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“O ERMITÃO”

Plácido Francisco, o Ermitão, nasceu no lugar de Benfeitas, freguesia de Destriz, do
actual concelho de Oliveira de Frades, no longínquo ano de 1695.
Era o mais rebelde dos irmãos e por isso, sua mãe tinha muitas preocupações.
Plácido, era um excelente cavaleiro e no seu belo cavalo, percorria grandes
distâncias. Vagueava por montes e vales e nessas viagens, ia muitas vezes a casa de
seus tios, que viviam no lugar de Carvalho, freguesia de macieira de Alcôba.
Num desses passeios, ele e um amigo de fora, cometeram uma grande asneira.
Deixaram que os seus cavalos comessem e pisassem, milho que secava numa eira à
guarda de uma velhinha. Nem os gritos assustados e revoltados da venerável
senhora, que os acusava de atentarem contra o pão de Deus, detiveram os dois
malvados. Revoltada a velhinha, dirigiu-se ao Padre da freguesia, que perante tão
grave ofensa, os esconjurou.
Entretanto, Plácido havia-se apaixonado por uma sua prima, filha de seus tios do
Carvalho. Laura era uma moça de rara beleza e correspondeu ao amor do rapaz, mas
seus pais sabendo dos seus antecedentes e do facto de ter sido esconjurado, tudo
fizeram para dificultar o namoro.
Por amor de sua prima, Plácido emendou-se e o seu comportamento, era agora
exemplar, sendo considerado e estimado por toda a gente.
Perante esta situação, foi autorizado o casamento, pelos pais de sua noiva. No
entanto, duas situações o impediam: a Esconjura e o facto de Plácido ser primo
direito de Laura. Para ultrapassar estes problemas era necessário uma Bula do Papa,
que levantasse a Esconjura e permitisse o casamento entre parentes tão próximos.
Tudo foi tratado, junto das competentes autoridades eclesiásticas da região. No
entanto o processo arrastava-se no tempo e nada era decidido. Laura desesperava e
nesse desespero ficou gravemente doente. Não parecia já a mesma linda e jovial
rapariga de outros tempos.
Para tentar resolver a situação o jovem apaixonado, resolveu dirigir-se a Roma, para
conseguir directamente do Papa o documento que lhe permitiria o casamento com a
sua amada. Aí chegado, conseguiu facilmente a Bula, das mãos do Santo Padre Bento
XIV. Mas não acabaram aí os problemas e sofrimentos. Na viagem de regresso, o
barco onde viajava foi acometido de violentas e sucessivas tempestades, que quase o
destruíram e puseram constantemente em risco, a vida da tripulação e passageiros.
Plácido, angustiado, vendo a sua vida em risco e temendo não voltar a ver a sua
amada Laura, ajoelhou e pediu à Nossa Senhora do Livramento que o salvasse.
Prometeu que se tudo corresse bem, construiria uma capela em honra da Senhora
do Bom Despacho e do Livramento, num local elevado de onde se avistasse o lugar
onde desembarcasse.
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As sua preces foram ouvidas e finalmente, depois de muitos tormentos o barco deu
à costa na zona de Aveiro.
Logo que pode dirigiu-se ao encontro de sua amada. Qual não foi o seu espanto e
revolta, quando foi informado, que a sua amada havia falecido. È verdade, Laura não
havia resistido e não aguentara o sofrimento da doença e da ausência do seu amado.
O choque foi tão brutal, que se pensou que Plácido iria enlouquecer, ou mesmo
morrer, tamanha era a sua angustia. Mas como era jovem e forte fisicamente
recompôs-se e logo que pode tratou de cumprir a promessa que fizera.
Mandou construir uma capela, num monte, sobranceiro ao lugar de Belazeima da
actual freguesia de São João do Monte. Dali se avistam as águas da costa de Aveiro.
Consumido pelo desgosto, construiu na mesma ermida uma casa de habitação, assim
se tornando ermita: O Ermitão. Naquele local levou uma vida de privação e oração.
Deixou crescer longas barbas. Usava roupas humildes e alimentava-se do que a
terra lhe dava.
Entretanto os devotos das imediações, começaram a afluir aquele lugar de culto. Tal
era a afluência que o Ermitão, mandou construir instalações para os fieis. Mandou
também construir, para si um túmulo, numa única pedra de granito e pediu para
quando falecesse, ser sepultado na sua Ermida.
Passados anos a casa do Ermitão, foi consumida por um incêndio. Sem recursos para
a reconstruir, partiu em busca de donativos e quis o destino que viesse a falecer nos
Carvalhos do Porto, onde foi sepultado.
Em testamento deixou a capela e anexos a um seu tio, que anos volvidos a perderia
em tribunal, para a Junta da Paróquia de São João do Monte.
Ainda nos dia de hoje se continua a fazer-se a festa em honra da Senhora do
Livramento, uma tradição secular, que se realiza anualmente a 8 de Setembro. Hoje,
com bons acessos com bons acessos os fieis das redondezas, continuam a afluir à
Ermida. E a história do Plácido Francisco, o Ermitão, vai passando de geração e
conta-se ainda hoje ás lareiras nas longas noites de Inverno...

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