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Curso de Wicca - Mito e Magia © Jan Duarte 2003/2004

OS SABÁS
O calendário dos Sabás
Conforme dissemos, a Roda do Ano é marcada por oito pontos nodais, que
reúnem os equinócios e solstícios (auge das estações) e os pontos de transição, ou
início de cada uma das quatro estações do ano. Para uma compreensão melhor, vale
dizer que o momento que atualmente, no calendário civil, é considerado como o
início de cada uma das estações, corresponde realmente ao seu auge.
Exemplificando, quando nos reportamos ao início da primavera, comumente, por
volta do dia 20 de setembro, este é, na realidade, o equinócio de primavera, ou
seja, quando a estação está plenamente estabelecida.
Dessa maneira, teríamos a seguinte ordem para os sabás:
Data
02/02
± 21/03
01/05
± 21/06
01/08
± 21/09
31/10
± 21/12

Nome do Sabá
Lughnasad ou Lammas
Mabon
Sanhaim
Yule
Imbolc
Ostara
Beltane
Litha

Ocasião
início do outono
equinócio (auge) do outono
início do inverno
solstício (auge) do inverno
início da primavera
equinócio (auge) da primavera
início do verão
solstício (auge) do verão

Logo de início, preciso ressaltar que a ordem que descrevi acima leva em
consideração o suceder das estações no hemisfério sul. A maior parte dos livros de
Wicca que encontramos no mercado se baseia no hemisfério norte, uma vez que são
escritos por autores americanos ou ingleses, sendo que mesmo alguns autores
nacionais defendem que essa ordem deveria ser mantida, por uma questão de
"tradição". No entanto, isso é indefensável, se levarmos em consideração que o
principal objetivo dessas celebrações é estabelecer um vínculo, uma conexão com
os ciclos naturais. Obviamente, não faz nenhum sentido essa conexão com uma
natureza diferente da que nos cerca.
Conforme citamos no tópico anterior, os quatro festivais que marcam o
início real das estações, ou o momento de transição entre elas (Lughnasad,
Samhain, Imbolc e Beltane), provém especialmente da tradição celta insular, sendo
essencialmente festivais do fogo, ou festivais solares, relacionados principalmente
com a figura de deuses como Lugh e Belenus. Conforme nos narra Barry Cunliffe6,
no entanto, há relativamente poucas referências arqueológicas diretas a esses
festivais, o que impossibilita sabermos com maior segurança como eles se davam
originalmente. Na verdade, no Calendário de Coligny, datado do século I a.C. e
principal referência arqueológica à divisão celta do tempo, estão indicados apenas
os festivais de Beltane e Lughnasad, o que parece indicar que, nessa época, os
velhos costumes já estavam sendo abandonados na parte mais civilizada do mundo
celta. No entanto, por remeterem diretamente à tradição celta - e dessa forma

ter uma certa "ligação ancestral" com os fundadores - esses quatro festivais são
denominados, na Wicca, de Grandes Sabás.
Os quatro outros festivais (Mabon, Yule, Ostara e Litha) - os Pequenos
Sabás - parecem ser simplesmente um amálgama de diversas tradições de ritos
equinociais e solsticiais, com elementos tirados de ritos nórdicos e de outras
tribos bárbaras da antiga Europa, bem como de outras tradições não-européias,
como a própria Páscoa judia. Como já citamos, festivais marcando os equinócios e
solstícios são ritos cuja antiguidade é imensa, e são comuns a quase todas as
sociedades agrícolas ao redor do mundo.
Para sermos exatos, é difícil precisar em que momento começa a haver uma
sistematização desses festivais dentro da Wicca. No primeiro livro de Gardner,
"Bruxaria Hoje", há referências aos sabás mais ou menos nos moldes das "reuniões
de bruxas" descritas pela Inquisição, mas apenas uma breve alusão a uma cerimônia
específica, em verdade um Yule, ao qual o autor teria assistido7. Obras
posteriores, no entanto, como o "Oito Sabás Para Bruxas", do casal Farrar8, já
trazem uma imagem acabada do que seriam essas cerimônias, o que reflete
certamente a forma como as idéias de Gardner foram sendo consolidadas e outras
fontes folclóricas foram incorporadas à doutrina, ao longo das décadas de 1960 e
1970, principalmente.
De qualquer maneira, vale ressaltar que, embora dentro da Wicca haja uma
tentativa de resgate dos valores originais associados a essas cerimônias, elas não
são, de forma alguma, estranhas ao nosso próprio calendário civil ou mesmo àquelas
datas que, comumente, associamos à cristandade. Pelo contrário, tanto os sabás
quanto as festas religiosas que se integraram à tradição cultural do Ocidente
possuem uma base folclórica comum e significados semelhantes. O que ocorreu, na
realidade, foi uma incorporação ou ainda uma "releitura" sob a ótica cristã, de
datas, ritos e festividades "pagãs", como veremos a seguir.
Yule, o Solstício de Inverno
O sabá comemorado na noite mais longa do ano é o sabá do renascimento. É
interessante reparar que essa época do ano, para inúmeras religiões nascidas de
civilizações agrícolas, está associada ao nascimento de seu deus-solar, de alguma
forma. A verdade é que a associação do renascimento à noite mais longa do ano é
bastante natural, posto que ela é o ápice da estação fria e, a partir desse
momento, os dias começarão a alongar-se e a natureza progressivamente se
revitalizará.
No hemisfério norte, o solstício de inverno ocorre próximo ao Natal cristão.
Aliás, Janet e Stewart Farrar9 usam mesmo o termo natal, ao invés de Yule. Essa
data, em especial, foi uma das mais sincretizadas pela cristandade, já que podemos
afirmar que a "data de nascimento" de Jesus foi convencionada para se ajustar ao
solstício. Basicamente todos os símbolos associados ao Natal têm origem pagã e
refletem justamente aqueles elementos naturais que permanecem vivos ao longo do
inverno, ou que mantém os homens durante esse período. Assim, temos o pinheiro,
que se conserva verde durante o inverno, e as frutas secas, as nozes e outros
alimentos, bastante calóricos e de fácil conservação.
A celebração do Yule pode parecer dúbia, por se situar numa época do ano
que incita ao recolhimento, principalmente nos lugares de clima mais frio, e ser

também a alegre celebração do nascimento do Deus. No entanto, deve-se ter em
mente que ela é o início de uma fase de recuperação e crescimento, e é justamente
isso que se saúda: a chegada do auge do período de estagnação, numa concepção
cíclica, representa que o seu fim igualmente chegará.
Um antigo costume reza que as cinzas da fogueira acesa na noite do Yule
devem ser espalhadas pelos campos, o que nos traz justamente o espírito dessa
celebração: o calor, simbolizado pela fogueira, está prestes a retornar e, ao
espalhar as cinzas dessa fogueira, a idéia é que o sol venha fertilizar a terra, na
primavera vindoura. A troca de presentes parece trazer, igualmente, a idéia de
fortalecimento do espírito de coletividade, o compartilhar das reservas para a
superação da fase de privações10.
Imbolc
Como vimos anteriormente, os solstícios e equinócios marcam o auge das
estações, apesar de serem atualmente considerados como o início destas. Assim, o
sabá Imbolc comemora a chegada da primavera e o final do inverno. Temos ainda as
noites mais longas que os dias, mas o ciclo de aquecimento, a metade clara do ano,
já começou.
O Imbolc é um festival do fogo, representando o Deus que começa a
crescer e, com o seu calor, prepara a fertilidade da terra. Há relatos de que, entre
os celtas insulares, era uma data dedicada à deusa Brigid (posteriormente
cristianizada como Santa Brígida), divindade do fogo, comemorada com procissões
onde os participantes portavam tochas. Tradicionalmente, também, fazia-se nessa
época a limpeza ritual dos locais de culto, simbolizando que as reminiscências
negativas do ciclo anterior deviam ser apagadas, para que um novo ciclo de vida
possa se instalar.
Em relação a este sabá, várias considerações interessantes podem ser
feitas. Da deusa Brigid diz-se que teria nascido exatamente ao nascer do sol, e
uma grande torre de chamas teria se elevado aos céus do topo de sua cabeça. Dizse também que sua respiração traria nova vida para os mortos. Eis aqui claras
alusões ao retorno do sol, após o inverno. É interessante também notar que
aproximadamente nesta data os Astecas celebravam o seu ano-novo, onde vemos
mais uma alusão a um período de reinícios. A alegria pelo final do inverno também
transparecia nas Lupercalia romanas, que vieram depois dar origem ao Carnaval.
Comemorado no hemisfério norte a 2 de fevereiro, essa data ficou marcada
para a cristandade como a purificação de Maria - a idéia da limpeza ritual, que se
reflete no Brasil em festas como a da Lavagem do Bonfim, que ocorre
aproximadamente na mesma época - e como a apresentação de Jesus no Templo (a
idéia do deus-solar que deixa a infância), em mais uma tradução cristã dos ritos
pagãos. O cristianismo associou igualmente a figura de Iemanjá (cuja festa
acontece no Brasil em 2 de fevereiro) à Maria. Levando-se em conta que tanto
Iemanjá como a deusa celta Brigid eram associadas pelos povos que as cultuavam a
rios locais, esse é um interessante paralelo.

Ostara, o Equinócio de Primavera
O sabá do equinócio de primavera parece ter o seu nome derivado da Deusa
Eostre, deusa saxônica da fertilidade, cujos símbolos eram o ovo e o coelho. É
portanto, um festival de fertilidade, um festival de plantio, onde se pediam as
bênçãos para a germinação das sementes recém-plantadas.
Pela tradição da Roda do Ano, poderia-se dizer que em Ostara anula-se de
vez a imagem da Deusa como mãe e do Deus como filho. A face de mãe ou de anciã
da Deusa, ou ainda a de criança virginal, que prevaleciam até aqui, é substituída
pela face da donzela, pronta a assumir seus atributos sexuais, como a própria terra
a ser semeada. O Deus por sua vez, encontra-se aqui na figura do jovem vigoroso,
apesar de ainda não apresentar a plena força e maturidade. A duração igual de dias
e noites, alcançada neste período, é mais um aspecto a ser levado em conta, visto
que pode ser interpretado como o próprio equilíbrio da natureza se
restabelecendo. A partir daqui, o Sol e a Terra caminharão juntos, como casal
divino.
A festa cristã da Páscoa, que no hemisfério norte coincide
aproximadamente com o equinócio de primavera, traz em si símbolos que pertencem
tanto às tradições pagãs européias quanto à Páscoa judaica. O simbolismo do ovo e
do coelho foi assimilado das tradições pagãs e por isso, hoje, parecem deslocados
do ritual cristão, que nesse ponto se assemelha mais à imolação do cordeiro, típica
da Páscoa judaica. Convém lembrar, no entanto, que os cristãos celebram nesta
época a morte e a ressurreição de Jesus (o cordeiro de Deus), e que a lebre é um
antigo símbolo de ressurreição. Da mesma forma, diz-se que Jesus morreu como
Filho, tendo ressuscitado como Deus - o que tem um inegável paralelo com a
situação descrita para o Deus pagão, que nesta época deixa de ser o filho divino da
Deusa e torna-se seu futuro deus-consorte.
De qualquer forma, este sabá e o próximo são dos poucos que preservaram,
no hemisfério sul, comemorações independentes das datas estabelecidas no
hemisfério norte, o que mostra a força das tradições ligadas a eles. O equinócio de
primavera, aqui, acontece em setembro, e existem inúmeras comemorações no
Brasil nessa época que, de uma forma ou de outra, remetem a antigos ritos pagãos,
como o próprio costume de eleger-se nas escolas uma Rainha da Primavera.
Beltane
Beltane representa a transição entre a primavera e o verão e simboliza a
consumação da união sexual entre a Deusa e o Deus. Poderia-se mesmo dizer que o
verão, estação da frutificação, começa a manifestar-se aqui, para atingir o seu
ápice no próximo solstício. Dessa forma, toda a simbologia do Beltane tem,
inegavelmente, um cunho sexual. Enquanto em Ostara a fertilidade era apenas
palpável e desejada, aqui ela se transforma em ato, representando que o calor do
sol penetrou na terra para nela engendrar seus frutos (plantio).
Embora diversos costumes da celebração de Beltane tenham subsistido e
sido assimilados pelo ocidente cristão, as celebrações típicas de Beltane, que
ocorrem em 1º de maio no hemisfério norte, foram empurradas pela cristandade
para o mês seguinte, dando origem às festas juninas. As fogueiras de Beltane
subsistiram nessas festas, bem como o costume de pulá-las. Os Maypoles, em torno

dos quais dançava-se, tornaram-se os mastros onde colocam-se "bandeiras" dos
santos católicos, costume ainda popular no interior do Brasil, e em torno dos quais
dança-se a "quadrilha". Esta é, de forma inegável, uma mistura de dança circular
com elementos de dança de salão francesa, e há de se notar que o elemento central
sobre o qual as "quadrilhas" desenvolvem-se é o casamento. Vale dizer, ainda, que
este "casamento", na versão humorística das quadrilhas, não é um casamento
consensual, mas sim um casamento obrigado (e geralmente associado a uma
gravidez prematura): talvez aqui tenhamos uma lembrança dos ritos sexuais de
Beltane, e de uma posterior "moralização", associando o sexo obrigatoriamente ao
casamento.
A adivinhação era igualmente uma prática comum nesse festival pagão, e
isso manteve-se na tradição popular, pois é comum acreditar-se que as moças
solteiras, nas noites de festa dos santos "casamenteiros", poderão visionar seus
"futuros maridos". O método usado para isso, a visualização na água, é hoje
basicamente o mesmo daqueles tempos.
Talvez esse deslocamento da data para o mês seguinte tenha origem na
tradição celta que proibia casamentos no mês de maio, por ser este consagrado
unicamente ao casamento da Deusa e do Deus, ou ainda às uniões sexuais "sem
compromisso". Dessa forma, nada mais natural que o mês seguinte fosse dedicado
aos casamentos e, posteriormente, aos "santos casamenteiros". Por outro lado, a
celebração do casamento divino ficou nitidamente marcado, pois maio é hoje
considerado o Mês das Noivas pelos cristãos, bem como é o mês dedicado a Maria
(a esposa-divina).
Outro aspecto interessante a ser lembrado é que o 1º de maio é, hoje,
comemorado internacionalmente como o Dia do Trabalho. Lembrando-se que o
Beltane era um festival de plantio, a associação entre agricultura e trabalho é
bastante notável, visto ter sido esta atividade um dos primeiros trabalhos
organizados do homem, ou mesmo a atividade que introduziu, para a humanidade, a
noção de trabalho obrigatório e sistematizado.
Litha, o Solstício de Verão
O dia mais longo do ano marca o auge do poderio do sol. Em Litha, o Deus
atinge a maturidade e prenuncia o seu declínio, ao passo que a Deusa, grávida,
assume a face da futura mãe. Como no solstício de inverno, o solstício de verão
marca uma pausa, um momento de repouso entre as duas metades da Roda do Ano.
Aqui, o período não é o repouso forçado pelo inverno, mas sim o repouso prazeroso
do verão, o intervalo entre o plantio e a colheita. É de se notar que até hoje, se
considerarmos os calendários escolares, teremos férias justamente nesses dois
períodos (auge do inverno e auge do verão).
Segundo uma das tradições ligadas ao solstício de verão, esse seria o
momento em que o Rei do Carvalho, aspecto do Deus que reinou durante a primeira
metade do ano (a fase de crescimento, ou seja, do nascimento à maturidade), seria
derrotado e substituído pelo Rei do Azevinho, que governará a outra metade (da
maturidade à morte). Há aqui um interessante sincretismo apontado por Robert
Graves, conforme citado por Stewart Farrar11: ocorrendo sempre em torno de 20
de junho, no hemisfério norte, a data deste sabá praticamente coincide com o Dia
de São João Batista. É interessante notar que, segundo a mitologia cristã, João

Batista, o feroz pregador, foi substituído em sua missão por "aquele que veio
depois dele", ou seja, o sábio e manso Jesus. Eis aqui, portanto, uma assimilação ou
um notável paralelo na doutrina cristã da derrota do impetuoso Rei do Carvalho
pelo sábio Rei do Azevinho.
Lammas ou Lughnasad
O Lammas é o sabá que comemora a chegada das primeiras colheitas,
juntamente com a chegada do outono. Marca, portanto, a chegada dos primeiros
frutos da Mãe-Terra que alimentarão os homens, bem como a transição do DeusSol para o papel de protetor e provedor. Convém lembrar que o termo Lammas já é
um nome um tanto moderno (e mesmo cristianizado) para esse sabá, motivo pelo
qual pode-se dizer que ele foi antes absorvido do que anulado ou sincretizado,
mantendo-se vivo entre a cristandade na forma de inúmeros festivais de colheita,
em todo o mundo ocidental.
Entre os celtas insulares, porém, era conhecido e celebrado como
Lughnasadh. Este festival era dedicado ao deus Lugh, deus guerreiro associado ao
sol, que teria tido importância decisiva na vitória dos Thuatha De Dannan sobre os
Fomorianos (duas tribos míticas que haveriam povoado a Irlanda). Uma das lendas
associadas a Lugh conta que ele teria poupado a vida do chefe inimigo Bres, em
troca do segredo de arar a terra, semear e colher. Eis aqui, portanto, uma
referência direta à agricultura neste festival, mesmo em sua forma mais ancestral.
Aliás, pesquisadores independentes como Louis Charpentier e Juan G.
Atienza, no que pesem as críticas que podem ser feitas a um certo diletantismo de
seus trabalhos, apontam interessantes paralelos entre a figura de Lugh e
numerosas divindades ou "heróis" civilizadores, como, por exemplo, o egípcio Osíris
ou o grego Héracles12. Esses autores nos mostram toda uma série de similaridades
entre essas divindades solares e sugerem uma ligação destas a uma suposta raça
de "contrutores de megalitos" que teriam trazido as técnicas da agricultura à
Europa Ocidental. A levar-se em consideração tais hipóteses, não de todo
absurdas, teríamos uma forte razão para que este festival fosse um dos que
subsistiram mais fortemente nas tradições populares.
Uma outra tradição ligada ao Lammas era o costume de se atear fogo a uma
roda de madeira e fazê-la rolar colina abaixo. Essa prática representava a descida
do sol, o encurtamento progressivo dos dias, significando que o Deus entrava em
sua fase de decadência.
Mabon, o Equinócio de Outono
O Mabon é o festival da segunda colheita, ou ainda do encerramento da
colheita iniciada em Lammas. Aqui se colhiam os alimentos que garantiam o
sustento durante o inverno, bem como se sacrificavam aqueles animais domésticos
que não resistiriam à próxima estação, consumindo-se ou conservando-se a sua
carne. De uma forma geral, pode-se dizer que, apesar da aproximação do tempo de
privação, o Mabon seria o momento de maior fartura de todo o ano, estando as
colheitas completas e o alimento estocado. Dessa forma, a celebração do Mabon
resulta num agradecimento pelas dádivas proporcionadas pela Deusa e pelo Deus no
decorrer do ano.

No Mabon, temos novamente o equilíbrio entre o dia e a noite, significando
aqui que ambos os aspectos entram em sua fase final. O Deus encaminha-se para a
morte próxima, enquanto a Deusa assume seu aspecto de anciã, preparando-se para
a jornada no mundo interior, onde passará o inverno aguardando o nascimento de
seu filho. Apesar da origem do nome do sabá ser celta, o folclore do Mabon remete
à lenda grega de Perséfone, que conta que esta deusa passava metade do ano
proporcionando a fertilidade dos campos e outra metade do ano no Hades (mundo
interior) em companhia de seu marido. A época do equinócio de outono era
justamente o início do período do ano em que ela morava no submundo. Na Grécia,
nessa época, eram celebrados os Ritos de Elêusis, talvez o mais importante festival
religioso grego, que perdurou por mais de 2000 anos.
Na cristandade, essa data é dedicada ao arcanjo Miguel, considerado pelos
cristãos o vencedor de Lúcifer (o portador da luz). É interessante notar que uma
das lendas celtas associadas ao Mabon contava que, no equinócio de outono, o deus
Lugh (o sol, a luz) era derrotado por seu irmão gêmeo, o deus da escuridão Tanist.
De uma maneira ou de outra, surge aqui a idéia da noite sobrepondo-se ao dia.
Samhain
O Samhain costuma ser considerado pela Wicca, hoje, como o sabá mais
importante. Se formos buscar razões "tradicionais" para isso, dificilmente as
encontraremos, uma vez que, como já dissemos anteriormente, esse festival ao
menos era citado no calendário de Coligny, principal referência que temos à
contagem do ano celta. No entanto, se formos buscar tais razões no simbolismo
específico desta data, sua prevalência talvez se justifique.
O Samhain era o ano-novo celta. Num aspecto puramente prático, isto
significava que as colheitas estavam encerradas, os animais domésticos guardados
em seus abrigos de inverno, e as provisões estocadas. Um ciclo de vida estava
encerrado, portanto, e restava aguardar o início do novo ciclo. No aspecto místico,
no entanto, esta data é carregada de significações.
Apesar do Samhain ser celebrado como o final do ano, supõe-se que não se
comemorava o início de um novo ano até o próximo Yule, haja visto esse período
entre os dois sabás ser considerado como sendo um tempo fora do tempo, um
período de suspensão da vida, repleto de magia e de perigos. A relação com os
perigos do inverno, com o recolhimento exigido nessa estação nos países de clima
frio, com a duração das longas noites invernais, é patente. O próprio nome gaélico
significa, literalmente, "fim do verão", evocando o final dos dias de calor. Assim, o
momento de maior fartura relativa, em todo o ano, marcava igualmente o momento
de maior comedimento, já que os estoques deveriam durar até a próxima
primavera.
Na noite de Samhain, considerava-se que o véu entre os mundos estaria em
seu momento mais tênue, possibilitando a comunicação com os antepassados.
Lanternas eram acesas e colocadas nas janelas, para guiar os que já partiram até
suas antigas casas. As mesas eram postas com lugares extras para os
antepassados, e comida era ofertada a estes. A própria celebração do sabá tem a
característica de ser um misto de pesar pela morte e alegria pelo renascimento
vindouro - refletindo o que seria o momento da morte do Deus solar e do autoexílio da Deusa no submundo, aguardando o seu retorno.

De uma forma geral há, nesse período de inverno e nas celebrações que
surgiram a partir do tema, uma característica geral de inversão, ou de subversão
da realidade. Os mortos convivem com os vivos, a autoridade (simbolizada pelo
poder divino) está ausente, e assim por diante. No entanto, essas características,
que se encontram em todas as festividades (muitas das quais permanecem até
hoje) que abrangem o período de novembro à fevereiro, no hemisfério norte, são
por si só um assunto por demais extenso para tratarmos dele aqui13.
Nos atendo ao nosso ponto de interesse, essa dualidade do Samhain nos fala
justamente do tema central da Wicca, da revelação do mais profundo dos
mistérios. O momento da morte do Deus é o momento do conhecimento que ele
gera a si mesmo, pois é ele a criança que gesta no útero da Deusa e nascerá no
Yule. O simbolismo da perpetuação da vida, da cadeia circular que se auto-sustenta,
da natureza que é inextinguível pois está continuamente gerando a si própria, se
expressa aqui tanto no plano divino quanto no plano humano. A mensagem passada é:
somos eternos pois aqueles que partiram continuam vivos em sua descendência, e
poder-se-ia dizer que o encontro com nossos antepassados é o próprio encontro
com nossos filhos.
Ecos desse festival estão ainda bastante presentes no imaginário popular. O
Dia das Bruxas, o Halloween, tão tradicional nos países de língua inglesa, mostranos isso na forma de crianças fantasiadas de seres fantásticos - fantasmas - o que
seria uma forma distorcida de se interpretar os antepassados mortos e mesmo,
como dissemos acima, de representar as crianças como continuadoras da presença
dos que se foram. Além disso, a tradição cristã associou a essa data tanto o Dia de
Todos os Santos (01/10) quanto o Dia de Finados (02/10). Pode-se ver nas duas
celebrações cristãs o culto aos antepassados, tanto na forma de "santos" antepassados protetores - quanto na forma direta, ou seja: a reverência aos
mortos.
A celebração dos Sabás
Independentemente do caráter simbólico de cada uma dessas celebrações,
ou mesmo do fato que elas possam ser utilizadas como condutoras de um calendário
litúrgico, ou seja, como bases para estabelecimento de um culto religioso, há ainda
um aspecto que considero fundamental ao nos referirmos aos sabás da Wicca: seu
cunho congregatório - como cerimônias de participação coletiva - e, ainda, seu
caráter que poderíamos chamar de lúdico.
No Ocidente, acostumamo-nos a um formalismo religioso. É impossível negar
que qualquer um de nós é herdeiro do Cristianismo, já que toda a nossa civilização
se estabeleceu sobre bases cristãs. Mesmo aqueles raros que, entre nós, não
possuíam pais ou avós cristãos, certamente os tinham professando alguma forma
religiosa que já foi, ao longo dos últimos séculos, fortemente influenciada pela
prevalência civilizatória do cristianismo. Dessa maneira, acostumamo-nos a separar
o que é divino do que é profano, a separar o que é religião do que é o nosso dia-adia.
Nunca é demais dizer que essa não é, em absoluto, uma visão pagã da
religiosidade. A crença nos seus deuses, os ritos a eles dedicados, são partes tão
corriqueiras da vida de - digamos - um aborígene australiano, quanto qualquer outra
de suas atividades. O formalismo excessivo, manifestado através do "tempo para o

louvor", da contrição, da subserviência ou mesmo do "temor" à divindade são
essencialmente características cristãs.
Se quisermos considerar a Wicca como uma forma de religiosidade pagã, ou
ainda (o que seria mais apropriado) como uma forma de resgate de uma
religiosidade pagã, adaptada aos tempos atuais, a primeira coisa a fazer é se
libertar desse formalismo. Celebrar os sabás não é nem pode ser, de forma alguma,
uma prática que incorpora um clima de profunda introjeção e introspecção, para
louvar deuses todo-poderosos através de ritos pré-estabelecidos que demonstram
nossa submissão e adoração a esses deuses. Se fizermos isso, estaremos apenas
estabelecendo uma espécie de corruptela de uma missa católica ou de um culto
protestante.
A celebração de um sabá é, antes de mais nada, uma festa. É o momento de
congregação de uma determinada comunidade, em momentos específicos do ano,
para celebrar seus objetivos comuns e sua integração com a natureza. Na verdade,
é o momento de dizer: "estamos juntos, compartilhamos de determinados ideais e
estamos felizes por causa disso". Um sabá é uma reunião de amigos e, dessa forma,
é o momento de bebermos juntos, de comermos juntos, de trocarmos idéias sobre
temas que nos são comuns, de privarmos de uma interação que - como nas reuniões
de verdadeiros amigos - chega a ser licenciosa. É a manutenção do ciclo
comunitário, daquilo que transcende a existência individual.
Embora possa haver um tema, ou mesmo um momento explicitamente ritual
num sabá, isso quando muito pode ser um fio condutor para a celebração, mas nunca
o motivo desta. Nesse ponto, tenho visto muito mais sentido em festinhas de
Halloween em escolas do que em rituais seriíssimos de "bruxas" vestidas de preto e
altamente compenetradas, condoendo-se pela "morte do deus". Estas últimas
talvez estivessem mais bem ambientadas em alguma igreja, igualmente vestidas de
preto e com um véu sobre o rosto, lamuriando-se em alguma novena na sexta-feira
santa.
Por mais que possa soar estranho aos que buscam na Wicca uma "religião",
celebrar um sabá, ou participar de um, não é muito diferente de ir a uma festa
junina, ou a uma rave, ou a um baile de carnaval: afinal, todas essas manifestações
derivam, de uma forma ou de outra, daquelas comemorações que deram origem aos
chamados sabás. A diferença está na existência de um objetivo simbólico definido,
que deve estar presente - o porquê de celebrar - e da existência de um grupo
definido a ser reunido - o com quem celebrar. Satisfeitos estes dois pontos,
teremos as condições necessárias para um sabá, deixando para outras ocasiões
específicas aquelas reuniões que terão um objetivo "mágico" ou "ritual" mais
explícito.