactos devem ser cumpridos. com o domínio do mercantilismo. a influência do protestantismo e o liberalismo dos fisiocratas. acatamos no direito brasileiro. o ponto de partida e o fundamento de todos os poderes era a liberdade humana. hoje.

como Windscheid e Dernburg. San Tiago Dantas e Afonso Arinos de Melo Franco. os pandectistas. as ideias sociais em toda a Europa sofriam a pressão de novas necessidades. O século XIX foi. do contrato e da responsabilidade civil. como Léon Duguit. o momento de uma importante modificação na vida econômica e política. renovavam o direito romano. e o relatório feito pelo penúltimo sobre a evolução dos contratos para o Congresso da União In- Direito Civil .322 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS O art.134 do Código Civil francês firmou definitivamente o princípio de que as convenções legalmente estabelecidas têm a força de lei entre os contratantes. Os institutos básicos do Código Napoleão passaram a ter novo sentido. e do direito privado. O sentido de liberdade se modificou. que fora a de Descartes. preparando o terreno para o BGB (Código Civil alemão). e o individualismo de Rousseau viam-se superados. Huc. Surgiu a crise do direito de propriedade. Assim. Laurent. em 1904. Esse espírito eminentemente individualista. Pierre de Harven. E também os juristas que. cinquenta anos depois. os mestres do direito público. É o social e não o individual que preocupa os autores e filósofos do fim do século XIX.Direito das Obrigacoes . exigem uma renovação do direito. e os novos aspectos da socialização do direito que. sendo ainda focalizados nos volumes publicados em homenagem ao primeiro sobre o direito privado nos meados do século XX. Enquanto.021-381. René Savatier e outros. seriam o objeto dos estudos de Georges Ripert. A filosofia racionalista. Aubry et Rau e Baudry-Lacantinerie. referida por Gaston Morin. 1. Essa evolução ou crise do direito mereceu importantes estudos entre nós. festejam o centenário do Código de Napoleão reconheceram que uma revisão completa de conceitos se tornou necessária. todavia. na Alemanha. liberal e contratualista do Código Napoleão se manteve nas legislações que o seguiram e imitaram. destacando-se na matéria as conferências realizadas pelos professores Arnoldo Medeiros da Fonseca. Verifica-se então a revolução dos fatos contra o direito. como Demolombe. como Louis Josserand e Raymond Saleilles. em aulas inaugurais nas Faculdades de Direito.indd 322 25/4/2011 15:19:02 . O romantismo desses individualistas é lembrado por Bonnecase na sua história do pensamento jurídico francês. impondo-se na doutrina dos seus comentadores.

realizado no Rio de Janeiro e publicado nos Anais do Congresso e na RF. alguns falam com Georges Ripert no declínio do direito. no prefácio de sua obra O direito e a vida dos direitos. Diante das modificações sofridas pelo contrato. os autores indagaram se este ainda existia com o conceito que lhe tinham dado os redatores do nosso Código de 1916 e anteriormente o legislador francês. ou seja. O número de disposições de ordem pública tem aumentado e a intervenção econômica do Estado tem sido generalizada. A doutrina chegou a distinguir entre as duas liberdades existentes no contrato — liberdade de contratar. 3 Direito Civil . 1) e 1988. nas Constituições de 1934. mas de adaptação a novas necessidades. 1937. a liberdade de firmar ou não um contrato. Surgiram assim de determinadas teorias ou técnicas que visam evitar que o direito seja exercido contrariamente à sua finalidade social. transformando-se em contrato de adesão.indd 323 25/4/2011 15:19:02 . Arnoldo Wald. O contrato passou a ser regulamentado. 1955.Direito das Obrigacoes . dez. No mesmo sentido. e mesmo a própria liberdade de contratar estava sofrendo importantes limitações. Evolução do direito e a absorção da administração privada pela Administração Pública. 1951. São Paulo: Max Limonad. econômicas e políticas exigiram do legislador certa técnica especial de adaptação das normas. respondendo-lhes com razão os nossos juristas não se tratar de declínio. A crise do direito. 139/53. que se referem à ordem econômica e social. abrigo nos próprios textos constitucionais. inclusive no Brasil. Chegou-se à conclusão de que muitas vezes não havia mais liberdade contratual. Assim. desde a Constituição de Weimar. Rio de Janeiro.021-381. As transformações sociais e ideológicas. artigo citado). liberdade de fixar as normas ou cláusulas reguladoras do contrato (San Tiago Dantas. o Professor Vicente Ráo esclarece que a atual crise consiste apenas no reajustamento das normas às condições de vida de nossa época. 1969 (Emenda Constitucional n.a teoria da imprevisão e a revisão contratual 323 ternacional de Advogados. Diante dessas manifestações. encontrando. 1946. e Orlando Gomes. contrato dirigido e contrato evolutivo. e liberdade contratual. 1967. Revista do Serviço Público.

A cláusula “rebus sic stantibus” no direito estrangeiro Já. aliás. desde há muito. que tenta esconder as grandes inovações introduzidas. as teorias do abuso de direito e da imprevisão e outras. 2. Henri Bergson ressaltara que as primeiras máquinas a vapor e os primeiros automóveis tiveram a forma das antigas carruagens para dar ao público uma imagem de continuidade. Atribui-se aos glosadores e pós-glosadores 4 Pronuncia-se “rébus sik stántibus”. assinalada por Gaston Morin. anteriormente. São técnicas que permitem manter a forma tradicional de um sistema.Direito das Obrigacoes . por motivo imprevisto. ou seja. renovada no direito moderno sob o nome de teoria da imprevisão. para em seguida examinar a sua posição no direito pátrio. Essa aparente falta de sinceridade do direito. Já. Direito Civil . Tivemos assim normas de ordem pública que combatiam a usura e evitavam a lesão. como ideia-força que limita a autonomia da vontade no interesse da comutatividade dos contratos e com a finalidade de assegurar a equivalência das prestações das partes quando. Ocorre muitas vezes que o espírito tradicional dos juristas — que reveste a forma de misoneísmo — não permite a abertura ostensiva de brechas num sistema jurídico.324 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS combatendo-se abusos e excessos. evitando os seus inconvenientes em certas hipóteses especiais. Estudaremos sucessivamente as origens da cláusula e a sua evolução no direito estrangeiro. uma delas se tornou excessivamente onerosa. o direito estabeleceu limites à autonomia da vontade. Em vernáculo: Os contratos que têm trato sucessivo ou dependência do futuro entendem-se condicionados pela manutenção do atual estado das coisas. Assim. atribuída a Nerácio: Contractus qui habent tractum successivum et dependentiam de futuro rebus sic stantibus intelliguntur.indd 324 25/4/2011 15:19:02 . tem assim importância como conceito amortecedor. É um trecho de uma glosa. na sua obra sobre a revolta dos fatos contra o direito. Surgem assim certos conceitos denominados conceitos amortecedores ou válvulas de segurança. corresponde a uma necessidade profundamente humana. A cláusula rebus sic stantibus4.021-381.

vivíamos num mundo de segurança. A ilusão da moeda estável. que os modernos tratadistas transformaram em teoria da imprevisão. A Lei Faillot na França marca assim uma etapa na história da cláusula rebus sic stantibus ou teoria da imprevisão. que tornaram a prestação de uma das partes excessivamente onerosa em virtude da guerra. A jurisprudência alemã. Assim. as variações do poder aquisitivo do dinheiro. de acordo com a qual as convenções só deveriam ser obedecidas enquanto as coisas continuassem como estavam por ocasião do contrato. O mundo que eu vi. conforme reconhece a doutrina. para calcular os seus débitos. reconhecendo-se a existência da “ilusão da moeda estável” no direito contemporâneo.Direito das Obrigacoes . Irving Fischer ainda não descobrira.a teoria da imprevisão e a revisão contratual 325 a enunciação da cláusula rebus sic stantibus. analisando o § 242 do BGB (Código Civil alemão). proibindo outrossim as cláusulas pelas quais as partes recorriam a outro padrão. Ainda no século XIX. salvo algumas exceções de pequena monta. A importância real dessa cláusula. à qual os Estados ainda não tinham dado curso forçado6. Direito Civil . por sua vez. 1999. e acreditava-se na estabilidade da moeda. com seus estudos. foram as guerras do fim do século XIX (1870) e de 1914-1918 que obrigaram o legislador a estabelecer normas especiais sobre o curso forçado da moeda. Foi. deixando de lado os casos da Revolução Francesa e da Guerra de Secessão. todavia. evocado por Stefan Zweig na sua autobiografia5. Irving Fischer.indd 325 25/4/2011 15:19:02 .021-381. especialmente na chamada “Era da Incerteza” (Galbraith). numa interpretação construtiva. a 5 6 Stefan Zweig. como sendo de monarquias com mais de mil anos de vida. data dos fins do século XIX. estão ligadas às guerras e revoluções. de moedas estáveis e em que o ritmo do tempo não tinha adquirido a aceleração que o século XX lhe daria. É interessante salientar que as leis sobre curso forçado. origens de importantes inflações. que não a moeda. com as grandes modificações do valor da moeda que o problema da imprevisão passou a adquirir maior relevância. admitiu. pois modificou as normas contratuais. Rio de Janeiro: Record.

o Professor Louis Josserand no seu Cours de droit civil positif. Essa impossibilidade subjetiva de caráter econômico. a doutrina alemã equiparou à impossibilidade. em virtude de condições imprevistas. Trata-se de uma construção que prova ser a jurisprudência. O artigo em questão se limitava a obrigar o devedor a cumprir a sua prestação de acordo com as normas da lealdade e confiança recíproca (Treu und Glauben) e na forma dos usos admitidos no comércio7. inclusive.indd 326 25/4/2011 15:19:02 . veio dominar a maioria das legislações contemporâneas.523 do Código Civil de 1916. correspondentes aos arts. Direito Civil .Direito das Obrigacoes .326 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS teoria da imprevisão. o juiz modificasse as cláusulas contratuais para evitar o abuso de direito. 932 e 933 do atual Código Civil.521 e 1. não obstante as críticas de Planiol. mereceu interessante estudo de Josserand. Outras legislações já tinham admitido anteriormente que. Por outro lado. verdadeira fonte de direito. poderá decidir o caso como se legislador fosse. que foi a interpretação conjunta dos arts. para extinguir as obrigações ou reduzir o seu montante. na falta de norma legal. entre nós. é outra ideia que se tornou muito fecunda no direito germânico e no direito contemporâneo em geral. os casos de onerosidade excessiva. após reconhecer amplos poderes ao juiz. o Professor Vicente Ráo. Baseado nesse princípio. aliás. tão pesada que a levasse à ruína. Esse outro conceito amortecedor. Foi por uma verdadeira criação jurisprudencial que os tribunais alemães deduziram desse artigo o princípio geral da teoria da imprevisão. que. condena o abuso de direito.021-381. o direito suíço. 1. oriunda da onerosidade excessiva. ou seja. para responsabilizar o patrão ou comitente por atos do seu preposto independentemente da prova da culpa do primeiro (Súmula 341 do STF). conforme o caso. em certas ocasiões. assinalando que “l’abus manifeste d’un droit 7 Cabe salientar a influência que esse artigo exerceu sobre o direito brasileiro e. quando a prestação de uma parte viesse a se tornar. sobre a jurisprudência do STF. vindo a dominar os Códigos mais recentes. Assim. que. quando cita a criação jurisprudencial brasileira da mesma importância. como reconhece. o juiz alemão reajustou os débitos atendendo às modificações das condições econômicas. e.

o Código grego. que constituem a Seção III do Capítulo XIV. por outro lado. desde que tenha havido modificação nas condições vigentes quando as partes fizeram o contrato.a teoria da imprevisão e a revisão contratual 327 n’est pas protégé par la loi” (art. devido a causa não prevista pelos contratantes. Assim. invocando para tanto a necessidade de equidade. intitulada “Dall’eccessiva onerosità”.021-381. o direito monetário. de 1940.Direito das Obrigacoes . Uma literatura ampla se desenvolveu em torno do assunto. Atendendo a tais necessidades. a rescisão do contrato ou o reajustamento das prestações. A teoria da imprevisão. A moeda no direito nacional e internacional. tem sido admitida de modo mais ou menos amplo por outras legislações contemporâneas. Foi o que ocorreu na Polônia. e de Tullio Ascarelli. 2. Por outro lado. sob pena de prejudicar interesses individuais e sociais. Permite a legislação italiana. o Código Suíço das Obrigações autoriza a intervenção do juiz para diminuir as perdas e danos atendendo às circunstâncias especiais de cada caso. reajustamento judicial e reajustamento em virtude de lei. 388. na Hungria e na Alemanha. constituindo um novo ramo do direito.467 e nos seguintes. Direito Civil . refere-se de modo específico às mudanças imprevistas de circunstâncias.indd 327 25/4/2011 15:19:02 . a Justiça poderá. no caso de onerosidade excessiva de uma das prestações. como fundamento para a revisão dos contratos. Tivemos assim cláusulas especiais de reajustamento por vontade das partes e. No mesmo sentido se manifesta o Código italiano no seu art. leis especiais surgiram em muitos países nas épocas de inflação. Na hipótese de excessiva onerosidade. no caso de ocorrências extraordinárias e imprevisíveis.º). a pedido de uma das partes. no seu art. O Código italiano distingue o caso de contratos de execução continuada ou com prestação periódica de ambas as partes daqueles em que só existem obrigações periódicas para um dos contratantes. merecendo especial destaque as obras sobre a matéria de Arthur Nussbaum. reduzir uma das prestações ou rescindir o contrato. onde a lei permitiu a revalorização dos créditos. 1. As transformações econômicas e monetárias sofridas pelo mundo em virtude das duas grandes guerras e de uma inflação galopante exigiram dos tribunais e dos legisladores que o reajustamento das prestações se fizesse para atender à verdadeira finalidade dos contratos.

na observação de San Tiago Dantas. parágrafo único. do laissez-faire. em conferência sobre Rui Barbosa e a renovação da sociedade8. um Código liberal. nas diversas legislações.059. O Código fora feito para um mundo estável. que elaborou o Código Civil de 1916 para atender aos interesses da classe dominante. proprietária dos latifúndios e da burguesia mercantil do litoral. o art. Rui Barbosa e a renovação da sociedade. Surgiu numa sociedade de nível econômico pouco adiantado. reproduzida em parte na sua obra publicada no Brasil.indd 328 25/4/2011 15:19:02 . A finalidade dos contratos exigiu.021-381. Era ainda o mundo dos fisiocratas. que. com moeda firme. 8 Direito Civil . pois. Desse modo. é conservadora no campo econômico e radical no campo político. não se parecia com a dos outros países. era evidente que não se preocupasse com o problema da imprevisão. Já se disse. do Código de 1916 limitava a responsabilidade aos danos previsíveis. que ainda ignorava a questão social. Em erudito ensaio. a responsabilidade baseada na culpa. San Tiago Dantas destacou as condições sociais de sua elaboração por uma classe média.328 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Studi giuridici sulla moneta. A classe média. aliás. o que se explica dentro de um sistema jurídico que só admitia. Assim sendo. publicação da Casa de Rui Barbosa. de modo mais ou menos intenso. A teoria da imprevisão no direito brasileiro O Código Civil brasileiro de 1916 foi. Poucos são os artigos em que fere a questão. Problemas das sociedades anônimas. com uma cultura europeia que desejavam aplicar no mundo brasileiro. 1. laissez-passer. que também eram os seus. que reunia os bacharéis. formada mais gradualmente. Classe média de funcionários e intelectuais. assim como o francês. em tese. San Tiago Dantas. que surgira ao lado da burguesia do interior. para o qual Clóvis fez o seu projeto. em que os contratos não deveriam sofrer maiores alterações independentemente da vontade das partes.Direito das Obrigacoes . que o Código nasceu velho para a sua época. 3. a introdução da cláusula rebus sic stantibus.

por exemplo. diante de novas disposições legislativas posteriores aos anos de 1930. na primeira edição da obra. no caso de remoção ou redução dos seus vencimentos. a legislação brasileira admitia o princípio da teoria da imprevisão9. Enfim. em virtude das modificações decorrentes da Revolução de 1930. ed.250 permitia excepcionalmente a rescisão do comodato antes do prazo estabelecido. subordinando.. a exigibilidade de certas obrigações à regra rebus sic stantibus”. havendo por parte do comodante necessidade imprevista e urgente reconhecida pelo juiz. Seria necessária boa vontade para. foi a primeira disposição legal a se referir à cláusula rebus sic stantibus na sua exposição de motivos o Decreto n. 1. Arnoldo Medeiros da Fonseca estudou o problema do caso fortuito e da teoria da imprevisão. entendeu o eminente civilista que não consagrava o direito pátrio a cláusula rebus sic stantibus.573. já então.190 permitia a redução do aluguel ou a rescisão do contrato de locação caso a coisa deixasse de servir para o fim a que se destinava. reconheceu que. e uma nova legislação veio atender às situações criadas. Retomando posteriormente o estudo da matéria. mas “obedece a um alto pensamento de equidade. sem que se lhes pudesse dar alcance definitivo. diante de um sistema como o do Código Civil de 1916. o art. reconhecer a admissão da teoria da imprevisão. Rio de Janeiro: Forense. 19. Assim. Tal fato poderia ocorrer em virtude de fato previsível ou não. que o direito moderno acolhe. É interessante notar que a exposição de motivos no caso considera a hipótese como verdadeira força maior e esclarece que a lei não vem restringir o direito de propriedade. Caso fortuito e a teoria da imprevisão. Direito Civil .021-381. cada vez mais. A crise econômica dos anos de 1930 revolucionou a nossa economia. Em obra pioneira e erudita.indd 329 25/4/2011 15:19:02 .Direito das Obrigacoes . Inicialmente. 3. que permitiu a rescisão da locação de funcionário público ou militar. abrindo novos caminhos para a bibliografia no direito nacional. Foram medidas de emergência as primeiras que surgiram. 1958. de 7-1-1931.a teoria da imprevisão e a revisão contratual 329 O art. 9 Arnoldo Medeiros da Fonseca. estudando os dados então existentes em nosso direito. 1.

que previu e regulamentou a renovação dos contratos de locação de imóveis destinados a fins comerciais e industriais. considere nulas e não escritas cláusulas incluídas pelas partes.indd 330 25/4/2011 15:19:02 . Realizou-se assim o éclatement dos contratos. a que se refere Savatier na sua obra sobre as Metamorfoses econômicas e sociais do direito contemporâneo. Era o art. pois o legislador reconheceu tratar-se de uma mesma técnica. Posteriormente. que impôs a nulidade da cláusula-ouro. 31.245/91. para que não fosse renovado o contrato. Tal ruptura do esquema contratual faz com que a lei inclua no contrato cláusulas que as partes não convencionaram ou. 8. Mas. efetivamente. nem motivo considerado justo. que entre ambas — cláusulas rebus sic stantibus e teoria da imprevisão — não há por que distinguir. reconheceu a licitude da intervenção estatal nos contratos. Podemos dizer que os princípios dessa lei por si só importavam na aceitação da cláusula rebus sic stantibus. embora haja quem faça tal distinção. pela lei. de 27-1-1933. que o legislador entendeu ser o seu dever intervir nos contratos sempre que o interesse social viesse a exigi-lo. A fixação do novo aluguel dependia das condições econômicas e financeiras do momento (art. importou em nova intervenção do Estado e limitação da autonomia da vontade dos contratantes. o juiz fixava novo aluguel.º). 13. 24. Os trabalhos preparatórios desse decreto revelam. aliás. § 7. pois. Outro diploma legal importante com referência à teoria da imprevisão foi a chamada Lei de Luvas (Dec. ao contrário.330 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS É importante assinalar que o legislador preferiu à moderna teoria da imprevisão o recurso à cláusula rebus sic stantibus.Direito das Obrigacoes . Tratava-se. da renovação judicial do contrato de locação.021-381. n. Embora tal decreto não tivesse consagrado a cláusula rebus sic stantibus. Pensamos. na lei referida. tendo sido mantida tal noção na Lei n. mesmo quando em oposição às cláusulas contratuais. que disciplina atualmente a matéria. de acordo com o qual. não havendo acordo das partes. 23. em que. o Decreto n.150. “Se.501. desde que o locatário preenchesse certos requisitos. em virtude da modificação das condições econômicas do Direito Civil . de 20-4-1934). havia um artigo que consagrava a teoria da imprevisão de modo mais explícito.

245/91). ou em consequência das obrigações estatuídas pela presente lei. a eticidade e a sociabilidade10. consagrar a teoria da imprevisão. Miguel Reale. a cláusula geral de boa-fé é. um projeto especial da Editora Brasil 21 e da revista IstoÉ. nos seguintes termos: “Art. após três anos. das locações em que havia fundo de comércio. o novo Código Civil. que dispõe sobre as locações de imóveis urbanos. na modificação das condições existentes. em matéria contratual. Direito Civil . o valor locativo fixado pelo contrato amigável. assim. p. baseando-se. a revisão. promover a revisão do preço estipulado”. ou seja. pois. a legislação do inquilinato residencial permitiu. havendo modificação das condições econômicas. 8.021-381.. 10 Miguel Reale. até um limite legalmente fixado.indd 331 25/4/2011 15:19:02 .) V — a modificação das cláusulas contratuais que estabeleçam prestações desproporcionais ou sua REVISÃO em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas”. deu extrema ênfase às exigências de justiça substancial na relação contratual. set. refletem-se no regime legal do contrato. em certos casos. na variação dos preços.Direito das Obrigacoes . ao estabelecer a função social do contrato. nas palavras do Prof. Ressalta-se que a atual Lei do Inquilinato (Lei n.. prevê a revisão do valor do aluguel em seus arts. Por sua vez. Admitia-se.078/90) garantiu o direito à revisão contratual.º São direitos básicos do consumidor: (.a teoria da imprevisão e a revisão contratual 331 lugar. 18. na desvalorização da moeda. expressamente. 68 a 70. que deve ser tecnicamente perfeito. 2001. poderão os contratantes (locador ou locatário). O sentido do novo Código Civil. 8. o aprimoramento técnico. O Código de Proteção e Defesa ao Consumidor (Lei n. Os princípios básicos que orientam a nova legislação brasileira. inspirado na ética e desempenhando importante função social. que são. sofrer variações além de 20% das estimativas feitas. Constata-se que. evidentemente. findo o prazo de três anos do início da prorrogação do contrato. o reajustamento dos aluguéis. dentro do seu espírito social. dependendo tal fixação de arbitramento em que os peritos devem atender ao novo valor locativo. 6.

se a prestação de uma das partes se tornar excessivamente onerosa. em seus arts. Assim. busca retomar o equilíbrio quando os contratantes não vislumbram mais a mesma realidade em que foi celebrado o contrato. próprias e imanentes do futuro. que não deseje suportar os ônus pactuados. admite a resolução ou a revisão do contrato por excessiva onerosidade para reequilibrar a relação contratual. Sem dúvida. Em última análise. o legislador. que não poderia ter sido prevista pelas partes.332 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Dentro desse contexto.indd 332 25/4/2011 15:19:02 . 478 a 480. a teoria da imprevisão ressurgiu como elemento importante para a readequação dos contratos. Essa imprevisibilidade fica clara com a aposição da expressão “em virtude de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis” no texto legal. inspirado no texto constitucional. o papel do juiz terá extrema relevância para cumprir o cunho de justiça Direito Civil . adotando a tese consolidada na jurisprudência e seguindo o exemplo do Codice Civile italiano. Os efeitos da sentença que o decretar retroagirão à data da citação”. poderá o devedor pedir a resolução do contrato. e seu objetivo é tutelar as partes da alteração da realidade que era desconhecida no momento da realização do contrato. ela está relacionada com o contrato no tempo. aproveite-se da previsão legal para não cumprir com o que foi previamente contratado. Desse artigo de lei pode-se concluir que os elementos que possibilitam a resolução ou revisão por onerosidade excessiva são três: a) alteração da realidade em que foi realizado o negócio. isto é. Tal elemento deve ser analisado na casuística.Direito das Obrigacoes . diante de radical modificação da situação das partes. com extrema vantagem para a outra.021-381. 478 do CC prevê: “Nos contratos de execução continuada ou diferida. para evitar que uma das partes. em virtude de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis. De fato. Dentro dessa perspectiva. ela é aplicada quando há modificação das circunstâncias de forma a onerar excessivamente uma das partes. Tal medida tem por fim proteger o pacto dos acontecimentos supervenientes ou de alteração posterior das circunstâncias. ensejando o empobrecimento de uma delas e o enriquecimento da outra. mas como algo que se insere dentro de uma realidade e está sujeito às incertezas inevitáveis. o art. A teoria da imprevisão considera o contrato não como negócio isolado.

Na realidade.021-381. a consequência estipulada pelo legislador é a resolução do contrato. uma forma de correção monetária judicial do valor devido. Assim. Para não dar um caráter absoluto e radical dessa consequência.Direito das Obrigacoes . em vez de pleitear a resolução do contrato. constata-se que o novo texto legal permite tanto o reajustamento do contrato como a sua resolução por via judicial. 317. no art. 480. previu a possibilidade de evitá-la. a pedido da parte. melhor seria admitir simplesmente que se mantivesse a equação contratual. afastando a condição de onerosidade excessiva. b) oneração excessiva para uma das partes. 479. poderá o juiz corrigi-lo. O referido art. a ser requerida judicialmente. ou seja.a teoria da imprevisão e a revisão contratual 333 social que está embutido nessa norma. qual seja a resolução do contrato. o legislador. Direito Civil . poderá requerer a redução da prestação devida ou alteração da forma de executá-la.indd 333 25/4/2011 15:19:02 . a relação inicialmente estabelecida entre as partes. diante de acontecimentos extraordinários e imprevisíveis. que trata do objeto do pagamento e mantém. no caso de agravamento extraordinário da onerosidade da prestação de uma das partes. Conforme o art. sem trazer insegurança para as relações contratuais. de modo que assegure. se o réu propuser o restabelecimento do equilíbrio. modificando equitativamente as condições do contrato. por motivos imprevisíveis. Trata-se de forma de revisão destinada exclusivamente a assegurar a permanência. com extrema vantagem para a outra. sendo retroativos à data da citação os efeitos da sentença que estabelecer a respectiva resolução. sobrevier desproporção manifesta entre o valor da prestação devida e o do momento de sua execução. 317 dispõe: “Quando. o valor real da prestação”. da situação contratual real existente no momento da sua celebração. durante toda a execução do contrato. A ideia da manutenção do equilíbrio contratual e do valor da prestação inicialmente estabelecida também inspirou o art. e c) correspectiva vantagem extrema para a outra contratante. na hipótese de contrato que origine obrigação para apenas uma das partes. quando possível. em virtude de acontecimentos imprevisíveis. no fundo. Ao constatar a onerosidade excessiva.

Direito das Obrigacoes .334 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Vale salientar que. O Egrégio Tribunal de Justiça de São Paulo decidiu. Almeida Paiva. na sua obra sobre Aspectos do contrato de empreitada11. que não permitia o reajustamento dos preços em empreitadas. todavia. citando também valiosas opiniões doutrinárias no sentido da admissão da teoria da imprevisão pelo direito brasileiro. por exemplo. Aspectos do contrato de empreitada. havendo modificação do salário mínimo ou qualquer outra que altere as condições do mercado. a fim de evitar a criação de um clima de total insegurança jurídica. traz excelente contribuição sobre o modo pelo qual os tribunais brasileiros têm resolvido a matéria. 1955. Devemos salientar. A cláusula rebus sic stantibus somen- Alfredo de Almeida Paiva. Assim. Coube a iniciativa nessa matéria ao Tribunal de Justiça do antigo Distrito Federal. Rio de Janeiro: Forense. aplicando a teoria da imprevisão. especialmente em contratos de empreitada. pela sua Segunda Câmara Civil. que os tribunais têm sido liberais na interpretação que têm dado ao fato imprevisível. a jurisprudência já se manifestava sobre o assunto. Se. de que o salário mínimo deverá ser reajustado numa época determinada. Tiveram os nossos tribunais a ocasião de examinar o caráter do art.021-381. tal teoria foi consagrada pela jurisprudência e pela doutrina desde os meados do século XX. Na realidade. Os tribunais todavia têm permitido o reajustamento. quando fazem o contrato. concluindo que tal artigo só se aplicava se as variações de preços fossem normais. 1. aliás. tendo tão somente o atual Código explicitado um princípio geral anteriormente acolhido pelo nosso direito. em acórdão unânime: “Cláusula rebus sic stantibus — Quando pode ser invocada. Desse modo. seria possível alegar que tal reajustamento não é fato imprevisível para as partes.246 do Código de 1916. Hoje é questão pacífica o reajustamento do preço combinado para empreitada sempre que ocorre um fato imprevisível. 11 Direito Civil . as partes têm ciência. admitiram os tribunais brasileiros o reajustamento.indd 334 25/4/2011 15:19:02 . o aumento de mão de obra ou de material não tivesse sido previsível. antes mesmo do atual Código Civil. Ressalta-se ainda que nossos tribunais têm reconhecido o caráter excepcional da revisão do contrato com base na teoria da imprevisão.

º. A própria Constituição Federal de 1969 se referia a dois casos de aplicação da referida teoria. tendo entendido que não se aplica aos contratos aleatórios pois neles as partes assumiram o risco das variações. Assim é que o art. Entende-se. por motivo de alteração do poder aquisitivo da moeda. decisão da 3ª Turma. Rel. Por ocasião da recente crise econômico-financeira de 2008-2009. Min. § 4. o art. pois. 102.003. pudessem atender à necessidade de melhoramentos e expansão desses serviços. 167. da Constituição de 1969 determinava o reajustamento dos proventos de inatividade dos funcionários aposentados sempre que. Massami Uyeda. art. Por outro lado. não foram mais limitadas as aplicações da teoria da imprevisão.194. 374/170). Nancy Andrighi. Leis especiais permitiram enfim que o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social e os agentes do Sistema Financeiro da Habitação fizessem contratos. Min. derivada de circunstância inesperada e de mudança imprevista.indd 335 25/4/2011 15:19:02 .481-GO. RT. se modificassem os vencimentos dos funcionários em atividade (Constituição de 1988. decisão de 28-6-2007. 3ª Turma. 23-9-1964. Já anteriormente a variação do preço de safra futura em virtude de oscilações do mercado não foi considerada como justificando a revisão contratual13.893-RJ.º). decisão de 10-8-2010.a teoria da imprevisão e a revisão contratual 335 te há de ser aplicada quando houver desigualdade ou oneração desproporcionada de um dos contratantes. cujas prestações deveriam variar de acordo com os índices de preços de mercadorias ou de 12 REsp 1. III. devendo-se evitar que o exercício do direito de resolução do vínculo degenere em abuso fácil e torne vã a fé que os contratantes devem emprestar à obrigatoriedade do contrato” (AC 135. § 1.021-381. Rel. 40. os tribunais tiveram o ensejo de examinar os casos nos quais incide a teoria da imprevisão.Direito das Obrigacoes . Direito Civil . tendo uma justa remuneração do capital empregado. 13 REsp 803. No campo do direito público. determinava a revisão das tarifas dos serviços explorados por concessão a fim de que os concessionários. que a modificação das condições econômicas ensejaria o reajustamento das tarifas. que deveriam ter previsto12.

021-381. permitiu a revisão judicial do contrato em casos excepcionais. Por outro lado. que trata da extinção dos contratos e traz disciplina sobre a resolução por onerosidade excessiva (arts. de 21-6-1993). pois. No direito de família. Finalmente. 322 do Anteprojeto). mas no momento em que é proferida a sentença e até na data do pagamento (Súmulas 314. considerando a teoria da imprevisão “uma conquista definitiva do direito moderno. em especial agora.336 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS custo de vida. mas se referiu a “reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo”. que jamais a teoria da imprevisão teve tanta atualidade e aplicação.indd 336 25/4/2011 15:19:02 . a União foi autorizada por lei especial a emitir obrigações. Existem diplomas legais autorizando a União e vários Estados a incluir nos contratos de empreitada uma cláusula de reajustamento (Lei n. embora em verdade se esteja apenas ressuscitando velha e conhecida cláusula. cujo valor era reajustável de acordo com um índice — Obrigações do Tesouro Nacional (OTN). 57/44. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal tem tratado da matéria nos acórdãos que se encontram publicados na sua revista RTJ. as sucessivas Leis do Inquilinato autorizaram as cláusulas de escala móvel nas locações. ao 14 RTJ. o anteprojeto. Podemos afirmar. A Constituição de 1988 alterou os textos citados.666. que mereceu aplausos dentro e fora do País. entre outras14. Como documento histórico e relevante para a teoria da imprevisão. de autoria dos Professores Ministros Philadelpho Azevedo. 96/667. os tribunais têm concedido pensão vinculada aos rendimentos do devedor.Direito das Obrigacoes . Hahnemann Guimarães e Orosimbo Nonato. 8. 66/561 e 68/95. 490 e 562). as decisões majoritárias admitem como base de cálculo para a indenização o salário vigente não na época do dano causado. No campo da responsabilidade civil. 60/774. 478 a 480). 63/551. enfim. com o advento do Código Civil. é preciso citar ainda o anteprojeto do Código das Obrigações. em tempos idos considerada implícita nos contratos de execução retardada” (art. Direito Civil . Efetivamente.

também no art. manda reajustar os benefícios previdenciários e salários de contribuição.a teoria da imprevisão e a revisão contratual 337 cuidar do salário mínimo (art.º e 3. sob a ameaça de provocar uma injustiça. 1956. não se fazendo mais mútuos a longo prazo. “o ponto mais agudo do conflito entre credores e devedores”. Mas o mesmo não pode ocorrer em relação a obrigações surgidas em virtude do casamento ou de ato ilícito. o enriquecimento sem causa. 201. A evolução da correção monetária na era da incerteza.Direito das Obrigacoes .º. ou seja. À teoria da imprevisão. São Paulo: Saraiva.021-381. Mas — acrescentam outros juristas — existem certos contratos ou negócios jurídicos cujas consequências se desenvolvem no futuro e que não é possível deixar de praticar.. representando. in A correção monetária no direito brasileiro. Já vimos como a teoria da imprevisão surgiu com a finalidade de reajustar as prestações das partes sempre que houvesse um fato Ver Arnoldo Wald. A cláusula de escala móvel. Teoria da imprevisão e dívidas de valor15 É problema doutrinário de certo interesse o da distinção entre a teoria da imprevisão e a doutrina das dívidas de valor. São Paulo: Max Limonad. na palavra de Henri de Page. Assim. 1983. IV). 15 Direito Civil . sobre tais problemas. p.º. Ripert reconhecia que a época atual de desequilíbrio econômico não permitia mais que se fizessem contratos a longo prazo. que merecem a atenção contínua dos juristas. Como evitar a injustiça. 7. 9 e s. que o direito contemporâneo considera tão condenável? Uma ampla literatura tem surgido. e. não obstante a insegurança monetária. tanto na França e na Itália como nos Estados Unidos. 4.indd 337 25/4/2011 15:19:03 . os homens possam continuar a negociar e a estabelecer prestações futuras e que os contratos assim realizados possam continuar a obedecer aos princípios da Justiça. Ocorre que a inflação e a consequente desvalorização da moeda não permitem mais a utilização da ponte. à cláusula rebus sic stantibus. cabe o honroso e eficiente papel de permitir que. do mesmo autor. o problema da modificação de condições econômicas pode ser afastado em relação aos contratos de mútuo. §§ 2. A moeda foi considerada e definida por John Maynard Keynes como a ponte entre o passado e o futuro.

Milano: Giuffré. 1. mas à quantia que necessária for para que o credor possa levar determinado tipo de vida. Studi giuridici sulla moneta. não importam no pagamento de certa quantia.338 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS imprevisto pelos contratantes que tornasse excessivamente onerosas tais prestações. O direito aos alimentos não é direito a tantos reais. não tivessem podido evitá-lo.699 do atual estatuto civil. O Supremo Tribunal Federal chegou a adotar esse ponto de vista em acórdão de que foi relator o Ministro Nélson Hungria. É o que também acontece em relação à responsabilidade civil. mas sim a quantia representativa do valor do prejuízo (Súmulas 490 e 562 do STF).indd 338 25/4/2011 15:19:03 . podendo prevê-lo. As dívidas de valor. esclarece a diferença entre estas e as dívidas de quantias certas de determinada soma de moeda. Deve-se um quid e não um quantum. ou a determinada soma. 1952. Quem causou dano a outrem não lhe deve certa quantia. 401 do CC de 1916. desde que preenchidos os seus requisitos. Discutem os autores se o fato em questão deve ser imprevisível ou se basta que as partes. que ocasione um desequilíbrio das prestações. de aplicação da cláusula rebus sic stantibus. representada no art. Assim. correspondente ao art. mas sim em garantir ao credor determinado poder aquisitivo. Às dívidas de dinheiro aplica-se a teoria da imprevisão.Direito das Obrigacoes . um caso de aplicação da cláusula rebus sic stantibus. no caso. A doutrina brasileira exige a inevitabilidade de um fato que transforme cabalmente a situação dos contratantes. que não se trata.021-381. É ilustrativa na questão a distinção feita pelo eminente Tullio Ascarelli. Mas a primeira se 16 Tullio Ascarelli. ambas as teorias — da imprevisão e das dívidas de valor — têm finalidades análogas. Muitos autores e decisões jurisprudenciais aplicam a teoria da imprevisão aos alimentos. que permite o reajustamento dos alimentos oriundos de parentesco. todavia. que. ao contrário. Entendemos. no seu ensaio sobre dívidas de valor16. pois. O requisito básico para a aplicação da teoria da imprevisão é. não previsto pelas partes. a ocorrência de fato novo. pois visam corrigir o desequilíbrio criado pela modificação das condições existentes. É o que se dá em matéria de alimentos ou de responsabilidade civil. Direito Civil .

exigindo a imprevisibilidade do acontecimento que modificou as condições existentes. Em relação aos negócios bancários. 60/867). pois atende à finalidade da dívida. A lei e a convenção das partes podem transformar a dívida de dinheiro em dívida de valor. As modificações da estrutura do contrato Com o atual Código Civil. entendendo a melhor doutrina que tal conclusão se inspirava não somente nas normas especiais que já tivemos a ocasião de estudar. em razão do disposto em seus arts. 948. e não necessita para a sua aplicação que a modificação não tenha sido previsível. Direito Civil . 5. pois reconhece a possibilidade de reajustamento de alimentos e denomina alimentos não apenas as obrigações que os parentes têm uns em relação aos outros. mas. seja em decorrência de convenção. ainda. Ademais. 478 e 480.021-381. e assim mesmo o reajustamento poderá ser pedido. A jurisprudência do Supremo Tribunal Federal tem reiteradamente reconhecido a validade da correção monetária convencional (RTJ 64/386. correspondente ao art. 60/553. Pode ter sido previsível e mesmo prevista pelas partes. 85 do CC de 1916). 66/325. antes mesmo do novo diploma.595. seja em virtude de determinação legal. Por outro lado.Direito das Obrigacoes . mais do que ao sentido literal da linguagem (art. 4. 112 do CC. 65/874.a teoria da imprevisão e a revisão contratual 339 aplica às dívidas de dinheiro. Assim. de acordo com a regra pela qual o juiz deve interpretar as declarações de vontade das partes atendendo à sua intenção. importa em converter a dívida de quantia certa em débito de determinado poder aquisitivo. de 31-12-1964. e nas resoluções e circulares do Banco Central. mas ainda a pensão que um cônjuge tem de pagar ao outro após a separação judicial. e a indenização devida em caso de homicídio aos dependentes do falecido (art. dentro dos moldes e requisitos estabelecidos pelo legislador. A outra se aplica às dívidas de valor. II). em virtude do ius sanguinis. o direito brasileiro admitia amplamente a teoria da imprevisão. a correção monetária foi consagrada pela Súmula 596. o direito brasileiro admite a teoria das dívidas de valor. baseada nos textos da Lei n.indd 339 25/4/2011 15:19:03 . 69/587. resta indiscutível a aplicação da teoria da imprevisão no direito brasileiro. a aplicação da correção monetária.

mesmo em civilizações socialistas. as restrições à liberdade contratual não devem ser interpretadas como um declínio do direito. este continua a sua vida.340 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Essas outras limitações à liberdade contratual no direito contemporâneo fizeram com que se perguntasse qual o valor que hoje se deve atribuir ao contrato. 1954. Mesmo sem liberdade contratual. consiste numa interpretação construtiva do conteúdo dessa vontade. na expressão autorizada mas saudosista de Ripert. como ocorre no caso das empresas públicas e sociedades de economia mista. embora tendo significado próprio e função diferente da do nosso direito. Direito Civil . oriundos dos órgãos competentes. pois importa na responsabilidade pessoal do contratante. invadindo até em certas esferas o direito público. Funciona naquele país o contrato como simples confirmação de disposições estabelecidas nos planos econômicos.Direito das Obrigacoes . como explicam René David e John Hazard no trabalho17 que dedicam ao direito soviético. Hazard. nem um sintoma do seu declínio no mundo atual. Ao contrário. A teoria da imprevisão não extingue a autonomia da vontade. Na Rússia. Le droit soviétique. que na sua expansão recorre a instintos de direito privado para melhor atender às suas finalidades. Não devemos ver nas afirmações feitas em relação à teoria da imprevisão uma deturpação do contrato. tendo em vista a justiça substancial e a proteção da vontade das partes com relação 17 Rene David e John N. Paris: LGDJ. importante papel psicológico. Dentro do nosso sistema. desempenhando.021-381. Por outro lado. e são a fonte de uma verdadeira humanização do contrato.indd 340 25/4/2011 15:19:03 . como sabotagem. até mesmo nos países de economia planificada. conforme o caso. todavia. mantinha-se o contrato. na vigência do regime comunista. a técnica privatista continua a imperar. que é o da legalidade ocidental. podendo ser considerado. A referência que acabamos de fazer é apenas para indicar que. Constituem tais modificações um cerceamento aos abusos. mesmo sem liberdade de contrato. por exemplo. o contrato se mantém. o inadimplemento tem sanções diferentes das do nosso direito.

a teoria da imprevisão e a revisão contratual 341 a futuros eventos desconhecidos no momento da realização do contrato. Othon Sidou. M. Arnoldo Wald.Direito das Obrigacoes . permitindo a modificação das geiro normas contratuais que tornaram a prestação de uma das partes excessivamente onerosa em decorrência de fatos sociais como a guerra. A teoria da imprevisão e a revisão dos contratos. BIBLIOGRAFIA: Arnoldo Medeiros da Fonseca.A lei Faillot na França introduziu a teoria tibus no direito estran. J. Correção Monetária. La teoría de la imprevisión. A revisão judicial dos contratos e outras figuras jurídicas. À lei e ao juiz cabe a função de garantir os direitos individuais dentro dos limites em que podem ser exercidos no interesse superior da sociedade. Paulo Carneiro Maia. Arthur Rocha. Carlos Cossio. Tullio Ascarelli. Da cláusula rebus sic stantibus. A cláusula rebus sic stan. o contrato é obrigatório entre as partes. como se lei fosse pacta sunt servanda. 1959. São Paulo: Revista dos Tribunais. Da intervenção do Estado nos contratos concluídos. 2. 1961. Studi giuridici sulla moneta. Chacel e Wald. Cláusula rebus sic stantibus ou teoria da imprevisão: revisão contratual. por respeito à boa-fé. Belém: Cejup. 1989. Marcio Klang. O instituto da lesão. Aderbal Gonçalves. Rio de Janeiro: Forense. 1976. 1978.021-381. Caso fortuito e teoria da imprevisão. que são as finalidades precípuas do direito. Da cláusula de escala móvel e Aplicação da teoria das dívidas de valor às pensões decorrentes de atos ilícitos. da justiça e da segurança. SÍNTESE 15 — A TEORIA DA IMPREVISÃO E A REVISÃO CONTRATUAL 1. Rio de Janeiro.da imprevisão com a cláusula rebus sic stantibus. Apec. 1983. Evolução doutrinária do A doutrina germânica e posteriormente o contrato Cristianismo ressaltam a importância da palavra dada. e ainda Simonsen. E a teoria da imprevisão realiza a superior conciliação do interesse individual e da necessidade social. Regina Beatriz Papa dos Santos. E.indd 341 25/4/2011 15:19:03 . Direito Civil . Buenos Aires: Abeledo-Perrot. São Paulo: Saraiva.

Direito Civil .501. Teoria da imprevisão e É um problema doutrinário o da distinção dívidas de valor entre a teoria da imprevisão e a doutrina das dívidas de valor. o Decreto n. 23.indd 342 25/4/2011 15:19:03 . admitiu a revisão do contrato por excessiva onerosidade. Ambas as teorias têm finalidades análogas e visam corrigir o desequilíbrio criado. 8. Mas a primeira se aplica às dívidas de dinheiro e a outra às dívidas de valor. As restrições à liberdade contratual não devem ser interpretadas como um declínio do direito. 4.573. de 7-1-1931. o direito à revisão contratual. o Código de Defesa do Consumidor (Lei n. nos arts. como cerceamento aos abusos e como fonte de humanização dos contratos.021-381. A seguir. 478 a 480. O Código Civil de 2002. O primeiro dispositivo legal que assimilou a cláusula rebus sic stantibus foi o Decreto n. As modificações da estru.Resta indiscutível a aplicação da teoria da tura do contrato imprevisão no direito brasileiro em razão do disposto nos arts.Direito das Obrigacoes .078/90) garantiu. 478 e 480 do CC. em diversos dispositivos. A teoria da imprevisão no O Código Civil brasileiro de 1916 ignorou direito brasileiro a questão social e limitou a responsabilidade aos danos previsíveis. mas. 5. de 27-11933. 19. Recentemente. impôs a nulidade da cláusula-ouro e reconheceu a licitude da intervenção estatal nos contratos sempre que o interesse social o exigisse.342 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 3. ao contrário. que permitiu a rescisão da locação feita por funcionários públicos. Não devemos ver a aplicação da teoria da imprevisão como uma deturpação do contrato no mundo atual.

2. Regulamentação no direito civil brasileiro.021-381.Capítulo 16 DOS VÍCIOS REDIBITÓRIOS Sumário: 1.3. Conceito e histórico. pois. a matéria encontra regulamentação legal no Código Civil. quando não perceptíveis por quem recebeu o bem. Problemas processuais. A proteção do equilíbrio das prestações. 3. o defeito oculto da coisa que dá ensejo à rescisão contratual. 1. A própria etimologia do adjetivo “redibitório” explica a finalidade do instituto. Prazos de decadência e prescrição no Código de Defesa do Consumidor. 3. No direito pátrio. 2. tendo este sido tema de poucas monografias e sendo tratado geral- Direito Civil . A proteção do consumidor. por tornar o seu objeto impróprio ao uso a que se destina.1. e da boa-fé dos contratantes em todos os negócios jurídicos impôs àquele que entrega determinado objeto a obrigação de responder pelos defeitos e vícios não só do direito transferido (responsabilidade pela evicção) como da própria coisa. 3. Prazos do Código Civil. nos contratos comutativos. 3.Direito das Obrigacoes . não realizaria o negócio pelo mesmo preço. A bibliografia nacional sobre o assunto é relativamente reduzida. ou por diminuir o seu valor de tal modo que. que assegura a devolução do objeto ao seu titular anterior.indd 343 25/4/2011 15:19:03 . 441 a 446. Conceito e histórico Vício redibitório é o defeito oculto que desvaloriza ou torna a coisa imprópria ao uso. nos arts. Vício redibitório é. se o outro contratante soubesse do vício.

Direito Civil . Digesto. para o direito comercial. que essa responsabilidade ainda exerce justa e importante função moralizadora e asseguradora do equilíbrio econômico nos contratos comutativos.344 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS mente em artigos ou arrazoados forenses. Salvo convenção em contrário.021-381. obrigando os vendedores a comunicar aos compradores a existência dos vícios ocultos. Na Itália. ou obras sobre a compra e venda e os contratos em geral e nos comentários ao Código Civil de 1916 e ao Código Comercial de 1850. 1 2 La teoria dei vizi redibitori.indd 344 25/4/2011 15:19:03 . os defeitos do escravo ou do gado e as doenças e os delitos cometidos pelo escravo. encontrando-se ainda importantes subsídios nas obras sobre compra e venda de Gasca. discutindo a sua finalidade real e as razões de sua manutenção no direito contemporâneo. de autoria de Fubini1. sido transformada em estipulação obrigatória nas vendas de escravos. passando a aplicá-las posteriormente a todas as espécies de vendas. além de numerosos artigos de Bianchi. aos eventuais adquirentes. o alienante comunicava por uma tabuleta. Parece. Título 1. A jurisprudência romana ampliou as normas sobre a matéria. A responsabilidade pelos vícios redibitórios resultava de uma estipulação expressa das partes. de móveis ou imóveis2. desde que não fossem ostensivos. Alguns juristas a consideram até como um resquício do direito romano. em que se destaca um trabalho de Nitti.Direito das Obrigacoes . e de Tartufari e Ramella. para o direito civil. encontramos uma monografia clássica. fragmento 1. Galante e Carnelutti e de uma bibliografia especializada sobre vícios redibitórios em matéria de venda de gado. todavia. sendo facultativa e tendo. de Ulpiano. Livro 21. 1906. A responsabilidade do alienante pelos vícios redibitórios tem as suas fontes no direito romano. Em virtude das determinações edilícias. Torino. cuja estrutura inicial se manteve com poucas modificações até os nossos dias. O edito do edil curul destinou-se a regulamentar as vendas de escravos e de gado. posteriormente. As primeiras normas sobre vícios redibitórios estão ligadas à atividade dos edis na polícia dos mercados romanos. o vendedor respondia pelos vícios não declarados por ocasião da venda.

e que a lei autorizava fossem enjeitados pelos compradores se. e devendo o interessado optar por uma delas. Apresentam as Ordenações certa falha de técnica. além da venda. à situação anterior à realização do negócio.indd 345 25/4/2011 15:19:03 . e a ação quanti minoris ou estimatória. na regulamentação dos vícios redibitórios. Direito Civil . e regulamentando como caso de vícios redibitórios as hipóteses de vendas de escravos. As Ordenações assinalam alguns exemplos de vícios ocultos. As Ordenações Filipinas trataram da matéria no Título XVII do Livro IV. produz plantas ou ervas peçonhentas. seus acessórios e frutos percebidos. fazendo referência ao livro no qual faltam páginas relevantes. sendo imprescindível que existam por ocasião da venda e que não sejam do conhecimento do adquirente. inicialmente. sem indústria dos homens. qualquer que fosse a natureza destes. ocorrendo uma verdadeira restitutio in integrum. distinguindo-se dos defeitos aparentes ou ostensivos. admitiu-se que fossem devolvidos apenas o preço e os juros. fixando prazos curtos para o seu exercício.Direito das Obrigacoes .dos vícios redibitórios 345 Na hipótese de vício redibitório. não tivessem tal habilidade ou profissão. o direito romano concedia ao adquirente duas ações: a ação redibitória. para rescindir o contrato de compra e venda. devendo. estendendo a aplicação da teoria dos vícios redibitórios a outros contratos comutativos. aquele que impede a utilização da coisa de acordo com a sua finalidade comum ou normal. dedicando diversos artigos aos vícios redibitórios na venda de escravos e de gado. aplicando a responsabilidade pelo vício da coisa a todos os bens. Já encontramos nas Ordenações os requisitos essenciais que ainda hoje caracterizam os vícios redibitórios. segundo as Ordenações. Em seguida. restituindo o adquirente a coisa. Vício redibitório é. Os romanistas assinalam o caráter penal que a ação teve nas suas origens. na realidade. como a troca. não podendo evidentemente acumulá-las. o vendedor devolver o dobro do preço que recebera. alienados pelos seus senhores como peritos em determinada arte.021-381. de tal modo que as partes voltassem ao statu quo ante. para obter a redução do preço. declarando as leis portuguesas que tais vícios devem ser ocultos. confundindo-os com a qualidade garantida. e ao pomar ou horta que.

O Código Civil brasileiro de 1916 limitava-se a fixar os princípios gerais. e do erro. está no título referente aos contratos em geral (Seção V do Capítulo I do Título V: “Dos contratos em geral”). Adquire-se.021-381. transcendido os seus limites para se impor em todos os contratos comutativos que objetivam a transferência de domínio sobre determinado objeto. por um lado. inclui-se a regulamentação dos vícios redibitórios no atual Código Civil. especificamente. pensando o comprador que se trata de uma coisa distinta. já adotada no Código de 1916. dispõe. a respeito dos prazos de garantia por vícios ocultos na venda de animais. que mereceram trinta e quatro artigos no BGB. em seu art. seguindo a sistemática desse tema. podendo. pois não há coincidência entre a vontade real do agente e a vontade por ele manifestada. por outro.indd 346 25/4/2011 15:19:03 . 2. 1. não tratando de modo específico dos vícios redibitórios nas vendas de gado.346 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS a dação em pagamento e outros em que ocorre transferência de domínio a título oneroso. estamos no campo do erro. em seguida. 462) e que se explica por motivos históricos. na ausência de lei especial sobre o tema. seguir os usos locais. Quando se realiza a aquisição de um bem determinado.º. nos quais define os casos de vícios redibitórios e os seus efeitos (arts. no entanto.484) e da Alemanha (art. técnica também adotada pelos Códigos Civis da França (art.641). O Código Civil de 2002. 445. g. aparente ou ostensivo. um objeto de metal Direito Civil . Atualmente. § 2. 1. Efetivamente. v.Direito das Obrigacoes . Regulamentação no direito civil brasileiro O vício redibitório distingue-se do defeito visível.. tendo. nem se referindo à venda de coisas em conjunto e aos vícios redibitórios nas obrigações de gênero. A legislação estrangeira tem sido mais generosa para com os vícios redibitórios. vício da vontade. a aplicação da teoria dos vícios redibitórios originou-se na compra e venda. da Espanha (art. Tanto as Ordenações como a Consolidação das Leis Civis e o Código Comercial tratavam dos vícios redibitórios no capítulo referente à compra e venda. O novo Código Civil dedicou ao assunto apenas seis artigos. 441 a 446).

No vício redibitório. quando a coisa em si. pois não é crível que o adquirente deva verificar a existência de todas as páginas do livro. lembra o professor lusitano. falha do objeto. de tecido etc.indd 347 25/4/2011 15:19:03 . decorrente do contrato. no 3 Exemplo: venda de aparelho com garantia de fábrica. o bem adquirido é exatamente aquele que se desejava.021-381. um vaso de cerâmica moderno quando pretendia adquirir um antigo incide em erro. Ocorre uma diferença de origem. mas é diferente do pedido. mas difere daquela que o comprador quisera adquirir. Comprou o livro que pretendia. sendo ostensivo e aparente. um cavalo abastardado em vez de um purosangue. de matéria-prima. garantida pela ação ex contractu. ou seja. Cunha Gonçalves faz muito claramente essa distinção ao dizer que há diferença de qualidade. sem vício. não é viciada nem defeituosa. salvo convenção em contrário das partes. de acordo com o tradicional princípio pacta sunt servanda3. que se encontra fora do estado normal. o objeto está perfeito. Quem compra uma cópia em vez de um quadro original. mas ocorre vício por não ser a obra completa. Enquanto a proteção contra o primeiro decorre da lei. sendo redibitório o vício. Nessas hipóteses. Também devemos distinguir o vício redibitório da qualidade garantida. Ao contrário. o vício já não pode ser oculto. O vício é desgaste. a segunda é especificação contratual. normal e ordinário.dos vícios redibitórios 347 dourado pensando que é de ouro. baseado no quod plerumque accidit. faltasse a capa da obra. Direito Civil . o que exclui o erro. o vício redibitório é uma imperfeição existente na feitura da obra ou na fabricação de mercadoria. estrago. embora tenha um defeito oculto não conhecido pelo comprador. A distinção entre erro e vício redibitório apresenta consequências relevantes de natureza processual especialmente em virtude dos prazos distintos que a lei concede para o exercício das diversas ações. ao contrário. intrinsecamente. Se. nem suscetível de verificação imediata.Direito das Obrigacoes . Enquanto o critério para a apuração do vício redibitório é o comum. erro. Quem compra um livro no qual faltam algumas páginas pode alegar a existência de vício redibitório. que é a pretendida pelo adquirente.

garantindo-as por determinado tempo no contrato. Problemas de direito positivo. mas apresenta alguma falha. alguma insuficiência não aparente no momento da aquisição e que o torna total ou parcialmente imprestável para atender a sua finalidade comum. 1953. o objeto é o pretendido. enquanto no segundo o juiz deve atender aos termos do contrato. não realizaria o negócio nas bases em que foi firmado”. a sua estabilidade. em seu art. algum defeito. Na hipótese do vício redibitório. o critério para apreciação da qualidade garantida é fixado pelo próprio contrato. assegurando a sua capacidade. A qualidade garantida não está sujeita ao prazo curto estabelecido para a ação redibitória. a possibilidade de atender a necessidades específicas constantes do contrato. quando o objeto adquirido não é o que o comprador pretendeu adquirir. Vemos que o critério não se afasta muito do existente para caracterização do erro essencial juridicamente relevante.021-381. 237 e s.indd 348 25/4/2011 15:19:03 .Direito das Obrigacoes . a produção ou o consumo do projeto. ocorre o erro. o alienante assume. atende-se à finalidade costumeira do objeto. é relevante voltar ao conceito fixado no Código Comercial de 1850. cria uma proteção contratual dessas qualidades garantidas. em que as partes puderam livremente fixar o rendimento. RF. se a circunstância fosse conhecida pelo adquirente. esclarecia: “o vício redibitório é aquele que torna o objeto impróprio ao seu uso normal. San Tiago Dantas. podendo ser exigida enquanto for suscetível de exercício a ação contratual. nos limites contratualmente estabelecidos. No primeiro caso.348 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS que sói acontecer. a responsabilidade pelo funcionamento de um objeto por certo tempo ou em certas condições. Direito Civil . 210. Para a definição de vício redibitório. independentemente de sua relação com as bases comuns de rentabilidade ou de produtividade. p. ou diminui-lhe o valor de tal modo que. Finalmente. se o vendedor assegura ao comprador que o objeto tem certas qualidades. 4 V. Em síntese. Na garantia da qualidade. que. obedecendo a um critério fixado no próprio acordo das partes4. passando a haver dolo quando tal falsa representação decorreu de manobras ou ardis por parte do vendedor ou de terceiro.

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Já o art. 441 do CC, com a mesma redação do art. 1.101 do Código de 1916, limita-se a fazer referência à impropriedade da coisa
ou à diminuição do seu valor, tendo a doutrina entendido que não
basta qualquer diminuição de valor, sendo necessário que, pela sua
natureza e importância, impedisse a realização do negócio, se fosse
do conhecimento do outro contratante. Deve-se observar, entretanto,
que o conhecimento é variável de acordo com o tipo de negócio e do
adquirente. Ao expert de determinado produto será mais fácil distinguir certos defeitos que este apresente do que para o homem de
médio conhecimento. Por outro lado, ao alienante cabe sempre agir
com boa-fé. Ao final, dependerá da avaliação do caso em espécie,
fruto do trabalho jurisprudencial.
A interpretação do uso normal deve ser feita atendendo aos
termos contratuais e, na falta de indicação clara destes, à praxe
existente.
Discute-se a possibilidade de enquadrar nos vícios redibitórios
certas situações jurídicas do bem, que, sem afetá-lo fisicamente,
importam em diminuição do seu valor. Assim, tem sido considerada
como caso de vício redibitório a venda de um imóvel condenado à
demolição pelas autoridades administrativas, sem comunicação desse fato pelo vendedor ao comprador. A existência de ônus reais não
constitui, para nós, vícios redibitórios, por tratar-se de vícios de direito, protegidos pelas normas referentes à evicção.
A não comunicação ao comprador do fato de estar alugado o
imóvel vendido não importa na existência de vício redibitório, por
ser questão de fácil verificação pelo adquirente. Na hipótese, todavia,
de constar do contrato que o imóvel não é alugado, quando está ocupado por locatário, caberá a ação contratual própria por se evidenciar
o vício da vontade do comprador que, pretendendo adquirir um imóvel desocupado, comprou um prédio alugado.
A classificação do vício como ostensivo ou oculto é questão de
apreciação relativamente subjetiva, variando com os magistrados e
dependendo das condições e circunstâncias peculiares a cada contrato, condicionando-se ainda às próprias pessoas que intervieram no
ato, podendo o vício, oculto para o leigo, ser ostensivo para um técnico ou especialista.

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Sendo o vício ostensivo, não há obrigação do vendedor de indicar a sua existência ao comprador. Sendo oculto, deverá mencioná-la
sob pena de rescisão do contrato e responsabilidade pelas perdas e
danos, se o alienante estiver de má-fé.
O vício redibitório é, pois, oculto, impedindo o uso normal da
coisa, ignorado pelo adquirente, e existente no momento da execução
do contrato e subsistente na época do exercício da ação própria.
Se o vício vier a surgir depois da execução do contrato, não pode
ser atribuída a responsabilidade ao vendedor, salvo se o comprador
puder provar que decorre de outro defeito já existente por ocasião do
contrato. Perecendo a coisa, em virtude de caso fortuito ou culpa do
comprador, este não pode acionar o vendedor. Se ao contrário o desaparecimento do objeto for consequência do vício, cabe o exercício
da ação (v. n. 3.1 deste Capítulo).
Algumas legislações, como a alemã, equiparam aos vícios redibitórios as diferenças de metragens em terrenos, matéria regulamentada pelo direito brasileiro no art. 500 do estatuto civil. Embora
possa, nessa hipótese, o adquirente optar entre exigir a área que falta,
reclamar a resolução do contrato ou pedir o abatimento do preço, a
jurisprudência entende que a analogia não implica, no caso, identidade, não se aplicando às diferenças de metragens as normas referentes aos vícios redibitórios, por haver, na primeira hipótese, uma
diferença meramente quantitativa.
Havendo venda de coisa principal e de acessórios, se a coisa
rejeitada por vício redibitório for a principal, seguem-lhe o destino
os acessórios; se, ao contrário, a coisa viciada for acessória, mantémse o negócio principal, esclarecendo o art. 503 que, na venda de
coisas em comum, a rejeição de uma delas por vícios não autoriza a
das outras.
A teoria da responsabilidade pelos vícios redibitórios aplica-se
atualmente a todos os contratos comutativos, ou seja, àqueles em que
há equivalência das prestações das partes, como também à doação
onerosa (art. 441 e parágrafo único). Assim sendo, as ações redibitórias e estimatórias podem ser utilizadas não só na compra e venda
como também na permuta, no contrato de sociedade, na parceria
rural, na dação em pagamento, na locação.

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Uma parte da doutrina estrangeira (Pothier, Aubry e Rau) e nacional (Carvalho de Mendonça) entende que a cláusula excludente
de responsabilidade por vícios redibitórios só é válida quando o alienante os desconhece, sendo nula na hipótese de ter conhecimento dos
defeitos e não comunicá-los ao adquirente. A matéria merece discussão e estudo, dependendo até mesmo, a nosso ver, do modo pelo qual
foi redigida a cláusula excludente de responsabilidade. Pensamos
que, no campo empresarial, as partes podem inverter o ônus dos
riscos sem que haja nisso qualquer violação de princípios morais, da
ordem pública e dos bons costumes.
Conforme o alienante saiba ou não da existência dos vícios, na
hipótese de não haver cláusula excludente da responsabilidade, esta
abrange as perdas e danos ou, ao contrário, importa apenas na devolução do preço e das despesas realizadas pelo adquirente, voltando
as partes ao status quo ante, à situação em que se encontrariam se o
negócio não tivesse sido realizado.
O art. 443 estabelece a diferença de tratamento do alienante na
hipótese de boa e de má-fé, determinando a rescisão simples no caso
de ignorância do vício, acrescida da responsabilidade pelas perdas e
danos na hipótese de conhecimento de defeito. Manteve-se, pois, a
tradição romanista com a punição do contratante de má-fé. No caso,
cabe ao adquirente provar, por todos os meios admitidos em direito,
que o alienante conhecia os vícios, pois a má-fé não se presume,
necessitando de prova, embora esta possa ser meramente indiciária.
As perdas e danos abrangem não apenas o damnum emergens
(dano emergente, perda real), ou seja, o que o adquirente efetivamente gastou em virtude da realização do negócio, mas incluem também
o lucrum cessans (lucro cessante, benefício não realizado), ou seja,
o que o adquirente teria lucrado se o objeto não sofresse do vício
oculto.
Ressalta-se que o Código Civil de 2002 não trouxe a exceção
prevista no art. 1.106 do Código de 1916, o qual previa que os bens
vendidos em hasta pública não estavam sujeitos às ações oriundas de
vícios redibitórios e ao abatimento no preço.
A renúncia à garantia pelos vícios redibitórios pode ser expressa,
mediante cláusula contratual ou aditamento ao contrato, ou tácita,

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quando o adquirente, não intentando as ações próprias, prefere realizar, por sua própria conta, as reformas ou consertos necessários para
corrigir os defeitos existentes.

3. Problemas processuais
Na hipótese de vício redibitório, o adquirente tem opção entre a
rescisão do contrato com devolução do preço (ação redibitória),
acrescido tão somente das despesas (sendo o alienante de boa-fé) ou
das despesas e perdas e danos (sendo o alienante de má-fé), e o pedido de abatimento do preço, mantida a vigência do contrato (ação
estimatória ou quanti minoris). São as ações edilícias.
A liberdade de optar é a mais ampla possível em nosso direito,
ao contrário do que acontece em outras legislações, que concedem
ao juiz o poder de transformar, conforme o caso, a ação redibitória
em estimatória, independentemente da vontade do autor.
Existindo o vício, na sua defesa, o réu pode alegar, nas ações
redibitória e estimatória, que:
a) o vício era ostensivo ou surgiu posteriormente à execução do
contrato;
b) o autor conhecia o defeito da coisa;
c) a pretensão está prescrita;
d) o contrato exclui a responsabilidade do réu por vícios redibitórios;
e) o réu renunciou ao exercício da ação, por ter realizado o pagamento após a verificação da existência do defeito.
Quanto ao último ponto, é preciso atender às condições das
partes no caso concreto. Assim, não consideramos que tenha havido
renúncia tácita à ação própria por parte de quem, diante da ameaça
de protesto de título, faz o pagamento deste, ressalvando os seus direitos. Se, ao contrário, o pagamento é feito espontaneamente, poderá implicar renúncia tácita.
Outro motivo que pode ser alegado pelo réu na ação redibitória
é a transformação do objeto vendido, pois o alienante não pode ser
compelido a receber coisa diversa da que entregou ao adquirente. A

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transformação substancial impede, pois, o exercício da ação redibitória, sem vedar, todavia, o recurso à estimatória.
Quando bens diferentes são vendidos conjuntamente, o defeito
de um deles não afeta a alienação dos outros, de acordo com o art.
503 do CC, devendo, todavia, referido dispositivo legal ser entendido
em termos, não se aplicando aos casos de acessórios ou de vendas
conexas em que ocorra um entrosamento tal entre as diversas operações que a venda tenha sido realizada em virtude da existência do
conjunto, perdendo este o seu valor com a falta de uma ou algumas
das suas peças, muitas vezes insubstituíveis (como num serviço de
chá ou de jantar). Em determinadas hipóteses, a única solução será a
rescisão total do negócio em virtude do vício de algumas das peças
alienadas.
De acordo com a legislação vigente e a doutrina dominante, o
autor pode escolher entre a ação redibitória e a estimatória, podendo
variar de ação até que uma delas seja julgada ou que a outra parte
tenha atendido às reivindicações feitas, de acordo com a doutrina
dominante. Entendemos, todavia, que isso não pode ocorrer dentro
do nosso atual sistema processual, em que, uma vez citado o réu, o
pedido só pode ser modificado com o consentimento deste, não podendo o autor desistir da ação sem o acordo expresso do réu.
3.1. Prazos do Código Civil
Os prazos para o exercício da ação redibitória e estimatória são
de decadência, não se suspendendo, nem sendo suscetíveis de interrupção, começando a correr a partir da entrega ou da tradição do
objeto ao adquirente5.

5
Em direito, ninguém é obrigado ao impossível (ad impossibilia nemo tenetur).
Assim, se o defeito só aparece após o prazo de quinze dias, como obrigar o adquirente a reclamar antes? Os tribunais, inclusive o Supremo Tribunal Federal, aplicam
o art. 5.º da Lei de Introdução, que manda atender aos fins sociais da lei e às exigências do bem comum. No RE 76.233 (RTJ, 68/222), relator o Min. Thompson Flores,
foi o que ocorreu. Era uma ação redibitória, movida cinquenta e um dias após recebido um semovente (um boi reprodutor) apresentando doença, que o tornava impróprio à destinação, cujo período de incubação pode estender-se a sessenta dias. Não

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O Código Civil de 2002 alterou o prazo decadencial para reclamar os vícios redibitórios ou requerer o abatimento do preço. No
novo regime, para obter a redibição ou pedir o abatimento do preço,
o adquirente tem o prazo de trinta dias, se a coisa for móvel, e de
um ano, se for imóvel, contado da entrega efetiva do bem. Quando
o adquirente já estiver na posse do bem, o prazo é reduzido à metade e inicia-se a sua contagem no momento da alienação (art. 445,
caput)6.
Por outro lado, o Código Civil seguiu uma corrente doutrinária que defende que o prazo deve correr a partir do momento da
verificação do vício. De fato, o seu art. 445, § 1.º, estabelece que,
quando o vício, por sua natureza, só puder ser conhecido mais
tarde, o prazo será contado da data da ciência da sua existência
até o máximo de cento e oitenta dias, para bens móveis, e de um
ano, para os imóveis. Por exemplo, na entrega de máquinas, o
prazo corre a partir do momento em que foram postas em funcionamento. Parece-nos um critério justo, porém subjetivo, tendente
a dificultar a aplicação da justiça e a segurança nas relações contratuais.

podia o adquirente saber, nos quinze dias após a entrega, se havia ou não a doença,
que se manifestou depois. Assim, o Supremo Tribunal entendeu correta a contagem
do prazo para a redibição, a partir do aparecimento da doença do animal, provada a
sua anterioridade. O acórdão recorrido, do Tribunal de Goiás, menciona doutrina e
outros julgados: RT, 134/548, 167/719, 178/581, 275/834; RTJ, 47/447; RF, 116/499;
RJ, 39/230. V. art. 445 e parágrafos do Código Civil.
Por outro lado, nos chamados casos de garantia de fábrica (automóveis, eletrodomésticos, aparelhos eletrônicos, máquinas etc.), o prazo fixado no contrato deve ser
somado ao fixado no Código, salvo disposição contratual em contrário, aplicando-se
também o critério da jurisprudência acima. Assim, o STF, no RE 86.848 (RTJ,
80/1003); RJTARJ, 18/180. Por outro lado, sendo possível descobrir o vício oculto
no prazo e não o fazendo o adquirente, sofre a decadência (RTJ, 97/387). V. art. 446
do Código Civil.
6
Com relação ao prazo, o Código Civil de 1916, em seu art. 178, §§ 2.º e 5.º, estabelecia o prazo de quinze dias, contados da tradição da coisa, para exercer as ações
redibitória e estimatória em relação aos móveis e o de seis meses para o exercício
das mesmas ações no tocante aos imóveis. Já o Código Comercial de 1850 fixava o
prazo de dez dias, com referência aos móveis.

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Em relação aos vícios ocultos nos negócios de compra e venda
de animais, o prazo de garantia deve ser especificado em lei especial,
ou, se esta não existir, considerar-se-ão os usos e costumes locais,
nos termos do art. 445, § 2.º. Esse dispositivo determina a aplicação
do prazo especificado no seu § 1.º — cento e oitenta dias para bens
móveis e um ano para bens imóveis, quando não houver lei específica nem regra consuetudinária —, mas consideramos que se equipara
aos móveis.
Ademais, quando houver cláusula de garantia, os prazos decadenciais especificados no Código não correm, devendo o adquirente,
entretanto, sob pena de decadência, denunciar o defeito até trinta dias
após o seu descumprimento (art. 446).
3.2. A proteção do consumidor
O Código de Proteção e Defesa do Consumidor (Lei n. 8.078/90),
nos arts. 18 a 25, regula a “Responsabilidade por vício do produto ou
do serviço”.
Antes mesmo da entrada em vigor do Código de Defesa do
Consumidor, a matéria já vinha sendo estudada e enfocada pela doutrina, bem como tendo acolhida na jurisprudência, em face da evolução da técnica. No entanto, seu estudo se fazia (e ainda cabe) no
âmbito da responsabilidade civil. Ocorre que na teoria dos vícios
redibitórios não se indagava da culpa, pois, ainda que ignore os defeitos, o alienante é obrigado objetivamente a aceitar a redibição ou
o abatimento do preço. Sucede que, com a complexidade da vida
moderna e o desenvolvimento industrial (máquinas, motores, produtos químicos, alimentícios, eletrônicos, software etc.), concluiu-se
ser necessária a proteção do consumidor, cada vez mais sujeito a
danos decorrentes de falhas do produtor, falhas estas não perceptíveis
no momento da aquisição do objeto. Por outro lado, se o vendedor
recebe o produto do fabricante, de modo a transmiti-lo diretamente
ao adquirente, inclusive estando a mercadoria embalada, sem que
possa ser devidamente examinada, deve ser exigida a garantia, que
passa a recair sobre o produtor ou fabricante.
Distingue-se, como se disse, a diferença de qualidade ou desconformidade do chamado defeito oculto. Nesse caso, com maior razão,

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Mais ainda: o art. no mesmo sentido.021-381. ensejando abusos. Sentiu-se. e o art. exonere ou atenue o dever de indenizar. se nada pode saber. que encontra correspondência no art. porém. na primeira parte do artigo. A redação inspirou-se no art. conforme o caso. 18. Os fornecedores de produtos de consumo duráveis ou não duráveis respondem solidariamente pelos vícios de qualidade ou quantidade que os tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor.. 51 torna nulas as chamadas cláusulas abusivas. a necessidade de editar lei mais moderna. não se admite a exoneração da responsabilidade ou da garantia mediante cláusula expressa (art. assim como por aqueles decorrentes da disparidade. Atribui-se a solidariedade ao fabricante (com o vendedor).356 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS não se pode isentar o alienante da garantia.Direito das Obrigacoes . até certo ponto. deve este responder. é que condiciona o atendimento à reclamação ao prazo de trinta dias (art. respeitadas as variações decorrentes de sua natureza.. confiando na informação do fabricante. pode o consumidor exigir. os nossos tribunais passaram a aplicar as regras da responsabilidade civil ou dos vícios redibitórios. o que se fez com o Código de Defesa do Consumidor.º): “Não sendo o vício sanado no prazo máximo de trinta dias. podendo o consumidor exigir a substituição das partes viciadas”. 28).”. Entretanto. temos a expressão “vícios de qualidade ou quantidade que os tornem impróprios ou inadequados ao consumo a que se destinam ou lhes diminuam o valor. 25 veda cláusula que impossibilite.. com as indicações constantes do recipiente. como se vê do art. Um pequeno reparo merece a lei: no afã de indicar prazo para atender ao consumidor. 441 do Código Civil de 2002.. § 1. 18. Assim.”. Tal como ocorreu no direito estrangeiro — a lacuna legal sobre a matéria —.indd 356 25/4/2011 15:19:04 . 1. 18. da embalagem. que tem a seguinte redação: “Art. e. 24 do CDC).101 do Código Civil de 1916. O sistema procura dar ampla garantia e adota expressamente outra forma de repelir abusos: a desconsideração da personalidade jurídica (art. que também deu maior abrangência à responsabilidade pelos vícios ocultos. faltou dizer como o consumidor prova a data da reclamação Direito Civil . Como se vê. rotulagem ou mensagem publicitária. a lei acabou favorecendo o vendedor e.

Pior ainda. aqueles em desacordo com as normas regulamentares de fabricação. mesmo que se prove. perigosos ou.º do art. III — os produtos que.dos vícios redibitórios 357 (os comerciantes não assinam recibos. Segundo. se revelem inadequados ao fim a que se destinam”.021-381. 18 permite que se reduza ou amplie tal prazo. fraudados. cabe observar que a lei do consumidor especificou o que se entende por “impróprios ao uso e consumo: I — os produtos cujos prazos de validade estejam vencidos. Direito Civil . por qualquer motivo. mantida a vigência das normas do Código Civil nos demais casos. se o defeito for tal que impeça o uso da coisa imediatamente. distribuição ou apresentação. II — os produtos deteriorados. avariados. A desculpa de que o produto é vendido com garantia e que cabe tentar sanar o defeito acarreta o prejuízo de. Evidente que. trinta dias para o consumidor.Direito das Obrigacoes . por que obrigar o adquirente a esperar sete dias? Ou. não aceitando o vendedor a redução (como deverá ocorrer). 3. não se deveria aguardar prazo algum para substituí-la. ou para restituir o preço. nessa matéria. o § 2. como nas demais. alterados. finalmente. salientar que as normas do Código de Defesa do Consumidor. ainda. Prazos de decadência e prescrição no Código de Defesa do Consumidor O Código de Defesa do Consumidor faz distinção entre vícios aparentes ou de fácil constatação e os vícios ocultos. recusam-se a atender os pedidos e agora podem prevalecer-se do prazo de trinta dias. salvo casos excepcionais. nocivos à vida ou à saúde. corrompidos.3. 19 estende a responsabilidade pelo vício de quantidade do produto. só se aplicam aos “contratos de consumo”. por que obrigar o consumidor a esperar trinta dias para poder exigir o que lhe cabe? No entanto. O art. falsificados. e recusam-se a aceitar reclamação escrita). Cabe. Ora. adulterados. no mínimo. Parece-nos deva ser alterado tal prazo. dizendo que não pode ser inferior a sete nem superior a cento e oitenta dias. se o vendedor quiser trocar a mercadoria defeituosa imediatamente.indd 357 25/4/2011 15:19:04 . nem duplicatas para aceite.

A lei diz: “Art. 26 da Lei n. pedir providências legais. para o vício oculto.078/90). até seu encerramento. b) pela instauração de inquérito civil. Assim.indd 358 25/4/2011 15:19:04 . não é possível saber. e ninguém vai reclamar antes do aparecimento. Os defeitos de fabricação só aparecem com o uso da coisa. Mas.”. porque seus elementos eram de papel ou cartolina.358 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Para os vícios aparentes ou facilmente verificáveis. o prazo começa da entrega efetiva ou do término dos serviços.. Pelo § 1. Se for serviço ou produto não durável (por exemplo. Já se for prazo para reparação de danos do produto ou do serviço (p.Direito das Obrigacoes . o prazo será acrescido de quinze dias. mercadoria alimentícia). o prazo para reclamar é de decadência. sendo de prescrição. o caso do sapato que foi utilizado alguns dias após a compra. Mas se o consumidor tiver uma carta do fornecedor dizendo que atenderá em quinze dias (o que dificilmente ocorrerá). em que a adquirente foi surpreendida por chuva e os sapatos descolaram e não puderam ser consertados. se ficou aguardando resposta. § 3. o prazo é de trinta dias.º. com a entrega. Se for serviço ou produto durável. no prazo legal (30 ou 90 dias.. Mas a decadência não se verifica (diz o texto que é obstada): a) pela reclamação comprovada até resposta negativa e inequívoca. se se cuida de vício oculto.: queimadura decorrente de mau funcionamento. o prazo é de cinco anos. conforme as coisas sejam não duráveis ou duráveis). como o fornecedor jamais diz que não vai atender (ou seja. Realmente. não há decadência. não há resposta inequívoca). o prazo é de noventa dias (art. convém. 8. ex. Prescreve em cinco anos a pretensão à reparação pelos danos causados por fato do produto ou do serviço. 27. apesar do entendimento clássico de que não se suspendem ou interrompem. Na moderna teoria é possível sustar ou impedir o curso de tais prazos. se existe.º). Se a pessoa reclama no prazo e prova que o fez.021-381. o prazo decadencial só se inicia no momento em que ficar evidenciado o defeito (art. Direito Civil . 26. Mas. Claro que o prazo só começou com o vício manifestado. se o caso comporta. desastre de carro por defeito de peças essenciais). Nada a estranhar quanto às causas que impedem a decadência.

Mas não pode ser automático. pois depende de ser alegado pela parte. O Código Civil de 2002 dispõe. O Código Civil de 1916 limitou-se a fixar os princípios gerais dos vícios redibitórios. Conceito e histórico Vício redibitório é o defeito oculto que desvaloriza ou torna a coisa imprópria ao uso e dá ensejo à rescisão contratual. o juiz não pode aplicar de ofício o prazo prescricional. SÍNTESE 16 — DOS VÍCIOS REDIBITÓRIOS 1. 445. começa com o dano.O atual Código Civil contempla a matéria nos arts. especificamente.021-381. nas doações onerosas. 441 a 446 e aplica a teoria da to civil brasileiro responsabilidade pelos vícios redibitórios a todos os contratos comutativos. Regulamentação no direi.Direito das Obrigacoes . b) abatimento do preço. 443 a tradição romanista com a punição do contratante de má-fé. até mesmo na venda de animais (art. Problemas processuais Direito Civil . a respeito dos prazos de garantia por vícios ocultos. § 2.dos vícios redibitórios 359 Tal prazo. O vício redibitório tem suas fontes no direito romano que o revestia de caráter penal e exigia do devedor a devolução em dobro do preço que recebera. 3. 25/4/2011 15:19:04 .º). Manteve-se no art. Na hipótese de vício redibitório o adquirente tem opção entre: a) rescisão do contrato com devolução do preço (ação redibitória). é claro. 2. Ao contrário da decadência. mantida a vigência do contrato (ação estimatória ou quanti minoris). e aos bens vendidos em hasta pública.indd 359 Ações edilícias.

18 a 25. Prazos de decadência e prescrição no Código de Defesa do Consumidor O Código de Defesa do Consumidor faz distinção entre vícios aparentes ou de fácil constatação e vícios ocultos.078/90).Direito das Obrigacoes .021-381. § 1. 8. não se suspendem nem se interrompem e começam a correr a partir da tradição do objeto.1. Para os vícios aparentes. A proteção do consumidor O Código de Defesa do Consumidor (Lei n. Para os vícios ocultos o prazo decadencial só inicia no momento em que ficar evidenciado o defeito.360 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 3. Prazos do Código Civil Os prazos para o exercício das ações edilícias são decadenciais. De acordo com o art.3. o prazo máximo para a reclamação é de trinta dias.2. Prazos: trinta dias para coisas móveis e um ano para bens imóveis. Direito Civil . nos arts. o prazo para reclamar é decadencial. 18. 3.º. Para os danos causados por fato do produto a pretensão à reparação é de cinco anos de acordo com o art. regula a “Responsabilidade por vício do produto ou do serviço”.indd 360 25/4/2011 15:19:04 . 27 do CDC. 3. e o prazo é de noventa dias para serviços ou produtos duráveis.

reconhecendo que o alienante não era titular legítimo do direito que transferiu. sendo o adquirente réu na ação intentada por terceiro. pois. pelo adquirente. se alguém vende um imóvel a outrem e o adquirente. a possibilidade de decorrer a evicção de um processo em que o adquirente. Classificação. em virtude de sentença judicial. Discute-se se a evicção ocorre somente quando o adquirente é réu no processo ou se também é possível que ocorra sendo o adqui­ rente autor na ação. Jurisprudência. 1. em vez de ser réu. Responsabilidade pela evicção. Dentro do sistema do Código Civil pode parecer que somente se tenha cogitado da evicção. ao tomar posse dele. Conceito. 3. em virtude de sentença judicial. Caracteriza. se vê surpreendido por uma ação de terceiro que comprova ser este — e não o alienante — o legítimo proprietário do imóvel adquirido.1. na qual se declara que o alienante não tinha qualidade para realizar a alienação. a evicção a perda da posse ou da propriedade de um bem. Assim. tenha a qualidade de autor.Capítulo 17 DA EVICÇÃO Sumário: 1. Geralmente a evicção decorre de processo em que o adquirente figura como réu. 2. O Código de Processo Civil de Direito Civil .indd 361 25/4/2011 15:19:04 . o adquirente se apresenta na causa como réu.021-381. Discutiu-se. todavia. Conceito A evicção é o fato em virtude do qual o adquirente perde a posse ou a propriedade de determinado objeto. que as atribui a terceiro. 3.Direito das Obrigacoes .

aos posseiros. contra os quais intenta uma ação de reintegração de posse ou de reivindicação. quer seja o adquirente autor. O alienante é o responsável pelos prejuízos decorrentes da evicção. ou seja. um direito alheio. embora estes tenham de pedir. A evictio significa a perda da ação em juízo. o juiz julgará improcedente a ação. depois de feita a escritura e de transcrevê-la no Registro de Imóveis. cujo domínio foi transferido à parte. pois transmitiu um direito inexistente ou viciado. tratando-se de venda por mancipação. o preço recebido.021-381. no caso de evicção.indd 362 25/4/2011 15:19:04 . princípio não muito diferente daquele existente no direito romano no tocante aos 1 O art. sendo assim admissível a evicção tanto num caso como no outro. Se na referida ação os posseiros alegarem e provarem a posse mansa e pacífica da gleba por mais de quinze anos sucessivos (art. 1. O terceiro que realiza a evicção é o evictor. o alienante pagasse ao adquirente. quer seja réu no processo. em dobro. perdendo o direito que acreditava ter legitimamente adquirido. já o Código de Processo Civil vigente obriga a denunciar a lide “ao alienante. ou seja. surgiram diversas estipulações para garantir os direitos do comprador (stipulatio dupla). determinando que. 71 admite que a denúncia possa ser feita tanto pelo autor como pelo réu. Para os casos de venda sem mancipação. Nessa hipótese. a evicção se apresenta num processo em que o adquirente funcionou como autor. I)1. ressaltando que o Código de 1916 estabelecia o prazo de vinte anos em seu art. percebe que as terras são ocupadas por posseiros. pois sofre a evicção. Ocorre que o adquirente compra uma gleba de terra e. A responsabilidade pela evicção surgiu no direito romano em relação à compra e venda com a actio auctoritatis. em virtude de usucapião. a fim de que esta possa exercer o direito que da evicção lhe resulta” (art. na ação em que terceiro reivindica a coisa. a vitória judicial do terceiro contra o adquirente.238 do CC. o seu título declaratório. 70.362 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 1939 regulava a hipótese no art. 95.Direito das Obrigacoes . por ação própria. considerando que a propriedade da gleba pertence. 550). Direito Civil . O adquirente é o evicto. titular legítimo do direito.

o título em si é perfeito. O Código Civil regulamenta a responsabilidade pela evicção nos arts. aos contratos comutativos e no caso de evicção aos contratos onerosos. 447 a 457. o que se explica pelo paralelismo existente entre os dois institutos. que o torna caduco. Algumas vezes. 70 a 76. não ocorre a evicção. sem nenhuma espécie de irregularidade. O Código Civil. Não se entende por que o legislador brasileiro se referiu. Ao estabelecer a nova disciplina. em ambas as hipóteses. em virtude da qual o adquirente perdeu o uso.Direito das Obrigacoes . não sendo viciado. Sendo o título do alienante perfeito. o legislador brasileiro manteve a denominação diversa para os casos de vícios redibitórios e para as hipóteses de evicção. 3) haja sentença. sem contraprestação do outro. fazendo Direito Civil .da evicção 363 vícios redibitórios. porque. não seria possível que a justiça reconhecesse um direito de terceiro contrário ao direito do alienante e excludente dele. nos casos de vícios redibitórios. quando. O próprio fato de haver evicção prova não ser o direito do alienante perfeito e indiscutível. a posse ou o domínio da coisa alienada. Tal garantia deixa de ter justificativa quando se trata de atos de mera liberalidade. se aplica uma garantia geral decorrente da bilateralidade dos contratos que criam obrigações para ambas as partes. Desde que haja a equivalência das prestações que cabem a ambas as partes contratantes. seguindo o já disposto no Código revogado. praticados por um dos contratantes. 2) seja o vício anterior à alienação. mas na realidade existe uma defesa ou exceção de terceiro. Para que haja evicção é preciso que: 1) em contrato oneroso exista um vício no direito do alienante transferido ao adquirente. não se admitindo então a aplicação dos princípios referentes aos vícios redibitórios e à evicção. na parte dos contratos em geral. deve subsistir a garantia tanto contra os vícios redibitórios como em relação à evicção.indd 363 25/4/2011 15:19:04 . e o Código de Processo Civil trata da matéria nos arts. admite a responsabilidade pela evicção nos contratos onerosos.021-381. Em primeiro lugar é preciso que haja vício no título do alienante. transitada em julgado.

71). se lhe for posterior. Direito Civil . é necessário que haja uma sentença judicial determinando a evicção. ela é parcial. ou seja. 456) e o Código de Processo Civil cuida do assunto na seção da “denunciação da lide” (arts. o Código Civil trouxe uma regra de natureza processual ao permitir. O problema da evicção nos apresenta na realidade duas espécies de relações jurídicas: a de alienação (relação alienante-adquirente) e a da evicção propriamente dita (relação evictor-adquirente). o momento real da alienação. quando o denunciante for o réu (pode ser feita também pelo autor.Direito das Obrigacoes . não mais será problema do alienante. porque. O momento da transferência dos riscos é. em virtude do decurso do tempo.364 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS com que. Quando o objeto da evicção se identifica completamente com o da alienação. ao contrário. para os vícios redibitórios. Somente após a ação do evictor contra o adquirente é que este pode agir contra o alienante. Classificação A evicção pode ser total ou parcial. a evicção só recai sobre uma parte do objeto da alienação. pois antes não existia o pressuposto necessário para a ação do adquirente contra o alienante. 2. por exemplo. o da transferência da posse ou da propriedade. ou seja. 456. ocorreu usucapião em favor de terceiros. mas sim do adquirente. Sobre essa matéria.021-381. Para o exercício do direito. porque. o Código Civil remete à lei processual (art. o direito não mais seja atual. e.indd 364 25/4/2011 15:19:04 . para a evicção. embora formalmente perfeito o título. quando. 70 a 76). extinguindo-se o direito de propriedade do alienante. o da efetiva tradição da coisa. É preciso também que o vício de direito seja anterior à alienação. a evicção é total. O Código de Processo diz que a denunciação da lide é obrigatória e deve ser feita no prazo da contestação. a perda do direito do adquirente em benefício do evictor. que o adquirente deixe de oferecer contestação ou se valha de recursos. no parágrafo único do art. Finalmente. que pedirá a citação do denunciado juntamente com a do réu — art. quando a evicção for manifesta e o alienante não atender à denunciação da lide.

As garantias do adquirente podem ser reforçadas mediante uma caução ou fiança ou mesmo por garantia hipotecária.da evicção 365 Se o alienante vendeu um automóvel ao comprador e um terceiro reivindica o objeto da venda.indd 365 25/4/2011 15:19:04 . 3. com um patrimônio de terceiro ou com certos bens específicos pertencentes ao alienante. Ademais. Se o alienante vende ao adquirente um imóvel livre e desembaraçado e posteriormente um terceiro se apresenta como credor hipotecário. A lei dá assim maior liberdade às partes para a ampliação da garantia legal no caso de evicção. a fim de assegurar. recaindo sobre o valor do imóvel alienado. diminuir ou excluir a responsabilidade decorrente da lei (art. Após a venda de um conjunto de bens (um rebanho ou uma biblioteca) ou de coisas principais e acessórias (um automóvel com um rádio). devendo os contratantes fixar as garantias suplementares no instrumento em que estabelecem as condições do negócio jurídico ou em ato posterior. mediante cláusula contratual. 448). reforçar.021-381. Transferiu-se um direito de propriedade livre e desembaraçada. 447).Direito das Obrigacoes . por haver identificação entre os objetos da alienação e da evicção. podendo as partes. e a evicção se refere a um crédito com garantia hipotecária. essa garantia subsiste mesmo em casos de aquisição em hasta pública (art. embora não se identifique o objeto da alienação com o da evicção. pode a evicção recair sobre uma das unidades componentes da coisa coletiva (uma das cabeças de gado ou um dos livros) ou sobre um bem acessório (o rádio do automóvel). A nossa legislação fixa nessa matéria determinados princípios a fim de conciliar a boa-fé das partes com a segurança contratual. o pagamento da indenização devida na hipótese de evicção. exigindo o pagamento do débito sob pena de execução do prédio. Também ocorre a evicção parcial quando ela se realiza em virtude de um direito diferente do que foi alienado. ocorre uma evicção parcial por haver vício jurídico. A evicção parcial apresenta-se sob formas diversas. Responsabilidade pela evicção A garantia do alienante pelos prejuízos decorrentes da evicção existe nos contratos onerosos. não Direito Civil . a evicção é evidentemente total.

que não comunicou ao comprador a existência do defeito de direito.ª) O adquirente não exclui a responsabilidade pela evicção e ignora o vício do direito. mas não assume.indd 366 25/4/2011 15:19:04 . mas não sabe da existência de ação de terceiro ou do vício do direito.ª) O adquirente sabe da litigiosidade da coisa e exclui a responsabilidade do alienante na hipótese de evicção. 4. mas não exclui a responsabilidade do alienante no caso de evicção. excluindo-se validamente qualquer responsabilidade do alienante. Efetivamente. todavia. 3.021-381. pela clareza o disposto no art. o adquirente conhece o defeito de direito e exclui. a garantia pela evicção por parte do alienante. pois tem ciência do vício. se esta se der. com redação semelhante ao art. mas se revela má-fé do alienante. É direito das partes comprar e vender coisas litigiosas. No segundo caso. A convenção foi realizada em pleno conhecimento de causa. dele informado. Nesse caso. mas não exclui a garantia do alienante pela evicção. voluntária e explicitamente. tem direito o evicto a receber o preço que pagou pela coisa evicta. estabelece o referido artigo que.366 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS primando. Prevê assim o Código vigente quatro hipóteses distintas. não podendo pedir perdas e danos. 449 do CC de 2002. o adquirente não conhece o vício. o adquirente conhece o vício do direito. Ocorre uma transferência de riscos aceita pelo adquirente.ª) O adquirente sabe da litigiosidade da coisa.Direito das Obrigacoes . se não soube do risco da evicção. Na primeira hipótese. 1. que são as seguintes: 1. o não assumiu”. No terceiro caso. vitorioso o evictor.108 do CC de 1916. É a hipótese em que o adquirente conhece o risco. 2. vencendo o evictor o processo contra o adquirente. mas exclui a responsabilidade do alienante pela evicção. este só pode exigir do alienante a de- Direito Civil . cabe ao adquirente o direito de exigir a devolução do preço que foi pago. O Código considera que. na hipótese.ª) O adquirente exclui a responsabilidade pela evicção. assumindo o comprador o risco decorrente da litigiosidade. “Não obstante a cláusula que exclui a garantia contra a evicção. ou.

nesta última hipótese. que correspondem ao prejuízo presumido. indenização dos frutos restituídos e das benfeitorias úteis ou necessárias realizadas e prejuízos decorrentes da desvalorização monetária. Na interpretação do art. pois seria uma acumulação indevida em que o credor receberia duas vezes a mesma indenização. Tratando-se de indenização considerada pela jurisprudência como dívida de valor. despesas.109 do Código de 1916. além da indenização do prejuízo real provado. em nosso entender. para nós. de modo que o adquirente evicto deve escolher entre exigir o pagamento do prejuízo real que teve e a aplicação do art. 450 do Código Civil de 2002. 450. não podendo. alguns pretendiam incluí-los com base no disposto no art. a indenização real acrescida da indenização presumida. Assim. quando o adquirente não sabe do defeito e não exclui a responsabilidade pela evicção por parte do alienante. 1. este responde amplamente. e 455 do CC). pois tal é a tese adotada pelo legislador em matéria de evicção parcial. não cabendo perdas e danos em virtude da convenção existente entre as partes. 1. que considera devidos mesmo que não haja alegação de prejuízo. O Código Civil não determina de modo expresso a indenização. A interpretação sistemática leva o hermeneuta a abranger o lucro cessante no prejuízo ressarcível.Direito das Obrigacoes .064. 1. devendo o princípio ser o mesmo no tocante à evicção total (sobre a evicção parcial. a correção monetária se impõe para que haja o restabelecimento do statu quo anterior. v. Finalmente. 407 do Código de 2002. parágrafo único. Entendemos que a lei fixa uma presunção de prejuízo no caso de dívida em dinheiro. ou seja. devendo devolver o preço acrescido das perdas e danos. que corresponde ao atual art. todavia. pleitear. arts.indd 367 25/4/2011 15:19:05 . com redação semelhante ao art. Quanto aos juros.da evicção 367 volução do preço pago. Pro- Direito Civil . o lucro cessante. abrangendo custas.064 do Código de 1916. o pagamento dos juros. do aumento do preço do bem em relação ao qual se realizou a evicção e.021-381. do lucro cessante. discutia-se também se a indenização devia ou não abranger os juros de mora e os honorários de advogado. só cabe exigir o pagamento dos juros quando a parte não puder ou não quiser provar o prejuízo real. e cabe ao intérprete verificar se na expressão prejuízo devemos ou não englobar o lucro cessante do adquirente.

as quantias recebidas serão descontadas da indenização que o adquirente deve receber do alienante. 407 do Código de 2002. Por esse motivo divergimos dos termos em que o problema está colocado pela doutrina. atendendo ao princípio da sucumbência. Assim sendo. Na hipótese. Direito Civil .Direito das Obrigacoes . O bem que sofreu a evicção pode ter sido deteriorado pelo adquirente culposamente ou em virtude de força maior. no seguinte sentido: “Perdida a propriedade do bem. que procedeu à inclusão ao direito do evicto ao recebimento dos honorários do advogado por ele constituído. Não se deve indagar do cabimento ou não da inclusão dos juros de mora nos casos de evicção. para indenizar a vítima pelo não ressarcimento imediato dos seus prejuízos. Sobre o valor da indenização pela evicção. pois senão receberia uma indenização superior ao prejuízo sofrido (art.ª Turma do Superior Tribunal de Justiça.064. no art.indd 368 25/4/2011 15:19:05 . que determina. 452). Rel. a questão foi objeto de disposição do inciso III do art. 1. Se o prejuízo real não puder ser provado. não se admite a acumulação da indenização do prejuízo real com os juros de mora. daí devem ser considerados os juros como compensatórios do prejuízo presumido. demolindo-a e vendendo o material de construção) e não pagou uma indenização por elas ao evictor. Não constitui reparação completa a simples devolução do que foi pago. ainda que com correção monetária” (DJ. o evicto há de ser indenizado com importância que lhe propicie adquirir outro equivalente. a condenação do vencido ao pagamento dos honorários do advogado do vencedor. 1. 450 do CC de 2002 (art. Quanto aos honorários de advogado. devidos a partir da data da avaliação. Eduardo Ribeiro.368 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS vado este. referidos no art.021-381. 19-6-2000). o seu pagamento pelo alienante é questão regulada pelo direito processual. atual art.109 do Código de 1916). Se o adquirente tiver auferido vantagem das deteriorações (comprou um terreno com uma casa. Min. todavia. no REsp 248. vale citar decisão da 3. 20. 450. Com o advento do Código Civil de 2002. há sempre a indenização dos prejuízos determinada pelo art. deve o alienante responder pelo pagamento dos honorá­ rios do advogado do adquirente. Os juros serão.423-MG. acrescentando-se-lhe a correção monetária.

haveria um enriquecimento sem causa. em seguida. Direito Civil . Se as benfeitorias existentes foram realizadas pelo alienante e indenizadas pelo evictor.indd 369 25/4/2011 15:19:05 . Se o evictor não indenizar as benfeitorias úteis e necessárias. Se preferir a rescisão do contrato. Se o valor a ser restituído não for considerável. É o chamamento à autoria. deve chamar ao processo o alienante imediato. caberá somente indenização. compensando assim os prejuízos decorrentes da evicção parcial. tendo. ou qualquer dos anteriores. Sendo.Direito das Obrigacoes . 456 do CC e nos arts. pagará o débito hipotecário. por exemplo. previsto no art. exigindo do alienante a devolução do que pagou ao credor com juros e correção.021-381. todavia. pedindo um abatimento do preço. pode o adquirente escolher entre rescindir a compra e venda ou mantê-la. o adquirente pode optar entre a rescisão do negócio com a exigência das perdas e danos e a manutenção do contrato. estar ele hipotecado. verificando-se a desvalorização sofrida em virtude da evicção parcial. com base na teoria do enriquecimento sem causa. Sendo a evicção parcial. o alienante será obrigado a ressarcir o seu valor. caso contrário. dando-lhe até o direito de retenção. Preferindo o adquirente pedir o abatimento do preço.da evicção 369 Se o adquirente realizou benfeitorias úteis ou necessárias. um imóvel vendido como livre e desembaraçado e verificando-se. porque. 70 a 76 do CPC. O adquirente. para que faça a defesa do seu direito juntamente com o adquirente. Se decidir continuar com o imóvel. seu valor é descontado da indenização que o adquirente pode exigir do alienante. a lei lhe assegura a faculdade de exigir indenização do evictor por estas. 455 do CC. o cálculo será feito atendendo-se ao valor do bem no momento da evicção e não por ocasião da compra e venda. E que visa assegurar ao alienante uma ampla defesa e é condição necessária e imprescindível para a posterior ação regressiva do adquirente contra o alienante. com a restituição de parte do preço. ação regressiva contra o evictor. exigirá do alienante a devolução do preço e perdas e danos. nos termos da parte final acrescida no art. no momento em que sofre a ação por parte do evictor. mas considerável. A simetria lembra o dilema oferecido no caso de vícios redibitórios entre a ação redibitória propriamente dita e a ação estimatória.

449). do antigo Código). em impossibilidade de obter posteriormente o ressarcimento do prejuízo causado. Rel.indd 370 25/4/2011 15:19:05 . 456. Hipótese em que. Isso quer dizer que a falta de chamamento à autoria do alienante. que o adquirente deixe de oferecer contestação ou de se valer de recursos. na atual terminologia processual. também desaparece a responsabilidade do alienante.370 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS Ademais. Evidentemente. Tais interpretações devem ser aceitas com Direito Civil . Ari Pargendler. tinha o dever de colaborar com as autoridades. para o adquirente. RSTJ. 7-2-2000.ª Turma do Superior Tribunal de Justiça.117. Na vigência do Código Civil de 1916 não ocorria a responsabilidade pela evicção quando o adquirente fosse privado da coisa em virtude de caso fortuito. tratando-se de veículo roubado. de denunciação da lide. necessariamente.496/SP. o Código Civil permite. o adquirente de boa-fé não estava obrigado a resistir à autoridade policial. roubo ou furto (art. ou seja. Se o evicto sabe da litigiosidade da coisa e assumiu o risco decorrente. No REsp 69. por fugirem completamente aos pressupostos da garantia pela evicção. se existir a evicção manifesta e o alienante não atendeu à denunciação da lide.021-381. Alguns autores afirmam que não cabe a responsabilidade pela evicção no caso de desapropriação ou de apreensão do bem pela autoridade administrativa. Embora haja algumas divergências doutrinárias. 130/233). uma interpretação literal da lei exige a intervenção do alienante no processo de evicção como pressuposto para que posteriormente seja intentada a ação do adquirente contra o alienante. a perda da coisa por sentença judicial. em virtude da convenção das partes (art. tais hipóteses se referem a fatos posteriores à alienação.Direito das Obrigacoes . devolvendo o produto do crime” (DJ. O atual Código Civil retirou tal disposição. sem qualquer vinculação com o alienante. 1. I. A garantia pela evicção obriga as partes e os seus sucessores. importa. a 3. no parágrafo único do art. diante da evidência do ato criminoso. Min. força maior. Ressalta-se que a evicção nem sempre resulta da perda do bem em decorrência de decisão judicial. A lei nem precisava mencionar tais casos excludentes. assim decidiu: “O direito de demandar pela evicção não supõe.

12/29. Este o teor da ementa. publicado na RJTJSP. ocorre a desapropriação ou a apreensão administrativa. pois havia fraude no pagamento do preço.1. por fim. Idem. havendo no caso responsabilidade dos vendedores pela evicção. Esse acórdão menciona outro julgado. embora com outros enfoques. 413/162.da evicção 371 restrições.indd 371 25/4/2011 15:19:05 . mesmo se a desapropriação só se efetivou posteriormente à alienação. em se cuidando de imóveis.Direito das Obrigacoes . Jurisprudência Interessante julgado encontra-se na RT. no entanto. Basta que o adquirente fique privado por ato inequívoco de qualquer autoridade”. cuja ementa é a seguinte: “A jurisprudência mais recente não subordina a evicção à prévia existência de uma sentença judicial decretando o desapossamento da coisa. mas foi apreendido pela polícia. se. entendemos que se trata de um vício de direito pelo qual deve responder o alienante.185). que importará em responsabilidade do alienante se o vício de direito for anterior à alienação. nenhuma responsabilidade cabe ao alienante. Também o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro assim já entendeu (ver Ementário n. 448/96. como tem acontecido com as apreensões pelas autoridades alfandegárias de automóveis que entraram ilegalmente no País. observar que a indenização é dívida de valor. 3. É a aplicação do princípio res perit domino. 444/80. a regra é a sentença judicial. O mesmo princípio podemos aplicar à apreensão administrativa. todavia. salvo cláusula explícita em sentido contrário. embora já houvesse decreto determinando a sua desapropriação. em negócio anterior (com um antecessor do vendedor). Se. o bem foi vendido como sendo livre e desembaraçado. caso semelhante foi publicado na RT. Cabe. 1988. na RT. Aliás. Direito Civil . Tratava-se de um carro que foi adquirido legalmente. Ressalte-se. 7. ementa 10.021-381. no mesmo sentido. por motivos supervenientes à alienação. que. impondo-se a correção monetária e o ressarcimento com valor atualizado do bem que for perdido. Evidentemente que.

Classificação A evicção pode ser total ou parcial. 448 do CC. 3. quando. podendo as partes. 70 a 76. a evicção só recai sobre uma parte do objeto da alienação. A fundamentação legal é dada pelo Código Civil nos arts. diminuir ou excluir a responsabilidade decorrente da lei. a evicção é total. Basta que o adquirente fique privado por ato inequívoco de qualquer autoridade. ao contrário. reforçar. que as atribui a terceiro. reconhecendo que o alienante não era titular legítimo do direito que transferiu. 2.indd 372 Recente julgado encontrado na RT.Direito das Obrigacoes . Responsabilidade pela A garantia do alienante pelos prejuízos decorrentes da evicção está implícita nos evicção contratos onerosos. 444/80. em virtude de sentença judicial. Conceito A evicção é o fato em virtude do qual o adquirente perde a posse ou a propriedade de determinado objeto.1. A garantia pela evicção obriga as partes e os sucessores. ela é parcial. mediante cláusula contratual.021-381.372 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS SÍNTESE 17 — DA EVICÇÃO 1. 447 a 457 e no Código de Processo Civil nos arts. Jurisprudência Direito Civil . não subordina a evicção de bens móveis à prévia existência de uma sentença judicial decretando o desapossamento da coisa. 3. 25/4/2011 15:19:05 . conforme disposição do art. Quando o objeto da evicção se identifica completamente com o da alienação.

embora tenha concordado com a cessão. Assim. INEFICÁCIA E EXTINÇÃO DOS CONTRATOS Sumário: 1. Direito Civil . 3. que mudam prazos ou valores. 1. 4. Alteração É a modificação de um contrato concluído e vigente. como a Lei do Inquilinato. 5. o que explica como o outro contratante pode opor ao cessionário as exceções oriundas do contrato. Alteração.: renovação de um contrato de locação ao fim do prazo). em benefício do inquilino.indd 373 25/4/2011 15:19:05 .021-381. altera o contrato. se o juiz altera o contrato por onerosidade excessiva (imprevisão). O magistrado também pode reduzir a doação que exceda à parte disponível. porque implica modificar um dos sujeitos da relação contratual.Capítulo 18 ALTERAÇÃO. da lei (dirigismo contratual) e de ato judicial (revisão). Vemos assim que a alteração pode decorrer de acordo das partes. por imprevisão. Ineficácia em sentido amplo. o juiz pode adaptar o contrato à realidade. se a lei prorroga as locações de prazo fixo. que impõe a prorrogação por tempo indeterminado dos contratos com prazo fixo nas locações residenciais.Direito das Obrigacoes . Ineficácia em sentido estrito. Extinção dos contratos. 2. porém. ocorre alteração. porque aí o contrato termina e é substituído pelo novo. Pode o legislador interferir nos contratos. Nos casos de onerosidade excessiva. Como a substituição se dá no contrato (e não na relação seguinte). A simples renovação não implica alterar (ex. Ineficácia. Já vimos que as partes podem alterar as cláusulas do contrato vigente. A cessão. se as partes celebram pactos aditivos.

o contrato não pode ser registrado para transferir a propriedade). acarretando a nulidade. 3. c) vício na formação (erro. Já se a lei exige a forma de instrumento público para a venda de imóvel (art. como se diz comumente. ou seja.: capacidade.indd 374 25/4/2011 15:19:05 . embora esteja vendendo coisa alheia. conforme o art. de modo imperfeito. como sabemos. emprestar. só cuida das duas últimas figuras e. Direito Civil . O Código Civil. 108). empréstimo e promessa de venda do imóvel serão válidos. ele não existe juridicamente). por algum modo. usar e até prometer vender o imóvel.Direito das Obrigacoes .021-381. podendo ser desfeitos. Ineficácia em sentido amplo Como vimos. Não quer dizer que não produza efeitos. Alguns efeitos são produzidos. abrange os casos de inexistência. nulidade e anulabilidade. ensejando a anulabilidade. podem ser declarados tais. b) falta de elemento essencial (ex. Outros não se produzem (por exemplo. Os nulos. Os contratos nulos são inválidos. inexiste o contrato. ainda assim. caso a parte legitimada peça a anulação. dolo etc. 171 do CC. Os contratos de locação. Ineficácia O termo “ineficácia” pode ser usado em sentido amplo e em sentido estrito. Veja-se o caso de um contrato de fiança de locação. como se o contrato fosse válido. objeto. Esta pode decorrer de: a) falta de requisito para a existência do negócio (ex.: ausência de declaração de vontade. violam norma imperativa e o contrato é nulo. examinados em juízo. no caso de assinatura falsa). Por outro lado. Quando o locador foi cobrar do fiador. tornando o contrato inexistente (se um dos contratantes não participou.374 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 2. forma). e as partes a fazem por instrumento particular. Em sentido amplo é a consequência de uma situação patológica. se forem. os anuláveis são válidos. pois a sua assinatura era falsa e não houve consenso. ou seja. Mas o adquirente que tiver a posse poderá alugar. este desconhecia o contrato e provou que a assinatura era falsa: não há fiança.). os chamados vícios da vontade e artifícios fraudulentos acarretam a anulação. não há contrato. logo. em certos casos.

desfazendo o negócio. Nesse sentido também é a disciplina no direito alemão. A lesão é o prejuízo decorrente de acentuado desequilíbrio das prestações. 171). Já o Código Civil de 2002 inclui a lesão e o estado de perigo (inciso II do art. Os anuláveis subsistem e não podem ser anulados sem pedido. Não obstante existir o defeito antes ou durante a celebração. de 26-12-1951. e diplomas posteriores). que se aproveita disso para obter vantagem excessiva. sofrido por uma das partes. O estado de perigo é a situação da parte que busca salvar-se de grave dano. aquele sem o qual não se teria celebrado o negócio. que contrata sob premente necessidade ou inexperiência. O Código Civil de 1916 enumerava apenas os fatores de erro. Também são passíveis de anulação os negócios nos quais se verificam os institutos da lesão e do estado de perigo.º. cabendo notar que.Direito das Obrigacoes . isto é. 4. e o subjetivo. coação. ambos cuidam da ignorância.indd 375 25/4/2011 15:19:05 . A coação é a ameaça iminente de dano sério à pessoa. que é a desproporção entre a prestação e a contraprestação. b. não se inclui a redibição entre os casos de anulação. à família ou aos bens do outro contratante. simulação e fraude como causa da anulação. que a denominou usura real no art. ineficácia e extinção dos contratos 375 mesmo sem pedido. A redibição é a faculdade concedida ao adquirente de coisa com defeito oculto. em situação semelhante à anulação está a redibição. Em todos esses casos. que é o dolo de aproveitamento da parte que obtém vantagem indevida.alteração. 1. O dolo é a maliciosa indução da outra parte em erro. conhecido da outra parte. Cabe observar que a lesão acolhida pelo Código Civil de 2002 foi introduzida no direito brasileiro pelas chamadas Leis de Economia Popular.521. mas só se considera o chamado erro essencial. Já sabemos que o erro é uma falsa apreciação da realidade. pois o BGB usa o termo “Rückgängigmachung” (ação de retroceder) para indicar o desfazimento do negócio (§ 462 do BGB). dolo. ao lado do erro e equiparando-o. Direito Civil . inclusive a última (Lei n. e do que se aproveita a outra parte. os vícios ou defeitos devem existir antes ou durante a celebração do contrato. que a torna imprópria ou lhe diminui o valor. para enjeitá-la.021-381. Por outro lado. Apontam-se dois elementos: o objetivo.

021-381. válido ou não. antes do registro. Esta pode ser imediata. O terceiro. que compra. de cujo preço nada deve. A fraude contra credores (inserida pelo Código Civil de 1916 entre os casos de anulação e mantida pelo Código Civil de 2002) torna o ato apenas inoponível aos terceiros que são lesados. atual consumada (doação revogada). É comum alguém comprar um imóvel e. se o comprador não registrou a compra.indd 376 25/4/2011 15:19:05 . Sabemos que a venda de imóvel não transfere a propriedade.Direito das Obrigacoes . Ora. vendendo a seguir o imóvel.. ex. contra todos ou contra algumas pessoas. não é dono. Pode classificar-se em: pendente. se este prova a simulação. quando falta uma formalidade acessória ao contrato (p. na venda disfarçada em doação. Ineficácia em sentido estrito É a situação transitória ou permanente. Direito Civil . está vendendo coisa alheia. eventual consumada (contrato em que ocorreu a condição resolutiva). se este prova a venda. ex. nos contratos que se fazem e se completam logo. a simulação de um contrato. A maioria sofre a extinção natural. Extinção dos contratos Os contratos são negócios temporários: surgem. mas não lhe interessa anular o negócio. Vejamos melhor o primeiro exemplo: venda de coisa alheia.. destarte adquire a propriedade. pode receber o que lhe cabe. assim. relativa. e as duas podem ser: atual pendente (contrato sob condição suspensiva). quando falta ao contrato um elemento integrativo (p. desenvolvem-se e extinguem-se. pelo cumprimento ou execução. o registro declaratório ou a autorização de um terceiro — o condômino). que pode ser ineficaz perante terceiro. autorização do pai ou tutor para um contrato feito por menor). Nada anormal.376 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS 4. vendê-lo a terceiro. manda registrar a compra anterior e a sua. para lesar o Fisco. É o caso da compra de um jornal. ou contrato simulado. que impede a execução de um negócio jurídico. mas apenas o registro (ato integrativo de um órgão público) tem essa função. Exemplos de contratos ineficazes: venda ou locação de coisa alheia (pode ser válida entre as partes. eventual pendente (contrato sob condição resolutiva). ou inoponibilidade. mas ineficaz ou inoponível ao dono). 5. de um café.

Os contratos extinguem-se também de modo anormal. a chamada condição resolutiva tácita. 127 e 128 do Código Civil. que pode ser: a) bilate- Arts. a inexecução involuntária ocorre nos chamados casos de força maior (ou caso fortuito). que impeça o cumprimento por uma das partes (imprevisão). O pacto de melhor comprador não foi regulado pelo atual Código Civil. Outros ainda têm a execução continuada. que é proteção legal ao lesado no contrato bilateral. rompem-se os contratos por direito potestativo das partes. Certos fatores permitem que se rompam os contratos retroativamente. ocorre culpa de uma das partes. como os chamados contratos de trato sucessivo. Nesses casos. como o pacto de melhor comprador2 e a retrovenda3. Fatores anteriores ou contemporâneos à celebração — São os que afetam a validade ou a eficácia do contrato. Os que infringem normas imperativas são nulos e podem ser declarados tais. por fatores diversos. extingue-se o contrato. exemplo comum é a locação de um imóvel. 505 a 508 do CC. a pedido da parte lesada (direito potestativo do lesado). 1 2 Direito Civil . Também por fatores sobrevindos. 3 Arts.021-381.alteração. Findo o prazo. d) pode ainda ser resolvido um contrato se provada a onerosidade excessiva. como a compra de colheita futura. nos contratos especiais. Tais fatores podem ser anteriores ou existir no momento da celebração e ser posteriores à celebração do contrato. Fatores posteriores à celebração. podendo haver o chamado inadimplemento absoluto (o objeto da obrigação não tem mais utilidade para o credor) ou a mora não purgada. salvo acordo das partes. ineficácia e extinção dos contratos 377 Outros podem ter a execução adiada. é a resilição. que pode ser voluntária ou não. os contratos são extintos por sentença. donde considerar como casos de resolução: a) a ocorrência de condição resolutiva expressa (ou pacto comissório)1. no primeiro caso. Igualmente os contratos anuláveis e ineficazes. de que falamos acima (arts.indd 377 25/4/2011 15:19:05 . 478 a 480 do CC). b) a cláusula resolutiva. Nesses casos diz-se que os contratos se resolvem.Direito das Obrigacoes . c) a inexecução.

ineficácia e extinção dos contratos. se houver arras penitenciais. nos casos legais. em que a parte retira a manifestação da vontade. temos a cessação: pode dar-se por fatores supervenientes independentes da vontade: a morte de uma das partes ou a sua incapacidade (p. 516 do CC). CONTRATOS Alteração acordo das partes ato judicial sentido amplo inexistência nulidade anulabilidade lesão estado de perigo redibição sentido estrito pendente (atual ou eventual) relativa (atual ou eventual) Ineficácia Direito Civil .indd 378 25/4/2011 15:19:05 . Apresentamos abaixo o quadro contendo os casos de alteração. sem fundamento (revogação livre) ou com fundamento legal (revogação vinculada). b) unilateral. pode haver revogação.: o quadro a ser pintado por um pintor famoso. como é o caso do contrato que confere o direito de preferência a uma das partes (se o interessado não responder no prazo contratual ou legal.021-381.Direito das Obrigacoes . ou distrato. que são: a chamada denúncia. é o caso da revogação da doação por ingratidão do donatário. Incluem-se ainda na resilição unilateral: a renúncia (caso do mandato) e o resgate (caso da hipoteca). que adoece). Certos contratos extinguem-se pela caducidade. num contrato apenas prometido. ex. como no mandato. pode haver arrependimento. se o contrato depende do fator confiança. caduca o direito de preempção — art. nos contratos personalíssimos.378 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS ral. que pode ser vazia (sem precisar os motivos) ou cheia (indicando os motivos previstos em lei). Finalmente.

2. ineficácia e extinção dos contratos cumprimento instantâneo diferido continuado fatores anteriores nulidade anulabilidade ineficácia condição resolutiva 379 tácita expressa cláusula resolutiva em contratos especiais fatores posteriores Extinção resolução voluntária inexecução involuntária – caso fortuito inad. v. M. ed. El negocio jurídico: (il negozio giuridico nel diritto privato italiano). 1981. 12. 1979. Orlando Gomes. absoluto mora imprevisão – onerosidade excessiva bilateral = distrato denúncia resilição unilateral vazia cheia arrependimento revogação (livre ou vinculada) renúncia resgate caducidade cessação (contratos personalíssimos) BIBLIOGRAFIA: Francisco Pereira de Bulhões Carvalho. Rio de Janeiro: Forense. Rio de Janeiro: Forense.. Direito das obrigações.021-381. Antunes Varela. Contratos. 2. Luigi Cariota Ferrara. Rio de Janeiro: Forense. ed.indd 379 25/4/2011 15:19:05 . 1956.Direito das Obrigacoes . Madrid: Aguiar.. 1981. Sistema de nulidades dos atos jurídicos.alteração. Direito Civil . J.

autorização de um terceiro como um condômino). surgem.380 DIREITO DAS OBRIGAÇÕES E TEORIA GERAL DOS CONTRATOS SÍNTESE 18 — ALTERAÇÃO. ou inoponibilidade. INEFICÁCIA E EXTINÇÃO DOS CONTRATOS 1. objetivos ou formais.021-381.Direito das Obrigacoes . diferida ou continuada). amplo Dá-se inexistência quando falta um requisito para o próprio nascimento do negócio. 25/4/2011 15:19:05 . ex. Ineficácia O termo “ineficácia” pode ser interpretado. Dá-se anulabilidade quando existe vício na formação do negócio. da lei (dirigismo contratual) ou de ato judicial (revisão). 2.indd 380 Os contratos são negócios temporários. como causa — transitória ou permanente — que impede a execução de um negócio jurídico. nulidade e anulabilidade. quando falta uma formalidade acessória ao contrato (p.. a) Por fatores anteriores ou contemporâneos à celebração: — defeitos subjetivos.. b) em sentido estrito. quando falta ao contrato um elemento integrativo estrito (p. Ineficácia em sentido Abrange os casos de inexistência. Extinção dos contratos Direito Civil . Ineficácia em sentido Pode classificar-se em: pendente. como consequência de uma situação patológica. 3. ex. A extinção natural se dá pelo cumprimento ou execução (instantânea. relativa. falta de autorização do tutor). Dá-se nulidade quando falta um elemento essencial. 5. a) em sentido amplo. desenvolvem-se e extinguem-se. Alteração É a modificação de um contrato concluído e vigente decorrente de acordo das partes (pactos aditivos ou cessão). 4.

Direito Civil . 3) por onerosidade excessiva (art. nos contratos de execução continuada e tempo indeterminado como prestação de serviço e fornecimento de mercadorias.alteração. c) por morte de uma das partes. por fatores alheios à vontade das partes (caso fortuito e força maior). depósito e comodato. 2) por revogação (do mandante) ou renúncia (do mandatário) nos contratos de mandato. — inclusão de cláusula de arrependimento.021-381. Resilição — é o rompimento do contrato por direito potestativo das partes. 2) inadimplemento involuntário. Resilição unilateral só incide em determinados contratos. comportamento culposo de uma das partes. 478). Resilição bilateral ou distrato: é a manifestação de vontade das partes contratantes de desfazer o acordo. ineficácia e extinção dos contratos 381 — inclusão de cláusula resolutiva expressa ou tácita. b) Por fatores posteriores à celebração: Resolução por: 1) inadimplemento voluntário.Direito das Obrigacoes .indd 381 25/4/2011 15:19:05 . 1) por denúncia. fato que acarreta a cessação dos contratos personalíssimos.